Vídeos falsos alegam vacinação e medição de temperatura como forma de controle da população

Durante a pandemia da covid-19, circulam nas mídias sociais muitos conteúdos de pessoas que se dizem médicos e especialistas oferecendo recomendações de saúde e até mesmo desafiando os protocolos das organizações internacionais. Essas informações, quando sua veracidade não é verificada, podem provocar além de pânico, graves danos à saúde da população.

O Coletivo Bereia verificou dois vídeos que viralizaram em mídias sociais nos últimos dias, especialmente no WhatsApp. O primeiro mostra um suposto médico que fala contra a testagem e vacinação em massa, pois segundo ele são um projeto de redução da população mundial. O segundo vídeo trata da aferição de temperatura na testa, que supostamente atinge a chamada glândula pineal e pode prejudicar o funcionamento do corpo.

Vídeo 1: Vacinas são um plano de controle da população?

O primeiro vídeo circula na internet desde junho e exibe um idoso, não identificado, vestido como um médico, que se expressa em italiano e é legendado em inglês, portanto, foi produzido fora do Brasil. A versão que circula nas mídias sociais do Brasil tem áudio sobreposto com tradução simultânea. O homem lê um texto que, segundo ele, nenhum lugar da grande imprensa ousou exibir. Ele cita, então, alguns argumentos contrários à vacinação. Bereia checou, identidade do autor e a veracidade do vídeo e dos argumentos.

Confira o vídeo abaixo:

Segundo o jornal O Globo, o homem que aparece no vídeo é Roberto Petrella, médico ginecologista aposentado e militante antivacina. Ele foi suspenso de suas atividades na Itália em 2019 por ser contra a obrigatoriedade da vacina contra o papilomavírus.

O vídeo é repleto de teorias da conspiração, entre elas de que a covid-19 é um plano internacional de controle e redução da população em até 80%, que foi desenvolvido nas últimas décadas e lançado em 2020. Para ele, covid significa “Certificado de Identificação de Vacinação com Inteligência Artificial”. O autor do vídeo traz argumentos de teor pseudocientífico para afirmar que se deve evitar a testagem e vacinação em massa, afirmando que esse será o modo de controle da população, e que vacinas reduzem a imunidade.

Movimento Antivacina

A fala do médico aposentado faz eco com o movimento antivacina, listado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um dos dez maiores desafios de saúde para 2019, porque ameaça reverter o progresso já alcançado no combate a doenças evitáveis por vacinação, como o sarampo e a poliomielite.

Os motivos de cada pessoa evitar a vacinação variam desde falta de confiança e complacência até motivos religiosos e teorias da conspiração, como a de que vacinas são um método de controle populacional e teriam objetivo de fragilizar a imunidade e matar a população. 

Nada disso tem veracidade comprovada. A produção de vacinas passa por diversos testes rigorosos até que sejam realmente seguras para aplicação na população, e regularmente reavaliada. Segundo a Fiocruz, “Vacinas são preparações que, ao serem introduzidas no organismo, desencadeiam uma reação do sistema imunológico (semelhante à que ocorreria no caso de uma infecção por determinado agente patogênico), estimulando a formação de anticorpos e tornando o organismo imune a esse agente e às doenças por ele provocadas”. As vacinas são mais úteis, efetivas e tem maior custo-benefício para a saúde pública do que medicamentos, pois atuam na prevenção de doenças chegando até ao ponto da sua erradicação, caso grande parte da população esteja vacinada. 

A Fiocruz explica que a primeira vacina foi criada em 1796, pelo inglês Edward Jenner, que conseguiu imunizar um garoto de 8 anos contra varíola ao aplicar soro de varíola bovina. Desde então, a ciência teve diversos marcos importantes com a criação de vacinas que impediram a propagação de doenças graves, como vacina contra raiva, inventada em 1885 por Louis Pasteur, ou a contra a paralisia criada em 1960 por Albert Sabin. No Brasil, a vacinação começou no século XX, quando epidemias de febre amarela, varíola e outras doenças eram comuns devido à ausência de saneamento básico. O sanitarista Oswaldo Cruz comandou campanhas de vacinação obrigatória da população, que na época desconhecia os benefícios da medida. Desconfiando das intenções do governo e acreditando em uma possível medida de controle da população, a população protestou contra as vacinas, na que ficou conhecida como “Revolta da vacina”.

Campanhas de vacinação já foram capazes de prevenir até três milhões mortes por ano contra diversas doenças, incluindo sarampo, poliomielite e difteria. Vacinas não são um plano de controle ou extermínio da população, mas sim de redução da mortalidade.

A pesquisadora Luisa Massarani, da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), alerta para o perigo das fake news a respeito de vacinas, especialmente nas mídias sociais, pois podem auxiliar o crescimento do movimento antivacina. “O movimento antivacina pode estar atuando prioritariamente em grupos fechados no Facebook e no WhatsApp, e não em espaços públicos do Twitter e do Facebook. Nesse sentido, é necessário direcionar novas pesquisas que levem em consideração esses outros espaços midiáticos”, afirma. 

Em 2020 o Brasil apresentou o menor índice de vacinação dos últimos 20 anos, e metade das crianças não recebeu todas as vacinas que deveria, o que parece refletir os efeitos da desinformação sobre o tema que está em circulação. Segundo índices do Programa Nacional de Imunização, cobertura vacinal está em 51% para o calendário infantil. O ideal é que fique entre 90% e 95% para garantir proteção. Se o país continuar nesses índices, nem mesmo a vacina contra a Covid-19, que ainda está em teste, poderá ter o efeito desejado de imunização. 

O professor Túlio Batista Franco, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal Fluminense (UFF), aponta que fatores políticos podem ter interferido na baixa cobertura vacinal. “O governo federal desorganizou todo o equilíbrio técnico que havia no Ministério da Saúde. Houve duas alterações de ministros, e hoje há um ministro militar que não conhece dos aspectos da Saúde, do funcionamento da máquina do SUS, e que levou para as áreas técnicas militares que também não conhecem”, afirmou em entrevista para o G1.

Esta reflexão do professor Túlio Franco pode ser corroborada pelo episódio de 31 de agosto, quando, em resposta a uma apoiadora que o abordou em frente ao Palácio Alvorada, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que ninguém pode obrigar pessoas a tomarem vacina. A Secretaria de Comunicação da Presidência da República institucionalizou a afirmação de Bolsonaro por meio de um tuíte no dia seguinte.  

Bereia conclui que o vídeo do médico italiano aposentado propaga diversas mentiras sobre a vacinação, pois não é verdade que vacinas reduzem imunidade, ou que são um método de controle da população. Pelo contrário, vacinas podem salvar a população, de acordo com a orientação de órgãos oficiais de saúde nacionais e internacionais.. Covid-19 também não significa “Certificado de Identificação de Vacinação com Inteligência Artificial”, e sim é a abreviação de “Coronavirus Disease”, ou doença do coronavírus, conforme estabelecido pela OMS. O número 19 diz respeito ao ano em que o vírus começou a circular. O fato de o vídeo ocultar a identificação do médico, punido em seu país por promover mau uso de seu título profissional, já é fonte de desconfiança quanto à intencionalidade da promoção de tal material. Leitores e leitoras devem estar sempre atentos/as a isto quando submetidos a este tipo de conteúdo.

Vídeo 2: Aferição da temperatura e glândula pineal

O segundo vídeo que viralizou em mídias sociais nos últimos dias foi gravado no Brasil. Um homem está à porta de um estabelecimento e pede para a atendente que não meça a temperatura na testa (prática que vem sendo frequentemente adotada como medida preventiva com a flexibilização do isolamento social) para não atingir a glândula pineal, e sim no pulso. Ele, então, incentiva as pessoas a fazerem o mesmo. Na segunda parte do vídeo, um áudio orienta novamente que as pessoas peçam que a temperatura no pulso para não atingir a pineal. A tela exibe uma imagem de cérebro, a frase “é melhor prevenir do que remediar” e um endereço de e-mail para saber mais. 

Assista o vídeo abaixo:

A pineal – ou conarium – é uma pequena glândula, localizada no centro da cabeça de animais vertebrados, como o ser humano, que é responsável por produzir melatonina, hormônio responsável pela regulagem do sono e pelo controle biológico.

O vídeo citado circula pelas mídias sociais desde o mês passado e, apesar das afirmações feita pelo homem no vídeo, não há qualquer tipo de comprovação científica a respeito delas, pelo contrário, assim como os outros termômetros existentes, a ciência atesta a importância e necessidade dos medidores infravermelhos.

Conforme afirma o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, “os termômetros infravermelhos sem contato podem ser usados ​​para reduzir o risco de contaminação cruzada e minimizar o risco de propagação de doenças”. 

Em um tempo de pandemia, em que as organizações de saúde indicam o distanciamento social como forma à evitar a contaminação, os termômetros infravermelhos se mostram importantes ferramentas para que pessoas contaminadas não acessem determinados ambientes e contamine outras pessoas. 

Além disso, quando comparado a outros métodos de aferição de temperatura, o infravermelho é o mais preventivo, pois permite a leitura da temperatura a uma distância considerada, reduzindo o risco de contágio de quem faz o controle de entrada e saída dos espaços públicos.

Embora a gravação em vídeo tenha sido realizada em um estabelecimento e por uma pessoa que não se identifica, o vídeo completo tem parte com a fala de um homem não identificado, que, com seus argumentos técnicos, leva muitos a acreditarem que se trata de um biólogo, médico ou até um cientista.

Durante a explanação, este suposto especialista exibe uma tela com a imagem do cérebro humano e a localização da glândula pineal. Junto à imagem, há um endereço de e-mail para que pessoas saibam mais informações sobre o assunto. Por meio deste endereço, o Coletivo Bereia identificou o homem. Ele é Tarcísio Silva e se apresenta como psicoterapeuta, massoterapeuta clínico, personal trainer e especialista em estética e atividade física. No entanto, a única informação encontrada sobre sua formação foi um suposto número de cadastro no CRT-RJ. Oficialmente, o CRT é o Conselho Regional de Técnicos Industriais, que não tem relação com as formações informadas por Tarcísio. 

Entretanto, Bereia verificou que há uma outra organização que se autonomeia CRT: o Conselho de Auto Regulamentação da Terapia Holística. Sediada em São Paulo, a organização afirma desenvolver padrões técnicos, éticos e qualitativos, aos quais os Profissionais voluntariamente assumem o compromisso contratual de cumprimento. 

“O Profissional zeloso que espontaneamente se dispõe a seguir as boas práticas, firma o Termo de Compromisso e passa a identificar-se publicamente com a Marca Registrada, consagrada e respeitada pela sociedade, composta pelo Símbolo da Terapia Holística e sigla CRT, seguida de uma numeração exclusiva”, afirma o site do Conselho.

O Coletivo Bereia tentou contato com Tarcísio inúmeras vezes, mas não obteve resposta.

Este é mais um vídeo em que pessoas que se apresentam como especialistas que oferecem orientação em saúde não são identificadas. Como Bereia afirma acima, esta é uma fonte de desconfiança sobre as verdadeiras intenções da divulgação de tal conteúdo. 

Teorias da conspiração – Chip da besta

Os dois vídeos verificados nesta matéria, fazem coro com uma teoria da conspiração que não é nova em espaços cristãos, a de que determinadas tecnologias como cartão de crédito, código de barras, microchip ou vacina seriam o sinal da besta descrito no Apocalipse. 

Desde março circula no WhatsApp uma corrente dizendo que a vacina contra o coronavírus seria aplicada com um microchip para controlar a população mundial. Essas teorias da conspiração são falsas e podem ter graves riscos à saúde da população quando desincentivam a adesão às campanhas de vacinação.

Teoria da conspiração – QAnon

Além disso, outra teoria da conspiração que se mistura a esses temas é a QAnon. Esse movimento tem origem nos Estados Unidos e se destaca por fazer crer que existe uma luta satânica no mundo e que o presidente Donald Trump foi escolhido para ser um soldado “do bem” nesta guerra.

Esse grupo é visto como potencial ameaça terrorista pelo FBI, o serviço de inteligência estadunidense, e se hospeda em espaços não públicos da internet, o submundo digital, a conhecida deep web

Nas eleições dos EUA de 2016, o grupo veiculou uma notícia falsa dizendo que a candidata Hillary Clinton, que era de oposição a Trump, fazia parte parte de um esquema de pedofilia e tráfico infantil, e que tudo isso era promovido dentro de uma pizzaria em Washington, capital federal. Movido pela mentira e armado, um cidadão americano foi até o suposto local e o metralhou. Por sorte, ninguém ficou ferido e o caso ficou conhecido como pizzagate

No Brasil, o movimento foi adaptado por bolsonaristas que encontraram no presidente Jair Bolsonaro a figura desse soldado que luta contra a tal guerra satânica. Por aqui, o grupo segue as mesmas regras da versão estadunidense: ataques às instituições e disseminação de informações comprovadamente falsas.

Por isso, no começo deste mês de setembro, após uma reportagem do jornal O Estado de São Paulo, o Facebook excluiu diversas páginas ligadas ao movimento conspiratório no Brasil. Antes disso, o Twitter também já havia feito a derrubada de algumas páginas ligadas ao grupo e que violavam as regras das redes. 

A seção Areópago do Coletivo Bereia oferece aos leitores e leitoras um texto de reflexão sobre o avanço do QAnon e os malefícios de tal movimento.

Bereia conclui que os vídeos sobre vacinação como controle populacional, e aferição de temperatura como forma de cauterizar a glândula pineal, são falsos, baseados em teorias da conspiração com fundo religioso, mas que não se comprovam com dados científicos. Este tipo de conteúdo tem sido disseminado em mídias sociais para causar pânico, alimentar a relativização da gravidade da pandemia de coronavírus e diminuir o engajamento nas medidas preventivas, podendo causar prejuízos graves à população.

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Referências 

O Globo. https://oglobo.globo.com/fato-ou-fake/e-fake-que-covid-um-plano-internacional-de-controle-reducao-da-populacao-lancado-em-2020-24618580?versao=amp&utm_source=Twitter&utm_medium=Social&utm_campaign=O%20Globo&__twitter_impression=true&s=08. Acesso em 01 set  2020.

Veja. https://veja.abril.com.br/saude/oms-considera-movimento-anti-vacina-uma-ameaca-a-saude-mundial/. Acesso em 09 set 2020. 

G1. https://g1.globo.com/bemestar/vacina/noticia/2020/09/08/metade-das-criancas-brasileiras-nao-receberam-todas-as-vacinas-que-deveriam-em-2020-apontam-dados-do-ministerio-da-saude.ghtml. Acesso em 09 set 2020. 

Folha. https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/09/seguindo-padrao-atual-de-imunizacao-vacina-para-covid-19-pode-nao-funcionar-no-brasil.shtml. Acesso em 09 set 2020. 

Superinteressante. https://super.abril.com.br/tecnologia/codigo-de-barras-e-coisa-de-sata/. Acesso em 09 set 2020. 

Boatos.org. https://www.boatos.org/saude/vacina-novo-coronavirus-covid-19-microchip-colher-identidade-populacao.html. Acesso em 09 set 2020. 

Piauí. https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2020/08/14/verificamos-termometros-glandula-pineal/. Acesso em 09 set 2020. 

Brasil Escola. https://brasilescola.uol.com.br/biologia/principais-glandulas-endocrinas-seus-hormonios.htm. Acesso em 09 set 2020. 

Estado de São Paulo. https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,qanon-ganha-forca-no-brasil-com-teorias-conspiratorias-e-apoio-a-bolsonaro,70003418110. Acesso em 09 set 2020. 

Olhar Digital. https://olhardigital.com.br/noticia/apos-reportagem-facebook-derruba-paginas-do-movimento-qanon-no-brasil/106210. Acesso em 09 set 2020. 

Aos fatos. https://www.aosfatos.org/noticias/termometro-infravermelho-nao-causa-danos-glandula-pineal/. Acesso em 09 set 2020. 

Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos. https://www.fda.gov/medical-devices/general-hospital-devices-and-supplies/non-contact-infrared-thermometers. Acesso em 09 set 2020. 

CRT – Conselho de Auto Regulamentação da Terapia Holística. https://www.crt.org.br/. Acesso em 16 set 2020.  

Olhar digital. https://olhardigital.com.br/noticia/apos-reportagem-facebook-derruba-paginas-do-movimento-qanon-no-brasil/106210. Acesso em 09 set 2020. 

Fiocruz. https://portal.fiocruz.br/noticia/com-fake-news-discurso-antivacina-se-espalha-nas-redes. Acesso em 16 set 2020. 

Fiocruz. https://www.bio.fiocruz.br/index.php/br/noticias/603-a-importancia-da-vacinacao#:~:text=As%20vacinas%20s%C3%A3o%20mais%20%C3%BAteis,da%20poliomielite%20(paralisia%20infantil). Acesso em 16 set 2020. 

Deputada católica Bia Kicis continua a publicar desinformação sobre covid-19

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No dia 16 de agosto, a deputada federal católica Bia Kicis (PSL/DF) divulgou em sua página no Twitter uma postagem contendo relato do político evangélico Syllas Valadão (PSL/MG). Acompanhando a publicação em que Syllas Valadão descreve o falecimento de uma tia, de 84 anos, diagnosticada com Covid-19, apesar da causa da morte supostamente ter sido problemas pulmonares, a legenda do post de Bia Kicis salientou: “Esse tipo de relato preocupa. Conheço o Syllas Valadão, é uma pessoa real que conta a história da morte de sua tia de 84 anos, e as razões pelas quais muitas famílias acabam sendo induzidas a aceitarem um atestado de óbito de covid mesmo quando não corresponde de à realidade”.

Até a data de apuração da presente matéria, o tuíte contabilizava 93 comentários, 671 retuítes e 1.900 curtidas. De acordo com o relato compartilhado pela deputada federal, as prefeituras arcariam com o gasto de sepultamentos em casos de morte pela Covid-19, o que geraria interesse econômico das famílias das vítimas para constatação da doença em atestado de óbito.

Desde a instauração da pandemia no país, foram refutadas, por meio de agências de checagens, as alegações de que os estados e municípios recebem dinheiro do governo federal a cada notificação de morte por Covid-19. Nas mídias digitais, circularam desinformações segundo as quais os governadores estariam então superestimando o número de óbitos. À agência Aos Fatos, o Ministério da Saúde informou que não faz qualquer repasse em função do volume de mortes pelo novo coronavírus. Os recursos da União para estados e municípios são divididos com base em critérios como o tamanho da população e a complexidade do serviço prestado.

Ainda segundo o suposto relato de Syllas Valadão, postado por Bia Kicis, isso teria se tornado uma prática nos hospitais, e os próprios médicos se ofereceriam para colocar o Covid-19 como a causa da morte para que as famílias economizassem com o sepultamento.

O relato colocou em xeque os números evidenciados pela doença. “Então, não tivemos 100 mil mortes por covid no Brasil. Nem a metade disso. Tivemos sim, milhares de pessoas que economizaram no sepultamento. É o velho jeitinho brasileiro. O pobre ganha, o hospital ganha, a funerária ganha. É o cenário perfeito para formar uma quadrilha”, finaliza o depoimento.

Na mesma data, em seu perfil no Facebook, Syllas Valadão chegou a postar a arte contendo o relato, produzida por Bia Kicis.

Entenda a polêmica que envolve Bia Kicis e a disseminação de fake news

Em 22 de julho, Bia Kicis foi retirada da vice-liderança do governo na Câmara dos Deputados pelo presidente Jair Bolsonaro. A decisão foi publicada em edição extraordinária do Diário Oficial da União (DOU). De acordo com matéria publicada pelo jornal “O Tempo”, a decisão do presidente Jair Bolsonaro se deu após Kicis e outros seis deputados votarem contra a PEC que tornou o Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) permanente. Foram 499 a favor. Sobre a polêmica acerca do voto, a parlamentar afirmou à jornalista Natuza Nery, do canal GloboNews, que agiu conforme sua consciência.

“Eu votei de acordo com a minha consciência. Aliás, eu segui o exemplo do presidente Jair Bolsonaro que, quando foi parlamentar, só votou de acordo com a confiança dele. Para mim, ele é um modelo e continua sendo um modelo”.

Bia Kicis integra a ala bolsonarista mais próxima do Planalto. Com frequência, defende as pautas do governo e manifesta apoio ao presidente, seja em atos públicos, seja nas redes sociais digitais.

Ela faz parte do grupo de parlamentares incluídos no inquérito que apura a organização e financiamento de atos antidemocráticos, que está no Supremo Tribunal Federal (STF). Houve, até mesmo, quebra de sigilo bancário dela e de outros nove deputados. Bia Kicis também é alvo no inquérito das fake news, que investiga ataques contra ministros do Supremo, bem como informações falsas a respeito dos magistrados.

De acordo com o levantamento do Radar Aos Fatos – um monitor de desinformação em tempo real –, Bia Kicis é a terceira congressista que mais disseminou notícias falsas sobre o novo coronavírus, atrás apenas dos deputados Osmar Terra (MDB-RS) e Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

A análise considerou os 1.500 tuítes sobre o assunto com mais interações (retuítes e curtidas) publicados por membros da Câmara dos Deputados e do Senado (incluindo suplentes e licenciados) entre 20 de fevereiro e 8 de abril. No total, foram encontradas 159 postagens com desinformação veiculadas por 22 parlamentares e que somavam cerca de 1,58 milhão de interações no período.

Fonte: Aos Fatos

Em março, ela relatou em suas redes sociais digitais sobre um porteiro que morreu em um acidente, mas em seu atestado de óbito a causa da morte tinha sido atribuída à Covid-19. A notícia, que circulou em redes sociais digitais e em grupos de WhatsApp, junto com o suposto atestado de óbito, foi considerada como parcialmente verdadeira. Uma versão anterior desse texto informava incorretamente que ela era falsa: de fato, ele não morreu em decorrência do novo coronavírus, mas sua morte não se deu por causa de um acidente com um pneu. Segundo apontado por matéria do UOL, a Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco esclareceu que a certidão de óbito do paciente foi preenchida com erro.

Em 4 de abril, a deputada federal publicou um banner afirmando que a Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador de medicamentos nos Estados Unidos, liberou a hidroxicloroquina para ser usada em pacientes com coronavírus, chamado na peça de divulgação de “vírus chinês”.

Na ocasião, a Agência Lupa realizou a checagem e mostrou que o órgão aprovou apenas o uso emergencial de alguns produtos com sulfato de hidroxicloroquina e fosfato de cloroquina no tratamento de pacientes com Covid-19. A agência categorizou a postagem como falsa, uma vez que o FDA não havia emitido parecer final sobre o assunto: a autorização seria temporária e para situações específicas.

Fumo, obesidade e Covid-19

Segundo a explicação do Instituto Nacional de Câncer (Inca):

“O tabaco causa diferentes tipos de inflamação e prejudica os mecanismos de defesa do organismo. Por esses motivos, os fumantes têm maior risco de infecções por vírus, bactérias e fungos. Os fumantes são acometidos com maior frequência por infecções como sinusites, traqueobronquites, pneumonias e tuberculose. Além disso, o consumo do tabaco é a principal causa de câncer de pulmão e importante fator de risco para doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), entre outras doenças. Pelo exposto, podemos dizer que o tabagismo é fator de risco para a Covid-19. Devido a um possível comprometimento da capacidade pulmonar, o fumante possui mais chances de desenvolver sintomas graves da doença”.

Em seu Programa Nacional de Controle do Tabagismo, o Inca, em texto informativo atualizado no dia 26 de agosto de 2020, explica também:

“Os riscos do tabagismo também estão relacionados ao contágio, pois o ato de fumar proporciona constante contato dos dedos (e possivelmente de cigarros contaminados) com os lábios, aumentando a possibilidade da transmissão do vírus para a boca. O uso de produtos que envolvem compartilhamento de bocais para inalar a fumaça — como narguilé (cachimbo d´água) e dispositivos eletrônicos para fumar (cigarros eletrônicos e cigarros de tabaco aquecido) — pode facilitar a transmissão do coronavírus. Há ainda o tabagismo passivo (não fumantes que convivem com fumantes na mesma casa ou em outros ambientes), que aumenta o risco de infecções respiratórias agudas. Por esses motivos, a Organização Mundial da Saúde (OMS), o INCA e diversos órgãos da saúde, encorajam as pessoas a pararem de fumar para minimizar os riscos associados à pandemia de Covid-19, tanto para os fumantes quanto para as pessoas expostas ao fumo passivo”.

Além disso, pesquisadores franceses do Instituto Lille Pasteur examinaram 124 pessoas internadas em virtude do Sars-Cov-2 de 27 de fevereiro a 5 de abril de 2020.

“Os resultados mostraram que 47,6% eram obesas (ou seja, apresentavam índice de massa corporal, o IMC, maior que 30) e 28,2% tinham obesidade grave (IMC maior que 35). Os cientistas notaram ainda que 85 pacientes (68,6% do total) utilizaram ventilação mecânica, e a proporção foi maior entre os obesos graves (85,7%)”.

De olho nos dados, eles concluíram que a seriedade da infecção aumenta à medida que o IMC cresce. No entanto, os cientistas não se debruçaram sobre os motivos por trás dessa relação. Mas pesquisadores da Universidade de Nova York avançaram nessa questão e relataram que os casos mais graves eram aqueles com maior número de marcadores inflamatórios no corpo. Identificaram também que as lesões provocadas por essa inflamação exacerbada levaram à formação de coágulos, culminando em quadros de trombose e embolia pulmonar. Segundo o trabalho, a doença crônica com a associação mais forte a essa cascata de eventos é a obesidade.

Em entrevista ao Bereia, a médica Dolores Souza, do Rio de Janeiro, declarou que a idade avançada, o tabagismo e a obesidade podem prejudicar a saúde do ser humano, levando a maior predisposição a doenças que podem levar à morte, incluindo Covid-19.

Sendo assim, apesar de não ser possível afirmar que essa doença tenha sido a causa do óbito da tia de Syllas Valadão, a presença dessas comorbidades não exclui a possibilidade de Covid-19 como causa de óbito; mais ainda, elas aumentam o risco de mortalidade pelo coronavírus, uma vez que a infecção ocorre em um organismo com imunidade baixa.

Prefeituras e sepultamentos

Bereia não encontrou nenhuma informação a respeito de prefeituras arcarem com os custos de sepultamento de vítimas da Covid-19. O que existe é uma flexibilização para o registro do atestado de óbito. No município do Rio de Janeiro , por exemplo, o registro do atestado de óbito em cartório não precisa ser feito no mesmo dia do sepultamento Segundo matéria da Isto É, “A medida consta na resolução publicada no dia 27 de abril de 2020 pela Secretaria Municipal de Infraestrutura, Habitação e Conservação e é válida apenas durante o período da pandemia da Covid-19. O objetivo é dar mais agilidade ao serviço de enterro ou cremação”.

Syllas Valadão e fake news

Em 2018, Syllas Valadão, mineiro, primo do fundador da Igreja Batista da Lagoinha, concorreu ao cargo de deputado federal (PSL) por Minas Gerais, recebendo mais de três mil votos, mas não foi eleito. Em 2012 e em 2016, ele disputou uma vaga de vereador, pelo DEM, e recebeu 193 e 154 votos, respectivamente.

Fundador do Instituto Patriotas Direita Nacional, afirma em seu site que foi o primeiro a realizar uma palestra contra a ideologia de gênero no Brasil.

No dia 18 de julho de 2020, Valadão compartilhou uma notícia falsa no Facebook, afirmando que a vacina contra a Covid-19 era armadilha para a população.

Não foi a primeira notícia falsa que Syllas Valadão compartilhou em seu Facebook. No dia 27 de junho, também foi encontrada situação semelhante em uma de suas publicações:

O mesmo ocorreu no dia 13 de junho de 2020 com outra postagem:

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Diante do que foi apresentado, Bereia conclui que a postagem da deputada Bia Kicis, com o relato de Syllas Valadão, é enganosa, por indicar que uma pessoa idosa, tabagista e obesa não possa morrer por Covid-19. Outro engano identificado é o de afirmar que prefeituras estariam custeando os sepultamentos de vítimas do novo coronavírus. Assim, tanto Syllas Valadão quanto a deputada Bia Kicis apresentam informações para confundir o público.

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Foto de capa: Câmara dos Deputados/Reprodução

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Referências de checagem

Twitter de Bia Kicis. https://twitter.com/Biakicis/status/1295130687767486467/photo/1. Acesso em: 02 set 2020

Aos fatos. https://www.aosfatos.org/noticias/e-falso-que-estados-recebem-verba-federal-cada-obito-registrado-por-covid-19/. Acesso em: 24 ago 2020.

Cotado para Saúde, Osmar Terra é o congressista que mais publicou desinformação sobre Covid-19 no Twitter. https://www.aosfatos.org/noticias/cotado-para-saude-osmar-terra-e-congressista-que-mais-difundiu-desinformacao-sobre-coronavirus-no-twitter/ Acesso em: 2 set 2020

O Tempo, https://www.otempo.com.br/politica/afastada-da-vice-lideranca-por-bolsonaro-bia-kicis-diz-que-seguiu-consciencia-1.2363226 Acesso em: 24 ago 2020.

Agência Lupa,https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2020/04/13/verificamos-fda-liberou-hidroxicloroquina-todos-pacientes-covid-19/ Acesso em: 24 ago 2020.

UOL,https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/03/29/deputada-do-psl-divulga-fake-news-do-borracheiro-sobre-coronavirus.htm Acesso em: 24 ago 2020.

INCA (Instituto Nacional do Câncer),https://www.inca.gov.br/perguntas-frequentes/quem-fuma-faz-parte-do-grupo-de-risco-para-o-coronavirus-covid-19 Acesso em: 27 ago 2020.

INCA (Instituto Nacional do Câncer),https://www.inca.gov.br/programa-nacional-de-controle-do-tabagismo/tabagismo-e-coronavirus Acesso em: 27 ago 2020.

Veja Saúde, https://saude.abril.com.br/medicina/obesidade-fator-de-risco-covid-19-coronavirus/ Acesso em: 27 ago 2020.

IstoÉ Dinheiro, https://www.istoedinheiro.com.br/prefeitura-do-rio-de-janeiro-flexibiliza-registro-do-atestado-de-obito/ Acesso em: 27 ago 2020.

Biografia resumida de Syllas Valadão, http://syllasvaladao.com.br/biografia/ Acesso em: 25 ago 2020.

Facebook de Syllas Valadão, https://www.facebook.com/syllasvaladaoBH/posts/3054331494614507 Acesso em: 25 ago 2020.

Facebook de Syllas Valadão, https://www.facebook.com/syllasvaladaoBH/posts/2996020377112286 Acesso em: 25 ago 2020.

Facebook de Syllas Valadão, https://www.facebook.com/syllasvaladaoBH/posts/2958235044224153 Acesso em: 25 ago 2020.

Dentro de um inferno, algo do paraíso não se perdeu

Se olharmos os cenários mundiais, temos a impressão de que a dimensão de sombra, o impulso de morte e a porção demente tomou conta das mentes e dos corações de muitas pessoas. Particularmente em nosso país, criou-se até o “gabinete do ódio” onde grupos maus maquinam maldades, calúnias, distorções e todo tipo de perversidades contra seus adversários políticos, feitos inimigos que devem ser liquidados senão fisicamente, pelo menos simbolicamente.

Várias janelas do inferno se abriram e suas labaredas incineraram celebridades, alimentaram as fake news e destroçaram porções do Estado Democrático de Direito e em seu lugar introduziram um Estado sem lei e post-democrático e, no caso do Brasil, em sua cabeça, um chefe de Estado demente, cruel e sem compaixão.

Historiadores nos asseguram que há momentos na história de uma nação ou de um povo nos quais o dia-bólico (o que divide) inunda a consciência coletiva. Tenta afogar o sim-bólico (o que une) no intento de fazer regredir toda uma história aos tempos sombrios, já superados pela civilização. Então surgem ideologias de exclusão, mecanismos de ódio, conflitos e  genocídios de inteiras etnias. Conhecemos a Shoah, fruto do inferno criado pelo nazifascismo de extermínio em massa de judeus e de outros.

Na América Latina por ocasião da invasão/ocupação dos europeus, ocorreu talvez o maior genocídio da história. No México, em 1519 com a chegada de Hernán Cortez, viviam 22 milhões de aztecas; depois de 70 anos restaram somente 1,2 milhões. Foram católicos anticristãos que perpetraram extermínios em massa. Os gritos das vítimas clamam ao céu contra a “Destruição das “Índias” (Las Casas) e têm o direito de reclamar até o juízo final. Nunca se viu algum ato de reconhecimento deste genocídio por parte das potências colonialistas nem se dispuseram a fazer a mínima compensação aos sobreviventes destes massacres. São demasiados desumanos e arrogantes.

Mas dentro deste inferno dantesco, há algo do paraíso que nunca se perdeu e que constitui a permanente saudade do ser humano: saudade da situação paradisíaca na qual tudo se harmoniza, o ser humano trata humanamente outro ser humano, sente-se confraternizado com a natureza e filho e filha das estrelas, como dizem tantos indígenas. Em tempos maus como o nosso, vale ressuscitar esse sonho que dorme no profundo de nosso ser. Ele nos permite projetar outro tipo de mundo que, para além das diferenças, todos se reconhecem como irmãos e irmãs. E se entreajudam.

Narro um fato real que mostra a emergência desse pedaço de paraíso, ainda existente entre nós, lá onde a inimizade e a violência são diárias.

Essa não é uma história inventada mas real, recolhida por um jornalista espanhol do El País no dia sete de junho de 2001. Ocorreu no ontem, mas seu espírito vale para o hoje.

Mazen Julani era um farmacêutico palestino de 32 anos, pai de três filhos, que vivia na parte árabe de Jerusalém. No dia 5 de junho de 2001 quando estava tomando café com amigos num bar, foi vítima de um disparo fatal vindo de um colono judeu. Era a vingança contra o grupo palestinense Hamás que, quarenta e cinco minutos antes, havia matado inúmeras pessoas numa discoteca de Tel Aviv mediante um atentado feito por um homem bomba. O projétil entrou pelo pescoço de Mazen e lhe estourou o cérebro. Levado imediatamente para o hospital israelense Hadassa chegou já morto.

Mas eis que a porção adormecida do paraíso em nós foi acordada. O clã dos Julani decidiu aí mesmo nos corredores do hospital, entregar todos os órgãos do filho morto: o coração, o fígado, os rins e o pâncreas para transplantes a doentes judeus. O chefe do clã esclareceu em nome de todos que este gesto não possuía nenhuma conotação política. Era um gesto estritamente humanitário.

Segundo a religião muçulmana, dizia, todos formamos uma única família humana e somos todos iguais, israelenses e palestinos. Não importa em quem os órgãos vão ser transplantados. Essencial é que ajudem a salvar vidas. Por isso, arrematava ele: os órgãos serão destinados aos nossos vizinhos israelenses.

Com efeito, ocorreu um transplante. No israelense Yigal Cohen bate agora um coração palestino, o de Mazen Julani.

A mulher de Mazen teve dificuldades em explicar à filha de quatro anos a morte do pai. Ela apenas lhe dizia que o pai fora viajar para longe e que na volta lhe traria um belo presente.

Aos que estavam próximo, sussurrou com os olhos marejados de lágrimas: daqui a algum tempo eu e meus filhos iremos visitar a Ygal Cohen na parte israelense de Jerusalém. Ele vive com o coração de meu marido e do pai de meus filhos. Será grande consolo para nós, encostar o ouvido ao peito de Ygal e escutar o coração daquele que tanto nos amou e que, de certa forma, ainda está pulsando por nós.

Este gesto generoso demonstra que o paraíso não se perdeu totalmente. No meio de um ambiente altamente tenso e carregado de ódios, surgiu um Jardim do Éden, de vida e de reconciliação. A convicção de que somos todos membros da mesma família humana, alimenta atitudes de perdão e de incondicional solidariedade. No fundo, aqui irrompe o amor que confere sentido à vida e que move, segundo Dante Alignieri da Divina Comédia, o céu e todas as estrelas. E eu diria, também o coração da esposa de Mazen Julani e o nosso.

São tais atitudes que nos fazem crer que o ódio reinante do Brasil e no mundo, as fake news e as difamações não terão futuro. É joio que não será recolhido, como o trigo, no celeiro dos homens nem de Deus. Esse tsunami de ódio e seu promotor maior que desgoverna nosso país, irá descobrir, um dia em que só Deu sabe, as lágrimas, os lamentos e o luto que provocaram em milhares de seus compatriotas que por sua falta de amor e de cuidado para com os afetados pelo Covid-19 perderam a quem tanto amavam. Oxalá neles não esteja totalmente perdida a parcela do Jardim do Éden.

Foto: Pixabay/Reprodução

Senador evangélico e jornalista manipulam números oficiais para negar as mais de 100 mil mortes por covid-19

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O senador evangélico batista Arolde de Oliveira (DEM/RJ), proprietário do Grupo MK de Comunicação, publicou em seu perfil no Twitter, em 11 de agosto, informação falsa que procura negar a marca das mais de 100 mil mortes por coronavírus no Brasil.

O senador compara o número de óbitos no país de abril a julho de 2019, 437.433, com o número de óbitos no mesmo período em 2020, 491.336. Segundo ele, há um aumento de 53.903 mortes, o que não chegaria aos 100 mil. Ele diz que os inimigos do Brasil “comemoram” este número irreal de mortes, pelo que chama de “vírus chinês”, e estes deverão responder por crime de corrupção e de homicídio.

Estatísticas falsas e enganosas

Arolde de Oliveira se uniu a uma articulação que ocorre em mídias digitais, desde o início da pandemia, para negar os altos números de contaminados e mortos no Brasil, e retornou com força após anunciada a marca de 100 mil óbitos.

Em 2 de agosto, a jornalista e colunista do jornal Gazeta do Povo Cristina Graeml, publicou um vídeo intitulado “O pico da pandemia no Brasil”. Durante o vídeo, ela consulta o site do Registro Civil no Portal da Transparência, e afirma que os dados dos cartórios são inquestionáveis, pois a família precisa do atestado de óbito para o enterro ou cremação.

Segundo a jornalista, a maior incidência diária de morte por coronavírus teria sido em maio, especificamente no dia 25, quando foram registradas 997 mortes. Depois desse período, Cristina Graeml afirma que os números começaram a cair. Ela indica que entre junho e julho o número oscilou entre 700 e 900 óbitos.

A jornalista nota que, em 25 de julho, a queda começou a ser mais acentuada, com variação entre 600 e 400 registros. No dia 29 de julho foram alcançadas 304 mortes por dia. Ela diz não saber explicar o mistério sobre a diferença dos dados do Ministério da Saúde e dos cartórios. Ela ainda cita o levantamento feito pelo Registro Civil de óbitos por outras doenças, tais como AVC, infarto e insuficiências respiratórias, que teriam caído no primeiro semestre de 2020, em comparação com o primeiro semestre de 2019.

Ainda segundo o levantamento da jornalista, de março até julho de 2019, 90.52 pessoas morreram de pneumonia no Brasil (número similar às mortes registradas por covid-19). Nesse ano, no mesmo período, morreram 61 pessoas de pneumonia, 30% a menos do no ano anterior. Na opinião de Cristina Graeml, a diferença se dá porque essas 30 mil pessoas teriam contraído o coronavírus também, sendo esta considerada a causa da morte. Ao final, ela pergunta se os leitores preferem acreditar nos cartórios ou nos dados das secretarias estaduais e municipais de saúde. O vídeo tem 46 mil curtidas e 8,5 mil comentários. O vídeo circulou na semana que antecedeu o marco de 100 mil mortes por covid-19 no Brasil, 08 de agosto.

Em maio, período em a jornalista afirma ter sido o pico da pandemia, já havia circulado pelo WhatsApp uma informação de que os cartórios desmentem o número de óbitos das Secretarias de Saúde. O conteúdo foi verificado pela Agência Lupa, que concluiu ser falso. Mesmo assim, em agosto essa informação volta a circular em campanha de contestação do marco das 100 mil mortes.

Número oficial de óbitos

A publicação do senador Arolde de Oliveira não apresenta um elemento muito importante quando se tem a intenção de transmitir informação: a fonte. Ele não diz de onde provêm os números dos quais faz uso para negar a marca de mais de 100 mil mortes por coronavírus.

Ao que os números indicam, o senador pode ter feito uso dos números do Registro Civil no Portal da Transparência (plataforma que torna disponíveis os dados de registros de nascimentos, casamentos e óbitos dos cartórios brasileiros por ano, mês, região e estado). Mesma fonte do vídeo da jornalista Cristina Graeml.

