Circulam amplamente nas redes digitais vídeos publicados pelo advogado criminalista e pré-candidato a deputado federal pelo Paraná Jeffrey Chiquini (Novo) e pelo vereador de Goiânia, pré-candidato a deputado estadual Dieyme Vasconcelos (PL) que afirmam que padres e pastores poderão ser presos por pregarem sermões considerados “machistas”. A afirmação está relacionada à aprovação do Projeto de Lei (PL) 896/2023, que inclui a misoginia (ódio contra mulheres) entre os crimes previstos na Lei do Racismo. Os argumentos expostos nas publicações, que somam milhões de visualizações nas redes digitais, são falsos.
O texto que compõe o chamado PL da Misoginia, foi apresentado pela senadora Ana Paula Lobato, aprovado pelo Senado Federal e atualmente tramita na Câmara dos Deputados, sob a relatoria da deputada federal Tabata Amaral (PSB), e não criminaliza sermões religiosos nem prevê punição a líderes religiosos pelo simples fato de pregarem suas interpretações da Bíblia. As alegações falsas reforçam um antigo discurso eleitoreiro de que governos de esquerda pretendem perseguir cristãos e restringir a liberdade religiosa no Brasil.
O que alegam os candidatos
Um dos vídeos destaca o advogado Jeffrey Chiquini, que ganhou projeção nacional ao atuar na defesa do ex-assessor do governo de Jair Bolsonaro Filipe Martins em processos relacionados à investigação da tentativa de golpe de Estado e dos atos de 8 de janeiro de 2023 em Brasília. Na publicação ele afirma que, a partir do próximo ano, “padres e pastores serão presos” caso algum fiel interprete seus sermões como machistas. De acordo com ele, qualquer fala considerada misógina (de ódio às mulheres) passará a ser enquadrada como racismo, e levará líderes religiosos à prisão.
O advogado ainda afirma que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estaria trabalhando para aprovar a proposta e que o verdadeiro objetivo da esquerda seria “fechar o cerco” contra igrejas evangélicas e católicas, para impedir que a Bíblia seja pregada.
Ao final, conclui que cristãos não deveriam votar em candidatos de esquerda porque esse grupo político desejaria perseguir igrejas e religiosos. Nenhuma dessas afirmações encontra respaldo no texto do projeto ou em ações do atual governo federal.
Imagem: Captura de tela de vídeo publicado por Jeffrey Chiquini no Instagram. Fonte: Instagram.
O outro pré-candidato, o vereador Dieyme Vasconcelos (PL-GO), também difundiu a mesma desinformação, o que se mostra uma ação articulada. Em vídeo publicado em seu perfil oficial do Instagram, ele afirma que o projeto tornaria crime a leitura de Efésios 5:22, passagem da Bíblia, cuja interpretação justifica a submissão das esposas aos maridos. Vasconcelos disse ainda que padres e pastores poderiam receber penas de até cinco anos de prisão.
O vídeo repete a mesma interpretação falsa apresentada por Jeffrey Chiquini e não apresenta qualquer fundamento jurídico que sustente essa conclusão.
Imagem: Captura de tela de vídeo publicado por Dieyme Vasconcelos no Instagram. Fonte: Instagram.
O conteúdo também foi compartilhado pelo pastor e pré-candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro Junior Trovão (MDB), cujo vídeo já ultrapassou dois milhões de visualizações nas redes digitais.
Imagem: Captura de tela do compartilhamento do vídeo pelo pastor Junior Trovão no Instagram. Fonte: Reprodução/Instagram
O que, de fato, prevê o PL 896/2023
De autoria da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA), o Projeto de Lei 896/2023 foi aprovado por unanimidade no Senado Federal e aguarda aprovação da Câmara dos Deputados.
A proposta torna crime a misoginia, como a conduta que exterioriza ódio, aversão ou discriminação contra mulheres e inclui essa prática entre os crimes previstos na Lei 7.716/1989 (Lei do Racismo). O objetivo é ampliar a proteção contra manifestações discriminatórias dirigidas às mulheres em razão do gênero.
Em nenhum trecho o projeto menciona sermões religiosos, missas, cultos, leitura da Bíblia, padres, pastores ou qualquer forma de criminalização da atividade religiosa. A lei prevê punição a qualquer expressão pública de ódio a mulheres, qualquer que seja origem.
Além disso, a Constituição Federal assegura a liberdade de consciência, de crença e de culto (artigo 5º, inciso VI). Isso significa que o projeto de lei não altera o direito de igrejas exercerem suas atividades religiosas e apregoarem suas doutrinas, nem autoriza a prisão de líderes religiosos por pregarem suas interpretações sobre textos da Bíblia. Como qualquer cidadão, ministros religiosos somente podem ser responsabilizados quando praticam condutas tipificadas em lei, neste caso o estímulo ao ódio, ainda assim, após análise do caso concreto pelo Poder Judiciário.
Desinformação já circula desde março
Esta não é a primeira vez que o PL é alvo de desinformação. Em março deste ano, Bereia verificou uma série de publicações falsas que afirmavam que a chamada “Lei da Misoginia” proibiria igrejas de pregarem determinados trechos bíblicos ou criminalizaria passagens das Escrituras consideradas ofensivas às mulheres.
Na ocasião, Bereia mostrou que essas interpretações distorcem completamente o conteúdo do projeto de lei, que trata da punição a atos de discriminação e discurso de ódio contra mulheres, e não de manifestações religiosas.
O falso discurso de perseguição aos cristãos
A ideia de que governos de esquerda pretendem fechar igrejas ou perseguir cristãos está nas campanhas eleitorais brasileiras há mais de três décadas e já foi checada diversas vezes por Bereia.
O conteúdo começou a circular ainda na eleição presidencial de 1989, quando mensagens afirmavam que Luiz Inácio Lula da Silva fecharia igrejas caso fosse eleito. Desde então, versões semelhantes reaparecem em praticamente todas as eleições presidenciais.
Essas publicações costumam apresentar características comuns: autoria desconhecida ou pouco transparente, ausência de fontes oficiais, linguagem alarmista e pedidos de compartilhamento urgente para mobilizar eleitores religiosos.
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Bereia classifica como falsa a afirmação divulgada pelo advogado, pré-candidato do PL deputado federal Jeffrey Chiquini, posteriormente reproduzida por outros agentes políticos e religiosos, de que o Projeto de Lei 896/2023 permitirá prender padres e pastores por pregarem sermões ou lerem passagens bíblicas consideradas machistas.
O projeto não criminaliza a pregação religiosa nem restringe a liberdade de culto garantida pela Constituição. O conteúdo da proposta trata exclusivamente da inclusão da misoginia entre os crimes de preconceito e discriminação previstos na Lei do Racismo. As publicações analisadas distorcem o texto legislativo para reforçar um discurso recorrente de suposta perseguição estatal às igrejas e aos cristãos, sem qualquer respaldo na proposta em tramitação. Qualquer grupo religioso tem liberdade de culto e de pregação de suas doutrinas no Brasil, desde que não propaguem ódio e discriminação, de forma contrária a leis do País.
O vídeo publicado por Michelle Bolsonaro (PL) em seus perfis de mídias sociais no último dia 24 de junho, gerou grande repercussão na imprensa e no cenário político brasileiro. No discurso, a ex-primeira-dama, presidente do PL Mulher, braço feminino do Partido Liberal (PL), expõe divisões na campanha eleitoral no interior da agremiação e na família de Jair Bolsonaro.
No vídeo, Michelle Bolsonaro revela que foi desrespeitada e maltratada pelo enteado, o senador, pré-candidato a presidente da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Imagem: Reprodução/Instagram
O principal motivo da desavença teria sido o estabelecimento da aliança do partido com Ciro Gomes (PSDB), no final de 2025, para o governo do estado do Ceará. A ex-primeira dama considera o político cearense o principal responsável pela inelegibilidade do ex-presidente e havia manifestado publicamente, à época, discordância com a estratégia do partido. Por conta disto, ela foi repreendida por suas declarações, com os filhos do ex-presidente (Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro), com quem a madrasta já tem histórica incompatibilidade, e por líderes do PL. Desde então, ela teve suas ações restringidas aos cuidados com o marido, que cumpre pena em prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado.
No vídeo publicado em 24 de junho passado, Michelle Bolsonaro se justifica: “Não é questão de política, é questão de coerência. Ciro Gomes foi o principal responsável pelo processo que levou à inelegibilidade do meu marido. Durante a pandemia, numa live com outros esquerdistas, ele incentivou e conclamou as pessoas a chamarem o meu marido de genocida e pediu que repetissem isso o tempo todo”.
No longo discurso proferido, nas duas partes em vídeo, com um total de quase 30 minutos, a presidente do PL Mulher ainda se queixa de não ter tido suas indicações de mulheres do partido para candidaturas ao Senado consideradas, inclusive no próprio estado do Ceará.
Além do teor do pronunciamento, com a nítida exposição do atrito entre a ex-primeira-dama, Flávio Bolsonaro e lideranças do PL, foram elementos decorativos do cenário do vídeo cuidadosamente gravado que chamaram a atenção do público. Entre eles, o gesto de mão foi o mais comentado. No noticiário e em comentários nas mídias sociais foram identificados muitos registros que colocaram dúvida sobre o que a escultura representaria ou que especularam ser um símbolo religioso.
Imagem: Reprodução/X
Imagem: Reprodução/Instagram
Imagem: Extrato do programa matinal Desperta ICL. Youtube, 25 jun 2026
Mídias como Folha de S. Paulo, Congresso em Foco e G1 publicaram análises sobre o significado dos objetos presentes no cenário e como cada um se comunica com o público. De modo geral, as análises destacam o reforço da identidade religiosa, autoridade e protagonismo de Michelle Bolsonaro diante do contexto conflituoso em seu núcleo familiar e político.
Bereia verificou o significado dos elementos visuais que provocaram desinformação nas redes por excesso nas abordagens especulativas ou por falta de compreensão do que são, de fato, símbolos religiosos.
Símbolo satânico e rosário em meio a discurso religioso evangélico?
O discurso político de Michelle Bolsonaro foi permeado por diversas expressões religiosas. Com linguagem que caracteriza a identidade dela como mulher evangélica, permanentemente autodeclarada, termos como “missão que só Deus tira”, “liberar perdão”, “prestar contas ao meu Deus”, “meu Deus é o caminho, a verdade e a vida” (referência a texto do Evangelho de João, na Bíblia), “Deus abençoe” (na despedida), foram enfaticamente pronunciados.
Evangélica, a ex-primeira-dama desempenhou um importante papel de aproximar o marido do público evangélico tanto nas eleições de 2018, em que ele foi vitorioso, quanto na tentativa de reeleição de 2022. Michelle Bolsonaro é membro da Igreja Batista Atitude, no Rio de Janeiro, onde atuava com tradução de Libras para a inclusão de pessoas surdas nas atividades religiosas.
Com base neste contexto, Bereia indica que não é possível atribuir a símbolos utilizados pela presidente do PL Mulher para dar força visual ao pronunciamento, um caráter religioso que não seja a identidade cristã evangélica.
Sobre a mesa, ao lado de Michelle Bolsonaro, há um livro que apoia alguns elementos: uma Estrela de Davi e um adereço de contas. Há também uma escultura no formato de mão direita com os dedos médio e anelar fechados, e os dedos polegar, indicador e mínimo erguidos. A presidente do PL mulher também está vestida com uma camisa decorada com linguagem religiosa.
A escultura com gesto de mão direita
O gesto representado pela escultura é o sinal de “Eu te Amo/I Love You” da Língua Brasileira de Sinais (Libras), usado para demonstração de afeto por surdos do Brasil e de outros países. Michelle Bolsonaro é intérprete de Libras e a mensagem da com a tradução “Eu te amo” na linguagem de sinais está sempre presente em fotos e gravações em vídeo de Michelle Bolsonaro publicadas em seus perfis de mídias sociais. A escultura também já foi utilizada em outras gravações.
Reprodução/Instagram
O uso da língua de sinais e a defesa de pautas da comunidade surda marcou a atuação da ex-primeira-dama durante o mandato de Jair Bolsonaro. Na posse de Bolsonaro como presidente da República, em janeiro de 2019, ela chamou a atenção na cena pública quando traduziu o discurso proferido pelo marido para Libras.
A presença da escultura no cenário do vídeo-crítico a Flávio Bolsonaro e a lideranças do PL, ao lado da imagem de tradutores do discurso para Libras, cria laços com o público com deficiência e reforça a imagem do engajamento da presidente do PL Mulher com a inclusão de pessoas com deficiência. O gesto amplifica a identificação também com o serviço que igrejas evangélicas dedicam a esta população, de onde se origina o compromisso exposto por ela..
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A Estrela de Davi
A estrela de Davi é um dos mais conhecidos símbolos do Judaísmo e é frequentemente usada por segmentos evangélicos que adotam práticas e elementos judaizantes. Soma-se a este símbolo, o apego maior à leitura do Antigo Testamento, onde estão os relatos e ensinamentos religiosos do Israel bíblico, o uso da bandeira de Israel, da menorah (candelabro) e da arca da aliança para decorar igrejas. Estas são algumas características do que estudiosos da religião chamam de “sionismo cristão”, que também é configurado pela defesa incondicional do atual Estado de Israel e seus governantes, interpretado como continuação do Israel representado na Bíblia.
