OEA relata que grupos extremistas internacionais e do Brasil se unem para disseminar mentiras nas eleições no país

A Organização dos Estados Americanos (OEA) apontou que a circulação de desinformação e a atuação de agentes políticos internacionais são pontos de preocupação durante as eleições brasileiras de 2026.

Em relatório preliminar divulgado em 6 de outubro, a Missão de Observação Eleitoral (MOE/OEA) da entidade elogiou a capacidade técnica e organizacional da Justiça Eleitoral, mas registrou que a campanha foi marcada por radicalização, confrontos pessoais e discursos destinados a gerar desconfiança sobre a integridade das urnas eletrônicas.

De acordo com a organização internacional, diversos grupos políticos e da sociedade civil mencionaram preocupação com a circulação de desinformação, notícias falsas e publicações com conteúdo de ódio pelas redes digitais. 

Outro temor comunicado à MOE/OEA foi sobre manifestações e ações de atores internacionais sobre o processo eleitoral no Brasil, que poderiam ter impactado de alguma forma a campanha.

Articulação para desinformar

Uma articulação entre grupos extremistas da Coreia do Sul e do Brasil para desinformar durante a campanha eleitoral foi revelada pelo Instituto Democracia em Xeque (DX), em 4 de outubro passado. Em levantamento feito entre 20 de setembro e 2 de outubro, o DX identificou mensagens de lideranças da direita sul-coreana em apoio a Flávio Bolsonaro. 

Reprodução/X

Também foram encontradas publicações que mencionavam uma suposta fraude eleitoral no Brasil, discurso recorrente, periodicamente desmentido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e checado pelo Bereia.

Segundo o estudo, o conjunto de conteúdos monitorados alcançou cerca de 2,6 milhões de visualizações e 724 mil interações. A repercussão ocorreu também entre perfis brasileiros: publicações de  influenciadores políticos foragidos nos Estados Unidos,  como Allan dos Santos e o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), além de páginas de parlamentares alinhados à direita radicalizada, contribuíram para ampliar a visibilidade do episódio. 

O levantamento identificou uma concentração expressiva das interações em 29 de setembro passado, quando as mensagens passaram a circular com maior intensidade entre contas brasileiras.

Reprodução/X

Desinformação nas eleições

O Boletim 1º Turno das Eleições 2026, do Observatório das Big Techs do NetLab Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) aponta que campanhas falsas atribuídas ao TSE sobre um suposto voto online, que não exigiria a presença do eleitor ao colégio eleitoral, foram impulsionadas por diversos perfis em plataformas da Meta, no dia das eleições,  4 de outubro. A empresa é dona do Instagram e do Facebook.

Durante a cobertura do plantão eleitoral, Bereia apurou que o mesmo conteúdo foi patrocinado para ter maior alcance no Facebook, onde circulou como um anúncio pago.

Em 3 de outubro, na véspera da votação, o Ministério Público Eleitoral (MP Eleitoral) pediu ao TSE a remoção de conteúdos falsos que associavam o fechamento de embaixadas no Brasil a ameaças terroristas e risco de golpe. No dia anterior, as representações diplomáticas dos Estados Unidos (EUA) e da Austrália no Brasil comunicaram a interrupção dos serviços presenciais. A justificativa para a medida foram motivos de segurança. Porém, as autoridades não especificaram quais seriam as ameaças potenciais, o que contribuiu para o surgimento de boatos, que também foram checados pelo Bereia.

O caso ilustra como alegações não comprovadas sobre a integridade eleitoral podem ganhar visibilidade por meio da circulação entre diferentes países, idiomas e comunidades políticas. Embora o relatório da OEA não atribua suas constatações especificamente a esse episódio, a análise do DX ajuda a compreender uma das formas pelas quais discursos de desconfiança sobre o processo eleitoral podem ser difundidos no ambiente digital.

Referências

Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-10/oea-elogia-eleicao-no-brasil-mas-aponta-preocupacao-com-desinformacao Acesso em 13 out 2026

Ministério Público Eleitoral

https://www.mpf.mp.br/o-mpf/unidades/procuradoria-geral-da-republica-pgr/noticias/mp-eleitoral-pede-remocao-de-videos-que-associam-fechamento-de-embaixadas-a-amecas-terroristas-e-risco-de-golpe Acesso em 13 out 2026

Instituto Democracia em Xeque

https://institutodx.org/publicacoes/direita-sul-coreana-e-bolsonaristas/ Acesso em 13 out 2026

Organização dos Estados Americanos (OEA)

https://www.oas.org/fpdb/press/2026_MOE_Brasil_Eleicoes_Gerais_Primeiro_Relatorio_POR.pdf  Acesso em 13 out 2026

NetLAB UFRJ

https://netlab.eco.ufrj.br/post/observatório-das-big-techs-boletins-do-1º-turno-eleições-2026 Acesso em 13 out 2026

Lula não afastou deputada eleita Ana Elisa da campanha: imagem nas redes é falsa

Circula nas redes digitais, especialmente em perfis alinhados à direita, uma imagem com a manchete “Lula afasta Ana Elisa da campanha após vazamento de tweets antigos da deputada eleita”. A publicação sugere que o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria afastado da campanha eleitoral a deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG), 21 anos, vitoriosa no primeiro turno com grande número de votos. O Bereia checou a imagem e verificou que ela foi manipulada.

O material utiliza como fundo uma captura do programa Em Pauta, da GloboNews, exibido em 9 de outubro. Na transmissão original, a legenda do jornal era “Tabuleiro eleitoral: internet muda perfil de candidatos e eleitores”. A imagem foi alterada com a sobreposição de uma manchete que atribui a Lula uma decisão de afastamento sem comprovação.

Imagem: Captura de tela da imagem manipulada. Reprodução: Instagram
Imagem: Captura de tela da imagem verdadeira. Reprodução: X

A repercussão

A publicação circula em meio à repercussão da atuação da  Ana Elisa na estratégia de comunicação digital do PT e de postagens antigas atribuídas à deputada que voltaram a circular nas redes. Após o primeiro turno, a campanha de Lula passou a apostar na colaboração da deputada eleita para ampliar o diálogo com o público jovem e fortalecer sua presença nas plataformas digitais. A iniciativa ganhou visibilidade com a divulgação de vídeos do presidente em formato de selfie e a participação de influenciadores e políticos na mobilização on-line.

Nesse contexto, publicações antigas atribuídas a Ana Elisa provocaram questionamentos sobre a estratégia da campanha. A assessoria da deputada confirmou a autoria de algumas postagens, mas afirmou que conteúdos antigos e autênticos haviam sido retirados de contexto. Como Bereia já checou, a equipe também negou que Ana Elisa tivesse publicado uma mensagem que lhe atribuía a defesa do fechamento de igrejas, disseminada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). 

Embora a repercussão das postagens antigas tenha gerado questionamentos sobre a comunicação da campanha petista, isso não comprova que Lula tenha afastado a deputada. Não há registro de anúncio oficial do presidente ou de sua equipe que confirme a decisão apresentada na imagem. O material da imagem que tem circulado é falso.

A imagem manipulada parece aproveitar elementos da repercussão jornalística para construir uma novo relato. Em reportagem publicada pelo Estadão, o jornal abordou como postagens antigas de Ana Elisa passaram a representar um desafio para a estratégia digital da campanha de Lula.

Imagem: Manchete publicada pelo Estadão. Reprodução: Estadão

Embora a matéria trate de questionamentos sobre a atuação da deputada, ela não afirma que a parlamentar tenha sido afastada. A montagem transforma esse contexto em uma suposta decisão de Lula, e acrescenta uma informação que não consta na reportagem original. 

Desta forma, um assunto que ganhou visibilidade na imprensa é reutilizado para dar aparência de credibilidade a uma alegação sem comprovação, que circula em perfis alinhados à direita.

O que é fato?

Em 7 de outubro passado, Ana Elisa participou, em Brasília, de uma reunião com Lula e integrantes da campanha presidencial. O encontro reuniu parlamentares eleitos e influenciadores de esquerda para discutir ações voltadas ao fortalecimento da presença digital do candidato no segundo turno.

No dia seguinte, a deputada relatou estar recebendo ameaças desde que passou a integrar a mobilização digital da campanha.  De acordo com informações publicadas pela CNN Brasil, as mensagens incluíam ameaças de morte e estupro, além da divulgação de dados pessoais, como endereço e telefone. Em entrevista ao SBT News, em 8 de outubro, a deputada eleita relatou o recebimento das ameaças.

Em 9 de outubro, o Ministério da Justiça solicitou à Polícia Federal que investigue as ameaças contra a parlamentar. Em ofício encaminhado ao diretor-geral da PF Andrei Rodrigues, a Secretaria Nacional de Acesso à Justiça informou que Ana Elisa era alvo de ataques relacionados ao seu posicionamento político e ao engajamento na eleição presidencial.

O documento solicitou a adoção das providências cabíveis, e incluiu a possibilidade de abertura de inquérito para identificar e responsabilizar os autores. A pasta também pediu que as plataformas X e Meta fossem acionadas para colaborar na moderação dos conteúdos e na identificação dos responsáveis.

O pedido de investigação, portanto, diz respeito às ameaças contra Ana Elisa, e não a um suposto afastamento da campanha de Lula.

***

O Bereia classifica o conteúdo que circula informando sobre o afastamento de Ana Elisa da campanha de Lula como falso. A imagem foi manipulada para incluir uma manchete que não apareceu no programa Em Pauta, da GloboNews. A montagem usa a repercussão de reportagens sobre postagens antigas da deputada eleita para sugerir o afastamento como punição, mas não há comprovação dessa decisão. O conteúdo mistura fatos com manchete inventada para dar credibilidade à informação falsa.

Referências

Youtube. https://www.youtube.com/shorts/h3VIZFNTwpA?app=desktop. Acesso em 10 de out de 2026. 

CNN Brasil. https://www.cnnbrasil.com.br/politica/mj-pede-que-pf-investigue-ameacas-contra-deputada-eleita-ana-elisa/. Acesso em 10 de out de 2026. 

CNN Brasil. https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/lula-muda-coordenacao-de-campanha-e-mira-reformular-discurso-para-2o-turno/. Acesso em 10 de out de 2026. 

Reportagem da Rádio CBN promove comparação enganosa entre candidatas e eleitos ao Senado em SP

A Rádio CBN (Grupo Globo) publicou, em 6 de outubro, uma reportagem sobre os gastos das campanhas ao Senado por São Paulo, com o título “Tebet e Marina gastaram quase o mesmo que Derrite e Prado, mas tiveram quase 10 mi votos a menos”. Após repercussão de uma nota crítica sobre a matéria, da candidata evangélica Marina Silva (Rede), publicada em seus perfis digitais, questionando a forma como o levantamento foi apresentado, o título foi alterado. Em 7 de outubro, o título passou a ser: “Tebet e Derrite têm as campanhas mais caras para o Senado em SP; alinhamento com Tarcísio e Bolsonaro favorece eleitos”. 

A alteração também foi feita nos perfis da CBN nas redes digitais. O título original, no entanto, ainda pode ser encontrado em mecanismos de busca enquanto as alterações são processadas.

Fonte: Imagem do website da CBN/Google

A reportagem da CBN apresenta dados de votos, despesas de campanha, custo por voto, receitas e as coligações dos candidatos. O texto sobre o levantamento, porém, não detalha a metodologia utilizada para a busca e a análise dos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A mesma temática também foi abordada pelo G1 (também do Grupo Globo) em reportagem publicada anteriormente, com levantamento semelhante a partir de dados do TSE.

Fonte: Imagem do website G1, 30 set 2026

O que a CBN aponta

A reportagem apresenta Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL) como os candidatos eleitos ao Senado por São Paulo que tiveram as maiores votações. Derrite recebeu 13.273.880 votos, enquanto Prado recebeu 12.703.089. Simone Tebet (PSB) teve 8.342.968 votos, e Marina Silva recebeu 7.862.400.

A reportagem também informa que Derrite declarou R$ 5,4 milhões em despesas e Prado, R$ 4,5 milhões. Tebet declarou R$ 6,7 milhões e Marina Silva, R$ 2,7 milhões. Somadas, as despesas das duas candidatas chegaram a R$ 9,49 milhões, enquanto Derrite e Prado declararam, juntos, R$ 9,94 milhões.

Contudo, ao afirmar que Tebet e Marina Silva gastaram quase o mesmo que Derrite e Prado, mas tiveram quase dez milhões de votos a menos, a reportagem soma os votos e os gastos de duas candidatas que tiveram campanhas, despesas e receitas separadas, sendo partidos diferentes, e compara o resultado com dois candidatos também de distintos partidos. A reportagem da CBN indica no final que as campanhas das candidatas alinhadas à chapa de Fernando Haddad (PT) e à esquerda tiveram gastos com a campanha eleitoral mais altos e resultados inferiores que os candidatos eleitos, induzindo a uma leitura crítica do público a estas candidaturas.

Os números estão corretos?

Para verificar as informações apresentadas pela CBN, o Bereia consultou os dados oficiais do TSE, disponíveis no portal de Dados Abertos, além do registro oficial de candidaturas, das páginas do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) e de sites oficiais dos partidos.

Os dados de votação apresentados pela CBN estão corretos. Já os valores das despesas também conferem com os registros disponíveis no TSE. Com isso, a soma das despesas de Derrite e Prado chega a R$ 9.941.814,52, enquanto Tebet e Marina Silva somam R$ 9.491.198,04, uma diferença de aproximadamente R$ 450 mil. O levantamento do TSE utilizado na checagem reúne as prestações apresentadas até 6 de outubro, como a versão final deve ser entregue até 3 de novembro de 2026, portanto, os valores ainda podem ser alterados. A reportagem da CBN também apresenta os levantamentos sobre os valores declarados pelos candidatos em relação ao que foi arrecadado para a campanha (receita).

CandidatoReceita declarada
Guilherme DerriteR$ 7.695.140,01
André do PradoR$ 7.047.000,00
Simone TebetR$ 7.023.000,00
Geraldo RufinoR$ 6.545.333,34
Soninha FrancineR$ 5.560.281,23
Marina SilvaR$ 3.737.442,55

Fonte: TSE, elaborado pelo Bereia.

A reportagem aponta ainda que as candidatas Marina Silva e Tebet pertenciam à coligação “Desperta São Paulo”, a mesma de Fernando Haddad. Já Derrite e Prado faziam parte da coligação “Coragem para Seguir Avançando”, junto com Tarcísio de Freitas (Republicanos), em uma tentativa de justificar a relação da análise apresentada pela manchete.

Bereia confirma que a relação entre as candidaturas existe no âmbito das coligações eleitorais. Isso permite apontar que Tebet e Marina Silva estavam no mesmo bloco eleitoral de Haddad, enquanto Derrite e Prado integravam a coligação de Tarcísio de Freitas (Republicanos) para o governo de São Paulo. Contudo, a formação das coligações não constitui campanhas conjuntas, ou outros tipos de ligação em termos de receita e gastos eleitorais.

O que a CBN e o G1 informam e o que desinformam?

Ao checar os dados disponíveis no TSE, Bereia constata que a maior parte dos dados apresentados pela reportagem está correta. Os votos de cada candidato, as despesas declaradas, os custos por voto, a composição das coligações e os prazos para a prestação de contas conferem com os dados disponíveis no TSE e no TRE-SP. Há, no entanto, dois erros pontuais que configuram desinformação.

O primeiro está na afirmação de que “As receitas são maiores até que a de um dos eleitos, André do Prado”. A informação é falsa. Prado arrecadou R$ 7.047.000,00, valor superior aos R$ 6.545.333,34 arrecadados por Geraldo Rufino e aos R$ 5.560.281,23 de Soninha Francine. Guilherme Derrite, por sua vez, arrecadou R$ 7.695.140,01.

A afirmação só poderia ser considerada verdadeira se a comparação fosse feita com as despesas declaradas por André do Prado, que foram de R$ 4.523.736,50. Nesse caso, porém, haveria uma comparação entre categorias diferentes: receita de campanha de um candidato contra despesa de outro, os dados oficiais não sustentam a frase apresentada pela reportagem.

Ha, ainda, um erro na legenda da fotografia de Guilherme Derrite que o identifica como “Guilherme Derrite (PL)”, mas o registro oficial de candidatura do TSE mostra que o senador eleito concorreu pelo Partido Progressistas (PP). O próprio texto da reportagem, nesse ponto, apresenta a informação correta ao identificá-lo como candidato do PP.

A desinformação mais contundente, que gerou a nota pública de Marina Silva diz respeito à construção da manchete original das matérias. Ao fazer a comparação que une erroneamente Tebet e Marina Silva e Derrite e Prado, G1 e CBN  induzem leitores ao entendimento de que as candidatas tiveram os maiores gastos de campanhas eleitorais e terminaram derrotadas.

A soma dos dados é matematicamente correta, mas a maneira como ela é, indevidamente, apresentada pode produzir uma interpretação diferente daquela que os números individuais sustentam. As duas candidatas tiveram campanhas distintas, assim como os dois candidatos eleitos. Por isso, reunir os votos e despesas de candidaturas diferentes para estabelecer uma relação direta entre “gasto” e “resultado” exige contexto que não aparece na formulação original do título.

***

Bereia conclui que as matérias do G1 e da CBN sobre gastos de campanha das candidatas Marina Silva e Simone Tebet em comparação com os dos candidatos Derrite e Prado são enganosas. Como o título das produções jornalísticas atuam como resumo do conteúdo e muitos leitores e leitoras ficam apenas com eles como informação, o que é aplicado a ambas as matérias, e compara erroneamente os gastos somados de cada duplas, é uma indução enganosa à interpretação de que quem gastou menos foi vitorioso, o que não corresponde aos fatos. O corpo das matérias oferece dados corretos (com alguns erros pontuais), mas a forma como estes elementos foram reunidos e apresentados no título leva a uma conclusão que eles não sustentam.

Referências

Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Portal de Dados Abertos. https://dadosabertos.tse.jus.br Acesso em: 08 de out. 2026.

TSE. Prestação de Contas Eleitorais – 2026. https://cdn.tse.jus.br/estatistica/sead/odsele/prestacao_contas/prestacao_de_contas_eleitorais_candidatos_2026.zip Acesso em: 08 de out. 2026.

TSE. Resultados – 2026 (votação nominal por município/zona). https://cdn.tse.jus.br/estatistica/sead/odsele/votacao_candidato_munzona/votacao_candidato_munzona_2026.zip Acesso em: 08 de out. 2026.

TSE. Candidatos – 2026 (registro de candidaturas). https://cdn.tse.jus.br/estatistica/sead/odsele/consulta_cand/consulta_cand_2026.zip Acesso em: 08 de out. 2026.

TSE. Coligações – 2026. https://cdn.tse.jus.br/estatistica/sead/odsele/consulta_coligacao/consulta_coligacao_2026.zip Acesso em: 08 de out. 2026.

TSE. Portal Prestação de Contas – Eleições 2026. https://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2026-content/prestacao-de-contas Acesso em: 08 de out. 2026.

TSE. Calendário eleitoral. https://www.tse.jus.br/eleicoes/calendario-eleitoral Acesso em: 08 de out. 2026.

TSE. DivulgaCandContas (consulta pública de contas). https://divulgacandcontas.tse.jus.br Acesso em: 08 de out. 2026.

Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP). Eleições 2026: Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL) são eleitos senadores por São Paulo. https://www.tre-sp.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/eleicoes-2026-guilherme-derrite-pp-e-andre-do-prado-pl-sao-eleitos-senadores-por-sao-paulo Acesso em: 08 de out. 2026.

TRE-SP. Eleições 2026: Tarcísio de Freitas é reeleito governador de São Paulo. https://www.tre-sp.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/eleicoes-2026-tarcisio-de-freitas-e-reeleito-governador-de-sao-paulo Acesso em: 08 de out. 2026.

TRE-SP. Eleições 2026: prestação de contas eleitorais deve ser feita pelo Conta+JE; veja principais prazos. https://www.tre-sp.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Agosto/eleicoes-2026-prestacao-de-contas-eleitorais-deve-ser-feita-pelo-conta-je-veja-principais-prazos Acesso em: 08 de out. 2026.

TRE-SP. Perguntas e respostas sobre prestação de contas eleitorais. https://www.tre-sp.jus.br/eleicoes/eleicoes-2026/perguntas-e-respostas/prestacao-de-contas-eleitorais Acesso em: 08 de out. 2026.

Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo (TRE-ES). TSE disponibiliza dados da prestação de contas parcial das campanhas eleitorais. https://www.tre-es.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Setembro/tse-disponibiliza-dados-da-prestacao-de-contas-parcial-das-campanhas-eleitorais Acesso em: 08 de out. 2026.

Progressistas (PP). Progressistas elege três novos senadores e amplia força no Congresso Nacional. https://progressistas.org.br/noticias-progressistas/progressistas-elege-tres-novos-senadores-e-amplia-forca-no-congresso-nacional/ Acesso em: 08 de out. 2026.

Partido Progressistas (PP). Site oficial. https://pp.org.br Acesso em: 08 de out. 2026.
Partido Liberal (PL). Site oficial. https://partidoliberal.org.br Acesso em: 08 de out. 2026.

Partido dos Trabalhadores (PT). Site oficial. https://pt.org.br Acesso em: 08 de out. 2026.

Rede Sustentabilidade. Site oficial. https://redesustentabilidade.org.br Acesso em: 08 de out. 2026.

Podemos. Site oficial. https://podemos.org.br Acesso em: 08 de out. 2026.

Plantão Bereia nas Eleições: Mentiras sobre fraudes nas eleições antecedem resultado e repetem estratégia usada em 2022

Antes mesmo da conclusão da votação deste domingo 4 de outubro, publicações de políticos e influenciadores alinhados à direita política voltam a colocar sob suspeita o resultado das Eleições 2026, sem apresentar provas de fraude no sistema eleitoral. O movimento repete um padrão registrado no país desde 2018, quando alegações de manipulação das urnas e da apuração passaram a circular com frequência nas redes e são desmentidas pela Justiça Eleitoral reiteradamente.

Os deputados federais Gustavo Gayer (PL-GO) e Nikolas Ferreira (PL-MG) e dos influenciadores Kim D. Paim e Anderson Bourner estão entre os nomes que difundiram conteúdos sobre eleição comprometida, interferência do Judiciário, anulação, fraude ou possibilidade de um “golpe”, sem apresentar provas de manipulação da votação. As mensagens se somam a conteúdos semelhantes que circulam desde as últimas semanas e fornecem argumentos para quem se dispõe a contestar o resultado das urnas, movimento que tem precedente nas Eleições de 2022.

Reprodução: perfil do deputado federal Gustavo Gayer no Instagram – publicado em 2 out 26 – acesso em 4 out 26

Nos dias 3 e 4 de outubro, Gayer afirmou que “a eleição não vai acontecer”, que “já está decidido”, que o Judiciário “não vai deixar o Flávio ganhar” e falou em “anular as eleições”. O influenciador da extrema direita Anderson Bourner afirmou que Donald Trump “já está tomando providências no Brasil” e que “Lula não vai fraudar as eleições”; a publicação somava 6,4 mil curtidas, 643 comentários e 535 reportagens.

Reprodução: perfil do influenciador Anderson Bourner no Instagram – publicado em 2 out 26 – acesso em 4 out 26

Neste domingo, a confirmação de uma investigação da Polícia Federal abriu uma nova frente para esse discurso. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, informou que a área de inteligência da corporação apura possível interferência dos Estados Unidos nas eleições, após denúncias encaminhadas pela Advocacia-Geral da União à PF e à Procuradoria-Geral da República em 1º de outubro. Pouco depois, Nikolas Ferreira publicou que havia um “golpe em gestação” e escreveu: “Já arrumaram um motivo. Dependendo do resultado dessas eleições, o Brasil vai virar um caos”Nikolas Ferreira publicou que havia um “golpe em gestação” e escreveu: “Já arrumaram um motivo. Dependendo do resultado dessas eleições, o Brasil vai virar um caos”. 

Outros perfis repetiram a associação entre a investigação e uma possível reação ao resultado eleitoral, afirmando que o governo já teria preparado uma justificativa para questionar a eleição.

Reprodução: perfil do deputado Nikolas Ferreira no X – publicado em 4 out 26 – acesso em 4 out 26

A construção deste conteúdo desinformativo também ganhou uma frente internacional antes da votação. Monitoramento do Instituto Democracia em Xeque identificou, entre 20 de setembro e 2 de outubro, mobilização de lideranças do partido sul-coreano Liberdade e Inovação em apoio a Flávio Bolsonaro e com alegações de “fraude eleitoral” no Brasil. Os conteúdos alcançaram 2,6 milhões de visualizações no X e 724 mil interações nas contas monitoradas. Cerca de dois terços das contas que retuitaram Hwang Kyo-ahn, ex-primeiro-ministro e ex-presidente interino da Coreia do Sul, eram brasileiras. 

O recurso a suspeitas sobre a legitimidade do processo eleitoral tem antecedentes. Desde 2018, políticos e influenciadores da extrema direita questionam a lisura das urnas e da apuração, inclusive em eleições das quais participam. Em 2022, a Justiça Eleitoral registrou acusações sem provas de fraude, análises falsas de boletins de urna e mentiras sobre a totalização dos votos. Um dos boatos daquele pleito havia surgido em 2018 e foi reciclado quatro anos depois.

Após a derrota de Jair Bolsonaro para Luiz Inácio Lula da Silva, o questionamento chegou formalmente ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O PL pediu uma verificação extraordinária das urnas. A ação foi rejeitada e o partido foi condenado por litigância de má-fé ao pagamento de multa de R$ 22,9 milhões.

Bereia tem identificado, nas últimas semanas, com alta incidência na véspera da abertura das urnas (sábado 3 de outubro), a retomada desse tipo de conteúdo. Checagens mostraram publicações que atribuíram ao STF e ao ministro Flávio Dino uma articulação para interferir no pleito, impedir uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou anular a eleição caso Lula fosse derrotado, sem apresentar evidências para essas afirmações.

As informações oficiais disponíveis até agora não sustentam alegações de fraude ou interferência no resultado. Bereia noticiou, no sábado 3 de outubro, que o presidente do TSE Kássio Nunes Marques, afirmou não haver ameaça concreta internacional ou do crime organizado contra as eleições. Neste domingo, após receber relatórios das forças de segurança e inteligência, o ministro reiterou: “Até o momento, não temos um indicativo concreto de interferência internacional”.

O diretor da Polícia Federal Andrei Rodrigues também informou que diligências da polícia  não encontraram plano criminoso ou risco efetivo contra embaixadas dos Estados Unidos. Segundo ele, essa investigação e a apuração sobre possível interferência estrangeira são procedimentos distintos e, até o momento, não há conexão estabelecida entre os dois casos.

Foto: Antonio Augusto/TSE

Referências

UOL

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/10/04/pf-inicia-apuracao-sobre-possivel-intervencao-externa-sobre-eleicoes-diz-andrei-rodrigues.amp.htm Acesso 4 out 26

TSE

https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Dezembro/tse-confirma-multa-de-r-22-9-milhoes-ao-pl-por-litigancia-de-ma-fe Acesso 4 out 26

https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Outubro/fato-ou-boato-justica-eleitoral-desmentiu-as-principais-fake-news-sobre-o-processo-eleitoral-em-2022 Acesso 4 out 26

https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Outubro/fato-ou-boato-justica-eleitoral-desmentiu-as-principais-fake-news-sobre-o-processo-eleitoral-em-2022 Acesso 4 out 26

Instituto Democracia em Xeque

https://institutodx.org/publicacoes/direita-sul-coreana-e-bolsonaristas/ Acesso 4 out 26

CNN

https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/andrei-diz-que-pf-abriu-investigacao-sobre-interferencia-dos-eua-na-eleicao/ Acesso 4 out 26

Plantão Bereia nas Eleições: Vídeo engana eleitores nas redes ao afirmar que o presidente Lula maltratou a bandeira do Brasil

Circulam amplamente nas redes digitais postagens com um recorte de vídeo que sugere que o candidato à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria desrespeitado a bandeira do Brasil ao “amassá-la” e jogá-la no chão após posar para fotografias. As publicações usam a cena para afirmar que Lula “odeia o Brasil” e teria tratado o símbolo nacional “como lixo”. Em uma das postagens monitoradas, o vídeo também é associado a um pedido de voto no candidato Flávio Bolsonaro (PL).

O Bereia verificou que o corte é uma manipulação enganosa. As imagens originais mostram que, após posar para as fotografias, Lula dobra a bandeira, que era de grande dimensão, e a devolve à pessoa que havia lhe entregado o objeto. Não há, na sequência, o momento em que o candidato joga a bandeira no chão, como sugerem as publicações.

Um dos perfis que repercutiu o caso foi o do portal gospel Pleno News, checado diversas vezes pelo Bereia. A informação foi identificada pela Meta, dona do Instagram e do Facebook, como informação falsa e apenas os usuários que optarem por ver o conteúdo após o aviso terão acesso ao mesmo.

O conteúdo

Publicações compartilhadas no X e no Instagram apresentam um vídeo em que Lula aparece ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin, segurando uma grande bandeira do Brasil. A partir do trecho, os autores afirmam que o candidato teria demonstrado desrespeito ao símbolo nacional ao “amassar” e jogar a bandeira no chão.

O episódio ocorreu na manhã de 4 de outubro, após Lula votar na Escola Estadual João Firmino Correia de Araújo, em São Bernardo do Campo (SP). Registros jornalísticos do momento mostram o candidato ao lado de Alckmin segurando a bandeira do Brasil e posando para fotógrafos após deixar a seção eleitoral.

A gravação completa permite acompanhar a sequência. Uma pessoa posicionada na área destinada à imprensa entrega a bandeira a Lula, que abre o tecido e posa inicialmente sozinho. Em seguida, ele chama Alckmin para a fotografia. Os dois seguram a bandeira aberta diante dos fotógrafos, enquanto Lula faz um sinal de positivo. Após os registros, Lula reúne o tecido com as mãos e devolve a bandeira à mesma pessoa que havia lhe entregado o objeto.

Imagem: Captura de tela de post enganoso sobre o episódio; Reprodução: X
Imagem: Captura de tela de post enganoso sobre o episódio; Reprodução: Instagram
Imagem: Captura de tela de post enganoso sobre o episódio; Reprodução: X
Imagem: Captura de tela de post enganoso sobre o episódio; Reprodução: X

Os cinco posts monitorados pelo Bereia somam 373,9 mil visualizações e 66,8 mil interações visíveis, entre 45,7 mil curtidas, 8,4 mil comentários e 12,7 mil reposts.

Lula jogou a bandeira no chão?

Não. A sequência completa do vídeo mostra que Lula dobra a bandeira, que era de grande dimensão, e a devolve à pessoa que estava no local.

Nas publicações, o movimento é descrito como se Lula tivesse “amassado” a bandeira e, em seguida, jogado o objeto no chão. No entanto, as imagens originais não sustentam essa interpretação. Depois de dobrar o tecido, o candidato o entrega novamente à pessoa que havia lhe passado a bandeira.

A diferença entre o que as imagens mostram e a manipulação atribuída a elas é relevante. Embora o vídeo registre um episódio real ocorrido após a votação, as publicações acrescentam ao gesto um significado que não corresponde à  sequência da gravação original. A partir dessa leitura, os posts associam a cena a afirmações falsas, sem base factual, de que Lula “odeia o Brasil” ou não respeitaria a bandeira nacional.

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O conteúdo é classificado pelo Bereia como enganoso. O vídeo original mostra Lula segurando uma bandeira do Brasil e posando para fotografias após votar em São Bernardo do Campo. Depois, ele dobra a bandeira e a devolve à pessoa que havia lhe entregado o objeto. As imagens em momento algum mostram Lula jogando a bandeira no chão, como afirmam as publicações monitoradas que usaram de mentira para campanha eleitoral.

Referências:

Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=QU4S6Bq1DpY. Acesso em 4 de setembro de 2026.

Congresso em Foco. https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/122950/lula-vota-em-sao-bernardo-acompanhado-de-alckmin-marina-e-tebet. Acesso em 4 de setembro de 2026.

Plantão Bereia Eleições 2026: Perfil usa IA para confundir eleitores nas redes

Circula pelas mídias sociais, conteúdos que distorcem falas do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Além disso, por meio da ferramenta de busca reversa, Bereia apurou que perfis propagadores de mentiras, produziram conteúdo sintético falso por Inteligência Artificial (IA) para desinformar e confundir os eleitores.

Distorção de falas verdadeiras

Na primeira imagem, a frase atribuída ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva é falsa. Ele nunca proferiu as palavras “Quanto mais inteligente as pessoas são, menos elas votam na gente”. 

Imagem: Publicação em perfil no X

Contexto: Em entrevista ao canal Normose, no YouTube, em 30 de setembro de 2026, o presidente Lula comentou sobre a relação entre o nível de escolaridade e o posicionamento político dos eleitores e disse “Você já reparou que, quanto mais as pessoas são graduadas, mais elas são conservadoras? Você não fica com pena disso?”

Na ocasião, o presidente manifestou surpresa e lamentou o fato de que o maior acesso à educação superior não tenha gerado, necessariamente, uma maior aproximação com o espectro político da esquerda, associando os diplomas universitários ao crescimento de votos em candidatos de oposição.

Embora a fala original tenha gerado fortes debates e críticas de opositores políticos no cenário eleitoral, em nenhum momento o mandatário utilizou o termo “inteligente” ou afirmou que pessoas com maior intelecto rejeitam o seu partido ou governo.

O texto que circula nas redes digitais é uma distorção fraudulenta.

Na segunda imagem, o perfil destaca falas cujo conteúdo desinforma ao associar a imagem do presidente Lula a frases fora do contexto. 

Imagem: Publicação em perfil no Facebook

“Aquele negro sem dente.”

Contexto: Lula não usou a expressão para ofender ou discriminar. Em agosto de 2025, durante um discurso sobre o programa Brasil Sorridente em Sorocaba (SP), ele criticou uma peça publicitária antiga do próprio governo federal que seria enviada para a Alemanha. Lula considerou a publicidade preconceituosa por retratar o Brasil de forma estereotipada, mostrando um homem negro sem a dentição ao lado de uma mulher branca. 

Na ocasião, ele ordenou o descarte da página, defendendo que “pobre gosta de coisa boa” e que o Estado deve garantir saúde bucal digna à população.

“Gari é uma profissão que dá vergonha.”

Contexto: Lula não menosprezou os garis. Em um comício de campanha em Belo Horizonte (MG), realizado em agosto de 2026, ele discursava sobre invisibilidade social e desigualdade de oportunidades educacionais. O presidente argumentou que a sociedade e a falta de oportunidades fazem com que algumas profissões não recebam o devido valor e prestígio (ao contrário de médicos ou engenheiros), embora o trabalho da limpeza urbana seja essencial. O presidente enfatizou que, se os garis parassem de trabalhar por uma semana, as pessoas que os ignoram passariam a enxergar a importância crucial deles.

“Se quer bater em mulher vá bater em casa” / “Se for corinthiano pode bater na mulher.”

Contexto: Trata-se de uma distorção de uma fala de 2022. Em um encontro com mulheres no Vale do Anhangabaú (SP), Lula comentava sobre pesquisas que mostram o aumento da violência doméstica após jogos de futebol. Ao criticar esse comportamento, ele declarou: “Se o cara é corinthiano e o Corinthians perde, ele vai bater na esposa? Não. Se ele quiser bater, que vá bater em outro lugar, não dentro da sua casa ou em mulher”. 

Embora a frase tenha sido amplamente instrumentalizada por veículos ultraconservadores, devido à má ee inadequada  formulação pelo presidente, ela explicitamente condena a violência doméstica e o machismo, e não os defende ou autoriza agressões baseadas em times de futebol.

“Os traficantes são vítimas dos usuários.”

Contexto: Durante coletiva de imprensa em Jacarta, na Indonésia, em outubro de 2025, o presidente Lula disse que os traficantes são “vítimas dos usuários” enquanto falava sobre o combate às drogas no Brasil.

Após a repercussão negativa, Lula fez uma publicação na rede social X (antigo Twitter) se retratando: “Fiz uma frase mal colocada nesta quinta e quero dizer que meu posicionamento é muito claro contra os traficantes e o crime organizado”, escreveu. Em seguida, reiterou a atuação do governo contra o tráfico de drogas e o crime organizado. 

As regras para uso de IA nas eleições

A partir do dia 1º de outubro deste ano entrou em vigor regras mais rígidas para o uso de inteligência artificial (IA) nas eleições. A determinação do Tribunal Superior Eleitoral proíbe a publicação, republicação ou impulsionamento de novos conteúdos produzidos ou alterados por IA que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidatos, candidatas ou pessoas públicas. A proibição começou 72 horas antes da eleição (0h de quinta-feira) e vai até 24 horas após o encerramento da votação no domingo (segunda-feira, às 17h). 

A medida está prevista em resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para as Eleições 2026 e busca evitar que conteúdos sintéticos divulgados às vésperas da votação possam interferir no processo eleitoral.

Isso significa que, nesse período, não podem ser publicados novos vídeos, áudios ou outros conteúdos sintéticos que utilizem, por exemplo, a imagem ou a voz de um candidato ou de uma pessoa pública, ainda que a manipulação esteja identificada. A regra também alcança republicações e impulsionamentos pagos.

O que acontece quando as regras são descumpridas?

No caso da restrição válida nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores à eleição, o descumprimento pode levar à remoção imediata do conteúdo ou à indisponibilidade do serviço de comunicação, por iniciativa do provedor ou por determinação judicial. Outras sanções previstas na legislação eleitoral também podem ser aplicadas.

Já o uso de deepfake em propaganda eleitoral para prejudicar ou favorecer candidatura pode configurar abuso do poder político e uso indevido dos meios de comunicação social, com consequências que podem incluir a cassação do registro ou do mandato, além de outras medidas cabíveis.

Referências

https://www12.senado.leg.br/verifica/materias-especiais/2026/ia-nas-eleicoes-veja-o-que-fica-proibido-a-partir-desta-quinta-feira Acesso em 04 OUT 2026

https://www.tse.jus.br/legislacao/compilada/res/2026/resolucao-no-23-755-de-2-de-marco-de-2026 Acesso em 04 OUT 2026

Lula não debochou de garis em discurso em BH | G1 Acesso em 04 OUT 2026

https://www.otempo.com.br/politica/2025/8/23/negro-alto-sorrindo-sem-nenhum-dente-declaracao-de-lula-sobre-propaganda-divide-opinioes Acesso em 04 OUT 2026

https://www.bbc.com/portuguese/articles/c205q70zjxpo Acesso em 04 OUT 2026

Plantão Bereia nas Eleições: Mentira sobre voto digital foi patrocinada e impulsionada pela Meta

A informação falsa de que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) disponibilizou o voto digital circula pelas mídias sociais neste 4 de outubro, dia de primeiro turno das eleições. A única forma de voto existente no Brasil é presencial, por meio das urnas eletrônicas disponibilizadas nos colégios eleitorais sem conexão com a internet. Não há qualquer informação oficial do TSE sobre mudanças na forma de votação.

Reprodução/Mídias Sociais

O conteúdo falso, checado pelo Bereia, usa identidade visual do TSE e afirma que a medida foi tomada para que chuvas, ventos e enchentes não impeçam que a população vote. A publicação com informações falsas foi impulsionada pela Meta, empresa dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, como anúncio pago.

A publicação também oferece um link para uma página falsa que usa o termo “Autoatendimento” em referência ao serviço “Autoatendimento do Eleitor” do Tribunal Superior eleitoral, mas o endereço não possui vínculos com a Justiça Eleitoral.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Referências

Tribunal Superior Eleitoral (TSE)

https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Setembro/manual-do-eleitor-veja-como-se-preparar-para-a-votacao

https://www.tse.jus.br/servicos-eleitorais/autoatendimento-eleitoral#

Plantão Bereia nas Eleições: Pastor Silas Malafaia indica candidatos e reforça alegações enganosas contra o STF

O pastor presidente da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia, publicou, na véspera da abertura das urnas, em seu canal no YouTube, um vídeo em que orienta eleitores do Rio de Janeiro sobre os candidatos que recomenda para as eleições de 2026. Na publicação, Malafaia pede votos para o deputado federal evangélico pastor Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e alega que o parlamentar é vítima de perseguição do ministro  do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino. 

Ao falar sobre as duas vagas para o Senado pelo Rio de Janeiro, o pastor também orienta os eleitores a não votarem em Pedro Paulo (PSD-RJ) e Benedita da Silva (PT-RJ), sob a justificativa de que ambos protegeriam o ministro do STF Alexandre de Moraes, que, conforme o alerta do pastor, será o próximo presidente da Corte. O Bereia verificou as alegações e classificou o conteúdo como enganoso.

Imagem: Captura de tela do vídeo publicado por Malafaia. Reprodução: Youtube, 3 out 206

Sóstenes Cavalcante é perseguido por Flávio Dino? Engano!

A afirmação de que o deputado federal do PL-RJ Sóstenes Cavalcante é vítima de uma perseguição pessoal do ministro Flávio Dino não é sustentada por comprovação documental ou por manifestação pública. Dino é ministro do STF e relator das ações que tratam das emendas parlamentares e estão em julgamento. Nessa condição, cabe a ele analisar e tomar decisões judiciais nos processos que estão sob sua relatoria com base em investigações da Polícia Federal (PF).

No caso que envolve o nome de Sóstenes Cavalcante, medidas judiciais foram encaminhadas a partir de investigações solicitadas pela PF, com parecer favorável da Procuradoria-Geral da República, autorizadas, então, pelo STF. As apurações buscavam investigar suspeitas de peculato (desvio de recursos públicos), lavagem de dinheiro, fraude processual e organização criminosa relacionadas ao uso de recursos de cota parlamentar.

O deputado do PL e pastor da igreja de Silas Malafaia é acusado de simular contratos de serviços inexistentes, principalmente de aluguel de veículos, utilizando empresas de fachada (locadoras) para desviar o dinheiro público da cota parlamentar designada ao seu gabinete. 

Há também provas sobre recursos públicos desviados que retornariam aos assessores e ao deputado após passarem por essas empresas e por transações fracionadas de saques e depósitos abaixo de R$ 10 mil (técnica conhecida como smurfing ) para escapar ao controle do Coaf. O esquema envolveu movimentações suspeitas de milhões de reais por assessores de gabinete do parlamentar.

Durante buscas em endereços vinculados a Sóstenes Cavalcante, a PF apreendeu, na casa dele, R$ 468 mil em dinheiro vivo,  escondidos em sacos de lixo em um armário. A defesa alegou tratar-se da venda legítima de uma casa. Porém, investigações posteriores apontaram que a escritura imobiliária teria sido forjada sem lastro bancário real para encobrir a origem ilegal do dinheiro. 

Além de negar veementemente as irregularidades, Sóstenes Cavalcante, passou a classificar as operações, as investigações, as provas encontradas e as ações judiciais como “perseguição política” motivada por sua atuação em oposição ao governo federal. O argumento é, agora, repetido pelo padrinho político de Cavalcante, o pastor Silas Malafaia.

Pelo que existe de documentação e registros públicos, a atuação do ministro Flávio Dino no caso foi determinada pelo STF, de acordo com o regulamento de distribuição de processos e não decorre da perseguição pessoal ao deputado. O trabalho institucional do ministro do STF e relator das ações relacionadas às emendas parlamentares é desenvolvido de acordo com os protocolos da Corte. O próprio histórico processual registra Dino como responsável pela relatoria de várias ações que tratam do caso das emendas parlamentares.

Assim, ao apresentar a atuação judicial de Dino como uma perseguição a Sóstenes Cavalcante, o pastor Silas Malafaia transforma uma atuação institucional e fundamentada em decisões judiciais em uma interpretação pessoal, sem apresentar evidências que comprovem a existência de perseguição.

Evitar voto em senadores que protegerão Alexandre de Moraes? Enganoso!

O ministro do STF Alexandre de Moraes é, de acordo com a tradição de sucessão da Corte, o próximo ministro na linha para assumir a Presidência, mas sua escolha ainda não foi oficialmente confirmada.

A tradição do Supremo é que a Presidência siga um sistema de rodízio baseado na antiguidade entre os ministros que ainda não exerceram o cargo. Moraes é atualmente vice-presidente do STF na gestão de Edson Fachin, cujo mandato corresponde ao biênio 2025–2027.

Por esse critério, há expectativa de que Moraes assuma a Presidência em setembro de 2027. No entanto, a indicação ainda depende da escolha formal pelos ministros do Tribunal, de modo que não é correto apresentar a posse como um fato já definido.

Ainda que isto aconteça, é interpretativo que candidatos ao senado Benedita da Silva (PT) e Pedro Paulo (PP) atuariam para proteger Alexandre de Moraes. A afirmação é enganosa, sem base factual (evidências documentais ou de manifestações públicas). O argumento de campanha do líder religioso se apresenta como um recurso retórico de defesa no voto para senadores do PL, baseado em controvérsias em relação ao STF, e não na prioridade das ações de quem ocupa vagas no senado, do que estes parlamentares devem de fato fazer – legislar em favor das demandas da população, conforme a campanha Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade tem informado.

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O vídeo de Silas Malafaia combina informações sobre fatos reais com interpretações apresentadas como fatos. A afirmação de que Sóstenes Cavalcante é perseguido por Flávio Dino não é sustentada pelas informações disponíveis sobre as investigações que envolvem o deputado. Já a afirmação de que Alexandre de Moraes será o próximo presidente do STF parte de uma expectativa baseada na tradição de sucessão da Corte, mas apresenta como definida uma escolha que ainda não foi formalizada. O Bereia classifica o conteúdo como enganoso.

Referências:

G1.

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/07/01/pf-investiga-se-aliados-de-sostenes-forjaram-escritura-de-imovel-para-justificar-dinheiro-apreendido.ghtml. Acesso em 4 out  2026.

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2025/12/19/deputados-sostenes-cavalcante-e-carlos-jordy-ambos-do-pl-sao-alvo-de-operacao-da-pf-por-desvio-de-verba-publica.ghtml  Acesso em 4 out  2026.

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/07/01/pf-investiga-origem-de-quase-r-500-mil-encontrados-em-apartamento-usado-por-sostenes-cavalcante-lider-do-pl-na-camara.ghtml    Acesso em 4 out  2026

Aos Fatos. 

https://www.aosfatos.org/noticias/stf-moraes-presidente-2027/. Acesso em 4 out  2026.

Uol.

https://noticias.uol.com.br/confere/ultimas-noticias/2026/09/08/e-falso-que-stf-tenha-confirmado-moraes-para-presidencia-da-corte-em-2027.ghtm. Acesso em 4 out  2026.

Supremo Tribunal Federal.

https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/stf-autoriza-busca-e-apreensao-em-investigacao-sobre-suspeitas-de-desvio-de-recursos-de-cota-parlamentar/. Acesso em 4 out  2026.

Estadão
https://www.estadao.com.br/politica/sostenes-e-outros-dois-deputados-do-pl-sao-laranjas-de-valdemar-em-emendas-com-suspeita-de-desvio/   Acesso em 4 out  2026

SBT News

https://www.youtube.com/watch?v=9zkcbysZtSk   Acesso em 4 out  2026

Plantão Bereia nas Eleições: Mentiras por IA, na véspera das eleições, atrelam Lula e Janja a rituais satânicos e promovem intolerância religiosa

Checagem da Agência Lupa confrontou movimento nas redes na véspera da abertura das urnas (sábado, 3 de outubro) que associa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a primeira-dama Janja da Silva a “rituais satânicos”. As publicações se intensificaram nas redes sociais e aplicativos de mensagem e viralizaram entre grupos de igrejas.

Conforme publicado pela Lupa, as mensagens, marcadas por intolerância religiosa, combinam conteúdos falsos que circulam há anos com imagens e vídeos manipulados por inteligência artificial (IA). Produtores deste conteúdo falso buscam, na véspera da eleição, interferir no direito do eleitorado ao voto e à escolha sem mentira.

Monitoramento da Lupa mostra que, nos últimos 90 dias, a média diária de menções sobre esse tema foi de 1,33 mil, chegando a 120 mil menções em todo período. No levantamento, a agência identificou que o movimento desinformativo surgiu após a repercussão que acusou o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) a uma suposta proposta para retirar o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida, como Bereia checou.

Imagem: Reprodução, Instagram Lupa, 3 out 2026

Entre sexta, 2 de outubro, e sábado 3, as mensagens alcançaram 208 milhões de perfis no X, Instagram, Reddit e Youtube, conforme estimativa do monitoramento da Lupa, pela plataforma Meltwater. As imagens simulam capas de revistas e transmissões da GloboNews, por IA, que levam a crer que o presidente da República e sua esposa teriam realizado a consagração do Brasil a Exu ou que estariam promovendo projetos para favorecer religiões de matriz africana em detrimento de igrejas cristãs. 

Outra postagem espalha mentira  ao afirmar que Janja pretende taxar igrejas evangélicas para financiar novos terreiros de umbanda, o que é inventado não tem qualquer base factual. Também voltou a circular uma antiga mentira de 2022, com vídeo que simula que Lula estaria falando a palavra “demônio” e que este estaria tomando conta do presidente. 

Este tipo de mentira já foi checado pelo Bereia em 2022 e durante o governo Lula. Nas eleições de 2022, um vídeo manipulado ligava Lula ao satanismo e viralizou entre evangélicos. Em 2024, para criticar política econômica, opositores espalham um conteúdo falso de que a coluna Painel da Folha de S.Paulo teria publicado um texto intitulado “Janja encomenda ritual de candomblé para reduzir dólar, diz assessor do PT”. No ano passado, 2025, a deputada federal evangélica Clarissa Tércio (PP-PE) usou seu perfil no Instagram para atacar Janja da Silva, que havia se encontrado com mulheres evangélicas e participado de culto durante visita a Caruaru (PE), no último 30 de setembro. De acordo com a deputada, “dias atrás ela estava no terreiro de macumba, e agora quer posar de ‘amiga das evangélicas’”.  

Bereia reafirma que as antigas e as novas publicações, conforme checagem da Agência Lupa, são falsas, criadas com a intenção de prejudicar a imagem de Lula com o eleitorado cristão. O conteúdo também é usado para reforçar o preconceito com religiões de matriz africana (Candomblé e Umbanda) e o racismo religioso que historicamente demonizam estas fés e as atrelam falsamente a um inventado satanismo.

Uma das postagens com esses conteúdos foi identificada pelo Bereia e caiu no filtro da Meta, dona do Instagram e do Facebook. Ao abrir a publicação, aparece o escrito “Informação falsa. Semelhante a outro post analisado por verificadores de fatos independentes” e o usuário apenas visualiza o conteúdo se assim optar, apesar do aviso. O responsável pela republicação foi Antônio Pinto Pereira, político em Portugal.

Plantão Bereia nas Eleições: Publicações enganam sobre suposto ataque do PCC após resultado das eleições

Boatos sobre um suposto plano de ataques da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) em todo o Brasil, caso o candidato Flávio Bolsonaro (PL) seja eleito presidente, ganham força nas mídias sociais.

Neste 3 de outubro, Bereia apurou que o conteúdo é publicado por diversos perfis alinhados à extrema direita e usa de forma distorcida uma reportagem da VTV News, afiliada do SBT no interior de São Paulo.

Foto: Reprodução/X

A reportagem, publicada em 1º de outubro no canal da emissora no Youtube, diz que um documento do Departamento de Inteligência da Polícia Civil de São Paulo revelou a existência de um plano em andamento para atacar e assassinar policiais em diversas cidades do estado.

De acordo com o veículo, a polícia trata os dados da denúncia como informação não confirmada, que precisa de verificação, mas com alto potencial de impacto. O documento mostrado na reportagem afirma que não foram identificados endereços, imóveis ou alvos específicos. Tal publicação indica mais um apelo sensacionalista de um caso que está apenas sob suspeita, sem confirmação, mas que gera atenção do público.

Foto: Reprodução/Youtube

Nenhum interesse eleitoral é mencionado pela reportagem ou pelo documento apresentado. Também não há referência a embaixadas ou representantes de países estrangeiros.

Mais cedo no sábado 3 de outubro, Bereia apurou que candidatos filiados ao Partido Liberal (PL) e ao Partido Progressista (PP) usam de mentiras, informações imprecisas e fora de contexto para afirmar que as embaixadas dos Estados Unidos e da Austrália foram fechadas por ameaça de atentado do PCC.

Outras publicações também afirmam, sem qualquer embasamento, que o PCC estaria articulado ao Partido dos Trabalhadores (PT) e ao Supremo Tribunal Federal (STF) para evitar a vitória de Flávio Bolsonaro (PL).

Foto: Agência Brasil

Referências

VTV News no Youtube
https://www.youtube.com/watch?v=C93uA6rAXDg&t=2s Acesso em 3 outubro 2026

Coletivo Bereia

https://coletivobereia.com.br/influenciadores-publicam-mentiras-sobre-stf-planejar-anular-eleicoes/ Acesso em 3 outubro 2026

Plantão Bereia nas eleições: Presidente do TSE Kássio Nunes Marques se manifesta contra mentiras nas redes: não há qualquer ameaça contra as eleições

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, afirmou neste sábado, 3 de outubro, que os órgãos de inteligência que atuam em conjunto com a Justiça Eleitoral não identificaram ameaça concreta, estrangeira ou ligada ao crime organizado, à realização do primeiro turno das Eleições 2026, marcado para o domingo, 4 de outubro. “Nosso pleito não está sob ameaça concreta seja internacional ou do crime organizado. Os órgãos de inteligência que trabalham em parceria conosco não apontam qualquer indício disso”, afirmou Nunes Marques.

A declaração ocorre após a circulação, nas redes sociais, de publicações que relacionam a suspensão temporária dos atendimentos presenciais nas representações diplomáticas dos Estados Unidos e da Austrália a um suposto plano do Primeiro Comando da Capital (PCC) para atacar consulados e embaixadas durante o período eleitoral. O Bereia checou essas alegações neste sábado e constatou que candidatos utilizaram informações falsas, imprecisas e fora de contexto para sustentar a narrativa de que ameaças da organização criminosa teriam provocado o fechamento das representações diplomáticas.

As representações dos Estados Unidos e da Austrália suspenderam os serviços presenciais em 2 de outubro e alegaram razões de segurança, sem informar publicamente uma ameaça específica. No mesmo dia, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão em São Paulo e no entorno do Distrito Federal para apurar informações sobre possíveis atos contra instalações diplomáticas dos Estados Unidos. Segundo a PF, porém, as diligências não encontraram elementos que confirmassem os riscos inicialmente apontados nem identificaram suspeitos ligados a organizações criminosas.

A apuração do Bereia também não encontrou registro de ameaça recente do PCC contra embaixadas ou consulados. A checagem identificou que conteúdos publicados por candidatos misturaram episódios distintos e informações fora de contexto para associar o fechamento das representações diplomáticas a um suposto plano de ataques durante as eleições.

Diante da circulação dessas mensagens na véspera da votação, Nunes Marques fez um alerta aos eleitores. “O eleitor não pode acreditar em informações falsas criadas apenas para gerar tumulto e tentar desestabilizar a realização do pleito. Isso é tirar um dos direitos mais importantes das brasileiras e dos brasileiros”, declarou.

O presidente do TSE já havia afirmado, neste sábado, que o intercâmbio entre países democráticos não significa interferência no processo eleitoral. “É importante dizer que o Brasil e as demais nações democráticas do mundo, historicamente, trocam conhecimentos e contribuem mutuamente para o fortalecimento das democracias. Nações democráticas dialogam, não interferem”, disse. Ao comentar a presença de delegações internacionais que acompanham o pleito, acrescentou: “Eles vão poder perceber que o escopo da atuação da Justiça Eleitoral está centrado no eleitor e nas situações que possam afetar a votação, a apuração e a segurança do processo eleitoral”.

Nunes Marques também apontou a desinformação e o uso irregular de inteligência artificial entre as preocupações da Justiça Eleitoral. “Nossa prioridade é garantir que a eleitora e o eleitor possam exercer seu direito de voto com liberdade, segurança e tranquilidade. A atuação institucional, respeitando os limites constitucionais, é a nossa premissa. A Justiça Eleitoral, apesar de toda sua ramificação, consegue manter unicidade na missão de ser a justiça da democracia”, afirmou.

Neste sábado, o TSE também concluiu a verificação da integridade e da autenticidade dos sistemas responsáveis pela transmissão, recebimento e totalização dos resultados. O procedimento confirmou que os programas instalados no Tribunal correspondem aos sistemas anteriormente inspecionados, assinados digitalmente e lacrados. A Corte emitiu ainda a zerésima do banco de dados da totalização presidencial, documento que demonstra que não há votos registrados previamente.

Entre as medidas de acompanhamento do pleito, os dois últimos eleitores de cada seção serão convidados a permanecer no local durante o encerramento dos trabalhos. “Serão centenas de milhares de pessoas que poderão atestar que, depois delas, ninguém mais votou naquela seção”, afirmou Nunes Marques.

O primeiro turno ocorre neste domingo, 4 de outubro, das 8h às 17h, pelo horário de Brasília. Serão escolhidos presidente e vice-presidente da República, governadores e vice-governadores, dois senadores por unidade da Federação, deputados federais e deputados estaduais ou distritais.

Para consultar informações sobre votação, local, documentos, funcionamento das urnas e apuração, o eleitor deve recorrer aos canais oficiais da Justiça Eleitoral, entre eles o portal do TSE e a página Fato ou Boato, que reúne informações verificadas sobre o processo eleitoral. Conteúdos falsos ou enganosos capazes de afetar a integridade das eleições podem ser comunicados anonimamente ao Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral, o Siade.

Ao tratar da participação do eleitor no processo, Nunes Marques resumiu a orientação dada na véspera da votação: “O que o eleitor deve acreditar é que o voto dele é de uma importância tamanha que tem o poder de definir o destino dessa nação”.

Foto: Luiz Roberto/Secom/TSE

Referências

O Globo

https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/10/03/nunes-marques-diz-que-eleicao-nao-esta-sob-ameaca-de-interferencia-estrangeira-ou-do-crime-organizado.ghtml   – Acesso 3 out 26

Terra

https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/kassio-rebate-ameacas-internacionais-a-eleicao-mas-se-preocupa-com-ia-e-desinformacao,ffc47a147c33f09719043ecc6e958e5a8pe8ggkz.html – Acesso 3 out 26

TSE

https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/tse-verifica-integridade-dos-sistemas-eleitorais-na-vespera-do-1o-turno – Acesso 3 out 26

https://www.tse.jus.br/eleicoes/cde-2026  – Acesso 3 out 26

https://www.justicaeleitoral.jus.br/fato-ou-boato/ – Acesso 3 out 26

https://www.tse.jus.br/eleicoes/sistema-de-alertas – Acesso 3 out 26

Folha

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/presidente-do-tse-diz-nao-haver-ameaca-internacional-ou-do-crime-organizado-nas-eleicoes.shtml – Acesso 3 out 26

Brasil 247

https://www.brasil247.com/brasil/nunes-marques-diz-que-eleicao-nao-esta-sob-ameaca-de-interferencia-estrangeira/ – Acesso 3 out 26

Plantão Bereia nas Eleições: Influenciadores publicam mentiras sobre STF planejar anular eleições 

Entre as muitas mentiras nas redes digitais sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), estão publicações que mencionam que estas instituições da Justiça estariam atuando na articulação de mecanismos para interferir no resultado das eleições presidenciais de 2026. As postagens são feitas por influenciadores alinhados à direita e não apresentam base factual apenas suspeitas para gerar desconfiança e medo em eleitores.

Imagem: Extraída de perfil no X de Allan dos Santos, 3 out 2026

As postagens sugerem que, em caso de vitória do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), o STF poderia reverter o resultado ou impedir sua posse. Outra versão afirma que a Corte estaria preparando uma eventual anulação das eleições caso Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não seja reeleito. Estes conteúdos atrelam às afirmações o episódio envolvendo decisões das Cortes sobre publicações referentes à Nossa Senhora Aparecida como uma suposta estratégia mais ampla de interferência eleitoral.

Entre os conteúdos que alimentam as mentiras nas redes estão publicações dos influenciadores com identidade religiosa católica, evangélica e genérica cristã Allan dos Santos, Dr. Sandro Gonçalves, Fernando Santos Machado, Claudio Dantas, Jeffrey Chiquini e Sebastião Coelho.

STF vai anular as eleições?

As publicações checadas nesta matéria se baseiam acontecimentos de fato ocorridos, como decisões do STF e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nos últimos dias, mas apresentam conclusões sem comprovação ou evidências factuais.