O Coletivo Bereia consultou a plataforma em 13 de agosto e os números dos meses indicados pelo senador são:

Registros de óbitos no Brasil

Mortes registradas em cartório em cada mês (abril a julho)Número de óbitos 2019Número de óbitos 2020
Abril103.684112.469
Maio110.904129.448
Junho103.484128.918
Julho119.628121.841
Total437.700492.676
Diferença entre 2020 e 2019————–54.976
Fonte: Registro Civil • Dados obtidos em 13 de agosto de 2020, às 17h40.

É importante registrar que os dados oferecidos portal são oficiais e confiáveis, mas não são definitivos. No site há o esclarecimento de a família tem até 24 horas após um falecimento para registrar o óbito em cartório. Este, por sua vez, tem cinco dias para efetuar o registro do óbito e, ainda, mais oito dias para enviar a informação à Central Nacional de Informações do Registro Civil (CRC Nacional), que atualiza a base de dados. Esse processo, porém, pode demorar mais tempo, já que residentes de municípios com menos estrutura têm um prazo de até três meses para fazer o registro.

Nesse sentido, os dados são atualizados diariamente e ainda não estão consolidados. Um exemplo desta dinâmica, em que a plataforma constantemente altera os números, é a diferença dos que o senador Arolde de Oliveira utiliza em 11 de agosto e os que o Coletivo Bereia coletou, em 13 de agosto: 54.976 mortes a mais em 2020, em comparação com 2019. Houve um aumento em relação aos números utilizados pelo senador da Bancada Evangélica. Uma resposta simples, que consta no próprio Portal da Transparência, para o que a jornalista Cristina Graeml diz não saber explicar.

Segundo o projeto de verificação de notícias Aos Fatos, em matéria sobre o mesmo tema, no mês de maio, quando já circulava esta desinformação, mesmo desconsiderando os dados das duas semanas anteriores, a comparação também não deve ser feita, pois números antigos também são atualizados na plataforma. A informação vem de Marcelo Soares, jornalista e fundador da Lagom Data, consultoria de inteligência de dados. “Todo dia são incluídos muitos óbitos da última semana, vários óbitos do último mês e alguns óbitos de meses anteriores. Todo dia têm entrado óbitos de 2019 e dos primeiros meses de 2020”, afirmou Marcelo Soares.

Além disso, a postagem de Arolde de Oliveira omite que o próprio Registro Civil, ainda que em processos de atualização, apresentava, no dia 11 de agosto (dia da publicação do senador no Twitter) o número oficial de 95.250 óbitos registrados decorrentes da Covid-19. O número se aproxima do que foi oficialmente divulgado pelo Ministério da Saúde no mesmo dia 11 de agosto: 103.026. A mesma omissão é feita pela jornalista Cristina Graeml.

O senador Arolde de Oliveira e a jornalista da Gazeta do Povo se unem a grupos e indivíduos que atuam para negar a gravidade da pandemia no país, fazendo uso de manipulação de números oficiais. Nos últimos dias, depois que o Brasil bateu a marca de 100 mil mortos, houve intensificação destas postagens em mídias sociais. Esta prática de apoiadores e até de membros do governo federal vem ocorrendo durante todo o período da pandemia e já foi tratada pelo Coletivo Bereia.

O Brasil ultrapassou a marca de 105 mil mortos por Covid-19 na segunda semana de agosto e o número pode ser ainda maior, uma vez que a confirmação da causa dos óbitos demora muitos dias e há o problema da subnotificação. A própria agência de notícias do governo, a Agência Brasil, já noticiou sobre isto.

Incitação ao ódio e à xenofobia

Além de desinformativa, a postagem do senador evangélico ainda afirma que há pessoas, inimigas do Brasil, “comemorando” a tragédia de 100 mil mortos, sem indicar a quem se refere. O Coletivo Bereia pesquisou manifestações em mídias sociais de diferentes lideranças políticas, dentro e fora do Brasil, e não localizou qualquer tipo de celebração relativa ao número de mortes por Covid-19 ter alcançado taxa tão alta. Pelo contrário, foram verificadas diferentes expressões de pesar em nível individual e coletivo. Entre religiosos, inclusive, há a campanha Lamento 100 mil, assunto de matéria do Bereia. Este tipo de discurso a que o senador se dedica é fonte de incitação de ódio a quaisquer pessoas que fazem oposição ao governo federal

O senador ainda omite a expressão oficial para se referir à pandemia, coronavírus ou Covid-19, e escolhe o termo “vírus chinês”, reforçando a expressão difundida pelo presidente dos Estados Unidos Donald Trump a partir de março e já utilizada, publicamente, no Brasil pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro, sob muitas críticas. Utilizar a expressão “vírus chinês” pode ser um ato de apoio aos Estados Unidos na guerra comercial deste com a China, apesar de o país asiático ser, atualmente, o maior parceiro do Brasil neste campo. Pode ser, ainda, uma expressão de xenofobia, de racismo contra asiáticos, o que também já foi expresso por uma figura pública, o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub e tornou-se motivo de inquérito no Supremo Tribunal Federal. Lian Tai, filha de chineses que vieram para o Brasil ainda crianças, trata sobre o tema da xenofobia contra a China em artigo.

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O Coletivo Bereia classifica a postagem do senador Arolde de Oliveira e o vídeo da jornalista Cristina Graeml como falsos, pois manipulam números oficiais de cartórios para confundir e fazer seguidores/as desacreditarem da gravidade da covid-19 refletida nos próprios números do Ministério da Saúde que não podem ser ocultados. Bereia alerta ainda leitores e leitoras para os males sociais de conteúdos em mídias que incitam o ódio e a xenofobia.

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Referências

Gazeta do Povo, https://www.facebook.com/watch/?v=290979372126324. Acesso em 16 ago 2020.

Portal da Transparência – Registro Civil, https://transparencia.registrocivil.org.br/registros Acesso em 13 ago 2020

Lei nº 6.015, de 31 de dezembro de 1973, http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6015compilada.htm Acesso em 13 ago 2020

Aos Fatos, https://www.aosfatos.org/noticias/numero-de-registros-de-obitos-no-brasil-em-abril-nao-foi-menor-que-em-2019-e-2018/ Acesso em 14 ago 2020

Ministério da Saúde, Coronavírus Brasil, https://covid.saude.gov.br/ Acesso em 14 ago 2020

Agência Brasil, https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-07/medicos-veem-subnotificacao-em-casos-e-mortes-por-coronavirus. Acesso em 14 ago 2020

BBC Brasil, https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51963251 Acesso em 14 ago 2020

G1, https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/04/29/stf-abre-inquerito-para-investigar-weintraub-por-suposto-racismo-contra-chineses.ghtml Acesso 14 ago 2020

Opera Mundi, https://operamundi.uol.com.br/opiniao/63865/virus-chines-e-o-racismo-contra-asiaticos-no-brasil Acesso em 14 ago 2020

Cultos online e as fissuras do fundamentalismo religioso no Brasil

Por Delana Corazza, Angelica Tostes e Marco Fernandes¹

Conteúdo originalmente publicado no site www.thetricontinental.org

Confira a terceira parte do estudo “Cultos online e as fissuras do fundamentalismo religioso no Brasil”. Para ler a primeira parte, basta clicar aqui. Para ler a segunda parte, basta clicar aqui.

As possíveis fissuras do discurso fundamentalista

Entre os pentecostais alguns discursos são importantes para a construção do fundamentalismo, como a lógica do triunfalismo e da cura, que envolvem a teologia da prosperidade e a teologia do domínio. A primeira reforça o sentido individual da possibilidade cristã de felicidade e prosperidade terrena – e não mais somente no reino dos céus -, a partir da fé e de seu comprometimento com a igreja. Já a segunda aponta que, para a realização dessa felicidade, é necessário se inserir na batalha espiritual contra o Diabo, sendo este o responsável de todos os males da humanidade, e que os crentes devem resistir às suas tentações e pecados. Dessa forma, se algo de ruim acontece com o indivíduo, é atribuído algum pecado a essa pessoa, e entendido que o mal veio como fruto de desobediência a Deus. A partir dessa visão é gerada uma culpabilização do indivíduo frente às adversidades da vida. Ser evangélico se torna a única possibilidade de ação contra as forças demoníacas presentes na terra, a conversão é o único caminho para a salvação.

Com a pandemia do Covid-19, algumas bases teológicas fundamentalistas pentecostais parecem estremecer. O jovem batista Jackson Augusto acredita que “talvez muitas pessoas vão desacreditar de espiritualidades assim, esse discurso que promete coisas, que ninguém vai tocar em você, o discurso neopentecostal é além do financeiro. Para algumas experiências pode haver um enfraquecimento do discurso fundamentalista.”

O discurso do fundamentalismo religioso é ecoado na fala de um pastor pentecostal entrevistado: “Quem está confiante nesse momento? Quem confia em Deus, quem sabe que Deus está no controle de tudo. Nada acontece se não for a permissão de Deus. Então quer dizer, nós estamos em paz, eu estou em paz. Pessoas que não tem essa confiança em Deus, pessoas que não creem em Deus estão desesperadas, ‘e agora, o que vai ser da minha vida’, né?”. Em outras linhas, acaba minimizando as consequências da pandemia em relação à saúde pública e as maneiras que têm afetado a vida de milhões de trabalhadores e trabalhadoras nesse país, como se bastasse a confiança em Deus. No início da pandemia, Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), disse aos seus fiéis para não se preocuparem com o coronavírus e que isso era uma “uma tática de Satanás” – e da mídia – para causar pânico nas pessoas. A visão fundamentalista que enxerga um inimigo comum – o outro – a ser destruído por meio da fé e o papel da conversão como única forma de salvação encontram ecos na política negacionista de Bolsonaro. Para o pastor batista e professor de teologia, Kenner Terra, “não há nada mais perverso, desumano, monstruoso e anticristo do que tornar essa crise um instrumento de capitalização política. O discurso do Presidente, sempre preocupado em falar ao seu reduto eleitoral, já se mostrou desastroso e fragiliza as estratégias de combate à pandemia. Por outro lado, a relação acriticamente religiosa com o atual governo torna alguns pastores/as evangélicos/as recrutas de um projeto insano de poder.”

A visão teológica do “Deus no controle” e os líderes da Igreja como os profetas deste Deus imobiliza a ação social das igrejas ao combate às injustiças sociais e desigualdades, como relata o assembleiano Ronaldo que não teve sucesso ao implementar trabalhos sociais para além do assistencialismo na igreja: “Em relação ao coronavírus a nota é zero. A igreja não tem a filosofia de fazer esses trabalhos. Quando aparecem pessoas interessadas em fazer, como eu falei, quando vai para as esferas superiores eles não aprovam. […] As instituições religiosas têm um dono que não se chama Jesus, e sim aqueles que estão a frente desses trabalhos.”.

O poder que as lideranças das igrejas atribuem a si próprias é contraditório com as raízes do pentecostalismo que também estão ligadas à Reforma Protestante iniciada por Martinho Lutero. Visto que um importante ponto da Reforma é que não há mediação sacerdotal entre Deus e o ser humano, o único mediador seria Jesus. Fiéis e líderes resgataram em diversas falas a tradição protestante como forma de encontrar resistências em um momento em que pastores se colocam como a autoridade máxima da fé. Gedeon Alencar pontua que “na tradição protestante, em tese, nós anulamos todo e qualquer tipo de mediação porque a teologia de Lutero é do sacerdócio universal dos crentes, ou seja, todo crente é seu próprio sacerdote. E o culto, não tendo pastor ou tendo pastor, pode ser celebrado. O pastor Rosivaldo segue na mesma linha, ao dizer que “para nós pentecostais, desde Lutero, isso (o fechamento das igrejas) não é um problema. Porque você não precisa de sacerdote para falar com Deus, não precisa de um mediador. A Bíblia está aí, você tem ela traduzida na sua língua, então leia a Bíblia, ore a seu Deus e jejue”.

Entretanto, o uso da religião como manipulação ainda é um instrumento de controle sobre os corpos e subjetividades em alguns contextos. Por mais que os princípios da Reforma Protestante aponte caminhos para uma fé mais individualista e privada, no campo popular brasileiro a realidade é oposta. Para Ronaldo, da Assembleia de Deus Ministério Madureira, “as pessoas não foram preparadas para serem independentes. Foram preparadas para serem dependentes do ditador trazido para a igreja”. Um elemento que alguns desses líderes traziam, e ainda trazem, é a cura. Um exemplo é o vídeo publicado no Youtube em que o pastor da Igreja Mundial do Poder de Deus, Valdemiro Santiago, promete a cura do coronavírus com a compra de sementes de feijão abençoadas, pedindo o “propósito” de R$1 mil por elas. Após inúmeras críticas, a IMPD emitiu uma nota alegando que não vendiam sementes, nem prometiam a cura. No dia 11 de maio o MPF (Ministério Público Federal) solicitou que o YouTube retirasse do ar vídeos, e continua investigações em relação a “curas mágicas”.

Os esgarçamentos de tais discursos podem ser um ponto de fissura no fundamentalismo religioso. A fala de Ronaldo soa como um desabafo em relação a isso. “O coronavírus mostrou o quanto de farsa existe dentro da prática religiosa, o quanto de farsa que existe na liderança religiosa porque mostrou a hipocrisia de tudo isso. Alguns até tem programas de televisão mostrando curas, coisas impossíveis, e o coronavírus ninguém cura.” Claudio desabafa um ocorrido que aconteceu entre ele e sua companheira e o pastor da igreja:“A gente quase teve uma discussão com o pastor. Veio essa tese Bolsonarista de gripizinha, nós nos posicionamos, porque o vírus não tem partido, então você não pode ir pela cabeça de pastor, e o meu pastor não é Deus.” A jovem evangélica Alana aponta que “discursos religiosos também têm se enfraquecido. Quando eu digo que a cura vai chegar só com oração e essa cura não chega? Como dar respostas a isso? Se esses pastores têm tanto poder, por que eles não estão nas portas dos hospitais simplesmente curando as pessoas?”. Para Josélia Pereira, liderança da FLM, diz que tudo isso “mostrou que ninguém tem o poder de curar nada e nem ninguém, quem cura é Deus. ‘Nossa, fulano, ciclano, realizava tanta coisa’ e a gente tem casos dessas igrejas grandes de próprios pastores e obreiros que pegaram o vírus. Acho que as famílias, mais do que nunca, têm acordado.”

Claudio nos conta que muitos pastores estão deprimidos e traz uma importante reflexão obre como pode se fragilizar esse poder tão grande dado a essas lideranças. “Muitas vezes o pastor tem uma igreja e ali é a área de escape dele, entendeu? Ele é idolatrado, ele é o cara, ele é o pastorzão, então nesse momento que ele perde a igreja e tem que ficar com a família, ele fica meio que sem pé, né? A igreja é um escape, lá ele manda, lá ele tem um monte de gente, entre aspas, para puxar o saco, babar o ovo. Em casa, se ele não tem uma sustentação bíblica, um estudo, se não está realmente pautado na palavra, o cara se sente pior do que a gente que é membro. Ele é um Deus, né? Vaidade, se você não tiver uma base na Bíblia mesmo, aquilo que Deus fala: ‘a honra é Dele, a glória é Dele’, você se perde aí, você acha que é você. Todo mundo que foi exaltado ficou para trás. Aquele pastor que é humilde não sente muito, não”.   Encontrar as fissuras nos discursos e ações dos pastores que levantaram a bandeira fundamentalista é um desafio. Aprender a construir pontes de diálogo e de aproximação que não estão prontos, dado que muitas das afirmações do campo progressista não conseguem, ainda, dialogar com os fiéis, é uma tarefa fundamental nesse momento. Para Alana, essas novas ideias não serão agregadas dizendo “o quanto alienado vocês estão por seguirem esse pensamento”. Respeitar a fé em todas as dimensões da vida das pessoas é imprescindível para não aniquilarmos o diálogo. A ciência, a fé e a luta não são antagônica. O pastor Rosivaldo expressa sua fé dizendo que acredita em milagre. “Acredito que Jesus cura, em libertação. Agora, eu também acredito na ciência. O que Deus tinha que fazer para humanidade ele já fez, que foi enviar Jesus para salvar o mundo. Agora o problema da COVID-19 é um problema evidentemente humano, não vem meter Deus nesse negócio porque não tem nada a ver. É um problema biológico, não é uma força espiritual da maldade.”

Outra questão que devemos nos colocar como tarefa é a possibilidade de disputa da leitura da Bíblia. Avaliamos que é possível o questionamento sobre o papel do pastor e aquilo que ele tem pregado nos seus discursos dentro e fora da Igreja, e nos perguntamos: a Bíblia é o canal principal de disputa das narrativas? Com o culto online e o incentivo ao culto doméstico os fiéis tem passado mais tempo com a Bíblia. A leitura bíblica feita pelos membros das igrejas, sem a interpretação direta do pastor ou instituição, pode contribuir também para as rachaduras do discurso fundamentalista da fé. A relação dos evangélicos com a Bíblia é algo forte, fruto também da Reforma Protestante com o Sola Scriptura (Somente a Escritura), uma das cinco afirmações em latim que resumem os princípios da Reforma, sendo estas: Sola Fide (somente a fé), Sola Scriptura, Solus Christus (somemte Cristo), Sola Gratia (somente a graça) e Soli Deo Gloria (somente a Deus a glória). Entretanto, não se pode cair em um idealismo, visto que a própria Welita Caetano, liderança da FLM, pontua que “nós somos carregados de preconceitos, com essa carga preconceituosa você vai ler um versículo”. E acredita que “a Bíblia abre possibilidades para você pensar tanto de forma extremamente conservadora quanto extremamente libertária, depende muita da visão que você tem, dessa carga cultural que você tem, dos livros que você já leu, a partir disso você consegue fazer uma leitura”. Quando corpos diversos leem a Bíblia, muitas interpretações surgem. O que pode fragilizar, de certa maneira, discursos de interpretação única. Para a pastora metodista e teóloga Nancy Cardoso:

“Fundamentalismo é a interrupção da interpretação. O que o fundamentalismo pede para nós é que suspendamos a interpretação. No fundamentalismo ninguém precisa interpretar. O pastor diz, o político diz, e suspende a interpretação. No máximo você descreve, mas interpretar e, a partir da interpretação, fazer interpretação política, não. Então, o fundamentalismo pede para nós o congelamento do processo hermenêutico. Que as pessoas não pensem, que as pessoas não tenham autonomia, direito de decidir (com todos os problemas que o direito de decidir tem)”.

CARDOSO, 2015, p. 125.

Josélia, da FLM, explica sua relação com a Bíblia em tempos de pandemia: “a gente lê junto (com a família). A palavra de Deus diz em Oséias 46 que o povo sofre por falta de conhecimento. A Bíblia é um livro que cada um lê de um jeito e é isso que a gente tem procurado mostrar para os nossos irmãos, que nós somos ovelhas, a gente não é gado. A gente precisa ter o conhecimento da palavra, não dá para a gente fazer isso por que tal bispo, tal apóstolo, tal pastor falou. A gente tem que fazer por que a gente tem que ir lá, examinar a escritura e ver se é aquilo. Então quando a gente faz isso junto, por mais que tem interpretação diferente, a gente consegue entender ali na Bíblia, o que a palavra quer dizer. A gente tem procurado fazer juntos ou quando tem uma dúvida a gente procura estudar o que significa aquilo, o que a Bíblia quer falar em relação àquilo. Por que a Bíblia se renova todo dia, se você ler um salmo hoje, amanhã, quando passar alguns dias que você for ler, mediando o que você está passando, você vai interpretar ele de outra forma”. A trabalhadora doméstica da Zona Norte de São Paulo, Cleonice, que como apontamos não tem tido muita paciência para esse novo formato de culto, tem se conectado com Deus lendo a Bíblia diariamente para seus quatro filhos. Ela diz que sempre leu a Bíblia, mas agora colocou a leitura com as crianças como parte de sua rotina espiritual.

Pós-pandemia

Diante deste cenário, ainda é impossível prever o que será da igreja pós-pandemia. Talvez haja essa pulverização das figuras de autoridades e discursos únicos, ou uma reinvenção do fundamentalismo para abraçar ainda mais as comunidades que sofreram pela pandemia. Talvez a fé seja questionada por conta da falta de respostas para tanto sofrimento ou, ao contrário, com o aprofundamento da crise e com a saúde mental abalada, pode haver um aumento do número de pessoas procurando nas igrejas evangélicas as respostas para suas dores. O futuro é incerto.

As apostas sobre essa nova igreja estão sendo feitas, muitos fiéis acreditam que a vontade do encontro e do abraço fará com que a igreja seja fortalecida e que valorizem mais ainda este espaço tão importante no cotidiano dos fiéis. Para Edgar Aires, membro da IBAB, “perceber a necessidade de comunhão hoje, talvez provoque mais comunhão para frente”. Também há uma crença de que novos fiéis poderão adentrar o universo das igrejas porque, de alguma forma, foram tocados pelos cultos online assistidos por alguém da família convertido. Josélia acredita que haverá uma queda brusca na participação dos fiéis das grandes igrejas, pois muitos encontram o acolhimento e cuidado em outras pessoas. Para os que voltarem, ela acredita que estarão mais conscientes.

A forma que este retorno vai se consolidar é ainda um campo em disputa. O pesquisador Gedeon Alencar aposta em uma mudança radical do papel da fé na vida das pessoas: “quem sabe a nossa sonhada e desejada secularização tome algum fôlego. Primeiro porque esse grupo da discussão da fé, do milagre, do Deus que intervém, perdeu o discurso. (…) o problema não é só o dízimo, o problema é que essas pessoas perderam o discurso, perderam a razão de ser. Quem pregava um evangelho de solidariedade, continua pregando agora e, depois que passar a pandemia, vai continuar falando de solidariedade. Mas quem falava só de milagre e cura, vai falar o que agora?”. Welita, da FLM, também aposta em uma mudança radical do papel e poder da Igreja. “Eu acho que não vai existir mais igreja, assim como todas as estruturas estão falindo, a igreja também é esse instrumento que vai falir. Eu acredito que esse evangelho é tão vivo, tão vivo, que pastor nenhum pode aprisioná-lo. Igreja nenhuma pode dizer ‘esse é o meu evangelho’, o evangelho é do mundo e evangelho para mim, de Cristo, é qualquer pessoa que estenda a mão aos necessitados. Essas igrejas como são, irão ruir”.

Contra-narrativas: o mundo plural dos evangélicos

Nesse cenário, será preciso redirecionar os olhares do movimento social para a classe trabalhadora cristã, criando pontes e diálogos, disputando e cultivando juntos a solidariedade. “Quando somos atingidos nas nossas dimensões mais vulneráveis e que colocam em cheque aquilo que vinha sedimentando o nosso pensamento, somos obrigados a pensar sobre isso e repensar nossas práticas, por isso, considero que a pandemia pode ser um campo fértil de possibilidades para que a gente se reinvente como igreja, como comunidade, no cuidado uns com os outros”, reforça a cientista social Alana Barros. Para Welita, este é um momento de ruptura com essa religião, segundo ela, tão conectada ao sistema capitalista. Ela acredita que há uma brecha para que os cristãos percebam a religião como uma ligação com o divino e com as outras pessoas. “Eu sempre digo para eles (moradores das ocupações) que isso aqui (a ocupação) é religião de verdade, isso aqui é o cristianismo de verdade, de você estender a sua mão para outro em sua necessidade real”.

Essa ruptura e nova percepção da realidade não se constrói de um dia para outro. As lideranças de diversos movimentos populares que estão na linha de frente das ações têm construído – a partir da formação política com a sua base – olhares resistentes frente à realidade e, não raramente, tendo que lidar com concepções enraizadas no fundamentalismo religioso. No entanto, as possibilidades de transformações sempre estiveram em curso, como elabora Welita. “A base com que eu trabalho é evangélica, nas ocupações são todos evangélicos. Vai se construindo uma consciência política, dialogando com a fé a partir da educação popular, a partir das dificuldades do dia a dia que eles enfrentam, mais do que outros lugares, as ocupações são construídas com base na solidariedade. Eu vejo o discurso do Bolsonaro muito forte nas ruas, mas aqui dentro a gente tem um contra-discurso que funcionou sempre”.

Com a presença de uma pluralidade maior de cultos em meio digitais, o movimento progressista evangélico, embora sempre tenha feito uso dessas ferramentas, tem ganhado mais força. Na contramão dos discursos fundamentalistas, os movimentos religiosos progressistas, incluindo comunidades locais, têm mantido um esforço comum na disseminação de informações sobre prevenção da Covid-19. Diversas campanhas nas redes sociais têm sido feitas para que as pessoas não quebrem o isolamento e exercitem a fé dentro de suas casas. Uma das hashtags de destaque foi a #FéNãoImuniza, inspirada na fala do pastor batista Ed René Kivitz durante o culto transmitido pela Igreja Batista da Água Branca. Essa campanha foi impulsionada nas redes sociais pelas feministas evangélicas Camila Mantovani e Rachel Daniel, e trazia informações importantes para conciliar a fé e a prevenção.

O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs também lançou notas e informes às igrejas na campanha de prevenção à Covid-19. Outra campanha importante ocorreu no dia 5 de abril, contrapondo o jejum convocado por Bolsonaro com o apoio de pastores pentecostais e protestantes históricos. Essa campanha foi criada pelo Usina de Valores e o Instituto Vladimir Herzog, que propunha que cristãos e cristãs progressistas dissessem o significado do jejum, retomando assim a temática que pertence à fé cristã. A hashtag #OJejumQueEscolhi, que faz referência ao texto de Isaías 58, incentivou cristãos e cristãs de diversas denominações a manifestarem sua fé e luta baseadas na justiça e igualdade. Outra iniciativa muito importante nessa conjuntura foi a do coletivo Bereia. Formado por jornalistas evangélicos, o coletivo tem apurado todas as notícias de conteúdo duvidoso relacionadas ao governo federal e às lideranças cristãs com mandato político.

Provocados pelas ações desastrosas do governo Bolsonaro frente à pandemia, 35 organizações e movimentos evangélicos e centenas de fiéis de diversas denominações cobram respostas do governo federal frente à tragédia que está em curso, por meio do Manifesto com um nome bastante incisivo: “O governante sem discernimento aumenta as opressões – Um clamor de fé pelo Brasil”. O manifesto também traz a necessidade das igrejas garantirem o isolamento, mantendo os cultos presenciais suspensos e que a igreja só abra suas portas para as ações de solidariedade. “Nosso compromisso cotidiano em ações solidárias de apoio ao atendimento de necessidades específicas de pessoas e famílias que se encontram em situação de vulnerabilidade nesse contexto de grave crise. A fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta”.

Ações de solidariedade: Igrejas e Movimentos Populares

As ações de solidariedade que já estavam em curso foram fortalecidas e aprofundadas nesse período de pandemia – apesar de toda a dificuldade de manutenção de um trabalho de base em tempos de necessário isolamento social – e têm se tornado também espaços possíveis de formação e de reflexão junto à classe trabalhadora. O exemplo que Alana nos traz referente ao trabalho realizado na periferia de Maceió, é muito ilustrativo das potencialidades que a solidariedade encontra de reversão de narrativas, tão enraizadas em nossa sociedade. “Temos tido mutirões de distribuição de alimentos, e no dia 17 de abril, a gente recebeu uma doação de 5 toneladas de alimentos do MST (…) atendemos em torno de 800 famílias e foi um processo muito interessante, porque a gente contou com ajuda das pessoas da própria comunidade para organizar esse mutirão (…), queríamos aproveitar essa ação de solidariedade também como processo formativo, então, uma alternativa nossa foi convidar as pessoas da vizinhança que já nos conhecem para ajudar nesse processo de organização e distribuição de doações, coisa que muita gente não tinha experienciado nessa dimensão. Tinha várias visões distorcidas sobre o MST, aí chega o MST levando alimentos para a população que precisa demais. Descobrimos um potencial político e organizativo muito grande nessas pessoas da comunidade que lideraram o processo e nos ajudaram. Terminamos esse dia com um saldo muito positivo, não só porque muitas pessoas foram alimentadas, mas porque no processo eles passaram a enxergar ‘esse pessoal do MST’, como eles dizem, de uma maneira diferente”.

Parte significativa das pessoas da comunidade que participaram desse processo organizativo do mutirão e também das que receberam os alimentos é frequentadora das igrejas evangélicas da região. Se podemos afirmar que a fé não imuniza contra o vírus, também não imuniza contra o olhar crítico sobre a realidade. Josélia trabalha há anos nas bases dos movimentos sociais de luta por moradia e tem buscado dialogar principalmente com as mulheres evangélicas nos seus espaços de formação e possibilitado a reflexão política a partir da fé. Em tempos de pandemia, para além das campanhas de solidariedade e doações de alimentos, Josélia tem tentado acalmar as famílias que estão inseguras e muitas vezes se sentindo abandonadas, levando as palavras de Deus, “mas não a palavra de Deus alienada, mas a que faz a gente entender que precisamos nos cuidar (…). A fé e a inteligência andam juntas”.

As forças progressistas estão em marcha por meio da solidariedade e da batalha das ideias, presencialmente ou não. As fissuras nos discursos fundamentalistas religiosos, evidenciados nas ações contra a pandemia, criaram possibilidades para rupturas de uma espiritualidade conservadora. Nesse contexto, tornam-se cada vez mais férteis as disputas, no campo religioso, a partir dessas fissuras com os diversos setores de nossa classe. Os evangélicos, principalmente os neopentecostais, compõem parte significativa dos moradores das periferias das cidades, alvo principal do vírus em nosso país. É necessário reforçarmos que sem o diálogo com esse setor da sociedade não avançaremos de fato para uma transformação da realidade que vivemos. Que possamos mais do que nunca nos inspirarmos:

(…)Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.

Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

Para os que virão – Thiago de Melo

Referências  

CARDOSO, Nancy; TOSTES, Angelica. “Ideologia de Gênero” ou do Medo das Pequenas Diferenças & algum homoerotismo, 2018. Disponível em <https://www.academia.edu/42454842/_Ideologia_de_G%C3%AAnero_ou_do_Medo_das_Pequenas_Diferen%C3%A7as_and_algum_homoerotismo> Acesso em < 01 de jun de 2020 >

CARDOSO, Nancy. Teologia da mulher. Revista Encontros Teológicos, v. 30, n. 1, 2015. Cunha, Magali, et al. “Discurso religioso, hegemonia pentecostal e mídia no Brasil: a presença televisiva do Pastor RR Soares – um estudo de caso.” R e v i s t a C a m i n h a n d o v. 13, n . 21, p . 87 – 96, j a n – m a i 2 0 0 8 ____________. Três coisas que é preciso saber para se falar dos evangélicos no Brasil, 2020. Carta Capital: Diálogos da Fé. Disponível em < https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/tres-coisas-que-e-preciso-saber-para-se-falar-dos-evangelicos-no-brasil/ > Acesso em <29 de mai de 2020 > ________. Religião e Política: Uma visão protestante. In TOSTES, Angelica; RIBEIRO, Claudio. Religiões e Intervenção Política: Múltiplos Olhares. São Paulo: Ed. Recriar, 2020.

FERNANDES, Marco. Psicoterapia Popular do Espírito Santo: hipóteses sobre o sucesso pentecostal na periferia de metrópolis periféricas. Margem à Esquerda 29. Boitempo Editorial, 2017.

JUNG, Mo Sung. Sacrifícios e certezas num mundo de incertezas: neoliberalismo e milenarismo. In CRUZ, Eduardo R.; DA COSTA BRITO, Ênio José; TENÓRIO, Waldecy. Milenarismos e messianismos ontem e hoje. Edições Loyola, 2001.

KIFER, Camila. Jornalistas evangélicos criam site para checagem de notícias sobre lideranças cristãs, 2020, Itatiaia.Disponível em https://www.itatiaia.com.br/noticia/jornalista-evangelicos-criam-site-para-checag1

PACHECO, Ronilso. Quem são os evangélicos calvinistas que avançam silenciosamente no governo Bolsonaro, 2020, Intercept. Disponível em <https://theintercept.com/2020/02/04/evangelicos-calvinistas-bolsonaro/> Acesso em <01 de jun de 2020>

PARREIRAS, Carolina; MACEDO, Renata. Desigualdades digitais e educação: breves inquietações pandêmicas. Boletim N. 36 | Cientistas Sociais e o Coronavírus, 2020. Disponível em <http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2753-publicacoes/boletim-cientistas-sociais/2350-boletim-n-36 > Acesso em < 29 de mai de 2020>

VILHENA, Valéria Cristina. Uma igreja sem voz: análise de gênero da violência doméstica entre mulheres evangélicas. Fonte Editorial Ltda., 2011.

Organizações religiosas lançam ato de luto e memória pelas 100 mil vítimas de Covid-19 no Brasil

Neste sábado (08/08), às 16h, representantes de diferentes religiões realizarão um ato online de luto e memória pelas vítimas de Covid-19 no Brasil intitulado “Lamento 100 mil”. A iniciativa foi idealizada pelas entidades Conselho Nacional de Igrejas Cristãs e Instituto de Estudos da Religião, e pelas organizações Paz e Esperança Brasil e Religiões pela Paz Brasil. O ato será veiculado na página do CONIC no Facebook.

“A morte de 100 mil pessoas é uma dor imensurável que se impõe a 200 milhões de brasileiros. Tempo de profundo lamento, luto, bem como gestos afetivos de solidariedade e oração às famílias e amigos das vítimas”, explica Clemir Fernandes, secretário-executivo adjunto do Instituto de Estudos da Religião (ISER).

Além do ato online será lançado um site com mensagens de conforto e esperança de 100 lideranças religiosas e espirituais da sociedade, em forma de prece, oração ou reflexão. “É um momento de interrupção da indiferença. A fé não nos autoriza a ficarmos indiferentes diante do sofrimento humano”, declara a pastora Romi Bencke, secretaria Geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs.

Entre os dias 8 e 16 de agosto, também serão disponibilizadas no site mensagens de reflexões e os organizadores sugerem que sejam realizados atos e reuniões online sobre esse momento de mortes e sofrimento, especialmente no Brasil. Serão compartilhadas sugestões litúrgicas de diferentes confissões religiosas no site http://www.lamento100mil.com.br.

No dia 17 de agosto, é feito o convite para que lideranças civis, do executivo, judiciário ou legislativo, realizem cerimônias públicas laicas ou multirreligiosas, consagrando a data como o Dia Nacional do Luto e Memória pelas Vítimas da Covid-19 no Brasil.

Outra iniciativa é a divulgação da “Declaração Multirreligiosa para a Nação Brasileira em Meio à Crise da COVID-19”, assinada pela Religiões pela paz e que pode ser subscrita por outras organizações religiosas.

“Estamos em uma travessia coletiva que já conta 100 mil vítimas fatais no Brasil. Somente a empatia e a solidariedade serão capazes de nos conduzir à outra margem. Apenas desta maneira, chegaremos mais rápido e mais fortalecidos ao final desta pandemia”, conclui Michel Schlesinger, rabino da Congregação Israelita Paulista e representante da Confederação Israelita do Brasil para o diálogo inter-religioso.

Veja a íntegra do chamado para as ações “Lamento 100 mil. Luto e memória pelas vítimas de Covid-19 no Brasil. Afirmação e solidariedade a familiares e amigos” clicando no documento abaixo:

MPF aciona Valdemiro Santiago e Ministério da Saúde por anúncio de falsa cura da Covid-19. Bereia já verificou o caso

*Do MPF, com adaptações

Alerta de fake news removido do site do Ministério da Saúde (Foto: saude.gov.br)

O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública para que o pastor evangélico intitulado Apóstolo Valdemiro Santiago e a Igreja Mundial do Poder de Deus paguem pelo menos R$ 300 mil de indenização por danos sociais e morais coletivos. A cobrança se deve à divulgação de vídeos nos quais o religioso anunciava a venda de sementes de feijão com a falsa promessa de que, se cultivadas, elas curariam a covid-19. Valdemiro chegou a citar o caso de um fiel cuja recuperação plena da doença usando os feijões estaria comprovada por um atestado médico.

O Ministério da Saúde, representado pela União, também responderá à ação por ter removido de seu site uma mensagem de alerta contra os anúncios enganosos de Valdemiro. A publicação, feita após pedido do MPF, ficou no ar durante poucos dias, foi removida sem explicações e não voltou mais à página da pasta.

O MPF destaca que o líder da Igreja Mundial do Poder de Deus incorreu em prática abusiva da liberdade religiosa, ao colocar em riscos a saúde pública e induzir fiéis a comprarem um produto sem nenhuma eficácia comprovada. As sementes foram anunciadas em três vídeos veiculados no YouTube por preços que alcançavam R$ 1 mil cada. Segundo Valdemiro, a simples germinação dos grãos teria o poder de curar a covid-19.

“A dignidade da proteção constitucional que tutela a liberdade religiosa não constitui apanágio para a difusão de manifestações (ilegítimas) de lideranças religiosas que coloquem em risco a saúde pública, que explorem a boa-fé das pessoas, com a gravidade adicional de que isso ocorre com a reprovável cooptação de ganhos financeiros, pois ancorados em falsa premissa terapêutica, às custas da aflição e do sofrimento que atinge a sociedade”, ressaltou a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC-SP), órgão do MPF em São Paulo responsável pela ação.

Fake news

O MPF quer que a Justiça Federal conceda uma liminar obrigando o Ministério da Saúde a republicar a mensagem sobre a falsidade das informações anunciadas pelo pastor. O alerta para “fake news” havia sido veiculado no site da pasta em junho. Porém, um dia depois de o MPF divulgar que a requisição dos procuradores para a publicação havia sido acatada, o conteúdo tornou-se indisponível e desde então permanece fora do ar, apesar de solicitação para que a página fosse restabelecida. O MPF pede ainda que seja estabelecido ao Ministério da Saúde o dever de identificar quem foi a autoridade que determinou a remoção da mensagem.

“O Ministério da Saúde informa que não há, até o momento, produto, substância ou alimento que garante a prevenção ou tratamento do novo coronavírus. Conforme determinação do Ministério Público Federal, o Ministério da Saúde esclarece que é falso que o plantio de sementes de feijão, comercializadas pelo líder da Igreja Mundial do Poder de Deus, Valdemiro Santiago, leva à cura ou serve para prevenção da covid-19”, dizia o alerta removido do site. A mensagem era acompanhada de um selo que advertia: “Isto é Fake News! Esta notícia é falsa – Não divulgue”.

Por fim, a ação do MPF requer a concessão de uma ordem judicial dirigida à Google Brasil, responsável pelo YouTube. Os procuradores pedem que a empresa seja obrigada a preservar a íntegra dos vídeos (já removidos da plataforma, também a pedido do MPF ainda em junho) e forneça os dados cadastrais do usuário que os publicou. As informações serão utilizadas na instrução processual.

Em maio, tão logo o vídeo com o oferecimento das sementes foi divulgado, o Coletivo Bereia verificou a veracidade do conteúdo em matéria intitulada “É verdade que Apóstolo Valdemiro Santiago oferece semente que cura Covid-19”.

O número da ação do MPF é 5014383-08.2020.4.03.6100 e pode ser vista na íntegra aqui.

Assembleia de Deus perde muitos líderes no Mato Grosso mortos pela Covid-19

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Uma publicação no Twitter, em 22 de julho, motivou mais uma checagem do Coletivo Bereia: “Aqui em Mato Grosso morreram toda a alta cúpula da Igreja Assembleia de Deus. Morreram 5 pastores que comandavam a igreja em todo estado. Todos morreram por coronavírus”.

Com 5,2 mil curtidas, 414 comentários e 1,1 mil retuítes, até 27 de julho, quando esta matéria foi redigida, a mensagem gerou embates e divergiu as opiniões dos usuários engajados na postagem. Alguns solicitaram ao autor que inserisse o link dos sites e notas oficiais que confirmassem as mortes (o que foi feito), outros questionaram o número de óbitos, enquanto alguns atribuíram os falecimentos ao fato de que muitas igrejas evangélicas boicotaram as medidas de prevenção e decretos de restrições impostas ao estado desde o início da pandemia no país.

Segundo matéria publicada no portal UOL, a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) não informou o número exato de mortes, mas teria dito que entre dezenas de líderes mortos estariam pessoas de idades variadas. A instituição é a maior organização de igrejas evangélicas, com mais de 100 mil pastores associados e cerca de 25 milhões de fiéis.

Ao site Hipernotícias, do Mato Grosso, o secretário-geral da Convenção dos Ministros das Assembleias de Deus naquele estado, Pastor Juvanir de Oliveira, informou, em 21 de julho, que seis líderes da igreja faleceram no estado com a Covid-19, confirmando, com um registro a mais, a postagem do Twitter que motivou esta matéria do Coletivo Bereia. O Pastor Juvanir de Oliveira citou que os mortos foram: o presidente da Convenção Local, Pastor Sebastião Rodrigues de Souza, 89 anos, o filho dele, vice-presidente da Convenção, Pastor Rubens Siro de Souza, 68 anos, os Pastores José Geraldo dos Anjos, 76 anos, Jânio Corrêa Leite, 66 anos, Pedro Ezídio (idade não identificada), e Reginaldo Pereira de Jesus, 53 anos.