Imagem: reprodução/Instagram
Michelle Bolsonaro é formada e vinculada à vertente evangélica que tem o sionismo cristão como base teológica. Nas eleições de 2022, quando ganhou mais destaque como cabo eleitoral do marido, Michelle Bolsonaro foi às urnas vestindo uma camisa estampada com a bandeira de Israel e fez menção ao país em uma publicação nas mídias sociais: “Que as bênçãos do nosso Deus estejam sobre o Brasil e sobre Israel. Deus, Pátria, Família, Liberdade”.
No mês seguinte, ela publicou a foto de um candelabro usado na festa judaica do Hanukkah, ao lado de uma Bíblia, com as bandeiras do Brasil e de Israel ao fundo. Na legenda, Michelle explica a simbologia da celebração e usa uma frase em hebraico.
Reprodução/Instagram
A presença da estrela de Davi na mesa de onde parte o pronunciamento da presidente do PL Mulher se torna mensagem sobre a vertente evangélica que a orienta e do estabelecimento de sintonia com a parcela de fiéis que cultiva o imaginário do Israel bíblico representado pelo Estado de Israel.
Os termos estampados na camisa
Outro elemento que dialoga com o público evangélico está na camisa usada por Michelle Bolsonaro, que tem estampadas as palavras “alegria”, “amor”, “domínio próprio”, “mansidão” e “paz”. Os termos estão presentes no texto bíblico do capítulo cinco do livro de Gálatas, onde são apresentados como fruto do Espírito (num todo) pelo apóstolo Paulo, redator da carta enviada aos cristãos na Galácia (Grécia).
Desse modo, a comunicação com grupos cristãos não acontece só por meio da estrela de Davi, que representa a fé no Deus representado pelo Antigo Testamento e um conjunto de valores conservadores, inclusive políticos, relacionados ao sionismo cristão, no apoio às ações do Estado de Israel no presente. Bereia identifica nesta checagem que “vestir” as características citadas na Bíblia como resultado da ação divina comunica credibilidade e autoridade em representar a fé.
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O colar de contas
Católicos tradicionalistas fazem suas orações portando um terço ou um rosário; hindus e budistas e outros fiéis de religiões orientais usam a jampala como objeto concreto para meditação e foco sem restrição de crença. Bereia afirma que uma fiel evangélica não faria uso público de rosários ou jampalas sob o risco de ser classificada como traidora da fé ou idólatra. A fé evangélica é historicamente rechaçadora de simbologias visuais, com aberturas mais recentes, em espaços pentecostalizados, para objetos que são abençoados (até mesmo adquiridos por meio de compra) e para a decoração com símbolos do judaísmo, como citado acima. Portanto, seguramente, não se pode afirmar que Michelle Bolsonaro lançou mão de objetos de cunho religioso de outras fés que não a evangélica, no vídeo publicado em 24 de junho, que tratou de denúncia sensível e amplamente ancorada em linguagem religiosa evangélica.
É fato que Bereia já checou que Michelle Bolsonaro e outras lideranças do PL receberam um Pai de santo e outros líderes não cristãos no carro de som de um ato por perdão judicial a participantes dos ataques ao processo eleitoral de 2022. Este fato, porém, não pode ser usado como referência para posturas da presidente do PL Mulher em relação a outras religiões, uma vez que foi uma ação voltada para uma pauta específica.
Uma pesquisa sobre a imagem do colar que está no vídeo mostrou que ele pode ser um colar de mesa, um tipo de objeto decorativo, comumente feito de forma artesanal, que é composto por contas, pedras, sementes ou fibras amarradas a um fio. A busca por imagens correspondentes mostra objetos semelhantes em sites de vendas e decoração. Esses colares podem ser usados para adornar mesas de jantar, de canto ou de centro, sem significado para além disso, o que provavelmente se refere ao que se verifica no vídeo.
Diploma Russell Philip Shedd
A parede por trás da figura de Michelle Bolsonaro está repleta de diplomas, certificados e medalhas. Esta prática é muito comum quando pessoas buscam reconhecimento, credenciamento de uma certa autoridade e reforço na trajetória pessoal. Chama a atenção o quadro de um certificado com a imagem de um senhor empunhando a Bíblia, acima do ombro esquerdo da ex-primeira dama. É a imagem do teólogo batista Russel Shedd.
O quadro expõe o Diploma Russell Philip Shedd, honraria criada por lei, em 2022, pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). De autoria do deputado Leo Vieira (Republicanos) a homenagem é destinada a personalidades e instituições que contribuem com o crescimento, a divulgação e a promoção do cristianismo no Estado do Rio de Janeiro.
Imagem: reprodução
Russel Shedd é uma figura popular entre evangélicos de formação conservadora e tradicionalista. Filho de missionários dos Estados Unidos que atuaram em diferentes países da América Latina, nasceu na Bolívia, tornou-se doutor em Teologia e veio para o Brasil como missionário nos anos 1960 pela Missão Batista Conservadora no Sul do Brasil. Entre suas muitas atividades como pastor e professor, fundou uma das mais destacadas editoras evangélicas do Brasil, as Edições Vida Nova, que tem entre as publicações mais populares a Bíblia Russel Shedd. O teólogo que se tornou conhecido por ser moderado, piedoso, incentivador do evangelismo, evitando temas polêmicos, faleceu em 2016.
Em 2025, a Alerj aprovou a concessão do Diploma Russel Shedd para Michelle Bolsonaro por proposta da deputada estadual Índia Armelau (PL). Bereia avalia que o destaque a esta honraria, com uma imagem de Shedd em evidência no vídeo, é o registro do credenciamento que ela alega ter para a missão política que advoga conduzir no PL.
A presença de políticos em cultos religiosos, seja em momentos de oração, bênção ou reconhecimento público, tem se tornado cada vez mais frequente no ambiente evangélico brasileiro. Em diferentes denominações e regiões do país, líderes políticos são recebidos em púlpitos, apresentados às congregações e, em alguns casos, associados simbolicamente à autoridade espiritual das lideranças religiosas.
Esse fenômeno, que se intensifica em períodos eleitorais, levanta questionamentos sobre os limites entre liberdade religiosa e uso de espaços de culto como plataforma de projeção política, tema que já foi analisado pela Justiça Eleitoral e por quem pesquisa religião e política.
O que diz a Justiça Eleitoral sobre cultos e campanha
A discussão ganhou novo fôlego a partir de decisões recentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que têm reafirmado o entendimento de que a instrumentalização de templos para promoção eleitoral pode configurar abuso de poder político e econômico.
Os políticos haviam utilizado a estrutura e o altar da Igreja do Evangelho Quadrangular local para pedir votos explicitamente durante um culto. Na ocasião, o pastor declarou que a instituição estava “fechada” com os candidatos e convocando os fiéis a trabalharem pela campanha.
No relatório do ministro Antônio Carlos Ferreira, o TSE reafirma que, embora o “abuso de poder religioso” não constitua uma figura jurídica autônoma na legislação, as condutas que instrumentalizam a fé e a estrutura dos templos configuram abuso de poder político e econômico. A decisão ressaltou que a liberdade religiosa não é absoluta e não pode ser invocada como um salvo-conduto para contornar as normas que garantem a igualdade de condições na disputa eleitoral.
Evangélicos reagem criticamente
Se por um lado as cúpulas partidárias e certas lideranças forçam a entrada da política nas igrejas, por outro, os bancos das congregações dão sinais claros de saturação. Ao contrário do que aponta o senso comum de que o voto religioso é de cabresto, a ampla maioria dos fiéis rejeita o avanço dos palanques sobre os altares. Uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem, da Universidade Federal do Paraná), realizada em 2025, revela que 75% dos evangélicos condenam a realização de campanhas eleitorais dentro dos templos.
O levantamento aponta ainda que a politização escancarada é exceção, não a regra no cotidiano das igrejas. Os dados indicam que 34,1% dos pastores entrevistados afirmaram que lideranças de sua igreja apoiaram algum candidato nas eleições municipais. Embora expressiva, essa proporção mostra que a maior parte do segmento busca preservar o ambiente de culto, mesmo que o índice de engajamento político dos líderes evangélicos seja cerca de duas vezes maior que o registrado entre os católicos (16,9%).
O lugar das Assembleias de Deus
Por ser a maior denominação evangélica do país, com cerca de 13 milhões de seguidores segundo o IBGE, as Assembleias de Deus concentram historicamente o maior assédio de políticos interessados em sua capilaridade. A trajetória do ex-deputado federal Eduardo Cunha (Republicanos-MG) ilustra de forma nítida essa dinâmica. Originalmente membro da igreja Sara Nossa Terra, que contava com pouco mais de 1 milhão de fiéis, Cunha migrou estrategicamente para as Assembleias de Deus para expandir suas bases no Rio de Janeiro. Em um dos episódios gravados na Catedral das Assembleias de Deus em Santa Cruz, o pastor local o apresentou formalmente como o “candidato oficial da nossa convenção”, o que o ajudou a se consagrar como o terceiro deputado mais votado do estado. Em 2024, ao participar do culto que marcou o centenário das igrejas Assembleias de Deus, no Rio de Janeiro, o deputado foi vaiado.
A tradição de abrir as portas para o poder político é personificada hoje pelo pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC). O trânsito de Malafaia entre diferentes forças políticas é antigo: em 2014, a inauguração da nova sede de sua igreja reuniu no mesmo altar nomes como Lindbergh Farias (PT), Eduardo Paes (PSD) e Luiz Fernando Pezão (PMDB). Na época, o respaldo litúrgico de Malafaia funcionou como um verdadeiro “escudo eleitoral” para Pezão concorrer no segundo turno para o governo do Estado do Rio contra Marcelo Crivella (Republicanos). Isto mostrou ao eleitorado tradicional que o candidato do PMDB não possuía hostilidade contra os evangélicos em geral, mas apenas contra a cúpula da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), da qual fazia parte seu concorrente direto.
Desde a campanha eleitoral de 2018, Silas Malafaia abandonou a diversidade e estreitou laços com a família Bolsonaro e partidos da extrema direita. Em maio deste ano, um culto que reuniu o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o ex-governador Cláudio Castro (PL-RJ) e os deputados Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), Malafaia convocou os membros da igreja a estenderem as mãos em direção aos políticos. Proferindo uma oração que pedia “bênção e vitória” nas urnas, o pastor aproveitou o momento sagrado para tecer duras críticas ao governo federal e ao Poder Judiciário, atacando nominalmente o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
Imagem: Reprodução Instagram
O caso da Igreja Batista Atitude
Outro reduto político importante no Rio de Janeiro, neste caso com apoio voltado para a família Bolsonaro, é a Igreja Batista Atitude, liderada pelo pastor Josué Valandro Jr. A congregação, frequentada pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, costuma receber autoridades públicas para momentos de oração. Durante o período em que esteve na Presidência da República (2019-2022), o próprio Jair Bolsonaro participava, com frequência, dos cultos na sede da igreja no bairro da Barra da Tijuca, recebendo, no altar, orações públicas conduzidas pelo pastor.
A atuação de Valandro Jr., no entanto, ultrapassa as preces e assume contornos de blindagem política. O pastor saiu em defesa do pré-candidato à Presidência da República pelo PL Flávio Bolsonaro, após o vazamento de áudios que revelaram o envolvimento do senador com repasses de altos valores em dólares pelo empresário preso por corrupção Daniel Vorcaro. Em suas declarações para a comunidade, o líder religioso afirmou não ver indícios de crime no episódio, criticou o que chamou de distorções políticas da esquerda contra a direita e defendeu que os recursos tratados na conversa eram de natureza puramente privada, legitimando a conduta de Flávio Bolsonaro perante os fiéis.
Imagem: Reprodução do site da revista Comunhão
A postura da Igreja Mundial
Na disputa por espaço e influência com suas concorrentes, a Igreja Mundial do Poder de Deus, liderada pelo apóstolo Valdemiro Santiago, ex-bispo da IURD, também desenha suas alianças políticas. Se no passado a denominação deu sustentação à candidatura de Luiz Fernando Pezão para fazer contraponto à IURD, hoje, ela serve de abrigo para a ressurreição política de Eduardo Cunha, que historicamente mantém forte presença em ambientes evangélicos e articulação com diferentes lideranças religiosas.
O ex-deputado e ex-presidente Câmara Federal esteve preso de outubro de 2016 até março de 2020, devido a escândalos de corrupção. Depois de obter o direito a prisão domiciliar, Cunha obteve decisões favoráveis no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná), em 2022, para a retirada de tornozeleira eletrônica e teve condenações anuladas pelo STF, além de conseguir a suspensão de sua inelegibilidade pelo TRF-1 (Brasília e mais 13 estados brasileiros: Acre, Amapá, Amazonas, Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Piauí, Rondônia, Roraima e Tocantins).
Cunha fixou residência em Belo Horizonte (MG), com o objetivo de construir uma nova base eleitoral para as eleições de 2026, tendo se filiado ao Republicanos e passado a frequentar os cultos da Igreja Mundial como base. A filha, a deputada federal Daniela Cunha (PL-RJ), tem visitado as igrejas da denominação com certa frequência.
Imagem:Reprodução/Instagram
Em abril de 2025, no culto realizado em Araxá (MG), Cunha sentou-se ao lado do apóstolo Valdemiro Santiago no palco principal. O líder tomou a palavra para elogiá-lo explicitamente, chamando-o de “eterno deputado” e afirmando que ele foi “um dos melhores que já viu”, justificando que as decisões tomadas por Cunha na presidência da Câmara foram fundamentais para a nação, apesar do sofrimento que lhe custaram. Pouco tempo depois, a cena de legitimação se repetiu na sede da igreja no Brás, em São Paulo, onde Cunha dividiu o altar com o apóstolo e com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), consolidando sua reinserção no meio evangélico.