O conteúdo circulante se baseia nos casos que envolveram disputas entre ministros no âmbito do STF e do TSE  em torno de decisão relacionada ao caso “Nossa Senhora Aparecida”, checado pelo Bereia, e do cancelamento do debate entre candidatos à Presidência da República, promovido pela Rede Globo, que ocorreria em 1 de outubro passado, também checado pelo Bereia.

O Supremo Tribunal Federal é a instituição que promove a garantia de cumprimento de tudo o que a Constituição do Brasil rege. O Tribunal Superior Eleitoral atua pela plena realização das eleições, autoriza candidaturas, fiscaliza campanhas e o processo de votação e promove a posse de quem é eleito/a para os cargos disputados. Todas as ações dessas cortes em relação às eleições devem obedecer a legislação e a jurisprudência.

Outro conteúdo amplamente disseminado pelos perfis citados afirma que a inteligência militar brasileira teria informado ao STF que as Forças Armadas não apoiariam uma eventual crise provocada pela Corte, incluindo um suposto boicote às eleições ou impedimento da posse do candidato eleito. Não há qualquer manifestação pública ou registro que comprove esse suposto comunicado nos termos apresentados nas redes. A alegação aparece como informação de bastidor, mas não há evidência verificável que permita confirmar a informação.  Tal conteúdo atua como alarde para desestabilizar a população.

As abordagens contidas nas publicações dos influenciadores citados nesta matéria sobre o STF ameaçar anular as eleições em prol de Lula bem como a menção às Forças Armadas se manifestarem sobre crise na Corte, são falsas e estão baseadas em interpretações, não em evidências ou comprovação, com a estratégia de criar desestabilização entre o eleitorado.

Mentiras sobre a relação PCC, o Comando Vermelho, Estados Unidos  e STF

As publicações também associam ameaças contra integrantes do STF a organizações criminosas e mencionam o cenário internacional como parte de uma suposta crise institucional brasileira. 

Existem situações concretas sobre esta temática. Em 2026, o governo dos Estados Unidos designou PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas segundo a legislação norte-americana. A decisão produz efeitos no âmbito jurídico dos Estados Unidos mas não têm ingerência sobre o Brasil, que tem suas leis e políticas de segurança próprias.

A noção de que estas facções criminosas estariam ameaçando ministros do STF para interferência nas eleições carecem de evidências e comprovação. A publicação deste conteúdo não tem base factual e atua na promoção de insegurança entre eleitores.

A falsa fragilidade do voto eletrônico

Imagem: Reprodução/Redes sociais

Qualquer suspeita colocada sobre o sistema eleitoral brasileiro, como vem ocorrendo desde 2022, é baseada em falsidade e criada para servir de ataque ao processo eleitoral e causar instabilidade na democracia. Como Bereia já checou, o sistema eletrônico de votação passa por diferentes etapas de fiscalização e auditoria antes, durante e depois do dia das eleições. 

No Teste Público de Segurança realizado em 2022, os achados identificados pelos investigadores não comprometeram a integridade, o sigilo do voto ou o resultado das eleições. Nas eleições de 2026, o Tribunal de Contas da União (TCU) também acompanhará os testes de integridade das urnas nas 27 unidades da Federação, verificando o cumprimento dos procedimentos de auditoria. O mecanismo compara votos previamente registrados em cédulas com a contabilização realizada pela urna eletrônica.

Isso não significa que o sistema eleitoral não possa ser fiscalizado ou questionado. Ao contrário: a fiscalização é parte do próprio processo eleitoral já validado. O que não encontra respaldo nas evidências disponíveis é transformar suspeitas genéricas sobre as urnas em afirmação de fraude ou manipulação sem apresentar provas verificáveis.

É importante ressaltar que o TSE concluiu, em maio de 2026, a segunda etapa do Teste Público de Segurança dos sistemas eleitorais e informou que os achados identificados não comprometeram o sigilo ou a integridade do voto. 

***

As publicações verificadas pelo Bereia misturam fatos com interpretações e alegações imaginadas. É verdadeiro que existe uma tensão entre ministros do STF e integrantes do TSE, que houve decisões conflitantes envolvendo conteúdos sobre Nossa Senhora Aparecida e que o processo eleitoral brasileiro enfrenta disputas políticas, jurídicas e informacionais.

Não há, porém, evidências públicas que comprovem a existência de um plano do STF para anular as eleições de 2026, impedir uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro à Presidência da República ou garantir a permanência de Lula no cargo. Também não foi localizada documentação ou evidências capazes de confirmar o suposto alerta da inteligência militar sobre um eventual boicote às eleições ou impedimento da posse do candidato eleito.

A estratégia observada com as publicações é de combinar fatos com acontecimentos paralelos e informações não verificadas para apresentar como consequência inevitável uma suposta articulação institucional. Por isso, a afirmação de que “o STF já prepara a anulação das eleições caso Lula perca” deve ser tratada como MENTIRA, e toda publicação com este conteúdo deve ser, no mínimo, desprezada.

Foto: Dorivan Marinho/SCO/STF

Referencias:

X/Twitter

https://x.com/allanconta5/status/2106265889708335265 (Allan dos Santos)

Youtube

https://www.youtube.com/watch?v=Q2AzOxdPpbU (Dr. Sandro Gonçalves) Acessado em 03 de Outubro de 2026

Instagram

https://www.instagram.com/p/DeB8Ktcsl2b/ (Fernando Santos Machado) Acessado em 03 de Outubro de 2026

https://www.instagram.com/p/DeAlmJktjSi/?hl=pt (Jeffrey Chiquini) Acessado em 03 de Outubro de 2026

https://www.instagram.com/p/DeByNxKT_aW/ (Claudio Dantas) Acessado em 03 de Outubro de 2026

https://www.instagram.com/p/DeAn0oFRLjL/ (Sebastião Coelho) Acessado em 03 de Outubro de 2026

TSE

https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Maio/eleicoes-2026-testes-confirmam-mais-uma-vez-a-seguranca-do-sistema-eleitoral-brasileiro? Acessado em 03 de Outubro de 2026

https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/eleicoes-de-2026-terao-acompanhamento-do-tcu-nos-testes-de-integridade-das-urnas-eletronicas Acessado em 03 de Outubro de 2026

BAND

https://www.band.com.br/politica/eleicoes/2026/tcu-acompanha-teste-de-integridade-das-urnas-eletronicas-antes-do-1o-turno#google_vignette Acessado em 03 de Outubro de 2026

Folha de Sao Paulo

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/09/entenda-disputa-politica-sobre-nossa-senhora-aparecida-apos-noticia-falsa-na-campanha.shtml Acessado em 03 de Outubro de 2026

STF

https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=7602614 Acessado em 03 de Outubro de 2026

Investing,com

https://br.investing.com/news/politics-news/designacao-terrorista-dos-eua-para-pcc-e-cv-ameaca-cooperacao-policial-com-o-brasil-dizem-fontes-1963181? Acessado em 03 de Outubro de 2026

Plantão Bereia nas Eleições: Candidatos usam medo para campanha e espalham mentiras sobre ataque do PCC a consulados às vésperas das eleições

Várias publicações sobre o fechamento das embaixadas dos Estados Unidos e da Austrália serem motivados por uma ameaça de ataque da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), circulam pelas mídias sociais às vésperas do primeiro turno das eleições. 

Neste 3 de outubro, véspera da abertura das urnas no Brasil, Bereia identificou vídeos publicados por candidatos a deputado, vinculados ao Partido Liberal (PL) e ao Partido Progressista (PP), que usam de mentiras, informações imprecisas e fora de contexto para gerar alarde e fazer campanha política. Os conteúdos, que alcançaram mais de um milhão de visualizações, são publicados em um contexto de ameaça de interferência estrangeira no processo eleitoral brasileiro.

São quatro candidaturas propagadoras dessas  mentiras nas redes:

* Babi Mendes (243,8 mil visualizações no Facebook e 472,6 mil no Instagram) – Bárbara Hannelore da Silva Mendes, empresária, criadora de conteúdo digital e candidata a deputada federal pelo Partido Liberal (PL-SP) 

* Paulo Mansur (105,5 mil visualizações no e 148,5 mil no Instagram) – Paulo Jorge Mansur Neto, candidato deputado estadual pelo Partido Liberal (PL-SP) 

* Dr. Marcello (3,9 mil visualizações no Facebook e 190,6 mil no Instagram) – Marcelo Cruz, vereador do Partido Liberal em Praia Grande (SP), candidato a deputado federal pelo PL-SP

* Keliana Fernandes (3,4 mil visualizações no Facebook e 26,5 mil no Instagram) – Keliana Fernandes Mangueiras, jornalista, radialista candidata a deputada federal pelo Progressistas (PP-MS)

Os dados foram coletados até a manhã de 3 de outubro. Total: 347,6 mil visualizações no Facebook e 838,2 mil no Instagram.

Por que embaixadas foram fechadas?

Em 2 de outubro, as representações diplomáticas dos Estados Unidos (EUA) e da Austrália no Brasil comunicaram a interrupção dos serviços presenciais em todas as cidades que oferecem atendimento direto. A justificativa para a medida foram motivos de segurança, mas as autoridades não especificaram quais seriam as ameaças potenciais, o que contribuiu para o surgimento de boatos.

No mesmo dia, a Polícia Federal (PF) cumpriu mandados de busca e apreensão em São Paulo e no entorno do Distrito Federal como “ações preventivas”. As investigações se baseiam em um suposto plano de atos contra as instalações diplomáticas do país estadunidense, mas, até o momento, não encontrou elementos que confirmariam a ameaça inicialmente apontada.

Em paralelo, Canadá, Reino Unido, Irlanda e Alemanha publicaram comunicados recomendando vigilância redobrada aos cidadãos que pretendem estar no Brasil. O alerta é para o risco de manifestações políticas espontâneas e distúrbios civis associados ao acirramento eleitoral e ao pleito que ocorrerá no dia 4 de outubro. 

Os vídeos apurados pelo Bereia elencam uma série de informações fora de contexto para construir uma ideia falsa e espalhar pânico de que ameaças do PCC motivaram o fechamento das embaixadas dos Estados Unidos e da Austrália. 

O PCC planeja ataques durante as eleições?

Uma das afirmações que circulam por publicações de candidatos é de que a Polícia Civil de São Paulo teria identificado um plano do PCC para atacar agentes de segurança, mas nenhuma ameaça recente contra embaixadas foi identificada. Nos últimos anos, integrantes da organização criminosa foram condenados por planejar ataques contra autoridades e o sistema penitenciário, mas não há histórico de planos contra representações diplomáticas.

Em maio passado, em meio a um contexto de tensões impostas pelo governo dos Estados Unidos ao Brasil, o governo Donald Trump designou o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras, de forma contrária à classificação do Brasil como facções do crime organizado. A medida gerou reação no governo federal e abriu uma discussão sobre os limites da atuação de um país estrangeiro diante de questões de segurança pública dentro do território nacional.

O governo brasileiro contestou a possibilidade de ações extraterritoriais dos Estados Unidos sobre o Brasil. Em julho, o Ministério das Relações Exteriores informou ao Congresso Nacional que a classificação das facções como narcoterroristas poderia abrir espaço para medidas estadunidenses contra as instituições do Estado brasileiro. O Itamarary afirmou existir possibilidade de uso de força militar dos Estados Unidos em território brasileiro.

Estrangeiros foram impedidos de acompanhar as eleições brasileiras?

Vídeos checados pelo Bereia repetem a informação de que diplomatas dos Estados Unidos que verificariam as eleições tiveram visto negado. Em julho deste ano, Ministério das Relações Exteriores do Brasil confirmou a negativa de vistos a dois funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos por outros motivos.

Segundo o Itamaraty, a decisão ocorreu porque o pedido foi apresentado após um encontro em Brasília no qual políticos brasileiros levantaram suspeitas sobre as urnas eletrônicas diante de diplomatas estrangeiros, a exemplo do ocorrido em 2022. O governo brasileiro considerou que a visita poderia representar uma instrumentalização política do processo eleitoral.

O questionamento às urnas eletrônicas voltou a ganhar destaque após o então pré-candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), divulgar informação falsa sobre as urnas brasileiras. Na ocasião, Bereia checou o conteúdo publicado por Flávio e constatou o uso de informações falsas para atacar o sistema eleitoral brasileiro.

Centenas de observadores de vários países e organismos internacionais estão no Brasil para as eleições

Desde 1º de outubro passado, mais de 140 observadores de sete organizações internacionais chegaram ao Brasil para acompanhar as eleições de 2026, incluindo representantes da Organização dos Estados Americanos (OEA), da União Europeia, Parlamento do Mercosul (Parlasul), Liga dos Estados Árabes e The Carter Center (EUA). 

As missões têm caráter de observação independente e técnico e deverão produzir relatórios sobre o processo eleitoral. Assim, elas acompanharão etapas como a preparação, a votação e a apuração, avaliando aspectos como integridade, logística, tecnologia e cumprimento das normas eleitorais.

A OEA enviou 91 observadores de 23 países, que acompanharão o processo em 20 estados e no Distrito Federal. Além das organizações internacionais convidadas pelo TSE, entidades nacionais também foram credenciadas para atuar como observadoras.

Referências

Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-10/eua-e-australia-fecham-embaixadas-no-brasil-vesperas-da-eleicao Acesso em 3 de junho 2026

https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-10/policia-federal-investiga-suposta-ameaca-embaixada-dos-eua Acesso em 3 de junho 2026

https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2026-07/brasil-nega-visto-para-funcionarios-dos-eua-que-queriam-monitorar-urnas Acesso em 3 de junho 2026

https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-10/observadores-internacionais-chegam-ao-brasil-para-monitorar-eleicoes Acesso em 3 de junho 2026

g1

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/10/02/embaixadas-alegam-risco-de-seguranca-em-razao-das-eleicoes-e-emitem-alerta-eua-suspenderam-atendimento.ghtml Acesso em 3 de junho 2026

CNN Brasil
https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/sp/justica-federal-condena-cupula-do-pcc-por-plano-de-ataques-com-explosivos/ Acesso em 3 de junho 2026

Outras Palavras
https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/a-nova-ameaca-de-trump-contra-o-brasil/ Acesso em 3 de junho 2026

Plantão Bereia nas Eleições: Candidato a deputado federal Jeffrey Chiquini (Novo-PR) mente nas redes sobre interferência do STF nas eleições

Circula nas redes publicação enganosa do advogado candidato a deputado federal Jeffrey Chiquini (Novo-PR). Ele usa publicação prévia do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino para sugerir que a Corte poderia anular ou alterar o resultado das eleições presidenciais de 2026 para favorecer a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).


Reprodução/Redes sociais

Na publicação, Chiquini, que se identifica publicamente como cristão, já produziu outros conteúdos falsos relacionados a pautas religiosas. Agora ele questiona se, em caso de vitória de Flávio Bolsonaro (PL), o Supremo atuaria para reverter o resultado ou anular a eleição. A interpretação, porém, vai muito além e distorce o que o ministro Flávio Dino publicou.

O que o ministro Flávio Dino escreveu

Neste 2 de outubro, o ministro do STF Flávio Dino publicou um texto educativo no Instagram intitulado “Poder Judiciário e Eleições”. Dino afirma que cabe ao Judiciário solucionar controvérsias e apresenta dois exemplos históricos: a disputa entre George W. Bush e Al Gore pela Presidência dos Estados Unidos, em 2000, e a impugnação da candidatura de Silvio Santos à Presidência do Brasil, em 1989.

Reprodução/Redes sociais

Sobre o segundo episódio, Dino escreveu que a eleição daquele ano teve seu desfecho “fortemente influenciado por uma decisão judicial” e acrescentou que “a Justiça mais uma vez foi chamada a resolver um litígio”.

O caso citado pelo ministro de fato ocorreu. Em 9 de novembro de 1989, seis dias antes do primeiro turno, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indeferiu por unanimidade o registro da chapa de Silvio Santos. Entre os fundamentos estavam a situação jurídica do partido pelo qual concorreria e sua inelegibilidade em razão da atuação como dirigente de uma empresa concessionária de serviço público. 

A entrada de Silvio Santos na disputa da primeira eleição direta depois da ditadura militar, pelo Partido Municipalista Brasileiro (PMB), provocou forte impacto inicial na disputa. Pesquisa Gallup divulgada em 2 de novembro de 1989, chegou a apontar o apresentador de TV na liderança, com 29% das intenções de voto, contra 18,6% de Fernando Collor . O cenário, porém, mudou rapidamente: levantamento Datafolha realizado nos dias 6 e 7 de novembro de 1989, o último localizado antes do julgamento do TSE, registrou Silvio Santos com 10% das intenções de voto. Em 9 de novembro, seis dias antes do primeiro turno, o TSE indeferiu sua candidatura por unanimidade.

Chiquini utiliza esses exemplos para levantar a hipótese de que decisões semelhantes poderiam ser usadas contra a eleição de Flávio Bolsonaro em 2026. O próprio texto de Dino, entretanto, explicita o motivo da publicação.

Depois de citar os casos dos Estados Unidos e de Silvio Santos, o ministro escreve:

“Digo isso para defender a legitimidade dos DOIS MAGISTRADOS (ministros Kassio Nunes Marques e Gilmar Mendes) e DA MAGISTRADA (ministra Estela Aranha) que tomaram decisões judiciais sobre regras de debates”.

Dino se refere à controvérsia em torno do debate presidencial que seria promovido pela TV Globo, cancelado pela emissora. O ministro do STF, que preside o Tribunal Superior Eleitoral Kassio Nunes Marques, havia determinado, dias atrás, a participação do candidato Romeu Zema (Novo) no debate, atendendo a recurso da campanha, crítica ao fato de o candidato ter sido descartado do programa. Já a ministra do TSE Estela Aranha atendeu a recurso da campanha de Lula sobre os efeitos negativos da estratégia da emissora de exibir um púlpito vazio para representar Lula, que havia decidido não participar  do encontro, mas receberia perguntas dos adversários mesmo ausente. Por fim, o ministro do STF  Gilmar Mendes atendeu a recurso do deputado federal Paulinho da Força (Solidariedade), para garantir a presença do candidato Renan Santos (Missão), também excluído pela emissora. O ministro Flávio Dino afirmou considerar legítimas as três decisões, assim como as discordâncias em relação a elas.

A mentira do candidato Jeffrey Chiquini nas redes

Bereia checou que em nenhum trecho da publicação de Flávio Dino é mencionada ou indicada ação contra eventual vitória de Flávio Bolsonaro, afirmação de que o STF poderia declarar Lula vencedor caso ele perdesse nas urnas ou proposta de anulação das eleições caso o atual presidente seja derrotado. Essas hipóteses são disseminadas por mera interpretação do advogado candidato do Novo pelo Paraná à Câmara Federal.

A atuação dos órgãos do Judiciário brasileiro, STF e TSE,  também não significa que possam interferir no processo e escolher quem ocupará a Presidência. A Justiça Eleitoral pode julgar registros, inelegibilidades, diplomas e outras controvérsias previstas na legislação. Nas eleições presidenciais, o acionamento dos tribunais seguem procedimentos judiciais próprios, e a Constituição delimita, inclusive, as hipóteses em que decisões do TSE podem ser levadas ao STF.

A acusação de interferência eleitoral contra Dino já havia circulado dias antes. Em 27 de setembro, o ministro derrubou decisão do colega, ministro do STF e do TSE André Mendonça, que determinou o que pode ser classificado com censura. Mendonça deliberou pela retirada de uma publicação do humorista Antonio Tabet em plataformas digitais, relacionada à falsa informação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil, como Bereia checou. A decisão de Dino provocou críticas e divergência entre juristas sobre os limites da atuação do STF diante de decisões da Justiça Eleitoral. Porém, o TSE mesmo julgou o caso em plenário, e Mendonça teve que rever sua deliberação e devolver o direito à publicação à Antônio Tabet.

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O Bereia classifica a publicação do candidato paranense Jeffrey Chiquini como enganosa porque ela parte de afirmações publicadas por Flávio Dino sobre o papel do Judiciário em controvérsias eleitorais, e as distorce para atribuir a elas uma interpretação sem base factual: a de que o STF estaria preparando uma intervenção para anular uma vitória de Flávio Bolsonaro ou garantir a permanência de Lula no poder. O advogado candidato já checado pelo Bereia por outras postagens mentirosas, atua nas redes para desestabilizar o processo eleitoral criar descrédito de seguidores quanto ao papel do Judiciário nas eleições.

Suspeita de financiamento irregular na campanha do PL à Presidência envolve EUA e fazendas de IA

Circula no debate eleitoral a informação de que a campanha do candidato do Partido Liberal (PL) à Presidência da República Flávio Bolsonaro recebeu dinheiro da Rockbridge Network. A organização atua para financiamento político a partir dos Estados Unidos e foi fundada pelo vice-presidente daquele país James David Vance, que também preside o Senado dos Estados Unidos. 

A denúncia foi feita pelo candidato à Presidência da República Renan Santos (Missão) e ganhou repercussão neste setembro, em meio a uma eleição marcada pelo crescimento de anúncios pagos contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e por fazendas de conteúdo com inteligência artificial (IA) ligadas a apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O Bereia verificou o que está documentado, o que a lei proíbe e o que continua sem comprovação, para oferecer a leitores e leitoras um alerta sobre a manipulação de conteúdo em prol de determinadas campanhas eleitorais.

A denúncia e suas origens

Em 5 de setembro passado, durante discurso de campanha no Ceará, Renan Santos afirmou que a Rockbridge “entrou na campanha” de Flávio Bolsonaro e que os empresários Tallis Gomes e Pedro Sang seriam representantes da organização no Brasil e intermediariam os fundos de apoio. 

No seu perfil no Instagram, Tallis Gomes se define como “empreendedor serial, founder e presidente” da G4 Business. Pedro Sang é um empresário carioca proprietário da  operadora Sng Travel Turismo e da Sng Consult Empresarial. De acordo com Renan Santos, antes do apoio ao senador do PL, o grupo teria tentado apoiar o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos). Em outras apresentações públicas, Renan Santos repetiu a denúncia e alegou interferência interferência do governo de Donald Trump nas eleições brasileiras.

Os dois empresários acusados por Renan Santos negam o envolvimento. Tallis Gomes classificou a acusação de “cortina de fumaça” e afirmou que processará o candidato do Missão. Pedro Sang negou categoricamente as acusações e afirmou que os contatos com o grupo norte-americano se limitaram a sondagens para possíveis investimentos em tecnologia no Brasil. 

Segundo Sang, os planos foram totalmente abandonados, em maio de 2026, devido ao cenário político delicado do país, o empresário assegurou que “nunca houve nenhum centavo transacionado, nem para virar membro nem para nenhum projeto da Rockbridge, zero, zero”.

Os fatos documentados

A cronologia da denúncia começa no portal Amado Mundo: o jornalista Guilherme Amado revelou que Pedro Sang atuava dentro do comitê de campanha de Flávio Bolsonaro em São Paulo, em um casarão na Avenida República do Líbano, perto do Parque Ibirapuera. Pessoas com acesso à campanha relataram que ele se apresentava como “Pedro da Rockbridge”, usava uma sala no segundo andar, ajudou na montagem da estrutura do local e mantinha contato com integrantes do núcleo eleitoral, como o profissional de marketing Duda Lima. Em nota ao Amado Mundo, ele disse acompanhar a campanha “como cidadão preocupado com o futuro do meu país” e negou qualquer financiamento.

Somou-se a isso a divulgação de um memorando intitulado Prosperity Partnership, escrito em inglês por André Marinho, candidato do Partido Novo ao governo do Rio, que traz na capa o nome de Flávio Bolsonaro e oferece um Brazil integrado a uma cadeia estratégica e independente da China. Marinho assumiu a autoria do documento de 22 páginas, que foi publicado em 19 de março de 2026 e afirmou que a iniciativa foi pessoal e sem relação com a campanha. 

Porém, nove dias depois, em 28 de março, Flávio Bolsonaro subiu ao palco da Conservative Political Action Conference (CPAC), em Dallas, nos Estados Unidos, para apresentar o Brasil como a solução para o país reduzir sua dependência da China em minerais críticos, especialmente terras raras. O documento propõe parceria com os Estados Unidos para exploração de minerais críticos e terras raras, com projeção de US$ 50 bilhões a US$ 100 bilhões em investimentos.

Após a publicação do Amado Mundo, em 11 de setembro passado, Tallis Gomes protocolou notícia-crime, ou seja a comunicação formal do crime, contra Renan dos Santos, na Justiça Eleitoral do Ceará (83ª Zona Eleitoral de Fortaleza). O documento acusa o candidato do Missão por calúnia, difamação e injúria eleitoral, além de ameaça, pelo discurso de 5 de setembro e por Renan ter compartilhado imagem segurando arma. 

Após a denúncia, entre 11 e 13 de setembro, o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) protocolou uma notícia de fato com pedido de inquérito. O mesmo pedido foi replicado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na Polícia Federal (PF) e na Procuradoria Geral da República. Foram solicitadas quebras de sigilo bancário, fiscal e telemático, busca e apreensão e cooperação internacional.

Mais recentemente, o PT recorreu novamente ao Supremo Tribunal Federal (ADPF 1178, sob relatoria do ministro Flávio Dino) e pediu medidas urgentes: abertura de inquérito pela PF, preservação de arquivos e contratos, coleta de depoimentos, análise contábil e cooperação internacional, além de mencionar o comitê de Flávio Bolsonaro e a sede nacional do PL como alvos de busca.

A coligação “Brasil Pronto Pra Mais”, em torno da campanha pela reeleição do presidente Lula,  apresentou, no TSE, uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) contra Flávio Bolsonaro e o candidato a vice Alfredo Gaspar e contra o deputado cassado do PL-SP, que vive nos EUA, Eduardo Bolsonaro, por abuso de poder econômico e político e uso indevido dos meios de comunicação. Se reconhecida, a ação pode levar à cassação dos registros e diplomas e à inelegibilidade por oito anos.

O que a lei diz e o que falta?

A legislação eleitoral brasileira veda doações de entidades ou governos estrangeiros a partidos e candidatos (Lei 9.504/97). O advogado especialista em direito eleitoral Fernando Neisser deu declarações à Agência Pública, em 14 de setembro: a entrada de recursos internacionais em campanha “é absolutamente proibida”, afirmou. Se comprovada, a conduta constitui abuso de poder econômico e pode levar a ação de investigação judicial eleitoral no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com cassação do registro, do diploma ou do mandato e inelegibilidade de oito anos. Pagamentos feitos por fora da campanha, acrescentou, podem configurar caixa 2.

“É uma grave irregularidade, constitui abuso de poder econômico, que, se for comprovado, levaria à instauração de uma ação de investigação judicial eleitoral perante o TSE e a condenação levaria à cassação do registro, do diploma ou do mandato, caso seja vencedor além de acarretar a inelegibilidade de oito anos.”

O PT protocolou pedido de abertura de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF), além de representações no TSE, na Polícia Federal e na Procuradoria-Geral da República, citando Gomes e Sang como possíveis intermediários e pedindo quebras de sigilo e cooperação internacional. Até o fechamento desta matéria, nenhuma das autoridades havia confirmado a existência de transferência de recursos, como escreveu a Agência Pública em reportagem sobre o caso, “ainda não há provas de que isso tenha de fato acontecido”.

O cenário dos anúncios pagos e as fazendas de IA

A denúncia de um possível financiamento irregular da campanha de Flávio Bolsonaro por uma organização dos EUA, corre em paralelo ao suspeito crescimento da propaganda paga contra Lula. Levantamento do ICL Notícias, na biblioteca de anúncios da Meta, mostra que o gasto diário declarado com peças de anúncios contra o presidente e o governo subiram 123% em setembro, de R$ 15,4 mil para R$ 34,5 mil ao dia, e que as referências ao STF e ao ministro da Corte Alexandre de Moraes passaram de 3,3% para 14%.

Monitoramento do jornal O Estado de São Paulo contabilizou 5.677 anúncios relacionados ao STF e a ministros desde 16 de agosto, com gastos de até R$ 2,9 milhões, 74% deles em tom crítico à Corte. As metodologias de apuração do ICL e do Estadão diferem, mas apontam os mesmos resultados que explicitam o crescimento do gasto em anúncios contra o governo Lula e o STF.

Relacionado ao aumento dos gastos em mídia paga eleitoral, outro vetor da campanha digital contra o governo atual é a produção em escala de conteúdo com IA. O relatório “Produção em escala: fazendas de conteúdo com IA no Instagram nas eleições de 2026”, do Instituto Democracia em Xeque, obtido pelo Aos Fatos, identificou uma estrutura de 255 perfis que publicaram ou coassinaram 1.204 publicações, com 58 milhões de visualizações entre 15 de agosto e 15 de setembro. Essa estrutura compartilha audiência por meio de publicações colaborativas. 

No principal núcleo, em torno da página @narrativascuriosastv, estava @leoindiobolsonaro, perfil de Leonardo Rodrigues de Jesus, o Léo Índio, primo de Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro, foragido em investigação sobre a tentativa de golpe de Estado. As contas divulgavam um curso de R$ 167 que ensina a criar vídeos virais e a remover a marca d’água de conteúdos sintéticos. Flávio Bolsonaro  é o político mais citado nas legendas (34 publicações). O relatório, porém, não atribui aos políticos ou partidos a administração ou a coordenação das contas.

Além do candidato à Presidência da República pelo PL, o ministro do STF André Mendonça aparece em destaque entre os perfis, foram identificados 24 contas dedicadas a ele no Instagram, somando 5,6 milhões de seguidores até 16 de setembro.

  • Doze desses perfis existiam antes da crise entre ministros do STF destes setembro e apenas trocaram de nome; ao menos dois foram convertidos neste mês, após o estopim do caso Master.
  • @andremendoncas2, o maior deles, foi criado em novembro de 2024, mudou de nome oito vezes, recebeu selo de verificação em agosto e antes publicava conteúdo religioso, anti-LGBTQIA+ e sobre futebol. Não tem qualquer publicação anterior a setembro de 2026.
  • @andremendoncas3 foi criado em abril, mudou de nome duas vezes e realizou as primeiras publicações em 5 e 7 de setembro.
  • Amplificação articulada: @nikolasferreiradms3, que usa nome e imagem do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), convocou seguidores a seguir a @andremendoncas2; publicações idênticas e convocações para transferir audiência foram distribuídas por vários perfis, inclusive um que anunciou “240 mil seguidores em 24 horas”.

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Não há, até este momento, comprovação de transferência de recursos estrangeiros à campanha de Flávio Bolsonaro. Os fatos documentados desde a atuação de Sang na estrutura do comitê, o memorando estratégico com o nome do candidato e as viagens aos Estados Unidos são verdadeiros, mas não confirmam o repasse de dinheiro. Por isso, o Bereia classifica a denúncia como inconclusiva, uma vez que as evidências reunidas não permitem confirmar nem descartar a informação apurada. 

Bereia seguirá acompanhando as investigações, além da repercussão das fazendas de IA e atualizações referentes aos anúncios realizados durante a campanha eleitoral da Meta antes de compartilhar conteúdos políticos.

Referências:

AGÊNCIA PÚBLICA. Financiamento de grupo ligado a J. D. Vance pode ser maior escândalo da eleição. 14 set. 2026. Disponível em: https://apublica.org/2026/09/financiamento-de-grupo-ligado-a-j-d-vance-pode-ser-maior-escandalo-da-eleicao/. Acesso em: 24 set. 2026.

AMADO MUNDO. Disponível em: https://amadomundo.com/o-plano-de-flavio-para-alianca-com-eua-por-terras-raras/. Acesso em: 24 set. 2026.

ICL NOTÍCIAS. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/gastos-com-anuncios-na-meta-contra-lula/. Acesso em: 24 set. 2026.

AOS FATOS. Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça. 16 set. 2026. Disponível em: https://www.aosfatos.org/noticias/bolsonaristas-capturam-perfis-inflar-apoio-religioso-mendonca. Acesso em: 25 set. 2026.

AOS FATOS. Perfis reciclados e números inflados manipulam apoio político nas redes. 18 set. 2026. Disponível em: https://www.aosfatos.org/noticias/perfis-reciclados-numeros-inflados-apoio-politico-redes. Acesso em: 25 set. 2026.

AOS FATOS. Fazendas de IA inflam pauta da extrema direita com 255 perfis e mais de mil posts. 23 set. 2026. Disponível em: https://www.aosfatos.org/noticias/fazendas-de-ia-inflam-pauta-da-extrema-direita-com-255-perfis-e-mais-de-mil-posts/. Acesso em: 25 set. 2026.

INSTITUTO DEMOCRACIA EM XEQUE. Produção em escala: fazendas de conteúdo com IA no Instagram nas eleições de 2026. 2026. (Relatório obtido pelo Aos Fatos.)

NÚCLEO JORNALISMO. Republicação: Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça. 16 set. 2026. Disponível em: https://nucleo.jor.br/republicacao/2026/09/16/bolsonaristas-capturam-perfis-nas-redes-para-inflar-apoio-religioso-a-mendonca. Acesso em: 25 set. 2026.

NÚCLEO JORNALISMO. Republicação: Fazendas de IA inflam pauta da extrema direita. 23 set. 2026. Disponível em: https://nucleo.jor.br/republicacao/2026/09/23/fazendas-de-ia-extrema-direita. Acesso em: 25 set. 2026. (Os mesmos textos foram republicados também pela Agência Pública.)

THE NEW YORK TIMES. Disponível em: https://www.nytimes.com/2024/11/20/us/politics/rockbridge-trump-vance-wiles.html. Acesso em: 24 set. 2026.

THE NEW YORK TIMES. Disponível em: https://www.nytimes.com/2024/10/30/us/politics/jd-vance-rockbridge-donors.html. Acesso em: 24 set. 2026.

REUTERS. Disponível em: https://www.reuters.com/world/us/tech-donor-network-co-founded-by-jd-vance-seeks-push-america-right-2024-08-20/. Acesso em: 24 set. 2026.

THE WASHINGTON POST. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/technology/2025/11/04/chris-buskirk-maga-vance-post-trump/. Acesso em: 24 set. 2026.

ESTADO DE MINAS. Renan Santos acusa campanha de Flávio Bolsonaro de receber dinheiro trumpista. Disponível em: https://www.em.com.br/politica/2026/09/7498373-renan-santos-acusa-campanha-de-flavio-bolsonaro-de-receber-dinheiro-trumpista.html. Acesso em: 24 set. 2026.

ESTADO DE MINAS. Prosperity Partnership: entenda a polêmica envolvendo André Marinho, terras raras e os EUA. Disponível em: https://www.em.com.br/nacional/2026/09/7499913-prosperity-partnership-entenda-a-polemica-envolvendo-andre-marinho-terras-raras-e-os-eua.html. Acesso em: 24 set. 2026.

O GLOBO (Blog da Bela Megale). PT pede ao STF investigação de possível financiamento de organização trumpista para Flávio Bolsonaro. Disponível em: https://oglobo.globo.com/blogs/bela-megale/post/2026/09/pt-pede-ao-stf-investigacao-de-possivel-financiamento-de-organizacao-trumpista-para-flavio-bolsonaro.ghtml. Acesso em: 24 set. 2026.

Jornal da Record
https://www.youtube.com/watch?v=Q67AFy-ElQY Acesso em 28 set 2026

Bereia Explica: Como Nossa Senhora Aparecida entrou na campanha eleitoral do Brasil 2026

A pouco mais de uma semana do primeiro turno nas eleições 2026 no Brasil, um dos mais fortes símbolos do Catolicismo (maior religião do país), ocupou o debate em torno da campanha eleitoral: Nossa Senhora Aparecida. Em menos de uma semana, a controvérsia passou por orientações de bispos católicos sobre o voto, um comentário de jornalista na GloboNews, um projeto de lei de 2007, um desmentido do candidato Flávio Bolsonaro (PL), uma correção da emissora, problemas de acesso da CNBB a sua conta no X, uma ordem de remoção de conteúdos sobre o tema no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a derrubada dela no Supremo Tribunal Federal (STF). O Bereia reuniu o que está documentado, o que é interpretação e o que ainda não se sabe para contribuir com leitores e leitoras na compreensão deste que já se tornou um fenômeno destas eleições 2026.

1. Em resumo: o que está acontecendo?

Circulou nas redes a versão de que Nossa Senhora Aparecida poderia perder o título de Padroeira do Brasil caso o candidato a presidente da República pelo PL senador Flávio Bolsonaro vença a eleição presidencial. A versão combina três elementos verdadeiros e uma associação não comprovada:

  • É fato que a jornalista Maria Cristina Fernandes relatou, na noite de 24 de setembro, no jornal “Em Pauta”, da GloboNews, ter apurado que existiria um alerta entre lideranças da Igreja Católica sobre uma parcela de evangélicos mobilizar um projeto de lei para retirar de Nossa Senhora Aparecida a condição de padroeira do Brasil. A comentarista não citou o candidato Flávio Bolsonaro, mas menções à fala dela passaram a circular nas redes associando o caso a um projeto do candidato. A GloboNews registrou, mais tarde, uma correção do comentário da jornalista, informando que havia um projeto de lei sobre o tema, de 2007, mas arquivado em 2008. 
  • É fato que existiu um projeto de lei, o PL 2.623/2007, que restringia o título de padroeira apenas aos católicos e não ao Brasil, apresentado pelo então deputado pelo PMDB-MT, o pastor da Assembleia de Deus Victório Galli. O PL foi rejeitado em comissão e arquivado em 2008. Galli se tornou assessor especial da Presidência no governo Jair Bolsonaro, de 2019 a 2022.
  • É fato que um dos conteúdos que circula nas redes atrelando o caso a Flávio Bolsonaro existe. O candidato prometeu, em vídeo gravado em agosto passado, que, se eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, usando um jargão evangélico de “tomada de território”.
  • Não há registro, na checagem do Bereia, de que Flávio Bolsonaro tenha apresentado, apoiado ou anunciado algum projeto para retirar o título da santa. O candidato nega.

A reação de Flávio Bolsonaro, que protocolou queixa na Justiça Eleitoral contra perfis que publicaram sobre o caso e, mais recentemente, com críticas à Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB), acabou ampliando o alcance do assunto.

2. Como a Igreja Católica entrou no debate eleitoral?

Como faz a cada eleição, a CNBB publicou orientações sobre o voto. Em 18 de junho, divulgou a Mensagem ao povo brasileiro por ocasião das eleições de 2026. O texto pede participação consciente, desaconselha a abstenção e orienta o eleitor a examinar a trajetória de vida dos candidatos, não apenas as promessas. Reafirma que a Igreja não indica candidatos nem partidos.

A orientação ganhou intensidade em setembro. No Dia da Independência do Brasil, 7 de setembro, no Santuário Nacional de Aparecida, o arcebispo emérito Dom Orlando Brandes defendeu a soberania nacional e pediu que os fiéis votem pensando no bem comum. Na semana de 22 de setembro, bispos do Regional Norte 1 da CNBB (dioceses do Amazonas e de Roraima) divulgaram vídeos recomendando o voto em candidatos que “defendam a democracia, os direitos do povo e a natureza”. Também pediram atenção a candidatos que usam indevidamente o nome de Deus.

Nenhum desses conteúdos menciona Flávio Bolsonaro, Nossa Senhora Aparecida ou projeto de lei. Porém, em uma eleição que ocorre no contexto de pressões dos Estados Unidos sobre o Brasil, a defesa de soberania e democracia passou a ser lida por setores mais radicais da direita política como sinal de apoio ao presidente Lula (PT), que tem a soberania nacional como eixo de campanha para reeleição.

3. O que disse a jornalista da GloboNews? Foi desinformação?

No programa Em Pauta, da GloboNews, em 24 de setembro, a jornalista Maria Cristina Fernandes analisou o comportamento do eleitorado religioso e por que a Igreja Católica estava mais presente na campanha. Segundo sua apuração, haveria “um movimento na Igreja Católica de reação a uma parcela de evangélicos” que estaria “mobilizando um projeto de lei para tirar a Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira”. Fernandes avaliou que essa reação poderia ter efeito eleitoral entre católicos e favorecer Lula.

O comentário é jornalismo de análise baseado em fontes. A jornalista não atribuiu a Flávio Bolsonaro a autoria nem o apoio ao suposto projeto, como pode ser assistido na gravação do jornal. A ligação direta com o candidato foi feita depois, por publicações nas redes. Classificar a fala da jornalista como “fake news” ignora dois fatos: um projeto desta natureza existiu e a preocupação de setores católicos é o objeto da apuração jornalística, não uma invenção.

4. O projeto de lei existe? Quem é o autor?

Sim. É o PL 2.623/2007, apresentado em 12 de dezembro de 2007, pelo então deputado federal Professor Victório Galli (PMDB-MT). O texto alterava a Lei 6.802/1980, que institui o feriado de 12 de outubro, e trocava a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O feriado seria mantido.

Segundo a ficha oficial da Câmara dos Deputados, a proposta foi rejeitada pela Comissão de Educação e Cultura e arquivada em 22 de agosto de 2008. Em 2018, a própria Câmara publicou esclarecimento sobre o arquivamento, porque o tema tinha retornado como se o projeto ainda estivesse em tramitação. O mesmo ocorreu na eleição de 2022.

Victório Galli é pastor da Assembleia de Deus. Reeleito deputado federal em 2018, deixou o mandato para assumir, em fevereiro de 2019, o cargo de assessor especial da Presidência da República no governo Jair Bolsonaro (PFL e PL). Tentou voltar à Câmara em 2022, sem sucesso, e em 2026 é novamente candidato a deputado federal, agora pelo PP de Mato Grosso.

5. Se o projeto está arquivado, ele pode voltar?

Este é o ponto que a discussão sobre o “arquivamento” deixou de lado. Tecnicamente, o PL 2.623/2007 não deve voltar a tramitar: ele foi rejeitado no mérito, e não apenas arquivado ao fim de uma legislatura, situação em que o Regimento Interno da Câmara permite o desarquivamento a pedido do autor.

Nada impede, porém, que um parlamentar apresente um novo projeto com o mesmo teor. A Constituição (art. 67) só restringe a reapresentação de matéria rejeitada dentro da mesma sessão legislativa. O texto de 2007, portanto, continua disponível como modelo.

É nesse sentido que especialistas consultados pelo Bereia, que serão citados a seguir, tratam o temor católico: não como prova de uma articulação em curso, mas como uma hipótese plausível diante da correlação de forças no Congresso e do discurso do candidato Flávio Bolsonaro. Não há, até aqui, registro de nova proposição com esse objetivo.

6. Qual a relação de Flávio Bolsonaro com o caso?

Não há registro de que Flávio Bolsonaro, que não tinha mandato em 2007, seja autor ou apoiador do projeto, nem de que tenha defendido retirar o título da santa. A ligação feita nas redes se apoia em outra declaração dele.

Em vídeo publicado, em 23 de agosto passado, nas redes, para justificar a ausência no debate da Band, o candidato disse que “um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A frase usa a linguagem de “tomada de território espiritual”, jargão de segmentos evangélicos. A frase é um jargão evangélico que tem tanto um sentido religioso e político de “tomada de território”. Por meio dela, se afirma a soberania de Deus, em Jesus,  sobre o país, e o lugar da maioria cristã, nas bases da doutrina evangélica para que a nação seja guiada por princípios religiosos cristãos, definidos segundo a interpretação de quem a pronuncia. Perfis nas redes juntaram esta promessa às suspeitas sobre possível retomada do projeto de 2007 por grupos evangélicos noticiada na GloboNews e concluíram que um “Brasil de Jesus” não seria “de Nossa Senhora”. Essa conclusão é interpretação, não declaração do candidato.

7. Por que o “chute na santa” voltou a circular?

Com a controvérsia, voltaram às redes as imagens de 12 de outubro de 1995, quando o bispo Sérgio von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa na TV Record, justamente no dia da padroeira. O episódio é o marco mais lembrado do conflito entre setores evangélicos e o catolicismo no Brasil e ajuda a explicar por que o tema mobiliza tanto o imaginário católico. Ele não é, porém, evidência de uma articulação atual sobre o título da santa.

8. O que Flávio Bolsonaro respondeu?

Na noite de 24 de setembro, Flávio Bolsonaro publicou vídeo no X: “Não tem pé nem cabeça. Não existe esse projeto”. Tomada literalmente, a frase é incorreta, porque o projeto existe, ainda que arquivado. Ele negou a intenção de mexer no título da padroeira, atribuiu a circulação a adversários do Partido dos Trabalhadores e depois compartilhou a correção da GloboNews.

Em 26 de setembro, a campanha de Bolsonaro fez uma live com lideranças religiosas de diferentes tradições para conter os efeitos políticos da controvérsia. Participaram o Padre Kelmon (candidato a presidente em 2022, ligado à Igreja Ortodoxa), o pastor da Assembleia de Deus Ramon Lima, o reverendo anglicano Aldo Quintão e o pai de santo da cantora Anitta Sérgio Pina. Flávio Bolsonaro não estava presente. Foi observada pelo público a ausência de participação católica.

 9. Por que a GloboNews corrigiu a jornalista? O que a correção resolve e o que não resolve?

Na madrugada de 25 de setembro, na Edição da Meia-Noite, da GloboNews, a apresentadora Marcelly Setúbal leu uma nota informando que o projeto mencionado no comentário da jornalista Maria Cristina Fernandes foi “apresentado em dezembro de 2007 e arquivado pela Mesa Diretora da Câmara em agosto de 2008”. A emissora pediu desculpas.

A correção esclarece a data e a situação do projeto. Porém, ela não desmente o que a jornalista apurou e relatou no jornal mais cedo: a existência de preocupação em setores da Igreja Católica com uma possível articulação sobre o tema. E, como Bereia levantou, o arquivamento não encerra a questão de fundo, que é a possibilidade de o texto servir de base para uma nova proposta. Nas redes, a correção foi usada por apoiadores de Flávio Bolsonaro para desqualificar a jornalista, que passou a ser atacada como “militante”. Jornalistas criticaram esse tratamento e a forma como a emissora conduziu o episódio.

10. O que aconteceu com os perfis da CNBB? A Meta derrubou a conta?

Não foi a Meta. O problema ocorreu no X (antigo Twitter). Em 25 de setembro, a CNBB informou dificuldades de acesso à conta oficial @cnbbnacional, disse ter acionado o suporte da plataforma e enviado as comprovações de titularidade, e orientou os fiéis a acompanhar os demais canais. Segundo a Folha de S.Paulo, a entidade identificou alteração no e-mail vinculado à conta e trata o caso como possível hackeamento. A CNBB não associou o problema à controvérsia.

O episódio foi o terceiro caso, na mesma semana, envolvendo contas em plataformas digitais no contexto eleitoral:

Não há evidência, nas fontes consultadas, de ligação entre esses episódios ou deles com o caso de Nossa Senhora Aparecida. A falta de transparência das plataformas sobre os critérios dessas ações, porém, alimenta suspeitas.

11. O que o ministro André Mendonça encaminhou pelo TSE em relação ao caso?

Flávio Bolsonaro acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a Procuradoria-Geral Eleitoral, com um notícia-crime que pediu a abertura de investigação contra 29 pessoas e responsáveis por perfis que, conforme o documento, divulgaram o conteúdo. Entre os citados estão a deputada estadual Lohanna França (PV-MG), o deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ) e o deputado federal Rogério Correia (PT-MG), vice-líder do governo na Câmara.

Em 25 de setembro, o vice-presidente do TSE e ministro do STF André Mendonça, concedeu liminar reconhecendo como “notoriamente inverídico” o núcleo factual segundo o qual “Flavio Nantes Bolsonaro ou sua família propôs, articulou, apoiou, está comprometido com ou pretende promover a retirada de Nossa Senhora Aparecida da condição ou do título de Padroeira do Brasil”.

A decisão determinou que Meta, TikTok e Google/YouTube removessem conteúdos com essa afirmação, sem necessidade de nova ordem judicial para cada publicação, sob multa diária. No caso do humorista Antonio Tabet, a ordem proibiu a republicação de conteúdo “substancialmente semelhante”, com multa de R$ 30 mil. Mendonça, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, é pastor presbiteriano e foi apresentado como ministro “terrivelmente evangélico”, condição que foi base para uma série de críticas nas redes em torno das proibições.

12. É verdade que foram removidos até posts religiosos sobre Nossa Senhora?

Sim, com uma precisão importante. A decisão não proibiu, em si, publicações sobre Nossa Senhora Aparecida. Ela mirava conteúdos que atribuíam a Flávio Bolsonaro o plano de retirar o título. Porém, a lista de publicações a remover, apresentada a partir do pedido da campanha, incluiu perfis sem conteúdo político:

  • um vídeo da conta @santuarionacional no TikTok, dedicada a publicações religiosas sobre a santa e a Basílica;
  • um vídeo do frei carmelita Gilvander Moreira.

Também foram alcançadas publicações do teólogo Leonardo Boff, da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), dos deputados Rogério Correia (PT-MG) e Ivan Valente (PSOL-SP), do ex-deputado Jean Wyllys, do MST, e até de um advogado que apenas informava que o autor do projeto de 2007 tinha sido assessor de Jair Bolsonaro, um fato documentado. Na prática, conteúdos de exaltação e devoção à padroeira ficaram sujeitos à remoção, o que gerou críticas. 

13. Por que o ministro Flávio Dino derrubou a decisão de André Mendonça?

Em 27 de setembro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino atendeu a recurso do humorista Antonio Tabet e anulou a decisão de André Mendonça. Dino determinou o restabelecimento da postagem do humorista e de outras removidas com o mesmo fundamento.

O ministro do STF aplicou entendimento que já havia adotado contra decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná: proibir previamente a republicação de determinado conteúdo, sob multa, configura censura prévia. Dino afirmou que “em um processo eleitoral a lesividade de uma decisão que tolhe a liberdade de expressão tem enorme gravidade”. Ele argumentou que críticas a propostas que afetem preferências religiosas não podem ser retiradas do debate público, e que manter a remoção exigiria “presumir” que a expressão “família miliciana”, usada por Tabet, se referia especificamente a Flávio Bolsonaro. A decisão invoca a liberdade de expressão e a liberdade religiosa.

14. É verdade que Flávio Bolsonaro fez ataques à CNBB e a CNBB publicou resposta oficial?

Sim. Em 27 de setembro, Flávio Bolsonaro criticou a CNBB ao comentar a repercussão do caso envolvendo Nossa Senhora Aparecida. Em evento de campanha em Goiânia (GO), sem apresentar provas, o candidato afirmou que pessoas ligadas à entidade teriam ajudado o Partido dos Trabalhadores (PT) a disseminar a informação de que ele pretendia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. O candidato também chamou o episódio de “a maior fake news da campanha” e afirmou que não existia projeto ou movimento para retirar o título.

No mesmo dia, a CNBB divulgou uma nota oficial em que negou participação na produção ou divulgação de informações falsas relacionadas ao processo eleitoral. A entidade afirmou que não integra estruturas político-partidárias ou candidaturas e que suas manifestações sobre as eleições decorrem de sua missão pastoral e de princípios como dignidade humana, bem comum, democracia e liberdade de consciência.

Na nota, a CNBB também afirmou que atribuir à entidade participação em estruturas de produção ou disseminação de desinformação, sem fatos e provas que sustentem a acusação, atinge a instituição. O texto foi encerrado com a afirmação: “A mentira não se combate com outra mentira”.

Este episódio voltou a alavancar o tema nas redes digitais, provocando nova massa de reações críticas à postura do candidato em relação às lideranças católicas. 

15. Evangélicos são contra Nossa Senhora Aparecida?

A veneração de santos e de imagens sacras não é parte da doutrina protestante, evangélica. Os princípios teológico-doutrinários dos  reformadores  europeus do final do século 15 e início do 16, baseiam-se na compreensão de que há apenas um mediador entre Deus e o ser humano, que é Jesus Cristo, e que não pode haver “materialização do sagrado” (iconoclastia). Isto é, é visto como um pecado que haja imagens e qualquer forma de representação do divino. Esta visão toma por base os 10 mandamentos contidos na Bíblia, no livro de Êxodo: “1º: Não terás outros deuses além de mim; 2º: Não farás para ti nenhum ídolo ou imagem de escultura farás para ti imagens de escultura”.

Com isso, há  a noção de que a veneração a santos e a imagens pode levar à idolatria — quando uma outra divindade se impõe no lugar de Deus. Isto foi objeto de forte crítica dos reformadores dos séculos 15 e 16 ao Catolicismo,  que, na compreensão deles, permitia Deus ser colocado em segundo plano diante da adoração a santos.

Maria tem o seu lugar na tradição evangélica,  como mãe de Jesus. Porém,  ela é valorizada como serva de Deus, que gerou Jesus, o Salvador. Não é compreendida como “mãe de Deus”, nem como intercessora das pessoas diante do Filho de Deus que ela gerou, uma vez que na doutrina protestante não há mediação entre Deus e o ser humano.  Este quadro foi ainda mais reforçado com a disputa no campo religioso entre evangélicos e católicos. Como minoria,  evangélicos, no Brasil, procuraram se diferenciar de católicos para se afirmarem na arena pública.  A negação dos santos foi mais uma entre elas.

Portanto, não há uma rejeição específica a Nossa Senhora Aparecida, mas há a não crença na figura de Maria e de qualquer das formas que ela assuma, conforme o Catolicismo, como Santa, Mãe de Deus. Esta forma de crer promove uma leitura crítica em alguns grupos evangélicos,  assim como no período da Reforma Protestante, de condenação da doutrina católica como uma fé idólatra. De fato, este é um ponto que ainda serve de impedimento ao diálogo ecumênico entre evangélicos e católicos no Brasil.

16. O que dizem os especialistas em religião e política?

Jorge Alexandre Alves, sociólogo, professor do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e integrante do Movimento Fé e Política afirma, por meio de texto no Facebook, enviado ao Bereia: o projeto de lei, de 2007, está por hora engavetado, mas, “havendo disposição política e correlação de forças favoráveis, poderia ser desengavetado em um piscar de olhos”. Para ele, a promessa de que “o Brasil será do Senhor Jesus” é “retórica típica da Teologia do Domínio”, e há um histórico de ataques à imagem da santa, do chute de 1995 a episódios recentes. Alves admite que a versão pode ter sido “plantada” para colocar o candidato na defensiva, sem elementos para comprovar isso. Afirma que as orientações dos bispos seguem a Doutrina Social da Igreja e não equivalem a declaração de voto. E alerta: “potencializar uma espécie de guerra santa não ajudaria em nada”; não se pode generalizar a todos os evangélicos “as atitudes irresponsáveis de uns poucos líderes políticos e religiosos”.

Ronilso Pacheco, teólogo, diretor do Instituto de Estudos da Religião, afirmou no UOL News: mexer em um símbolo ligado à cultura brasileira poderia mobilizar católicos e também evangélicos contra a iniciativa. Ele classificou a repercussão como uma “cortina de fumaça” e avaliou que insistir nesse tipo de conteúdo seria um “suicídio político”.

Tabata Pastore Tesser, socióloga, pesquisadora do Laboratório de Antropologia da Religião da Unicamp (LAR) e pesquisadora visitante do ISER, em vídeo no Instagram: os vídeos dos bispos e o panfleto que circularam na semana “não pedem voto nem mencionam candidato”. Mas, “numa eleição polarizada, defender democracia, soberania, verdade, justiça social, Amazônia e povos indígenas pode produzir um efeito eleitoral”. Recuperando a história, ela mostra que a atuação política católica já produziu efeitos eleitorais que “não são sinônimo de apoio”.

Bereia seguirá acompanhando os desdobramentos deste caso.

Saiba mais com as matérias do Bereia:
Controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida na campanha eleitoral mobiliza milhões de interações nas redes religiosas, pela Casa Galileia

Aparecida, as eleições e a Democracia, pelo Frei Marcelo Barros

Referências

AGÊNCIA BRASIL. https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-09/meta-desabilitou-anuncios-do-perfil-de-lula-no-facebook. Acesso em 27 set. 2026.

Facebook, Jorge Alexandre Alves
https://www.facebook.com/share/1cfLJ2w4i1/. Acesso em 27 set. 2026.

CÂMARA DOS DEPUTADOS. Projeto de Lei 2.623/2007. https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=380897. Acesso em 25 set. 2026.

CANAL UOL. UOL News com Ronilso Pacheco. https://www.instagram.com/reel/Ddt3KDTlsdD/. Acesso em 27 set. 2026.

CNBB. https://www.cnbb.org.br/cnbb-divulga-mensagem-ao-povo-brasileiro-por-ocasiao-das-eleicoes-de-2026/. Acesso em 27 set. 2026.

CNN BRASIL. 

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/dino-cassa-decisao-de-mendonca-e-libera-post-de-ator-sobre-nossa-senhora/. Acesso em 27 set. 2026.

FOLHA DE S.PAULO. 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2026/09/cnbb-tem-conta-no-antigo-twitter-hackeada.shtml. Acesso em 25 set. 2026.

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https://iclnoticias.com.br/pedido-flavio-mendonca-censura-nossa-senhora/. Acesso em 27 set. 2026.

Instagram, Tábata Tesser

https://www.instagram.com/reel/DdrGZb3t18i/. Acesso em 27 set. 2026.

BRASIL. Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6802.htm. Acesso em 25 set. 2026.

Instagram, Dom Orlando Brandes

https://www.instagram.com/p/DdsqaghudVS/  Acesso em 27 set. 2026.


Arquidiocese Católica de Manaus
https://arquidiocesedemanaus.org.br/2026/09/23/bispos-do-regional-norte-1-conclamam-os-fieis-brasileiros-para-voto-consciente-nas-eleicoes-de-2026/ Acesso em 27 set. 2026.


Rede TVT
https://www.youtube.com/shorts/LsvTh4UaXiQ Acesso em 27 set. 2026.


X, Perfil de Flávio Bolsonaro

https://x.com/FlavioBolsonaro/status/2103309011701350544?s=20  Acesso em 27 set. 2026.

TV Celular – Canal Flávio Bolsonaro no Youtube

https://www.youtube.com/watch?v=oBnq66p_Csg Acesso em 27 set. 2026.

Poder 360
https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes-2026/jornalistas-criticam-globonews-por-corrigir-informacao-sobre-padroeira/ Acesso em 27 set. 2026.

Correio Braziliense
https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2026/09/7506667-perfil-do-revelando-volta-ao-instagram-apos-remocao-da-meta.html Acesso em 27 set. 2026.

Uol. https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/09/27/cnbb-reage-a-flavio-mentira-nao-se-combate-com-outra-mentira.ghtm. Acesso em 28 de setembro de 2026. 

O Globo. https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/09/27/flavio-cnbb-nossa-senhora.ghtml.  Acesso em 28 de setembro de 2026.

Controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida na campanha eleitoral mobiliza milhões de interações nas redes religiosas

A controvérsia em torno da alegação de que Flávio Bolsonaro apoiaria a retirada de Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil foi objeto de pesquisa da Casa Galileia em redes digitais religiosas, entre 24 e 25 de Setembro de 2026. Na amostra analisada, a narrativa de acusação aparece contraposta por uma série de conteúdos que classificam a informação como falsa, atribuem o episódio a um erro ou a uma ação política da “ala petista” e destacam a negativa do próprio Flávio Bolsonaro. O conteúdo de maior repercussão registrado é a publicação do candidato a presidente da República Flávio Bolsonaro (PL), com 9.867 interações, seguida por uma publicação do site gospel PlenoNews, com 8.145.

A narrativa de desmentido se desdobra em diferentes enquadramentos. Flávio Bolsonaro afirma respeitar todas as religiões e também pessoas sem religião; o PlenoNews apresenta a informação como falsa e posteriormente destaca uma retratação da GloboNews; Gospel+ reproduz a negativa, enquanto Sóstenes Cavalcante e Deltan Dallagnol amplificam o desmentido. Assim, a resposta não se limita à defesa de Flávio, mas também desloca o foco para a imprensa e o PT e para a suposta circulação de “fake news” no contexto eleitoral.

Aparecida no imaginário católico e nacional

Para compreender a dimensão que essa controvérsia alcança, é preciso considerar o lugar ocupado por Nossa Senhora Aparecida no imaginário católico e, de forma mais ampla, no próprio imaginário nacional brasileiro. A presença da santa está enraizada na religiosidade popular, mas não se limita apenas a esse espaço eclesial. Ao longo da história, Aparecida também foi ganhando lugar na construção simbólica do Brasil como nação, associada a ideias de pertencimento, unidade e identidade nacional.

