Não é verdade que Israel descobriu a cura para o coronavírus

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Circula em grupos de Whatsapp de igrejas e de pessoas religiosas a seguinte mensagem:

A postagem diz respeito a um vídeo publicado no canal do grupo Pátria Amada PE no Youtube que chama a atenção para Israel ter descoberto a cura para o coronavírus, uma família de vírus que causa infecções respiratórias.

O vídeo é reprodução de matéria do Jornal da Record, de 28 de fevereiro de 2020, intitulada: “Vacina contra o coronavírus pode estar disponível em maio”. A matéria tem 37 segundos e pode ser encontra no link – JR na TV.

Texto da matéria:

Cientistas israelenses afirmam que uma vacina contra o coronavírus pode estar disponível em maio e ser a primeira a chegar ao mercado. 260 pesquisadores e 80 doutores participam do projeto. Segundo os responsáveis, a vacina, que é oral, fica pronta em três semanas e chega ao mercado em 80 dias. A base de estudo usado foi a vacina contra a bronquite infecciosa causada por outro tipo de coronavirus que afeta as aves. Outros países como Estados Unidos, Alemanha e China também estão desenvolvendo vacinas contra a covid-19.

A matéria do Jornal da Record foi construída a partir de um comunicado de imprensa do Instituto de Pesquisa Galilee (MIGAL), do governo de Israel, em 27 de fevereiro, pelo qual anuncia que desenvolveu uma vacina oral contra o vírus da bronquite infecciosa, uma forma de coronavírus que afeta aves. O instituto acrescentou que essa vacina pode ser adaptada para criar uma vacina humana contra o COVID-19, mas as pesquisas ainda estariam a “semanas” de “concluir aprovações de segurança que permitirão testes in vivo [em um ser vivo]”, antes da produção da vacina.

No comunicado, o Instituto de Pesquisa afirma: “Os pesquisadores da MIGAL desenvolveram uma vacina eficaz contra o vírus da bronquite infecciosa (IBV) do coronavírus aviário, a ser adaptado em breve e criar uma vacina humana contra o COVID-19 (…).  Dada a necessidade global urgente de uma vacina contra o coronavírus humano, estamos fazendo todo o possível para acelerar o desenvolvimento. Nosso objetivo é produzir a vacina durante as próximas 8 a 10 semanas e obter aprovação de segurança em 90 dias”.

O Chefe do Laboratório de Microbiologia Molecular do MIGAL, Dr. Chen Katz, explicou ao jornal The Times of Israel que o rápido progresso no desenvolvimento da vacina contra o coronavírus se deve ao fato de o instituto trabalhar há quatro anos em uma vacina que pode ser personalizada para vários vírus, e que agora foi adaptada para o coronavírus.

Porém, a divulgação do trabalho do instituto, com a indicação de que a vacina ficaria pronta em “semanas”, foi questionada pelo Diretor de Relações Internacionais do Ministério da Saúde de Israel, Dr. Asher Shalmon, que fez um alerta sobre colocar “falsas esperanças” no processo, em entrevista ao mesmo jornal The Times of Israel. Ele alertou para o tempo de testes e das etapas reguladoras que pode levar meses.

Estas considerações não foram inseridas na breve e positiva matéria do Jornal da Record, retomada nos últimos dias nas mídias sociais.

Muitos grupos e países trabalham para a produção de vacina, o Brasil inclusive:

O site da OMS (Organização Mundial da Saúde) explica que “não há vacina nem medicamento antiviral específico para prevenir ou tratar o COVID-2019” e que há “pesquisas” e “ensaios clínicos em curso” para colocar novos tratamentos a prova, sob a coordenação da OMS.

São muitos os grupos de pesquisa de países diversos trabalhando com urgência para a produção de uma vacina. A matéria do Jornal da Record fala em Estados Unidos, Alemanha e China, além de Israel, o grande destaque do texto, mas são cerca de 35 empresas e instituições acadêmicas de vários países que estão trabalhando às pressas para criar essa vacina. Entre estes países está o Brasil, que não foi citado na matéria do Jornal da Record.