Imagem: Reprodução site da Revista Liberta
A posição da Igreja Internacional da Graça de Deus
Não é apenas na igreja do apóstolo Valdemiro que Eduardo Cunha encontra abertura. Na Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD), liderada pelo missionário R. R. Soares, a fusão entre liderança eclesiástica e representação parlamentar ganha contornos de um modelo corporativo e familiar, servindo também de palco para consolidar suas alianças.
O ex-deputado estendeu sua rede de influência a R.R. Soares por meio de um expressivo acordo comercial e de comunicação: Cunha cedeu horários em suas novas emissoras de rádio no interior de Minas Gerais para a transmissão da programação religiosa da denominação. O arranjo foi celebrado e declarado abertamente pelo próprio missionário durante um culto na sede de Belo Horizonte, chancelando a proximidade e o apoio mútuo entre a instituição e o político no estado.
Imagem: Reprodução vídeo YouTube
A prática de aproximar a gestão pública dos interesses da igreja é rotina na IIGD, onde o R. R. R. Soares costuma apresentar políticos aliados diretamente no púlpito. Foi o que aconteceu na inauguração do grande templo de Sorocaba (SP), quando as lideranças pastorais chamaram à frente o prefeito Rodrigo Manga (Republicanos), referindo-se a ele como um “obreiro de Deus” que realizava um trabalho excelente na cidade. Manga, figura central no meio evangélico local, chegou a ser afastado do cargo pela Operação Cópia e Cola da Polícia Federal, por suspeitas de desvios na área da saúde. O prefeito de Sorocaba, porém, retornou ao posto graças a uma liminar impetrada no STF e concedida pelo ministro do STF Kassio Nunes Marques.
Imagem: Reprodução YouTube
Para além do apoio a aliados externos como Cunha e Manga, R.R. Soares utiliza a estrutura e a capilaridade da denominação para promover a carreira de seus próprios filhos, transformando o rebanho em uma base eleitoral sólida e hereditária. Adotando o slogan “Mesmo sangue, mesma fé e mesmo amor”, o televangelista legitima religiosamente os mandatos de sua família.
A estratégia tem garantido o sucesso nas urnas de David (Podemos-SP) e Marcos Soares (PSDB-SP) como deputados federais, além de Filipe e Daniel Soares como deputados estaduais no Rio de Janeiro (PSDB) e em São Paulo (União), respectivamente. O único filho fora do parlamento atualmente é André Soares (União), que não conseguiu se reeleger após cumprir três mandatos na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).
Imagem: Reprodução do site Ongrace.com
O espaço da IURD
Com grande destaque no espaço público, Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) opera a política sob uma lógica de centralização institucional e rígida disciplina de voto. Fundada pelo bispo Edir Macedo, a denominação foi pioneira na criação de um projeto oficial de poder, ocupando um partido político, antes o Partido Republicano do Brasil (PRB), hoje Republicanos. A IURD elege bancadas expressivas na Câmara Federal ao utilizar a estrutura de seus templos, da Rede Record de TV e da Rede Aleluia de Rádio como catalisadores eleitorais.
A expressão máxima desse projeto é o bispo licenciado e deputado federal Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), ex-prefeito do Rio de Janeiro (2013-2016). Sua gestão na Prefeitura ficou marcada pelo tensionamento entre o dever público e os interesses da denominação, cujo ápice foi o escândalo em torno de uma reunião secreta no Palácio da Cidade. Na ocasião, em áudio vazado, Crivella ofereceu a pastores facilidades em cirurgias de catarata e no IPTU de templos, cunhando o famoso jargão: “É só falar com a Márcia”.
Políticos em contraponto
Em contraposição à exposição frequente dos candidatos nos altares, o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva tem adotado uma postura de maior distanciamento de palanques religiosos durante períodos de campanha eleitoral. Embora tenha frequentado templos ao longo de seus mais de 50 anos de vida pública, o católico Lula hoje defende enfaticamente a separação entre Igreja e Estado. O presidente tem reiterado em seus discursos que a fé constitui um momento de conexão sagrada e intimidade do cidadão, e que não deve ser explorada politicamente para a obtenção de votos.
Esse posicionamento encontra eco direto na atuação do deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ). O líder religioso e parlamentar de esquerda manifesta, reiteradamente, em publicações em suas contas nas redes digitais, e em entrevistas que concede à imprensa, um cansaço compartilhado por muitos fiéis que não aceitam ver a mensagem bíblica ser instrumentalizada por projetos personalistas de poder. Vieira enfatiza que o debate público faz parte da caminhada cristã, mas repudia veementemente o controle do voto por meio do constrangimento espiritual.
“Não é sobre tirar o debate público da fé, é sobre impedir que a autoridade espiritual seja usada para controlar voto, punir divergência e transformar culto em comitê”, defende o deputado. Para ele, o papel da igreja deve ser o de zelar pela consciência crítica e pela democracia, mantendo uma distância saudável da idolatria partidária. “A Igreja não é espaço de manipulação. A fé precisa ser espaço de consciência, liberdade, justiça e bem comum, não de idolatria ao poder”.
Somando-se a essa convergência, está a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), parlamentar histórica com trajetória consolidada na defesa dos direitos sociais e evangélica presbiteriana. Ela tem atuado como um elo central na denúncia contra o pragmatismo eleitoral baseado na fé.
Benedita da Silva, que vivencia o ambiente religioso muito antes da atual onda de polarização política, desde que foi membro das Assembleias de Deus, argumenta que o papel do cristianismo nos espaços institucionais deve se pautar na promoção da dignidade humana e da justiça, e nunca no sequestro da consciência dos fiéis para benefícios individuais de poder.
Ao abordar o tema em pronunciamento em fevereiro deste 2026, em sua conta oficial no Instagram, a deputada pontuou de forma contundente. “A fé que eu aprendi no evangelho não anda de mãos dadas com a mentira, porque a mentira aprisiona. Como irmã, eu te peço: não entregue sua fé a quem quer usar o nome de Deus por interesses políticos e eleitorais. Olhe para os frutos. Fé de verdade não se usa, fé de verdade se vive.” A parlamentar reforça que a manipulação do sentimento religioso desidrata o debate democrático e degrada a própria espiritualidade, devendo os fiéis rejeitar candidatos que reduzem a sacralidade do altar a um balcão de negócios por votos.
Essa postura de preservação do espaço sagrado também ganha contornos dentro do próprio campo da direita conservadora, evidenciando que o desgaste com a partidarização da fé ultrapassa fronteiras ideológicas. Exemplo disso é o posicionamento do deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ). Pastor evangélico e declaradamente de direita, o parlamentar rompeu com o discurso radical ao contestar publicamente a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que afirmou em um culto sofrer perseguição religiosa e ter seu “culto doméstico cerceado”. Ao rebater a narrativa de Michelle Bolsonaro, o deputado classificou a tese de “guerra espiritual” como puro oportunismo político. “É uma narrativa falaciosa, mentirosa, oportunista e para autoproteção essa de que nós estamos diante de uma guerra religiosa. Eu sou a única voz a estar nesse contraponto com eles, única voz dissonante. Porque não quero que levem a igreja para essa vala comum”, declarou.
Para ele, o uso de discursos vitimistas nos altares serve apenas como blindagem para lideranças políticas, rebaixando a fé dos fiéis e a instituição religiosa ao papel de escudo partidário.
O impacto simbólico dos púlpitos e a resistência nas igrejas
A presença de candidatos e lideranças políticas nos púlpitos não produz apenas efeitos eleitorais. Para especialistas que estudam as relações entre religião e política, a prática mobiliza símbolos centrais da experiência religiosa e pode gerar tensões dentro das próprias comunidades de fé.
A pesquisadora em Comunicação, Política e Religiões e editora-geral do Coletivo Bereia Magali Cunha destaca que o altar ocupa um lugar de forte significado para quem participa de uma celebração religiosa. Segundo ela, quando um político é apresentado, homenageado ou abençoado nesse espaço, a mensagem transmitida ultrapassa o gesto protocolar. “Os púlpitos estão em altares, e o altar é uma simbologia muito forte. É o lugar onde se professam os sacramentos, a pregação, as orações de onde parte a ação de culto, a ação celebrativa que envolve a fé coletiva daquelas pessoas”, explica.
Para a pesquisadora, a autoridade simbólica das lideranças religiosas confere peso adicional a esse tipo de exposição pública. Pastores, padres e demais líderes costumam ser reconhecidos por suas comunidades como referências espirituais e morais, o que faz com que manifestações de apoio político produzam impactos que vão além do campo partidário.
Ao mesmo tempo, a pesquisadora ressalta que os frequentadores das igrejas não recebem essas mensagens de forma passiva. Segundo ela, o que foi confirmado na pesquisa da Universidade Federal do Paraná, cresce entre evangélicos a resistência ao uso dos espaços de culto para promoção de projetos políticos específicos. “As pessoas estão cada vez mais críticas nas igrejas a esse abuso religioso de forçar uma relação da fé com personagens específicos. Fere uma ética comunitária, porque não diz respeito a um pastor ou pastora na condução de uma comunidade definir voto de ninguém”, aponta.
Os limites legais e o entendimento da Justiça Eleitoral
Enquanto o debate ético avança dentro das próprias comunidades de fé, a Justiça Eleitoral vem consolidando parâmetros cada vez mais rígidos sobre a participação de candidatos em templos durante períodos eleitorais.
Bereia ouviu o professor de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais Alexandre Bahia sobre os casos. Ele explica que a legislação proíbe tanto a propaganda eleitoral quanto a propaganda antecipada em templos religiosos, classificados pela Lei das Eleições como bens de uso comum.
Segundo o jurista, a simples presença de políticos em celebrações religiosas não constitui irregularidade. O problema surge quando o culto é transformado em espaço de promoção eleitoral. “A justiça eleitoral tem certamente uma dificuldade para localizar, em alguns casos, porque não é proibido para pessoas que estão na política frequentar cultos. Mas o que não pode acontecer é a transformação do culto em um palanque, em que seja dada palavra ao líder político ou ao candidato para falar sobre propostas, ou que o líder religioso aponte aquela pessoa como sendo alguém em quem os fiéis devem votar”, explica.
De acordo com Bahia, a irregularidade não se limita ao pedido explícito de votos. A Justiça Eleitoral também pode considerar abusivas situações em que o ambiente de culto é utilizado para promover uma candidatura ou associar determinado político à autoridade religiosa da liderança que conduz a celebração. “Discursos políticos durante a realização da reunião religiosa, qualquer associação de um candidato com a vontade de Deus, ou algo assim, pode inclusive configurar abuso de autoridade por parte do líder religioso”, garante o professor.
O jurista ressalta ainda que as consequências podem ser severas. “As propagandas irregulares têm possibilidade de multa por parte da Justiça Eleitoral e, se configurar abuso de poder político ou abuso de poder econômico, isso pode levar à cassação do registro da candidatura. Se ele já tiver sido eleito, esses fatos podem configurar causa de perda do mandato e inclusive inelegibilidade por oito anos”, completa.
A linha que separa o exercício legítimo da cidadania e da fé da instrumentalização política dos altares tornou-se um dos terrenos mais vigiados da democracia brasileira. Os dados sociológicos e as manifestações de resistência interna revelam que a grande maioria dos fiéis repudia a transformação dos cultos em comitês eleitorais, exigindo que o espaço sagrado permaneça ético e focado em sua missão espiritual.
Ao mesmo tempo, as decisões recentes e unânimes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mandam um recado claro a candidatos e lideranças eclesiásticas: a liberdade religiosa não é um salvo-conduto para burlar a legislação. A integridade do voto e a igualdade entre os concorrentes continuam sendo os pilares soberanos do processo eleitoral, e o uso abusivo do púlpito como palanque será punido com o rigor da cassação e da inelegibilidade.
Referências
Consultor Jurídico
https://www.conjur.com.br/2026-mai-20/uso-de-igreja-para-promover-candidatos-e-abuso-de-poder-diz-tse/ – Acesso em 22 jun. 2026
Coletivo Bereia https://coletivobereia.com.br/justica-eleitoral-decide-campanha-por-votos-em-templos-religiosos-e-abuso-de-poder-e-e-crime-eleitoral/ – Acesso em 22 jun. 2026
Folha de S.Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/03/cada-vez-mais-disputados-evangelicos-rejeitam-campanha-nos-pulpitos.shtml – Acesso em 22 jun. 2026
Instagram – Pastor Henrique Vieira
https://www.instagram.com/reel/DX61-dgO4Ge/ – Acesso em 22 jun. 2026
Senado Federal (reprodução de reportagem do Estadão)
https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/513754/noticia.html – Acesso em 22 jun. 2026
UOL Notícias
https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2024/06/30/eduardo-cunha-e-vaiado-durante-culto-da-assembleia-de-deus-no-rio-veja.htm – Acesso em 22 jun. 2026
O Globo https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2025/05/11/biblia-boi-e-bola-cunha-mira-mg-e-investe-em-estacoes-de-radio-time-de-futebol-e-visitas-a-igreja-e-leilao-de-gado.ghtml – Acesso em 22 jun. 2026
Vai na Fonte
https://vainafonte.ig.com.br/2025-02-12/eduardo-cunha-comprou-predio-bh-e-candidato-a-deputado-por-mg.html – Acesso em 22 jun. 2026
O Dia
https://odia.ig.com.br/noticia/brasil/2014-04-06/pezao-e-lindbergh-vao-a-inauguracao-de-templo-de-silas-malafaia.html – Acesso em 22 jun. 2026
Tempo Real RJ
https://temporealrj.com/malafaia-ora-douglas-ruas-bolsonaro-rio/ – Acesso em 22 jun. 2026
Veja
https://veja.abril.com.br/brasil/a-rapida-expansao-da-igreja-que-virou-parada-obrigatoria-para-politicos-do-rio/ – Acesso em 22 jun. 2026
O deputado federal e pastor Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) foi instado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a remover dos seus perfis em mídias sociais um vídeo publicado, em 31 de maio, no qual associava o Partido dos Trabalhadores (PT) a facções criminosas, conteúdo que já foi tratado em matéria pelo Bereia. A decisão foi tomada em 19 de junho passado, para ser cumprida em prazo de 24 horas. No entanto, o parlamentar ignorou a medida por quatro dias. Sóstenes Cavalcante retirou a publicação apenas na manhã de terça-feira, 23 de junho.