O Pastor Sebastião Rodrigues de Souza faleceu cinco dias depois do filho, Rubens Siro de Souza, morto pela Covid-19, em 3 de julho. O Pastor Sebastião Souza era também vice-presidente da CGADB desde 1995. Souza ficou reconhecido por ter construído em Cuiabá um dos maiores templos evangélicos do país, com capacidade para 20 mil fiéis.

Na ocasião, o presidente Jair Bolsonaro publicou uma nota de pesar pela morte de Souza, mas sem citar a Covid-19. A mensagem, originalmente disponibilizada no perfil da rede social do Planalto foi repostada no perfil do Instagram da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. O texto diz:

No Salmo 116:15 lemos que “Preciosa é à vista do SENHOR a morte dos seus santos”. Hoje, mais uma vez, isto ocorreu com a partida para o Senhor do saudoso pastor Sebastião Rodrigues, da Igreja Assembleia de Deus. A terra perde valoroso obreiro, mas o Senhor abraça um filho que venceu!
Meus sinceros sentimentos a toda a comunidade cristã e à família do querido pastor Sebastião! Oremos pelo conforto do Senhor na vida dos familiares!
Em Cristo,
Jair Messias Bolsonaro
Presidente da República Federativa do Brasil.

Nota de pesar pela morte de pastor com Covid-19 em Mato Grosso

Caso destacado foi também o do pastor José Geraldo dos Anjos, 76 anos, que faleceu no dia 21 de julho, após uma semana internado no hospital Santa Rita, no município de Várzea Grande, no Mato Grosso. Ele liderava a Assembleia de Deus, no Parque do Lago, no município varzea-grandense, onde estava há 36 anos. Segundo matéria do G1 publicada no dia da morte, ele era casado e deixou filhos, netos e bisnetos.


Foto: Facebook/Reprodução

No dia seguinte à declaração do secretário-geral das Assembleias de Deus no Mato Grosso, Juvanir de Oliveira, houve a sétima morte de liderança da Assembleia de Deus no mesmo mês. Ela se deu em Nobres (MT), a 151 km de Cuiabá. A vítima foi o pastor José Damasceno de Castro, 60 anos. Ele era casado e tinha quatro filhos.


Foto: Instagram | Reprodução

A Secretaria de Estado de Saúde (SES) do Mato Grosso registrou, até a tarde de 27 de julho, 45.155 casos confirmados da Covid-19 no estado, sendo registrados 1.664 óbitos em razão da pandemia. Havia ocorrido 48 mortes e 1.518 novas confirmações nas 24 horas anteriores ao relatório. Dentre os dez municípios com maior número de casos de Covid-19, estão Cuiabá (9.940), Várzea Grande (3.466), Rondonópolis (2.949), Lucas do Rio Verde (2.560), Tangará da Serra (1.899), Sorriso (1.775), Primavera do Leste (1.652), Sinop (1.627), Nova Mutum (1.257) e Pontes e Lacerda (875). Os pastores das Assembleias de Deus que perderam a vida pela doença eram da capital Cuiabá, de Várzea Grande, Tangará da Serra, Barão de Melgaço e Nobres.

O Coletivo Bereia contatou a sede da Convenção dos Ministros da Assembleia de Deus no Mato Grosso. A Convenção preferiu destacar o falecimento do Pastor Presidente, Sebastião Souza, pois era liderança da igreja no estado e na Convenção Geral e foi a perda mais repercutida de líderes das Assembleia de Deus por Covid-19.

A rejeição à gravidade da pandemia por parte de evangélicos

Desde o início daquilo que se transformaria em uma pandemia mundial, em consequência do novo coronavírus, grupos evangélicos têm colaborado a diminuir, deturpar e enganar a população através de inúmeras fake news sobre a pandemia. O Coletivo Bereia tem trabalhado intensamente com verificações dos sites de notícias religiosos e com perfis de lideranças vinculadas às igrejas, além de atender a diversos pedidos de checagem de notícias encaminhados por leitores/as.

Pastores evangélicos já prometeram unção imunizadora contra o coronavírus e já houve casos líderes políticos e religiosos minimizando e espiritualizando ação do coronavírus por meio das quais, matérias com títulos como “Goiânia é protegida por Deus e não será atingida pelo coronavírus”, eram propagadas pela própria prefeitura de Goiânia.

A cantora gospel Fabiana Anastácio publicou: “o coronavírus não atingirá a sua casa, porque quem guarda a sua casa é Jesus”. Infelizmente, Anastácio acabou falecendo por complicações devidas ao novo vírus. Houve desinformação atrelada à cantora, sobre ela ter revisto sua posição enquanto estava internada. O Coletivo Bereia apurou e explicou a verdadeira situação.

Em vários conteúdos desinformativos disseminados por grupos religiosos havia interesse em mostrar que as estatísticas eram falseadas, como a de que um borracheiro tinha morrido em um acidente com pneu, mas foi diagnosticado com Covid-19. Ainda nesse sentido, conteúdos falsos foram criados afirmando que a Polícia Federal e o Ministério da Saúde estariam auditando o número de óbitos por Covid-19 e, como consequência dessas ações, o número de óbitos teria caído.

Bereia também identificou conteúdo enganoso que dizia que “o Sol forte poderia matar coronavírus em 34 minutos”.

Toda esta desinformação foi produzida e compartilhada por grupos evangélicos, inclusive lideranças. O Coletivo Bereia produziu matéria para explicitar de onde partem as notícias falsas que circulam em grupos religiosos. Neste levantamento tornou-se nítida uma certa resistência por parte destes grupos religiosos, não apenas em admitir a gravidade da pandemia, mas, também, em seguir os protocolos internacionais de prevenção. Além do dogmatismo religioso, há o aspecto político que motiva essa postura. Muitos desses grupos e líderes apoiam irrestritamente o governo federal na liderança do Presidente Jair Bolsonaro e terminam por seguir sua postura relativizadora da doença e negadora das orientações da Organização Mundial de Saúde e de outras autoridades da área no país.

A situação entre católicos romanos

O novo coronavírus também fez vítimas no cenário católico. Segundo informações da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) cresceu também o número de padres do Brasil acometidos pela Covid-19. O último levantamento realizado pela Comissão Nacional de Presbíteros (CNP), divulgado em 29 de maio no portal da CNBB, apresenta a confirmação de 117 infectados e 14 mortes. Um novo relatório está sendo produzido pela Comissão e deverá ser divulgado em breve.

Com base nesta verificação, o Coletivo Bereia afirma ser verdadeira a informação divulgada por postagem no Twitter sobre alto número de mortos por Covid-19 entre lideranças das Assembleias de Deus em Mato Grosso. No levantamento, Bereia atualizou o número divulgado na postagem, de cinco para sete mortes até 27 de julho. O Coletivo reafirma a importância de as igrejas assumirem sua responsabilidade cristã com as medidas de prevenção e orientação de sua membresia quanto aos riscos impostos pela pandemia, que permanece grave no país dados os altos índices de infectados e mortes que vigoram.

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Foto de Capa: Reprodução/Convenção das Assembleias de Deus Mato Grosso

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Referências de checagem

Igrejas perdem pastores e padres para covid-19 e divergem sobre estratégias de reabertura. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/07/igrejas-perdem-pastores-e-padres-para-covid-19-e-divergem-sobre-estrategias-de-reabertura.shtml. Acesso em 27 de julho de 2020.

Morre mais um pastor da Assembleia de Deus vítima de covid-19. Disponível em: https://www.hnt.com.br/cidades/morre-mais-um-pastor-da-assembleia-de-deus-vitima-de-covid-19-sexto-obito-em-um-mes/178348 Acesso em 27 de julho de 2020.

Pastor da Assembleia de Deus morre quatro dias após ter recebido diagnóstico da Covid-19 em MT. Disponível em: https://g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2020/07/21/pastor-da-assembleia-de-deus-morre-4-dias-apos-ter-recebido-diagnostico-da-covid-19-em-mt.ghtml Acesso em 27 de julho de 2020.

Pastor da Assembleia de Deus de Nobres morre por Covid-19. Disponível em:

https://www.hnt.com.br/cidades/pastor-da-assembleia-de-deus-de-nobres-morre-por-covid-19/178532 Acesso em 27 de julho de 2020.

É verdade que apóstolo de igreja em Porto Alegre promete unção imunizadora contra o coronavírus. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/e-verdade-que-apostolo-de-igreja-em-porto-alegre-promete-uncao-imunizadora-contra-o-coronavirus/ Acesso em 27 de julho de 2020.

É verdade que líderes políticos e religiosos minimizam e espiritualizam ação do coronavírus. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/e-verdade-que-lideres-politicos-e-religiosos-minimizam-e-espiritualizam-acao-do-coronavirus/ Acesso em 28 de julho de 2020.

É verdade que Fabiana Anastácio negou o risco de ser infectada pela Covid-19. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/e-verdade-que-fabiana-anastacio-negou-o-risco-de-ser-infectada-pela-Covid-19 Acesso em 28 de julho de 2020.

É falsa a notícia que borracheiro morreu em acidente com pneu mas foi diagnosticado com Covid-19 para inflar estatísticas do coronavírus. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/e-falsa-a-noticia-que-borracheiro-morreu-em-acidente-com-pneu-mas-foi-diagnosticado-com-Covid-19-para-inflar-estatisticas-do-coronavirus Acesso em 28 de julho de 2020.

É falso que números por Covid-19 caem no Brasil por ações da Polícia Federal e do Ministro da Saúde. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/e-falso-que-numeros-por-Covid-19-caem-no-brasil-por-acoes-da-policia-federal-e-do-ministro-da-saude/ Acesso em 28 de julho de 2020.

É enganoso que sol forte pode matar coronavírus em 34 minutos. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/e-enganoso-que-sol-forte-pode-matar-coronavirus-em-34-minutos/ Acesso em 28 de julho de 2020.

Sites religiosos e ativistas digitais que propagam desinformação. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/sites-religiosos-e-ativistas-digitais-que-propagam-desinformacao/ Acesso em 28 de julho de 2020.

Covid-19: “a Igreja, como um todo, se entristece com cada morte: de bispos, padres, diáconos e de cada batizado”, afirma dom Joel. Disponível em: https://www.cnbb.org.br/Covid-19-a-igreja-como-um-todo-se-entristece-com-cada-morte-de-bispos-padres-diaconos-e-de-cada-batizado-afirma-dom-joel Acesso em 27 de julho de 2020.

É verdade que Unimed Brusque distribui “Kits Covid” como forma de prevenção

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O site de notícias Pleno News publicou, em 17 de junho, matéria intitulada: Unimed distribui “Kit Covid” com cloroquina e ivermectina.

Segundo a publicação, a Unimed Brusque, em Santa Catarina, está distribuindo kits destinados a profissionais de saúde contendo hidroxicloroquina, ivermectina, vitamina D e zinco quelado, além de orientações de como se medicar de forma preventiva.

A matéria cita a seguinte nota oficial da operadora de saúde:

“A Unimed Brusque, preocupada com a crescente perda de trabalho profissional no combate ao Covid-19, vem a público esclarecer que oportunizou a profilaxia aos profissionais que atuam na linha de frente e também aos médicos cooperados, baseada no protocolo utilizado já há algumas semanas e amplamente divulgado em nível nacional pela Prefeitura de Porto Feliz-SP”.

A matéria publicada por Pleno News relata também que quando a operadora foi questionada a respeito da distribuição dos kits, respondeu que:

“A Unimed Brusque informa que a utilização não era compulsória e após compra conjunta dos insumos tão escassos no mercado na atualidade, foi optado pela distribuição aos que desejaram realizar a profilaxia sugerida. Desta forma, foi entregue o kit, assim como as orientações e assinado o termo de consentimento. Também foram realizados exames para excluir doenças que possam ser agravadas pelo uso da profilaxia”.

Bereia checou as informações e encontrou nota publicada no site da Unimed Brusque, no dia 3 de julho, em que a cooperativa afirma ser a “pioneira no tratamento precoce do Covid-19” e que, entre as medidas adotadas, “a cooperativa realiza, desde março, tratamento com Hidroxicloroquina em pacientes positivados”.

Trecho do comunicado afirma que “há cerca de 40 dias há um movimento médico no Brasil em prol do tratamento precoce, que envolve o uso de medicações como hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina, e zinco quelado”.

Em seguida, o vice-presidente e diretor-técnico da Unimed Brusque, Dr. Eduardo Ballester, relata que “como tudo era muito novo e diariamente estamos escrevendo um capítulo da medicina, nosso protocolo de tratamento já sofreu ao menos três atualizações, não abandonando, no entanto, a essência do tratamento precoce”.

Esse protocolo contraria as recomendações da OMS e também não encontra respaldo nas orientações do Conselho Regional de Medicina.

Em informe publicado dia 17 de julho, a Sociedade Brasileira de Infectologia, defende ser necessário e urgente que, dentre outras medidas, “a hidroxicloroquina seja abandonada no tratamento de qualquer fase da COVID-19”.

A publicação feita no site da cooperativa Unimed Brusque apresenta claramente posição favorável ao uso de hidroxicloroquina em pacientes diagnosticados com a Covid-19. Entretanto, nenhuma informação quanto à distribuição do Kit Covid aos profissionais de saúde e médicos cooperados, como forma de prevenção, consta no site da cooperativa ou em suas mídias digitais oficiais.

As imagens do kit começaram a circular em grupos de WhatsApp e em outras mídias digitais:

Logo em seguida, questionamentos surgiram no Twitter da Unimed Brasil.

Portanto, Bereia classifica a notícia publicada por Pleno News como verdadeira. A resposta da Unimed Brasil confirma que a Unimed Brusque distribuiu kits contendo hidroxicloroquina como forma de prevenção ao Covid-19.

Além disso, mesmo contra as orientações das principais autoridades da área da saúde nacionais e internacionais, consta no site da cooperativa que a hidroxicloroquina é utilizada no tratamento de pessoas infectadas, ainda que em estágio inicial.

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Referências de checagem:

Pleno News. Unimed distribui ‘Kit Covid’ com cloroquina e ivermectina. Disponível em: https://pleno.news/brasil/cidades/unimed-distribui-kit-covid-com-cloroquina-e-ivermectina.html Consulta em 21/07/2020.

Unimed Brusque. Pioneira no tratamento precoce do Covid-19. Disponível em: https://www.unimed.coop.br/web/brusque/noticias/unimed-brusque-e-pioneira-na-regiao-no-tratamento-precoce-do-covid-19 Consulta em 21/07/2020.

Agência Brasil. OMS anuncia nova suspensão de testes com hidroxicloroquina. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-06/oms-anuncia-nova-suspensao-de-testes-com-hidroxicloroquina Consulta em 21/07/2020.

Conselho Federal de Medicina. CFM se manifesta sobre supostos métodos de prevenção e tratamento da Covid-19. Disponível em: http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=28723:2020-06-24-19-16-48&catid=3 Consulta em 27/07/2020.

Sociedade Brasileira de Infectologia. Informe n° 16 da Sociedade Brasileira de Infectologia sobre: atualização sobre a hidroxicloroquina no tratamento precoce da covid-19. Disponível em: https://www.infectologia.org.br/admin/zcloud/principal/2020/07/SBI_Informe_16_HCQ_precoce.pdf Consulta em 21/07/2020.

Twitter. Questionamento feito por usuário da plataforma. Disponível em: https://twitter.com/raikasevero/status/1283900340581076994 Consulta em 21/07/2020.

Twitter. Resposta Unimed Brasil. Disponível em: https://twitter.com/unimedbr/status/1284250545440595980 Consulta em 21/07/2020.

Prefeito evangélico convida pastor para publicidade sobre ações de saúde

Em julho, a Prefeitura de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, investiu recursos financeiros em um comercial para a TV aberta, contando com a presença e a narração do destacado pastor evangélico Claúdio Duarte, líder da Igreja Recomeçar, localizada na cidade. O comercial expôs uma série de medidas tomadas pela prefeitura no enfrentamento ao coronavírus. Veja abaixo:

Desde o início da pandemia, diversas polêmicas envolveram as medidas tomadas pelo prefeito Washington Reis (MDB) em relação às ações de prevenção ao coronavírus no município. A cidade de Duque de Caxias foi uma das últimas no Estado do Rio de Janeiro a aderir ao isolamento social e, por vezes, já durante a quarentena, o comércio e a população descumpriram as medidas de segurança estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pela legislação territorial vigente e, até mesmo, sentenças judiciais que proibiam a reabertura do comércio.

Em virtude das Eleições 2020, o Coletivo Bereia checou a veracidade dos serviços apresentados pelo Pastor Claúdio Duarte, divulgados na publicidade oficial do município. Confira abaixo a apuração completa:

Ações em Duque de Caxias durante a quarentena da COVID-19

Inicialmente, Bereia fez o levantamento das atitudes tomadas pelo munícipio frente ao contexto do coronavírus. O Município de Duque de Caxias, ou a cidade de Caxias, como é popularmente conhecida, localiza-se na Baixada Fluminense, Região Metropolitana no Estado do Rio de Janeiro, a 15 km da Capital. Atualmente tem uma população de cerca de 1 milhão de habitantes.

Cumprindo o segundo mandato como Prefeito, Washington Reis (MDB) é evangélico e fiel da igreja Assembleia de Deus. Sua identidade religiosa garantiu participação na Frente Parlamentar Evangélica, quando atuou como deputado federal pelo Rio de Janeiro.

O prefeito de Duque de Caxias, Washington Reis, o presidente Jair Bolsonaro e o governador Wilson Witzel (Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo). Acima, Washington Reis na Câmara (Reprodução/ EBC)

Desde os primeiros casos de conoravírus no Brasil e o início das ações de prevenção e combate à pandemia, diversas polêmicas envolveram as ações tomadas pelo município. Era comum ver as ruas da cidade cheia de pessoas, com grandes movimentações no comércio, considerado um dos maiores da Baixada Fluminense.

Segundo matéria do G1, publicada em 24 de abril, Caxias foi o último município da Baixada Fluminense a decretar o fechamento do comércio, em 3 de abril. O portal também informou que, naquele momento, a taxa de mortalidade de Caxias era superior à capital Rio de Janeiro, sendo 6,85 para cada 100 mil habitantes no município da Baixada e 5,69 na capital.

Em abril, o próprio Prefeito Washington Reis foi contaminado pelo coronavírus e passou 13 dias internado em tratamento.

No entanto, um mês depois, em 25 de maio, a Prefeitura determinou que todos os estabelecimentos comerciais poderiam funcionar, sendo essenciais ou não. No mesmo dia, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro suspendeu o decreto, atendendo pedidos da Defensoria Pública Estadual. O não cumprimento da medida, geraria multa diária de R$ 10 mil reais ao prefeito. Mesmo assim, a determinação da justiça não foi respeitada. Em matéria publicada no O Globo, em 8 de junho, há relatos da abertura de todo o comércio com amplas aglomerações de pessoas, comparadas à que ocorre no período natalino.

As polêmicas sobre as ações da Prefeitura de Caxias e as medidas de prevenção ao coronavírus não pararam por aí. Em 3 de julho de 2020, a Prefeitura publicou um decreto autorizando a reabertura das instituições de ensino privado. Porém, em 7 de julho, a justiça suspendeu o decreto, impedindo legalmente a volta às aulas nas escolas particulares.

Segundo dados disponibilizados pela Secretaria Estadual de Saúde, o município ocupa a terceira posição em número de óbitos por covid-19 no estado, alcançando um total de 491 vítimas, de acordo com dados coletados no Boletim Coronavírus de 15 de julho de 2020.

Dado o contexto retratado acima, Bereia verificou as afirmações da Prefeitura na publicidade para a TV aberta, pontuando cada uma das ações expostas e verificando-as conforme demostrado a seguir:

Os fatos diante da publicidade oficial

Bereia identificou em matéria publicada pelo Jornal Extra e em outros veículos de comunicação regionais que, em 04 de maio de 2020, em parceria com o Governo do Estado, foi inaugurado o Hospital São José, com 128 leitos de CTI, equipados com respiradores, para uso exclusivo de pacientes com Covid-19

Em 42 dias, o Hospital São José foi inaugurado. Portanto, esta afirmação é VERDADEIRA. 

No entanto, há denúncias quanto a problemas em equipamentos e falta de medicamentos relatados por funcionários do hospital. As denúncias foram negadas pela Secretaria de Saúde da cidade.

80 mil testes rápidos em todos os bairros

Uma imagem contendo screenshot

Descrição gerada automaticamente
Reprodução/ Prefeitura de Duque de Caxias.

Durante a apuração, percebemos que esta ação tem merecido grande atenção da administração municipal e que a realização de testes para detecção de Covid-19 na população tem sido recorrente. 

Para atingir um número maior de pessoas, a Prefeitura diz estar organizando mutirões em vários bairros da cidade e realizando testes em profissionais considerados mais vulneráveis ao risco de contágio pelo novo vírus, como profissionais da área de saúde.

Vários sites e blogs de notícia destacaram a medida, a exemplo do portal O Dia, que publicou uma matéria no dia 8 de junho de 2020, informando que haviam sido realizados até então, 8.953 testes no município.

Na página oficial da Prefeitura no Facebook, já é indicado que o número de testagens ultrapassou a marca dos 100 mil. 

No entanto, a pesquisa do Coletivo Bereia não localizou fonte oficial que aponte a confirmação desses números. Sendo assim, a classificação desta afirmação é IMPRECISA.

A Prefeitura que mais investe em saúde no Brasil 

Em levantamento feito pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) afirma que durante o ano de 2017, cerca de 2.800 municípios brasileiros gastaram menos de R$ 403,37 na saúde de cada habitante. A análise apurou que esse foi o valor médio aplicado pelos gestores municipais com recursos próprios em Ações e Serviços Públicos de Saúde (ASPS), declarados no Sistema de Informações sobre os Orçamentos Públicos em Saúde (Siops) do Ministério da Saúde.

Os dados mostram que municípios menores (em termos populacionais) contam com uma despesa per capita maior. Em cidades com menos de cinco mil habitantes, as prefeituras investiram em 2017 cerca de R$ 779,21 na saúde de cada cidadão, quase o dobro da média nacional.

Embora a Região Sudeste apresente maior participação no financiamento do gasto público em saúde, em consequência, principalmente, da maior capacidade de arrecadação, há algumas exceções, que vale destacar. No ranking elaborado pelo CFM, três municípios da Baixada Fluminense aparecem na lista dos municípios com menor gasto per capita em saúde no ano de 2017: São Gonçalo, totalizando R$ 82,46; Belford Roxo, com R$ 88,73 e por último, São João do Meriti, contabilizando R$ 90,34. Naquele ano, Duque de Caxias, que tinha Washington Reis no segundo mandato, ficou abaixo do valor médio de R$ 403,37 do Ministério da Saúde com R$ 315,85 por habitante.

De acordo com o Ranking de Eficiência dos Municípios elaborado pelo Jornal Folha de S. Paulo, o município de Duque de Caxias ocupa hoje a 3.661° posição, com investimento baixo em saúde (0,263 bem abaixo da média nacional, que é 0,500).

Portanto, a informação da propaganda de que a “Prefeitura de Duque de Caxias é a que mais investe em saúde no Brasil” é FALSA.

Ampliação do hospital Moacyr do Carmo e do hospital infantil

Em janeiro de 2020, o Prefeito de Duque de Caxias, Washington Reis firmou um contrato de cooperação técnica com a secretaria de saúde do Estado do Rio de Janeiro para melhorias estruturais no Hospital Municipal Moacyr Rodrigues do Carmo (HMMRC) e para a Unidade Pré-Hospitalar de Saracuruna (UPH). Este acordo fixou um investimento de R$ 21,1 milhões de reais, dos quais R$ 17,9 milhões foram para o HMMRC e R$ 3,2 milhões para a UPH. 

Um dos itens foi a inauguração de um Centro Auditivo no hospital, em 2018 (a ser detalhado a seguir por ser item destacado na publicidade). Conclui-se que, houve uma ampliação, mas esta não está ligada ao acordo firmado no início deste ano e por falta de especificação, não é possível afirmar a ampliação narrada no comercial.

Em relação ao hospital infantil, a publicidade não menciona o local e o nome do estabelecimento. No entanto, em verificação aos canais de comunicação da Prefeitura, identificamos que foi inaugurado em 4 de julho, o Hospital Municipal Infantil Ismélia da Silveira, considerado o primeiro CTI pediátrico do município. Se a ampliação do Hospital Moacyr do Carmo (estiver relacionada ao Centro Auditivo), é possível classificar esta informação como VERDADEIRA. E como o hospital infantil citado não foi especificado, classificamos a informação como IMPRECISA.

Construção do Centro de Saúde Auditiva Eurico Miranda

O Centro de Saúde Auditiva Eurico Miranda é uma unidade no Hospital Municipal Dr. Moacyr Rodrigues do Carmo e está em funcionamento. As fontes verificadas mostram que a unidade conta com 40 profissionais, entre fonoaudiólogos, otorrinolaringologistas, neurologistas, pediatras, assistentes sociais e psicólogos. 

Em 7 de junho de 2019 houve uma cerimônia de apadrinhamento do centro em nome de  Eurico Ângelo de Oliveira Miranda, conhecido pela sua atuação como presidente do Clube Vasco da Gama.

Portanto, a informação é classificada como VERDADEIRA.

Construção do Hospital Júlio Cândido de Brito (Hospital do Olho) 

Publicações nas mídias comprovam a abertura do Hospital do Olho, realizada em 28 de dezembro de 2017. Em matéria do Jornal Extra, a unidade é apontada como uma das mais modernas do país, sendo munida de aparelhos de última geração, importados da Alemanha.

Além de pacientes de Caxias, o hospital também atende moradores de outras cidades da Baixada Fluminense e de outras partes do estado. Este empreendimento tem capacidade para realização de 3.700 consultas, 3.100 exames e 990 cirurgias por mês, segundo o Jornal Extra.

A construção do hospital se realizou, fruto das parcerias entre a Prefeitura Municipal de Duque de Caxias (custeou 25% do projeto), o Governo Estadual do Rio de Janeiro (custeou 25% do projeto) e o Governo Federal (custeou 50% do projeto). Ao todo, o investimento total do projeto foi de R$ 15 milhões de reais. (O Globo)

Portanto, esta informação é classificada como VERDADEIRA.

Construção do Centro de Reabilitação

Inaugurado pela Prefeitura de Duque de Caxias em novembro de 2018, o CER IV (Centro Especializado em Reabilitação IV) conta com uma equipe multidisciplinar profissional e equipamentos necessários a todos os tipos de tratamentos.

A unidade recebe, em sua maioria, pacientes portadores de paralisia cerebral e autistas. Entre as especialidades médicas estão: Fonoaudiologia, Fisioterapia, Terapia Ocupacional, Psicologia, Nutrição e entre outras.

Portanto, esta informação é classificada como VERDADEIRA.

Construção do Centro de Referência e Atenção Especializada à Saúde da Mulher

O Centro de Referência e Atenção Especializada à Saúde da Mulher (CRAESM) foi inaugurado em março de 2017 pela Prefeitura de Duque de Caxias. De acordo com o Portal O Dia, a unidade realiza cerca de 2 mil atendimentos e mais de 30 mil procedimentos por mês, oferecendo serviços em ginecologia, endocrinologia, odontologia, pediatria convencional e homeopática, dentre outros.

O Centro ainda realiza exames como mamografia, densitometria óssea, preventivo, ultrassonografia, histeroscopia com ou sem biópsia, eletrocardiograma e exames de sangue. 

Portanto, esta informação é classificada como VERDADEIRA.

Inauguração da Maternidade de Santa Cruz da Serra

Em junho de 2020, foi inaugurada a Maternidade de Santa Cruz da Serra pela Prefeitura de Caxias. Construída em uma área de 4.714 metros quadrados, a unidade de saúde atende mulheres com gravidez de baixo e alto risco, com capacidade para a realização de 1200 partos por mês. 

Contando com valor orçado em torno de R$ 11 milhões, a maternidade tem equipamentos modernos e profissionais da área de saúde especializados em atendimento às gestantes. 

Segundo informações fornecidas pela Prefeitura, a nova unidade conta com centro cirúrgico, ambientes de recuperação pós anestésica (RPA), Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), além de 20 leitos de neonatal e dez de UTI materna. Há ainda 12 enfermarias com seis leitos cada, uma enfermaria com cinco leitos e mais três de isolamento.

Informação classificada como VERDADEIRA.

Incorporação do centro de imagens “mais moderno do país’ ao Hospital Municipal Duque, que conta com atendimento de emergência 24 horas. 

Em 27 de junho de 2020, foi inaugurado o Hospital Municipal Duque, que passou a contar com um moderno centro de imagens, com equipamentos novos que permitirão a realização de exames como ressonância magnética, tomografia, ultrassom 4D, densitometria óssea e mamografia.

De fato, um hospital dessa esfera será um importante instrumento para a saúde pública da população. No entanto, a afirmação que o coloca como o hospital mais moderno do país, sem sequer distingui-lo dos presentes na rede privada, revela tratar-se de uma hipérbole, que pode apresentar uma informação incorreta ao espectador. Ademais, não há dados objetivos disponíveis no Brasil para a verificação deste tipo de abordagem.

Portanto, a informação é classificada como IMPRECISA.

Reprodução /Divulgação

Verificamos que houve investimentos significativos em empreendimentos de saúde do município de Duque de Caxias.

No entanto, vale a indicação aos leitores e leitoras sobre dois elementos que devem ser levados em conta na avaliação deste caso:

1) A publicidade oficial se dá em ano de eleições municipais e, de acordo com a cultura política do Brasil (apesar das leis que buscam regular este abuso), governantes reservam verbas para serviços básicos e inaugurações a fim de alavancar a campanha eleitoral para benefício próprio, buscando como resultado pleitear a reeleição ou galgar a de seus pretensos sucessores;

2) Muitas das ações tomadas pela Prefeitura no contexto da pandemia não são prudentes como as de quem estaria, de fato, investindo na saúde e na vida da população local.

Portanto, o Coletivo Bereia alerta os seus leitores e leitoras a estarem atentos não só aos lançamentos de empreendimentos de saúde, muitas vezes voltados a interesses acima do bem-estar da população, mas, especificamente, à forma como a qualidade de vida e a saúde dos cidadãos e cidadãs estão sendo garantidos.

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REFERÊNCIAS

IBGE. Duque de Caxias. https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/rj/duque-de-caxias.html

ISTO É. Prefeitura de Duque de Caxias entrega 220 aparelhos auditivos neste sábadohttps://istoe.com.br/prefeitura-de-duque-de-caxias-entrega-220-aparelhos-auditivos-neste-sabado/

JORNAL EXTRA. Coronavírus: Caxias inaugura hospital exclusivo em meio a escalada de mortes e desrespeito ao isolamento. https://m.extra.globo.com/noticias/rio/coronavirus-caxias-inaugura-hospital-exclusivo-em-meio-escalada-de-mortes-desrespeito-ao-isolamento-24409528.html?versao=amp#aoh=15938750956778&referrer=https%3A%2F%2Fwww.google.com&amp_tf=Fonte%3A%20%251%24s

JORNAL EXTRA. Novo hospital garante a saúde dos olhos em Duque de Caxias. https://m.extra.globo.com/noticias/inova-caxias/novo-hospital-garante-saude-dos-olhos-em-duque-de-caxias-22980761.html

JORNAL MEIA HORA. Centro de Reabilitação em Duque de Caxias atende pacientes com deficiência. https://www.meiahora.com.br/amp/geral/2019/05/5644916-centro-de-reabilitacao-em-duque-de-caxias-atende-pacientes-com-deficiencia.html

O DIA. Centro de Referência da Mulher realiza mutirão de exames em Duque de Caxias: https://odia.ig.com.br/duque-de-caxias/2020/03/5880124-centro-de-referencia-da-mulher-realiza-mutirao-de-exames-em-duque-de-caxias.html#artigocompleto

O DIA. Eurico Miranda vira nome do Centro de Audiologia de Duque de Caxias. https://odia.ig.com.br/duque-de-caxias/2019/06/5649658-eurico-miranda-vira-nome-do-centro-de-audiologia-de-duque-de-caxias.html

O DIA. Hospital Duque, em Caxias, é inaugurado com moderno centro de imagem: https://odia.ig.com.br/duque-de-caxias/2020/06/5941698-hospital-duque–em-caxias–e-inaugurado-com-moderno-centro-de-imagem.html

O DIA. Veja onde fazer testes rápidos da covid-19 nesta semana em Duque de Caxias. https://odia.ig.com.br/duque-de-caxias/2020/06/5930751-veja-onde-fazer-testes-rapidos-da-covid-19-nesta-semana-em-duque-de-caxias.html

O GLOBO. Hospital do Olho é inaugurado em Duque de Caxias. https://oglobo.globo.com/rio/hospital-do-olho-inaugurado-em-duque-de-caxias-22258513

O GLOBO. Mesmo proibido, comércio não essencial segue aberto em Caxias com filas e aglomerações. https://oglobo.globo.com/rio/mesmo-proibido-comercio-nao-essencial -segue-aberto-em-caxias-com-filas-aglomeracoes-1-24460682-24460682.

G1. Com 67 mortos pelo novo coronavírus, Duque de Caxias, RJ, tem flagrantes de desrespeito ao isolamento social. https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/04/27/com-67-mortos-pelo-novo-coronavirus-duque-de-caxias-rj-tem-flagrantes-de-desrespeito-ao-isolamento-social.ghtml

G1. Funcionários de hospital da Prefeitura de Duque de Caxias que trata doentes de Covid-19 relatam defeito nas saídas de oxigênio. https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/05/27/funcionarios-de-hospital-da-prefeitura-de-duque-de-caxias-rj-que-trata-doentes-de-covid-19-relatam-defeito-nas-saidas-de-oxigenio.ghtml

G1. Prefeito de Duque de Caxias, no RJ, testa positivo para coronavírus. https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/04/12/prefeito-de-duque-de-caxias-no-rj-testa-positivo-para-coronavirus.ghtml

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Ministro da Saúde visita hospitais em Duque de Caxias (RJ). https://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/46103-ministro-da-saude-visita-hospitais-em-duque-de-caxias-rj-2

PREFEITURA DE DUQUE DE CAXIAS. Duque de Caxias ganha neste sábado a mais moderna maternidade pública do estado. https://duquedecaxias.rj.gov.br/noticia/duque-de-caxias-ganha-neste-sabado-a-mais-moderna-maternidade-publica-do-estado/2165

PREFEITURA DE DUQUE DE CAXIAS. Prefeitura entrega o primeiro centro de tratamento intensivo pediátrico do município. https://duquedecaxias.rj.gov.br/noticia/prefeitura-entrega-o-primeiro-centro-de-tratamento-intensivo-pediatrico-do-municipio-/2220?fbclid=IwAR3y6mrSL9jNJpJWfzdRLvmGKlXkBK8InVnMS-wxfvZeZqFj8TOvXT4lwU0

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA (CFM). Metade das prefeituras gastam menos de R$ 403 ao ano na saúde de cada habitante. https://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=28042:2019-01-18-22-12-44&catid=3

Folha de S. Paulo. Ranking de Eficiência dos Municípios-Folha. https://www1.folha.uol.com.br/remf/

É falso que médica foi afastada do Hospital Albert Eisntein por defender cloroquina

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Circulam pelas mídias sociais de apoiadores do Presidente Jair Bolsonaro e de relativistas da gravidade da pandemia do novo coronavírus conteúdos em tom de denúncia, de que a médica Nise Yamagushi teria sido afastada do Hospital Albert Einsten por defender a cloroquina na cura da Covid-19, como nos exemplos a seguir:

Reprodução/ Twitter

A partir do fato, o site evangélico de notícias Pleno News publicou uma matéria intitulada: “Nise Yamaguchi é afastada por apoiar a hidroxicloroquina”. Além do título, o subtítulo também atrela a suspensão da médica ao suposto apoio da profissional ao uso da hidroxicloroquina: “”Tenho a certeza que ela cura os pacientes nas etapas iniciais”, disse a imunologista”. 

Pesquisadora científica, imunologista e oncologista, a médica Nise Hitomi Yamagushi tornou-se uma das principais defensoras do uso da hidroxicloroquina como tratamento precoce ao novo coronavírus. Ela foi convidada pelo presidente Jair Bolsonaro, em abril, a integrar o comitê de crise ainda na gestão de Luiz Henrique Mandetta no Ministério da Saúde e chegou a ser cotada como ministra quando ele pediu demissão, o que ocorreu novamente quando Nelson Teich se demitiu em maio. Em abril e maio, esteve em diversas agendas com ministros.

Dessa vez, o nome de Nise Yamagushi ganha destaque no cenário nacional mediante seu afastamento do Hospital Israelita Albert Einstein.  De acordo com o Pleno News, a médica concedeu uma entrevista ao jornalista Roberto Cabrini, que foi ao ar na sexta-feira, 10 de julho no programa SBT Brasil, por meio da qual ela teria revelado que foi afastada do hospital. O aviso teria vindo através de uma ligação do diretor clínico da instituição, que acreditaria que o apoio de Nise Yamaguchi ao uso da hidroxicloroquina “denigre o hospital”. 

Matéria Pleno News/ Reprodução

O portal, que na seção “Quem somos” afirma ser uma “referência segura de conteúdo, principalmente no momento de profusão das fake News”, traz a afirmação de que a médica garantiu que grande parte da comunidade médica defende o uso do medicamento.

O Pleno News se baseou na matéria do SBT Brasil publicada no portal da emissora no dia 10 de julho, que registra que Nise Yamaguchi afirmou ter sido afastada do hospital por defender o uso da hidroxicloroquina, ao ser entrevistada exclusivamente pelo jornalista da emissora Roberto Cabrini para o programa Conexão Repórter, que iria ao ar em 13 de julho. 

“Eu recebi uma ligação do diretor clínico do hospital me informando que, a partir deste momento, eu não poderia estar exercendo as minhas funções no hospital, não poderia estar prescrevendo e nem atendendo meus pacientes que já estão internados. (…) Eles acreditam que a minha fala, sempre em prol da hidroxicloroquina, que eles consideram que não tenha fundo científico, denigre o hospital“, afirmou a médica ao jornalista Roberto Cabrini.

Entretanto, o programa também incluiu entrevista exclusiva com o presidente do Hospital Israelita Albert Einstein Sidney Klajner, que confirmou a suspensão de Nise, mas deu outra explicação:

Em entrevista recente a médica teria feito uma comparação infeliz entre o pânico provocado pela pandemia e a postura das vítimas do holocausto, denominada por ela “massa de rebanho de judeus famintos” incontrolável. 

A entrevista à TV Brasil

Nise Yamaguchi concedeu entrevista à emissora pública TV Brasil, programa Impressões, transmitida no domingo, 2 de julho de 2020

Yamaguchi descreveu no programa como deve ser o tratamento com cloroquina, e não mencionou o fato de não haver comprovação científica de sua eficácia, o que vem agradando o governo federal, que tem indicado o medicamento.

“O tratamento é de cinco dias, de hidroxicloroquina. Isso eu posso falar, porque normalmente médico não pode falar receita de bolo na… Mas como ninguém vai conseguir se automedicar, porque precisa de receituário, de controle…”. 

A médica também recomendou o uso preventivo da ivermectina, o que tampouco é embasado categoricamente por estudos clínicos.

“Você pode usar na primeira fase hidroxicloroquina ou ivermectina, ou os dois, com azitromicina e zinco. Porque essa composição é a melhor coisa”.

A apresentadora do programa da TV Brasil Katiuscia Neri, reforçou o que disse a médica:

“Se você não traz essa informação para a gente de que há um tratamento, eu vou continuar com pânico em casa. Não é que a gente está pregando que as pessoas saiam de casa, mas que entendam que tem um tratamento. Esse medo também é muito prejudicial, né?”. 

Neise Yamaguchi respondeu: 

“O medo é prejudicial para tudo. Em primeiro lugar, te paralisa, te deixa massa de manobra. Qualquer pessoa, você pega… Você acha que alguns poucos militares nazistas conseguiriam controlar aquela massa de rebanho de judeus famintos se não submetessem diariamente a humilhações, humilhações e humilhações, tirando deles todas as iniciativas?”.

Ao repórter do SBT, Roberto Cabrini, dias depois, e já suspensa do Albert Einstein, a médica reconheceu que sua fala, comparando o medo do uso da hidroxicloroquina com o nazismo, foi uma das justificativas dadas pelo hospital para sua suspensão.

“Eles [direção do hospital] se referiram também a uma fala que eu teria dito na semana passada, que foi interpretada de uma forma errônea. Eu falei que existia uma situação muito grave no mundo com o pânico que foi instalado, com o medo que levava as pessoas a ficarem reféns de seus algozes”, explicou.