A vacina contra o coronavírus está sendo desenvolvida no Brasil por pesquisadores do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP). Por meio de uma estratégia diferente da adotada por indústrias farmacêuticas e grupos de pesquisa em diversos países, os cientistas brasileiros esperam acelerar o desenvolvimento e conseguir chegar, nos próximos meses, a uma candidata a vacina que possa ser testada em animais.

“Acreditamos que a estratégia que estamos empregando para participar desse esforço mundial para desenvolver uma candidata a vacina contra a Covid-19 é muito promissora e poderá induzir uma resposta imunológica melhor do que a de outras propostas que têm surgido”, afirmou Jorge Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do Incor e coordenador do projeto apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Também no Brasil, apenas dois dias após o primeiro caso de coronavírus da América Latina ter sido confirmado na capital paulista, uma equipe de cinco pesquisadoras do Instituto Adolfo Lutz e das universidades de São Paulo (USP) e de Oxford (Reino Unido) publicaram a sequência completa do genoma viral, que recebeu o nome de SARS-CoV-2.  Os dados foram divulgados em 28 de fevereiro, no site Virological.org, um fórum de discussão e compartilhamento de dados entre virologistas, epidemiologistas e especialistas em saúde pública. Além de ajudar a entender como o vírus está se dispersando pelo mundo, esse tipo de informação é útil para o desenvolvimento de vacinas e testes diagnósticos.

“Ao sequenciar o genoma do vírus, ficamos mais perto de saber a origem da epidemia”, disse Ester Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da USP. De acordo com a pesquisasdora, esse monitoramento, permite identificar as regiões do genoma viral que menos sofrem mutações – algo essencial para o desenvolvimento de vacinas e testes diagnósticos.

As pressões sobre os grupos que trabalham para a produção da vacina contra o coronavírus devem-se ao quadro de pandemia em crescimento. A pressa, além de tentar atender o protocolo para reconhecimento da vacina pelos órgãos mundiais de saúde, diz respeito à produção que possa atender a enorme quantidade de pessoas nos países infectados. A previsão de alguns grupos é ter uma vacina possivelmente testada em humanos em outubro. Mas especialistas têm alertado quanto aos riscos dos efeitos colaterais de uma produção às pressas.

Coronavírus em Israel

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, discursou, em 12 de março, pedindo a formação imediata de um governo de emergência e de união nacional para lidar com a disseminação do coronavírus no país. Outra medida de segurança anunciada pelo premier foi fechamento de escolas e universidades. Até a data do discurso de Netanyahu, o Ministério da Saúde israelense havia detectado 109 casos de Covid-19 e divulgou que mais de 32 mil pessoas estavam em quarentena em Israel.

O coronavírus em Israel provocou o adiamento do julgamento de Netanyahu, marcado para terça, 17 de março. O primeiro-ministro é acusado de fraude, abuso de poder e quebra de confiança. A Promotoria afirma que ele aceitou de forma indevida o equivalente a R$ 1.2 milhão em presentes de empresários, incluindo cigarros e champanhe. Netanyahu nega. A medida de segurança contra o vírus em Israel promoveu o fechamento dos tribunais como restrição de aglomerações e o adiamento de julgamentos por dois meses.

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Bereia classifica as postagens referentes a “Israel descobriu a cura para o coronavírus”, fazendo uso de matéria do Jornal da Record de 28 de fevereiro, como falsas. Não existe vacina ou medicamento comprovadamente curativo para pessoas infectadas com o coronavírus. É  fato que Israel, assim como outros países, esteja trabalhando na produção de uma vacina contra o coronavírus, mas ela ainda está sendo elaborada e não foi testada em seres vivos, nem passou pelos protocolos internacionais de comprovação, portanto, não há definição de sua eficácia.