Essa dimensão nacional foi sendo construída sobre uma devoção muito anterior ao seu reconhecimento institucional. Aparecida não se tornou “padroeira do Brasil” por decisão do estado brasileiro. Em 1930 atendendo um pedido do episcopado o papa Pio XI declarou Nossa Senhora da Conceição Aparecida Padroeira de todo o Brasil. A proclamação solene ocorreu no ano seguinte, no Rio de Janeiro.

O reconhecimento na legislação brasileira veio 50 anos depois com a Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980, que declarou o dia 12 de outubro feriado nacional “para culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil”. Há, portanto, duas dimensões relacionadas que não são equivalentes nesse debate: uma é o título eclesial de Padroeira, reconhecido pela Igreja Católica; outra é o reconhecimento civil que o Estado brasileiro posteriormente incorporou à legislação.

Disputa narrativa sobre religião e eleições

Outro enquadramento identificado é o de que a controvérsia faria parte de uma estratégia eleitoral para atingir Flávio Bolsonaro e seu eleitorado católico. A publicação da página Assembleianos de Valor Oficial afirma que a falsa informação buscaria fazer religiosos acreditarem que o candidato do PL atacaria a religião católica e retirar votos destinados a ele. Em sentido oposto, o perfil Evangélicos com Lula apresenta a controvérsia como exemplo de instrumentalização política da religião e afirma que a discussão deveria mobilizar tanto católicos quanto evangélicos. Dessa forma, o episódio passa a operar como uma disputa narrativa sobre religião, eleições e credibilidade da informação.

Os números da amostra monitorada

Síntese das narrativas e métricas dos conteúdos monitorados. Período da análise: Publicações realizadas entre 24 e 25 de Setembro de 2026.

Total de interações registradas: 34.382. Entre os quatro conteúdos para os quais há dados de possíveis impressões, o total é de 5.166.673 possíveis impressões. Essa métrica representa exposição potencial estimada e não equivale necessariamente a alcance ou visualizações efetivas.

Rankings

Por interações:

1) Flávio Bolsonaro (9.867);
2) PlenoNews – negativa (8.145);
3) Evangélicos com Lula (3.993);
4) PlenoNews – retratação (3.938);
5) Assembleianos de Valor Oficial (2.150).

Por possíveis impressões:

1) Assembleianos de Valor Oficial (1.794.430);
2) PlenoNews – negativa (1.491.525);
2) PlenoNews – retratação (1.491.525);
4) Gospel+ (389.193).

Considerando os dez conteúdos contabilizados até o momento, foram registradas 34.382 interações. Entre os conteúdos com dados de “Possíveis Impressões”, a maior estimativa é da publicação de Assembleias de Deus Oficial, com 1.794.430, seguida por duas publicações do PlenoNews, cada uma com 1.491.525, e uma do Gospel+, com 389.193. As “Possíveis Impressões” devem ser tratadas como estimativa de exposição potencial, e não como alcance efetivo ou número de pessoas únicas. O conjunto indica um ciclo de acusação, desmentido, retratação e contra-acusação, com forte circulação da narrativa de que a informação sobre a retirada da Padroeira seria “fake news”.

Métricas dos conteúdos monitorados

#Perfil/conteúdoLinha narrativaInteraçõesPossíveis impressões
1Flávio Bolsonaro — negativaNegação / respeito às religiões9.867—
2PlenoNews — negativaNegação / informação falsa8.1451.491.525
3Evangélicos com Lula — acusaçãoAcusação / instrumentalização da fé3.993—
4PlenoNews — retratação da GloboNewsRetratação / fake news3.9381.491.525
5Assembleias de Deus OficialFake news / estratégia eleitoral2.1501.794.430
6Sóstenes Cavalcante — republicaçãoAmplificação da negativa1.993—
7Deltan Dallagnol — republicaçãoAmplificação da negativa1.969—
8Flávio Bolsonaro — GloboNewsNegação / crítica à mídia1.702—
9Deltan/Sam Pancher — explicativoDesmentido / contextualização621—
10Gospel+ — negativaNegação / fake news4389.193

Nota metodológica: Os dados refletem os conteúdos identificados na amostra fornecida até o momento. “Interações” corresponde à soma das métricas visíveis nos registros coletados; “Possíveis Impressões” é a estimativa apresentada pela ferramenta de monitoramento. Os rankings poderão ser atualizados à medida que novos posts forem incorporados.

Dimensão da conversação em “mar aberto”

A consulta em “mar aberto” (V-TRACKER) amplia significativamente a dimensão observada na amostra inicial. No período de 24 e 25 de setembro de 2026, utilizando os termos “Padroeira do Brasil” OR “Nossa Senhora” associados a “Flávio Bolsonaro”, a ferramenta registrou 7.712 ocorrências, 363,13 milhões de impressões e 6,32 milhões de interações. Esses números não correspondem apenas aos conteúdos selecionados para a análise qualitativa e, portanto, oferecem uma medida mais ampla da circulação da controvérsia no ecossistema monitorado.

A distribuição por canal mostra forte concentração no X, responsável por aproximadamente 88% das ocorrências. No monitoramento, foram identificadas 6.790 ocorrências no X, 468 em sites de imprensa, 333 no Facebook, 65 no Instagram, 40 no YouTube e três no TikTok, além de ocorrências residuais no Threads. A concentração no X indica que a controvérsia se desenvolveu principalmente como uma conversa de rede social, posteriormente repercutida por veículos de mídia e outras plataformas.

Principais canais no mar aberto

CanalOcorrênciasParticipação aproximada
X6.79088,0%
Mídias/Imprensa4686,1%
Facebook3334,3%
Instagram650,8%
YouTube400,5%
TikTok3<0,1%

A evolução temporal revela uma aceleração muito forte no final do período. O volume de ocorrências aumenta de forma acentuada em 24 e atinge seu maior patamar em 25 de setembro. A série sugere, portanto, uma escalada rápida da conversação nas últimas 24 horas do período monitorado, coincidindo com a circulação da negativa de Flávio Bolsonaro e da informação sobre a retratação da GloboNews.

O monitoramento em mar aberto também evidencia que a controvérsia já ultrapassou a disputa entre uma acusação original e sua negativa. Há conteúdos que reproduzem a alegação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil; conteúdos que afirmam tratar-se de “fake news” e destacam a retratação da GloboNews; e conteúdos que interpretam a circulação da informação como parte de uma estratégia eleitoral para atingir o candidato do PL e seu eleitorado católico. A partir daí, surgem memes, comentários e novas formulações da controvérsia, indicando que a narrativa passa a adquirir dinâmica própria.

Amostra e mar aberto: duas medidas diferentes

É importante distinguir os dois conjuntos de métricas. A amostra inicial, composta por dez conteúdos selecionados, soma 34.382 interações e serve principalmente para identificar atores, conteúdos e linhas narrativas de maior repercussão entre os posts analisados. Já a busca em mar aberto registra 7.712 ocorrências e 6,32 milhões de interações no universo capturado pela ferramenta.

Assim, as 34.382 interações da amostra correspondem a aproximadamente 0,54% do total de interações observado no mar aberto, ou seja, o universo ampliado registra cerca de 184 vezes mais interações. As 363,13 milhões de impressões do mar aberto também não devem ser comparadas diretamente com as 5.166.673 possíveis impressões da amostra, pois estas últimas estão disponíveis apenas para quatro conteúdos e representam uma estimativa de exposição potencial.

Comparação entre amostra selecionada e mar aberto

IndicadorAmostra selecionadaBusca em mar aberto
PeríodoConteúdos identificados até o momento21–25/09/2026
Ocorrências10 conteúdos analisados7.712
Interações34.3826,32 milhões
Impressões / possíveis impressões5.166.673 em 4 conteúdos*363,13 milhões
Principal canalDiversos, com foco nos conteúdos selecionadosX — 88% das ocorrências

* Na amostra selecionada, “Possíveis Impressões” estava disponível para quatro conteúdos. No mar aberto, a ferramenta apresenta “Impressões” agregadas. As duas métricas devem ser tratadas como indicadores de exposição potencial e não como número de pessoas únicas alcançadas.

A combinação entre a concentração das ocorrências no X e a forte aceleração de 24 para 25 de setembro sugere que a controvérsia se expandiu rapidamente no ambiente digital. A amostra qualitativa ajuda a compreender como essa expansão é narrada por diferentes atores, enquanto o mar aberto dimensiona a escala da conversação.

Os artigos da seção Areópago são de responsabilidade de autores e autoras e não refletem, necessariamente, a opinião do Coletivo Bereia

Expediente do monitoramento

Diretor Executivo: Leon Souza
Diretor de Campanhas: Flávio Conrado
Coordenação e pesquisa: Andréa Laís
Pesquisa: Lorena Mochel

Aparecida, as eleições e a Democracia

O candidato à Presidência do Brasil pelo Partido Liberal foi acusado de estar planejando, se for eleito, retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de “padroeira do Brasil”. Isso nem poderia ser verdade, já que se trata de uma distinção dada pela hierarquia católica e só essa poderia mexer nisso. A única coisa que um presidente da República pode fazer seria abolir o feriado nacional de 12 de outubro, dia da festa de Nossa Senhora Aparecida. O feriado nacional foi decretado pelo General Figueredo em 1980 e isso é sim da competência do governo federal. 

Um Presidente que pretendesse retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil suscitaria a revolta da maior parte da hierarquia católica e de grande parte do povo brasileiro, católico ou não. Do lado evangélico, muitos irmãos e irmãs de Igrejas histórias e pentecostais não entrariam diretamente na polêmica, mas poderiam pronunciar-se pela defesa da cultura popular brasileira, ligada a Aparecida. 

Provavelmente, o candidato em questão conseguiria o apoio de numeroso grupo de evangélicos que veem na devoção à Aparecida, um fenômeno de superstição e idolatria, contrária ao Evangelho de Jesus. 

No entanto, além dessa questão conjuntural, o tal boato falso revelou algo mais profundo e mais preocupante: muitos católicos reagiram a essa notícia, exatamente, como a massa católica reagiu em 1931, quando, pela influência de Dom Sebastião Leme, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, o Papa Pio XI proclamou Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil e no ano seguinte, 1931, na data de 12 de outubro, no Rio de Janeiro, o cardeal inaugurou a estátua do Cristo Redentor no morro do Corcovado. 

Naquela época o que estava em jogo era a influência da hierarquia católica no país. Ao fazer Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil e inaugurar a estátua do Cristo Redentor no Corcovado, o Cardeal Leme, maior líder católico no Brasil, garantiu o prestígio e a força política necessária para impor ao governo e à sociedade laica os interesses do clero e o poder da Igreja Católica no país, ainda então, considerado católico. O sistema de Cristandade, isso é, de uma Igreja ligada ao Estado como poder e que se expressa como religião civil já não existia desde os tempos do Império, mas a cultura continuava a mesma. 

E agora, o que está em jogo? É triste perceber que, em pleno século 21, nesse contexto de mundo em que vivemos, essa cultura de dominação católica e de religião de massa continua, não apenas nos círculos católicos mais tradicionais, mas mesmo nos meios eclesiais mais abertos e comprometidos com a renovação eclesial e do mundo. 

Não percebem que continuar na cultura de Cristandade não só não é justo com o pluralismo cultural e religioso do povo brasileiro, como não faz bem nem à própria Igreja. Além de que isso nada tem a ver com o projeto de Jesus, não rompemos com o colonialismo ainda impregnado na cultura de Cristandade.  

Atualmente, todas as pessoas conscientes concordam que o Brasil é um Estado laico e deve continuar laico. Portanto, o povo brasileiro tem todo o direito de ter a religião que quiser seguir, ou nenhuma. A liberdade religiosa está assegurada pela atual Constituição Federal de 1988. Essa parte mais lúcida da sociedade reage quando escuta pastores pentecostais sugerirem que tal cidade pertence ao Cristo e expressarem que sonham com um Brasil pentecostal. 

No entanto, grande parte dessa lucidez não aparece, quando se trata de defender um Brasil católico, com feriados católicos e privilégios para a Igreja Católica, assegurados pela Concordata com o Vaticano. 

Pessoalmente, imagino que Maria de Nazaré, discípula do filho Jesus e esse mesmo, no seu intento de testemunhar ao mundo o projeto divino, estejam pouco preocupados com títulos como esse de padroeira do Brasil e prefiram ver o nosso povo empobrecido mais consciente dos seus direitos e mais capaz de votar para continuar a luta por uma mais profunda e  verdadeira democracia, laica e pluricultural. 

 Comparando os dois candidatos a presidente com real chance de serem eleitos, é fato  que o atual presidente, em busca de reeleição, atua para  assegurar o caminho para garantirmos o regime democrático, a luta por direitos do Povo e da Natureza e a luta para que, de fato, o Brasil continue a ser um Estado laico. O outro candidato tem evidentes relações com a corrupção, conforme revelado em material de investigações policiais; tem registros de vínculos com a milícia do Rio de Janeiro; e, inúmeras vezes, já declarou que pretende colocar o Brasil de joelhos, diante dos Estados Unidos. 

Em muitos países, a tentação de um governo ditatorial e de tendência fascista tem sido característica da extrema-direita. O Brasil não pode cair nesta vala, que trará a amputação da democracia e cortes brutais em direitos trabalhistas, previdenciários, humanos e ambientais, conquistados nas últimas décadas, com muita luta, suor e sangue. 

Que, nessa hora grave das eleições presidenciais, estaduais e de grande parte do legislativo nacional, a fé e a espiritualidade de todas as religiões e caminhos humanos nos guiem para escolher a Democracia, a Justiça ecossocial e a Paz.

Quase 60 milhões de pessoas expostas: Bereia promove pesquisa que mapeia desinformação religiosa no Instagram

Os primeiros resultados do estudo “Mapa da desinformação em ambientes digitais religiosos” já identificaram 141 perfis de conteúdo religioso que atuam na circulação de desinformação pelo Instagram, terceira plataforma digital mais popular do Brasil, em 2026, atrás do WhatsApp e do Youtube.

O novo levantamento, que será periodicamente atualizado a partir de outubro de 2026, estima que as contas mapeadas somem cerca de 140 milhões de seguidores brutos e alcancem entre 60 milhões e 70 milhões de pessoas, após a correção pela sobreposição de públicos. O número corresponde a aproximadamente 40% da população brasileira conectada.

A pesquisa é um projeto do Bereia em parceria entre com o Laboratório de Internet e Ciência de Dados da Universidade Federal do Espírito Santo (Labic/Ufes), com a colaboração da doutora em Linguística, pesquisadora de discursos em redes digitais e jornalista Lidia Neves.

O objetivo da pesquisa não é produzir um ranking dos perfis que promovem desinformação ou dos temas mais frequentes nem afirmar que a desinformação caracteriza o conjunto do ambiente religioso. O estudo procura localizar fontes que produzam ou disseminem desinformação voltada especialmente ao público cristão (maioria da população do país). Com a identificação, busca-se entender como os conteúdos circulam nas redes religiosas e se conectam a perfis religiosos, políticos, portais, mídias digitais e influenciadores.

Para Lidia Neves, um dos achados que merece atenção é justamente a diferença entre essas duas dimensões, a do público amplo e a dos perfis de produção de conteúdo. “Você encontra bastante desinformação voltada para público religioso em datasets de desinformação. Então, apesar de existir um volume de desinformação voltada para as pessoas cristãs, principalmente evangélicas, a maioria das pessoas não faz isso”, ressalta a pesquisadora. 

Os primeiros dados do Mapa surgem em um período em que outras investigações têm identificado, também no Instagram, mecanismos para ampliar artificialmente audiências, reaproveitar perfis, distribuir conteúdo em rede e direcionar seguidores entre contas. Os levantamentos têm objetos e metodologias diferentes e seus números não podem ser somados. Juntos, porém, documentam práticas que ajudam a compreender o ambiente digital no qual estão inseridos os 141 perfis encontrados pelo Mapa da desinformação. 

Como a pesquisa foi feita

Para chegar aos 141 perfis, a investigação combinou diferentes métodos e partiu do acervo produzido pelo Bereia ao longo dos mais de seis anos de sua atuação, desde 2019. Conteúdo já checado pelo coletivo serviu de referência para cruzamentos com bases trabalhadas pelo Labic/Ufes e para a identificação de novas contas nas plataformas.

“A princípio, eu usei esses dados como base para treinar o algoritmo para ele me entregar outras fontes de desinformação voltadas para evangélicos”, explica Lidia Neves. Para ela, o processo também mostrou “o quanto o Bereia já é referência nesse mundo de enfrentamento à desinformação voltada,  muito especialmente,  para evangélicos”.

A metodologia reuniu análise qualitativa, cruzamento e mineração de bases de dados, rastreamento com inteligência artificial e etnografia algorítmica. A pesquisa partiu de 96 perfis e materiais sistematizados a partir do banco de dados do Bereia, cruzou esse material com bases do Labic e trabalhou com cerca de 10 mil posts relacionados à religião e teorias da conspiração. As palavras-chave encontradas nessa etapa orientaram a filtragem de aproximadamente 20 mil publicações no Instagram.

Entre os eixos usados para localizar os conteúdos estão pânico moral, perseguição religiosa, ameaça à liberdade religiosa, gênero e família, instrumentalização político-eleitoral da fé, sionismo cristão, geopolítica bíblica, antivacina e narrativas apocalípticas. “Esses temas não constituem um ranking dos assuntos mais disseminados, mas foram empregados como caminhos para identificar as fontes de desinformação”, frisa a pesquisadora colaboradora.

Nesse rastreamento, realizado entre 15 de julho e 9 de setembro passado, a pesquisa encontrou três diferentes grupos de contas no Instagram: lideranças religiosas; políticos e mandatários; portais e mídias digitais e influenciadores de nicho. Entre os nomes mais recorrentes no levantamento estão os pastores André Valadão (Igreja Batista da Lagoinha), Silas Malafaia (Assembleia de Deus Vitória em Cristo) e Valnice Milhomens (Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo) no primeiro grupo. No grupo de políticos estão o deputado federal Nikolas Ferreira (PL/MG), o deputado federal Pastor Marco Feliciano (PL/SP), o senador Flávio Bolsonaro (PL/RJ, atual candidato à Presidência da República) e o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL/SP). Já a produtora Brasil Paralelo, o portal gospel Pleno News e o perfil Direita Brasil estão entre as mídias digitais que disseminam sistematicamente conteúdo desinformativo. Entre os influenciadores de nicho identificados há vários candidatos a deputados/as federais e estaduais.

Estes e 131 outros perfis foram identificados com base nos critérios e procedimentos adotados pela pesquisa científica. Por isso, os promotores do levantamento destacam que estar na lista não significa que todo o conteúdo publicado por esses perfis seja classificado como desinformativo (falso, enganoso, impreciso ou inconclusivo,  conforme a verificação do Bereia). 

A análise das estratégias empregadas nesses conteúdos aponta para o uso recorrente da ideia de ameaça à liberdade religiosa. “Esses perfis encontrados procuram trabalhar como se a liberdade religiosa estivesse ameaçada, algumas vezes, juntando com questões relacionadas a outras liberdades”, observa a Dra. Lidia Neves. A pesquisadora também identificou casos em que acontecimentos isolados são apresentados como fenômenos generalizados e conteúdos que associam candidaturas ou posições políticas a riscos para as igrejas.

O uso descontextualizado de textos bíblicos também apareceu no radar do mapa, embora, segundo a pesquisadora colaboradora, isto não seja predominante. Um exemplo observado durante este período eleitoral foi o do texto do livro bíblico de Eclesiastes 10.2, versículo sobre o sábio inclinar o coração para a direita e o insensato para a esquerda, empregado como referência à divisão político-ideológica contemporânea. “Interpretar isso politicamente, totalmente tirado de contexto, é algo bem complicado, mas tem acontecido neste período eleitoral”, lamenta Lidia Neves.

O contexto é de vários levantamentos sobre desinformação eleitoral 

A sobreposição entre política e religião observada no Mapa construído na pesquisa promovida pelo Bereia, aparece, sob outro recorte, em investigação publicada pela agência de checagem Aos Fatos, em 16 de setembro passado. O veículo identificou pelo menos 24 perfis no Instagram dedicados ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e promovidos por meio de publicações colaborativas e de contas ligadas ao universo político bolsonarista. Entre 1º e 9 de setembro, 156 publicações analisadas pela reportagem que apresentavam a atuação do ministro como uma espécie de missão religiosa acumularam 228 milhões de visualizações. 

As 24 contas somavam 5,6 milhões de seguidores em 16 de setembro. Metade já existia antes da mobilização em torno de Mendonça e apenas mudou de nome. O maior perfil, com 1,9 milhão de seguidores, havia sido criado em novembro de 2024 e passou por oito mudanças de nome. Antes de assumir a nova identidade, já republicava conteúdos religiosos, sobre futebol e contrários a pessoas LGBTQIA+. 

Imagem: Reprodução do site “Aos Fatos” – publicado em 16 set 26 – Acesso 24 set 26

O Aos Fatos classificou a prática como “astroturfing”, estratégia que busca produzir a aparência de uma mobilização popular espontânea. A investigação encontrou ainda perfis que publicam peças quase idênticas, usando o recurso de colaboração do Instagram e direcionando suas audiências para contas dedicadas ao ministro. Uma delas chegou a relacionar às discussões recentes no STF uma pregação feita por Mendonça em fevereiro, durante uma conferência cristã, embora os dois episódios não tivessem relação temporal.


A mudança de identidade das contas também foi percebida durante a elaboração do Mapa da Desinformação Religiosa. A pesquisadora colaboradora Dra. Lidia Neves observou tanto perfis que alteraram seus nomes no período,  quanto influenciadores que passaram a disputar as eleições. Nestes primeiros resultados da pesquisa ainda não é possível determinar a motivação dessas alterações. A prática será um dos pontos a serem acompanhados com a atualização periódica da base.

Porém,  no levantamento foram observadas três contas que usam a mesma sequência de nomes, associada ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), além de perfis de fãs que também aparecem com destaque no estudo. Lidia Neves alerta que com os dados disponíveis nesta etapa, não é possível afirmar que todas as contas pertençam ao parlamentar. “As contas usam a mesma sequência e, além disso, tem outros perfis de fãs que também aparecem com protagonismo”, explica.

O recurso de publicação colaborativa, ou collab, também aparece com frequência entre essas contas. Nesse formato, uma mesma publicação é exibida simultaneamente nos perfis que aceitam a colaboração e passa a circular entre suas respectivas audiências. “Nesses casos, a prática de collab é bastante intensa também”, diz a pesquisadora, o que significa mais participação na disseminação de desinformação. 

Fazendas de conteúdo multiplicam publicações e compartilham audiências

Outra reportagem publicada pelo “Aos Fatos”, neste 23 de setembro, em parceria com a Agência Pública, ampliou a dimensão desse mecanismo. Com base em relatório do Instituto Democracia em Xeque, o veículo identificou uma rede de fazendas de conteúdo gerado por inteligência artificial formada por **255 perfis no Instagram**. 

Imagem: Reprodução de matéria publicada no site Aos Fatos em 23 set 26 

Fazendas de conteúdo são estruturas digitais montadas com centenas de smartphones e notebooks, voltadas à produção rápida e em massa de publicações. A prioridade é o volume de cliques e os ganhos financeiros e/ou políticos para amplo alcance de apoios ao que é enviado a consumidores de conteúdo, em detrimento da qualidade e da veracidade da informação. Recentemente o tema ganhou projeção por conta da prisão do argentino Fernando Cerimedo, por tentativa de assassinato da ex-companheira. 

Cerimedo é consultor político, marqueteiro e estrategista digital argentino que ganhou projeção como um dos principais nomes da comunicação de direita e extrema-direita na América Latina. Ficou conhecido no Brasil por atuar no apoio digital à campanha de reeleição de Jair Bolsonaro em 2022 e por divulgar desinformação sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas brasileiras. Em 2023, Cerimedo atuou na campanha eleitoral de Javier Milei, para a Presidência da Argentina. Em 2024, foi incluído pela Polícia Federal brasileira no inquérito sobre a tentativa de golpe de estado em 2022-2023, porém não foi denunciado formalmente pela Procuradoria-Geral da República. 

Entre 15 de agosto e 15 de setembro, as  255  contas identificadas no levantamento do Democracia em Xeque publicaram ou co-assinaram (collab) 1.204 posts, que alcançaram 58 milhões de visualizações e 5 milhões de curtidas e comentários. Essas peças responderam por 63% de todo o engajamento registrado. Em alguns casos, o mesmo conteúdo apareceu simultaneamente em até seis perfis. A rede foi organizada pelo instituto em seis núcleos formados por contas que compartilhavam publicações e, consequentemente, suas audiências 

O alcance estava concentrado em poucas publicações. Apenas 25 posts, equivalentes a 2,1% da amostra, reuniram 53% das curtidas e dos comentários. O perfil “narrativascuriosastv” acumulou 17,2 milhões de visualizações e 1,5 milhão de interações no período. A “imperio_patriotico”, por sua vez, registrou 8,3 milhões de visualizações e 1,1 milhão de interações 

A transferência de audiência também fazia parte do funcionamento da rede. Em 30 de agosto, a “narrativascuriosastv” pediu aos seguidores que acompanhassem um “novo perfil” porque a conta principal poderia ser derrubada. Três dias depois, a página deixou de publicar na base analisada e uma conta alternativa começou a produzir conteúdo próprio. A original foi posteriormente bloqueada em decorrência de uma liminar da Justiça Eleitoral, enquanto o perfil reserva permaneceu ativo no momento da publicação da reportagem. 

A investigação encontrou ainda conexões entre a fazenda de conteúdo e os perfis dedicados a André Mendonça, registrados nesta matéria. O Instituto Democracia em Xeque identificou 20 contas não oficiais que usavam nomes ou apelidos de políticos ou do ministro acompanhados de expressões como “apoio”, “presidente” ou números. Quatro integravam diretamente a lista de fazendas de conteúdo com IA e outras se conectavam a ela por publicações colaborativas. Esse núcleo de 28 perfis publicou 84 conteúdos e acumulou 2,9 milhões de interações.

Os 255 perfis identificados pelo Democracia em Xeque não correspondem necessariamente aos 141 perfis do Mapa da Desinformação Religiosa. As duas pesquisas adotam critérios e recortes distintos, e não há base metodológica para somar seus números. O ponto de contato entre as pesquisas está nas práticas observadas: circulação entre contas, compartilhamento de audiências, alterações de perfis e conexões entre conteúdos políticos e religiosos.

Anúncios pagos abrem outra frente de distribuição

A circulação orgânica e o compartilhamento de audiências não são os únicos caminhos pelos quais conteúdos políticos ganham alcance no Instagram. Levantamento publicado pelo ICL Notícias, neste 23 de setembro mostrou que o gasto diário declarado com anúncios na Meta contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governo federal cresceu 123% entre agosto e setembro, de R$ 15,4 mil para R$ 34,5 mil.

O monitoramento registrou também uma mudança nos assuntos. Referências ao STF e ao ministro Alexandre de Moraes passaram de 3,3% das peças em agosto para 14% em setembro. Até o levantamento encerrado em 3 de setembro passado, ataques pessoais contra Lula representavam 73,4% dos anúncios analisados e economia, impostos e taxação respondiam por 21,2% 

O número de anunciantes cresceu no mesmo intervalo. Entre 1º e 16 de agosto, foram encontrados 160 perfis; entre 26 de agosto e 3 de setembro, eram 229. Desses, 163 não estavam na primeira amostra e responderam por 61% das 410 peças registradas. Candidatos sem mandato passaram de 31,1% dos anúncios para 60,1%, enquanto páginas classificadas como “satélite” caíram de 23,9% para 7,6%.

O levantamento do ICL mede publicidade política paga e não desinformação direcionada ao público religioso. Não há, a partir dos dados publicados, fundamento para afirmar que seus anunciantes integram os 141 perfis do Mapa. O estudo registra, no entanto, outra forma de ampliação de alcance na mesma plataforma observada pela pesquisa do Bereia e Labic/Ufes.

Imagem: Reprodução do site “ICL Notícias” – publicado em 23 set 26 – Acesso 24 set 26

Um mapa em desenvolvimento

Para a editora-geral do Bereia, a jornalista e também pesquisadora, doutora em Ciências da Comunicação, Magali Cunha, a parceria com o Labic-Ufes para a realização do Mapeamento da Desinformação Religiosa segue um princípio que acompanha o coletivo desde sua criação, em 2019, a partir dos resultados de uma pesquisa sobre circulação de desinformação em redes digitais religiosas. “Nosso trabalho tem por princípio que jornalismo e conhecimento científico têm que andar de mãos dadas. Afinal, informação é o conteúdo que forma”, ressalta Cunha.

A adoção de métodos científicos, segundo a editora-geral, busca dar sustentação ao levantamento e permitir que os resultados sejam revistos à medida que o ambiente analisado se transforma. “Queremos ser responsáveis com este conteúdo e com o nosso público que vai acessá-lo e oferecer informação segura, resultante da aplicação de um método científico ancorado em testes e comprovação”. Ela reforça que os dados divulgados agora representam o início do mapeamento: “Este é apenas o começo de um processo que será permanentemente revisado e atualizado, pois a própria pesquisa aponta para a dinâmica intensa da atuação de perfis que produzem desinformação nas redes digitais”.

A pesquisa segue em desenvolvimento, com previsão de ampliação do monitoramento, análises de gráficos e cruzamentos com outras bases, a partir de outubro. As 141 contas identificadas até aqui funcionam como ponto de partida para acompanhar novas narrativas, perfis e formas de circulação de desinformação no ambiente digital religioso.

O Mapa da Desinformação em Ambientes Digitais Religiosos é uma pesquisa em andamento conduzida a partir de cooperação entre o Bereia e o Labic-Ufes. O foco é a compreensão das relações entre religião, desinformação, algoritmos e circulação de conteúdos no ambiente digital.

Referências

A Pública

https://apublica.org/2026/09/fazendas-de-ia-inflam-extrema-direita-com-255-perfis/ – Acesso em 24 set 26

ICL Notícias

https://iclnoticias.com.br/gastos-com-anuncios-na-meta-contra-lula/ – Acesso em 24 set 26

Aos Fatos

https://www.aosfatos.org/noticias/bolsonaristas-capturam-perfis-inflar-apoio-religioso-mendonca/ – Acesso em 24 set 26

https://www.aosfatos.org/noticias/fazendas-de-ia-inflam-pauta-da-extrema-direita-com-255-perfis-e-mais-de-mil-posts/ – Acesso em 24 set 26

Labic/Ufes

https://www.labic.net/labic/  – Acesso em 24 set 26

EBC

https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-08/entenda-como-fazenda-de-cliques-pode-influenciar-debates-em-eleicao – Acesso em 24 set 26

Cantora evangélica e portal gospel enganam sobre IBGE manipular dados sobre evangélicos para ajudar governo federal

A cantora evangélica Sarah Farias, integrante da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), publicou, em 22 de setembro, uma série de vídeos em seu perfil no Instagram sobre dados de religião divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O conteúdo, posteriormente compartilhado pelo portal gospel Pleno News, havia alcançado centenas de milhares de visualizações. 

Na gravação, Farias afirma que o governo estaria “desesperado” para entender os evangélicos e sugere que a “pesquisa do IBGE” teria sido realizada para se identificar “o que fazer com os evangélicos”. O Bereia verificou a afirmação e a classificou como enganosa, pois a cantora atribui ao levantamento uma finalidade que não corresponde aos objetivos do IBGE e do Censo Demográfico, que não é uma simples pesquisa, como a artista menciona. 

O conteúdo dos vídeos repercutidos

Publicada em 22 de setembro passado, a sequência de vídeos de Sarah Farias, compartilhada pelo Pleno News, alcançou mais de 309 mil visualizações, 27 mil curtidas e três mil repostagens no Instagram, até o fechamento desta matéria.

Na gravação, a cantora comenta os dados recém- divulgados pelo IBGE sobre a população evangélica brasileira e outros grupos religiosos e afirma que o governo teria percebido a necessidade de realizar uma “pesquisa” com uma amostra “grande” e “diversificada” para descobrir “quem nós somos”. Em seguida, afirma que o governo estaria “desesperado” e que seria necessário “entender os evangélicos para saber o que fazer com os evangélicos”. Para ela, essa atenção teria chegado tarde. 

A afirmação é enganosa, pois atribui ao levantamento do IBGE uma finalidade que não corresponde aos objetivos do instituto. A produção de estatísticas sobre religião integra o Censo Demográfico, realizado a cada dez anos, e tem como finalidade conhecer as características da população brasileira, e não orientar o governo sobre como agir em relação aos evangélicos. 

Imagem: Captura de tela do conteúdo. Reprodução: Instagram

Farias também alerta seus seguidores para a possibilidade de surgirem “igrejas fake”, “líderes fake” e pessoas que estariam se convertendo com o objetivo de ocupar espaços de liderança na comunidade evangélica. Sem apresentar evidências para essas afirmações, ela relaciona o cenário ao período eleitoral e orienta os seguidores a terem “senso de responsabilidade” na hora de votar.

Ao final, a cantora afirma que não existe um lado político “100% transparente” ou “100% honesto” e diz que pretende escolher aquele que mais se aproxima do que considera um mundo melhor. Para justificar esse posicionamento, menciona aspectos como segurança e poder de compra e propõe que os eleitores comparem se estão “melhor agora” ou se estavam “melhor antes”.

A desinformação da cantora e do portal gospel que repercutiu o conteúdo 

Bereia ouviu a antropóloga diretora de pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (ISER) Regina Novaes sobre o caso. Ela explica que o Brasil tem uma trajetória histórica de produção de dados sobre religião. De acordo com ela, o país realiza levantamentos censitários sobre a declaração religiosa desde 1872, e, a partir de 1940, essa coleta passou a ser responsabilidade do IBGE, criado em 1936.

Novaes destaca que os censos permitiram acompanhar as transformações do cenário religioso brasileiro, inclusive o crescimento da população evangélica em um país historicamente de maioria católica. A cada edição, conforme a antropóloga, o IBGE apresenta notas técnicas para informar ao público sobre diferenças metodológicas adotadas em razão das mudanças ocorridas no período entre os levantamentos.

Sobre o Censo 2022, Regina Novaes ressalta que, apesar do atraso de dois anos (por conta da pandemia de covid-19, que impediu a coleta em 2020), os dados apresentam um retrato das transformações no quadro religioso brasileiro. O levantamento foi acompanhado de nota técnica pública, com explicações sobre os critérios utilizados e os limites da coleta. Para a antropóloga, atribuir manipulação ao levantamento desconsidera o processo histórico de produção de conhecimento sobre a população brasileira.

Novaes também aponta a proximidade dos dados do IBGE com resultados de pesquisas quantitativas realizadas em outros períodos, como levantamentos do Datafolha e, mais recentemente, a pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (ISER),  em parceria com a Quaest. Nesse sentido, segundo a pesquisadora, atribuir ao IBGE uma suposta manipulação dos dados significaria conferir ao governo um poder de controle sobre instituições de pesquisa que não corresponde ao funcionamento dessas organizações.

O que o IBGE faz?

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é responsável pela produção de estatísticas oficiais sobre a população brasileira. Entre suas principais operações está o Censo Demográfico, realizado periodicamente para levantar informações sobre características da população e dos domicílios.

A religião integra os temas investigados pelo Censo. No levantamento de 2022, o IBGE perguntou às pessoas com 10 anos ou mais “Qual é sua religião ou culto?”, sem apresentar uma lista de alternativas para a resposta. A investigação sobre religião não é uma iniciativa recente. O tema faz parte dos recenseamentos brasileiros desde 1872, ano do primeiro censo realizado no país.

Portanto, os dados sobre religião fazem parte de uma série histórica utilizada para conhecer as características da população brasileira. Não há, na finalidade declarada pelo IBGE para o Censo, indicação de que o levantamento tenha sido realizado para definir como o governo deve agir em relação aos evangélicos ou a qualquer outro grupo religioso.

O que os dados do IBGE mostram? 

O Censo Demográfico 2022 contabilizou 47,4 milhões de pessoas que se declararam evangélicas entre a população de 10 anos ou mais (26,9% da população). O levantamento registrou ainda 100,2 milhões de católicos, 16,4 milhões de pessoas sem religião e 12,3 milhões de pessoas pertencentes a outras religiosidades.

Esses dados permitem dimensionar a presença das diferentes religiões na população brasileira e relacionar o pertencimento religioso a outras características demográficas e sociais.

A existência de informações sobre o segmento evangélico, portanto, não significa que o governo tenha criado uma “pesquisa” para descobrir “o que fazer com os evangélicos”. O censo tem como finalidade produzir estatísticas sobre a população e suas características.

E o que fazem os institutos de pesquisa? 

Além das estatísticas oficiais produzidas pelo IBGE, institutos e organizações especializadas realizam pesquisas com objetivos específicos. Esses levantamentos podem investigar opiniões, comportamentos, valores, percepções e relações entre diferentes características da população. Para isso, cada pesquisa estabelece sua metodologia, com definição do público, da amostra, do período de coleta e das perguntas. 

Um exemplo é a pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil, realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER), com execução de campo da Quaest. O levantamento ouviu presencialmente 15 mil pessoas com 16 anos ou mais, em 412 municípios de todas as regiões do país, entre 14 de janeiro e 10 de fevereiro de 2026. O questionário teve 184 perguntas e a pesquisa apresenta margem de erro de 0,8 ponto percentual, com nível de confiança de 95%. 

O levantamento investiga aspectos que vão além da identificação da religião. Entre os temas estão trajetórias religiosas, práticas de fé, valores, consumo de mídias, posicionamentos políticos e características sociodemográficas. A pesquisa busca compreender como a experiência religiosa se relaciona com outros aspectos da vida social. 

O próprio ISER informa que a pergunta sobre religião segue a mesma metodologia utilizada pelo IBGE: o entrevistador pergunta “Qual é a sua religião ou culto?” sem apresentar alternativas. A semelhança está na forma de identificar a religião declarada, mas os levantamentos possuem objetivos distintos.

Enquanto o censo produz estatísticas sobre a população brasileira, pesquisas específicas podem aprofundar determinados temas e investigar relações entre diferentes dimensões da vida social. Por isso, os dados de uma pesquisa não devem ser interpretados como se revelassem, por si só, uma intenção política do governo.

Evangélicos não formam um grupo político homogêneo 

Os vídeos da cantora gospel foram divulgados  também no contexto da publicação de análises na imprensa sobre a relação entre evangélicos e política. Em coluna publicada na Folha de S.Paulo, em 21 de setembro passado, o antropólogo Juliano Spyer afirma que não haveria mais espaço para o diálogo entre a esquerda e os evangélicos “nesta geração”. 

A análise parte principalmente do relato de um pastor identificado pelo pseudônimo “Luís”. Para o entrevistado, as igrejas já apresentavam uma identidade política antiesquerda, mas a pluralidade neste quesito teria diminuído após 2018. “Luis” teria também afirmado ao articulista que o território do Cristianismo estaria sob controle de grupos ligados à direita e que lideranças contrárias ao ex-presidente Jair Bolsonaro teriam perdido espaço em igrejas.

É importante compreender aqui que afirmações apresentadas na coluna correspondem à avaliação do interlocutor de Spyer e não a resultados de uma pesquisa representativa de toda a população evangélica.

A pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil oferece outra perspectiva sobre a diversidade do campo religioso. O levantamento identifica diferentes tradições e trajetórias dentro do segmento evangélico. Entre os entrevistados, 21% se identificam como pentecostais, 5% como protestantes e 3% como evangélicos sem igreja. O estudo também aponta que 23% dos brasileiros já trocaram de religião.

Os dados sobre posicionamento político também indicam diversidade. De acordo com o levantamento, 54% dos entrevistados se definem como conservadores e 24% como progressistas. Esses números não permitem, contudo, estabelecer uma correspondência automática entre religião e posição política por determinado partido ou candidato. 

O relato utilizado por Spyer pode registrar a percepção de uma liderança religiosa sobre o ambiente político de determinadas igrejas e tem cunho opinativo. Porem, ele não permite, isoladamente, afirmar que todo o segmento evangélico tenha rompido com a esquerda ou esteja sob controle de uma única orientação política. Para caracterizar o conjunto da população evangélica, é necessário considerar pesquisas que apresentem metodologia adequada para representar suas diferentes características.

***

O Bereia classifica como enganosa a afirmação de Sarah Farias, repercutida pelo Pleno News, de que o governo federal teria realizado uma “pesquisa”, pelo IBGE, para “entender os evangélicos” e saber “o que fazer com eles”. O Censo Demográfico inclui a religião entre os temas investigados pelo IBGE para produzir estatísticas sobre a população brasileira desde 1872. Os dados de 2022 dimensionam a presença dos diferentes grupos religiosos no país, mas não indicam a finalidade política atribuída pela cantora ao levantamento. Além disso, pesquisas sobre religião e vida pública apontam diversidade de trajetórias, pertencimentos e posicionamentos entre os evangélicos, o que reforça a necessidade de evitar generalizações sobre o segmento.

Bereia alerta leitores e leitoras para discursos proferidos por influenciadores religiosos sobre eleições que fazem uso de desinformação (mentiras e enganoso) para interferir no voto de seguidores de forma desonesta. Saiba mais sobre o processo eleitoral com os materiais da campanha Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade, disponíveis nas redes do Bereia (@coletivobereia).

Referências:

Brasil Escola. https://brasilescola.uol.com.br/geografia/ibge.htm. Acesso em 23 de setembro de 2026.

ISER. https://iser.org.br/religiaoevidapublicanobrasil/. Acesso em 23 de setembro de 2026.

Documento do IBGE – Religiões: resultados preliminares da amostra. https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/3f1708b5d315aca50d5a7d8764469c45.pdf. Acesso em 23 de setembro de 2026.

IBGE. https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/47888-ibge-disponibiliza-microdados-da-amostra-do-censo-demografico-2022-com-novo-modelo-de-acesso-e-reforco-a-confidencialidade. Acesso em 23 de setembro de 2026.

Portal de notícias gospel engana sobre perseguição a igreja evangélica após desfile cívico

O portal gospel Pleno News publicou matéria e divulgou em seus perfis de mídias sociais a notícia de que uma igreja evangélica estaria “na mira” do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), por suposta prática de homofobia em desfile cívico, no último 7 de setembro.

Imagem: Extrato da matéria publicada no Portal Pleno News, em 16 set 2026

Imagem: Publicação no perfil do Pleno News no Instagram, 16 set 2026

O que se confirma

No desfile cívico da cidade de Içara, cidade de Santa Catarina, os membros da Assembleia de Deus se apresentaram expondo sua organização em ministérios (serviços) da igreja. Faixas com conteúdo polêmico foram apresentadas no pelotão “Ministério da Família”. Os textos faziam referência à defesa do casamento monogâmico e heterossexual, à família formada por homem, mulher e filhos, à oposição à “ideologia de gênero“, contra o aborto e citavam o livro bíblico de Marcos 10:6 (“Porém, desde o princípio da criação, Deus os fez macho e fêmea”).

O MPSC instaurou um procedimento (uma Notícia de Fato) após receber denúncia sobre as faixas exibidas pela entidade religiosa no desfile cívico de 7 de Setembro, em Içara (SC), com mensagens consideradas potencialmente discriminatórias.

O órgão acolheu a denúncia, feita pela internet, e a Promotoria determinou o prazo de dez dias para que a Prefeitura, de Dalvania Cardoso (PL-SC), explique como a igreja foi autorizada a participar do evento oficial. Além do desfile, o pastor presidente da Assembleia de Deus de Içara Hebrom Mussini acompanhou a programação no palanque principal, ao lado de autoridades. 

Pleno News distorce ao noticiar

O portal de notícias gospel enquadra a notícia de maneira enganosa, ao afirmar que a igreja evangélica em questão estaria sendo investigada por possível prática de homofobia. O fato é que o procedimento aberto pelo MP-SC trata-se de uma Notícia de Fato, que é o protocolo inicial e sumário instaurado para apurar se uma informação sobre irregularidade tem fundamento e exige investigação. Ou seja, o procedimento busca averiguar se a denúncia encaminhada configura ato de discriminação contra a população LGBTQIA+, com prazo para que a Prefeitura explique a autorização para a participação da igreja no evento oficial. 

Além disso, Pleno News publica mentira ao afirmar que “o MPSC agora busca encontrar elementos contra a denominação.” Não há indícios que confirmem tal afirmação. O que foi encaminhado oficialmente até o momento é uma apuração do ocorrido com a Prefeitura, responsável pelo desfile cívico, podendo resultar em denúncia e inquérito civil ou no arquivamento do caso. No momento não há juízo de valor ou constatação prévia de irregularidade.

O portal de notícias omite informações 

A fim de vitimizar a igreja Assembleia de Deus de Içara (SC) com o registro de um processo judicial inexistente, o Pleno News omite informação sobre a denúncia ter partido do Instituto Humaniza. A organização cita no texto encaminhado ao MPSC a criminalização da homofobia e da transfobia no Brasil e destacou o caráter laico do Estado brasileiro. Há omissão também no fato de o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) local também ter se manisfestado sobre o acontecido, alegando possível violação da laicidade em evento público. 

Na instauração da apuração, a Promotora de Justiça Rafaela Mozzaquattro descreveu que os fatos envolvem a proteção de direitos fundamentais e o combate à discriminação.

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Bereia classifica a notícia do Pleno News, de que a igreja Assembleia de Deus de Içara (SC), estaria sendo perseguida pelo Ministério Público de Santa Catarina, como enganosa. 

O veículo de notícias expressa a verdade sobre a instituição religiosa ter desfilado e sobre o conteúdo presente nas faixas apresentado por um dos grupos. No entanto, o portal gospel apresenta informações enganosas que levam leitores a assimilarem que a igreja estaria sendo alvo de perseguição por defender o formato tradicional de família, e que a liberdade religiosa e de expressão estariam em risco. O título e o subtítulo  da matéria carregam uma interpretação que não condiz com a atuação do Ministério Público em curso. 

Bereia alerta leitores e leitoras para o recorrente uso da noção de perseguição de cristãos por perfis e veículos cristãos, em especial em períodos eleitorais, por meio da distorção de fatos e procedimentos, em especial no campo judicial. 

Referências

https://coletivobereia.com.br/?s=ideologia+de+g%C3%AAnero Acesso em 18 SET 26

https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2026/09/15/mpsc-investiga-igreja-prefeitura-faixas-contra-comunidade-lgbtqia-desfile.ghtml Acesso em 18 SET 26

https://www.mpsc.mp.br/w/mpsc-instaura-procedimento-para-apurar-poss%C3%ADvel-discrimina%C3%A7%C3%A3o-contra-pessoas-lgbtqia-durante-desfile-c%C3%ADvico-em-i%C3%A7ara Acesso em 18 SET 26

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2026/09/08/faixas-igreja-7-de-setembro-sc.ghtm Acesso em 18 SET 26

https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/06/13/stf-permite-criminalizacao-da-homofobia-e-da-transfobia.ghtml Acesso em 18 SET 26

ISER e Bereia lançam guias sobre religião, política e desinformação

*Publicado originalmente na plataforma Religião e Poder do ISER

Elaborados pelo Bereia – Informação e Checagem de Notícias, plataforma especializada em informação e checagem de conteúdo que circula em espaços digitais religiosos, em parceria com o Instituto de Estudos da Religião, o ISER estes materiais tem como objetivo ajudar integrantes e lideranças de comunidades cristãs a dialogarem sobre estes temas de forma crítica.

Não são guias para defender políticos, governos ou partidos, nem para falar mal de lideranças ou de igrejas. Pelo contrário! É um instrumento de defesa das comunidades e para formação para a cidadania e para a fé, porque quem tem compromisso com a verdade não pode ser indiferente à mentira.

Religião e Política (não) se discute

O guia Religião e Política (não) se discute propõe uma reflexão sobre a relação entre fé, política e vida em comunidade, partindo de histórias e ensinamentos bíblicos para mostrar como decisões políticas atravessam o cotidiano e influenciam direitos, políticas públicas e o bem-estar coletivo.

A publicação aborda a importância do diálogo sobre política nas comunidades de fé como instrumento de formação crítica e participação cidadã e reúne orientações práticas para promover conversas sobre política e direitos nas igrejas, enfrentar conteúdos falsos e evitar a instrumentalização da fé para induzir votos ou constranger quem pensa diferente.

Como as comunidades de fé podem se proteger da desinformação

As comunidades de fé cristã estão entre os espaços mais visados pela disseminação de mentiras nos ambientes digitais, fenômeno que se intensifica ainda mais durante os períodos eleitorais. Talvez você já tenha recebido no grupo de WhatsApp da igreja uma mensagem dizendo que “querem silenciar os cristãos”, que certa candidatura é “do diabo”, que vacinas contêm microchips, que as escolas estão “ensinando crianças a virar homossexuais” ou que “as igrejas podem ser fechadas”.

Mensagens como essas circulam com frequência nos ambientes digitais e podem gerar medo, desconfiança e confusão. Mas como saber o que é verdadeiro e o que é desinformação? Este guia reúne ferramentas práticas para reconhecer conteúdos suspeitos, verificar informações e imagens, consultar agências de checagem e construir práticas coletivas de enfrentamento à desinformação.

Faça download dos materias completos em:

Guia Religião e Política (não) se discute?

Guia Como as Comunidades de fé podem se proteger da desinformação

Saiba mais em:

Campanha Boto Fé no Voto
Site do Coletivo Bereia

Pastores evangélicos mobilizam onda de mentiras sobre economia nas redes digitais

“Os economistas dizem que o Brasil está à beira de uma recessão”, “Bolsa família é esmola para quem vive às custas do Estado” – estas são frases proferidas pelo pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes e pela pastora pentecostal Valnice Milhomens, em vídeos publicados em mídias sociais, a partir deste 14 de setembro. Os conteúdos miram temas econômicos do país, em críticas ao atual governo que disputa reeleição neste pleito.

Como Bereia já divulgou, como parte da campanha Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade, mentiras sobre economia para convencimento de eleitores para o apoio a determinadas candidaturas têm sido recorrentes nos períodos eleitorais anteriores. Neste pleito em 2026, conteúdo desinformativo já vem sendo propagado desde 2025, com mentiras sobre o PIX, sobre preços de alimentos e outros temas que mobilizam pânico entre eleitores. 

Nesta segunda quinzena de setembro de 2026, a poucos dias das eleições, Bereia observa os vídeos destas lideranças religiosas como parte da mesma iniciativa de acionamento de medo no eleitorado evangélico, com base em falsidades. A equipe Bereia checou as peças digitais.

O vídeo do pastor Hernandes Dias Lopes

Uma mensagem intitulada “Como sair da crise financeira? foi publicada pelo pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes, no YouTube, em 7 de setembro”. Antes de recorrer ao livro bíblico de Provérbios para orientar os seguidores sobre trabalho, dinheiro e prosperidade, o religioso apresentou um diagnóstico da economia brasileira.

Imagem: Canal do YouTube do Pastor Hernandes Dias Lopes

Segundo Hernandes, o Brasil talvez nunca tenha vivido uma situação econômica “tão crítica”; “mais de 80% do Produto Interno Bruto” estaria comprometido com dívidas; mais de 80% das famílias estariam endividadas; pequenas e médias empresas  “colapsando”; e outras companhias “fugindo do Brasil” para se estabelecer no Paraguai. O pastor também classificou os juros como “altíssimos” e a carga tributária como “pesadíssima”. “A gastança parece não ter freios nem limites e o futuro é sombrio”, afirmou.

Uma semana depois, em 14 de setembro, Hernandes publicou outra mensagem na qual levou a leitura bíblica diretamente para a conjuntura política e institucional. Ao comentar o livro do profeta Miqueias, descreveu o Brasil como uma nação em profunda crise moral, falou em corrupção nos três Poderes, “aparelhamento” do Estado e articulação entre governantes, juízes e poder econômico.

Em determinado momento ressalta: “não estou falando do Brasil”, mas a mensagem é construída a partir da aproximação entre o contexto descrito pelo profeta e a realidade brasileira atual. No encerramento, diante do que apresenta como perda de confiança em governantes, legisladores e cortes, conclama a população brasileira a voltar-se para Deus.

Imagem: Publicação do perfil do Instagram do Pastor Hernandes Dias Lopes, 14 set 2026

Cortes das mensagens do pastor estão sendo propagados pelas plataformas digitais e compartilhados em grupos de WhatsApp de igrejas.

Bereia checou: o país vive uma situação econômica sem precedentes, como sugere a fala do pastor Hernandes? Enganoso!

O Brasil está realmente “à beira de uma recessão”? Mais de 80% do PIB está “comprometido com dívidas”? Mais de 80% das famílias estão endividadas? Há evidências de uma fuga significativa de empresas brasileiras para o Paraguai? 

Fatos e dados disponíveis não confirmam a ideia de uma economia brasileira à beira do colapso. Há problemas reais, como dívida pública elevada, endividamento das famílias, inadimplência empresarial e juros altos, mas o PIB seguiu crescendo em 2026. A afirmação de que mais de 80% do PIB estaria “comprometido com dívidas” confunde a relação entre dívida pública e PIB com recursos efetivamente destinados ao pagamento da dívida.

A informação de que mais de 80% das famílias estão endividadas é correta, embora isso não signifique que todas estejam inadimplentes. Ao fazer a crítica, o pastor omite estudos que avaliam os principais motivos do alto endividamento: as dificuldades econômicas criadas na pandemia da Covid-19 e, o principal, o envolvimento com apostas promovidas pelas “bets”.

O pastor também não mencionou a existência de políticas públicas como os programas “Desenrola” e a abertura para o uso do FGTS. Além disso, toda pessoa que adquire imóvel por financiamento, nos moldes do Minha Casa Minha Vida, também é contabilizada como devedora. Neste caso, trata-se de uma dívida “boa”, diferente de quem se endivida por bets.

Sobre a existência de investimentos de empresas brasileiras no Paraguai, eles existem, mas é enganoso que haja uma “fuga” empresarial em massa para aquele país. Hernandes Dias Lopes reproduz afirmações enganosas sobre este assunto que já circulam nas redes e foram checadas. 

A caracterização da atual conjuntura como uma crise sem precedentes não encontra respaldo nos indicadores históricos, já que o país enfrentou recessões muito mais severas em períodos recentes, como 2015-2016 e 2020. 

Segundo o economista Teófilo Cavalcanti, ouvido pelo Coletivo Bereia, Hernandes defende uma “teologia do trabalho”, sendo veemente crítico da “teologia da prosperidade”. Entretanto, os indicadores recentes do mercado de trabalho brasileiro não sustentam a descrição de uma economia em situação próxima de recessão ou de deterioração sem precedentes, como afirma o pastor. Com base em dados do IBGE, publicados no jornal Valor Econômico, Cavalcanti destaca que, desde 2022, houve queda contínua do desemprego, aumento do número de pessoas ocupadas e de trabalhadores com carteira assinada, além de crescimento da renda média real.

De acordo com os números levantados pelo especialista para esta matéria, a taxa de desemprego caiu de 9,8% em maio de 2022 para 5,6% em maio de 2026, chegando a 5,3% em julho. No mesmo período, o número de trabalhadores com carteira assinada passou de 34,4 milhões para 39,3 milhões, enquanto a população ocupada cresceu em mais de seis milhões de pessoas.

Teófilo Cavalcanti também chama atenção para a evolução da renda. Em valores reais, a renda média do trabalhador passou de R$3.099, em maio de 2022, para R$3.726 em maio de 2026, crescimento próximo de 17%. Ele relaciona esse resultado tanto à melhora do mercado de trabalho quanto à política de valorização real do salário mínimo.

Na avaliação apresentada pelo economista, o desempenho do PIB também contrasta com a ideia de uma crise econômica inédita. O especialista calcula que, considerados os resultados de 2023 a 2025 e a projeção para 2026, o PIB poderá acumular crescimento superior a 11% no período, enquanto o PIB per capita avançaria perto de 9%. Para ele, esse desempenho representa uma mudança em relação ao longo período de baixo crescimento que marcou os anos anteriores.

A leitura do especialista, portanto, não nega problemas como o aumento do endividamento das famílias e da economia. O que ele questiona é a construção de um cenário exclusivamente negativo: ͢͢”se trabalho e renda são elementos centrais no discurso de Hernandes Dias Lopes, os indicadores de aumento do emprego, da formalização e da remuneração também deveriam fazer parte de qualquer diagnóstico da conjuntura econômica brasileira”.

Cavalcanti avalia que a caracterização da atual conjuntura como uma crise sem precedentes não encontra respaldo nos indicadores históricos, já que o país enfrentou recessões muito mais severas em períodos recentes, como 2015-2016 e 2020. 

O vídeo da pastora Valnice Milhomens

O segundo vídeo checado pelo Bereia foi publicado pela pastora Valnice Milhomens, da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo (INSEJEC) também no início da segunda quinzena de setembro de 2026. O conteúdo ganhou repercussão nas redes digitais por classificar o Bolsa Família como “esmola” e associar a dependência do benefício à falta de trabalho. Na publicação, a pastora defende que a autonomia econômica ocorre por meio do trabalho e afirma que não seria “libertador” viver “às custas do Estado”. 

Na publicação, a pastora questiona a existência do Bolsa Família e associa o recebimento do benefício à dependência do Estado. Na legenda do vídeo, ela afirma: “O povo brasileiro não precisa de esmolas! Oremos pelos próximos governantes da nossa nação”. 

Valnice Milhomens também afirma que o Bolsa Família “atinge milhões de brasileiros” e questiona se esse seria o “ideal de economia”. Em seguida, defende que a libertação econômica estaria associada ao trabalho e à obtenção de renda por meio da atividade profissional. Para ela, “não é libertador você viver às custas do Estado”, enquanto “ganhar o seu dinheiro pelo seu trabalho” seria uma forma de dignidade e de contribuição para a sociedade. 

Ao desenvolver o argumento, a pastora afirma ainda que “conservar alguém escravo” da esmola “não é o melhor” e relaciona o trabalho à elevação da autoestima. Até o momento da apuração, a publicação acumulava quase 90 mil visualizações e mais de 10 mil comentários em seu perfil no Instagram. A repercussão ocorre em torno de uma interpretação sobre o programa que desconsidera seus critérios de acesso, suas condicionalidades e os mecanismos previstos para a saída ou transição das famílias beneficiárias. 

Imagem: Publicação no perfil do Instagram da Pastora Valnice Milhomens, 16 set 2026

Bolsa Família é esmola? Falso!

O Bolsa Família é um programa de transferência de renda, e não uma doação eventual. Para ingressar, a família precisa estar inscrita no Cadastro Único e atender aos critérios de renda estabelecidos pelo programa. A transferência é acompanhada de condicionalidades relacionadas à saúde e à educação. Entre elas estão a vacinação e o acompanhamento nutricional de crianças menores de sete anos, o pré-natal de gestantes e a frequência escolar mínima de crianças e adolescentes.

Em março de 2025, o programa atendia mais de 20,5 milhões de famílias, com benefício médio de R$ 668,65. Naquele momento, mais de 3,11 milhões de famílias estavam na chamada Regra de Proteção, criada para evitar a retirada imediata do benefício quando a renda familiar aumenta.

A existência dessa regra é particularmente relevante para a afirmação feita no vídeo. O próprio desenho do programa prevê a transição das famílias para fora da política de transferência de renda quando sua situação econômica melhora. Desde julho de 2025, famílias que ultrapassam a renda de entrada, mas permanecem dentro do limite estabelecido para a Regra de Proteção, podem continuar recebendo 50% do benefício por determinado período, conforme sua situação de renda.

Famílias vivem às custas do Estado? Falso!

Os dados também mostram que o Bolsa Família não funciona como um benefício permanente para todos os seus integrantes. Em 2024, mais de 1,3 milhão de famílias deixaram o programa após melhorar de renda, segundo dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. Outras 2,2 milhões passaram para a Regra de Proteção naquele ano.

Em 2025, o movimento continuou. Segundo relatório de gestão do MDS, 2,5 milhões de famílias deixaram de receber o Bolsa Família entre janeiro e dezembro daquele ano. Destas, 1.552.041 saíram porque a renda por integrante ultrapassou o limite do programa, 29.498 solicitaram desligamento voluntário e 967.145 concluíram o período da Regra de Proteção.