Questionada por Cabrini sobre a relação entre medo, nazismo e uso de hidroxicloroquina, Nise Yamaguchi disse que:

“Todo mundo fala que não tem cura, que não tem tratamento, que você vai morrer. Toda noite tem uma série de campanhas pra pessoa ficar cada vez mais amedrontada e achar que vai entrar em um aparelho de respiração imediatamente. Eu estou dizendo para o público que existe tratamento, sim. Principalmente na fase precoce, que se a pessoa se tratar na fase inicial, ela não vai ter a fase grave”, finalizou. 

Questionada ainda sobre manter um posicionamento contrário ao da maioria da comunidade científica, a médica afirma não saber se este é, de fato, um consenso. “Não acredito que a comunidade inteira pense assim“, diz a médica. Ela ainda afirma que há uma “grande maioria silenciosa” que defende o uso do medicamento.

Depois da divulgação, pelo SBT Notícias, em 10 de julho, de que Nise Yamaguchi teria sido afastada por ser defensora do medicamento hidroxicloroquina para a cura da Covid-19, o Hospital Israelita Albert Einstein divulgou nota à imprensa:

Íntegra da nota do hospital Albert Einstein:

“Com relação a declarações prestadas pela Dra. Nise Yamagushi, o Hospital Israelita Albert Einstein tem a esclarecer o seguinte:

1. O hospital respeita a autonomia inerente ao exercício profissional de todos os médicos, jamais permitindo restrições ou imposições que possam impedir a sua liberdade ou possam prejudicar a eficiência e a correção de seu trabalho.

2. A Dra. Nise Yamagushi faz parte do corpo clínico do Hospital, sendo admissível que perfilhe entendimento próprio com relação ao atendimento de seus pacientes ou à sua postura em face da pandemia ora combatida, desde que observe as regras relacionadas ao uso da sua condição de integrante do Corpo Clínico em sua comunicação.

3. Trata-se, contudo, de hospital israelita e a Dra. Nise Yamagushi, em entrevista recente, estabeleceu analogia infeliz e infundada entre o pânico provocado pela pandemia e a postura de vítimas do holocausto ao declarar que “você acha que alguns poucos militares nazistas conseguiriam controlar aquela MASSA DE REBANHO de judeus famintos se não os submetessem diariamente a humilhações, humilhações, humilhações…”.

4. Como se trata de manifestação insólita, o hospital houve por bem averiguar se houve mero despropósito destituído de intuito ofensivo ou manifestação de desapreço motivada por algum conflito. Durante essa averiguação, que deve ser breve, o hospital não esperava que o fato viesse a público.

A expectativa do hospital é a de que o incidente tenha a melhor e mais célere resolução, de modo a arredar dúvidas e remover desconfortos”.

Pedido de desculpas

Após ter sido afastada das atividades do Hospital Israelita Albert Einstein e procurado o SBT para criticar a medida, atribuindo-a ao fato de ser defensora da hidroxicloroquina, a médica Nise Yamaguchi divulgou nota, por meio de sua assessoria jurídica, em 12 de julho de 2020, se desculpando por qualquer comentário ofensivo à comunidade judaica, ainda que, segundo ela, seja proveniente de uma “interpretação errônea”. 

Íntegra da nota de Nise Yamaguchi:

“Dra. Nise Yamaguchi, por meio de sua assessoria jurídica, manifesta este esclarecimento: 

Têm orgulho de ser membro do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein por mais de 30 (trinta) anos, possibilitando ajudar e atender inúmeros pacientes. Agradece de forma especial todo o apoio por cartas, e-mails e ligações de diversos membros da Comunidade Judaica, que compreenderam que jamais seria ela anti-semita, já que foi ela a maior apoiadora do processo de conversão da sua irmã para o Judaísmo (Greice Naomi Yamaguchi).

Homenageia os brilhantes cientistas judeus na pessoa do seu mentor, o Professor Doutor Reuben Lotan (Z”L) do M.D. Anderson Cancer Center e previamente do Instituto Weizmann de Israel, que muito a apoiou na sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo.

Por tudo aqui já relatado, é cristalino o entendimento de que nunca foi ela antisemita, ao contrário, expressa verdadeira e irrestrita admiração ao conhecimento e toda a contribuição que o povo judeu deu ao planeta, quer por suas percepções cientificas, quer pela sua convivência mais íntima.

Por fim, manifesta o pedido de desculpas por expressões outras e interpretações errôneas sobre assuntos sensíveis ao grande sofrimento judaico que envolveram seu nome, pois é solidária à dor dessa ilustre comunidade como a maior das atrocidades de nossa história ocidental.

Suas palavras, objeto de interpretações não condizentes com suas convicções, foram manifestadas no intuito de expressar a maior dor que ela conhece.”

Apesar do pedido de desculpas, no portal UOL, em matéria de 12 de julho, traz o título: Albert Einstein não descarta demissão de médica após fala sobre holocausto” .

Ao UOL, o presidente do hospital explicou:

“A doutora Nise teve uma suspensão provisória enquanto o nosso comitê de ética apura o que norteou os comentários relativos à comparação do medo da pandemia ao holocausto, um momento extremamente importante, onde 6 milhões de judeus foram mortos, e vários sobreviventes contribuíram inclusive com a fundação do próprio Israelita Albert Einstein”. Ele reiterou que a médica foi chamada para conversar com a diretoria clínica a respeito da utilização do nome Albert Einstein ou contra ou favor de qualquer tratamento promovido por ela. “E não pesa, neste momento, a prescrição ou não da hidroxicloroquina na decisão de sua suspensão”, acrescentou. 

Questionado sobre a possibilidade de demissão, Klajner afirmou. “Aí nós temos que consultar quais as consequências que podem haver porque nunca, na história do Albert Einstein, houve uma situação igual a essa”, finalizou o presidente.

Repúdio de entidades judaicas

A Confederação Israelita do Brasil (Conib) e a Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp) emitiram nota conjunta, em 11 de julho, condenando as declarações da médica Nise Yamaguchi comparando a tragédia do Holocausto com a pandemia do coronavírus. Diz a nota:

“São deploráveis as declarações da médica Nise Yamaguchi comparando a tragédia do Holocausto, que causou a morte de 6 milhões de judeus inocentes, além de outras minorias, com a atual pandemia do coronavírus. Comparações desse tipo não têm qualquer fundamento, minimizam os horrores do nazismo e ofendem a memória das vítimas, dos sobreviventes e de suas famílias.

A politização da medicina só contribui para a disseminação desta pandemia. Nosso total apoio ao Hospital Israelita Albert Einstein, referência médico-hospitalar de nosso país e orgulho da comunidade judaica”.

Perda de prestígio com o governo

Reportagem de O Globo, de 3 de julho, já indicava que Nise Yamaguchi havia dito a pessoas próximas que não é mais ouvida pelo Palácio do Planalto ou pelo Ministério da Saúde  estaria escanteada pelo governo federal desde que o General Eduardo Pazuello assumiu o Ministério da Saúde. 

A reportagem de O Globo diz que evidências científicas mostram que o uso da cloroquina não tem efeito sobre pacientes de coronavírus. Mesmo sem uma comprovação da eficácia do remédio, porém, o Ministério da Saúde mantém a orientação de que o medicamento deve ser usado em casos leves, desde que observada a dosagem. Hospitais têm descartado a cloroquina no tratamento do coronavírus. O Hospital Albert Einstein, por exemplo, recomenda que médicos não receitem a substância no tratamento dao Covid. A recomendação ocorreu após a agência norte-americana que regula alimentos e medicamentos, FDA, equivalente à Anvisa brasileira, ter revogado a autorização do uso da cloroquina no tratamento da Covid-19.

Com a perda do protagonismo da medicação no tratamento do coronavírus, Nise Yamaguchi vinha passando mais tempo em São Paulo, onde tem consultório. Procurada pela reportagem de O Globo, a médica negou que tenha havido qualquer estranhamento entre ela e o governo federal, mas reconheceu que estaria trabalhando mais diretamente com o governo de São Paulo: “Sou uma consultora científica independente, o que faço é um trabalho de levantamento da literatura, trabalho com as sociedades médicas. Nunca existiu um vínculo formal”.

Bereia conclui que o conteúdo de postagens e matéria site do site Pleno News, em tom de denúncia, sobre o afastamento da médica Nise Yamaguchi do Hospital Israelita Albert Einstein são falsas. Elas foram induzidas por chamada enganosa da matéria do SBT, de 10 de julho, baseada na fala da médica, sobre ter sido afastada por ser defensora da cloroquina, desconsiderando a afirmação do hospital à própria emissora, de que a ação deveu-se à declaração indevida sobre judeus e o holocausto, uma vez ser funcionária de uma instituição israelita. 

*     *     *

Referências 

SBT Notícias, 10 de julho de 2020, https://www.sbt.com.br/jornalismo/sbt-brasil/noticia/144931-medica-diz-ter-sido-afastada-de-hospital-por-defender-uso-da-hidroxicloroquina.  Acesso em 14 de julho de 2020

Pleno News, 11 de julho 2020, https://pleno.news/saude/coronavirus/nise-yamaguchi-e-afastada-por-apoiar-a-hidroxicloroquina.html Acesso em 14 de julho de 2020

Conexão Repórter, 13 de julho de 2020, https://www.sbt.com.br/jornalismo/conexao-reporter/noticia/144998-exclusivo-roberto-cabrini-entrevista-medica-nise-yamaguchi Acesso em 14 de julho de 2020

 TV Brasil, Impressões, 2 de julho de 2020, https://www.youtube.com/watch?v=Hi-KDKCRQXs. Acesso em 14 de julho de 2020

Hospital Israelita Albert Einstein, Imprensa: https://www.einstein.br/sobre-einstein/imprensa/press-release/nota-a-imprensa-13072020  Acesso em 14 de julho de 2020 

G1, 12 de julho de 2020, https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/07/12/medica-afastada-por-hospital-albert-einstein-apos-declaracao-sobre-nazismo-pede-desculpas-por-expressoes-e-interpretacoes-erroneas.ghtml Acesso em 14 de julho de 2020

UOL Notícias, 12 de julho de 2020, https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/07/12/albert-einstein-nao-descarta-demissao-de-medica-apos-fala-sobre-holocausto.htm. Acesso em 14 de julho de 2020

CONIB, https://www.conib.org.br/conib-e-fisesp-condenam-comparacao-do-holocausto-com-o-coronavirus/ Acesso em 14 de julho de 2020 

O Globo, 3 de julho de 2020, https://oglobo.globo.com/sociedade/nise-yamaguchi-defensora-da-cloroquina-escanteada-pelo-governo-24514102 Acesso em 14 de julho de 2020

Quando o bem cede ao mal… mesmo que um pouquinho

*Publicado originalmente no Portal das CEBs

Nossos filhos sempre nos ensinam

Em qualquer tempo e idade.

Esse foi soprado pela nossa Clara.

*Este texto que me tirou da cama na madrugada trata de um olhar muito particular sobre a pandemia que assola nosso mundo, mas que nessa abordagem se restringirá à realidade que me rodeia se estendendo ao máximo ao nosso país.

A pandemia que vivemos é uma experiência única para os que atualmente vivem na terra. A pandemia anterior a essa é datada de 1918, há 102 anos atrás,  impossibilitando termos em nosso meio alguém que tenha sobrevivido a ela. Mesmo que tenhamos pessoas com essa idade ou alguns anos a mais, esses seriam recém-nascidos ou bem pequeninos na época, e talvez tenham vivido em lugares que sequer a pandemia tenha passado.

Meus pais, cuja a idade é de 94 anos, dizem a todo momento que nunca viveram ou viram falar de algo parecido. Isso se explica pela idade, mas também pelo local onde viveram a infância, interior da Bahia, e pela falta de acesso as notícias, sejam elas escritas ou via rádios.

Podemos dizer então, que estamos vivendo o que costumamos chamar, popularmente, de experiência ímpar, para qual não existe um par ou semelhança com outra.

Tendo dito sobre a singularidade dessa experiência vivida por nós nesse momento pandêmico, outras singularidades se apresentam derivadas da complexidade dessa realidade. Uma das singularidades é a forma como tem sido tratada a pandemia no nosso país e, por conseguinte, nos estados e municípios.

Nesse tempo específico vivemos um momento de reabertura das atividades econômicas e sociais.  Lembrando, entretanto, que nunca tivemos fechados totalmente. Mas o que é importante tratar nesse aspecto específico é como a população e as instituições  se comportam diante desse novo cenário de retorno à chamada vida “normal”. E é sobre esse ponto que me é sugerido escrever esse texto.

Nosso comportamento é regido por leis visíveis, palpáveis e com certa logicidade, mas também por outras que aparentemente nos são invisíveis, inexistentes e, em alguns casos, incompreensíveis. Longe de querer afirmar aqui algo do campo de alguma sobrenaturalidade. Pelo contrário, trato aqui de algo muito natural.

Antes de continuar falando sobre o que chamo de leis naturais, quero trazer um exemplo de infância que me veio quando ainda lutava entre o sono e a provocação de escrever esse texto.  Quando criança num bairro pobre da periferia da cidade onde moro, costumávamos ter poucos brinquedos. Um brinquedo muito presente era a bola de plástico. Objeto barato e de fácil acesso.  Quando, porventura a bola furava, colocávamos uma fita adesiva ou, na maioria das vezes, um esparadrapo.  Isso acontecia dezenas de vezes com a mesma bola. Outros furos e o alargamento do furo anterior, mesmo tendo sido tapado, o que dizia da ineficácia do “curativo”. Até que a bola não resistia, murchava de tal forma que nada mais podia ser feito. Havíamos perdido o brinquedo e a brincadeira tão importante para nós naquelas pequenas possibilidades de diversão e lazer.

Por que me veio essa história de tempos tão passados? Acredito que porque ela nos guia para uma boa analogia que deixe mais claro o que estou chamando de “lei invisível”. É como o ar na bola escapando da bola. Era um pequeno furinho que um pedaço de esparadrapo dava conta. Mas o uso insistente nas brincadeiras vai fazendo surgir novos furinhos e alargando os furos anteriormente tamponados.  Ninguém via como acontecia. Só víamos o acontecimento. E, muitas vezes, só nos dávamos conta quando a bola estava totalmente vazia e sem possibilidades de regeneração, tão entretidos que estávamos na brincadeira.

O fato das normas de isolamento social estarem sendo flexibilizadas, os estabelecimentos abertos e a vida social  retornando às atividades, são furos nessa bola, sem que, assim como as crianças, se perceba logo o dano.  Possivelmente, só poderá ser visto quando a bola estiver totalmente vazia.

Onde poderia estar a invisibilidade desses furos, já que é noticiado em ampla rede de comunicação as decisões de cada abertura e flexibilização? Está no ar saindo da bola sem que a gente veja. Na medida em que a aparência de “normalidade“ vai sendo construída com as reaberturas, ao mesmo tempo vai sendo construído dentro de mim, sem que eu perceba, um certo atenuar da realidade, dos riscos da doença e de sua contaminação e, talvez o mais forte em nós, o desejo de retornar a vida como era antes.

Os governantes, quando por uma imensa irresponsabilidade decidem permitir a reabertura do comércio, voltar às atividades produtivas, sociais, de lazer e religiosas, eles estão mandando um recado para esse desejo. Eles estão fazendo o furinho na bola.  E todos nós somos atingidos por esse recado “não dito”.

Fico olhando para os jovens, incluindo meus filhos, e me perguntando: quantos bois são necessários matar para resistir aos encontros dos amigos, a ida aos bares, ao futebol, aos churrascos e festas? Todas essas atividades já estão acontecendo e os chamando para participar. Falo isso dos que estavam ou estão em isolamento. Porque existe um grupo que nunca fez isolamento algum, burlou o que pode e com muita maestria, diga-se de passagem, todas essas normas. E muitos desses não desenvolveram a doença (o que não significa que não ajudaram a espalhar a doença). Este fato acabou colaborando na crença de que eles, os jovens, são “imunes” e a que essa doença tem baixa letalidade.

Penso agora no vídeo que circulou esses dias dos “inocentes do Leblon”.

Imagens da reabertura dos bares no Leblon, RJ.

Entre as falas captadas estavam a pouca importância com essa doença, sua disseminação e letalidade. Aparentemente, nada diferente dos outros lugares que abriram seus bares para a garotada. Mas, a diferença existe não  quanto ao comportamento e sim quanto às consequências.

Para onde vai essa garotada do Leblon caso seja infectada? E a quem contaminará? E para onde vão os jovens da Baixada, por exemplo, caso ocorra o mesmo? Que tipo de assistência terão? E ainda, quantos serão os contaminados por eles caso fiquem doentes?

Dizia o rapper Emicida em uma entrevista, o que já era percebido por nós: a grande letalidade desse vírus é a desigualdade social.

Existe um inconsciente operando e regendo a população, tornando muito difícil para todos resistir ao seu encanto. Quem tem conseguido se manter consciente tem sido como o personagem Ulisses, amarrado no mastro de seu navio, pelos seus marinheiros. Por sinal, essa analogia serve também para dizer que é a vida comunitária e fraterna, mesmo que à distância, que tem sido para nós, os marinheiros  de Ulisses, a corda que nos amarra ao mastro desse navio que navegamos.

Quando o bem cede ao mal, mesmo que um pouquinho como disse no título desse texto, esse inconsciente ganha muita força e as cordas se tornam fracas e a bola murcha.

Herbert James Draper: ‘Ulisses e as sereias’, pintura de 1909 (Reprodução)

Na dedicação de evitar qualquer tipo de julgamento, olhemos. Quando os pais cedem aos filhos suas brincadeiras na rua, quando os jovens cedem ao desejo de se encontrar, quando as famílias cedem às festividades, quando as escolas cedem às aulas presenciais,  quando os templos religiosos cedem a abertura de suas celebrações,  permitimos que os furinhos se alarguem e que a anormalidade tome lugar na realidade. E, em última instância, vamos abrindo mão do bem.

Quero me ater nesse momento à possível abertura dos templos religiosos, especificamente na igreja católica, na qual pratico a minha fé.  Em alguns lugares já reabriram, mas em outros, como em minha cidade, ainda permanecem fechadas em via de reabertura a partir de um protocolo.

As religiões, e digo especificamente da minha, são espaços de cultivo e preservação da vida, dom maior que Deus nos deu: vai e escolhe a Vida.  Somos guardiões da vida. Por ela devemos lutar e defendê-la de qualquer ameaça. Seja ela do campo objetivo e material, ou seja em sua imaterialidade e sacralidade

Nada justifica se abrir para o mal, mesmo que seja um pouquinho. Mesmo que este esteja revestido de bem. O Bem é Deus e se estamos ao seu lado é a esse Bem que devemos servir. São 67.113 pessoas, com nome e sobrenome, criaturas do Altíssimo que foram ao seu encontro precocemente.  São milhares de pessoas e famílias enlutadas, chorando seus mortos ou lutando pela vida em um hospital. É a Páscoa de Nosso Senhor vivida na nossa gente e de forma mais cruel nos pobres e pequeninos, os por Ele amados.

É a Páscoa de Nosso Senhor vivida na nossa gente e de forma mais cruel nos pobres e pequeninos, os por Ele amados.

A hora é de defender a vida, de lutar por ela, de denunciar o que vem acontecendo como nosso povo diante desses governantes. É hora de gastar toda nossa energia lutando pelo Reino e amparando os sofredores, amarrando nosso povo ao mastro para livrá-lo do canto da sereia da dita normalidade, indo contra a maré nesse mar nebuloso que envolve os fiéis em outra fidelidade apenas com a aparência de boa.

INEXISTE protocolo algum que possa proteger nosso povo indo às celebrações. Isso é uma ilusão e faz parte da sustentação da anormalidade como realidade.  É um reforço nesse inconsciente coletivo, nessas trevas que se abateram sobre nós e que agora se disfarça de luz. 

No entanto, não devemos nos deixar enganar. Precisamos ser luz de verdade.  Nos manter acordados e de olhos bem abertos diante da noite escura,  mesmos que nossos olhos pesem clamando pelo sono. Precisamos ajudar nosso povo a entender a gravidade do momento, que nada passou e que vai demorar a passar. Se flexibilizamos, a mensagem que estamos enviando, mesmo com as melhores intenções, é que o pior passou e que a gravidade arrefeceu.

Entendo as dificuldades de natureza econômica de manutenção da instituição e de todos que ganham seu pão trabalhando nas atividades da igreja. Mas assim como tem sido com o povo mais pobre, a instituição haverá de encontrar caminhos de solidariedade que possam permitir a sua subsistência.

É possível que haja também algo de natureza religiosa que nos diz respeito às outras denominações cristãs que já estão realizando seus cultos, e, algumas, diga-se de passagem, sem nenhum protocolo, e outras ainda, que sequer fecharam. Mas isso não pode nos fazer sair do caminho da verdade. Lamentamos por esses irmãos e pelo mal que possam ter realizado, mesmo querendo e pregando o bem.  E, se ao final desse tempo formos poucos, temos o consolo e a força de Nosso Senhor: não tenham medo pequeno rebanho.

O momento ainda é de manter a bola fechada, sem furos ou com estes bem pequeninos, que possam ser tamponados. Podem me dizer: tudo já está aberto. Mas nós não somos esse tudo. Nós fomos chamados a ser a voz que clama no deserto. É no deserto o nosso chamado. É na contramão que Jesus foi chamado para ser fiel à escolha pela Vida e, por isso, atravessou seu deserto com altivez. Em fidelidade àquele que seguimos mantenhamos nossos corações abertos e nossas portas fechadas até que tenhamos um pouco mais de segurança para nos encontrarmos em nossos templos, igrejas e capelas.

***

Nem normal, nem novo normal, mas bem viver

*Publicado originalmente no IHU em 07 de Julho de 2020.

Metade de 2020 vai passando e estamos diante de uma pandemia gravíssima. Em alguns lugares do mundo com mais gravidade: Brasil, por exemplo; outros com menos: Nova Zelândia, por exemplo. E a crise econômica que já estava instalada antes e está piorando durante, será agravada depois da pandemia afetando todo planeta.

De janeiro até agora uma pergunta tem se repetido: “Como será a vida no pós-pandemia?” As primeiras previsões, por parte de muitos, era otimista: “Teremos um mundo melhor”. Mas o tempo foi passando e fomos assistindo situações das mais grotescas.

Muitos estão comemorando a volta ao “normal”. Outros falam de um “novo normal”. Apontaremos aqui para outra direção. Talvez tal direção seja “um sonho acordado da mente humana”, como diria o filósofo L. Feuerbach, quando se referia à religião, lá no século dezenove. Contudo, antes de chamar a utopia do Bem Viver de irrealizável, pelo menos se pergunte o que é “normal” ou o tal “novo normal”. Faça um esforço, se possível, de olhar a realidade e verificar se o que está acontecendo é uma situação na qual toda a vida que peregrina por este planeta vai em direção, no modelo que predomina, isto é, de relações capitalistas, de conduzir a natureza, e nela o ser humano, a um grau superior de convivência e harmonia. A um grau no qual possamos afirmar que há condições de alcançar dignidade fundamental de existência para todos os seres vivos. O que seria o “normal” ou o “novo normal”?

1. O normal

Fui ao dicionário buscar sinônimos: habitual, natural, comum, usual, corriqueiro, frequente, ordinário, trivial, banal, vulgar.

Seria habitual não se espantar diante de quase 70 mil mortos e daqui uns dias bem mais? Ou buscar aquelas explicações estapafúrdias que dizem: “Durante o ano morre muito mais gente!”? Lembrando que a COVID-19 já matou muitos mais gente que qualquer outra doença, e mesmo acidentes de trânsito, e antes do fim do ano. Por que foi habitual o espanto com a morte de 71 pessoas no acidente com avião da Chapecoense?

É natural que diante de uma pandemia com alto índice de contágio saiamos às ruas para comprar quinquilharias, ou algo que não seja realmente necessário? Mas alguns podem dizer: “Minhas meias estão velhas, preciso ir ao shopping adquirir meias novas. Ora, como posso ser feliz sem meias novas?”. É natural pensar assim?

É usual agredir pessoas que se dedicam a salvar vidas porque estas estão dizendo que o seu parente morreu de COVID-19 e não de infarto?

O que nos leva a agir de forma trivial com pessoas que pensam diferentes de nós?

Vivemos relações na qual naturalizamos o que não é natural. Odiar é comum, mas não é comum cultivar o ódio. É frequente que cometamos erros com determinados saberes. Por exemplo, posso não saber qual é capital do Butão, mas afirmar que a terra é plana é um pouco demais, não é normal. Vivemos uma banalização do saber e, muitas vezes, admiramos o vulgar.

Ora, em mundo onde um por cento da população detém a maior parte da riqueza produzida, é fundamental que se encontre entre os outros noventa e nove por cento, aliados e aliadas, conscientes ou inconscientes, que digam ser a vida destes um por cento normal.

É normal que depois da pandemia voltemos aos níveis de consumo anteriores, que continuemos a olhar para o nosso próprio umbigo comprando, comprando, e comprando? Inclusive comprando muito remédio para nos manter de pé para continuar comprando? Quem acredita que um crescimento infinito é possível em um mundo finito, conclui um economista americano em 1973, ou é louco ou é economista.

Podem dizer ainda: “É só mais uma pandemia. Morrerão milhares, mas depois a vida continua normal”. É o “normal” que está nos matando, e não apenas a COVID-19. É o normal que está aumentando o número de suicídios no mundo, que está fazendo crescer, assustadoramente, o consumo de drogas, sejam lícitas ou ilícitas, inclusive drogas vendidas nas farmácias livremente. Enfim, é o normal que está aumentando a desigualdade planetária e você acreditando que um dia será uma pessoa normal.

2. O novo normal

Aqui existe uma enorme dificuldade. O Google não ajuda muito. As possibilidades são quase infinitas. Um montão de intelectuais quer ser o primeiro a definir o “novo normal” no pós-pandemia. Poucos vão em direção contrária, e os que vão quase não são ouvidos, pois são falas que dizem, por exemplo, que não será possível continuar a organizar a sociedade planetária em base ao que se chama “desenvolvimento”, mesmo que seja o tal “desenvolvimento sustentável”.

Ouvir um dirigente de futebol afirmar que a federação montou um protocolo invejável para que as partidas fossem absolutamente seguras é altamente reconfortante (sic). Poxa, não mais o normal, é um “novo normal”.

Alguns poucos estão pensando, de fato, em um novo modelo de sociedade, pois tudo indica que o normal ou novo normal não será capaz de responder a crise civilizatória que está aí. E se novas pandemias surgirem, pior ainda.

De um lado temos políticos e partidos, nos quais tem gente boa, batendo cabeça para definir quem vai ocupar o cargo de “gerente” na prefeitura, no estado ou no país. Sim, gerentes da estrutura de poder do capital. O poder é econômico e pouco governamental.

Do outro lado trinta por cento da população planetária que não tá nem aí para o resultado das relações de produção: “farinha pouca meu pirão primeiro”. São aliados dos tais um por cento que realmente tem poder e ainda podem arrastar os que precisam se alimentar agora, pois estes não podem esperar que a sociedade resolva as contradições sociais rapidamente.

Ora, vem logo a pergunta: “o que fazer então?”.

3. O Bem Viver

Qualquer pessoa que afirmar ter uma solução para a crise civilizatória que estamos vivendo, seria como uma pessoa que afirma saber física quântica. Porém, o fato de não ter uma resposta pronta e acabada não significa que devamos nos render ao que esta aí. Precisaremos pensar de forma processual e por etapas. Os visionários muitas vezes sofrem muito. Percebem a necessidade de mudança com profundidade, mas ainda não conseguem propor exatamente um caminho que possa contagiar a maioria, pois a maioria ainda pensa dentro de uma estrutura mental que pode ser chamada de “normal”.

É fato: “esta economia mata”, diz o Papa Francisco. Assim sendo, é preciso repensar o modelo. E assim, ainda na linha de Francisco, diante de uma “terceira guerra mundial em parcelas que instalou um genocídio”, será necessário reorientar o caminho que a humanidade está fazendo.

E, por incrível que pareça não se trata de criar algo absolutamente novo, mas de resgatar uma sabedoria que pode ser chamada, em linhas gerais, de Bem Viver.

Os povos tradicionais encontraram uma forma de sobreviver que possibilitou uma força de resistência capaz de passar pela dominação colonial sem desaparecer. Uma das expressões que os povos andinos usam para denominar este modo de vida é sumak kawsay, que pode ter como uma tradução possível o Bem Viver. Trata-se de buscar relações humanas calcadas não na acumulação, no desperdício, em sugar da natureza tudo o que for possível para um modo de vida opulento, mas na reciprocidade, na solidariedade, na empatia e na harmonia com o conjunto da natureza.

Começa a surgir gente que pensa este modelo em sintonia com a situação da humanidade no presente estágio civilizatório. Como exemplo podemos citar o equatoriano Alberto Acosta, o uruguaio Eduardo Gudynas, e o boliviano Pablo Solon, entre outros e outras. Também em outras latitudes, como na Europa se pode citar a francesa Genevieve Azam e também francês Serge Latouche na linha do decrescimento, isto é, na afirmação de que o modelo desenvolvimentista está fadado a esgotar a vida planetária.

Muitos podem dizer: “Doce utopia, muito bonito, contudo irrealizável”. Talvez. Contudo, estamos vivendo relações capitalistas faz tempo. De forma mais agressiva nos últimos duzentos anos. O socialismo real acabou não se configurando como alternativa. Houve, sem dúvida, crescimento humano neste processo. Porém, também sem dúvida, tal crescimento custou caro. Não estaria na hora de redirecionar o que se entende por “progresso” na direção de um maior equilíbrio nas relações que compõem a vida no planeta? Vamos “pagar para ver” para onde o “deus mercado” nos conduzirá?

Sim, precisaremos pensar e agir de forma processual. Precisaremos estabelecer etapas. Precisaremos encontrar a intercessão que une todos e todas que acreditam em outro mundo possível. Precisaremos na etapa atual, por exemplo, defender a democracia como instrumento político que permita o debate e a configuração do novo horizonte. Mas não podemos nos render ao modelo político representativo que está esgotado. Não podemos mais confiar totalmente no modelo econômico totalmente extrativista.

Seguindo aquela ideia gandhiana, precisaremos ser a mudança que desejamos no mundo. Anciãos, adultos e jovens, homens e mulheres, deveremos constituir um novo padrão de vida, não um novo normal. Quanto tempo será necessário? Não há previsão possível. Previsível é que da forma como está não haverá futuro. Trabalhemos agora no terreno pedregoso para que outras gerações possam plantar, e outras ainda possam colher.

É interessante que muita gente que prega o normal se afirma cristã. Termino esta reflexão no domingo no qual o texto bíblico é o Evangelho de Mateus 11,25-20. Neste trecho Jesus faz uma oração ao Pai dizendo:

“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequeninos”.

Parece que boa parte dos cristãos não confia muito nisso. O Papa Francisco tem sido uma grande exceção. Ele tem afirmado que nada pode ser feito para o povo, mas somente com o povo, isto é Bem Viver, isto é o UBUNTU da tradição africana: eu só posso ser se você for comigo. Essa é a nossa esperança, sem messianismo, sem salvadores da pátria. Quem viver verá.

Matérias sobre pastor que sofreu espancamento na Índia são desinformativas

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Em 01 de julho, a coluna Giro Cristão disponível no site da Rádio 93 FM, emissora com sede na cidade do Rio de Janeiro, do Grupo MK, do senador evangélico Arolde de Oliveira (DEM/RJ) focada em temas cristãos, publicou uma matéria intitulada: “Pastor é espancado na Índia depois de orar por um doente”.De acordo com o texto, assinado pela jornalista Marcella Bastos, oito ataques contra cristãos teriam acontecido na Índia após a flexibilização do isolamento social por causa da Covid-19. 

Um deles teria sido contra o pastor Suresh Rao. O ato contaria com cerca de 150 pessoas que o arrastaram e espancaram, sob a justificativa de que Rao teria orado por uma pessoa doente. “Eles me arrastaram para a rua e me jogaram no chão. Começaram a pisar em mim, rasgaram minhas roupas, me chutaram por todo o corpo e socaram meu olho esquerdo. Sofri uma lesão ocular grave como resultado de um coágulo sanguíneo”, explicou a vítima em depoimento. Segundo a matéria, que não cita a fonte da notícia, os agressores acusaram o pastor de converter hindus ao Cristianismo, afirmando que a Índia seria uma nação hindu e não teria lugar para cristãos. 

Bereia verificou que sites de notícias cristãs do exterior publicaram matéria sobre o caso, dias antes. Um deles é o CBN News  (Christian Broadcasting Network) que noticiou a agressão ocorrida no dia 21 de junho, ocasião em que o Pastor Rao estaria orando por um doente na vila de Kolonguda. As informações foram baseadas em texto de outro grupo cristão que publica notícias na internet: International Christian Concern (ICC), instituição de caridade, sem fins lucrativos, que se declara prestadora de assistência, conscientização e serviços jurídicos a igrejas cristãs perseguidas em todo o mundo, desde 1995. A matéria na coluna “Persecution” [Perseguição], provavelmente a base para as demais, relaciona o aumento repentino de ataques a cristãos na Índia a partir da suspensão do isolamento social imposto contra a Covid-19. 

“Eles disseram que a Índia é uma nação hindu e que não há lugar para cristãos”, explicou Rao ao ICC. Em outro ponto, ele afirma: “Estou preparado para esse tipo de eventualidade”, explicou o pastor Rao. “Conheço o custo de servir a Jesus nessas aldeias remotas e continuarei a servir as pessoas desta região”. 

O ICC aponta também um outro incidente da mesma natureza no estado indiano de Tamil Nadu, onde uma igreja teria sido reduzida a cinzas, deixando 100 cristãos sem local de culto. “Fiquei tão angustiado e com dores no coração“, disse Ramesh, pastor da Igreja da Paz Real, em entrevista ao ICC, replicada também na matéria da CBN News.

“Foi um trabalho árduo por dez anos construir a igreja. Todo o trabalho árduo e doações de sacrifício dos pobres membros da congregação foram derrubados no chão. Tudo o que resta são cinzas”. Na entrevista, ele acrescentou: “Nos últimos dez anos, radicais me disseram várias vezes para fechar a igreja. Pela graça de Deus, fui capaz de suportar todas essas dificuldades e abusos, mas desta vez é uma devastação total”, acrescentou o pastor.

Um terceiro exemplo apontado na publicação diz respeito a possíveis ameaças de radicais aos membros da Igreja Evangélica Leigos, realizadas em 13 de junho, feitas quando eles estavam montando a igreja para reabrir após o confinamento motivado pela Covid-19. Como explicitado na matéria, o pastor Augustine salientou que os radicais estariam dizendo aos cristãos que orar ou se reunir na igreja era proibido e que os cristãos haviam causado a propagação do vírus.

“Não sabemos o que o futuro reserva”, disse o pastor Augustine. “No entanto, estamos preocupados que os radicais não nos permitam ter um culto na igreja”.

O texto apresenta o temor dos cristãos indianos, preocupados que a perseguição continue à medida que mais pessoas comecem a emergir do isolamento social.

O site evangélico brasileiro Gospel Mais também publicou a notícia sobre o espancamento do pastor Suresh Rao, além de ter abordado o momento político na Índia, considerando-o como extremista, tendo à frente o líder ultranacionalista Narendra Modi, do Partido Bharatiya Janata, no comando do país desde 2014. Gospel Mais sinaliza ainda as restrições da liberdade religiosa aprovadas em 2018, baseadas em argumento de que evangelistas “forçam” ou dão benefícios financeiros aos hindus para convertê-los ao cristianismo.

Entenda a situação dos cristãos na Índia

A Índia é o segundo país mais populoso do mundo, ficando atrás da China. De acordo com o World Christian Database (WCD), a maior religião do país é o hinduísmo, com 72,5% da população. A religião predomina a Índia há séculos (começou a se desenvolver entre 500 e 300 a.C.). A segunda maior religião na Índia é o islamismo, com 14,4% da população. Já o cristianismo desponta como a terceira maior religião no país, com 4,8% da população. Em seguida, vêm as chamadas etno-religiões, com 3,8% da população, que são religiões tribais tradicionais anteriores à chegada do hinduísmo e do budismo no país. Por último, está o budismo, com 0,7% da população, e se originou na Índia Antiga em algum momento entre os séculos 4 e 6 a.C., de onde se espalhou por grande parte da Ásia. 

Estudos atribuem a introdução do cristianismo na Índia pelo Apóstolo Tomé, que supostamente desembarcou em Kerala em 52 d.C. Há, porém, consensos de vários estudiosos de que o cristianismo foi estabelecido na Índia pelo século 6 d.C., por algumas comunidades que usaram liturgias sírio-aramaicas.  Os cristãos são encontrados em toda a Índia, entre católico romanos, ortodoxos de várias tradições e evangélicos, com grandes grupos em partes do sul e da costa sul do país, a costa de Konkan, e também no Nordeste da Índia.

Igrejas protestantes e ortodoxas, bem como organizações ecumênicas, conselhos regionais e agências cristãs da Índia estão articuladas no Conselho Nacional de Igrejas da Índia (NCCI, sigla em inglês). O Conselho foi estabelecido em 1914 como Conselho Missionário Nacional e, em 1979, o Conselho se transformou no que é conhecido como Conselho Nacional de Igrejas na Índia. O NCCI é composto por 30 igrejas-membro, 17 conselhos cristãos regionais, 18 organizações da Índia e 7 agências relacionadas. Representa cerca de 14 milhões de pessoas na Índia. 

O Conselho e seus membros constituintes declaram estar ativamente engajados nos serviços religiosos, na construção da nação e na transformação social. É um Conselho autônomo inter-confessional que indica promover e coordenar vários tipos de atividades pela vida e pelo testemunho responsáveis, pela defesa da dignidade humana, pela justiça ecológica e econômica, pela transparência e prestação de contas e pela equidade e harmonia, através de seus membros constituintes e em parceria com a sociedade civil, ONGs, movimentos populares e simpatizantes em nível local, nacional e internacional.

Cristãos indianos sempre contribuíram significativamente para a vida pública na Índia, segundo o NCCI, e estão representados em várias esferas da vida nacional, entre ministros de Estado, governadores e comissários eleitorais principais. 

A intolerância religiosa na Índia

Apesar da constituição da Índia ser secular e tolerante no tocante à liberdade religiosa, de haver representação religiosa ampla em vários aspectos da sociedade, incluindo no governo, do papel ativo desempenhado por órgãos autônomos, tais como a Comissão Nacional de Direitos Humanos da Índia e a Comissão Nacional para as Minorias, e do trabalho de organizações não- governamentais, há um histórico de perseguição a cristãos e muçulmanos na Índia. Vinham sendo ações pontuais de grupos radicais hindus que consideram tanto o islamismo quanto o cristianismo religiões estrangeiras que devem ser removidas do país, desta forma, muçulmanos e cristãos enfrentam intolerância de parte destes grupos. Já os budistas e siques (membros do siquismo, religião monoteísta que se originou no século XV, em Punjabe, cidade que limita a Índia e o Paquistão) são muito mais aceitos pelos radicais hindus, pois essas religiões se originaram em território indiano.

Pesquisa dos professores da Universidade Tecnológica Nanyang de Singapura, Nilay Saiya, Stuti Manchanda, mostra que, desde 1967, sete dos 29 estados da Índia têm imposto leis de ‘anticonversão’, que são projetadas para impedir que indivíduos e grupos convertam ou tentem converter, direta ou de outra forma, pessoas através de meios ‘forçados’ ou ‘fraudulentos’, incluindo ‘atração’ ou ‘ indução’. Saiya e Manchanda afirmam: 

“Esse pode parecer um objetivo nobre o suficiente [liberdade religiosa]; no entanto, argumentamos que as leis anticonversão realmente servem para gerar violenta perseguição anticristã, criando uma cultura de vigilantismo nos estados onde essas leis existem. Nossa análise conclui que os estados que aplicam leis anti-conversão têm, de fato, estatisticamente mais probabilidade de dar origem a violenta perseguição contra os cristãos do que estados onde essas leis não existem”.

A situação se agrava desde 2014, quando o partido de extrema-direita Bharatiya Janata (BJP, na sigla em inglês) tomou o poder e tem incentivado a ideia de que a Índia deve ser uma nação hindu, com o hinduísmo como sua única fé. Ligada à legenda, a organização Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS) é a principal responsável por disseminar essas ideias, por meio da perseguição religiosa.

Cristãos e muçulmanos têm visto o aumento drástico dos casos de agressão física, de ataques contra igrejas e comunidades, de prisões arbitrárias e de violência sexual, desde que o BJP conquistou a maioria dos assentos no Parlamento e seu líder, Narendra Modi, assumiu o comando do país como primeiro-ministro. Modi renovou o mandato nas eleições de 2019.

