Igrejas e fake news

* Publicado originalmente em Ultimato

Pesquisas comprovam que evangélicos se rendem às fake news. Há grupos de igrejas dispostos a enfrentar este quadro

Paulina Santos, 53 anos, foi diagnosticada duas vezes com Covid-19 em 2020 e chegou a ficar internada. A professora, que é membro de uma igreja evangélica tradicional no interior do Estado do Rio de Janeiro, considera-se uma sobrevivente e agradece a Deus. Porém, ela tem muita tristeza de avaliar que o grupo de WhatsApp das mulheres da igreja pode ter sido um dos responsáveis pela dupla contaminação. Paulina havia seguido orientações diversas que circularam no grupo, que incluíam, além das orações pela proteção de Deus, tomar bastante sol, ingerir uma colher de chá de suco puro de limão todos os dias, tomar chá de alho. A fiel relata que houve indicações para comprar hidroxicloroquina na farmácia, mas ficou com medo e optou pelas outras receitas, tendo mantido uma vida normal com muita fé. Depois da segunda contaminação com internação, compreendeu que as orientações das irmãs da igreja não foram corretas. Ela sobreviveu, mas sofre com sequelas como queda de cabelo e perda de memória, além de “sentir muita tristeza com a igreja”.

Casos como o de Paulina Santos são inúmeros e representam um mal que não é novo e foi agravado durante a pandemia da Covid-19, pois colaborou para tornar pessoas doentes e até matar: as fake news. O termo em inglês, que significa “notícias falsas”, diz respeito a um fenômeno que permeia hoje, especialmente, as populares mídias sociais e atinge o jornalismo.

Do WhatsApp ao Facebook, do Twitter e do Instagram ao Youtube, para citar os mais populares, o processo é simples: alguém, intencionalmente, produz e divulga uma mentira na internet, geralmente no formato de notícia para criar mais veracidade, valendo-se até mesmo de dados científicos adaptados; ela é debatida nos espaços das mídias sociais; torna-se algo reconhecido, com caráter de sabedoria e verdade.

A propagação de fake news, que interferem em temas de interesse público, tem sido destaque em estudos de diferentes áreas do conhecimento e também de instituições. Entre elas estão a Comunidade Europeia, a Organização das Nações Unidas, e ainda empresas de comunicação, como o Facebook, que criou políticas de filtragem deste tipo de conteúdo.

A Comissão Europeia, por exemplo, criou, em 2018, um “Plano de Ação contra a Desinformação”1, uma compreensão mais abrangente do fenômeno, que passa não apenas pelo que é falso, mas também por todo conteúdo que vise ao engano e possa conter alguma verdade. No documento, desinformação é “Informação comprovadamente falsa ou enganadora que é criada, apresentada e divulgada para obter vantagens econômicas ou para enganar deliberadamente, podendo prejudicar o interesse público”.

Os episódios que envolveram a votação do Brexit, em 2016, na Grã-Bretanha, os processos eleitorais dos Estados Unidos, naquele mesmo ano, e do Brasil, em 2018, têm sido objetos de análise em vários espaços, que demonstram como a produção de desinformação interferiu prejudicialmente na formação da opinião pública e em ações políticas.

Neste contexto, emerge o lugar dos grupos religiosos, com destaque para os cristãos. Amplas parcelas deste segmento não só tiveram papel importante na dinâmica que levou à vitória Donald Trump e Jair Bolsonaro, como revelaram-se receptores e propagadores de fake news que alimentaram estas disputas. 

Fake news nos espaços cristãos

Por que as pessoas acreditam nas mentiras da internet e ainda ajudam a divulgá-las e a consolidá-las? Uma das respostas está na psicologia social, orienta o cientista social com estágio doutoral no Centro para o Cérebro, Biologia e Comportamento (Universidade de Nebraska,Estados Unidos) Davi Carvalho.2 O pesquisador esclarece que há pessoas que, ainda que constatem que acreditaram numa mentira, não abrem mão dela, pois ela se revela coerente com seu jeito de pensar, de agir, de estar no mundo, ou lhe traz alguma compensação, conforto. Isso é o que se chama “dissonância cognitiva”. Carvalho explica que isso acontece quando pessoas têm necessidade de estabelecer uma coerência entre suas cognições (seus conhecimentos, suas opiniões, suas crenças), que acreditam ser o certo, com o que se apresenta como opção de comportamento ou de pensamento.