Esses números ajudam a contextualizar a relação entre transferência de renda, trabalho e autonomia econômica. A própria existência da Regra de Proteção parte do reconhecimento de que o aumento da renda de uma família não significa, necessariamente, que ela tenha superado imediatamente uma situação de vulnerabilidade. O mecanismo permite uma transição antes do desligamento definitivo

Bolsa Família e cuidado com as famílias

A crítica publicada pela pastora também pode ser vista como uma contradição com a demanda sempre colocada por lideranças religiosas de que se deve proteger a família.  No caso do Bolsa Família, como o nome diz, é uma política pública que representa  cuidado com famílias em situação de vulnerabilidade. 

O programa público não se limita ao repasse financeiro: suas condicionalidades articulam transferência de renda com acompanhamento de saúde e permanência na escola. Na saúde, crianças menores de sete anos devem cumprir o calendário de vacinação e ter acompanhamento do estado nutricional, enquanto gestantes precisam realizar o pré-natal. Na educação, crianças, adolescentes e jovens beneficiários precisam cumprir uma frequência escolar mínima.

Esse desenho permite compreender o Bolsa Família como parte de uma política de proteção social, voltada não apenas à renda imediata, mas também à redução de situações que podem perpetuar a pobreza entre gerações. Estudo divulgado pelo MDS em parceria com a FGV apontou que 60,68% dos beneficiários que recebiam o programa em 2014 haviam deixado de recebê-lo até 2025; entre adolescentes de 15 a 17 anos, o percentual chegou a 71,25%.

Quem são estas lideranças evangélicas em campanha eleitoral?

Hernandes Dias Lopes é pastor colaborador da Igreja Presbiteriana de Pinheiros (IPP), em São Paulo, função que divide com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Pastor que ocupa muito as mídias impressas com vários livros e as digitais com vídeos e palestras, é diretor executivo da organização Luz para o Caminho (LPC), dedicada à produção de conteúdo religioso em livros, rádio, vídeo, internet e formação bíblica. 

Lopes construiu parte de sua identidade pública em oposição à chamada teologia da prosperidade. Em entrevista concedida ao jornal A Gazeta em 2011, reproduzida por diferentes páginas religiosas, criticou igrejas que prometiam enriquecimento e líderes que, segundo ele, exploravam a fé dos seguidores. 

Neste período eleitoral, o pastor tem investido na discussão de temas da economia. Em fevereiro passado, ele participou do PrimoCast, de Thiago Nigro, conhecido “influenciador” do campo das finanças e autoajuda”. O episódio foi estruturado em torno de “riqueza, dinheiro e fé”, com tópicos como mérito individual, desejo de enriquecer e “o que fazer para enriquecer segundo a Bíblia”. 

Imagem: Página do PrimoCast no YouTube

Lopes afirmou conhecer “centenas de pessoas” que receberiam o Bolsa Família e, por isso, não desejariam trabalhar, desenvolvendo o que classificou como uma “mentalidade de miséria”. Bereia checou este conteúdo do pastor. Logo depois, em abril, em outro vídeo de sua produção, ao comentar o mandamento “não furtarás”, o pastor voltou à formulação causal: “O trabalho produz riqueza, o furto, pobreza”. No mesmo artigo, associa a preguiça à apropriação do trabalho alheio e leva a interpretação bíblica para escândalos financeiros, instituições públicas e corrupção. 

Já a pastora Valnice Milhomens tem presença antiga em campanhas durante períodos eleitorais. Em 2014, a pastora manifestou apoio público à candidatura de Marina Silva à Presidência da República e associou a possibilidade de eleição da candidata à mobilização por meio de jejum e oração. Em 2022, voltou a se manifestar durante a disputa presidencial, quando orientou seguidores a não votarem em candidatos com programas que considerasse “contrários ao Reino de Deus” e relacionou o voto à responsabilidade religiosa, alinhada com a reeleição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). 

Em 2026, novamente em ano eleitoral, Valnice Milhomens passou a participar de mobilizações e discursos que relacionam a atuação de evangélicos à ocupação de espaços de influência na sociedade e à participação na vida pública. O histórico foi registrado em reportagem anterior do Bereia, que também contextualizou suas manifestações políticas em diferentes eleições. 

Propagação de mentiras pelas redes: uma crise moral

Bereia ouviu o teólogo e pastor pentecostal David Mesquiati sobre o fenômeno da onda de propagação de mentiras na campanha eleitoral por lideranças religiosas. Ele explica que “durante o século 20, os evangélicos eram percebidos pela sociedade como uma ‘reserva moral’, diante de tantas mudanças culturais e da corrupção política. Era possível manter essa ideia quando se é minoria, ascetismo severo com baixa participação nas rodas sociais e vida comunitária de fé circunscrita aos guetos de afinidade religiosa”. 

Contudo, adverte Mesquiati, com o aumento numérico, ascensão social e participação mais ativa nas esferas de poder, aquela diferenciação se atenua. “Casos de infidelidade, assédio e corrupção eram tratados internamente. Com a visibilidade midiática, cada caso vira página de jornal, aumentando a percepção de crise moral”, reconhece o teólogo.

Mesquiati aponta que “há uma onda de decadência moral em setores da liderança evangélica, justamente essa que provou das benesses do sistema. Não necessariamente se busca dinheiro. Para homens de meia e avançada idade em posição de liderança, o poder é mais tentador. Uma vez que se prova dessa maçã é difícil vencer esse paladar…” 

O pastor explica que “a extrema direita soube instrumentalizar os ressentimentos e frustrações da sociedade, catalisados pelas questões moralistas,  para mover as massas. O amálgama entre uma visão dominionista da fé no espaço público, as pretensões eleitoreiras da extrema direita e a sede de poder de alguns líderes religiosos produziu um tipo de cristianismo acrítico e preso numa bolha ideológica, que cega líderes e comunidades”.

Ao fim da entrevista ao Bereia, David Mesquiati aponta um caminho: “cada cidadão, independentemente da sua vinculação religiosa, é livre para escolher seu candidato. Os diferentes grupos e agremiações, entre eles as igrejas, cumprem um papel republicano quando usam seus espaços para debate de ideias, ouvir o contraditório e até promover encontros de candidatos para consultas, mas nunca para direcionar o voto. Uma igreja cidadã respeita o voto de cada um, tornando a diversidade um valor e um bem a ser preservado”.

Referências:

YouTube

https://www.hernandesdiaslopes.com.br/ Acesso em 15 set 2026

https://www.youtube.com/@HernandesDiasLopesOficial Acesso em 15 set 2026

https://www.youtube.com/watch?v=5iIH7hq2Jm0  Acesso em 15 set 2026

https://youtu.be/eLgFqmG0zgg?si=KEJ6WsOJQhfaMVY-  Acesso em 15 set 2026

https://www.youtube.com/watch?v=zFrLetPLiTM Acesso em 15 set 2026

IBGE

https://ftp.ibge.gov.br/Contas_Nacionais/Contas_Nacionais_Trimestrais/Fasciculo_Indicadores_IBGE  Acesso em 15 set 2026

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/47316-taxa-de-desocupacao-e-de-5-6-e-taxa-de-subutilizacao-e-de-13-3-no-trimestre-encerrado-em-maio Acesso em 15 set 2026

Banco Central do Brasil

https://www.bcb.gov.br/estatisticas/estatisticasfiscais Acesso em 15 set 2026

Rede de Investimento e Exportação (REDIEX)  

https://www.rediex.gov.py/pt/cerca-de-2-400-empresas-mostraron-interes-en-invertir-en-paraguay-durante-el-2025 Acesso em 15 set 2026

Governo Federal 

https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/bolsa-familia. Acesso em 16 set 2026.

https://www.gov.br/mds/pt-br/acesso-a-informacao/perguntas_frequentes/bolsa-familia-beneficiario/7-o-que-sao-as?utm_source. Acesso em 16 set 2026.

https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/bolsa-familia/regra-de-protecao. Acesso em 16 set 2026.

https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/bolsa-familia/original/informes/2025/relatorios/informe-bolsa-familia-80/perguntas_frequentes_nova_regra_de_protecao_pbf.pdf. Acesso em 16 set 2026.

https://www.gov.br/mds/pt-br/acesso-a-informacao/auditorias/RELATORIO_GESTAO_2025_defeso.pdf/@@download/file.

FGV Social. 

https://cps.fgv.br/bolsa-familia-o-que-e-e-como-funciona. Acesso em 16 set 2026.

CNN Brasil. https://www.cnnbrasil.com.br/economia/seu-bolso/meu-dinheiro/superacao-de-renda-tira-13-milhao-de-familias-do-bolsa-familia-em-2024/. Acesso em 16 set 2026. 

Filhos do Bolsa Família. https://static.poder360.com.br/2025/12/apresentacao_mds_03.pdf. Acesso em 16 set 2026. 

Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-03/caixa-paga-bolsa-familia-beneficiarios-com-nis-de-final-5-0. Acesso em 16 set 2026. 

Igreja Presbiteriana de Pinheiros

https://www.ippinheiros.org.br Acesso em 15 set 2026

Luz para o Caminho

https://lpc.org.br/ Acesso em 15 SET 2026

Nova Reforma

https://novareforma.blogspot.com/2011/02/uma-exploracao-da-fe-entrevista-do-rev.html Acesso em 15 set 2026

Hernandes Dias Lopes
https://www.hernandesdiaslopes.com.br/implicacoes-do-setimo-mandamento-nao-futuras  Acesso em 16 set 2026

Aos Fatos

https://www.aosfatos.org/noticias/falso-232-empresas-paraguai-governo-lula

Jota

https://www.jota.info/executivo/governo-lula-foca-em-medidas-contra-endividamento-em-cartao-e-cheque-especial

Uol

https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2026/03/26/bets-viram-maior-motor-do-endividamento-das-familias-no-brasil-diz-estudo.htm

Manchetes distorcem atuação do STF em operação da PF que envolve deputado evangélico

Manchetes publicadas após a deflagração da terceira fase da Operação Transparência, neste 14 de setembro, repercutiram a ação como uma iniciativa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino contra o deputado federal e pastor evangélico Cezinha de Madureira (PL-SP). A operação, no entanto, resulta de uma investigação conduzida pela Polícia Federal (PF) e de medidas judiciais determinadas no âmbito de um processo que tramita no STF, sob relatoria de Dino. 

Cezinha de Madureira é um dos principais alvos da operação, que apura suspeitas de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O Bereia verificou as informações e constatou que é enganosa a forma como parte das publicações apresenta a atuação de Flávio Dino ao personalizar no ministro uma ação decorrente de um processo que tramita institucionalmente no STF. 

O que é a Operação Transparência 3?

A terceira fase da Operação Transparência foi deflagrada pela Polícia Federal para apurar possíveis crimes de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A ação é um desdobramento de uma investigação iniciada em dezembro de 2025 sobre possíveis irregularidades na destinação de emendas parlamentares. Quatro mandados de busca e apreensão, expedidos pelo STF, foram cumpridos no Distrito Federal e em São Paulo.

De acordo com a PF, a investigação aponta que integrantes do grupo teriam negociado com terceiros o pagamento de valores expressivos, condicionados ao resultado de processos judiciais, sob a alegação de que poderiam influenciar decisões. A corporação ressalta que não há elementos que indiquem a participação de integrantes do Poder Judiciário nos fatos apurados.

Entre os alvos está o deputado federal Cezinha de Madureira. Conforme informações da investigação, ele teria utilizado sua proximidade com ministros de tribunais superiores para intermediar interesses de terceiros. A decisão que autorizou a operação foi proferida pelo ministro Flávio Dino, relator do processo no STF. 

Cezinha de Madureira e a investigação

A investigação também envolve as advogadas Valéria Rodrigues Linhares (esta referida nas mídias como esposa do deputado, o que ela nega), e Mariângela Fialek. A apuração investiga uma possível atuação conjunta entre os envolvidos para intermediar interesses de clientes perante tribunais superiores.

A decisão que autorizou a operação cita suspeitas relacionadas à atuação de Cezinha junto a ministros do STF e a contratos de honorários advocatícios. As informações, contudo, integram uma investigação ainda em curso e não representam conclusão sobre a prática dos crimes apurados.

Os valores apreendidos com Valéria Rodrigues

A relação de Valéria Rodrigues Linhares com a investigação ganhou outro elemento antes da deflagração da Operação Transparência 3. Em agosto passado, a Polícia Federal apreendeu R$ 510 mil em espécie que estavam na bagagem da advogada no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. O valor foi localizado durante uma inspeção de segurança antes de um voo para Brasília.

Imagem: Advogada Valéria Rodrigues Linhares e o dinheiro apreendido no aeroporto de Congonhas. Fonte: G1

Na ocasião, a defesa de Valéria Rodrigues afirmou que o dinheiro tinha origem lícita e decorria de sua atividade profissional como advogada. O advogado Daniel Bialski declarou que os valores seriam comprovados e que a defesa solicitaria a devolução da quantia. Porém, não há, até o momento, comprovação pública de que o dinheiro apreendido no aeroporto tenha relação com os fatos investigados na Operação Transparência 3. A apreensão, portanto, deve ser apresentada como um episódio relacionado à advogada, mas não como prova de participação nos crimes investigados.

Valéria Rodrigues não é esposa do deputado  Cezinha de Madureira como se cogita, mas tem vínculos profissionais anteriores com a família dele. Ela foi sócia do filho do deputado em uma rádio em São Paulo e esteve com ele no Ministério das Comunicações em 2024. 

A relação Cezinha de Madureira-Daniel Vorcaro-André Mendonça

As conexões entre Cezinha de Madureira e o ministro do STF André Mendonça também ganharam destaque após a divulgação de mensagens e áudios extraídos do celular do banqueiro preso por golpes no sistema financeiro Daniel Vorcaro. Como o Bereia mostrou em matéria recente, o deputado evangélico articulou um encontro entre o empresário e Mendonça em local privado.

O encontro ocorreu em 14 de março de 2025, no Instituto Iter, em São Paulo, de propriedade do ministro do STF, e durou cerca de duas horas. Mendonça confirmou o encontro e afirmou que se limitou a ouvir Vorcaro e que o assunto tratado foi uma ação relacionada ao pagamento de precatórios (objeto de interesse do banqueiro,  como Bereia informou).

As mensagens divulgadas indicam que Cezinha de Madureira organizou a reunião. O deputado teria tratado previamente com Mendonça sobre os problemas enfrentados pelo Banco Master com o Banco Central. Essas informações integram o contexto que colocou o deputado evangélico no centro das atenções após a deflagração da Operação Transparência 3.

O cuidado com a expressão “Dino mira” 

Nas informações sobre a Operação da PF este 14 de setembro,  algumas manchetes de veículos jornalísticos utilizaram expressões como “Dino mira”. Embora seja correto afirmar que o ministro do STF Flávio Dino foi quem autorizou as medidas judiciais, a formulação pode induzir o leitor a interpretar a operação como uma iniciativa pessoal do magistrado contra o deputado ou contra o ministro André Mendonça,  com quem ele se relaciona.

Imagens: Capturas de tela das manchetes. Fonte: Estado de Minas, Platô Br e Congresso em foco.

Em matéria publicada pelo site Metrópoles, por exemplo, o redator da matéria afirma que “a operação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, adversário de Mendonça no STF”. A informação sobre a autorização é factual, pois o ministro Flávio Dino é relator do processo sobre irregularidades na concessão de emendas de deputados, objeto da operação, que tem Cezinha de Madureira envolvido. No entanto, a caracterização de Dino como “adversário de Mendonça” introduz uma perspectiva de conflito pessoal entre os ministros que não explica, por si só, a natureza da medida. 

Dino é ministro do STF e relator do processo. A PF executou mandados expedidos pela Corte no âmbito da investigação. Portanto, embora seja correto informar que Dino autorizou a operação, é impreciso apresentar a ação como uma iniciativa pessoal do ministro contra o deputado, sem que haja qualquer elemento factual que justifique isto.

A distinção é relevante porque o relator exerce sua função dentro de um processo judicial submetido ao STF. Assim, essas expressões deslocam para a figura individual do ministro uma decisão tomada no exercício de uma competência institucional.

***

Bereia verificou que é verdadeira a informação de que Cezinha de Madureira é alvo da Operação Transparência 3 e de que Flávio Dino autorizou as medidas. O caráter enganoso está em apresentar a operação como uma ação pessoal do ministro contra o deputado ou contra pessoas do seu relacionamento. 

As medidas foram determinadas pelo STF, no âmbito de processo sob relatoria de Dino, e integram investigação conduzida pela Polícia Federal. Assim, ao informar sobre o caso, é importante diferenciar a atuação individual do relator no processo da atuação institucional do Supremo Tribunal Federal. A utilização de expressões que atribuem ao ministro, pessoalmente, a iniciativa de “mirar” o deputado pode produzir uma compreensão distorcida sobre a natureza da decisão judicial.

Referências:

GOV. https://www.gov.br/pf/pt-br/assuntos/noticias/2026/09/pf-deflagra-a-operacao-transparencia-3-para-apurar-trafico-de-influencia-junto-a-tribunais-superiores. Acesso em 14 de setembro de 2026. 

Uol. https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/09/14/pf-operacao-transparencia-3.ghtm. Acesso em 14 de setembro de 2026. 

G1. https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/09/14/advogada-valeria-rodrigues-linhares-e-alvo-de-operacao-da-pf-sobre-suspeita-de-trafico-de-influencia.ghtml. Acesso em 14 de setembro de 2026. 

G1. https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/08/26/pf-apreende-r-510-mil-em-bagagem-de-mao-de-passageira-no-aeroporto-de-congonhas.ghtml. Acesso em 14 de setembro de 2026.

Influenciador dissemina notícias enganosas com pânico em vídeo sobre a reforma tributária

Circula nas mídias digitais um vídeo produzido pelo criador de conteúdo Alexandre Winkler no canal Fonte da Fortuna, intitulado “A reforma tributária vai fazer uma crueldade com os brasileiros”.

Imagem: reprodução/Youtube

No vídeo, o youtuber discute sete mudanças que classifica como absurdos e que entram em vigor em 2027 e que, segundo ele, na prática, serão responsáveis por diminuir a liberdade dos cidadãos brasileiros e aumentar a carga de impostos de forma geral.

Ao longo do vídeo, ele afirma sete mudanças na estrutura tributária brasileira: 1) o Microempreendedor Individual (MEI) será obrigado a emitir nota fiscal para qualquer cliente; 2) profissionais liberais terão que abrir um “CNPJ técnico”; 3) escolas, academias e salões ficarão mais caros; 4) o governo passará a controlar até os imóveis das pessoas; 5) o imposto será descontado automaticamente assim que uma nota for emitida; 6) marketplaces como Shopee e Mercado Livre vão denunciar vendedores que não emitem nota fiscal; e 7) o Brasil terá o maior Imposto sobre Valor Agregado (IVA) do mundo, com alíquota de aproximadamente 28%.

Alexandre Winkler é advogado, educador financeiro e analista de investimentos com certificação Certificado Nacional do Profissional de Investimentos (CNPI). Atualmente, seu canal no YouTube, Fonte da Fortuna, é um dos maiores canais de investimento e finanças do Brasil, com mais de 1 milhão de seguidores e mil vídeos publicados na plataforma. Além da produção de conteúdos para as mídias sociais, o criador divulga e vende cursos de investimentos, nos quais ensina a montar a “Carteira da Fortuna”, uma carteira recomendada de longo prazo focada em alcançar a liberdade financeira com aportes acessíveis, como R$ 350 por mês.

O vídeo, publicado em 9 de setembro passado, cerca de um mês antes das eleições presidenciais, reúne diversas afirmações sobre a reforma tributária e generaliza que as mudanças ocorrerão de forma igualitária para todos os cidadãos e retiram direitos das pessoas. 

Bereia apurou o que está previsto na legislação para verificar o que, de fato, muda a partir de 2027.

O MEI vai precisar emitir nota fiscal para pessoa física? 

A primeira afirmação de Winkler no vídeo é a de que, a partir de 1º de janeiro de 2027, a obrigação de emissão de documento fiscal pelo microempreendedor individual (MEI) será ampliada, passando a alcançar tanto as vendas de mercadorias quanto as prestações de serviços. A mudança está relacionada à adequação do Simples Nacional à Reforma Tributária do Consumo e foi regulamentada pela Resolução do Comitê Gestor do Simples Nacional (CGSN) nº 190/2026. A própria Receita Federal informa que a nova regra estabelece a emissão de documento fiscal nas vendas de mercadorias e nas prestações de serviços realizadas pelo MEI.

Na prática, porém, não se trata simplesmente de dizer, de forma a criar pânico, que o MEI passará a emitir uma “nota fiscal para todas as vendas” da mesma maneira. A regulamentação diferencia os documentos conforme o tipo de operação. Para as prestações de serviços, continuará sendo utilizada a Nota Fiscal de Serviço Eletrônica (NFS-e) de padrão nacional, emitida gratuitamente. Já nas operações com mercadorias e em determinadas prestações de transporte, a previsão é de utilização preferencial e gratuita da Nota Fiscal Fácil (NFF).

Por isso, a afirmação de que o MEI terá de emitir nota em “todas as vendas” pode ser considerada uma simplificação da regra. O ponto central, contudo, é verdadeiro: a partir de 2027, haverá uma ampliação da exigência de emissão de documentos fiscais pelo MEI, incluindo operações com mercadorias e prestações de serviços. A mudança exige atenção dos microempreendedores, especialmente porque envolve procedimentos diferentes de acordo com a atividade exercida e o tipo de operação realizada.

Existe um “CNPJ técnico” obrigatório para quem ganha mais de R$ 40.500 por ano?

A segunda afirmação de Winkler é a de que profissionais que ultrapassarem R$ 40.500 de faturamento anual, como médicos, dentistas, advogados, personal trainers, fisioterapeutas e outros prestadores de serviços, seriam obrigados a abrir um chamado “CNPJ técnico” para poder emitir notas fiscais e, a partir disso, pagar os novos tributos da Reforma Tributária, como a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS).

Há, de fato, uma mudança prevista para 2027, mas com ressalvas. A Receita Federal informou que, a partir de 1º de janeiro de 2027, pessoas físicas que se enquadrarem como contribuintes ou responsáveis tributários pela CBS deverão estar inscritas no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) e estarão sujeitas às obrigações relacionadas à emissão de documentos fiscais. A mesma regra alcança produtores rurais pessoas físicas enquadrados na regulamentação da CBS. A mudança foi formalizada pelo Decreto nº 13.075, de 21 de julho de 2026, que adiou para 2027 o início dessas obrigações.

Isso, porém, não significa que toda pessoa que ultrapassar R$ 40.500 por ano terá de abrir uma empresa ou deixar de atuar como pessoa física. O chamado “CNPJ técnico” é uma maneira informal de se referir a esse novo cadastro. A própria Receita explica que está sendo desenvolvida uma solução simplificada para a inscrição de pessoas físicas no CNPJ, em modelo semelhante ao utilizado atualmente pelo Microempreendedor Individual (MEI). Ou seja, a existência de um número de CNPJ para fins cadastrais e fiscais não significa que o profissional tenha constituído uma pessoa jurídica ou aberto uma empresa.

Além disso, o site da Receita Federal aponta que o valor de R$ 40.500 corresponde ao limite associado ao conceito de nanoempreendedor, estabelecido em valor equivalente a 50% do limite anual de faturamento do MEI. Abaixo desse patamar, determinadas atividades podem permanecer fora do campo de incidência dos novos tributos sobre o consumo, conforme as regras específicas da reforma.

Assim, ultrapassar R$ 40.500 não significa automaticamente “abrir um CNPJ e pagar 27% de imposto”. O que pode ocorrer é que a pessoa física passe a se enquadrar como contribuinte dos novos tributos e, por isso, fique sujeita às obrigações cadastrais e fiscais previstas na regulamentação. Também é incorreto afirmar que todos os profissionais nessa situação estarão sujeitos a uma alíquota de 27%, uma vez que a alíquota padrão da CBS e do IBS não deve ser aplicada de maneira uniforme a todas as atividades, porque a Reforma Tributária estabeleceu diferentes tratamentos para determinados setores.

Entre as atividades beneficiadas estão serviços de saúde e educação, que terão redução de 60% nas alíquotas. Para um grupo de profissões regulamentadas, também foi prevista redução de 30%. Portanto, a carga tributária efetiva dependerá da atividade exercida, do enquadramento do contribuinte e das regras específicas aplicáveis a cada serviço.

Portanto, a afirmação de que “quem ganhar mais de R$ 40.500 terá que abrir um CNPJ técnico e pagar 27% de imposto” é uma simplificação de regras mais complexas com o objetivo de criar pânico. 

Existe, sim, uma nova obrigação cadastral prevista para determinadas pessoas físicas a partir de 2027, inclusive com inscrição no CNPJ e emissão de documentos fiscais. Mas isso não equivale necessariamente à abertura de uma empresa, e a ultrapassagem do limite de R$ 40.500 não significa, por si só, que o profissional passará a pagar uma alíquota de 27%.

Os serviços vão ficar mais caros? Escola, academia, salão, oficina…

No terceiro ponto apresentado, Winkler mostra na tela um print da reportagem “Setor de serviços terá alta generalizada de impostos com a reforma tributária”, publicada pela Federação Nacional das Empresas de Serviços Contábeis e das Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas(Fenacon),  em abril de 2025. O youtuber afirma que serviços como escolas, academias, salões de beleza, oficinas, pet shops, contadores, advogados e fisioterapeutas, entre outros, ficarão mais caros com a reforma tributária.

A publicação da Fenacon, de fato, aborda a possibilidade de aumento da carga tributária para parte do setor de serviços. O texto cita, por exemplo, um estudo do Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis e das Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas (Sescon)-SP segundo o qual escritórios de contabilidade enquadrados como Sociedade Uniprofissional (SUP) poderiam ter aumento superior a 300% na carga tributária. Também menciona uma projeção de aumento de 71% para empresas de contabilidade no lucro presumido que recolhem 5% de ISS.

O problema está em transformar essas projeções, que dependem do tipo de atividade e do regime tributário da empresa, em uma afirmação de que todos os serviços ficarão mais caros automaticamente para criar pânico no público,  especialmente em tempos eleitorais. 

A reforma tributária cria o IBS e a CBS, que substituirão gradualmente tributos atuais sobre o consumo. O novo sistema também modifica a lógica de aproveitamento de créditos tributários. Por isso, o impacto para cada empresa dependerá de fatores como o regime tributário, a quantidade de insumos utilizados, a possibilidade de geração e aproveitamento de créditos e o tratamento específico dado à atividade.

A própria reportagem da Fenacon explica que setores intensivos em mão de obra podem ser mais afetados porque têm menos insumos que geram créditos tributários. Segundo o estudo citado na publicação, quanto menor o volume de insumos utilizado pela empresa, maior pode ser o aumento da carga tributária. O levantamento aponta, por exemplo, impactos maiores para determinados serviços de limpeza e segurança, enquanto atividades com maior utilização de insumos, como o transporte, teriam impacto menor.

Isso, porém, não permite concluir,  como diz o youtuber, que o preço de todos os serviços necessariamente subirá na mesma proporção do eventual aumento de impostos. A carga tributária é apenas um dos componentes da formação de preços. Empresas podem absorver parte do aumento reduzindo margens, repassar parte ou todo o custo para os consumidores, ou ainda ter impactos diferentes conforme sua estrutura de créditos e seu enquadramento tributário.

Além disso, a legislação prevê tratamentos diferenciados para determinadas atividades. Serviços de saúde e educação, por exemplo, estão entre os que receberam redução de 60% nas alíquotas de referência do IBS e da CBS. Atividades desportivas também possuem tratamento tributário diferenciado, com redução de 60% das alíquotas, desde que atendidos os critérios previstos na legislação.

Também é importante diferenciar aumento da carga tributária de aumento de preços. Uma empresa pode ter sua carga de impostos elevada, mas isso não significa que o preço do serviço necessariamente aumentará na mesma proporção. Da mesma forma, uma empresa que tenha redução de carga não é obrigada a reduzir seus preços.

O governo vai fiscalizar quem tem mais de três imóveis?

No quarto ponto analisado, Winkler discute como a reforma tributária vai impedir que pessoas que não pagavam imposto sobre aluguel agora tenham de realizar o pagamento dos tributos previstos. Segundo ele, a mudança criaria um cadastro único de imóveis, integrado entre todos os níveis de governo, e não será possível “esconder mais nada”, como afirma no vídeo. Além disso, segundo o criador de conteúdo, quem tiver mais de três imóveis alugados e receber mais de R$ 240 mil por ano com aluguéis, seria obrigado a pagar o imposto e abrir um CNPJ para o registro. Alguns imóveis e locações de curta temporada teriam desconto, segundo ele.

Na prática, de acordo com o texto “Reforma tributária muda regra dos aluguéis de pessoa física”, publicado pela Fenacon, a fiscalização sobre as operações imobiliárias deve, de fato, ficar mais integrada com a Reforma Tributária, com o uso de mecanismos de cruzamento de informações sobre imóveis, contratos de locação e rendimentos declarados. 

Além disso, quem possui mais de três imóveis e recebe mais de R$ 240 mil por ano em aluguéis será, de fato, automaticamente obrigado a pagar IBS e CBS sobre esses aluguéis. A Lei Complementar nº 214/2025 estabelece critérios específicos para que a pessoa física seja enquadrada como contribuinte desses tributos nas operações de locação.

Em uma das hipóteses, é necessário que o proprietário tenha mais de três imóveis distintos alugados e, simultaneamente, tenha obtido receita bruta de aluguel superior a R$ 240 mil no ano-calendário anterior. Ou seja, não basta simplesmente ultrapassar determinado número de imóveis: os critérios de quantidade de imóveis e de receita precisam ser analisados em conjunto.

Há ainda outra hipótese prevista na legislação: a pessoa física pode ser alcançada pela tributação quando a receita de aluguel ultrapassar R$ 288 mil no próprio ano-calendário, independentemente da quantidade de imóveis locados.

A reforma também prevê tratamento específico para as operações de locação. No caso de imóveis residenciais, há redução de 70% na base de cálculo do IBS e da CBS, além de um redutor social de R$ 600 por imóvel residencial locado. Por isso, não se pode simplesmente aplicar a alíquota geral do IVA sobre o valor integral do aluguel para estimar quanto o proprietário pagará.

O split payment (pagamento separado) desconta o imposto assim que a nota é emitida?

No quinto ponto analisado, Winkler discute o split payment. Segundo ele, assim que uma nota fiscal é emitida, o valor correspondente aos impostos na compra já seria separado encaminhado ao governo, o que poderia prejudicar o fluxo de caixa das pequenas empresas.

A afirmação, porém, mistura dois momentos diferentes da operação: a emissão da nota fiscal e a liquidação financeira do pagamento. O split payment é o mecanismo pelo qual, no momento em que uma transação é efetivamente paga e liquidada por meio de determinados instrumentos de pagamento eletrônico, o valor correspondente ao IBS e à CBS é separado e recolhido aos respectivos órgãos. É o que estabelece o art. 31 da legislação que regulamenta o mecanismo. Portanto, a simples emissão da nota fiscal não é, por si só, o gatilho para o recolhimento automático dos tributos pelo split payment.

O funcionamento previsto é semelhante a uma divisão do pagamento: quando o cliente realiza o pagamento, o sistema identifica e separa a parcela correspondente aos tributos e a encaminha ao Comitê Gestor do IBS e à Receita Federal, enquanto o restante segue para o fornecedor. A legislação também prevê um procedimento simplificado, no art. 34, para situações em que não seja possível identificar com precisão, no momento da liquidação financeira, o valor exato dos tributos. Nesse caso, poderá ser aplicado um percentual preestabelecido sobre o valor da operação.

Também é incorreto afirmar que o split payment obrigatório começará de forma geral em 1º de janeiro de 2027. A legislação prevê uma implementação gradual do mecanismo. O art. 35 determina que o Poder Executivo da União e o Comitê Gestor do IBS desenvolvam e implementem o sistema, e estabelece que sua entrada em funcionamento ocorrerá de forma simultânea, inicialmente, para operações com adquirentes que não sejam contribuintes do IBS e da CBS no regime regular, nos principais instrumentos de pagamento eletrônico utilizados no varejo. O mesmo artigo determina que ato conjunto do Comitê Gestor do IBS e da Receita Federal estabeleça a implementação gradual e possa definir situações em que a adoção será facultativa.

Assim, não procede a ideia de que, a partir do primeiro dia de 2027, toda nota fiscal emitida por uma empresa provocará automaticamente o desconto e o envio do imposto ao governo. O split payment está relacionado à liquidação financeira da operação, e sua adoção será feita de maneira gradual, conforme as regras e etapas definidas para sua implementação.

Os mercados digitais (marketplaces) vão atuar como fiscalizadores do governo?

No sexto ponto, Winkler afirma que Shopee, Mercado Livre e outros marketplaces serão uma espécie de “X9” do governo, porque vendedores que comercializarem mercadorias nas plataformas sem emitir nota fiscal seriam denunciados pelas próprias empresas. Segundo ele, isso deixaria esses profissionais “ferrados”. A expressão utilizada no vídeo tem forte apelo ao pânico, mas não descreve com precisão o que está previsto na legislação.

O art. 22 da Lei Complementar nº 214/2025, com redação dada pela Lei Complementar nº 227/2026, estabelece que as plataformas digitais, inclusive aquelas domiciliadas no exterior, podem ser responsáveis pelo pagamento do IBS e da CBS relativos às operações realizadas por seu intermédio, nas hipóteses previstas na legislação. A norma também define como plataforma digital aquela que atua como intermediária entre fornecedores e adquirentes e controla pelo menos um dos elementos essenciais da operação, como cobrança, pagamento, definição dos termos e condições ou entrega.

Além disso, o inciso 5º do mesmo artigo determina que as plataformas digitais deverão apresentar ao Comitê Gestor do IBS e à Receita Federal, na forma do regulamento, informações sobre as operações e importações realizadas por seu intermédio, inclusive com a identificação do fornecedor, ainda que ele não seja contribuinte.

Portanto, haverá, de fato, uma obrigação legal de fornecer informações ao Fisco, o que amplia a rastreabilidade das operações realizadas nos marketplaces. Também existem situações específicas em que a plataforma poderá assumir responsabilidade pelo recolhimento dos tributos, conforme os critérios estabelecidos pela legislação.

No entanto, isso não significa que a lei transforme Shopee, Mercado Livre e outras plataformas em uma espécie de fiscal encarregado de denunciar vendedores que não emitirem nota fiscal. A legislação estabelece uma obrigação de prestar informações ao Fisco e prevê hipóteses de responsabilidade tributária da plataforma; chamar esse procedimento de “denúncia” ou dizer que os vendedores serão simplesmente “entregues” pelas empresas é uma interpretação sensacionalista que extrapola o que o texto legal determina.

O Brasil terá um Imposto sobre Valor Agregado de 27,9%?

Por fim, no sétimo ponto, Winkler afirma que o Brasil terá o maior Imposto sobre Valor Agregado (IVA) do mundo, com uma alíquota de aproximadamente 28%. Ele também menciona que o secretário da Receita Federal teria considerado esse percentual perigoso e afirma que a alíquota só seria divulgada após as eleições presidenciais.

A origem do número de 27,91% é real, mas a forma como ele é apresentada no vídeo precisa de contexto. Em 29 de julho de 2026, o Comitê Gestor do IBS (CGIBS), por meio da Resolução nº 14/2026, publicou uma projeção de alíquotas de referência de 18,7% para o IBS e 9,21% para a CBS, que somadas chegam a 27,91%.

Esse percentual, porém, não representa a alíquota definitiva do novo IVA nem significa que todos os brasileiros pagarão 27,91% sobre suas compras ou serviços. A estimativa foi utilizada pelo CGIBS para projetar a arrecadação do IBS em 2027 e subsidiar o orçamento do próprio comitê. Portanto, trata-se de uma referência para fins de projeção, e não da definição final da tributação.

A própria legislação também estabelece um mecanismo de revisão caso a soma das alíquotas de referência ultrapasse 26,5%. O art. 349, § 11, da Lei Complementar nº 214/2025 determina que, nessa situação, o Poder Executivo da União deverá encaminhar ao Congresso Nacional um projeto de lei complementar propondo medidas para reduzir o percentual a um patamar igual ou inferior a 26,5%.

Além disso, a alíquota definitiva não é estabelecida pelo CGIBS. A legislação atribui ao Senado Federal a fixação das alíquotas de referência por resolução, dentro do processo previsto para a implementação do novo sistema tributário.

Também é necessário diferenciar a alíquota de referência da carga efetivamente suportada por cada contribuinte. A reforma prevê tratamentos tributários diferenciados para diversos bens e serviços, incluindo reduções de 30% e 60% nas alíquotas e hipóteses de alíquota zero, como determinados itens da cesta básica.

Assim, a afirmação de que existe uma projeção oficial de 27,91% é verdadeira. O problema está em apresentar esse número como se já fosse a alíquota definitiva do IVA que será paga por todos os brasileiros. Até o momento da publicação da resolução, 27,91% era uma estimativa de referência, e não uma alíquota final. Também não se pode afirmar, apenas com base nessa resolução, que o Brasil terá definitivamente o maior IVA do mundo.

Na checagem do Bereia, a informação foi distorcida para criar pânico.  O percentual de 27,91% consta de uma projeção oficial do CGIBS, é verdade, mas não corresponde à alíquota definitiva nem à carga tributária que necessariamente será paga por todos os consumidores.

***

Bereia classifica o vídeo de Alexandre Winkler, no canal Fonte da Fortuna, como enganoso. Ele combina informações verdadeiras com números e prazos distorcidos que, em conjunto, exageram o impacto real da reforma tributária no cotidiano das pessoas, com a explícita intenção de atrair público com pânico sobre paga6de novos impostos.

O vídeo acerta ao apontar mudanças relevantes: o MEI terá novas obrigações de emissão de nota fiscal, haverá maior integração e fiscalização das operações imobiliárias, os marketplaces terão novas obrigações de informação, e a reforma pode, de fato, resultar em uma alíquota padrão de IVA elevada. 

O youtuber desinforma, no entanto, em detalhes que alteram o sentido das mudanças: o critério para fiscalização de imóveis é de mais de três unidades locadas, e não de todos os proprietários; o split payment não ocorre no momento da emissão da nota; os 27,9% são uma estimativa, não uma alíquota definitiva; e não há previsão legal de que escola, academia, salão e oficina fiquem automaticamente mais caros.

Este tipo de conteúdo pode ser considerado um caça-cliques, que chama atenção da audiência com sensacionalismo e apelo ao pânico. É também desinformação que busca influenciar em temas de economia que são destaque no processo eleitoral e muito usados em campanha.

Antes de compartilhar conteúdos que anunciam mudanças abruptas nos impostos a partir de 2027, o Bereia recomenda verificar o que está de fato previsto na Lei Complementar nº 214/2025 e nas resoluções que a regulamentam, para evitar a disseminação de informações imprecisas sobre a reforma tributária.

Referências de checagem

BRASIL. Lei Complementar nº 214, de 2025. Disponível em: https://legislacao.presidencia.gov.br/atos/?tipo=LCP&numero=214&ano=2025&ato=ce1MTUU1UNZpWTe2. Acesso em: 12 ago. 2026.

BRASIL. Decreto que trata da inscrição de pessoas físicas contribuintes da CBS no CNPJ. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/2026/decreto-12955-29-abril-2026-799019-publicacaooriginal-179077-pe.html. Acesso em: 12 ago. 2026.

RECEITA FEDERAL. Emissão do CNPJ e de documentos fiscais por pessoas físicas contribuintes da CBS começará em 1º de janeiro de 2027. Disponível em: https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/assuntos/noticias/emissao-do-cnpj-e-de-documentos-fiscais-por-pessoas-fisicas-contribuintes-da-cbs-comecara-em-1o-de-janeiro-de-2027. Acesso em: 12 ago. 2026.

FENACON. Setor de serviços terá alta generalizada de impostos com a reforma tributária. Disponível em: https://fenacon.org.br/reforma-tributaria/setor-de-servicos-tera-alta-generalizada-de-impostos-com-a-reforma-tributaria/. Acesso em: 12 ago. 2026.

FENACON. Reforma tributária muda regra dos aluguéis de pessoa física. Disponível em: https://fenacon.org.br/reforma-tributaria/reforma-tributaria-muda-regra-dos-alugueis-de-pessoa-fisica/. Acesso em: 12 ago. 2026.

COMITÊ GESTOR DO IBS (CGIBS). Resolução CGIBS nº 14, de 29 de julho de 2026 proposta de percentual do IBS para 2027. Disponível em: https://www.cgibs.gov.br/upload/arquivos/202607/31144942-resoluc-ao-cgibs-n-14-de-29-de-julho-de-2026-proposta-percentual-ibs-cgibs-2027.pdf. Acesso em: 12 ago. 2026.

7 de Setembro: líderes evangélicos e candidatos se unem em comícios e cultos marcados por desinformação

O 7 de Setembro de 2026 foi marcado não apenas por manifestações políticas nas ruas, mas também pela presença ostensiva de candidatos, mandatários e lideranças religiosas em templos e atos públicos marcados pela disputa eleitoral. Em diferentes contextos, a data foi usada como palco para discursos de teor político-eleitoral, apelos religiosos em favor de candidaturas e circulação de conteúdos enganosos ou falsos.

Em ano de eleição, a associação entre religião e política voltou a aparecer de forma explícita em cultos, mobilizações e publicações nas redes, o que reforça um padrão já observado em pleitos anteriores: o uso da autoridade religiosa, da linguagem da fé e de símbolos cristãos como estratégia política. Ao lado disso, conteúdos desinformativos também circularam para mobilizar fiéis, alimentar antagonismos e reforçar discursos de perseguição, corrupção e guerra moral.

A fronteira entre prática religiosa, campanha política e desinformação foi tensionada ao longo da data cívica e ajudam a compreender o modo como a fé tem sido mobilizada como linguagem de convencimento, de guerra simbólica e de disputa por poder.

Púlpito como palanque: candidatos do PL com o vídeo antigo de André Mendonça na Igreja Mundial

Um dos episódios mais emblemáticos do 7 de Setembro ocorreu em culto liderado pelo apóstolo da Igreja Mundial do Poder de Deus Valdemiro Santiago. No encontro, estiveram presentes o candidato à Presidência da República senador Flávio Bolsonaro (PL) e o candidato à reeleição para o governo de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos), além de outros nomes ligados à direita política, como os candidatos ao Senado por São Paulo Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL). 

O evento reuniu oração, discurso político e gestos de apoio público em um ambiente religioso, com apropriação do templo como espaço de projeção eleitoral.

Imagem: Publicação no perfil oficial da Igreja Mundial do Poder de Deus no Facebook, publicado em 7 de set 2026. Acesso em 7 de set 2026 

Chamaram mais atenção no culto, porém, a presença do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (Republicanos), que teve o mandato cassado em 2016 e cuja candidatura à Câmara foi barrada pelo TRE-MG poucos dias antes do ato. Também,  a presença do prefeito de Sorocaba Rodrigo Manga, missionário da própria Igreja Mundial e personagem propagadora de desinformação, já citada em diferentes checagens do Bereia. 

Imagem: Foto no perfil oficial da Igreja Mundial do Poder de Deus no Facebook. Eduardo Cunha ao lado do Governador Tarcísio de Freitas (Republicanos/SP), publicada em 7 de set 2026. Acesso em 7 de set 2026.

Imagem: Foto publicada em perfil oficial da Igreja Mundial do Poder de Deus no Facebook. Prefeito Rodrigo Manga atrás de Flávio Bolsonaro. Publicada em 7 de set 2026. Acesso em 7 de set 2026

Recentemente, Rodrigo Manga passou 145 dias afastado da Prefeitura de Sorocaba por decisão judicial no âmbito da Operação Copia e Cola, da Polícia Federal, que investiga suspeitas de desvios de recursos públicos em contratos da área da saúde. A PF apontou o prefeito como suposto líder e principal beneficiário do grupo investigado. 

Em 31 de março, o ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, autorizou Manga a reassumir a prefeitura, por considerar que a manutenção do afastamento por período tão prolongado representava uma intervenção excessiva na administração municipal. A decisão não significou absolvição das acusações ou encerramento das investigações. Em maio, a Segunda Turma do STF referendou por unanimidade a suspensão da medida cautelar que o mantinha afastado.

Poucos meses depois, Manga viveu nova crise, desta vez partidária. Em agosto passado, o político foi expulso do Republicanos, legenda do governador Tarcísio de Freitas, por decisão unânime do Conselho de Ética nacional. O motivo formal não foram as investigações criminais, mas o apoio público de Manga à candidatura da esposa, Sirlange Maganhato,  deputada federal pelo União Brasil. O comportamento foi considerado pelo partido uma violação aos deveres de lealdade e fidelidade partidárias. Mesmo depois da expulsão, Manga afirmou que continuaria apoiando Tarcísio de Freitas.

É neste contexto que Rodrigo Manga reaparece, no 7 de Setembro, ao lado de Freitas, Flávio Bolsonaro e outras figuras políticas no púlpito da Igreja Mundial. A cena reúne, portanto, não apenas um prefeito identificado com a denominação de Valdemiro Santiago, mas um político recentemente afastado do cargo, denunciado pelo MPF e expulso do partido do governador que estava ao seu lado no culto.

Depois de apresentar aos fiéis o testemunho de um homem que atribuía à fé sua recuperação de um câncer, o apóstolo Valdemiro Santiago passa a orar por Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. Simbolicamente, o ambiente sacralizado denota a realização de impossíveis.


Imagem: Perfil oficial da Igreja Mundial do Poder de Deus no Facebook. Prefeito Rodrigo Manga atrás de Flávio Bolsonaro. Publicado em 7 de set 2026 – Acesso em 7 de set 2026


Nesse ambiente, Santiago afirmou que o país havia testemunhado “maus exemplos” de pessoas que se consideravam “intocáveis” e disse que Deus estaria “se zangando”, colocando cada um “no seu devido lugar”. Em seguida, após um fiel gritar o nome de André Mendonça, Tarcísio de Freitas reagiu positivamente e o líder da Igreja Mundial passou a pedir bênçãos ao ministro do STF, a quem apresentou como alguém que serve a Deus. 

Pouco depois, o apóstolo exibiu aos fiéis um vídeo com pronunciamento de Mendonça e o encorajou a “ir em frente” e “não desistir”. O religioso omitiu que a gravação havia sido feita meses antes, em março, para a comemoração do aniversário da própria denominação, e não especialmente para o culto de 7 de Setembro. Ao ser apresentado como se dialogasse diretamente com o ato do 7 de Setembro, o vídeo ajudou a reforçar a ideia de alinhamento e legitimação religiosa e institucional de uma agenda política específica.

Imagem: Reprodução de matéria do site Uol, publicada em 7 de set 2026. Acesso em 8 de set 2026


Ato na Avenida Paulista

Imagem: Foto em mídias sociais. Boneco inflável representando o ministro André Mendonça, do STF, durante ato na Avenida Paulista. Publicada em 7 set 2026. Acesso em 8 set 2026.

No Dia da Independência foi realizado, em São Paulo, na Avenida Paulista, o comício dos candidatos a presidente, governador do Estado e senadores do Partido Liberal. Sem discussão de projetos para o Brasil, o foco do evento, que reuniu em torno de 28 mil pessoas, segundo levantamento do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), foram críticas a uma parcela do Supremo Tribunal Federal. 

Em cima do carro de som, o pastor presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia fez um apelo direto aos ministros do STF:  “Alexandre de Moraes tem que ser afastado e tomar o impeachment”, afirmou. 

Imagem: Reprodução de publicação no perfil do pastor Silas Malafaia no X, em 7 de set 2026 . Acesso em 7 set 2026

Imagem: Reprodução do perfil do deputado Nikolas Ferreira na plataforma X. Publicação em 7 set 2026. Acesso em 8 set 2026

Também subiu ao palanque o deputado federal evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG),  que reforçou os ataques a Alexandre de Moraes e o apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro. Depois de puxar o coro de “Fora Moraes”, o parlamentar afirmou que o lugar do ministro seria “na cadeia” e associou a eleição presidencial à possibilidade de mudança na composição do STF. O deputado do PL, frequentemente checado em matérias do Bereia, ainda anunciou uma manifestação no Amapá para pressionar o presidente do Senado Davi Alcolumbre a pautar os pedidos de impeachment contra Moraes.

A cenografia do comício também produziu forte simbolismo. Em pleno Dia da Independência, um enorme boneco inflável do presidente dos Estados Unidos Donald Trump foi instalado na Avenida Paulista. O boneco segurava, suspensa em uma das mãos, uma representação do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva  vestido como presidiário. 

Imagem: Reprodução de matéria do jornal O Globo. Acesso em 7 set 2026

A alegoria colocava literalmente o presidente dos Estados Unidos em posição de superioridade sobre o presidente brasileiro, em contraposição aos discursos sobre patriotismo, soberania e defesa do Brasil. 

R R Soares e seus cinco filhos políticos

O missionário lider da Igreja Internacional da Graça R. R. Soares também atuou com esforços para a eleição de seus cinco filhos a cargos públicos neste 2026. O religioso tem rodado os templos de sua denominação pelo Rio de Janeiro e São Paulo, estados pelos quais os herdeiros estão concorrendo. David e Daniel Soares disputam vagas em São Paulo, enquanto André, Marcos e Felipe Soares miram cargos no Rio. 

Em agosto, o fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus passou por 30 templos nos dois estados. Até 2 de outubro, estão previstas as visitas a outros 56, sem contar as igrejas onde outros líderes da denominação repetem o mesmo roteiro, de acordo com a agenda disponível no site oficial da denominação evangélica.

A cena se repete em cada cidade. Ao final da pregação de R.R. Soares em cada culto, ele chama os filhos à frente, pede que a congregação ore por eles e fala do caráter de cada um. Depois, aborda pautas caras à direita, como o aborto. Em Jales, no interior paulista, foi além: Soares pediu que o filho Flávio detalhasse o orçamento que destina às cidades da região, diante da igreja reunida. 

Neste 7 de setembro, entretanto, quando chegou o momento de apresentar David e Daniel em outro culto, também no interior paulista, a transmissão ao vivo pelo Facebook e YouTube foi interrompida. Apesar disso, há registros da passagem dos irmãos no perfil do Instagram de uma das igrejas visitadas.

Imagem: Reprodução da página oficial do Missionário RR Soares no Facebook, vídeo publicado em 27 ago 26. Acesso em 8 set 2026

Imagem: Reprodução do story do perfil da Igreja da Graça em São José do Rio Preto (SP)no Instagram. Publicação de 7 set 26. Acesso em 8 set 26. 

A engenharia eleitoral da família reparte os herdeiros para que não briguem pelo mesmo eleitor. Felipe e Marcos Soares concorrem a deputados federal e estadual pelo PSDB no Rio; David Soares a deputado federal pelo Podemos e Daniel Soares a estadual, pelo União em São Paulo; enquanto André Soares tenta a suplência no Senado fluminense pelo Republicanos,  na mesma disputa em que enfrenta o primo, o bispo Marcelo Crivella, da Igreja Universal do Reino de Deus. Some-se a eles a tia Edna Macedo, candidata à reeleição como deputada estadual em São Paulo, e o clã Macedo/Soares chega a sete candidaturas.

O sobrenome de urna revela a origem do capital político que sustenta essas campanhas. R.R. Soares foi sócio de Edir Macedo na fundação da Igreja Universal do Reino de Deus, em 1977, até um racha na liderança separar os dois três anos depois.  Soares saiu e criou a Igreja Internacional da Graça, em 1980, enquanto Macedo manteve a Universal. As duas denominações seguem, hoje, o mesmo padrão de lançar candidaturas políticas dentro do próprio grupo religioso. A Universal já elegeu dezenas de parlamentares ao longo das últimas três décadas, entre eles o próprio Crivella. Os filhos de R.R. Soares estão na política desde 2006, mas essa é a primeira vez que quatro deles usam o “RR” no nome de urna, numa referência direta ao pai. Apenas Daniel Soares preservou o nome de urna usado em pleitos anteriores.

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A desinformação não apareceu neste 7 de Setembro apenas como uma informação falsa facilmente isolável e detectável, mas esteve presente também na recontextualização de conteúdos, na omissão de informações relevantes, em documentos falsamente revestidos de autoridade institucional e em discursos que selecionam partes de fatos reais para construir um discurso político. 

Entre o púlpito e o palanque, fé, campanha eleitoral e crise institucional se encontraram em uma mesma disputa pela interpretação dos acontecimentos e pela definição de quem deveria ser apresentado ao público como aliado, perseguido ou inimigo.

Referências:

Ministério Público Federal https://www.mpf.mp.br/o-mpf/unidades/prr6/noticias/justica-acolhe-pedido-do-mp-eleitoral-e-nega-registro-de-candidatura-de-eduardo-cunha-em-minas-gerais Acesso em 7 set 2026

G1

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2026/02/06/nucleos-copia-e-cola.ghtml Acesso em 7 set 2026

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2026/03/31/stf-suspende-afastamento-de-rodrigo-manga-da-prefeitura-de-sorocaba.ghtml Acesso em 7 set 2026

O Globo

https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/09/07/ato-na-paulista-tem-trump-segurando-boneco-de-lula-bandeiras-dos-eua-e-flavio-bolsonaro-em-segundo-plano.ghtml Acesso em 8 set 2026

UOL https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/08/19/republicanos-expulsa-prefeito-tiktoker-manga-por-infidelidade-partidaria-em-votacao-unanime.htm Acesso em 7 set 2026

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/05/11/por-unanimidade-segunda-turma-do-stf-mantem-prefeito-tiktoker-no-cargo.ghtm Acesso em 7 set 2026

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/09/07/pastor-resgata-video-de-mendonca-e-o-exibe-em-culto-com-flavio-e-tarcisio.ghtm – Acesso em 8 set 2026

VEJA https://veja.abril.com.br/brasil/ao-vivo-flavio-bolsonaro-realiza-ato-de-campanha-na-avenida-paulista   Acesso em 7 set 2026   

Ongrace

https://ongrace.com/buscar-eventos/ Acesso em 08 set 2026

TSE

https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/SUDESTE/RJ/20322002026/190002550290/2026/RJ Acesso em 08 set 2026

https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/SUDESTE/RJ/20322002026/190002550487/2026/RJ Acesso em 08 set 2026

https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/SUDESTE/RJ/20322002026/190002550183/2026/RJ Acesso em 08 set 2026

https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/SUDESTE/SP/20322002026/250002533756/2026/SP Acesso em 08 set 2026

https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/SUDESTE/SP/20322002026/250002544834/2026/SP Acesso em 08 set 2026

Portal gospel divulga falsa associação de queima de imagem de Lula a corporação policial

O portal de notícias Pleno News publicou em seus perfis de mídias sociais um vídeo no qual homens armados e com trajes militares queimam uma bandeira com o rosto do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. A legenda do vídeo diz se tratar de uma ação de policiais do Bope e outros oficiais militares do Rio de Janeiro.

A postagem, no entanto, repercutiu nas mídias sociais um dia depois, neste 7 de setembro, Dia da Independência do Brasil, quando é anualmente realizado o “Grito dos Excluídos” (ato convocado pelas pastorais sociais da Igreja Católica), e data que também se tornou, nos últimos anos, ocasião de mobilização da direita política.

Imagem: Reprodução do perfil do portal Pleno News no Instagram, 7 set 2026

Bereia checou que o vídeo é verdadeiro. De fato, um grupo de homens vestidos com roupas militares de camuflagem, portando armas, realiza um ato de queima de uma bandeira com a imagem do presidente Lula.

Porém, a divulgação da peça pelo Pleno News e por outros perfis em mídias sociais engana ao atribuir o ato de expressão violenta a policiais militares.

Imagem: Reprodução do perfil Pesquisas e Eleições no Instagram, 7 set 2026.

Os veículos enganam ao tirarem as imagens do contexto original. O vídeo foi produzido e publicado originalmente, em 6 de setembro passado, pelo candidato a deputado estadual pelo Democracia Cristã (DC) do Rio de Janeiro Sub Honório. Honório se destaca no episódio, ao lado do candidato a deputado federal Omar Damazio, do mesmo partido

As imagens foram gravadas em uma partida de Airsoft (esporte de simulação de combate que utiliza réplicas de armas de fogo). As vestimentas e as armas usadas durante a partida do esporte de simulação militar fazem parecer que os agentes estavam em serviço durante a manifestação política dos candidatos.

Nas imagens, é possível identificar que as armas usadas pelas pessoas presentes no vídeo não são verdadeiras. Armamentos com pontas coloridas, geralmente vermelhas, são do tipo simulacros ou armas de pressão do tipo airsoft, característica que tem como objetivo justamente diferenciá-las de armas de fogo.

Imagem: Reprodução/Redes sociais

Na divulgação nas redes, os perfis também enganam ao omitirem o envolvimento dos candidatos do partido Democracia Cristã.

Qual é o conteúdo do vídeo?

Em uma espécie de palanque, os candidatos estão lado a lado. Omar Damazio, candidato a uma cadeira na Câmara dos Deputados, em Brasília, segura a bandeira com o rosto do presidente da República, candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva. Já Sub Honório, candidato à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) realiza a queima da bandeira.

Imagem: Reprodução/Redes sociais

Imagem: Reprodução de publicação no perfil de um participante do evento, em 6 de setembro, marcou os perfis dos candidatos e ajudou na identificação da participação de cada um no ato

Gritos de apoio à performance e xingamentos direcionados ao presidente da República são veiculados no vídeo. Em determinados momentos, é possível ver no local dezenas de pessoas também uniformizadas para a partida de Airsoft. Um comentário em um dos perfis que divulgaram o episódio indica que a partida teria acontecido no Rio de Janeiro.

Quem são os candidatos?

Omar Damazio e Sub Honório compõe uma dobradinha e fazem campanha um para o outro no Rio de Janeiro.

Gilmar Honório de Lima, o Sub Honório, é ex-policial do Bope, veterano com 26 anos de experiência na Polícia Militar, de acordo com informações da participação do candidato em um podcast. Além disso, ele se identifica publicamente como cristão. Omar Damasio também tem identidade religiosa cristã e diz ser policial do Bope, com mais de 25 anos dedicados à Polícia Militar.

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Bereia classifica como enganosa a publicação do portal Pleno News e de outros perfis que repercutiram a performance da queima de uma bandeira com o rosto do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva como ação de uma corporação militar. A performance foi realizada por dois militares, de fato, porém candidatos do partido Democracia Cristã em campanha com praticantes do esporte Airsoft que simula manobras militares com réplicas de armas de fogo.

Além de desinformar, ao tirarem as imagens do contexto em que foram produzidas e omitirem se tratar de um ato de campanha eleitoral, as publicações representam apelação e estímulo a violência política, com descarte da ética do debate humanizado e destaque ao chamado à destruição de quem é considerado opositor.
Bereia chama a atenção de leitores e leitoras para rejeitarem conteúdo de campanha eleitoral que estimule violência contra opositores, sejam eles/elas pessoas, partidos, grupos ou populações. O número de WhatsApp (21) 97884-2525 está à disposição para envio de material para checagem nesta direção.

Deputado evangélico usou relatório forjado com logo da PF para se defender de suspeitas no caso Master

O deputado federal evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG) compartilhou um documento falso atribuído à Polícia Federal (PF) que alegava não haver indícios de crime em suas conversas com o banqueiro Daniel Vorcado. Uma apuração realizada pela agência de checagem Aos Fatos mostrou que o conteúdo foi manipulado por inteligência artificial e não corresponde ao padrão usado pela corporação policial, que também negou a autoria do suposto relatório.

O parlamentar divulgou o material em seu perfil nas mídias sociais em setembro, após viralização da reportagem da jornalista do ICL Notícias Juliana Dal Piva revelar conteúdo de áudios investigados pela PF. Neles, Nikolas Ferreira, após mediação do pastor da Igreja Batista da Lagoinha André Valadão, contata o banqueiro Daniel Vorcaro para pedir ajuda com a liberação de “um ativo de minério”, referente a negócios de um ex-assessor.

O documento publicado nas redes pelo deputado do PLfoi desmentido tanto pela própria PF quanto por uma checagem técnica realizada pelo Aos Fatos. À agência de checagem, a PF confirmou que não produziu nem o texto nem a imagem que circulavam como se fossem parte de um documento oficial.

O material, criado por IA, intitulado de “Relatório de Análise de Dados” e associado à Operação Compliance Zero, afirmava que as mensagens trocadas entre Nikolas Ferreira e Daniel Vorcaro tratavam apenas de assuntos pessoais e profissionais. Entre eles apenas pedidos de desculpas sobre críticas públicas do deputado ao Banco Master e um pedido de intermediação de procedimento financeiro parau um ex-assessor.