O objetivo expresso pelo governo de Modi é fazer da Índia uma nação 100% hindu, livre de outras religiões minoritárias até o fim de 2021. Os poderes Legislativo e Judiciário e organizações ligadas ao governo têm sido incentivados a trabalhar para isso.

Um relatório da organização Human Rights Watch (Observatório de Direitos Humanos) trata dos graves eventos ocorridos em 2018, com perseguição da parte do governo do BJP a ativistas, advogados, defensores de direitos humanos, jornalistas que se colocaram diante dos ataques a minorias religiosas e comunidades marginalizadas. Foram contabilizados 18 ataques apenas no mês de novembro daquele ano.

Em 2017, o jornal O Globo noticiou a prisão de um grupo de 32 católicos enquanto ouvia músicas de Natal no estado de Madhya Pradesh, na Índia, sob suspeita de tentar converter outras pessoas ao cristianismo. Na data, quando um grupo de sacerdotes foi à delegacia de polícia indagar sobre as detenções, o carro em que estavam foi incendiado no estacionamento. Os suspeitos pertencem a um grupo hindu de direita, de acordo com informações do secretário geral da Conferência Episcopal da Índia, Theodore Mascarenhas.

O NCCI (Conselho Nacional de Igrejas da Índia) tem, frequentemente, se manifestado publicamente contra as ações violentas contra cristãos e muçulmanos, por meio de cartas abertas dirigidas ao primeiro-ministro. Da mesma forma a Conferência Cristã da Ásia, organização regional que representa 15 conselhos nacionais de igrejas de mais de 100 denominações cristãs.

Lei recentemente aprovada pelo parlamento indiano foi condenada pelo NCCI e teve repercussão mundial. É a emenda à Lei da Cidadania, aprovada em 2019, que dá cidadania aos hindus, sikhs, budistas, jainistas, parses e cristãos não-indianos residentes na Índia antes de 2014, mas exclui os muçulmanos. O comissariado de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) afirma que esta lei é “fundamentalmente discriminatória”.

O relatório do Alto Comissário dos Direitos Humanos da ONU, de março de 2018, já afirmava:

“Na Índia, estou cada vez mais perturbado pela discriminação e violência dirigida a minorias, incluindo dalits e outras castas programadas, e minorias religiosas como muçulmanos. Em alguns casos, essa injustiça parece ativamente endossada por autoridades locais ou religiosas. Estou preocupado com o fato de as críticas de políticas governamentais serem frequentemente contestadas por alegações de que constituem sedição ou ameaça à segurança nacional. Estou profundamente preocupado com os esforços para limitar as vozes críticas através do cancelamento ou suspensão do registro de milhares de ONGs, incluindo grupos que defendem os direitos humanos e até grupos de saúde pública”.

* * *

Diante da verificação empreendida pelo Coletivo Bereia, é possível afirmar que casos de intolerância e perseguição religiosa contra cristãos e outras minorias religiosas, em especial muçulmanos, que eram pontuais na Índia há muitas décadas, estão ocorrendo com mais intensidade desde que o partido de extrema-direita Bharatiya Janata, com o primeiro ministro Narendra Modi, chegaram ao poder em 2014. 

É possível que o relato do espancamento do pastor Suresh Rao tenha ocorrido, diante deste quadro, no entanto, este caso específico não pode ser comprovado nas pesquisas empreendidas pelo Bereia. A matéria da Rádio 93 FM, do Rio, publicada também no Gospel Mais, a partir de veículos de notícias cristãs internacionais, é classificada, portanto, como imprecisa. A matéria não apresenta dados relevantes como a fonte de onde foi baseada a notícia, a data do ocorrido, o nome da igreja ao qual o pastor está vinculado, a cidade onde ocorreu a possível ação violenta e as providências tomadas por justiça em relação a este caso de violência e o contexto em que se dá o caso (exceção do Gospel Mais, neste ponto).

A imagem utilizada como capa da notícia é o registro de um protesto entre hindus e mulçumanos, e não entre cristãos (Foto: Reuters/Danish Siddiqui)

Além disso faz uso de foto enganosa. A foto de um homem sendo espancado atribuída pela Rádio 93 FM ao pastor Rao, é, na verdade, da Agência Reuters, de caso ocorrido em 26 de junho de 2020, com ataque ao muçulmano Mohammad Zubai que se dirigia a uma mesquita. A possível fonte localizada pelo Coletivo Bereia, o International Christian Concern também não oferece dados sobre o caso, apenas diz que o pastor atua no estado de Telangana mas não publicou fotos atribuídas ao caso.


Este tipo de matéria sobre a perseguição religiosa desinforma, pois, além de reforçar o sensacionalismo de imagens de violência, silencia sobre outros grupos religiosos que são alvo, além dos cristãos, até mesmo com mais discriminação por leis. O caso do uso da foto enganosa é bem ilustrativo desta postura desinformativa. Com isso se faz, leitores pensarem que apenas cristãos sofrem violações naquele país, reforçando imaginários de vitimização exclusiva. De igual modo, as matérias ignoram as ações diante desta violação de direitos humanos nos países em que ocorre a perseguição, inclusive as dos próprios Conselho de Igrejas locais e as pressões de órgãos internacionais por procedimentos de justiça nestes casos, levando à falsa compreensão de que nada é realizado.

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Referências da Checagem:

Pastor que orava por doentes é arrastado e espancado por multidão na Índia. Disponível em: https://noticias.gospelmais.com.br/pastor-orava-espancado-multidao-india-136861.html. Acesso em 06 de julho de 2020.

Pastor espancado por Mob, igreja incendiada enquanto a perseguição cristã violenta aumenta na Índia.  Disponível em: https://www1.cbn.com/cbnnews/world/2020/june/pastor-beaten-by-mob-church-set-on-fire-as-violent-christian-persecution-escalates-in-india. Acesso em 06 de julho de 2020.

Giuliano Martins Massi. Cristianismo na Índia: os cristãos de São Tomé, sua constituição, suas tradições e suas práticas religiosas. Dissertação de Mestrado, Ciência da Religião UFJF. Disponível em: http://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UFJF_7564a2e9be6e6356aa1ff80bf65c2653   Acesso em 06 de julho de 2020.

Católicos são presos na Índia após cantar músicas de Natal. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/catolicos-sao-presos-na-india-apos-cantarem-musicas-de-natal-22195956. Acesso em 06 de julho de 2020.

Nilay Saiya, Stuti Manchanda. Anti-conversion laws and violent Christian persecution in the states of India: a quantitative analysis. Ethnicities Volume: 20 issue: 3, page(s): 587-607  Disponível em https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1468796819885396. Acesso em 07 jul 2020

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy. A Constituição da Índia. Jus.com.br, jan 2008. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/10831/a-constituicao-da-india#:~:text=A%20constitui%C3%A7%C3%A3o%20da%20%C3%8Dndia%20principia,a%20igualdade%20e%20a%20fraternidade.. Acesso em 07 jul 2020

O Estado de São Paulo. Ódio religioso: políticas de líder indiano acendem barril de pólvora, 6 mar 2020. Disponível em: https://outline.com/aKrUdz. Acesso em 07 jul 2020.

El País. Índia dá vitória à tradição e ao nacionalismo hindu nas urnas, 24 mai 2019. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/23/internacional/1558592881_394460.html Acesso em 07 jul 2020. 

NCCI (Conselho Nacional de Igrejas da Índia). Disponível em: https://ncci1914.com/1825/2014/07/03/general-news/. Acesso em 07 jul 2020

Conferência Cristã da Ásia. Disponível em: https://cca.org.hk/attacks-on-christians-in-india/. Acesso em 07 jul 2020

Human Rights Watch. Disponível em: https://www.hrw.org/world-report/2019/country-chapters/india. Acesso em 07 jul 2020

ONU, Direitos Humanos. Disponível em https://news.un.org/en/story/2019/12/1053511 Acesso em 07 jul 2020

Zeid Ra’ad al-Hussein (March 2018). High Commissioner’s global update of human rights concerns (Report). UN Office of Human Rights. Dsiponível em: https://www.ohchr.org/EN/NewsEvents/Pages/DisplayNews.aspx?NewsID=22772&LangID=E. Acesso em: 07 jul 2020

Tabibi Tossul – https://tabibitosoul.com/2014/08/12/cristaos-na-india-2a-parte/

Espiritualidade em tempos de pandemia

Claudio de Oliveira Ribeiro*

“Os que confiam no Senhor  renovam as suas forças.

Sobem com asas como águias. 

Correm e não se cansam.

Caminham e não se fatigam” 

(Isaías 40: 31)

“Se não der, tenta ligar
A gente resume a distância
Me conta da tua janela
Me diz que o mundo não vai acabar”.

“Me conta da tua janela”, Canção popular de Anavitória

Para início de conversa…

A pandemia causada pelo coronavírus impactou o mundo todo e trouxe consequências as mais diversas, afetando dramaticamente o âmbito da saúde pública, com um número enorme de mortes. Afetou também a economia, devido às medidas de isolamento social, e à sociedade como um todo, devido aos impactos emocionais no enfrentamento da doença.

As inquietações e receios em torno da pandemia suscitaram reações das mais diversas ao redor do mundo. Entre elas, destacamos o reforço de diferentes formas de espiritualidade, religiosas ou não, para o enfrentamento das questões relativas à morte, à fragilidade física e emocional e ao isolamento social.  

Ao mesmo tempo, muitos temas e argumentos religiosos se destacaram nas conversas e debates, seja pelo clima de obscurantismo estimulado por alguns grupos, seja pela busca de uma compreensão mais ampla e bem fundamentada de um fenômeno que é social. Como entender mais adequadamente esse quadro é uma pergunta que vários grupos têm feito e muitos têm se dedicado a refletir sobre ela.

As causas da pandemia, por exemplo, têm sido analisadas por várias pessoas de diferentes setores do conhecimento. Tais análises não estão dentro do nosso objetivo neste pequeno texto, mas são muito importantes. Indicamos as reflexões científicas do teólogo Leonardo Boff, que nos apresentou uma síntese no artigo “A terra se defende”, publicado pelo Instituto Humanitas da Unisinos (IHU).

O autor afirma que “a pandemia do coronavírus nos revela que o modo como habitamos a Casa Comum é nocivo à sua natureza. A lição que nos transmite soa: é imperioso reformatar a nossa forma de viver sobre ela, enquanto planeta vivo. Ela nos está alertando que assim como estamos nos comportando não podemos continuar. Caso contrário a própria Terra irá se livrar de nós, seres excessivamente agressivos e maléficos ao sistema-vida”.

Em nossas reflexões sobre espiritualidade vamos nos ater às consequências da pandemia, embora reconheçamos que uma visão aprofundada sobre suas causas seja de grande importância para nos sensibilizar na direção de outras formas de espiritualidade,  que reforcem a sustentabilidade da vida e do mundo,  e que nos indiquem a necessária crítica ao sistema econômico atual e à forma excludente como a sociedade está organizada. Todas essas dimensões estão relacionadas à espiritualidade.

O que a pandemia tem nos mostrado

Proponho que tenhamos um outro olhar: entre os vários aspectos negativos desta situação tão difícil e dramática que vivemos, há aqueles que revelam possibilidades para a reorganização da sociedade, tanto em termos das vivências pessoais no cotidiano quanto na estrutura social. O sociólogo português Boaventura de Souza Santos chamou estas possibilidades de “a cruel pedagogia do vírus”, título de seu mais recente livro.  

Entre as conclusões que podem ser tiradas deste processo, destacamos:

  • A pandemia revelou que o sistema econômico no qual a sociedade está estruturada, mesmo com as variações entre os países e continentes, não atende às demandas da dignidade humana e dos direitos básicos das pessoas. Há um pequeno texto deste mesmo autor, denominado “Para o Futuro Começar”, que nos oferece uma boa síntese;
  • A situação no Brasil mostrou que os riscos e os maiores problemas se concentram nos setores mais pobres da sociedade e que a realidade das populações de áreas favelizadas e de moradores de rua é dramática;
  • O número expressivo de mortes causou forte inquietação e insegurança para a maioria das pessoas em relação ao futuro da vida, tanto em termos pessoais quanto planetário;
  • O isolamento social manteve boa parte das pessoas em suas casas. Isso trouxe variadas consequências. Para as famílias que possuem moradias minúsculas, a convivência se tornou tensa, com maior número de violência doméstica e conflitos (uma boa análise deste ponto encontramos no texto “Patroas, empregadas e coronavírus”, da antropóloga Debora Diniz e da cientista política. Giselle Carino).

  • As atividades profissionais desenvolvidas pelas pessoas em casa pela Internet reforçaram a precarização as relações de trabalho, aumentaram o volume de tarefas e subverteram a noção do lar como espaço de aconchego e descanso;
  • Houve uma movimentação social muito significativa, com iniciativas e campanhas de solidariedade, envolvendo amplos setores sociais, profissionais de saúde e grupos de defesa dos direitos humanos e da cidadania. Entre as diversas experiências, uma campanha comunitária no Rio de Janeiro nos chamou muita atenção. Ela está apresentada neste vídeo, que articula a assistência social necessária para as famílias pobres com a firme defesa dos direitos humanos e da cidadania. Um testemunho belíssimo!
  • Uma parcela das pessoas, devido ao isolamento social, se sentiu sensibilizada em relação à valorização das relações humanas, da amizade e de visões mais humanizantes, e à necessidade de se dar maior atenção aos filhos. Há muitas reflexões teológicas e pastorais sobre esses aspectos. O teólogo Faustino Teixeira, no artigo “A dimensão espiritual da crise do coronavírus”, faz uma análise dos impactos globais da pandemia, destacando a crise como oportunidade de se encarar a precariedade e a fragilidade humanas;
  • Sinais de diminuição da poluição nas grandes cidades e a redução do consumo desenfreado. Quem desejar um aprofundamento deste tema, encontrará no artigo “Voltar à normalidade é se auto-condenar”, de Leonardo Boff, uma reflexão muito consistente e desafiadora.

Todos esses aspectos, complexos e desafiadores, mostram caminhos significativos para a vida e para a vivência espiritual.  

Mas, afinal, o que é espiritualidade?

Sabemos que entre uma série de aspectos que marcam a vivência humana está a incessante busca de superação de limites, do ir além das contingências e das ambiguidades históricas, da procura por absolutos que possam redimensionar a relatividade e a precariedade da vida, assim como se busca também o desfrutar das potencialidades, realizações e alegrias da vida nos seus mais diversos planos. Muitos denominam esta dimensão humana como espiritualidade.

Em certa medida, tal visão está relacionada ao olhar crítico das teologias que tem produzido uma saudável distinção entre fé e religião. É fato que tal relação é complexa e possui numerosas implicações, mas, no que diz respeito às nossas reflexões, é preciso afirmar que a primeira, a fé, requer uma espiritualidade que, embora seja autenticamente humana, vem de uma realidade que transcende as engrenagens históricas. Nesta perspectiva, a espiritualidade humana é recebida, acolhida. A espiritualidade, irmã da fé, é vista pela teologia como dom divino. 

Nas reflexões mais recentes, tem sido cada vez mais comum a indicação de que a fé é antropológica e que pode tornar-se religião. As experiências religiosas, historicamente, pretenderam e pretendem possibilitar respostas para essa busca, a qual inicialmente nos referimos. Na diversidade de tais experiências confluem elementos os mais diversos, desde os preponderantemente numinosos, “santos”, espontâneos e indicadores de uma transcendência, até aqueles marcadamente ideológicos, facilmente identificados como reprodução de filosofias ou culturas e artificialmente criadas. 

Há, entre os estudos de religião, uma série de análises sobre as distinções conceituais entre religião, crença, fé, espiritualidades e outras expressões similares. Em função dos limites de nossas reflexões, destacamos apenas a distinção entre as práticas religiosas mais institucionalizadas e a dimensão transcendente mais ampla, de caráter antropológico, que se expressa no humano e que vai além dos aspectos formais da religião. Em ambas a espiritualidade está presente.

Há também a noção de espiritualidade não religiosa. Ela, conforme nos indica o cientista da religião Flávio Senra, se constitui no “âmbito da crença em Deus que se desenvolve à margem das instituições religiosas ou desligadas de seu antigo pertencimento a instituições religiosas, consideradas as pessoas que se afirmam sem religião ou não afiliadas, mas mantêm a crença em Deus (perspectiva teísta)”.

E como tem se dado a relação entre espiritualidade e a pandemia?

Tanto as formas mais espontâneas de espiritualidade quanto as expressões religiosas mais tradicionais ou institucionalizadas estão presentes no debate acerca da pandemia e do isolamento social. Ambas têm marcado a vida de muita gente e tem estado presente, de diferentes maneiras, em cada situação enfrentada. 

As formas de expressão dessas espiritualidades, como sabemos, são muito diferenciadas. Há visões religiosas que negam a dramaticidade da pandemia, ou mesmo, seguindo argumentos ideológicos obscurantistas em voga, atribuem a disseminação da doença à ira e ao castigo de Deus aos seres humanos pecadores e, até mesmo, à supostos interesses comunistas para afrontar a fé cristã. 

Há abordagens e formas de espiritualidade de caráter mais intimista, que destacam a importância da vida devocional, das orações e da meditação como caminho de equilíbrio interior, considerando que os tempos atuais são de incertezas e inseguranças.

E há aquelas que buscam interpretações de fé mais consistentes, conectadas com os aspectos sociopolíticos evidenciados nesta crise social revelada pela pandemia e ancoradas nos princípios da solidariedade, da comunhão e da responsabilidade com os destinos da vida e do mundo. 

Desafios não nos faltam!

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Claudio de Oliveira Ribeiro é Pastor metodista e Doutor em Teologia (PUC-Rio)

Vale sombrio do luto

A igreja precisa ser um espaço de acolhimento, de escuta, de consolo

Patrícia Regina Moreira Marques

Na história humana, o luto sempre foi um dos temas mais difíceis de serem abordados, ainda mais nesse tempo no qual milhões de vidas são ceifadas em decorrência da pandemia do coronavírus.  É  crucial  o enfrentamento da morte. A dor se transforma em lamento, que resultam em  pesares, tristezas, depressão, ansiedade e muitas outras situações que afetam famílas  e diversos grupos na sociedade. 

 Famílias choram a perda de seus entes queridos vivenciando uma dura realidade jamais pensada. Não tiveram tempo de se despedir de seus queridos, ou até mesmo um funeral não foi possível de ser realizado. Chorar com as pessoas é algo que realizamos nessas situações,  e nesse momento, tentamos chorar virtualmente. Ainda que sintamos a dor da perda, uma sensação de vazio, frieza, impotência, nos acomete imensamente. 

O sentimento de um luto coletivo nos invade também  quando somos sensibilizados com a dor de quem não conhecemos. Nesses momentos a dor do nosso próximo, mesmo que esse próximo esteja tão distante, passa a ser a nossa dor também. Nos meados da década de 1980, um grupo evangélico entoava um cântico formidável.  Uma das estrofes reforçava a empatia: “… ame ao teu próximo como se fosse você, como se a dor que ele sente doesse mais em você…”

Provavelmente  nessa época as dores eram bem  diferentes das atuais, mas já haviam sinalizações de dificuldades  e necessidades para que a igreja passasse a sair de si mesma e olhasse para a necessidade ao seu redor. Uma tentativa de enfatizar a prática das ações de Jesus: ajudar os necessitados, chorar com os que choram, levar amor  e esperança; sinalizações do reino de Deus. 

Igrejas e o luto na Pandemia

Importante lembrarmos que  umas das ações da igreja é ser  terapêutica (do grego, Therapeutikos que serve, que cuida). A igreja precisa ser um espaço de acolhimento, de escuta, de consolo. Um espaço que permita ao enlutado/a expresssar a sua  dor. Essa dor pode estar atrelada ao sentimento de culpa pela decepção com Deus, pela raiva de Deus não ter interferido e salvar  a  pessoa querida.

Ser uma igreja terapêutica é um processo que necessita de empatia, de  tempo, de dedicação e  amor às pessoas.  Ter acolhimento não só para  os membros da igreja, mas para toda a comunidade que necessite.  Ser uma comunidade terapêutica é também ter o conhecimento  de que esse agrupamento é composto por pessoas que podem estar saudavéis ou doentes, mas que todos carecem da graça de Deus, assim nos afirma  Josias Pereira, pastor com  mais de meio século de experiencia pastoral e com formação em Psicologia, em seu texto “ A função terapêutica na comunidade cristã”.

Nesse sentido, entendemos que Deus nos ajuda a ajudarmos uns aos outros. No caso específico da pandemia do coronavírus, temos que aprender a sermos uma nova igreja, que realmente  se preocupa com o ser humano, que deseja seguir o Cristo, amante das pessoas necessitadas, doentes, fragilizadas, marginalizadas, enlutadas. 

As famílias que carregam a dor e os resultados da pandemia precisam ser cuidadas. A práxis desse cuidado é priorizar o encontro com essas pessoas e nesse diálogo construir novos saberes, para caminharem no meio da dor da ausência de quem partiu. Caminhar mesmo mediante ao luto, que inicialmente pode paralisar a (s) pessoa (s). 

Felizmente algumas igrejas já sinalizam muitas ações concretas para intervirem em situações decorrentes da pandemia e de suas consequências. Não apenas oram, mas agem a favor daqueles e daquelas que sofrem. Mas há muitas coisas ainda para serem feitas. Outras igrejas precisam despertar pela necessidade atual e se encorajarem com as palavras de Jesus “… Tendem bom  ânimo… eu venci o mundo, vocês também vencerão…” 

Uma bom início, nesse tempo virtual, é aprendermos e exercitarmos a escuta. Assim podemos iniciar uma “ igreja terapêutica à distância”.

Escuta com Cristo

 O Salmo 86:1 nos lembra a petição:

Dá ouvidos, Senhor, à minha oração, e atende à voz das minhas súplicas.

O versículo 7 afirma que Deus responde às nossas petições: “ No dia do perigo clamo a ti, porque tu me respondes.” Nesse mesmo sentido, encontramos a palavra do salmista no Salmo 120:1 “ Na minha angústia , clamei ao Senhor,  e ele me ouviu.”

 Escuta conosco

Esse tempo de distanciamento social, certamente nos ajuda a nos escutarmos e revermos tantas questões que desejamos mudar; o silêncio interior contribui positivamente nesse sentido. Encontrarmos desejos de mudanças talvez outrora já perdidos.  O Evangelho de Mateus nos ensina: “ Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”  (cf Mateus 13:9)

Escuta com o  outro 

Ouvir com atenção requer sensibilidade e percepção do que a outra pessoa está a falar.  Nos dias atuais, percebemos a necessidade que as  pessoas têm  de serem ouvidas. As mudanças atuais geraram um avanço positivo em nosso cotidiano, pois usufruirmos mais da tecnologia, que felizmente se tornou uma prática positiva para nosso exercício de ouvir as pessoas. Enquanto aguardamos nossos encontros presenciais, reaprendemos a ouvir. A escuta do outro tornou-se uma prática  reaprendida. A Bíblia nos ensina que devemos estar pronto para ouvir (cf. Tiago 1:19). 

A Igreja e os novos desafios 

Enquanto escrevo esse artigo, me chega a notícia de índios da tribo Tremembé, ao norte do Brasil, que acometidos pelo coronavírus, não aceitam a ajuda “do homem branco”, ou quando aceitam com muita insistência de alguém próximo deles, acabam falecendo por uma intervenção tardia. Ou até mesmo os atendimentos são negligenciados. Suicídios ocorrem nas tribos indígenas por depressão e medo, e até mesmo impotência por parte da liderança da tribo. O que fazer quando situações como essas estão tão distantes de nossas mãos? A prática evangelical da oração nessas horas é uma saída que não apenas diminui nossa fraqueza e sentimento de impotência, mas que, conforme cremos, trabalha com a possibilidade  da intervenção divina é possível, pois temos a esperança de que Deus nos ouve e que não deixará nossos irmãos à própria sorte. Ouço, nesse momento, um relato de uma igreja-irmã que inicia ajuda concreta a essa tribo. Confesso que choro silenciosamente agora… 

Igrejas mercenárias e a Pandemia 

Sabemos que algumas igrejas enfatizam um discurso triunfalista. Algumas até mesmo consideram o choro como sinônimo de fracasso ou falta de fé. Ações que estão muito longe dos valores do Reino de Deus. Infelizmente muitas pessoas se agarram a esse discurso triunfalista e acabam por adoecer.  Atitudes inacreditáveis são realizadas por pseudopastores/as e líderes reconhecidos pela “comunidade” como homens e mulheres portadores da voz de Deus. Falsos profetas que, em nome de Deus, enriquecem até no momento em que seus membros estão fragilizados (ou melhor, principalmente em tais momentos). Para esses, o registro no livro do profeta Ezequiel 13, relata: “ Suas visões são falsas e suas adivinhações, mentira. Dizem ‘Palavra do Senhor’, quando o Senhor não os enviou; contudo, esperam que as suas palavras se cumpram. Acaso vocês não tiveram visões falsas e não pronunciaram adivinhações mentirosas quando disseram ‘Palavra do Senhor’, sendo que eu não falei?

A igreja e o vale sombrio 

Quanto  a nós, seguimos, no vale sombrio do luto, conhecendo  novas maneiras de viver, nos recriando, aprendendo a ser  igreja na pandemia e na pós-pandemia.  Há muito caminho a ser percorrido. Estamos no início de tudo, mas não vamos parar. Se há dor no luto, também há o consolo.  Assim como o salmista, afirmamos: “ Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo…’.

No vale sombrio, nosso querer se soma a tantos outros, e partimos para um exercício coletivo de escuta, de vozes que não soam sozinhas, de desejos e quereres que compartilham a esperança. Quem se sente sufocado por desaprender a ouvir, é convidado a participar. E assim, essa aprendizagem se torna mais real, mais forte, mais significativa. Nos encoraja a não desistimos. 

Esse querer é refletido nas palavras da pastora Blanches de Paula:

Quero escutar as alegrias escondidas, as tristezas expostas, a esperança de outrora.

Quero escutar o esquecimento da vida, a lembrança do afago, a perseverança da lida.

Quero escutar a sensibilidade de alguém, a dureza do medo, o ombro em que posso reclinar minhas dores.

Quero escutar as despedidas impetuosas, a chegada do amigo, a alegria do encontro.

Quero escutar os passos do caminho, a solidão da estrada, alguém que está ao lado.

Quero escutar o silêncio que sufoca, as palavras  nos gestos, a acolhida da minha história.

Quero escutar a voz divina , provoca dor…, liberta dor…

Quero escutar a mim mesma, me reconhecer, me escolher.

Quero escutar você, sua história, seus medos, suas coragens.

Quero escutar o diálogo, abrir a minha porta e cear com a Vida

Entre lutas e lutos, sabemos que Deus conosco está!

***

Patrícia Regina Moreira Marques é Pastora e Missionária da Junta Geral de Ministérios Globais, em Portugal.

            

É enganoso que sol forte pode matar coronavírus em 34 minutos

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O site Pleno News publicou em 09 de junho matéria com o título “Aliado: Sol forte pode matar coronavírus em 34 minutos”

A matéria destaca que “um estudo divulgado neste mês mostrou que o sol forte pode ser uma arma inusitada no combate ao novo Coronavírus. De acordo com cientistas, a exposição aos raios solares por volta do meio-dia conseguiu matar o vírus em até 34 minutos. A redução da carga viral nestes casos chegou à impressionante marca de 90%. A pesquisa conduzida por Jose-Luis Sagripanti e David Lytle, foi publicada na revista científica Photochemistry and Photobiology. Os dois são cientistas aposentados do Exército dos EUA e da Food and Drug Administration, respectivamente”.

Ainda segundo a matéria, os cientistas teriam afirmado que medidas como o confinamento da população, adotadas por alguns países e que mantiveram as pessoas em suas casas, pode ter aumentado os casos de infecção, pois “indivíduos saudáveis expostos aos raios solares receberiam cargas virais menores, o que seria mais eficiente para criar uma resposta de imunização na população”.

Pleno News finaliza afirmando que pesquisas anteriores concluíram que durante a Gripe Espanhola, pacientes internados em hospitais onde tinham contato com a luz do sol e o ar livre, tiveram mais chances de recuperação.

A matéria relata as fontes, mas não apresenta nenhum link para a pesquisa divulgada ou faz referência a agências de notícias nacionais ou internacionais. Pesquisas contrárias ao resultado apresentado ou declarações de cientistas e médicos refutando ou contestando algum ponto abordado também são citados.

A pesquisa

Bereia verificou que a o artigo científico citado na matéria é “Estimated Inactivation of Coronaviruses by Solar Radiation With Special Reference to COVID‐19”, publicado na revista Photochemistry and Photobiology.  No entanto, os dados da pesquisa foram mal interpretados. 

Os cientistas fizeram uma simulação em laboratório com raios ultravioleta e verificaram que os vírus que saem de pessoas infectadas e são depositados em superfícies tendem a ter menor propagação quando há a emissão de radiação solar ultravioleta. O vírus SARS‐COV‐2 também foi inativado mais rapidamente diante da luz solar do que outros vírus como o influenza. Daí a conclusão de que  a luz solar deve ter um papel na ocorrência, taxa de propagação e duração de pandemias de coronavírus. 

A pesquisa, no entanto, não fala da taxa de contaminação em seres humanos, e sim da inativação da carga viral em superfícies contaminadas. O artigo também não afirma que a exposição de pessoas à luz solar por 34 minutos pode ajudar no combate à Covid-19. 

Também não é verdade que os cientistas desencorajaram o isolamento social após a pesquisa, como afirma a matéria do Pleno News. Um dos autores da pesquisa, David Lytle afirmou recentemente ao Washington Post que o sol é útil, mas ainda não é a resposta total.

O professor de física da Unicamp, Leandro R. Tessler, explicou em uma rede social o motivo da matéria de Pleno News sobre o artigo científico conter desinformação. “Os autores não expuseram o vírus ao sol e verificaram se ele estava desativado ou não (vírus não morrem porque não vivem). Eles fizeram estimativas a partir de dados de vírus similares e resultados de laboratório. Não há qualquer garantia de que a exposição ao sol por 34 minutos desative o vírus. Os títulos dessas matérias são pura desinformação e não podem ser tomados como evidência científica. São só uma interpretação muito errada de um artigo”, explica. 

Desinformação em massa

Quase ao mesmo tempo, diversos sites publicaram matérias praticamente idênticas. Todos os veículos exibiam textos e fontes equivalentes e todos com a mesma conclusão: a luz do sol “mata” o coronavírus, portanto o confinamento seria uma medida equivocada. Bereia não encontrou nenhum parecer ou nota oficial emitida por governos ou entidades internacionais de saúde corroborando a notícia ou parte de suas conclusões. O Jornal o Dia tirou notícia do ar em menos de 24h, quando já estava sendo compartilhada em massa nas mídias sociais por críticos do isolamento social

A desinformação ligada ao novo Coronavírus difundida por alguns sites e perfis de redes sociais digitais tornou-se prática comum e perigosa. Bereia fez diversas checagens nas últimas semanas a este respeito. De Informações enganosas sobre transmissão do vírus e falsas estatísticas, passando por declarações de pessoas públicas como a cantora gospel Fabiana Anastácio chegando até a suposta cura do Bispo Edir Macedo.

A desinformação também veio do próprio governo federal. Declarações da Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos Damares Alves e do Ministro da Secretaria de Governo Luiz Eduardo Ramos foram checadas por Bereia.

Bereia conclui que é enganosa a matéria afirmando que a exposição ao sol mataria o Coronavírus. A matéria apresenta um estudo científico verdadeiro, no entanto, apresenta informações falsas e distorcidas sobre a pesquisa. A desinformação em qualquer área é extremamente danosa. Particularmente no campo da saúde, a desinformação é desastrosa, pois pode causar vítimas fatais. 

***

Referências de Checagem:

Pleno.News. Aliado: Sol forte pode matar coronavírus em 34 minutos. Disponível em: https://pleno.news/saude/coronavirus/aliado-sol-forte-pode-matar-coronavirus-em-34-minutos.html?amp=1&__twitter_impression=true. Consulta em 23/03/2020

Estimated Inactivation of Coronaviruses by Solar Radiation With Special Reference to COVID‐19. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/php.13293 Consulta em 23/06/2020

Coletivo Bereia. É enganosa informação que a transmissão de Covid-19 é rara em pacientes assintomáticos. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/e-enganosa-informacao-que-a-transmissao-de-covid-19-e-rara-em-pacientes-assintomaticos/ Consulta em 23/06/2020.

Coletivo Bereia: É verdade que Fabiana Anastácio negou o risco de ser infectada pela Covid-19. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/e-verdade-que-fabiana-anastacio-negou-o-risco-de-ser-infectada-pela-covid-19/ Consulta em 23/06/2020.

Coletivo Bereia. Ministra Damares Alves faz acusações sem provas sobre contaminação de indígenas por Covid-19. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/ministra-damares-alves-faz-acusacoes-sem-provas-sobre-contaminacao-de-indigenas-por-covid-19/ Consulta em 23/06/2020.

Coletivo Bereia. Bispo Macedo, Covid-19 e a cloroquina. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/bispo-macedo-covid-19-e-a-cloroquina/ Consulta em 23/06/2020.

Coletivo Bereia. Ministro apresenta desinformação sobre a Covid-19 em entrevista. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/ministro-apresenta-desinformacao-sobre-a-covid-19-em-entrevista/. Consulta em 24/06/2020

Coletivo Bereia. É falso que números por Covid-19 caem no Brasil por ações da Polícia Federal e do Ministro da Saúde. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/e-falso-que-numeros-por-covid-19-caem-no-brasil-por-acoes-da-policia-federal-e-do-ministro-da-saude/ Consulta em 24/06/2020

IG. Sol forte pode matar o novo coronavírus em até 34 minutos, aponta estudo. Disponível em: https://saude.ig.com.br/2020-06-23/sol-forte-pode-matar-o-novo-coronavirus-em-ate-34-minutos-aponta-estudo.html Consulta em 24/06/2020. 

O Liberal. Meia hora de sol forte mata o coronavírus em superfícies. Disponível em: https://www.oliberal.com/mundo/meia-hora-de-sol-forte-mata-o-coronavirus-em-superficies-1.279375. Consulta em 24/06/2020

Rondônia ao Vivo. COVID-19: Sol forte pode matar o novo coronavírus em até 34 minutos, aponta estudo. Disponível em: https://www.rondoniaovivo.com/noticia/brasilemundo/2020/06/23/covid-19-sol-forte-pode-matar-o-novo-coronavirus-em-ate-34-minutos-aponta-estudo.html Consulta em: 24/06/2020

UOL. Estudo: coronavírus pode ser enfraquecido pela luz do sol, calor e umidade. Disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/rfi/2020/04/24/estudo-coronavirus-pode-ser-enfraquecido-pela-luz-do-sol-calor-e-umidade.htm Consulta em 24/06/2020

É verdade que Fabiana Anastácio negou o risco de ser infectada pela COVID-19

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A cantora gospel Fabiana Anastácio publicou “o coronavírus não atingirá a sua casa, porque quem guarda a sua casa é Jesus”

Na última quinta-feira, 04, o novo Coronavírus vitimou de forma fatal a cantora gospel Fabiana Anastácio. Ela era hipertensa e diabética, tendo falecido em São Paulo, após ficar uma semana internada em decorrência da Covid-19, segundo a página da artista no Facebook.

Último clipe lançado durante a internação da cantora

Natural de Santo André (SP), ela era filha de um pastor e de uma maestrina. Fabiana tinha 45 anos e era pastora da igreja evangélica Assembleia de Deus, no bairro Demarchi, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. De acordo com matéria publicada em 08 de junho, no portal G1 , em 2008, uma apresentação de Fabiana na igreja Assembleia de Deus de Santo André viralizou e ela passou a ser conhecida em todo o Brasil pelos evangélicos. Em 2012, gravou seu primeiro CD intitulado: “Adorador 1″. Outros dois CD’s foram lançados posteriormente: “Adorador 2 – Além da Canção”, em 2015, e “Adorador 3 – Além das Circunstâncias”, em 2017.

Segundo matéria publicada no portal Hoje em Dia no dia 04 de junho, a cantora teria esperado por sete dias uma vaga na UTI em uma unidade pública.

Conforme anunciado na mídia social da cantora no dia 01 de junho, amigos, familiares e fãs se mobilizaram para custear as despesas por meio de uma campanha de arrecadação. 

De acordo com o site Correio Braziliense, em matéria publicada no dia 04 de junho, a campanha conseguiu angariar mais R$ 24 mil para ajudar no tratamento de Fabiana.

“Como igreja sabemos que quando uma parte do corpo perece, todo corpo sente a dor ou, pelo menos, deveria sentir. A dor não escolhe cor, nem raça, nem status ou condição… ela simplesmente surge e traz suas consequências. Nesse momento nossa amiga/pastora/cantora Fabiana Anastácio precisa da nossa ajuda para combater o COVID-19, ela está internada no hospital com todos os cuidados necessários, mas com um custo alto para a família, ainda mais nesse momento de recesso de agendas e claro, com algo que ninguém esperava. Estamos todos juntos nessa causa, #SomosTodosFabiana!”, dizia a campanha

Na já citada reportagem do Hoje em Dia, o esposo e pastor, Ruben Nascimento também foi testado positivo para Covid-19, mas se recuperou. Fabiana e Ruben estavam juntos há 21 anos e casados há 20, tendo gerado três filhos: Ruben Junior, 17 anos, Guilherme, 16 e Lucas, de 13.

De acordo com o marido, a doença evoluiu rápido para Fabiana. Segundo ele, no início, ela tinha sintomas de gripe e foi isolada em casa. Quando piorou, foi para um hospital, testou positivo e ficou internada. Ruben chegou a convocar uma campanha de oração e jejum na segunda-feira, 01.

Dois dias depois, uma nota oficial nas mídias sociais da cantora mostrava que havia a expectativa dela se recuperar.

“Ela continua na UTI do hospital aqui em São Paulo. Seu quadro geral ainda é estável, mas com um pouco de dificuldade pra respirar. Lembrando que essa dificuldade tem a ver com seu peso, ou seja, a recuperação toda tem a tendência de ser mais lenta por causa disso”, dizia o texto.

Contudo, a cantora gospel Fabiana Anastácio morreu na manhã desta quinta-feira, 04. A notícia foi confirmada na página oficial da artista, nas mídias sociais.

Na nota dizia: “Deus decidiu levar, nossa (Fabiana Anastacio Nascimento) para os seus braços. Obrigado a todos pelas orações, ao longo do dia será postado mais informações.

Te Adorarei, te adorarei, quando chegar aí no Céu te adorarei”.

A publicação contou com 191 mil interações, 41 mil comentários e 24 mil compartilhamentos. “Deus decidiu levar, nossa (Fabiana Anastácio Nascimento) para os seus braços. Obrigado a todos pelas orações, ao longo do dia será postado mais informações. Te Adorarei, te adorarei, quando chegar aí no Céu te adorarei”, dizia a legenda.

Ao G1, o Pastor Ruben Souza Nascimento, marido da cantora, afirmou que Fabiana deixa como lembrança para familiares e fãs o sorriso largo e contagiante que carregava e afirma que a cantora “cumpriu sua missão de levar fé e alegria para pessoas de todo o Brasil“.

Ela era muito bonita, muito alegre. Todo ambiente em que ela estava, era contaminado por alegria e simpatia. Ela cantava e palestrava em igrejas no Brasil inteiro e quem a conheceu sabia que era uma pessoa extraordinária”, disse  o p Pastor Ruben em entrevista ao G1 nesta segunda-feira, 08 de junho.

Na entrevista, Ruben ainda afirmou que a missão dele e da família agora é caminhar e, apesar da dor do luto, encontrar forças na fé para superar a perda. O pastor diz que a esposa cumpriu em vida uma importante missão.

Cantora publicou frase sobre o Coronavírus? 

Circula nas redes sociais uma frase que teria sido publicada pela cantora Fabiana Anastácio. A postagem, realizada em um perfil do Facebook no dia 05 de junho, salienta na legenda: “O negacionismo é que está matando a população”.

Reprodução/ Facebook

O Coletivo Bereia checou as mídias sociais da cantora, de onde a publicação teria surgido e constatou que a existência da frase é verdadeira e foi postada no Instagram de Fabiana Anastácio no dia 21 de março, período em que os governos se mobilizavam para implantar o sistema de isolamento social como forma de conter o avanço da doença no país. 

Cantora gravou áudio alertando sobre Covid-19 enquanto esteve internada?

Circula na internet um áudio atribuído à Fabiana Anastácio, no qual essa afirmaria que a doença não vê religião. Além disso, o áudio alerta os cristãos a ficarem em casa para não se exporem ao vírus.

