É enganosa informação que a transmissão de Covid-19 é rara em pacientes assintomáticos

O site Pleno News publicou em 09 de junho a notícia “Transmissão de Covid-19 por paciente sem sintomas é rara” que destaca a declaração de Maria Van Kerkhove, infectologista e chefe do departamento de doenças emergentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a propagação da Covid-19 a partir de pacientes assintomáticos ser “muito rara”. De acordo com a porta-voz da OMS, os dados levantados mostraram que pessoas que não apresentam sintomas do vírus têm pouco potencial infectológico para contaminar indivíduos saudáveis. Esse pronunciamento foi feito em 08 de junho. Devido à polêmica causada pela declaração, logo em seguida, a infectologista Maria Van Kerkhove, justificou que ainda não há definição de quantas pessoas são assintomáticas.

Matéria publicada pelo Pleno.News (Foto: Reprodução/Internet)

No dia seguinte (09/06), a OMS corrigiu a declaração informando que há transmissão e é preciso que iniciativas de isolamento social continuem a vigorar para evitar a proliferação do Coronavírus. A matéria no Pleno News foi publicada à meia-noite do dia 09/06 e atualizada às 8h40 na mesma data. Mesmo depois da correção da declaração pela OMS, o Pleno News não atualizou a notícia, que permanece no site desatualizada.

A Folha de S. Paulo publicou na mesma data matéria com o título “Assintomático transmite coronavírus e, sem teste e rastreamento, quarentena é necessária, diz OMS”. A matéria enfatizou as recomendações da OMS sobre a transmissibilidade do vírus e o apelo para testagem, rastreamento e isolamento de sintomáticos.

No Twitter, também em 09 de junho, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, cobrou transparência da Organização Mundial da Saúde com relação a pandemia e chamou a atuação da OMS de “papel problemático”.

Fonte: Reprodução/Twitter

A distorção das declarações da OMS

Não é incomum a distorção ou retirada de contexto das declarações da Organização Mundial da Saúde para permitir diversas interpretações. Em 06 de maio, por exemplo, o site UOL publicou matéria com o título “Fala da OMS é tirada de contexto para dizer que órgão é contra isolamento”. Segundo o site, a informação foi divulgada através do blog Estibordo que tem um viés de política de direita, sendo posteriormente compartilhado uma fala da OMS baseado na entrevista de Margaret Harris, porta-voz da organização para o jornal The Sydney Morning Herald, sobre o afrouxamento da quarentena na Austrália.

O canal da UOL no Youtube publicou em 09 de junho o vídeo “Bolsonaro distorce dado da OMS sobre transmissão de Covid-19 por assintomáticos” no qual o presidente afirma que deve haver uma “reabertura mais rápida” a partir do momento que a OMS realizou divulgação que a disseminação do Coronavírus por pessoas assintomáticas é considerada rara. Durante a Reunião dos Conselhos, Bolsonaro apresentou críticas à OMS no qual reforça o “pânico” causado pelos meios de comunicação.

Assintomático, sintomático ou pré-sintomático?

O canal do portal de notícias O Antagonista, no Youtube, publicou o vídeo “O Erro Sintomático da OMS” em 09 de junho, que esclarece os conceitos de assintomático, sintomático e pré-assintomático. De acordo com dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) o pré-assintomático, por exemplo, seria o indivíduo que ainda não apresentou sintomas do Covid-19 e que inclusive pode haver uma contaminação antes do aparecimento dos sintomas. O assintomático é aquele que ainda não desenvolveu os sintomas, ainda. Os sintomáticos são os indivíduos com os sintomas já desenvolvidos.

Em 10 de junho, o Correio Braziliense publicou notícia com o título “Ignorar pacientes assintomáticos é ”mal-entendido’, diz OMS”, na qual há a afirmação de que milhares de pessoas podem ser infectadas e o vírus pode estar presente em qualquer um, inclusive naqueles que não apresentam os sintomas da covid-19, os chamados assintomáticos.

De acordo com Michael Ryan, diretor executivo do Programa de Emergências da OMS:

“Estamos absolutamente convencidos de que a transmissão por casos assintomáticos está ocorrendo, a questão é saber quanto, saber qual é a contribuição relativa de cada grupo para o número total de casos”.

Michael Ryan, diretor executivo do Programa de Emergências da OMS

Na tentativa de elucidar a declaração do dia 08/06, Maria van Kerkhove afirmou que há um subgrupo de pessoas que não desenvolvem sintomas, e não há uma resposta concreta para entender esse grupo, que gira entre 6% e 41% da população mundial. “Mas sabemos que as pessoas que não têm sintomas podem transmitir o vírus”, ressaltou.

Ainda sobre o mesmo assunto, o portal de notícias G1 publicou em 09 de junho notícia com o título “OMS esclarece que assintomáticos transmitem coronavírus: ‘a questão é saber quanto’”. A matéria esclarece que uma pessoa com o Sars CoV-2 assintomática nunca deverá desenvolver os sintomas da Covid-19, sendo que os mais comuns são febre, tosse e dificuldade para respirar. Um paciente pré-sintomático também está com o vírus em circulação no corpo, mas no período de incubação, prestes a desenvolver os sintomas dentro de alguns dias.

Bereia conclui que é enganosa a notícia publicada no site Pleno News sobre as possibilidades de transmissão de Covid-19 por paciente sem sintomas, após verificar notícias e vídeos publicados em 09/06, mesma data da notícia do Pleno News, contendo a correção da fala de Maria Van Kerkhove e da OMS sobre a da declaração proferida em 08 de junho.

Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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Referências de Checagem

Correio Braziliense. Ignorar pacientes assintomáticos é ”mal-entendido”, diz OMS. Disponível em: <https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ciencia-e-saude/2020/06/10/interna_ciencia_saude,862588/ignorar-pacientes-assintomaticos-e-mal-entendido-diz-oms.shtml>. Acesso em: 16 jun. 2020.

Folha de S. Paulo. Assintomático transmite coronavírus e, sem teste e rastreamento, quarentena é necessária, diz OMS. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/06/assintomatico-transmite-coronavirus-e-sem-teste-e-rastreamento-quarentena-e-necessaria-diz-oms.shtml>. Acesso em: 16 jun. 2020.

G1. OMS esclarece que assintomáticos transmitem coronavírus: ‘a questão é saber quanto’. Disponível em: <https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/06/09/transmissao-por-casos-assintomaticos-esta-ocorrendo-a-questao-e-saber-quanto-diz-oms.ghtml>. Acesso em: 16 jun. 2020.

Pleno News. Transmissão de Covid-19 por pacientes sem sintomas é rara. Disponível em: <https://pleno.news/saude/coronavirus/transmissao-de-covid-19-por-assintomaticos-e-rara-diz-oms.html>. Acesso em: 16 jun. 2020.

Twitter. Ernesto Araújo. Disponível em: <https://twitter.com/ernestofaraujo/status/1270409485270552576>. Acesso em: 16 jun. 2020.

Uol. Fala da OMS é tirada de contexto para dizer que órgão é contra isolamento. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/comprova/ultimas-noticias/2020/05/06/fala-da-oms-e-tirada-de-contexto-para-dizer-que-orgao-e-contra-isolamento.htm>. Acesso em: 16 jun. 2020.

Uol. Governo Bolsonaro muda o tom em reunião ao vivo e evita palavrões e ataques. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/06/09/governo-bolsonaro-muda-o-tom-em-reuniao-ao-vivo-e-evita-palavroes-e-ataques.htm>. Acesso em: 16 jun. 2020.

Youtube. BOLSONARO DISTORCE DADO DA OMS SOBRE TRANSMISSÃO DE COVID-19 POR ASSINTOMÁTICOS. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=WLY7rEEmBk8>. Acesso em: 16 jun. 2020.

Youtube. O Erro Sintomático da OMS. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=t6DSpnvlxe4>. Acesso em: 16 jun. 2020.

É verdade que Fabiana Anastácio negou o risco de ser infectada pela COVID-19

A cantora gospel Fabiana Anastácio publicou “o coronavírus não atingirá a sua casa, porque quem guarda a sua casa é Jesus”

Na última quinta-feira, 04, o novo Coronavírus vitimou de forma fatal a cantora gospel Fabiana Anastácio. Ela era hipertensa e diabética, tendo falecido em São Paulo, após ficar uma semana internada em decorrência da Covid-19, segundo a página da artista no Facebook.

Último clipe lançado durante a internação da cantora

Natural de Santo André (SP), ela era filha de um pastor e de uma maestrina. Fabiana tinha 45 anos e era pastora da igreja evangélica Assembleia de Deus, no bairro Demarchi, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. De acordo com matéria publicada em 08 de junho, no portal G1 , em 2008, uma apresentação de Fabiana na igreja Assembleia de Deus de Santo André viralizou e ela passou a ser conhecida em todo o Brasil pelos evangélicos. Em 2012, gravou seu primeiro CD intitulado: “Adorador 1″. Outros dois CD’s foram lançados posteriormente: “Adorador 2 – Além da Canção”, em 2015, e “Adorador 3 – Além das Circunstâncias”, em 2017.

Segundo matéria publicada no portal Hoje em Dia no dia 04 de junho, a cantora teria esperado por sete dias uma vaga na UTI em uma unidade pública.

Conforme anunciado na mídia social da cantora no dia 01 de junho, amigos, familiares e fãs se mobilizaram para custear as despesas por meio de uma campanha de arrecadação. 

De acordo com o site Correio Braziliense, em matéria publicada no dia 04 de junho, a campanha conseguiu angariar mais R$ 24 mil para ajudar no tratamento de Fabiana.

“Como igreja sabemos que quando uma parte do corpo perece, todo corpo sente a dor ou, pelo menos, deveria sentir. A dor não escolhe cor, nem raça, nem status ou condição… ela simplesmente surge e traz suas consequências. Nesse momento nossa amiga/pastora/cantora Fabiana Anastácio precisa da nossa ajuda para combater o COVID-19, ela está internada no hospital com todos os cuidados necessários, mas com um custo alto para a família, ainda mais nesse momento de recesso de agendas e claro, com algo que ninguém esperava. Estamos todos juntos nessa causa, #SomosTodosFabiana!”, dizia a campanha

Na já citada reportagem do Hoje em Dia, o esposo e pastor, Ruben Nascimento também foi testado positivo para Covid-19, mas se recuperou. Fabiana e Ruben estavam juntos há 21 anos e casados há 20, tendo gerado três filhos: Ruben Junior, 17 anos, Guilherme, 16 e Lucas, de 13.

De acordo com o marido, a doença evoluiu rápido para Fabiana. Segundo ele, no início, ela tinha sintomas de gripe e foi isolada em casa. Quando piorou, foi para um hospital, testou positivo e ficou internada. Ruben chegou a convocar uma campanha de oração e jejum na segunda-feira, 01.

Dois dias depois, uma nota oficial nas mídias sociais da cantora mostrava que havia a expectativa dela se recuperar.

“Ela continua na UTI do hospital aqui em São Paulo. Seu quadro geral ainda é estável, mas com um pouco de dificuldade pra respirar. Lembrando que essa dificuldade tem a ver com seu peso, ou seja, a recuperação toda tem a tendência de ser mais lenta por causa disso”, dizia o texto.

Contudo, a cantora gospel Fabiana Anastácio morreu na manhã desta quinta-feira, 04. A notícia foi confirmada na página oficial da artista, nas mídias sociais.

Na nota dizia: “Deus decidiu levar, nossa (Fabiana Anastacio Nascimento) para os seus braços. Obrigado a todos pelas orações, ao longo do dia será postado mais informações.

Te Adorarei, te adorarei, quando chegar aí no Céu te adorarei”.

A publicação contou com 191 mil interações, 41 mil comentários e 24 mil compartilhamentos. “Deus decidiu levar, nossa (Fabiana Anastácio Nascimento) para os seus braços. Obrigado a todos pelas orações, ao longo do dia será postado mais informações. Te Adorarei, te adorarei, quando chegar aí no Céu te adorarei”, dizia a legenda.

Ao G1, o Pastor Ruben Souza Nascimento, marido da cantora, afirmou que Fabiana deixa como lembrança para familiares e fãs o sorriso largo e contagiante que carregava e afirma que a cantora “cumpriu sua missão de levar fé e alegria para pessoas de todo o Brasil“.

Ela era muito bonita, muito alegre. Todo ambiente em que ela estava, era contaminado por alegria e simpatia. Ela cantava e palestrava em igrejas no Brasil inteiro e quem a conheceu sabia que era uma pessoa extraordinária”, disse  o p Pastor Ruben em entrevista ao G1 nesta segunda-feira, 08 de junho.

Na entrevista, Ruben ainda afirmou que a missão dele e da família agora é caminhar e, apesar da dor do luto, encontrar forças na fé para superar a perda. O pastor diz que a esposa cumpriu em vida uma importante missão.

Cantora publicou frase sobre o Coronavírus? 

Circula nas redes sociais uma frase que teria sido publicada pela cantora Fabiana Anastácio. A postagem, realizada em um perfil do Facebook no dia 05 de junho, salienta na legenda: “O negacionismo é que está matando a população”.

Reprodução/ Facebook

O Coletivo Bereia checou as mídias sociais da cantora, de onde a publicação teria surgido e constatou que a existência da frase é verdadeira e foi postada no Instagram de Fabiana Anastácio no dia 21 de março, período em que os governos se mobilizavam para implantar o sistema de isolamento social como forma de conter o avanço da doença no país. 

Cantora gravou áudio alertando sobre Covid-19 enquanto esteve internada?

Circula na internet um áudio atribuído à Fabiana Anastácio, no qual essa afirmaria que a doença não vê religião. Além disso, o áudio alerta os cristãos a ficarem em casa para não se exporem ao vírus.

Segundo a matéria do Boatos.org, diversas histórias falsas de pessoas gravando áudio antes de morrerem já circularam na internet. Outrossim, é perceptível o caráter vago e alarmista da mensagem, sem contar os erros de português e a falta de fontes confiáveis. Todos esses pontos são indicativos de uma fake news.

Confira o áudio :

Mesmo que a mensagem tenha algo de verdadeiro, quando afirma que “a doença não vê religião”, além da sugestão positiva para “que fiquem casa”, o áudio não é da cantora Fabiana Anastácio. De acordo com a assessoria da cantora, Fabiana não teve acesso a nenhum tipo de dispositivo móvel enquanto permaneceu no hospital.

Por fim, Bereia checou que o áudio foi gravado pela missionária Maiara Machado, da Assembleia de Deus, da Bahia.

A própria missionária comentou o assunto em sua página no Facebook :

Agora sim!!! A postagem está correta!!

ÁUDIO QUE VAZOU DIZENDO SER A CANTORA FABIANA ANASTÁCIO ANTES DE MORRER!!

Obs: Não foi da cantora!! Entrem nesse canal e vejam!”

Pandemia e o racha entre os evangélicos no Brasil

Em entrevista para a BBC Brasil, o teólogo Kenner Terra afirma que “só de você estar considerando as recomendações da OMS já é quase como um ‘ato de resistência”.

Terra é pastor de uma igreja Batista, coordenador do Fórum Evangelho e Justiça no Espírito Santo e está entre os que defendem as medidas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para evitar a disseminação da covid-19. Por isso, foi alvo de muitas críticas e comentários agressivos de outros evangélicos contrários ao isolamento.

As igrejas estão divididas. De um lado líderes que defendem o fim do isolamento, a manutenção dos templos abertos e os cultos presenciais — destes, alguns até entraram em disputa com o Ministério Público do Rio de Janeiro pelo direito de manter as igrejas abertas. Do outro lado, líderes que fecharam os templos, fazem cultos online e pedem que os fiéis orem em casa”, diz a matéria da BBC Brasil. 

Para Terra, essa divergência expõe uma divisão nesse grupo religioso que se acentuou durante os últimos anos, à medida que o presidente Jair Bolsonaro assumia uma “aura de autoridade religiosa”. Esses que minimizam a pandemia, continua Terra, “em geral, são grupos que se alinham com o projeto bolsonarista e o acompanham na forma de lidar com a pandemia”.

Já em matéria publicada em 14 de abril de 2020, a socióloga Rosana Pinheiro-Machado afirma que:

Nos últimos dias, pastores como Edir Macedo e Silas Malafaia têm feito um grande desserviço ao combate da epidemia, colocando-se contra o isolamento social e temendo o esvaziamento das igrejas, que é fonte de arrecadação de dízimo e também de formação de coesão social. Mais do que isso, multiplicam-se memes e vídeos no WhatsApp de pastores charlatões, dizendo que quem tem fé está imune, que a epidemia é coisa de satã, uma vingança divina. Também há aqueles que oferecem receitas de cura”.

A relação entre parte do público evangélico e Bolsonaro é de mão dupla. Como exemplo, há a fala de Bolsonaro, no Programa do Ratinho, onde esse se conecta com esses religiosos quando diz que a igreja às vezes é a única coisa que as pessoas têm. Além disso, ele também pediu jejum nacional para combater o vírus com a fé.

Em uma entrevista dada para a jornalista Patrícia Fachin, do Instituto Humanitas Unisinos, a socióloga Rosana Pinheiro-Machado afirma que “o que está em jogo é uma disputa por novos discursos, regimes de verdade e fontes de autoridade”. “São sistemas de pensamentos distintos. Um é baseado em evidência; outro, na autoridade da fé” [].

Conclusão

Bereia conclui ser verdadeira a informação de que a cantora gospel Fabiana Anastácio disse que o Coronavirus não atingirá a sua casa, porque quem guarda a sua casa é Jesus. A publicação está em sua própria página no Instagram. Por outro lado, o áudio atribuído à cantora é falso

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Referências de Checagem

Metropoles– Frase sobre Coronavirus – Disponível em: https://www.metropoles.com/colunas-blogs/pipocando/o-coronavirus-nao-atingira-sua-casa-disse-cantora-gospel-antes-de-morrer

Instagram de Fabiana Anastáciohttps://www.instagram.com/p/B9_v_KDA51b/ acessado em 09.06.20

BBC – Como a crise do coronavírus expõe racha entre evangélicos no Brasil – Disponível em : https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52313890

Intercept – Coronavírus: como as igrejas evangélicas estão se aproveitando da crise para ocupar o vácuo do estado  – https://theintercept.com/2020/04/14/coronavirus-igrejas-evangelicas/

Ihu – Esquerda e direita disputam regimes de verdade. Entrevista especial com Rosana Pinheiro-Machado Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/573311-esquerda-e-direita-disputam-a-verdade-entrevista-especial-com-rosana-pinheiro-machado

Boatos– Cantora gospel Fabiana Anastácio gravou áudio alertando sobre Covid-19 no hospital Disponível em: https://www.boatos.org/religiao/cantora-gospel-fabiana-anastacio-audio-covid-19-hospital.html

Áudio da missionária Maiara Machado alertando os cristãos contra o coronavírus –

Página do Facebook da missionária Maiara Machado

Vícios privados, pecados públicos

“O que vocês disseram nas trevas será ouvido à luz do dia, e o que vocês sussurraram aos ouvidos dentro de casa, será proclamado dos telhados.”

Lucas 12:3

A Terra, redonda ou plana, dá muitas voltas. E nas voltas, idas ou cambalhotas que ela dá, revela muitas coisas. E qualquer poder político é ciente, ou deveria ser, de que nada fica encoberto para sempre. 

Quando Richard Nixon e seus cupinchas resolveram espionar os adversários políticos, nunca imaginaram que seriam descobertos e investigados por escutas ilegais, conspiração, uso ilegal dos serviços secretos e das forças de segurança e por aí vai…

Quando um grupo político articulou o pagamento de mensalidades para financiar apoio parlamentar ou ainda quando pessoas do alto escalão de empresas brasileiras se associaram ao governo para, mutuamente, surrupiarem o dinheiro público, não esperavam que fossem descobertos. 

Renunciando, cumprindo pena ou apenas desmascarados, todos eles tiveram suas conversas, antes “sussurradas aos ouvidos dentro de casa, proclamadas”. Pois é, como diz o título de um livro: “E a Bíblia tinha razão”. 

Agora, temos um caso de sonegação da informação. O atual governo decidiu mudar a forma de comunicar os dados da Covid-19 no Brasil.  

O Ministério da Saúde não mais informa o total de mortes e nem o total de casos confirmados desde o início da pandemia. No portal do Ministério, as informações consolidadas chegaram a sair do ar.

Esconder números é uma decisão antidemocrática e uma afronta à clareza das informações que o governo federal tem, por obrigação, manter com a sociedade. A isso se dá o nome de transparência.

Além de não vermos medidas efetivas tomadas pelo governo – e mesmo o que é anunciado não é cumprido (atraso de pagamentos do auxílio emergencial de R$ 600 e redução do valor do benefício), vamos enfrentar um inimigo invisível sem informações claras a respeito do Covid-19.

A informação e análise de dados são fundamentais para qualquer processo decisório. Isso vai desde decisões tomadas no âmbito mais pessoal, dentro de nossas casas, como dentro das empresas e nos poderes constituídos, bem como em toda a sociedade. Isso se acentua ainda mais quando as decisões afetam a vida e a morte.

E não bastasse toda a suspeição que paira sobre os dados, logo da primeira divulgação após o anúncio de mudança no formato, o governo tropeçou nas próprias pernas. 

O primeiro balanço do ministério apontava para 1.382 novas mortes. O segundo, no entanto, informava 525 óbitos. Uma diferença de 857 óbitos. 

O colaborador do governo, o empresário Carlos Wizard, acusou, sem apresentar provas, gestores públicos de aproveitarem a pandemia para atrair mais recursos para os seus estados e municípios. Depois, Wizard pediu desculpas pelas declarações desastradas e se recusou a continuar colaborando com o governo.

A pergunta que me faço todos os dias é: o que, de fato, esperamos de alguém no exercício do poder público? 

Probidade, acima de tudo, transparência e lealdade com a nação. Veja: com a nossa nação, não com governos de outros países. 

A decisão, que ora vai, ora vem, sobre os números relacionados à Covid-19, é mais um capítulo não apenas de omissão por nada fazer, mas total irresponsabilidade de não assumir o papel que tem diante da população. Alheamento na tragédia.

Aprofundamento da crise ocasionada por microcrises diárias. Ações que mais se assemelham a de uma criança com pirraça, cujo poder não lhe dá plenos direitos de agir de maneira nociva, do que um governante legitimamente eleito pelo povo. Um governo que manifesta o desprezo ao sofrimento, na lógica do escárnio e da afronta ao povo brasileiro. 

Não vivemos num país de poder herdado nem de poder tirano.

Minha única esperança diante dessa sucessão de tragédias é saber que o Deus a quem eu sirvo é justo, e levará esses iníquos ao juízo. Como todos os demais agentes públicos que roubaram e escarneceram de nossa paciência e compreensão. Eles terão suas estratégias demoníacas desmascaradas. Suas taras privadas serão envergonhadas publicamente. 

Eis que pecastes contra o Senhor; e sabei que o vosso pecado vos há de achar.

Números 32:23

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O que poderá vir depois do coronavírus?

Muitos já sentenciaram: depois do coronavírus não será mais possível levar avante o projeto do capitalismo como modo de produção, nem do neoliberalismo como sua expressão política. O capitalismo é somente bom para os ricos; para os demais é um purgatório ou um inferno e, para a natureza, uma guerra sem tréguas.

O que nos está salvando não é a concorrência – seu motor principal – mas a cooperação; nem o individualismo – sua expressão cultural – mas a interdependência de todos com todos.

Mas vamos ao ponto central: descobrimos que a vida é o valor supremo, não a acumulação de bens materiais. O aparato bélico montado, capaz de destruir por várias vezes, a vida na Terra se mostrou ridículo face a um inimigo microscópico invisível, que ameaça a humanidade inteira. Seria o Next Big One (NBO) o qual temem os biólogos, “o próximo Grande Vírus”, destruidor do futuro da vida? Não cremos. Esperamos que a Terra tenha, ainda compaixão de nós e nos dê apenas uma espécie de ultimato.

Já que o vírus ameaçador provém da natureza, o isolamento social nos oferece a oportunidade de nos questionarmos: qual foi e como deve ser nossa relação com a natureza e, em termos mais gerais, face à Terra como Casa Comum? Não são suficientes a Medicina e a Técnica, por mais que necessárias. A função destas é atacar o vírus até exterminá-lo.

Mas, se continuarmos a agredir a Terra viva, “nosso lar com uma comunidade de vida única” como diz a Carta da Terra (Preâmbulo) ela contra-atacará de novo com pandemias mais letais, até uma que nos exterminará.

A maioria da humanidade e dos chefes de Estado não têm consciência de que estamos dentro da sexta extinção em massa. Até hoje não nos sentíamos parte da natureza e nós, humanos, a sua porção consciente. Pelo contrário; nossa relação não com um ser vivo, Gaia, que possui valor em si mesmo e deve ser respeitado, mas sim de mero uso em função de nossa comodidade e enriquecimento. Exploramos a Terra violentamente a ponto de 60% dos solos terem sido erodidos; na mesma proporção as florestas úmidas e causamos uma espantosa devastação de espécies, entre 70-100 mil por ano. É a vigência do antropoceno e do necroceno. A continuar nesta rota vamos ao encontro de nosso próprio desaparecimento.

Não temos outra alternativa senão fazermos, nas palavras da encíclica papal “sobre o cuidado da Casa Comum” uma radical conversão “radical conversão ecológica”.

Nesse sentido o coronavírus é mais que uma crise como outras, mas a exigência de uma relação amigável e cuidadosa para com Natureza.

Como implementá-la num mundo montado sobre a exploração de todos os ecossistemas? Não há projetos prontos. Todos estão em busca. O pior que nos pode acontecer, seria, passada a pandemia, voltarmos ao que era antes: as fábricas produzindo a todo vapor ainda que com certo cuidado ecológico. Sabemos que grandes corporações estão se articulando para recuperar o tempo e os ganhos perdidos.

Mas há que conceder que esta conversão não poderá ser repentina, mas processual. Quando o Presidente francês Macron disse que “a lição da pandemia era de que existem bens e serviços que devem ser colocados fora do mercado” provocou a corrida de dezenas de grandes organizações ecológicas, tipo Oxfam, Attac e outras pedindo que os 750 bilhões de Euros do Banco Central Europeu destinados a sanar as perdas das empresas fossem direcionados à reconversão social e ecológica do aparato produtivo buscando assim mais cuidado para com a natureza, mais justiça e igualdade sociais. Logicamente isso só se fará ampliando o debate, envolvendo todo tipo de
grupos, desde a participação popular ao saber científico, até surgir uma convicção e uma responsabilidade coletivas.

De uma coisa devemos ter plena consciência: ao crescer o aquecimento global e ao aumentar a população mundial devastando habitats naturais e assim aproximando os seres humanos aos animais, estes transmitirão mais vírus que encontrarão em nós novos hospedeiros para os quais não estamos imunes. Daí surgirão as pandemias devastadoras.

O ponto essencial e irrenunciável é a nova concepção da Terra, não mais como um mercado de negócios colocando-nos como senhores (dominus), fora e acima dela, mas, como um super Ente vivo, um sistema autoregulador e autocriativo, do qual somos a parte consciente e responsável, junto com os demais seres como irmãos (frater). A passagem do dominus (dono) a frater (irmão) exigirá uma nova mente e um novo coração. Isto é, ver de modo diferente a Terra e sentir com o coração a nossa pertença a ela e ao Grande Todo. Junto a isso o sentido de inter-retro-relacionamento de todos com todos e uma responsabilidade coletiva face ao futuro comum. Só assim chegaremos, como prognostica a Carta da Terra, a “um modo sustentável de vida” e a uma garantia de futuro da vida e da Mãe Terra.

A atual fase de recolhimento social pode significar uma espécie de retiro reflexivo e humanístico para pensarmos sobre tais coisas e sobre a nossa responsabilidade face a elas. O tempo é curto e urgente e não podemos chegar tarde demais.

*Leonardo Boff escreveu “Como cuidar da Casa Comum”, Vozes 2018 e “A opção Terra: a solução da Terra não cai do céu”, Record 2009.

Pentecostes: vem Espírito de vida e salva-nos!

Todos nos sentimos perdidos.

Investigadores, médicos e médicas, epimiologistas, biólogos e todos os saberes que instauramos, todos não conhecemos o Covid-19 nem sabemos como enfrentá-lo eficazmente com uma vacina. Oxalá não seja o que alguns biólogos, há muito, temem: o NBO (Next Big One) “o próximo grande” vírus que fará desaparecer a espécie humana.

Além do Covid-19 e dos vários vírus já conhecidos, enfrentamos tempos ecologicamente ameaçadores, com  o aquecimento global, a sexta extinção em massa, a erosão da biodiversidade e outras.

Além de usarmos os meios científicos que nos estão deixando desamparados, temos uma referência de uma outra ordem que não é contra a inteligência, mas vai além de seu alcance, que é a inteligência espiritual, que capta o Espírito Criador. Ela é uma dimensão de nossa realidade quando entendida holisticamente.

Este Espírito Criador responde pelo surgimento do Universo com suas bilhões de galáxias e trilhões de estrelas e planetas, Aquele que existia antes do antes e que fez surgir aquele ínfimo ponto, carregado de energia e que, explodindo (big bang).. deu origem ao Universo. Ele continua presidindo todo o processo cosmogênico, o nosso planeta, e a cada um de nós, pois é o Spiritus Creator, o Pneuma, o Sopro de Vida. Nas linguas médio-orientais ele é sempre feminino, ligado à mulher que gera.

Nesses momentos de crise, surge a ocasião de invocá-Lo e suplicar-Lhe:

Tu que és Fonte de Vida, salva nossas vidas, as vidas dos mais vulneráveis, as vidas de toda a humanidade”.

Ele, diz o Gênesis logo no início, pairava sobre o “touwabou” (em hebraico), o caos originário; dele tirou todas as coisas e as colocou em sua devida ordem, no céu e na terra e por fim ,nos seres humanos, homens e mulheres.

Alargando o horizonte, releva reconhecer que sua criação está ameaçada para além dos efeitos letais da Covid-19. A ameaça não vem de algum meteoro rasante, como há 65 milhões de anos, que exterminou os dinossauros depois de viverem por mais de cem milhões de anos por sobre a Terra. O meteoro rasante atual se chama homo sapiens e demens, duplamente demens (inteligente e demente e duplamente demente). Por sua relação agressiva para com a Terra e para com todos os seus ecossistemas, pode eliminar a vida humana, destruir nossa civilização e afetar gravemente toda a biosfera.      

É num contexto assim que refletiremos sucintamente e invocaremos a ação sanadora e recriadora do Espírito Santo. Nossas fontes referenciais são os textos dos dois Testamentos judaico-cristãos e a experiência humana, cujo espírito é animado pelo Espírito Criador, chamado pela liturgia desta festa de “luz beatíssima”.

Pensar o Espírito Santo nos obriga a ir além das categorias clássicas com as quais se elaborou o discurso ocidental, tradicional e convencional da Teologia. Deus, Cristo, a graça e a Igreja foram pensadas dentro de categorias metafísicas da filosofia grega, de substância, de essência e de natureza. Portanto, por algo estático e sempre já circunscrito de forma imutável. Este paradigma foi feito oficial pela teologia cristã.

Entretanto, pensar o Espírito implica assumir outro paradigma: o do movimento, da ação, do processo, da emergência, da história e do novo e do surpreendente. Este não pode ser apreendido com a terminologia substancialista, mas com a do vir-a-ser.

Este paradigma nos aproxima da moderna cosmologia e da física quântica. Estas veem todas as coisas em gênese, emergindo a partir de um fundo de Energia Inominável, Misteriosa e Amorosa que está antes do antes, no tempo e no espaço zero. Ela sustenta o universo e todos os seres nele existentes e penetra de ponta a ponta o cosmos e nos penetra totalmente. Essa Energia de Fundo, chamada também de o Abismo Originador de todo o ser, é a melhor metáfora do Espírito Criador, que é tudo isso e ainda mais.

Redizer o terceiro artigo do Credo cristão: ”Creio no Espírito Santo” nestes moldes, significa uma tarefa nova,  cientes de que ficamos sempre aquém daquilo que deveríamos dizer sobre o Espírito Criador.

Finalmente, cabe reconhecer que tocamos no mistério. Este não se opõe ao conhecimento, pois o mistério é o ilimitado de todo conhecimento. Este sempre conhece mais e mais, mas o mistério permananece em todo o conhecimento. Este é, por natureza, sempre limitado. Este mistério se revela mas também se vela. A missão dos que o acolhem e se entregam à sua reflexão sistemática, como os teólogos e as teólogas, também os que se dedicam à filosofia (como F. Hegel, cuja categoria central é o Espírito Absoluto) é buscar incessantemente esta revelação.

É próprio do Espírito esconder-se dentro dos processos evolucionários e da história. É próprio do ser humano descobri-Lo. Ele “sopra onde quer e não sabemos nem de onde vem nem para onde vai” (cf. Jo,38). Mas isso não nos exime da tarefa de des-ocultá-Lo.

É o que esperamos ardentemente: que este Espírito se manifeste e inspire os espíritos de nossos investigadores para que descubram uma vacina que salve nossas vidas. E quando através da pesquisa deles, Ele irrompe surpreendentemente, nos alegramos e celebramos, ébrios de gratidão por sua ação mediada pelo espírito humano.

O Pentecostes, uma das maiores das Igrejas cristãs. É uma festa sem fim, pois o Espírito está permanente em ação e se prolonga ao longo e ao largo de toda a história, e nos alcança até nos dias em que sofremos, nos angustiamos e tememos a letalidade do coronavírus.

Spiritus Creator nunca abandonou sua criação, mesmo nas 15 grandes dizimações pelas quais ela passou. E não nos vai abandonar agora. Veni Creator Spiritus et salva nos”.

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Leonardo Boff é ecoteólogo e escreveu O Espírito Santo: fogo interior, doador de vida e pai dos pobres, Vozes 2013.

Ministra Damares Alves faz acusações sem provas sobre contaminação de indígenas por Covid-19

Durante a reunião ministerial do governo federal, cujo vídeo foi tornado público em 22 de maio pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, relatou que pessoas estariam contaminando povos indígenas propositalmente com o novo coronavírus a fim de dizimá-los e atingir o presidente Jair Bolsonaro.

Eu fui lá para a Amazônia e para Roraima para acompanhar o primeiro óbito [pela covid-19]. E por que que nós fomos lá, presidente? Porque nós recebemos a notícia que haveria contaminação criminosa em Roraima e Amazônia, de propósito, em índios, pra dizimar aldeias e povos inteiros pra colocar nas costas do presidente Bolsonaro. (…) Eu tive que ir pra lá com o presidente da Funai e me reuni com generais da região e o superintendente da Polícia Federal, pra gente fazer uma ação ali meio que sigilosa, porque eles precisavam matar mais índio pra dizer que a nossa política não tava dando certo.”

A íntegra da fala da ministra e de toda a reunião pode ser assistida em vídeo e a gravação dos conteúdos pode ser lida aqui.

A acusação feita pela ministra é muito grave e é muito sério também  que ela não tenha apresentado dados que corroborassem sua afirmação, referindo-se à necessidade de fazer uma ação “meio que sigilosa” com a Polícia Federal, porque, segundo ela, “eles” [e não fica claro quem são “eles”] precisavam matar “mais índio” para fazer crer que a política bolsonarista não estaria dando certo.

O Coletivo Bereia checou a veracidade desta informação dada pela ministra Damares Alves na reunião ministerial de 22 de abril.