Neste ponto se situa a perspectiva da religião e como os grupos religiosos, especificamente os cristãos, se tornam propagadores de fake news. Isto foi identificado por um grupo de pesquisadores, em um artigo científico intitulado “A crença em notícias falsas está associada a delírio, dogmatismo, fundamentalismo religioso e pensamento analítico reduzido”,3 publicado em 2019, em uma revista científica sobre memória e cognição. No artigo, os quatro pesquisadores reconhecem que cristãos estão propensos não só a assimilar as notícias e ideias mentirosas que circulam pela internet, coerentes com suas crenças, como também a fazer a propagação, a “evangelização”, espalhando estas notícias e ideias para que convertam pessoas ao mesmo propósito.


Imagem: reprodução da pesquisa

No Brasil, uma pesquisa realizada pelo Instituto Nutes de Educação em Ciências e Saúde, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, buscou compreender o uso intenso do WhatsApp no fortalecimento de redes de desinformação no segmento evangélico. Intitulada “Caminhos da desinformação: evangélicos, fake news e WhatsApp no Brasil”,4 a pesquisa, coordenada pelo sociólogo Alexandre Brasil Fonseca, trabalhou nos resultados de 1.650 questionários aplicados em congregações das igrejas Batista e Assembleia de Deus, no Rio de Janeiro e em Recife (as duas maiores igrejas evangélicas e as duas cidades de maior concentração de evangélicos no Brasil, segundo o Censo 2010), e formulários on-line com pessoas de todas as religiões e sem religião em todo o país. Foram também realizados grupos de diálogo nessas localidades.

Como resultado, 49%, ou quase metade, dos evangélicos que responderam aos questionários afirmaram ter recebido conteúdo falso, e, neste segmento religioso, 77,6% disseram ter recebido desinformação em grupos de WhatsApp relacionados à sua comunidade de fé. Na coleta com outros grupos religiosos, 38,5% de católicos, 35,7% de espíritas e 28,6% de fiéis de religiões afro-brasileiras afirmaram ter recebido mensagens falsas em grupos relacionados às suas religiões. Entre os entrevistados, 61,9% dos evangélicos afirmaram que as notícias sobre política eram as mais frequentes.

Esta pesquisa mostrou que, além do apelo que a desinformação exerce sobre grupos religiosos – porque se adequa mais a crenças e valores e menos a fatos propriamente ditos –, elementos relacionados à prática da religião entre evangélicos é que interferem mais fortemente na propagação de desinformação. O uso intenso das mídias sociais como “um novo ir à igreja” é uma dessas práticas, associada ao sentimento de pertencimento à comunidade, que gera uma imagem de líderes e irmãos como fontes confiáveis de notícias. Isso tem relação com o depoimento de Paulina Santos a esta reportagem.

Há ainda a retórica do medo que é utilizada para disseminar desinformação de um modo geral, mas afeta grupos religiosos, especialmente evangélicos, no Brasil. Estes cultivam o imaginário de enfrentamento de inimigos e da perseverança diante da perseguição religiosa como alimento da fé. Desinformação em torno da “defesa da família” e dos filhos das famílias, como núcleos da sociedade que estariam em risco, por conta da agenda de igualdade de direitos sexuais tem forte apelo. Na mesma direção, notícias falsas de que políticos ou o Supremo Tribunal Federal fecharão igrejas no Brasil têm sido fartamente propagadas nos ambientes cristãos em períodos de disputas políticas.

 O enfrentamento das fake news

São vários os projetos no Brasil voltados para o enfrentamento da desinformação por meio da checagem de fatos, com número ampliado desde as eleições de 2018, ligados a empresas de mídia e também de iniciativa independente. Destacam-se: Agência Lupa, UOL Confere, Estadão Verifica, Fato ou Fake, Projeto Comprova, Aos Fatos, Boatos.org e o Coletivo Bereia – Informação e Checagem de Notícias.