Segundo a matéria do Boatos.org, diversas histórias falsas de pessoas gravando áudio antes de morrerem já circularam na internet. Outrossim, é perceptível o caráter vago e alarmista da mensagem, sem contar os erros de português e a falta de fontes confiáveis. Todos esses pontos são indicativos de uma fake news.

Confira o áudio :

Mesmo que a mensagem tenha algo de verdadeiro, quando afirma que “a doença não vê religião”, além da sugestão positiva para “que fiquem casa”, o áudio não é da cantora Fabiana Anastácio. De acordo com a assessoria da cantora, Fabiana não teve acesso a nenhum tipo de dispositivo móvel enquanto permaneceu no hospital.

Por fim, Bereia checou que o áudio foi gravado pela missionária Maiara Machado, da Assembleia de Deus, da Bahia.

A própria missionária comentou o assunto em sua página no Facebook :

Agora sim!!! A postagem está correta!!

ÁUDIO QUE VAZOU DIZENDO SER A CANTORA FABIANA ANASTÁCIO ANTES DE MORRER!!

Obs: Não foi da cantora!! Entrem nesse canal e vejam!”

Pandemia e o racha entre os evangélicos no Brasil

Em entrevista para a BBC Brasil, o teólogo Kenner Terra afirma que “só de você estar considerando as recomendações da OMS já é quase como um ‘ato de resistência”.

Terra é pastor de uma igreja Batista, coordenador do Fórum Evangelho e Justiça no Espírito Santo e está entre os que defendem as medidas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para evitar a disseminação da covid-19. Por isso, foi alvo de muitas críticas e comentários agressivos de outros evangélicos contrários ao isolamento.

As igrejas estão divididas. De um lado líderes que defendem o fim do isolamento, a manutenção dos templos abertos e os cultos presenciais — destes, alguns até entraram em disputa com o Ministério Público do Rio de Janeiro pelo direito de manter as igrejas abertas. Do outro lado, líderes que fecharam os templos, fazem cultos online e pedem que os fiéis orem em casa”, diz a matéria da BBC Brasil. 

Para Terra, essa divergência expõe uma divisão nesse grupo religioso que se acentuou durante os últimos anos, à medida que o presidente Jair Bolsonaro assumia uma “aura de autoridade religiosa”. Esses que minimizam a pandemia, continua Terra, “em geral, são grupos que se alinham com o projeto bolsonarista e o acompanham na forma de lidar com a pandemia”.

Já em matéria publicada em 14 de abril de 2020, a socióloga Rosana Pinheiro-Machado afirma que:

Nos últimos dias, pastores como Edir Macedo e Silas Malafaia têm feito um grande desserviço ao combate da epidemia, colocando-se contra o isolamento social e temendo o esvaziamento das igrejas, que é fonte de arrecadação de dízimo e também de formação de coesão social. Mais do que isso, multiplicam-se memes e vídeos no WhatsApp de pastores charlatões, dizendo que quem tem fé está imune, que a epidemia é coisa de satã, uma vingança divina. Também há aqueles que oferecem receitas de cura”.

A relação entre parte do público evangélico e Bolsonaro é de mão dupla. Como exemplo, há a fala de Bolsonaro, no Programa do Ratinho, onde esse se conecta com esses religiosos quando diz que a igreja às vezes é a única coisa que as pessoas têm. Além disso, ele também pediu jejum nacional para combater o vírus com a fé.

Em uma entrevista dada para a jornalista Patrícia Fachin, do Instituto Humanitas Unisinos, a socióloga Rosana Pinheiro-Machado afirma que “o que está em jogo é uma disputa por novos discursos, regimes de verdade e fontes de autoridade”. “São sistemas de pensamentos distintos. Um é baseado em evidência; outro, na autoridade da fé” [].

Conclusão

Bereia conclui ser verdadeira a informação de que a cantora gospel Fabiana Anastácio disse que o Coronavirus não atingirá a sua casa, porque quem guarda a sua casa é Jesus. A publicação está em sua própria página no Instagram. Por outro lado, o áudio atribuído à cantora é falso

***

Referências de Checagem

Metropoles– Frase sobre Coronavirus – Disponível em: https://www.metropoles.com/colunas-blogs/pipocando/o-coronavirus-nao-atingira-sua-casa-disse-cantora-gospel-antes-de-morrer

Instagram de Fabiana Anastáciohttps://www.instagram.com/p/B9_v_KDA51b/ acessado em 09.06.20

BBC – Como a crise do coronavírus expõe racha entre evangélicos no Brasil – Disponível em : https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52313890

Intercept – Coronavírus: como as igrejas evangélicas estão se aproveitando da crise para ocupar o vácuo do estado  – https://theintercept.com/2020/04/14/coronavirus-igrejas-evangelicas/

Ihu – Esquerda e direita disputam regimes de verdade. Entrevista especial com Rosana Pinheiro-Machado Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/573311-esquerda-e-direita-disputam-a-verdade-entrevista-especial-com-rosana-pinheiro-machado

Boatos– Cantora gospel Fabiana Anastácio gravou áudio alertando sobre Covid-19 no hospital Disponível em: https://www.boatos.org/religiao/cantora-gospel-fabiana-anastacio-audio-covid-19-hospital.html

Áudio da missionária Maiara Machado alertando os cristãos contra o coronavírus –

Página do Facebook da missionária Maiara Machado

Vícios privados, pecados públicos

“O que vocês disseram nas trevas será ouvido à luz do dia, e o que vocês sussurraram aos ouvidos dentro de casa, será proclamado dos telhados.”

Lucas 12:3

A Terra, redonda ou plana, dá muitas voltas. E nas voltas, idas ou cambalhotas que ela dá, revela muitas coisas. E qualquer poder político é ciente, ou deveria ser, de que nada fica encoberto para sempre. 

Quando Richard Nixon e seus cupinchas resolveram espionar os adversários políticos, nunca imaginaram que seriam descobertos e investigados por escutas ilegais, conspiração, uso ilegal dos serviços secretos e das forças de segurança e por aí vai…

Quando um grupo político articulou o pagamento de mensalidades para financiar apoio parlamentar ou ainda quando pessoas do alto escalão de empresas brasileiras se associaram ao governo para, mutuamente, surrupiarem o dinheiro público, não esperavam que fossem descobertos. 

Renunciando, cumprindo pena ou apenas desmascarados, todos eles tiveram suas conversas, antes “sussurradas aos ouvidos dentro de casa, proclamadas”. Pois é, como diz o título de um livro: “E a Bíblia tinha razão”. 

Agora, temos um caso de sonegação da informação. O atual governo decidiu mudar a forma de comunicar os dados da Covid-19 no Brasil.  

O Ministério da Saúde não mais informa o total de mortes e nem o total de casos confirmados desde o início da pandemia. No portal do Ministério, as informações consolidadas chegaram a sair do ar.

Esconder números é uma decisão antidemocrática e uma afronta à clareza das informações que o governo federal tem, por obrigação, manter com a sociedade. A isso se dá o nome de transparência.

Além de não vermos medidas efetivas tomadas pelo governo – e mesmo o que é anunciado não é cumprido (atraso de pagamentos do auxílio emergencial de R$ 600 e redução do valor do benefício), vamos enfrentar um inimigo invisível sem informações claras a respeito do Covid-19.

A informação e análise de dados são fundamentais para qualquer processo decisório. Isso vai desde decisões tomadas no âmbito mais pessoal, dentro de nossas casas, como dentro das empresas e nos poderes constituídos, bem como em toda a sociedade. Isso se acentua ainda mais quando as decisões afetam a vida e a morte.

E não bastasse toda a suspeição que paira sobre os dados, logo da primeira divulgação após o anúncio de mudança no formato, o governo tropeçou nas próprias pernas. 

O primeiro balanço do ministério apontava para 1.382 novas mortes. O segundo, no entanto, informava 525 óbitos. Uma diferença de 857 óbitos. 

O colaborador do governo, o empresário Carlos Wizard, acusou, sem apresentar provas, gestores públicos de aproveitarem a pandemia para atrair mais recursos para os seus estados e municípios. Depois, Wizard pediu desculpas pelas declarações desastradas e se recusou a continuar colaborando com o governo.

A pergunta que me faço todos os dias é: o que, de fato, esperamos de alguém no exercício do poder público? 

Probidade, acima de tudo, transparência e lealdade com a nação. Veja: com a nossa nação, não com governos de outros países. 

A decisão, que ora vai, ora vem, sobre os números relacionados à Covid-19, é mais um capítulo não apenas de omissão por nada fazer, mas total irresponsabilidade de não assumir o papel que tem diante da população. Alheamento na tragédia.

Aprofundamento da crise ocasionada por microcrises diárias. Ações que mais se assemelham a de uma criança com pirraça, cujo poder não lhe dá plenos direitos de agir de maneira nociva, do que um governante legitimamente eleito pelo povo. Um governo que manifesta o desprezo ao sofrimento, na lógica do escárnio e da afronta ao povo brasileiro. 

Não vivemos num país de poder herdado nem de poder tirano.

Minha única esperança diante dessa sucessão de tragédias é saber que o Deus a quem eu sirvo é justo, e levará esses iníquos ao juízo. Como todos os demais agentes públicos que roubaram e escarneceram de nossa paciência e compreensão. Eles terão suas estratégias demoníacas desmascaradas. Suas taras privadas serão envergonhadas publicamente. 

Eis que pecastes contra o Senhor; e sabei que o vosso pecado vos há de achar.

Números 32:23

***

Pentecostes: vem Espírito de vida e salva-nos!

Todos nos sentimos perdidos.

Investigadores, médicos e médicas, epimiologistas, biólogos e todos os saberes que instauramos, todos não conhecemos o Covid-19 nem sabemos como enfrentá-lo eficazmente com uma vacina. Oxalá não seja o que alguns biólogos, há muito, temem: o NBO (Next Big One) “o próximo grande” vírus que fará desaparecer a espécie humana.

Além do Covid-19 e dos vários vírus já conhecidos, enfrentamos tempos ecologicamente ameaçadores, com  o aquecimento global, a sexta extinção em massa, a erosão da biodiversidade e outras.

Além de usarmos os meios científicos que nos estão deixando desamparados, temos uma referência de uma outra ordem que não é contra a inteligência, mas vai além de seu alcance, que é a inteligência espiritual, que capta o Espírito Criador. Ela é uma dimensão de nossa realidade quando entendida holisticamente.

Este Espírito Criador responde pelo surgimento do Universo com suas bilhões de galáxias e trilhões de estrelas e planetas, Aquele que existia antes do antes e que fez surgir aquele ínfimo ponto, carregado de energia e que, explodindo (big bang).. deu origem ao Universo. Ele continua presidindo todo o processo cosmogênico, o nosso planeta, e a cada um de nós, pois é o Spiritus Creator, o Pneuma, o Sopro de Vida. Nas linguas médio-orientais ele é sempre feminino, ligado à mulher que gera.

Nesses momentos de crise, surge a ocasião de invocá-Lo e suplicar-Lhe:

Tu que és Fonte de Vida, salva nossas vidas, as vidas dos mais vulneráveis, as vidas de toda a humanidade”.

Ele, diz o Gênesis logo no início, pairava sobre o “touwabou” (em hebraico), o caos originário; dele tirou todas as coisas e as colocou em sua devida ordem, no céu e na terra e por fim ,nos seres humanos, homens e mulheres.

Alargando o horizonte, releva reconhecer que sua criação está ameaçada para além dos efeitos letais da Covid-19. A ameaça não vem de algum meteoro rasante, como há 65 milhões de anos, que exterminou os dinossauros depois de viverem por mais de cem milhões de anos por sobre a Terra. O meteoro rasante atual se chama homo sapiens e demens, duplamente demens (inteligente e demente e duplamente demente). Por sua relação agressiva para com a Terra e para com todos os seus ecossistemas, pode eliminar a vida humana, destruir nossa civilização e afetar gravemente toda a biosfera.      

É num contexto assim que refletiremos sucintamente e invocaremos a ação sanadora e recriadora do Espírito Santo. Nossas fontes referenciais são os textos dos dois Testamentos judaico-cristãos e a experiência humana, cujo espírito é animado pelo Espírito Criador, chamado pela liturgia desta festa de “luz beatíssima”.

Pensar o Espírito Santo nos obriga a ir além das categorias clássicas com as quais se elaborou o discurso ocidental, tradicional e convencional da Teologia. Deus, Cristo, a graça e a Igreja foram pensadas dentro de categorias metafísicas da filosofia grega, de substância, de essência e de natureza. Portanto, por algo estático e sempre já circunscrito de forma imutável. Este paradigma foi feito oficial pela teologia cristã.

Entretanto, pensar o Espírito implica assumir outro paradigma: o do movimento, da ação, do processo, da emergência, da história e do novo e do surpreendente. Este não pode ser apreendido com a terminologia substancialista, mas com a do vir-a-ser.

Este paradigma nos aproxima da moderna cosmologia e da física quântica. Estas veem todas as coisas em gênese, emergindo a partir de um fundo de Energia Inominável, Misteriosa e Amorosa que está antes do antes, no tempo e no espaço zero. Ela sustenta o universo e todos os seres nele existentes e penetra de ponta a ponta o cosmos e nos penetra totalmente. Essa Energia de Fundo, chamada também de o Abismo Originador de todo o ser, é a melhor metáfora do Espírito Criador, que é tudo isso e ainda mais.

Redizer o terceiro artigo do Credo cristão: ”Creio no Espírito Santo” nestes moldes, significa uma tarefa nova,  cientes de que ficamos sempre aquém daquilo que deveríamos dizer sobre o Espírito Criador.

Finalmente, cabe reconhecer que tocamos no mistério. Este não se opõe ao conhecimento, pois o mistério é o ilimitado de todo conhecimento. Este sempre conhece mais e mais, mas o mistério permananece em todo o conhecimento. Este é, por natureza, sempre limitado. Este mistério se revela mas também se vela. A missão dos que o acolhem e se entregam à sua reflexão sistemática, como os teólogos e as teólogas, também os que se dedicam à filosofia (como F. Hegel, cuja categoria central é o Espírito Absoluto) é buscar incessantemente esta revelação.

É próprio do Espírito esconder-se dentro dos processos evolucionários e da história. É próprio do ser humano descobri-Lo. Ele “sopra onde quer e não sabemos nem de onde vem nem para onde vai” (cf. Jo,38). Mas isso não nos exime da tarefa de des-ocultá-Lo.

É o que esperamos ardentemente: que este Espírito se manifeste e inspire os espíritos de nossos investigadores para que descubram uma vacina que salve nossas vidas. E quando através da pesquisa deles, Ele irrompe surpreendentemente, nos alegramos e celebramos, ébrios de gratidão por sua ação mediada pelo espírito humano.

O Pentecostes, uma das maiores das Igrejas cristãs. É uma festa sem fim, pois o Espírito está permanente em ação e se prolonga ao longo e ao largo de toda a história, e nos alcança até nos dias em que sofremos, nos angustiamos e tememos a letalidade do coronavírus.

Spiritus Creator nunca abandonou sua criação, mesmo nas 15 grandes dizimações pelas quais ela passou. E não nos vai abandonar agora. Veni Creator Spiritus et salva nos”.

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Leonardo Boff é ecoteólogo e escreveu O Espírito Santo: fogo interior, doador de vida e pai dos pobres, Vozes 2013.

Ministra Damares Alves faz acusações sem provas sobre contaminação de indígenas por Covid-19

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Durante a reunião ministerial do governo federal, cujo vídeo foi tornado público em 22 de maio pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, relatou que pessoas estariam contaminando povos indígenas propositalmente com o novo coronavírus a fim de dizimá-los e atingir o presidente Jair Bolsonaro.

Eu fui lá para a Amazônia e para Roraima para acompanhar o primeiro óbito [pela covid-19]. E por que que nós fomos lá, presidente? Porque nós recebemos a notícia que haveria contaminação criminosa em Roraima e Amazônia, de propósito, em índios, pra dizimar aldeias e povos inteiros pra colocar nas costas do presidente Bolsonaro. (…) Eu tive que ir pra lá com o presidente da Funai e me reuni com generais da região e o superintendente da Polícia Federal, pra gente fazer uma ação ali meio que sigilosa, porque eles precisavam matar mais índio pra dizer que a nossa política não tava dando certo.”

A íntegra da fala da ministra e de toda a reunião pode ser assistida em vídeo e a gravação dos conteúdos pode ser lida aqui.

A acusação feita pela ministra é muito grave e é muito sério também  que ela não tenha apresentado dados que corroborassem sua afirmação, referindo-se à necessidade de fazer uma ação “meio que sigilosa” com a Polícia Federal, porque, segundo ela, “eles” [e não fica claro quem são “eles”] precisavam matar “mais índio” para fazer crer que a política bolsonarista não estaria dando certo.

O Coletivo Bereia checou a veracidade desta informação dada pela ministra Damares Alves na reunião ministerial de 22 de abril.

A reunião ministerial

O vídeo foi solicitado pela defesa do ex-ministro da justiça Sérgio Moro, para ser apresentado como prova no inquérito da Polícia Federal que investiga a denúncia do ex-ministro sobre possível intervenção indevida de Jair Bolsonaro neste mesmo órgão, para atender objetivos pessoais.

O acesso livre ao vídeo da reunião foi liberado pelo Supremo Tribunal Federal em 22 de maio, inclusive a degravação das falas (com exceção de trechos que mencionam a China e o Paraguai, por questões de segurança nacional), por se tratar de assunto de interesse público.

O conteúdo da reunião chamou a atenção, além dos trechos que podem ser ou não interpretados como prova na investigação em curso, pelo baixo nível do que foi dito pelos líderes nacionais. Houve excesso de expressões de baixo calão, pedidos de prisão de ministros do STF, classificados como “vagabundos”, também de governadores e prefeitos que atuam em medidas de isolamento social contra a Covid-19, além de outras intervenções de ética questionável.

Quando lhe foi dada a palavra, a ministra Damares Alves questionou o STF sobre a possibilidade de liberar o aborto a “todos que tiveram coronavírus” no Brasil, falou sobre a  informação de que indígenas haviam sido contaminados de propósito para se colocar a culpa em Jair Bolsonaro e que “nunca houve tanta violação de direitos no Brasil como neste período“, indicando que pediria a prisão de governadores e prefeitos.

Indígenas no Brasil e o descaso governamental

Segundo o Instituto Socioambiental, uma organização da sociedade civil brasileira, sem fins lucrativos, fundada em 1994, com atuação em torno de questões sociais e ambientais com foco central na defesa de bens e direitos sociais, coletivos e difusos relativos ao meio ambiente, ao patrimônio cultural, aos direitos humanos e dos povos.

Em pleno século XXI a grande maioria dos brasileiros ignora a imensa diversidade de povos indígenas que vivem no país. Estima-se que, na época da chegada dos europeus, fossem mais de 1.000 povos, somando entre 2 e 4 milhões de pessoas. Atualmente encontramos no território brasileiro 256 povos, falantes de mais de 150 línguas diferentes.

Os povos indígenas somam, segundo o Censo IBGE 2010, 896.917 pessoas. Destes, 324.834 vivem em cidades e 572.083 em áreas rurais, o que corresponde aproximadamente a 0,47% da população total do país.

A maior parte dessa população distribui-se por milhares de aldeias, situadas no interior de 724 Terras Indígenas, de norte a sul do território nacional. 

Entre as principais etnias indígenas brasileiras na atualidade estão a Ticuna (35.000), Guarani (30.000), Caiagangue ou Caigangue (25.000), Macuxi (20.000), Terena (16.000), Guajajara (14.000), Xavante (12.000), Ianomâmi (12.000), Pataxó (9.700) e Potiguara (7.700).

A defesa dos direitos dos povos indígenas, os habitantes originários das terras brasileiras, tem sido árdua. A maior conquista foi o direito à demarcação de terras alcançado com a Constituição de 1988. Os direitos constitucionais dos índios estão expressos em capítulo específico da Constituição (título VIII, “Da Ordem Social”, capítulo VIII, “Dos Índios”), além de outros dispositivos dispersos ao longo do texto e de um artigo do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.

São, pelo menos, duas inovações importantes em relação a Constituições anteriores e ao chamado Estatuto do Índio. A primeira é o abandono de uma perspectiva assimilacionista, que entendia os índios como categoria social transitória, fadada ao desaparecimento. A segunda é que os direitos dos índios sobre suas terras são definidos como direitos originários, isto é, direitos anteriores à criação do próprio Estado. Isto decorre do reconhecimento do fato histórico de que os índios foram os primeiros ocupantes do Brasil. A Constituição de 1988 estabelece, desta forma, novos marcos para as relações entre o Estado, a sociedade brasileira e os povos indígenas.

Em relação ao atual governo, são cinco principais pontos de conflito que envolvem os povos indígenas: demarcações paralisadas (cumprimento de promessa de campanha), defesa de que haja mineração em terras indígenas, indicação de expansão do agronegócio em áreas indígenas, repetição do discurso da ditadura militar de que indígenas devem se integrar à sociedade, agrado à bancada ruralista com transferência da FUNAI do Ministério da Justiça para o Ministério da Agricultura (o que foi impedido pelo STF, declarado inconstitucional).

Esta tensão entre o governo Jair Bolsonaro e povos indígenas brasileiros fez com que membros de 45 etnias se reunissem em uma aldeia em Mato Grosso em protesto, em janeiro passado. O encontro foi convocado pelo cacique kayapó Raoni Metuktire e, nele, os indígenas afirmaram em um manifesto “que está em curso um projeto político do governo brasileiro de genocídio, etnocídio e ecocídio“. “As ameaças e falas de ódio do atual governo estão promovendo a violência contra povos indígenas, o assassinato de nossas lideranças e a invasão das nossas terras“, diz o texto, redigido ao fim da reunião, na aldeia Piaraçu, na Terra Indígena Capoto Jarina.

Em uma de suas transmissões ao vivo pelo Youtube às quintas-feiras, o presidente Jair Bolsonaro disse em 24 de janeiro, referindo-se à criação do Conselho da Amazônia e a ações previstas para a proteção de terras indígenas, que “cada vez mais, o índio é um ser humano igual a nós”. Ele afirmou pretender fazer com que os povos nativos da Amazônia sejam integrados à sociedade, e que sejam donos das terras indígenas. O conselho foi criado após o governo brasileiro, e o próprio Presidente da República, sofrerem críticas, inclusive em âmbito internacional, pela atuação destrutiva na área ambiental.  A coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) Sônia Guajajara, reagiu à época afirmando que os indígenas exigem respeito.

Bolsonaro mais uma vez rasga a Constituição ao negar nossa existência enquanto seres humanos. É preciso dar um basta a esse perverso!

De acordo com o coordenador do Conselho Indigenista Missionário – CIMI Sul, Roberto Liebgott, em entrevista ao IHU On-Line,

Nos últimos anos intensificaram-se os ataques aos direitos indígenas tendo como foco a desconstituição do Artigo 231 da Constituição Federal de 1988, que assegura aos povos originários a demarcação das terras que tradicionalmente ocupam. Os ataques visam abrir caminho para a exploração agrária e agrícola; a expropriação e o esbulho da terra; a expansão minerária, madeireira e hidráulica; e a cobiça pelos recursos ambientais. O governo eleito não admite que na Constituição Federal (que ele [Bolsonaro] jurou defender) estejam expressos os direitos à diferença étnica, à terra demarcada e respeitada e o fato destas populações serem sujeitos de direitos.”

Neste 2020 o governo Bolsonaro foi denunciado ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas por diversas violações ao meio ambiente, a mulheres e a indígenas. O país vive pressão inédita desde o fim da ditadura com relatores da ONU, ONGs e ativistas do Brasil e de outros países referente ao desmonte dos mecanismos de proteção a direitos fundamentais.

Contaminação por Covid-19 entre povos indígenas

Se o coronavírus entrar nas aldeias, é possível que o aumento de casos seja explosivo”, alertou o pesquisador Andrey Moreira Cardoso, da Fiocruz, em entrevista ao site do Instituto Socioambiental, organização da sociedade civil brasileira, sem fins lucrativos, fundada em 1994, para propor soluções de forma integrada a questões sociais e ambientais com foco central na defesa de bens e direitos sociais, coletivos e difusos relativos ao meio ambiente, ao patrimônio cultural, aos direitos humanos e dos povos. 

Na entrevista, publicada em 26 de março, o especialista sinalizou estudos em várias partes do mundo e também no Brasil  que atestam que os índios são mais vulneráveis a epidemias em função de condições sociais, econômicas e de saúde piores do que as dos não índios, o que amplifica o potencial de disseminação de agentes causadores de doenças.

A questão está estreitamente associada às possibilidades de acesso aos territórios tradicionais e aos recursos lá disponíveis. Também se vincula à proximidade dos centros urbanos, ao grau de dependência em relação ao mercado regional e à disponibilidade de políticas públicas. A possibilidade de contato com populações onde ocorre transmissão comunitária da doença, a depender da localização onde residem e do grau de contato, pode facilitar com que uma pessoa se infecte e volte para a aldeia. Então, um dos grandes desafios é evitar esse contato e que ocorra a transmissão para alguém que vai retornar à aldeia. No momento em que essa pessoa retorna à aldeia, é muito difícil conter a disseminação do vírus.”

Andrey Moreira Cardoso

O apontamento se materializou em uma triste estatística.  Em 1º de abril foi confirmado o primeiro caso de Covid-19 em uma jovem indígena da etnia Kokama, no município de Santo Antônio do Içá, no interior do Amazonas. Ela atua no SUS e é agente indígena de saúde no Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Solimões. A vítima se recuperou integralmente. Entretanto, dez dias depois, o número de casos confirmados em indígenas subiu para nove, incluindo cinco prováveis contatos da jovem kokama, um caso no DSEI Manaus, um no DSEI Parintins e um adolescente de 15 anos da etnia yanomami, no estado de Roraima, de acordo com o boletim epidemiológico da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), subordinada ao Ministério da Saúde.

Em 9 de abril de 2020 houve o registro da primeira morte de indígena pelo coronavírus no país. O adolescente yanomami Alvaney Xiriana Pereira, de 15 anos, ficou internado na UTI do Hospital Geral de Roraima (HGR) por sete dias. No dia seguinte à morte, a FUNAI lançou uma nota, lamentando o ocorrido.

Depois da morte do adolescente yanomanmi e da nota da FUNAI, a Associação Yanomami fez um apelo em carta aberta, para que o próprio órgão, a PF e o Exército retirem imediatamente os garimpeiros das terras indígenas a fim de evitar novas contaminações dos povos locais.

Entidades de defesa da causa indígena, como o Instituto Socioambiental e o CIMI denunciaram a subnotificação de casos da Covid-19 entre esta população, gerando preocupação quanto ao que isso pode representar de risco para as comunidades.

As duas entidades também denunciaram que outros dois indígenas contaminados pelo novo coronavírus já tinham ido a óbito e que o governo federal não registrou as ocorrências no balanço. Os indígenas eram uma mulher idosa da etnia Borari, de 87 anos, que morreu em Alter do Chão, no município de Santarém (PA), no dia 19 de março,  e o outro era um homem de 55 anos, do povo Mura, morto em Manaus, no dia 5 de abril. Em consequência da morte da idosa, o Ministério Público Federal (MPF) abriu inquérito, no dia 2 de abril, pedindo medidas para evitar a disseminação da Covi-19 em Santarém. Além disso, uma das denúncias investigadas é de que não houve notificação da suspeita de Covid-19. No dia 20 de março, centenas de pessoas compareceram ao funeral da mulher borari, muito querida em toda a vila. 

A Secretaria de Saúde Pública do Pará (Sespa) publicou o exame da idosa indígena no Twitter porque um parente teria negado que se tratava de uma vítima do coronavírus.

Em 12 de abril de 2020, a ministra Damares Alves chegou a Boa Vista. Visitou o projeto Operação Acolhida, responsável pela imigração dos venezuelanos naquele estado e participou de reuniões com a FUNAI, para articular ações de combate ao coronavírus.

Em toda a cobertura sobre a visita da ministra Damares Alves à Amazônia em abril, tanto no âmbito oficial, quanto pela imprensa de um modo geral, não foi encontrada qualquer menção dela, de representantes da FUNAI ou de qualquer outra autoridade sobre uma possível contaminação criminosa de indígenas.

Pelo contrário, as declarações foram todas positivas em relação a ações do governo. Na ocasião, o presidente da FUNAI Marcelo Augusto Xavier destacou que o governo federal estaria adotando todas as medidas para conter a transmissão da Covid-19 entre os povos indígenas. “É importante assegurar que o governo federal está presente em Roraima e Boa Vista e ninguém ficará para trás”, ressaltou.

Estamos aqui para encontrar respostas neste momento de enfrentamento ao coronavírus, completou Damares.

Antes da viagem Damares Alves,  os órgãos ligados à proteção indígena já vinham sendo questionados sobre uma possível omissão em meio à pandemia. No começo de abril, foram destinados R$ 10,8 milhões para a Funai no combate à pandemia entre as comunidades indígenas. Duas semanas depois, nada havia sido feito. Isto resultou cobrança do subprocurador-geral da República Antonio Carlos Alpino Bigonha questionando a FUNAI e o Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos, em 16 de abril, sobre o motivo das verbas reservadas para o combate ao coronavírus em comunidades tradicionais e indígenas não terem sido empenhadas. Dos quase R$ 11 milhões da verba emergencial para o combate à Covid-19, Damares Alves teria usado apenas R$ 1 milhão para comprar caminhonetes. Um parecer técnico interno da Procuradoria ainda dizia que a falta do investimento não é “questão financeira”. O subprocurador-geral ressaltou que “a necessidade é urgente em cada comunidade indígena, seja por alimentos, seja por proteção e segurança”.

No entanto, a pandemia seguiu avançando em terras indígenas. Assim, até 3 de maio, cerca de cem índios foram contaminados, sendo que o maior número de casos entre indígenas no Brasil está concentrado no Amazonas, epicentro da doença. Os dados foram apontados em matéria do G1 do referido dia, intitulada: “Índios temem ‘catástrofe’ e tentam fugir da Covid-19”.

Segundo a reportagem, cuja versão em vídeo foi exibida no programa Globo Rural, da emissora Globo, em 20 de março, a associação que representa os povos, no norte do Mato Grosso,  pediu que os caciques interrompessem o deslocamento dos índios para as cidades, e reivindicou o fechamento das estradas que levam para fora do parque. Mediante a dificuldade de deslocamento para a cidade, os grupos que compõem as 16 etnias presentes na região estariam sofrendo com a falta de produtos básicos, como sabão e creme dental. O confinamento também estaria comprometendo o trabalho e a renda dos índios.

A estatística evidencia uma preocupação desvelada em maio, de acordo o boletim da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do dia 25, que apresenta são 40 mortos indígenas, 824 casos de contaminação confirmados e 218 casos suspeitos. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) apresentava em 11 de maio números já maiores, com  77 mortos com teste positivo para a doença e 308 indígenas de contaminados. Vale registrar que a Sesai não está contabilizando casos de indígenas que vivem em cidades.

Uma rede de colaboradores foi criada para levantar casos e mortes suspeitos, tendo à frente a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coaib). A APIB ainda mantém uma lista de vítimas disponível no site quarentenaindigena.info (http://quarentenaindigena.info/casos-indigenas/), a qual, até o dia 22 de maio, às 16h30, contabilizava 125 indígenas mortos, 987 contaminados e 61 povos atingidos.

Em matéria publicada no site do Instituto Socioambiental, em 8 de maio, a coordenadora da APIB, Sonia Guajajara, aponta a divergência entre os números.

“Os números apurados pelo movimento indígena, quando comparados aos da Sesai, revelam uma discrepância absurda. Além da negligência do Estado brasileiro, há um racismo institucionalizado (…) O movimento indígena está preocupado em registrar minuciosamente os dados e exigir sua oficialização, para que daqui a 30 anos não tenham que ser revelados os ‘desaparecidos pela covid-19’.”

Contaminação de Covid proposital?

Sobre as afirmações da ministra Damares Alves, de que toda esta contaminação de indígenas teria sido realizada de forma proposital para atingir o presidente Jair Bolsonaro, Bereia não localizou registros de investigações ou quaisquer indicações comprobatórias de tal situação entre os organismos oficiais FUNAI, SESAI ou de proteção a indígenas como APIB ou Instituto Socioambiental. Para as organizações que atuam em apoio a essas populações, as causas da contaminação são de conhecimento notório dos órgãos governamentais e são criminosas, sim, relacionadas às invasões das terras indígenas.

O Presidente do CIMI, Bispo D. Roque Paloschi explica:

“A principal preocupação e ameaças com relação aos povos indígenas é que garimpeiros, grileiros, madeireiros e invasores em geral, não fazem a quarentena. Ao contrário, aproveitam a falta de fiscalização e de gestão política e administrativa no país para continuar com as ações ilícitas nas terras indígenas, com um agravante maior, os contínuos discursos do governo do Brasil em incentivar as invasões, com sua retórica desenvolvimentista. Outra grande preocupação são os projetos de emenda constitucional e projetos de lei, como o PL 191/20, que regulamentam a exploração de recursos minerais, hídricos e orgânicos em reservas indígenas.”

Sobre isto Bereia ouviu o Pastor Sandro Luckmann, educador do Conselho de Missão entre Povos Indígenas (COMIN), da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil:

“A fala da ministra é extremamente grave. É uma fala cujo objetivo principal é omitir, é esconder a situação de ausência e de trabalho articulado e com melhor resposta do próprio governo. Os dados que temos levantados a partir da Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde (SESAI) e o que as próprias organizações indígenas têm levantado mostram isto. Há uma disparidade bastante grande neste sentido. A SESAI no seu último boletim reconhece que em nível nacional houve somente 35 mortes de pessoas indígenas enquanto as próprias organizações de indígenas falam que este número já está em 125 indígenas falecidos, atingindo em torno de 61 povos. E na Amazônia a situação é extremamente grave por conta da geografia. Para acessar os recursos emergenciais, os benefícios, as comunidades precisam descer de barco até as cidades e não há infraestrutura, local adequado para ficar. O sistema de comunicação é difícil, complexo, não é ágil. Estive no início de março, antes do isolamento social, visitando uma comunidade lá. Para chegar eu levei seis horas num barco veloz da cidade mais próxima. Mas os barcos que os indígenas geralmente usam levam um ou dois dias. Já houve manifestações de lideranças indígenas que dizem que caso aconteça de indígenas pegarem a COVID-19, não vão buscar ajuda porque sabem que chegando até lá não terão atendimento. Há uma denúncia de falta de hospitais de campanha que possam ser interiorizados, com equipamento. Outra denúncia é que quando há necessidade de hospital as comunidades indígenas são as últimas a ocuparem o espaço porque viajam do interior da Amazônia para Manaus e o sistema já está caótico. Há um problema muito sério nesse sentido. Avaliamos então esta tentativa do governo de esconder a real situação e a falta de infraestrutura, a falta de capacidade deste governo em atender esta demanda das comunidades indígenas. O Estado do Amazonas é o estado que tem a maior população indígena e há uma invasão deliberada das terras indígenas. Há denúncias em Roraima mesmo, um dos estados que a Ministra cita, denúncias da invasão de garimpeiros, madeireiros, grileiros, e isto tem feito avançar a doença sobre as comunidades indígenas. Nesse sentido a FUNAI não tem sido uma agente protetora dos territórios indígenas então há uma situação bem complexa neste sentido.”

O coordenador do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), da Igreja Católica, Região Sul Roberto Antônio Liebgott, também ouvido por Bereia, afirma que a declaração de Damares Alves é mentirosa e explica que isto acontece porque a ministra não menciona que:

por omissão e falta de fiscalização, por parte do governo que ela integra, ocorrem invasões nas terras indígenas por milhares de garimpeiros, madeireiros, grileiros, posseiros e tantos outros que saqueiam o patrimônio público. Também não foi por um acaso o discurso do Presidente ao propor, como medida de segurança, o armamento em massa – em suas palavras, todos devem estar armados. Quem são ‘todos’? Os indígenas e os quilombolas poderão se armar para se defender da invasão de seus territórios? Os pais de família, das periferias, poderão se armar para se defender da ação de milicianos? As pessoas que sofrem violências poderão se armar para se defender de ataques fascistas? 

Bereia conclui que a ministra Damares Alves fez uso de desinformação na reunião ministerial de 22 de abril, no que diz respeito à suposta à contaminação criminosa de coronavírus entre indígenas para atingir negativamente o presidente Jair Bolsonaro. O Coletivo classifica a fala como imprecisa pois não apresenta as fontes que corroborem tais afirmações nem dados coerentes com a grave situação descrita nesta matéria, desconsiderando as ações historica e comprovadamente criminosas de invasão de terras indígenas da parte de garimpeiros e grileiros, que são fonte de doenças para estas populações. O uso de desinformação, em caso como este, é irresponsável pois levanta acusações sem apresentar autoria e dados, levando quem ouve as afirmações a atitudes de desconfiança e condenação precoce, que são frequentemente direcionadas a pessoas opostas no campo político.

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Referências de Checagem:

Portal do STF (1) https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=443959&ori=1 Acesso em 26 mai 2020

Portal do STF (2) https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=418183 Acesso em 26 mai 2020

Instituto Socioambiental. Povos Indígenas no Brasil https://pib.socioambiental.org/pt/Quem_s%C3%A3o Acesso em 26 mai 2020

Instituto Socioambiental. Direitos constitucionais dos índios https://pib.socioambiental.org/pt/Constitui%C3%A7%C3%A3o Acesso em 26 mai 2020

BBC https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51229884 Acesso em 26 mai 2020

IHU On Line http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/586730-a-ameaca-institucional-juridica-e-fisica-a-existencia-dos-povos-indigenas-entrevista-especial-com-roberto-liebgott  Acesso em 26 mai 2020

El País https://brasil.elpais.com/brasil/2020-03-10/50-anos-depois-brasil-volta-a-ser-alvo-sistematico-de-denuncias-internacionais-por-violacoes-de-direitos-humanos.html Acesso em 26 mai 2020

Instituto Sociambiental Notícias (1) https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/se-coronavirus-entrar-nas-aldeias-e-possivel-que-aumento-de-casos-seja-explosivo-alerta-especialista Acesso em 26 mai 2020

Instituto Socioambiental Notícias (2)  https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/em-alter-do-chao-pa-teste-de-indigena-falecida-da-positivo-para-covid-19 Acesso em 26 mai 2020

Instituto Sociambiental Notícias (3) https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/indigenas-de-cidades-com-covid-19-nao-ficarao-sem-assistencia-mas-responsabilidade-e-do-sus-diz-sesai Acesso em 26 mai 2020

Instituto Socioambiental Notícias (4) https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/indigenas-mortos-por-covid-19-chegam-a-55-segundo-APIB-numero-salta-45-em-dois-dias Acesso em 26 mai 2020

Boletim Epidemiológico da SESAI http://www.saudeindigena.net.br/coronavirus/mapaEp.php Acesso em 26 mai 2020

G1https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2020/04/12/ministra-damares-alves-faz-visita-surpresa-a-boa-vista-neste-domingo-12.ghtml Acesso em 26 mai 2020

Nota: Funai lamenta morte de indígena com COVID-19 http://www.funai.gov.br/index.php/comunicacao/noticias/6006-nota-funai-lamenta-morte-de-indigena-com-covid-19 Acesso em 26 mai 2020

Notícias UOL https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/04/11/apos-morte-indigenas-apelam-que-pf-funai-e-exercito-expulsem-garimpeiros.htm Acesso em 26 mai 2020

Agência Brasil https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-04/morre-indio-yanomami-com-coronavirus Acesso em 26 mai 2020

MPF http://www.mpf.mp.br/pa/sala-de-imprensa/noticias-pa/mpf-cobra-medidas-para-evitar-disseminacao-da-covid-19-em-santarem-pa/view Acesso em 26 mai 2020

Publicação na página da Sespa (PA) no Twitter https://twitter.com/SespaPara/status/1245461415005167617?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1245461415005167617%7Ctwgr%5E&ref_url=https%3A%2F%2Fwww.socioambiental.org%2Fpt-br%2Fnoticias-socioambientais%2Fem-alter-do-chao-pa-teste-de-indigena-falecida-da-positivo-para-covid-19 Acesso em 26 mai 2020

Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2020-2/abril/em-roraima-ministra-damares-visita-a-sede-da-operacao-acolhida  Acesso em 26 mai 2020

Ecoamazônia https://www.ecoamazonia.org.br/2020/04/ministra-mulher-familia-direitos-humanos-damares-alves-visita-roraima/ Acesso em 26 mai 2020

FUNAI  http://www.funai.gov.br/index.php/comunicacao/noticias/6009-comitiva-do-governo-federal-articula-acoes-de-combate-a-covid-19-no-norte-do-pais Acesso em 26 mai 2020

O Estado de São Paulo https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,funai-recebe-r-11-milhoes-para-proteger-indigenas-do-coronavirus-mas-nao-gastou-nenhum-centavo,70003269873 Acesso em 26 mai 2020

G1https://g1.globo.com/economia/agronegocios/globo-rural/noticia/2020/05/03/indios-temem-catastrofe-e-tentam-fugir-da-covid-19.ghtml Acesso em 26 mai 2020

Boletim Covid-19 Ministério da Saúde https://saudeindigena.saude.gov.br/

APIB http://APIB.info/2020/05/14/1-vidas-indigenas-e-covid-19/ Acesso em 26 mai 2020

Atualização de casos indígenas http://quarentenaindigena.info/casos-indigenas Acesso em 26 mai 2020

Estudo identifica principais fake news relacionadas à Covid-19

Publicado originalmente no site oficial da Fio Cruz, 18/05/2020

Um recente estudo, conduzido pelas pesquisadoras da ENSP Claudia Galhardi e Maria Cecília de Souza Minayo, identificou as principais fake news relacionadas à Covid-19, recebidas pelo aplicativo Eu Fiscalizo, entre março e maio no país.

