O texto bíblico de João 8:32 foi usado pelo candidato do PSL de forma exaustiva nas eleições de 2018. O fim era capturar o voto do eleitorado evangélico para a “verdade” que, supostamente, o candidato estava encabeçando. O mesmo candidato que usou as fake news como principal arma de campanha e que até o momento o TSE ainda não julgou o mérito da ação, mesmo a CPI das “Fake News”, ainda em curso, está concluindo que o principal elemento que tornou possível a eleição do então candidato do PSL foram os conteúdos falsos disseminados nas redes sociais e principalmente em grupos de WhatsApp patrocinado por empresas para fazer os disparos diários.
Voltando ao texto bíblico usado de forma
indevida pelo então candidato como um chavão diz que “conhecereis a verdade, e
a verdade vos libertará”. É claro que o chavão em que se tornou o texto não tem
nenhuma relação com a verdade do Evangelho de João, que tem como fundo
exegético a percepção de que Jesus é a verdade, em virtude de nele residir a
realidade divina do amor. Assim, com sua atividade em favor do outro, ele (Jesus)
manifesta o amor de Deus. Portanto, para conhecer a verdade é preciso entrar em
contato com ela, a verdade, que é Jesus. Assim, a discípula e o discípulo de
Jesus experimenta os efeitos desse amor que é o encontro da realidade divina
com a humana. Uma vez conhecendo a verdade (a mensagem de amor proclamada por
Jesus), ela liberta da mentira na teologia joanina; mentira essa que tem um
“pai” e trabalha para diminuir a vida do ser humano, tornando-o escravo da
mentira (1). Essa percepção de verdade que está no Evangelho de João, não é
compartilhada por uma parcela significativa de evangélicos no Brasil que
preferiram o “pai da mentira”, aquele “chefe” que escraviza mentes e corações a
partir da disseminação do falso.
Filosoficamente, a verdade é a adequação que o
indivíduo faz entre o intelecto e a realidade, portanto a verdade é uma
propriedade do juízo e este, o juízo, é capaz de diferenciar o falso do
verdadeiro. Aprofundando um pouco mais essa noção de verdade no Ocidente, está
se dá quando há um consenso ou acordo em sociedade quanto ao aceitável enquanto
normas de conduta, algo estabelecido culturalmente para um determinado grupo
social (2). No caso do Brasil, cultural e religiosamente cristão, a verdade se
dá a partir de uma ordem vigente que tem na tradição judaico-cristã (cristandade)
o seu consenso entre verdade e mentira. A verdade (real), nesse sentido, é
contrária à mentira (falso), mas para dizer a verdade é preciso o juramento,
pelo menos nos tribunais. Sendo o juramento algo tipicamente teológico.
Seguindo o raciocínio de Christian Dunker (3), o
que ocorre hoje é o que está se chamando de “pós-verdade”. Para o autor, “a
pós-verdade inaugura uma reflexão prática e política sobre o que devemos
entender por verdade e sobre a autoridade que lhe é suposta”. A partir disso, a
verdade enquanto pressuposição transcendental calcada na tradição
judaico-cristã, não importa mais. A verdade passa por uma espécie de
metamorfose quando diante de uma necessidade coletiva e/ou subjetiva que atenda
os ideais de um segmento social com o intuito de obter poder. Nessa era de
“pós-verdade”, o que conta mesmo é a “aptidão para a inversão”. É nesse espaço
público que a aptidão para as inversões conceituais com a transmutação da realidade
que as fake news inaugura uma prática
de produzir, disseminar e assassinar reputações a partir de conteúdos que
promovem um espectro do quadro político à direita (extrema), que julga ter
autoridade para estabelecer a mentira como “verdade”, em nome de uma suposta
moralidade que julga está decadente na civilização ocidental por conta,
exatamente, de governos populares de esquerda. Dentro desse quadro maior que a
ala evangélica, seja por ingenuidade, falta de pudor ou senso crítico, não
apenas embarcou nas fake news como
também divulgou por meios das redes sociais conteúdos falsos quando esse
material estava condizente com a mentalidade político-moral do que se entende
estar expurgando o “mal” e quem o representa.