O falso relatório registrava, ainda, que não haveria elementos suficientes para caracterizar crime ou justificar uma investigação específica contra o parlamentar. As publicações que reproduziram esse conteúdo somaram ao menos 500 mil visualizações no X, antigo Twitter.

Uma análise feita por Aos Fatos com a ferramenta de verificação da OpenAI identificou no arquivo a presença do SynthID, uma marca d’água digital usada para sinalizar conteúdos gerados ou editados por inteligência artificial. A própria OpenAI confirmou que esse sinal indica manipulação por meio de suas ferramentas.

Além da tecnologia usada para forjar o documento, uma série de detalhes expôs a fraude: o emblema da PF que consta no material difere do símbolo oficial, com traços e dobras diferentes nas fitas; o acento da palavra “Polícia”, que no emblema original é substituído por um triângulo, aparece de forma incorreta. 

A numeração dos itens pula de 7 para 7.3, sem passar por 7.1 e 7.2, erros de português, como “contato salvado” no lugar de “contato salvo”,  também indicam que o conteúdo não é oficial.

Além disso, o documento traz elementos incomuns em relatórios oficiais da PF, como emojis. As datas também não fecham: o suposto relatório teria sido produzido no mesmo dia da extração dos dados, 18 de novembro de 2025, data que representa apenas um dia após a prisão de Vorcaro.

A ação fraudulenta de Nikolas Ferreira ocorreu como resposta à reportagem do ICL. O deputado produziu um vídeo, pelo qual negou proximidade com o ex-banqueiro, e depois publicou o laudo falso nos stories do seu perfil no Instagram. A assessoria do parlamentar disse ao Aos Fatos que ele não sabia que o material era falso e que apenas reproduziu conteúdo divulgado originalmente por outro perfil.

Neste 4 de setembro, o deputado admitiu ao portal Metrópoles que compartilhou o conteúdo e que a publicação foi removida. 

“Um perfil, Space Liberdade [amplamente conhecido por publicar conteúdo falso e enganoso] postou e eu tinha compartilhado. Assim que ele deletou a minha postagem também sumiu, entendeu?”, afirmou Nikolas Ferreira.

A legislação brasileira prevê pena de dois a seis anos de reclusão, além de multa, para quem falsifica documentos públicos ou faz uso indevido de símbolos de órgãos oficiais. Porém, a responsabilização depende da identificação de quem de fato produziu e divulgou a montagem.

Bereia seguirá acompanhando o caso.

Vídeos e fotos que mostram padres com duas pernas amputadas são criações por IA para golpes digitais

Circulam nas mídias digitais vídeos, acompanhados de links para doações, em que padres relatam terem tido as pernas amputadas. Há um apelo para adquirir próteses em poucos meses, antes que os músculos dos sacerdotes atrofiem. As produções são falsas e foram geradas por inteligência artificial.

O golpe virtual tem como objetivo atrair fiéis através de um apelo emocional e religioso. O primeiro padre foi identificado pelo jornalista do portal UOL Ranieri Costa após um abrigo de idosos suspeitar do vídeo. Trata-se de um sacerdote que se apresenta como padre Mateus, tem 38 anos e exerceria a função há oito anos. O acidente que o deixou sem os membros inferiores teria ocorrido no caminho para uma missa e atualmente ele realizaria os rituais das missa católica sentado em uma cadeira de rodas.

Imagem: compilado de vídeos feitos por IA.

Em uma narrativa que completa o vídeo e o texto que acompanha o site, o padre Mateus apresenta outros dois personagens: a dona Lourdes, que limpa a Igreja e cuida diariamente dele, e Enzo, um adolescente coroinha que empurra a cadeira do presbítero até o altar e teria sido batizado pelo mesmo.

A história começa a apresentar inconsistências ainda nessa parte, quando aparece uma foto do padre Mateus batizando um bebê, dando a entender que se trata do Enzo. No entanto, o padre exerceria a função há oito anos, quando Enzo, de 14 anos, já era uma criança de seis.

Padre Mateus não é o único no esquema golpista

Com base na matéria do UOL sobre o padre Mateus, Bereia apurou que diversas outras contas nas mídias digitais publicaram vídeos com muitas semelhanças no mesmo período, desde o começo de agosto. Além do padre Mateus, foram identificados os padres Samuel, Antônio, Vicente, Miguel, Rafael, Marcos e Jonas. Todos gerados por inteligência artificial.

Destes, os padres Antônio e Jonas não contam a história da perda das duas pernas. A narrativa é um tumor no pescoço cuja única solução é uma cirurgia de valor não revelado. Nessas versões, o coroinha raspa a cabeça como apoio ao padre.

Os outros sacerdotes, apesar de divergirem nas histórias do porquê perderam as pernas, seguem narrativas semelhantes: falam sobre apresentar a missa sentados e sobre o sonho de conseguirem as próteses. Em alguns casos, um coroinha e uma pessoa de idade também aparecem.

A trajetória do golpe

Todas as publicações identificadas pelo Bereia eram patrocinadas na plataforma Facebook, da empresa Meta. Os beneficiários das doações são os mesmos em quase todos os casos: a empresa Gestão Solidar Digital LTDA, de Florianópolis (SC). Durante a produção desta matéria, o beneficiário da conta do padre Mateus mudou para a empresa A C FILADELFO PEREIRA SERVICOS – ME, de limpeza em prédios e em domicílios, localizada em Barueri (SP).

Em apuração do UOL, o email de contato registrado na Receita Federal da primeira empresa, consta como lemesmagazine@gmail.com. A marca associada ao CNPJ, Lemes Magazine, acumula reclamações por fraudes financeiras. 

Os pagamentos por Pix são destinados a pessoas diversas, mas os CPFs não correspondem aos nomes. A fintech Cartwave, intermediária dos pagamentos, tem reputação “ruim” e apresenta contradições no telefone cadastrado. Oficialmente, o número pertence a uma barbearia em Goiânia. 

Já entre os anunciantes no Facebook, em um dos casos, o CNPJ registrado tem como descrição da atividade econômica principal “Comércio varejista de carnes – açougues”. Outro que o Bereia identificou tem localização registrada nos Estados Unidos, o que dificulta o rastreio.

Como o Bereia checou os vídeos falsos

Os vídeos dos padres acumulam pontos em comum com outros conteúdos golpistas gerados por inteligência artificial, alguns deles já checados pelo Bereia. Em momento algum dos conteúdos, localizações ou nomes das paróquias são mencionados. A ausência dessas informações dificulta a checagem do conteúdo.

Outro ponto é que em nenhum dos casos o valor que precisa ser arrecadado é mencionado. Nas plataformas, uma meta de valor e a porcentagem de arrecadação aparecem, mas não em todas as situações. Os valores começam com cerca de R$ 40 mil e chegam a R$ 90 mil.

Além disso, ao mostrar fotos dos padres, as imagens apresentadas são do clássico estilo de inteligência artificial: cenário genérico e personagens em posições criadas, não naturais/espontâneas.

Fotos: Reprodução

O jornalista e teólogo Felipe Zangari também identificou falhas na sincronia labial das imagens. Já quando Bereia comparou os vídeos, concluiu que os conteúdos apresentam imagens semelhantes. Os padres têm aparência jovem, são brancos com cabelos pretos. Essas pistas corroboram a ideia de que provavelmente os padres foram gerados por uma mesma pessoa ou grupo: os prompts (comandos para ferramentas de inteligência artifical) eram, provavelmente, os mesmos, com pequenas alterações.

Nos casos dos padres Antônio e Jonas, o padrão se repete. No entanto, as personagens são homens brancos carecas.

Fotos: Reprodução

O apelo religioso para convencer

Um ponto em comum em todos os casos analisados é o apelo religioso de maneira emotiva. Os padres retratados reclamam de não poderem realizar a missa de pé, ou segurar os bebês durante o batizado.

O exercício da função dos padres aparece prejudicado, e as personagens, frustradas. Além disso, figuras como coroinhas, fiéis da igreja ou parentes do sacerdote que exercem a caridade são presentes em todos os conteúdos, mesmo que os padres se coloquem como um fardo, o que produz credibilidade.

As próteses e cirurgias aparecem em discursos gradualmente construídos nos vídeos e textos, para comover as pessoas a realizarem doações para que a situação frustrante do padre seja revertida.

***
Bereia alerta leitores e leitoras sobre o apelo religioso por meio do uso da imagem de lideranças religiosas para pedidos de doações que representam golpes. Antes de compartilhar ou atender aos pedidos, verifiquem a autenticidade da imagem ou da ligação da liderança que aparece na publicação com o que está sendo apresentado. Qualquer dúvida, consultem o Bereia por meio do WhatsApp (21) 97884-2525.

Referências

UOL https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2026/09/01/falso-padre-gerado-por-ia-que-desvia-doacoes-via-pix.ghtm acesso 01 Set 2026

Metrópoles 

https://www.metropoles.com/sao-paulo/golpe-do-falso-padre-usa-ia-para-criar-video-e-pedir-dinheiro-pelas-redes acesso 01 Set 2026

Candidato Renan Santos tem restrições na campanha eleitoral por descumprimento de regras e apela a discurso de censura 

O candidato à Presidência da República Renan Santos (Missão), autodeclarado católico, publicou vídeo nas redes digitais no qual afirma ter sofrido “censura” do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A denúncia aconteceu após decisão do ministro do TSE Dias Toffoli, em 30 de agosto passado, ter decidido pela suspensão de uma parte da campanha eleitoral da chapa de Santos. A medida teve como fundamento o descumprimento de uma regra eleitoral que exige a comunicação prévia à Justiça Eleitoral dos canais digitais utilizados na campanha. 

No entanto, dois dias depois, em 1º de setembro, Toffoli reviu parte das restrições e liberou a propaganda nos canais já registrados, além da participação da chapa em debates e do acesso aos recursos do Fundo Eleitoral. Bereia analisou as declarações de Renan Santos e as decisões do TSE e verificou que é enganosa a afirmação de que a medida aplicada em 31 de agosto representava censura ao candidato. 

O conteúdo publicado 

Após a divulgação da primeira decisão, Renan Santos publicou um vídeo em seus perfis de redes digitais no qual afirmou: “esse aqui é provavelmente o último vídeo que você vai ver nas minhas redes sociais”. Na gravação, classificou a decisão como “ilegal” e “persecutória” e mencionou que a medida teria relação com as manifestações que promoveu contra o ministro Dias Toffoli e com as críticas ao envolvimento de autoridades no caso Banco Master. 

Imagem: Renan Santos faz pronunciamento após ter campanha digital suspensa pelo TSE. Fonte: G1

Em outro trecho, Renan Santos questionou a justificativa apresentada pela Justiça Eleitoral e afirmou que suas redes teriam sido suspensas por causa de um “problema técnico” no registro das candidaturas. O candidato também declarou que estaria impedido de realizar praticamente qualquer atividade de campanha e classificou a medida como censura. A afirmação apresenta de forma incompleta o motivo da decisão judicial.

Imagem: Captura da tela do perfil de Renan Santos no Instagram. Fonte: Instagram

Por conta das declarações do candidato do Missão, muita desinformação passou a ser propagada, não só com afirmação à “censura” a Renan Santos, como com divulgação, inclusive por mídias de notícias, que sua candidatura, na totalidade, havia sido suspensa. 

O que, de fato, aconteceu?

A decisão de Dias Toffoli foi proferida em 30 de agosto pelo ministro Dias Toffoli, relator do registro de candidatura de Renan Santos. Conforme o documento, o Requerimento de Registro de Candidatura (RRC) da chapa foi apresentado à Justiça Eleitoral, em 7 de agosto.

A legislação determina que partidos e candidatos informem à Justiça Eleitoral os endereços eletrônicos de sites, blogs, redes digitais, serviços de mensagens e outras aplicações que serão utilizados para propaganda eleitoral, juntamente com o pedido de registro da candidatura. A obrigação está prevista no artigo 57-B da Lei nº 9.504/1997 e é regulamentada por resoluções do TSE. No caso de Renan Santos, 16 perfis digitais foram informados 12 dias após o pedido de registro de candidatura, somente em 19 de agosto, quando a campanha eleitoral já havia sido iniciada (16 de agosto). 

A regra permite que a Justiça Eleitoral identifique quais perfis integram oficialmente a estrutura digital de cada campanha e fiscalize a divulgação de conteúdos durante as eleições. O objetivo é que os algoritmos das plataformas atuem igualmente para todos os candidatos. As plataformas digitais que utilizam sistemas de recomendação automatizada de conteúdo (a indicação de visualizações que aparece nas telas de cada usuário) são obrigadas a excluir da programação desses algoritmos os perfis oficiais de candidatos e partidos, para que a distribuição automática não favoreça artificialmente qualquer candidatura. 

Perfis já existentes que não tenham sido informados no ato do registro da candidatura podem ser informados depois, mas só devem ser utilizados para campanha 48 horas após o cadastramento perante a Justiça Eleitoral.

Para o ministro do TSE, o atraso na comunicação dos perfis não configurava apenas uma falha formal, mas configurou uma estratégia. De acordo com a decisão, a ausência dessas informações poderia permitir que perfis utilizados para propaganda eleitoral fossem recomendados pelas plataformas antes de sua identificação oficial pela Justiça Eleitoral.

No caso analisado, pelo menos um dos perfis informados fora do prazo tinha cerca de 2,4 milhões de seguidores, publicava conteúdo eleitoral e aparecia em sistemas de recomendação da plataforma. Para o relator, a situação poderia proporcionar vantagem indevida à candidatura em relação às concorrentes que haviam cumprido a obrigação dentro do prazo.

Com base nesse entendimento, Toffoli determinou, em caráter cautelar e até nova decisão no processo, a suspensão da propaganda eleitoral da chapa nos endereços digitais que não haviam sido informados tempestivamente à Justiça Eleitoral. A medida também suspendeu os repasses do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) à chapa e sua participação em debates em rádio, televisão, podcasts e outros meios de comunicação. Neste caso, não houve suspensão da campanha mas de uma parte dela.

Além disso, Renan Santos e o Missão deveriam informar, em 24 horas, a data de criação e o início da utilização de cada perfil para propaganda eleitoral e comunicar a existência de eventuais outros canais digitais utilizados pela campanha.

As restrições, contudo, haviam sido determinadas em caráter cautelar e ficaram sujeitas à revisão após o cumprimento das diligências estabelecidas pelo ministro. Esse processo resultou em um novo desdobramento dois dias depois, em 1º de setembro.

Novo desdobramento: TSE libera campanha digital de Renan Santos

Em 1º de setembro, o ministro do TSE determinou a liberação da propaganda eleitoral da chapa de Renan Santos nos sites, blogs, redes digitais, aplicativos de mensagens e demais endereços de internet já registrados no sistema da Justiça Eleitoral. O ministro também autorizou a participação do candidato em debates, entrevistas e sabatinas e liberou o acesso aos recursos do FEFC e a realização de despesas com valores já transferidos.

A revisão ocorreu após a defesa de Renan Santos recorrer da decisão anterior e depois de parte das determinações do TSE ter sido cumprida. Na nova decisão, Toffoli considerou que a finalidade das providências cautelares havia sido parcialmente atendida e estabeleceu prazo de 72 horas para que o Missão informe quais redes digitais e demais páginas utilizadas pela campanha ainda não foram registradas.

A nova determinação, porém, não afastou o entendimento de que houve descumprimento da legislação eleitoral. Toffoli reiterou a obrigação de informar previamente os canais digitais utilizados na campanha e destacou que os 16 perfis de Renan Santos foram comunicados apenas 12 dias depois do registro da candidatura e foram utilizados no período. Os perfis que permanecerem fora do cadastro continuarão excluídos dos sistemas de recomendação de conteúdo das plataformas.

A liberação da campanha também não representa a aprovação definitiva do registro de candidatura. O processo continua sob análise da Justiça Eleitoral, e o ministro advertiu que o descumprimento das diligências determinadas no processo poderá trazer consequências para a candidatura.

Decisão não foi censura

A decisão do TSE não apresenta como fundamento a retirada de conteúdo por causa das opiniões políticas de Renan Santos, nem determina a suspensão de suas redes por críticas ao TSE, ao ministro Dias Toffoli ou a outras autoridades.

O fundamento apresentado no documento é o descumprimento de regras eleitorais relativas à identificação dos canais digitais usados pela campanha. O próprio ministro afirma que as campanhas eleitorais são orientadas pela liberdade de expressão, mas também devem respeitar a isonomia entre candidaturas e a fiscalização da propaganda eleitoral.

Isso não significou que Renan Santos estivesse impedido de realizar qualquer atividade de campanha. A medida restringia a propaganda eleitoral no ambiente digital nos termos estabelecidos pela decisão, além de suspender o acesso da chapa a recursos do FEFC e sua participação em debates. A decisão inicial não estabelecia uma proibição geral de atos presenciais de campanha, como (des)informado por vários perfis e grupos.

Também não havia, no documento com a decisão, determinação que relacionasse a suspensão dos perfis a críticas feitas por Renan Santos ao ministro Dias Toffoli. A alegação do candidato de que a medida ocorreu como retaliação às manifestações que ele teria proferido anteriormente, não encontra sustentação na decisão do TSE.

***

Bereia classifica como enganosa a afirmação de Renan Santos e de apoiadores de que a decisão do TSE de suspender uma parte da campanha eleitoral do candidato à Presidência pelo Missão representou “censura”. Os documentos analisados não apontam como motivo às restrições suas opiniões ou críticas políticas, mas o descumprimento da regra que determina a comunicação dos canais digitais utilizados pela campanha à Justiça Eleitoral. 

Embora a decisão inicial tenha suspendido a propaganda nos perfis não informados tempestivamente, o acesso ao FEFC e a participação em debates, essas medidas foram posteriormente revistas por Dias Toffoli após o cumprimento parcial das determinações estabelecidas em caráter cautelar. A posterior revisão das medidas não sustenta a alegação de que a decisão inicial tenha sido motivada pelas críticas de Renan Santos ao ministro ou por suas posições políticas.

Bereia alerta leitores e leitoras ao uso da acusação de censura e de restrições à liberdade de expressão por pessoas que reagem ao enquadramento de suas ações a leis existentes no país como discurso apelativo a apoios.

Referências:

TSE – Decisão 

https://static.poder360.com.br/uploads/2026/08/Decisao-14-1.pdf. Acesso em 1 set  2026.

Folha de S.Paulo

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/09/toffoli-recua-e-libera-campanha-eleitoral-de-renan-santos-nas-redes.shtml. Acesso em 1 set  2026.

G1

https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/08/31/por-que-os-candidatos-devem-informar-perfis-de-redes-ao-tse-e-por-que-renan-santos-foi-punido.ghtml. https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/08/31/eu-nao-vou-desistir-eu-vou-lutar-na-justica-diz-renan-santos.ghtml. Acesso em 1 set  2026

Poder 360

https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes-2026/entenda-por-que-renan-santos-foi-punido-pelo-tse/. Acesso em 1 set  2026.

TSE – Resolução nº 23.609

https://www.tse.jus.br/legislacao/compilada/res/2019/resolucao-no-23-609-de-18-de-dezembro-de-2019. Acesso em 1 set  2026

Planalto – Lei nº 9.504

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9504.htm. Acesso em 1 set  2026

Consultor Jurídico

https://conjur.com.br/2026-ago-31/toffoli-suspende-redes-sociais-verba-eleitoral-e-debates-de-renan-santos/. Acesso em 1 set  2026

Nem todo alerta é profecia!

Como reconhecer uma teoria conspiratória nestes tempos de eleições (mesmo quando ela chega pela sua comunidade de fé)

Conspirações existem e fazem parte da vida em sociedade, desde as mais famosas no passado, como  Et tu, Brute?, até as contemporâneas em reuniões do mundo corporativo. Toda conspiração requer um grupo de pessoas que secretamente trabalham juntas para fazer algo ilegal ou ofensivo, que geralmente tem como consequências ganhos de poucos e prejuízos de muitos. A história do Brasil é, infelizmente, rica em conluios e conspirações verídicas.

O filósofo Quassim Cassam, em seu livro Conspiracy Theories, separa as teorias conspiratórias das especulações comuns sobre conspirações reais. Para ele, teorias conspiratórias são alegações sobre algum poder oculto responsável por eventos ou situações específicas que, dada a natureza secreta e não falseável, são de difícil justificativa mediante padrões de evidência normalmente reconhecidos. As teorias conspiratórias são implausíveis por design, diz Cassam. É delas que se trata este texto.

As comunidades religiosas têm sido historicamente locais importantes para a articulação de narrativas de conspiração. Há teorias conspiratórias anticatólicas promovidas por protestantes e conteúdo conspiratório antiprotestantes defendidas por católicos. Essa realidade está longe de um Fla-Flu no Cristianismo: há relatos conspiratórios que demonizam as religiões de matriz africana, islâmica e judaica. 

Seja qual for a teoria da conspiração, nos templos elas podem ser credenciadas por autoridades religiosas, convertendo-se em relatos de natureza teológica e até imposição eclesiástica. É por isso que as teorias conspiratórias valem votos.

A retórica conspiratória

As teorias conspiratórias enfatizam a posse de agência e o controle humano do curso da história, e retratam essa mundividência em três premissas: nada acontece por acaso; nada é o que parece; tudo está conectado.

Essa leitura de mundo tem sua própria retórica e se apresenta por meio de três e elementos narrativos, segundo o cientista político Michael Barkun, no livro A culture of conspiracy: um grupo conspiratório, um plano conspiratório e um esforço em prol do sigilo.

Uma teoria da conspiração apresenta seu cartão de visitas tentando identificar quem são os conspiradores. Mas essa é uma atividade paradoxal. Ao passo que eles precisam ser claramente conhecidos a fim de serem combatidos, também devem ser até certo ponto ocultos da opinião pública, dada a natureza secreta dos seus estratagemas. 

Uma solução para esse dilema geralmente é se referir aos conspiradores em termos vagos e/ou abrangentes: “Wall Street”, “Big Pharma”, “judeus”, “comunistas”, “banqueiros”, “o sistema” etc. Mas em época eleitoral vale tudo. Grupos que não pertencem ao conteúdo onspiratório originalmente podem ser associados aos conspiradores, mesmo que essa identificação seja inverossímil. Dessa forma, todo crente evangélico é de extrema direita ou o nazismo alemão é considerado como tendo sido um movimento de esquerda.

O plano conspiratório, segundo elemento narrativo, sempre é revestido de grandiosidade. É, um esquema que impede a descoberta da cura do câncer, um poder oculto que coloca um grupo em risco ou, em nosso caso, uma trama que decidirá o futuro do Brasil

Quanto ao sigilo, é ele que sustenta a lógica irrefutável da teoria da conspiração: uma vez que os conspiradores são tão competentes em esconder evidências e manipular a realidade, logo a ausência de provas sobre a conspiração pode ser tomada como prova incontestável de sua existência.

Cinco perguntas antes de repassar

Tudo isso faz das teorias conspiratórias um gênero, com lógica e gramática próprias. E um gênero se reconhece: a seguir estão cinco perguntas que revelam características de uma teoria da conspiração. 

Primeira

“A explicação óbvia foi descartada em favor de outra, mais extraordinária e sem prova?” As teorias conspiratórias são especulativas, porque se baseiam em conjecturas em vez de evidências sólidas; insólitas porque são contrárias às explicações óbvias e verossímeis dos eventos.

Segunda

“Toda prova contrária vira mais uma prova a favor?” As teorias conspiratórias são autovedantes e não falseáveis: montadas de modo que nada possa refutá-las, tratam toda evidência contrária como parte da conspiração.”

Terceira

“Do outro lado há adversários ou há demônios?” As teorias conspiratórias são maniqueístas, sacralizando aliados e demonizando adversários sob os paradigmas nós versus eles, luz versus trevas.

Quarta

“O problema é um vilão ou é uma estrutura?” As teorias conspiratórias são pessoais: explicam o mundo por decisões de indivíduos e desviam a atenção de questões sociais mais bem compreendidas em termos estruturais e coletivos.

Quinta

E aqui vale uma dobradinha: “Enquanto discuto isso, o que deixo de discutir? Quem ganha voto se eu acreditar nisso?” As teorias conspiratórias são propagandísticas, porque seu objetivo fundamental é promover o avanço de uma agenda político-ideológica.

Nem tudo está conectado

Na cosmovisão conspiratória, nada acontece por acaso, nada é o que parece, tudo está conectado. Essas premissas explicam por que a teoria da conspiração é tão sedutora: ela devolve ordem a um mundo que parece caótico e dá ao fiel a sensação de que enxerga o que os outros não veem. Vale terminar invertendo cada uma delas.

Muita coisa acontece por acaso. O mundo social não é o resultado direto do desígnio de alguns indivíduos ou grupos poderosos, mas produto de complexas relações entre múltiplos atores, organizações e instituições.

Às vezes as coisas são exatamente o que parecem. A explicação óbvia tem seu papel, e desconfiar de tudo não é discernimento, mas é o contrário dele. Porque quem duvida de tudo perde o critério para duvidar de alguma coisa.

E nem tudo está conectado. Examinar é, em boa medida, a arte de separar o que a narrativa juntou às pressas.

É injusto generalizar que todo aquele que compartilha uma teoria conspiratória é tolo ou paranoico. Na  maioria das vezes é alguém tentando dar sentido ao mal e trazer ordem à complexidade e à imprevisibilidade da vida em sociedade. Isso é legítimo, e a fé tem recursos próprios para isso. Aliás,  recursos bem melhores do que uma trama sem prova.

O preço, porém, é cobrado à vista em ano eleitoral. Enquanto se debate o plano oculto, não se discute saneamento, escola, hospital, emprego. A teoria da conspiração é, no fim, uma distração de assuntos mais sérios.

Discernir, aqui, é simples e exigente: verificar antes de encaminhar e aceitar que nem toda pergunta tem resposta secreta. Antes de repassar, examine.

Candidatos do PL e apoiadores usam Deus em publicação enganosa contra Lula

Um vídeo que circula nas redes digitais mostra um corte (de vídeo que tem abordagem mais ampla) de um trecho do discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante comício em Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro para acusar o candidato à reeleição de  afirmar “não acreditar em Deus”. 

O conteúdo foi compartilhado pela deputada federal Bia Kicis (PL-DF), candidata ao Senado Federal, e pelo candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL). O episódio também repercutiu em diferentes veículos de imprensa, que deram tratamentos distintos ao caso. 

O Bereia verificou o corte dos vídeos  constatou que a alegação é enganosa. 

Imagem: reprodução/redes sociais

O contexto da fala

Em 22 de agosto, o candidato do PT à reeleição para a Presidência da República Lula discursou de comício de campanha no Estádio Moça Bonita, em Bangu (bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro). Durante o discurso, o presidente elogiou o governador interino Ricardo Couto e afirmou que, quando a situação do estado parecia perdida, Deus havia colocado um homem para conduzir o processo. 

Ao comentar o cenário político do estado, Lula declarou: “A gente que não acredita em Deus… a gente tem que lembrar de uma coisa: quando tudo parecia perdido aqui no RJ, Deus nos deu um homem chamado Ricardo Couto”. O trecho difundido nas redes termina exatamente nesse ponto, o que cria a impressão de que o presidente se incluiria entre as pessoas que não acreditam em Deus.

A sequência do discurso, no entanto, revela outro sentido. Lula explicou que Ricardo Couto nunca havia sido filiado a partido político nem disputado uma eleição, e atribuiu sua chegada ao governo a uma intervenção divina. Em seguida, afirmou: “Isso é coisa sagrada, é por isso que eu acredito em Deus, porque Deus faz acontecer, na nossa vida, aquilo que não estava previsto acontecer […] De vez em quando, Deus dá uma demonstração da sua existência pra nós”.  

Assim, poucos segundos após o trecho usado nas publicações (minuto 1:53:15 da gravação), o presidente afirma o oposto do que lhe foi atribuído. A frase “a gente que não acredita em Deus” pode ser lida como um lapso de fala ou recurso retórico do uso de um coletivo (a gente) para se referir a outrem, porque o restante do discurso deixa claro o sentido pretendido. Não há, no trecho completo, elementos que sustentem a alegação de que Lula tenha declarado não acreditar em Deus. 

Repercussão nas redes digitais

A fala descontextualizada repercutiu nas redes digitais e foi compartilhada por políticos de direita, entre eles a deputada federal católica e candidata ao Senado Bia Kicis (PL-DF). Em seu canal oficial no YouTube, Kicis publicou um vídeo de 48 segundos intitulado “Em ato no RJ, Lula deixa escapar que não acredita em Deus…”.

Imagem: Captura de tela do vídeo publicado pela deputada Bia Kicis. Fonte: Youtube

No conteúdo, é exibido o corte com pequena e única frase do discurso de Lula em que o presidente afirma: “a gente que não acredita em Deus”. A mesma passagem é reproduzida duas vezes e, em seguida, o vídeo é interrompido. Na sequência, Bia Kicis comenta a declaração e afirma: “É isso, ele fala com todas as letras: nós que não acreditamos em Deus”.

A deputada prossegue dizendo que a fala não surpreende, pois, para ela, “todo comunista é ateu” e Lula “finge que acredita em Deus”, especialmente durante períodos eleitorais. Kicis também relaciona a suposta falta de crença do presidente a posições políticas que atribui a ele, como ser favorável ao aborto, deixar “o povo na miséria” e apoiar “ditadura” e “tirania”.

Dessa forma, a publicação de Bia Kicis repete o trecho que contém a frase “a gente que não acredita em Deus”, mas interrompe a gravação antes da conclusão da fala, o que impede o público a ter acesso à declaração posterior em que Lula afirma acreditar em Deus. Além disso recorre ao “fantasma do comunismo” para acionar pânico em seguidores,  prática que Bereia já checou.

Além da deputada Bia Kicis, o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) também reproduziu a alegação. Em 23 de agosto, o senador publicou um vídeo em sua página oficial do X, para explicar sua ausência no primeiro debate presidencial da eleição de 2026, realizado pela Band.

Na gravação, Flávio afirmou que deseja participar de debates, mas que gostaria de confrontar quem, conforme ele, “está destruindo o Brasil e piorando a sua vida”. Ao mencionar Lula, declarou que queria debater “com quem não acredita em Deus”.

Em seguida, Flávio associou a afirmação ao seu discurso religioso e afirmou: “quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” – uma promessa que infringe o direito à liberdade de crença garantida pela Constituição do país a todas as religiões e a quem não tem religião. A declaração foi feita um dia após o comício de Lula em Bangu, no qual o presidente pronunciou a frase que passou a circular nas redes de forma descontextualizada. 

Imagem: Captura de tela do vídeo publicado peplo deputado Flávio Bolsonaro. Fonte: X 

Portal gospel repercute

A declaração também repercutiu de diferentes formas em portais de notícias. Parte das publicações deu destaque apenas ao trecho “a gente que não acredita em Deus”, enquanto outras reproduziram a fala considerando a sequência, na qual Lula afirma explicitamente: “é por isso que eu acredito em Deus”. A diferença entre os conteúdos evidencia como a seleção de um trecho específico do discurso pode produzir interpretações distintas sobre a declaração. Os exemplos a seguir mostram como o episódio foi apresentado por diferentes veículos. 


Imagens: Capturas de tela de manchetes dos veículos de imprensa sobre a fala de Lula. 

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Na checagem das publicações dos políticos do PL em campanha eleitoral, Bereia verificou que a frase destacada “a gente que não acredita em Deus” foi retirada de um discurso mais amplo, em que o presidente da República, em comício por reeleição, usa a expressão apenas como recurso de fala. Na sequência imediata, ele afirma o contrário: que acredita em Deus e associa a chegada de Ricardo Couto ao governo a uma demonstração divina. 

A edição do vídeo compartilhado pela candidata ao Senado Bia Kicis e a leitura reproduzida pelo candidato à Presidência da Republica Flávio Bolsonaro alteraram o sentido original da declaração. Por isso, a alegação de que o presidente afirmou não acreditar em Deus é enganosa. Ela busca captar a atenção e comprometer a imagem do presidente da República com o público religioso, em especial o de identidade cristã. 

Bereia alerta leitoras e leitores a não acolher informação contida em vídeos muito curtos, críticos a quaisquer figuras públicas, que representem um corte, uma edição de falas mais amplas, que não apresentem todo o pensamento exposto por quem se expressa em público.  Tal prática de comunicação é apelo maldoso e deve ser confrontada.

Referências:

CBN. https://cbn.globo.com/coberturas/eleicoes-2026/noticia/2026/08/22/lula-faz-comicio-no-rio-em-primeiro-grande-ato-de-campanha-no-estado.ghtml. Acesso em 25 de ago de 2026.

Youtube. https://www.youtube.com/live/bjyzXayx-E8?si=w-gdq9YMKjPaYHo0&t=6782. Acesso em 25 de ago de 2026.

Câmara. https://camara.sapienslabs.com.br/deputados/204374?utm_source. Acesso em 25 de ago de 2026.

Band. https://www.band.com.br/politica/eleicoes/2026/flavio-bolsonaro-justifica-ausencia-em-debate-e-mira-confronto-com-lula-202608232234. Acesso em 25 de ago de 2026.

Religião e Poder. https://religiaoepoder.org.br/categoria/glossario. Acesso em 25 de ago de 2026.

Fé contra a desinformação climática é o tema de cartilha publicada pelo Greenfaith com apoio do Bereia

*Com informações do GreenFaith 

Documento produzido em parceria com o GreenFaith apresenta ferramentas para identificar conteúdos enganosos e reforça o papel das comunidades de fé na defesa do meio ambiente

Em um contexto de intensificação da crise climática e crescimento expressivo da circulação de conteúdos desinformativos e negacionistas sobre ela, o Bereia, em parceria com o GreenFaith, apoiou a produção da cartilha Nossa Fé contra a desinformação climática, que oferece ferramentas práticas para identificar, questionar e responder à desinformação a partir de uma linguagem acessível e conectada à realidade de comunidades religiosas. O documento tem como objetivo fortalecer o acesso à informação de qualidade, promover o diálogo entre ciência e espiritualidade e contribuir para o enfrentamento das narrativas que dificultam a defesa do meio ambiente. 

O material demonstra como discursos enganosos operam, especialmente quando utilizam linguagem moral e espiritual. O texto promove uma abordagem que integra conhecimento, fé e prática comunitária, fortalecendo a capacidade das comunidades de responder de forma crítica, ética e solidária aos desafios da crise climática. Dentre os temas abordados estão: o que é desinformação climática; como identificar a desinformação e o interesse das petroleiras e das Big Techs em desinformar a população sobre o clima.

O Relatório de Riscos Globais de 2025, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial, aponta que a desinformação é o principal problema a ser enfrentado pelo mundo nos próximos dois anos. No contexto religioso, esse fenômeno ganha ainda mais força, como o Bereia vem acompanhando. Conteúdos desinformativos têm incorporado linguagem espiritual e argumentos morais, como ideias de intervenção divina, domínio sobre a natureza ou desconfiança da ciência, a fim de apresentar falsas soluções ou legitimar a ausência de ações que reduzem os impactos da crise climática. Como resultado, os conteúdos não são recebidos apenas como informação, mas também como defesa de fé, valores e identidade comunitária.

A iniciativa do GreenFaith, apoiada pelo Bereia, parte do princípio de que as comunidades religiosas são espaços fundamentais de construção de sentido e confiança, tornando-se simultaneamente vulneráveis à desinformação. 

Para a coordenadora do GreenFaith no Brasil, e uma das idealizadoras da cartilha, Julia Rossi, os líderes religiosos ocupam uma posição estratégica por sua autoridade moral e capacidade de mobilização enquanto agentes fundamentais na promoção da verdade, da justiça e do cuidado com a vida. Segundo Rossi, narrativas falsas se apropriam de referências religiosas para gerar medo ou criar falsas oposições entre a fé e a ciência. “Nos últimos anos vimos crescer uma verdadeira indústria da desinformação climática. Durante a COP realizada no Brasil, esse fenômeno ficou ainda mais evidente, com um aumento expressivo de conteúdos que buscavam desacreditar a ciência climática e confundir a população. Não por acaso, o Fórum Econômico Mundial aponta a desinformação como um dos principais riscos globais da atualidade. Nas comunidades de fé esse desafio ganha uma dimensão ainda maior, porque muitas vezes a mentira sequestra a linguagem sagrada. Por isso, nossa proposta é aproximar evidências científicas dos valores espirituais que já orientam essas comunidades no cuidado com a vida, para que a fé seja um caminho de discernimento, e não de manipulação”, pontua.

A cartilha é resultado de um processo de formação e construção coletiva realizado pelo GreenFaith ao longo do primeiro semestre de 2026, em encontros com lideranças religiosas e comunidades de fé no Rio de Janeiro, Pernambuco e Acre. As reflexões, experiências e desafios compartilhados nesses territórios deram origem ao conteúdo do material. O processo contou com a colaboração direta do Bereia no oferecimento de formação sobre o tema, ao lado de outros especialistas e organizações parceiras, como o Interfaith Center for Sustainable Development, o Instituto de Estudos da Religião (ISER) e o IRI Brasil. 

A editora-geral do Bereia Magali Cunha, que atuou nessa colaboração, enfatiza que a parceria entre o Bereia e o GreenFaith nasceu do conhecimento acumulado em que o direito à informação digna e justa sobre o meio ambiente e clima é elemento de extrema necessidade.

Segundo a jornalista, um material como esse voltado para as comunidades de fé é fundamental, principalmente em ano eleitoral, já que essas comunidades têm sido alvo privilegiado dos produtores de conteúdo falso e enganoso que buscam interferir no voto. “Este tema deve ser alvo de mentiras em candidaturas, muitas vezes financiadas por empresas e pelo agronegócio que lucram com a destruição e não desejam governantes e parlamentares que atuem pela justiça ambiental e climática. Deve ser também um tema silenciado por quem não quer que eleitores se informem sobre o que de fato ocorre e deve ocorrer com essa pauta tão importante. A cartilha é imprescindível tanto para o enfrentamento da desinformação como para a busca de informação justa e digna”, explica Magali Cunha.

A cartilha Nossa Fé contra a desinformação climática é uma das campanhas do GreenFaith que une fé, informação e defesa do meio ambiente. O texto representa um processo de construção coletiva que fortalece lideranças, amplia capacidades locais e promove uma resposta enraizada na realidade e nos valores das comunidades de fé. 

Desde 2013, o GreenFaith atua no Brasil por meio de campanhas e treinamentos com comunidades locais que reúnem mulheres, pescadores, educadores, jovens, ativistas e lideranças religiosas, fortalecendo a fé como instrumento de resistência, cuidado e enfrentamento à emergência climática. O Bereia se soma a esta ação com sua experiência em jornalismo que faz enfrentamento à desinformação que circula em ambientes religiosos. 

Acesse a cartilha: https://canva.link/m5blus6xf9ulgy6 

Site gospel propaga falsa censura e descredibiliza pauta antiviolência no caso Maria da Penha

*com distorções enganosas

O portal de notícias gospel Pleno News noticiou, em 10 de agosto, a prisão do ex-marido da farmacêutica e ativista de direitos das mulheres Maria da Penha Fernandes, Marco Antonio Heredia Viveros. A matéria sugere que Viveros teve sua liberdade de expressão atacada e que a Rede Record, de propriedade da Igreja Universal do Reino de Deus, teria sido censurada por entrevistar o agressor. Na verdade, o homem foi preso por descumprir decisão judicial, e a entrevista não foi ao ar por isso. 

Trechos da matéria publicada por Pleno News são compostos por expressões que induzem quem lê a relativizar a prisão de Viveros. O texto evita identificar o ex-marido da vítima como condenado pela Justiça e suavizam a infração cometida com a entrevista dada à Record. O título também atua com a sugestão de que a decisão judicial é prática de censura. 

A publicação com o título “Ex-marido de Maria da Penha é preso após dar entrevista” foi checada por Bereia.

Imagem: reprodução Pleno News

O que aconteceu, de fato

O economista Antônio Heredias Viveros foi preso em 9 de agosto passado, em Natal (RN), por descumprir medidas preventivas expedidas, em 2024, pelo Juizado da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Fortaleza (CE). Ele foi condenado, em 1996, a dez anos e seis meses de reclusão por  planejar e executar dois atentados contra a vida da esposa, Maria da Penha Fernandes. Porém, por meio de alegações de irregularidades, a defesa conseguiu a anulação do julgamento. 

Na busca incessante por reparação, em 1998, o Centro para a Justiça e o Direito Internacional (CEJIL) e o Comitê Latino-americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM) denunciaram, o caso para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH/OEA). 

Em 2001, após receber quatro ofícios da CIDH/OEA (1998 a 2001), o Estado brasileiro foi responsabilizado por negligência, omissão e tolerância em relação à violência doméstica praticada contra as mulheres brasileiras. Com esta responsabilização internacional, a Justiça brasileira agiu e Viveros foi preso em outubro de 2002, faltando apenas seis meses para a prescrição do crime. Ele cumpriu cerca de dois anos de pena em regime fechado e ganhou liberdade. 

A Lei Maria da Penha foi resultado da ação de um Consórcio de ONGs Feministas, em 2002, motivado pelo que Maria da Penha passou, diante da falta de medidas legais e ações efetivas, como acesso à justiça, proteção e garantia de direitos humanos a mulheres vítimas de violência doméstica e familiar. 

A medida cautelar contra Viveros é parte de processo judicial de 2024, instaurado depois que ele foi entrevistado para um documentário da produtora Brasil Paralelo. O conteúdo do vídeo desqualificava a memória de Maria da Penha, como símbolo da violência praticada contra mulheres e oferecia como revisão histórica, a versão do agressor, condenada em julgamento. A partir da divulgação, Maria da Penha se tornou vítima de ataques virtuais e ameaças. A Justiça determinou não só a retirada do vídeo da plataforma como estabeleceu as medidas cautelares que proibem Antonio Viveros de divulgar informações sobre o processo e de propagar o nome ou a imagem de Maria da Penha Fernandes e das duas filhas em mídias sociais, aplicativos ou outro ambiente virtual. 

Ocorre que, a propósito dos 20 anos da Lei Maria da Penha, neste 2026, a Rede Record decidiu entrevistar Viveros para que propagasse a sua versão do caso. Versão essa, com ampla circulação em ambientes religiosos, principalmente por meio de material falso e desinformativo produzido pela produtora Brasil Paralelo, que já foi retirado do ar pela Justiça brasileira.  

Antônio Viveros concedeu a entrevista ao jornalista e apresentador do programa Domingo Espetacular, Roberto Cabrini, na qual exporia sua história sobre Maria da Penha. Chamadas da entrevista foram divulgadas nas redes digitais. O portal G1 Ceará apurou que o documento do Ministério Público do Ceará enviado à Justiça (que pedia a prisão de Viveros) contém uma notificação com o pedido de suspensão da veiculação da entrevista à TV Record pelo Instituto Maria da Penha, assim como prints de e-mail e WhatsApp enviados também pelo instituto para funcionários da emissora.  

Com a publicação de trechos da entrevista nas mídias digitais, como chamada para o programa, o MP-CE fez o pedido da prisão de Viveros, por entender que as publicações violavam a medida cautelar judicial.  Além disso, a Justiça determinou a retirada imediata do ar de conteúdos relacionados à entrevista e proibiu a veiculação da reportagem por ferir decisões judiciais sobre o caso. A prisão de Antônio Heredias Viveros ocorreu dois dias após a Lei Maria da Penha completar 20 anos. 

Milícias digitais entram em ação

Com a notícia da prisão e da suspensão da entrevista, políticos e apoiadores da direita extremista vieram a público para contestar a Justiça. Várias publicações nas redes alegaram censura à Rede Record e impedimento da liberdade de expressão do homem condenado por tentativa de assassinato da esposa, que a deixou paraplégica. 

Imagem: reprodução YouTube, canal do jornalista foragido Allan dos Santos

Imagem: reprodução/Alexandre Paiva/Instagram

Imagem: reprodução/Flávio Bolsonaro/Instagram

A deputada federal católica Júlia Zanatta (PL-SC) também publicou, em 11 de agosto, uma sequência de stories em seu perfil no Instagram para comentar o tratamento judicial dado a Viveros e insinuar que ele sofre censura.  A parlamentar chegou a fazer comparações com casos criminais midiáticos e produções audiovisuais do gênero true crime para alegar que o agressor de Maria da Penha teria direito à liberdade de expressão.

Imagem: reprodução/Julia Zanatta/Instagram

A defesa do agressor condenado e da emissora de TV aberta que daria voz a ele, são um reforço recorrente ao questionamento da existência da  Lei, que representa um histórico enfrentamento à violência doméstica e familiar contra  mulheres, que recebeu o nome de Maria da Penha. O nome foi dado por conta da brutalidade do caso e do processo de injustiça que quase resultou na não punição do agressor, como já ocorreu, no passado, com muitas tantas situações.

A  Lei Maria da Penha é reconhecida internacionalmente como uma referência de legislação de gênero, foi promulgada em 7 de agosto de 2006, tendo seus 20 anos celebrados em vários eventos, dois dias antes da prisão de Viveros.

Associação de jornalistas repudia a Rede Record

Em nota pública, a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) descarta a ideia de censura e repudia a iniciativa da Rede Record de entrevistar um agressor de mulher e homicida, para oferecer sua versão dos fatos, já condenada pela Justiça.

Imagem: Federação Nacional dos Jornalistas

Para a FENAJ, a emissora presta um desserviço que é motivo de repúdio por decidir abrir espaço para um homem que foi condenado pela violência que transformou Maria da Penha em símbolo mundialmente conhecido da luta contra a violência doméstica, justamente no marco dos 20 anos da lei que leva o nome da sobrevivente.

“Há uma diferença fundamental entre ouvir alguém em nome do contraditório e dar protagonismo a um agressor condenado, cuja própria conduta, ao conceder a entrevista, resultou no descumprimento de uma medida protetiva e em sua prisão.”, diz um trecho da nota que pode ser lida na íntegra aqui.

Discurso que descredibiliza o enfrentamento da violência contra mulher 

Enquanto todas as grandes mídias de notícias credenciadas no Brasil oferecem informação responsável sobre a suspensão da entrevista e a prisão de Viveros, e a FENAJ repudia a iniciativa da Rede Record, veículos alinhados à direita extremista repercutiram o questionamento à Justiça.  

Nos espaços religiosos, a matéria do Pleno News, checada pelo Bereia, oferece consonância com o discurso de seguidores da ultradireita e de influenciadores misóginos. Já o jornal Gazeta do Povo também noticiou a prisão, indicando censura.

Imagem: reprodução de matéria da Gazeta do Povo, publicada em 10 ago 2026

Em uma outra publicação, o jornal Gazeta do Povo destaca participações de Antonio Heredia Viveros em outras entrevistas, abre espaço para a propagação da versão do condenado já recusada pela Justiça em julgamento em 1996.

Imagem: matéria da Gazeta do Povo, publicada em 10 ago 2026

Ao acusar de censura o ocorrido com a entrevista da Rede Record, a Gazeta do Povo relaciona o caso à proibição judicial da exibição do documentário desinformativo produzido pela Brasil Paralelo “Investigação Paralela: o Caso de Maria da Penha, ocorrida em 2025”, já citada nesta matéria.

Em março de 2025, a Advocacia-Geral da União (AGU) moveu uma Ação Civil Pública contra a empresa Brasil Paralelo por disseminar conteúdo desinformativo a respeito do emblemático caso de Maria da Penha, usando a versão do ex-marido homicida como referência. A ação exige uma indenização de R$ 500 mil por danos morais coletivos e determina a veiculação de material informativo correto sobre o caso.

Em reportagem, Bereia  aponta que a produção audiovisual, criada e distribuída pela empresa de comunicação alinhada à ultradireita, apresenta uma versão distorcida dos fatos para privilegiar argumentos do agressor. O material disseminado pela Brasil Paralelo não menciona que essas alegações já haviam sido rejeitadas pela Justiça no julgamento que condenou Viveros. 

O conteúdo da produtora sugeria, naquele momento, que o processo judicial não considerou devidamente a versão do acusado. Em resposta, a AGU afirmou que o tipo de abordagem usado pela produtora mina a credibilidade não apenas da decisão judicial, mas também da Lei Maria da Penha e das políticas públicas de proteção às mulheres.

Em agosto do mesmo ano, MP-CE determinou a suspensão de todos os episódios da produtora Brasil Paralelo que tratam do caso Maria da Penha. Bereia apurou o conteúdo falso que circulou nas redes. Nele a Brasil Paralelo usava a falácia de censura como reação à decisão do MP-CE. O parecer é de que se tratava de “uma campanha de ódio promovida nas redes sociais contra a farmacêutica!”.

A decisão da Justiça diz respeito à terceira temporada do projeto Investigação Paralela, publicado pela produtora, em 10 de julho de 2023,  com o episódio nomeado O Caso Maria da Penha. A sinopse afirma: “o documentário vai te surpreender com uma das possíveis maiores reviravoltas do país”. 

Conforme divulgado por Bereia, um processo judicial decorrente da veiculação deste documentário foi julgado em 2024 e  determinou  o cumprimento de mandados e ações para aprofundar a investigação de crimes cibernéticos e perseguição virtual praticados nas redes digitais contra Maria da Penha Fernandes, por conta do documentário da Brasil Paralelo. As medidas cautelares contra Antonio Viveros são parte das decisões judiciais.

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Bereia avalia como falsas as alegações de censura à Rede Record e à liberdade de expressão de Marcos Antonio Heredia Viveros, condenado por tentativa de homicídio de Maria da Penha Fernandes. A prisão preventiva e as medidas de proibição de divulgação de conteúdos foram solicitadas pelo Ministério Público do Ceará (MPCE) com base em decisão da Justiça, em 2024, que não permite publicações de pronunciamentos do agressor homicida. Estas decisões são de amplo conhecimento de Viveros e do seu advogado, porém o ex-marido de Maria da Penha Fernandes optou por descumprí-las. A ênfase dada a versões de agressores de mulheres é uma tática recorrente de sustentação da violência de gênero para descredibilizar a reputação da vítima. 

Bereia alerta ainda para a existência de um discurso articulado contra a legitimação do enfrentamento das instituições brasileiras à violência contra a mulher, quando considerada a relevância da legislação. O caso tem uma dimensão simbólica e histórica, ao reforçar a autoridade das instituições jurídicas do país, especialmente em uma data em que a Lei completa 20 anos em vigor.

Veículos, influenciadores digitais e políticos de identidade religiosa, alinhados à ultradireita, têm endossado o discurso conservador, isto é, que visa conservar a estrutura de violência doméstica, ao atacarem a própria Justiça, no cumprimento de leis que garantem direitos. Repercutem ainda conteúdos que atacam movimentos em busca de justiça para mulheres vítimas de violência, usando como pretexto a  defesa de pautas de costumes religiosos e a preservação de papéis tradicionais de gênero que representam a subjugação das mulheres e a sujeição delas a múltiplas violências dentro de fora de casa.  

Referências:

Senado Notícias

https://www12.senado.leg.br/noticias/videos/2026/08/lei-maria-da-penha-completa-20-anos-em-constante-aperfeicoamento Acesso em: 11 AGO 2026

https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2026/07/a-historia-por-tras-dos-20-anos-da-lei-maria-da-penha Acesso em: 13 AGO 2026

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/08/06/debate-aponta-avancos-e-desafios-nos-20-anos-da-lei-maria-da-penha Acesso em: 13 AGO 2026

G1

https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/08/09/por-que-justica-voltou-a-prender-o-ex-marido-de-maria-da-penha-mulher-que-inspirou-lei-contra-violencia-domestica.ghtml Acesso em: 11 AGO 2026

https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/08/10/quem-e-e-por-que-estava-solto-o-ex-marido-de-maria-da-penha.ghtml Acesso em: 12 AGO 2026

Carta Capital

https://www.cartacapital.com.br/justica/ex-marido-de-maria-da-penha-e-preso-apos-entrevista-a-record-sobre-tentativa-de-feminicidio/ Acesso em: 11 AGO 2026

CNN

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/governo-processa-brasil-paralelo-por-conteudo-sobre-caso-maria-da-penha/ Acesso em: 11 AGO 2026

Agência Pública

https://apublica.org/2025/07/brasil-paralelo-usou-laudo-falso-para-atacar-maria-da-penha/ Acesso em: 11 AGO 2026

Coletivo Bereia

https://coletivobereia.com.br/brasil-paralelo-usa-falacia-de-censura-para-reagir-a-suspensao-video-negacionista-sobre-caso-maria-da-penha/ Acesso em: 12 AGO 2026

https://coletivobereia.com.br/agu-entra-com-acao-contra-brasil-paralelo-por-desinformacao-sobre-caso-maria-da-penha/ Acesso em: 12 AGO 2026

Advocacia-Geral da União

https://www.gov.br/agu/acl_users/credentials_cookie_auth/require_login?came_from=https%3A//www.gov.br/agu/pt-br/comunicacao/noticias/agu-processa-portal-por-desinformacao-sobre-caso-maria-da-penha Acesso em: 12 AGO 2026

Federação Nacional dos Jornalistas

https://fenaj.org.br/rede-record-presta-desservico-ao-entrevistar-agressor-de-maria-da-penha/ Acesso em: 12 AGO 2026

X

https://x.com/JFreiress_/status/2087377287561785722 Acesso em: 12 AGO 2026

Artigo: Violência contra a mulher: representações do discurso midiático

https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/8997999.pdf  Acesso em: 12 AGO 2026

Reportagem desinforma sobre envolvimento de líder da Igreja Presbiteriana do Brasil em inquérito da Polícia Federal

Bereia recebeu de leitores pedido de checagem da reportagem intitulada “PF apura atuação de diretor do Mackenzie em eleição em MG”, publicada pelo SBT News, em 22 de julho de 2026, no site e no telejornal, com repercussão nas redes sociais da emissora.

Fonte: SBT News

De acordo com a reportagem, a Polícia Federal (PF) apura suspeitas de crimes eleitorais cometidos no município de Patrocínio, em Minas Gerais, nas eleições de 2024. O atual prefeito da cidade, Gustavo Brasileiro (Democracia Cristã/DC) teria conquistado o cargo, nas eleições de 2024, por meio da produção de conteúdo falso contra adversários e de negociações envolvendo pagamentos e promessas de cargos públicos em troca de apoio. 

A matéria do SBT News aponta que o membro da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) Eduardo Abrunhosa teria se tornado atual diretor administrativo da Universidade Mackenzie (pertencente à IPB), após atuar como consultor da campanha de Gustavo Brasileiro.

A publicação aponta o envolvimento do pai do prefeito, o pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) Roberto Brasileiro, como central para a promoção de Abrunhosa à liderança da universidade presbiteriana. Ele é apresentado pelo SBT News como “presidente da Igreja Presbiteriana”. A reportagem mostra que outros dois ex-aliados da campanha do prefeito de Patrocínio, os motoristas Edvanei Cortes e Igor José Lopes, registraram em cartório conversas de WhatsApp com Abrunhosa e com o chefe de gabinete de Gustavo Brasileiro, e entregaram o material a opositores políticos, que levaram a denúncia à PF.

Fonte: SBT News

O inquérito teria sido aberto após denúncia protocolada em fevereiro deste ano, três meses antes da realização da reunião do Supremo Concílio da IPB, marcada para 26 de julho a 2 de agosto, em Manaus. A reportagem do SBT relaciona a investigação da PF à cúpula de uma das maiores denominações protestantes do país, às vésperas da sucessão de sua liderança nacional, e evidencia como redes de influência religiosa na política se cruzam com estruturas político-administrativas e educacionais, como o Mackenzie.

O que está sendo investigado

O evangélico presbiteriano Gustavo Brasileiro governa o município mineiro de Patrocínio, após vencer a eleição de 2024 com auxílio da consultoria de Eduardo Abrunhosa. Em entrevista ao programa Rádio Comunidade, da Difusora 95,3 FM, em 23 de julho passado, o prefeito rebateu a reportagem do SBT News adotando explicitamente a posição de membro da IPB, e não apenas de gestor público. O político reforçou, na entrevista, o entrelaçamento entre sua atuação política e o pertencimento à igreja, cujo Supremo Concílio era, de fato presidido pelo pai.

Segundo Gustavo Brasileiro, o inquérito trata apenas de uma representação por propaganda enganosa envolvendo um vídeo de campanha, sem relação com a Prefeitura, com o Instituto Mackenzie ou com recursos filantrópicos. Ele afirmou que buscará retratação judicial contra a emissora e o repórter responsável. 

Na entrevista à rádio Difusora,  o prefeito mineiro também apresentou dados de sua gestão em segurança, saúde e infraestrutura. O político afirmou, ainda,  que o processo de 57 páginas, sobre a investigação da PF, estaria disponível para análise. 

O Bereia não conseguiu acesso aos arquivos do inquérito, uma vez que a investigação segue em andamento, por isso não está disponível no site do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais. 

Fonte: Rádio Difusora

O diretor do Mackenzie é alvo da investigação?

De acordo com a reportagem do SBT News, a relação do prefeito Gustavo Brasileiro e do seu pai Roberto Brasileiro com Eduardo Abrunhosa, teria sido um dos motivadores para a promoção dele ao atual cargo de diretor administrativo da Universidade Mackenzie. A reportagem aponta ainda que o próprio Instituto Presbiteriano Mackenzie (instituição mantenedora da universidade), afirmou em nota que não é alvo da investigação e não tem relação institucional com consultorias particulares prestadas por colaboradores, remuneradas ou não.

O Bereia não encontrou a nota publicada pela organização nas redes oficiais. O diretor-presidente do Instituto Presbiteriano Mackenzie Cid Pereira Caldas, que atua como pastor titular na Igreja Presbiteriana de Botafogo (RJ), citado pelo SBT News como uma das lideranças da IPB que ganharam cada vez mais destaque nos últimos anos, foi ouvido pelo Bereia. O pastor informou que apenas recebeu um e-mail do SBT News solicitando um posicionamento, sendo que a maior parte não teria sido usada ao longo da reportagem publicada. 

“A Universidade Presbiteriana Mackenzie não tem nenhuma relação com esse tema de eleição, patrocínio, ou qualquer outro tipo de envolvimento. Essa é uma postura histórica da Mackenzie e do Conselho de Curadores, de não envolvimento. Então o que acontece, nesse caso específico, é que a nossa declaração diz respeito ao fato seguinte: nós não policiamos os nossos colaboradores no que eles fazem fora do seu ambiente de trabalho. A Mackenzie é uma colcha de retalhos, lidando com seus alunos, com seus professores, com seus colaboradores e com seus dirigentes. Ela lida com isso tudo, e nós não fazemos um policiamento ideológico das pessoas”, afirmou ao Bereia o pastor Cid Caldas.

O diretor-presidente do Instituto Presbiteriano Mackenzie também explicou que “se um determinado colaborador contribui, colabora, faz parte de uma campanha eleitoral de quem quer que seja, isso não diz respeito à Mackenzie, na medida em que não envolva a instituição ou, mais do que isso, que não coloque a Mackenzie como parte”.

Caldas enfatizou na entrevista ao Bereia que  que a Universidade  Mackenzie “não teve nenhum envolvimento com essa eleição, e também não cobra dos seus colaboradores que se envolvam ou que deixem de se envolver.”

De acordo com o estatuto da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a decisão de nomeação aos cargos da instituição varia conforme o nível hierárquico, mas o poder final de escolha e validação está concentrado no Instituto Presbiteriano Mackenzie, entidade mantenedora pertencente à Igreja Presbiteriana do Brasil. Caldas reafirmou essa organização durante a entrevista ao Bereia,  apontando que esse formato de decisão dos cargos dentro da igreja é algo relacionado à estrutura histórica da organização.

“A Mackenzie foi criada por missionários presbiterianos norte-americanos que vieram ao Brasil se estabelecer, e ao longo das décadas ela sempre esteve ligada à Igreja. Aconteceu que, por volta de 1960, houve uma ação para que a Mackenzie deixasse de ser confessional e fosse desapropriada, se tornando uma instituição pública, contudo foi reconhecido pela Justiça que a Mackenzie pertence à Igreja Presbiteriana do Brasil. Então a Igreja Presbiteriana do Brasil é o que a gente chama de ‘associado’, é ela a dona da Mackenzie”, afirma o pastor Cid Caldas.

O diretor-presidente da mantenedora da Universidade Mackenzie também explica que a Igreja Presbiteriana não tem uma ação direta dentro da  instituição de ensino, que tem um Conselho Deliberativo. E esse conselho é formado, na sua totalidade, por pastores, presbíteros e membros da Igreja Presbiteriana do Brasil que têm qualificação para isso.