A reunião ministerial

O vídeo foi solicitado pela defesa do ex-ministro da justiça Sérgio Moro, para ser apresentado como prova no inquérito da Polícia Federal que investiga a denúncia do ex-ministro sobre possível intervenção indevida de Jair Bolsonaro neste mesmo órgão, para atender objetivos pessoais.

O acesso livre ao vídeo da reunião foi liberado pelo Supremo Tribunal Federal em 22 de maio, inclusive a degravação das falas (com exceção de trechos que mencionam a China e o Paraguai, por questões de segurança nacional), por se tratar de assunto de interesse público.

O conteúdo da reunião chamou a atenção, além dos trechos que podem ser ou não interpretados como prova na investigação em curso, pelo baixo nível do que foi dito pelos líderes nacionais. Houve excesso de expressões de baixo calão, pedidos de prisão de ministros do STF, classificados como “vagabundos”, também de governadores e prefeitos que atuam em medidas de isolamento social contra a Covid-19, além de outras intervenções de ética questionável.

Quando lhe foi dada a palavra, a ministra Damares Alves questionou o STF sobre a possibilidade de liberar o aborto a “todos que tiveram coronavírus” no Brasil, falou sobre a  informação de que indígenas haviam sido contaminados de propósito para se colocar a culpa em Jair Bolsonaro e que “nunca houve tanta violação de direitos no Brasil como neste período“, indicando que pediria a prisão de governadores e prefeitos.

Indígenas no Brasil e o descaso governamental

Segundo o Instituto Socioambiental, uma organização da sociedade civil brasileira, sem fins lucrativos, fundada em 1994, com atuação em torno de questões sociais e ambientais com foco central na defesa de bens e direitos sociais, coletivos e difusos relativos ao meio ambiente, ao patrimônio cultural, aos direitos humanos e dos povos.

Em pleno século XXI a grande maioria dos brasileiros ignora a imensa diversidade de povos indígenas que vivem no país. Estima-se que, na época da chegada dos europeus, fossem mais de 1.000 povos, somando entre 2 e 4 milhões de pessoas. Atualmente encontramos no território brasileiro 256 povos, falantes de mais de 150 línguas diferentes.

Os povos indígenas somam, segundo o Censo IBGE 2010, 896.917 pessoas. Destes, 324.834 vivem em cidades e 572.083 em áreas rurais, o que corresponde aproximadamente a 0,47% da população total do país.

A maior parte dessa população distribui-se por milhares de aldeias, situadas no interior de 724 Terras Indígenas, de norte a sul do território nacional. 

Entre as principais etnias indígenas brasileiras na atualidade estão a Ticuna (35.000), Guarani (30.000), Caiagangue ou Caigangue (25.000), Macuxi (20.000), Terena (16.000), Guajajara (14.000), Xavante (12.000), Ianomâmi (12.000), Pataxó (9.700) e Potiguara (7.700).

A defesa dos direitos dos povos indígenas, os habitantes originários das terras brasileiras, tem sido árdua. A maior conquista foi o direito à demarcação de terras alcançado com a Constituição de 1988. Os direitos constitucionais dos índios estão expressos em capítulo específico da Constituição (título VIII, “Da Ordem Social”, capítulo VIII, “Dos Índios”), além de outros dispositivos dispersos ao longo do texto e de um artigo do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.

São, pelo menos, duas inovações importantes em relação a Constituições anteriores e ao chamado Estatuto do Índio. A primeira é o abandono de uma perspectiva assimilacionista, que entendia os índios como categoria social transitória, fadada ao desaparecimento. A segunda é que os direitos dos índios sobre suas terras são definidos como direitos originários, isto é, direitos anteriores à criação do próprio Estado. Isto decorre do reconhecimento do fato histórico de que os índios foram os primeiros ocupantes do Brasil. A Constituição de 1988 estabelece, desta forma, novos marcos para as relações entre o Estado, a sociedade brasileira e os povos indígenas.

Em relação ao atual governo, são cinco principais pontos de conflito que envolvem os povos indígenas: demarcações paralisadas (cumprimento de promessa de campanha), defesa de que haja mineração em terras indígenas, indicação de expansão do agronegócio em áreas indígenas, repetição do discurso da ditadura militar de que indígenas devem se integrar à sociedade, agrado à bancada ruralista com transferência da FUNAI do Ministério da Justiça para o Ministério da Agricultura (o que foi impedido pelo STF, declarado inconstitucional).

Esta tensão entre o governo Jair Bolsonaro e povos indígenas brasileiros fez com que membros de 45 etnias se reunissem em uma aldeia em Mato Grosso em protesto, em janeiro passado. O encontro foi convocado pelo cacique kayapó Raoni Metuktire e, nele, os indígenas afirmaram em um manifesto “que está em curso um projeto político do governo brasileiro de genocídio, etnocídio e ecocídio“. “As ameaças e falas de ódio do atual governo estão promovendo a violência contra povos indígenas, o assassinato de nossas lideranças e a invasão das nossas terras“, diz o texto, redigido ao fim da reunião, na aldeia Piaraçu, na Terra Indígena Capoto Jarina.

Em uma de suas transmissões ao vivo pelo Youtube às quintas-feiras, o presidente Jair Bolsonaro disse em 24 de janeiro, referindo-se à criação do Conselho da Amazônia e a ações previstas para a proteção de terras indígenas, que “cada vez mais, o índio é um ser humano igual a nós”. Ele afirmou pretender fazer com que os povos nativos da Amazônia sejam integrados à sociedade, e que sejam donos das terras indígenas. O conselho foi criado após o governo brasileiro, e o próprio Presidente da República, sofrerem críticas, inclusive em âmbito internacional, pela atuação destrutiva na área ambiental.  A coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) Sônia Guajajara, reagiu à época afirmando que os indígenas exigem respeito.

Bolsonaro mais uma vez rasga a Constituição ao negar nossa existência enquanto seres humanos. É preciso dar um basta a esse perverso!

De acordo com o coordenador do Conselho Indigenista Missionário – CIMI Sul, Roberto Liebgott, em entrevista ao IHU On-Line,

Nos últimos anos intensificaram-se os ataques aos direitos indígenas tendo como foco a desconstituição do Artigo 231 da Constituição Federal de 1988, que assegura aos povos originários a demarcação das terras que tradicionalmente ocupam. Os ataques visam abrir caminho para a exploração agrária e agrícola; a expropriação e o esbulho da terra; a expansão minerária, madeireira e hidráulica; e a cobiça pelos recursos ambientais. O governo eleito não admite que na Constituição Federal (que ele [Bolsonaro] jurou defender) estejam expressos os direitos à diferença étnica, à terra demarcada e respeitada e o fato destas populações serem sujeitos de direitos.”

Neste 2020 o governo Bolsonaro foi denunciado ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas por diversas violações ao meio ambiente, a mulheres e a indígenas. O país vive pressão inédita desde o fim da ditadura com relatores da ONU, ONGs e ativistas do Brasil e de outros países referente ao desmonte dos mecanismos de proteção a direitos fundamentais.

Contaminação por Covid-19 entre povos indígenas

Se o coronavírus entrar nas aldeias, é possível que o aumento de casos seja explosivo”, alertou o pesquisador Andrey Moreira Cardoso, da Fiocruz, em entrevista ao site do Instituto Socioambiental, organização da sociedade civil brasileira, sem fins lucrativos, fundada em 1994, para propor soluções de forma integrada a questões sociais e ambientais com foco central na defesa de bens e direitos sociais, coletivos e difusos relativos ao meio ambiente, ao patrimônio cultural, aos direitos humanos e dos povos. 

Na entrevista, publicada em 26 de março, o especialista sinalizou estudos em várias partes do mundo e também no Brasil  que atestam que os índios são mais vulneráveis a epidemias em função de condições sociais, econômicas e de saúde piores do que as dos não índios, o que amplifica o potencial de disseminação de agentes causadores de doenças.

A questão está estreitamente associada às possibilidades de acesso aos territórios tradicionais e aos recursos lá disponíveis. Também se vincula à proximidade dos centros urbanos, ao grau de dependência em relação ao mercado regional e à disponibilidade de políticas públicas. A possibilidade de contato com populações onde ocorre transmissão comunitária da doença, a depender da localização onde residem e do grau de contato, pode facilitar com que uma pessoa se infecte e volte para a aldeia. Então, um dos grandes desafios é evitar esse contato e que ocorra a transmissão para alguém que vai retornar à aldeia. No momento em que essa pessoa retorna à aldeia, é muito difícil conter a disseminação do vírus.”

Andrey Moreira Cardoso

O apontamento se materializou em uma triste estatística.  Em 1º de abril foi confirmado o primeiro caso de Covid-19 em uma jovem indígena da etnia Kokama, no município de Santo Antônio do Içá, no interior do Amazonas. Ela atua no SUS e é agente indígena de saúde no Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Solimões. A vítima se recuperou integralmente. Entretanto, dez dias depois, o número de casos confirmados em indígenas subiu para nove, incluindo cinco prováveis contatos da jovem kokama, um caso no DSEI Manaus, um no DSEI Parintins e um adolescente de 15 anos da etnia yanomami, no estado de Roraima, de acordo com o boletim epidemiológico da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), subordinada ao Ministério da Saúde.

Em 9 de abril de 2020 houve o registro da primeira morte de indígena pelo coronavírus no país. O adolescente yanomami Alvaney Xiriana Pereira, de 15 anos, ficou internado na UTI do Hospital Geral de Roraima (HGR) por sete dias. No dia seguinte à morte, a FUNAI lançou uma nota, lamentando o ocorrido.

Depois da morte do adolescente yanomanmi e da nota da FUNAI, a Associação Yanomami fez um apelo em carta aberta, para que o próprio órgão, a PF e o Exército retirem imediatamente os garimpeiros das terras indígenas a fim de evitar novas contaminações dos povos locais.

Entidades de defesa da causa indígena, como o Instituto Socioambiental e o CIMI denunciaram a subnotificação de casos da Covid-19 entre esta população, gerando preocupação quanto ao que isso pode representar de risco para as comunidades.

As duas entidades também denunciaram que outros dois indígenas contaminados pelo novo coronavírus já tinham ido a óbito e que o governo federal não registrou as ocorrências no balanço. Os indígenas eram uma mulher idosa da etnia Borari, de 87 anos, que morreu em Alter do Chão, no município de Santarém (PA), no dia 19 de março,  e o outro era um homem de 55 anos, do povo Mura, morto em Manaus, no dia 5 de abril. Em consequência da morte da idosa, o Ministério Público Federal (MPF) abriu inquérito, no dia 2 de abril, pedindo medidas para evitar a disseminação da Covi-19 em Santarém. Além disso, uma das denúncias investigadas é de que não houve notificação da suspeita de Covid-19. No dia 20 de março, centenas de pessoas compareceram ao funeral da mulher borari, muito querida em toda a vila. 

A Secretaria de Saúde Pública do Pará (Sespa) publicou o exame da idosa indígena no Twitter porque um parente teria negado que se tratava de uma vítima do coronavírus.

Em 12 de abril de 2020, a ministra Damares Alves chegou a Boa Vista. Visitou o projeto Operação Acolhida, responsável pela imigração dos venezuelanos naquele estado e participou de reuniões com a FUNAI, para articular ações de combate ao coronavírus.

Em toda a cobertura sobre a visita da ministra Damares Alves à Amazônia em abril, tanto no âmbito oficial, quanto pela imprensa de um modo geral, não foi encontrada qualquer menção dela, de representantes da FUNAI ou de qualquer outra autoridade sobre uma possível contaminação criminosa de indígenas.

Pelo contrário, as declarações foram todas positivas em relação a ações do governo. Na ocasião, o presidente da FUNAI Marcelo Augusto Xavier destacou que o governo federal estaria adotando todas as medidas para conter a transmissão da Covid-19 entre os povos indígenas. “É importante assegurar que o governo federal está presente em Roraima e Boa Vista e ninguém ficará para trás”, ressaltou.

Estamos aqui para encontrar respostas neste momento de enfrentamento ao coronavírus, completou Damares.

Antes da viagem Damares Alves,  os órgãos ligados à proteção indígena já vinham sendo questionados sobre uma possível omissão em meio à pandemia. No começo de abril, foram destinados R$ 10,8 milhões para a Funai no combate à pandemia entre as comunidades indígenas. Duas semanas depois, nada havia sido feito. Isto resultou cobrança do subprocurador-geral da República Antonio Carlos Alpino Bigonha questionando a FUNAI e o Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos, em 16 de abril, sobre o motivo das verbas reservadas para o combate ao coronavírus em comunidades tradicionais e indígenas não terem sido empenhadas. Dos quase R$ 11 milhões da verba emergencial para o combate à Covid-19, Damares Alves teria usado apenas R$ 1 milhão para comprar caminhonetes. Um parecer técnico interno da Procuradoria ainda dizia que a falta do investimento não é “questão financeira”. O subprocurador-geral ressaltou que “a necessidade é urgente em cada comunidade indígena, seja por alimentos, seja por proteção e segurança”.

No entanto, a pandemia seguiu avançando em terras indígenas. Assim, até 3 de maio, cerca de cem índios foram contaminados, sendo que o maior número de casos entre indígenas no Brasil está concentrado no Amazonas, epicentro da doença. Os dados foram apontados em matéria do G1 do referido dia, intitulada: “Índios temem ‘catástrofe’ e tentam fugir da Covid-19”.

Segundo a reportagem, cuja versão em vídeo foi exibida no programa Globo Rural, da emissora Globo, em 20 de março, a associação que representa os povos, no norte do Mato Grosso,  pediu que os caciques interrompessem o deslocamento dos índios para as cidades, e reivindicou o fechamento das estradas que levam para fora do parque. Mediante a dificuldade de deslocamento para a cidade, os grupos que compõem as 16 etnias presentes na região estariam sofrendo com a falta de produtos básicos, como sabão e creme dental. O confinamento também estaria comprometendo o trabalho e a renda dos índios.

A estatística evidencia uma preocupação desvelada em maio, de acordo o boletim da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do dia 25, que apresenta são 40 mortos indígenas, 824 casos de contaminação confirmados e 218 casos suspeitos. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) apresentava em 11 de maio números já maiores, com  77 mortos com teste positivo para a doença e 308 indígenas de contaminados. Vale registrar que a Sesai não está contabilizando casos de indígenas que vivem em cidades.

Uma rede de colaboradores foi criada para levantar casos e mortes suspeitos, tendo à frente a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coaib). A APIB ainda mantém uma lista de vítimas disponível no site quarentenaindigena.info (http://quarentenaindigena.info/casos-indigenas/), a qual, até o dia 22 de maio, às 16h30, contabilizava 125 indígenas mortos, 987 contaminados e 61 povos atingidos.

Em matéria publicada no site do Instituto Socioambiental, em 8 de maio, a coordenadora da APIB, Sonia Guajajara, aponta a divergência entre os números.

“Os números apurados pelo movimento indígena, quando comparados aos da Sesai, revelam uma discrepância absurda. Além da negligência do Estado brasileiro, há um racismo institucionalizado (…) O movimento indígena está preocupado em registrar minuciosamente os dados e exigir sua oficialização, para que daqui a 30 anos não tenham que ser revelados os ‘desaparecidos pela covid-19’.”

Contaminação de Covid proposital?

Sobre as afirmações da ministra Damares Alves, de que toda esta contaminação de indígenas teria sido realizada de forma proposital para atingir o presidente Jair Bolsonaro, Bereia não localizou registros de investigações ou quaisquer indicações comprobatórias de tal situação entre os organismos oficiais FUNAI, SESAI ou de proteção a indígenas como APIB ou Instituto Socioambiental. Para as organizações que atuam em apoio a essas populações, as causas da contaminação são de conhecimento notório dos órgãos governamentais e são criminosas, sim, relacionadas às invasões das terras indígenas.

O Presidente do CIMI, Bispo D. Roque Paloschi explica:

“A principal preocupação e ameaças com relação aos povos indígenas é que garimpeiros, grileiros, madeireiros e invasores em geral, não fazem a quarentena. Ao contrário, aproveitam a falta de fiscalização e de gestão política e administrativa no país para continuar com as ações ilícitas nas terras indígenas, com um agravante maior, os contínuos discursos do governo do Brasil em incentivar as invasões, com sua retórica desenvolvimentista. Outra grande preocupação são os projetos de emenda constitucional e projetos de lei, como o PL 191/20, que regulamentam a exploração de recursos minerais, hídricos e orgânicos em reservas indígenas.”

Sobre isto Bereia ouviu o Pastor Sandro Luckmann, educador do Conselho de Missão entre Povos Indígenas (COMIN), da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil:

“A fala da ministra é extremamente grave. É uma fala cujo objetivo principal é omitir, é esconder a situação de ausência e de trabalho articulado e com melhor resposta do próprio governo. Os dados que temos levantados a partir da Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde (SESAI) e o que as próprias organizações indígenas têm levantado mostram isto. Há uma disparidade bastante grande neste sentido. A SESAI no seu último boletim reconhece que em nível nacional houve somente 35 mortes de pessoas indígenas enquanto as próprias organizações de indígenas falam que este número já está em 125 indígenas falecidos, atingindo em torno de 61 povos. E na Amazônia a situação é extremamente grave por conta da geografia. Para acessar os recursos emergenciais, os benefícios, as comunidades precisam descer de barco até as cidades e não há infraestrutura, local adequado para ficar. O sistema de comunicação é difícil, complexo, não é ágil. Estive no início de março, antes do isolamento social, visitando uma comunidade lá. Para chegar eu levei seis horas num barco veloz da cidade mais próxima. Mas os barcos que os indígenas geralmente usam levam um ou dois dias. Já houve manifestações de lideranças indígenas que dizem que caso aconteça de indígenas pegarem a COVID-19, não vão buscar ajuda porque sabem que chegando até lá não terão atendimento. Há uma denúncia de falta de hospitais de campanha que possam ser interiorizados, com equipamento. Outra denúncia é que quando há necessidade de hospital as comunidades indígenas são as últimas a ocuparem o espaço porque viajam do interior da Amazônia para Manaus e o sistema já está caótico. Há um problema muito sério nesse sentido. Avaliamos então esta tentativa do governo de esconder a real situação e a falta de infraestrutura, a falta de capacidade deste governo em atender esta demanda das comunidades indígenas. O Estado do Amazonas é o estado que tem a maior população indígena e há uma invasão deliberada das terras indígenas. Há denúncias em Roraima mesmo, um dos estados que a Ministra cita, denúncias da invasão de garimpeiros, madeireiros, grileiros, e isto tem feito avançar a doença sobre as comunidades indígenas. Nesse sentido a FUNAI não tem sido uma agente protetora dos territórios indígenas então há uma situação bem complexa neste sentido.”

O coordenador do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), da Igreja Católica, Região Sul Roberto Antônio Liebgott, também ouvido por Bereia, afirma que a declaração de Damares Alves é mentirosa e explica que isto acontece porque a ministra não menciona que:

por omissão e falta de fiscalização, por parte do governo que ela integra, ocorrem invasões nas terras indígenas por milhares de garimpeiros, madeireiros, grileiros, posseiros e tantos outros que saqueiam o patrimônio público. Também não foi por um acaso o discurso do Presidente ao propor, como medida de segurança, o armamento em massa – em suas palavras, todos devem estar armados. Quem são ‘todos’? Os indígenas e os quilombolas poderão se armar para se defender da invasão de seus territórios? Os pais de família, das periferias, poderão se armar para se defender da ação de milicianos? As pessoas que sofrem violências poderão se armar para se defender de ataques fascistas? 

Bereia conclui que a ministra Damares Alves fez uso de desinformação na reunião ministerial de 22 de abril, no que diz respeito à suposta à contaminação criminosa de coronavírus entre indígenas para atingir negativamente o presidente Jair Bolsonaro. O Coletivo classifica a fala como imprecisa pois não apresenta as fontes que corroborem tais afirmações nem dados coerentes com a grave situação descrita nesta matéria, desconsiderando as ações historica e comprovadamente criminosas de invasão de terras indígenas da parte de garimpeiros e grileiros, que são fonte de doenças para estas populações. O uso de desinformação, em caso como este, é irresponsável pois levanta acusações sem apresentar autoria e dados, levando quem ouve as afirmações a atitudes de desconfiança e condenação precoce, que são frequentemente direcionadas a pessoas opostas no campo político.

***

Referências de Checagem:

Portal do STF (1) https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=443959&ori=1 Acesso em 26 mai 2020

Portal do STF (2) https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=418183 Acesso em 26 mai 2020

Instituto Socioambiental. Povos Indígenas no Brasil https://pib.socioambiental.org/pt/Quem_s%C3%A3o Acesso em 26 mai 2020

Instituto Socioambiental. Direitos constitucionais dos índios https://pib.socioambiental.org/pt/Constitui%C3%A7%C3%A3o Acesso em 26 mai 2020

BBC https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51229884 Acesso em 26 mai 2020

IHU On Line http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/586730-a-ameaca-institucional-juridica-e-fisica-a-existencia-dos-povos-indigenas-entrevista-especial-com-roberto-liebgott  Acesso em 26 mai 2020

El País https://brasil.elpais.com/brasil/2020-03-10/50-anos-depois-brasil-volta-a-ser-alvo-sistematico-de-denuncias-internacionais-por-violacoes-de-direitos-humanos.html Acesso em 26 mai 2020

Instituto Sociambiental Notícias (1) https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/se-coronavirus-entrar-nas-aldeias-e-possivel-que-aumento-de-casos-seja-explosivo-alerta-especialista Acesso em 26 mai 2020

Instituto Socioambiental Notícias (2)  https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/em-alter-do-chao-pa-teste-de-indigena-falecida-da-positivo-para-covid-19 Acesso em 26 mai 2020

Instituto Sociambiental Notícias (3) https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/indigenas-de-cidades-com-covid-19-nao-ficarao-sem-assistencia-mas-responsabilidade-e-do-sus-diz-sesai Acesso em 26 mai 2020

Instituto Socioambiental Notícias (4) https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/indigenas-mortos-por-covid-19-chegam-a-55-segundo-APIB-numero-salta-45-em-dois-dias Acesso em 26 mai 2020

Boletim Epidemiológico da SESAI http://www.saudeindigena.net.br/coronavirus/mapaEp.php Acesso em 26 mai 2020

G1https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2020/04/12/ministra-damares-alves-faz-visita-surpresa-a-boa-vista-neste-domingo-12.ghtml Acesso em 26 mai 2020

Nota: Funai lamenta morte de indígena com COVID-19 http://www.funai.gov.br/index.php/comunicacao/noticias/6006-nota-funai-lamenta-morte-de-indigena-com-covid-19 Acesso em 26 mai 2020

Notícias UOL https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/04/11/apos-morte-indigenas-apelam-que-pf-funai-e-exercito-expulsem-garimpeiros.htm Acesso em 26 mai 2020

Agência Brasil https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-04/morre-indio-yanomami-com-coronavirus Acesso em 26 mai 2020

MPF http://www.mpf.mp.br/pa/sala-de-imprensa/noticias-pa/mpf-cobra-medidas-para-evitar-disseminacao-da-covid-19-em-santarem-pa/view Acesso em 26 mai 2020

Publicação na página da Sespa (PA) no Twitter https://twitter.com/SespaPara/status/1245461415005167617?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1245461415005167617%7Ctwgr%5E&ref_url=https%3A%2F%2Fwww.socioambiental.org%2Fpt-br%2Fnoticias-socioambientais%2Fem-alter-do-chao-pa-teste-de-indigena-falecida-da-positivo-para-covid-19 Acesso em 26 mai 2020

Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2020-2/abril/em-roraima-ministra-damares-visita-a-sede-da-operacao-acolhida  Acesso em 26 mai 2020

Ecoamazônia https://www.ecoamazonia.org.br/2020/04/ministra-mulher-familia-direitos-humanos-damares-alves-visita-roraima/ Acesso em 26 mai 2020

FUNAI  http://www.funai.gov.br/index.php/comunicacao/noticias/6009-comitiva-do-governo-federal-articula-acoes-de-combate-a-covid-19-no-norte-do-pais Acesso em 26 mai 2020

O Estado de São Paulo https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,funai-recebe-r-11-milhoes-para-proteger-indigenas-do-coronavirus-mas-nao-gastou-nenhum-centavo,70003269873 Acesso em 26 mai 2020

G1https://g1.globo.com/economia/agronegocios/globo-rural/noticia/2020/05/03/indios-temem-catastrofe-e-tentam-fugir-da-covid-19.ghtml Acesso em 26 mai 2020

Boletim Covid-19 Ministério da Saúde https://saudeindigena.saude.gov.br/

APIB http://APIB.info/2020/05/14/1-vidas-indigenas-e-covid-19/ Acesso em 26 mai 2020

Atualização de casos indígenas http://quarentenaindigena.info/casos-indigenas Acesso em 26 mai 2020

Estudo identifica principais fake news relacionadas à Covid-19

Publicado originalmente no site oficial da Fio Cruz, 18/05/2020

Um recente estudo, conduzido pelas pesquisadoras da ENSP Claudia Galhardi e Maria Cecília de Souza Minayo, identificou as principais fake news relacionadas à Covid-19, recebidas pelo aplicativo Eu Fiscalizo, entre março e maio no país.

Segundo Claudia, além de colocar vidas em risco, a disseminação de notícias falsas relacionadas ao novo coronavírus contribui para o descrédito da ciência e das instituições globais de saúde pública, bem como enfraquece as medidas adotadas pelos governos no combate à doença. Daí a importância da realização de estudos sobre a temática.

Precisamos redobrar a atenção ao receber informações nas redes sociais que não apresentem a fonte oficial e fazer uma leitura crítica antes de compartilhar qualquer conteúdo”, alerta a pesquisadora.

A primeira etapa da pesquisa, que fez um balanço das denúncias de notícias falsas recebidas entre 17 de março e 10 de abril, revela que 65% delas ensinam métodos caseiros para prevenir o contágio da Covid-19, 20% mostram métodos caseiros para curar a doença, 5,7% se referem a golpes bancários, 5% fazem menção a golpes sobre arrecadações para instituição de pesquisa e 4,3% se referem ao novo coronavírus como estratégia política.

A segunda fase do estudo, realizada entre 11 de abril e 13 de maio, aponta que, entre as fake news notificadas pelo app, 24,6% afirmam ser a doença uma estratégia política, 10,1% ensinam métodos caseiros para prevenir o contágio do novo coronavírus, 10,1% defendem o uso da cloroquina e hidroxicloroquina sem comprovação de eficácia científica e 7,2% são contra o distanciamento social.

Os resultados referentes ao intervalo entre abril e maio também mostram que 5,8% das notícias falsas ensinam métodos caseiros para curar a Covid-19, 5,8% afirmam que o novo coronavírus foi criado em laboratório, 4,3% declaram o uso de ivermectina como cura para a doença, 4,3% são contra o uso de máscaras e 2,9% difamam os profissionais de saúde.

Ainda entre os meses de abril e maio, foi constatado que, entre as fake news denunciadas, 2,9% são contra o uso de álcool em gel, 2,9% declaram o novo coronavírus como teoria conspiratória, 1,4% são relacionadas à difamação de políticos, 1,4% declaram ter a causa do óbito de parentes alterada para Covid-19 e 0,4% consistem em charlatanismo religioso, com tentativa de venda de artefatos para a cura da doença. O estudo também aponta que 15,9% das fake news se referem à Covid-19 como uma farsa, durante todo o período analisado, entre 17 de março e 13 de maio.

Em abril, as pesquisadoras da ENSP realizaram estudo que identificou as mídias sociais mais utilizadas para a propagação de fake news relacionadas à Covid-19 notificadas pelo aplicativo.  

Saiba mais aqui sobre o Eu Fiscalizo.

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Referências:

Imagem de destaque: https://futurism.com/the-byte/protesters-break-quarantine-calling-covid-19-fake-news / VICTOR TANGERMANN

Ministro apresenta desinformação sobre a Covid-19 em entrevista

Em entrevista coletiva na sexta-feira, 15 de maio de 2020, ministros do governo federal apresentaram um quadro dos 500 dias do governo de Jair Bolsonaro e enfatizaram o enfrentamento da pandemia de coronavírus. O Ministro da Secretaria de Governo General Luiz Eduardo Ramos, da ala evangélica de apoio a Bolsonaro (Igreja Batista), criticou, mais uma vez, a cobertura jornalística sobre a Covid-19.

Ramos disse que as notícias transmitem “clima de terror”. Ele já havia feito a mesma crítica na entrevista coletiva de 22 de abril, quando disse que os telejornais só mostram “imagens de caixão e corpo”, acusou a imprensa de não estar ajudando” e pediu que mostrasse “coisa positiva”.

O Ministro General Ramos, na entrevista de 15 de maio, alegou defender uma “questão de bom senso”. Ele apresentou dois argumentos: uma tabela do número de óbitos de coronavírus no mundo, com o Brasil atrás de muitos países. “Não estou minimizando as mortes (…), mas é importante que nós tenhamos consciência quando estamos noticiando”, afirmou o ministro.

O segundo argumento foi número de mortes por ano no país, por diversas causas, para comparar com números inferiores de óbitos por coronavírus, e concluir que não se deve causar um “clima de terror” no Brasil.

O vídeo com a fala do Ministro General Luiz Eduardo Ramos, na íntegra, pode ser acessado aqui (do minuto 5 ao minuto 18). Segue a transcrição dos trechos que justificam a crítica ao “clima de terror” da cobertura da imprensa:

(8’50) “O quadro que os senhores estão vendo, considerando a população, o Brasil está atrás de praticamente todos esses países: Bélgica, Espanha, Reino Unido, Itália, França, Estados Unidos, Alemanha, e aí vem o Brasil. Em números de óbitos, por milhão de habitantes, 58 óbitos. Tá aí, no quadro.”

(9’14) “Não estou minimizando as mortes, pelo amor de Deus. Uma morte é pleiteada pelo pranto de seus familiares, sofridos. Eu não estou dizendo isso. Eu estou dizendo o seguinte: é importante que nós tenhamos a consciência quando noticiamos, vamos explicar o que estamos noticiando.”

(9’33): “Outro dado, apenas para a reflexão de todos aqui, inclusive para o nosso ministro: isso aqui é estudo, dados abertos do Ministério da Saúde. Não estou falando de Covid-19! Não estou falando. Considerando o que seria um ano normal. A média, considerando os anos de 2016 ao ano de 2018, a média de óbitos por ano, 1 milhão e 253 mil pessoas, de várias causas. De doença de Chagas, que é muito ruim, cerca de 4 mil e 800 pessoas. Dessa doença, infelizmente muito forte, o câncer, 221 mil e 651 pessoas. De aparelho circulatório, ou infarto, qualquer um de nós,  – meu querido repórter [apontou para um repórter que estava presente], não vou citar o nome, mas todos nós, eu me incluo, podemos, a qualquer momento, sofrer um infarto do miocárdio. E vamos deixar essa vida, pois assim é. Como diz a Bíblia Sagrada, para aqueles que creem, não sabemos o dia e a hora [referência a Mateus 25:13]. Temos que nos preparar.”

(10’48) “E mais um dado, que não é Covid, pneumonia, 80 mil e 327. Outra coisa, todo mundo aqui deve andar de carro, ou deve andar de ônibus, pratica esporte… a média de mortes, por ano, de queda, afogamento, acidente automobilístico, lesões provocadas de toda ordem, 164 mil mortes. Os números são impactantes. Mas nem por isso é instaurado um clima de terror.” 

(11’27) “Nosso Presidente da República tem batido muito na tecla, e aqui está o ministro Paulo Guedes: é uma pandemia; medidas estão sendo adotadas, o ministro Braga Neto acabou de dizer que 7 bilhões de dinheiro (sic), importando kits… tudo está sendo feito. Mas é uma pandemia que atingiu o mundo.”

Bereia checou os argumentos do ministro para verificar se o governo está veiculando informações corretas.

O Brasil e o número de óbitos no mundo

O Ministro General Luiz Eduardo Ramos argumentou que o Brasil não tem número de mortes que promova um alarde tão grande das mídias, afinal, na tabela que apresenta, datada de 12 de maio, o Brasil é o oitavo colocado em óbitos, em comparação com Bélgica, Espanha, Reino Unido, Itália, França, Estados Unidos e Alemanha (em ordem de óbitos por milhão de habitantes).

Fonte: TV BrasilGov

A tabela apresentada pelo Ministro não indica a fonte. Ela é bastante similar a tabelas que têm circulado em mídias sociais, com comparações de países por número de óbitos por habitantes, tendo como fonte dados da plataforma Worldometer, usadas para minimizar os impactos da pandemia no Brasil e acusar a imprensa de exagero na cobertura da crise.

Este tipo de abordagem é desinformativa porque se baseia em números frios. Apesar de os dados apresentados serem corretos, as postagens fixam-se na simples comparação dos números e desconsideram: 1) que os países estão em fases diferentes da pandemia; 2) que há diferenças populacionais que impedem a comparação, como idade e densidade demográfica; e 3) que o nível de testagem no Brasil é muito menor do que em outros países, o que leva à subnotificação de infectados e mortos.

A agência de checagem Aos Fatos já havia verificado estas postagens, e, a partir do acordo de verificação que tem com o Facebook, publicações com esta comparação, sem a devida contextualização, foram marcadas como DISTORCIDAS.

De acordo com a verificação de Aos Fatos, feita antes da entrevista coletiva do Ministro General Ramos, o número de mortes por milhão de habitantes não é recomendado para fazer comparações sobre o impacto da pandemia em diferentes países. 

A agência ouviu o médico intensivista e epidemiologista da USP (Universidade de São Paulo) Otávio Ranzani, que explicou:

“Essa métrica pouco ajuda no entendimento e controle da pandemia na fase em que o Brasil está. Ela não indica se a pandemia está ativa ou em expansão. Na verdade, ela indica erroneamente o contrário. No Brasil, a ascensão da curva é ativa e dividir [o número de mortos] por uma população continental como a nossa só mostra que temos ainda muitos suscetíveis a terem infecção.”

Países como Bélgica e Itália, por exemplo, apresentam uma diminuição dos casos diários.

De acordo com o Otávio Ranzani, uma comparação de números correta só pode ser feita entre países que estão nas mesmas fases da pandemia e que tenham população com idade média similar. Um artigo da BBC, de 18 de maio de 2020, explica o mesmo e indica que países com populações mais velhas ou com maior densidade populacional podem ter maior taxa de infecção e de mortalidade.

Ainda há também um elemento fundamental a ser levado em conta: a testagem da população e as diferenças na forma como os óbitos são computados. A Bélgica, por exemplo, inclui mortes suspeitas na contabilização geral, o que não é o caso do Brasil que notifica “pneumonia” e “Síndrome Respiratória Aguda” em milhares de casos que teriam relação com a Covid-19.

Quanto à testagem, o Brasil tem ações muito inferiores a dos países citados. Segundo a própria fonte dos números, a Worldometers, o Brasil havia feito 1,5 testes por milhão de habitantes até 12 de maio de 2020 (data da tabela apresentada pelo ministro) enquanto Bélgica, Espanha e Itália haviam feito 50,4, 52,7 e 43,1 respectivamente.

Sobre as mortes por coronavírus comparadas a mortes por outras causas

O Ministro General Luiz Eduardo Ramos argumenta, na entrevista de 15 de maio, que há centenas de milhares de mortos por ano por doenças váriasv – por câncer, por infarto e por acidentes de trânsito e afogamentos, que oferecem números impactantes mas nem por isso é “instaurado um clima de terror”.