Segundo Claudia, além de colocar vidas em risco, a disseminação de notícias falsas relacionadas ao novo coronavírus contribui para o descrédito da ciência e das instituições globais de saúde pública, bem como enfraquece as medidas adotadas pelos governos no combate à doença. Daí a importância da realização de estudos sobre a temática.

Precisamos redobrar a atenção ao receber informações nas redes sociais que não apresentem a fonte oficial e fazer uma leitura crítica antes de compartilhar qualquer conteúdo”, alerta a pesquisadora.

A primeira etapa da pesquisa, que fez um balanço das denúncias de notícias falsas recebidas entre 17 de março e 10 de abril, revela que 65% delas ensinam métodos caseiros para prevenir o contágio da Covid-19, 20% mostram métodos caseiros para curar a doença, 5,7% se referem a golpes bancários, 5% fazem menção a golpes sobre arrecadações para instituição de pesquisa e 4,3% se referem ao novo coronavírus como estratégia política.

A segunda fase do estudo, realizada entre 11 de abril e 13 de maio, aponta que, entre as fake news notificadas pelo app, 24,6% afirmam ser a doença uma estratégia política, 10,1% ensinam métodos caseiros para prevenir o contágio do novo coronavírus, 10,1% defendem o uso da cloroquina e hidroxicloroquina sem comprovação de eficácia científica e 7,2% são contra o distanciamento social.

Os resultados referentes ao intervalo entre abril e maio também mostram que 5,8% das notícias falsas ensinam métodos caseiros para curar a Covid-19, 5,8% afirmam que o novo coronavírus foi criado em laboratório, 4,3% declaram o uso de ivermectina como cura para a doença, 4,3% são contra o uso de máscaras e 2,9% difamam os profissionais de saúde.

Ainda entre os meses de abril e maio, foi constatado que, entre as fake news denunciadas, 2,9% são contra o uso de álcool em gel, 2,9% declaram o novo coronavírus como teoria conspiratória, 1,4% são relacionadas à difamação de políticos, 1,4% declaram ter a causa do óbito de parentes alterada para Covid-19 e 0,4% consistem em charlatanismo religioso, com tentativa de venda de artefatos para a cura da doença. O estudo também aponta que 15,9% das fake news se referem à Covid-19 como uma farsa, durante todo o período analisado, entre 17 de março e 13 de maio.

Em abril, as pesquisadoras da ENSP realizaram estudo que identificou as mídias sociais mais utilizadas para a propagação de fake news relacionadas à Covid-19 notificadas pelo aplicativo.  

Saiba mais aqui sobre o Eu Fiscalizo.

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Referências:

Imagem de destaque: https://futurism.com/the-byte/protesters-break-quarantine-calling-covid-19-fake-news / VICTOR TANGERMANN

Ministro apresenta desinformação sobre a Covid-19 em entrevista

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Em entrevista coletiva na sexta-feira, 15 de maio de 2020, ministros do governo federal apresentaram um quadro dos 500 dias do governo de Jair Bolsonaro e enfatizaram o enfrentamento da pandemia de coronavírus. O Ministro da Secretaria de Governo General Luiz Eduardo Ramos, da ala evangélica de apoio a Bolsonaro (Igreja Batista), criticou, mais uma vez, a cobertura jornalística sobre a Covid-19.

Ramos disse que as notícias transmitem “clima de terror”. Ele já havia feito a mesma crítica na entrevista coletiva de 22 de abril, quando disse que os telejornais só mostram “imagens de caixão e corpo”, acusou a imprensa de não estar ajudando” e pediu que mostrasse “coisa positiva”.

O Ministro General Ramos, na entrevista de 15 de maio, alegou defender uma “questão de bom senso”. Ele apresentou dois argumentos: uma tabela do número de óbitos de coronavírus no mundo, com o Brasil atrás de muitos países. “Não estou minimizando as mortes (…), mas é importante que nós tenhamos consciência quando estamos noticiando”, afirmou o ministro.

O segundo argumento foi número de mortes por ano no país, por diversas causas, para comparar com números inferiores de óbitos por coronavírus, e concluir que não se deve causar um “clima de terror” no Brasil.

O vídeo com a fala do Ministro General Luiz Eduardo Ramos, na íntegra, pode ser acessado aqui (do minuto 5 ao minuto 18). Segue a transcrição dos trechos que justificam a crítica ao “clima de terror” da cobertura da imprensa:

(8’50) “O quadro que os senhores estão vendo, considerando a população, o Brasil está atrás de praticamente todos esses países: Bélgica, Espanha, Reino Unido, Itália, França, Estados Unidos, Alemanha, e aí vem o Brasil. Em números de óbitos, por milhão de habitantes, 58 óbitos. Tá aí, no quadro.”

(9’14) “Não estou minimizando as mortes, pelo amor de Deus. Uma morte é pleiteada pelo pranto de seus familiares, sofridos. Eu não estou dizendo isso. Eu estou dizendo o seguinte: é importante que nós tenhamos a consciência quando noticiamos, vamos explicar o que estamos noticiando.”

(9’33): “Outro dado, apenas para a reflexão de todos aqui, inclusive para o nosso ministro: isso aqui é estudo, dados abertos do Ministério da Saúde. Não estou falando de Covid-19! Não estou falando. Considerando o que seria um ano normal. A média, considerando os anos de 2016 ao ano de 2018, a média de óbitos por ano, 1 milhão e 253 mil pessoas, de várias causas. De doença de Chagas, que é muito ruim, cerca de 4 mil e 800 pessoas. Dessa doença, infelizmente muito forte, o câncer, 221 mil e 651 pessoas. De aparelho circulatório, ou infarto, qualquer um de nós,  – meu querido repórter [apontou para um repórter que estava presente], não vou citar o nome, mas todos nós, eu me incluo, podemos, a qualquer momento, sofrer um infarto do miocárdio. E vamos deixar essa vida, pois assim é. Como diz a Bíblia Sagrada, para aqueles que creem, não sabemos o dia e a hora [referência a Mateus 25:13]. Temos que nos preparar.”

(10’48) “E mais um dado, que não é Covid, pneumonia, 80 mil e 327. Outra coisa, todo mundo aqui deve andar de carro, ou deve andar de ônibus, pratica esporte… a média de mortes, por ano, de queda, afogamento, acidente automobilístico, lesões provocadas de toda ordem, 164 mil mortes. Os números são impactantes. Mas nem por isso é instaurado um clima de terror.” 

(11’27) “Nosso Presidente da República tem batido muito na tecla, e aqui está o ministro Paulo Guedes: é uma pandemia; medidas estão sendo adotadas, o ministro Braga Neto acabou de dizer que 7 bilhões de dinheiro (sic), importando kits… tudo está sendo feito. Mas é uma pandemia que atingiu o mundo.”

Bereia checou os argumentos do ministro para verificar se o governo está veiculando informações corretas.

O Brasil e o número de óbitos no mundo

O Ministro General Luiz Eduardo Ramos argumentou que o Brasil não tem número de mortes que promova um alarde tão grande das mídias, afinal, na tabela que apresenta, datada de 12 de maio, o Brasil é o oitavo colocado em óbitos, em comparação com Bélgica, Espanha, Reino Unido, Itália, França, Estados Unidos e Alemanha (em ordem de óbitos por milhão de habitantes).

Fonte: TV BrasilGov

A tabela apresentada pelo Ministro não indica a fonte. Ela é bastante similar a tabelas que têm circulado em mídias sociais, com comparações de países por número de óbitos por habitantes, tendo como fonte dados da plataforma Worldometer, usadas para minimizar os impactos da pandemia no Brasil e acusar a imprensa de exagero na cobertura da crise.

Este tipo de abordagem é desinformativa porque se baseia em números frios. Apesar de os dados apresentados serem corretos, as postagens fixam-se na simples comparação dos números e desconsideram: 1) que os países estão em fases diferentes da pandemia; 2) que há diferenças populacionais que impedem a comparação, como idade e densidade demográfica; e 3) que o nível de testagem no Brasil é muito menor do que em outros países, o que leva à subnotificação de infectados e mortos.

A agência de checagem Aos Fatos já havia verificado estas postagens, e, a partir do acordo de verificação que tem com o Facebook, publicações com esta comparação, sem a devida contextualização, foram marcadas como DISTORCIDAS.

De acordo com a verificação de Aos Fatos, feita antes da entrevista coletiva do Ministro General Ramos, o número de mortes por milhão de habitantes não é recomendado para fazer comparações sobre o impacto da pandemia em diferentes países. 

A agência ouviu o médico intensivista e epidemiologista da USP (Universidade de São Paulo) Otávio Ranzani, que explicou:

“Essa métrica pouco ajuda no entendimento e controle da pandemia na fase em que o Brasil está. Ela não indica se a pandemia está ativa ou em expansão. Na verdade, ela indica erroneamente o contrário. No Brasil, a ascensão da curva é ativa e dividir [o número de mortos] por uma população continental como a nossa só mostra que temos ainda muitos suscetíveis a terem infecção.”

Países como Bélgica e Itália, por exemplo, apresentam uma diminuição dos casos diários.

De acordo com o Otávio Ranzani, uma comparação de números correta só pode ser feita entre países que estão nas mesmas fases da pandemia e que tenham população com idade média similar. Um artigo da BBC, de 18 de maio de 2020, explica o mesmo e indica que países com populações mais velhas ou com maior densidade populacional podem ter maior taxa de infecção e de mortalidade.

Ainda há também um elemento fundamental a ser levado em conta: a testagem da população e as diferenças na forma como os óbitos são computados. A Bélgica, por exemplo, inclui mortes suspeitas na contabilização geral, o que não é o caso do Brasil que notifica “pneumonia” e “Síndrome Respiratória Aguda” em milhares de casos que teriam relação com a Covid-19.

Quanto à testagem, o Brasil tem ações muito inferiores a dos países citados. Segundo a própria fonte dos números, a Worldometers, o Brasil havia feito 1,5 testes por milhão de habitantes até 12 de maio de 2020 (data da tabela apresentada pelo ministro) enquanto Bélgica, Espanha e Itália haviam feito 50,4, 52,7 e 43,1 respectivamente.

Sobre as mortes por coronavírus comparadas a mortes por outras causas

O Ministro General Luiz Eduardo Ramos argumenta, na entrevista de 15 de maio, que há centenas de milhares de mortos por ano por doenças váriasv – por câncer, por infarto e por acidentes de trânsito e afogamentos, que oferecem números impactantes mas nem por isso é “instaurado um clima de terror”.

O ministro também faz uso de conteúdo fartamente exposto em mídias sociais em diversas publicações que procuram relativizar e minimizar os graves efeitos da Covid-19. Várias destas publicações nas redes foram classificadas como falsas porque são apresentados dados como se fossem atuais, para comparação com números dos casos de coronavírus. Checagem da agência Aos Fatos tornou possível que estas postagens no Facebook fossem marcadas como falsas, por conta do convênio de verificação, também já citado nesta matéria.

O Ministro General da Secretaria de Governo registrou na entrevista que apresentava dados do Ministério da Saúde de 2018. De fato, os registros disponíveis mais recentes do DataSus são os números de mortalidade no país em 2018.

Nesse sentido, não há dados disponíveis sobre mortalidade no Brasil entre os meses de janeiro e maio de 2020 que permitam uma comparação do número de vítimas de Covid-19 (todos de 2020) com os de outras causas citadas pelo ministro, como doença de chagas, câncer, infarto, pneumonia, acidentes de trânsito e afogamentos. Qualquer comparação nesse sentido, será enganosa pela ausência de compatibilidade dos dados.

Além disso, como já indicado nesta matéria, toda comparação que se fizer no Brasil com outras doenças já começa prejudicada por conta da subnotificação dos casos de Covid-19. Este problema acontece em todos os países em maior ou menor grau. No Brasil, o grau é altíssimo. Os registros oficiais de mortos levam em conta apenas pessoas que falecem em hospitais ou que tiveram resultado de exame positivo para o vírus. Mortes sem diagnóstico preciso e as que ocorreram em casa ou em casas de repouso para idosos, por exemplo, não entram nas estatísticas imediatamente. Projeções feitas por instituto de pesquisa científica e por universidades diferentes dizem que o número de casos reais de Covid-19 pode ser de 12 a 16 vezes maior do que o número oficial.

Segundo o Ministério da Saúde afirmou à agência Aos Fatos, fazer uma comparação entre causas de morte também é equivocado, porque “pacientes que vieram a óbito poderiam ter mais de uma comorbidade [a ocorrência de duas ou mais doenças relacionadas no mesmo paciente e ao mesmo tempo]. Já em relação à Covid-19, várias são as comorbidades associadas nos casos dos pacientes que vieram a óbito”.

Aos Fatos também ouviu a especialista em história das epidemias do IFBA (Instituto Federal da Bahia) Christiane Maria Cruz de Sousa. Ela explica que a comparação com a incidência de outras doenças é desinformativa pois diferentemente de uma doença que mata cotidianamente, como o câncer, uma epidemia “surge repentinamente e o número de mortos se acumula. São muitos mortos e doentes que colocam em xeque o sistema de saúde disponível para tratar de tanta gente ao mesmo tempo”.

Desinformação oficializada

Bereia conclui, com base na verificação dos argumentos do Ministro General da Secretaria de Governo Luiz Eduardo Ramos, que culpou a imprensa de “alarmista” e instauradora de “clima de terror” em relação à cobertura da Covid-19, que o governo transmite desinformação de caráter enganoso. Dados verdadeiros são utilizados, mas são feitos com números frios sem a devida contextualização para uma comparação correta. Também há a apresentação de dados do Ministério da Saúde de dois anos atrás, com comparação defasada e também incompatível com a nova realidade de uma doença contagiosa em nível gravíssimo.

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 Referência da Checagem:

Estado de Minas https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/04/22/interna_politica,1141003/ramos-critica-imprensa-por-cobertura-da-covid-19-nao-esta-ajudando.shtml Acesso em 19 mai 2020

Agência Brasil, EBChttps://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2020-05/comparacao-mortes-covid-19-deve-ser-proporcional-dizem-ministros Acesso em 19 mai 2020

TV BrasilGovhttps://youtu.be/yJwPf2wuO2E Acesso em 19 mai 2020

Worldometer https://web.archive.org/web/20200512010559/https://www.worldometers.info/coronavirus/ Acesso em 19 mai 2020

Aos Fatos https://www.aosfatos.org/noticias/aos-fatos-adere-iniciativa-de-verificacao-de-noticias-do-facebook/ Acesso em 19 mai 2020

Aos Fatos https://www.aosfatos.org/noticias/numero-de-mortos-por-milhao-de-habitantes-nao-evidencia-que-pandemia-no-brasil-e-menos-grave/ Acesso em 19 mai 2020

BBC, https://www.bbc.com/news/52311014 Acesso em 19 mai 2020

Folha de S. Paulo, https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/04/explosao-de-casos-de-sindrome-respiratoria-aponta-para-subnotificacao-de-casos-de-covid-19-no-pais.shtml 

Aos Fatos https://www.aosfatos.org/noticias/tabela-que-compara-mortes-por-covid-19-com-outras-causas-traz-dados-falsos/ Acesso em 19 mai 2020

DataSus, Mortalidade http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=0205&id=6937 Acesso em 19 mai 2020

Profissionais da saúde pedem o fim das fake news sobre saúde

Publicado originalmente em Dom Total, Agência Estado/Dom Total, em 14/05/2020*

Carta pede atitudes eficazes no combate à desinformação sobre o novo coronavírus


O documento traz uma série de exemplos de desinformação sobre o coronavírus que circulou na internet (Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr/Arquivo)

Profissionais da saúde do Brasil e de outros 16 países juntaram esforços em uma carta que pede atitudes mais severas contra a circulação de informações falsas sobre o novo coronavírus na internet. O documento, divulgado pelo Avaaz, é endereçado aos executivos responsáveis pelas principais redes sociais do mundo.

“Nosso trabalho é salvar vidas. Mas neste momento, além da pandemia da Covid-19, enfrentamos também uma infodemia global, com desinformações viralizando nas redes sociais e ameaçando vidas ao redor do mundo”, diz um trecho da carta.

O documento traz uma série de exemplos de desinformação sobre o coronavírus que circulou na internet, como um boato que afirmava que a Covid-19 foi desenvolvida como uma arma biológica pela China. Outra mentira que foi compartilhada nas redes sociais dizia que a cocaína era uma cura para a doença.

As informações falsas sobre a Covid-19 que circulam no Brasil, especificamente no Twitter, têm forte influência política. É o que explica Raquel Recuero, doutora em Comunicação e Informação e professora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Ela está trabalhando em uma pesquisa sobre a circulação de desinformação sobre o novo coronavírus.

“Essas desinformações estão profundamente conectadas com a polarização política que o Brasil passou durante as eleições”, fala. “A gente tem um conjunto de autoridades que legitima formas de desinformação, de teorias da conspiração e afins”, explica.

A professora diz que essas desinformações não circulam de maneira aleatória. Elas estão em redes que foram formadas diante de alinhamentos políticos e, por isso, têm uma forte ligação com esse discurso.

O documento assinado pelos profissionais de saúde propõe duas medidas para combater a disseminação das informações falsas. A primeira requer que a rede social corrija a publicação veiculada.

“Para isso, devem alertar e notificar cada pessoa que viu ou interagiu com a desinformação sobre saúde em suas plataformas e compartilhar uma correção bem elaborada preparada por verificadores de fatos independentes”, pede.

A segunda proposta é para as plataformas “desintoxicarem” seu algoritmo.

“Isso quer dizer que o alcance das mentiras nocivas, assim como dos grupos e páginas que as compartilham, serão reduzidos no feed de notícias dos usuários, ao invés de amplificados”, explica a carta.

Raquel ressalta algumas atitudes que vêm sendo tomadas pelas redes sociais para minimizar a circulação de informação falsa, como a ampliação de filtros e a sinalização da desinformação. Na segunda-feira, por exemplo, o Instagram colocou um “alerta de fake news” em uma publicação compartilhada pelo presidente Jair Bolsonaro.

No entanto, a pesquisadora fala que é difícil desmentir essas publicações porque na maior parte das vezes eles não são completamente falsas. “É sempre mais difícil de lidar com a informação que é só parcialmente falsa“, afirma. Ela cita como exemplo a hidroxicloroquina.

“Tem um estudo dizendo que ela (a hidroxicloroquina) teria funcionado em um caso específico e, deste caso específico, ela vira uma cura. Não existe nenhum estudo dizendo que ela curou, mas a interpretação sobre algo que aconteceu é que ela seria uma cura”, fala.

Desinformação antecede pandemia

A carta lembra que o compartilhamento de desinformação sobre saúde já vinha acontecendo antes do surgimento do coronavírus e eram relacionados, por exemplo, ao câncer e aos transtornos do espectro autista. O texto alerta para os perigos das mentiras que circulam nas redes sociais. “(Elas) promovem curas falsas e incentivam o medo de vacinas e dos tratamentos eficazes“, alega.

“Trabalhamos em hospitais, clínicas e departamentos de saúde públicos no mundo inteiro e estamos bastante familiarizados com os impactos reais desta infodemia. Somos nós que cuidamos dos bebês hospitalizados por sarampo, uma doença completamente prevenível, que já havia sido eliminada em países como os EUA, mas que agora ressurge graças, principalmente, às fake news anti-vacinação”, exemplificam os profissionais.

O documento é assinado por médicos, enfermeiros, cientistas, professores, epidemiologistas e institutos que atuam na área da saúde.

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Agência Estado/Dom Total

É falso que números por Covid-19 caem no Brasil por ações da Polícia Federal e do Ministro da Saúde

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No início de maio, voltaram a circular nas mídias sociais conteúdos que afirmam que a Polícia Federal (PF) e órgãos federais de saúde estariam auditando o número de óbitos por Covid-19. O Coletivo Bereia teve acesso à postagem de uma líder religiosa, em 8 de maio, com a tarja em vermelho trazendo os dizeres “Eita a casa caiu”, que ainda apresenta a afirmação de que a PF buscava esclarecimentos com famílias das vítimas e investigava as compras realizadas sem licitação.

O texto diz ainda que, por conta da ação do Ministro da Saúde empossado em abril, Nelson Teich, os números de vítimas em São Paulo começaram a cair, a Rede Globo teria parado de divulgar o número de óbitos e os estados e municípios teriam avisado que reabririam as economias. Segundo o conteúdo na página pessoal da pastora, caracterizado como “Informação falsa” pelo Facebook, o ex-ministro da pasta, Luiz Henrique Mandetta, teria mencionado o achatamento da curva relacionada à doença.

Antes mesmo da publicação da líder evangélica, que é presidente de uma igreja, juíza de paz, capelã e conselheira matrimonial, outras postagens em mídias sociais sobre o mesmo conteúdo já haviam sido pulverizadas a partir do dia 20 de abril.

Segundo o site Boatos.org, trata-se de uma espécie de teoria da conspiração sobre uma suposta queda no número de óbitos em decorrência do coronavírus divulgado pelas autoridades de saúde no país. A postagem também foi compartilhada por grupos pró-governo e outros contrários ao isolamento social horizontal. No perfil Bolsoteus um post enaltece o presidente Jair Bolsonaro e traz a chamada: “Corrigindo os dados ‘errados’ – Foi só trocar de ministro e começaram as correções no número de mortos por covid-19, imaginem então, até hoje quantos “erros” passaram sem averiguação?”.

Mediante a disseminação das publicações, a Boatos.org realizou a checagem, chegando à constatação de que são falsas. Isso porque são vagas, sem informações para comprovar a tese; alarmistas, com o objetivo de tirar as pessoas do isolamento social; apresentam erros de português e ainda não indicam fontes confiáveis para corroborar o que foi dito.

A seção “Fato ou Fake” do portal de notícias G1 também averiguou a informação e constatou a falsidade da mensagem. Segundo a matéria, o Ministério da Saúde negou a existência de uma auditoria. Em nota ao Fato ou Fake, o órgão informou que “os registros de casos e óbitos com confirmação de Covid-19 são reportados pelas secretarias estaduais e municipais de Saúde, levando-se em conta o número de pacientes hospitalizados e óbitos registrados no Sistema de Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP Gripe) e o número de exames positivos de Covid-19 em casos leves“.

A seção ainda menciona a afirmação do Ministério Público de que esses dados são repassados diariamente para equipes técnicas do Ministério da Saúde e divulgados por meio do portal – covid.saude.gov.br. Também não seria possível dizer que os números de São Paulo começaram a cair, uma vez que no dia 23 de abril o estado bateu recorde de mortes, com 211 novas ocorrências em 24 horas e, apesar de oscilações pontuais, a curva permanece ascendente. Já o número de casos tem variado bastante, mas não há uma tendência de queda.

Fato ou Fake também desmente a afirmação de que Rede Globo teria parado de divulgar os números de óbitos, o que segue sendo feito por meio dos telejornais e portal G1, pertencente ao Grupo Globo.

O entendimento de que todos os estados e municípios anunciaram uma reabertura imediata da economia também é contestado. De acordo com a checagem, em São Paulo, por exemplo, no período das postagens a quarentena estava mantida, como ainda está, pelo menos até o 31 de maio.

A Agência Lupa também verificou as publicações de que Teich estaria auditando números da Covid-19. A checagem se deu mediante o pedido feito por usuários do Facebook, por meio de projeto de verificação em parceria com a mídia social. A matéria, redigida pelo repórter Plínio Lopes e publicada em 24 de abril, taxa como falsa a informação sobre a suposta auditoria realizada pelo então novo Ministro da Saúde. Também categoriza como falso que os números de vítimas em São Paulo começaram a cair “como mágica”.

Segundo a reportagem, o presidente Jair Bolsonaro anunciou Nelson Teich como o novo ministro da Saúde no final da tarde do dia 16 de abril. Ele tomou posse no dia seguinte e, desde então, em São Paulo, o número de óbitos atingiu o maior valor diário e o número de casos confirmados o segundo maior desde o início da pandemia. Ratificando a verificação da Fato ou Fake, é falsa também a informação de que a emissora Globo parou de divulgar os números de vítimas por Covid-19. A Lupa apurou que, desde o anúncio de Nelson Teich como novo ministro da Saúde, no dia 16 de abril, todas as edições do Jornal Nacional (16, 17, 18, 20, 21 e 22 de abril) e a edição do Fantástico, de 19 de abril, divulgaram o número de óbitos por covid-19 no Brasil.

Sobre a reabertura das economias pelos estados e prefeituras, a agência classificou como exagerada, uma vez que, segundo a matéria, alguns estados e municípios, de fato, anunciaram a reabertura de certas atividades comerciais e outros, inclusive, já reabriram. Entretanto, isso varia de estado para estado e de município para município. São Paulo, por exemplo, condicionou a reabertura à manutenção de índices altos de isolamento. Outros, como Ceará e a Amazonas, mantiveram a suspensão do funcionamento de estabelecimentos comerciais não essenciais.

Por meio de nota ao Estadão Verifica, o Ministério da Justiça e Segurança Pública afirmou que “qualquer informação que circule nas redes sociais em nome da Polícia Federal que não tenha partido de nossos canais oficiais é de total responsabilidade de quem a divulgou”.

A mesma checagem foi realizada pela agência Aos Fatos, que participa do projeto de verificação de conteúdos em parceria com o Facebook, e identificou que, em 24 de abril, publicações com esse conteúdo acumulavam ao menos 40 mil compartilhamentos nessa mídia social até a tarde desta sexta-feira (24).

Por que o Facebook passou a identificar as postagens que têm informação falsa?

Após o escândalo, em 2015, envolvendo Facebook e Cambridge Analytica, em que informações pessoais de mais de 50 milhões de usuários foram vendidas para fins políticos com o desconhecimento dos usuários, Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, precisou dar explicações a parlamentares norte-americanos e europeus e apresentou novos mecanismos preventivos contra fake news.

Segundo o pesquisador Claudio Marques:

“Nos casos em que o conteúdo de publicações, fotos ou vídeos forem identificados como sendo falsos, Zuckerberg afirma que técnicos irão avaliar as possíveis consequências da disseminação da suposta notícia falsa para tomar duas possíveis atitudes: exclusão definitiva do conteúdo da plataforma nos casos mais graves (ameaça à integridade física de pessoas envolvidas, por exemplo) ou redução da sua capacidade de circulação e alcance, fazendo com que ela tenha uma chance muito menor de aparecer no feed de notícias dos usuários e se espalhar.”

Como exemplo dessa atuação, há o caso no Brasil em que 196 páginas e 87 contas falsas ligadas ao Movimento Brasil Livre, durante a campanha eleitoral de 2018, foram desativadas por sua participação em “uma rede coordenada que se ocultava com o uso de contas falsas no Facebook, e escondia das pessoas a natureza e a origem de seu conteúdo com o propósito de gerar divisão e espalhar desinformação”. O escândalo das fake news na campanha eleitoral de 2018 no Brasil acabaram se tornando objeto de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) no Congresso Nacional.

Desde os escândalos que envolveram o Facebook com uso ilegal de dados e veiculação de material falso, a empresa tem trabalhado em mudanças em seu algoritmo para amplificar as notícias de fontes confiáveis.

Segundo Claudio Marques, “algoritmo é uma sequência de instruções que orientam passo a passo a realização de uma tarefa ou a solução de um problema”. A pesquisadora Cathy O’Neil, no livro “Armas de destruição em massa: como o big data cresce e ameaça à democracia” (tradução livre), opina que os algoritmos podem se constituir em “Armas de Destruição Matemática”, pois teriam potencial para promover os privilegiados ao reforçar preconceitos e estereótipos. Eles podem desconsiderar fatores relevantes e permitir que se tirem conclusões enviesadas, como a de que prisioneiros não-brancos vindos de bairros pobres têm maior probabilidade de voltar a cometer crimes.

Dessa forma, algoritmos que não primam pela transparência e pela ética estariam sendo cada vez mais utilizados para tomada de decisões que impactam diretamente na vida das pessoas, prejudicando principalmente os pobres, os negros, os imigrantes e os que possuem baixa escolarização. Por outro lado, há muitos algoritmos que são positivos para a sociedade. O Facebook foi pressionado a construir o seu contra as fake news.

Em 2018, o Facebook lançou no Brasil o seu programa de verificação de notícias, em parceria com as agências de checagem Aos Fatos e Lupa. Pelo programa, as duas agências de verificação têm acesso às notícias denunciadas como falsas pela comunidade no Facebook para analisar sua veracidade. Os conteúdos classificados como falsos têm sua distribuição orgânica reduzida de forma significativa no Feed de Notícias. Páginas no Facebook que repetidamente compartilharem notícias falsas terão todo o seu alcance diminuído.

Esse mecanismo, quando aplicado nos Estados Unidos desde 2015, permitiu cortar em até 80% a distribuição orgânica de notícias consideradas falsas por agências de
verificação parceiras.

“Estamos comprometidos em combater a disseminação de notícias falsas no Facebook. Essa parceria com Aos Fatos e Agência Lupa é mais um passo em nossos esforços para combater a desinformação e melhorar a qualidade das notícias que as pessoas encontram no Facebook”, afirma a líder de parcerias com veículos de mídia do Facebook para América Latina, Cláudia Gurfinkel.

Além de reduzir o alcance de conteúdos considerados falsos, o Facebook envia notificações para pessoas e administradores de Páginas que tentarem compartilhar esse conteúdo, alertando-os que a sua veracidade foi questionada por agências de verificação.

Notícias consideradas falsas pelas agências de verificação não podem ser impulsionadas no Facebook. E as Páginas que publicarem com frequência tais conteúdos não têm mais a opção de usar anúncios para construir suas audiências. Aos Fatos e Agência Lupa podem, ainda, associar a sua checagem a uma notícia que
tenha sido questionada. Esse texto com a checagem será mostrado no Feed de Notícias por meio do recurso Artigos Relacionados, fornecendo mais contexto às pessoas para que tomem decisões mais informadas sobre o conteúdo que consomem.

Aos Fatos e Agência Lupa podem, ainda, associar a sua checagem a uma notícia que tenha sido questionada. Esse texto com a checagem será mostrado no Feed de Notícias por meio do recurso Artigos Relacionados, fornecendo mais contexto às pessoas para que tomem decisões mais informadas sobre o conteúdo que consomem. Como no caso da postagem da pastora que originou esta matéria:

O programa de verificação de notícias do Facebook está disponível em alguns países e conta com a parceria de organizações de checagem integrantes da International Fact-Checking Network (IFCN), da Poynter.

Já em 16 de abril de 2020, o Facebook anunciou uma nova ferramenta para evitar o compartilhamento de desinformação acerca do coronavírus. Usuários que tiverem interação em postagens com conteúdos falsos ou que confundem sobre a pandemia serão notificados. E encaminhados para informações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Por isso o presidente Jair Bolsonaro teve um vídeo removido do Facebook e do Instagram em 30 de março. No vídeo publicado em seus perfis nestas mídias, Bolsonaro provocava aglomerações durante um passeio em Brasília e se posicionava contra o isolamento social, defendido por autoridades de saúde do mundo inteiro como medida eficaz para conter o coronavírus.

Um porta-voz do Facebook explicou que a plataforma removeconteúdo no Facebook e Instagram que viole nossos Padrões da Comunidade, que não permitem desinformação que possa causar danos reais às pessoas”.

Cristãos e desinformação sobre a Covid-19

A agência Aos Fatos alerta que tentativas de desacreditar os dados estaduais de mortes por Covid-19 fazem parte de um processo de desinformação cada vez mais frequente com o avanço da pandemia.

Em geral, as postagens lançam suspeitas sobre os números para fazer crer que há interesses políticos de governadores dos estados contra o governo de Jair Bolsonaro. Já houve várias publicações que sugeriram que atestados de óbitos estavam sendo forjados para inflar os números de casos no Brasil. Depois, houve postagens com acusações de que governos estaduais de estarem superestimando os dados.

Todas estas postagens ainda circulam, apesar das matérias das agências de checagem já as terem classificadas como falsas. Indivíduos e grupos cristãos têm participado na disseminação deste material desinformativo, como é o caso da pastora, cuja postagem foi base para a elaboração desta matéria. O Coletivo Bereia já produziu várias checagens de conteúdo desinformativo sobre a pandemia que circula entre cristãos.

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Referências de checagem

Boatos.org, https://www.boatos.org/saude/numero-de-mortes-covid-19-caiu-investigacao-teich-moro.html Acesso em 11 mai 2020

Fato ou Fake, G1, https://g1.globo.com/fato-o fake/coronavirus/noticia/2020/04/24/e-fake-que-ministro-da-saude-faz-auditoria-dos-numeros-de-casos-e-mortes-de-covid-19.ghtm. Acesso em 11 mai 2020

Lupa, https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2020/04/24/verificamos-nelson-teich-auditando-covid/ Acesso em 11 maio 2020

Estadão Verifica, https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/pf-nao-tem-inquerito-para-apurar-mortes-pela-covid-19/ Acesso em 11 mai 2020

Aos Fatos, https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/pf-nao-tem-inquerito-para-apurar-mortes-pela-covid-19/ Acesso em 11 mai 2020

The Guardian, https://www.theguardian.com/technology/2019/mar/17/the-cambridge-analytica-scandal-changed-the-world-but-it-didnt-change-facebook Acesso em 11 mai 2020

Facebook, https://about.fb.com/br/news/2018/05/facebook-lanca-produto-de-verificacao-de-noticias-no-brasil-em-parceria-com-aos-fatos-e-agencia-lupa/. Acesso em 11 mai 2020.

G1, https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2020/04/16/facebook-vai-avisar-quem-interagiu-com-informacoes-falsas-sobre-o-coronavirus.ghtml Acesso em 11 mai 2020

G1, https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2020/03/30/facebook-e-instagram-removem-video-de-jair-bolsonaro-por-violacao-de-regras.ghtml Acesso em 11 mai 2020

Claudio Marques, “Entre algoritmos e bolhas: as fake news e a comunicação do IBGE”. Disponível em: http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/encontros-nacionais/12o-encontro-2019/gt-2013-historia-do-jornalismo/entre-algoritmos-e-bolhas-as-fake-news-e-a-comunicacao-do-ibge/at_download/file . Acesso em 11 mai 2020

Cathy O’Neil. Weapons of math destruction: how big data increases and threatens democracy.New York: Crown, 2016.

Reuters, https://br.reuters.com/article/domesticNews/idBRKBN1KF1MI-OBRDN . Acessado em 11/05/2020. Acesso em 11 mai 2020.

Fonte/imagem de destaque: https://www.haribhoomi.com/news/india/doctors-gave-information-about-outbreak-of-corona-infection-and-symptoms-of-corona-virus-325500

Coronavírus: Os sete tipos de pessoas que inventam e disseminam fake news

Publicado originalmente na BBC News e traduzido via UOL Marianna Spring – 08/05/2020*

A BBC investigou centenas de histórias enganosas durante a pandemia. Isso nos deu uma ideia sobre quem está por trás da desinformação – e o que os motiva. Aqui estão sete tipos de pessoas que iniciam e espalham falsidades

Teorias conspiratórias, desinformação e especulações sobre o coronavírus inundaram as redes sociais. Mas quem começa esses rumores? E quem os espalha?

Investigamos centenas de histórias enganosas durante a pandemia. Isso nos deu uma ideia sobre quem está por trás da desinformação – e o que os motiva. Aqui estão sete tipos de pessoas que iniciam e espalham falsidades:

O Piadista

Arte: BBC News

Esperava-se que ninguém fosse enganado por um áudio de WhatsApp que dizia que o governo britânico estava preparando uma lasanha gigante no estádio de Wembley, em Londres, para alimentar os habitantes da cidade. Mas algumas pessoas não entenderam a piada.

Para dar um exemplo um pouco mais sério, uma pessoa criou uma suposta captura de tela de um texto falso do governo que alegava que a pessoa que estava lendo aquilo havia sido multada por deixar a casa muitas vezes. Ela achou que seria engraçado assustar as pessoas que violavam as regras de quarentena.

Depois de incentivar seus seguidores a compartilhar o texto no Instagram, chegou a grupos locais do Facebook, onde foi publicado por moradores preocupados, alguns dos quais levaram a sério.

“Eu realmente não queria causar pânico” , dizia o brincalhão, que se recusou a nos fornecer seu nome verdadeiro. Mas se as pessoas acreditam em uma captura de tela nas redes sociais, precisam realmente reavaliar a maneira como consomem informações na internet .

O Golpista

Arte: BBC News

Outros textos falsos supostamente de autoria do governo ou de conselhos locais foram gerados por golpistas que procuram ganhar dinheiro com a pandemia.

Uma dessas fraudes investigadas pela organização de caridade Full Fact, em março, alegou que o governo estava oferecendo pagamentos de ajuda às pessoas e pediu detalhes bancários.

Fotos do texto do golpe foram compartilhadas no Facebook. Como circulou por mensagem de texto, é difícil identificar quem estava por trás.

Os golpistas começaram a usar notícias falsas sobre o vírus para ganhar dinheiro a partir de fevereiro, com e-mails sugerindo que as pessoas poderiam “clicar em um texto sobre a cura do coronavírus” ou sugerindo que eles tinham direito a um reembolso de imposto por causa do surto.

O Político

Arte: BBC News

A desinformação não vem apenas dos cantos mais obscuros da internet.

Na semana passada, o presidente americano, Donald Trump, questionou se expor os corpos dos pacientes à luz ultravioleta ou injetar alvejante poderia ajudar a tratar o coronavírus. Ele estava especulando.

Mais tarde, ele alegou que os comentários eram sarcásticos. Mas isso não impediu as pessoas de telefonarem para serviços médicos para perguntar sobre tratamento com desinfetante.

Não é apenas o presidente dos EUA. Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China promoveu a ideia de que a covid-19 poderia ter sido trazida a Wuhan pelo Exército dos EUA. As teorias da conspiração sobre o surto foram discutidas no horário nobre na TV estatal russa e em contas no Twitter pró-Kremlin.

O autor de teorias da conspiração

Arte: BBC NEWS

Toda a incerteza sobre o vírus criou um terreno fértil perfeito para as teorias da conspiração.

Uma história falsa de origens obscuras, alegando que o primeiro voluntário a participar de um teste de vacina no Reino Unido havia morrido, circulava em grandes grupos de pessoas contrárias à vacinação no Facebook. Era ficção.

Entrevistas com David Icke, um conhecido criador de teorias conspiratórias britânico, no YouTube, que já foram removidas, também revelaram falsas alegações de que a tecnologia 5G estaria vinculada ao coronavírus.

Icke também apareceu em uma rede de TV de Londres, que violou os padrões de transmissão do Reino Unido. Sua página no Facebook foi posteriormente retirada, segundo a empresa, por publicar “desinformação sobre saúde que poderia causar danos físicos”.

As teorias da conspiração levaram a vários ataques de vândalos a torres de 5G.

O ‘Insider’

Arte: BBC NEWS

Às vezes, a desinformação parece vir de uma fonte confiável – um médico, professor ou funcionário de hospital.

Mas muitas vezes o ‘insider’ não é nada disso.

Uma mulher da cidade de Crawley foi a criadora de um áudio com tom de voz de pânico que descrevia terríveis números de mortes de jovens saudáveis por coronavírus – tudo completamente sem fundamento. Ela alegou ter informações privilegiadas por trabalhar em um serviço de ambulância.

Ela não respondeu aos pedidos de entrevista ou forneceu provas de seu emprego, portanto, não sabemos se ela é realmente uma trabalhadora da área de saúde. Mas sabemos que as alegações em sua mensagem eram infundadas.

O Parente

Arte: BBC NEWS

Esse áudio e muitos outros se tornaram virais porque preocupavam as pessoas, que então compartilhavam as mensagens com amigos e familiares.