O Coletivo Bereia é iniciativa ímpar entre as listadas, pois é o único projeto de jornalismo colaborativo de checagem de fatos especializado em religião e tornou-se pioneiro no Brasil em verificação de fakes news que circulam em ambientes digitais religiosos, com atenção voltada para cristãos. Criado em 2019, o projeto é resultado da pesquisa do Instituto NUTES, da UFRJ.

O editor-executivo do Coletivo Bereia, Marcos Lessa, avalia: “Bereia é o primeiro coletivo de checagens especializado em religião do Brasil. E o que se percebe, e há pesquisas que apontam isso, é que a desinformação circula em ambientes de comunidades de confiança. E os ambientes das igrejas sempre tiveram essa característica. Irmão confia no que o irmão está dizendo. E aí muita desinformação ganha esse peso da confiança ao ser passada adiante. Checar o que está circulando nesse meio, conhecendo o meio, é um diferencial para o Brasil que vemos hoje”.

Além da equipe do Bereia, outros grupos cristãos têm realizado iniciativas para contribuir no enfrentamento das fake news. Durante o período eleitoral de 2020, foi realizada a Campanha #IgrejaSemFakeNews, promovida pela Igreja Batista em Coqueiral (Recife, PE), por meio do Instituto Solidare, em parceria com a Tearfund e a Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB). Uma das ações foi o lançamento da publicação Diga Não Às Fake News!,5 com reflexões acerca do tema, tanto à luz da Bíblia quanto da legislação brasileira. O livro gratuito permanece à disposição do público. Outro material resultante da Campanha #IgrejaSemFakeNews é o livro da ABU Editora, também com acesso gratuito,6 com estudos bíblicos indutivos, organizado por Morgana Boostel e Thiago Oliveira.

Em 2021, a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) decidiu que sua campanha anual Primavera para a Vida, que estimula as igrejas a ações referentes a temas sociais emergentes, teria o tema “Buscar a verdade: um compromisso de fé”. Iniciada em setembro de 2021, a campanha conta com um seminário virtual sobre o tema,7 uma publicação gratuita,8 em português e em espanhol, cujo título é o mesmo da iniciativa, formação para igrejas9 sobre o impacto das fake news e indicação de formas de ação. Para este último objetivo, a CESE publicou um conjunto de cards10 com as principais mentiras que circulam em ambientes cristãos (identificadas pelo Coletivo Bereia) e atitudes preventivas diante delas. 

O membro da Igreja Batista em Coqueiral Nilton Leite de Sousa Júnior, um dos idealizadores da campanha #IgrejaSemFakeNews, lembra que as igrejas são unânimes em condenar a prática da mentira, mas reconhece: “Os locais de culto e seus públicos não estão isentos de serem contaminados pelas fake news”. O líder batista vê possíveis ações das igrejas neste enfrentamento como um passo responsável: “Ainda que o espalhamento das fake news seja rápido e generalizado como uma pandemia, a vacina para acabar com isso é assumir a responsabilidade de verificar os fatos que compartilhamos”. Paulina Santos agradece.


Notas

1. Plano de Ação contra a Desinformação. Acesso em 2 dez. 2021. 

2. Por que é tão difícil combater a crença em fake news, segundo a psicologia social. Acesso em 2 dez. 2021.

3. Belief in Fake News is Associated with Delusionality, Dogmatism, Religious Fundamentalism, and Reduced Analytic Thinking. Acesso em 2 dez. 2021.

4. Caminhos da Desinformação: Relatório de Pesquisa Evangélicos, Fake News e WhatsApp no Brasil. Acesso em 2 dez. 2021.

5. Diga Não Às Fake News. Acesso em 2 dez. 2021.

6. As Fake News e a Bíblia. Acesso em 2 dez. 2021.

7. Seminário de Lançamento da Campanha Primavera para a Vida 2021. Acesso em 2 dez. 2021.

8. Campanha Primavera Para a Vida. Acesso em 2 dez. 2021.

9. Formação IPU e CESE. Os impactos das fake news nas igrejas. Acesso em 2 dez. 2021.10. Textos e cards CPPV. Acesso em 2 dez. 2021.

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Imagem: Pixabay


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