O ministro também faz uso de conteúdo fartamente exposto em mídias sociais em diversas publicações que procuram relativizar e minimizar os graves efeitos da Covid-19. Várias destas publicações nas redes foram classificadas como falsas porque são apresentados dados como se fossem atuais, para comparação com números dos casos de coronavírus. Checagem da agência Aos Fatos tornou possível que estas postagens no Facebook fossem marcadas como falsas, por conta do convênio de verificação, também já citado nesta matéria.

O Ministro General da Secretaria de Governo registrou na entrevista que apresentava dados do Ministério da Saúde de 2018. De fato, os registros disponíveis mais recentes do DataSus são os números de mortalidade no país em 2018.

Nesse sentido, não há dados disponíveis sobre mortalidade no Brasil entre os meses de janeiro e maio de 2020 que permitam uma comparação do número de vítimas de Covid-19 (todos de 2020) com os de outras causas citadas pelo ministro, como doença de chagas, câncer, infarto, pneumonia, acidentes de trânsito e afogamentos. Qualquer comparação nesse sentido, será enganosa pela ausência de compatibilidade dos dados.

Além disso, como já indicado nesta matéria, toda comparação que se fizer no Brasil com outras doenças já começa prejudicada por conta da subnotificação dos casos de Covid-19. Este problema acontece em todos os países em maior ou menor grau. No Brasil, o grau é altíssimo. Os registros oficiais de mortos levam em conta apenas pessoas que falecem em hospitais ou que tiveram resultado de exame positivo para o vírus. Mortes sem diagnóstico preciso e as que ocorreram em casa ou em casas de repouso para idosos, por exemplo, não entram nas estatísticas imediatamente. Projeções feitas por instituto de pesquisa científica e por universidades diferentes dizem que o número de casos reais de Covid-19 pode ser de 12 a 16 vezes maior do que o número oficial.

Segundo o Ministério da Saúde afirmou à agência Aos Fatos, fazer uma comparação entre causas de morte também é equivocado, porque “pacientes que vieram a óbito poderiam ter mais de uma comorbidade [a ocorrência de duas ou mais doenças relacionadas no mesmo paciente e ao mesmo tempo]. Já em relação à Covid-19, várias são as comorbidades associadas nos casos dos pacientes que vieram a óbito”.

Aos Fatos também ouviu a especialista em história das epidemias do IFBA (Instituto Federal da Bahia) Christiane Maria Cruz de Sousa. Ela explica que a comparação com a incidência de outras doenças é desinformativa pois diferentemente de uma doença que mata cotidianamente, como o câncer, uma epidemia “surge repentinamente e o número de mortos se acumula. São muitos mortos e doentes que colocam em xeque o sistema de saúde disponível para tratar de tanta gente ao mesmo tempo”.

Desinformação oficializada

Bereia conclui, com base na verificação dos argumentos do Ministro General da Secretaria de Governo Luiz Eduardo Ramos, que culpou a imprensa de “alarmista” e instauradora de “clima de terror” em relação à cobertura da Covid-19, que o governo transmite desinformação de caráter enganoso. Dados verdadeiros são utilizados, mas são feitos com números frios sem a devida contextualização para uma comparação correta. Também há a apresentação de dados do Ministério da Saúde de dois anos atrás, com comparação defasada e também incompatível com a nova realidade de uma doença contagiosa em nível gravíssimo.

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 Referência da Checagem:

Estado de Minas https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/04/22/interna_politica,1141003/ramos-critica-imprensa-por-cobertura-da-covid-19-nao-esta-ajudando.shtml Acesso em 19 mai 2020

Agência Brasil, EBChttps://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2020-05/comparacao-mortes-covid-19-deve-ser-proporcional-dizem-ministros Acesso em 19 mai 2020

TV BrasilGovhttps://youtu.be/yJwPf2wuO2E Acesso em 19 mai 2020

Worldometer https://web.archive.org/web/20200512010559/https://www.worldometers.info/coronavirus/ Acesso em 19 mai 2020

Aos Fatos https://www.aosfatos.org/noticias/aos-fatos-adere-iniciativa-de-verificacao-de-noticias-do-facebook/ Acesso em 19 mai 2020

Aos Fatos https://www.aosfatos.org/noticias/numero-de-mortos-por-milhao-de-habitantes-nao-evidencia-que-pandemia-no-brasil-e-menos-grave/ Acesso em 19 mai 2020

BBC, https://www.bbc.com/news/52311014 Acesso em 19 mai 2020

Folha de S. Paulo, https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/04/explosao-de-casos-de-sindrome-respiratoria-aponta-para-subnotificacao-de-casos-de-covid-19-no-pais.shtml 

Aos Fatos https://www.aosfatos.org/noticias/tabela-que-compara-mortes-por-covid-19-com-outras-causas-traz-dados-falsos/ Acesso em 19 mai 2020

DataSus, Mortalidade http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=0205&id=6937 Acesso em 19 mai 2020

Profissionais da saúde pedem o fim das fake news sobre saúde

Publicado originalmente em Dom Total, Agência Estado/Dom Total, em 14/05/2020*

Carta pede atitudes eficazes no combate à desinformação sobre o novo coronavírus


O documento traz uma série de exemplos de desinformação sobre o coronavírus que circulou na internet (Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr/Arquivo)

Profissionais da saúde do Brasil e de outros 16 países juntaram esforços em uma carta que pede atitudes mais severas contra a circulação de informações falsas sobre o novo coronavírus na internet. O documento, divulgado pelo Avaaz, é endereçado aos executivos responsáveis pelas principais redes sociais do mundo.

“Nosso trabalho é salvar vidas. Mas neste momento, além da pandemia da Covid-19, enfrentamos também uma infodemia global, com desinformações viralizando nas redes sociais e ameaçando vidas ao redor do mundo”, diz um trecho da carta.

O documento traz uma série de exemplos de desinformação sobre o coronavírus que circulou na internet, como um boato que afirmava que a Covid-19 foi desenvolvida como uma arma biológica pela China. Outra mentira que foi compartilhada nas redes sociais dizia que a cocaína era uma cura para a doença.

As informações falsas sobre a Covid-19 que circulam no Brasil, especificamente no Twitter, têm forte influência política. É o que explica Raquel Recuero, doutora em Comunicação e Informação e professora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Ela está trabalhando em uma pesquisa sobre a circulação de desinformação sobre o novo coronavírus.

“Essas desinformações estão profundamente conectadas com a polarização política que o Brasil passou durante as eleições”, fala. “A gente tem um conjunto de autoridades que legitima formas de desinformação, de teorias da conspiração e afins”, explica.

A professora diz que essas desinformações não circulam de maneira aleatória. Elas estão em redes que foram formadas diante de alinhamentos políticos e, por isso, têm uma forte ligação com esse discurso.

O documento assinado pelos profissionais de saúde propõe duas medidas para combater a disseminação das informações falsas. A primeira requer que a rede social corrija a publicação veiculada.

“Para isso, devem alertar e notificar cada pessoa que viu ou interagiu com a desinformação sobre saúde em suas plataformas e compartilhar uma correção bem elaborada preparada por verificadores de fatos independentes”, pede.

A segunda proposta é para as plataformas “desintoxicarem” seu algoritmo.

“Isso quer dizer que o alcance das mentiras nocivas, assim como dos grupos e páginas que as compartilham, serão reduzidos no feed de notícias dos usuários, ao invés de amplificados”, explica a carta.

Raquel ressalta algumas atitudes que vêm sendo tomadas pelas redes sociais para minimizar a circulação de informação falsa, como a ampliação de filtros e a sinalização da desinformação. Na segunda-feira, por exemplo, o Instagram colocou um “alerta de fake news” em uma publicação compartilhada pelo presidente Jair Bolsonaro.

No entanto, a pesquisadora fala que é difícil desmentir essas publicações porque na maior parte das vezes eles não são completamente falsas. “É sempre mais difícil de lidar com a informação que é só parcialmente falsa“, afirma. Ela cita como exemplo a hidroxicloroquina.

“Tem um estudo dizendo que ela (a hidroxicloroquina) teria funcionado em um caso específico e, deste caso específico, ela vira uma cura. Não existe nenhum estudo dizendo que ela curou, mas a interpretação sobre algo que aconteceu é que ela seria uma cura”, fala.

Desinformação antecede pandemia

A carta lembra que o compartilhamento de desinformação sobre saúde já vinha acontecendo antes do surgimento do coronavírus e eram relacionados, por exemplo, ao câncer e aos transtornos do espectro autista. O texto alerta para os perigos das mentiras que circulam nas redes sociais. “(Elas) promovem curas falsas e incentivam o medo de vacinas e dos tratamentos eficazes“, alega.

“Trabalhamos em hospitais, clínicas e departamentos de saúde públicos no mundo inteiro e estamos bastante familiarizados com os impactos reais desta infodemia. Somos nós que cuidamos dos bebês hospitalizados por sarampo, uma doença completamente prevenível, que já havia sido eliminada em países como os EUA, mas que agora ressurge graças, principalmente, às fake news anti-vacinação”, exemplificam os profissionais.

O documento é assinado por médicos, enfermeiros, cientistas, professores, epidemiologistas e institutos que atuam na área da saúde.

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Agência Estado/Dom Total

A trágica história por trás do vídeo ‘fake’ de idosa brasileira com covid-19 que se espalhou pelo mundo

Publicado originalmente pela BBC News Brasil por Vinicius Lemos, em 15/05/2020*

O vídeo é angustiante: uma idosa deitada sobre uma maca de hospital respira com dificuldades. Ela usa máscara e não tem nenhum tipo de aparelho de ventilação mecânica para auxiliá-la. A mulher está dentro de um saco plástico, o mesmo utilizado para carregar corpos de pessoas mortas.

FOTO: PEDRO GUERREIRO/AGÊNCIA PARÁ

Desde a semana passada, a gravação viralizou. Inúmeros compartilhamentos do vídeo afirmam que se trata do caso de uma paciente idosa encaminhada ao necrotério. Segundo esses textos, que não possuem autoria clara, ela seria enterrada viva para inflar os números de covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, no país.

A cena da idosa ofegante em uma maca tem se espalhado pelo mundo. Também fora do Brasil, o vídeo é acompanhado pela afirmação de que a paciente foi levada viva ao necrotério e foi resgatada pela própria família, que teria invadido o local.

A gravação tem sido compartilhada em outros países para ilustrar a situação do Brasil, que enfrenta o crescimento exponencial de casos e tem subido na lista de regiões do mundo com mais registros de covid-19 — os números atuais, divulgados n quinta-feira (14), mostram que o país tem mais de 202 mil casos confirmados e 14 mil mortes.

Algumas publicações dizem que o vídeo da idosa na maca foi gravado em Belém (PA). Outras, porém, afirmam que a filmagem é em um hospital de Manaus (AM), uma das primeiras regiões brasileiras a enfrentar colapso no sistema de saúde em razão da pandemia do coronavírus.

Em razão das polêmicas, o governo do Pará emitiu uma nota para informar que o vídeo foi gravado no distrito de Icoaraci, em Belém. As autoridades locais negam que a mulher estivesse em um necrotério. “Em nenhum momento a paciente foi encaminhada para o necrotério enquanto viva“, diz comunicado da Secretaria Estadual de Saúde do Pará. A divulgação do vídeo se tornou alvo de investigação policial.

As publicações que afirmam que a mulher foi encaminhada com vida para um necrotério são fake news. Elas têm viés negacionista em relação ao novo coronavírus, assim como outras notícias falsas que têm sido usadas para impor a ideia de que os números referentes à covid-19 no Brasil são inflados por autoridades — como histórias mentirosas sobre caixões enterrados vazios ou com pedras.

À espera de atendimento

As imagens da idosa, que não teve a identidade divulgada, foram feitas enquanto ela estava no setor de observação do Hospital Abelardo Santos. Conforme comunicado do Governo do Pará, a mulher esperava por um leito na unidade de saúde, que é referência no combate ao novo coronavírus no Estado.

O Pará tem registrado crescimento exponencial em casos do novo coronavírus. Até a quinta-feira (14) eram mais de 10,8 mil casos e 1.063 mortes. É o sexto Estado com mais casos e mortes no país.

Diante do aumento de registros no Estado, o Hospital Abelardo Santos, que até então era destinado a procedimentos de alta complexidade, passou a atender somente pacientes com o novo coronavírus. Profissionais da unidade relatam que o volume de pacientes se tornou muito grande desde então.

Dias antes do vídeo da idosa deitada na maca viralizar nas redes, um outro caso na mesma unidade de saúde repercutiu em todo o país: uma família abriu o caixão da parente que teria morrido e descobriu que o corpo era de outra pessoa. Mesmo com certidão de óbito, os familiares descobriram que a idosa, de 68 anos, permanecia viva no hospital Abelardo Santos, com suspeita de ter contraído o novo coronavírus. A mulher segue internada.

. FOTO: Reprodução

O caso da família que descobriu que enterraria um corpo desconhecido foi considerado um exemplo do colapso na saúde pública no Pará. A Secretaria de Saúde do Estado classificou a situação como uma consequência da falta de estrutura, em meio ao crescimento no número de doentes e mortos pelo novo coronavírus.

Diretor técnico do Hospital Abelardo Santos, o neurocirurgião Milton Bonny afirma à BBC News Brasil que a unidade de saúde enfrenta um grave problema de superlotação. “O Pará inteiro vem pra cá. No ambulatório é uma média de 1,2 mil pessoas. Era uma unidade de alta complexidade e, de repente, abriu para toda a população” diz.

Em meio à lotação do hospital, a idosa que aparece no vídeo que viralizou nas redes sociais estava à espera de um leito na sala vermelha da unidade de saúde.

Ela era uma paciente antiga da unidade de saúde, segundo Bonny. O neurocirurgião detalha que a idosa havia sido internada no local outras vezes, antes da pandemia. Ele conta que, em uma das internações, ela teve de amputar uma perna, em razão da diabetes.

Segundo a Direção da Santa Casa de Pacaembu, Organização Social em Saúde (OS) responsável pelo Abelardo Santos, a idosa deu entrada na unidade na noite de 4 de maio, em estado gravíssimo. Ela apresentava quadro de intensa falta de ar e fraqueza. A direção afirma que a paciente “recebeu assistência médica adequada pela equipe de plantão” logo que chegou.

O quadro dela foi considerado suspeito do novo coronavírus, em razão dos problemas respiratórios e do comprometimento nos pulmões, apontado por meio de tomografia. Os profissionais de saúde fizeram o teste RT-PCR, para identificar se ela havia sido infectada pelo vírus — o resultado ainda não ficou pronto. “Os exames são encaminhados para o Laboratório Central do Estado e têm demorado para chegar, pois são muitos casos“, diz Bonny.

Ao longo do dia 5 de maio, de acordo com a direção do hospital, o quadro de saúde da idosa se agravou enquanto aguardava internação. À espera de um leito, ela respirava com dificuldades, sem ventilação mecânica.

Segundo o diretor técnico do hospital, muitos pacientes precisam esperar por um leito na unidade de saúde, em razão da grande demanda no local.

Enquanto aguardava, foi colocada na maca, dentro de um saco que também é utilizado para levar cadáveres. “É um saco que pode ser usado para várias coisas e estava ali forrando a maca“, argumenta Bonny. O diretor justifica que o aparato iria ajudar a carregar a idosa para uma outra maca, em razão da fragilidade do estado de saúde dela.

FOTO: Reprodução

É uma prática comum em hospitais, ainda mais (em) épocas de pandemia ou epidemia, que mudam os nossos conceitos e precisamos fazer adaptações“, diz o diretor. Ele afirma que, em razão da grande demanda, são necessárias algumas alternativas mais rápidas no atendimento aos pacientes, como o uso do saco para a transferência entre macas — comumente, o procedimento é feito com um lençol.

A direção do hospital não informou por quanto tempo a idosa ficou sem respiradores, à espera de um leito. A nota emitida pela Organização Social em Saúde diz que a idosa, posteriormente, foi avaliada por dois médicos e encaminhada para a sala vermelha, que atende pacientes graves. Depois, não resistiu e morreu.

O vídeo

Após a morte da idosa, a direção do hospital foi informada sobre o vídeo que mostra a paciente à espera de atendimento. Para apurar os responsáveis pelo vazamento das imagens, o caso foi denunciado à polícia.

No entanto, posteriormente, segundo Bonny, uma filha, que acompanhava a idosa no hospital, disse ter sido a responsável pela filmagem.

Ela contou que mandou aquele vídeo para o irmão ver como a mãe estava e não sabe como a gravação vazou para outros grupos de WhatsApp“, diz o diretor. Segundo ele, os familiares da paciente não sabem como surgiu a fake news de que ela foi levada viva para o necrotério. A reportagem não conseguiu contato com os parentes da idosa.


FOTO: Reprodução

O diretor lamenta as notícias falsas que circularam no Brasil e em outros países. “Isso confundiu a população. Essa situação é muito chata“, comenta.

Em nota, representantes da OS que administra o Hospital Abelardo Santos lamentaram “a má utilização da imagem da paciente por pessoas que não respeitaram a dor da família“. A direção da unidade classificou a divulgação do vídeo como “uma atitude antiética, desumana e passível de punição penal”.

A Polícia Civil do Pará abriu inquérito para apurar o vazamento do vídeo e também para investigar os responsáveis pela fake news que afirma que a idosa foi levada viva para o necrotério. Os familiares dela e os profissionais de saúde envolvidos no atendimento à paciente devem ser ouvidos nos próximos dias.

Vídeo apresenta cenário de “vida normal” em Maringá diante do coronavírus

Circula em grupos de WhatsApp um vídeo, gravado em 12 de maio de 2020, com imagens do centro comercial de Maringá, afirmando (segundo o narrador) que a cidade localizada no sul do país (Paraná) é um exemplo no combate ao coranavírus no Brasil. O homem que faz a gravação enquanto dirige, mostra as lojas da cidade abertas e pessoas e carros circulando pelas ruas.

A narração minimiza a ação da covid19 na cidade e diz que todas as pessoas usam máscara, todos os estabelecimentos oferecem álcool-gel para atender o público e, com isso, a cidade tem vida normal. O narrador anônimo afirma que o vídeo tem que “correr o mundo” para “o Doria vagabundo e esse Witzel, do Rio de Janeiro, outro vagabundo que fica fechando o comércio, aterrorizando a população” (sic). O homem completa dizendo que Maringá “tem vida normal e só teve seis mortes até agora desde quando começou o coronavírus” e que “não tem caso de morte em Maringá faz um mês já”. Ele admite que morreu uma pessoa na “semana passada” mas era “um caminhoneiro que veio de fora, que nem de Maringá era”.

O autor do vídeo diz que “Maringá é uma cidade exemplo para o Brasil ” e pede aos receptores que “façam correr este vídeo pelo Brasil todo, chegar até aquela população do Rio de Janeiro e de São Paulo… aqui ninguém transmite vírus pra ninguém, exemplo. É a coisa mais fácil do mundo você fazer o comércio voltar ao normal. É só a população ter consciência do que fazer. E estes governadores corruptos estão aí que não deixam o Brasil voltar ao normal”.

O Coletivo Bereia entrou em contato com o ex-prefeito de Maringá, Silvio Barros, na manhã de quinta, 14 de maio, para averiguar a veracidade das informações compartilhadas no vídeo. Ele afirmou que o vídeo, apesar de conter informações verdadeiras, também desinforma:

“A pessoa que gravou esse vídeo, a probabilidade é muito grande de que ele não seja de Maringá. Ele passou aqui em um determinado horário e viu o comércio aberto. A verdade é a seguinte, o comércio aqui abre às 10h e fecha às 16h. Se ele tivesse passado aqui 16h30 ele não teria feito esse vídeo. Os comerciantes têm lá as duas restrições. Maringá fechou muito cedo, além do toque de recolher, que funciona até hoje, foi extremamente rigorosa e isso criou um problema muito sério. Esta abertura do comércio começou esta semana. Então eu acho que precisa ponderar, não é de todo falso, não é todo verdadeiro.”

Bereia também colheu o depoimento dos diretores do Jornal “O Fato”, de Maringá, Ligiane Ciola e José Carlos Leal, em 14 de maio. O casal afirma que as informações são parcialmente verdadeiras.

Hoje a cidade está realmente toda aberta. O comércio funciona com horário especial, das 10h – 16h, e realmente há um decreto que prevê medidas de higiene e de distanciamento social. Pois bem, tais medidas foram implementadas depois que a cidade ficou fechada totalmente por 30 dias, no período entre 20 de março e 20 de abril. Com o lockdown (trancamento das ruas) preventivo foi possível reduzir cerca de 85% o número de contágios e consequentemente diminuiu também a circulação do vírus. A pressão da associação comercial e bolsonaristas, que com vergonha admito, são mais de 80%, o Prefeito começou a ceder. De 20 a 30 de abril ele flexibilizou algumas atividades e enfim, há sete dias decidiu correr atrás do prejuízo político e mandou abrir tudo. As consequências dessas medidas conheceremos nos próximos dias … Na verdade do dia 1º de maio em diante registrou-se 60 novos casos, mas há cerca de 300 pessoas isoladas em suas próprias casas aguardando o resultado do exame. A estrutura hospitalar é muito boa e o SUS aqui funciona melhor do que os convênios, coisa óbvia, já que muitos dos serviços são prestados pela estrutura sanitária privada. Em resumo: ‘nosso amigo’ que fez as imagens só conta uma parte da história. O frio será um agravante e o Governador já tem um plano para fechar todo o Estado se for o caso. Ter optado por fechar tudo imediatamente propiciou uma condição favorável. Se o Brasil inteiro tivesse feito isso, hoje teríamos menos de 2000 mortos e no máximo 20 mil contagiados.

Os relatos do ex-prefeito e do casal de jornalistas podem ser confirmados com o Decreto da Prefeitura de Maringá n. 445/20, que determinou isolamento severo a partir de 20 de março. Coincidem ainda com o Decreto Municipal 566/2020, de 18 de abril, que autorizou o funcionamento do comércio, das 10 às 16h, e o uso obrigatório de máscaras nas ruas da cidade. A partir de 7 de abril, a Prefeitura liberou o funcionamento de oficinas mecânicas e o atendimento presencial em clínicas e consultórios médicos (Decreto Municipal 502/20). Em 13 de abril, o município abriu para o funcionamento de lotéricas e indústrias (Decreto Municipal 544/20). Os depoimentos também estão relacionados ao Decreto 637/20, que autorizou a reabertura de shoppings, academias, restaurantes, bares, celebrações religiosas e outros estabelecimentos, com controle de atendimentos, distanciamento, horário e medidas de higiene e limpeza, a partir de 7 de maio de 2020.

Sob pressão para afrouxar as medidas de março, a Prefeitura havia se manifestado pela manutenção do isolamento severo, em 9 de abril, por meio de texto no seu site oficial, com o título “Continuar o isolamento social é a melhor opção; confira”;

Levantamento do Grupo de Estudos e Pesquisa Ambiente, Sociedade e Geotecnologias (Gepag), com apoio da Universidade Estadual de Maringá (UEM), mostrou que a média diária de casos notificados de pessoas que apresentaram sintomas de coronavírus em Maringá aumentou 263% entre 31 de março e 30 de abril, com média de 36 casos por dia. O aumento de notificações coincide com a publicação de decretos municipais que flexibilizaram o isolamento social e permitiram a retomada de algumas atividades do setor econômico.

O boletim diário sobre coronavírus da Prefeitura de Maringá indica 5 novos casos em 14 de maio. O registro geral agora é de 129 casos confirmados de covid-19, com quatro pacientes confirmados internados, dois em UTI e dois na enfermaria. São 267 pacientes suspeitos em situação de isolamento domiciliar. Outros 15 pacientes estão internados com suspeita. Os óbitos permanecem seis.

No dia em que o isolamento foi extinto por decreto, em 8 de maio, Maringá não havia tido novo caso de coronavírus por 24h. O município registrava 110 casos positivos de pacientes com COVID-19. Casos suspeitos em situação de isolamento domiciliar eram 305 e dez pacientes estava internados com suspeita e os óbitos permaneciam seis.

No mesmo 14 de maio de 2020, a Secretária de Estado da Saúde (Sesa) do Paraná afirmou que o Estado registrou 119 mortes causadas pelo novo coronavírus e 2.063 casos confirmados da doença.

Diante das informações checadas, Bereia conclui que o vídeo anônimo que circula em mídias sociais é enganoso. O conteúdo, que exalta bons resultados em Maringá, não explica que eles foram alcançados depois de um isolamento total (lockdown) implementado pela Prefeitura em março, com afrouxamento em abril, após um mês. O autor do vídeo não se refere aos horários restritos de abertura do comércio e outros estabelecimentos, decretados pela Prefeitura, o que não condiz com a ideia de “vida normal” que insiste em ressaltar. A publicação também omite que após a flexibilização do isolamento tem ocorrido um crescimento do número de casos que tem alarmado as autoridades municipais.

Soma-se a isto a campanha explícita que o autor do vídeo empreende contra os governadores do Rio de Janeiro e de São Paulo, classificando-os como “vagabundos” e “corruptos” por conta das medidas de isolamento social que permanecem em vigor nesses estados. Pode-se concluir que, dada a ênfase neste aspecto e a omissão de informações relevantes, o autor anônimo produziu as imagens com finalidade política contra as medidas de prevenção à Covid-19 orientadas pela Organização Mundial de Saúde e assumidas não só em boa parte do mundo, como também pelo Ministério da Saúde do Brasil, e seguidas por estados e municípios.

O Coletivo Bereia alerta seus leitores e leitoras para a circulação de material anônimo pelas mídias sociais, que, frequentemente não apresenta embasamento e fontes, tendo, por isso, altas chances de ser falso ou enganoso e fazer uso de receptores para interferir negativamente em temas de interesse público.

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Referências de Checagem:

Decreto da Prefeitura de Maringá: http://www2.maringa.pr.gov.br/cdn-imprensa/decreto445.pdfhttps://maringapost.com.br/cidade/2020/04/19/veja-detalhes-do-decreto-que-autoriza-funcionamento-do-comercio-em-maringa-e-torna-uso-de-mascaras-obrigatorio/, http://venus.maringa.pr.gov.br/arquivos/orgao_oficial/arquivos/oom%203308.pdf, http://venus.maringa.pr.gov.br/arquivos/orgao_oficial/arquivos/oom%203312.pdf , http://www2.maringa.pr.gov.br/cdn-imprensa/decreto637P.pdf,

Prefeitura de Maringá: http://www2.maringa.pr.gov.br/site/index.php?sessao=53ef08b6fc5553&id=36228

Maringa Post – Assessoria de Comunicação da Universidade Estadual de Maringá, http://www.noticias.uem.br/uemnamidia/index.php/clipping-por-categoria/96-uem/maringa-post

Boletim Coronavírus – Secretaria de Saúde de Maringá: http://www2.maringa.pr.gov.br/saude/?cod=noticias/36360

Secretária de Estado da Saúde (Sesa) do Paraná,
http://www.saude.pr.gov.br/arquivos/File/INFORME_EPIDEMIOLOGICO_14_05_2020.pdf

É falso que números por Covid-19 caem no Brasil por ações da Polícia Federal e do Ministro da Saúde

No início de maio, voltaram a circular nas mídias sociais conteúdos que afirmam que a Polícia Federal (PF) e órgãos federais de saúde estariam auditando o número de óbitos por Covid-19. O Coletivo Bereia teve acesso à postagem de uma líder religiosa, em 8 de maio, com a tarja em vermelho trazendo os dizeres “Eita a casa caiu”, que ainda apresenta a afirmação de que a PF buscava esclarecimentos com famílias das vítimas e investigava as compras realizadas sem licitação.

O texto diz ainda que, por conta da ação do Ministro da Saúde empossado em abril, Nelson Teich, os números de vítimas em São Paulo começaram a cair, a Rede Globo teria parado de divulgar o número de óbitos e os estados e municípios teriam avisado que reabririam as economias. Segundo o conteúdo na página pessoal da pastora, caracterizado como “Informação falsa” pelo Facebook, o ex-ministro da pasta, Luiz Henrique Mandetta, teria mencionado o achatamento da curva relacionada à doença.

Antes mesmo da publicação da líder evangélica, que é presidente de uma igreja, juíza de paz, capelã e conselheira matrimonial, outras postagens em mídias sociais sobre o mesmo conteúdo já haviam sido pulverizadas a partir do dia 20 de abril.

Segundo o site Boatos.org, trata-se de uma espécie de teoria da conspiração sobre uma suposta queda no número de óbitos em decorrência do coronavírus divulgado pelas autoridades de saúde no país. A postagem também foi compartilhada por grupos pró-governo e outros contrários ao isolamento social horizontal. No perfil Bolsoteus um post enaltece o presidente Jair Bolsonaro e traz a chamada: “Corrigindo os dados ‘errados’ – Foi só trocar de ministro e começaram as correções no número de mortos por covid-19, imaginem então, até hoje quantos “erros” passaram sem averiguação?”.

Mediante a disseminação das publicações, a Boatos.org realizou a checagem, chegando à constatação de que são falsas. Isso porque são vagas, sem informações para comprovar a tese; alarmistas, com o objetivo de tirar as pessoas do isolamento social; apresentam erros de português e ainda não indicam fontes confiáveis para corroborar o que foi dito.

A seção “Fato ou Fake” do portal de notícias G1 também averiguou a informação e constatou a falsidade da mensagem. Segundo a matéria, o Ministério da Saúde negou a existência de uma auditoria. Em nota ao Fato ou Fake, o órgão informou que “os registros de casos e óbitos com confirmação de Covid-19 são reportados pelas secretarias estaduais e municipais de Saúde, levando-se em conta o número de pacientes hospitalizados e óbitos registrados no Sistema de Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP Gripe) e o número de exames positivos de Covid-19 em casos leves“.

A seção ainda menciona a afirmação do Ministério Público de que esses dados são repassados diariamente para equipes técnicas do Ministério da Saúde e divulgados por meio do portal – covid.saude.gov.br. Também não seria possível dizer que os números de São Paulo começaram a cair, uma vez que no dia 23 de abril o estado bateu recorde de mortes, com 211 novas ocorrências em 24 horas e, apesar de oscilações pontuais, a curva permanece ascendente. Já o número de casos tem variado bastante, mas não há uma tendência de queda.

Fato ou Fake também desmente a afirmação de que Rede Globo teria parado de divulgar os números de óbitos, o que segue sendo feito por meio dos telejornais e portal G1, pertencente ao Grupo Globo.

O entendimento de que todos os estados e municípios anunciaram uma reabertura imediata da economia também é contestado. De acordo com a checagem, em São Paulo, por exemplo, no período das postagens a quarentena estava mantida, como ainda está, pelo menos até o 31 de maio.

A Agência Lupa também verificou as publicações de que Teich estaria auditando números da Covid-19. A checagem se deu mediante o pedido feito por usuários do Facebook, por meio de projeto de verificação em parceria com a mídia social. A matéria, redigida pelo repórter Plínio Lopes e publicada em 24 de abril, taxa como falsa a informação sobre a suposta auditoria realizada pelo então novo Ministro da Saúde. Também categoriza como falso que os números de vítimas em São Paulo começaram a cair “como mágica”.

Segundo a reportagem, o presidente Jair Bolsonaro anunciou Nelson Teich como o novo ministro da Saúde no final da tarde do dia 16 de abril. Ele tomou posse no dia seguinte e, desde então, em São Paulo, o número de óbitos atingiu o maior valor diário e o número de casos confirmados o segundo maior desde o início da pandemia. Ratificando a verificação da Fato ou Fake, é falsa também a informação de que a emissora Globo parou de divulgar os números de vítimas por Covid-19. A Lupa apurou que, desde o anúncio de Nelson Teich como novo ministro da Saúde, no dia 16 de abril, todas as edições do Jornal Nacional (16, 17, 18, 20, 21 e 22 de abril) e a edição do Fantástico, de 19 de abril, divulgaram o número de óbitos por covid-19 no Brasil.

Sobre a reabertura das economias pelos estados e prefeituras, a agência classificou como exagerada, uma vez que, segundo a matéria, alguns estados e municípios, de fato, anunciaram a reabertura de certas atividades comerciais e outros, inclusive, já reabriram. Entretanto, isso varia de estado para estado e de município para município. São Paulo, por exemplo, condicionou a reabertura à manutenção de índices altos de isolamento. Outros, como Ceará e a Amazonas, mantiveram a suspensão do funcionamento de estabelecimentos comerciais não essenciais.

Por meio de nota ao Estadão Verifica, o Ministério da Justiça e Segurança Pública afirmou que “qualquer informação que circule nas redes sociais em nome da Polícia Federal que não tenha partido de nossos canais oficiais é de total responsabilidade de quem a divulgou”.

A mesma checagem foi realizada pela agência Aos Fatos, que participa do projeto de verificação de conteúdos em parceria com o Facebook, e identificou que, em 24 de abril, publicações com esse conteúdo acumulavam ao menos 40 mil compartilhamentos nessa mídia social até a tarde desta sexta-feira (24).

Por que o Facebook passou a identificar as postagens que têm informação falsa?

Após o escândalo, em 2015, envolvendo Facebook e Cambridge Analytica, em que informações pessoais de mais de 50 milhões de usuários foram vendidas para fins políticos com o desconhecimento dos usuários, Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, precisou dar explicações a parlamentares norte-americanos e europeus e apresentou novos mecanismos preventivos contra fake news.

Segundo o pesquisador Claudio Marques:

“Nos casos em que o conteúdo de publicações, fotos ou vídeos forem identificados como sendo falsos, Zuckerberg afirma que técnicos irão avaliar as possíveis consequências da disseminação da suposta notícia falsa para tomar duas possíveis atitudes: exclusão definitiva do conteúdo da plataforma nos casos mais graves (ameaça à integridade física de pessoas envolvidas, por exemplo) ou redução da sua capacidade de circulação e alcance, fazendo com que ela tenha uma chance muito menor de aparecer no feed de notícias dos usuários e se espalhar.”

Como exemplo dessa atuação, há o caso no Brasil em que 196 páginas e 87 contas falsas ligadas ao Movimento Brasil Livre, durante a campanha eleitoral de 2018, foram desativadas por sua participação em “uma rede coordenada que se ocultava com o uso de contas falsas no Facebook, e escondia das pessoas a natureza e a origem de seu conteúdo com o propósito de gerar divisão e espalhar desinformação”. O escândalo das fake news na campanha eleitoral de 2018 no Brasil acabaram se tornando objeto de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) no Congresso Nacional.

Desde os escândalos que envolveram o Facebook com uso ilegal de dados e veiculação de material falso, a empresa tem trabalhado em mudanças em seu algoritmo para amplificar as notícias de fontes confiáveis.

Segundo Claudio Marques, “algoritmo é uma sequência de instruções que orientam passo a passo a realização de uma tarefa ou a solução de um problema”. A pesquisadora Cathy O’Neil, no livro “Armas de destruição em massa: como o big data cresce e ameaça à democracia” (tradução livre), opina que os algoritmos podem se constituir em “Armas de Destruição Matemática”, pois teriam potencial para promover os privilegiados ao reforçar preconceitos e estereótipos. Eles podem desconsiderar fatores relevantes e permitir que se tirem conclusões enviesadas, como a de que prisioneiros não-brancos vindos de bairros pobres têm maior probabilidade de voltar a cometer crimes.