A postagem em plataformas digitais foi apagada antes de uma coletiva de imprensa. Nela, o líder do PL na Câmara Federal declarou não concordar com a justificativa usada pelo ministro do TSE André Mendonça que proferiu a sentença. A medida atendeu a representação apresentada pela Federação Brasil da Esperança (FE Brasil), formada pelo Partido dos Trabalhadores (PT), pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e pelo Partido Verde (PV).
Na decisão, Mendonça considerou que a publicação extrapola os limites da crítica política, ao não apresentar critérios de veracidade e nem informações checáveis, o que pode induzir o eleitorado ao erro. De acordo com a decisão do ministro do TSE, a publicação “promove desinformação eleitoral mediante imputação factual grave e não demonstrada, com potencial de induzir o eleitor a erro sobre fato politicamente relevante”.
Sóstenes Cavalcante declarou a jornalistas na coletiva: “Não concordo porque eu nenhum momento do meu vídeo eu afirmei. Eu disse que há suspeita do governo americano de que há financiamento de recursos do Comando Vermelho e do PCC ao Partido dos Trabalhadores”.
Sobre o caso
O deputado federal Sóstenes Cavalcante(PL-RJ) afirmou em um vídeo publicado em seus perfis de mídias sociais que há suspeitas de que as campanhas eleitorais do PT são subsidiadas pelo dinheiro de facções criminosas ligadas ao tráfico de drogas. Ele produziu o conteúdo logo após a divulgação de uma resolução do governo dos Estados Unidos que classificou associações criminosas brasileiras como terroristas.
O deputado pastor da Assembleia Vitória em Cristo disse, no vídeo, que o governo dos Estados Unidos rastrearia o dinheiro ilícito dessas facções, por existirem suspeitas de que o dinheiro dessas organizações criminosas financia campanhas eleitorais de candidatos filiados ao PT.
Bereia classificou as afirmações como falsas, pois o parlamentar não apresentou provas e nem fontes de informação, elementos que não podem ser encontrados em apuração e pesquisa pois é conteúdo inventado, sem base factual para checagem.
Bereia alerta leitores e leitores para a estratégia de campanha de certos políticos que abrem mão do debate de ideias e propostas para, deliberadamente, lançar mentiras para atacar opositores. Nesta estratégia estes políticos têm consciência do tempo entre o lançamento da mentira nas redes, o protocolamento de representações dos atingidos no TSE e a decisão de quem julga para fazer circular o conteúdo desinformativo.
O Pix tornou-se parte indissociável do cotidiano brasileiro desde a implementação, em 2020. O sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central revolucionou as transações financeiras no país, democratizando o acesso a serviços bancários, gratuitamente.
No entanto, o sucesso do sistema Pix também o transformou em alvo constante de desinformação, especialmente em ambientes digitais religiosos, onde mentiras são estrategicamente disseminadas com propósitos políticos.
A circulação de conteúdos falsos sobre o Pix em grupos de igrejas, redes digitais de lideranças religiosas e aplicativos de mensagens não é um fenômeno acidental. Trata-se de uma engrenagem estruturada que utiliza o pânico moral e a desconfiança, mas instituições para mobilizar fiéis em favor de pautas da direita política e contra adversários políticos.
Neste cenário, a desinformação ganha força ao ser travestida de “alerta espiritual” ou “defesa dos mais pobres”, com exploração da confiança que pessoas das igrejas depositam em suas lideranças e comunidades de fé. A repetição cíclica dessas narrativas, que frequentemente ressurgem em períodos pré-eleitorais ou inícios de ano, demonstra que a mentira sobre a economia se tornou uma ferramenta consolidada de disputa política.
A explosão de mentiras sobre o Pix via Nikolas Ferreira
A magnitude do problema ficou evidente no início de 2025. Dados da empresa de monitoramento digital Palver, demonstraram que apenas entre 7 e 14 de janeiro daquele ano, mais de 9,4 milhões de brasileiros foram impactados por uma enxurrada de desinformação sobre o Pix no WhatsApp e Telegram. Foram identificadas mais de 18 mil mensagens únicas compartilhadas em 2,2 mil grupos públicos, alcançando todos os 67 DDDs do país.
O volume impressionante representou uma média de quase duas mensagens novas por minuto sobre o tema. O conteúdo, classificado majoritariamente como “negativo” pelos sistemas de análise, foi produzido pelo deputado federal evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG). Em janeiro de 2025, o deputado protagonizou um exemplo refinado dessa estratégia de manipulação.
O vídeo que ele publicou em seus perfis de mídias digitais, em 14 de janeiro, que alcançou 300 milhões de visualizações em dois dias, contrapôs medida anunciada pela Receita Federal, em 2024, com vigência a partir de 1 de janeiro do novo ano. Conforme o Bereia informou, a Instrução Normativa 2.219/2024, da Receita Federal, publicada no Diário Oficial da União, em 18 de setembro de 2024, dispunha sobre “a obrigatoriedade de prestação de informações relativas às operações financeiras de interesse da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil na e-Financeira”. A medida ampliava o monitoramento de transações financeiras no país, que alcançava apenas instituições financeiras tradicionais, como bancos e cooperativas de crédito, com a obrigação de prestar essas informações.
Com a norma, que vigoraria a partir de 1 de janeiro de 2025, transações via Pix e cartões de crédito, acima de R$ 5 mil para pessoas físicas e de R$ 15 mil para empresas, passariam a também ser reportadas por administradoras de cartão de crédito, bancos digitais e instituições de pagamento à Receita Federal. O órgão afirmou em nota que o objetivo era reforçar o combate à evasão fiscal e a promoção da transparência. Foi enfatizado, ainda, que a medida estaria alinhada aos compromissos internacionais do Brasil, para aumentar o controle sobre operações financeiras e facilitar a fiscalização.
No vídeo que viralizou, Nikolas Ferreira não afirmava diretamente que o Pix seria taxado. Ele distorceu a informação da Receita Federal com discurso enganoso. Com o tom alarmista, verbal e visualmente, o deputado afirmou “o governo quer saber como você ganha R$ 5 mil” e prosseguiu: “Não, o Pix não será taxado, mas é bom lembrar que a comprinha da China não seria taxada. Não ia ter sigilo, mas teve. Você ia ser isento do Imposto de Renda, não vai mais. Ia ter picanha, não teve. O Pix não será taxado, mas não duvido que possa ser”. O deputado ainda afirmou que o “governo quer tratar os trabalhadores informais como sonegadores”.
Imagem: Reprodução do perfil de Nikolas Ferreira no Instagram, 14 jan 2025
O desgaste com a desinformação propaganda pelo parlamentar, com o apoio de outros políticos da direita extremista, como o senador Cleitinho (PL-MG), como o Bereia informou, foi tanto que a Receita Federal revogou a normativa.
Em 2016, o deputado do PL voltou à carga no mesmo mês de janeiro, desta vez com distorção da Instrução Normativa nº 2.278/2025 da Receita Federal. A medida técnica foi retomada para combater a lavagem de dinheiro e estendia às fintechs (bancos digitais) as mesmas obrigações de transparência já exigidas de bancos no uso do Pix. A Receita Federal reelaborou o procedimento travado no ano anterior, justamente no mês de agosto de 2025, quando desdobramentos de operações da Polícia Federal pelo país, como a Carbono Oculto, a Quasar e a Tank, demonstraram que facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) utilizam fintechs para lavagem de dinheiro por meio do uso do Pix. O órgão do Ministério da Fazenda informou que, com a revogação provocada pela desinformação de 2025, esses bancos digitais não tinham “as mesmas obrigações de transparência e de fornecimento de informações”, o que fez o crime organizado “aproveitar essa brecha para movimentar, ocultar e lavar seu dinheiro sujo”. Por isso, foi justificado que era preciso retomar a normativa.
Em janeiro de 2026, Nikolas Ferreira usou o mesmo tom do ano anterior para disseminar a ideia de perseguição do governo contra “ambulantes” e “entregadores”, criando pânico com o alarme de que as transações desses grupos passariam a ser taxadas, prejudicando trabalhadores e beneficiando banqueiros.
“Você que é feirante, manicure, motoboy, ambulante e autônomo, se você movimentar mais de R$ 5 mil por mês pelo Pix e isso não bater com o que você declarou no Imposto de Renda, a Receita vai saber. E você pode cair na malha fina, ser chamado, ter que explicar e pagar imposto que você nunca imaginou pagar. E não porque você virou criminoso, mas porque o Estado passou a olhar para o seu Pix como se fosse um dinheiro suspeito”, alardeou Nikolas Ferreira no vídeo que tinha as mesmas características do que circulou no ano anterior.
Imagem: Reprodução de publicação do perfil de Nikolas Ferreira no Instagram, 13 jan 2026
Por meio da distorção enganosa, o deputado do PL prosseguiu: “Quando milhões de brasileiros reagiram, eles recuaram. Agora, com o povo distraído, fizeram de novo. A liberdade não acaba de uma vez, ela vai sendo tirada aos poucos por portaria, instrução normativa, ‘ajuste técnico’. Até o dia que governo souber mais do seu dinheiro do que você mesmo, e aí pode ser tarde demais”.
Após uma das operações da Polícia Federal, o secretário especial da Receita Federal Robinson Barreirinhas, chegou a afirmar, segundo reportagem do jornal O Globo, que as “mentiras envolvendo o Pix”, em janeiro de 2025, impediram que o governo fiscalizasse as empresas investigadas, que teriam se tornado um dos “principais braços financeiros do PCC”. O comentário foi repercutido pelo líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias, que acusou Nikolas de ter “beneficiado” a facção.
Outras mentiras sobre o Pix que o Bereia já checou
Ao longo dos últimos anos, o Bereia tem monitorado e verificado os principais conteúdos falsos que circulam sobre o Pix em espaços religiosos. No levantamento das matérias produzidas desde 2025 fica nítido que o Pix se tornou um alvo da direita extremista para confundir a população tendo em vista a campanha eleitoral de 2026. Pode-se identificar um padrão de distorção de fatos ocorrido e de normativas de órgãos públicos.
A falsa paternidade do Pix por Jair Bolsonaro
Em agosto de 2022, durante o período da campanha eleitoral, o Bereia verificou publicações de políticos alinhados ao então presidente Jair Bolsonaro (PL), que buscava a reeleição, que atribuíam a criação do Pix ao então presidente. As mensagens, amplamente compartilhadas por fiéis, afirmavam que a oposição dos bancos ao ex-presidente devia-se aos supostos prejuízos bilionários causados pela gratuidade do sistema.
A alegação de que Jair Bolsonaro criou o Pix continua sendo repetida por aliados políticos, apesar de já ter sido desmentida por diversas checagens. O sistema de pagamentos instantâneos foi desenvolvido pelo Banco Central a partir de 2016, durante o governo de Michel Temer, e o grupo de trabalho responsável pelo projeto foi formalizado em 2018. O lançamento ocorreu em novembro de 2020, já no governo Bolsonaro, mas como etapa final de um processo concebido e estruturado anteriormente.
O discurso da falsa paternidade do Pix voltou a ganhar força após a investigação comercial aberta pelos Estados Unidos contra o Brasil, em 2025, que incluiu o Pix entre as pautas analisadas. Empresas estadunidenses de cartões de crédito e débito, como Visa e Mastercard, denunciam perda de lucros com a popularização do Pix, gratuito, e demandaram ações do governo dos EUA contra o Brasil.
Em resposta às críticas às pressões externas sobre o sistema e a soberania brasileiros, parlamentares do PL, como os evangélicos senador Flávio Bolsonaro (RJ), pré-candidato à Presidência da República, e o deputado federal Sóstenes Cavalcante (RJ), passaram a reafirmar que Jair Bolsonaro seria o criador do Pix e que caberia ao seu grupo político defendê-lo.
A desinformação omitia intencionalmente que a cobrança anunciada pela Caixa aplicava-se exclusivamente a contas de Pessoa Jurídica (PJ) e não a pessoas físicas ou microempreendedores individuais (MEI). Além disso, o conteúdo enganoso ocultava o fato de que a cobrança para empresas já era permitida pela Resolução BCB nº 1/2020 (editada no governo anterior) e era praticada por grandes bancos privados como Bradesco, Itaú e Santander. A distorção da informação correta contribuiu para gerar pânico entre a população, especialmente entre fiéis cristãos que recebiam as mensagens com o alerta de que o governo confiscaria parte de seus rendimentos.
