Nota de jornal sobre votos de cédulas falsas beneficiando Bolsonaro em 1994 é verdadeira

Bereia recebeu uma solicitação de checagem a respeito de uma suposta nota de jornal sobre candidatos beneficiados por votos de cédulas falsas nas eleições de 1994, cuja imagem foi postada pelo perfil Fatos Nacionais no Twitter. O texto traz relatos de irregularidades ocorridas em várias zonas eleitorais do Rio de Janeiro. Em uma delas, o juiz Nelson Carvalhal, da 24a. zona, afirma ter encontrado quatro cédulas falsas beneficiando os candidatos a deputado federal a seguir: Jair Bolsonaro, Álvaro Valle, Vanessa Felipe e Francisco Silva. As cédulas seriam mais finas que as originais.

Imagem: Reprodução de postagem no Twitter

Conforme edição do Jornal do Brasil do dia 17/11/1994, que pode ser acessada no acervo digital da Biblioteca Nacional, a nota é parte da cobertura do Jornal do Brasil sobre as eleições daquele ano, e foi publicada na página 5, à direita:

Desde 2004, todas as publicações produzidas em território nacional devem enviar no mínimo um exemplar à Biblioteca Nacional. O acervo fica disponível para consulta pela internet e também pessoalmente.

Álvaro Valle, Vanessa Felipe, Francisco Silva e Jair Bolsonaro, atual presidente da república, de fato saíram candidatos em 1994. Na ocasião, Bolsonaro foi reeleito para seu segundo mandato como deputado federal pelo Partido Progressista Reformador (PPR).  Recebeu 111.927 votos, sendo o terceiro mais votado no estado do Rio de Janeiro.

Bereia classifica, portanto, a nota como verdadeira. A postagem do perfil Fatos Nacionais foi publicada na edição do Jornal do Brasil, em data indicada na imagem compartilhada e foi motivada pelo debate em curso no país sobre os temas do voto em papel e do voto impresso, retomados periodicamente pelo presidente Jair Bolsonaro e seus partidários. Em breve Bereia publicará reportagem sobre estes temas, tendo em vista a ampla circulação de desinformação em torno deles.

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Referências

Perfil Fatos Nacionais no Twitter, https://twitter.com/fatosnacionais/status/1348729114463776769 Acesso em: [17 mai 2021]

Biblioteca Nacional, http://memoria.bn.br/pdf/030015/per030015_1994_00223.pdf Acesso em: [17 mai 2021]

Biblioteca Nacional, https://www.bn.gov.br/sobre-bn/deposito-legal Acesso em: [17 mai 2021]

Câmara dos Deputados, https://www.camara.leg.br/deputados/74847/biografia Acesso em: [17 mai 2021]

Tribunal Superior Eleitoral, https://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-anteriores/eleicoes-1994/resultados-das-eleicoes-1994/rio-de-janeiro/resultados-das-eleicoes-1994-rio-de-janeiro-deputado-federal Acesso em: [17 mai 2021]

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Foto de capa: Jornal do Brasil/@fatosnacionais (Twitter) (Reprodução)

Site de notícias gospel do Brasil publica desinformação sobre eleições presidenciais dos EUA

O site evangélico de notícias Gospel Prime publicou matéria, em 7 de novembro, intitulada: “Joe Biden vence eleições nos EUA em disputa com suspeita de fraude”, apresentando um panorama de como se deu o pleito.

Inicialmente, Gospel Prime trouxe os números das eleições atualizados em 05 de novembro. Segundo a publicação, em uma disputa acirrada pela Casa Branca, Joe Biden foi eleito presidente dos Estados Unidos com 284 delegados e 50,6% dos votos populares, contra 214 delegados e 47,7% dos votos populares do republicano Donald Trump. Para além dos números, a matéria apontou a possibilidade de fraude no processo de apuração. “Biden usou sua conta no Twitter para se declarar vencedor, apesar de ainda ter de enfrentar uma longa batalha judicial que será travada pelo seu adversário, Donald Trump, atual presidente do país e que aponta indícios de fraudes”, ressaltou a publicação, que afirmou também que, ainda durante o processo de contagem, Trump chegou a usar o Twitter para colocar em dúvidas a apuração, dizendo que estava liderando em vários estados-chave controlados por democratas, mas que essas vantagens desapareceram após “cargas surpresas de votos” serem contabilizadas.

Gospel Prime afirmou que o republicano alertou que os democratas estariam “tentando roubar” as eleições e sugeriu que entraria com ação na Suprema Corte do país, já que havia suspeita de fraudes. Trump disse ainda na madrugada que, por direito, havia ganhado a eleição e que entraria com a ação para impedir uma “fraude”. Como já evidenciado anteriormente, apesar da Suprema Corte poder ser solicitada a intervir, as alegações parecem não ter qualquer perspectiva de sucesso.

Apenas repetindo o que é veiculado pela campanha de Trump, sem pesquisa e verificação próprias do jornalismo, a publicação no site evangélico ainda retomou as alegações infundadas do presidente dos Estados Unidos sobre o estado de Wisconsin, onde diversas denúncias de fraudes começaram a surgir na internet. De acordo com a matéria, o diretor de campanha de Trump, Bill Stepien, teria informado que o republicano pediria recontagem de votos naquele estado. “Wisconsin tem sido uma disputa frágil como sempre soubemos que seria. Tem surgido relatos de irregularidades em vários condados de Wisconsin, que levantam sérias dúvidas sobre a validade dos resultados. O presidente está bem dentro do limite para solicitar uma recontagem e faremos isso imediatamente”, reproduziu Gospel Prime a partir da afirmação em nota divulgada por Bill Stepien.

O processo eleitoral nos EUA

A matéria do site Gospel Prime, já mencionado em diversas checagens do Bereia categorizadas como falsas e enganosas, se junta a outros conteúdos sobre as eleições dos EUA, veiculados em espaços digitais religiosos no Brasil e no exterior, classificados como desinformação. Boa parte desses conteúdos diz respeito a supostas fraudes no processo eleitoral daquele país para favorecer o candidato Joe Biden (Partido Democrata).

Até a data de apuração desta reportagem, em 13 de novembro de 2020, as eleições presidenciais dos Estados Unidos ainda não contavam com um vencedor oficial, embora o democrata Joe Biden venha sendo amplamente aclamado presidente eleito do país. Segundo matéria da BBC, no último dia 07, de acordo com as projeções de resultados, o candidato ultrapassou o número de 270 votos do Colégio Eleitoral (de 538) necessários para chegar à presidência. No mesmo dia, Biden e sua companheira de chapa à vice-presidência Kamala Harris, à frente na apuração, fizeram discursos comemorando a vitória e, desde então, falaram sobre planos de governo.

Com comparecimento recorde, não visto no decorrer de 120 anos, Biden foi o candidato que mais recebeu votos na história recente do país, ultrapassando a marca anterior, de 69,5 milhões de votos recebidos pelo democrata Barack Obama em 2008.

De acordo com matéria publicada pela BBC News Brasil, a disputa foi apertada, uma vez que, nos Estados Unidos, o presidente é eleito de forma indireta, pelo Colégio Eleitoral, e receber a maioria do voto popular não desponta como sucesso garantido. A disputa pelos 270 votos do Colégio Eleitoral, necessários para ganhar a Presidência, segundo a BBC, foi acirrada e incerta até o último momento.

O cenário aponta para o fato de que, apesar de ter sido derrotado, Trump teve desempenho melhor do que o esperado e, segundo números parciais, recebeu neste ano mais de sete milhões de votos a mais do que havia recebido em 2016, quando também perdeu o voto popular, mas conquistou os votos necessários no Colégio Eleitoral para chegar à Casa Branca.

BBC News Brasil indicou ainda que, contrariando as expectativas dos democratas, o Partido Republicano ampliou a presença na Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil), recuperando algumas das cadeiras perdidas na eleição legislativa de 2018.

A expectativa de que o Partido Democrata conseguiria a maioria no Senado também foi colocada em xeque, apontou a mesma publicação. Assim, com poucas cadeiras ainda sem resultado confirmado, a única esperança do partido é vencer em janeiro duas disputas de segundo turno na Geórgia, Estado tradicionalmente republicano, apesar de Joe Biden aparecer à frente na apuração da eleição presidencial.

A base eleitoral fiel e o apoio de quase metade do país devem fazer com que, mesmo fora da Casa Branca, Trump continue sendo um líder influente no Partido Republicano. “O resultado desta eleição demonstra que o trumpismo continua firme e forte”, disse à BBC News Brasil o cientista político Justin Gest, professor da Universidade George Mason, na Virgínia. “Mesmo perdendo, será uma forte influência sobre os americanos e o futuro do Partido Republicano daqui para a frente”, afirmou o cientista político, autor do livro The New Minority: White Working Class Politics in an Age of Immigration and Inequality (A Nova Minoria: Política da Classe Trabalhadora Branca em uma Era de Imigração e Desigualdade, em tradução livre).

Enquanto isso, todo o mundo acompanha os desdobramentos do pleito, cuja previsão de finalização corresponde a 08 de dezembro, segundo estabelecido pela lei federal americana.

O pontapé das denúncias infundadas de fraude

Antes mesmo do início da contagem dos votos, o atual presidente Donald Trump já fazia alegações sobre fraudes nas eleições presidenciais, mesmo sem provas. Ele chegou a citar os votos antecipados pelos correios como possível brecha para fraudes, e chegou a afirmar que entraria com um processo para parar as contagens de votos recebidos pelo serviço postal após o dia 03 de novembro, quando ocorreu a eleição.