Dessa forma, algoritmos que não primam pela transparência e pela ética estariam sendo cada vez mais utilizados para tomada de decisões que impactam diretamente na vida das pessoas, prejudicando principalmente os pobres, os negros, os imigrantes e os que possuem baixa escolarização. Por outro lado, há muitos algoritmos que são positivos para a sociedade. O Facebook foi pressionado a construir o seu contra as fake news.

Em 2018, o Facebook lançou no Brasil o seu programa de verificação de notícias, em parceria com as agências de checagem Aos Fatos e Lupa. Pelo programa, as duas agências de verificação têm acesso às notícias denunciadas como falsas pela comunidade no Facebook para analisar sua veracidade. Os conteúdos classificados como falsos têm sua distribuição orgânica reduzida de forma significativa no Feed de Notícias. Páginas no Facebook que repetidamente compartilharem notícias falsas terão todo o seu alcance diminuído.

Esse mecanismo, quando aplicado nos Estados Unidos desde 2015, permitiu cortar em até 80% a distribuição orgânica de notícias consideradas falsas por agências de
verificação parceiras.

“Estamos comprometidos em combater a disseminação de notícias falsas no Facebook. Essa parceria com Aos Fatos e Agência Lupa é mais um passo em nossos esforços para combater a desinformação e melhorar a qualidade das notícias que as pessoas encontram no Facebook”, afirma a líder de parcerias com veículos de mídia do Facebook para América Latina, Cláudia Gurfinkel.

Além de reduzir o alcance de conteúdos considerados falsos, o Facebook envia notificações para pessoas e administradores de Páginas que tentarem compartilhar esse conteúdo, alertando-os que a sua veracidade foi questionada por agências de verificação.

Notícias consideradas falsas pelas agências de verificação não podem ser impulsionadas no Facebook. E as Páginas que publicarem com frequência tais conteúdos não têm mais a opção de usar anúncios para construir suas audiências. Aos Fatos e Agência Lupa podem, ainda, associar a sua checagem a uma notícia que
tenha sido questionada. Esse texto com a checagem será mostrado no Feed de Notícias por meio do recurso Artigos Relacionados, fornecendo mais contexto às pessoas para que tomem decisões mais informadas sobre o conteúdo que consomem.

Aos Fatos e Agência Lupa podem, ainda, associar a sua checagem a uma notícia que tenha sido questionada. Esse texto com a checagem será mostrado no Feed de Notícias por meio do recurso Artigos Relacionados, fornecendo mais contexto às pessoas para que tomem decisões mais informadas sobre o conteúdo que consomem. Como no caso da postagem da pastora que originou esta matéria:

O programa de verificação de notícias do Facebook está disponível em alguns países e conta com a parceria de organizações de checagem integrantes da International Fact-Checking Network (IFCN), da Poynter.

Já em 16 de abril de 2020, o Facebook anunciou uma nova ferramenta para evitar o compartilhamento de desinformação acerca do coronavírus. Usuários que tiverem interação em postagens com conteúdos falsos ou que confundem sobre a pandemia serão notificados. E encaminhados para informações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Por isso o presidente Jair Bolsonaro teve um vídeo removido do Facebook e do Instagram em 30 de março. No vídeo publicado em seus perfis nestas mídias, Bolsonaro provocava aglomerações durante um passeio em Brasília e se posicionava contra o isolamento social, defendido por autoridades de saúde do mundo inteiro como medida eficaz para conter o coronavírus.

Um porta-voz do Facebook explicou que a plataforma removeconteúdo no Facebook e Instagram que viole nossos Padrões da Comunidade, que não permitem desinformação que possa causar danos reais às pessoas”.

Cristãos e desinformação sobre a Covid-19

A agência Aos Fatos alerta que tentativas de desacreditar os dados estaduais de mortes por Covid-19 fazem parte de um processo de desinformação cada vez mais frequente com o avanço da pandemia.

Em geral, as postagens lançam suspeitas sobre os números para fazer crer que há interesses políticos de governadores dos estados contra o governo de Jair Bolsonaro. Já houve várias publicações que sugeriram que atestados de óbitos estavam sendo forjados para inflar os números de casos no Brasil. Depois, houve postagens com acusações de que governos estaduais de estarem superestimando os dados.

Todas estas postagens ainda circulam, apesar das matérias das agências de checagem já as terem classificadas como falsas. Indivíduos e grupos cristãos têm participado na disseminação deste material desinformativo, como é o caso da pastora, cuja postagem foi base para a elaboração desta matéria. O Coletivo Bereia já produziu várias checagens de conteúdo desinformativo sobre a pandemia que circula entre cristãos.

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Referências de checagem

Boatos.org, https://www.boatos.org/saude/numero-de-mortes-covid-19-caiu-investigacao-teich-moro.html Acesso em 11 mai 2020

Fato ou Fake, G1, https://g1.globo.com/fato-o fake/coronavirus/noticia/2020/04/24/e-fake-que-ministro-da-saude-faz-auditoria-dos-numeros-de-casos-e-mortes-de-covid-19.ghtm. Acesso em 11 mai 2020

Lupa, https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2020/04/24/verificamos-nelson-teich-auditando-covid/ Acesso em 11 maio 2020

Estadão Verifica, https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/pf-nao-tem-inquerito-para-apurar-mortes-pela-covid-19/ Acesso em 11 mai 2020

Aos Fatos, https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/pf-nao-tem-inquerito-para-apurar-mortes-pela-covid-19/ Acesso em 11 mai 2020

The Guardian, https://www.theguardian.com/technology/2019/mar/17/the-cambridge-analytica-scandal-changed-the-world-but-it-didnt-change-facebook Acesso em 11 mai 2020

Facebook, https://about.fb.com/br/news/2018/05/facebook-lanca-produto-de-verificacao-de-noticias-no-brasil-em-parceria-com-aos-fatos-e-agencia-lupa/. Acesso em 11 mai 2020.

G1, https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2020/04/16/facebook-vai-avisar-quem-interagiu-com-informacoes-falsas-sobre-o-coronavirus.ghtml Acesso em 11 mai 2020

G1, https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2020/03/30/facebook-e-instagram-removem-video-de-jair-bolsonaro-por-violacao-de-regras.ghtml Acesso em 11 mai 2020

Claudio Marques, “Entre algoritmos e bolhas: as fake news e a comunicação do IBGE”. Disponível em: http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/encontros-nacionais/12o-encontro-2019/gt-2013-historia-do-jornalismo/entre-algoritmos-e-bolhas-as-fake-news-e-a-comunicacao-do-ibge/at_download/file . Acesso em 11 mai 2020

Cathy O’Neil. Weapons of math destruction: how big data increases and threatens democracy.New York: Crown, 2016.

Reuters, https://br.reuters.com/article/domesticNews/idBRKBN1KF1MI-OBRDN . Acessado em 11/05/2020. Acesso em 11 mai 2020.

Fonte/imagem de destaque: https://www.haribhoomi.com/news/india/doctors-gave-information-about-outbreak-of-corona-infection-and-symptoms-of-corona-virus-325500

Coronavírus: Os sete tipos de pessoas que inventam e disseminam fake news

Publicado originalmente na BBC News e traduzido via UOL Marianna Spring – 08/05/2020*

A BBC investigou centenas de histórias enganosas durante a pandemia. Isso nos deu uma ideia sobre quem está por trás da desinformação – e o que os motiva. Aqui estão sete tipos de pessoas que iniciam e espalham falsidades

Teorias conspiratórias, desinformação e especulações sobre o coronavírus inundaram as redes sociais. Mas quem começa esses rumores? E quem os espalha?

Investigamos centenas de histórias enganosas durante a pandemia. Isso nos deu uma ideia sobre quem está por trás da desinformação – e o que os motiva. Aqui estão sete tipos de pessoas que iniciam e espalham falsidades:

O Piadista

Arte: BBC News

Esperava-se que ninguém fosse enganado por um áudio de WhatsApp que dizia que o governo britânico estava preparando uma lasanha gigante no estádio de Wembley, em Londres, para alimentar os habitantes da cidade. Mas algumas pessoas não entenderam a piada.

Para dar um exemplo um pouco mais sério, uma pessoa criou uma suposta captura de tela de um texto falso do governo que alegava que a pessoa que estava lendo aquilo havia sido multada por deixar a casa muitas vezes. Ela achou que seria engraçado assustar as pessoas que violavam as regras de quarentena.

Depois de incentivar seus seguidores a compartilhar o texto no Instagram, chegou a grupos locais do Facebook, onde foi publicado por moradores preocupados, alguns dos quais levaram a sério.

“Eu realmente não queria causar pânico” , dizia o brincalhão, que se recusou a nos fornecer seu nome verdadeiro. Mas se as pessoas acreditam em uma captura de tela nas redes sociais, precisam realmente reavaliar a maneira como consomem informações na internet .

O Golpista

Arte: BBC News

Outros textos falsos supostamente de autoria do governo ou de conselhos locais foram gerados por golpistas que procuram ganhar dinheiro com a pandemia.

Uma dessas fraudes investigadas pela organização de caridade Full Fact, em março, alegou que o governo estava oferecendo pagamentos de ajuda às pessoas e pediu detalhes bancários.

Fotos do texto do golpe foram compartilhadas no Facebook. Como circulou por mensagem de texto, é difícil identificar quem estava por trás.

Os golpistas começaram a usar notícias falsas sobre o vírus para ganhar dinheiro a partir de fevereiro, com e-mails sugerindo que as pessoas poderiam “clicar em um texto sobre a cura do coronavírus” ou sugerindo que eles tinham direito a um reembolso de imposto por causa do surto.

O Político

Arte: BBC News

A desinformação não vem apenas dos cantos mais obscuros da internet.

Na semana passada, o presidente americano, Donald Trump, questionou se expor os corpos dos pacientes à luz ultravioleta ou injetar alvejante poderia ajudar a tratar o coronavírus. Ele estava especulando.

Mais tarde, ele alegou que os comentários eram sarcásticos. Mas isso não impediu as pessoas de telefonarem para serviços médicos para perguntar sobre tratamento com desinfetante.

Não é apenas o presidente dos EUA. Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China promoveu a ideia de que a covid-19 poderia ter sido trazida a Wuhan pelo Exército dos EUA. As teorias da conspiração sobre o surto foram discutidas no horário nobre na TV estatal russa e em contas no Twitter pró-Kremlin.

O autor de teorias da conspiração

Arte: BBC NEWS

Toda a incerteza sobre o vírus criou um terreno fértil perfeito para as teorias da conspiração.

Uma história falsa de origens obscuras, alegando que o primeiro voluntário a participar de um teste de vacina no Reino Unido havia morrido, circulava em grandes grupos de pessoas contrárias à vacinação no Facebook. Era ficção.

Entrevistas com David Icke, um conhecido criador de teorias conspiratórias britânico, no YouTube, que já foram removidas, também revelaram falsas alegações de que a tecnologia 5G estaria vinculada ao coronavírus.

Icke também apareceu em uma rede de TV de Londres, que violou os padrões de transmissão do Reino Unido. Sua página no Facebook foi posteriormente retirada, segundo a empresa, por publicar “desinformação sobre saúde que poderia causar danos físicos”.

As teorias da conspiração levaram a vários ataques de vândalos a torres de 5G.

O ‘Insider’

Arte: BBC NEWS

Às vezes, a desinformação parece vir de uma fonte confiável – um médico, professor ou funcionário de hospital.

Mas muitas vezes o ‘insider’ não é nada disso.

Uma mulher da cidade de Crawley foi a criadora de um áudio com tom de voz de pânico que descrevia terríveis números de mortes de jovens saudáveis por coronavírus – tudo completamente sem fundamento. Ela alegou ter informações privilegiadas por trabalhar em um serviço de ambulância.

Ela não respondeu aos pedidos de entrevista ou forneceu provas de seu emprego, portanto, não sabemos se ela é realmente uma trabalhadora da área de saúde. Mas sabemos que as alegações em sua mensagem eram infundadas.

O Parente

Arte: BBC NEWS

Esse áudio e muitos outros se tornaram virais porque preocupavam as pessoas, que então compartilhavam as mensagens com amigos e familiares.

Por exemplo, Danielle Baker, mãe de quatro filhos, que passou adiante a mensagem por Facebook Messenger “porque vai que é verdade…”.

No começo, fiquei um pouco desconfiada porque foi enviada por uma senhora que eu não conhecia , diz ela. Encaminhei porque eu e minha irmã temos bebês da mesma idade e também temos filhos mais velhos, e todos nós temos alto risco em nossas casas.

Essas pessoas acham que estão tentando ser úteis e acham que estão fazendo algo positivo. Mas, é claro, isso não torna verdadeiras as mensagens que elas transmitem.

A Celebridade

Arte: BBC NEWS

Não é apenas sua mãe ou tio. As celebridades ajudaram as fake news a se tornarem populares.

A cantora M.I.A. e o ator Woody Harrelson estão entre os que têm divulgado a teoria do coronavírus ligado ao 5G para suas centenas de milhares de seguidores nas redes sociais.

Um relatório recente do Reuters Institute constatou que as celebridades desempenham um papel fundamental na divulgação de informações erradas online. Alguns também têm plataformas enormes na mídia tradicional.

O apresentador Eamonn Holmes foi criticado por parecer dar alguma credibilidade às teorias da conspiração sobre 5G no programa do canal britânico ITV This Morning, “o que eu não aceito é a grande mídia imediatamente dizer que isso não é verdade quando eles não sabem que não é verdade“, disse ele. Holmes mais tarde pediu desculpas e a Secretaria de Comunicação do governo emitiu orientações para a ITV, considerando os comentários inadequados.

***

* Ilustrações de Simon Martin. Informações adicionais de Olga Robinson.

Comunicação e Discriminação

A discriminação é o abuso dos pré-conceitos. Ela acontece quando falhamos em reconhecer as variações, nuanças e diferenças entre pessoas, grupos étnicos e símbolos. De fato, a discriminação pode se manifestar instantaneamente numa mera reação mental ou emocional, quando pensamos em: homem feio, mulher loira, travesti, político, corintiano, carioca, motoqueiro, milionário, pastor, coronel, católico, evangélico, e assim por diante. Simples palavras podem despertar retratos gravados na memória e causar reações diversas, dependendo da experiência e de acordo com os pré-conceitos.

Três razões apontam para o agravamento da discriminação na mídia pós-moderna:

Em primeiro lugar, nós experimentamos o declínio da racionalidade. Todo ser humano tem uma cosmovisão ou um conjunto de valores acerca do mundo, da sociedade, da religião e de si mesmo. Essas ideias foram estruturadas na Era da Razão com um foco meramente cognitivo e coerente. Na Pós-Modernidade, com frequência nos utilizamos de conceitos que são contrários à lógica e à racionalidade. Isso é perceptível na dialética da espiritualidade, na psicologia popular, na gestão e administração de organizações, bem como na forma com que as ciências sociais articulam os reality shows e propagandas nas redes sociais.

Além disso, aceitamos como fato a relativização da verdade. A abrangência das fake news nas redes sociais demonstra claramente a dificuldade que os indivíduos têm para separar e julgar boatos, sentimentos, imaginações, pressentimentos e hipóteses dos fatos reais, acontecimentos concretos, evidências, dados estatísticos e teorias da conspiração. O que é real e o que é imaginário? Terraplanismo e grupos anti-vacina são apenas dois exemplos da subjetividade do pensamento e da pressão do achismo (e com frequência, triunfo) sobre os dados científicos. A verdade absoluta foi desprezada.

Finalmente abraçamos a seletividade intelectual. Walter Lippman escreveu o seguinte:

“Sob certas condições, os homens reagem tão poderosamente a ficções, quanto o fazem a realidades, e em muitos casos, eles mesmos ajudam a criar as próprias ficções às quais reagem.”

A politização do Covid-19 comprova que é comum escolher e comprar os conceitos e valores de maneira subjetiva, interesseira, hedonista e individualista.

A tendência diante do declínio da racionalidade, da relativização da verdade e da seletividade intelectual é desvalorizar as diferenças e supervalorizar as semelhanças. Morei alguns anos no Canadá e ficou muito claro para mim as dificuldades para eu me comunicar numa segunda língua com imigrantes de vários países, que falavam outras línguas. Da mesma forma, numa sociedade multicultural, intergeracional e globalizada como a nossa, precisamos reconhecer claramente as diferenças para evitar a discriminação. Não fomos fabricados em série, numa linha de produção de fábrica. Não existem no mundo duas pessoas, duas impressões digitais, dois fatos, duas coisas que sejam absolutamente iguais. Quando exageramos as semelhanças, sem considerar as diferenças, criamos vários obstáculos à comunicação ética da verdade.

Há vários remédios para ajudar a corrigir e superar a discriminação na comunicação da verdade. Entretanto quero lidar diretamente com um clássico erro social, causador de alguns dos maiores pré-conceitos: a tendência humana ao ensimesmamento.

As pessoas acham que são autossuficientes e que sabem o bastante sobre vários assuntos. Pelo menos pensam que sabem o suficiente para criar fórmulas perfeitas para resolver grandes problemas sociais, expor opiniões sobre a crise econômica, atacar tal partido político e governo, opinar fortemente sobre as celebridades da TV e fazer comentários íntimos nas mídias sociais. Satisfeitas com a própria sabedoria, elas ficam desejosas para expor um certo conhecimento que, no final do dia, demonstra ser extremamente superficial, errôneo e, até mesmo, inapropriado.

A Psicologia demonstrou que o ensimesmamento – e seus filhotes autossuficiência, autopromoção, exibicionismo e assim por diante, se associam diretamente ao conceito Freudiano de Narcisismo. A palavra foi primeiramente cunhada por Sigmund Freud no artigo “Sobre a Introdução do Conceito de Narcisismo”, publicado em 1914.

Na mitologia grega, Narciso era um belo rapaz que rejeitou a ninfa Eco, que desesperadamente o desejava. Como punição, foi amaldiçoado pela ninfa e apaixonou-se incontrolavelmente por sua própria imagem refletida na água. Incapaz de levar a termo sua paixão por si mesmo, Narciso suicidou-se por afogamento.

O narcisista produz um tipo de discriminação que distorce a realidade, altera as evidências e modifica os fatos, em prol dos seus próprios interesses. Ele curte nas redes sociais aquelas posições que refletem os seus próprios pensamentos e lê apenas os jornais que concordem com ele. Ele prefere os programas que reforcem suas ideias e frequentará somente os grupos de afinidade onde se encontrem pessoas iguais. Os preconceitos do narcisista dirigem os fatos e as pessoas com as quais se comunica. Pessoas iguais, contudo, acham que sempre tem razão. Resultado: discriminação e intolerância distorce suas opiniões e hábitos.

Por isso, pessoas discriminadoras mostram uma precária capacidade para perceber intimamente o mundo dos outros seres humanos. Falta-lhes empatia. Muitas vezes, elas agem de forma exploradora, à custa dos outros. Em contraste com o uso do poder socializado e participativo para promover o bem-estar social, os narcisistas tentam manipular e dominar outros seres humanos, usando o poder e a força para controlar sua agenda pessoal. Raramente compreendem que a única maneira de preservar a integridade da personalidade é relacionar-se com outros homens e mulheres, com genuíno amor, compaixão, maturidade, solidariedade e humildade.

Na verdade, o melhor remédio para vencer o narcisismo e, consequentemente superar a discriminação na comunicação é a humildade. C. S Lewis descreve a humildade como um “abençoado auto esquecimento”:

“Não é pensar menos de si mesmo, mas pensar menos em si mesmo.”

O foco da pessoa humilde não está em si mesmo, em seu desenvolvimento, condição e progresso, mas em outros lugares, em outras pessoas. Acima de tudo, a comunicação eficaz parte do reconhecimento das limitações e deficiências de cada um de nós. Aprendamos a sublinhar a diversidade e celebrar as diferenças com a pessoa mais inteligente que já existiu, Jesus Cristo, que era “manso e humilde de coração (Mt: 11.29).

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Fonte/imagem: https://www.wikiwand.com/pt/Narcisismo

Fonte/imagem de destaque: https://www.shutterstock.com/pt/image-illustration/persons-disabilities-have-equal-rights-balance-749024914

Bereia – Cobertura sobre COVID-19

Em meio a tantas informações e desinformações sobre a Covid-19 que circulam em espaços noticiosos e mídias sociais de indivíduos e grupos religiosos, o Coletivo Bereia avança no processo de checagem dos conteúdos sobre a pandemia que mudou o cenário global.

Em nossas primeiras checagens sobre o assunto, expusemos o caso de um culto realizado na Catedral Global do Espírito Santo, em Porto Alegre (RS), em 1º de março, que prometia “a imunização do novo coronavírus por meio de uma unção com óleo.

A igreja é liderada pelo casal Silvio Ribeiro e Maria Ribeiro, autoproclamados “profetas”. Após processo de checagem, identificamos que a informação “sobre unção imunizadora” era verdadeira, os líderes foram acusados de charlatanismo e o caso foi encaminhado para o Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul.

Dias depois, em 13 de março, a jornalista e editora executiva do Coletivo Bereia, Alynne Sipaúba, elaborou reportagem intitulada “Coronavírus e igreja: uma dupla que não é fantasia”. Ela entrevistou o médico e pastor, Carlos Bezerra, a respeito das ações solidárias das igrejas durante a pandemia do Covid 19.

No dia seguinte, 14, uma reflexão do partor Ed René Kivit, da Igreja Batista de Água Branca, foi publicada no Areópago, com o título “Coronavírus: dias difíceis, medidas extremas”.

A igreja tem uma inescapável função social. A igreja, em suas palavras e ações, seu kerigma e sua práxis, profetiza, ensina e serve. Walter Brueggemann, teólogo e catedrático do Antigo Testamento, disse que profetizar não é predizer o futuro, é falar a verdade a respeito do tempo presente. A verdade de hoje é que enfrentamos uma pandemia e não podemos ser displicentes nos cuidados necessários à sua superação. A medida extrema de cancelar as celebrações dominicais presenciais é também um ato pedagógico, um alerta àqueles ainda negligentes face à gravidade da situação. Acima de tudo, evitando os grandes ajuntamentos a igreja atua de maneira responsável e cuidadosa não apenas para com seus frequentadores, como também para com toda a sociedade.

Ed René Kivit

Na manhã do dia 15, domingo, Bereia publicou checagem sobre as manifestações pró-bolsonaro, que aconteceram em 229 cidades ao redor do país, desafiando as recomendações de isolamento da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Na semana seguinte foi checada como verdadeira a informação sobre “líderes políticos e religiosos que minimizam ações contra o coronavírus”. Já no dia 17 foi verificada como falsa a informação de que “Israel teria descoberto a cura para o coronavírus”, após inúmeras fake news veiculadas no território nacional e internacional sobre o assunto.

Em 19 de março, foi publicada na seção Areópago uma importante reflexão do pastor e jornalista André Mello, integrante do Coletivo Bereia, intitulada “Igreja e (IR)responsabilidade social – os paradoxos da pandemia de 2020”. Nela, o autor fala do papel da Igreja no processo de conscientização dos/as evangélicos/as em tempos de pandemia. No mesmo dia, o Coletivo Bereia publicou matéria com informações sobre igrejas que continuavam desobedecendo o pedido do Ministério da Saúde de que aglomerações e contatos próximos fossem evitados.

“Diante da crise do coronavírus, o que as igrejas podem fazer?” Esse foi o título da reflexão da jornalista e editora-geral do Coletivo Bereia, Magali Cunha, para a Coluna Areópago do dia 25.

No mês de março Bereia fechou o mês com checagem sobre os posts e vídeos do pastor Silas Malafaia sobre o coronavírus. As mensagens tinham o objetivo de comparar e minimizar a cobertura da imprensa, profissionais de saúde e cientistas sobre a COVID-19.

Post de Silas MalafaiaNúmeros oficiais
394 casos de COVID-19 no Brasil em 18/03/2020428 casos de COVID-19 no Brasil em 18/03/2020
2 mortes por COVID-19 no Brasil em 18/03/20204 mortes por COVID-19 no Brasil em 18/03/2020
58.178 casos de H1N1 no Brasil (considerando período de 2009 a 2011)60.048 casos de H1N1 no Brasil (considerando período de 2009 a 2011)
2.101 mortes por H1N1 no Brasil (considerando período de 2009 a 2011)2.194 mortes por H1N1 no Brasil (considerando período de 2009 a 2011)
Fonte dos Dados: desconhecidaFonte dos Dados: Ministério da Saúde

No mês de abril a quantidade de notícias, precisas ou não, sobre o coronavírus se intensificou, fazendo com que a OMS classificasse o cenário como INFODEMIA. Diante da enxurrada de desinformação o Coletivo Bereia reforçou suas checagens sobre o tema durante todo o mês.

Fonte: PAHO

Bereia iniciou o mês com a reflexão do pastor batista, professor e escritor, Irenio Silveira Chaves, na coluna Areópago – “Como será a vida depois da quarentena?”, que ressalta possíveis transformações mundiais pós-pandemia.

No dia 3, para ampliar o olhar crítico sobre a relação igrejas-covid19, as jornalistas Alynne Sipaúba e Mariana Domin, produziram a reportagem “Igrejas e suas ações transformadoras em tempos de pandemia” com destaque sobre as ações sociais promovidas por congregações católicas e evangélicos nos três estados brasileiros mais populosos do país – São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. As jornalistas verificaram que muitas igrejas, mesmo com seus templos fechados, por conta das medidas sanitárias implementadas em todo o país, continuaram servindo as comunidades em nome do bem comum, inclusive em parceria com prefeituras.

Igreja Batista Betânia – Rio de Janeiro

No sábado, 04, o historiador Lyndon de Araújo, lançou texto crítico sobre a “santa convocação” para um jejum nacional feito pelo presidente Bolsonaro“Fiquemos com Isaías, profeta do século VIII a.C. Os profetas são como os historiadores, incômodos demais, falam coisas que ninguém quer se lembrar e falar, causam mal-estar. Pois Isaías apregoou um tipo de anti jejum que ultrapassava a mera performance religiosa de uso político. É esse o jejum que cristãos deveriam convocar, e não uma demonstração religiosa de exteriorização ou cooptação política. Assim nos diz esse profeta no capítulo 58.”

“Será esse o jejum que escolhi, que apenas um dia o homem se humilhe, incline a cabeça como o junco e se deite sobre pano de saco e cinzas? É isso que vocês chamam jejum, um dia aceitável ao Senhor? O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo?”

isaías 58:5-7

No início dia 6 outro texto crítico foi lançado na coluna Areópago, desta vez pela teóloga Romi Bencke. Ela declarou que o cenário do coronavírus revela o triunfo do fundamentalismo:

“Esse cristianismo distorcido, manipulado e instrumentalizado para os interesses das criaturas com modificações internas, é o que está presente hoje na política brasileira. Trata-se de um cristianismo fundamentalista aonde Deus é mero instrumento do mercado como ideal de Reino. Em obediência e reverência a este reino, valem todos os sacrifícios. Este é o triunfo dos fundamentalismos.  

Quando vemos altas autoridades e “pessoas do bem” argumentando que é melhor perder algumas vidas para que a economia seja salva, podemos dizer que deixamos de existir.  Esta também é a morte de Deus. É a repetição da cruz.”   

Na quarta, dia 08, a equipe, Elton Rodrigues, Jemima Bispo e Magali Cunha checaram a afirmação de Flávio Bolsonaro sobre o uso da cloroquina no tratamento de Covid-19. Ainda no dia 08, Bereia compartilhou o texto do teólogo e escritor Leonardo Boff, intitulado – “O coronavírus: a autodefesa da própria Terra”.

Seremos capazes de captar o sinal que o coronavírus nos está passando ou continuaremos fazendo mais do mesmo, ferindo a Terra e nos autoferindo no afã de enriquecer?”  

Na mesma semana, a dupla Bruno Cidadão e André Mello checaram matéria publicada no site Gospel Prime sobre interrupção de culto doméstico em Santa Catarina pela PM. Eles concluiram que a matéria era enganosa, pois foi composta para induzir a ideia de perseguição religiosa, que não existiu.

No dia 11, Bereia checou, à pedido de leitor, notícia veiculada de forma intensa em sites e mídias sociais sobre suporta afirmação do Ministro da Saúde de Israel, Yaakov Litzman, sobre “coronavírus: um castigo de Deus contra a homossexualidade“. Veja o desfecho da checagem aqui.

Dia 17, o teólogo e cientista político Silvio Gomes, falou sobre a dicotomia entre Economia e Saúde em tempos de pandemia:

Ao invocar essa falsa dicotomia, o governo quer dividir com a população uma responsabilidade que ela, na Constituição e no voto, confiou a ele. Cabe à população, apenas, seguir as regras de distanciamento. Cabe ao governo, e apenas a ele, conseguir levantar ou gerar os recursos para bancar esse povo que morre e teme a morte dia pós dia.

Silvio Gomes

Para finalizar a semana, a equipe do Bereia fez checagem sobre o cenário do coronavírus no Brasil após o jejum do dia 05, e concluiram que os números continuavam aumentando – tanto de casos novos, como de óbitos qualquer afirmação de que houve relação entre o jejum convocado para 5 de abril e os dados presentes nas tabelas é enganosa (em função dos atrasos na confirmação dos números) e falsa se estiver sugerindo que há redução de casos no Brasil.

Em 22 de abril foi verificada postagem em mídia social de influenciadora religiosa sobre protesto de motoboys em São Paulo. Bereia concluiu que o protesto não foi contra o governador joão Doria, mas sim em função de melhores condições de trabalho durante o período de quarentena,

 Na data seguinte, 23, o monge Guido Dotti escreveu sobre esperança para a coluna Areópago. O texto intitulado “Estamos sob cuidado, não em guerra!” fala sobre a necessidade do ser humano ser agente real do cuidado do outro.

Imagem de um paciente e o médico que o levou para ver o sol após dias de quarentena (Reprodução/ Reuters)

“O futuro será colorido pelo que fomos capazes de viver nesses dias mais difíceis, será determinado pela nossa capacidade de prevenção e assistência, começando pelo atendimento ao único planeta à nossa disposição. Se formos e pudermos ser guardiões da terra, a própria terra cuidará de nós e protegerá a condição indispensável para nossa vida. As guerras terminam, ainda que recomecem, mas os cuidados, por outro lado, nunca terminam. Se, de fato, existem doenças que (por enquanto) não podem ser curadas, não existem e nunca existirão pessoas para as quais não possamos oferecer assistência.”

Guido Doti

Na checagem sobre conteúdo em torno da proibição de cultos online na China, publicada dia 23 de abril, Bereia verificou que as informações eram imprecisas . Nenhum dos 13 sites que publicaram a notícia, entre eles sites religiosos, apresentaram o contexto da situação religiosa no país, além disso não relataram que transmissões online de atividades religiosas são permitidas, desde que atendam as diretrizes exigidas pelo governo chinês. No mesmo dia a jornalista Magali Cunha verificou que era enganosa a publicação amplamente divulgada e compartilhada nas mídias sociais, afirmando que enfermeira de nome Sandra M. Guerra teria sido demitida do Hospital Couto Maia, em 21 de abril, porque publicou na internet um vídeo que mostra instalações da UTI de Referência para Tratamento de Coronavírus naquele hospital vazias.

Em 27 de abril, foi publicado na Areópago pronunciamento de biblistas argentinos sobre o uso infeliz que muitos fazem da Bíblia em tempos de pandemia.

“Nesses tempos de pandemia, temos ouvido e assistido reflexões intermináveis vindas de uma ordem diferente em meio à confusão e ao medo. Muitas delas, de natureza religiosa, são atravessadas ​​por visões simplistas, dualistas, espiritualistas e em perspectivas de punição, condenação, mérito e salvação. Elas apresentam versículos bíblicos, independentemente de seus contextos e história, e assim, provocam o que parece mais uma atitude mágica do que uma audição serena à experiência comunitária da palavra de Deus endereçada ao seu povo.”

Em 29 de abril, foi publicada checagem sobre a enganosa ideia de que há um Plano comunista sendo instalado no Brasil, nomeado “Comunavirus” pelo Ministro de Estado das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo.

Fechando o mês de abril, Bereia verificou que a postagem no Twitter do youtuber e jornalista, Bernardo P. Kuster, é conspiratória ao sugerir que OMS e Bill Gates manipulam dados sobre o Covid-19.

No decorrer desses meses o alastramento de dois vírus tem se intensificado – o covid19 e a desinformação.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, deixou um recado durante Conferência de Segurança em Munique:

As fake news se disseminam mais rapidamente e mais facilmente que o vírus e são igualmente perigosas.

No Brasil, o combate à desinformação foi intensificada desde agosto de 2019, quando o Ministério da Saúde lançou uma ferramenta chamada “Canal Saúde sem Fake News”, cujo objetivo é combater a divulgação de desinformação através da plataforma do WhatsApp. Para utilizá-lo, basta adicionar o número (61) 99289-4640 em seus contatos do whatsapp e enviar links, informações ou fotos para serem verificadas. A partir do recebimento das mensagens o conteúdo é apurado junto às áreas técnicas do Ministério da Saúde e devolvido com uma “etiqueta” que esclarece se é fake news ou não.

Tais medidas, assim como os esforços do Coletivo Bereia, que funciona majoritariamente de forma voluntária, corroboram como instrumento de saúde em meio à uma sociedade que sofre com a pandemia da desinformação – INFODEMIA. O Coletivo Bereia continuará atento prestando serviço de acuidade e informação contra esta guerra.

É verdade que Apóstolo Valdemiro Santiago oferece semente que cura Covid-19

Circula amplamente por mídias sociais neste 7 de maio de 2020, um vídeo de pouco mais de dois minutos com fala do líder da Igreja Mundial do Poder de Deus, Apóstolo Valdemiro Santiago, sobre o poder de uma semente oferecida por ele na cura da Covid-19.

No vídeo, o líder religioso mostra um exame que comprovaria que uma pessoa teria sido curada da Covid-19 após plantar a semente (que não é identificada), na qual está escrita frase que Deus diz a Abraão, segundo a Bíblia: “Sê tu uma bênção”. Valdemiro Santiago afirma:

“Gente curada de estado terminal, gravíssimo. E está ali o exame, para quem quiser. (…) Você vê como a semente é semeadora. E aí sim conseguiu vencer a crise e a panademia. Só tem um jeito de se vencer essas fases difíceis. É semeando, e semeando na obra de Deus. Essa semente é interessante, você planta… É a semente “sê tu uma bênção”. Você vai semear essa semente e na planta que nascer vai estar escrito “Sê tu uma bênção”.”

Na gravação o Apóstolo reconhece possíveis críticas ao instrumento de cura. Ele diz: “Mas isso é enganar? Não! Você que tá enganado!”. E depois anuncia a forma de pagamento para se adquirir a semente:

“O propósito que eu vou fazer é de R$ 1.000 para cada um [dos parentes para quem vai plantar uma semente]. E muitos que estão me assistindo também vão fazer de R$ mil. Outros vão fazer de R$ 500, e finalmente outros vão fazer de R$ 200 e até R$ 100. A semente de acordo com sua sementeira… Até mais quem quiser”.

O vídeo que circula é um trecho de gravação maior que se encontra no canal do Youtube da Igreja Mundial do Poder de Deus, postado no dia 1 de maio.