A estrutura do medo e a instrumentalização da fé
A análise das campanhas de desinformação sobre o Pix revela uma mudança tática da direita extremista e de setores religiosos ultraconservadores. Conforme apontado no balanço do Bereia de janeiro de 2025, observa-se uma transição estratégica: quando a “agenda de costumes” (aborto, gênero, família) perde força mobilizadora temporária, a pauta econômica é acionada com a mesma estrutura de pânico moral.
O método consiste em transformar questões técnicas ou normativas, como atualizações de monitoramento da Receita Federal ou regras de tarifação empresaria,em discurso de perseguição e confisco. Em ambientes religiosos, isso frequentemente assume contornos apocalípticos, nos quais o Estado é retratado como um inimigo opressor que busca controlar os recursos dos “cidadãos de bem”. A instrumentalização da fé ocorre quando influenciadores e políticos utilizam a linguagem religiosa para validar essas mentiras.
A desinformação sobre economia é apresentada não apenas como um alerta financeiro, mas como uma denúncia moral contra um governo descrito como inimigo dos valores cristãos.
O custo social dessa prática é elevado. Instituições como a Receita Federal, o Banco Central e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) são frequentemente obrigadas a lançar mão de tempo e de recursos para desmentir boatos infundados. Mais grave ainda é a corrosão do debate público, substituído por um ambiente de desconfiança crônica onde fatos perdem relevância diante de conteúdos construídos para gerar medo e engajamento político.
Referências
Agência Lupa
https://www.agencialupa.org/jornalismo/2025/01/14/desinformacao-sobre-pix-impacta-mais-de-9-milhoes-no-whatsapp-e-telegram-em-7-dias/ . Acesso em 15 jun 2026
A desinformação já não é apenas um problema das redes sociais ou da política. Ela se tornou uma questão que atravessa famílias, igrejas, comunidades e afeta diretamente a forma como as pessoas compreendem a realidade. No Brasil, um dos grupos mais impactados por esse fenômeno é justamente o segmento evangélico.
O dado aparece no relatório “Como os Brasileiros percebem a circulação da desinformação e o uso da Inteligência Artificial”, produzido pelo Aláfia Lab. Segundo a pesquisa, os evangélicos são o grupo religioso que menos utiliza agências de checagem de fatos para verificar informações recebidas. Ao mesmo tempo, aparecem entre os grupos que mais relatam contato com notícias falsas relacionadas a religião e fé.
A combinação desses fatores ajuda a compreender por que boatos, teorias conspiratórias, falsas perseguições religiosas, informações distorcidas sobre projetos de lei e narrativas políticas travestidas de discurso religioso encontram terreno fértil para circular em muitos ambientes cristãos.
O problema não é exclusivo dos evangélicos, mas assume características próprias dentro desse universo. Grande parte da circulação de informações ocorre por meio de redes de confiança: grupos de WhatsApp, canais religiosos, influenciadores digitais, líderes e membros de igrejas. Quando uma informação chega acompanhada da recomendação de alguém respeitado pela comunidade, ela tende a ser aceita com menos questionamentos.
A pesquisa mostra que apenas 17% dos brasileiros recorrem a agências especializadas de checagem para verificar conteúdos suspeitos. A maioria prefere confiar em sua própria percepção, em comentários publicados nas redes sociais ou em alertas de amigos e familiares. Essa lógica reforça a força dos vínculos pessoais, mas também aumenta a vulnerabilidade à manipulação.
O resultado é que conteúdos enganosos conseguem se espalhar rapidamente, principalmente quando apelam para emoções fortes. Medo, indignação, sensação de ameaça aos valores religiosos ou à família costumam ser ingredientes frequentes das fake news que circulam em grupos religiosos. Muitas vezes, a intenção não é apenas informar de forma incorreta, mas mobilizar comportamentos políticos e sociais a partir de informações falsas.
O próprio relatório mostra que os brasileiros reconhecem os danos causados pela desinformação. A maioria considera que ela contribui para espalhar medo, fortalecer grupos extremistas, aumentar preconceitos, confundir as pessoas sobre o que é verdade ou mentira e influenciar decisões políticas e eleitorais.
Coletivo Bereia
Nesse cenário, ganha relevância o trabalho de iniciativas voltadas especificamente para o monitoramento da desinformação religiosa. Um dos principais exemplos é o Coletivo Bereia, agência de verificação especializada em conteúdos que circulam entre cristãos.
O nome faz referência aos bereanos citados no livro de Atos dos Apóstolos, elogiados por examinarem cuidadosamente aquilo que ouviam antes de aceitarem uma mensagem como verdadeira. Inspirado nesse princípio, o coletivo realiza checagens de notícias, discursos, vídeos, publicações e narrativas que circulam em ambientes religiosos, analisando sua veracidade e contexto.
Mais do que corrigir informações equivocadas, o trabalho do Bereia procura incentivar uma cultura de responsabilidade informacional. A proposta é simples, mas profunda: fé e compromisso com a verdade não podem caminhar separados.
Essa é uma discussão particularmente importante porque a tradição cristã sempre atribuiu enorme valor à verdade. O mandamento contra o falso testemunho, as advertências bíblicas sobre falsos profetas e os inúmeros apelos à honestidade mostram que o combate à mentira não é apenas uma preocupação jornalística ou acadêmica. Trata-se também de uma exigência ética da própria fé.
Por isso, discutir fake news nas igrejas não deve ser visto como um tema secundário ou partidário. Trata-se de fortalecer uma prática coerente com os valores do Evangelho: o compromisso com a verdade, a responsabilidade com a palavra e o cuidado com o próximo.
Em tempos de excesso de informação, talvez uma das contribuições mais importantes que as igrejas possam oferecer à sociedade seja justamente recuperar uma virtude antiga: a disposição de verificar antes de acreditar e de refletir antes de compartilhar.
O deputado federal líder do Partido Liberal na Câmara Federal, pastor Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) usou a resolução dos Estados Unidos que classifica associações criminosas organizadas no Brasil como terroristas para publicar em vídeo uma mentira. Segundo gravação em vídeo, publicada em perfis na rede digital, o deputado evangélico afirma que o dinheiro de facções ligadas ao tráfico de drogas subsidia campanhas eleitorais de candidatos filiados ao Partido dos Trabalhadores (PT). Bereia checou o discurso do político evangélico de ultradireita que alcançou mais de 58 mil curtidas na página do Instagram do parlamentar até o fechamento desta matéria.
Imagem: reprodução Instagram
Deputado associa PT a dinheiro do tráfico
O vídeo publicado no perfil do Instagram de Sóstenes Cavalcante, no último 31 de maio, exalta a inclusão das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) na lista de entidades designadas como grupos terroristas estrangeiros pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos.
A medida tomada pelo regime do presidente Donald Trump, e divulgada pelo secretário de estado estadunidense Marco Rubio, foi estimulada a partir de diálogos com membros da família do ex-presidente Jair Bolsonaro e apoiadores.
Ao exaltar a resolução na gravação em vídeo, o deputado líder do PL na Câmara afirmou, de forma superficial mas contundente, sem qualquer menção a provas ou dados existentes, que o governo dos EUA rastreará o dinheiro ilícito das facções criminosas, pois haveria “grandes suspeitas, nos Estados Unidos, que esse dinheiro ainda financia campanhas do PT”.
O teor da resolução dos EUA
O comunicado do governo dos EUA à imprensa, assinado por Marco Rubio, divulgado em 28 de maio, tornado público na plataforma X, não faz menção a ligações do dinheiro proveniente do tráfico de drogas no Brasil, nem de relações financeiras do PCC e CV, com o PT. Em entrevista à CNN, em 1º de junho, a porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos Amanda Roberson revelou informações levantadas pelo governo estadunidense, mas não apresentou qualquer dado que leve a essa conclusão.
Imagem: reprodução X
“O presidente Trump deixou muito claro desde o início do seu mandato que ele vai utilizar todas as ferramentas à nossa disposição para combater esses grupos criminosos que estão atuando na nossa região e para proteger a segurança dos Estados Unidos”, disse a porta-voz. “O presidente Trump está atuando para eliminar estes grupos”, acrescentou.
Falsas alegações semelhantes às de Sóstenes Cavalcante, já foram propagadas nas mídias digitais, conforme aponta checagem de Aos Fatos sobre a investigação da Polícia Federal (PF) Carbono Oculto. A matéria informa que conteúdo falso propagou que haveria financiamento do PCC a pesquisas eleitorais para favorecer o presidente Lula em 2022.
Combate a facções criminosas na disputa eleitoral
A decisão do governo dos EUA foi divulgada dois dias após a visita do senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Casa Branca. Reportagem do UOL mostrou que a medida “é um resultado direto dos pedidos feitos pelo senador a Donald Trump, ao vice-presidente, JD Vance, e a Rubio”.
Flávio Bolsonaro manifestou-se publicamente a favor da decisão, que tem apresentado como pauta em sua pré-campanha. O movimento do pré-candidato tem sido lido como estratégia para reverter os efeitos negativos das revelações feitas pelo Intercept Brasil sobre a relação do senador com o banqueiro preso Daniel Vorcaro, peça-chave nas investigações sobre o golpe no Banco Master. Bolsonaro e Vorcaro estariam ligados por transações financeiras criminosas.
Imagem: reprodução Instagram
As declarações do deputado federal Sóstenes Cavalcante viralizaram redes mas estão marcadas por comentários de usuários que questionam contradições nesta postura. Como deputado líder do PL, partido de Flávio Bolsonaro, o pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo também está ligado ao ex-governador do Rio de Janeiro Claudio Castro (PL), mantido inelegível pela Justiça Eleitoral por conta de escândalos de abuso de poder político e econômico. Aliados políticos de Castro estão presos por ligações com o Comando Vermelho, e a PF investiga relações do ex-governador com Vorcaro, por conta de repasses de grandes volumes de dinheiro do fundo de previdência do Estado do Rio para o Banco Master.
Em dezembro de 2025, o próprio Sóstenes Cavalcante foi alvo de uma operação da PF, a “Galho Fraco”, que investiga desvio de recursos públicos oriundos de cotas parlamentares. Durante a ação foram encontrados R$460mil em dinheiro em sacos plásticos escondidos no armário de um flat alugado pelo parlamentar evangélico. Cavalcante justificou o montante como sendo de uma venda de um imóvel, mas apresentou comprovação (escritura) que só foi registrada 11 dias após a operação.
Reações à resolução dos EUA
Enquanto lideranças ligadas à direita extremista brasileira celebram que os EUA tenham decretado as organizações criminosas Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital como terroristas, especialistas no tema questionam veementemente a ação, avaliada como interferência eleitoral.
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) se posicionou contrário a decisão do governo estadunidense e declarou que “lamenta que um tema com implicações profundas na soberania e autonomia do Brasil, na sua economia, sistema financeiro e nos mecanismos de cooperação regional e internacional, tenha sido capturado pela disputa eleitoral”.
Em nota conjunta com outras organizações da sociedade civil, como Associação Brasileira de Estudos da Defesa (ABED),Sociedade Brasileira de Administração Pública (SBAP) eSociedade Brasileira de Sociologia (SBS), o FBSP destaca que a equiparação de facções criminosas a organizações terroristas já foi negada depois de debatida por instituições brasileiras competentes. O conjunto de entidades afirma que tal decisão brasileira reflete escolhas políticas e jurídicas baseadas nos mecanismos democráticos previstos na Constituição Federal.
O documento afirma que “terrorismo e crime organizado constituem fenômenos distintos sob a perspectiva do direito, das ciências sociais e da criminologia, e que suas motivações, formas de atuação e enquadramentos jurídicos não são necessariamente equivalentes. O Brasil dispõe de instrumentos legais robustos para combater organizações criminosas, incluindo mecanismos voltados ao enfrentamento da lavagem de dinheiro, do tráfico de armas e das estruturas financeiras que sustentam essas atividades ilícitas”.
Em entrevista à DW, o cientista político e professor de relações internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) Thiago Moreira explica que um grupo de crime organizado, como as facções PCC e CV, tem finalidade econômica, e não político-ideológica. Segundo ele, ao contrário de grupos extremistas como a Al Qaeda, mesmo quando se infiltram no aparato estatal, as facções que existem no Brasil buscam cumprir propósitos financeiros.
O governo federal, por meio de nota à imprensa afirmou, em 29 de maio, que “o terror causado por essas organizações em comunidades busca obter lucro através do crime, especialmente pelo tráfico de drogas e armas, e não pode ser confundido com o tipo de ação por motivos ideológicos, políticos e religiosos do terrorismo internacional”.
No debate público, políticos do PL que apoiaram a designação do PCC e do CV como grupos terroristas pelo governo de Donald Trump foram questionados sobre a não inclusão de milícias na mesma categoria. O estado do Rio de Janeiro, reduto da família Bolsonaro, tem significativa parcela da população aterrorizada por esses grupos criminosos, com apoio da classe política, a exemplo do crime cometido contra a vereadora Mariele Franco.