Em seu perfil no Twitter, diversos posts do dia 04 de novembro apontavam para supostas ações fraudulentas:

“Eles estão encontrando votos de Biden em todos os lugares – na Pensilvânia, Wisconsin e Michigan. Tão ruim para o nosso país!”, dizia em um dos posts, que contou com quase 180 mil comentários, 200 mil retuítes e cerca de 630 mil curtidas.

No dia 05 de novembro, a apuração na Filadélfia, maior cidade do estado da Pensilvânia, foi suspensa para que a Justiça tomasse decisão sobre qual deve ser o papel dos observadores dos partidos. Segundo informado em matéria publicada no G1, os partidos podem indicar representantes para acompanhar a abertura e a contagem dos votos nos centros de apuração. Após um homem, aparentemente do Partido Republicano, reclamar que não conseguia enxergar as informações escritas do lado de fora de uma das cédulas, a campanha de Trump protocolou – e ganhou – uma ação na Justiça estadual. A distância permitida para os observadores acompanharem a contagem foi reduzida para seis pés (cerca de 1,5 metro). A decisão judicial veio na manhã da quinta-feira, 05 de novembro.

No dia posterior, o presidente acusou, via perfil no Twitter, o Estado da Pensilvânia de má conduta nas eleições. “Legislatura. Eles simplesmente ignoraram isso, ignoraram a Constituição. Agora nós trazemos isso para as casas de contagem e, escandalosamente, os observadores, que são as sentinelas da integridade e transparência, foram excluídos. A Pensilvânia tem se conduzido de uma maneira horrível e sem lei, e espero que isso seja corrigido na Suprema Corte dos Estados Unidos. Além disso, essas votações tardias após o dia das eleições são ilegais, exatamente o que o presidente tem dito. O Supremo Tribunal, em circunstâncias extraordinárias, foi capaz de proferir decisões em questão de dias”, dizia Trump.

A administração da cidade, comandada por democratas, no entanto, recorreu a uma instância superior para reverter a decisão, mas o recurso ainda não foi julgado. A disputa judicial fez com que os trabalhos de contagem ficassem parados de uma a duas horas, segundo o jornal “Philadelphia Inquirer“.

Depois da aparente derrota, um movimento se iniciou nas redes sociais quando Trump afirmou que milhares de votos haviam sido recebidos “ilegalmente” na Pensilvânia e em outros estados-chave das eleições.

Contudo, de acordo apuração realizada pelo Portal G1, até a data de fechamento desta matéria, 13 de novembro, nenhuma prova concreta foi apresentada pelo atual presidente americano. Mesmo assim, Trump iniciou uma ofensiva judicial contra o resultado das eleições em estados-chave, porém, várias das ações já foram rejeitadas por tribunais estaduais. As ações dos republicanos visam principalmente os votos enviados pelo correio.

Publicação do Portal UOL do dia 12 de novembro apontou outras proposições sobre as medidas do presidente Trump e seus aliados para reverter os resultados. Segundo a matéria, eles insistem por diferentes meios, a exemplo do Twitter, de entrevistas e de comunicados, que todas essas investigações em torno das urnas levarão à reversão do resultado das eleições. UOL afirma que, no dia seguinte à eleição, após falar em fraude eleitoral sem provas, Trump anunciou: “Iremos ao Supremo Tribunal Federal”. Mas para que isso aconteça, várias etapas anteriores devem ser superadas. As equipes jurídicas precisam primeiro contestar o resultado nos tribunais estaduais, ainda que o procurador-geral do país também tenha aprovado “investigações preliminares” por procuradores federais, uma medida bastante incomum nos EUA.

Os juízes estaduais teriam então que decidir a favor da disputa e ordenar uma recontagem. Neste sentido, a Suprema Corte poderia ser solicitada a intervir. Mas, por mais que a campanha de desinformação em torno de Trump diga o contrário, nenhum dos casos acima mencionados parece ter qualquer perspectiva de sucesso.

O ponto comum entre todas essas ações judiciais que já foram indeferidas por juízes ao redor do país é que os advogados de Trump acabam, por falta de provas, apresentando no tribunal uma versão bem mais branda das acusações que o presidente faz em público. Enquanto o presidente fala sem provas no Twitter em “fraude desenfreada”, os advogados, ao contrário de Trump, têm de fundamentar suas alegações perante o juiz, o que desponta como uma difícil missão.

Na mesma semana, circulou em mídias sociais uma postagem mostrando supostas cédulas de votação das eleições dos Estados Unidos despejadas em uma estrada. Segundo a publicação, a imagem foi feita pelo FBI, que teria descoberto que houve fraude no pleito. Por meio de filtro de verificação de notícias do Facebook, usuários do aplicativo solicitaram que esse material fosse analisado, o que foi checado pela Agência Lupa, que categorizou a informação como falsa.

Fonte: Agência Lupa

A imagem é de setembro de 2018 e trata-se, na verdade, de correspondências que foram encontradas despejadas no chão por um funcionário dos correios na região de Pennsauken, em Nova Jersey, Estados Unidos. Portanto, não há qualquer relação com as eleições presidenciais norte americanas de 2020.

Segundo reportagem do The Philadelphia Inquirer, a foto enganosa foi feita por um morador da região, que publicou a cena em seu Facebook em 30 de setembro de 2018, com a seguinte legenda: “Se você está procurando sua carta, talvez esteja na estrada do rio pela estação 36…Compartilhe esse post”. De acordo com o texto do Philadelphia Inquirer, o carteiro responsável pela entrega pediu demissão do serviço. “O Correio da Estação Roxborough vai entregar a correspondência”, informou o Escritório do Inspetor Geral dos Correios dos EUA, na ocasião.

A peça de desinformação vem sendo compartilhada nos Estados Unidos desde setembro deste ano e já tinha sido desmentida por diversos veículos internacionais, a exemplo da NBC. Entretanto, voltou a ser usada para se disseminar desinformação s em mídias sociais, após a campanha do presidente Donald Trump pedir a recontagem de votos nos estados de Wisconsin e Michigan. Devido à pandemia da Covid-19, milhões de eleitores votaram por correio.

Desinformações sobre as eleições americanas continuam a circular em sites brasileiros

Mesmo sem o resultado do pleito à presidência dos EUA, iniciado em 03 de novembro, no Brasil, notícias falsas e enganosas continuam a circular nas redes sociais digitais e sites noticiosos.

No dia 10 de novembro, o portal G1 publicou matéria sobre a utilização da plataforma que se mostrou capaz de detectar centenas de contas brasileiras no Twitter disseminadoras de desinformações sobre a eleição americana.

De acordo com o criador do sistema que monitora robôs Christopher Bouzy, os autores das contas nem ao menos tentam disfarçar a origem, deixando claro que são brasileiras.

Fonte: Portal G1

A plataforma Bot Sentinel, que monitora atividade de robôs no Twitter, alertou no dia 10 de novembro, a existência de mais de mil contas brasileiras tentando espalhar desinformação sobre a eleição americana na rede social. Entre os exemplos apresentados estão contas que repetidamente publicam a hashtag #BidenWasNotElected (“Biden não foi eleito”), mensagem de apoio às alegações sem provas de Donald Trump sobre um suposto “roubo” na disputa presidencial para beneficiar o democrata Joe Biden.

À reportagem da GloboNews, Bouzy informou: “Desde a semana passada, acompanhamos as atividades das eleições e, desde o primeiro dia, percebemos que contas brasileiras estavam espalhando desinformação. Mas na semana passada eram aproximadamente 370-400 contas brasileiras no Twitter. Agora são bem mais de 1000 se aproximando de 2000″. O depoimento também foi publicado na matéria do portal G1.

Segundo o portal, o estadunidense nota que muitas das contas repetem insistentemente as mesmas mensagens de desinformação. “O curioso e bizarro é que não estão tentando esconder seu país de origem. A maioria dos atores estrangeiros que estão disseminando desinformação tenta se disfarçar como alguém dos Estados Unidos. Mas esses [brasileiros] estão fazendo isso à vista de todos”, comentou. “Contas estrangeiras no Twitter que disseminam desinformação sobre as eleições nos EUA não são raras, mas é incomum que haja um número significativo de contas brasileiras no Twitter que tentam semear a discórdia em uma eleição presidencial dos EUA”, disse o criador do Bot Sentinel à reportagem.

Em sua conta no Twitter, Bouzy também publicou as constatações evidenciadas pela plataforma de checagem:

Fonte: Twitter

Neste cenário, sites religiosos como o Gospel Prime entram novamente no rol da desinformação.

Entenda como será definido resultado das eleições

Ao contrário de muitos outros países, os Estados Unidos não têm um órgão eleitoral central que decide e certifica os resultados das eleições nacionais — o equivalente ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no Brasil, por exemplo. Vale ressaltar que cada um dos 50 Estados tem suas próprias regras e prazos diferentes, o que explica os desarranjos dos últimos dias, com foco em alguns Estados em disputa.

Em 2020, porém, enfrenta-se uma situação incomum por vários motivos. Por um lado, a pandemia do coronavírus e as precauções necessárias fizeram com que a votação pelo correio disparasse, o que desacelerou a contagem em alguns lugares.