A equipe de reportagem do SBT News teria entrado em contato com Abrunhosa que nega irregularidades e sustenta que sua atuação na campanha foi voluntária e paralela às suas funções na universidade. Sua promoção ao cargo de diretor de Administração, dois meses após a vitória de Gustavo Brasileiro à Prefeitura de Patrocínio, é apontada pela reportagem do SBT News como um dado relevante para contextualizar a proximidade com a cúpula administrativa do Mackenzie, contudo, até o momento, essa relação não configura acusação formal contra a universidade. 

O pastor Cid Caldas aponta ainda que as atividades realizadas pelos membros da universidade, tratados como colaboradores em âmbito exterior ao da universidade, não são regulamentadas pela liderança universitária.

A Igreja Presbiteriana do Brasil e seu presidente

Um dos pontos da reportagem do SBT News é que Roberto Brasileiro seria “presidente da Igreja Presbiteriana do Brasil”, cargo que, institucionalmente, não existe. Bereia checou nos registros oficiais da Igreja Presbiteriana e constatou que, de acordo com a instituição, não há presidente na hierarquia eclesiástica. Roberto Brasileiro é, de fato, presidente do Supremo Concílio, o órgão máximo de deliberação da denominação. Ele foi eleito por voto direto para mandatos de quatro anos desde 2002 (reeleito em 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022), somando 24 anos à frente do Concílio. 

Em 2026, pela primeira vez em 24 anos, o pastor Roberto Brasileiro decidiu não concorrer à reeleição. A sucessão foi decidida em 27 de julho, em segundo turno, no segundo dia do Supremo Concílio reunido em Manaus. Foi eleito para o cargo de presidente o pastor Juarez Marcondes Filho, até então secretário executivo do órgão.

De acordo com registros oficiais, a IPB se organiza como federação de igrejas locais, regida por concílios, e é representada oficialmente pelo presidente do Supremo Concílio nos âmbitos interno, civil e judicial.  A Igreja Presbiteriana do Brasil “exerce seu governo por meio de concílios e indivíduos, regularmente instalados e o Supremo Concílio é a sua Assembleia Geral. A Igreja é representada ativa, passiva, judicial e extrajudicialmente pelo presidente do Supremo Concílio, ao qual também compete: Presidir às reuniões do Supremo Concílio e da Comissão Executiva; representar a Igreja internamente bem como em suas relações intereclesiásticas, civis e sociais.”

Presbiterianos e política: uma presença antiga, não recente

A cobertura do caso pela reportagem do SBT News trata a proximidade entre lideranças presbiterianas e o poder público como novidade, mas o histórico é longo. Como já abordado pelo Bereia em reportagens anteriores, durante a ditadura militar (1964-1985), setores da cúpula da IPB alinharam-se ao regime, promovendo o afastamento de pastores ligados a posições progressistas e ecumênicas, o que resultou, inclusive, na criação da Igreja Presbiteriana Unida por dissidentes discordantes desse alinhamento. Evangélicos presbiterianos também ocuparam cargos públicos importantes durante o Estado de exceção: Eraldo Gueiros Leite foi ministro do Supremo Tribunal Militar, e integrava a família Gueiros, nome destacado de presbiterianos, com outros membros em posições no Poder Judiciário na época.

Essa presença se renovou décadas depois. O Bereia já publicou matérias que informaram sobre presbiterianos que assumiram pastas técnicas e “ideológicas” durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL, 2019-2022). Entre eles, o ministro da Educação pastor Milton Ribeiro; o ex-reitor do Mackenzie, que presidiu a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes, MEC) Benedito Guimarães Aguiar Neto; e o pastor André Mendonça, que foi ministro da Advocacia Geral da União e da Justiça, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal (STF),  indicado por Jair Bolsonaro. 

Esse dado desafia a leitura simplificada que associa apenas a lideranças pentecostais à direita política e ao chamado bolsonarismo. Parte relevante da adesão institucional ao governo de Jair Bolsonaro é de evangélicos históricos, como os presbiterianos e os batistas.

Informação também importante é que a IPB não é politicamente monolítica. Bereia também checou informações, em 2022, quando houve tentativa de aprovar, na reunião do Supremo Concílio, um relatório visto por críticos como um movimento de expurgo de membros identificados com a esquerda. A proposta foi derrubada por um substitutivo aprovado, ainda que por margem apertada,  indicando a divisão interna.

O pano de fundo: o Supremo Concílio em Manaus

Na reportagem do SBT News a investigação sobre a campanha de Gustavo Brasileiro ganha peso adicional pelo momento: ela avançou justamente no período em que a IPB elegeu, em Manaus, em 27 de julho, a nova composição do Supremo Concílio, a primeira sucessão em 24 anos, já que Roberto Brasileiro optou por não concorrer à reeleição.

A divulgação da reportagem do SBT se insere em um cenário de disputa interna, pouco tempo após a publicação de reportagens, em várias mídias, que vinculam o Supremo Concílio a debates ultraconservadores sobre a liderança feminina na igreja, como o Bereia publicou. Observar esse cenário ajuda a explicar por que o caso extrapola os limites de uma eleição municipal e repercute nacionalmente: entra em jogo não apenas a legalidade de uma campanha eleitoral em Minas Gerais, mas o mapa de influências dentro de uma das denominações protestantes mais antigas e institucionalmente organizadas do Brasil.

Bereia ouviu o membro leigo da IPB em Formosa (Goiás) Jared Victor Lopes, que acompanha de perto os debates relacionados à igreja nas redes digitais. Na entrevista realizada antes das eleições do Supremo Concílio, Lopes aponta a percepção e a apreensão da comunidade presbiteriana nos últimos meses diante das diferentes repercussões e temáticas vinculadas à IPB.

“Isso atinge diretamente o atual presidente do Supremo Concílio [Roberto Brasileiro], mas é um presidente que hoje deixa o quadro da liderança, então definitivamente não é algo que vai prejudicá-lo nesse sentido. É claro que isso pode respingar em possíveis pessoas que ele apoia para ser um sucessor e seguramente pode comprometer algum estabelecimento posterior dentro da igreja ou dentro das instituições da igreja”, afirma o presbiteriano. 

Lopes considera que “de qualquer maneira é algo assim que a gente ainda não sabe até que ponto vai prejudicar ou vai ecoar com grande influência dentro da denominação, particularmente dentro de uma eleição no Supremo Concílio”. 

Além da reportagem do SBT, recentemente, debates sobre o papel das mulheres na igreja tomaram grandes proporções e foram alvo de notícias enganosas nas redes digitais. Lopes aponta que esse é um tema delicado de debate dentro da própria cúpula.

“Neste ano estamos observando todas essas movimentações e vamos ter um novo ciclo de debate sobre algumas questões, principalmente em relação à atuação das mulheres dentro da igreja. Já estamos há um pouco mais de uma década discutindo constantemente o papel das mulheres na igreja, há uma tendência a restringir o papel das mulheres enquanto você tem setores da igreja dispostos e interessados em aberturas para alguns ministérios. Neste ano existem alguns documentos enviados para o concílio com a tentativa de derrubar algumas resoluções e estamos com uma expectativa de que pelo menos que a discussão aconteça”, pontua Jared Victor Lopes.

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Bereia classifica a reportagem do SBT como enganosa, pois induz o leitor a relacionar a Igreja Presbiteriana do Brasil e a Universidade Mackenzie como partes investigadas em inquérito da Polícia Federal.  Como apurado pelo Bereia, a ação policial ainda em curso não aponta qualquer das instituições como investigadas, e, sim, o prefeito de Patrocínio Gustavo Brasileiro (MG) e seu consultor de campanha eleitoral Eduardo Abrunhosa, suspeitos de produção de falsidades contra concorrentes. A matéria jornalística é que levanta suspeitas de que Abrunhosa tenha recebido cargo na instituição de ensino por conta dessa relação.

Além  disso, a matéria do SBT News desinforma ao desconsiderar o contexto histórico no qual se insere a relação entre a Igreja Presbiteriana do Brasil, a Universidade Presbiteriana Mackenzie e seus membros com a política. O conteúdo leva a audiência a compreender as ações políticas presentes na trajetória da igreja como algo novo.

Bereia chama a atenção de leitores e leitoras para publicações nas mídias digitais e nas grandes mídias de notícias sobre religião. Na onda do protagonismo que, especialmente evangélicos, têm assumido no cenário público, temas relacionados ao grupo se tornam pautas com abordagem frágil, do ponto de vista da informação, mas fortes promotoras de audiência. 

Referências

SBT News – Coluna do Cézar. PF apura atuação de diretor do Mackenzie em eleição em MG. https://sbtnews.sbt.com.br/colunas/coluna-do-cezar/pf-apura-atuacao-de-diretor-do-mackenzie-em-eleicao-em-mg Acesso em: 24 jul. 2026.

Difusora 95,3 FM – Rádio Comunidade. Gustavo Brasileiro rebate denúncias, defende a Igreja Presbiteriana e cita avanços em Patrocínio. https://difusora95.com.br/noticias/gustavo-brasileiro-rebate-denuncias-defende-a-igreja-presbiteriana-e-cita-avancos-em-patrocinio/ Acesso em: 24 jul. 2026.

Folha de S.Paulo. Igreja Presbiteriana do Brasil elege novo presidente em meio a tensões políticas e doutrinárias. https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/07/igreja-presbiteriana-do-brasil-elege-novo-presidente-em-meio-a-tensoes-politicas-e-doutrinarias.shtml Acesso em: 27 jul. 2026.

IPB – Igreja Presbiteriana do Brasil. Organização. https://www.ipb.org.br/organizacao Acesso em: 24 jul. 2026.

Religião e Poder. Evangélicos no Brasil – dos missionários à ditadura militar. https://religiaoepoder.org.br/artigo/evangelicos-no-brasil-dos-missionarios-a-ditadura-militar Acesso em: 24 jul. 2026.

Instituto Presbiteriano Mackenzie. Diretoria de Administração. https://www.mackenzie.br/instituto/diretorias/diretoria-de-administracao Acesso em: 24 jul. 2026.

Universidade Presbiteriana Mackenzie. Estatuto da Universidade Presbiteriana Mackenzie. https://www.mackenzie.br/fileadmin/user_upload/1Atual_-_ESTATUTO_DA_UPM.pdf Acesso em: 24 jul. 2026.

Políticos religiosos fazem ofensiva contra regulação da circulação de conteúdos criminosos nas mídias digitais

Os decretos nº 12.975 e nº 12.976, assinados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 20 de maio de 2026 e em vigor desde 20 de julho, reacenderam um debate que se arrasta há anos no Brasil: como responsabilizar plataformas digitais pela circulação de conteúdos ilícitos sem comprometer a liberdade de expressão? As normas integram também o pacote de ações do governo de combate ao feminicídio e à violência contra mulheres no ambiente on-line.

Parte da reação política contra os decretos concentrou-se na antiga alegação de que as medidas abririam caminho para a censura nas redes digitais. Entre os principais opositores estão parlamentares ligados a segmentos religiosos e às bancadas conservadoras, que passaram a liderar uma ofensiva no Congresso Nacional com o intuito de derrubar as normas por meio da apresentação Projetos de Decreto Legislativo (PDLs – textos legislativos para impedir ações governamentais). A frente de combate no Legislativo foi formada por, pelo menos, 32 PDLs, sendo 27 na Câmara dos Deputados e outros cinco no Senado Federal.

A mobilização não ocorre isoladamente. Ela sucede o exitoso embarreiramento da tramitação do Projeto de Lei 2.630/2020, conhecido como PL das Fake News, e acompanha uma estratégia adotada por parlamentares que, desde então, têm associado qualquer iniciativa de regulamentação das plataformas digitais ao risco de restrição da liberdade de expressão. Para especialistas ouvidos pelo Bereia, entretanto, parte dessas críticas desconsidera o conteúdo efetivo dos decretos e acaba deslocando o debate para um terreno predominantemente político-ideológico.

Da decisão do STF aos decretos

Os dois decretos foram assinados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 20 de maio de 2026, e entraram em vigor 60 dias depois. O Decreto nº 12.975 altera a regulamentação do Marco Civil da Internet, para responsabilizar as plataformas que permitem a circulação de conteúdos ilícitos, enquanto o Decreto nº 12.976 estabelece diretrizes específicas para a proteção de mulheres contra a violência praticada em ambientes digitais. 

As normas foram editadas após o Supremo Tribunal Federal (STF) declarar parcialmente inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil da Internet. A regra estabelecia, de forma geral, que as plataformas somente poderiam ser responsabilizadas civilmente por conteúdos publicados por terceiros caso descumprissem uma ordem judicial específica para removê-los.

Em junho de 2025, o STF considerou que esse modelo já não oferecia proteção suficiente a direitos fundamentais e à democracia. A decisão estabeleceu parâmetros para a responsabilização das plataformas até que o Congresso Nacional aprove uma nova legislação sobre o tema. Em 17 junho de 2026, durante a análise de recursos, a Corte aperfeiçoou a tese e fixou prazo para que as empresas adotassem medidas estruturais relacionadas ao chamado dever de cuidado. 

Imagem: Reprodução site da ANPD

O Decreto nº 12.975 regulamenta parte dessas obrigações. O texto prevê medidas de prevenção e redução da circulação massiva de conteúdos relacionados a crimes graves, além de regras sobre publicidade paga, fraudes, canais de denúncia, transparência e direito de contestação pelos usuários. Também atribui à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) competências para regular, fiscalizar e apurar o cumprimento dos deveres estabelecidos no Marco Civil da Internet. 

O Decreto nº 12.976, por sua vez, trata de crimes e atos ilícitos praticados contra mulheres. Entre as medidas previstas estão a manutenção de canais específicos de denúncia, a retirada de conteúdo íntimo divulgado sem consentimento em até duas horas depois da notificação e a adoção de salvaguardas contra a geração ou modificação, por inteligência artificial, de imagens íntimas de mulheres.

Parlamentares religiosos participam da ofensiva contrária

A reação no Congresso teve início logo depois da publicação dos decretos. Segundo levantamento divulgado pela imprensa, ao menos 32 Projetos de Decreto Legislativo, os chamados PDLs, foram apresentados para sustar total ou parcialmente as normas. Em consulta aos sistemas oficiais das duas Casas, Bereia localizou, entretanto, 31 propostas: 26 na Câmara e cinco no Senado. Parte desses projetos foi apresentada pelos mesmos parlamentares, que protocolaram um PDL para cada decreto. Esse tipo de projeto se baseia no artigo 49 da Constituição que atribui ao Congresso o poder de sustar atos normativos do Executivo que ultrapassem o poder regulamentar.

Entre os parlamentares que ocuparam a linha de frente dessa mobilização está o senador e pastor evangélico Magno Malta (PL-ES). Ele apresentou o PDL 460/2026 contra o Decreto nº 12.975 e o PDL 466/2026 contra o decreto de proteção às mulheres no ambiente digital.

Ao anunciar as propostas no plenário do Senado, Malta afirmou que as normas restringiriam a liberdade de expressão. “Esse PDL é para anular o decreto de Lula que faz regulação da internet. Como no Brasil não tem ordenamento jurídico, não tem respeito, cada um escreve o que quer, do jeito que quer, eu digo: o Executivo e o Supremo Tribunal Federal são os componentes majoritários desse consórcio que manda e desmanda, que faz e desfaz, e que não respeita o ordenamento jurídico”, declarou o senador que sustenta que o governo teria avançado sobre uma matéria que deveria ser discutida pelo Congresso. 

Na Câmara, o deputado evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG) apresentou o PDL 399/2026 para suspender integralmente o Decreto nº 12.975. Entretanto, não há comentários em seu perfil no Instagram sobre o tema, até a data de fechamento desta matéria. 

Já o deputado Sóstenes Cavalcanti, apenas reproduziu trecho do programa Em Pauta, da GloboNews, em que a jornalista Thaís Oyama analisa os decretos assinados por Lula em 20 de maio, com a legenda “Jornalista detona censura de Lula e alerta sobre perseguição a jornalistas!”

Imagem: Reprodução/Instagram. 

A deputada católica Júlia Zanatta (PL-SC) também faz parte desta lista. Autora do PDL 455/2026, a parlamentar alinhada à extrema direita afirmou em sua página oficial que as medidas ampliam a interferência do governo no ambiente digital e ameaçam a liberdade de expressão. “A sociedade não pode aceitar que o governo avance sobre a internet sob o pretexto de regulamentação. O que está em jogo é a liberdade, a segurança jurídica e o direito dos brasileiros de se expressarem sem controle estatal”.

Imagem: Reprodução do site da deputada Júlia Zanatta

Embora as propostas apresentem diferenças, os argumentos convergem em dois pontos. O primeiro é a defesa de que mudanças dessa dimensão deveriam ser aprovadas pelo Congresso, e não introduzidas por decreto presidencial. O segundo é o risco de que o novo modelo leve à retirada excessiva de conteúdos ou permita interferência governamental na manifestação de opiniões políticas e religiosas.

Fiscalização das plataformas, não dos usuários

As críticas à possível atuação da ANPD sobre publicações individuais contrastam com a explicação divulgada pela própria agência. De acordo com o órgão, sua fiscalização terá caráter sistêmico: será voltada à análise das medidas, estruturas, processos e canais adotados pelas empresas para cumprir a legislação.

A ANPD afirma que não lhe caberá analisar isoladamente cada publicação, avaliar diretamente a conduta dos usuários ou determinar a suspensão de contas. Seu trabalho deverá verificar se as plataformas mantêm mecanismos adequados para prevenir riscos, tratar denúncias, assegurar transparência e reduzir a circulação massiva de conteúdos criminosos, fraudes, golpes e formas de violência digital. 

A existência de uma publicação ilícita isolada também não será suficiente, por si só, para caracterizar falha sistêmica. A responsabilização estará relacionada à ausência ou à insuficiência de medidas estruturais adotadas pelas empresas, considerando o tipo de serviço oferecido e a forma como o conteúdo circulou. 

O decreto prevê ainda que os usuários sejam informados sobre a retirada de publicações e tenham acesso à justificativa da decisão e a mecanismos de recurso. A mesma obrigação vale quando a plataforma decidir manter disponível um conteúdo denunciado.

Decreto prevê proteção à liberdade de crença

O Decreto nº 12.975 contém uma seção dedicada à indisponibilização de conteúdo criminoso. O artigo 16-G determina que as plataformas respondam às notificações relacionadas a materiais que configurem crimes previstos na legislação brasileira, excetuados os crimes contra a honra, que continuam submetidos a regras específicas.

O texto também permite que a plataforma mantenha a publicação quando, depois de uma análise fundamentada, concluir que existe dúvida razoável sobre seu caráter criminoso. Nesse caso, a empresa deverá explicar ao notificante por que decidiu não tornar o conteúdo indisponível.

No parágrafo seguinte, ainda no artigo 16-G, o decreto estabelece os critérios que devem ser observados para evitar que a aplicação das medidas viole direitos fundamentais:

“§ 2º  Com o objetivo de assegurar a liberdade de expressão, a aplicação das medidas previstas neste artigo considerará o contexto das publicações, a liberdade religiosa e de crença e a eventual finalidade informativa, educativa ou de crítica, sátira e paródia.” (NR)

A referência à liberdade religiosa e de crença aparece, portanto, no próprio dispositivo que trata da eventual retirada de conteúdos. O texto determina que não apenas as palavras ou imagens publicadas sejam consideradas, mas também o contexto, a finalidade da manifestação e a proteção ao exercício da crença. 

Isso não impede que conteúdos religiosos possam ser submetidos à legislação quando configurarem crime. O dispositivo, porém, exige que a análise leve em conta a natureza religiosa da manifestação e outras circunstâncias capazes de diferenciar uma prática criminosa de uma pregação, crítica, informação, sátira ou expressão de crença.

Governo contesta acusação de censura

O governo federal garante que os decretos não criaram uma lei paralela nem concederam poder de moderação direta à ANPD. O secretário de Políticas Digitais da Secretaria de Comunicação Social da Presidência João Brant afirmou que o Executivo apenas atualizou uma regulamentação já existente para adequá-la à decisão do STF. “Acho que já ficou claro pela decisão do próprio Supremo Tribunal Federal em relação aos embargos que eles reconhecem a total constitucionalidade de uma regulamentação por parte do governo, até porque o governo está só atualizando uma regulamentação que já existia”, declarou.

Segundo Brant, a ANPD foi incluída entre os órgãos responsáveis pela fiscalização porque ela não existia quando o Marco Civil foi publicado, em 2016. “A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) é de 2018, a ANPD é do ano seguinte. O decreto coloca no rol dos reguladores mais uma agência, que certamente teria sido colocada caso ela já existisse na época do Marco Civil”, explicou. Para ele, a decisão do STF reconheceu a possibilidade de regulamentação e fiscalização dessas obrigações pelo Poder Executivo.

Ignorância ou má fé: especialistas divergem sobre os riscos

Em entrevista à CNN Brasil, o especialista em tecnologia e inovação Arthur Igreja destacou a importância de medidas voltadas ao enfrentamento da violência digital contra mulheres, especialmente nos casos de produção de imagens íntimas por inteligência artificial sem consentimento. 

Igreja também contestou a ideia de que as plataformas atuem apenas como intermediárias neutras na circulação de conteúdos. “O algoritmo tem um poder enorme de distribuição, de segmentação e direcionamento. Então não é como se a plataforma fosse absolutamente neutra”, declarou. Para ele, a regulamentação pode ainda impulsionar uma retomada mais ampla do debate no Congresso, com participação da sociedade, das empresas e de especialistas.

Ao tratar dos pontos que considera problemáticos, o especialista criticou a reunião, nos mesmos decretos, de crimes de identificação mais objetiva e temas sujeitos a disputas políticas. “O grande problema desses decretos é que eles trouxeram questões que são universais junto com temas que são muito mais subjetivos, que estão muito mais no campo da política, e tudo isso foi empacotado”, afirmou.

Ouvido pelo Bereia, o pesquisador Josir Cardoso Gomes avalia que os decretos não ameaçam a liberdade de expressão, pois não autorizam a ANPD a moderar publicações individuais. Gomes é professor da Escola de Comunicação, Mídia e Informação e da Faculdade de Direito da Fundação Getulio Vargas e vice-coordenador do Laboratório em Rede de Humanidades Digitais. Para ele, as normas apenas operacionalizam a decisão do STF sobre o artigo 19 do Marco Civil da Internet e estabelecem mecanismos de enfrentamento a crimes digitais. 

Na avaliação do pesquisador, os efeitos práticos dos decretos, porém, não devem ser imediatos. “Em curto prazo e, provavelmente até o fim de 2026, os decretos que alteram a regulamentação do Marco Civil da Internet ainda não surtirão qualquer efeito”, garante. Ele explica que a ANPD ainda não dispõe dos instrumentos técnicos e de gestão necessários para aplicar as medidas. “A agência não tem condições de implementar as mudanças definidas nos dois decretos”, acrescenta.

As próprias plataformas também precisarão adaptar seus procedimentos e criar mecanismos para evitar as sanções previstas. Gomes ressalta que as normas não foram formuladas de maneira isolada pelo Executivo. “Eles vieram para operacionalizar a decisão do Supremo Tribunal Federal acerca da constitucionalidade do Artigo 19 do Marco Civil da Internet”, explica. Segundo ele, “foram criados para que o governo tenha como seguir a lei”.

O pesquisador também diferencia o objeto dos decretos do enfrentamento direto à desinformação. “Os decretos não tratam de desinformação e sim de coibir crimes”, afirma. Ainda assim, considera que as medidas podem afetar indiretamente esse mercado, já que “a produção de desinformação se alimenta das práticas criminosas e vice-versa”. Em longo prazo, avalia, a redução de crimes digitais pode enfraquecer grupos que lucram tanto com atividades criminosas quanto com conteúdos desinformativos.

Ao tratar da liberdade de expressão, Gomes desloca a discussão para o poder exercido pelas próprias empresas sobre a circulação de conteúdos e, assim como Igreja, acredita que as plataformas não são neutras. “Atualmente o maior risco à liberdade de expressão vêm das corporações que controlam as plataformas”, ressalta. Ele lembra que canais inteiros podem ser retirados do ar sem explicações claras aos produtores ou à sociedade. “Hoje já existe censura e ela é coordenada pelos entes privados e não pelos órgãos do Estado”, alerta.

Ao comentar as críticas feitas por parlamentares ligados a segmentos religiosos, o pesquisador adotou um tom mais incisivo. “Só consigo ver dois motivos pelos quais os parlamentares apontam risco à liberdade de expressão: ignorância ou má fé”, aponta. Para Gomes, “não existe previsão para que a ANPD faça qualquer tipo de moderação a postagens individuais, logo não há nenhum risco”.

O pesquisador também sugeriu que seja examinada a relação entre parlamentares e entidades que atuam em defesa dos interesses das empresas de tecnologia. Ele citou o Conselho Digital, a Câmara Brasileira de Economia Digital e a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia como organizações presentes no debate regulatório em defesa do setor.

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A análise dos decretos, dos documentos oficiais e da avaliação do especialista ouvido pelo Bereia não confirma as alegações de que as novas regras criam mecanismos de censura ou autorizam perseguição a grupos religiosos, pelo contrário, o Decreto  nº 12.975  garante, em seu artigo artigo 16-G, parágrafo 2º, à liberdade religiosa e de crença. As medidas concentram-se na responsabilização das plataformas digitais e na prevenção de crimes previstos em lei, além de leis que garantam a proteção das mulheres em ambiente digital. 

Ao transformar a regulamentação das plataformas digitais (big techs) em um debate sobre supostas ameaças à liberdade de crença, parlamentares ligados a segmentos religiosos reforçam o relato que não encontra respaldo no texto dos decretos. Mais do que uma disputa jurídica, o episódio revela como argumentos de censura continuam sendo mobilizados no debate público, mesmo quando não são sustentados pelas normas que se pretende contestar. A mesma estratégia de sempre: desinformação como arma política. 

Referências

Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD)

https://www.gov.br/anpd/pt-br/assuntos/marco-civil-da-internet – Acesso em 24 jul. 2026

https://www.gov.br/anpd/pt-br/assuntos/noticias/nota-anpd-decretos-marco-civil – Acesso em 24 jul. 2026

Agência Senado

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/05/26/magno-malta-anuncia-pdls-contra-decretos-de-lula-que-regulam-big-techs – Acesso em 24 jul. 2026

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/05/26/decreto-sobre-remocao-de-posts-na-internet-e-ataque-a-liberdade-afirma-amin – Acesso em 24 jul. 2026

Câmara dos Deputados

https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2626813 – Acesso em 24 jul. 2026

https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?fichaAmigavel=nao&idProposicao=2627043 – Acesso em 24 jul. 2026

https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?fichaAmigavel=nao&idProposicao=2627017 – Acesso em 24 jul. 2026

https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2626866 – Acesso em 24 jul. 2026

CNN Brasil

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/decretos-de-lula-sobre-big-techs-entram-em-vigor-sob-pressao-da-oposicao/ – Acesso em 26 jul. 2026

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/especialista-detalha-impactos-dos-decretos-de-lula-sobre-big-techs/ – Acesso em 26 jul. 2026

ICL Notícias

https://iclnoticias.com.br/oposicao-decreto-lula-regulacao-plataformas/ – Acesso em 24 jul. 2026

Palácio do Planalto

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2026/decreto/d12975.htm – Acesso em 24 jul. 2026

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2026/decreto/d12976.htm – Acesso em 24 jul. 2026

Supremo Tribunal Federal

https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/stf-define-parametros-para-responsabilizacao-de-plataformas-por-conteudos-de-terceiros/ – Acesso em 24 jul. 2026

Em ações de campanha eleitoral, irmãos Bolsonaro mentem sobre urnas eletrônicas e repetem o pai, ex-presidente

Nos últimos dias, os irmãos Bolsonaro realizaram ações de campanha eleitoral nas quais atacaram as urnas eletrônicas do Brasil com afirmações falsas, já desmentidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em em evento com embaixadores, em 21 de julho passado, disse que as máquinas usadas nas eleições brasileiras seriam da Smartmatic, empresa suspeita de fraudes eleitorais na Venezuela.

A afirmação não é nova: segundo nota do TSE publicada em 2020, a mentira circula pelas mídias sociais desde as eleições de 2018. De acordo com a Corte, as urnas eletrônicas brasileiras foram projetadas e são geridas inteiramente pela Justiça Eleitoral. A produção das máquinas é feita por empresas selecionadas em licitações públicas de ampla concorrência. 

Imagem: Reprodução/Facebook

“Há uma denúncia por parte do governo americano de suspeitas de fraudes em processo eleitoral eletrônico, em especial na Venezuela, inclusive utilizando uma documentação do próprio serviço de inteligência americano, a CIA, apontando sobre a possibilidade de vulnerabilidades do sistema eletrônico de votação (…) Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras são da mesma empresa”, disse o senador.

A nota do TSE destaca que a Smartmatic havia participado da licitação para fabricação das máquinas em 2020, mas perdeu para a empresa Positivo. Desse modo, não há fornecimento nem programação de urnas eletrônicas, apenas treinamento de profissionais para prestar suporte técnico e operacional das máquinas, e prestação de serviços de conexão de dados e voz para o Tribunal.

Segundo apuração do Uol, o documento da CIA citado por Flávio Bolsonaro relata preocupações da inteligência norte-americana com as eleições venezuelanas entre 2004 a 2020 e não estabelece relações entre as urnas do brasileiras e do país vizinho.

Pré-candidato repete o gesto que deixou Jair Bolsonaro inelegível

O ataque do senador às urnas é semelhante ao gesto do pai, o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), que levou à perda do seu poder político e consequente inegibilidade até 2030. Em evento também com embaixadores, em julho de 2022, convocado e realizado com o uso da máquina pública, o então presidente, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, afirmou, sem provas, que as urnas eletrônicas não seriam seguras e confiáveis.

Imagem: Reprodução/Youtube

Em função do episódio e do uso da estrutura do governo para organização e transmissão do evento, o TSE condenou Jair Bolsonaro por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. 

Flávio Bolsonaro citou diretamente a condenação do pai durante o discurso, que foi realizado no evento Ciclo de Debates Debatendo o Brasil, organizado por empresas privadas.

“O ex-presidente Jair Bolsonaro, ele está inelegível após uma reunião com embaixadores. Alguém que tinha uma preocupação com a transparência e a segurança do nosso sistema eleitoral e apenas manifestava suas preocupações para que os embaixadores levassem esse cenário de preocupação para os seus países”, disse o pré-candidato.

Ataque coordenado

Dois dias após as declarações do pré-candidato senador do PL, o irmão dele, o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), atacou o sistema eleitoral em uma live com um influenciador argentino. Fernando Cerimedo foi consultor da campanha de Javier Milei à Presidência da Argentina, em 2023, e foi indiciado pela Polícia Federal (PF) no inquérito da tentativa de golpe de Estado em 2022-2023 no Brasil.

Durante a live, realizada em 23 de julho, Eduardo Bolsonaro e Fernando Cerimedo alegam que as urnas eletrônicas foram fraudadas para interferir nos resultados das eleições em 2022. O deputado cassado chega a afirmar que a votação na região Nordeste pode ter mais adulterações: “No Nordeste do Brasil é esperado que seja uma vitória da esquerda. Por ali eles ficam mais confortáveis de fazer uma alteração”.

Imagem: Reprodução/Youtube

Eduardo Bolsonaro também relaciona a região Nordeste a uma mentira sobre mesários votarem por eleitores ausentes após as 17 horas, quando se encerra o período de votação. A informação falsa já circulou tempos atrás pelas redes digitais e foi desmentida pela Justiça Eleitoral.

 “É complicado que das cinco horas da tarde comece a entrar vários votos do Nordeste. O que você começa a pensar? Poxa, depois das cinco da tarde os mesários, que normalmente no Brasil são os mesmos todas as eleições, já se conhecem. Se todos eles forem da mesma ideologia eles podem perfeitamente no final chegar e falar: ‘Ó, vou digitar aqui o título de leitor do cara e você vota por ele aí’. Faltou a votação, João da Silva, digita o número, vota aí na maquininha, João da Silva’. Aí vai lá e vota lá no candidato da esquerda, vamos supor, no Lula. E aí eles vão começando a colocar mais e mais votos dentro”, disse o filho ex-presidente Jair Bolsonaro, sem apresentar qualquer prova sobre a afirmação.

De acordo com o protocolo da Justiça Eleitoral, a liberação da urna para votação só acontece após a identificação biométrica do eleitor, ou habilitação pelo seu ano de nascimento. 

Conforme as orientações oficiais: “O ano de nascimento não consta no caderno de votação, nem está facilmente acessível para o mesário. Por isso, é necessário que o eleitor compareça às urnas para repassar a informação.Tanto a operação em si quanto a informação de quem liberou o eleitor são registradas no log da urna eletrônica e podem ser consultadas em uma auditoria posterior”.

Nas eleições de 2022, o influenciador argentino Fernando Cerimedo fez diversas afirmações falsas sobre o sistema eleitoral brasileiro, chegando a afirmar em um vídeo que havia recebido um relatório secreto que provava irregularidades nas urnas eletrônicas. O documento citado no vídeo é um material falso que já foi desmentido.

Segundo as investigações da Polícia Federal, as informações falsas disseminadas pelo influenciador alimentaram o planejamento do golpe de Estado no Brasil, para que Jair Bolsonaro se mantivesse no poder, depois de ter perdido as eleições.  A apuração resultou no indiciamento do argentino, em novembro de 2024.

Mentira recorrente

Ataques às urnas eletrônicas são frequentes em conteúdos falsos que circulam em ambientes religiosos, e são checados pelo Bereia desde 2020. Em 2024, um levantamento do Bereia apurou que a desinformação sobre o sistema eleitoral esteve entre os temas que marcaram a campanha eleitoral daquele ano.

Em novembro 2020, Bereia checou alegações falsas de Eduardo Bolsonaro sobre suspeitas de fraude na apuração de votos das eleições municipais. No mesmo ano, a fala de um pastor sobre a suposta “insegurança” das urnas também foi checada e classificada como enganosa.

É importante que o público fique atento para não cair em discursos falsos carregados de tom de denúncia, insistentemente usados em campanhas eleitorais. A referência à agência de inteligência e espionagem dos Estados Unidos, a CIA, também merece atenção, uma vez que levanta suspeitas, no debate público, sobre possíveis articulações para interferência estrangeira nas eleições do Brasil pró-candidatura de Flávio Bolsonaro.

Os ataques dos irmãos Bolsonaro ao sistema eleitoral renderam audiência nas mídias sociais. Dados da plataforma de monitoramento Meltwater divulgados pela Agência Lupa mostram que, após o discurso de Flávio Bolsonaro, publicações sobre fraudes nas urnas eletrônicas registraram o maior alcance médio dos últimos seis meses.

No X, antigo Twitter, e no Youtube, a média estimada de alcance é de 20,3 milhões de perfis no dia da fala do senador. Menções a supostas fraudes também aumentaram em aplicativos de mensagem: dados da plataforma OpenMeasures apontam que conversas sobre urnas em aplicativos como Telegram e redes como BlueSky e TikTok teve o maior volume desde janeiro.

A média do alcance de mensagens sobre voto impresso também cresceu: segundo dados da Meltwater, o alcance chegou a 23,4 milhões de perfis distintos no X e no YouTube.

De acordo com a Lupa, grande parte das publicações menciona a falsa relação entre as urnas brasileiras e a empresa Smartmatic. Por outro lado, há um volume expressivo de publicações que contestam as afirmações falsas.

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Bereia reafirma o que já vem sendo verificado há anos: as alegações antecipadas de fraude nas urnas eleitorais do processo eleitoral do Brasil são falsas e têm sido frequentemente desmentidas pelo TSE. Tais acusações também não encontram sentido nos resultados dos pleitos anteriores. O sistema questionado é o mesmo que consagrou Jair Bolsonaro presidente em 2018, e que tornou o Partido Liberal (PL) a agremiação com o maior número de deputados federais eleitos em 2022.

Referências

Tribunal Superior Eleitoral

https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2020/Novembro/empresa-smartmatic-nao-fornece-urnas-eletronicas-ou-softwares-para-as-eleicoes-brasileiras Acesso 27 JUL 2027

g1

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/07/22/flavio-bolsonaro-diz-que-urnas-usadas-no-brasil-sao-de-empresa-suspeita-de-envolvimento-em-fraudes-na-venezuela.ghtml Acesso 27 JUL 2027

https://g1.globo.com/politica/noticia/2022/07/18/bolsonaro-reune-embaixadores-para-repetir-sem-provas-suspeitas-ja-esclarecidas-sobre-urnas.ghtml Acesso 27 JUL 2027

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2024/11/21/saiba-quem-e-o-influenciador-argentino-ex-estrategista-de-milei-indiciado-em-inquerito-sobre-tentativa-de-golpe.ghtml Acesso 27 JUL 2027

O Globo

https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/07/23/eduardo-bolsonaro-descredibiliza-sistema-eleitoral-brasileiro-em-live-com-argentino-indiciado-no-inquerito-do-golpe.ghtml Acesso 27 JUL 2027

UOL

https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/07/22/relatorio-cia-urnas-venezuela-flavio.ghtm Acesso 27 JUL 2027

Euronews

https://pt.euronews.com/2026/07/17/venezuela-cia-revela-provas-da-maquina-eleitoral-usada-pelo-chavismo-desde-2012 Acesso 27 JUL 2027

Agência Lupa

https://www.agencialupa.org/jornalismo/2024/11/19/fake-de-argentino-alimentou-plano-para-golpe-e-morte-de-lula-diz-pf Acesso 27 JUL 2027

https://www.agencialupa.org/jornalismo/2022/11/10/relatorio-ffaa-fraude-urnas Acesso 27 JUL 2027

https://www.agencialupa.org/reportagem/2026/07/24/ataques-de-flavio-bolsonaro-as-urnas-geram-pico-de-mencoes-a-fraude-eleitoral-em-redes Acesso 27 JUL 2027

DW

https://www.dw.com/pt-br/defesa-entrega-relatório-sobre-o-sistema-eleitoral-sem-apontar-fraude/a-63707625 Acesso 27 JUL 2027

Justiça Eleitoral

https://www.justicaeleitoral.jus.br/fato-ou-boato/checagens/e-mentira-que-mesarios-votam-na-urna-eletronica-no-lugar-de-eleitores/# Acesso 27 JUL 2027

https://www.justicaeleitoral.jus.br/fato-ou-boato/checagens/nao-e-verdade-que-mesario-pode-votar-em-nome-da-eleitora-ou-eleitor/# Acesso 27 JUL 2027

Vero Notícias

https://veronoticias.com/artigo/inteligencia-suspeita-de-acao-da-cia-contra-o-brasil/ Acesso 27 JUL 2027

Conteúdos sobre suposta “igreja bolsonariana” circulam nas redes digitais

Uma antiga alegação de que apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) criaram uma “igreja bolsonariana” (ou “bolsoriana”) voltou a circular nas redes digitais, acompanhada de vídeos apresentados como suposta prova da existência da instituição. Compartilhadas principalmente em tom de denúncia, crítica ou deboche, as gravações são apresentadas como evidência de que apoiadores do político teriam fundado uma denominação religiosa dedicada a ele. A checagem do Bereia, porém, mostra que as publicações reúnem conteúdos de diferentes origens, entre gravações descontextualizadas e outras com tom satírico.

Contexto de um dos vídeo

Uma das gravações foi compartilhada massivamente nas últimas semanas, como prova da existência da chamada “Igreja Bolsoriana”. O vídeo mostra pessoas reunidas em um ambiente semelhante ao de uma celebração religiosa. Parte dos membros usa roupas com a imagem de Jair Bolsonaro e, ao fundo, aparecem símbolos e mensagens de apoio ao ex-presidente, além de críticas a integrantes do governo federal e do Poder Judiciário. 

Imagem: Reprodução/Instagram

As imagens são reais, mas não apresentam elementos que comprovem a criação de uma instituição religiosa com esse nome. Não há identificação formal da congregação, endereço, nome de liderança, calendário de cultos, estatuto ou qualquer documento relacionado à abertura de uma nova denominação. Além disso, não há como precisar a data da realização do encontro religioso. O cenário se assemelha a uma reunião realizada em espaço doméstico, sala ou garagem, na qual os participantes manifestam simultaneamente sua fé e preferência política. 

A expressão “igreja bolsonariana” foi utilizada por páginas e perfis que republicaram as imagens, muitas vezes em tom de crítica, deboche ou denúncia. O material mostra a presença de símbolos comumente expostos por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro em uma atividade religiosa, mas não demonstra que o local tenha sido constituído como uma igreja dedicada a ela.

Humor levado a sério

Um dos vídeos mais compartilhados, que foi publicado em 2024 e voltou a circular nos últimos dez dias, mostra um homem que diz ser pastor de uma “igreja bolsonariana” e reclama dos baixos valores oferecidos pelos participantes. Na gravação, ele exibe notas de R$ 2 e um saco de moedas, critica as contribuições e declara que a arrecadação de um culto de domingo deveria alcançar pelo menos R$ 25 mil.

Imagem: Reprodução/TikTok

O homem é Rod Rocha, empresário e produtor de vídeos humorísticos. Em seus perfis, ele interpreta de maneira séria um apoiador radical de Jair Bolsonaro e publica situações inventadas. A descrição de sua conta no TikTok, entretanto, informa que os conteúdos envolvem “fantasias, sátiras, comédia, sem base na realidade” e foi verificado, em 2024, por agência de checagem. 

A estratégia utilizada por Rocha ajuda a explicar por que parte do público interpreta seus vídeos como verdadeiros. O influenciador fala diretamente para a câmera, mantém postura séria e não insere risadas, legendas ou outros sinais evidentes de que se trata de uma encenação. Quando as gravações são retiradas de seus perfis originais e republicadas sem a identificação do autor, o aviso de sátira desaparece.

Exemplo de compartilhamento da sátira. Imagem: Reprodução/Instagram

O mesmo personagem aparece em outras histórias falsas. Rod Rocha já publicou vídeos nos quais pede contribuições para a construção de uma estátua de 50 metros de Bolsonaro no centro do Rio de Janeiro e afirma que um acidente doméstico sofrido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva seria usado para substituí-lo por um sósia.

Outro influencer que usa o humor para criticar a relação entre igrejas e bolsonarismo é o ator Everaldo Leite, que se apresenta em seu perfil como criador de “humor crítico e sátiras sociais com personagens que denunciam hipocrisia”. Entre seus personagens está o “Pastor Everaldo”, integrante da fictícia “Religião de Marte”. Em uma das publicações, ele aparece em frente à montagem de um templo identificado como “Assembleia de Zeus Bolsonariana”, anunciando a inauguração da suposta igreja. Leite produz muitos vídeos com conteúdo fictício sobre o chamado Pr. Everaldo, fundador da dita Igreja Bolsonariana.

Imagem: Reprodução/Instagram

Assim como o influencer Rod Rocha, Leite deixa claro que o conteúdo que compartilha é fictício e utiliza recursos de humor para satirizar a associação entre política e religião, porém, ainda assim, há muitos compartilhamentos de pessoas que dão crédito às publicações.

O caso do “Patriota da Pedra”

Outro caso relacionado à alegação da criação de uma igreja dedicada ao ex-presidente da República envolve Joseilson José da Silva, morador de Petrolina, no Sertão de Pernambuco. Ele ganhou repercussão nas redes digitais e em sites da imprensa local e nacional, em janeiro de 2026, depois de aparecer carregando uma pedra de aproximadamente 25 quilos amarrada ao pescoço, com a inscrição “Bolsonaro 22”. 

Imagem: Reprodução Correio Brasiliense

Imagem: Reprodução/Instagram

Nos vídeos, Silva afirmou que “Jeová” teria se manifestado a um pastor de Petrolina e determinado que apoiadores do ex-presidente realizassem o “sacrifício” de carregar pedras com o nome de Bolsonaro. Ele também anunciou que, junto com um pastor ou “irmão”, estaria criando uma igreja “100% bolsonariana”.

O pernambucano disse que participaria da chamada “Caminhada pela Liberdade”, organizada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), em janeiro passado, e apareceu em publicações que o associavam ao ato político. Entretanto, Silva fez um vídeo, claramente manipulado por inteligência artificial, pelo qual se coloca no ato, sem contudo ter participado dele. Tal publicação reforça o aspecto satírico e pouco comprometido de suas publicações.

Imagem: Reprodução/Instagram

Em 28 de maio de 2026, em entrevista a uma rádio local, Joseilson Silva declarou que não era mais bolsonarista. Ele afirmou ter “pulado do barco” após se decepcionar com integrantes do grupo político e mencionou um episódio envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. 

Imagem: Reprodução/Instagram

Na mesma entrevista, foi feito um questionamento sobre a suposta igreja. Joseilson Silva garantiu que a proposta não teria sido uma invenção e afirmou que ele e um irmão realmente chegaram a fundá-la. No entanto, não apresentou documentos, endereço, registros, imagens de uma sede ou qualquer outro elemento que comprovasse a existência formal da instituição. A própria apresentadora demonstrou dificuldade em identificar quando o entrevistado falava seriamente e quando mantinha o tom performático que marca seus vídeos no Instagram. 

Imagem: Reprodução/Instagram

Ao contrário dos conteúdos produzidos por Rod Rocha e Everaldo Leite, cujo caráter satírico é informado pelos próprios autores, o caso de Joseilson Silva é marcado por declarações contraditórias e performances que dificultam distinguir o que é encenação e o que ele afirma ser verdadeiro.

O perfil de Joseilson utiliza elementos de humor de absurdo, como a pedra presa ao pescoço, o anúncio de um sacrifício coletivo e referências bíblicas empregadas em defesa de um político. Todavia, ele não explicita as publicações como sátira. Por isso, as falas do pernambucano foram tratadas por parte do público e da imprensa como declarações verdadeiras.

De qualquer forma, afirmar em um vídeo que uma igreja foi ou será fundada não comprova que a instituição exista. Até o momento, os conteúdos disponíveis mostram apenas a afirmação de Joseilson Silva de ter criado, por alguns meses, a dita igreja bolsonariana, sem apresentar qualquer estrutura religiosa constituída. 

Religião e política

A circulação de vídeos que associam práticas religiosas ao apoio político encontra um contexto já conhecido no Brasil: a aproximação entre lideranças religiosas e agentes políticos, especialmente em períodos eleitorais. Como mostrou Bereia em reportagem publicada em junho de 2026, a presença de candidatos em cultos, cerimônias de oração e homenagens públicas tem se tornado frequente em diferentes denominações cristãs, levantando debates sobre os limites entre a liberdade religiosa e o uso dos espaços de culto como plataforma de projeção política. Essa aproximação, entretanto, não significa que exista uma denominação religiosa criada para cultuar um líder político. A participação de políticos em celebrações religiosas ou o apoio de lideranças religiosas a candidaturas não configura, por si só, a criação de uma nova igreja. O que os vídeos analisados exploram é justamente a associação entre símbolos religiosos e políticos para sustentar a falsa alegação de que haveria uma “igreja bolsonariana”.

Outra reportagem recente do Bereia lembra que a legislação brasileira garante tanto a liberdade religiosa quanto a laicidade do Estado. A Justiça Eleitoral não restringe manifestações de fé, mas pode atuar quando templos, lideranças religiosas ou estruturas eclesiásticas são instrumentalizados para favorecer candidaturas, comprometendo a igualdade da disputa eleitoral. Em decisões recentes, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reafirmou que o uso de espaços religiosos para promoção eleitoral pode caracterizar abuso de poder político e econômico, ainda que não haja pedido explícito de votos. 

É justamente nesse cenário que conteúdos satíricos e vídeos descontextualizados encontram terreno para circular. Ao registrar cultos marcados por manifestações políticas ou utilizar personagens humorísticos que simulam igrejas fictícias, essas publicações alimentam a percepção de que teria surgido uma denominação oficialmente dedicada ao ex-presidente Jair Bolsonaro. As evidências reunidas por Bereia, no entanto, mostram que essa conclusão não encontra respaldo nos fatos e tem sido utilizada, principalmente, por pessoas e grupos que buscam publicar conteúdo crítico a evangélicos.

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Bereia classifica como falsa a afirmação de que os vídeos comprovam a criação de uma “igreja bolsonariana”, uma igreja dedicada à homenagem e adoração do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro.

As publicações misturam conteúdos de origens distintas. Uma das gravações mostra uma reunião religiosa com forte presença de símbolos bolsonaristas, mas não identifica o grupo como uma nova igreja. Outros vídeos são sátiras produzidas pelo influencer Rod Rocha e pelo ator e humorista Everaldo Leite e foram retirados do contexto humorístico em que foram publicados.

No caso de Joseilson José da Silva, as declarações sobre a fundação da igreja não são acompanhadas de documentos ou de qualquer evidência de que uma instituição religiosa tenha sido efetivamente criada. Suas performances e versões contraditórias dificultam determinar quais afirmações são verídicas, mas também não comprovam a existência do templo. 

O que está documentado é a presença de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro e de sua ideologia política em setores de igrejas cristãs já existentes e a utilização de símbolos religiosos em manifestações políticas do grupo. Isto tem sido amplamente tratado por Bereia em suas publicações e não equivale à abertura de uma denominação oficialmente dedicada ao ex-presidente.

Ao reunir sátiras, declarações performáticas e imagens descontextualizadas, as publicações induzem o público a acreditar na existência de uma instituição que não foi comprovada, o que serve apenas para depreciar um grupo religioso sobre o qual se pretende criticar.

Referências

Estadão

https://www.estadao.com.br/estadao-verifica/pastor-cobra-dos-fieis-que-ta-pouco-satira/ – Acesso em 19 jul. 2026

Correio Braziliense

https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2026/01/7338286-bolsonarista-carregara-pedra-de-25-kg-na-caminhada-com-nikolas.html – Acesso em 19 jul. 2026

O Rio Branco

https://oriobranco.net/homem-anuncia-fundacao-de-igreja-inspirada-em-bolsonaro-e-gera-repercussao-nas-redes/ – Acesso em 19 jul. 2026

Comparação entre cartas de Bolsonaro e de Lula omite diferenças jurídicas 

Desde o sábado 11 de julho, circulam amplamente em perfis de mídias sociais de identidade religiosa reações sobre uma carta escrita pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em prisão domiciliar, intitulada “Carta aos Brasileiros”. As postagens dizem respeito mais sobre as consequências da divulgação da carta e menos sobre o conteúdo dela e muitas são baseadas em desinformação pois comparam o procedimento atual com os que tornaram públicas cartas que o presidente Luis Inácio Lula da Silva (PT) escreveu quando esteve preso nas dependências da Polícia Federal (2018-2019).

A carta de Jair Bolsonaro foi divulgada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas redes digitais, após uma visita ao pai. Nela, o ex-presidente, condenado por tentativa de golpe de Estado para permanecer no poder depois de perder as eleições de 2022, pede a união da direita em torno da pré-candidatura do senador à Presidência da República nas eleições deste ano. “O momento é de arregaçar as mangas, deixarmos de lado as possíveis diferenças e cada um se empenhar pelo nosso pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, a melhor opção para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e do empobrecimento”, diz um trecho da carta lida e divulgada pelo filho em uma live no seu canal do Youtube, em 11 de julho passado.

A publicação da carta, porém, levou a uma reação imediata do Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro relator do processo que condenou Jair Bolsonaro, Alexandre de Moraes, responsável pelo acompanhamento do cumprimento da pena, avaliou que o ex-presidente desrespeitou, mais uma vez, uma das medidas cautelares impostas à prisão domiciliar. Trata-se da proibição de usar redes digitais, inclusive por intermédio de terceiros, e que a visita de Flávio ao pai foi usada para contornar essa restrição. A decisão judicial determina que não haja visitas de Flávio Bolsonaro ao pai depois do primeiro turno das eleições. A defesa do ex-presidente foi demandada a explicar se ele sabia que a carta seria divulgada. 

Como reação, Flávio Bolsonaro e apoiadores passaram a ocupar as redes digitais com críticas à determinação do STF alegando perseguição em comparação ao período em que o presidente Lula esteve preso nas dependências da Polícia Federal, em Brasília, por 580 dias entre 2018 e 2019.

Imagem: Perfil de Flávio Bolsonaro/Instagram. Publicação de 14 de julho de 2026

Vários perfis com identidade religiosa repercutiram este conteúdo. Bereia checou a pertinência da crítica de perseguição e da comparação com o que ocorreu durante o período da prisão de Lula.

Prisão domiciliar e conflito familiar e não perseguição

Na carta entregue a Flávio Bolsonaro, o ex-presidente afirma que seu filho será seu “porta-voz” e manifesta confiança em uma eventual candidatura dele à Presidência da República.

Imagem: Carta enviada por Jair Bolsonaro ao senador Flávio Bolsonaro. Fonte: G1.

A divulgação da carta se deu no contexto em que Bolsonaro cumpre prisão domiciliar determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), por conta de fragilidades na saúde do ex-presidente condenado. Ele foi transferido da Papudinha (prédio situado no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, com dependências especiais usadas para abrigar autoridades e policiais) para regime fechado na própria residência, por 90 dias, em razão do tratamento de uma broncopneumonia. Tendo sido encerrado o período, em 25 de julho, o STF prorrogou a medida por tempo indeterminado, mantendo as restrições anteriormente impostas, entre elas a proibição do uso de mídias digitais e de outros meios de comunicação externa, direta ou indiretamente, inclusive por intermédio de terceiros.

Após a divulgação da carta, o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) encaminhou pedido ao STF para revogação da prisão domiciliar, alegando que Bolsonaro utilizou o filho para se comunicar publicamente. A defesa sustenta que a carta foi escrita para uso privado e que sua divulgação ocorreu por iniciativa exclusiva de Flávio Bolsonaro.

O pedido de Bolsonaro para a união da direita em apoio à candidatura do filho à Presidência da República ocorre também no contexto da crise política em torno de um conflito familiar: o rompimento da madrasta, a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro, com o enteado Flávio Bolsonaro. Ela publicou um vídeo, no final de junho passado, no qual acusa formalmente o enteado de tê-la desrespeitado, maltratado e humilhado durante uma ligação telefônica. O estopim da discussão envolveu divergências internas sobre a composição de alianças eleitorais do PL no Ceará. Embora ambos tenham tentado ensaiar um discurso público de pacificação para as eleições de 2026, nos bastidores, interlocutores avaliam que o racha expôs uma disputa direta pelo espólio político e pela liderança do eleitorado conservador no país 

Comparação com cartas de Lula omite diferenças jurídicas

Os discursos de contestação da nova determinação do STF, além de alegarem perseguição, recorrem também à comparação com correspondências enviadas pelo presidente Lula durante o período em que esteve preso na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, entre 2018 e 2019. As postagens afirmam que Bolsonaro estaria recebendo tratamento desigual pela Justiça, ao alegar que Lula também se comunicava politicamente por meio de cartas enquanto cumpria pena. 

Imagem: Publicação do senador Sergio Moro sobre o tratamento jurídico dado a Jair Bolsonaro. Fonte: X. 

A comparação, porém, desconsidera diferenças relevantes entre os dois casos. As cartas de Lula foram escritas durante o cumprimento de pena em regime fechado (não em domiciliar), e não havia, na decisão judicial que disciplinou sua prisão, proibição de envio de correspondências ou de divulgação de seu conteúdo por terceiros. As cartas eram destinadas a familiares, aliados políticos e apoiadores, e, posteriormente, algumas delas foram divulgadas publicamente por seus destinatários. 

No caso de Bolsonaro, a controvérsia jurídica não está relacionada ao conteúdo da carta, mas às condições impostas pela decisão que determinou sua prisão domiciliar. Entre as medidas cautelares estabelecidas pelo STF, está a proibição de utilizar mídias sociais e qualquer outro meio de comunicação externa, de forma direta ou indireta, inclusive por intermédio de terceiros.

Por esse motivo, a divulgação da carta passou a ser questionada judicialmente. O pedido apresentado ao STF sustenta que a publicação pode configurar descumprimento das medidas cautelares, já a defesa de Bolsonaro afirma que a divulgação foi iniciativa exclusiva de Flávio Bolsonaro. Assim, a comparação feita nas mídias sociais omite que os casos ocorreram em contextos processuais distintos e sob decisões judiciais diferentes, o que significa que não há registro de que a decisão judicial que disciplinava a prisão de Lula previsse restrição equivalente.

Imagem: reprodução

O Bereia conversou com o advogado Giovani Madeira, que atua na área de Direito Eleitoral para explicar os casos. De acordo com ele, a comparação entre os dois episódios não encontra respaldo jurídico. “Do ponto de vista estritamente jurídico, a comparação não é tecnicamente adequada, pois os regimes de cumprimento de penas e as ordens judiciais impostas a cada um nos momentos citados são diferentes”, afirmou. Madeira lembrou que, no caso de Lula, não havia decisão judicial proibindo a divulgação de cartas, e que Bolsonaro está submetido a medidas cautelares que vedam sua utilização de redes sociais, inclusive de forma indireta.

O advogado também destacou que, sob a perspectiva eleitoral, o episódio suscita outro debate. Segundo ele, a legislação distingue claramente os períodos de pré-campanha e campanha eleitoral. Na pré-campanha, é permitido que agentes políticos apresentem ideias, defendam projetos, enalteçam qualidades pessoais e manifestem apoio a possíveis candidaturas. O limite legal está no pedido explícito de voto ou na propaganda eleitoral antecipada irregular, inclusive contra adversários.

No caso da carta de Bolsonaro, a leitura do documento em apoio a Flávio Bolsonaro motivou uma ação apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na qual uma federação partidária sustenta que a transmissão caracterizou propaganda eleitoral antecipada. A defesa do senador argumenta que o conteúdo representou apenas manifestação de apoio político e incentivo à militância, sem pedido explícito de votos. Caberá ao TSE analisar se houve extrapolação dos limites legais da pré-campanha.

Na avaliação de Giovani Madeira, porém, o debate não se restringe a esse episódio. “Não apenas essa carta, mas diversos outros eventos e publicações nas redes sociais já indicam elementos que podem caracterizar antecipação de campanha, cabendo à Justiça Eleitoral analisar cada ato e aplicar as sanções previstas na legislação, quando houver irregularidade”, completou. 

Cobertura também exige precisão ao atribuir decisões do STF

A repercussão do caso também chama atenção para a forma como decisões judiciais são apresentadas na cobertura jornalística. Em processos que envolvem Jair Bolsonaro, é comum que manchetes atribuam diretamente decisões ao ministro Alexandre de Moraes, relator do caso no STF. 

Embora essa atribuição seja tecnicamente correta em decisões monocráticas, a contextualização é importante para informar que o ministro atua no âmbito de um processo em tramitação no STF. A ausência desse contexto pode contribuir para que o debate público concentre a responsabilidade pela decisão exclusivamente no ministro, sem considerar o funcionamento institucional da Corte. 

Esse enquadramento também aparece em manifestações de agentes políticos. Em publicação na rede digital X, o senador Sergio Moro (União Brasil-PR) criticou a decisão ao afirmar que “falta proporcionalidade e legalidade à decisão do ministro Moraes”. 

Imagem: Publicação do senador Sergio Moro (União Brasil-PR) na rede social X em que critica a decisão do ministro Alexandre de Moraes. Fonte: X. 

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O Bereia conclui, portanto, que é enganosa a alegação de que Bolsonaro estaria sendo perseguido judicialmente em razão da divulgação de sua carta ao compará-la às correspondências enviadas por Lula durante sua prisão. Esse discurso omite que os episódios ocorreram sob decisões judiciais distintas e em contextos processuais diferentes. Também desconsidera que a controvérsia envolvendo Bolsonaro está relacionada ao cumprimento das medidas cautelares impostas pelo STF, especialmente à restrição de comunicação por intermédio de terceiros. 

Referências:

G1. https://g1.globo.com/politica/blog/valdo-cruz/post/2026/07/12/carta-de-bolsonaro-poe-em-risco-prisao-domiciliar-com-recurso-do-pt-ao-stf-gera-criticas-de-candidatos-e-incomoda-michelle-bolsonaro.ghtml. Acesso em 14 de julho de 2026.

G1. https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/07/13/carta-lula-prisao.ghtml. Acesso em 14 de julho de 2026.

Congresso em foco. https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/120419/carta-de-bolsonaro-nas-redes-pode-levar-a-revisao-da-prisao-domiciliar. Acesso em 14 de julho de 2026.