Imagem: Perfil do deputado estadual João Pauloi(PT-PE) no Instagram, 30 mai 2026
Imagem: Reprodução de matéria do site Poder 360, 29 mai 2026
Imagem: Reprodução de trecho de matéria da Agência Pública, 29 mai 2026
Imagem: Durante sua participação no Programa Roda Vida, da TV Cultura, em 9 abr 2024,, o senador Flávio Bolsonaro (PL) tenta explicar sua relação com o ex-militar lider do Escritório do Crime Adriano da Nóbrega, envolvido com o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, e por que o presenteou com a medalha Tiradentes do Estado do Rio.
Uma publicação da página da organização no Instagram expõe como a nomenclatura se relaciona com a designação dos EUA sobre facções brasileiras e o desinteresse dos políticos de ultradireita em combater as milícias no estado.
Imagem: reprodução Instagram
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Bereia classifica as declarações do pastor e deputado federal Sóstenes Cavalcante como falsas, visto que não apresenta elementos factuais, comprováveis. O político não informa de onde extraiu a informação de que há repasse de dinheiro de facções criminosas para o Partido dos Trabalhadores, nem oferece comprovação de suas alegações.
A peça desinformativa é construída com conteúdo fabricado e elementos audiovisuais para gerar impacto negativo e associação criminosa ao partido do governo, a quem faz oposição, para disseminar discurso recorrente já checado em outras ocasiões.
Além disso, o comportamento do parlamentar pode ser considerado estratégico para gerar “cortina de fumaça” sobre resultados de investigações jornalísticas e polícias que têm demonstrado a ligação de seu partido político com cenário do crime organizado.
Bereia alerta leitores e leitoras para este tipo de conteúdo desinformativo no período eleitoral. É saudável para uma democracia que haja oposição e divergência, mas a exposição pública delas deve se dar no campo das ideias e das propostas e não por meio de mentiras criadas para destruir reputações de quem deve ser tratado dignamente como adversário poítico e não como inimigo a ser destruído.
A produtora responsável pela realização da cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, Go Up Entertainment, envolvida no desvio de milhões de reais, também atua na produção de eventos evangélicos e recebeu emendas parlamentares para realização deles. O caso levantou suspeitas sobre a destinação de recursos públicos para o filme que homenageia Bolsonaro, pois os mesmos políticos têm conexões com empresas da sócia da produtora Karina Ferreira da Gama.
Conforme áudios vazados para a imprensa, a Go Up Entertainment teria atuado como mediadora dos milhões de dólares pagos pelo dono do Banco Master Daniel Vorcaro à família Bolsonaro, supostamente destinados para a produção do filme. A produtora do longa-metragem negou ter recebido os valores. Porém, de acordo com documentos cpom registros bancários obtidos pelo The Intercept Brasil, pelo menos 10,6 milhões de dólares (cerca de 61 milhões de reais) foram repassados por Vorcaro para a realização do filme, em seis operações financeiras.
Em outra perspectiva em relação às transações suspeitas, o deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) publicou vídeo com novas informações sobre a Go Up Entertainment. Ligações com o universo evangélico ultraconservador e possível desvio de dinheiro público estão entre as suspeitas levantadas pelo deputado evangélico que colocam a empresa sob outro foco.
Imagem: reprodução/redes sociais
No vídeo, o deputado explica o sistema de funcionamento do repasse de valores para serviços e as relações entre diversas empresas e figuras políticas, afirmando se tratar de algo “bem nebuloso”. O parlamentar evangélico levanta suspeitas sobre a relação entre políticos, religião, emendas parlamentares e a cinebiografia de Jair Bolsonaro “Dark Horse”. Bereia checou o conteúdo do que o Pastor Henrique Vieira expôs em seus perfis de redes digitais.
Karina Gama tem ainda empresas e organizações da sociedade civil ligadas ao contexto evangélico que recebem dinheiro público. Além da Go Up Entertainment, a empresária é sócia do Instituto Conhecer Brasil (ICB) e presidente da Academia Nacional de Cultura (ANC), que têm sede no mesmo endereço em São Paulo. No perfil público de Karina Gama, o empreendedorismo cristão é registrado como sua atuação mais destacada, tanto nacional quanto internacionalmente. A ANC, tem escritórios no Brasil, nos Estados Unidos, em Portugal e em Israel.
O ICB
O Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Gama, recebeu mais de 100 milhões de reais da Prefeitura de São Paulo, sob a gestão de Ricardo Nunes (MDB), para o fornecimento de serviços de wi-fi públicos em regiões de baixa renda da cidade. Esta informação chama a atenção pois a organização não presta serviços de telecomunicação. O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) investiga este repasse financeiro desde janeiro. É alvo da investigação o fato de que não houve concorrência na licitação pública que concedeu as verbas para a realização da implantação de cinco mil pontos de acesso à internet em São Paulo. Quase um ano após o encerramento do prazo de entrega, a Prefeitura paulistana admite que o contrato ainda não foi cumprido, com apenas 3.200 pontos instalados.
A justificativa dos agentes públicos pelo não cumprimento do contrato é que Karina Gama havia registrado um boletim de ocorrência, na Polícia Civil de São Paulo, para acusar a empresa Ultra IP de descumprir o contrato com o ICB para instalar e manter pontos de internet na cidade. O dono da empresa alega não ter ciência do inquérito, negou as acusações e informou ter aberto processo judicial contra o ICB por não ter recebido pelos serviços prestados por meio de contrato. A secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia de São Paulo afirma que todos os questionamentos do MP-SP foram devidamente respondidos dentro do prazo.
Cronograma revela que até junho de 2025, prazo final para implementação, apenas 3200 dos 5000 pontos de Wi-Fi foram considerados ativos. Foto: Reprodução/Prefeitura de São Paulo
Ocorre que levantamento feito pelo portal G1 nas prestações de contas da do ICB, publicado no último 20 de maio, mostra que a organização de Karina Gama apresentou ao menos R$ 4 milhões em notas irregulares à gestão do Prefeito Ricardo Nunes, para justificar despesas do contrato de instalação de wi-fi. A apuração do G1 demonstra que há notas milionárias canceladas no site da própria Prefeitura e até apresentação de recibos e notas sem nenhum valor fiscal para justificar gastos de até R$ 4,3 milhões em uma única fatura, de junho de 2024 a dezembro de 2025.
Conforme alertou o deputado Pastor Henrique Vieira, o mesmo ICB realiza eventos evangélicos, bancados com emendas parlamentares. Uma delas foi destinada pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), que também é roteirista do filme-homenagem a Jair Bolsonaro. No total, Frias destinou 2 milhões de reais em emendas, também para serviços de marketing da empresa Conhecer Brasil Assessoria, mas nega irregularidades.
ICB conseguiu, em 2018, com a prefeitura paulistana, 2,5 milhões de reais, para a realização do “Encontro literário IDE”, um evento para promover autores cristãos, na programação da feira de produtos religiosos Expo Cristã. O projeto incluiu um concurso literário, palestras de coaches para autores e encontros com livreiros. Este foi um entre vários eventos religiosos com o apoio financeiro da prefeitura de São Paulo.
Foto: Reprodução do website do Instituto Conhecer Brasil
Outra organização administrada por Karina Gama é a Academia Nacional de Cultura (ANC), que também realiza eventos religiosos, como o Mega Dance Musical, vinculado à Força Jovem Universal da Igreja Universal do Reino de Deus e o The Connect Faith 2025. Este último é uma feira de negócios que busca articular empreendedorismo cristão e tecnologia, sob a orientação de estrelas do cenário evangélico como o deputado federal Marco Feliciano (PL-SP), a bispa da Igreja Renascer em Cristo Sonia Hernandes, a pastora e cantora gospel Ana Paula Valadão, entre outras.
Estes repasses estão sob investigação, por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, pois a secretaria estadual de Cultura do governo Tarcísio teria que ter aprovado o plano da produção da ANC para depois assinar um termo de fomento e repassar a verba à produtora. A verba não foi repassada ainda. A secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas foi ouvida pela Agência Pública e explicou que “a referida ONG não cumpriu, até o momento a formalização de toda a documentação necessária para o recebimento do recurso”. Portanto, diz a secretaria, “há diligências em curso para verificação de restrições técnicas e documentais”. Para o G1 a secretaria de
O valor nessa investigação é uma pequena parte diante dos milhões de dólares que Flávio Bolsonaro pediu para o dono do Banco Master Daniel Vorcaro, para a produção do filme sobre o ex-presidente, conforme revelou o site Intercept Brasil. Este valor teria sido intermediado pela produtora Go Up Entertainment, da mesma Karina Gama, que nega ter recebido qualquer repasse do banqueiro. Com a repercussão do caso foi ainda levantado pela imprensa que a empresa nunca trabalhou com produções cinematográficas.
O deputado Pastor Henrique Vieira e a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) enviaram citação ao ministro do STF Flávio Dino para verificação se há a destinação de emendas também para financiamento indireto do filme, o que resultou na abertura de uma apuração preliminar. Após a divulgação dessa nova frente de investigação, o ICB e a deputada Bia Kicis divulgaram notas à imprensa, negando irregularidades.
Desinformação
Em meio a todas esta teia de revelações, o veículo que atua como porta-voz de pautas da direita extremista, a Revista Oeste, publicou matéria em 17 de maio, na qual sustenta que as denúncias que envolvem irregularidades do ICB no contrato do Wi-Fi Livre SP foram produzidas por uma empresa concorrente, a Surf Telecom.
Segundo a Oeste, a Surf teria sido prejudicada no processo de contratações porque participou de etapas anteriores do programa de conectividade da Prefeitura de São Paulo, mas acabou fora do novo modelo adotado. Em 2024, a gestão municipal abriu chamada para organizações do terceiro setor e o ICB assumiu o contrato milionário para expansão da internet gratuita em comunidades vulneráveis, apesar de não atuar nessa frente de trabalho.
Segundo a Revista Oeste supõe, a Surf, como forma de retaliação, teria estimulado as denúncias publicadas pelo Intercept Brasil, uma vez que haveria uma ligação direta entre a Surf Telecom e o veículo jornalístico. A matéria afirma que o jornalista Paulo Motoryn, um dos autores das reportagens sobre o caso, é parente de Mauro Motoryn, executivo da Surf. Isto levaria leitores a crerem, uma vez que não há qualquer prova sobre a suposição, em uma possível influência da disputa comercial na cobertura jornalística do The Intercept.
Imagem: reprodução/revista Oeste
No entanto, reportagens de outros veículos credenciados, como o UOL e o G1, publicaram matérias sobre a investigação do Ministério Público e da Polícia Civil sobre as suspeitas que incluem possível sobrepreço, uso de notas fiscais irregulares, falhas na execução do serviço e inconsistências na prestação de contas. Além disso, como informado nesta matéria, o ICB foi a única organização a apresentar proposta no chamamento público da Prefeitura, o que resultou em contratação sem licitação/concorrência.
A publicação da revista Oeste vem sendo usada em redes digitais para desqualificar o trabalho do jornalista Paulo Montoryn e para defender a empresária produtora do filme-homenagem a Jair Bolsonaro. Porém, os fatos amplamente reportados e documentados por vários veículos jornalísticos, para além do The Intercept, sobre irregularidades nos contratos com a Prefeitura de São Paulo, colocam em xeque a credibilidade da matéria da Oeste.
Karina Gama e as articulações do GT Cristão
O Grupo de Trabalho Cristão (GT Cristão) é uma organização que funciona em São Paulo para interlocução e lobby entre pastores e igrejas evangélicas, o setor empresarial e o ambiente político, com forte alinhamento ao campo ultraconservador de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
O grupo ganhou estrutura e visibilidade durante as eleições de 2022. Ele foi originalmente montado como um “Grupo de Trabalho Cristão” para dar suporte a campanhas como as de Geraldo Alckmin, José Serra, Jair Bolsonaro (2018). Mas foi em 2022 que ganhou mais densidade no apoio à eleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao governo do estado de São Paulo. A função inicial do grupo era orientar o candidato sobre temas de interesse religioso, municiar discursos com passagens bíblicas e organizar formalmente as agendas dele em templos, cultos e grandes eventos (como a Marcha para Jesus).
Após aquele período eleitoral, o grupo se consolidou como um canal permanente de representação. Atualmente presidido pelo pastor da Assembleia de Deus do Brás Geraldo Malta, o GT Cristão passou a atuar no agendamento de reuniões institucionais e na aproximação de interesses do empresariado e de entidades cristãs com o poder público. O grupo possui livre trânsito em gabinetes políticos de relevância, coordena encontros formais com Prefeituras no estado de São Paulo e com as respectivas secretarias de cultura e habitação. Malta afirma que o GT reúne cerca de 400 pastores e 5 mil igrejas.
É nessa intersecção entre religião, negócios e política que Karina Gama se insere. Em reuniões oficiais com governantes e Prefeituras, ela se apresenta e atua como membro do GT Cristão, às vezes ao lado do pastor presidente ou de outros pastores do grupo. A empresária conecta as pautas da organização às suas próprias frentes de atuação no grupo de empresas que dirige, que incluem a captação de recursos na área da cultura, projetos de empreendedorismo cristão e a produção de mídia audiovisual direcionada à base conservadora.