Por outro lado, de acordo com matéria da BBC “há um presidente que não quer assumir as projeções de Estados que dão vitória a Biden, rompendo com uma tradição em que o perdedor reconhece a derrota e oferece sua colaboração ao presidente eleito”. Segundo a publicação, ao invés disso, a campanha de Trump e sua equipe jurídica entraram com ações judiciais em Estados importantes para bloquear o processo pelo qual as autoridades eleitorais certificam os resultados.

É importante entender ainda o conceito de Certificação de Resultados, ou seja, a comprovação que os Estados emitem confirmando o vencedor das eleições naquele território. Embora o processo varie por Estado, a certificação geralmente é concluída nas semanas seguintes às eleições, antes que a delegação de cada Estado no Colégio Eleitoral se reúna, em meados de dezembro, para emitir seus votos.

Os resultados geralmente divulgados na noite das eleições são considerados não oficiais e as autoridades de cada Estado levam algum tempo após as eleições para encerrar a contagem dos votos.

Para verificar os resultados, os funcionários checam os dados da contagem dos votos e confirmam se o manuseio das cédulas foi correto. O ato de certificação é normalmente realizado pelo chefe do órgão eleitoral estadual, pelo governador ou por uma junta de membros de campanha.

Cada Estado tem processos diferentes para verificar a contagem final dos votos antes que as autoridades certifiquem formalmente os resultados, o que pode demorar algumas semanas, com cada condado certificando os resultados de sua região e enviando-os às autoridades eleitorais estaduais em um prazo que varia de local para local.

Muitos dos Estados já concluíram esse processo, mas em muitos deles o período de certificação permanece aberto. Nos atemos aos prazos dos seguintes Estados, apurados pela BBC:

  • Nevada – Prazo termina em 16 de novembro.
  • Wisconsin – Condados devem fornecer resultados certificados à comissão eleitoral estadual até 17 de novembro.
  • Geórgia – Prazo termina em 20 de novembro.
  • Michigan e Pensilvânia – Condados devem certificar os resultados até 23 de novembro.
  • Arizona – Prazo termina em 30 de novembro.

Segundo a mesma publicação da BBC, em dois desses Estados, Wisconsin e Geórgia, foi anunciado que haverá uma recontagem de votos, uma ação que só pode começar depois que a certificação for feita.

As autoridades eleitorais de cada Estado verificam os resultados para garantir a precisão da contagem final e detectar possíveis problemas técnicos, erros humanos ou fraudes (que, segundo dados históricos, são muito raras nos Estados Unidos).

Vale lembrar que essas etapas de verificação e o ato de certificação geralmente não produzem mudanças drásticas nas projeções.

Segundo estabelecido pela lei federal estadunidense, existe uma data como prazo final para as contagens denominada de “porto seguro”, que neste ano corresponde a 08 de dezembro. Até lá, de acordo com a lei federal, todas as informações de resultados estaduais devem ter alcançado o “porto seguro”, ou seja, devem ter sido entregues pelas autoridades eleitorais de cada Estado.

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Bereia categoriza a matéria de Gospel Prime, que afirma suspeitas de fraude nas eleições dos Estados Unidos, como enganosa. Isso porque, segundo apurações de importantes veículos que seguem acompanhando o andamento das eleições, como a BBC, até 12 de novembro, nenhuma evidência de fraude apareceu.

Não se pode descartar que, devido às alegações do presidente de suposta fraude, algumas legislaturas estaduais em mãos dos republicanos decidam não aceitar como válidos os resultados das eleições em seu próprio Estado. Assim, no dia 14 de dezembro poderia ocorrer, no Colégio Eleitoral, uma divisão entre delegados de um mesmo Estado, com um grupo dando seu voto ao vencedor nas urnas do Estado e o outro, seguindo a orientação do legislativo do Estado. Nesse caso, a lei estabelece que cabe ao Congresso dos Estados Unidos escolher entre os dois grupos de delegados enviados pelo Estado, o que não acontece desde 1876.

A matéria de Gospel Prime também falha ao não informar seus leitores/as sobre os processos que envolvem a finalização da eleição e o papel da Suprema Corte americana em relação à intervenção na contagem dos votos, o que poderia elucidar a clareza nas apurações dos votos.

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Foto de Capa: Getty Images/Reprodução

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Referências de checagem

Eleição nos EUA 2020: por que a vitória de Biden não significa o fim do trumpismo? Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54843658. Acesso em 11 de novembro de 2020.

Plataforma detecta centenas de contas brasileiras no Twitter disseminando desinformação sobre a eleição americana. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2020/noticia/2020/11/10/plataforma-detecta-centenas-de-contas-brasileiras-no-twitter-disseminando-desinformacao-sobre-a-eleicao-americana.ghtml. Acesso em 11 de novembro de 2020.

Como Trump quer reverter o resultado das urnas e qual a resposta de Biden. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2020/11/12/como-trump-quer-reverter-o-resultado-das-urnas-e-a-qual-a-resposta-de-biden.htm Acesso em 13 de novembro de 2020.

Nem Trump nem a mídia: quem realmente decide oficialmente a eleição presidencial nos EUA. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54930248. Acesso em 13 de novembro de 2020.

Contagem de votos na maior cidade da Pensilvânia é brevemente interrompida por disputa judicial. https://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2020/noticia/2020/11/05/contagem-de-votos-na-maior-cidade-da-pensilvania-e-interrompida.ghtml. Acesso em 11 de novembro de 2020.

É antiga imagem de ‘cédulas de votação’ das eleições dos EUA jogadas em estrada. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2020/11/05/verificamos-imagem-cedulas-votacao/. Acesso em 13 de novembro de 2020.

Rede Fale propõe manifesto contra o “Voto de Cajado”; leia a íntegra

Um manifesto pela democracia, pelo exercício consciente do voto e da participação popular, com a devida distinção de papéis entre Estado e Igreja. É isto que propõe a Rede FALE, uma organização de promoção da transformação social e de esforços pela justiça social, dignidade humana e defesa dos direitos humanos.

A organização propôs o Manifesto contra o Voto de Cajado no dia 28 de outubro de 2020, que, entre outros pontos, denunciou as práticas de uso do púlpito religioso como espaço de campanha direta ou indireta para candidatos ou partidos, a bênção a um candidato ou partido por líderes religiosos, a venda de apoio político por denominações ou comunidades, a definição de candidaturas “oficiais” de igrejas, a utilização da Bíblia como instrumento para legitimar ou demonizar a candidatura de quaisquer candidatos e qualquer esquema de produção de desinformação.

Abuso de poder religioso nas eleições

Embora o abuso de poder religioso não seja previsto em lei, as regras em vigor estabelecem punições para candidatos que cometem irregularidades e abusos, como indica esta reportagem da Agência Pública, sobre campanhas em templos religiosos.

O Coletivo Bereia, iniciativa de enfrentamento à desinformação em ambientes digitais religiosos, endossa a necessidade do compromisso inegociável com a verdade para que as eleições sejam limpas e justas.

O Manifesto contra o Voto de Cajado na íntegra

Leia o Manifesto da Rede Fale na íntegra abaixo:

1. É chegado mais um momento de corrida eleitoral na democracia brasileira. Tradicionalmente, as eleições são, para muitas pessoas, os únicos momentos em que se propõem debater a participação política. Lamentamos que a reflexão sobre nossa realidade política não seja parte do dia a dia, no acompanhamento de parlamentares, na discussão das grandes questões nacionais, na participação social e no acompanhamento de políticas públicas, o que nos permitiria dar um salto qualitativo na construção de nossa democracia e num projeto de nação mais justo e igualitário, com ética na política e boa governança nas políticas públicas.

2. Como observado desde a redemocratização e de forma crescente nos últimos anos, o voto evangélico é um dos componentes de grande destaque do processo eleitoral. Fruto da maciça expansão evangélica ocorrida nos últimos anos, a participação cada vez mais ativa de figuras evangélicas das mais variadas formas e concepções políticas, bem como de linhas teológicas na política brasileira impõe um desafio de análise a todos que desejam compreender a conjuntura eleitoral. Se, por um lado, o tradicional desinteresse evangélico pela política já foi superado e cada vez mais os crentes deixam de voltar seus olhares apenas para o porvir; por outro, o investimento evangélico na política comporta uma série de práticas distintas e heterodoxas que não estão em consonância nem com a melhor tradição cristã de participação política como William Wilberforce, Martin Luther King Jr., José Míguez Bonino, Guaracy Silveira, Paulo Wright; nem com valores republicanos e democráticos.

3. No Brasil, há dois perigos diante do cristão que compreende que precisa atuar politicamente: O primeiro é achar que simplesmente por “ser crente” está abençoado para a política. Essa é a concepção que leva milhões de brasileiros a votar no “pastor” ou no “irmão abençoado pelo pastor”. Como consequência, muitos parlamentares são eleitos sem compromisso com a justiça ou a democracia, sem coerência partidária, programática ou ideológica, votando sempre para a expansão do poder de suas igrejas, associações, rádios e empresas. Por fim, acaba-se acreditando que a única – e mais rápida – solução para o Brasil é eleger um governante ou parlamentar “crente”, e declarar de boca que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. O segundo problema tem maior profundidade: é quando os cristãos acham que podem transformar a declaração fundamental do “eu creio” da sua fé em lei a ser imposta pelo Estado. Isso ocorre quando queremos reduzir o que consideramos a Revelação de Deus a mera proposição de solução para nossos problemas cotidianos, acreditando que existe uma “política cristã” ou uma “economia cristã”; ou seja, que sistemas políticos e econômicos podem expressar “fé”. No entanto, nossa participação deve atender as necessidades estruturais do país, com justiça, mas não podem expressar fé no sentido da revelação de forma pura e simples.