Congresso em foco. https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/120457/por-que-lula-podia-divulgar-cartas-preso-e-bolsonaro-nao-entenda. Acesso em 14 de julho de 2026.

EXECUÇÃO PENAL PROVISÓRIA Nº 5014411-33.2018.4.04.7000/PR. https://static.congressoemfoco.com.br/2026/07/14/attachment/2026/07/14/3a5c66_decisc3a3o_entrevistas_lula.pdf?_gl=1*y81f5w*_ga*MTU4NjQ2MjAwNS4xNzc5Njc1ODYy*_ga_V46CYWTD2Z*czE3ODQwNjE1NDEkbzMkZzAkdDE3ODQwNjE1NDEkajYwJGwwJGgw. Acesso em 14 de julho de 2026.

Ataques ao eleitorado nordestino se repetem desde 2014 e reforçam violência política e desinformação 

Desde as eleições presidenciais de 2014, o eleitorado nordestino passou a ser alvo recorrente de discursos xenófobos que buscam deslegitimar sua participação política. Sempre que o resultado das urnas contraria determinados grupos, voltam a circular nas redes digitais mensagens que atribuem aos nordestinos a responsabilidade pela eleição do presidente da República, acompanhadas de afirmações como “nordestino não sabe votar”, “vive de Bolsa Família” ou “vende o voto”. Em 2026, às vésperas de mais um processo eleitoral, esse tipo de conteúdo voltou a ganhar força nas plataformas digitais. O Bereia investigou como esses casos se consolidaram ao longo da última década.

A origem do discurso 

Os ataques ao eleitorado nordestino ganharam força após o segundo turno das eleições presidenciais de 2014, quando a então presidente Dilma Rousseff (PT) se saiu vitoriosa. Embora a candidata tenha recebido votos em todas as regiões do país, seu desempenho expressivo no Nordeste passou a ser apontado por usuários das redes digitais como a principal explicação para o resultado das urnas. A partir daquele momento, multiplicaram-se publicações que responsabilizavam a população nordestina pelos rumos políticos do país e associavam seus eleitores à ignorância, à dependência de programas sociais e à suposta incapacidade de exercer o voto de forma consciente. 

Imagens: Recortes de mensagens ofensivas contra nordestinos publicadas no antigo Twitter (atual X) após as eleições de 2014. Fonte: Terra.

Nos dias seguintes à divulgação do resultado eleitoral, plataformas como Twitter (atual X) e Facebook registraram uma onda de manifestações preconceituosas contra nordestinos. A SaferNet Brasil, organização que monitora violações de direitos humanos na internet, recebeu mais de 400 denúncias de conteúdos com ataques à população da região logo após a confirmação da vitória de Dilma Rousseff. Entre as publicações havia insultos, discursos de exclusão e até propostas de separação do Nordeste do restante do país. As mensagens revelavam que a insatisfação com o resultado das urnas havia se convertido em manifestações de xenofobia regional. 

Imagem: Recortes de mensagens ofensivas contra nordestinos publicadas no antigo Twitter (atual X) após as eleições de 2014. Fonte: Terra. 

Desde então, esse tipo de discurso passou a se repetir a cada eleição presidencial. O conteúdo das mensagens mudou pouco ao longo dos anos: variam os personagens e o contexto político, mas permanecem as tentativas de responsabilizar o eleitorado nordestino pelos resultados das urnas. As publicações costumam associar a região à pobreza, ao assistencialismo, ao atraso econômico e à falta de discernimento político, além de reforçar estereótipos históricos, o que coloca como suspeita a legitimidade do voto de milhões de brasileiros.

Nas eleições de 2018, após o primeiro turno, voltaram a circular mensagens que classificavam os nordestinos como “burros”, “analfabetos”, “preguiçosos” e “dependentes do Bolsa Família”. Os dados da SaferNet Brasil mostram que a intensificação desses discursos acompanha os períodos eleitorais. Em 2018, ano da eleição de Jair Bolsonaro (PSL), as denúncias de conteúdos xenófobos cresceram 595,5% em relação ao ano anterior. Foram registradas 9.703 denúncias, ante 1.395 em 2017, o que demonstra uma escalada dos ataques direcionados, sobretudo, à população nordestina. 

O mesmo padrão se repetiu nas eleições de 2022. Durante a apuração do primeiro turno, apoiadores do então presidente Jair Bolsonaro (agora no PL) passaram a compartilhar postagens em grupos de WhatsApp e nas redes digitais que responsabilizavam o Nordeste pela vantagem obtida por Luiz Inácio Lula da Silva (PT)  na região. Entre as ofensas mais recorrentes estavam expressões como “imbecis”, “jumentos”, “burros”, “miseráveis” e “ingratos”. As mensagens começaram a circular ainda durante a contagem dos votos e se intensificaram à medida que Lula assumia a liderança da disputa nacional. 

Os dados confirmam que esse comportamento não constitui um episódio isolado. Uma pesquisa desenvolvida pelo grupo Interfaces, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), analisou 282 milhões de publicações feitas no antigo Twitter entre julho e dezembro de 2022. O estudo identificou um aumento de 821% nos discursos xenófobos contra nordestinos durante o período eleitoral. À medida que a eleição se aproximava, palavras de conotação depreciativa passaram a aparecer com maior frequência ao lado do termo “nordestino”, e as menções à região triplicaram em outubro, mês em que ocorreram os dois turnos da disputa presidencial. 

Os resultados corroboram os registros da SaferNet Brasil. De acordo com a organização, 2022 foi o terceiro processo eleitoral consecutivo marcado por crescimento expressivo dos crimes de ódio na internet. As denúncias de xenofobia passaram de 1.097, em 2021, para 10.686, em 2022, um aumento de 874%. Além da xenofobia, também houve crescimento dos registros de intolerância religiosa e misoginia, o que deixa explícito como períodos eleitorais favorecem a intensificação de discursos discriminatórios nas plataformas digitais. 

Ao longo desse período, outra estratégia ganhou força nas redes: a divulgação de mapas eleitorais que destacavam o Nordeste na cor vermelha para representar a votação majoritária no Partido dos Trabalhadores (PT). Compartilhadas sem qualquer contextualização, essas imagens passaram a sustentar a falsa informação de que a região seria responsável, sozinha, pela eleição do presidente da República. Na realidade, nenhum estado ou região tem votos suficientes para decidir isoladamente uma eleição presidencial. O presidente é eleito pela soma dos votos válidos de todo o país, e todos os candidatos eleitos recebem apoio em diferentes regiões, ainda que apresentem desempenhos distintos entre os estados.

O que é violência política?

Os ataques dirigidos aos nordestinos durante os períodos eleitorais não se resumem a manifestações de preconceito regional. Ao questionar a legitimidade do voto de uma parcela da população e atribuir a ela a responsabilidade pelos resultados, essas mensagens também podem ser compreendidas como uma forma de violência política baseada na origem regional. 

A cartilha Violência Política de Gênero, elaborada pelo Observatório de Violência Política contra a Mulher com apoio do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), define violência política como qualquer ação, conduta ou omissão que tenha como objetivo impedir, restringir, desestimular ou dificultar o exercício dos direitos políticos de uma pessoa. Conforme o documento, essas práticas podem ocorrer por meio de violência física, psicológica, moral, econômica, sexual ou simbólica. 

Entre essas modalidades, a violência simbólica ocupa lugar central na circulação de discursos xenófobos nas redes digitais. Ela se manifesta por meio de intimidações, humilhações, desqualificação pública, linguagem ofensiva e estratégias destinadas a desacreditar a capacidade política de determinados grupos.

Embora a cartilha trate especificamente da violência política de gênero, seus conceitos ajudam a compreender outras formas de discriminação dirigidas a grupos sociais em razão de características como raça, religião, território ou origem regional. 

Xenofobia eleitoral ameaça a democracia, avalia pesquisadora

Para a professora titular do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Karla Patriota, a intensificação dos discursos xenófobos contra nordestinos durante os períodos eleitorais está diretamente relacionada ao protagonismo político da região e à polarização que marca a política brasileira nos últimos anos.

De acordo com a pesquisadora, que é mestre em Comunicação e doutora em Sociologia, sempre que o voto nordestino ganha relevância no resultado das eleições, parte do debate público deixa de discutir projetos políticos para atacar a identidade dos eleitores. “Eles se intensificam porque, no período eleitoral, o Nordeste aparece com muita nitidez como força política, e isso incomoda determinados setores”.

Na avaliação de Patriota, existe uma inclinação histórica recente do eleitorado do Nordeste ao campo progressista, além de uma relação afetiva muito forte com Lula, que, segundo ela, representa para muita gente uma trajetória de reconhecimento, ascensão e pertencimento. “Quando o voto nordestino se torna decisivo, o ataque deixa de ser à escolha política e passa a atingir a própria identidade regional. Em vez de discutir o voto, desqualifica-se quem vota”, esclarece.

A pesquisadora afirma que o crescimento desses discursos reflete a radicalização da vida pública brasileira e foi potencializado pelas mídias sociais, que ampliaram a circulação de conteúdos discriminatórios. “As redes sociais deram escala, velocidade e aparência de impunidade a preconceitos que já existiam. Hoje, uma fala xenofóbica contra nordestinos pode circular rapidamente, virar meme, ganhar adesão e estimular novos ataques”.

Ela lembra também que nos últimos processos eleitorais, o Nordeste foi tratado como culpado pelo resultado das urnas. “Isso é muito perigoso, porque nega a legitimidade política de uma região inteira. O voto nordestino tem o mesmo valor democrático de qualquer outro voto no Brasil”.

Para Patriota, esse discurso combina preconceito regional e desigualdade social ao associar o voto dos nordestinos ao recebimento de políticas públicas. Conforme seu entendimento, há uma “mistura de xenofobia com desprezo de classe”. Isso significa, acrescenta a pesquisadora, que “a afirmação de que o nordestino vota por causa das políticas sociais, principalmente do Bolsa Família, porque ‘não quer trabalhar’, transforma direito em favor, cidadania em dependência e voto popular em voto inferior. Esse é o ponto mais perverso”.

Na avaliação da professora da UFPE, esse tipo de discurso ameaça diretamente a democracia porque rompe um de seus princípios fundamentais: o reconhecimento da igualdade política entre os cidadãos. Segundo explica, quando ocorre de uma região inteira ser atacada pela forma como vota, o próprio princípio democrático de que cada cidadão vale um voto fica prejudicado. “O discurso xenofóbico também destrói a convivência nacional porque autoriza a humilhação. Primeiro se desumaniza, depois se normaliza o ataque”.

A pesquisadora ressalta ainda que as consequências vão além do ambiente digital. Para ela, essas manifestações produzem constrangimento, silenciam parte da população e aprofundam divisões históricas entre as regiões do país. “Muitos nordestinos passam a se sentir julgados pelo lugar onde nasceram, pelo sotaque, pela condição social, pela história da família e pelo voto. Isso transforma um direito democrático em motivo de exposição e violência simbólica”.

Por outro lado, o comportamento de ataque a essas pessoas acabam por fortalecer a identidade nordestina, segundo avalia Patriota. “Muitos respondem com orgulho, reafirmando a importância cultural, econômica, política e histórica da região para o Brasil”. “Ainda assim”, completa, “nenhuma região deveria precisar provar o tempo inteiro que merece respeito”.

Quando a religião reforça a xenofobia 

Além das mensagens compartilhadas nas redes durante os períodos eleitorais, discursos xenófobos contra nordestinos também passaram a ser reproduzidos por lideranças religiosas e agentes públicos. Em diferentes episódios, essas manifestações associam a região ao atraso, à pobreza, à dependência de programas sociais ou até mesmo à ação de forças malignas, o que contribui para reforçar preconceitos históricos e conferir legitimidade moral ou religiosa à discriminação.

Um dos episódios que confirmam esse comportamento ocorreu poucos dias após o segundo turno das eleições presidenciais de 2022. Durante um culto realizado na Primeira Igreja Batista de Piabetá (RJ), o pastor Luiz Antonio Vieira criticou a vitória de Lula (PT) e afirmou que seus eleitores seriam “inimigos de Deus”.

Em seguida, ele dirigiu ofensas aos nordestinos, e os classificou como um “povo preguiçoso” que “gosta de viver das migalhas”. O religioso também declarou que não voltaria mais ao Nordeste nem consumiria produtos da região. Em outro momento, negou que suas falas configurassem preconceito, e afirmou que não sofria de “nordestinofobia”. O vídeo provocou ampla repercussão e motivou manifestações de repúdio. Dias depois, Vieira divulgou um pedido público de desculpas.

Os discursos xenófobos também alcançaram representantes do poder público. Em fevereiro de 2023, durante uma sessão da Câmara Municipal de Caxias do Sul (RS), o então vereador Sandro Fantinel (Republicanos) sugeriu que produtores rurais deixassem de contratar trabalhadores baianos, pois eles estariam acostumados apenas com “Carnaval e festa”.

As declarações ocorreram após o resgate de mais de 200 trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão em vinícolas da Serra Gaúcha, a maioria oriunda da Bahia. Em fevereiro de 2026, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região manteve a condenação do ex-vereador ao pagamento de R$ 100 mil por danos morais coletivos, ao entender que suas declarações configuraram discriminação baseada na origem regional. 

Em 2026, Bereia também verificou declarações do missionário evangélico Nick Moretti, da Zion Church, que viralizaram nas redes. Durante uma pregação destinada ao público jovem, o religioso afirmou que, ao chegar a Salvador, teve a impressão de que seria necessário “pedir licença para demônio”. Ele também associou o Carnaval de Olinda e símbolos das religiões de matriz africana à atuação de forças malignas. Após a repercussão do vídeo, Moretti divulgou uma retratação pública, reconheceu que suas declarações foram equivocadas e pediu desculpas aos moradores de Salvador e Olinda. 

Outro episódio analisado pelo Bereia envolveu o pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes, que, durante participação em um podcast, afirmou que beneficiários do Bolsa Família desenvolvem uma “mentalidade de miséria” e deixam de trabalhar. Embora não tenha citado diretamente o Nordeste, a declaração recupera um dos principais estereótipos historicamente associados à região: a ideia de que sua população depende de programas sociais e rejeita o trabalho. Na checagem publicada pelo Bereia, dados oficiais mostraram que essa generalização não encontra respaldo nas informações sobre o Bolsa Família nem no perfil de seus beneficiários. 

Em comum, esses episódios demonstram que a xenofobia contra nordestinos vai além de manifestações isoladas nas redes sociais. Quando reproduzidos por líderes religiosos, influenciadores ou agentes públicos, esses discursos ampliam seu alcance, reforçam estereótipos históricos e contribuem para deslegitimar a participação política de milhões de brasileiros em razão de sua origem regional.

***

Dessa forma, ao analisar publicações nas redes digitais, dados da SaferNet Brasil, estudos acadêmicos e episódios que envolvem lideranças religiosas e agentes públicos, Bereia verificou que o discurso de que “nordestino não sabe votar” não encontra fundamento em evidências. Trata-se de um comportamento que se repete desde as eleições presidenciais de 2014 e que se intensifica em períodos eleitorais, especialmente em contextos de polarização política. Além de reforçar preconceitos históricos contra a população nordestina, essas mensagens procuram deslegitimar a participação política de milhões de brasileiros e atribui ao eleitorado da região a responsabilidade exclusiva pelos resultados das urnas. 

Referências:

Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/geral/audio/2014-10/preconceito-contra-nordestinos-nas-redes-aumenta-denuncias. Acesso em 3 de julho de 2026. 

Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2014-10/dilma-vence-no-norte-e-no-nordeste-aecio-ganha-nas-outras-tres-regioes. Acesso em 3 de julho de 2026. 

BCC News Brasil. https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63112880. Acesso em 3 de julho de 2026. 

Terra. https://www.terra.com.br/noticias/eleicoes/nordestinos-sao-hostilizados-apos-vitoria-de-dilma-rousseff,aa13fc86bd059410VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html. Acesso em 3 de julho de 2026. 

Agência Fapesp. https://agencia.fapesp.br/discurso-de-odio-contra-nordestinos-cresceu-821-nas-eleicoes-presidenciais-de-2022/56947. Acesso em 3 de julho de 2026. 

Artigo de Hellen Gouveia Rodrigues de Melo. https://sistemas.intercom.org.br/pdf/submissao/nacional/17/06282024173215667f1dcfe3194.pdf. Acesso em 3 de julho de 2026. 

G1. https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/02/01/miseravel-ingrato-burro-pesquisa-mapeia-aumento-de-ataques-a-nordestinos-em-anos-eleitorais.ghtml. Acesso em 3 de julho de 2026.

G1. https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2022/11/07/pastor-do-rj-que-chamou-nordestinos-de-preguicosos-pede-desculpas-e-diz-que-vai-antecipar-ferias-da-igreja.ghtml. Acesso em 3 de julho de 2026.

G1. https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2022/11/06/em-video-pastor-do-rj-diz-que-petistas-sao-inimigos-de-deus-chama-nordestinos-de-preguicosos-e-causa-revolta-nas-redes-sociais.ghtml. Acesso em 3 de julho de 2026.

Base de dados do SaferNet. https://docs.google.com/spreadsheets/d/1hmB3ZiyABDLe0u2lYVxaXL328GdNI0IQQQGB4d99To8/edit?gid=0#gid=0. Acesso em 3 de julho de 2026.

SaferNet. https://new.safernet.org.br/content/safernet-denuncias-de-xenofobia-na-internet-explodem-apos-1o-turno-das-eleicoes. Acesso em 3 de julho de 2026. 

Cartilha Violência Política de Gênero. https://transparenciaeleitoral.com.br/wp-content/uploads/2022/07/Cartilla-bras-1-1.pdf. Acesso em 3 de julho de 2026.

Consultor Jurídico. https://www.conjur.com.br/2026-fev-28/vereador-e-condenado-por-discurso-xenofobico-contra-nordestinos/. Acesso em 3 de julho de 2026.

Foto de capa: Agencia Brasil

Candidatos extremistas de direita mentem sobre projeto de lei contra a misoginia calar e provocar prisões de religiosos

Circulam amplamente nas redes digitais vídeos publicados pelo advogado criminalista e pré-candidato a deputado federal pelo Paraná Jeffrey Chiquini (Novo) e pelo vereador de Goiânia, pré-candidato a deputado estadual Dieyme Vasconcelos (PL) que afirmam que padres e pastores poderão ser presos por pregarem sermões considerados “machistas”. A afirmação está relacionada à aprovação do Projeto de Lei (PL) 896/2023, que inclui a misoginia (ódio contra mulheres) entre os crimes previstos na Lei do Racismo. Os argumentos expostos nas publicações, que somam milhões de visualizações nas redes digitais, são falsos. 

O texto que compõe o chamado PL da Misoginia, foi apresentado pela senadora Ana Paula Lobato, aprovado pelo Senado Federal e atualmente tramita na Câmara dos Deputados, sob a relatoria da deputada federal Tabata Amaral (PSB), e não criminaliza sermões religiosos nem prevê punição a líderes religiosos pelo simples fato de pregarem suas interpretações da Bíblia. As alegações falsas reforçam um antigo discurso eleitoreiro de que governos de esquerda pretendem perseguir cristãos e restringir a liberdade religiosa no Brasil. 

O que alegam os candidatos 

Um dos vídeos destaca o advogado Jeffrey Chiquini, que ganhou projeção nacional ao atuar na defesa do ex-assessor do governo de Jair Bolsonaro Filipe Martins em processos relacionados à investigação da tentativa de golpe de Estado e dos atos de 8 de janeiro de 2023 em Brasília. Na publicação ele afirma que, a partir do próximo ano, “padres e pastores serão presos” caso algum fiel interprete seus sermões como machistas. De acordo com ele, qualquer fala considerada misógina (de ódio às mulheres) passará a ser enquadrada como racismo, e levará líderes religiosos à prisão.

O advogado ainda afirma que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estaria trabalhando para aprovar a proposta e que o verdadeiro objetivo da esquerda seria “fechar o cerco” contra igrejas evangélicas e católicas, para impedir que a Bíblia seja pregada.

Ao final, conclui que cristãos não deveriam votar em candidatos de esquerda porque esse grupo político desejaria perseguir igrejas e religiosos. Nenhuma dessas afirmações encontra respaldo no texto do projeto ou em ações do atual governo federal.

Imagem: Captura de tela de vídeo publicado por Jeffrey Chiquini no Instagram. Fonte: Instagram. 

O outro pré-candidato, o vereador Dieyme Vasconcelos (PL-GO), também difundiu a mesma desinformação, o que se mostra uma ação articulada. Em vídeo publicado em seu perfil oficial do Instagram, ele afirma que o projeto tornaria crime a leitura de Efésios 5:22, passagem da Bíblia, cuja interpretação justifica a submissão das esposas aos maridos. Vasconcelos disse ainda que padres e pastores poderiam receber penas de até cinco anos de prisão.

O vídeo repete a mesma interpretação falsa apresentada por Jeffrey Chiquini e não apresenta qualquer fundamento jurídico que sustente essa conclusão.

Imagem: Captura de tela de vídeo publicado por Dieyme Vasconcelos no Instagram. Fonte: Instagram. 

O conteúdo também foi compartilhado pelo pastor e pré-candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro Junior Trovão (MDB), cujo vídeo já ultrapassou dois milhões de visualizações nas redes digitais.

Imagem: Captura de tela do compartilhamento do vídeo pelo pastor Junior Trovão no Instagram. Fonte: Reprodução/Instagram

O que, de fato, prevê o PL 896/2023

De autoria da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA), o Projeto de Lei 896/2023 foi aprovado por unanimidade no Senado Federal e aguarda aprovação da Câmara dos Deputados.

A proposta torna crime a misoginia, como a conduta que exterioriza ódio, aversão ou discriminação contra mulheres e inclui essa prática entre os crimes previstos na Lei 7.716/1989 (Lei do Racismo). O objetivo é ampliar a proteção contra manifestações discriminatórias dirigidas às mulheres em razão do gênero.

Em nenhum trecho o projeto menciona sermões religiosos, missas, cultos, leitura da Bíblia, padres, pastores ou qualquer forma de criminalização da atividade religiosa. A lei prevê punição a qualquer expressão pública de ódio a mulheres, qualquer que seja origem.

Além disso, a Constituição Federal assegura a liberdade de consciência, de crença e de culto (artigo 5º, inciso VI). Isso significa que o projeto de lei não altera o direito de igrejas exercerem suas atividades religiosas e apregoarem suas doutrinas, nem autoriza a prisão de líderes religiosos por pregarem suas interpretações sobre textos da Bíblia. Como qualquer cidadão, ministros religiosos somente podem ser responsabilizados quando praticam condutas tipificadas em lei, neste caso o estímulo ao ódio, ainda assim, após análise do caso concreto pelo Poder Judiciário.

Desinformação já circula desde março

Esta não é a primeira vez que o PL é alvo de desinformação. Em março deste ano, Bereia verificou uma série de publicações falsas que afirmavam que a chamada “Lei da Misoginia” proibiria igrejas de pregarem determinados trechos bíblicos ou criminalizaria passagens das Escrituras consideradas ofensivas às mulheres.

Na ocasião, Bereia mostrou que essas interpretações distorcem completamente o conteúdo do projeto de lei, que trata da punição a atos de discriminação e discurso de ódio contra mulheres, e não de manifestações religiosas.

O falso discurso de perseguição aos cristãos

A ideia de que governos de esquerda pretendem fechar igrejas ou perseguir cristãos está nas campanhas eleitorais brasileiras há mais de três décadas e já foi checada diversas vezes por Bereia.

O conteúdo começou a circular ainda na eleição presidencial de 1989, quando mensagens afirmavam que Luiz Inácio Lula da Silva fecharia igrejas caso fosse eleito. Desde então, versões semelhantes reaparecem em praticamente todas as eleições presidenciais.

Essas publicações costumam apresentar características comuns: autoria desconhecida ou pouco transparente, ausência de fontes oficiais, linguagem alarmista e pedidos de compartilhamento urgente para mobilizar eleitores religiosos.

***

Bereia classifica como falsa a afirmação divulgada pelo advogado, pré-candidato do PL deputado federal Jeffrey Chiquini, posteriormente reproduzida por outros agentes políticos e religiosos, de que o Projeto de Lei 896/2023 permitirá prender padres e pastores por pregarem sermões ou lerem passagens bíblicas consideradas machistas.

O projeto não criminaliza a pregação religiosa nem restringe a liberdade de culto garantida pela Constituição. O conteúdo da proposta  trata exclusivamente da inclusão da misoginia entre os crimes de preconceito e discriminação previstos na Lei do Racismo. As publicações analisadas distorcem o texto legislativo para reforçar um discurso recorrente de suposta perseguição estatal às igrejas e aos cristãos, sem qualquer respaldo na proposta em tramitação. Qualquer grupo religioso tem liberdade de culto e de pregação de suas doutrinas no Brasil, desde que não propaguem ódio e discriminação, de forma contrária a leis do País. 

Referências:

Coletivo Bereia. https://coletivobereia.com.br/pela-liberdade-de-expressar-aversao-a-mulheres-lei-da-misoginia-aprovada-no-senado-e-alvo-de-mentiras-e-circula-entre-religiosos/. Acesso em 6 de julho de 2026.

Coletivo Bereia https://coletivobereia.com.br/cristofobia-e-intolerancia-religiosa-as-fake-news-como-estrategia-politica-para-enganar-cristaos-na-campanha-eleitoral-2022/. Acesso em 6 de julho de 2026.

Projeto de Lei 896/2023. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/156025. Acesso em 6 de julho de 2026.

Artigo 5º, inciso VI da Constituição Federal. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em 6 de julho de 2026.

LEI Nº 7.716, DE 5 DE JANEIRO DE 1989. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7716.htm. Acesso em 6 de julho de 2026.

Agência Brasi. https://agenciabrasil.ebc.com.br/tags/8-de-janeiro. Acesso em 6 de julho de 2026.

Vídeo de Michelle Bolsonaro agita debate político nas redes e provoca publicações desinformativas sobre símbolos religiosos

O vídeo publicado por Michelle Bolsonaro (PL) em seus perfis de mídias sociais no último dia 24 de junho, gerou grande repercussão na imprensa e no cenário político brasileiro. No discurso, a ex-primeira-dama, presidente do PL Mulher, braço feminino do Partido Liberal (PL), expõe divisões na campanha eleitoral no interior da agremiação e na família de Jair Bolsonaro. 

No vídeo, Michelle Bolsonaro revela que foi desrespeitada e maltratada pelo enteado, o senador, pré-candidato a presidente da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Imagem: Reprodução/Instagram

O principal motivo da desavença teria sido o estabelecimento da aliança do partido com Ciro Gomes (PSDB), no final de 2025, para o governo do estado do Ceará. A ex-primeira dama considera o político cearense o principal responsável pela inelegibilidade do ex-presidente e havia manifestado publicamente, à época, discordância com a estratégia do partido. Por conta disto, ela foi repreendida por suas declarações, com os filhos do ex-presidente (Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro), com quem a madrasta já tem histórica incompatibilidade, e por líderes do PL. Desde então, ela teve suas ações restringidas aos cuidados com o marido, que cumpre pena em prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado.    

No vídeo publicado em 24 de junho passado, Michelle Bolsonaro se justifica: “Não é questão de política, é questão de coerência. Ciro Gomes foi o principal responsável pelo processo que levou à inelegibilidade do meu marido. Durante a pandemia, numa live com outros esquerdistas, ele incentivou e conclamou as pessoas a chamarem o meu marido de genocida e pediu que repetissem isso o tempo todo”. 

No longo discurso proferido, nas duas partes em vídeo, com um total de quase 30 minutos, a presidente do PL Mulher ainda se queixa de não ter tido suas indicações de mulheres do partido para candidaturas ao Senado consideradas, inclusive no próprio estado do Ceará. 

Além do teor do pronunciamento, com a nítida exposição do atrito entre a ex-primeira-dama, Flávio Bolsonaro e lideranças do PL, foram elementos decorativos do cenário do vídeo cuidadosamente gravado que chamaram a atenção do público. Entre eles, o gesto de mão foi o mais comentado. No noticiário e em comentários nas mídias sociais foram identificados muitos registros que colocaram dúvida sobre o que a escultura representaria ou que especularam ser um símbolo religioso. 

Imagem: Reprodução/X

Imagem: Reprodução/Instagram

Imagem: Extrato do programa matinal Desperta ICL. Youtube, 25 jun 2026

Mídias como Folha de S. Paulo, Congresso em Foco e G1 publicaram análises sobre o significado dos objetos presentes no cenário e como cada um se comunica com o público. De modo geral, as análises destacam o reforço da identidade religiosa, autoridade e protagonismo de Michelle Bolsonaro diante do contexto conflituoso em seu núcleo familiar e político.

Bereia verificou o significado dos elementos visuais que provocaram desinformação nas redes por excesso nas abordagens especulativas ou por falta de compreensão do que são, de fato, símbolos religiosos.

Símbolo satânico e rosário em meio a discurso religioso evangélico? 

O discurso político de Michelle Bolsonaro foi permeado por diversas expressões religiosas. Com linguagem que caracteriza  a identidade dela como mulher evangélica, permanentemente autodeclarada, termos como  “missão que só Deus tira”, “liberar perdão”, “prestar contas ao meu Deus”, “meu Deus é o caminho, a verdade e a vida” (referência a texto do Evangelho de João, na Bíblia), “Deus abençoe” (na despedida), foram enfaticamente pronunciados. 

Evangélica, a ex-primeira-dama desempenhou um importante papel de aproximar o marido do público evangélico tanto nas eleições de 2018, em que ele foi vitorioso, quanto na tentativa de reeleição de 2022. Michelle Bolsonaro é membro da Igreja Batista Atitude, no Rio de Janeiro, onde atuava com tradução de Libras para a inclusão de pessoas surdas nas atividades religiosas. 

Com base neste contexto, Bereia indica que não é possível atribuir a símbolos utilizados pela presidente do PL Mulher para dar força visual ao pronunciamento, um caráter religioso que não seja a identidade cristã evangélica.

Sobre a mesa, ao lado de Michelle Bolsonaro, há um livro que apoia alguns elementos: uma Estrela de Davi e um adereço de contas. Há também uma escultura no formato de mão direita com os dedos médio e anelar fechados, e os dedos polegar, indicador e mínimo erguidos. A presidente do PL mulher também está vestida com uma camisa decorada com linguagem religiosa.

A escultura com gesto de mão direita

O gesto representado pela escultura é o sinal de “Eu te Amo/I Love You” da Língua Brasileira de Sinais (Libras), usado para demonstração de afeto por surdos do Brasil e de outros países. Michelle Bolsonaro é intérprete de Libras e a mensagem da  com a tradução “Eu te amo” na linguagem de sinais está sempre presente em fotos e  gravações em vídeo de Michelle Bolsonaro publicadas em seus perfis de mídias sociais. A escultura também já foi utilizada em outras gravações.

Reprodução/Instagram

O uso da língua de sinais e a defesa de pautas da comunidade surda marcou a atuação da ex-primeira-dama durante o mandato de Jair Bolsonaro. Na posse de Bolsonaro como presidente da República, em janeiro de 2019, ela chamou a atenção na cena pública quando traduziu o discurso proferido pelo marido para Libras.

A  presença da escultura no cenário do vídeo-crítico a Flávio Bolsonaro e a lideranças do PL, ao lado da imagem de tradutores do discurso para Libras, cria laços com o público com deficiência e reforça a imagem do engajamento da presidente do PL Mulher com a inclusão de pessoas com deficiência. O gesto amplifica a identificação também com o serviço que igrejas evangélicas dedicam a esta população, de onde se origina o compromisso exposto por ela..

Reprodução/Instagram

A Estrela de Davi

A estrela de Davi é um dos mais conhecidos símbolos do Judaísmo e é frequentemente usada por segmentos evangélicos que adotam práticas e elementos judaizantes. Soma-se a este símbolo, o apego maior à leitura do Antigo Testamento, onde estão os relatos e ensinamentos religiosos do Israel bíblico, o uso da bandeira de Israel, da menorah (candelabro) e da arca da aliança para decorar igrejas. Estas são algumas características do que estudiosos da religião chamam de “sionismo cristão”, que também é configurado pela defesa incondicional do atual Estado de Israel e seus governantes, interpretado como continuação do Israel representado na Bíblia.

Imagem: reprodução/Instagram

Michelle Bolsonaro é formada e vinculada à vertente evangélica que tem o sionismo cristão como base teológica. Nas eleições de 2022, quando ganhou mais destaque como cabo eleitoral do marido, Michelle Bolsonaro foi às urnas vestindo uma camisa estampada com a bandeira de Israel e fez menção ao país em uma publicação nas mídias sociais: “Que as bênçãos do nosso Deus estejam sobre o Brasil e sobre Israel. Deus, Pátria, Família, Liberdade”.

No mês seguinte, ela publicou a foto de um candelabro usado na festa judaica do Hanukkah, ao lado de uma Bíblia, com as bandeiras do Brasil e de Israel ao fundo. Na legenda, Michelle explica a simbologia da celebração e usa uma frase em hebraico.

Reprodução/Instagram

A presença da estrela de Davi na mesa de onde parte o pronunciamento da presidente do PL Mulher se torna mensagem sobre a vertente evangélica que a orienta e do estabelecimento de sintonia com a parcela de fiéis que cultiva o imaginário do Israel bíblico representado pelo Estado de Israel.

Os termos estampados na camisa

Outro elemento que dialoga com o público evangélico está na camisa usada por Michelle Bolsonaro, que tem estampadas as palavras “alegria”, “amor”, “domínio próprio”, “mansidão” e “paz”. Os termos estão presentes no texto bíblico do capítulo cinco do livro de Gálatas, onde são apresentados como fruto do Espírito (num todo) pelo apóstolo Paulo, redator da carta enviada aos cristãos na Galácia (Grécia).

Desse modo, a comunicação com grupos cristãos não acontece só por meio da estrela de Davi, que representa a fé no Deus representado pelo Antigo Testamento e um conjunto de valores conservadores, inclusive políticos, relacionados ao sionismo cristão, no apoio às ações do Estado de Israel no presente. Bereia identifica nesta checagem que “vestir” as características citadas na Bíblia como resultado da ação divina comunica credibilidade e autoridade em representar a fé.

Reprodução/Youtube

O colar de contas

Católicos tradicionalistas fazem suas orações portando um terço ou um rosário; hindus e budistas e outros fiéis de religiões orientais usam a jampala como objeto concreto para meditação e foco sem restrição de crença. Bereia afirma que uma fiel evangélica não faria uso público de rosários ou jampalas sob o risco de ser classificada como traidora da fé ou idólatra. A fé evangélica é historicamente rechaçadora de simbologias visuais, com aberturas mais recentes, em espaços pentecostalizados, para objetos que são abençoados (até mesmo adquiridos por meio de compra) e para a decoração com símbolos do judaísmo, como citado acima. Portanto, seguramente, não se pode afirmar que Michelle Bolsonaro lançou mão de objetos de cunho religioso de outras fés que não a evangélica, no vídeo publicado em 24 de junho, que tratou de denúncia sensível e amplamente ancorada em linguagem religiosa evangélica.

É fato que Bereia já checou que Michelle Bolsonaro e outras lideranças do PL receberam um Pai de santo e outros líderes não cristãos no carro de som de um ato por perdão judicial a participantes dos ataques ao processo eleitoral de 2022. Este fato, porém, não pode ser usado como referência para posturas da presidente do PL Mulher em relação a outras religiões, uma vez que foi uma ação voltada para uma pauta específica.

Uma pesquisa sobre a imagem do colar que está no vídeo mostrou que ele pode ser um colar de mesa, um tipo de objeto decorativo, comumente feito de forma artesanal, que é composto por contas, pedras, sementes ou fibras amarradas a um fio. A busca por imagens correspondentes mostra objetos semelhantes em sites de vendas e decoração. Esses colares podem ser usados para adornar mesas de jantar, de canto ou de centro, sem significado para além disso, o que provavelmente se refere ao que se verifica no vídeo. 

Diploma Russell Philip Shedd

A parede por trás da figura de Michelle Bolsonaro está repleta de diplomas, certificados e medalhas. Esta prática é muito comum quando pessoas buscam  reconhecimento, credenciamento de uma certa autoridade e reforço na trajetória pessoal. Chama a atenção o quadro de um certificado com a imagem de um senhor empunhando a Bíblia, acima do ombro esquerdo da ex-primeira dama. É a imagem do teólogo batista Russel Shedd. 

O quadro expõe o Diploma Russell Philip Shedd, honraria criada por lei, em 2022, pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). De autoria do deputado Leo Vieira (Republicanos) a homenagem é destinada a personalidades e instituições que contribuem com o crescimento, a divulgação e a promoção do cristianismo no Estado do Rio de Janeiro. 

Imagem: reprodução

Russel Shedd é uma figura popular entre evangélicos de formação conservadora e tradicionalista. Filho de missionários dos Estados Unidos que atuaram em diferentes países da América Latina, nasceu na Bolívia, tornou-se doutor em Teologia e veio para o Brasil como missionário nos anos 1960 pela Missão Batista Conservadora no Sul do Brasil. Entre suas muitas atividades como pastor e professor, fundou uma das mais destacadas editoras evangélicas do Brasil, as Edições Vida Nova, que tem entre as publicações mais populares a Bíblia Russel Shedd. O teólogo que se tornou conhecido por ser moderado, piedoso, incentivador do evangelismo, evitando temas polêmicos, faleceu em 2016.

Em 2025, a Alerj  aprovou a concessão do Diploma Russel Shedd para Michelle Bolsonaro por proposta da deputada estadual Índia Armelau (PL). Bereia avalia que o destaque a esta honraria, com uma imagem de Shedd em evidência no vídeo, é o registro do credenciamento que ela alega ter para a missão política que advoga conduzir no PL.

Referências

Bereia

https://coletivobereia.com.br/o-que-e-o-sionismo-cristao-e-por-que-ele-e-usado-politicamente-no-brasil/ Acesso em 25 jun 2026

Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis)

https://feneis.org.br/nota-de-esclarecimento-sobre-o-sinal-de-i-love-you-em-lingua-de-sinais/ Acesso em 25 jun 2026

Casa e Jardim

https://revistacasaejardim.globo.com/decoracao/noticia/2024/06/colar-de-mesa-aprenda-como-usa-lo-na-decoracao-de-casa.ghtml Acesso em 25 jun 2026

Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2025-11/por-unanimidade-stf-mantem-condenacao-de-bolsonaro-e-aliados Acesso em 25 jun 2026

Instagram

https://www.instagram.com/p/C0fCMKeJiXk/?hl=pt-br Acesso em 25 jun 2026

https://www.instagram.com/michellebolsonaro/reel/DGEOAJnStUX/?hl=pt-br Acesso em 25 jun 2026

https://www.instagram.com/partidoliberalmulher/reel/DLbBHcrO-Ym/?hl=pt-br Acesso em 25 jun 2026

https://www.instagram.com/p/DZ-xJsEhjnR/?hl=pt-br Acesso em 25 jun 2026

https://www.instagram.com/p/DZ-0K8dBs3L/?hl=pt-br Acesso em 25 jun 2026

Facebook

https://www.facebook.com/watch/?v=690657860561512 Acesso em 25 jun 2026

Folha de São Paulo

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/06/producao-e-simbolos-em-video-de-michelle-bolsonaro-sobre-flavio-reforcam-identidade-religiosa-entenda.shtml Acesso em 26 jun 2026

G1

https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/06/25/video-michelle-bolsonaro-cenario.ghtml Acesso em 26 jun 2026

Congresso Em Foco

https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/119994/os-simbolos-por-tras-do-video-de-michelle-fe-autoridade-e-politica Acesso em 26 jun 2026

UOL

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2025/05/23/michelle-bolsonaro-sera-homenageada-na-assembleia-do-rio-por-promover-valores-cristaos.htm Acesso em 26 jun 2026

Alerj 

https://www.alerj.rj.gov.br/Visualizar/Noticia/53947 Acesso em 26 jun 2026

https://www3.alerj.rj.gov.br/lotus_notes/default.asp?id=144&URL=L3NjcHJvMTkyMy5uc2YvMGM1YmY1Y2RlOTU2MDFmOTAzMjU2Y2FhMDAyMzEzMWIvMWM1MDFkMzA5YTU0YmRlZjAzMjU4ODMwMDA0YjhhMTk/T3BlbkRvY3VtZW50JkhpZ2hsaWdodD0wLDIwMjIwNTAxMTY3&amp Acesso em 26 jun 2026

Do altar às urnas: como lideranças religiosas e políticos ocupam os mesmos palcos em períodos eleitorais

A presença de políticos em cultos religiosos, seja em momentos de oração, bênção ou reconhecimento público, tem se tornado cada vez mais frequente no ambiente evangélico brasileiro. Em diferentes denominações e regiões do país, líderes políticos são recebidos em púlpitos, apresentados às congregações e, em alguns casos, associados simbolicamente à autoridade espiritual das lideranças religiosas.

Esse fenômeno, que se intensifica em períodos eleitorais, levanta questionamentos sobre os limites entre liberdade religiosa e uso de espaços de culto como plataforma de projeção política, tema que já foi analisado pela Justiça Eleitoral e por quem pesquisa religião e política.

O que diz a Justiça Eleitoral sobre cultos e campanha

A discussão ganhou novo fôlego a partir de decisões recentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que têm reafirmado o entendimento de que a instrumentalização de templos para promoção eleitoral pode configurar abuso de poder político e econômico.

Como já apontou o próprio órgão em julgamento recente, ao negar recurso de candidatos do município paulista de Votorantim nas eleições de 2024. A Corte reforçou que a utilização de igrejas como ambiente de campanha fere a isonomia eleitoral e compromete a integridade do processo democrático, o que foi noticiado por Bereia em maio passado. 

Os políticos haviam utilizado a estrutura e o altar da Igreja do Evangelho Quadrangular local para pedir votos explicitamente durante um culto. Na ocasião, o pastor declarou que a instituição estava “fechada” com os candidatos e convocando os fiéis a trabalharem pela campanha.

No relatório do ministro Antônio Carlos Ferreira, o TSE reafirma que, embora o “abuso de poder religioso” não constitua uma figura jurídica autônoma na legislação, as condutas que instrumentalizam a fé e a estrutura dos templos configuram abuso de poder político e econômico. A decisão ressaltou que a liberdade religiosa não é absoluta e não pode ser invocada como um salvo-conduto para contornar as normas que garantem a igualdade de condições na disputa eleitoral.

Evangélicos reagem criticamente

Se por um lado as cúpulas partidárias e certas lideranças forçam a entrada da política nas igrejas, por outro, os bancos das congregações dão sinais claros de saturação. Ao contrário do que aponta o senso comum de que o voto religioso é de cabresto, a ampla maioria dos fiéis rejeita o avanço dos palanques sobre os altares. Uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem, da Universidade Federal do Paraná), realizada em 2025, revela que 75% dos evangélicos condenam a realização de campanhas eleitorais dentro dos templos.

O levantamento aponta ainda que a politização escancarada é exceção, não a regra no cotidiano das igrejas. Os dados indicam que 34,1% dos pastores entrevistados afirmaram que lideranças de sua igreja apoiaram algum candidato nas eleições municipais. Embora expressiva, essa proporção mostra que a maior parte do segmento busca preservar o ambiente de culto, mesmo que o índice de engajamento político dos líderes evangélicos seja cerca de duas vezes maior que o registrado entre os católicos (16,9%).

O lugar das Assembleias de Deus

Por ser a maior denominação evangélica do país, com cerca de 13 milhões de seguidores segundo o IBGE, as Assembleias de Deus concentram historicamente o maior assédio de políticos interessados em sua capilaridade. A trajetória do ex-deputado federal Eduardo Cunha (Republicanos-MG) ilustra de forma nítida essa dinâmica. Originalmente membro da igreja Sara Nossa Terra, que contava com pouco mais de 1 milhão de fiéis, Cunha migrou estrategicamente para as Assembleias de Deus para expandir suas bases no Rio de Janeiro. Em um dos episódios gravados na Catedral das Assembleias de Deus em Santa Cruz, o pastor local o apresentou formalmente como o “candidato oficial da nossa convenção”, o que o ajudou a se consagrar como o terceiro deputado mais votado do estado. Em 2024, ao participar do culto que marcou o centenário das igrejas Assembleias de Deus, no Rio de Janeiro, o deputado foi vaiado.

A tradição de abrir as portas para o poder político é personificada hoje pelo pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC). O trânsito de Malafaia entre diferentes forças políticas é antigo: em 2014, a inauguração da nova sede de sua igreja reuniu no mesmo altar nomes como Lindbergh Farias (PT), Eduardo Paes (PSD) e Luiz Fernando Pezão (PMDB). Na época, o respaldo litúrgico de Malafaia funcionou como um verdadeiro “escudo eleitoral” para Pezão concorrer no segundo turno para o governo do Estado do Rio contra Marcelo Crivella (Republicanos). Isto mostrou ao eleitorado tradicional que o candidato do PMDB não possuía hostilidade contra os evangélicos em geral, mas apenas contra a cúpula da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), da qual fazia parte seu concorrente direto.

Desde a campanha eleitoral de 2018, Silas Malafaia abandonou a diversidade e estreitou laços com a família Bolsonaro e partidos da extrema direita. Em maio deste ano, um culto que reuniu o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o ex-governador Cláudio Castro (PL-RJ) e os deputados Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), Malafaia convocou os membros da igreja a estenderem as mãos em direção aos políticos. Proferindo uma oração que pedia “bênção e vitória” nas urnas, o pastor aproveitou o momento sagrado para tecer duras críticas ao governo federal e ao Poder Judiciário, atacando nominalmente o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

Imagem: Reprodução Instagram

O caso da Igreja Batista Atitude

Outro reduto político importante no Rio de Janeiro, neste caso com apoio voltado para a família Bolsonaro, é a Igreja Batista Atitude, liderada pelo pastor Josué Valandro Jr. A congregação, frequentada pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, costuma receber autoridades públicas para momentos de oração. Durante o período em que esteve na Presidência da República (2019-2022), o próprio Jair Bolsonaro participava, com frequência, dos cultos na sede da igreja no bairro da Barra da Tijuca, recebendo, no altar, orações públicas conduzidas pelo pastor.

A atuação de Valandro Jr., no entanto, ultrapassa as preces e assume contornos de blindagem política. O pastor saiu em defesa do pré-candidato à Presidência da República pelo PL Flávio Bolsonaro, após o vazamento de áudios que revelaram o envolvimento do senador com repasses de altos valores em dólares pelo empresário preso por corrupção Daniel Vorcaro. Em suas declarações para a comunidade, o líder religioso afirmou não ver indícios de crime no episódio, criticou o que chamou de distorções políticas da esquerda contra a direita e defendeu que os recursos tratados na conversa eram de natureza puramente privada, legitimando a conduta de Flávio Bolsonaro perante os fiéis.

Imagem: Reprodução do site da revista Comunhão

A postura da Igreja Mundial

Na disputa por espaço e influência com suas concorrentes, a Igreja Mundial do Poder de Deus, liderada pelo apóstolo Valdemiro Santiago, ex-bispo da IURD, também desenha suas alianças políticas. Se no passado a denominação deu sustentação à candidatura de Luiz Fernando Pezão para fazer contraponto à IURD, hoje, ela serve de abrigo para a ressurreição política de Eduardo Cunha, que historicamente mantém forte presença em ambientes evangélicos e articulação com diferentes lideranças religiosas. 

O ex-deputado e ex-presidente Câmara Federal esteve preso de outubro de 2016 até março de 2020, devido a escândalos de corrupção. Depois de obter o direito a prisão domiciliar, Cunha obteve decisões favoráveis no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná), em 2022, para a retirada de tornozeleira eletrônica e teve condenações anuladas pelo STF, além de conseguir a suspensão de sua inelegibilidade pelo TRF-1 (Brasília e mais 13 estados brasileiros: Acre, Amapá, Amazonas, Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Piauí, Rondônia, Roraima e Tocantins).

Cunha fixou residência em Belo Horizonte (MG),  com o objetivo de construir uma nova base eleitoral para as eleições de 2026, tendo se filiado ao Republicanos e passado a frequentar os cultos da Igreja Mundial como base. A filha, a deputada federal Daniela Cunha (PL-RJ), tem visitado as igrejas da denominação com certa frequência. 

Imagem:Reprodução/Instagram

Em abril de 2025, no culto realizado em Araxá (MG), Cunha sentou-se ao lado do apóstolo Valdemiro Santiago no palco principal. O líder tomou a palavra para elogiá-lo explicitamente, chamando-o de “eterno deputado” e afirmando que ele foi “um dos melhores que já viu”, justificando que as decisões tomadas por Cunha na presidência da Câmara foram fundamentais para a nação, apesar do sofrimento que lhe custaram. Pouco tempo depois, a cena de legitimação se repetiu na sede da igreja no Brás, em São Paulo, onde Cunha dividiu o altar com o apóstolo e com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), consolidando sua reinserção no meio evangélico.

Imagem: Reprodução site da Revista Liberta

A posição da Igreja Internacional da Graça de Deus

Não é apenas na igreja do apóstolo Valdemiro que Eduardo Cunha encontra abertura. Na Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD), liderada pelo missionário R. R. Soares, a fusão entre liderança eclesiástica e representação parlamentar ganha contornos de um modelo corporativo e familiar, servindo também de palco para consolidar suas alianças. 

O ex-deputado estendeu sua rede de influência a R.R. Soares por meio de um expressivo acordo comercial e de comunicação: Cunha cedeu horários em suas novas emissoras de rádio no interior de Minas Gerais para a transmissão da programação religiosa da denominação. O arranjo foi celebrado e declarado abertamente pelo próprio missionário durante um culto na sede de Belo Horizonte, chancelando a proximidade e o apoio mútuo entre a instituição e o político no estado. 

Imagem: Reprodução vídeo YouTube

A prática de aproximar a gestão pública dos interesses da igreja é rotina na IIGD, onde o R. R. R. Soares costuma apresentar políticos aliados diretamente no púlpito. Foi o que aconteceu na inauguração do grande templo de Sorocaba (SP), quando as lideranças pastorais chamaram à frente o prefeito Rodrigo Manga (Republicanos), referindo-se a ele como um “obreiro de Deus” que realizava um trabalho excelente na cidade. Manga, figura central no meio evangélico local, chegou a ser afastado do cargo pela Operação Cópia e Cola da Polícia Federal, por suspeitas de desvios na área da saúde. O prefeito de Sorocaba, porém, retornou ao posto graças a uma liminar impetrada no STF e concedida pelo ministro do STF Kassio Nunes Marques. 

Imagem: Reprodução YouTube

Para além do apoio a aliados externos como Cunha e Manga, R.R. Soares utiliza a estrutura e a capilaridade da denominação para promover a carreira de seus próprios filhos, transformando o rebanho em uma base eleitoral sólida e hereditária. Adotando o slogan “Mesmo sangue, mesma fé e mesmo amor”, o televangelista legitima religiosamente os mandatos de sua família. 

A estratégia tem garantido o sucesso nas urnas de David (Podemos-SP) e Marcos Soares (PSDB-SP) como deputados federais, além de Filipe e Daniel Soares como deputados estaduais no Rio de Janeiro (PSDB) e em São Paulo (União), respectivamente. O único filho fora do parlamento atualmente é André Soares (União), que não conseguiu se reeleger após cumprir três mandatos na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). 

Imagem: Reprodução do site Ongrace.com

O espaço da IURD

Com grande destaque no espaço público, Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) opera a política sob uma lógica de centralização institucional e rígida disciplina de voto. Fundada pelo bispo Edir Macedo, a denominação foi pioneira na criação de um projeto oficial de poder, ocupando um partido político, antes o Partido Republicano do Brasil (PRB), hoje Republicanos. A IURD elege bancadas expressivas na Câmara Federal ao utilizar a estrutura de seus templos, da Rede Record de TV e da Rede Aleluia de Rádio como catalisadores eleitorais.  

A expressão máxima desse projeto é o bispo licenciado e deputado federal Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), ex-prefeito do Rio de Janeiro (2013-2016). Sua gestão na Prefeitura ficou marcada pelo tensionamento entre o dever público e os interesses da denominação, cujo ápice foi o escândalo em torno de uma reunião secreta no Palácio da Cidade. Na ocasião, em áudio vazado, Crivella ofereceu a pastores facilidades em cirurgias de catarata e no IPTU de templos, cunhando o famoso jargão: “É só falar com a Márcia”.  

Políticos em contraponto

Em contraposição à exposição frequente dos candidatos nos altares, o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva tem adotado uma postura de maior distanciamento de palanques religiosos durante períodos de campanha eleitoral. Embora tenha frequentado templos ao longo de seus mais de 50 anos de vida pública, o católico Lula hoje defende enfaticamente a separação entre Igreja e Estado. O presidente tem reiterado em seus discursos que a fé constitui um momento de conexão sagrada e intimidade do cidadão, e que não deve ser explorada politicamente para a obtenção de votos. 

Como reflexo prático desse posicionamento, Lula ausentou-se do evento evangélico conduzido pela Igreja Renascer em Cristo Marcha para Jesus, em São Paulo. Ele justificou  que preferia não transformar um encontro de natureza estritamente espiritual em palco para disputas partidárias, buscando preservar o respeito à fé dos fiéis.

Imagem: reprodução/Itatiaia

Esse posicionamento encontra eco direto na atuação do deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ). O líder religioso e parlamentar de esquerda manifesta, reiteradamente, em publicações em suas contas nas redes digitais, e em entrevistas que concede à imprensa, um cansaço compartilhado por muitos fiéis que não aceitam ver a mensagem bíblica ser instrumentalizada por projetos personalistas de poder. Vieira enfatiza que o debate público faz parte da caminhada cristã, mas repudia veementemente o controle do voto por meio do constrangimento espiritual.

“Não é sobre tirar o debate público da fé, é sobre impedir que a autoridade espiritual seja usada para controlar voto, punir divergência e transformar culto em comitê”, defende o deputado. Para ele, o papel da igreja deve ser o de zelar pela consciência crítica e pela democracia, mantendo uma distância saudável da idolatria partidária. “A Igreja não é espaço de manipulação. A fé precisa ser espaço de consciência, liberdade, justiça e bem comum, não de idolatria ao poder”.

Somando-se a essa convergência, está a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), parlamentar histórica com trajetória consolidada na defesa dos direitos sociais e evangélica presbiteriana. Ela tem atuado como um elo central na denúncia contra o pragmatismo eleitoral baseado na fé. 

Benedita da Silva, que vivencia o ambiente religioso muito antes da atual onda de polarização política, desde que foi membro das Assembleias de Deus, argumenta que o papel do cristianismo nos espaços institucionais deve se pautar na promoção da dignidade humana e da justiça, e nunca no sequestro da consciência dos fiéis para benefícios individuais de poder. 

Ao abordar o tema em pronunciamento em fevereiro deste 2026, em sua conta oficial no Instagram, a deputada pontuou de forma contundente. “A fé que eu aprendi no evangelho não anda de mãos dadas com a mentira, porque a mentira aprisiona. Como irmã, eu te peço: não entregue sua fé a quem quer usar o nome de Deus por interesses políticos e eleitorais. Olhe para os frutos. Fé de verdade não se usa, fé de verdade se vive.” A parlamentar reforça que a manipulação do sentimento religioso desidrata o debate democrático e degrada a própria espiritualidade, devendo os fiéis rejeitar candidatos que reduzem a sacralidade do altar a um balcão de negócios por votos. 

Essa postura de preservação do espaço sagrado também ganha contornos dentro do próprio campo da direita conservadora, evidenciando que o desgaste com a partidarização da fé ultrapassa fronteiras ideológicas. Exemplo disso é o posicionamento do deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ). Pastor evangélico e declaradamente de direita, o parlamentar rompeu com o discurso radical ao contestar publicamente a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que afirmou em um culto sofrer perseguição religiosa e ter seu “culto doméstico cerceado”. Ao rebater a narrativa de Michelle Bolsonaro, o deputado classificou a tese de “guerra espiritual” como puro oportunismo político. “É uma narrativa falaciosa, mentirosa, oportunista e para autoproteção essa de que nós estamos diante de uma guerra religiosa. Eu sou a única voz a estar nesse contraponto com eles, única voz dissonante. Porque não quero que levem a igreja para essa vala comum”, declarou.

Para ele, o uso de discursos vitimistas nos altares serve apenas como blindagem para lideranças políticas, rebaixando a fé dos fiéis e a instituição religiosa ao papel de escudo partidário.

O impacto simbólico dos púlpitos e a resistência nas igrejas

A presença de candidatos e lideranças políticas nos púlpitos não produz apenas efeitos eleitorais. Para especialistas que estudam as relações entre religião e política, a prática mobiliza símbolos centrais da experiência religiosa e pode gerar tensões dentro das próprias comunidades de fé.

A pesquisadora em Comunicação, Política e Religiões e editora-geral do Coletivo Bereia Magali Cunha destaca que o altar ocupa um lugar de forte significado para quem participa de uma celebração religiosa. Segundo ela, quando um político é apresentado, homenageado ou abençoado nesse espaço, a mensagem transmitida ultrapassa o gesto protocolar. “Os púlpitos estão em altares, e o altar é uma simbologia muito forte. É o lugar onde se professam os sacramentos, a pregação, as orações de onde parte a ação de culto, a ação celebrativa que envolve a fé coletiva daquelas pessoas”, explica.

Para a pesquisadora, a autoridade simbólica das lideranças religiosas confere peso adicional a esse tipo de exposição pública. Pastores, padres e demais líderes costumam ser reconhecidos por suas comunidades como referências espirituais e morais, o que faz com que manifestações de apoio político produzam impactos que vão além do campo partidário.

Ao mesmo tempo, a pesquisadora ressalta que os frequentadores das igrejas não recebem essas mensagens de forma passiva. Segundo ela, o que foi confirmado na pesquisa da Universidade Federal do Paraná, cresce entre evangélicos a resistência ao uso dos espaços de culto para promoção de projetos políticos específicos. “As pessoas estão cada vez mais críticas nas igrejas a esse abuso religioso de forçar uma relação da fé com personagens específicos. Fere uma ética comunitária, porque não diz respeito a um pastor ou pastora na condução de uma comunidade definir voto de ninguém”, aponta.

Os limites legais e o entendimento da Justiça Eleitoral

Enquanto o debate ético avança dentro das próprias comunidades de fé, a Justiça Eleitoral vem consolidando parâmetros cada vez mais rígidos sobre a participação de candidatos em templos durante períodos eleitorais.

Como mostrou reportagem publicada pelo Bereia, o TSE reafirmou, em maio de 2026, o entendimento de que a utilização de igrejas para promoção eleitoral configura abuso de poder e pode resultar em cassação de mandatos e inelegibilidade. A matéria do Bereia Explica sobre abuso de poder religioso também traz informações sobre a posição da Corte.

Bereia ouviu o professor de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais Alexandre Bahia sobre os casos. Ele explica que a legislação proíbe tanto a propaganda eleitoral quanto a propaganda antecipada em templos religiosos, classificados pela Lei das Eleições como bens de uso comum.

Segundo o jurista, a simples presença de políticos em celebrações religiosas não constitui irregularidade. O problema surge quando o culto é transformado em espaço de promoção eleitoral. “A justiça eleitoral tem certamente uma dificuldade para localizar, em alguns casos, porque não é proibido para pessoas que estão na política frequentar cultos. Mas o que não pode acontecer é a transformação do culto em um palanque, em que seja dada palavra ao líder político ou ao candidato para falar sobre propostas, ou que o líder religioso aponte aquela pessoa como sendo alguém em quem os fiéis devem votar”, explica.

De acordo com Bahia, a irregularidade não se limita ao pedido explícito de votos. A Justiça Eleitoral também pode considerar abusivas situações em que o ambiente de culto é utilizado para promover uma candidatura ou associar determinado político à autoridade religiosa da liderança que conduz a celebração. “Discursos políticos durante a realização da reunião religiosa, qualquer associação de um candidato com a vontade de Deus, ou algo assim, pode inclusive configurar abuso de autoridade por parte do líder religioso”, garante o professor.

O jurista ressalta ainda que as consequências podem ser severas. “As propagandas irregulares têm possibilidade de multa por parte da Justiça Eleitoral e, se configurar abuso de poder político ou abuso de poder econômico, isso pode levar à cassação do registro da candidatura. Se ele já tiver sido eleito, esses fatos podem configurar causa de perda do mandato e inclusive inelegibilidade por oito anos”, completa.