Mais recentemente, em 15 de outubro de 2025, há o registro oficial de outra reunião no Gabinete do Prefeito de São Paulo, esta com a secretaria da Casa Civil e “a presidente e CEO da The Connect Faith – Karina Ferreira da Gama”, na qual também participaram “membros da Academia Nacional de Cultura – Marcelinho Machado, Mônica Cintra, Samuel Crisóstomo, Samuel Camargo, Apostolo Antônio Carlos, Mike Davis, Pastora Elaine Cardoso; Deputado Federal Missionário José Olímpio; Deputado Estadual Rodrigo Moraes; Presidente do GT Cristão – Geraldo Malta; Diretor de Comunicação do GT Cristão – Pastor Osório Brasileiro; Secretário da Casa Civil – Enrico Misasi; Secretário de Cultura e Economia Criativa – Totó Parente; Secretário de Turismo – Rui Alves; e Diretor-Presidente da SPTuris – Gustavo Pires”.
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As denúncias do deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ), publicadas em vídeo, sobre financiamentos suspeitos com verbas públicas de eventos religiosos e outros da produtora do filme-homenagem a Jair Bolsonaro “Dark Horse”, estão no contexto das informações que circulam no noticiário em maio de 2026. Há uma série de suspeitas sob investigação na Polícia Federal, no Ministério Público de São Paulo e no Supremo Tribunal Federal sobre transações financeiras para financiamento do filme que envolveriam também verbas públicas diretas.
Como a apuração do Bereia mostra, as suspeitas expostas no vídeo do Pastor Henrique Vieira têm fundamento na documentação e nos fatos levantados e publicados pela imprensa em torno do caso e das personagens envolvidas, entre elas a Go Up Entertainment, da empresária Karina Gama. São várias frentes de investigação em curso. Portanto, Bereia classifica como inconclusivo o conteúdo verificado. A equipe seguirá acompanhando os desdobramentos para atualização das informações à medida que emerjam comprovações.
https://telesintese.com.br/surf-telecom-se-credencia-para-explorar-wifi-livre-em-sao-paulo/ Acesso em 21 mai 2026
UOL
https://noticias.uol.com.br/colunas/natalia-portinari/2026/05/19/ong-ligada-a-dark-horse-e-investigada-por-contrato-de-r-103-mi-em-sp.htm Acesso em 21 mai 2026
Episódio ocorrido em 30 de abril de 2026, no Hospital DF Star, em Brasília, colocou em evidência, nos primeiros dias de maio de 2026, acusações de agressão envolvendo o senador evangélico Magno Malta e uma técnica de enfermagem. Segundo boletim de ocorrência registrado na Polícia Civil do Distrito Federal, a profissional afirma ter sido agredida com um tapa no rosto e ter sido xingada de “imunda” e “incompetente” por Malta, durante atendimento ao parlamentar. O caso repercutiu intensamente nas mídias sociais e reúne versões conflitantes e segue em apuração pelas autoridades.
Imagem: reprodução/XImagem: reprodução/X
Denúncia e repercussão
A denúncia foi inicialmente divulgada por veículos de imprensa, que relataram o registro de ocorrência pela profissional de saúde na delegacia do DF. De acordo com essas publicações, o episódio teria ocorrido durante a realização de uma angiotomografia. O procedimento envolve a aplicação de contraste para visualização de vasos sanguíneos e, segundo o relato da técnica, houve extravasamento do líquido no braço do paciente. Ao identificar a situação e se aproximar para realizar compressão no local, ela afirma ter sido atingida com um tapa e ter sido alvo de ofensas verbais.
“Eu não tenho vontade nem ânimo nenhum para ir para um ambiente de trabalho e dar de cara com aquele sujeito. Nenhuma vontade. É muito difícil lidar com um tapa de uma agressão que eu nunca nem sofri dentro de casa. Lá dentro de casa tem um homem, são dois, não é um, são dois. E eles nunca bateram na minha cara igual esse indivíduo fez”, afirmou a profissional. “No momento, eu não tive reação e a única coisa que eu senti era que eu era um saco de lixo onde todo mundo passava e fazia de conta que não me conhecia ou que eu era um saco podre”, completou.
Em 6 de maio, a técnica de enfermagem foi afastada das atividades por recomendação médica, conforme nota divulgada à imprensa pela assessoria do Hospital DF Star. A unidade declarou que a profissional “encontra-se afastada de suas atividades por recomendação de seu médico particular e que está recebendo suporte institucional”. O afastamento ocorreu no contexto da denúncia e da repercussão do caso.
Versão do senador e manifestação da defesa
O senador Magno Malta nega a acusação de agressão. Em manifestações públicas, afirma que houve falha técnica no procedimento, com extravasamento do contraste, o que teria provocado dor intensa. “Não toquei um dedo em ninguém”, declarou em redes sociais. Em outras declarações, classificou a denúncia como falsa e associou sua divulgação a tentativas de desgaste de sua imagem.
No dia 5 de maio, já de volta às atividades, o senador reiterou sua defesa em discurso na tribuna do Senado, ao afirmar que estaria sendo alvo de um “processo político” para destruir sua trajetória. Na ocasião, disse não saber “por que essa moça fez isso, nem por quem foi incentivada” e declarou que renunciaria ao mandato caso fosse apresentada qualquer prova de agressão, como imagens ou registros do momento.
Imagem: reprodução/Instagram
O parlamentar também registrou boletim de ocorrência contra a profissional, solicitando apuração dos fatos com análise de imagens, prontuário médico e realização de exames periciais. No registro policial, Magno Malta afirma que, diante da forte dor e do uso de medicação, apresentou reação compatível com o sofrimento físico do momento, mas sem praticar qualquer ato de agressão física contra profissionais de saúde.
Em resposta ao Coletivo Bereia, a assessoria de imprensa do senador informou que não seriam concedidas entrevistas no momento, afirmando que o dia 5 de maio “foi um dia bastante desgastante para o senador. Ele falou na tribuna do Senado e também cumpriu um compromisso que já estava previamente agendado. Neste momento, inclusive por orientação e cuidado com a saúde, ele irá se resguardar um pouco mais”.
Apesar disso, foi encaminhada nota da assessoria jurídica. “O hospitalizado, Sr. Magno Malta é, neste episódio, a única vítima: de um erro técnico documentado, de uma narrativa fabricada para encobri-lo e de uma exposição pública irresponsável. Medidas cabíveis estão em curso em todas as esferas. O prontuário fala por si. A trombose e o hematoma não mentem.” O texto é assinado pelo advogado André Henrique Pimentel Lucena.
Apuração institucional e atuação das autoridades
O Hospital DF Star informou que abriu apuração administrativa e que está prestando suporte à funcionária.
O caso foi registrado na Polícia Civil do Distrito Federal e, em razão da prerrogativa de foro do senador, encaminhado ao Supremo Tribunal Federal. A polícia civil disse em nota que “a vítima relata que, durante atendimento como técnica de enfermagem, o paciente se levantou e desferiu um tapa em seu rosto. Relata ainda ter sido alvo de ofensas verbais.”
Segundo fontes ligadas à investigação, o laudo do Instituto de Medicina Legal (IML) identificou uma escoriação no lado direito do nariz da técnica de enfermagem. As mesmas fontes afirmam que a lesão foi considerada compatível com a versão apresentada pela profissional, que relatou ter recebido um tapa no rosto e, com o impacto, ter tido os óculos entortados, atingindo a região do nariz. Embora o exame não tenha identificado vermelhidão facial no momento da perícia, investigadores explicam que isso não invalida o relato, já que os peritos consideraram a possibilidade de rubefação, reação que pode desaparecer em poucas horas após o impacto físico.
No mesmo contexto da investigação, a Polícia Civil ouviu, em 6 de maio, uma testemunha que também trabalha no Hospital DF Star. Segundo informações divulgadas pela imprensa, o homem afirmou não ter presenciado o momento em que o tapa teria ocorrido, mas relatou ter encontrado a colega logo após o episódio e observado que os óculos dela estavam tortos, o que coincide com a versão apresentada pela profissional. O depoimento passou a integrar os elementos analisados pelas autoridades, enquanto o caso segue sem conclusão oficial.
Bereia tentou contato com a assessoria de imprensa do hospital DF Star, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.
Repercussões entre entidades da enfermagem
O caso motivou manifestações de entidades representativas da enfermagem, que destacaram a gravidade de episódios de violência no ambiente de trabalho e cobraram apuração rigorosa dos fatos.
O Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal afirmou, em nota pública, que situações de violência contra profissionais de saúde “não podem ser toleradas”, ressaltando que agressões físicas e verbais comprometem não apenas a integridade dos trabalhadores, mas também a qualidade da assistência prestada.
Na mesma linha, a Federação Nacional dos Enfermeiros manifestou solidariedade à trabalhadora e classificou o episódio como “agressão sofrida por profissional de enfermagem”, defendendo que casos como esse devem ser investigados com rigor e transparência.
O Sindicato dos Enfermeiros do Distrito Federal e seu Setorial de Mulheres também se posicionaram, afirmando que é “ultrajante que, além de vítima de agressões verbais e físicas, a profissional ainda precise enfrentar uma campanha difamatória que tenta invalidar sua dor e profissionalismo”. As entidades acrescentam que “não existe qualquer justificativa para a violência contra a Enfermagem” e chamam atenção para o fato de que a categoria é majoritariamente composta por mulheres, o que, segundo destacam, a torna ainda mais exposta a situações de violência no exercício da profissão.
Imagem: reprodução/Instagram
As manifestações reforçam a necessidade de investigação pelas autoridades competentes e de proteção aos profissionais de saúde.
Circulação de conteúdos e disputa de narrativas
O episódio também ganhou forte repercussão nas redes digitais, com a divulgação de vídeos e declarações do senador, além de manifestações de familiares e apoiadores.
Em uma das gravações, o parlamentar apresenta um homem que pede desculpas pelo ocorrido, mas não há confirmação pública sobre a identidade ou função dessa pessoa no hospital. “Fiquei chateado, sentindo dores horríveis, voltei para o quarto sentindo dores, e o diretor do hospital esteve aqui juntamente com o médico de plantão, me pediram desculpa.”, disse ele no vídeo publicado em sua conta no Instagram.
Imagem: reprodução/Instagram
A circulação desses conteúdos ocorre paralelamente à ausência de evidências materiais públicas, o que contribui para a consolidação de versões distintas sobre o episódio.
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O caso reúne elementos típicos de situações em fase inicial de apuração: uma denúncia formal, versões conflitantes e ausência de provas públicas que permitam verificação independente. Em 6 de maio, novos elementos passaram a integrar a investigação, como o laudo do IML que identificou uma escoriação no nariz da técnica de enfermagem, considerada compatível com o relato apresentado por ela às autoridades, além do depoimento de uma testemunha que afirmou ter visto os óculos da profissional tortos logo após o episódio. Ainda assim, esses elementos, por si só, não encerram a apuração nem estabelecem conclusão definitiva sobre a dinâmica dos fatos.
A ampla circulação do episódio nas redes sociais e em diferentes veículos amplia a disputa discursiva, especialmente diante do envolvimento de uma figura pública. As manifestações institucionais reforçam a gravidade do tema, a violência contra profissionais de saúde, mas não substituem a necessidade de apuração baseada em evidências.
Até o momento, não foram divulgadas imagens do atendimento, nem houve apresentação pública integral de laudos, registros hospitalares ou conclusões oficiais das investigações conduzidas pelas autoridades.
Diante desta apuração, Bereia classifica a denúncia de agressão envolvendo o senador Magno Malta como inconclusiva. Embora novos elementos tenham sido incorporados ao caso, ainda não há conjunto probatório público suficiente para confirmar integralmente ou refutar de forma definitiva a ocorrência da agressão relatada. O caso segue sob investigação pelas autoridades competentes e Bereia acompanhará os desdobramentos.
Referências
Metrópoles
https://www.metropoles.com/distrito-federal/na-mira/magno-malta-da-tapa-na-cara-de-tecnica-durante-exame-em-hospital-no-df-imunda – Acesso em 6 maio 26
https://www.metropoles.com/colunas/mirelle-pinheiro/laudo-do-iml-contradiz-versao-de-magno-malta-sobre-agressao-em-hospital – Acesso em 6 maio 26
https://www.metropoles.com/colunas/grande-angular/o-que-diz-testemunha-sobre-tecnica-que-acusa-magno-malta-de-agressao – Acesso em 6 maio 26
CNN Brasil
https://www.cnnbrasil.com.br/politica/tecnica-em-enfermagem-registra-bo-contra-senador-magno-malta-por-agressao – Acesso em 6 maio 26
https://www.cnnbrasil.com.br/politica/tecnica-em-enfermagem-registra-bo-contra-senador-magno-malta-por-agressao/ – Acesso em 6 maio 26
Rede TV
https://www.redetv.uol.com.br/amp/redetvi-noticias/noticia/geral/lesao-em-tecnica-de-enfermagem-e-compativel-com-relato-de-agressao-de-magno – Acesso em 6 maio 26
SBT News
https://sbtnews.sbt.com.br/noticia/politica/tecnica-de-enfermagem-diz-estar-com-medo-e-que-tapa-de-magno-malta-foi-muito-forte – Acesso em 6 maio 26
Itatiaia
https://www.itatiaia.com.br/politica/tecnica-de-enfermagem-que-acusa-magno-malta-de-agressao-e-afastada-do-trabalho – Acesso em 6 maio 26
Agência Senado
https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/05/05/magno-malta-nega-agressao-a-enfermeira-e-relata-falha-em-atendimento-hospitalar – Acesso em 6 maio 26
Uol
https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/05/03/magno-malta-registra-boletim-de-ocorrencia-contra-tecnica-de-enfermagem-apos-acusacao.htm – Acesso em 6 maio 26
COREN-DF
https://coren-df.gov.br/violencia-contra-profissional-de-enfermagem-durante-atendimento-nao-pode-ser-tolerada – Acesso em 6 maio 26
Instagram Conselho Federal de Enfermagem (COFEN)
https://www.instagram.com/p/DX1zNDrgE2z – Acesso em 6 maio 26
Federação Nacional dos Enfermeiros
https://www.portalfne.com.br/noticia/nota-de-repudio-da-fne-a-agressao-sofrida-por-profissional-de-enfermagem-no-hospital-df-star-e-de-solidariedade-a-trabalhadora – Acesso em 6 maio 26
Circulam nas redes sociais, em abril de 2026, publicações do ex-procurador da República e ex-deputado federal evangélico Deltan Dallagnol (Novo-PR) nas quais ele afirma ter sido vítima de “perseguição” e “injustiça” no processo de cassação de seu mandato como parlamentar em 2023. Ele sustenta estar apto a disputar o Senado nas eleições de 2026.