4. Nós da Rede FALE, cidadãs e cidadãos cristãos compreendemos e identificamos nossa missão na defesa dos direitos humanos e da justiça, temos denunciado há cerca de uma década o “voto de cajado”, assim conceituado a partir de uma metáfora que carrega em si o emblema da modernização conservadora que tanto nos assola: trata-se da releitura das velhas práticas de exercício do poder, incidindo de forma autoritária sobre o comportamento eleitoral da população (consagrado na literatura política como “voto de cabresto”), agora replicadas por pastores evangélicos junto a seus rebanhos nos arraiais evangélicos de todo o país. Evidentemente, nossa denúncia tem por alvo certas formas específicas de interseção entre as campanhas eleitorais e o eleitorado evangélico. Queremos afirmar novamente, de forma clara e inequívoca, nossa perspectiva sobre o que consideramos como “voto de cajado” e uma aberta condenação desta prática como traição à melhor tradição cristã de participação política.

5. Declaramos que a fé não pode ser tratada como moeda para se conseguir vantagens materiais ou simbólicas e, lamentamos que a sede de poder seja ainda hoje uma tentação para muitas lideranças cristãs. Pactos espúrios com partidos ou candidatos para conseguir benefícios para igrejas ou denominações, infelizmente costumam acontecer “por trás dos púlpitos”, durante as campanhas eleitorais. No entanto, o papel da Igreja na sociedade, como bem disse o pastor batista Martin Luther King Jr., não é servir ao Estado ou ser seu senhor, mas zelar para ser sua consciência crítica. Portanto, entendemos que a Igreja, deve estar pronta para o Serviço, para a busca da Justiça e para a propagação do Amor, valores capazes de transformar as estruturas da sociedade.

6. Somos a favor de que haja nas igrejas um processo comunitário de reflexão, oração, que a investigação da estrutura democrática seja costumeira, para que seus membros votem com ética e discernimento.

7. Denunciamos, portanto, como “voto de cajado”, as seguintes práticas e outras similares que atentem contra a democracia.
– O uso do poder pastoral para guiar a consciência dos fiéis, em benefício de qualquer candidato.
– A utilização das Sagradas Escrituras ou de imagens bíblicas, a fim de legitimar a candidatura de uns e demonizar a candidatura de outras figuras públicas.
– A venda da consciência e dos votos dos membros da igreja a algum candidato, em troca de recompensas materiais feitas à liderança, congregação ou denominação.
– A permissão do uso do púlpito como plataforma de propaganda partidária ou de apresentação de quaisquer candidatos para fins eleitorais.
– A transferência da imagem de pastores ou líderes religiosos para candidatos em propaganda eleitoral, afirmando-os como candidatos escolhidos por Deus ou demonizando seus concorrentes.
– O compromisso com a verdade e portanto com o combate ao uso de informações falsas, o combate a destruição de reputações baseada em mentiras. Precisamos identificar e denunciar todo esquema de produção de “fake news”, o que na prática nada mais é do que produção de mentiras.

8. Convocamos os irmãos e irmãs a terem cuidado com lideranças que defendem que as Igrejas tenham “candidatos oficiais”.Que avaliem propostas e programas de governo, que investiguem a trajetória dos candidatos, compreendam quais as principais funções e papéis que serão desempenhados pelos candidatos, votando portanto, com sua consciência!

9. Cumpramos com integridade e espírito público nossa vocação de cidadãos e cidadãs brasileiros. Para os nossos irmãos e irmãs de fé, nosso estímulo é: “Pratique a justiça, ame a misericórdia e ande humildemente com o seu Deus” (Miquéias 6.8).

Manifesto Rede Fale – Voto de Cajado

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Foto de capa: Rede FALE/Reprodução

A Covid-19 e a desinformação que mata

Publicado no Diplomatique dia 11/05/2020

As mentiras que têm circulado contribuem para a tomada de decisão das pessoas e atualmente elas estão expostas a mensagens conflitantes que partem, de um lado, do presidente da República e, de outro, de um conjunto de organismo internacionais, cientistas, imprensa e alguns governadores de estado.

O papel da disseminação das chamadas fake news durante as eleições foi algo fartamente documentado e verificado, tendo ocorrido principalmente por meio do uso de aplicativos como o WhatsApp. É a chamada desinformação que tem mobilizado vários países e governos diante da compreensão dos prejuízos que a circulação de mentiras tem causado aos países e pessoas.

Isso ganha contornos extremamente preocupantes em meio a uma pandemia. Alguns continuam atuando como se envolvidos em meio à uma disputa de narrativas e, para tanto, disseminando suas mentiras como se fossem verdades de forma coordenada e intensa visando alcançar uma grande rede de pessoas que confiam  naqueles que são portadores dessas mentiras.

O problema que se estabelece nesse momento é a gravidade das consequências. Essas mentiras também contribuem para a tomada de decisão das pessoas e atualmente elas estão expostas a mensagens conflitantes que partem, de um lado, do presidente da República e, de outro, de um conjunto de organismo internacionais, cientistas, imprensa e alguns governadores de estado.

Mentira e sua infinidade de contornos

É a filósofa Hannah Arendt que nos lembra que a mentira é muito mais facilmente assimilada, pois, enquanto a verdade é única, a mentira pode assumir uma infinidade de contornos e conteúdo.

No momento, o que temos visto no Brasil, patrocinado por Jair Bolsonaro e seus apoiadores, é algo desesperador e lamentável. O mundo todo passa por um difícil momento de luto com óbvias e preocupantes implicações econômicas, mas, principalmente, passa por uma emergência de saúde pública que exige respostas e ação imediata.

Não é nada disso que vemos no Brasil. Há uma condução caótica por parte do governo federal, grande dificuldade de gestão dos dados e de condução de respostas, sejam na área da saúde, sejam na área social. Não há uma coesão em torno do desafio que assola a população. E pior:  há um conjunto de mensagens contraditórias e erráticas sendo disseminadas de forma permanente. Tudo isso ganha contornos desesperadores quando enfrentamos uma doença com alta letalidade e com enorme potencial de infecção. Toda a população mundial está suscetível a contrair a covid-19, sem exceções. Isso representa a possibilidade do colapso de vários sistemas.

O que temos então? A necessidade de uma atuação do Estado para garantir a proteção e sobrevivência dos mais vulneráveis, junto a manutenção dos serviços essenciais, com o oferecimento dos necessários Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e a realização de isolamento social para o maior conjunto possível da população. Fora isso não há mágica ou outra opção disponível no momento. A situação é urgente e essa é a única opção disponível e imediata a ser feita.

Hoje me deparei com uma mensagem sobre o falecimento de um jovem de 35 anos devido a infecção por covid-19. Era uma postagem no Twitter e a pessoa que postou argumentou que o rapaz em questão fazia postagens há semanas contra o isolamento. Resolvi olhar o perfil até mesmo para identificar se havia alguma menção ao novo coronavírus. Vi muitas postagens contrárias ao isolamento e de reprodução da narrativa de Bolsonaro. Isso tudo em uma janela de 30 dias. No dia 16 é a sua última postagem e a partir daí é possível acompanhar no perfil de sua namorada a apreensão com o estado de saúde dele, e da mãe dela, ambos com infecção por covid-19. A namorada, então, pede para que as pessoas façam isolamento social, afirma que a coisa é realmente séria. Até que ela coloca em seu perfil uma mensagem de luto no dia 1º de maio. Seu namorado faleceu 15 dias após a última postagem dele, que foi um meme sobre isolamento social e uso de máscaras.

Percorrer a timeline dele é algo que dá angústia, revolta e tristeza. Ele assimila, concorda e reproduz o discurso verbalizado pelo presidente da República, a quem ele admira e atribui liderança. Bolsonaro como homem público, mandatário máximo da nação precisa ser responsabilizado, não só pelos erros de sua gestão, mas também pela disseminação das mentiras e pela condução irresponsável que tem tido nessa grave crise.

Responsabilidade

Nem todos assuntos que comentarei aparecem no perfil dessa pessoa. Ela me ajudou a perceber como se deu na temporalidade a adoção dos discursos feitos e defendidos pelo presidente. O perfil em questão me pareceu como o de alguém que admira e identifica em Bolsonaro uma liderança. Ele é presidente do Brasil e é alguém admirado por muitos. Aqui para mim é o ponto central. A responsabilidade de Bolsonaro precisa ser assumida, já passou do tempo de ele assumir a tão exigida “liturgia do cargo”. Os resultados dessa postura errática neste momento são concretamente a morte de pessoas e isso é inaceitável. O que eu vi foi algo similar – com um rosto, nome e sobrenome – do gráfico com o número de mortes e as frases ditas por Bolsonaro. O “E daí?” se torna algo ainda mais revoltante, dolorido e triste.