A gravação completa tem 42 minutos e inicia com uma pregação de Valdemiro Santiago sobre texto bíblico de Gênesis, capítulo 47, que versa sobre semear a terra e alcançar a abundância de Deus. Daí o Apóstolo “convoca o povo de Deus” a “semear em terra fértil”, que ele classifica como a obra de Deus, durante o mês de maio. Depois de expor que pessoas foram curadas dos efeitos do coronavírus ao terem plantado a semente que tem gravada a frase bíblica “Sê tu uma bênção”, ele oferece o instrumento que diz ser curativo condicionado a um pagamento à igreja de R$ 1.000, R$ 500, R$ 200 ou R$ 100. Se alguém quiser dar mais poderá, segundo o religioso que disse ser este “o mais abençoado de todos os propósitos que já fizemos”. Depois Santiago recorre ao texto da Bíblia em Marcos 4 para justificar a campanha, que diz que o Reino de Deus é como um homem que sai a semear.

O Apóstolo afirma que as sementes são “coisa divina mesmo”, e diz que a planta que cresce tem nela marcada a frase “Sê tu uma bênção”. Depois, o líder da Igreja Mundial convida católicos, evangélicos, pessoas de outras religiões para que ninguém fique de fora e as adquira, por meio de contato telefônico com envios para todo o Brasil. As pessoas que desejarem adquirir a semente devem fazer o depósito do valor desejado na conta da igreja e enviar o comprovante para as centrais telefônicas disponíveis em vários estados, e solicitar o envio.

A Campanha “Semeador Sê tu uma bênção” está em chamada de destaque no site da igreja. Ao clicar no link para a contribuição para esta campanha, não aparece explicação sobre ela, mas sim uma página onde as doações financeiras podem ser realizadas, o que leva à compreensão de que o conteúdo do vídeo já é de conhecimento de quem acessa o site.

O oferecimento de objetos “abençoados” para o alcance de benefícios concretos por parte de fieis é prática comum na Igreja do Poder de Deus e em outras igrejas que desenvolvem teologia e ações similares. O pesquisador Ricardo Mariano explica este fenômeno social na obra ‘Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil’, das Edições Loyola. A imagem da semente como Obra de Deus que pode se multiplicar na vida das pessoas já foi utilizada pela igreja em outras campanhas. No site da Igreja Mundial há um testemunho de milagre financeiro, datado de 13 de março de 2016 que narra a história de José Gino Nazário. Segundo o texto, o fiel tinha a vida financeira arruinada quando percebeu que se tratava da falta de compromisso com o dízimo. Nazário afirma:

“Eu já era evangélico, aqui da Igreja Mundial do Poder de Deus, mas minha vida estava no fundo do poço. Eu atrasava os propósitos, fazia esperando receber, não dando a minha parte. Era dizimista, mas dizimava quando dava vontade ou sobrava dinheiro, ofertava do meu jeito, não do jeito que é ensinado pelo Homem de Deus. Queria mudança na minha vida financeira, que nunca prosperava, mas não abria o meu coração e retornava o que era de Deus. (…) Assisti em casa, pela televisão, a uma palavra ministrada pelo Apóstolo Valdemiro Santiago e, nela, Deus disse que era para semear, que a semente daria frutos e quem dava a semente era Deus. Sou criado e crescido na roça e lembro que meu pai semeava terra e ia até o fazendeiro para lavrar. Aquela explicação encheu meu coração de ânimo e de entendimento. Vim até o templo, tomei posse da semente, peguei um Carnê da Oração Incessante, dessa vez para semear, não para fazer propósitos ou votos que eu não conseguisse cumprir, nem esperando nada específico, apenas para ver semente plantada, porque sei que, na época certa, germina. Peguei e semeei. Deus me deu sete mil reais e paguei tudo o que devia, que me mantinha na miséria e fiquei com o restante. Foi aí que percebi que eu era o errado. Mudei meu jeito de ofertar, de fazer a obra. Hoje, tenho mais um carnê de trezentos reais e sou dizimista fiel, ofertante, porque provo que Deus dá prosperidade e condições para nossa vida. E quem duvidar, apanhe uma semente e faça o que eu fiz, Deus se revelará a você também”.

Com base nestes elementos, o Coletivo Bereia classifica o conteúdo do vídeo que está circulando nas mídias sociais sobre o oferecimento de semente para cura de Covid-19 e outras dificuldades da vida pelo líder da Igreja Mundial do Poder de Deus como verdadeiro.

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Referências de Checagem:

Youtube, Igreja Mundial do Poder de Deus. https://www.youtube.com/watch?v=iDhf1HjkknU

Igreja Mundial do Poder de Deus. https://impd.org.br/

Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil, por Ricardo Mariano. 3. ed. São Paulo: Loyola, 2010.

Jornalismo sem medo ou favor

Valeu aí, imprensa, até semana que vem. Eu não quero falar nada aí porque quero ter paz sábado e domingo.

Disse o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em mais um de seus ataques à imprensa, na noite de sexta-feira (17/4), em frente ao Palácio do Planalto, quando se recusou a falar com a imprensa. Em seguida tornou a falar com os seguidores e voltou a hostilizar os meios de comunicação:

A Folha de São Paulo falou que tem um dossiê que eu fiz dizendo que havia um complô da Câmara, Supremo para me derrubar. Eles inventam cada coisa. Segundo uma fonte do Planalto… Sempre é assim. Se é tão grave assim, podiam dar o nome da fonte, né?

Na sequência, ao ouvir um seguidor afirmar que o Correio Brasiliense todos os dias fala mal dele, Bolsonaro disse:

O dia que falarem bem é porque fiz alguma coisa errada!

E finalizou:

Não leio jornal nenhum!

Tudo isso transmitido pelas redes sociais do próprio Bolsonaro. Dessa forma tem sido a relação do presidente com a imprensa. Vale, ainda, ressaltar as seguintes afirmações ocorridas no mês de março:

Se a imprensa diz que eu ofendo todo dia, o que estão fazendo todo dia ali [entrada do Palácio do Alvorada]? (05/03).

O dia que vocês se conscientizarem que vocês são importantes fazendo matérias verdadeiras, o Brasil muda. (05/03).

Quando vocês aprenderem a fazer jornalismo, eu converso com vocês. (06/03).

No último 26 de março, contrário à recomendação de quarentena da Organização Mundial da Saúde (OMS), Bolsonaro disse que foi criticado por sua postura, mas que a imprensa também estava descumprindo o isolamento social:

Atenção, povo do Brasil, esse pessoal aqui diz que eu estou errado porque tenho que ficar em casa. Agora eu pergunto: o que que vocês estão fazendo aqui? Imprensa brasileira, o que vocês estão fazendo aqui? Não tão com medo do coronavírus, não? Vão para casa! Todo mundo sem máscara!

Os ataques são frequentes aos jornalistas e à imprensa. Em lista elaborada pela organização Repórteres Sem Fronteiras, e publicada no último 21 de abril, o Brasil caiu, pelo segundo ano consecutivo, no ranking de liberdade de imprensa. O país ocupa o 107º lugar de 180 posições.

O relatório afirma que a eleição do presidente Jair Bolsonaro, “deu início a uma era particularmente sombria da democracia e da liberdade de imprensa no Brasil (…). A propriedade da mídia continua muito concentrada, especialmente nas mãos de famílias de grandes empresas que estão, com frequência, intimamente ligadas à classe política. A confidencialidade das fontes dos jornalistas está sob constante ataque e muitos repórteres investigativos foram submetidos a processos judiciais abusivos”, ressalta a entidade.

“Com ameaças e ataques físicos, o Brasil continua sendo um país especialmente violento para a mídia, e muitos jornalistas foram mortos em conexão com seu trabalho. Na maioria dos casos, esses repórteres, apresentadores de rádio, blogueiros ou provedores de informações de outros tipos estavam cobrindo histórias relacionadas à corrupção, políticas públicas ou crime organizado em cidades pequenas ou médias, onde são mais vulneráveis”, diz a Repórteres Sem Fronteiras.

Hoje, 03, celebramos o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. A data foi criada em 20 de Dezembro de 1993, com uma decisão da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) e celebra o Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Segundo levantamento da Repórteres Sem Fronteiras, Bolsonaro foi responsável por 32 ataques verbais ou ofensas à imprensa nos três primeiros meses de 2020. Uma média de um a cada três dias. De acordo com a entidade, o presidente realizou 15 ataques diretos a jornalistas, sendo cinco deles destinados às mulheres. Na ocasião do Dia Internacional da Mulher, março de 2020, a jornalista Juliana Kataoka fez um levantamento e destacou que oito mulheres jornalistas foram diretamente atacadas pelo presidente desde janeiro de 2019.

Diante desses ataques, podemos afirmar que há método e razão de ser. Nesse sentido é impossível dissociar a trajetória de Bolsonaro – de seus seguidores, bem como de diversos grupos antidemocráticos que avançam em todo o território nacional –, da postura misógina, relacionada à violência que é praticada contra a mulher e contrária aos direitos das mulheres e a todo tipo de feminismo. Lembremos que Jair Bolsonaro ganhou notoriedade quando, ainda deputado federal, disse que não estupraria uma colega “porque ela não merecia”. E no discurso de posse, como presidente da república prometeu combater o que chama de “ideologia de gênero” para “valorizar a família”, diga-se família, sua concepção heteronormativa, ou seja, a mulher subjugada à liderança masculina.

Por fim, ressalto a função vital da imprensa em tempo de crise. Sem a imprensa, sem profissionais comprometidos com a verdade seríamos contaminados com as informações falsas. Isso seria letal para toda sociedade.

No Dia Mundial da Liberdade da Imprensa, a ONU ressalta a importância da imprensa em meio à pandemia:

“Jornalistas e profissionais da mídia são cruciais para nos ajudar a tomar decisões informadas. À medida que o mundo luta contra a pandemia da Covid-19, essas decisões podem fazer a diferença entre a vida e a morte.”

Dessa forma começa a mensagem, em vídeo, do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, para marcar o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Lembrada anualmente em 3 de maio, a data tem como tema esse ano o Jornalismo sem medo ou favor.

Guterres fez um apelo aos governos, e à sociedade como um todo, para garantir que os jornalistas possam fazer seu trabalho durante a pandemia da Covid-19, incluindo outros temas. Os chefes da ONU e da Unesco alertaram ainda sobre a onda de boatos que tomou o planeta durante a crise, classificada como “infodemia”.

“À medida que a pandemia se espalha, dá origem também a uma segunda pandemia de desinformação, desde conselhos prejudiciais à saúde até teorias conspiratórias ferozes. A imprensa fornece o antídoto: notícias e análises verificadas, científicas e baseadas em fatos”, destacou.


Não há como afirmar que OMS e Bill Gates manipulem dados sobre o Covid-19

O youtuber paranaense e “jornalista católico” (como se define), Bernardo P. Kuster, publicou no Twitter uma postagem onde sugere que a Organização Mundial da Saúde (OMS) ratifica que pessoas já infectadas pelo novo Coronavírus (COVID-19) seriam imunes a novos contágios pois, segundo ele, a entidade teria interesse financeiro na criação de uma vacina.

De acordo com o paranaense, a prova seria um aporte recebido pela OMS de empresas da indústria farmacêutica e também do bilionário e filantropo americano Bill Gates, por meio de Fundação Bill & Melinda Gates. Kuster garante que Gates teria interesse no mercado.

O Coletivo Bereia apurou as informações divulgadas pelo youtuber bolsonarista (Kuster foi recomendado pelo presidente Jair Bolsonaro como fonte confiável de informação) e checou:

1 – Em resposta aos governos que propuseram a emissão de um ‘passaporte imunológico’, atestando a imunidade por pessoas que já contraíram o vírus, a OMS afirmou por meio de um comunicado, no sábado (25/4), que não há evidências de que as pessoas que se recuperaram do COVID-19 e que têm anticorpos sejam imunes a uma segunda infecção.

2 – A China só confirmou o primeiro caso de transmissão do Covid-19 em 20 de janeiro de 2020. Até então, a OMS seguiu as informações das autoridades sanitárias chinesas. Não havia comprovação da transmissão e, em declaração do representante da organização Gauden Galea, foi afirmado que apesar de causar sérios problemas em alguns pacientes, o vírus “não se espalha rapidamente”. Até então também não havia nenhuma morte confirmada em Wuhan, na China. O quadro atual de compreensão da pandemia é fortemente diferente daquele de janeiro passado.

3 – A OMS surgiu em 1948 e, inicialmente, era inteiramente financiada por contribuições anuais de seus países membros. Hoje, no entanto, parte de seu orçamento bianual de 4,8 bilhões de dólares é complementada com doações empresariais e de organizações, como a Fundação Bill & Melinda Gates. Segundo o relatório da OMS, a Fundação é a segunda principal doadora da entidade, estando atrás apenas dos Estados Unidos, no período de 2018 a 2019.

4 – O valor de US$ 250 milhões de dólares citado na postagem de Bernardo Kuster se refere ao recurso doado pela Fundação Bill & Melinda Gates neste período de combate ao Covid-19. Em nota publicada no site da fundação, não há menção de que esse recurso tenha sido repassado integralmente à OMS, nem há informações sobre valores e repasses regulares à organização. A nota afirma que o investimento atende aos países da África e do Sul da Ásia; no desenvolvimento e fornecimento de tratamentos e vacinas; na aceleração da detecção e contenção do vírus; e na proteção de comunidades vulneráveis nos Estados Unidos e apoio a atividades pedagógicas à distância. A Fundação diz defender a cooperação e a coordenação globais e atuar por meio de consórcios internacionais com empresas (incluindo corporações na área de Medicamentos e Alimentos), governos, centros de pesquisa e organizações não governamentais. Nessa mesma nota sobre suas ações no enfrentamento do vírus é mencionada a organização de um encontro com lideranças de 15 empresas farmacêuticas globais. De acordo com o comunicado, essas empresas abriram o acesso às suas bibliotecas de composto antivirais.

Em relação à atuação da fundação, é importante atentar para os conflitos de interesses políticos e econômicos, que podem gerar esse tipo de cooperação, principalmente se nessas rodadas não há menção explícita da participação de outros segmentos da sociedade civil e atores sociais, os quais devem fazer parte da busca de decisões e soluções coletivas. A unilateralidade dessas soluções é um ponto crítico que precisa ser acompanhado de perto pela população. No caso da indústria farmacêutica, há inúmeros relatos e estudos que comprovam situações de conflitos de interesses, concentração de poder. Para quem desejar saber mais sobre esse assunto: “A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos, de Márcia Angel (Ed. Record).

O que se pode concluir com esta checagem é que o youtuber e jornalista católico, Bernardo Kuster, utiliza informações corretas, como quando afirma que a OMS não reconheceu a transmissão entre seres humanos do novo coronavírus, no entanto, são informações defasadas, de janeiro de 2020, quando a doença ainda estava sendo identificada. Os elementos sobre o financiamento privado à agência também são corretos, porém, Kuster distorce a informação ao criar uma teoria conspiratória, da qual não consegue provar. Por conta disso, o Coletivo Bereia considera a postagem inconclusiva.

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Referências de checagem:

Gaúcha ZH – “Nova Cepa de coronavírus pode ser origem de surto de pneumonia na China. (9.01.2020) Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/mundo/noticia/2020/01/nova-cepa-de-coronavirus-pode-ser-origem-de-surto-de-pneumonia-na-chinack56st3ju02mk01odknlouu8q.html ;

Gates foundation – Twenty years in the making: The foundation’s response to COVID-19. Disponível em: https://www.gatesfoundation.org/TheOptimist/Articles/coronavirus-mark-suzman-funding-announcement-2

Intercept– Quem são os youtubers recomendados por Jair Bolsonaro. Disponível em: https://theintercept.com/2018/11/17/youtubers-bolsonaro-nando-moura-diego-rox-bernardo-kuster-fake-news/

Istoé – Nova cepa de coronavírus pode ser origem de surto de pneumonia na China. Disponível em: https://istoe.com.br/nova-cepa-de-coronavirus-pode-ser-origem-de-surto-de-pneumonia-na-china/

Site do People’s Health Movement – “PHM Condemns US Halt on Funding toWHO” (20.04.2020). Disponível em: https://phmovement.org/articles-and-statements-on-pandemic-of-coronavirus-disease-2019-covid-19/

Site da Fundação Bill & Melinda Gates – “Twenty years in the making: Thefoundation`s response to Covid-19”. Disponível em: https://www.gatesfoundation.org/TheOptimist/Articles/coronavirus-mark-suzman-funding-announcement-2

Revista Exame – “Clima esquenta na OMS com acusação de negligência feita por Taiwan”( 14.04.2020). Disponível em: https://exame.abril.com.br/mundo/clima-esquenta-na-oms-com-acusacao-de-negligencia-feita-por-taiwan/

Jornal O Estado de Minas – “OMS alerta que não há provas de que pessoas já infectadas ficam imunes” (25.04.2020). Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2020/04/25/interna_internacional,1141806/oms-alerta-que-nao-ha-provas-de-que-pessoas-ja-infectadas-ficam-imunes.shtml

OMS – “Immunity passports” in the context of COVID-19 –Disponível em : https://www.who.int/news-room/commentaries/detail/immunity-passports-in-the-context-of-covid-19

Relatório OMS – WHO Results Report Programme Budget 2018-2019 Mid-Term Review. Disponível em: https://apps.who.int/gb/ebwha/pdf_files/WHA72/A72_35-en.pdf

Um olhar comunicacional sobre os cultos “online”

Reflexões e desafios pastorais durante e pós-pandemia

Publicado no Medium por Ramon Nascimento* dia 27/04/2020

Templos vazios e a liderança precisou se reinventar na internet. Foto: IBAB, 2020.

Estamos vivendo um momento em que nunca antes na história da igreja cristã, principalmente no que diz respeito a igreja evangélica brasileira, se viu tantas estratégias por parte dos líderes das instituições religiosas. De cultos online a cultos no formato “drive-in”.

É importante destacar que o nosso intuito ao escrever este artigo é lançar luz sobre as estratégias que estão em prática no contexto atual das igrejas evangélicas no Brasil, precisamente no que tange ao culto onlineNão objetivamos suscitar aqui o debate teológico daquilo que entendemos como culto público cristão. Como também tentamos evitar aqui o debate polarizador sobre o que é e o que não é culto, mesmo que possamos tangenciar em nosso olhar comunicacional.

A partir do que presenciávamos no contexto da igreja evangélica brasileira, antes da pandemia, poucas instituições evangélicas no Brasil, de fato, produziam conteúdo exclusivo no ambiente digital. A atuação digital da maioria das instituições era apenas transmitir seus respectivos cultos realizados no templo. Com a publicação dos decretos governamentais, impedindo o funcionamento de celebrações religiosas a fim de evitar a aglomeração de pessoas no templo, só restou o ambiente digital como o único possível a reunir pessoas para realizar as celebrações à distância.

Logo, as mídias sociais digitais deixaram de ser apenas o ambiente de transmissão de cultos e passaram a ser o espaço exclusivo de comunicação, relação, participação, presença e produção em rede. A questão é que muitos pastores tiveram de iniciar um processo produtivo com geração de conteúdo bíblico e social, como foi o caso, de pastores que começaram a fazer um bate-papo em lives do Instagram, por exemplo, com os fiéis-profissionais de outros campos do saber, não necessariamente o teológico. No entanto, é preciso levar em conta que o grande desafio de muitos líderes não se restringe apenas à produção de conteúdo, mas também a limitação tecnológica no uso das plataformas digitais e no próprio acesso à uma boa conexão de internet.

Em relação ao culto, evento semanal das igrejas evangélicas, podemos entender comunicacionalmente que as nossas práticas religiosas são desterritorializadas. O ambiente digital provoca a (re)construção de nossas religiosidades, das quais há muito tempo já não estão restritas ao templo. Comunicacionalmente falando, a experiência do virtual é real e, por ser virtual, não significa que o culto deixe de ser culto. Compreendemos que o culto a Deus não emana do local em que estamos, mas torna-se um vínculo do “Eu sou” com o “eu interior”.

Para você entender melhor essa questão da virtualidade do culto, vamos exemplificar com a prática universal da oração. Em Mateus, capítulo 6, versículo 6 diz o seguinte: “Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a tua porta, ora a teu Pai, que vê o que está oculto”. É bom deixar claro que, quando Jesus falou essas palavras, ele não estava sacralizando o quarto como o lugar exclusivo da oração. O contexto de Mateus 6 refere-se ao exibicionismo religioso e social que Jesus condenou e chamou de hipócritas os que agiam daquela maneira descrita no texto. Entendendo que não existe um lugar sagrado da oração, a própria oração já é esse lugar.

No contexto da pandemia do novo coronavírus, em que os templos estão fechados, uma igreja evangélica convocou sua comunidade a orar todos os dias com a seguinte frase publicada nas mídias sociais: “todo dia, ao meio dia, a IBAB reunida nesse lugar chamado oração”. O lugar da oração é simbólico. Não existem lugares físicos específicos de oração.

Entendendo o lugar simbólico da oração, também podemos compreender que a virtualidade do culto, em sua natureza, permite que o culto online seja culto a Deus. Aliás, não existe lugar sagrado para cultuar, podemos assim fazer no templo, na rua ou na rede. Lógico que a virtualidade das práticas religiosas não deve substituir a essência da comunidade cristã. Acredito que a igreja é uma comunidade em ação e sem a interação física dos membros e do cuidado pastoral não é possível, de fato, sermos uma igreja.

Mas o nosso olhar comunicacional do fenômeno em questão não chama atenção para o que é igreja e o que não é. Objetivamos aqui no texto a nos limitar ao culto online. Apenas para deixar registrado como exemplo, a igreja Verbo da Vida, com templo sediado em Campina Grande/PB, realizou um culto a Deus no estilo Drive-In. As pessoas não podiam descer do carro, apenas os diáconos transitavam ao levar os elementos da ceia aos que estavam presentes nos seus veículos.

Então, quais são os desafios dos líderes evangélicos pós-pandemia?

O retorno das atividades religiosas nos templos será readequado. É fato que o normal que vivíamos até 15 março de 2020 não viveremos mais. No entanto, com relação ao ambiente digital, os líderes das grandes igrejas continuarão produzindo conteúdo como sempre fizeram. Esses não tiveram dificuldades com os desafios impostos pela quarentena.

Já os líderes de médias e pequenas igrejas espalhadas por todo o Brasil terão vários desafios pela frente. O caminho entre esses deve ser o do aprendizado, ou seja, sugiro aqui que tais líderes voltem seus olhares ao que as grandes igrejas no Brasil e no mundo estão fazendo e a forma como eles produzem conteúdos no ambiente digital. Se faz necessário deixar de apenas transmitir cultos para produzir conteúdo religioso! Por que não aprender com os líderes que produzem bons conteúdos bíblicos e midiáticos? No ambiente digital, o isolamento individual entre cada igreja não é uma estratégia inteligente. É preciso termos uma inteligência coletiva religiosa, ou seja, um aprender com o outro.

É fato que o pastor que iniciou suas respectivas lives no Instagram durante a quarentena, abordando vários assuntos praticamente todos os dias, é o mesmo pastor que será cobrado por sua audiência. Então por que deixar de produzir conteúdo para o seu público?

Essa “assistência” digital não pode morrer com o fim da quarentena. E se morrer, o líder deixa de lado uma grande oportunidade de posição privilegiada em cumprir o próprio Ide de Jesus. Saiba que ignorar a internet hoje em dia é também ignorar pessoas, porque internet não é apenas uma relação de máquinas, mas também de humanos.

Portanto, o salto que o contexto da pandemia permitiu foi de que a transmissão por si só não se sustenta mais. O ambiente online não existe para que a religião seja transmitida, mas para que ela seja produzida. E quando tratamos de produção estamos nos referindo a produzir conteúdos religiosos, não só o culto, mas entrevistas, palestras, aulas, musicais… É preciso também que o pastor não apenas pregue, no sentido da transmissão unilateral da Palavra, mas também dialogue com seu público! Lembre-se que do outro lado da tela existem pessoas que estão lhe ouvindo, mas que também querem ser ouvidas!

Já está mais do que na hora da liderança evangélica se reinventar no ambiente digital. Por fim, peço aos “apocalípticos” que não ignorem a internet! Aos “apaixonados”, peço que tenham cautela! Entendam que a internet é uma morada. Nela habitamos. Internet deixou há muito tempo de ser ferramenta de divulgação do Evangelho. Hoje internet é ambiente de relações humanas. E para que a mensagem alcance essas relações é preciso também conhecer as estratégicas midiáticas. Produção de conteúdo não é coisa de amadores, mas é estratégia de quem quer aprender fazendo.

Todo líder religioso, quando a quarentena acabar, terá duas igrejas para liderar: a física e a digital.

*Ramon Nascimento é doutorando em Estudos da Mídia e pesquisador na área de Mídia e Religião, além de palestrante sobre a temática da cultura digital.

É enganosa a ideia de que há um plano comunista sendo instalado no Brasil

No dia 22 de abril, o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, publicou em seu Twitter a seguinte mensagem:

No texto do seu blog, Ernesto combate 12 trechos do livro Virus: Catastrofe e solidarietà , do filósofo Slavoj Zizek, lançado em abril deste ano, pela editora Ponte alle Grazie, de Milão.

Os 12 trechos selecionados pelo ministro foram traduzidos por ele mesmo, do italiano. O livro, no total, contém 79 páginas e expõe a visão de Zizek sobre a insustentabilidade do atual modelo econômico evidenciado pelo coronavírus. O filósofo afirma que o atual momento exige um pensamento para além do mercado financeiro e do lucro.

Ernesto, em sua crítica, além de fragmentar a ideia de Zizek, afirma que há um “plano comunista”, do qual intitula como “comunavírus”, que iria tirar proveito da pandemia de Covid-19 para implementar sua ideologia por meio de organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde. A coordenação global realizada pela OMS para fazer frente à crise, segundo ele, seria “o primeiro passo em direção ao comunismo” de um “projeto globalista”.

Para Araújo, essa e outras organizações são responsáveis por difundirem os ideais comunistas em forma de solidariedade.

“Transferir poderes nacionais à OMS, sob o pretexto (jamais comprovado!) de que um organismo internacional centralizado é mais eficiente para lidar com os problemas do que os países agindo individualmente, é apenas o primeiro passo na construção da solidariedade comunista planetária”, disse.

O Filósofo, ao ler a crítica do ministro das Relações Exteriores do Brasil, afirmou:

“O chanceler brasileiro me acusou de usar a epidemia do coronavírus como uma desculpa para introduzir outro vírus, o ‘comunavírus’. Infelizmente, ele não entendeu a questão.

Não quero impor nada, apenas observo que até governos conservadores estão lidando com a crise sanitária e econômica provocada pela epidemia. Estão introduzindo medidas que, seis meses atrás, seriam inimagináveis e vistas como um sonho comunista.

Esses governos estão violando as regras básicas do mercado, distribuindo gratuitamente bilhões para que os novos desempregados sobrevivam. Estão ordenando o que a indústria deve produzir (equipamentos de saúde) e admitindo que precisamos não apenas de um serviço universal de saúde como também de um serviço global de saúde. Estão pensando em como prever fome maciça como uma consequência da pandemia…

Em que outra época se viu conservadores se sentindo compelidos a agirem como comunistas, dando preferência ao bem comum em vez dos mecanismos do mercado?”

Teoria da Conspiração e Plano comunista

O professor Wilson Gomes, autor de “A democracia no mundo digital: história, problemas e temas”, explica que a teoria da conspiração é um modelo de narrativa de muita eficiência na política:

“Na comunicação política, grande parte da energia é despendida para fornecer interpretações da realidade na forma de histórias ou narrativas e para convencer o maior possível número de pessoas a adotá-las como forma de explicar o mundo, de compreender o que com elas se passa e de justificar os próprios sentimentos e atitudes.

Primeiro, porque as pessoas adoram grandes narrativas que explicam tudo, e o complô junta a pluralidade dos fatos em um encadeamento em que tudo ganha sentido, mesmo que para isso seja preciso forçar os dados e arranjar os fatos. O complô dá ordem ao caos. Segundo, porque uma vez compartilhadas as grandes premissas da maquinação, as pessoas vão completando as lacunas e produzindo narrativas derivadas, fabricando elas mesmas suas próprias teorias da conspiração, algumas ainda mais radicais do que as matriciais, produzidas pelo partido ou movimento. Muita gente, em suma, se põe a cooperar para tornar a história plausível e indisputável.”

Gomes ainda ressalta que as teorias de conspiração passaram a funcionar como matriz básica das decisões, prioridades e declarações de Bolsonaro, a começar da sua seleção de ministros para a guerra contra o comunismo.

Ernesto Araújo é o general que irá lutar contra o globalismo, o “marxismo cultural” e a dominação comunista da ONU, alinhando-nos estrategicamente ao lado de países livres como Afeganistão e Uzbesquistão. Damares Alves é a comandante das tropas que desmantelarão a epidemia decorrente da infecção de boa parte da população brasileira pela “ideologia de gênero” e pelos “direitos humanos”, que são evidentes mutações da cepa do vírus comunista. O major Abraham Weintraub foi destacado para neutralizar a infiltração comunista nas universidades, tratando os vermelhos a pão, água e chicote, além de “desideologizar” os currículos brasileiros a fim de recuperar as criancinhas de anos de “doutrina ideológica”. O General de Brigada Ricardo Salles, por sua vez, colocará tropas em solo para liquidar de vez a infiltração do marxismo ambiental.”

A teoria do chanceler Ernesto Araújo sobre a OMS – “plano comunista em curso pretende utilizar a OMS como primeiro passo na construção da solidariedade comunista planetária”, não é nova. Várias teorias da conspiração sobre a ONU já foram publicadas, como esta aqui de Portinari Greggio.

Há um plano comunista sendo instalado no Brasil?

Sob ideias de viés ideológico conservador, o comunismo vem sendo “combatido” no país através do atual Governo liderado pelo Presidente da República, Jair Bolsonaro, que desde sua atuação parlamentar contesta a instalação ideológica e partidária de deputados da esquerda brasileira considerados “comunistas”, acusando sobretudo, o Partido dos Trabalhadores (PT) como responsável por uma Ditadura Comunista no país. Em vários dos seus pronunciamentos realizados durante a campanha, que marcaram o pleito eleitoral, o Presidente chamava seus adversários de “corruptos comunistas” e prometia “varrer os comunistas do Brasil ”, encenando que iria “metralhá-los” politicamente.

Durante o seu mandato, políticas públicas de programas sociais realizados pelo governo petista sofreram cortes significativos, como o “Fome Zero”, “Minha Casa, Minha Vida”, “Bolsa Família” e “Mais Médicos”, têm sido considerados programas comunistas que solaparam a economia do país. Sob o aval do antipetismo, o Deputado Federal Eduardo Bolsonaro (PSL/SP) protocolou um projeto de lei (PL 5358/2016) que visa criminalizar o comunismo/socialismo no Brasil, inibindo manifestações e protestos.

Não obstante, de acordo com o livro “Anarquistas e Comunistas no Brasil” (Editora Brazil Publishing, 2018), as influências e ideias comunistas chegaram ao país no final do século XIX. Desde então, movimentos emancipatórios, sindicalistas e operários com agremiações de diversas matizes tiveram formação no Brasil, como ocorre também em outros países. Todavia, segundo o historiador doutor em história e professor do Departamento de História da UFMG Rodrigo Patto Sá Motta, “O Brasil nunca esteve perto do comunismo, nem mesmo em 1964, ano de início da ditadura militar no Brasil.

Ainda de acordo com entrevista à Carta Capital pelo professor e coordenador do Núcleo de Pesquisas da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), Prof. Dr. Paulo Silvino Ribeiro, o Brasil não sofre nenhum tipo de ameaça comunista ou socialista:

“Não é, não foi e creio que tão pouco será futuramente. Atualmente, o socialismo recuou no mundo todo, principalmente na Europa onde teria nascido. No caso brasileiro, ao se considerar nosso processo de formação social e econômica pautado principalmente na manutenção das estruturas que reproduzem o privilégio, a desigualdade, o racismo, as fobias todas, lamentavelmente o socialismo está um horizonte infinitamente longínquo.

A fala do presidente recentemente empossado, ao dizer que vai “libertar o país do socialismo”, não tem nenhuma relação com a realidade do presente ou do passado do país. Trata-se de uma fala ainda pautada no discurso eleitoral, e que busca produzir efeito por entre seus apoiadores os quais, a meu ver, também não conseguem compreender o que é o socialismo. (..) Associam o socialismo aos governos do PT, os quais evidentemente não foram socialistas, embora tenham promovido avanços sociais. Os governos petistas teriam esta pecha (de socialista), portanto, por terem defendido um Estado maior e mais presente, bem como por terem promovido políticas sociais como o Bolsa Família, o qual para os mais desavisados seria uma afronta à meritocracia.

A Lei do Brasil é clara quanto ao regime político-econômico que conduz o país. Segundo a Constituição Federal, o artigo 170 estabelece que a ordem econômica do Brasil tem como princípios a propriedade privada e a livre concorrência, duas características básicas de regimes capitalistas. O parágrafo único deste mesmo artigo diz:

“é assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei”.

O cientista político, diretor do programa MIT Brazil e autor de “Hierarchical Capitalism in Latin America: Business, Labor, and the Challenges of Equitable Development” (Cambridge, 2013), Ben Ross Schneider, ressalta que a política econômica adotada no Brasil por governos petistas foi marcada por uma contradição entre discurso e ações: “aumentaram o uso de subsídios estatais, uma política que poderia ser vista com traços socialistas, mas para apoiar as empresas privadas, a propriedade privada”.

O cientista político e autor do livro “Presidencialismo de coalizão” (Companhia das Letras, 2018), Sérgio Abranches, indica que muitas características apontadas por Bolsonaro como marcas do “socialismo” nos últimos governos, como estatismo e poder centralizado no Governo Federal, existiram em outros períodos da História brasileira, inclusive no regime militar, época enaltecida pelo presidente. Foi no regime militar, principalmente nos anos 70, no governo do general Ernesto Geisel, que o Estado teve o maior controle da economia nacional.

O Coletivo Bereia conclui que: não há plano comunista sendo instalado no Brasil ou no mundo via OMS e que a abordagem do Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, é enganosa, pois revela uma tática manipulativa por meio de teorias da conspiração para desinformar a população dos reais problemas que a nação enfrenta. Ao nomear o livro do filósofo esloveno como uma “obra-prima de naïveté canalha”, o chanceler revela uma defesa ideológica e religiosa alienante, além de anacrônica frente às respostas necessárias para a atual problemática do mundo: a pandemia do novo coronavírus.