Por exemplo, Danielle Baker, mãe de quatro filhos, que passou adiante a mensagem por Facebook Messenger “porque vai que é verdade…”.

No começo, fiquei um pouco desconfiada porque foi enviada por uma senhora que eu não conhecia , diz ela. Encaminhei porque eu e minha irmã temos bebês da mesma idade e também temos filhos mais velhos, e todos nós temos alto risco em nossas casas.

Essas pessoas acham que estão tentando ser úteis e acham que estão fazendo algo positivo. Mas, é claro, isso não torna verdadeiras as mensagens que elas transmitem.

A Celebridade

Arte: BBC NEWS

Não é apenas sua mãe ou tio. As celebridades ajudaram as fake news a se tornarem populares.

A cantora M.I.A. e o ator Woody Harrelson estão entre os que têm divulgado a teoria do coronavírus ligado ao 5G para suas centenas de milhares de seguidores nas redes sociais.

Um relatório recente do Reuters Institute constatou que as celebridades desempenham um papel fundamental na divulgação de informações erradas online. Alguns também têm plataformas enormes na mídia tradicional.

O apresentador Eamonn Holmes foi criticado por parecer dar alguma credibilidade às teorias da conspiração sobre 5G no programa do canal britânico ITV This Morning, “o que eu não aceito é a grande mídia imediatamente dizer que isso não é verdade quando eles não sabem que não é verdade“, disse ele. Holmes mais tarde pediu desculpas e a Secretaria de Comunicação do governo emitiu orientações para a ITV, considerando os comentários inadequados.

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* Ilustrações de Simon Martin. Informações adicionais de Olga Robinson.

Comunicação e Discriminação

A discriminação é o abuso dos pré-conceitos. Ela acontece quando falhamos em reconhecer as variações, nuanças e diferenças entre pessoas, grupos étnicos e símbolos. De fato, a discriminação pode se manifestar instantaneamente numa mera reação mental ou emocional, quando pensamos em: homem feio, mulher loira, travesti, político, corintiano, carioca, motoqueiro, milionário, pastor, coronel, católico, evangélico, e assim por diante. Simples palavras podem despertar retratos gravados na memória e causar reações diversas, dependendo da experiência e de acordo com os pré-conceitos.

Três razões apontam para o agravamento da discriminação na mídia pós-moderna:

Em primeiro lugar, nós experimentamos o declínio da racionalidade. Todo ser humano tem uma cosmovisão ou um conjunto de valores acerca do mundo, da sociedade, da religião e de si mesmo. Essas ideias foram estruturadas na Era da Razão com um foco meramente cognitivo e coerente. Na Pós-Modernidade, com frequência nos utilizamos de conceitos que são contrários à lógica e à racionalidade. Isso é perceptível na dialética da espiritualidade, na psicologia popular, na gestão e administração de organizações, bem como na forma com que as ciências sociais articulam os reality shows e propagandas nas redes sociais.

Além disso, aceitamos como fato a relativização da verdade. A abrangência das fake news nas redes sociais demonstra claramente a dificuldade que os indivíduos têm para separar e julgar boatos, sentimentos, imaginações, pressentimentos e hipóteses dos fatos reais, acontecimentos concretos, evidências, dados estatísticos e teorias da conspiração. O que é real e o que é imaginário? Terraplanismo e grupos anti-vacina são apenas dois exemplos da subjetividade do pensamento e da pressão do achismo (e com frequência, triunfo) sobre os dados científicos. A verdade absoluta foi desprezada.

Finalmente abraçamos a seletividade intelectual. Walter Lippman escreveu o seguinte:

“Sob certas condições, os homens reagem tão poderosamente a ficções, quanto o fazem a realidades, e em muitos casos, eles mesmos ajudam a criar as próprias ficções às quais reagem.”

A politização do Covid-19 comprova que é comum escolher e comprar os conceitos e valores de maneira subjetiva, interesseira, hedonista e individualista.

A tendência diante do declínio da racionalidade, da relativização da verdade e da seletividade intelectual é desvalorizar as diferenças e supervalorizar as semelhanças. Morei alguns anos no Canadá e ficou muito claro para mim as dificuldades para eu me comunicar numa segunda língua com imigrantes de vários países, que falavam outras línguas. Da mesma forma, numa sociedade multicultural, intergeracional e globalizada como a nossa, precisamos reconhecer claramente as diferenças para evitar a discriminação. Não fomos fabricados em série, numa linha de produção de fábrica. Não existem no mundo duas pessoas, duas impressões digitais, dois fatos, duas coisas que sejam absolutamente iguais. Quando exageramos as semelhanças, sem considerar as diferenças, criamos vários obstáculos à comunicação ética da verdade.

Há vários remédios para ajudar a corrigir e superar a discriminação na comunicação da verdade. Entretanto quero lidar diretamente com um clássico erro social, causador de alguns dos maiores pré-conceitos: a tendência humana ao ensimesmamento.

As pessoas acham que são autossuficientes e que sabem o bastante sobre vários assuntos. Pelo menos pensam que sabem o suficiente para criar fórmulas perfeitas para resolver grandes problemas sociais, expor opiniões sobre a crise econômica, atacar tal partido político e governo, opinar fortemente sobre as celebridades da TV e fazer comentários íntimos nas mídias sociais. Satisfeitas com a própria sabedoria, elas ficam desejosas para expor um certo conhecimento que, no final do dia, demonstra ser extremamente superficial, errôneo e, até mesmo, inapropriado.

A Psicologia demonstrou que o ensimesmamento – e seus filhotes autossuficiência, autopromoção, exibicionismo e assim por diante, se associam diretamente ao conceito Freudiano de Narcisismo. A palavra foi primeiramente cunhada por Sigmund Freud no artigo “Sobre a Introdução do Conceito de Narcisismo”, publicado em 1914.

Na mitologia grega, Narciso era um belo rapaz que rejeitou a ninfa Eco, que desesperadamente o desejava. Como punição, foi amaldiçoado pela ninfa e apaixonou-se incontrolavelmente por sua própria imagem refletida na água. Incapaz de levar a termo sua paixão por si mesmo, Narciso suicidou-se por afogamento.

O narcisista produz um tipo de discriminação que distorce a realidade, altera as evidências e modifica os fatos, em prol dos seus próprios interesses. Ele curte nas redes sociais aquelas posições que refletem os seus próprios pensamentos e lê apenas os jornais que concordem com ele. Ele prefere os programas que reforcem suas ideias e frequentará somente os grupos de afinidade onde se encontrem pessoas iguais. Os preconceitos do narcisista dirigem os fatos e as pessoas com as quais se comunica. Pessoas iguais, contudo, acham que sempre tem razão. Resultado: discriminação e intolerância distorce suas opiniões e hábitos.

Por isso, pessoas discriminadoras mostram uma precária capacidade para perceber intimamente o mundo dos outros seres humanos. Falta-lhes empatia. Muitas vezes, elas agem de forma exploradora, à custa dos outros. Em contraste com o uso do poder socializado e participativo para promover o bem-estar social, os narcisistas tentam manipular e dominar outros seres humanos, usando o poder e a força para controlar sua agenda pessoal. Raramente compreendem que a única maneira de preservar a integridade da personalidade é relacionar-se com outros homens e mulheres, com genuíno amor, compaixão, maturidade, solidariedade e humildade.

Na verdade, o melhor remédio para vencer o narcisismo e, consequentemente superar a discriminação na comunicação é a humildade. C. S Lewis descreve a humildade como um “abençoado auto esquecimento”:

“Não é pensar menos de si mesmo, mas pensar menos em si mesmo.”

O foco da pessoa humilde não está em si mesmo, em seu desenvolvimento, condição e progresso, mas em outros lugares, em outras pessoas. Acima de tudo, a comunicação eficaz parte do reconhecimento das limitações e deficiências de cada um de nós. Aprendamos a sublinhar a diversidade e celebrar as diferenças com a pessoa mais inteligente que já existiu, Jesus Cristo, que era “manso e humilde de coração (Mt: 11.29).

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Fonte/imagem: https://www.wikiwand.com/pt/Narcisismo

Fonte/imagem de destaque: https://www.shutterstock.com/pt/image-illustration/persons-disabilities-have-equal-rights-balance-749024914

É verdade que Apóstolo Valdemiro Santiago oferece semente que cura Covid-19

Circula amplamente por mídias sociais neste 7 de maio de 2020, um vídeo de pouco mais de dois minutos com fala do líder da Igreja Mundial do Poder de Deus, Apóstolo Valdemiro Santiago, sobre o poder de uma semente oferecida por ele na cura da Covid-19.

No vídeo, o líder religioso mostra um exame que comprovaria que uma pessoa teria sido curada da Covid-19 após plantar a semente (que não é identificada), na qual está escrita frase que Deus diz a Abraão, segundo a Bíblia: “Sê tu uma bênção”. Valdemiro Santiago afirma:

“Gente curada de estado terminal, gravíssimo. E está ali o exame, para quem quiser. (…) Você vê como a semente é semeadora. E aí sim conseguiu vencer a crise e a panademia. Só tem um jeito de se vencer essas fases difíceis. É semeando, e semeando na obra de Deus. Essa semente é interessante, você planta… É a semente “sê tu uma bênção”. Você vai semear essa semente e na planta que nascer vai estar escrito “Sê tu uma bênção”.”

Na gravação o Apóstolo reconhece possíveis críticas ao instrumento de cura. Ele diz: “Mas isso é enganar? Não! Você que tá enganado!”. E depois anuncia a forma de pagamento para se adquirir a semente:

“O propósito que eu vou fazer é de R$ 1.000 para cada um [dos parentes para quem vai plantar uma semente]. E muitos que estão me assistindo também vão fazer de R$ mil. Outros vão fazer de R$ 500, e finalmente outros vão fazer de R$ 200 e até R$ 100. A semente de acordo com sua sementeira… Até mais quem quiser”.

O vídeo que circula é um trecho de gravação maior que se encontra no canal do Youtube da Igreja Mundial do Poder de Deus, postado no dia 1 de maio.

A gravação completa tem 42 minutos e inicia com uma pregação de Valdemiro Santiago sobre texto bíblico de Gênesis, capítulo 47, que versa sobre semear a terra e alcançar a abundância de Deus. Daí o Apóstolo “convoca o povo de Deus” a “semear em terra fértil”, que ele classifica como a obra de Deus, durante o mês de maio. Depois de expor que pessoas foram curadas dos efeitos do coronavírus ao terem plantado a semente que tem gravada a frase bíblica “Sê tu uma bênção”, ele oferece o instrumento que diz ser curativo condicionado a um pagamento à igreja de R$ 1.000, R$ 500, R$ 200 ou R$ 100. Se alguém quiser dar mais poderá, segundo o religioso que disse ser este “o mais abençoado de todos os propósitos que já fizemos”. Depois Santiago recorre ao texto da Bíblia em Marcos 4 para justificar a campanha, que diz que o Reino de Deus é como um homem que sai a semear.

O Apóstolo afirma que as sementes são “coisa divina mesmo”, e diz que a planta que cresce tem nela marcada a frase “Sê tu uma bênção”. Depois, o líder da Igreja Mundial convida católicos, evangélicos, pessoas de outras religiões para que ninguém fique de fora e as adquira, por meio de contato telefônico com envios para todo o Brasil. As pessoas que desejarem adquirir a semente devem fazer o depósito do valor desejado na conta da igreja e enviar o comprovante para as centrais telefônicas disponíveis em vários estados, e solicitar o envio.

A Campanha “Semeador Sê tu uma bênção” está em chamada de destaque no site da igreja. Ao clicar no link para a contribuição para esta campanha, não aparece explicação sobre ela, mas sim uma página onde as doações financeiras podem ser realizadas, o que leva à compreensão de que o conteúdo do vídeo já é de conhecimento de quem acessa o site.

O oferecimento de objetos “abençoados” para o alcance de benefícios concretos por parte de fieis é prática comum na Igreja do Poder de Deus e em outras igrejas que desenvolvem teologia e ações similares. O pesquisador Ricardo Mariano explica este fenômeno social na obra ‘Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil’, das Edições Loyola. A imagem da semente como Obra de Deus que pode se multiplicar na vida das pessoas já foi utilizada pela igreja em outras campanhas. No site da Igreja Mundial há um testemunho de milagre financeiro, datado de 13 de março de 2016 que narra a história de José Gino Nazário. Segundo o texto, o fiel tinha a vida financeira arruinada quando percebeu que se tratava da falta de compromisso com o dízimo. Nazário afirma:

“Eu já era evangélico, aqui da Igreja Mundial do Poder de Deus, mas minha vida estava no fundo do poço. Eu atrasava os propósitos, fazia esperando receber, não dando a minha parte. Era dizimista, mas dizimava quando dava vontade ou sobrava dinheiro, ofertava do meu jeito, não do jeito que é ensinado pelo Homem de Deus. Queria mudança na minha vida financeira, que nunca prosperava, mas não abria o meu coração e retornava o que era de Deus. (…) Assisti em casa, pela televisão, a uma palavra ministrada pelo Apóstolo Valdemiro Santiago e, nela, Deus disse que era para semear, que a semente daria frutos e quem dava a semente era Deus. Sou criado e crescido na roça e lembro que meu pai semeava terra e ia até o fazendeiro para lavrar. Aquela explicação encheu meu coração de ânimo e de entendimento. Vim até o templo, tomei posse da semente, peguei um Carnê da Oração Incessante, dessa vez para semear, não para fazer propósitos ou votos que eu não conseguisse cumprir, nem esperando nada específico, apenas para ver semente plantada, porque sei que, na época certa, germina. Peguei e semeei. Deus me deu sete mil reais e paguei tudo o que devia, que me mantinha na miséria e fiquei com o restante. Foi aí que percebi que eu era o errado. Mudei meu jeito de ofertar, de fazer a obra. Hoje, tenho mais um carnê de trezentos reais e sou dizimista fiel, ofertante, porque provo que Deus dá prosperidade e condições para nossa vida. E quem duvidar, apanhe uma semente e faça o que eu fiz, Deus se revelará a você também”.

Com base nestes elementos, o Coletivo Bereia classifica o conteúdo do vídeo que está circulando nas mídias sociais sobre o oferecimento de semente para cura de Covid-19 e outras dificuldades da vida pelo líder da Igreja Mundial do Poder de Deus como verdadeiro.

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Referências de Checagem:

Youtube, Igreja Mundial do Poder de Deus. https://www.youtube.com/watch?v=iDhf1HjkknU

Igreja Mundial do Poder de Deus. https://impd.org.br/

Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil, por Ricardo Mariano. 3. ed. São Paulo: Loyola, 2010.

Não há como afirmar que OMS e Bill Gates manipulem dados sobre o Covid-19

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O youtuber paranaense e “jornalista católico” (como se define), Bernardo P. Kuster, publicou no Twitter uma postagem onde sugere que a Organização Mundial da Saúde (OMS) ratifica que pessoas já infectadas pelo novo Coronavírus (COVID-19) seriam imunes a novos contágios pois, segundo ele, a entidade teria interesse financeiro na criação de uma vacina.

De acordo com o paranaense, a prova seria um aporte recebido pela OMS de empresas da indústria farmacêutica e também do bilionário e filantropo americano Bill Gates, por meio de Fundação Bill & Melinda Gates. Kuster garante que Gates teria interesse no mercado.

O Coletivo Bereia apurou as informações divulgadas pelo youtuber bolsonarista (Kuster foi recomendado pelo presidente Jair Bolsonaro como fonte confiável de informação) e checou:

1 – Em resposta aos governos que propuseram a emissão de um ‘passaporte imunológico’, atestando a imunidade por pessoas que já contraíram o vírus, a OMS afirmou por meio de um comunicado, no sábado (25/4), que não há evidências de que as pessoas que se recuperaram do COVID-19 e que têm anticorpos sejam imunes a uma segunda infecção.

2 – A China só confirmou o primeiro caso de transmissão do Covid-19 em 20 de janeiro de 2020. Até então, a OMS seguiu as informações das autoridades sanitárias chinesas. Não havia comprovação da transmissão e, em declaração do representante da organização Gauden Galea, foi afirmado que apesar de causar sérios problemas em alguns pacientes, o vírus “não se espalha rapidamente”. Até então também não havia nenhuma morte confirmada em Wuhan, na China. O quadro atual de compreensão da pandemia é fortemente diferente daquele de janeiro passado.

3 – A OMS surgiu em 1948 e, inicialmente, era inteiramente financiada por contribuições anuais de seus países membros. Hoje, no entanto, parte de seu orçamento bianual de 4,8 bilhões de dólares é complementada com doações empresariais e de organizações, como a Fundação Bill & Melinda Gates. Segundo o relatório da OMS, a Fundação é a segunda principal doadora da entidade, estando atrás apenas dos Estados Unidos, no período de 2018 a 2019.

4 – O valor de US$ 250 milhões de dólares citado na postagem de Bernardo Kuster se refere ao recurso doado pela Fundação Bill & Melinda Gates neste período de combate ao Covid-19. Em nota publicada no site da fundação, não há menção de que esse recurso tenha sido repassado integralmente à OMS, nem há informações sobre valores e repasses regulares à organização. A nota afirma que o investimento atende aos países da África e do Sul da Ásia; no desenvolvimento e fornecimento de tratamentos e vacinas; na aceleração da detecção e contenção do vírus; e na proteção de comunidades vulneráveis nos Estados Unidos e apoio a atividades pedagógicas à distância. A Fundação diz defender a cooperação e a coordenação globais e atuar por meio de consórcios internacionais com empresas (incluindo corporações na área de Medicamentos e Alimentos), governos, centros de pesquisa e organizações não governamentais. Nessa mesma nota sobre suas ações no enfrentamento do vírus é mencionada a organização de um encontro com lideranças de 15 empresas farmacêuticas globais. De acordo com o comunicado, essas empresas abriram o acesso às suas bibliotecas de composto antivirais.

Em relação à atuação da fundação, é importante atentar para os conflitos de interesses políticos e econômicos, que podem gerar esse tipo de cooperação, principalmente se nessas rodadas não há menção explícita da participação de outros segmentos da sociedade civil e atores sociais, os quais devem fazer parte da busca de decisões e soluções coletivas. A unilateralidade dessas soluções é um ponto crítico que precisa ser acompanhado de perto pela população. No caso da indústria farmacêutica, há inúmeros relatos e estudos que comprovam situações de conflitos de interesses, concentração de poder. Para quem desejar saber mais sobre esse assunto: “A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos, de Márcia Angel (Ed. Record).

O que se pode concluir com esta checagem é que o youtuber e jornalista católico, Bernardo Kuster, utiliza informações corretas, como quando afirma que a OMS não reconheceu a transmissão entre seres humanos do novo coronavírus, no entanto, são informações defasadas, de janeiro de 2020, quando a doença ainda estava sendo identificada. Os elementos sobre o financiamento privado à agência também são corretos, porém, Kuster distorce a informação ao criar uma teoria conspiratória, da qual não consegue provar. Por conta disso, o Coletivo Bereia considera a postagem inconclusiva.

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Referências de checagem:

Gaúcha ZH – “Nova Cepa de coronavírus pode ser origem de surto de pneumonia na China. (9.01.2020) Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/mundo/noticia/2020/01/nova-cepa-de-coronavirus-pode-ser-origem-de-surto-de-pneumonia-na-chinack56st3ju02mk01odknlouu8q.html ;

Gates foundation – Twenty years in the making: The foundation’s response to COVID-19. Disponível em: https://www.gatesfoundation.org/TheOptimist/Articles/coronavirus-mark-suzman-funding-announcement-2

Intercept– Quem são os youtubers recomendados por Jair Bolsonaro. Disponível em: https://theintercept.com/2018/11/17/youtubers-bolsonaro-nando-moura-diego-rox-bernardo-kuster-fake-news/

Istoé – Nova cepa de coronavírus pode ser origem de surto de pneumonia na China. Disponível em: https://istoe.com.br/nova-cepa-de-coronavirus-pode-ser-origem-de-surto-de-pneumonia-na-china/

Site do People’s Health Movement – “PHM Condemns US Halt on Funding toWHO” (20.04.2020). Disponível em: https://phmovement.org/articles-and-statements-on-pandemic-of-coronavirus-disease-2019-covid-19/

Site da Fundação Bill & Melinda Gates – “Twenty years in the making: Thefoundation`s response to Covid-19”. Disponível em: https://www.gatesfoundation.org/TheOptimist/Articles/coronavirus-mark-suzman-funding-announcement-2

Revista Exame – “Clima esquenta na OMS com acusação de negligência feita por Taiwan”( 14.04.2020). Disponível em: https://exame.abril.com.br/mundo/clima-esquenta-na-oms-com-acusacao-de-negligencia-feita-por-taiwan/

Jornal O Estado de Minas – “OMS alerta que não há provas de que pessoas já infectadas ficam imunes” (25.04.2020). Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2020/04/25/interna_internacional,1141806/oms-alerta-que-nao-ha-provas-de-que-pessoas-ja-infectadas-ficam-imunes.shtml

OMS – “Immunity passports” in the context of COVID-19 –Disponível em : https://www.who.int/news-room/commentaries/detail/immunity-passports-in-the-context-of-covid-19

Relatório OMS – WHO Results Report Programme Budget 2018-2019 Mid-Term Review. Disponível em: https://apps.who.int/gb/ebwha/pdf_files/WHA72/A72_35-en.pdf

Ler a Bíblia em tempos de pandemia

Originalmente publicado na Agência Ecumênica de Comunicação em 14 de Abril de 2020*

Pronunciamento de biblistas argentinos/as em relação à COVID-19

Não há uma organização específica de nossa parte. Somos estudiosos/as da Bíblia que trabalharam juntos em algum momento, que compartilham espaços e preocupações, trocam referências e trabalham espontânea e ecumenicamente. Nessa ocasião, surgiu a preocupação de, juntos, dizermos algo sobre o uso infeliz que alguns fazem da Bíblia.

“Penso novamente em meu coração algo que me dá esperança: que o amor do Senhor não acabou, nem a sua compaixão se esgota.” (Lm 3, 21-22).

Vivemos em tempos sem precedentes. A experiência de vulnerabilidade e contingência passa por nós. Em muitas ocasiões, passamos por nossa vida cotidiana como se esta fosse somente uma sucessão de perdas. O vírus SARS-CoV-2 (coronavírus) nos impôs uma extraordinária percepção e uma experiência da realidade pessoal, comunitária, local e global.

Nesses tempos de pandemia, temos ouvido e assistido reflexões intermináveis vindas de uma ordem diferente em meio à confusão e ao medo. Muitas delas, de natureza religiosa, são atravessadas ​​por visões simplistas, dualistas, espiritualistas e em perspectivas de punição, condenação, mérito e salvação. Elas apresentam versículos bíblicos, independentemente de seus contextos e história, e assim, provocam o que parece mais uma atitude mágica do que uma audição serena à experiência comunitária da palavra de Deus endereçada ao seu povo.

Na qualidade de estudiosos/as da Bíblia, que se reúnem em torno de uma leitura social da Bíblia, não podemos deixar de nos manifestar diante de tais interpretações. Doença e morte fazem parte de nossa condição humana. Uma condição que não pode ser pensada como consequência de qualquer punição, mas sim na recepção aberta ao que é, simplesmente. É sob essa condição que desenvolvemos nossa existência. E sob essa condição nos ligamos aos outros, à divindade, ao cosmos.

De nossa herança cristã, afirmamos ainda que, qualquer discurso que surja em virtude de intervenções milagrosas prometidas em troca de ofertas “voluntárias” contradiz o centro da fé judaico-cristã:

É na humanidade e em seus processos que Deus se manifesta amorosamente, livre e livremente e, ainda, na percepção compreensível de sua ausência nascida da dor. Hoje vale a pergunta, onde está Deus?

A vulnerabilidade de nossa condição exige, então, o fortalecimento daqueles que cuidam daqueles que mais precisam. Nesse sentido, acreditamos que o Estado, como forma de relação social, desempenha papel fundamental, essencial e inalienável. As políticas neoliberais que nos atingiram geraram uma lacuna social insuperável. Sob essa perspectiva, a sobrevivência não é possível. Os exemplos internacionais que temos ao nosso alcance são claros.

Incentivamos qualquer organização social que proteja a vida. Acreditamos que a Ciência, em colaboração entre países e como política estatal de primeira linha, é o caminho que nos levará a superar a situação que nos chama.

Finalmente, teimosamente exercitamos a esperança. Consideramos que a crise causada por essa pandemia, que põe sob questionamento a ordem mundial, nossas relações humanas e nossas interações no meio ambiente, é uma oportunidade de sonhar e se recriar como uma nova humanidade.

Texto assinado por:

Pablo Ferrer
Andrea Hojman
Eduardo de la Serna
Maria Luján Manzotti
Eleuterio R. Ruiz
Pablo Álvarez Liz
Mercedes Garcia Bachmann
Raúl Emilio Vera
Constance Levaggi
Graciela Dibo
Zoraida Carolina Insfrán
Nestor Míguez
Juan José Barreda Toscano
Jerónimo Exposito
Edgar Amado Toledo
Flavia Soldano Deheza
Maria de Los Angeles Roberto

Fonte da imagem: Design vector created by freepik – www.freepik.com

É enganoso o vídeo que mostra a UTI do Hospital Couto Maia de Salvador com leitos vazios

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Um vídeo que circula desde o último 22 de abril em grupos de Whatsapp de igrejas e de pessoas cristãs, no Youtube e em perfis do Facebook e do Twitter, denuncia que uma enfermeira de nome Sandra M. Guerra teria sido demitida do Hospital Couto Maia em 21 de abril, porque publicou na internet um vídeo que mostra instalações da UTI de Referência para Tratamento de Coronavírus naquele hospital vazias.

A mensagem de Whatsapp que circula é:

No Youtube, o vídeo foi publicado, em 22 de abril, no Canal Jorvideo News, com a mesma chamada:

“A enfermeira Sandra M. Guerra, foi demitida no início da noite por ter ingenuamente divulgado imagens da UTI Referência Do Vírus Chinês do Hospital Couto Maia no dia de hoje, 21/04/2020. Não foi por exposição dos pacientes (ela teve essa preocupação). Foi simplesmente por mostrar as instalações vazias”.

No Twitter, o vídeo foi publicado, em 22 de abril, pelo perfil C18H26CIN3 @semfronteira64, com bio redigida em hebraico אלוהים הוא בשליטה [Deus está no controle]. A postagem tem a mesma chamada:

“A enfermeira Sandra M. Guerra, foi demitida no inicio da noite por ter ingenuamente divulgado imagens da UTI Referência Do Vírus Chinês Do Hospital Couto Maia no dia de hoje, 21/04/2020. Não foi por exposição dos pacientes Foi simplesmente por mostrar as instalações vazias”.

O Hospital Couto Maia

O Instituto Couto Maia, da rede pública do Estado da Bahia, passou a atender exclusivamente pacientes com suspeita de coronavírus, desde março passado. Em 23 de março, a diretora-geral do Couto Maia, a médica-infectologista Ceuci Nunes, declarou que ao todo, a unidade dispõe de 120 leitos, mais doze de observação: “E todos agora são dedicados ao coronavírus. Nós fizemos várias modificações na unidade, para comportar esse atendimento. Fizemos modificação de fluxo de entrada e saída de pacientes, modificações na estrutura para instalar leitos de UTI”, disse ao site de notícias da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia.

A diretora, na entrevista, completou que é importante que haja hospitais dedicados exclusivamente ao coronavírus. “Como a gente viu, pela experiência internacional, o Covid-19 é muito transmissível e nós teremos um grande número de pessoas contaminadas. A maioria dessas pessoas, cerca de 80%, não ficará em estado grave e não vai precisar de ficar em respiradores. Mas muita gente vai precisar de leitos de UTI e isso pode levar a grandes problemas no sistema de saúde e é por isso que a gente dedicou esse hospital, assim como outros, ao coronavírus”. Ela também destaca que, como a transmissão é muito grande e o ICOM era um hospital de doenças infecto-contagiosas, “os pacientes de outros diagnósticos estão com a imunidade baixa e não podem ser expostos ao coronavírus”.

Em 21 de abril, em entrevista ao Jornal da Manhã (Rede Globo Bahia), o secretário estadual de Saúde, Fábio Vilas Boas, afirmou que o sistema de saúde do estado deve ter capacidade para receber pacientes até o início de junho, caso a curva de contágio se mantenha com crescimento de 9% ou 10% ao dia.

Em boletim divulgado em 22 de abril, a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia registrou 1.645 casos confirmados de coronavírus em todo o Estado, com 405 pacientes recuperados, 53 mortes, 291 pessoas internadas, sendo 61 em UTI, com 50% de ocupação de leitos em todo o Estado.

Até essa data, o governo do estado havia disponibilizado 1.135 leitos exclusivos para o tratamento da doença, sendo 429 deles de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). A promessa é de que o número total chegará, nas próximas semanas, a 2.418 leitos de referência. Destes, 1.399 estarão localizados em Salvador, com outros 1.019 distribuídos pelo interior do estado.

A taxa de crescimento está abaixo dos 15%, de modo que Tereza Paim, subsecretaria de saúde do estado, considera o estado da Bahia como um exemplo positivo de combate ao vírus no país.

Fonte: Jornal da Manhã

O vídeo da enfermeira do Couto Maia

Na noite do mesmo dia, 22 de abril, em que o vídeo-denúncia de que havia leitos vazios na UTI passou a ser divulgado, a diretora-geral do Instituto Couto Maia, Dra. Ceuci Nunes, publicou em seu perfil do Facebook uma mensagem desmentindo o conteúdo:

 “Estão mandando este vídeo gravado dia 21/03 por uma enfermeira nossa, mostrando a primeira ampliação de leitos da uti que fizemos. Abaixo uma informação com um nome que não corresponde ao nome da enfermeira, dizendo que foi demitida por mostrar leitos vazios. Hoje os leitos estão todos cheios. Fake absurda. Se recebeu desminta por favor. Grata, Ceuci Nunes – Diretora do ICOM”

O jornalista Angelo Ringon, do Maringá News, checou o nome da enfermeira que fez o vídeo quando o hospital havia terminado de preparar o aparato para atender pacientes, em 21 de março. É a enfermeira Maria das Graças Santos e não foi demitida.

Nesta checagem o Coletivo Bereia conclui que as mensagens que circulam em mídias sociais com vídeo que mostram leitos vazios na UTI do Instituto Couto Maia em Salvador são enganosas. Uma mensagem padrão foi produzida e alcançou vários grupos e perfis, fazendo uso de um vídeo publicado na rede em 21 de março, um mês antes desta divulgação. A postagem enganosa expôs um nome de pessoa que não corresponde à autora das imagens, mostra leitos que, de fato estavam vazios pois ainda não estavam em operação, e inseriu a falsa informação de que a enfermeira que fez o vídeo foi demitida por divulgá-lo. Este conteúdo desinforma pois busca induzir os receptores a desacreditarem da gravidade da Covid-19 e desconsiderarem os números divulgados, o que pode custar a saúde e a vida de muitas pessoas.

A diretora-geral do Couto Maia Dra. Ceuci Nunes publicou no dia 23 de abril um desabafo em seu perfil no Facebook:

Bereia alerta leitores e leitoras sobre a importância de se verificar sempre, antes de compartilhar, mensagens que não têm autoria, não indicam a fonte (quem produziu e deve se responsabilizar pela informação).  O perfil do Twitter que divulgou este material enganoso, C18H26CIN3 @semfronteira64, com bio redigida em hebraico אלוהים הוא בשליטה [Deus está no controle], é exemplo significativo de perfis criados exclusivamente para divulgação de material desinformativo: não se identifica, aparece como um número, tem username genérico e simbólico (64), foi criado em 2019 e só publica notícias, todas desinformativas.

Já o canal do Youtube Jorvideo News não se identifica no aplicativo e não tem um histórico de exibição que corresponda a “news” (notícias). Este canal está inscrito no Youtube desde 2007, não tem vídeos próprios e tem apenas nove vídeos desde 1 de outubro de 2019, oito relacionados a filmes de entretenimento na língua inglesa, uma comédia completa e sete trailers de filmes de ação, mais a postagem sobre a “enfermeira demitida”. O nome “news” dá caráter de seriedade ao canal (notícias) e inspira pessoas afeitas a receber desinformação de fontes não credenciadas. 

Bereia classifica estas fontes do Twitter e do Youtube como não confiáveis.

Atualização do caso em 27 de abril de 2020

O jornal Folha de S. Paulo publicou em 27 de abril de 2020, reportagem sobre este caso, com foco na atuação da enfermeira do hospital Couto Maia (Salvador/BA) Ana Cássia Tupiniquim, de 51 anos, que fez o vídeo originalmente divulgado em 21 de março. Ana Cássia não foi demitida e relata o incômodo de ter o vídeo que produziu para animar pessoas no enfrentamento da pandemia ser usado para espalhar mentiras para negar a gravidade da situação que ela enfrenta diariamente. 

Referências de Checagem:

Instituto Couto Maia já atua exclusivamente para pacientes com coronavírus. Governo do Estado da Bahia, Secretaria de Estado de Saúde. Notícias, 23 mar 2020. Disponível em: http://www.saude.ba.gov.br/2020/03/23/instituto-couto-maia-ja-atua-exclusivamente-para-pacientes-de-coronavirus/ Acesso em 23 abr 2020

Bahia tem 1.645 casos confirmados de Covid-19. Governo do Estado da Bahia, Secretaria de Estado de Saúde. Notícias, 22 abr 2020. Disponível em: http://www.saude.ba.gov.br/2020/04/22/bahia-tem-1-645-casos-confirmados-de-covid-19/. Acesso em 23 abr 2020

Hospitais Couto Maia e Ernesto Simões têm 54% dos leitos de UTI ocupados: ‘Ficar em casa ajuda a evitar óbitos’, diz subsecretária. G1 BA, 20 abr 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2020/04/20/com-70percent-dos-leitos-de-uti-ocupados-na-bahia-subsecretaria-de-saude-faz-alerta-ficar-em-casa-ajuda-a-evitar-obitos.ghtml Acesso em 23 abr 2020

Bahia terá 2.418 leitos de referência para atendimento exclusivo a pacientes com coronavírus. Governo do Estado da Bahia, Secretaria de Estado de Saúde. Notícias, 22 abr 2020. Disponível em: http://www.saude.ba.gov.br/2020/04/18/bahia-tera-2-418-leitos-de-referencia-para-atendimento-exclusivo-a-pacientes-com-coronavirus/ Acesso em: 23 abr 2020

Coronavírus: Secretário de saúde do estado fala sobre taxa de ocupação dos leitos de UTI. Jornal da Manhã, Vídeos G1. Disponível em: https://g1.globo.com/ba/bahia/edicao/2020/04/22/videos-jm-de-quarta-feira-22-de-abril-de-2020.ghtml. Acesso em 23 abr 2020

Pura maldade. Blog do Angelo Rangoni. Maringá News, 22 abr 2020. Disponível em https://angelorigon.com.br/2020/04/22/pura-maldade-2/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=pura-maldade-2. Acesso em 23 abr 2020

Na linha de frente contra o coronavírus, tem que ter sangue no olho, diz enfermeira alvo de fake news, por João Pedro Pitombo. Folha de S. Paulo, 27 abr 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/amp/cotidiano/2020/04/na-linha-de-frente-contra-o-coronavirus-tem-que-ter-sangue-no-olho-diz-enfermeira-alvo-de-fake-news.shtml?utm_source=twitter&utm_medium=social&utm_campaign=comptw&__twitter_impression=true Acesso em: 27 abr 2020.

Sobre Economia e Saúde: pelo fim da dicotomia, em tempos de pandemia

Há muito se tem discutido e exposto a falsa dicotomia entre salvar nossa economia ou cuidar da saúde. Embora, por si só, já seja estranho que se coloque em risco a vida das pessoas para poder “salvar a economia”, aqui há um erro grande. Se proposital, não há como saber. Porém, se sim, estamos lidando com líderes que traem conceitos, traem projetos e traem a própria inteligência e consciência, em nome de escondidas e “tenebrosas transações”. No caso de não ser proposital, estamos diante da ignorância. E quando a ignorância governa, quem sofre é o povo. Ou seja, nas duas opções, estamos em perigo.

Economia, em sentido estrito, significa “a arte de gerir um lar” (oikos = casa; nomos = lei, normas). Na gerência do lar, todos sabemos, dinheiro, saúde, regras de convívio e lazer fazem parte. Não é sábio gerenciar apenas o dinheiro e não se preocupar em educar os filhos. Não há sabedoria em escolher bons alimentos, mas não se respeitar o horário de cada refeição. Também não se compra sobremesas para agradar às crianças e se evita de ensiná-las a comer e apreciar legumes, verduras e frutas.

Economia, portanto, não é dinheiro. Não é setor financeiro. Sequer é empresariado. Economia é tudo o que fazemos nas ruas: como andamos; como saudamos aos outros; onde comemos; onde vestimos; se damos ofertas na igreja; se damos ou não esmola ao morador de rua; qual condução pegamos ou se pegamos condução; se compramos drogas ilícitas; se seguimos à receita médica; se vamos sentar para assistir televisão enquanto comemos, ou se a hora do almoço é a hora de apenas estar com a família; se vamos mandar mensagens para outras pessoas enquanto estamos no bar, com amigos; qual partido apoiaremos nas eleições; qual candidato rejeitaremos; e até se vamos ou não postar um texto em uma Rede Social. Nossa moral e nossos valores éticos definem e fazem parte dos rumos econômicos. Triste do economista que vê a economia separada da política, do cotidiano humano, animal, vegetal, ou, ainda, dos fenômenos naturais. Triste, também, do político que trata a economia como domínio de um ou mais setores com interesses próprios.

Diante da pandemia que vivemos, ao colocar para o povo que é preciso olhar a saúde sem perder de vista a economia, se cria uma compartimentação que gera confusão e debate onde deveria haver acordo óbvio. Cuidar da saúde do povo não é, apenas, cuidar para que ele tenha um contágio menor possível de Covid-19. Cuidar da economia não é colocar o trabalhador para andar e exercer seu ofício na rua, correndo o risco de contágio.

Cuidar da saúde do povo inclui cuidar da saúde mental desse povo e do seu alimento. Coisas que não ocorrerão se não houver emprego ou dinheiro para pagar as dívidas. Mulheres estão trancadas em casa, por vezes, com homens violentos; crianças estão trancadas em casa com abusadores; desempregados estão pensando em suicídio; as contas não param de chegar e não deixam de aumentar seus juros.

Entender que a quarentena imposta é a única forma de cuidar da saúde da população é um erro. Descuidar que esses cuidados aqui são, por definição, cuidar da economia, é ignorância ou erro e, nos dois casos, um perigo enorme.

Ignorar que esse povo é quem movimenta todos os tipos de concepção econômica, que merece e tem o direito de ser tratado com dignidade, é uma vergonha para qualquer líder.

Por definição, cuidar da economia é cuidar da saúde do povo. Cuidar da saúde do povo é garantir um bom futuro para a economia.

Somente um capataz, sob ordem do senhor da terra, ordena que escravos trabalhem a despeito do perigo que correm. Somente alguém pouco preocupado com a economia, em seu sentido rico, coloca os trabalhadores na linha de frente, sem real necessidade. Economistas como Henrique Meirelles e Raul Velloso defendem, por exemplo, imprimir dinheiro. Não é o momento de se preocupar e não haverá, segundo eles, problema com inflação, com o que estamos vivendo, ao tomar essa decisão. Tudo que é importante se mostra relativo, diante das situações e a situação atual é de emergência e responsabilidade.

Mesmo economistas liberais e o mundo liberal se dobram diante da necessidade de um Estado que saiba gerir e saiba se preocupar com seu povo. Ao invocar essa falsa dicotomia, o governo quer dividir com a população uma responsabilidade que ela, na Constituição e no voto, confiou a ele. Cabe à população, apenas, seguir as regras de distanciamento. Cabe ao governo, e apenas a ele, conseguir levantar ou gerar os recursos para bancar esse povo que morre e teme a morte dia pós dia.

É preciso ampliar o conceito de Economia, ou resgatar seu conceito. E é preciso tirar das costas do povo sofrido a responsabilidade de morrer em nome do sustento de um sistema financeiro que se pretende dono do governo e dono do conceito econômico. Essa tutela da democracia precisa parar. Vários ensinamentos se tiram dessa situação que o mundo vive. Um destes é que nosso sistema socioeconômico, onde o Estado é jogado de lado e os setores privados trabalham como “senhores da terra em um mundo que legaliza escravos”, não funcionou. Todos, nesse momento, precisam do Estado e o Estado brasileiro não pode se colocar como exceção nesse processo. Portanto, junto com tudo isso, é preciso se imprimir, mesmo que pela força da Lei ou da Justiça, uma obrigação ao governo para que lide com a situação de forma decente e digna. Como o povo precisa, tem direito e merece.