O primeiro movimento de Bolsonaro em meio à pandemia foi a defesa do uso da cloroquina, isso foi no dia 21 de março. O perfil em questão não tece comentários sobre o assunto. Sabemos de pessoas que correram às farmácias para comprar o medicamento. A irresponsabilidade desse primeiro movimento foi absurda e teve implicações econômicas por meio do aumento da produção desse medicamento, provavelmente algo desnecessário. Um ponto a lembrar é que nunca houve proibição ao uso do medicamento, somente não se chegou à convicção de que ele seria a única e mais eficiente solução. Era uma alternativa a ser considerada. A primeira desinformação dada por Bolsonaro foi afirmar de que uma cura estava sendo providenciada e termina um vídeo afirmando: “tenhamos fé que brevemente ficaremos livres desse vírus”. Neste dia os dados apontavam para 18 óbitos, hoje passam de treze mil.

São cerca de duas dezenas as postagens no perfil relacionadas à pandemia. A primeira é de 23 de março, dois dias após o início da quarentena na cidade de São Paulo e na véspera do início da quarentena no Estado de São Paulo. Na postagem o comentário dele é que está seguindo o isolamento social.

Dois dias depois ele posta matéria em que Doria fala da importância das indústrias não pararem e comenta sobre o fato de Bolsonaro ter razão. Aqui foi um segundo movimento do discurso de desinformação promovido pelo presidente ao se posicionar de forma enfática contrário ao isolamento. É posta sobre a mesa uma falsa tensão entre economia e saúde. Algo inexistente e descabido. Tem início a identificação de inimigos a serem combatidos. O vírus em si, infelizmente, não é considerado nessa cruzada. Os primeiros eleitos são os governadores dos estados que decretam quarentena e que estariam atuando contra a economia e contra Bolsonaro.

No dia 27 de março o perfil analisado compartilha um vídeo gravado na véspera em frente ao Palácio da Alvorada, nele o presidente se dirige à imprensa e afirma:

“Atenção, povo do Brasil, esse pessoal aqui diz que eu estou errado porque tenho que ficar em casa. Agora eu pergunto: o que que vocês estão fazendo aqui? Imprensa brasileira, o que vocês estão fazendo aqui? Não tão com medo do coronavírus, não? Vão para casa. Todo mundo sem máscara”.

Bolsonaro ignora que a imprensa exerce serviço considerado essencial e indica para seus apoiadores mais um inimigo a ser combatido e ao qual não se deve confiar, a imprensa. Afinal eles falam uma coisa e fazem outra e se estão ali, sem medo, é porque a coisa não deve ser tão grave assim.

Também no dia 27 de março compartilha meme com o rosto do Bolsonaro em um corpo de fisiculturista em que repete parte do pronunciamento feito no dia 23 de março:

“No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”.

É a versão de que a epidemia é algo menor, fraco e, logicamente, pessoas de bem e os que são igualmente fortes como o presidente resistirão sem maiores dificuldades. A imprensa não tem medo, não há motivos para se preocupar.

No dia 28 de março um novo inimigo é definido, Rodrigo Maia é mostrado em foto com o governador de São Paulo e o comentário é de que os dois atuam conjuntamente para derrubar Bolsonaro. Líderes do executivo estadual estariam em conluio com o poder legislativo visando apenas prejudicar Bolsonaro. Essa interpretação esquece completamente que passamos por uma pandemia e que o mundo padece diante de milhares de mortes. Tudo se restringe a uma narrativa apequenada e totalmente megalomaníaca que é reproduzida a exaustão por vários dos apoiadores de Bolsonaro nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp.

Também nesse dia compartilha longa explicação sobre a “quarentena vertical”, algo que inexiste e sem base científica confiável ou comprovada. Talvez esse desejo de Bolsonaro não levado adiante possa ter contribuído, inclusive, para ele demitir o ministro da Saúde. Sobre isso Bolsonaro chegou a expressar que foi algo que ele queria que fosse feito, conforme entrevista do dia 25 de março na frente do Alvorada:

“Conversei por alto com o Mandetta (…) A orientação vai ser o vertical daqui para frente. Vou conversar com ele e tomar a decisão. Não escreva que já decidi, não. Vou conversar com Mandetta”.

O que ele sinaliza aqui, juntamente com a cloroquina, é um ponto central em seu discurso: existem opções. Há alternativas. Essa postura é pura desinformação, totalmente descolada do consenso que é compartilhado no mundo.

Comunismo

Uma cereja do bolo surge ainda no dia 28 de março, quando o rapaz compartilha um texto sem autoria que circulou bastante em várias mídias sociais e WhatsApp sobre como a quarentena representaria uma “amostra grátis” do comunismo. Aqui entra uma perspectiva que dá um caráter ideológico a narrativa posta. Há um grupo de inimigos reunidos – governadores, deputados e a imprensa – que juntos atuam para derrubar Bolsonaro e implementar o comunismo. Isso, cerca de um mês depois, seria novamente elaborado por meio de texto escrito pelo Chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, em que ele afirma estarmos diante de um “comunavírus”.

No dia 2 de abril posta em sua página o vídeo que Bolsonaro compartilhou dizendo ser o apelo de uma professora. Na verdade, uma empresária que faz depoimento emocionando afirmando entre outras coisas que precisava ir para o trabalho. Ela também pede que o exército seja colocado nas ruas e afirma serem os ministros do STF “bandidos de toga”. O grupo de inimigos fica completo com a inclusão do judiciário e a convocação do exército para nos defender disso tudo e do comunismo que foi anteriormente evocado.

Daí no dia 6 de abril ao compartilhar uma notícia sobre o anúncio, pelo governador Doria, da prorrogação da quarentena a única postura possível e necessária, a reação dele é de revolta. Para ele e tantos outros que seguem o presidente da República, que se informam confiando em sua liderança qualquer coisa que esteja associada ao isolamento social não tem mais credibilidade. Basta ser forte, não é tão sério, há alternativas e é preciso não enfraquecer a economia. Qualquer coisa que não caminhe nessa direção é um erro, uma afronta e tem como objetivo tanto derrubar Bolsonaro como implementar uma ideologia alienígena no Brasil.

É possível ver no perfil do rapaz duas postagens sobre o uso de máscaras até que na sua última postagem, feita no dia 16 de abril, ele comenta sobre um meme que faz referência tanto ao isolamento social como ao uso de máscaras. Três dias depois a sua namorada faz um pedido por orações por ele e por sua mãe, ambos com infecção por covid-19. Ela escreve: “achamos que este vírus está longe e ele está cada vez mais próximo”.

No dia 20 de abril ela posta na página do namorado. Compartilha sua preocupação dele não estar tendo apetite. Ele está internado e ela tem acesso restrito a ele. No dia 22 de abril ela faz texto pedindo para que as pessoas fiquem em casa:

“Para aqueles que também como eu não acreditavam que esse vírus age do jeito que age, cheguei até ouvir pessoas falarem que tudo isso era coisa de política, que não era para tanto. (…) Infelizmente ele atingiu os meus (…) hoje o que eu tenho para pedir é para que fiquem em casa (…), fiquem em casa e se protejam.”

Nos dias 27 e 29 de abril ela posta mensagem defendendo a necessidade de isolamento social e um vídeo de arrependimento do apresentador de TV Sikeira Jr que era enfático contra o isolamento e que também sofreu com a infecção. Infelizmente, menos de 15 dias após a última postagem do namorado, ela troca a foto de perfil por uma de luto. Ele havia falecido na madrugada do dia 1º de maio. Um dia antes do seu aniversário. A mãe dela segue internada, elas se comunicam pelo celular e, além das condolências, fica o desejo por sua total recuperação.

Como nação, como humanidade, vivemos um momento de luto e solidariedade. Também é momento de denúncia para que essa desinformação disseminada por Bolsonaro e o Gabinete do Ódio que ele mobiliza parem de promover mais mortes. Mortes que poderiam ser evitadas caso não estivéssemos diante dessa confusão de narrativas. Há toda uma condução errática por parte do governo. A covid-19 não tem merecido por parte de Bolsonaro a atenção devida, questões menores ou que poderiam esperar são colocadas na agenda do dia, inclusive com a mudança na condução do Ministério da Saúde. Isso é algo totalmente fora de sentido e razoabilidade. O que representa uma mudança dessa monta nesse momento é, no mínimo, avassalador em relação a condução e liderança que o governo federal precisaria ter.

Dentro da questão das narrativas a comunicação oficial do governo optou por afirmar o número de pacientes recuperados, como se não estivéssemos diante de uma pandemia com milhares de mortos em um país que possui uma das menores coberturas em termos de testagem da população. Assim com a mudança no ministério, além de alterações no “dress code” com a saída do jaleco do SUS e a entrada de ternos bem cortados, vemos gestores públicos falando mais na quantidade de curados enquanto os números de óbitos aumentam de forma vertiginosa. Os números que passam a ser reproduzidos nas mensagens das redes sociais do governo federal são graficamente expressos no “Placar da Vida”, no qual as mortes são ignoradas e onde vemos a reprodução de um discurso desprovido de qualquer relevância em função da fragilidade dos dados. Sobre as centenas de mortes diárias o governo parece ter somente uma resposta: “E daí?”