Referências de Checagem:

A Pública – 1964: “O Brasil não estava à beira do comunismo”, diz historiador.Acessado em 27 de abril. Disponível em: https://apublica.org/2019/04/1964-o-brasil-nao-estava-a-beira-do-comunismo-diz-historiador/

Brasil 247 – Comunismo vai derrotando coronavírus e mundo aplaude China. Acessado em 27 de abril. Disponível em: https://www.brasil247.com/mundo/comunismo-vai-derrotando-coronavirus-e-mundo-aplaude-china

Boitempo – Pandemia. Acessado em 27 de abril. Disponível em: https://www.boitempoeditorial.com.br/produto/e-pandemia-covid-19-e-a-reinvencao-do-comunismo-961

Carta Capital – “Partimos para o socialismo”, diz Carlos Bolsonaro sobre crise do coronavírus – Acessado em 24 de abril às 12h03. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/politica/partimos-para-o-socialismo-diz-carlos-bolsonaro-sobre-crise-do-coronavirus/>

Carta Capital. Ernesto Araújo diz que pandemia é usada para implementar o “comunavírus”. Acessado em 24 de abril às 12h03. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/ernesto-araujo-diz-que-pandemia-e-usada-para-implementar-o-comunavirus/

Coletivo Bereia – O Partido Comunista Chinês não avança no Brasil, mercado chinês, sim. Acessado em 24 de abril às 12h03. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/o-partido-comunista-chines-nao-avanca-no-brasil-mercado-chines-sim/

Carta Capital – Ele não entendeu a questão”, disse autor do livro citado por Araújo. Acessado em 24 de abril às 18h09. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/ele-nao-entendeu-a-questao-disse-autor-do-livro-citado-por-araujo/

Catraca – Chanceler brasileiro diz que comunistas usam OMS para dominar o planeta. Acessado em 27 de abril. Disponível em: https://catracalivre.com.br/cidadania/chanceler-brasileiro-diz-que-comunistas-usam-oms-para-dominar-o-planeta/

Diário do Centro do Mundo – As mortes por coronavírus aumentam e a preocupação do chanceler Ernesto Araújo é com o “comunismo”. Acessado em 27 de abril. Disponível em: <https://www.diariodocentrodomundo.com.br/as-mortes-por-coronavirus-aumentam-e-a-preocupacao-do-chanceler-ernesto-araujo-e-com-o-comunismo/>

Diário de Contagem – A Constituição de 1988: comunismo ou fascismo à brasileira.Acessado em 27 de abril. Disponível em: http://www.diariodecontagem.com.br/Materia/10576/16/artigo-a-constituicao-de-1988-comunismo-ou-fascismo-a-brasileira/

El País – Ai Weiwei: “O capitalismo chegou ao seu fim”. Acessado em 27 de abril. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/ideas/2020-04-05/ai-weiwei-o-capitalismo-chegou-ao-seu-fim.html>

Estado de Minas – COVID-19: Ministro Ernesto Araújo diz que mundo enfrenta ‘comunavírus’ Acessado em 27 de abril. Disponível em: < https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/04/22/interna_politica,1140845/covid-19-ministro-ernesto-araujo-diz-que-mundo-enfrenta-comunavirus.shtml >

Estado de Minas – Pompeo: Partido Comunista chinês faz campanha de desinformação sobre coronavírus. Acessado em 27 de abril. Disponível em <https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2020/03/25/interna_internacional,1132328/pompeo-partido-comunista-chines-faz-campanha-de-desinformacao-sobre-c.shtml>

Folha de S. Paulo – Ernesto alerta para suposta ameaça comunista na América Latina em artigo – Acessado em 27 de Abril de 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/12/ernesto-alerta-para-ameaca-comunista-na-america-latina-em-artigo-para-blog-bolsonarista.shtml

Folha de São Paulo – Em blog, Ernesto Araújo escreve que coronavírus desperta para ‘pesadelo comunista’ -Acessado em 27 de Abril de 2020. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/04/em-blog-ernesto-araujo-escreve-que-coronavirus-desperta-para-pesadelo-comunista.shtml>

G1 – Covid-19: Ernesto Araújo denuncia ‘comunavírus’ e ataca OMS. Acessado em 22 de abril às 18h12. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/covid-19-ernesto-araujo-denuncia-comunavirus-ataca-oms-24387155?utm_source=Facebook

G1- Jornal Nacional – Ministro das Relações Exteriores afirma que coronavírus é um plano comunista – Acessado em 27 de Abril de 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2020/04/22/ministro-das-relacoes-exteriores-afirma-que-coronavirus-e-um-plano-comunista.ghtml

Intercept*– O GOLPE DE 64 NÃO SALVOU O PAÍS DA AMEAÇA COMUNISTA PORQUE NUNCA HOUVE AMEAÇA NENHUMA. Acessado em 27 de Abril de 2020. Disponível em: <https://theintercept.com/2018/09/21/farsa-historia-ditadura-militar-comunista/>

Istoé– O vírus comunista. Acessado em 27 de Abril de 2020. Disponível em: https://istoe.com.br/o-virus-comunista/

Jovem Pan – Ernesto Araújo: coronavírus ‘nos faz despertar para pesadelo comunista’.Acessado em 27 de Abril de 2020. Disponível em: <https://jovempan.com.br/noticias/brasil/blog-ernesto-araujo-coronavirus-despertar-pesadelo-comunista.html>

Justificando – O fantástico mundo das teorias de conspiração – Acessado em 27 de Abril de 2020. Disponível em:https://www.justificando.com/2020/03/26/o-fantastico-mundo-das-teorias-de-conspiracao/

Metapolítica 17– Chegou o Comunavírus. Acessado em 22 de abril às 18h02. Disponível em: https://www.metapoliticabrasil.com/post/chegou-o-comunavírus

Ministério das Relações Exteriores:Para além do horizonte comunista. Acessado em 27 de abril de 2020 às 14: 00 .Disponível em: <http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/discursos-artigos-e-entrevistas-categoria/ministro-das-relacoes-exteriores-artigos/21163-para-alem-do-horizonte-comunista-terca-livre-18-12-2019>

Observatório da Imprensa – A ameaça comunista jamais existiu. Acessado em 27 de abril de 2020. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/memoria/a-ameaca-comunista-jamais-existiu/

Opera Mundi – ‘Comunavírus’: chanceler brasileiro fala em ‘conspiração comunista’ para dominar mundo pós-pandemia. Acessado em 27 de abril de 2020. Disponível em: < https://operamundi.uol.com.br/coronavirus/64280/comunavirus-chanceler-brasileiro-fala-em-conspiracao-comunista-para-dominar-mundo-pos-pandemia>

O Tempo – Ernesto Araújo relata que coronavírus desperta para ‘pesadelo comunista’ – Acessado em 27 de abril de 2020. Disponível em: < https://www.otempo.com.br/politica/ernesto-araujo-relata-que-coronavirus-desperta-para-pesadelo-comunista-1.2327687 >

Outras Palavras – Zizek: O nascimento de um novo comunismo. Acessado em 27 de abril de 2020. Disponível em: <https://outraspalavras.net/outrasmidias/zizek-o-nascimento-de-um-novo-comunismo/>

Piauí – A HIPÓTESE COMUNISTA DEVE SER ABANDONADA? Acessado em 27 de abril de 2020. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/a-hipotese-comunista-deve-ser-abandonada/

Pleno News – Ernesto Araújo ataca OMS e denuncia “comunavírus”. Acessado em 27 de abril de 2020. Disponível em: < https://pleno.news/brasil/politica-nacional/ernesto-araujo-ataca-oms-e-denuncia-comunavirus.html>

Poder360 – Ernesto Araújo diz que há ‘plano comunista’ se beneficiando da covid-19. Acessado em 27 de abril de 2020. Disponível em: < https://www.poder360.com.br/coronavirus/ernesto-araujo-diz-que-ha-plano-comunista-se-beneficiando-da-covid-19/>

Politize – Marxismo cultural: o que é isso? Acessado em 27 de abril de 2020. Disponível em: https://www.politize.com.br/marxismo-cultural/

Revista Cult – O complô comunista como matriz governamental de Bolsonaro. Acessado em 27 de abril às 15h38. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/o-complo-comunista-como-matriz-governamental-de-bolsonaro/

Super Interessante – Mito: os militares impediram um golpe comunista em 1964.Acessado em 27 de abril. Disponível em: https://super.abril.com.br/historia/mito-os-militares-impediram-um-golpe-comunista-em-1964/

Twitter Ernesto Araújo – Acessado em 22 de abril às 16h57. Disponível em: https://twitter.com/ernestofaraujo/status/1252811093405122566

UOL – Pandemia: ministro denuncia “plano comunista”, cita China e questiona OMS. Acessado em 27 de Abril de 2020. Disponivel em: https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2020/04/22/diante-da-pandemia-chanceler-alerta-contra-plano-comunista-e-questiona-oms.htm

UOL – Brasil esteve à beira do comunismo nos anos 1960? História não mostra isso. Acessado em 27 de Abril de 2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2019/10/01/brasil-esteve-a-beira-do-comunismo-nos-anos-1960-historia-nao-mostra-isso.htm

UOL – Bolsonaro está convencido de que coronavírus é um plano do governo chinês. Acessado em 27 de Abril de 2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/colunas/tales-faria/2020/03/16/bolsonaro-esta-convencido-de-que-coronavirus-e-plano-do-governo-chines.htm

Veja – Coronavírus já formou mais comunistas que Mao e Stalin, diz historiador. Acessado em 27 de Abril de 2020. Disponivel em: https://veja.abril.com.br/blog/sensacionalista/coronavirus-ja-formou-mais-comunistas-que-mao-e-stalin-diz-historiador/

Ler a Bíblia em tempos de pandemia

Originalmente publicado na Agência Ecumênica de Comunicação em 14 de Abril de 2020*

Pronunciamento de biblistas argentinos/as em relação à COVID-19

Não há uma organização específica de nossa parte. Somos estudiosos/as da Bíblia que trabalharam juntos em algum momento, que compartilham espaços e preocupações, trocam referências e trabalham espontânea e ecumenicamente. Nessa ocasião, surgiu a preocupação de, juntos, dizermos algo sobre o uso infeliz que alguns fazem da Bíblia.

“Penso novamente em meu coração algo que me dá esperança: que o amor do Senhor não acabou, nem a sua compaixão se esgota.” (Lm 3, 21-22).

Vivemos em tempos sem precedentes. A experiência de vulnerabilidade e contingência passa por nós. Em muitas ocasiões, passamos por nossa vida cotidiana como se esta fosse somente uma sucessão de perdas. O vírus SARS-CoV-2 (coronavírus) nos impôs uma extraordinária percepção e uma experiência da realidade pessoal, comunitária, local e global.

Nesses tempos de pandemia, temos ouvido e assistido reflexões intermináveis vindas de uma ordem diferente em meio à confusão e ao medo. Muitas delas, de natureza religiosa, são atravessadas ​​por visões simplistas, dualistas, espiritualistas e em perspectivas de punição, condenação, mérito e salvação. Elas apresentam versículos bíblicos, independentemente de seus contextos e história, e assim, provocam o que parece mais uma atitude mágica do que uma audição serena à experiência comunitária da palavra de Deus endereçada ao seu povo.

Na qualidade de estudiosos/as da Bíblia, que se reúnem em torno de uma leitura social da Bíblia, não podemos deixar de nos manifestar diante de tais interpretações. Doença e morte fazem parte de nossa condição humana. Uma condição que não pode ser pensada como consequência de qualquer punição, mas sim na recepção aberta ao que é, simplesmente. É sob essa condição que desenvolvemos nossa existência. E sob essa condição nos ligamos aos outros, à divindade, ao cosmos.

De nossa herança cristã, afirmamos ainda que, qualquer discurso que surja em virtude de intervenções milagrosas prometidas em troca de ofertas “voluntárias” contradiz o centro da fé judaico-cristã:

É na humanidade e em seus processos que Deus se manifesta amorosamente, livre e livremente e, ainda, na percepção compreensível de sua ausência nascida da dor. Hoje vale a pergunta, onde está Deus?

A vulnerabilidade de nossa condição exige, então, o fortalecimento daqueles que cuidam daqueles que mais precisam. Nesse sentido, acreditamos que o Estado, como forma de relação social, desempenha papel fundamental, essencial e inalienável. As políticas neoliberais que nos atingiram geraram uma lacuna social insuperável. Sob essa perspectiva, a sobrevivência não é possível. Os exemplos internacionais que temos ao nosso alcance são claros.

Incentivamos qualquer organização social que proteja a vida. Acreditamos que a Ciência, em colaboração entre países e como política estatal de primeira linha, é o caminho que nos levará a superar a situação que nos chama.

Finalmente, teimosamente exercitamos a esperança. Consideramos que a crise causada por essa pandemia, que põe sob questionamento a ordem mundial, nossas relações humanas e nossas interações no meio ambiente, é uma oportunidade de sonhar e se recriar como uma nova humanidade.

Texto assinado por:

Pablo Ferrer
Andrea Hojman
Eduardo de la Serna
Maria Luján Manzotti
Eleuterio R. Ruiz
Pablo Álvarez Liz
Mercedes Garcia Bachmann
Raúl Emilio Vera
Constance Levaggi
Graciela Dibo
Zoraida Carolina Insfrán
Nestor Míguez
Juan José Barreda Toscano
Jerónimo Exposito
Edgar Amado Toledo
Flavia Soldano Deheza
Maria de Los Angeles Roberto

Fonte da imagem: Design vector created by freepik – www.freepik.com

É enganoso o vídeo que mostra a UTI do Hospital Couto Maia de Salvador com leitos vazios

Um vídeo que circula desde o último 22 de abril em grupos de Whatsapp de igrejas e de pessoas cristãs, no Youtube e em perfis do Facebook e do Twitter, denuncia que uma enfermeira de nome Sandra M. Guerra teria sido demitida do Hospital Couto Maia em 21 de abril, porque publicou na internet um vídeo que mostra instalações da UTI de Referência para Tratamento de Coronavírus naquele hospital vazias.

A mensagem de Whatsapp que circula é:

No Youtube, o vídeo foi publicado, em 22 de abril, no Canal Jorvideo News, com a mesma chamada:

“A enfermeira Sandra M. Guerra, foi demitida no início da noite por ter ingenuamente divulgado imagens da UTI Referência Do Vírus Chinês do Hospital Couto Maia no dia de hoje, 21/04/2020. Não foi por exposição dos pacientes (ela teve essa preocupação). Foi simplesmente por mostrar as instalações vazias”.

No Twitter, o vídeo foi publicado, em 22 de abril, pelo perfil C18H26CIN3 @semfronteira64, com bio redigida em hebraico אלוהים הוא בשליטה [Deus está no controle]. A postagem tem a mesma chamada:

“A enfermeira Sandra M. Guerra, foi demitida no inicio da noite por ter ingenuamente divulgado imagens da UTI Referência Do Vírus Chinês Do Hospital Couto Maia no dia de hoje, 21/04/2020. Não foi por exposição dos pacientes Foi simplesmente por mostrar as instalações vazias”.

O Hospital Couto Maia

O Instituto Couto Maia, da rede pública do Estado da Bahia, passou a atender exclusivamente pacientes com suspeita de coronavírus, desde março passado. Em 23 de março, a diretora-geral do Couto Maia, a médica-infectologista Ceuci Nunes, declarou que ao todo, a unidade dispõe de 120 leitos, mais doze de observação: “E todos agora são dedicados ao coronavírus. Nós fizemos várias modificações na unidade, para comportar esse atendimento. Fizemos modificação de fluxo de entrada e saída de pacientes, modificações na estrutura para instalar leitos de UTI”, disse ao site de notícias da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia.

A diretora, na entrevista, completou que é importante que haja hospitais dedicados exclusivamente ao coronavírus. “Como a gente viu, pela experiência internacional, o Covid-19 é muito transmissível e nós teremos um grande número de pessoas contaminadas. A maioria dessas pessoas, cerca de 80%, não ficará em estado grave e não vai precisar de ficar em respiradores. Mas muita gente vai precisar de leitos de UTI e isso pode levar a grandes problemas no sistema de saúde e é por isso que a gente dedicou esse hospital, assim como outros, ao coronavírus”. Ela também destaca que, como a transmissão é muito grande e o ICOM era um hospital de doenças infecto-contagiosas, “os pacientes de outros diagnósticos estão com a imunidade baixa e não podem ser expostos ao coronavírus”.

Em 21 de abril, em entrevista ao Jornal da Manhã (Rede Globo Bahia), o secretário estadual de Saúde, Fábio Vilas Boas, afirmou que o sistema de saúde do estado deve ter capacidade para receber pacientes até o início de junho, caso a curva de contágio se mantenha com crescimento de 9% ou 10% ao dia.

Em boletim divulgado em 22 de abril, a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia registrou 1.645 casos confirmados de coronavírus em todo o Estado, com 405 pacientes recuperados, 53 mortes, 291 pessoas internadas, sendo 61 em UTI, com 50% de ocupação de leitos em todo o Estado.

Até essa data, o governo do estado havia disponibilizado 1.135 leitos exclusivos para o tratamento da doença, sendo 429 deles de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). A promessa é de que o número total chegará, nas próximas semanas, a 2.418 leitos de referência. Destes, 1.399 estarão localizados em Salvador, com outros 1.019 distribuídos pelo interior do estado.

A taxa de crescimento está abaixo dos 15%, de modo que Tereza Paim, subsecretaria de saúde do estado, considera o estado da Bahia como um exemplo positivo de combate ao vírus no país.

Fonte: Jornal da Manhã

O vídeo da enfermeira do Couto Maia

Na noite do mesmo dia, 22 de abril, em que o vídeo-denúncia de que havia leitos vazios na UTI passou a ser divulgado, a diretora-geral do Instituto Couto Maia, Dra. Ceuci Nunes, publicou em seu perfil do Facebook uma mensagem desmentindo o conteúdo:

 “Estão mandando este vídeo gravado dia 21/03 por uma enfermeira nossa, mostrando a primeira ampliação de leitos da uti que fizemos. Abaixo uma informação com um nome que não corresponde ao nome da enfermeira, dizendo que foi demitida por mostrar leitos vazios. Hoje os leitos estão todos cheios. Fake absurda. Se recebeu desminta por favor. Grata, Ceuci Nunes – Diretora do ICOM”

O jornalista Angelo Ringon, do Maringá News, checou o nome da enfermeira que fez o vídeo quando o hospital havia terminado de preparar o aparato para atender pacientes, em 21 de março. É a enfermeira Maria das Graças Santos e não foi demitida.

Nesta checagem o Coletivo Bereia conclui que as mensagens que circulam em mídias sociais com vídeo que mostram leitos vazios na UTI do Instituto Couto Maia em Salvador são enganosas. Uma mensagem padrão foi produzida e alcançou vários grupos e perfis, fazendo uso de um vídeo publicado na rede em 21 de março, um mês antes desta divulgação. A postagem enganosa expôs um nome de pessoa que não corresponde à autora das imagens, mostra leitos que, de fato estavam vazios pois ainda não estavam em operação, e inseriu a falsa informação de que a enfermeira que fez o vídeo foi demitida por divulgá-lo. Este conteúdo desinforma pois busca induzir os receptores a desacreditarem da gravidade da Covid-19 e desconsiderarem os números divulgados, o que pode custar a saúde e a vida de muitas pessoas.

A diretora-geral do Couto Maia Dra. Ceuci Nunes publicou no dia 23 de abril um desabafo em seu perfil no Facebook:

Bereia alerta leitores e leitoras sobre a importância de se verificar sempre, antes de compartilhar, mensagens que não têm autoria, não indicam a fonte (quem produziu e deve se responsabilizar pela informação).  O perfil do Twitter que divulgou este material enganoso, C18H26CIN3 @semfronteira64, com bio redigida em hebraico אלוהים הוא בשליטה [Deus está no controle], é exemplo significativo de perfis criados exclusivamente para divulgação de material desinformativo: não se identifica, aparece como um número, tem username genérico e simbólico (64), foi criado em 2019 e só publica notícias, todas desinformativas.

Já o canal do Youtube Jorvideo News não se identifica no aplicativo e não tem um histórico de exibição que corresponda a “news” (notícias). Este canal está inscrito no Youtube desde 2007, não tem vídeos próprios e tem apenas nove vídeos desde 1 de outubro de 2019, oito relacionados a filmes de entretenimento na língua inglesa, uma comédia completa e sete trailers de filmes de ação, mais a postagem sobre a “enfermeira demitida”. O nome “news” dá caráter de seriedade ao canal (notícias) e inspira pessoas afeitas a receber desinformação de fontes não credenciadas. 

Bereia classifica estas fontes do Twitter e do Youtube como não confiáveis.

Atualização do caso em 27 de abril de 2020

O jornal Folha de S. Paulo publicou em 27 de abril de 2020, reportagem sobre este caso, com foco na atuação da enfermeira do hospital Couto Maia (Salvador/BA) Ana Cássia Tupiniquim, de 51 anos, que fez o vídeo originalmente divulgado em 21 de março. Ana Cássia não foi demitida e relata o incômodo de ter o vídeo que produziu para animar pessoas no enfrentamento da pandemia ser usado para espalhar mentiras para negar a gravidade da situação que ela enfrenta diariamente. 

Referências de Checagem:

Instituto Couto Maia já atua exclusivamente para pacientes com coronavírus. Governo do Estado da Bahia, Secretaria de Estado de Saúde. Notícias, 23 mar 2020. Disponível em: http://www.saude.ba.gov.br/2020/03/23/instituto-couto-maia-ja-atua-exclusivamente-para-pacientes-de-coronavirus/ Acesso em 23 abr 2020

Bahia tem 1.645 casos confirmados de Covid-19. Governo do Estado da Bahia, Secretaria de Estado de Saúde. Notícias, 22 abr 2020. Disponível em: http://www.saude.ba.gov.br/2020/04/22/bahia-tem-1-645-casos-confirmados-de-covid-19/. Acesso em 23 abr 2020

Hospitais Couto Maia e Ernesto Simões têm 54% dos leitos de UTI ocupados: ‘Ficar em casa ajuda a evitar óbitos’, diz subsecretária. G1 BA, 20 abr 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2020/04/20/com-70percent-dos-leitos-de-uti-ocupados-na-bahia-subsecretaria-de-saude-faz-alerta-ficar-em-casa-ajuda-a-evitar-obitos.ghtml Acesso em 23 abr 2020

Bahia terá 2.418 leitos de referência para atendimento exclusivo a pacientes com coronavírus. Governo do Estado da Bahia, Secretaria de Estado de Saúde. Notícias, 22 abr 2020. Disponível em: http://www.saude.ba.gov.br/2020/04/18/bahia-tera-2-418-leitos-de-referencia-para-atendimento-exclusivo-a-pacientes-com-coronavirus/ Acesso em: 23 abr 2020

Coronavírus: Secretário de saúde do estado fala sobre taxa de ocupação dos leitos de UTI. Jornal da Manhã, Vídeos G1. Disponível em: https://g1.globo.com/ba/bahia/edicao/2020/04/22/videos-jm-de-quarta-feira-22-de-abril-de-2020.ghtml. Acesso em 23 abr 2020

Pura maldade. Blog do Angelo Rangoni. Maringá News, 22 abr 2020. Disponível em https://angelorigon.com.br/2020/04/22/pura-maldade-2/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=pura-maldade-2. Acesso em 23 abr 2020

Na linha de frente contra o coronavírus, tem que ter sangue no olho, diz enfermeira alvo de fake news, por João Pedro Pitombo. Folha de S. Paulo, 27 abr 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/amp/cotidiano/2020/04/na-linha-de-frente-contra-o-coronavirus-tem-que-ter-sangue-no-olho-diz-enfermeira-alvo-de-fake-news.shtml?utm_source=twitter&utm_medium=social&utm_campaign=comptw&__twitter_impression=true Acesso em: 27 abr 2020.

Estamos sob cuidado, não em guerra!

Por uma nova metáfora para hoje.

Não, não vou me render. Isto não é uma guerra, não estamos em guerra.

Após o período de quarentena, paciente com COVID-19 é levado para ver o pôr do sol, na cidade de Wuhan, China. (Reprodução/ Reuters)

Desde que a narrativa dominante na Itália e no mundo sobre a pandemia assumiu uma terminologia de guerra, isto é, imediatamente após a situação de saúde em qualquer país mudar drasticamente para pior, procurei uma metáfora diferente para descrever adequadamente o que estamos vivendo e sofrendo e, ao mesmo tempo, oferecer elementos de esperança e de senso para os próximos dias.

O recurso à metáfora da guerra foi apontado e criticado por alguns comentaristas, mas tem fascínio, alcance e eficácia imediatos, de modo que não é fácil eliminá-la. Com grande interesse, li algumas contribuições, não numerosas, até onde posso, publicadas nos últimos dias: o artigo de Daniele Cassandro – “Estamos em guerra! Coronavírus e suas metáforas”, para o Internazionale, o mini-levantamento de Vita.it sobre -“O vocabulário da virulência da guerra”, o texto de Gianluca Briguglia em seu blog –“Não, não é uma guerra”, e o excelente trabalho de Marino Sinibaldi na Rádio 3, que dedicou um episódio de “Acertos de linguagem” para esse mesmo tema, e também introduziu uma possível metáfora alternativa: o “vocabulário da tenacidade”.

As dezenas de artistas, estudiosos, intelectuais, atores convidados a escolher e ilustrar uma palavra significativa neste momento da história, forneceram uma lista valiosa que vai de “harmonia” à “proximidade”. Mas não consigo encontrar um termo que possa ser uma metáfora para toda a narrativa da realidade que estamos vivendo.

No entanto, como disse no começo, não me rendi: não estamos em guerra!
Por causa de minha própria história, minha formação e minhas condições de vida, conheço bem a cordilheira distintiva, a da luta espiritual e de uma guerra santa ou justa, ao longo da qual é fácil perder o equilíbrio e cair na interpretação de si mesmo, da própria vida e do curso da história segundo um modelo de guerra.

Mas então, se não estamos em guerra, onde estamos? Estamos sob cuidados! Não apenas os doentes, mas nosso planeta, todos nós. E o cuidado inclui todos os aspectos de nossa existência, neste período indeterminado de pandemia e também no “depois”, que virá.

Agora, tanto a guerra quanto os cuidados precisam de alguns atributos: força (uma coisa diferente da violência), perspicácia, coragem, resolutividade e também tenacidade.

A guerra e o cuidado são sustentados por um alimento muito diferente. A guerra precisa de inimigos, fronteiras e trincheiras, armas e munições, espiões, enganos e mentiras, crueldade e dinheiro. Por outro lado, o cuidado é nutrido por outras coisas: proximidade, solidariedade, compaixão, humildade, dignidade, delicadeza, tato, escuta, autenticidade, paciência, perseverança.

Todos nós podemos ser agentes reais desse cuidado do outro, do planeta, de nós mesmos com eles e elas – todos e todas – homens e mulheres com suas crenças ou descrenças, de acordo com sua capacidade, competência, princípios inspiradores, capacidades físicas e psicológicas. Médicos em seus consultórios e hospitais, enfermeiras, paramédicos, virologistas e cientistas, que são agentes de assistência. O mesmo com funcionários públicos e governamentais, servidores públicos do bem comum. Assim como trabalhadores em serviços essenciais, psicólogos, assistentes sociais, pessoas envolvidas em associações voluntárias. Assim como professores e estudantes, homens e mulheres das artes e da cultura. Assim como padres, bispos e pastores, ministros de diferentes cultos e catequistas. Assim como pais e filhos, amigos e vizinhos. Assim como os agentes de cuidados,os doentes, os moribundos, os fracos (bens preciosos e frágeis “a serem tratados com cuidado”), os pobres, os sem-teto, os imigrantes, os que estão as margens da sociedade, os presos, as vítimas de violência doméstica e de guerras…
A consciência de estar no cuidado, portanto, e não em guerra, é uma condição fundamental também para o “depois”.

O futuro será colorido pelo que fomos capazes de viver nesses dias mais difíceis, será determinado pela nossa capacidade de prevenção e assistência, começando pelo atendimento ao único planeta à nossa disposição. Se formos e pudermos ser guardiões da terra, a própria terra cuidará de nós e protegerá a condição indispensável para nossa vida.

As guerras terminam, ainda que recomecem, mas os cuidados, por outro lado, nunca terminam. Se, de fato, existem doenças que (por enquanto) não podem ser curadas, não existem e nunca existirão pessoas para as quais não possamos oferecer assistência.

De fato, não estamos em guerra, estamos sob cuidados! Vamos cuidar uns dos outros.


Motoboys de São Paulo não protestaram contra João Doria

FOTO: Reprodução/ Sindicato dos Motoboys de São Paulo

Uma manifestação de motoboys na capital paulista em 20 de abril de 2020 ganhou espaço no noticiário. Eles reivindicavam melhores condições de trabalho durante o período de quarentena, preconizado como medida para conter o avanço da Covid-19. 

O fato ganhou outras proporções no momento em que a youtuber católica, Sara Winter, que se declara ex-feminista, compartilhou, no mesmo dia, em sua página no Facebook, a notícia, originalmente publicada pela Folha de S. Paulo, e incluiu a seguinte chamada:

“Os trabalhadores paulistas das mais variadas classes de serviços já estão sentido o peso das atitudes impensadas e autocráticas do governador João Doria!”. 

Imagem: Reprodução/Facebook

Sara Winter é consultora particular do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, função assumida depois de ter sido cotada como Coordenadora Nacional de Atenção Integral à Gestação e Maternidade no mesmo Ministério. Segundo biografia disponível em seu site, após passar pela experiência traumática de um aborto, Sara converteu-se ao catolicismo, tornando-se uma das maiores lideranças e conferencista pró-vida e pró-família em nível nacional e internacional. 

O alcance e o volume de usuários em sua página no Facebook impressionam. São mais de 270 mil usuários impactados por cada publicação. Portanto, o post do dia 20 de abril, que sugere que o protesto dos motoboys foi motivado em oposição ao governador João Doria (PSDB), é submetido à checagem como forma de verificar a associação entre a matéria compartilhada do site da Folha de S. Paulo e a chamada redigida por Sara Winter.

Vale lembrar que, desde o registro da primeira morte pelo vírus em São Paulo, no dia 17 de março, Doria, determinou uma gradual quarentena no estado de São Paulo. A primeira medida foi a suspensão das aulas nas escolas e, logo em seguida, o fechamento do comércio, shoppings e serviços não essenciais. A ação foi, depois, acompanhada por outros governadores. 

Matéria da revista IstoÉ, de 03 de abril, traz avaliação favorável a João Dória, também realizada por outras mídias de que, ao assumir as medidas preventivas de isolamento social, indicadas pela Organização Mundial de Saúde, o governador paulista “virou um antídoto contra Bolsonaro e suas atitudes irresponsáveis de mandar todo mundo voltar ao trabalho, o que, se tivesse sido obedecido pela população, teria levado o País a números devastadores como os já registrados nos EUA, Espanha, Itália e China”.

A matéria compartilhada por Sara Winter

O Coletivo Bereia checou a matéria original postada por Sara Winter como crítica a João Doria, veiculada no site da Folha de S. Paulo, às 12h54, de 20 de abril. Não é difícil constatar pela simples leitura que o protesto não foi direcionado ao governador, mas, sim, contra as empresas de entregas por aplicativo. Segundo a reportagem, os motoboys pediram melhores condições de trabalho ao longo da quarentena contra o novo coronavírus. Entre os questionamentos, destacaram-se o bloqueio dos entregadores diante da não conclusão das rotas, a falta de suporte mediante casos de acidentes no trabalho e ainda o baixo valor que a categoria está recebendo para fazer as entregas neste contexto de pandemia.

A matéria da Folha de S. Paulo traz depoimentos de alguns motoboys que salientam, de forma clara, a insatisfação com empresas como Rappi, iFood e Uber Eats, e em qualquer momento mencionam o governador de São Paulo.

O desfecho do protesto dos motoboys ocorreu na cidade de Osasco (SP). De acordo com a matéria da Folha, após a moto-carreata, que começou na Praça Leonor Kaupa, no Bosque da Saúde (zona sul), o grupo de manifestantes se aglomerou em frente à sede do iFood, onde, por meio de um carro de som, discursou contra as empresas de entrega por aplicativo.

A Folha de S. Paulo ainda apurou os questionamentos com as empresas. O Rappi informou por meio de uma nota que segue atendendo às recomendações preconizadas pelos órgãos de saúde, como a entrega sem contato, oferta de máscaras e álcool em gel 70% ou mais, disponibilização de botão específico para que o entregador informe possíveis sintomas de Covid-19, além da criação de um fundo de apoio financeiro por 15 dias para motoboys diagnosticados com a doença. 

À Folha, o iFood também confirmou a entrega de equipamentos de proteção individual (EPIs) e a implantação do fundo de apoio financeiro. Sobre o valor do frete, o aplicativo afirmou em nota que considera o tipo de rota percorrida, o modal utilizado e a cidade, salientando ainda que só bloqueia aqueles que utilizam a plataforma de forma indevida. Já o Uber Eats, segundo a publicação, não se posicionou.

A situação dos entregadores por aplicativos

O protesto apurado pela Folha de S. Paulo, no dia 20 de abril, ocorreu três dias depois de um outro, também em São Paulo, realizado por entregadores, contra a redução do valor pago por entregas realizadas por aplicativo. Nessa ocasião, os trabalhadores queixavam-se de má remuneração e falta de equipamento de proteção. 

Quem também noticiou a difícil situação que os entregadores se encontram foi Gregório Duvivier, em seu programa Greg News, intitulado “Delivery”. Em um dos depoimentos, um entregador mostrou que, passado um ano que trabalhava no aplicativo, teve que fazer o dobro de entregas para conseguir ganhar a metade do que tinha recebido no ano anterior. Ele revela o quanto as empresas de aplicativos de entrega reduziram o valor do pagamento pelas entregas em tempos de pandemia, quando os pedidos se multiplicaram, ou seja, ganham mais e pagam menos aos trabalhadores.

Por outro lado, após ouvirem o desafio ao final do programa Greg News, programadores criaram um canal digital para conectar entregadores e advogados trabalhistas.

O estímulo à informalidade desde a “Reforma Trabalhista” aprovada no governo Temer, em 2017, e enfatizada pelo governo Jair Bolsonaro, fez crescer intensamente o número de trabalhadores entregadores vinculados aos aplicativos de serviços de entrega. São inúmeras as situações de exploração destas pessoas que não gozam de direitos como máximo de horas de trabalho, férias, seguro-acidente, licença de saúde, como mostram as matérias da Folha de S. Paulo e do programa Greg News. Alguns entregadores recorrem à Justiça.

Em março, o TRT reconheceu o vínculo empregatício entre um entregador e o aplicativo Rappi e reformou sentença de 1ª grau. O reclamante deu entrada em ação trabalhista em 2019, após ter sido bloqueado permanentemente do aplicativo e pedia verbas indenizatórias.  Em seu voto, o desembargador ainda lembra que o aplicativo trabalha com uma classificação dos entregadores, repercutindo na divisão do trabalho.

 Há quem se preocupe com esta situação. Um projeto de lei (PL 391/2020) do senador Fabiano Contarato (Rede-ES) determina que empresas de aplicativos de entregas paguem seguro de acidentes pessoais para os entregadores. Segundo o senador, o número de acidentes envolvendo esses trabalhadores aumentou 64%, no estado de São Paulo. Por isso, é necessário exigir o direito para preservar a vida dos entregadores.

Por que Sara Winter atribuiu o protesto dos motoboys a João Doria?

João Doria: "Eu não criei o 'BolsoDoria', movimento nasceu ...

O governador João Doria, que fez campanha utilizando a alcunha “BolsoDoria” tornou-se, recentemente, o novo inimigo da rede de apoio ao presidente Jair Bolsonaro. Esta oposição já vem ocorrendo desde 2019, quando Doria passou a fazer críticas ao governo Bolsonaro e apresentar-se como pré-candidato à Presidência da República nas eleições de 2022. A disputa entre Doria e Bolsonaro foi potencializada agora durante a crise da pandemia de coronavírus. Enquanto o presidente defende um isolamento parcial, Doria determinou, em linha com a Organização Mundial da Saúde, uma quarentena mais ampla. Ou seja, “mais do que uma discordância técnica, os seguidores de Bolsonaro veem na postura de Doria uma estratégia para derrubar o capitão reformado na corrida presidencial de 2022”.

A partir desse posicionamento dissonante, o governador João Doria passou a ser alvo de várias notícias falsas criadas ou compartilhadas por partidários do presidente.