Um caso que exemplifica o que estamos aqui tratando.
O padre Fábio de Melo foi vítima de fake news quando da tragédia que
aconteceu na escola em Suzano/SP neste ano. O texto intitulado “Melhor texto
que já li sobre o acontecimento de ontem” ganhou enorme proporção na internet. O texto foi atribuído ao padre
e por isso viralizou nas redes e grupos de WhatsApp.
Segue o texto:
Melhor texto que já li sobre o acontecimento de ontem
Autor: Padre Fábio de Melo
“Cansado e perplexo com tantas baboseiras e falsas justificativas para as atrocidades que ainda nos surpreendem todos os dias…
Os meninos não mataram porque o porte de arma é um projeto do atual governo. Os meninos não mataram porque jogavam jogos violentos. Os meninos não mataram porque a escola foi omissa. Os meninos não mataram porque sofreram Bullying…
Eles mataram porque as famílias estão desestruturadas e fracassadas, porque não se educa mais em casa, não se acompanha mais de perto, a tecnologia substitui o diálogo, presentes compram limites, direitos e deveres e não há o conhecimento e respeito a Deus.
Precisamos parar de nos omitir, de transferir culpas. A culpa é minha, é sua, de todos nós!
Quando Fábio de Melo soube da repercussão do
texto atribuído, falsamente, à ele, foi ao Twitter
e desmentiu o texto dizendo: “O texto que está viralizado sobre o atentado
em Suzano, cujo título é ‘O melhor texto que já li sobre o acontecimento de
ontem’, não foi escrito por mim” (4). Mesmo o padre desmentindo o texto e se
posicionando contra o decreto das armas do governo, muitos evangélicos não
pararam de divulgar o texto. As pessoas, mesmo depois de saberem que o texto
não foi escrito e divulgado por Fábio de Melo, insistiram na mentira com a
seguinte argumentação: “Não interessa quem escreveu, é uma verdade e pronto”
(5). Os robôs da milícia digital do atual governo impulsionou essa fake news e a palavra do padre
desmentindo ser o autor do falso texto já não tinha qualquer importância (6). Essa
fake news é um típico caso de
inversão da qual Dunker pontuou, ou seja, o texto só viralizou porque foi,
supostamente, escrito por um padre conhecido, defendendo a política de armas do
governo a partir de uma tragédia; quando o suposto autor desmente, ou seja, a
verdade vem à tona, esta não tem mais validade porque o objetivo já foi alcançado,
tornar o que é falso em verdadeiro.
Uma parcela significa de evangélicos participam imensamente desse processo de produção de fake news. Quando foram coniventes diante do uso político e descontextualizado do texto bíblico de João 8,32, mostraram que não conhecem a verdade de Jesus. Não obstante esse pecado, essa parcela de evangélicos no país vem demonstrando que não tem qualquer compromisso em pautar a realidade político-social com a verdade.
Notas:
* Alonso Gonçalves é graduado em Teologia e Filosofia. Mestre e doutorando em Ciências da Religião (Universidade Metodista de São Paulo). Pastor na Igreja Batista Central em Pariquera-Açu (São Paulo).
(1) MATEOS, Juan; BARRETO. Vocabulário teológico do evangelho de São João. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2005, p. 277-283.
(2) JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996, p. 269.
(3) DUNKER, Christian. “Subjetividade em tempos de pós-verdade”. In: LITERCULTURA (Org.). Ética e pós-verdade. Porto Alegre: Dublinense, 2017, p. 13.
(4) Disponível: <https://g1.globo.com/fato-ou-fake/noticia/2019/03/15/e-fake-que-padre-fabio-de-melo-fez-texto-sobre-massacre-em-suzano-dizendo-que-armas-nao-matam.ghtml>.
(5) Li isso de uma internauta quando a questionei sobre a fake news que ela estava disseminando com o falso texto atribuído ao Pe. Fábio de Melo.
(6) Disponível: <https://revistaforum.com.br/politica/robos-de-bolsonaro-viralizam-texto-fake-de-padre-fabio-de-melo-sobre-massacre-em-suzano/>.