Há também erros em relação à proteção social, formação de filas desnecessárias e uma gestão temerária em relação a necessária assistência à população vulnerável. Os desafios são imensos e exigem dedicação e envolvimento de toda a sociedade. Enquanto isso o que vemos são disputas políticas, disseminação de mentiras e o estabelecimento de uma narrativa que pouca acrescenta ao enfrentamento da grave crise de saúde e social pela qual o mundo passa. Que possamos atuar de forma efetiva em nosso cotidiano em atos de solidariedade, mas que também a sociedade brasileira possa reagir e dar fim a propagação da desinformação que também mata e traz ainda mais sofrimento a tantas pessoas. Bolsonaro é responsável por essas mortes e pelo caminho que o país tem seguido em meio à pandemia. É tempo que uma grande e ampla união ocorra e faça frente à forma errática que tem marcado a condução do país. É preciso, em nome da preservação de vidas, dar um basta a tudo isso.


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Referências:

Foto “Bolsonaro” – Reuters via Veja

Foto Hannah Arendt: https://www.bbc.co.uk/programmes/b08c2ljg

Imagem de destaque: https://www.forbes.com/sites/petersuciu/2020/04/08/during-covid-19-pandemic-it-isnt-just-fake-news-but-seriously-bad-misinformation-that-is-spreading-on-social-media/#69f406697e55

A desinformação influencia eleições ao redor do mundo

Segundo um levantamento feito pela organização International Center for Journalists no estudo “A Short Guide To History of Fake News” publicado em julho de 2018, o uso da desinformação como ferramenta para a manipulação da opinião pública tem seus primeiros registros datados do século IV a.C.

O uso de desinformação como ferramenta política ganhou força na última década e influenciou significativamente grandes acontecimentos e eleições ao redor do mundo. No entanto, engana-se quem pensa que essa estratégia é recente.

Ao longo da história, as conspirações e farsas circularam entre todas as classes sociais, sendo parte indissociável dos governos de reis, imperadores, democratas e ditadores, navegando pelo globo desde os papiros e pergaminhos até o surgimento das redes sociais.

Segundo um levantamento feito pela organização International Center for Journalists no estudo “A Short Guide To History of Fake News” publicado em julho de 2018, o uso da desinformação como ferramenta para a manipulação da opinião pública tem seus primeiros registros datados do século IV a.C.

Seu alcance foi ampliado pela criação da imprensa, inventada pelo grafista alemão Johannes Gernsfleisch Gutenberg, que, a partir de 1493, revolucionou a produção e o acesso a conteúdos escritos ou grafados.


Escolha um inimigo por vez

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se realidade”. Esta frase é de Paul Joseph Goebbels, fundador e líder do Ministério do Esclarecimento e da Propaganda do nazismo, regime que durou de 1933 a 1945, na Alemanha.

Embora seja lembrado como um dos maiores propagandistas da história, aos 27 anos Goebbels se descrevia como um “destroço em um banco de areia”. Doutor em literatura, tentou a vida como escritor. No entanto, seu romance semi-autobiográfico, “Michael”, foi um fracasso. Para externalizar a depressão, exercitava a escrita em diários que o acompanharam até às últimas semanas de vida.

Naquela época, início da década de 1920, o cenário político alemão tinha tudo para agravar seus ânimos. A economia estava em frangalhos e a hiperinflação chegou a 1000%, fazendo com que a moeda alemã não valesse nada.

Cada bem e serviço custava trilhões de marcos (moeda alemã antes do euro). O dólar americano estava cotado a 4,2 trilhões de marcos e o penny (moeda de um cent) americano custava 42 bilhões.

Em 1924, Goebbels ingressou na política filiando-se ao partido nazista, iniciando assim uma ascensão meteórica que, de acordo com Peter Longerich, autor de umas das mais importantes biografias do propagandista, se deu pelo seu “excesso de autoconfiança, compulsão incansável pelo trabalho, submissão incondicional a um ídolo, desprezo pelas relações humanas e a disposição de passar por cima das normas morais geralmente aceitas.”

Sob o comando da máquina de propaganda nazista, Goebbels embasava a atuação do ministério em 11 princípios cunhados por ele mesmo, alguns promovendo o uso claro da desinformação.
Entre seus objetivos de governo, o aparelhamento da imprensa era um dos maiores. Além da censura, algumas das táticas adotadas passavam por exagerar boatos para que fossem noticiados, bombardear a população com novas notícias sobre um único inimigo e discutir informações com especialistas que compartilhassem o mesmo ponto de vista.

Para monopolizar a opinião pública, os nazistas se apropriaram de toda a produção cultural do país. A burocratização deste controle aconteceu pela criação da Câmara de Cultura do Império que, por sua vez, era dividida nas áreas de Letras, Imprensa, Rádio, Teatro, Cinema, Música e Artes Plásticas.

Encantado por Hitler e sedento por sua aprovação, o ministro criou o lema “um Füher, um povo”, utilizando o rádio e o cinema, principais mídias da época, como canais de disseminação da sua ideologia.

De acordo com o historiador Wolfgang Benz, autor de “História do Terceiro Reich”, apenas os filiados ao partido nazista é que podiam exercer os ofícios de jornalista, escritor e cineasta. A regra, instaurada em 1933, proibiu a presença de judeus ou de quaisquer outras pessoas que criticassem o regime.

Nós contra eles

O nazismo, assim como o fascismo e outras formas autoritárias de poder, governam alicerçados na ruptura da sociedade, dividindo a população entre “nós” e “eles”. A distinção pode ser feita com base em diferenças étnicas, censitárias, religiosas ou raciais. Esta é a tese defendida por Jason Stanley, filósofo americano e estudioso do neo-fascismo.

A criação de um passado mítico faz parte dessa estratégia. Por meio da propaganda e do anti-intelectualismo, os governos fascistas ou neo-fascistas desacreditam a compreensão geral da história.

“Depois de um tempo com essas técnicas, a política fascista acaba por criar um estado de irrealidade, em que as teorias da conspiração e as notícias falsas tomam o lugar de um debate fundamentado”, analisa o autor no livro “Como Funciona o Fascismo”, lançado em dezembro de 2018.

Para Stanley, o ataque às universidades e aos sistemas educacionais são muito importantes nos governos autoritários, porque desacreditam instituições que poderiam contestar suas ideias.
Em entrevista ao jornal El País, em 2019, ele citou o Brasil como um exemplo, entre vários Estados, de aparelhamento do setor educacional.

“Basta olhar a situação hoje no Brasil ou ler o que Masha Gessen escreveu sobre o furioso ataque ao politicamente correto nos EUA. Esse ataque ocorre no âmbito internacional; as universidades se transformam em zona de guerra”, afirma Stanley.

Nos últimos anos, a disputa acerca do “viés ideológico” presente nos conteúdos ensinados em instituições de ensino brasileiras se intensificou. O movimento Escola Sem Partido, que busca denunciar uma suposta “doutrinação política e ideológica de esquerda por parte dos professores”, ganhou notoriedade.

Fundado pelo advogado paulistano Miguel Nagib, em 2004, o grupo inspirou mais de 60 projetos de lei em câmaras municipais e assembleias legislativas pelo país. Em um vídeo publicado no site do movimento, Nagib afirma que “é muito fácil entender por que os sindicatos dos professores, que nem sempre representam seus interesses, e partidos de esquerda, em especial o Partido dos Trabalhadores (PT), são contra programa”, sugerindo que estas entidades são responsáveis por um processo de doutrinação nas escolas.

Em setembro de 2019, o ministro Abraham Weintraub lançou um projeto com visíveis influências do Escola sem Partido. No lançamento desta campanha, intitulada “Escola para Todos”, o Ministério da Educação enviou ofícios para todas as secretarias municipais e estaduais de ensino do país, determinando que as instituições de ensino adotem o “pluralismo de ideais e concepções pedagógicas, evitando o que a equipe classifica como propagandas-político-partidárias.”

Para Sabine Righetti, doutora em política científica, jornalista e professora da Unicamp, as universidades públicas brasileiras, assim como outras “instituições pensantes”, estão sendo agredidas por políticos com informações falsas, postura que incentiva parte da população a fazer o mesmo.

“Não é uma crítica do tipo ‘precisamos melhorar tal aspecto’, porque seria muito legal se o governo falasse ‘temos evasão alta, precisamos melhorar’. Elas [as universidades] estão sendo agredidas com informações falsas. O Bolsonaro dá uma entrevista falando que só universidades privadas produzem pesquisa no Brasil, o que é mentira. Depois o ministro fala que as universidades fazem balbúrdia no lugar de desempenhar academicamente, o que também é mentira”, afirmou.

A declaração de Bolsonaro, dada em entrevista ao programa Pânico da rádio Jovem Pan em abril de 2019, era de que “não tem pesquisa nas universidades” e “dessas poucas, a grande parte tá na iniciativa privada”. Informação incorreta, já que, segundo a Academia Brasileira de Ciências, mais de 95% da produção científica do país vêm de universidades públicas.

Na visão da professora, as pessoas que criticam a universidade, assim como as que atacam a imprensa, chamando-as de “vagabundas” e mentirosas, sempre pensaram assim. “Eu não acho que alguém que lia um jornal, de repente vai deixar de ler um jornal porque o presidente falou que o jornal mente”, destaca.

No entanto, segundo ela, o discurso adotado pelo governo pode incentivar ataques a instituições. “As pessoas começaram a falar mais isso, talvez empoderados ou encorajados pelo próprio governo do Brasil, dos Estados Unidos, que são governos que estão descredibilizando instituições pensantes. Isso está acontecendo em vários países.”