"Meme" que circula em meio aos bolsonaristas ataca Doria e Covas por medidas contra coronavírus - Reprodução
Imagem que circula em redes bolsonaristas

Bereia selecionou algumas:

3. Ditador comunista João Doria rouba 500 mil máscaras da 3M ( Reprodução/ Youtube)

A checagem do Coletivo Bereia, portanto, conclui que a postagem na página do Facebook da ativista católica anti-feminista Sara Winter é enganosa. Ela faz uso da matéria da Folha de S. Paulo sobre o protesto de motoboys em São Paulo, por conta de direitos negados pelas empresas de entrega por aplicativos, e propaga para seus seguidores que os trabalhadores protestavam contra “as atitudes impensadas e autocráticas do governador João Doria!”. 

Sara Winter produziu desinformação com conteúdo enganoso em oposição a João Doria e recebeu várias curtidas para sua postagem, outros tantos compartilhamentos e comentários como: “#fechadoscomBolsonaro”, “Fora Doria”, “o Doriana também já está vendo o tamanho da caca e dizendo que dia 11 começa a reabrir o estado….”

Boa parte dos curtidores e compartilhadores da postagem guia-se apenas pela chamada de Sara Winter e pelo título da matéria, que não menciona contra quem é feito o protesto. Esta prática é muito comum em mídias sociais – leitores ficam apenas com chamadas e títulos e não leem o conteúdo das matérias compartilhadas por link. Muitos não apenas curtem e comentam, mas compartilham, levando adiante o engano. 

Quem deliberadamente produz material enganoso se vale desta prática comum e usa seguidores como multiplicadores de desinformação. Bereia alerta seus leitores e leitoras que atentem para esta ação injusta e os conclama a ler todo o conteúdo que lhes é destinado, comparando chamadas e títulos com o que compõe o texto e, se gerar dúvida, buscar outras fontes antes de curtir, comentar em apoio e compartilhar.

 Referências de Checagem:

Página eletrônica de Sara Winter. Disponível em: https://www.sarawinter.com.br

Dória: o antídoto contra Bolsonaro, por Germano Oliveira. IstoÉ, 3 abr 2020. Disponível em: https://istoe.com.br/o-antidoto-contra-bolsonaro/

Motoboys fazem buzinaço em SP por melhor condição de trabalho na crise do coronavírus, por Dhiego Maia. Folha de S. Paulo, 20 abr 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/04/motoboys-fazem-buzinaco-em-sp-por-melhor-condicao-de-trabalho-na-crise-do-coronavirus.shtml?fbclid=IwAR1LPBwnz6o700hcguPA6ZCc9zQUk8wln62yji-56TUnJ12-gs1EQXaiGW4 

Entregadores protestam contra redução de valor pago por aplicativos em SP, por Felipe Pereira. UOL Notícias, 17 abr 2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/04/17/motoboys-de-sp-protestam-contra-baixos-pagamentos-de-aplicativos-de-entrega.htm?cmpid=copiaecola

Greg News – Delivery. HBO Brasil, 17 abr 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=v3B9w6wWNQA 

Em meio à pandemia, redes bolsonaristas elegem Doria como novo inimigo, por Alex Tjara. UOL Notícias, 1 abr 2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/04/01/sob-coronavirus-redes-bolsonaristas-elegem-joao-doria-como-novo-inimigo.htm]?cmpid=copiaecola

Montagem de Doria pichando símbolo do comunismo viraliza no Facebook, por Alessandra Monerat. Estadão Verifica, 17 mar 2020. Disponível em: https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/montagem-de-doria-pichando-simbolo- 

Crise do coronavírus faz web relembrar que João Doria é a cara do Dio [x-vocalista da banda Black Sabbath]. UOL Entretenimento, 28 mar 2020. Disponível em: https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/28/crise-do-coronavirus-faz-web-relembrar-que-joao-doria-e-a-cara-do-dio.htm?cmpid=copiaecola. 

Ditador comunista João Dória rouba 500 mil máscaras da 3M. Youtube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ansugBxxGO8

TRT-2 reconhece vínculo empregatício entre entregador e aplicativo Rapp, por Rafa Santos. Conjur, 11 mar 2020. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2020-mar-11/trt-reconhece-vinculo-entre-entregador-aplicativo-rappi 

Aplicativos podem ser obrigados a pagar seguro para entregadores. Agência Senado, 21 fev 2020. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/audios/2020/02/aplicativos-podem-ser-obrigados-a-pagar-seguro-para-entregadores 

Jejum ajudou a diminuir pandemia no Brasil?

Debate entre influenciadores evangélicos, mensagens nas redes sociais de políticos e até declarações do Presidente Bolsonaro provocam uma guerra de números e estatísticas. Todavia, só há uma certeza: o Brasil precisa ampliar a testagem da população, a coleta, o tratamento, análise e divulgação dos dados. Em meio à pandemia, uma das questões centrais é a necessidade de transparência, dados confiáveis e atualizados.

O Deputado Federal Marco Feliciano (PODE/SP) publicou em seu perfil no Twitter em 14 de abril:

O deputado citou “dados do Ministério da Saúde” – e não foi o único a se referir a números sobre a COVID-19 que são conflitantes. Foram muitas as postagens sobre dados com respeito a infectados e mortos que apareceram nas mídias sociais nos últimos dias. Bereia checou a guerra de índices e narrativas sobre os infectados e os óbitos por COVID-19 (nome da doença causada pelo coronavírus).

Há narrativas que tentam associar alguns números à queda de mortes devido o “Dia de Jejum Nacional de combate à COVID-19″, que aconteceu dia 05 de abril de 2020 por meio de uma convocação feita pelo Presidente Jair Bolsonaro nas mídias sociais. Essa abordagem provocou uma disseminação considerável de dados incorretos.

LETALIDADE ALTA – O vírus é mais letal que H1N1 e continua matando

A comparação entre H1N1 e COVID-19 demonstra que o vírus atual é mais letal, inclusive, porque é capaz de provocar danos no organismo, diretamente. Mesmo que a taxa de letalidade do novo vírus seja de 0,5% a 1%, como sugerem consultores científicos do governo britânico, a letalidade seria, ainda, muito maior do que a da pandemia de H1N1, que é estimada em 0,02%, segundo um estudo liderado pela cientista Maria Van Kerkhove, da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Além da letalidade dez vezes maior do que o H1N1, o impacto maior da atual pandemia é sobre os sistemas de saúde. Até os países com mais recursos sofrem com a falta de leitos. Em todo o mundo, a taxa de ocupação é de 14 a 21 dias de internação em UTIs. A noção de que somente os idosos e pessoas com doenças preexistentes ficam doentes, também não é verdade.

A GUERRA DOS NÚMEROS – De Nova York a Brasília

Nos Estados Unidos, o debate sobre o número de mortos e infectados pela COVID-19 aumentou quando o prefeito de Nova York sugeriu que o número poderia ser maior. De fato, um dos maiores desafios na estatística é a inclusão de pacientes que morreram fora de hospitais, mas que já tinham testado positivo, bem como aqueles não testados mas que manifestavam os sintomas da doença.

No Brasil, os números também estão sendo debatidos. Em parte, a confusão é provocada pelas diferenças nas métricas, comparação de números sem tratamento epidemiológico (por semanas de evolução da doença) e, principalmente, pela não testagem da população. Por falta de coordenação, prefeituras e governos estaduais estão tomando decisões em relação a testes, equipamentos e tratamentos diversos de forma desarticulada.

Enquanto o Ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS) esteve à frente do processo de combate à pandemia pelo governo federal, os protocolos da OMS foram seguidos, e os óbitos e casos eram contabilizados considerando-se cada cem mil habitantes. Esta tem sido a prática adotada para taxas oficiais, em todas as epidemias. É desta forma que o Instituto Nacional do Câncer (INCA) trata o avanço dos casos, e as prefeituras e governos acompanham os casos de dengue e meningite (número/cem mil habitantes).

Em postagem no Twitter, em 15 de abril de 2020, o Presidente Jair Bolsonaro expôs outra forma de contabilização dos casos: por milhão de habitantes. Ainda que matematicamente possível, faz parecer que a mortalidade é menor. Este tipo de contagem mostra, apenas, a gravidade do problema sob outra perspectiva. Além disso, o dado atual é de que a letalidade está em 10 óbitos/milhão de habitantes.

DA ESPANHOLA à COVID-19 – a pandemia sempre nasce da mutação de um vírus

A gripe “espanhola” que se tornou uma pandemia, de janeiro de 1918 a dezembro de 1920, infectou 500 milhões de pessoas em dois anos. O surto ganhou esse nome por causa da liberdade da imprensa espanhola em noticiar os casos, incluindo até a família real espanhola. Na época, não havia o sequenciamento genético dos vírus – algo que ajuda a entender melhor como as doenças se espalham, por isso, a origem acertada da “gripe espanhola” é desconhecida.

Atualmente, por conta do sequenciamento genético possível, a OMS passou a designar as doenças por siglas, como a COVID-19, causada pelo SARS-COV-2. O vírus é uma mutação de outro conhecido anteriormente, que provoca Síndrome Aguda Respiratória – ou seja, uma doença que acomete os pulmões e impede a pessoa de respirar. A falta de UTIs, de respiradores e a evolução rápida para o óbito fazem da atual pandemia um desafio global.

Ao lado da mudança de nome e da leitura dos casos a cada cem mil habitantes, os cientistas também verificam grau de contágio e, principalmente, as evoluções por semanas. Saber se o vírus contagia mais pessoas e verificar em quantas semanas os pacientes pioram é essencial para a prevenção e o tratamento. Até 19 de abril de 2020, segundo dados da Universidade Johns Hopkins (EUA), foram confirmados 2.401.379 casos de COVID-19 no mundo e 165.044 mortes . Até a mesma data, o Brasil confirmou 38.654 casos e 2.462 mortes.

No Brasil são feitos poucos testes, sendo o país com uma das menores proporções no mundo e isso impacta de forma significativa na subnotificação. Além disso, há desafios relacionados às dificuldades existentes para a atribuição da causa da morte. Com isso, o número de mortes confirmadas e divulgadas pode não ser precisa em relação ao número real de mortes por COVID-19. A cada dia somam-se aos resultados divulgados, óbitos que ocorreram entre 1 e 30 dias anteriores à essa data de divulgação. Ou seja, além da pressão sobre leitos de UTI, o país pode experimentar também uma pressão sobre a coleta de dados e registro de óbitos. Chama a atenção, em todos os boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde, uma nota: os dados podem ser revistos.

POR QUE PRECISAMOS SABER LER GRÁFICOS?

Em 14 de abril de 2020, o pastor Marcos de Souza Borges, também conhecido como Pr. Coty, um dos diretores da organização Jovens com uma Missão (JOCUM), publicou no Instagram que a redução do número de mortes no Brasil por coronavírus coincide com o 5 de abril, dia do Jejum Nacional. O pastor induziu seus leitores à conclusão de que a campanha religiosa convocada pelo Presidente da República foi bem sucedida no combate ao vírus.

Bereia checou vários exemplares do Boletim Epidemiológico (material publicado pelo Ministério da Saúde) de onde foi retirado o gráfico do pastor Coty (Boletim Epidemiológico 8). A cada dia, novos óbitos são incluídos nas estatísticas, isso se dá em função da demora na confirmação do laudo da causa morte por COVID-19. Há um tempo de testagem que precisa esperar e uma fila cada vez maior diante do aumento do número de casos. O colapso que se anuncia para o sistema de saúde inclui a capacidade de diagnóstico e análise de dados. E esses desafios somam-se à questão da subnotificação.

Ao analisar os boletins 8, 9 e 10 do Ministério, foi possível identificar que a cada dia é indicado um número que pode ser revisto – cerca de 20% dos óbitos anunciados ainda não tinham sido confirmados como tendo sido causados ou não por COVID-19. Além desse percentual, novos óbitos, que não eram suspeitos, podem vir a ser incluídos após o resultado dos exames. Assim, observou-se que a cada dia os novos óbitos anunciados não se concentram na véspera ou no dia em questão, mas se distribuem nos 30 dias anteriores à publicação do relatório.

É significativa a diferença na distribuição dos dados quando observado o período entre 15 de março e 6 de abril como publicado, em 6 de abril no Boletim Epidemiológico nº 7, em comparação com o mesmo período do Boletim Epidemiológico nº 10, publicado no dia 16 de abril.

Veja a seguir:

Boletim Epidemiológico nº 7

Fonte: Ministério da Saúde, Boletim Epidemiológico 7. https://www.saude.gov.br/images/pdf/2020/April/06/2020-04-06-BE7-Boletim-Especial-do-COE-Atualizacao-da-Avaliacao-de-Risco.pdf

Boletim Epidemiológico nº 10

Fonte: Ministério da Saúde, Boletim Epidemiológico 10. https://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2020/April/17/2020-04-16—BE10—Boletim-do-COE-21h.pdf

Bereia ouviu o pesquisador Alexandre Brasil (professor e diretor do Instituto de Educação em Ciências e Saúde da UFRJ), para analisar os relatórios do Ministério da Saúde e concluiu que os dados estão sendo revisados a cada boletim (sempre para cima, com mais casos). Além disso, parece não existir especificidade no Brasil, seja relacionada à vacinação por BCG ou ao clima, que impeça a concretização de um quadro similar aos outros países. Até o momento, o distanciamento social parece ser, como recomendado pela OMS, o elemento mais efetivo para prolongar o tempo de contaminação e assim permitir que o sistema público de saúde e outras instituições tenham condições de atender o volume de pessoas que serão acometidas pela doença.

A observação dos gráficos acima permite identificar um evidente movimento em direção ao aumento no número de casos, o que vai se confirmando no lento processo em que ocorrem as confirmações e ajustes dos dados divulgados. Há uma pressão da pandemia sobre a coleta de dados.

O CREMESP (Conselho Regional de Médicos do Estado de São Paulo) e os Boletins Epidemiológicos do Ministério da Saúde também alertam para o problema da subnotificação, pois a demanda de testes impacta o armazenamento e a capacidade de providenciar resultados a tempo. Ou seja, os dados apresentam a fotografia de uma realidade, com até 30 dias de atraso, período em que já existem pessoas sepultadas por COVID-19, de quem o resultado do teste chegou depois da notificação do óbito. Ainda há os casos de pacientes, com testes e “causa mortis” em aberto, por falta de conclusão no inquérito epidemiológico.

O projeto de monitoramento da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) do COVID-19, o Infogripe, somados aos dados municipais de sepultamentos (municipais), também revelam que há, no mínimo, um atraso considerável nos dados oficiais do Ministério da Saúde divulgados.

AJUSTANDO O TERMÔMETRO – Os números são confiáveis?

Para que a população tenha acesso à informação mais correta e completa possível, o Ministério da Saúde precisa divulgar, juntamente com os dados de casos confirmados e de óbitos pelo coronavírus, o índice de contaminação de profissionais de saúde e os dados de ocupação de UTIs e CTIs, – ainda que a divulgação continue a oferecer os números com atraso de 7, 14 ou 21 dias.

Levantamentos na China e na Espanha, por exemplo, indicaram um expressivo número de contaminações entre agentes de saúde.

É fundamental, também, acompanhar o número de hospitalizações por SARGs (Síndromes Agudas Respiratórias Graves), pois essas hospitalizações é que provocam o colapso dos sistemas de saúde em todo o mundo.

HOSPITALIZAÇÃO – Os casos de SARG (Síndrome Aguda Respiratório Grave) internados

CONCLUSÃO

A checagem feita pelo Coletivo Bereia conclui que as informações oficiais com dados de infectados e mortos por coronavírus no Brasil, apresentadas em 5 de abril de 2020, são resultado de dias anteriores – conforme os Boletins Epidemiológicos do Ministério da Saúde indicam. Logo, não é possível afirmar que qualquer ação de combate à pandemia no campo da ciência ou de grupos religiosos tenha influenciado nos dados daquele dia e posteriormente. As indicações de pesquisadores são de que somente no final de maio será possível ter um quadro mais fidedigno desse período. Ainda assim, a tendência dos dados é de crescimento nos números de casos e óbitos.

Afirmar qualquer coisa, neste momento, seria apressado. A única informação possível é a de que os números continuam aumentando – tanto de casos novos, como de óbitos. Portanto, qualquer afirmação de que houve relação entre o jejum convocado para 5 de abril e os dados presentes nas tabelas é enganosa (em função dos atrasos na confirmação dos números) e falsa se estiver sugerindo que há redução de casos no Brasil.

O dia destacado pelos influenciadores midiáticos evangélicos citados nessa checagem corresponde à situação da pandemia nas semanas anteriores. Portanto, a correlação é FALSA se estiver sugerindo diminuição após o jejum e ENGANOSA se estiver sugerindo correlação com a data do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde. Mas, ela pode ser VERDADEIRA, se, como sugere o Ministério da Saúde, estiver medindo o impacto das medidas de isolamento social.

O número de óbitos confirmados continua aumentado (apesar da variação), com uma taxa atual de 7% em relação ao dia anterior (e o gráfico cumulativo demonstra o crescimento). Isso equivale à contabilização de um total de vendas ou de nascimentos de pessoas em determinada localidade: importa o registro total e não apenas um único dia.

Bereia ressalta que a checagem não busca refutar o poder da oração e a eficácia do jejum bíblico. Estes elementos estão fora do campo de checagem jornalística, pois são questões que dizem respeito à fé.

A responsabilidade que se deve ter com o uso de dados é que chama a atenção do Coletivo. São informações que dizem respeito a problemas graves: transparência, consistência e, principalmente, interpretação dos resultados. Isto é importante não só para a opinião pública, mas, principalmente, para o enfrentamento do vírus e da sua letalidade. Portanto, pelas evidências e orientações existentes até o momento, Bereia reforça que os leitores respeitem o distanciamento social para a preservação das vidas e para permitir que a rede pública de saúde tenha condições de atender quem está doente.

ÓBITOS DIA A DIA (TODO O BRASIL)

ÓBITOS POR UNIDADE DA FEDERAÇÃO (ESTADOS)

Referências de Checagem:

BBC – H1N1 não era mais letal. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52078906

UFMG – Comparações entre H1N1 e Covid-19. Disponível em: https://www.medicina.ufmg.br/h1n1-fatos-e-fakes/

Agência Brasil – Contágio, letalidade e idade. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-03/covid-19-nao-e-doenca-somente-de-idosos-alerta-oms

UOL – Letalidade da Covid-19. disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2020/04/13/covid-19-e-dez-vezes-mais-letal-que-h1n1-diz-oms.htm

OMS – Artigo acadêmico (sobre a Pandemia de H1N1 – assinado por Maria Van Kerkhove. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/irv.12074 N1):

USP – Sequenciamento, mutações e nome da doença. Disponível em: http://www.fm.usp.br/fmusp/noticias/-genoma-do-sars-cov-2-do-primeiro-caso-de-covid-19-da-america-latina-sequenciado-em-48-horas-no-instituto-adolfo-lutz

PAHO – Dados covid-19 nas Américas – Organização Panamericana de Saúde. Disponível em: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6101:covid19&Itemid=875

FIOCRUZ – Pressão sobre sistema, leitos e SARGs. Disponível em: https://portal.fiocruz.br/observatorio-covid-19

UOL – Países com mais testes tem menos mortes. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/04/por-que-paises-com-mais-testes-por-milhao-de-habitantes-tem-menos-mortes-por-covid-19.shtml

O GLOBO – A Gripe Espanhola. Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/gripe-espanhola-menosprezada-em-1918-epidemia-parou-rio-matou-presidente-24337334 e também no link: https://oglobo.globo.com/fotogalerias/gripe-espanhola-ha-102-anos-produziu-cenas-consequencias-semelhantes-as-da-atual-pandemia-de-covid-19-veja-fotos-24341592

UOL – Subnotificação em Nova York. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2020/04/08/numero-real-de-mortes-por-covid-19-em-nova-york-e-muito-maior-diz-prefeito.html  e também no link: https://www.nytimes.com/2020/04/12/nyregion/coronavirus-new-york-update.html

FIOCRUZ – Subnotificação e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARG). Disponível em: https://portal.fiocruz.br/noticia/infogripe-registra-crescimento-de-casos-de-sindrome-respiratoria-aguda-grave

Agência Brasil – Invalidação de 20 mil amostras. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-04/covid-19-cremesp-denuncia-instituto-por-invalidar-20-mil-amostras

BAHIA NOTÍCIAS – Nove em cada dez casos não são detectados no Brasil. Disponível em: https://www.bahianoticias.com.br/saude/noticia/23872-nove-em-cada-dez-casos-de-coronavirus-nao-sao-detectados-no-brasil-afirma-estudo.html

ESTADÃO – Cemitério de SP já tem mais enterros e abre sepulturas. Disponível em: https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,coronavirus-cemiterio-de-sp-ja-tem-mais-enterros-e-abre-sepulturas-prefeitura-contrata-coveiros,70003258701

UOL – Mortes com suspeita de coronavírus já são até metade dos enterros em cemitérios públicos de SP. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/04/mortes-com-suspeita-de-coronavirus-ja-sao-ate-metade-dos-enterros-em-cemiterios-publicos-de-sp.shtml

G1 – 3500 profissionais da saúde contaminados por coronavírus. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/03/22/quase-3-500-profissionais-da-saude-contaminados-por-coronavirus-na-espanha.ghtml

G1 – Mais de 1.700 agentes de saúde infectados na China. Disponível em: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/02/15/coronavirus-mais-de-1-700-agentes-de-saude-infectados-na-china.ghtml

Portal Arquivos. Disponível em: https://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2020/April/17/2020-04-16—BE10—Boletim-do-COE-21h.pdf

Pandemia nos dados. Disponível em: https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=10163684310075232&id=866465231

Sobre Economia e Saúde: pelo fim da dicotomia, em tempos de pandemia

Há muito se tem discutido e exposto a falsa dicotomia entre salvar nossa economia ou cuidar da saúde. Embora, por si só, já seja estranho que se coloque em risco a vida das pessoas para poder “salvar a economia”, aqui há um erro grande. Se proposital, não há como saber. Porém, se sim, estamos lidando com líderes que traem conceitos, traem projetos e traem a própria inteligência e consciência, em nome de escondidas e “tenebrosas transações”. No caso de não ser proposital, estamos diante da ignorância. E quando a ignorância governa, quem sofre é o povo. Ou seja, nas duas opções, estamos em perigo.

Economia, em sentido estrito, significa “a arte de gerir um lar” (oikos = casa; nomos = lei, normas). Na gerência do lar, todos sabemos, dinheiro, saúde, regras de convívio e lazer fazem parte. Não é sábio gerenciar apenas o dinheiro e não se preocupar em educar os filhos. Não há sabedoria em escolher bons alimentos, mas não se respeitar o horário de cada refeição. Também não se compra sobremesas para agradar às crianças e se evita de ensiná-las a comer e apreciar legumes, verduras e frutas.

Economia, portanto, não é dinheiro. Não é setor financeiro. Sequer é empresariado. Economia é tudo o que fazemos nas ruas: como andamos; como saudamos aos outros; onde comemos; onde vestimos; se damos ofertas na igreja; se damos ou não esmola ao morador de rua; qual condução pegamos ou se pegamos condução; se compramos drogas ilícitas; se seguimos à receita médica; se vamos sentar para assistir televisão enquanto comemos, ou se a hora do almoço é a hora de apenas estar com a família; se vamos mandar mensagens para outras pessoas enquanto estamos no bar, com amigos; qual partido apoiaremos nas eleições; qual candidato rejeitaremos; e até se vamos ou não postar um texto em uma Rede Social. Nossa moral e nossos valores éticos definem e fazem parte dos rumos econômicos. Triste do economista que vê a economia separada da política, do cotidiano humano, animal, vegetal, ou, ainda, dos fenômenos naturais. Triste, também, do político que trata a economia como domínio de um ou mais setores com interesses próprios.

Diante da pandemia que vivemos, ao colocar para o povo que é preciso olhar a saúde sem perder de vista a economia, se cria uma compartimentação que gera confusão e debate onde deveria haver acordo óbvio. Cuidar da saúde do povo não é, apenas, cuidar para que ele tenha um contágio menor possível de Covid-19. Cuidar da economia não é colocar o trabalhador para andar e exercer seu ofício na rua, correndo o risco de contágio.

Cuidar da saúde do povo inclui cuidar da saúde mental desse povo e do seu alimento. Coisas que não ocorrerão se não houver emprego ou dinheiro para pagar as dívidas. Mulheres estão trancadas em casa, por vezes, com homens violentos; crianças estão trancadas em casa com abusadores; desempregados estão pensando em suicídio; as contas não param de chegar e não deixam de aumentar seus juros.

Entender que a quarentena imposta é a única forma de cuidar da saúde da população é um erro. Descuidar que esses cuidados aqui são, por definição, cuidar da economia, é ignorância ou erro e, nos dois casos, um perigo enorme.

Ignorar que esse povo é quem movimenta todos os tipos de concepção econômica, que merece e tem o direito de ser tratado com dignidade, é uma vergonha para qualquer líder.

Por definição, cuidar da economia é cuidar da saúde do povo. Cuidar da saúde do povo é garantir um bom futuro para a economia.

Somente um capataz, sob ordem do senhor da terra, ordena que escravos trabalhem a despeito do perigo que correm. Somente alguém pouco preocupado com a economia, em seu sentido rico, coloca os trabalhadores na linha de frente, sem real necessidade. Economistas como Henrique Meirelles e Raul Velloso defendem, por exemplo, imprimir dinheiro. Não é o momento de se preocupar e não haverá, segundo eles, problema com inflação, com o que estamos vivendo, ao tomar essa decisão. Tudo que é importante se mostra relativo, diante das situações e a situação atual é de emergência e responsabilidade.

Mesmo economistas liberais e o mundo liberal se dobram diante da necessidade de um Estado que saiba gerir e saiba se preocupar com seu povo. Ao invocar essa falsa dicotomia, o governo quer dividir com a população uma responsabilidade que ela, na Constituição e no voto, confiou a ele. Cabe à população, apenas, seguir as regras de distanciamento. Cabe ao governo, e apenas a ele, conseguir levantar ou gerar os recursos para bancar esse povo que morre e teme a morte dia pós dia.

É preciso ampliar o conceito de Economia, ou resgatar seu conceito. E é preciso tirar das costas do povo sofrido a responsabilidade de morrer em nome do sustento de um sistema financeiro que se pretende dono do governo e dono do conceito econômico. Essa tutela da democracia precisa parar. Vários ensinamentos se tiram dessa situação que o mundo vive. Um destes é que nosso sistema socioeconômico, onde o Estado é jogado de lado e os setores privados trabalham como “senhores da terra em um mundo que legaliza escravos”, não funcionou. Todos, nesse momento, precisam do Estado e o Estado brasileiro não pode se colocar como exceção nesse processo. Portanto, junto com tudo isso, é preciso se imprimir, mesmo que pela força da Lei ou da Justiça, uma obrigação ao governo para que lide com a situação de forma decente e digna. Como o povo precisa, tem direito e merece.

O perigo da Infodemia

Publicado no Correiro Braziliense por Flávia Ribeiro* dia 11/04/2020

Enquanto os cientistas correm contra o tempo para a descoberta da vacina da Covid-19, o jornalismo sério e responsável avança para evitar um dos maiores perigos dessa pandemia: a desinformação.

O termo infodemia é justamente a propagação massiva de informações falsas a respeito da pandemia do Coronavírus. Como jornalista e advogada, assisti uma live sobre Fake News e Direito Digital da Escola Superior de Advocacia do Rio de Janeiro (ESA-RJ), que me fez refletir sobre quais são os verdadeiros influenciadores nessa guerra para conter o crescimento de casos da doença. 

Quem verdadeiramente está estimulando ou não a sociedade brasileira a respeitar as diretrizes sugeridas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelos governos? Qual tem sido o papel e o impacto dos veículos de comunicação tradicionais e das redes sociais nesse contexto? Como vigiar e controlar a disseminação de fake news? Como o Direito Digital pode ajudar a punir os responsáveis por essa infodemia, que agrava o quadro de confusão mental e ansiedade entre as pessoas? 

Não há dúvidas de que a revolução experimentada pelo jornalismo digital mudou drasticamente o modo de produção de notícias. No entanto, o compromisso com a veracidade dos fatos, essencial para a profissão, não mudou. Nas últimas semanas, a sociedade em geral tem participado de uma maratona de lives no Instagram e usado desenfreadamente as plataformas digitais que abriram o seu conteúdo gratuitamente. Com as mudanças revolucionárias que a Internet trouxe para o jornalismo nas últimas décadas, ficou cada vez mais complexo checar fontes, desvendar edições de vídeos muito bem feitos, fazer uma “perícia” cuidadosa para identificar na velocidade dos fatos o que realmente é desinformação e o que, no meio do processo, já viralizou em centenas de grupos de WhatsApp. 

Como diria o poeta Mario Quintana: “o mais difícil mesmo é a arte de desler”. O Instituto Reuters (junto da Universidade de Oxford) publicou um estudo no último dia 07/04 que revela: quase 70% das informações divulgadas sobre o Covid 19 vinham de influenciadores digitais, incluindo políticos, celebridades e figuras públicas e redes sociais.  Desse total, 20% das informações eram inverídicas. 

O Instituto mapeou alguns dos principais tipos, fontes e reivindicações de desinformação do COVID-19 e analisou uma amostra de 225 “informações” classificadas como falsas ou enganosas por verificadores de fatos e publicadas em inglês entre janeiro e o final de março de 2020. Isso significa que grande parte da sociedade está consumindo notícias através das redes sociais, que são grandes distribuidoras de fake news.  Os dados demonstram ainda que 59% das postagens do Twitter foram classificadas como falsas por verificadores de fatos e permanecem em alta. No YouTube, 27% permanecem ativos e no Facebook, 24% do conteúdo com classificação falsa continuam ativos sem rótulos de aviso

Vale lembrar que os formatos de fake news que circulam excessivamente e em uma velocidade exponencial podem ser fabricados e manipulados por especialistas. Uma simples edição em centésimos de segundos de um frame de vídeo pode distorcer totalmente a informação. Os olhos de pessoas mais leigas não conseguem perceber essa mudança. Em termos de formatos, a maioria (59%) da “desinformação” coletada na amostra envolve várias formas de reconfiguração, nas quais informações existentes e frequentemente verdadeiras são geradas, distorcidas, recontextualizadas ou retrabalhadas. Pelo menos 38% das fake news foram completamente fabricadas. Boa parte dessas notícias, 87% circulam entre as mídias sociais

Além disso, é alarmante o potencial de crescimento da “deep news”. “Hoje, a deep fake não está massificada. Com ferramentas simples, não é possível montar esse tipo de conteúdo mais sofisticado. “Muitos casos, só um perito poderia identificar. Por isso, a conscientização da população é fundamental. Não há uma “reinformação” de qualidade na mesma velocidade que a tecnologia tem propagado”, alerta a advogada e vice-presidente da Comissão de Proteção de Dados e Privacidade da OAB-RJ, Samara Castro. “O custo para checagem será caríssimo e não temos tantos profissionais qualificados para fazer rapidamente o contraponto da notícia”, complementa. 

Em termos de reivindicações enganosas ou falsas sobre as ações ou políticas de autoridades públicas, incluindo órgãos governamentais e internacionais como a OMS ou a ONU, são a maior categoria aparecendo em 39% da amostra. Em termos de respostas, as plataformas de mídia social responderam à maioria das postagens classificadas como falsas pelos verificadores de fatos, removendo-as ou anexando vários avisos.

Outra pesquisa conduzida pelo Centre for Countering Digital Hate do King’s College London sugere um vínculo estatisticamente significativo entre pessoas que acreditavam em falsas alegações sobre o Coronavírus e pessoas que estavam dispostas a desrespeitar as diretrizes de distanciamento social do governo. O estudo demonstrou que 60% das pessoas que acreditam nas questões inverídicas estão mais sujeitas a descumprirem as políticas de isolamento social e confinamento doméstico

“Parece meio óbvio quando pensamos em termos de Brasil em que a descrença com a gravidade da situação é notável entre pessoas e até entre governantes. Mas a Organização Mundial de Saúde até usou nome próprio para tal fenômeno: infodemia. A receita básica que usamos agora para o vírus com o isolamento social pode ser replicada também para o combate ao espalhamento das “fake news”.

Samara Castro

Sem dúvidas, é responsabilidade de todos os jornalistas do mundo checar inúmeras vezes as fontes e duvidar do formato de eventual fato que chame atenção em grupos de colegas, amigos e familiares. Cada indivíduo também deve evitar a propagação das fake news. É preciso criar uma consciência coletiva que impeça a multiplicação das informações falsas e distorcidas – disseminadas em uma velocidade inimaginável – assim como o Covid 19 se alastra. 

Para o advogado Diogo Rais, professor de Direito Eleitoral do Mackenzie e da FGV-SP e pesquisador de Direito e tecnologia, fake news não são notícias falsas. “São notícias fraudulentas, sabidamente mentirosas, mas produzidas com a intenção de provocar algum dano”. Sem dúvida: o jornalismo está atravessando o seu grande paredão e, simultaneamente, o Direito Digital pressionado para solucionar os conflitos que não param de chegar. Como os operadores de direito devem proceder? Lutar para retirada dos conteúdos nocivos do ar, responsabilizar as plataformas de distribuição de conteúdo? 

Segundo Samara, a recomendação da Organização dos Estados Americanos (OEA) é de que os países não devem criar novos tipos penais sobre as fake news. “Os tipos penais que existem já são suficientes para punir os responsáveis”, afirma. Particularmente, acredito na responsabilização também das plataformas de conteúdo. Por sinal, esse é um momento muito oportuno para pressionar as gigantes de TI para aprimorar as suas políticas sobre termos de uso e privacidade, elevando o seu grau de transparência e governança. Além disso, temos que encontrar consenso para questões polêmicas que envolvem a liberdade de expressão, os termos de uso geral das redes sociais, etc. 

Não foi preciso ter uma decisão judicial em mãos para que o Facebook e o Instagram retirassem do ar, de forma inédita no Brasil, um conteúdo publicado por um presidente da República. O Facebook e o Twitter fizeram recentemente uma emenda na política deles sobre termos de uso e privacidade em relação às informações científicas relativas ao Covid 19. A reputação das grandes empresas de TI está em jogo e esse risco elas não querem correr. “Uma plataforma deveria ter esses poderes? Seria o caso de a sociedade depositar a sua confiança só nesse espaço dessas grandes empresas de tecnologia?”, comenta a advogada. 

Para esquentar o debate, vamos observar o uso que o presidente da República tem feito das redes sociais para se comunicar com o povo e, em contrapartida, o Ministério da Saúde que afirmou essa semana que só daria informações através da coletiva de imprensa – canal oficial para o relato diário dos boletins sobre o Covid 19. Quem merece a nossa confiança? 

Dentro do gerenciamento de crises, estamos certos que só combatemos a massa de desinformação com menos disseminação e com o aumento de noticiários responsáveis e de qualidade. O cidadão comum pode ter um faro sobre um fato falso, mas o jornalista profissional tem o dever de checá-lo e combatê-lo. Há séculos buscamos um equilíbrio entre a liberdade de expressão, ação e a regulação jurídica, visando o bem-estar comum e o respeito aos direitos fundamentais. 

A construção da democracia digital exige conhecimentos multisetoriais de filosofia, antropologia, direito, Comunicação, Tecnologia da Informação. O cenário é muito desafiador. E a pergunta que não quer calar: existe uma política eficiente de proteção dos dados e da privacidade para as pessoas? A empresa Zoom ampliou massivamente o número de usuários nas últimas semanas e teve que pedir desculpas publicamente por ajustar problemas de segurança na plataforma. 