Bereia classifica ainda a matéria do Jornal da Record como imprecisa. A matéria simplesmente reproduz o comunicado de imprensa do instituto de pesquisa do governo israelense de que uma vacina contra o coronavírus produzida no país estaria disponível em maio. O Jornal da Record não trata o conteúdo com as considerações referentes aos obstáculos de protocolo internacional de pesquisa, testes e reconhecimento que envolvem tempo. A matéria cita apenas três países envolvidos na produção da vacina e não menciona o próprio país da emissora, o Brasil, destacado no processo de busca de cura por conta do sequenciamento do genoma.

É possível avaliar que a postura do Jornal da Record, emissora pertencente à Igreja Universal do Reino de Deus, e a postagem da matéria pelo canal Pátria Amada Brasil, reproduzida por grupos religiosos exaltando uma suposta ação de Israel em busca de cura em detrimento das ações de outros países, incluindo o próprio Brasil, digam respeito a uma idolatria ao Estado de Israel, promovida no país, por conta da perspectiva ideologizada de uma leitura descontextualizada da Bíblia

Esta idolatria credencia equivocadamente o atual Estado de Israel como se este fora o Israel bíblico, gerando apoio incondicional a suas ações e políticas. Nesta perspectiva teológica-ideológica emergem práticas judaizantes no cristianismo que se configuram na diminuição da figura de Jesus, passando a predominar personagens do Antigo Testamento bíblico, símbolos da monarquia como trono, domínio, riquezas, a imagem de Deus como Senhor dos Exércitos, o Templo de Salomão. A promessa do governo Jair Bolsonaro de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém segue esta tendência.

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Referências de checagem:

Ministério da Saúde. Coronavírus. Disponível em: https://coronavirus.saude.gov.br/

Jornal da Record. “Vacina contra o coronavírus pode estar disponível em maio”. Disponível em: https://noticias.r7.com/jr-na-tv/videos/vacina-contra-o-coronavirus-pode-estar-disponivel-em-maio-28022020

MIGAL. Breakthrough From Israel’s MIGAL Research Institute in Development of Corona virus (COVID-19) Vaccine. Disponível em: http://www.migal.org.il/Migal.covid

The Times of Israel. Israeli-made oral vaccine for coronavirus on track, but testing will take months. Disponível em: https://www.timesofisrael.com/israeli-made-oral-vaccine-for-coronavirus-on-track-but-testing-will-take-months/

Organización Mundial de la Salud. Preguntas y respuestas sobre la enfermedad por coronavirus (COVID-19). Disponível em: https://www.who.int/es/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/advice-for-public/q-a-coronaviruses:

The Guardian. When will a coronavirus vaccine be ready? Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2020/mar/16/when-will-a-coronavirus-covid-19-vaccine-be-ready-human-trials-global-immunisation

El País. Cientistas brasileiros estão desenvolvendo vacina contra o coronavírus. Disponível em: https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-03-16/cientistas-brasileiros-estao-desenvolvendo-vacina-contra-o-coronavirus.html

Reuters. As pressure for coronavirus vaccine mounts, scientists debate risks of accelerated testing. Disponível em: https://www.reuters.com/article/us-health-coronavirus-vaccines-insight/as-pressure-for-coronavirus-vaccine-mounts-scientists-debate-risks-of-accelerated-testing-idUSKBN20Y1GZ

O Globo. Netanyahu pede governo de emergência em Israel por causa de coronavírus. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/netanyahu-pede-governo-de-emergencia-em-israel-por-causa-de-coronavirus-1-24302232

Folha de S. Paulo. Julgamento de Netanyahu é adiado devido à crise do coronavírus .Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/03/julgamento-de-netanyahu-e-adiado-por-coronavirus.shtml

Agência Brasil. Bolsonaro sinaliza desejo de transferir embaixada do Brasil em Israel. https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2019-12/bolsonaro-sinaliza-desejo-de-transferir-embaixada-do-brasil-em-israel