Além das constantes críticas às universidades e à imprensa, outras práticas, como o uso assíduo das redes sociais e os ataques à oposição e às minorias, aproximam as estratégias de desinformação utilizadas por Trump e Bolsonaro. Tanto durante suas campanhas eleitorais quanto no exercício de seus cargos como líderes do executivo, os dois políticos protagonizaram diversos momentos de disseminação de informações mentirosas ou exageradas.

Muito além das fake news

Em 2017, fake news foi eleita a “palavra do ano” pelo dicionário britânico Collins. Naquele ano, o uso da expressão na internet cresceu 365%. As chamadas notícias falsas podem ser descritas como informações falsas, geralmente sensacionalistas, disseminadas sob o disfarce de reportagens.

No entanto, o uso indiscriminado desse termo, é questionado por aqueles que estudam e combatem a desinformação.

Para Francisco Rofsen Belda, jornalista, professor da Unesp e presidente do Projor, organização responsável pelo Projeto Credibilidade, fake news é uma expressão imprecisa, “principalmente porque a ideia que carrega é ambígua e simplista demais para descrever a diversidade de desinformação que existe atualmente na internet”, explica.

Baseando-se nisso e observando a rapidez com que informações falsas se espalham entre grandes grupos de pessoas, a dupla de pesquisadores britânicos Claire Wardle e Hossein Derakshan criaram o conceito de ecossistema da desinformação, dividindo os conteúdos maliciosos em três categorias:

Informação errada (em inglês, mis-information): quando informações falsas são compartilhadas, mas sem intenção de causar danos.

Desinformação (em inglês, dis-information): quando informações falsas são compartilhadas com a intenção de causar danos.

Informação má (em inglês, mal-information): informação baseada na realidade, mas usada para infligir danos a uma pessoa, organização ou país.

De acordo com Wardle, uma parte importante do combate às informações falsas passa pela distinção correta da intenção por trás daquele conteúdo. “Estamos falando de uma sátira ou paródia que não possui a intenção de prejudicar? De um erro de apuração jornalística? Ou sobre um conteúdo fabricado, 100% falso, criado para enganar e convencer?”, questiona em sua palestra “Mais do que fake news – Entendendo o ecossistema da desinformação.”

Nesta análise, as fake news se enquadram no tipo de desinformação criada com más intenções, muito distantes do jornalismo e das notícias reais.

“Se é notícia, não poderia ser falsa, uma vez que o jornalismo profissional tem um compromisso primordial com o relato dos fatos da realidade. Se não há este compromisso, então não é jornalismo, não é notícia, mas sim um relato enganoso, de propaganda, por exemplo, que se utiliza da linguagem jornalística para confundir ou manipular o receptor”, afirma Belda. Assim, quando uma notícia está errada, incorretamente apurada, o que caberia é a correção e retratação por parte de seus autores.

Além da necessidade de pensar seu real significado, outra problemática relacionada ao uso do termo e apontada por especialistas da comunicação é a sua apropriação por políticos – e outros agentes de governo – para rotular notícias (verdadeiras) que os critiquem ou desagradem.

O verdadeiro poder é o medo

You are fake news”. Essa foi a resposta do então recém-eleito Donald Trump a Jim Acosta, repórter da CNN, na coletiva de imprensa que antecedeu a posse do 45º presidente dos Estados Unidos. Além de atacar o jornalista, Trump ainda o mandou ficar quieto diversas vezes. A hostilidade do republicano com a imprensa já deixava clara a tônica que seu governo assumiria nos quatro anos seguintes. Entre seus inúmeros alvos, destacam-se o jornalista Bob Woodward e o jornal The Washington Post.

Em 1974, Woordward e seu colega de redação Carl Bernstein foram designados a cobrir um acontecimento aparentemente comum: um roubo em um dos escritórios do Comitê Nacional Democrata, no complexo de prédios Watergate, em Washington.

A apuração do crime culminou na revelação do que ficou conhecido como o Escândalo de Watergate, o mais famoso caso de corrupção dos Estados Unidos, responsável pela renúncia do então presidente Richard Nixon.

A obra mais recente de Woodward sobre política é o livro-reportagem “Medo – Trump na Casa Branca”. Durante a produção, o jornalista passou dois anos observando os movimentos do presidente de perto. Por meio de entrevistas, conversou com conselheiros e pessoas próximas ao governo que, anonimamente, relataram os conflitos de seus bastidores.

Vermelho x azul

A eleição disputada em 2016 pelo republicano Donald Trump e a democrata Hillary Clinton, favorita da imprensa norte-americana, é um dos episódios recentes mais bem-sucedidos no que se refere ao uso de mentiras em campanhas políticas. O pleito foi marcado pela ação massiva de trolls (autores de notícias falsas), bots (robôs) e pela interferência russa, ainda não muito bem explicada.

O Facebook chegou a admitir, recentemente, que um terço da população estadunidense, cerca de 126 milhões de pessoas, foi exposta a publicações da Internet Research Agency (IRA), empresa ligada à sede do governo russo, durante o período eleitoral.

Esse ecossistema de desinformação foi fundamental para impulsionar a campanha de Trump. Desde a crise do subprime, que em 2008 lançou o mundo no pior colapso financeiro desde a década de 1930, os Estados Unidos veem crescerem as desigualdades sociais, a pobreza e o número de desempregados. Somam-se a esses fatores o discurso anti-imigração, anti-globalização, a polarização e as incertezas políticas e econômicas. Essa miscelânea, aliada à máquina de mentiras do empresário “anti-establishment”, ajuda a explicar o sucesso de Trump, que surpreendeu não só a imprensa norte-americana, mas o mundo todo.

O declínio da verdade

Um levantamento feito pelo jornal Washington Post analisou que Trump mente de forma sistemática. Somente em seu primeiro ano de governo, em 2017, o presidente fez 2.140 alegações falsas ou enganosas – uma média de 5,9 mentiras por dia. Além das mentiras, ataques ao sistema de justiça, às agências de inteligência, ao sistema eleitoral, aos funcionários públicos e, claro, à imprensa são comuns na agenda do republicano. Ao todo, desde a posse (em 20 de janeiro de 2017) até o final de outubro de 2018, foram 6.420 informações falsas ou imprecisas.

Steve Bannon, ex-estrategista-chefe de Trump, revelou que o presidente “só lê o que reafirma suas crenças”. A VICE News também divulgou que Trump recebe, duas vezes por dia, um clipping (recorte) com diversos elogios a ele, incluindo “tuítes de admiradores, trechos de entrevistas bajuladoras na TV, matérias jornalísticas repletas de elogios e, de vez em quando, fotos dele na TV parecendo poderoso.”

O boom das redes sociais

Se a desinformação sempre foi usada como tática política, o que mudou hoje foi a inserção da tecnologia. Para Francisco Belda, “temos, de um lado, o uso muito mais intenso de instrumentos tecnológicos capazes de potencializar o alcance dessas mensagens enganosas e, de outro, uma sociedade desconfiada e confundida pelo excesso de informação, cada vez menos capaz de distinguir entre o que é fato, o que é versão e o que é simplesmente inverdade.”

De fato, a tecnologia e a evolução das redes sociais tiveram um profundo impacto na produção e no consumo de notícias. Há 10 anos seria impossível imaginar que um presidente usaria o Twitter, rede cujo número máximo de caracteres é 280, como ferramenta oficial para se comunicar com a sociedade.

Contrários à atuação da imprensa, líderes como Trump e, mais recentemente, Bolsonaro, utilizam suas contas nas redes sociais para tentar minar a credibilidade jornalística. Desde a posse (1º de janeiro) até março de 2019, a mídia foi alvo de Bolsonaro no Twitter a cada 3 dias, com mensagens de teor irônico e crítico.

Até 2008, a internet tinha pouca ou quase nenhuma relevância em campanhas políticas. A mudança de paradigma aconteceu na disputa eleitoral entre Barack Obama e John McCain. À época, Obama utilizou o Myspace, Facebook e YouTube para fazer campanha e arrecadar fundos. A equipe do democrata, liderada por Chris Hughes, um dos fundadores do Facebook, chegou a investir 7,5 milhões de dólares no Google, em anúncios e links patrocinados. A estratégia funcionou, e as redes sociais tiveram papel determinante na eleição do primeiro presidente negro dos Estados Unidos.

Desde então, as plataformas digitais ganharam cada vez mais destaque em diversos acontecimentos políticos. A Primavera Árabe, série de protestos e revoltas ocorridos em 2011 na Líbia, Egito, Tunísia e outros países do Oriente Médio, não teria sido possível sem as redes sociais. Um relatório divulgado pela Dubai School of Government revelou a importância que o Twitter e o Facebook tiveram na disseminação e no fortalecimento do movimento.

Somente na Tunísia, ponto de partida das revoltas, o número de usuários do Facebook aumentou em 200 mil em apenas dois meses, entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011, período inicial do movimento. O Twitter também registrou pico de acessos dos tunisianos quando o presidente Zine el Abidine Ben Ali renunciou ao cargo e fugiu para a Arábia Saudita.

No Brasil, as Jornadas de Junho de 2013, manifestações populares que surgiram, inicialmente, em protesto ao aumento de 20 centavos na passagem do transporte público e que ganharam outros contornos políticos, são resultado do ativismo online. Naquele mês, mais de 1 milhão de pessoas saíram às ruas em mais de 130 cidades. A pesquisa IBOPE de 2014 revelou que 77% dos manifestantes tomaram conhecimento dos protestos por meio do Facebook.