Segundo Eduardo Magrani em “Entre dados e robôs – Ética e Privacidade na era da Hiperconectividade” (Arquipélago Editorial), pesquisas estimam que, em 2020, a quantidade de objetos interconectados passará dos 25 bilhões, podendo chegar a 50 bilhões de dispositivos inteligentes. As projeções para o impacto deste cenário de hiperconexão na economia são impressionantes. Só para mostrar o universo da Internet das Coisas que estamos mergulhados e como essas questões ficarão cada vez mais complexas nas próximas décadas. “Coisas inteligentes, capazes de imitar o comportamento humano e de outras máquinas, aprender com os próprios erros e demonstrar curiosidade, possuindo alto poder de investigação e processamento”, lembra Marco Aurélio Castro em “Personalidade jurídica do robô e sua efetividade”.

A boa notícia é que as novas pesquisas sinalizam que podemos mudar esse jogo. Como todo bom trabalho de comunicação, através de um diagnóstico bem preciso, é possível traçar estratégias que possam atingir de forma mais assertiva a opinião pública. E, nada melhor do que o bom jornalismo, para combater essa infodemia. Estamos em um grande laboratório de testes reais e devemos olhar com cuidado para os desdobramentos do consumo e compartilhamento irresponsável de notícias. 

Discussões sobre vigilância e abuso de poder digital ultrapassaram os episódios assustadores de Black Mirror. É só ligar a TV que emissoras estão fazendo campanha publicitária para alertar o espectador o que é “fato” ou “fake”. Como ficam as leis sobre direitos humanos, direitos de personalidade, o direito à privacidade e, ao mesmo tempo, cruzar tudo isso com os códigos de ética de empresas, governos, ONGs e todos os setores da sociedade? O dever de casa é longo, mas a quarentena tem demonstrado um momento muito apropriado para investigarmos a fundo todas essas questões e ressignificar o verdadeiro papel do jornalismo como essencial para a democracia e à proteção do bem maior: a vida! 

Fonte:

Institute Reuteurs – “O Perigo da Infodemia

Consultor Jurídico – “A melhor tradução para fake news não é notícia falsa, é notícia fraudulenta

*Flávia Ribeiro é jornalista e advogada

Novo coronavírus e o triunfo dos fundamentalismos

Vassíli Grossman foi um jornalista soviético. Ele era correspondente durante a defesa de Stalingrado e da queda de Berlim, na II Guerra Mundial.  Entre os livros que escreveu está Vida e Destino.

A obra tem uma história curiosa. Ela foi confiscada pela KGB nos anos de 1960 e só foi publicado na década de 1980.  O livro é o relato de um correspondente de guerra que acompanhou, do início ao fim, a Batalha de Stalingrado.

O autor narra sobre os campos de concentração, a vida nos campos de prisioneiros militares, os interesses dos altos comandos da guerra. De um lado, Hitler. E de outro, Stalin.  Grossman capta, e talvez aí esteja a energia dramática da narrativa, a força da insensatez e da irracionalidade humanas. A cidade de Stalingrado já estava toda destruída. Não havia comida, o frio era intenso, mas, apesar disso, os soldados lutavam por casas que estavam parcialmente em pé.  

Deste livro tirei uma frase que carrego comigo desde quando o li. Ela é como um Salmo ou como um daqueles mantras que a gente sussurra continuamente para guardar fundo na memória e no coração o que não desejamos esquecer. A frase diz: “Quando o fascismo triunfa, o ser humano deixa de existir, restam apenas criaturas que sofrem modificações internas”. Sobre esta modificação interna das criaturas humanas em contextos desumanizados é que tenho pensado bastante. 

O Brasil nunca teve um processo profundo de humanização.  Os crimes contra seres humanos marcam nossa história.  O genocídio indígena, a escravização das pessoas negras, os feminicídios, as contínuas e permanentes violações da Mãe Terra, as várias ditaduras que reprimem e assassinam seus opositores e opositoras, as mortes de deuses e deusas pela intolerância religiosa, as torturas e desaparecimentos políticos durante os anos da ditadura civil-militar. 

 Somos um país formado por criaturas modificadas que se alimentaram da dor e do sofrimento alheios. A capacidade de refletir e assumir a responsabilidade destas atitudes também é algo que nos falta.

Ernst Bloch afirma que o grau de responsabilidade individual depende do poder de ação dos sujeitos. Isso significa que as classes e as elites dirigentes têm o dever de ser as primeiras a assumir suas responsabilidades. No entanto, tais elites se negam a qualquer responsabilização dos crimes, dos genocídios, das escravizações. O sofismo cínico busca eliminar a possibilidade de algum peso de consciência. Nossa história de horror fica condenada a uma eterna repetição. 

No Brasil, um caminho que tende a ser utilizado para a expiação da culpa e da responsabilidade é o cristianismo, embora, importante ressaltar, a fé cristã se oriente pela responsabilização dos erros humanos.  

O pecado, que é a tentação eterna do ser humano, colocar-se no lugar de Deus e decidir sobre a vida e a morte, exige autorreflexão e transformação.  

Mas parece que o cristianismo e seus valores foram manipulados para aliviar qualquer possibilidade de responsabilização pelos inúmeros crimes contra a humanidade aqui praticados. Com isso, permanecemos como um país de criaturas com modificações internas. 

Esse cristianismo distorcido, manipulado e instrumentalizado para os interesses das criaturas com modificações internas, é o que está presente hoje na política brasileira. Trata-se de um cristianismo fundamentalista aonde Deus é mero instrumento do mercado como ideal de Reino. Em obediência e reverência a este reino, valem todos os sacrifícios. Este é o triunfo dos fundamentalismos.  

Quando vemos altas autoridades e “pessoas do bem” argumentando que é melhor perder algumas vidas para que a economia seja salva, podemos dizer que deixamos de existir.  Esta também é a morte de Deus. É a repetição da cruz.  

Novamente, são algumas poucas as pessoas que ficarão sob os pés da cruz velando o Cristo que está se esvaindo em medo, dor e solidão. Estas pessoas são as mães que perderam seus filhos e filhas para o racismo estrutural, para as diferentes formas de violência, para as execuções extra judiciais, para a fome. Há bastante tempo chamamos a atenção para a relação simbiótica entre o fundamentalismo de mercado e o fundamentalismo religioso.

O COVID-19 expõe muito bem essa relação, quando vemos o Estado justificando o corte de gastos públicos e injetando dinheiro nas veias sedentas dos bancos, mesmo que isso vá significar a morte de muitos seres humanos.

Esta relação está presente no negacionismo dos conhecimentos científicos e nas mentiras pseudo-religiosas usadas para ludibriar as pessoas e manter Deus escravizado a serviço do mercado. Estas são as homilias de uma religião que se abastece e se alimenta do sofrimento do outro. 

Outro dia, li um texto de Mike Davis com um título bem sugestivo: “A crise do coronavírus é um monstro alimentado pelo Capitalismo”.  No texto, Davis chama a atenção que o novo coronavírus escancara a desigualdade de classes que alimenta o sistema capitalista. Ele cita o exemplo da indústria de asilos nos EUA que têm fins lucrativos.  Estas clínicas atendem em torno de 1,5 milhões de pessoas idosas. Segundo o autor, é um mercado altamente lucrativo, competitivo. O número de profissionais que trabalham nestas clínicas é sempre inferior ao que realmente seria necessário. O primeiro epicentro do coronavírus nos EUA foi, justamente, em uma dessas clínicas, localizada em um bairro periférico de Seattle. Entre os vários problemas apontados para entender a proliferação do vírus está o fato de que as pessoas que trabalham nesses locais, em função dos baixos salários, atuam em mais de uma clínica. Com isso, tornam-se, sem querer, potenciais transmissoras do COVID-19.  

Um exemplo muito cotidiano do triunfo do fundamentalismo e de como nos tornamos criaturas modificadas. 

 Agora, o que chama a atenção nisso tudo, é a dificuldade em nomear este monstro metamorfoseado de deus. Há uma resistência grande, inclusive entre as criaturas menos modificadas, em dizer que o nome deste monstro é capitalismo. Alguns até celebram o fato aparente de o novo coronavírus ter acabado com o neoliberalismo financeirizado. Mas temem em falar o nome do onipotente capitalismo.  O que vem depois disso tudo?  Não sabemos.  Para alguns, se inaugurará um mundo mais solidário. Para outros, a aposta pode ser que o novo coronavírus contribuirá para a tão sonhada higienização social: os que sobram e atrapalham o sistema serão eliminados. Ficarão apenas as pessoas “justas” e as produtivas. É a realização do Reino do Mercado.  Uma sociedade mais totalitária, com maior controle, maior divisão de classes, mais hierarquias e novas fronteiras tende a ser um cenário possível.  Este é o triunfo dos fundamentalismos.  

E Jesus, nisso tudo?  Ele é um ser, pregado na cruz, em agonia! ___

Fonte: alc-noticias.net

Como será a vida depois da quarentena?

O mundo que conhecíamos até o começo deste ano não existe mais. E não será mais o mesmo quando a quarentena por conta da pandemia provocada pelo Coronavírus terminar. Sim, a quarentena vai acabar, a pandemia vai passar e a vida retomará seu rumo. Mas o mundo não será mais do mesmo jeito, os relacionamentos não serão mais os mesmos e, muito provavelmente,  não nutriremos as mesmas ideias e ideais.

A pandemia do Covid-19 tem sido uma experiência dolorosa em todo o planeta. Os relatos das pessoas em quarentena, das famílias enlutadas e das perdas econômicas formam um quadro muito triste que permanecerá por muitos anos na memória dessa geração. Embora se possa acreditar que há uma vida pós-quarentena, a única coisa que se pode afirmar sobre ela é que o mundo não voltará ao normal.

Os epicentros dessa pandemia têm sido as grandes cidades. O vírus ganhou urbanidade, está inserido na polis. Portanto, alcançou dimensão política. A batalha contra ele não é biológica simplesmente mas, também, política. O uso político da Medicina, da Epidemiologia, da Infectologia vai determinar os caminhos a seguir. Para o bem ou para o mal. As decisões que tomarmos agora serão decisivas para o que virá quando tudo isso passar.

Há um aprendizado promovido pelo sofrimento. As épocas de calamidade deixam marcas profundas na vida social, e as pessoas em geral experimentam uma transformação no seu modo de pensar e de ver o mundo. E isso também acontece com a humanidade. Após períodos de grandes epidemias, ou mesmo de grandes guerras ou de cataclismas, o mundo procurou encontrar novas alternativas para a vida. Um bom exemplo disso foi o período da peste negra, que varreu o Ocidente. Associada ao avanço das forças otomanas sobre a Europa e à necessidade de encontrar respostas para os graves dilemas humanos, a cultura ocidental se abriu para uma nova mentalidade no campo das Artes, da Ciência, da Política e da Religião com o movimento renascentista. Ideias humanistas de valorização da liberdade e da dignidade da pessoa humana, bem como a afirmação da capacidade do homem pensar por si mesmo, resultaram no que conhecemos como mundo moderno ou modernidade.

Neste mundo de agora,  açoitado por uma crise sem precedentes , será urgente refletirmos sobre três grandes questões. A primeira relaciona-se à forma como o capitalismo chegou até aqui, favorecendo a concentração de renda de uma minoria e lançando na miséria um grande número de pessoas. A segunda indaga a respeito do cenário geopolítico em meio ao avanço da tecnologia da informação, da inteligência artificial e da internet das coisas, que influencia o surgimento de uma sociedade do controle e as mudanças nas relações de trabalho. E a terceira considera a ameaça à vida no planeta, com o esgotamento dos recursos naturais para o consumo, com o desequilíbrio ambiental e o aquecimento global.

A pandemia veio acrescentar, ainda, uma questão a mais para a humanidade: como reagimos quando tudo aquilo que acreditamos que nos daria segurança e bem-estar se torna insuficiente diante de um vírus de alto poder de contágio? Ainda não se tem uma resposta a respeito disso. Trata-se de uma questão nova, que nos conduz a uma total revisão daqueles  valores que orientam a maneira como vivemos. A busca por respostas, que não serão únicas nem definitivas, deve mobilizar agora todas as áreas do conhecimento humano, em todas as culturas e em todos os espaços. Esse vírus fez com que as pessoas parassem seu ritmo de vida a fim de que pudessem perceber que há algo mais que é preciso aprender juntos a respeito do nosso valor e de nossa condição humana. E temos aprendido coisas novas.

Aprendemos que a vida não é feita de pressa ou prazos, e que precisamos de bem menos para viver. Pessoas têm encontrado novas formas de consumir, de partilhar os recursos, de produzir bens e serviços. De repente, as pessoas descobrem o valor da vida em família, o quanto os nossos idosos são importantes, como é possível deixar um legado significativo para as gerações futuras. As pessoas têm descoberto o valor da vida em comunidade, de encontrar novas formas de se relacionar com os vizinhos que enfrentam as mesmas circunstâncias.

Aprendemos que a natureza precisa de um alívio. É possível parar o ritmo frenético das cidades, das fábricas e do comércio para dar tempo à natureza para que se recomponha e nos permita um ar mais puro, um ambiente com menos lixo e com menor taxa de agressões ambientais. As pessoas estão aprendendo a reduzir  aquilo que descartam, a dar importância à reciclagem e a cuidar de assuntos como contaminação, proteção e preservação de uma forma prática, aplicada à necessidade de sobrevivência.

Aprendemos que a economia neoliberal é a pior face do Capitalismo, que acima do mercado está a vida. E vimos que é possível pará-la. De nada adiantará um mundo com tanta capacidade econômica se isso não for aplicado na promoção e implementação de medidas emergenciais para preservar a vida.  O capital acumulado não serve para nada se as pessoas morrerem nessa pandemia. E, lembremos de que pessoas também morrem de fome, de doenças graves, de violência e de exclusão. O vírus veio nos mostrar que o neoliberalismo fracassou, pois nunca precisamos tanto do Estado e das políticas públicas, sobretudo nas áreas de saúde, educação e assistência social. O poder econômico tem que estar a serviço da vida, e não o contrário. O poder econômico precisa ser usado para frear a ganância dos poderosos, para promover justiça, diminuir as desigualdades sociais e oferecer oportunidades iguais a todos.

Aprendemos que a solidariedade , essa sim, é o que realmente nos humaniza. Diante de uma ameaça deste porte, nossas ideologias se tornam inadequadas e sem sentido. Percebemos que estamos todos fragilizados, que o vírus não poupa ninguém. A mensagem de que habitamos numa mesma casa comum começa a ganhar força. Isso tem suas implicações. As soluções que serviram para a China podem servir para os Estados Unidos. O que Itália, Espanha e França enfrentam servem de alerta para o resto do mundo. Os recursos desenvolvidos por um podem atender a necessidade de todos.

Aprendemos que a Fé não precisa do templo, do domingo ou do clero. Ela precisa de algo que nos impulsione para aquilo que está além de nós mesmos. As estruturas religiosas jamais deveriam estar engessadas em fórmulas, hierarquias, calendários ou mesmo espaços sagrados. É preciso descobrir que não há nada mais sagrado que a vida, que santidade é cuidar da vida de tal modo que toda ela seja importante, que a grande sabedoria de viver é permitir que o outro desfrute das mesmas chances que eu tenho. A Fé se realiza no encontro com o outro e com o transcendente, com esse sentimento de pertença ao outro e ao transcendente, ao mesmo tempo.

Aprendemos o valor do conhecimento, da cultura, da educação e da ciência. O que seria de nós se não fossem as universidades e os centros de pesquisas para lutarem por buscas de soluções para os problemas? O que seria de nós sem a Arte e a Literatura para superarmos o tédio desses dias? São contribuições que trabalham com o imaginário, que nos ajudam a sonhar e a ter esperança de que tudo isso vai passar e que, novamente, poderemos seguir nosso rumo.

Segundo o historiador israelense Yuval Noah Harari, em artigo no jornal inglês Financial Times, de 20 de março de 2020, a tempestade da pandemia passará, sobreviveremos, mas será outro planeta, já que muitas das medidas atuais de emergência deverão ser estabelecidas como rotinas fixas. O mundo que teremos depois dessa crise dependerá das decisões políticas que serão tomadas no decorrer dessa quarentena. Mas, passada a pandemia, teremos a chance de fazer a escolha se queremos retomar a vida de antes ou se queremos nos lançar em uma nova forma de viver.

Byung-Chul Han, filósofo coreano radicado na Alemanha, em artigo no jornal El País do dia 22 de março de 2020, disse: “Precisamos acreditar que, após o vírus, virá uma revolução humana”. Em meio aos acontecimentos, sobressai o exemplo daqueles que cuidam. Desde o modo correto de lavar as mãos até o desprendimento revelado ao se dedicarem ao serviço pelo outro, os profissionais de saúde nos ensinam como podemos cuidar e nos cuidarmos. A característica principal dessa “revolução humana” haverá de ser o cuidado, firmado no princípio da solidariedade entre todos e com todas as expressões da vida, ou não teremos aprendido nada. E os grandes revolucionários desse tempo serão aqueles que se levantaram para cuidar da vida.

A quarentena vai acabar, a humanidade vencerá mais essa pandemia, isso é certo. Mas tudo o que não queremos – ou pelo menos tudo o que não deveria acontecer – é retomarmos as coisas que fazíamos do jeito que fazíamos anteriormente. A pergunta que precisa ser feita agora é: será realmente necessário fazermos as mesmas coisas que fazíamos, produzir as mesmas coisas que produzíamos, consumir do mesmo jeito que consumíamos e viver do mesmo modo que vivíamos? A resposta que nós, como humanidade, dermos à essa questão orientará a maneira como reagiremos às transformações que virão.

Fonte da imagem: newsbeezer.com

Igreja e (IR)responsabilidade social – os paradoxos da pandemia de 2020

Paradoxos de Origem

Rubem Alves sintetizou no livro “Protestantismo e Repressão” (1979) o paradoxo das igrejas evangélicas brasileiras. Um paradoxo de formação, revisitado na pandemia de 2020.  

Nós, evangélicos/as, temos uma moeda de duas faces: ao mesmo tempo, pregamos uma mensagem de amor ao próximo e de individualismo sectário. E não é só um conflito entre fé e vida. Os fundadores das igrejas cultivaram forças modernizadoras, libertadoras e comunitárias e, simultaneamente, incentivaram padrões individualistas, desencarnados, quanto aos costumes. Não desenvolvemos uma ética da liberdade, solidariedade e comunidade. Em nome de uma salvação individual, dinamitamos pontes e cortamos laços.

Isso pode mudar?

Balança Enganosa

Em primeiro lugar, para mudar, precisamos enxergar essa balança enganosa, sempre pendendo para os interesses pessoais, imobilizando colheitas e fazendo secar sementes da transformação… Há muitos exemplos de tensão entre a responsabilidade social e sectarismos na história.

Secaram e murcharam instituições que reuniam as muitas denominações e missões brasileiras para uma ação social. Sucumbiram a Liga Evangélica (1890), a Aliança Evangélica (1902), a Confederação Evangélica do Brasil (CEB, 1934) e a Associação Evangélica Brasileira (1991). Restaram o CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, membro do Conselho Mundial de Igrejas) e a Aliança Cristã Evangélica Brasileira (membro da World Evangelical Alliance). A lição histórica é escandalosa: mesmo perante crises, epidemias ou conflitos mundiais, somos incapazes de unir forças. Sectarismos são egoísmos aumentados.

“Social Branding”

Sintomaticamente, o tema da “Responsabilidade Social” – nome de um dos setores da Confederação Evangélica do Brasil – é, para os sectários, o assunto mais espinhoso. São duas palavras enormes, que se tornam explosivas quando faladas no ambiente eclesiástico. E só lá.

Até empresas, imersas na concorrência comercial, têm setores de Responsabilidade Social. Publicitários apelam ao conceito para ganhar simpatia – isto é, como estratégia de marketing. Como exemplo, nestes tempos de Pandemia, empresas de telefonia e streaming media liberaram acessos gratuitos. A Burger King está doando receitas para a saúde. Porém, as igrejas têm alergia ao binômio: “responsabilidade social”.

Imagine, porém, se as igrejas suprissem as necessidades dos moradores de rua? Ou se fizessem uma arrecadação para o SUS? Assustou-se?  Essa era a prática dos cristãos do passado.

Em nossos dias, a balança da Responsabilidade Social desequilibra-se sob a mão pesada do sectarismo, do egocentrismo, do consumismo, da prosperidade econômica e da lógica de mercado.  Posturas irresponsáveis como as de Malafaia e Macedo afetam não apenas seu rebanho, precarizado, socialmente vulnerável e passível de enfermidades, elas mancham a Cruz e o Evangelho.

Em resumo, a igreja peca socialmente pelo que faz, mas também pelo que deixa de fazer. Erra no atacado e no varejo, peca no “Social Branding” (e até o Google é mais bem quisto por fazê-lo).

“TRISTEMUNHO”

Ao invés de ganhar simpatia, as lideranças que desafiam a quarentena e insultam as autoridades sinalizam às comunidades e aos vizinhos que não se importam devidamente com a saúde coletiva.

Médicos cristãos sofrem duas vezes por isso. O Dr. Wilson Bonfim, médico e cristão, utilizou suas redes sociais para orientar as pessoas, mas os comentários dos seus irmãos/ãs evangélicos/as, disponíveis em sua página do facebook, são um “tristemunho” (mau testemunho). Lembre-se porém, ao ler, que a fé, sem obras, é morta. Uma fé viva é socialmente responsável.

Tal fé moveu, em 1864, Jean-Henri Dunant, calvinista. Ele convenceu católicos e protestantes a adotarem a primeira Convenção de Genebra, obrigando exércitos a cuidarem dos feridos, independente do uniforme. Graças a Dunant, o emblema padronizado foi a Cruz Vermelha. Mas, agora, filantropia e saúde desligam-se cada vez mais da Cruz. Na Coréia do Sul, uma mega igreja foi a grande responsável pela expansão da pandemia. No Brasil, em 2020, líderes utilizam o discurso da fé contra a saúde. Silas Malafaia e Edir Macedo, por exemplo, destacaram-se em suas posturas diante das quarentenas, insistindo em manter cultos e reuniões.

Seria louvável, socialmente responsável, se mantivessem templos abertos para tratamento ou cuidado dos enfermos. Infelizmente não é. Para piorar, o discurso dos cristãos evangélicos nas redes sociais oscila entre o “destemor” e a defesa de que a pandemia faz parte de uma conspiração “comunista de origem chinesa”. A xenofobia apelidou a COVID-19 de “chinavírus”. Enquanto isso, médicos chineses são aplaudidos ao chegarem na Itália, e a OMS (Organização Mundial de Saúde) lembra que vírus e vacinas não têm bandeira ou partido político. Um dia, esse foi o discurso da Igreja de Cristo.

COMO OS PAGÃOS?

O contraste com as origens cristãs foi notado por Moses Lee (do site Coalizão pelo Evangelho) que recordou a solidariedade dos primeiros cristãos com os doentes e o cuidado com a coletividade como marcas sociais dos primeiros cristãos. Lee relembra que com o risco da própria vida, os “santos”, ofereciam apoio aos vizinhos e, no limite, iam a locais que estavam sendo evitados.

Hoje, ao desafiar as quarentenas para abrir suas igrejas para cultos egocêntricos e incentivar práticas de irresponsabilidade social, os evangélicos não estão cuidando do próximo. E, ainda por cima, passam a mensagem de que estão mais preocupados consigo mesmos, como os antigos sacerdotes dos templos pagãos. Cheios de pompa e riqueza, seguiam celebrando aos seus deuses nos tempos da peste. Atualmente, os ícones do sacrifício são cientistas, pesquisadores, médicos, enfermeiros e profissionais de saúde.

Ou seja, se a história mantiver o seu ritmo, o que é certo, os templos ficarão vazios e os consultórios lotados. Não é apenas um conflito entre a vacina e a prece.  A Covid-19 (doença causada pelo coronavírus) é mais do que um conflito entre fé e ciência, é um conflito ético, entre posturas coletivas e individualistas.

O que podemos fazer?

  • Auxiliar nossos vizinhos que têm dificuldade de locomoção, ou avançada idade;
  • Manter os vínculos comunitários, através das redes sociais e telefone;
  • Doar sangue – porque os doentes continuam precisando disso (vá ao hemocentro);
  • Oferecer suporte e cestas de alimentos e recursos para os mais pobres;
  • Orar pelas autoridades, pesquisadores, cientistas e profissionais de saúde;
  • Combater o preconceito, a xenofobia e as fake news;
  • Ver um filme: “Até o Último Homem”(2016). Veja e entenda que se sua oração não tem ação social, você está deixando pessoas feridas e enfermas pelo caminho…

EM TEMPO 1 (Atualizado em 19/03/2020)

Recebemos, com alegria, as informações e testemunhos de que algumas Igrejas estão distribuindo cestas básicas, que comunidades estão dando apoio a asilos de idosos e que grupos de jovens cristãos estão organizando doações para os bancos de sangue. Que Deus os(as) abençoe. Sejamos sal e luz!

EM TEMPO 2 – Segundo a BBC e o Jornal New York Times, Lee Man-Hee, líder da Shincheonji Churh of Jesus ajoelhou-se e pediu perdão pela sua postura durante da Pandemia, na Coréia do Sul. Em média, 60% dos casos confirmados no país são dos fiéis de sua denominação. Soube-se disso porque a Coréia do Sul fez testes em massa. Pastores coreanos de outras denominações criticaram a Shincheonji Church.

No Brasil, depois de ter dito que “governador algum fecha meu culto”, Silas Malafaia postou em suas redes sociais o aviso: “Atenção, pastores! Qualquer estado ou cidade que decreta estado de emergência, independente se tem ônibus circulando ou não, tem que parar o culto”… Em 20/03, Malafaia anunciou que vai suspender cultos, a conferir…

EM TEMPO 3 – Oremos pelos profissionais de saúde e também pelos jornalistas. Todos estão sobrecarregados. Muitos, dobrando escala.

Fonte imagem: kindpng.com

Coronavírus: dias difíceis, medidas extremas

Em resposta à pandemia do novo coronavírus, Sars-CoV-2 , na noite de quinta-feira, 12 de março último, a Igreja Batista de Água Branca decidiu suspender todas as suas atividades presenciais, inclusive e principalmente as celebrações dominicais, que serão realizadas em modo online, por tempo indeterminado.

A fé não imuniza. Jesus ensinou que as chuvas e tempestades e ventos furiosos assolam as casas de todos, bons e maus, tanto dos que têm a casa edificada sobre a rocha quanto dos que a edificaram sobre a areia (Mateus 7.24-27). A fé é o recurso para enfrentar a fatalidade, não licença para agir com desinteligência, imprudência, ingenuidade ignorante, ou teimosia. Enxergando nuvens no horizonte e sabendo das condições desfavoráveis à navegação, Paulo, apóstolo, adverte seus companheiros de viagem dizendo:“vejo que a nossa viagem será desastrosa e acarretará grande prejuízo para o navio, para a carga e também para as nossas vidas” (Atos 27.7-10). Aprendi que devemos dar passos de fé, mas por vezes a fé recomenda um passo de bom senso. Quando os ventos são contrários, fique no porto, não se arrisque sob pretexto de fé. Isso não é fé, é arrogância, é colocar Deus à prova (Mateus 4.7; Deuteronômio 6.16).

Toda cura é cura divina, inclusive aquela promovida pela medicina, disse John Stott, teólogo anglicano britânico. A cisão entre fé e ciência reflete mais ignorância que piedade. Atender às recomendações das autoridades governamentais, notadamente aquelas orientadas pelos profissionais da saúde, os especialistas e infectologistas, é uma expressão de sensatez e também uma forma de honrar a Deus, pois como bem disse Louis Pasteur, “um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima”.

A igreja é uma comunidade solidária. Não vive à parte do mundo e da sociedade, e por isso mesmo compartilha tanto as bem-aventuranças quanto as desventuras de seu povo e seu tempo. Ao despedir-se de seus discípulos, Jesus orou pedindo “não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno” (João 17.15). A esperança e as convicções espirituais não isentam das responsabilidades e dinâmicas da vida no mundo, e por isso mesmo o apóstolo Paulo nos recomenda: “exerçam a sua cidadania de maneira digna do evangelho de Cristo” (Filipenses 1.27).

A igreja tem uma inescapável função social. A igreja, em suas palavras e ações, seu kerigma e sua práxis, profetiza, ensina e serve. Walter Brueggemann, teólogo e catedrático do Antigo Testamento, disse que profetizar não é predizer o futuro, é falar a verdade a respeito do tempo presente. A verdade de hoje é que enfrentamos uma pandemia e não podemos ser displicentes nos cuidados necessários à sua superação. A medida extrema de cancelar as celebrações dominicais presenciais é também um ato pedagógico, um alerta àqueles ainda negligentes face à gravidade da situação. Acima de tudo, evitando os grandes ajuntamentos a igreja atua de maneira responsável e cuidadosa não apenas para com seus frequentadores, como também para com toda a sociedade.

Dias difíceis, medidas extremas. Diante dos imensos e múltiplos desafios impostos pelo advento do novo coronavírus vale a máxima dos Beneditinos: ora et labora. Joelhos ao chão e mãos estendidas na direção de quem sofre. Confiança em Deus e ação diligente, inteligente, amorosa e solidária para zelar pela saúde e bem-estar do mundo.

Fonte/imagem: br.freepik.com

Coronavírus e igreja: uma dupla que não é fantasia

Diante do quadro de pandemia do coronavírus, bispos católicos e pastores/as de várias igrejas ao redor do Brasil recomendam medidas de prevenção para evitar a proliferação do vírus.

Os bispos do Paraná publicaram uma nota com várias orientações de prevenção ao coronavírus, que já possui 6 casos confirmados no Estado. Os casos da dengue já ultrapassaram 50 mil, com 7 mortes desde julho de 2019.

Leia a nota na íntegra:

ORIENTAÇÃO DOS BISPOS PARA A PREVENÇÃO DA DENGUE E DO NOVO CORONAVÍRUS

“Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Cf. Lc 10, 33-34)

O estado do Paraná está enfrentando o grave problema da epidemia da Dengue. A situação, especialmente na região Norte e Noroeste do estado é grave e preocupante. O verão e a chuva favorecem o desenvolvimento do mosquito Aedes Aegypti, transmissor da doença.

Como Igreja, comprometida com a Vida, que é “Dom e compromisso”, nós, bispos do Paraná, queremos convocar todo o povo para adotar medidas de prevenção e combate a essa grave doença. Estudos já revelaram que o modo mais eficaz de combater a Dengue é eliminar os criadouros do mosquito.

Diante dessa realidade, pedimos a colaboração dos sacerdotes, lideranças, fieis e de todas as pessoas de boa vontade que valorizam a vida, para combater os focos de acúmulo de água parada. Para isso, vamos eliminar qualquer recipiente de potencial criadouro do mosquito, como: latas, embalagens, copos, plásticos, tampinhas de refrigerante, pneus, vasos de plantas, jarros de flores, garrafas, tambores, latões, sacos plásticos e lixeiras, entre outros. Verifique sempre, especialmente após a chuva, locais como: quintais, calhas, ralos, poços, fossas, caixas d’água, entre outros.

Cerca de 98% dos focos do mosquito Aedes Aegypti estão nos quintais, pátios e ambientes internos das casas e empresas. A Dengue é uma doença que pode matar, por isso é preciso que cada um faça a sua parte, assumindo a atitude evangélica do Bom Samaritano, que cuidou daquela vida que encontrava-se ameaçada. 

Além dessa realidade que tem afetado diretamente nosso povo, o mundo enfrenta mais um desafio: a difusão do novo CORONAVÍRUS (COVID-19). Assim como no caso da Dengue, todos têm responsabilidade de evitar as situações e circunstâncias que possibilitam o contágio. Por isso, recomendamos algumas medidas às paróquias e comunidades do Paraná:

1. Evitar o aperto de mãos durante a acolhida aos fiéis;

2. Não dar as mãos durante a oração do Pai nosso;

3. Omitir o abraço da paz;

4. Distribuir a comunhão somente sob uma espécie, exclusivamente, na mão, garantindo que o fiel comungue diante do ministro;

Acrescentamos, ainda, as “medidas de prevenção”, recomendadas pelas autoridades sanitárias:

1. Higienizar as mãos, muitas vezes, com água e sabão ou álcool em gel;

2. Utilizar lenço descartável para higiene nasal;

3. Proteger com lenços (preferencialmente descartáveis a cada uso) a boca e o nariz ao tossir ou espirrar;

4. Evitar tocar no nariz ou boca, após o contato com superfícies;

5. Manter os ambientes bem ventilados;

6. Repouso, alimentação balanceada e ingestão de líquidos.

Vivendo a Campanha da Fraternidade deste ano, Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso, contamos com a ajuda de todos no combate e prevenção dessas doenças. Que essa Quaresma nos inspire a ser uma Igreja cada vez mais samaritana, misericordiosa e que cuida da vida. Rogamos para todos a bênção e a proteção de Nossa Senhora do Rosário do Rocio, padroeira do estado do Paraná.

Dom Geremias Steinmetz
(Arcebispo de Londrina e Presidente do Regional Sul 2 da CNBB)

Dom José Antônio Peruzzo
(Arcebispo de Curitiba e Vice-Presidente do Regional Sul 2 da CNBB)

Dom Amilton Manoel da Silva
(Bispo Auxiliar de Curitiba e Secretário do Regional Sul 2 da CNBB)

Padre Valdecir Badzinski
(Secretário executivo do Regional Sul 2 da CNBB)

O pastor Ed René Kivitz da Igreja Batista de Água Branca, localizada em São Paulo, anunciou na noite da última quinta, 12, que a igreja iria atender as orientações das autoridades do país e em especial as orientações dos profissionais da saúde, infectologistas, especialistas, no esforço global de contenção da disseminação do vírus.

Leia o comunicado:

COMUNICADO

Em atenção às notícias a respeito da proliferação do novo coronavírus e às orientações dos especialistas e das autoridades competentes, comunicamos que no período de 13 a 19 de março todas as programações presenciais, inclusive as celebrações do domingo, 15 de março, estão canceladas.

Somamos esforços na contenção da disseminação do vírus, em razão do nosso compromisso de cuidado, não apenas com nossos membros e frequentadores, como também com nossa cidade e sociedade.

Carlos Bezerra

Coletivo Bereia conversou com o médico e pastor, Carlos Bezerra, atualmente secretário executivo do Programa Mãe Paulistana, sobre o cenário da doença no país.

Confira:

1 – Quais as consequências que a igreja deve sofrer caso não adote as orientações dos profissionais da saúde?

Carlos Bezerra – O dever da igreja é orientar, usando as informações oficiais das autoridades de saúde. Ao não fazer isso coloca em risco a saúde do seu rebanho. O coronavírus já matou mais de 5 mil pessoas ao redor do mundo. Ele é altamente transmissível e a igreja precisa fazer seu papel de prevenção. Quanto maior o número de pessoas que não estão cientes e informadas sobre os cuidados que devem ter, maior o risco.

2 – Como pastor e médico, qual sua orientação frente à epidemia?

Carlos Bezerra – Eu tenho falado sobre o assunto tanto dentro da igreja como em minhas redes sociais, sempre com a responsabilidade de mencionar apenas dados confirmados pelas autoridades nacionais e internacionais. Em casos assim, devemos trabalhar para evitar o pânico e a disseminação de notícias falsas, mas sem deixar de levar, com serenidade, os cuidados que devemos ter para prevenir a doença.

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