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A linha que separa o exercício legítimo da cidadania e da fé da instrumentalização política dos altares tornou-se um dos terrenos mais vigiados da democracia brasileira. Os dados sociológicos e as manifestações de resistência interna revelam que a grande maioria dos fiéis repudia a transformação dos cultos em comitês eleitorais, exigindo que o espaço sagrado permaneça ético e focado em sua missão espiritual.

Ao mesmo tempo, as decisões recentes e unânimes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mandam um recado claro a candidatos e lideranças eclesiásticas: a liberdade religiosa não é um salvo-conduto para burlar a legislação. A integridade do voto e a igualdade entre os concorrentes continuam sendo os pilares soberanos do processo eleitoral, e o uso abusivo do púlpito como palanque será punido com o rigor da cassação e da inelegibilidade.

Referências

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Coletivo Bereia https://coletivobereia.com.br/justica-eleitoral-decide-campanha-por-votos-em-templos-religiosos-e-abuso-de-poder-e-e-crime-eleitoral/ – Acesso em 22 jun. 2026

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https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/03/cada-vez-mais-disputados-evangelicos-rejeitam-campanha-nos-pulpitos.shtml – Acesso em 22 jun. 2026

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https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2024/06/30/eduardo-cunha-e-vaiado-durante-culto-da-assembleia-de-deus-no-rio-veja.htm – Acesso em 22 jun. 2026

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Vai na Fonte 

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https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/ – Acesso em 22 jun. 2026

Veja

https://veja.abril.com.br/coluna/marcela-rahal/deputado-da-frente-evangelica-fala-sobre-polarizacao-na-eleicao-da-bancada

TSE determina remoção de vídeo com mentiras publicado por deputado evangélico líder do PL

O deputado federal e pastor Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) foi instado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a remover dos seus perfis em mídias sociais um vídeo publicado, em 31 de maio, no qual associava o Partido dos Trabalhadores (PT) a facções criminosas, conteúdo que já foi tratado em matéria pelo Bereia. A decisão foi tomada em 19 de junho passado, para ser cumprida em prazo de 24 horas. No entanto, o parlamentar ignorou a medida por quatro dias. Sóstenes Cavalcante retirou a publicação apenas na manhã de terça-feira, 23 de junho.

A postagem em plataformas digitais foi apagada antes de uma coletiva de imprensa. Nela, o líder do PL na Câmara Federal declarou não concordar com a justificativa usada pelo ministro do TSE  André Mendonça que proferiu a sentença. A medida atendeu a representação apresentada pela Federação Brasil da Esperança (FE Brasil), formada pelo Partido dos Trabalhadores (PT), pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e pelo Partido Verde (PV). 

Na decisão, Mendonça considerou que a publicação extrapola os limites da crítica política, ao não apresentar critérios de veracidade e nem informações checáveis, o que pode induzir o eleitorado ao erro. De acordo com a decisão do ministro do TSE, a publicação “promove desinformação eleitoral mediante imputação factual grave e não demonstrada, com potencial de induzir o eleitor a erro sobre fato politicamente relevante”.

Sóstenes Cavalcante declarou a jornalistas na coletiva: “Não concordo porque eu nenhum momento do meu vídeo eu afirmei. Eu disse que há suspeita do governo americano de que há financiamento de recursos do Comando Vermelho e do PCC ao Partido dos Trabalhadores”.


Sobre o caso

O deputado federal Sóstenes Cavalcante(PL-RJ) afirmou em um vídeo publicado em seus perfis de mídias sociais que há suspeitas de que as campanhas eleitorais do PT são subsidiadas pelo dinheiro de facções criminosas ligadas ao tráfico de drogas. Ele produziu o conteúdo logo após a divulgação de uma resolução do governo dos Estados Unidos que classificou associações criminosas brasileiras como terroristas.

O deputado pastor da Assembleia Vitória em Cristo disse, no vídeo, que o governo dos Estados Unidos rastrearia o dinheiro ilícito dessas facções, por existirem suspeitas de que o dinheiro dessas organizações criminosas financia campanhas eleitorais de candidatos filiados ao PT. 

Bereia classificou as afirmações como falsas, pois o parlamentar não apresentou provas e nem fontes de informação, elementos que não podem ser encontrados em apuração e pesquisa pois é conteúdo inventado, sem base factual para checagem.

Bereia alerta leitores e leitores para a estratégia de campanha de certos políticos que abrem mão do debate de ideias e propostas para, deliberadamente, lançar mentiras para atacar opositores. Nesta estratégia estes políticos têm consciência do tempo entre o lançamento da mentira nas redes, o protocolamento de representações dos atingidos no TSE e a decisão de quem julga para fazer circular o conteúdo desinformativo.

As mentiras sobre o Pix que circulam em ambientes religiosos 

O Pix tornou-se parte indissociável do cotidiano brasileiro desde a implementação, em 2020. O sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central revolucionou as transações financeiras no país, democratizando o acesso a serviços bancários, gratuitamente. 

No entanto, o sucesso do sistema Pix também o transformou em alvo constante de desinformação, especialmente em ambientes digitais religiosos, onde mentiras são estrategicamente disseminadas com propósitos políticos.

A circulação de conteúdos falsos sobre o Pix em grupos de igrejas, redes digitais de lideranças religiosas e aplicativos de mensagens não é um fenômeno acidental. Trata-se de uma engrenagem estruturada que utiliza o pânico moral e a desconfiança, mas instituições para mobilizar fiéis em favor de pautas da direita política e contra adversários políticos.

Neste cenário, a desinformação ganha força ao ser travestida de “alerta espiritual” ou “defesa dos mais pobres”, com exploração da confiança que pessoas das igrejas depositam em suas lideranças e comunidades de fé. A repetição cíclica dessas narrativas, que frequentemente ressurgem em períodos pré-eleitorais ou inícios de ano, demonstra que a mentira sobre a economia se tornou uma ferramenta consolidada de disputa política.

 A explosão de mentiras sobre o Pix via Nikolas Ferreira

A magnitude do problema ficou evidente no início de 2025. Dados da empresa de monitoramento digital Palver, demonstraram que apenas entre 7 e 14 de janeiro daquele ano, mais de 9,4 milhões de brasileiros foram impactados por uma enxurrada de desinformação sobre o Pix no WhatsApp e Telegram. Foram identificadas mais de 18 mil mensagens únicas compartilhadas em 2,2 mil grupos públicos, alcançando todos os 67 DDDs do país. 

O volume impressionante representou uma média de quase duas mensagens novas por minuto sobre o tema. O conteúdo, classificado majoritariamente como “negativo” pelos sistemas de análise, foi produzido pelo deputado federal evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG). Em janeiro de 2025, o deputado protagonizou um exemplo refinado dessa estratégia de manipulação. 

O vídeo que ele publicou em seus perfis de mídias digitais, em 14 de janeiro, que alcançou 300 milhões de visualizações em dois dias, contrapôs medida anunciada pela Receita Federal, em 2024, com vigência a partir de 1 de janeiro do novo ano. Conforme o Bereia informou, a Instrução Normativa 2.219/2024, da Receita Federal, publicada no Diário Oficial da União, em 18 de setembro de 2024, dispunha sobre “a obrigatoriedade de prestação de informações relativas às operações financeiras de interesse da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil na e-Financeira”. A medida ampliava o monitoramento de transações financeiras no país, que alcançava apenas instituições financeiras tradicionais, como bancos e cooperativas de crédito, com a obrigação de prestar essas informações.

Com a norma, que vigoraria a partir de 1 de janeiro de 2025, transações via Pix e cartões de crédito, acima de R$ 5 mil para pessoas físicas e de R$ 15 mil para empresas, passariam a também ser reportadas por administradoras de cartão de crédito, bancos digitais e instituições de pagamento à Receita Federal. O órgão afirmou em nota que o objetivo era reforçar o combate à evasão fiscal e a promoção da transparência. Foi enfatizado, ainda, que a medida estaria alinhada aos compromissos internacionais do Brasil, para aumentar o controle sobre operações financeiras e facilitar a fiscalização.

No vídeo que viralizou, Nikolas Ferreira não afirmava diretamente que o Pix seria taxado. Ele distorceu a informação da Receita Federal com discurso enganoso. Com o tom alarmista, verbal e visualmente, o deputado afirmou “o governo quer saber como você ganha R$ 5 mil” e prosseguiu: “Não, o Pix não será taxado, mas é bom lembrar que a comprinha da China não seria taxada. Não ia ter sigilo, mas teve. Você ia ser isento do Imposto de Renda, não vai mais. Ia ter picanha, não teve. O Pix não será taxado, mas não duvido que possa ser”. O deputado ainda afirmou que o “governo quer tratar os trabalhadores informais como sonegadores”. 

Imagem: Reprodução do perfil de Nikolas Ferreira no Instagram, 14 jan 2025

O desgaste com a desinformação propaganda pelo parlamentar, com o apoio de outros políticos da direita extremista, como o senador Cleitinho (PL-MG), como o Bereia informou, foi tanto que a Receita Federal revogou a normativa.

Em 2016, o deputado do PL voltou à carga no mesmo mês de janeiro, desta vez com  distorção da Instrução Normativa nº 2.278/2025 da Receita Federal.  A medida técnica foi retomada para combater a lavagem de dinheiro e estendia às fintechs (bancos digitais) as mesmas obrigações de transparência já exigidas de bancos no uso do Pix. A Receita Federal reelaborou o procedimento travado no ano anterior, justamente no mês de agosto de 2025, quando desdobramentos de operações da Polícia Federal pelo país, como a Carbono Oculto, a Quasar e a Tank, demonstraram que facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) utilizam fintechs para lavagem de dinheiro por meio do uso do Pix. O órgão do Ministério da Fazenda informou que, com a revogação provocada pela desinformação de 2025, esses bancos digitais não tinham “as mesmas obrigações de transparência e de fornecimento de informações”, o que fez o crime organizado “aproveitar essa brecha para movimentar, ocultar e lavar seu dinheiro sujo”. Por isso, foi justificado que era preciso retomar a normativa.

Em janeiro de 2026, Nikolas Ferreira usou o mesmo tom do ano anterior para disseminar a ideia de perseguição do governo contra “ambulantes” e “entregadores”, criando pânico com o alarme de que as transações desses grupos passariam a ser taxadas, prejudicando trabalhadores e beneficiando banqueiros. 

“Você que é feirante, manicure, motoboy, ambulante e autônomo, se você movimentar mais de R$ 5 mil por mês pelo Pix e isso não bater com o que você declarou no Imposto de Renda, a Receita vai saber. E você pode cair na malha fina, ser chamado, ter que explicar e pagar imposto que você nunca imaginou pagar. E não porque você virou criminoso, mas porque o Estado passou a olhar para o seu Pix como se fosse um dinheiro suspeito”, alardeou Nikolas Ferreira no vídeo que tinha as mesmas características do que circulou no ano anterior. 

Imagem: Reprodução de publicação do perfil de Nikolas Ferreira no Instagram, 13 jan 2026

Por meio da distorção enganosa, o deputado do PL prosseguiu: “Quando milhões de brasileiros reagiram, eles recuaram. Agora, com o povo distraído, fizeram de novo. A liberdade não acaba de uma vez, ela vai sendo tirada aos poucos por portaria, instrução normativa, ‘ajuste técnico’. Até o dia que governo souber mais do seu dinheiro do que você mesmo, e aí pode ser tarde demais”.

Após uma das operações da Polícia Federal, o secretário especial da Receita Federal Robinson Barreirinhas, chegou a afirmar, segundo reportagem do jornal O Globo, que as “mentiras envolvendo o Pix”, em janeiro de 2025, impediram que o governo fiscalizasse as empresas investigadas, que teriam se tornado um dos “principais braços financeiros do PCC”. O comentário foi repercutido pelo líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias, que acusou Nikolas de ter “beneficiado” a facção. 

Outras mentiras sobre o Pix  que o Bereia já checou

Ao longo dos últimos anos, o Bereia tem monitorado e verificado os principais conteúdos falsos que circulam sobre o Pix em espaços religiosos. No  levantamento das matérias produzidas desde 2025 fica nítido que o Pix se tornou um alvo da direita extremista para confundir a população tendo em vista a campanha eleitoral de 2026. Pode-se identificar um padrão de distorção de fatos ocorrido e de normativas de órgãos públicos.

A falsa paternidade do Pix por Jair Bolsonaro

Em agosto de 2022, durante o período da campanha eleitoral, o Bereia verificou publicações de políticos alinhados ao então presidente Jair Bolsonaro (PL), que buscava a reeleição,  que atribuíam a criação do Pix ao então presidente. As mensagens, amplamente compartilhadas por fiéis, afirmavam que a oposição dos bancos ao ex-presidente devia-se aos supostos prejuízos bilionários causados pela gratuidade do sistema.

A alegação de que Jair Bolsonaro criou o Pix continua sendo repetida por aliados políticos, apesar de já ter sido desmentida por diversas checagens. O sistema de pagamentos instantâneos foi desenvolvido pelo Banco Central a partir de 2016, durante o governo de Michel Temer, e o grupo de trabalho responsável pelo projeto foi formalizado em 2018. O lançamento ocorreu em novembro de 2020, já no governo Bolsonaro, mas como etapa final de um processo concebido e estruturado anteriormente.

O discurso da falsa paternidade do Pix voltou a ganhar força após a investigação comercial aberta pelos Estados Unidos contra o  Brasil, em 2025, que incluiu o Pix entre as pautas analisadas. Empresas estadunidenses de cartões de crédito e débito,  como Visa e Mastercard, denunciam perda de lucros com a popularização do Pix, gratuito, e demandaram ações do governo dos EUA contra o Brasil.

Em resposta às críticas às pressões externas sobre o sistema e a soberania brasileiros, parlamentares do PL, como os evangélicos senador Flávio Bolsonaro (RJ), pré-candidato à  Presidência da República,  e o deputado federal Sóstenes Cavalcante (RJ),  passaram a reafirmar que Jair Bolsonaro seria o criador do Pix e que caberia ao seu grupo político defendê-lo.

Imagem: reprodução/redes sociais


Imagem: reprodução/Facebook

A controvérsia evidencia a permanência de uma estratégia de capitalização política sobre uma política pública de amplo sucesso.

O pânico em torno da taxação 

Outro conteúdo recorrente é o de que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva pretende  cobrar taxas sobre as transferências via Pix. Assim como foi feito em relação ao vídeo do deputado Nikolas Ferreira, de janeiro de 2025, em junho de 2023, o Bereia classificou como enganosas publicações de deputados como Carla Zambelli (PL-SP) e Eduardo Bolsonaro (PL-SP) que disseminaram a mesma ideia a partir de uma notificação da Caixa Econômica Federal. Esses políticos apoiadores publicaram distorções do documento que declarava taxar empresas que lançam mão do Pix para transações financeiras de altos valores de reais.

A desinformação omitia intencionalmente que a cobrança anunciada pela Caixa aplicava-se exclusivamente a contas de Pessoa Jurídica (PJ) e não a pessoas físicas ou microempreendedores individuais (MEI). Além disso, o conteúdo enganoso ocultava o fato de que a cobrança para empresas já era permitida pela Resolução BCB nº 1/2020 (editada no governo anterior) e era praticada por grandes bancos privados como Bradesco, Itaú e Santander. A distorção da informação correta contribuiu para gerar pânico entre a população, especialmente entre fiéis cristãos que recebiam as mensagens com o alerta de que o governo confiscaria parte de seus rendimentos.

A estrutura do medo e a instrumentalização da fé 

A análise das campanhas de desinformação sobre o Pix revela uma mudança tática da direita extremista e de setores religiosos ultraconservadores. Conforme apontado no balanço do Bereia de janeiro de 2025, observa-se uma transição estratégica: quando a “agenda de costumes” (aborto, gênero, família) perde força mobilizadora temporária, a pauta econômica é acionada com a mesma estrutura de pânico moral.

O método consiste em transformar questões técnicas ou normativas, como atualizações de monitoramento da Receita Federal ou regras de tarifação empresaria,em discurso de perseguição e confisco. Em ambientes religiosos, isso frequentemente assume contornos apocalípticos, nos quais o Estado é retratado como um inimigo opressor que busca controlar os recursos dos “cidadãos de bem”. A instrumentalização da fé ocorre quando influenciadores e políticos utilizam a linguagem religiosa para validar essas mentiras.

A desinformação sobre economia é apresentada não apenas como um alerta financeiro, mas como uma denúncia moral contra um governo descrito como inimigo dos valores cristãos.

O custo social dessa prática é elevado. Instituições como a Receita Federal, o Banco Central e a  Federação Brasileira de Bancos (Febraban) são frequentemente obrigadas a lançar mão de tempo e de recursos para desmentir boatos infundados. Mais grave ainda é a corrosão do debate público, substituído por um ambiente de desconfiança crônica onde fatos perdem relevância diante de conteúdos construídos para gerar medo e engajamento político.

Referências

Agência Lupa

https://www.agencialupa.org/jornalismo/2025/01/14/desinformacao-sobre-pix-impacta-mais-de-9-milhoes-no-whatsapp-e-telegram-em-7-dias/ . Acesso em 15 jun 2026

Focus Brasil

https://fpabramo.org.br/receita-desmente-fake-news-sobre-pix-e-expoe-escalada-de-desinformacao-as-vesperas-das-eleicoes/ . Acesso 16 jun 2026

O Globo

https.//oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/01/14/nikolas-ferreira-volta-a-afirmar-em-video-que-governo-ira-monitorar-o-pix-o-que-a-receita-diz-ser-falso.ghtml. Acesso 16 jun 2026

https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2025/08/29/coordenacao-invisivel-investigacao-contra-o-pcc-encontrou-rede-de-empresas-ficticias-conectadas-pelo-mesmo-endereco-digital.ghtml Acesso 18 jun

https.//oglobo.globo.com/blogs/sonar-a-escuta-das-redes/post/2025/08/lider-do-pt-acusa-nikolas-de-ter-beneficiado-pcc-por-campanha-de-fake-news-contra-o-pix.ghtml Acesso 18 jun

Fake news: evangélicos são os que menos checam veracidade dos fatos, diz estudo

Pesquisa nacional mostra que o grupo raramente recorre a agências de checagem e está entre os mais expostos a notícias falsas sobre religião e fé

*Publicado originalmente em Revista Fórum

A desinformação já não é apenas um problema das redes sociais ou da política. Ela se tornou uma questão que atravessa famílias, igrejas, comunidades e afeta diretamente a forma como as pessoas compreendem a realidade. No Brasil, um dos grupos mais impactados por esse fenômeno é justamente o segmento evangélico.

O dado aparece no relatório “Como os Brasileiros percebem a circulação da desinformação e o uso da Inteligência Artificial”, produzido pelo Aláfia Lab. Segundo a pesquisa, os evangélicos são o grupo religioso que menos utiliza agências de checagem de fatos para verificar informações recebidas. Ao mesmo tempo, aparecem entre os grupos que mais relatam contato com notícias falsas relacionadas a religião e fé.

A combinação desses fatores ajuda a compreender por que boatos, teorias conspiratórias, falsas perseguições religiosas, informações distorcidas sobre projetos de lei e narrativas políticas travestidas de discurso religioso encontram terreno fértil para circular em muitos ambientes cristãos.

O problema não é exclusivo dos evangélicos, mas assume características próprias dentro desse universo. Grande parte da circulação de informações ocorre por meio de redes de confiança: grupos de WhatsApp, canais religiosos, influenciadores digitais, líderes e membros de igrejas. Quando uma informação chega acompanhada da recomendação de alguém respeitado pela comunidade, ela tende a ser aceita com menos questionamentos.

A pesquisa mostra que apenas 17% dos brasileiros recorrem a agências especializadas de checagem para verificar conteúdos suspeitos. A maioria prefere confiar em sua própria percepção, em comentários publicados nas redes sociais ou em alertas de amigos e familiares. Essa lógica reforça a força dos vínculos pessoais, mas também aumenta a vulnerabilidade à manipulação.

O resultado é que conteúdos enganosos conseguem se espalhar rapidamente, principalmente quando apelam para emoções fortes. Medo, indignação, sensação de ameaça aos valores religiosos ou à família costumam ser ingredientes frequentes das fake news que circulam em grupos religiosos. Muitas vezes, a intenção não é apenas informar de forma incorreta, mas mobilizar comportamentos políticos e sociais a partir de informações falsas.

O próprio relatório mostra que os brasileiros reconhecem os danos causados pela desinformação. A maioria considera que ela contribui para espalhar medo, fortalecer grupos extremistas, aumentar preconceitos, confundir as pessoas sobre o que é verdade ou mentira e influenciar decisões políticas e eleitorais.

Coletivo Bereia

Nesse cenário, ganha relevância o trabalho de iniciativas voltadas especificamente para o monitoramento da desinformação religiosa. Um dos principais exemplos é o Coletivo Bereia, agência de verificação especializada em conteúdos que circulam entre cristãos.

O nome faz referência aos bereanos citados no livro de Atos dos Apóstolos, elogiados por examinarem cuidadosamente aquilo que ouviam antes de aceitarem uma mensagem como verdadeira. Inspirado nesse princípio, o coletivo realiza checagens de notícias, discursos, vídeos, publicações e narrativas que circulam em ambientes religiosos, analisando sua veracidade e contexto.

Mais do que corrigir informações equivocadas, o trabalho do Bereia procura incentivar uma cultura de responsabilidade informacional. A proposta é simples, mas profunda: fé e compromisso com a verdade não podem caminhar separados.

Essa é uma discussão particularmente importante porque a tradição cristã sempre atribuiu enorme valor à verdade. O mandamento contra o falso testemunho, as advertências bíblicas sobre falsos profetas e os inúmeros apelos à honestidade mostram que o combate à mentira não é apenas uma preocupação jornalística ou acadêmica. Trata-se também de uma exigência ética da própria fé.

Por isso, discutir fake news nas igrejas não deve ser visto como um tema secundário ou partidário. Trata-se de fortalecer uma prática coerente com os valores do Evangelho: o compromisso com a verdade, a responsabilidade com a palavra e o cuidado com o próximo.

Em tempos de excesso de informação, talvez uma das contribuições mais importantes que as igrejas possam oferecer à sociedade seja justamente recuperar uma virtude antiga: a disposição de verificar antes de acreditar e de refletir antes de compartilhar.

Deputado evangélico líder do PL na Câmara propaga mentira sobre partido opositor receber dinheiro de facções criminosas

O deputado federal líder do Partido Liberal na Câmara Federal, pastor Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) usou a resolução dos Estados Unidos que classifica associações criminosas organizadas no Brasil como terroristas para publicar em vídeo uma mentira. Segundo gravação em vídeo, publicada em perfis na rede digital, o deputado evangélico afirma que o dinheiro de facções ligadas ao tráfico de drogas subsidia campanhas eleitorais de candidatos filiados ao Partido dos Trabalhadores (PT). Bereia checou o discurso do político evangélico de ultradireita que alcançou mais de 58 mil curtidas na página do Instagram do parlamentar até o fechamento desta matéria.

Imagem: reprodução Instagram

Deputado associa PT a dinheiro do tráfico 

O vídeo publicado no perfil do Instagram de Sóstenes Cavalcante, no último 31 de maio, exalta a inclusão das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) na lista de entidades designadas como grupos terroristas estrangeiros pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos.  

A medida tomada pelo regime do presidente Donald Trump,  e divulgada pelo secretário de estado estadunidense Marco Rubio, foi estimulada a partir de diálogos com membros da família do ex-presidente Jair Bolsonaro e apoiadores.

 Ao exaltar a resolução na gravação em vídeo, o deputado líder do PL na Câmara afirmou, de forma superficial mas contundente, sem qualquer menção a provas ou dados existentes, que o governo dos EUA rastreará o dinheiro ilícito das facções criminosas, pois haveria “grandes suspeitas, nos Estados Unidos, que esse dinheiro ainda financia campanhas do PT”. 

O teor da resolução dos EUA

O comunicado do governo dos EUA  à imprensa, assinado por Marco Rubio,  divulgado em 28 de maio, tornado público na plataforma X, não faz menção a ligações do dinheiro proveniente do tráfico de drogas no Brasil, nem de relações financeiras do PCC e CV, com o PT. Em entrevista à CNN, em 1º de junho,  a porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos Amanda Roberson revelou informações levantadas pelo governo estadunidense, mas não apresentou qualquer dado que leve a essa conclusão. 

Imagem: reprodução X

“O presidente Trump deixou muito claro desde o início do seu mandato que ele vai utilizar todas as ferramentas à nossa disposição para combater esses grupos criminosos que estão atuando na nossa região e para proteger a segurança dos Estados Unidos”, disse a porta-voz. “O presidente Trump está atuando para eliminar estes grupos”, acrescentou.

Falsas alegações semelhantes às de Sóstenes Cavalcante, já foram propagadas nas mídias digitais, conforme aponta checagem de Aos Fatos sobre a investigação da Polícia Federal (PF) Carbono Oculto. A matéria informa que conteúdo falso propagou que haveria financiamento do PCC a pesquisas eleitorais para favorecer o presidente Lula em 2022. 

Combate a facções criminosas na disputa eleitoral

A decisão do governo dos EUA foi divulgada dois dias após a visita do senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Casa Branca. Reportagem do UOL mostrou que a medida “é um resultado direto dos pedidos feitos pelo senador a Donald Trump, ao vice-presidente, JD Vance, e a Rubio”. 

Flávio Bolsonaro manifestou-se publicamente a favor da decisão, que tem apresentado como pauta em sua pré-campanha. O movimento do pré-candidato tem sido lido como estratégia para reverter os efeitos negativos das revelações feitas pelo Intercept Brasil sobre a relação do senador com o banqueiro preso Daniel Vorcaro, peça-chave nas investigações sobre o golpe no Banco Master. Bolsonaro e Vorcaro estariam ligados por transações financeiras criminosas.

Imagem: reprodução Instagram

As declarações do deputado federal Sóstenes Cavalcante viralizaram redes mas estão marcadas por comentários de usuários que questionam contradições nesta postura. Como deputado líder do PL, partido de Flávio Bolsonaro, o pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo também está ligado ao ex-governador do Rio de Janeiro Claudio Castro (PL), mantido inelegível pela Justiça Eleitoral por conta de escândalos de abuso de poder político e econômico. Aliados políticos de Castro estão presos por ligações com o Comando Vermelho, e a PF investiga relações do ex-governador com Vorcaro, por conta de repasses de grandes volumes de dinheiro do fundo de previdência do Estado do Rio para o Banco Master. 

Em dezembro de 2025, o próprio Sóstenes Cavalcante foi alvo de uma operação da PF, a “Galho Fraco”, que investiga desvio de recursos públicos oriundos de cotas parlamentares. Durante a ação foram encontrados R$460mil em dinheiro em sacos plásticos escondidos no  armário de um flat alugado pelo parlamentar evangélico. Cavalcante justificou o montante como sendo de uma venda de um imóvel, mas apresentou comprovação (escritura) que só foi registrada 11 dias após a operação.

Reações à resolução dos EUA

Enquanto lideranças ligadas à direita extremista brasileira celebram que os EUA tenham decretado as organizações criminosas  Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital como terroristas, especialistas no tema questionam veementemente a ação, avaliada como interferência eleitoral.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) se posicionou contrário a decisão do governo estadunidense e declarou que “lamenta que um tema com implicações profundas na soberania e autonomia do Brasil, na sua economia, sistema financeiro e nos mecanismos de cooperação regional e internacional, tenha sido capturado pela disputa eleitoral”.  

Em nota conjunta com outras organizações da sociedade civil, como Associação Brasileira de Estudos da Defesa (ABED), Sociedade Brasileira de Administração Pública (SBAP) e Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), o FBSP destaca que a equiparação de facções criminosas a organizações terroristas já foi negada depois de debatida por instituições brasileiras competentes. O conjunto de entidades afirma que tal decisão brasileira reflete escolhas políticas e jurídicas baseadas nos mecanismos democráticos previstos na Constituição Federal.

O documento afirma que “terrorismo e crime organizado constituem fenômenos distintos sob a perspectiva do direito, das ciências sociais e da criminologia, e que suas motivações, formas de atuação e enquadramentos jurídicos não são necessariamente equivalentes. O Brasil dispõe de instrumentos legais robustos para combater organizações criminosas, incluindo mecanismos voltados ao enfrentamento da lavagem de dinheiro, do tráfico de armas e das estruturas financeiras que sustentam essas atividades ilícitas”.

Em entrevista à DW, o cientista político e professor de relações internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) Thiago Moreira explica que um grupo de crime organizado, como as facções PCC e CV, tem finalidade econômica, e não político-ideológica. Segundo ele, ao contrário de grupos extremistas como a Al Qaeda, mesmo quando se infiltram no aparato estatal, as facções que existem no Brasil buscam cumprir propósitos financeiros.

O governo federal, por meio de nota à imprensa afirmou, em 29 de maio, que “o terror causado por essas organizações em comunidades busca obter lucro através do crime, especialmente pelo tráfico de drogas e armas, e não pode ser confundido com o tipo de ação por motivos ideológicos, políticos e religiosos do terrorismo internacional”. 

No debate público, políticos do PL que apoiaram a designação do PCC e do CV como grupos terroristas pelo governo de Donald Trump foram questionados sobre a não inclusão de milícias na mesma categoria. O estado do Rio de Janeiro, reduto da família Bolsonaro, tem significativa parcela da população aterrorizada por esses grupos criminosos, com apoio da classe política, a exemplo do crime cometido contra a vereadora Mariele Franco. 

Imagem: Perfil do deputado estadual João Pauloi(PT-PE) no Instagram, 30 mai 2026

Imagem: Reprodução de matéria do site Poder 360, 29 mai 2026

Imagem: Reprodução de trecho de matéria da Agência Pública, 29 mai 2026

Um levantamento feito pela jornalista Juliana Dal Piva aponta que ao menos 16 policiais envolvidos com grupos criminosos foram condecorados por Carlos e Flávio Bolsonaro. Carlos Bolsonaro foi vereador do Rio de Janeiro por 24 anos e Flávio Bolsonaro exerceu mandato de deputado estadual no Rio de 2003 a 2018.

Imagem: Durante sua participação no Programa Roda Vida, da TV Cultura, em 9 abr 2024,, o senador Flávio Bolsonaro (PL) tenta explicar sua relação com o ex-militar lider do Escritório do Crime Adriano da Nóbrega, envolvido com o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, e por que o presenteou com a medalha Tiradentes do Estado do Rio. 

O Intervozes alerta para o uso indevido do termo “narcoterrorismo”, empenhado pelo ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) no contexto da operação mais letal no estado, ocorrida em 28 de outubro de 2025, e repercutido por outros políticos e portais religiosos alinhados ao bolsonarismo.

Uma publicação da página da organização no Instagram expõe como a nomenclatura se relaciona com a designação dos EUA sobre facções brasileiras e o desinteresse dos políticos de ultradireita em combater as milícias no estado.

Imagem: reprodução Instagram

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Bereia classifica as declarações do pastor e deputado federal Sóstenes Cavalcante como falsas, visto que não apresenta elementos factuais, comprováveis. O político não informa de onde extraiu a informação de que há repasse de dinheiro de facções criminosas para o Partido dos Trabalhadores, nem oferece comprovação de suas alegações. 

A peça desinformativa é construída com conteúdo fabricado e elementos audiovisuais para gerar impacto negativo e associação criminosa ao partido do governo, a quem faz oposição, para disseminar discurso recorrente já checado em outras ocasiões.  

Além disso, o comportamento do parlamentar pode ser considerado estratégico para gerar “cortina de fumaça” sobre resultados de investigações jornalísticas e polícias que têm demonstrado a ligação de seu partido político com cenário do crime organizado.  

Bereia alerta leitores e leitoras para este tipo de conteúdo desinformativo no período eleitoral. É saudável para uma democracia que haja oposição e divergência, mas a exposição pública delas deve se dar no campo das ideias e das propostas e não por meio de mentiras criadas para destruir reputações de quem deve ser tratado dignamente como adversário poítico e não como inimigo a ser destruído.

Referências

Departamento de estado dos Estados Unidos

https://www.state.gov/releases/office-of-the-spokesperson/2026/05/terrorist-designation-of-comando-vermelho-and-primeiro-comando-da-capital/ Acesso em 02 JUN 26

https://www.state.gov/executive-order-13224/ Acesso em 02 JUN 26

Instagram

https://www.instagram.com/p/DY72v1tPv26/ Acesso em 02 JUN 26

https://www.instagram.com/p/DY7W858RZQy/ Acesso em 02 JUN 26

https://www.instagram.com/reels/DTlvKQmj1xr/ Acesso em 02 JUN 26

G1

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/02/27/rodrigo-bacellar-th-joias-e-mais-3-sao-indiciados-pela-pf.ghtml Acesso em 02 JUN 26

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/05/28/investigacao-policia-federal-vorcaro-claudio-castro.ghtml Acesso em 03 JUN 26

Aos Fatos

https://www.aosfatos.org/noticias/investigacao-nao-revelou-que-pcc-financiou-pesquisas-eleitorais-em-2022-para-beneficiar-lula/ Acesso em 02 JUN 26

Folha de S. Paulo

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2025/12/sostenes-cavalcante-diz-ser-alvo-de-perseguicao-e-que-dinheiro-vivo-e-de-venda-de-imovel.shtml Acesso em 02 JUN 26

O Globo

https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2025/09/01/pcc-ja-financia-campanhas-promotor-lincoln-gakiya-alerta-sobre-influencia-do-crime-organizado-nas-eleicoes-2026.ghtml Acesso em 03 JUN 26

YouTube

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Produtora que integra GT Cristão para campanhas políticas em SP pode ter articulado verbas públicas indiretas ao filme de Bolsonaro

A produtora responsável pela realização da cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, Go Up Entertainment, envolvida no desvio de milhões de reais, também atua na produção de eventos evangélicos e recebeu emendas parlamentares para realização deles. O caso levantou suspeitas sobre a destinação de recursos públicos para o filme que homenageia Bolsonaro, pois os mesmos políticos têm conexões com empresas da sócia da produtora Karina Ferreira da Gama.

Conforme áudios vazados para a imprensa, a Go Up Entertainment teria atuado como mediadora dos milhões de dólares pagos pelo dono do Banco Master Daniel Vorcaro à família Bolsonaro, supostamente destinados para a produção do filme. A produtora do longa-metragem negou ter recebido os valores. Porém, de acordo com documentos cpom registros bancários obtidos pelo The Intercept Brasil, pelo menos 10,6 milhões de dólares  (cerca de 61 milhões de reais) foram repassados por Vorcaro para a realização do filme,  em seis operações financeiras. 

Em outra perspectiva em relação às transações suspeitas, o deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) publicou vídeo com novas informações sobre a Go Up Entertainment. Ligações com o universo evangélico ultraconservador e possível desvio de dinheiro público estão entre as suspeitas levantadas pelo deputado evangélico que colocam a empresa sob outro foco. 

Imagem: reprodução/redes sociais

No vídeo, o deputado explica o sistema de funcionamento do repasse de valores para serviços e as relações entre diversas empresas e figuras políticas, afirmando se tratar de algo “bem nebuloso”. O parlamentar evangélico levanta suspeitas sobre a relação entre políticos, religião, emendas parlamentares e a cinebiografia de Jair Bolsonaro “Dark Horse”. Bereia checou o conteúdo do que o Pastor Henrique Vieira expôs em seus perfis de redes digitais.

Karina Gama: quem é a dona da produtora

O filme em homenagem a Jair Bolsonaro, “Dark Horse”, foi produzido no Brasil pela Go Up Entertainment Ltda., empresa brasileira comandada pela jornalista e empresária Karina Gama. 

Karina Gama tem ainda empresas e organizações da sociedade civil ligadas ao contexto evangélico que recebem dinheiro público. Além da Go Up Entertainment, a empresária é sócia do  Instituto Conhecer Brasil (ICB) e presidente da Academia Nacional de Cultura (ANC), que têm sede no mesmo endereço em São Paulo. No perfil público de Karina Gama, o empreendedorismo cristão é registrado como sua atuação mais destacada, tanto nacional quanto internacionalmente. A ANC, tem escritórios no Brasil, nos Estados Unidos, em Portugal e em Israel.

O ICB 

O Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Gama, recebeu mais de 100 milhões de reais da Prefeitura de São Paulo, sob a gestão de Ricardo Nunes (MDB), para o fornecimento de serviços de wi-fi públicos em regiões de baixa renda da cidade. Esta informação chama a atenção pois a organização não presta serviços de telecomunicação. O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) investiga este repasse financeiro desde janeiro. É alvo da investigação o fato de que não houve concorrência na licitação pública que concedeu as verbas para a realização da implantação de cinco mil pontos de acesso à internet em São Paulo. Quase um ano após o encerramento do prazo de entrega, a Prefeitura paulistana admite que o contrato ainda não foi cumprido, com apenas 3.200 pontos instalados.

A justificativa dos agentes públicos pelo não cumprimento do contrato é que Karina Gama havia registrado um boletim de ocorrência, na Polícia Civil de São Paulo, para acusar a empresa Ultra IP de descumprir o contrato com o ICB para instalar e manter pontos de internet na cidade. O dono da empresa alega não ter ciência do inquérito, negou as acusações e informou ter aberto processo judicial contra o ICB por não ter recebido pelos serviços prestados por meio de contrato. A secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia de São Paulo afirma que todos os questionamentos do MP-SP foram devidamente respondidos dentro do prazo.

Cronograma revela que até junho de 2025, prazo final para implementação, apenas 3200 dos 5000 pontos de Wi-Fi foram considerados ativos. Foto: Reprodução/Prefeitura de São Paulo

Ocorre que levantamento feito pelo portal G1 nas prestações de contas da do ICB, publicado no último 20 de maio, mostra que a organização de Karina Gama apresentou ao menos R$ 4 milhões em notas irregulares à gestão do Prefeito Ricardo Nunes, para justificar despesas do contrato de instalação de wi-fi. A apuração do G1 demonstra que há notas milionárias canceladas no site da própria Prefeitura e até apresentação de recibos e notas sem nenhum valor fiscal para justificar gastos de até R$ 4,3 milhões em uma única fatura, de junho de 2024 a dezembro de 2025. 

Conforme alertou o deputado Pastor Henrique Vieira, o mesmo ICB realiza eventos evangélicos, bancados com emendas parlamentares. Uma delas foi destinada pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), que também é roteirista do filme-homenagem a Jair Bolsonaro. No total, Frias destinou 2 milhões de reais em emendas, também para serviços de marketing da empresa Conhecer Brasil Assessoria, mas nega irregularidades. 

ICB conseguiu, em 2018, com a prefeitura paulistana, 2,5 milhões de reais, para a realização do “Encontro literário IDE”, um evento para promover autores cristãos, na programação da feira de produtos religiosos Expo Cristã. O projeto incluiu um concurso literário, palestras de coaches para autores e encontros com livreiros. Este foi um entre vários eventos religiosos com o apoio financeiro da prefeitura de São Paulo.

Foto: Reprodução do website do Instituto Conhecer Brasil

O ICB também foi parte de um contrato de treinamento na área de educação, com o governo do Distrito Federal, em 2023, sob a gestão de Ibaneis Rocha (MDB), no valor de 4 milhões de reais. 

A ANC

Outra organização administrada por Karina Gama é a Academia Nacional de Cultura (ANC), que também realiza eventos religiosos, como o Mega Dance Musical, vinculado à Força Jovem Universal da Igreja Universal do Reino de Deus e o The Connect Faith 2025. Este último é uma feira de negócios que busca articular empreendedorismo cristão e tecnologia, sob a orientação de estrelas do cenário evangélico como o deputado federal Marco Feliciano (PL-SP), a bispa da Igreja Renascer em Cristo Sonia Hernandes, a pastora e cantora gospel Ana Paula Valadão, entre outras.

A ANC teve a destinação de 2,6 milhões de reais em “emendas PIX” dos deputados federais de identidade cristã do PL Alexandre Ramagem (RJ), Carla Zambelli (SP), Bia Kicis (DF) e Marcos Pollon (MS). O dinheiro foi enviado em junho de 2024 para o governo paulista de Tarcísio de Freitas (PL) para ser usado na produção da série documental que, reconta a história do Brasil sob a interpretação conservadora, “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rendem”. 

Estes repasses estão sob investigação, por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, pois a secretaria estadual de Cultura do governo Tarcísio teria que ter aprovado o plano da produção da ANC para depois assinar um termo de fomento e repassar a verba à produtora. A verba não foi repassada ainda. A secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas foi ouvida pela Agência Pública e explicou que “a referida ONG não cumpriu, até o momento a formalização de toda a documentação necessária para o recebimento do recurso”. Portanto, diz a secretaria, “há diligências em curso para verificação de restrições técnicas e documentais”. Para o G1 a secretaria de 

O valor nessa investigação é uma pequena parte diante dos milhões de dólares que Flávio Bolsonaro pediu para o dono do Banco Master Daniel Vorcaro, para a produção do filme sobre o ex-presidente, conforme revelou o site Intercept Brasil. Este valor teria sido intermediado pela produtora Go Up Entertainment, da mesma Karina Gama, que nega ter recebido qualquer repasse do banqueiro. Com a repercussão do caso foi ainda levantado pela imprensa que a empresa nunca trabalhou com produções cinematográficas.

O deputado Pastor Henrique Vieira e a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) enviaram citação ao ministro do STF Flávio Dino para verificação se há a destinação de emendas também para financiamento indireto do filme, o que resultou na abertura de uma apuração preliminar. Após a divulgação dessa nova frente de investigação, o ICB e a deputada Bia Kicis divulgaram notas à imprensa, negando irregularidades. 

Desinformação 

Em meio a todas esta teia de revelações, o veículo que atua como porta-voz de pautas da direita extremista, a Revista Oeste, publicou matéria em 17 de maio, na qual sustenta que as denúncias que envolvem irregularidades do ICB no contrato do Wi-Fi Livre SP foram produzidas por uma empresa concorrente, a Surf Telecom. 

Segundo a Oeste, a Surf teria sido prejudicada no processo de contratações porque participou de etapas anteriores do programa de conectividade da Prefeitura de São Paulo, mas acabou fora do novo modelo adotado. Em 2024, a gestão municipal abriu chamada para organizações do terceiro setor e o ICB  assumiu o contrato milionário para expansão da internet gratuita em comunidades vulneráveis, apesar de não atuar nessa frente de trabalho. 

Segundo a Revista Oeste supõe, a Surf, como forma de retaliação, teria estimulado as denúncias publicadas pelo Intercept Brasil, uma vez que haveria uma ligação direta entre a Surf Telecom e o veículo jornalístico. A matéria afirma que o jornalista Paulo Motoryn, um dos autores das reportagens sobre o caso, é parente de Mauro Motoryn, executivo da Surf. Isto levaria leitores a crerem, uma vez que não há qualquer prova sobre a suposição, em uma possível influência da disputa comercial na cobertura jornalística do The Intercept. 

Imagem: reprodução/revista Oeste

No entanto, reportagens de outros veículos credenciados, como o UOL e o G1, publicaram matérias sobre a investigação do Ministério Público e da Polícia Civil sobre as suspeitas que incluem possível sobrepreço, uso de notas fiscais irregulares, falhas na execução do serviço e inconsistências na prestação de contas. Além disso, como informado nesta matéria, o ICB foi a única organização a apresentar proposta no chamamento público da Prefeitura, o que resultou em contratação sem licitação/concorrência.

A publicação da revista Oeste vem sendo usada em redes digitais para desqualificar o trabalho do jornalista Paulo Montoryn e para defender a empresária produtora do filme-homenagem a Jair Bolsonaro. Porém, os fatos amplamente reportados e documentados por vários veículos jornalísticos, para além do The Intercept, sobre irregularidades nos contratos com a Prefeitura de São Paulo, colocam em xeque a credibilidade da matéria da Oeste. 

Karina Gama e as articulações do GT Cristão 

O Grupo de Trabalho Cristão (GT Cristão) é uma organização que funciona em São Paulo para interlocução e lobby entre pastores e igrejas evangélicas, o setor empresarial e o ambiente político, com forte alinhamento ao campo ultraconservador de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

O grupo ganhou estrutura e visibilidade durante as eleições de 2022. Ele foi originalmente montado como um “Grupo de Trabalho Cristão” para dar suporte a campanhas como as de Geraldo Alckmin, José Serra, Jair Bolsonaro (2018). Mas foi em 2022 que ganhou mais densidade no apoio à eleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao governo do estado de São Paulo. A função inicial do grupo era orientar o candidato sobre temas de interesse religioso, municiar discursos com passagens bíblicas e organizar formalmente as agendas dele em templos, cultos e grandes eventos (como a Marcha para Jesus).

Após aquele período eleitoral, o grupo se consolidou como um canal permanente de representação. Atualmente presidido pelo pastor da Assembleia de Deus do Brás Geraldo Malta, o GT Cristão passou a atuar no agendamento de reuniões institucionais e na aproximação de interesses do empresariado e de entidades cristãs com o poder público. O grupo possui livre trânsito em gabinetes políticos de relevância, coordena encontros formais com Prefeituras no estado de São Paulo e com as respectivas secretarias de cultura e habitação. Malta afirma que o GT reúne cerca de 400 pastores e 5 mil igrejas.

É nessa intersecção entre religião, negócios e política que Karina Gama se insere. Em reuniões oficiais com governantes e Prefeituras, ela se apresenta e atua como membro do GT Cristão, às vezes ao lado do pastor presidente ou de outros pastores do grupo. A empresária conecta as pautas da organização às suas próprias frentes de atuação no grupo de empresas que dirige, que incluem a captação de recursos na área da cultura, projetos de empreendedorismo cristão e a produção de mídia audiovisual direcionada à base conservadora.

As relações da empresária Karina Gama com a Prefeitura de São Paulo são estreitas. A presidente da ANC constava no quadro de membros da Comissão Permanente de Finanças e Orçamento (CPFO) da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo, em 2019. Em documento da Prefeitura paulistana há o registro de uma reunião do prefeito Ricardo Nunes, em 22 de fevereiro de 2023, com um grupo no qual consta o nome de Karina Ferreira da Gama, sob as referências de Presidente da Academia Nacional de Cultura e membro do GT Cristão. 

Mais recentemente, em 15 de outubro de 2025, há o registro oficial de outra reunião no Gabinete do Prefeito de São Paulo, esta com a secretaria da Casa Civil e “a presidente e CEO da The Connect Faith – Karina Ferreira da Gama”, na qual também participaram “membros da Academia Nacional de Cultura – Marcelinho Machado, Mônica Cintra, Samuel Crisóstomo, Samuel Camargo, Apostolo Antônio Carlos, Mike Davis, Pastora Elaine Cardoso; Deputado Federal Missionário José Olímpio; Deputado Estadual Rodrigo Moraes; Presidente do GT Cristão – Geraldo Malta; Diretor de Comunicação do GT Cristão – Pastor Osório Brasileiro; Secretário da Casa Civil – Enrico Misasi; Secretário de Cultura e Economia Criativa – Totó Parente; Secretário de Turismo – Rui Alves; e Diretor-Presidente da SPTuris – Gustavo Pires”. 

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As denúncias do deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ), publicadas em vídeo, sobre financiamentos suspeitos com verbas públicas de eventos religiosos e outros da produtora do filme-homenagem a Jair Bolsonaro “Dark Horse”,  estão no contexto das informações que circulam no noticiário em maio de 2026. Há uma série de suspeitas sob investigação na Polícia Federal, no Ministério Público de São Paulo e no Supremo Tribunal Federal sobre transações financeiras para financiamento do filme que envolveriam também verbas públicas diretas.

Como a apuração do Bereia mostra, as suspeitas expostas no vídeo do Pastor Henrique Vieira têm fundamento na documentação e nos fatos levantados e publicados pela imprensa em torno do caso e das personagens envolvidas, entre elas a Go Up Entertainment, da empresária Karina Gama. São várias frentes de investigação em curso. Portanto, Bereia classifica como inconclusivo o conteúdo verificado. A equipe seguirá acompanhando os desdobramentos para atualização das informações à medida que emerjam comprovações.

Referências

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Acesso em 21 mai 2026

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AGÊNCIA PÚBLICA

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UOL

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Caso do senador evangélico acusado de agredir técnica de enfermagem em hospital segue sob investigação

Episódio ocorrido em 30 de abril de 2026, no Hospital DF Star, em Brasília, colocou em evidência, nos primeiros dias de maio de 2026, acusações de agressão envolvendo o senador evangélico Magno Malta e uma técnica de enfermagem. Segundo boletim de ocorrência registrado na Polícia Civil do Distrito Federal, a profissional afirma ter sido agredida com um tapa no rosto e ter sido xingada de “imunda” e “incompetente” por Malta, durante atendimento ao parlamentar. O caso repercutiu intensamente nas mídias sociais e reúne versões conflitantes e segue em apuração pelas autoridades.

Imagem: reprodução/X
Imagem: reprodução/X

Denúncia e repercussão

A denúncia foi inicialmente divulgada por veículos de imprensa, que relataram o registro de ocorrência pela profissional de saúde na delegacia do DF. De acordo com essas publicações, o episódio teria ocorrido durante a realização de uma angiotomografia. O procedimento envolve a aplicação de contraste para visualização de vasos sanguíneos e, segundo o relato da técnica, houve extravasamento do líquido no braço do paciente. Ao identificar a situação e se aproximar para realizar compressão no local, ela afirma ter sido atingida com um tapa e ter sido alvo de ofensas verbais.

A versão foi reiterada pela profissional em entrevistas, nas quais descreve o impacto do episódio e afirma que o tapa foi “muito forte”, Ela contou ainda, que o acesso utilizado para a injeção do contraste foi realizado em outro setor e estava funcionando normalmente antes do exame. Além disso, a técnica relatou estar com medo de retornar ao trabalho.

“Eu não tenho vontade nem ânimo nenhum para ir para um ambiente de trabalho e dar de cara com aquele sujeito. Nenhuma vontade. É muito difícil lidar com um tapa de uma agressão que eu nunca nem sofri dentro de casa. Lá dentro de casa tem um homem, são dois, não é um, são dois. E eles nunca bateram na minha cara igual esse indivíduo fez”, afirmou a profissional. “No momento, eu não tive reação e a única coisa que eu senti era que eu era um saco de lixo onde todo mundo passava e fazia de conta que não me conhecia ou que eu era um saco podre”, completou.

Em 6 de maio, a técnica de enfermagem foi afastada das atividades por recomendação médica, conforme nota divulgada à imprensa pela assessoria do Hospital DF Star. A unidade declarou que a profissional “encontra-se afastada de suas atividades por recomendação de seu médico particular e que está recebendo suporte institucional”. O afastamento ocorreu no contexto da denúncia e da repercussão do caso.

Versão do senador e manifestação da defesa

O senador Magno Malta nega a acusação de agressão. Em manifestações públicas, afirma que houve falha técnica no procedimento, com extravasamento do contraste, o que teria provocado dor intensa. “Não toquei um dedo em ninguém”, declarou em redes sociais. Em outras declarações, classificou a denúncia como falsa e associou sua divulgação a tentativas de desgaste de sua imagem.

No dia 5 de maio, já de volta às atividades, o senador reiterou sua defesa em discurso na tribuna do Senado, ao afirmar que estaria sendo alvo de um “processo político” para destruir sua trajetória. Na ocasião, disse não saber “por que essa moça fez isso, nem por quem foi incentivada” e declarou que renunciaria ao mandato caso fosse apresentada qualquer prova de agressão, como imagens ou registros do momento.


Imagem: reprodução/Instagram

O parlamentar também registrou boletim de ocorrência contra a profissional, solicitando apuração dos fatos com análise de imagens, prontuário médico e realização de exames periciais. No registro policial, Magno Malta afirma que, diante da forte dor e do uso de medicação, apresentou reação compatível com o sofrimento físico do momento, mas sem praticar qualquer ato de agressão física contra profissionais de saúde. 

Em resposta ao Coletivo Bereia, a assessoria de imprensa do senador informou que não seriam concedidas entrevistas no momento, afirmando que o dia 5 de maio “foi um dia bastante desgastante para o senador. Ele falou na tribuna do Senado e também cumpriu um compromisso que já estava previamente agendado. Neste momento, inclusive por orientação e cuidado com a saúde, ele irá se resguardar um pouco mais”.

Apesar disso, foi encaminhada nota da assessoria jurídica. “O hospitalizado, Sr. Magno Malta é, neste episódio, a única vítima: de um erro técnico documentado, de uma narrativa fabricada para encobri-lo e de uma exposição pública irresponsável. Medidas cabíveis estão em curso em todas as esferas. O prontuário fala por si. A trombose e o hematoma não mentem.” O texto é assinado pelo advogado André Henrique Pimentel Lucena.

Apuração institucional e atuação das autoridades

O Hospital DF Star informou que abriu apuração administrativa e que está prestando suporte à funcionária. 

O caso foi registrado na Polícia Civil do Distrito Federal e, em razão da prerrogativa de foro do senador, encaminhado ao Supremo Tribunal Federal. A polícia civil disse em nota que “a vítima relata que, durante atendimento como técnica de enfermagem, o paciente se levantou e desferiu um tapa em seu rosto. Relata ainda ter sido alvo de ofensas verbais.”

Segundo fontes ligadas à investigação, o laudo do Instituto de Medicina Legal (IML) identificou uma escoriação no lado direito do nariz da técnica de enfermagem. As mesmas fontes afirmam que a lesão foi considerada compatível com a versão apresentada pela profissional, que relatou ter recebido um tapa no rosto e, com o impacto, ter tido os óculos entortados, atingindo a região do nariz. Embora o exame não tenha identificado vermelhidão facial no momento da perícia, investigadores explicam que isso não invalida o relato, já que os peritos consideraram a possibilidade de rubefação, reação que pode desaparecer em poucas horas após o impacto físico.

No mesmo contexto da investigação, a Polícia Civil ouviu, em 6 de maio, uma testemunha que também trabalha no Hospital DF Star. Segundo informações divulgadas pela imprensa, o homem afirmou não ter presenciado o momento em que o tapa teria ocorrido, mas relatou ter encontrado a colega logo após o episódio e observado que os óculos dela estavam tortos, o que coincide com a versão apresentada pela profissional. O depoimento passou a integrar os elementos analisados pelas autoridades, enquanto o caso segue sem conclusão oficial.

Bereia tentou contato com a assessoria de imprensa do hospital DF Star, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.

Repercussões entre entidades da enfermagem

O caso motivou manifestações de entidades representativas da enfermagem, que destacaram a gravidade de episódios de violência no ambiente de trabalho e cobraram apuração rigorosa dos fatos.

O Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal afirmou, em nota pública, que situações de violência contra profissionais de saúde “não podem ser toleradas”, ressaltando que agressões físicas e verbais comprometem não apenas a integridade dos trabalhadores, mas também a qualidade da assistência prestada.

Na mesma linha, a Federação Nacional dos Enfermeiros manifestou solidariedade à trabalhadora e classificou o episódio como “agressão sofrida por profissional de enfermagem”, defendendo que casos como esse devem ser investigados com rigor e transparência.

O Sindicato dos Enfermeiros do Distrito Federal e seu Setorial de Mulheres também se posicionaram, afirmando que é “ultrajante que, além de vítima de agressões verbais e físicas, a profissional ainda precise enfrentar uma campanha difamatória que tenta invalidar sua dor e profissionalismo”. As entidades acrescentam que “não existe qualquer justificativa para a violência contra a Enfermagem” e chamam atenção para o fato de que a categoria é majoritariamente composta por mulheres, o que, segundo destacam, a torna ainda mais exposta a situações de violência no exercício da profissão.

Imagem: reprodução/Instagram

As manifestações reforçam a necessidade de investigação pelas autoridades competentes e de proteção aos profissionais de saúde.

Circulação de conteúdos e disputa de narrativas

O episódio também ganhou forte repercussão nas redes digitais, com a divulgação de vídeos e declarações do senador, além de manifestações de familiares e apoiadores.

Em uma das gravações, o parlamentar apresenta um homem que pede desculpas pelo ocorrido, mas não há confirmação pública sobre a identidade ou função dessa pessoa no hospital. “Fiquei chateado, sentindo dores horríveis, voltei para o quarto sentindo dores, e o diretor do hospital esteve aqui juntamente com o médico de plantão, me pediram desculpa.”, disse ele no vídeo publicado em sua conta no Instagram. 

Imagem: reprodução/Instagram

A circulação desses conteúdos ocorre paralelamente à ausência de evidências materiais públicas, o que contribui para a consolidação de versões distintas sobre o episódio.

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O caso reúne elementos típicos de situações em fase inicial de apuração: uma denúncia formal, versões conflitantes e ausência de provas públicas que permitam verificação independente. Em 6 de maio, novos elementos passaram a integrar a investigação, como o laudo do IML que identificou uma escoriação no nariz da técnica de enfermagem, considerada compatível com o relato apresentado por ela às autoridades, além do depoimento de uma testemunha que afirmou ter visto os óculos da profissional tortos logo após o episódio. Ainda assim, esses elementos, por si só, não encerram a apuração nem estabelecem conclusão definitiva sobre a dinâmica dos fatos.

A ampla circulação do episódio nas redes sociais e em diferentes veículos amplia a disputa discursiva, especialmente diante do envolvimento de uma figura pública. As manifestações institucionais reforçam a gravidade do tema, a violência contra profissionais de saúde, mas não substituem a necessidade de apuração baseada em evidências. 

Até o momento, não foram divulgadas imagens do atendimento, nem houve apresentação pública integral de laudos, registros hospitalares ou conclusões oficiais das investigações conduzidas pelas autoridades.

Diante desta apuração, Bereia classifica a denúncia de agressão envolvendo o senador Magno Malta como inconclusiva. Embora novos elementos tenham sido incorporados ao caso, ainda não há conjunto probatório público suficiente para confirmar integralmente ou refutar de forma definitiva a ocorrência da agressão relatada. O caso segue sob investigação pelas autoridades competentes e Bereia acompanhará os desdobramentos.

Referências

Metrópoles

https://www.metropoles.com/distrito-federal/na-mira/magno-malta-da-tapa-na-cara-de-tecnica-durante-exame-em-hospital-no-df-imunda – Acesso em 6 maio 26

https://www.metropoles.com/colunas/mirelle-pinheiro/laudo-do-iml-contradiz-versao-de-magno-malta-sobre-agressao-em-hospital – Acesso em 6 maio 26

https://www.metropoles.com/colunas/grande-angular/o-que-diz-testemunha-sobre-tecnica-que-acusa-magno-malta-de-agressao – Acesso em 6 maio 26

CNN Brasil

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/tecnica-em-enfermagem-registra-bo-contra-senador-magno-malta-por-agressao – Acesso em 6 maio 26

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/tecnica-em-enfermagem-registra-bo-contra-senador-magno-malta-por-agressao/ – Acesso em 6 maio 26

Rede TV

https://www.redetv.uol.com.br/amp/redetvi-noticias/noticia/geral/lesao-em-tecnica-de-enfermagem-e-compativel-com-relato-de-agressao-de-magno – Acesso em 6 maio 26

SBT News

https://sbtnews.sbt.com.br/noticia/politica/tecnica-de-enfermagem-diz-estar-com-medo-e-que-tapa-de-magno-malta-foi-muito-forte – Acesso em 6 maio 26

Itatiaia

https://www.itatiaia.com.br/politica/tecnica-de-enfermagem-que-acusa-magno-malta-de-agressao-e-afastada-do-trabalho – Acesso em 6 maio 26

Agência Senado

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/05/05/magno-malta-nega-agressao-a-enfermeira-e-relata-falha-em-atendimento-hospitalar – Acesso em 6 maio 26

Uol

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/05/03/magno-malta-registra-boletim-de-ocorrencia-contra-tecnica-de-enfermagem-apos-acusacao.htm – Acesso em 6 maio 26

COREN-DF

https://coren-df.gov.br/violencia-contra-profissional-de-enfermagem-durante-atendimento-nao-pode-ser-tolerada – Acesso em 6 maio 26

Instagram Conselho Federal de Enfermagem (COFEN)

https://www.instagram.com/p/DX1zNDrgE2z – Acesso em 6 maio 26

Federação Nacional dos Enfermeiros 

https://www.portalfne.com.br/noticia/nota-de-repudio-da-fne-a-agressao-sofrida-por-profissional-de-enfermagem-no-hospital-df-star-e-de-solidariedade-a-trabalhadora – Acesso em 6 maio 26