Na eleição de 2014, a mais disputada dos últimos 25 anos no Brasil, novamente as redes sociais tiveram papel crucial na disseminação de notícias, na promoção de debates e na propagação de mentiras. Durante o período eleitoral, os brasileiros interagiram mais de 670 milhões de vezes no Facebook. No Twitter, foram quase 40 milhões de mensagens publicadas durante a campanha. Em diversos momentos das eleições, as hashtags de Dilma Rousseff (#DilmaMudaMais) e Aécio Neves (#Aecio45PeloBrasil) ficaram nos Trending Topics mundiais da plataforma.

Na Europa, a internet também ganhou protagonismo político. O acordo do Brexit, polêmico plebiscito que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia, teve forte influência do Facebook. Combinado com o crescimento do nacionalismo e da xenofobia, a desinformação encontrou terreno fértil nas redes sociais.

A pesquisa YouGov, encomendada pela Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, revelou que as redes sociais ultrapassaram os jornais tradicionais como fontes de notícia no Reino Unido entre 2015 e 2016 (ano em que o plebiscito foi votado e que o “sim” ganhou com 51,9% dos votos). O estudo também analisou o consumo de mídia em 26 países, inclusive o Brasil, e descobriu que 51% dos entrevistados usam as redes sociais como fonte de informação.

Antropólogo da tecnologia e professor da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, David Nemer diz que as fake news se espalham pelas redes sociais graças à facilidade e eficiência, características da internet. “Antes, para ter a notícia, você tinha que ir numa banca, comprar o jornal, fazer uma assinatura, então além de o acesso ser mais dificultado, o custo era mais alto. Hoje em dia nós temos o WhatsApp, as coisas são entregues a nós na hora, em qualquer lugar, em qualquer momento”, aponta.

Vem de zap

Na eleição brasileira de 2018, o WhatsApp foi o grande protagonista. Com mais de 120 milhões de usuários, o aplicativo de mensagens instantâneas foi decisivo para que mentiras como o “kit gay”, a “ideologia de gênero” e a “doutrinação comunista”, temas explorados na campanha de Jair Bolsonaro (PSL), viralizassem nas redes sociais.

Aliada ao antipetismo e à polarização política, a desinformação, que circulou sem nenhum controle pelos grupos do Whatsapp, foi fundamental para eleger Bolsonaro. Alguns dias antes da votação, a Folha de S. Paulo divulgou que um grupo de empresários comprou um pacote de disparo de mensagens em massa contra o PT. Bolsonaro processou o jornal, mas foi derrotado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Ainda durante as eleições, Bolsonaro recebeu uma suspensão de conteúdo do Tribunal. Em outubro de 2018, o ministro Carlos Horbach determinou que textos e vídeos sobre o “kit gay” fossem removidos.

Usado amplamente nas campanhas de 2018, o “kit” foi o apelido que diversos congressistas e políticos conservadores deram ao material do programa “Escola sem Homofobia”, uma cartilha idealizada em 2011 pelo MEC, mas vetada pela presidente Dilma Rousseff, após pressão das bancadas evangélica e católica.

O material, destinado somente a professores, explicava conceitos como gênero e sexualidade, além de sugerir atividades para que os alunos refletissem sobre comportamentos preconceituosos.

Apesar de estar calcado em informações mentirosas e descontextualizadas, o uso de discursos como o do “kit” pode ser uma ferramenta eficaz de promoção política, como demonstrou a pesquisa do IDEIA Big Data Avaaz, realizada em novembro de 2018. De acordo com o estudo, 84% dos eleitores de Bolsonaro acreditaram na existência deste conteúdo.

Frequentemente disseminadas em correntes de mensagens pelo WhatsApp, as informações falsas alcançam um grande número de pessoas.

De acordo com levantamento feito em 2018 pelo Datafolha, 47% dos eleitores que usam o WhatsApp disseram acreditar em notícias compartilhadas pelo aplicativo. Além disso, essa é a rede mais utilizada pelos eleitores: 65% têm conta e 24% o utilizam para compartilhar notícias sobre política.

Ainda de acordo com o instituto, o segmento mais ativo no aplicativo de mensagens é o de eleitores de Jair Bolsonaro, tanto em alcance quanto em taxa de engajamento.

Sempre carregadas de forte apelo emocional, as fake news costumam ter outras características em comum: fogem à norma culta da língua portuguesa, são sensacionalistas, alarmistas, fazem menção a questões morais, sexuais e religiosas e as fontes, quando citadas, são bastante duvidosas.

É mentira, tá ok?

A exemplo de Donald Trump, Bolsonaro também transformou a mentira em prática cotidiana. Mesmo após o fim das eleições, o presidente – que foge dos jornalistas – continua desinformando. A agência Aos Fatos revelou que de janeiro a outubro deste ano Bolsonaro deu 400 declarações falsas ou distorcidas, uma média de 1,4 mentira por dia. Os temas mais abordados por ele foram economia e meio ambiente.

Embora as declarações do presidente ultraconservador sejam contestadas por diversos veículos de imprensa, parte do séquito de seguidores que o elegeu continua ativo e ainda mais radical.

O professor David Nemer diz que os grupos de bolsonaristas no WhatsApp, antes mais coesos, se dividiram, agora, em três categorias. O primeiro se concentra na propaganda de governo, cujos membros não permitem que os atos do presidente sejam questionados. O segundo é o da insurgência, que reúne pessoas que se tornaram opositoras de Bolsonaro, considerando-o traidor por ter se alinhado à velha política. O terceiro e último grupo é o da supremacia social, que está mais interessado em enaltecer o discurso de extrema-direita do presidente do que, necessariamente, discutir suas ações de governo. De acordo com Nemer, este último é o grupo mais perigoso e radical.

“Eles estão mais radicalizados, estão em números menores, mas que podem fazer um estrago maior. Estão em constante processo de recrutamento, querem expandir mais os grupos deles, os grupos mais extremistas. Eles não estão muito preocupados com a política do dia a dia, mas se capitalizam em cima do discurso de extrema-direita dele e do Flávio [um dos filhos do presidente], principalmente”, destaca.

Apesar do já conhecido uso do WhatsApp para fins políticos, somente em outubro deste ano a empresa admitiu o envio maciço de mensagens, inclusive com sistemas automatizados, durante a eleição brasileira de 2018. A empresa também disse condenar os grupos públicos acessados por meio de links, que compartilham conteúdos políticos.

Conservadorismo

Assim como na administração de Barack Obama, nos Estados Unidos, o Brasil também vivenciou, durante os governos petistas, um período de implementação de políticas sociais. Para Nemer, a inclusão social pode explicar a eleição de candidatos outsiders, como Trump e Bolsonaro.

“O governo Obama, principalmente no segundo mandato, foi bem audacioso em políticas de inclusão, sobretudo inclusão para as minorias. Por isso, eu acredito que o conservador americano, que é bem forte aqui, se sentiu ameaçado. Se sentiu ameaçado pelo politicamente correto. É mais ou menos o movimento que ocorreu no Brasil”, revela.

Em ambos os países, governos mais progressistas deram lugar a políticos autoritários, que desprezam o jornalismo profissional, distorcem a realidade, polarizam a sociedade e atacam qualquer “instituição pensante”. Tanto Trump quanto Bolsonaro lançam mão de diversas estratégias de desinformação para pôr em prática seus planos de governo – no mínimo – impopulares.

Pensamento crítico

Na era da comunicação instantânea, na qual as informações circulam em demasia, sobretudo pelas redes sociais, é fundamental saber reconhecer discursos e conteúdos falaciosos. A educação midiática, conceito relativamente novo para a maior parte da população, busca dar ferramentas para que as pessoas consigam identificar conteúdos falsos e fazer uma leitura crítica das informações que recebem.

Daniela Machado, jornalista e coordenadora do EducaMídia, programa que busca sensibilizar a sociedade para a importância da educação midiática, diz que proibir a divulgação de fake news não ajuda a solucionar o problema, “o que resolve é educar”.

“Acho que a educação midiática é fundamental. Não há uma única solução que seja a bala de prata que vai acabar com a desinformação, mas acho que a educação midiática é sim o caminho mais preciso e talvez um dos mais seguros para que a gente consiga melhorar o ambiente informacional. (…) É importante que a gente esteja preparado, que seja uma formação de todos os jovens, ter habitualmente condições de interrogar a informação, de fazer essa leitura crítica”.

Para ela, a educação midiática é um processo que se constrói ao longo da vida toda, não em um único ano ou semestre. “Devemos perseguir esse objetivo o tempo todo na escola. É algo que vai nos dar a habilidade de conseguir fazer uma leitura reflexiva de toda essa informação que vai chegar até nós”, destaca Daniela.

Jornalismo profissional

Além do investimento em educação, componente básico para a formação crítica de qualquer indivíduo, também é fundamental reconhecer a importância do jornalismo profissional no combate à desinformação. Profissionais capacitados, éticos e compromissados com a veracidade das informações são essenciais à manutenção da democracia.

Fortalecer os veículos profissionais de comunicação, desde as recentes agências de checagem até os jornais mais tradicionais, é imprescindível para fazer frente ao ecossistema de desinformação que domina a sociedade hiperconectada do século XXI.

FONTE: Le Monde Diplomatique Brasil. Disponível em: https://diplomatique.org.br/a-desinformacao-influencia-eleicoes-ao-redor-do-mundo/