Esta nova rodada de publicações com a temática da perseguição a Dallagnol surgiu nas redes depois que o ex-procurador se filiou ao Partido Liberal (PL) e foi anunciado como pré-candidato ao Senado pela sigla. O anúncio foi feito durante o evento de filiação do senador e ex-juiz federal Sérgio Moro ao partido, no final de março, em Brasília. As pré-candidaturas de Moro, ao governo do Paraná, e de Dallagnol ao Senado, foram confirmadas na ocasião pelo presidente do PL Valdemar Costa Neto, que também anunciou o deputado federal evangélico Filipe Barros (PL-PR) como candidato ao Senado na mesma chapa.
O fato é que o ex-deputado federal Deltan Dallagnol (então do partido Novo-PR) teve o registro de candidatura cassado pelo TSE em 2023 por fraude na campanha eleitoral, como o Bereia já publicou. Porém, após o anúncio da pré-candidatura dele ao Senado, em 2026, postagens, amplificadas por perfis políticos e religiosos alinhados à direita, indicam, mais uma vez, que a inelegibilidade seria resultado de perseguição política e poderia ser revertida por fatos recentes, como o caso do Banco Master.
Imagens: reprodução/Instagram/X
Dallagnol pode concorrer ao Senado?
A cassação do mandato de Deltan Dallagnol, como deputado federal, decidida por unanimidade pelo TSE, em 16 de maio de 2023, teve como base a aplicação da Lei da Ficha Limpa. A Corte entendeu que houve fraude à lei eleitoral quando o ex-procurador antecipou sua exoneração do Ministério Público enquanto havia processos administrativos contra ele em curso no Conselho Nacional do Ministério Público. Segundo o relator do caso, ministro Benedito Gonçalves, o ex-procurador utilizou um ato formalmente legal para evitar possível inelegibilidade decorrente de sanções disciplinares.
A condenação seguiu todos os trâmites da lei e o então deputado teve amplo direito de defesa, porém a Justiça Eleitoral julgou que, ao pedir a exoneração do MP para concorrer ao cargo de deputado federal, Dallagnol buscou se livrar da regra que poderia torná-lo inelegível. Segundo a Lei da Ficha Limpa, qualquer membro do Ministério Público fica inelegível por oito anos se pedir exoneração ou aposentadoria voluntária enquanto tramitarem processos administrativos disciplinares.
Bereia checou, à época, que estavam em trâmite no Conselho Nacional do Ministério Público 15 procedimentos administrativos de variada natureza que poderiam resultar em Processo Administrativo Disciplinar (PAD) e, possivelmente, na aposentadoria compulsória ou na perda do cargo de procurador por Dallagnol. O então procurador teria pedido exoneração para evitar que esses procedimentos se tornassem PADs, o que o impediria de se candidatar.
Na nova rodada de publicações que alegam perseguição, há a tentativa de relacionar a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ao “caso Banco Master”, no qual há suspeitas de envolvimento de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Com isso, segundo essas postagens, a inelegibilidade poderia ser revertida.
Estas afirmações devem ser consideradas descontextualizadas, portanto, enganosas. O julgamento do caso Dallagnol ocorreu com base em elementos documentais e jurídicos anteriores às investigações sobre o Banco Master, realizadas após 2023, o que não tem relação com decisões do TSE anteriormente proferidas.
A norma eleitoral atual prevê que candidatos apresentem o Requerimento de Declaração de Elegibilidade (RDE), instrumento que permite consulta prévia à Justiça Eleitoral em casos de dúvida. Até o fechamento desta matéria, não há registro de que Dallagnol tenha recorrido a esse mecanismo.
*** Bereia classifica, mais uma vez, as publicações de Deltan Dallagnol e sobre ele que alegam perseguição e injustiça na cassação do seu mandato parlamentar como enganosas. A narrativa omite que sua cassação foi fundamentada em fraude à Lei da Ficha Limpa, comprovada por documentos do Conselho Nacional do MInistério Público. Legalmente, Dallagnol continua impedido de disputar cargos eletivos até 2031.
Ainda, ao apelar ao caso do Banco Master para atrelar ações de ministros do Tribunal Superior Eleitoral a suposta perseguição a ele, o político evangélico mistura elementos factuais (a suspeita do envolvimento de ministros do Supremo Tribunal Federal com o banco e a pré-candidatura dele ao Senado) com suposições que distorcem casos para confundir o público. O uso de ataques genéricos a tribunais superiores além de servir para enfraquecer as instituições da República, é usado para desviar o foco da situação jurídica na qual o ex-procurador foi enquadrado e manter influência política sobre o eleitorado conservador e sobre religiosos alinhado à direita.
Referências
BRASIL. Lei Complementar no 64, de 18 de maio de 1990. Estabelece casos de
Vídeos gerados por inteligência artificial, conhecidos como deepfakes, dominaram as mídias sociais nos últimos meses. Os conteúdos mostram mulheres com camisas vermelhas do Partido dos Trabalhadores (PT) sendo agredidas fisicamente por pastores. Bereia chama a atenção para a violência religiosa e de gênero extrema presente nestes conteúdos. Os vídeos têm sido utilizados como estratégia de intimidação política, meses antes das eleições.
O conteúdo foi amplamente divulgado na plataforma TikTok, com foco em uma conta que já acumulava mais de 3 milhões de curtidas. Além dos vídeos gerados por IA, a conta também lucrava com ofertas de cursos que prometiam ensinar a gerar conteúdos parecidos com o uso de inteligência artificial. O PT acionaram o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por violência política, o que resultou na remoção da conta da plataforma.
Antes de ser removido, o perfil acumulava comentários de pessoas que demonstraram acreditar e, até mesmo, concordar com o conteúdo violento. Um dos vídeos mostrava um pastor dando tapas nos rostos de diversas mulheres, todas com camisas do PT. Outro mostra uma mulher sendo exorcizada, o que remete à mensagem de demonização do partido.
Apesar da conta ter sido removida do TikTok, na própria plataforma e em outras, como Instagram e Facebook, conteúdos com o mesmo teor permanecem circulando. É importante diferenciar estes vídeos gerados por inteligência artificial de violência política contra apoiadores do Partido dos Trabalhadores de vídeos reais.
Reprodução. (Adicionar alerta de IA)
Denúncias feitas por portais de notícias
Diversas denúncias foram feitas por portais de notícias em reportagens, como Agência Lupa e ICL Notícias. O Gazeta do Povo, por outro lado, fez uma reportagem a respeito do acionamento do TSE feito pelo PT, classificando a situação como um pedido de “censura prévia”.
No dicionário jurídico, “censura prévia” é utilizada para se referir a um “controle ou restrição ao exercício da liberdade de expressão por parte do Estado antes da divulgação de informações ou opiniões”. No entanto, não houve uma censura prévia, visto que o pedido de retirada dos vídeos violentos foi realizado após a divulgação e repercussão dos mesmos.
Em resposta, o jornalista do ICL Leandro Demori criticou o posicionamento da Gazeta do Povo. “Esse vídeo não vai ficar só na internet, vai para rua. Não há mais uma divisão clara do que é virtual para o mundo real. Não tem censura prévia aqui, é um erro de conceito, é burrice, má fé, ignorância ou os três. Porque censura prévia é você impedir que alguém publique uma coisa, antes de ser publicada, não é o caso. Depois de publicado, ser removido, não é prévia. (…) Título tendencioso, falso, fakenews, fakenews é o nome dessa matéria publicada pela Gazeta do Povo. Quero saber se a Gazeta do Povo é a favor de colocar qualquer tipo de pessoa sendo espancado o dia inteiro, na internet”, disse em trecho de vídeo em que critica o portal de notícias.
Reprodução: Instagram
TSE estipula regras para o uso de IA em campanhas eleitorais
A propaganda eleitoral é oficialmente permitida a partir do dia 16 de agosto. Com isso, o Tribunal Superior Eleitoral estipulou com antecedência as regras para uso de IA nas campanhas eleitorais. A regulamentação busca impedir a circulação de desinformação gerada ou manipulada por inteligência artificial e que tenha o potencial de prejudicar a integridade do período eleitoral.
Uma das principais novidades é que vídeos, áudios, imagens e textos gerados ou manipulados por IA e que sejam utilizados como propaganda eleitoral devem informar, obrigatoriamente, a origem de inteligência artificial daquele conteúdo. A informação deve ser explícita e acessível. Qualquer conteúdo artificial ou não que represente desinformação e/ou discurso de ódio contra partidos e/ou contra candidatos e candidatas é proibido e pode ser classificado como crime eleitoral.
A Resolução do TSE tem incisos que abordam exclusivamente a violência política contra a mulher. O texto prevê, ainda, que os provedores de aplicação devem ter soluções específicas que permitam as denúncias do tipo.
Identidade visual da série Por Dentro das Eleições. Arte: Secom/TSE
Misoginia e uso de Inteligência Artificial
A disseminação desses conteúdos desinformativos chama a atenção para o alto teor de misoginia, atrelada à violência religiosa. No caso dos vídeos gerados por IA, muitas vezes uma violência física praticada por pastores, posicionando mulheres como inferiores, e relacionando supostos posicionamentos políticos favoráveis ao Partido dos Trabalhadores como possessões demoníacas.
Nos vídeos, os pastores, que são homens , funcionam como “salvadores”, realizando supostos rituais de exorcismo. O bispo da Igreja Episcopal Anglicana no Brasil Francisco Silva publicou um artigo no qual critica a disseminação desses conteúdos e o potencial misógino que apresentam. Confira trecho da publicação:
“Primeiramente cabe perguntar por que apenas mulheres são apontadas como quem precisam ser exorcizadas. E segundo, por que elas vestem camisas do PT.
A leitura fundamentalista da Bíblia estabelece o homem como cabeça, e portanto quem controla a família e que tem poder sobre os corpos femininos. Na medida em que esta pirâmide de poder começa a ser posta em cheque, a Machonaria entra em crise! Mulheres não podem questionar estruturas injustas, pois assim elas quebram a ‘ordem natural’. E quem gosta de quebrar a ordem? O diabo, é claro! Por isso as mulheres precisam ser exorcizadas, para ficarem livres dessa influência maligna.
Simbolicamente temos, em pleno século 21, um literal retorno à caça às bruxas, vividos no horror da Inquisição.
Para além dessas questões, temos a gravíssima apologia à violência contra a mulher. Exatamente num momento em que o Congresso está apreciando uma lei severa que combate a misoginia. Não é a toa que as forças políticas que se colocam contra isso são exatamente as de direita e de extrema direita. Consequentemente forças antipetistas e anti esquerdistas!
É muito importante ficarmos atentos sobre essas estratégias que tentam confundir o eleitorado brasileiro a partir de estratégias de gerar preconceito, pânico e violência explícita contra as mulheres e contra as forças progressistas no pleito desse ano. E cabe aos líderes religiosos um papel fundamental de rechaçar estas iniciativas criminosas contra a nossa democracia!”
Verifique e denuncie
Caso você encontre vídeos, imagens, áudios ou textos suspeitos, possivelmente com interferência de inteligência artificial, e que promovam violência política, não hesite em denunciar.
Nos últimos meses, o Bereia identificou a circulação de conteúdos falsos e enganosos em redes digitais e grupos religiosos. Os casos mais recentes, com ampla repercussão, evidenciam o papel desses espaços na difusão de informações sem verificação. A seguir, um ranking com cinco episódios que mobilizaram debates públicos.
1. Falso atentado contra ministro do STF é disseminado em redes religiosas
A alegação de que o voo que transportava o ministro e pastor presbiteriano André Mendonça teria passado por uma “decolagem abortada por falha mecânica” também não procede. A informação que circulou nas redes digitais distorceu os fatos.
Conforme a apuração, o voo da Latam, que partiria de Brasília com destino ao Rio de Janeiro, foi cancelado ainda em solo, antes do início do taxiamento. A companhia aérea informou que a suspensão ocorreu de forma preventiva, após a necessidade de inspeção técnica motivada pela suspeita de colisão com ave em voo anterior, ocorrência conhecida como bird strike. Não houve pane mecânica nem tentativa de decolagem. Os passageiros, entre eles Luiz Fux, foram realocados em outro voo.
2. Conteúdo falso compartilhado por Michelle Bolsonaro gera ataques a jornalistas
Outro caso envolve o compartilhamento de desinformação por Michelle Bolsonaro, o que contribuiu para ataques contra jornalistas.
A ampla audiência da publicação impulsionou ataques à imprensa. Jornalistas registraram boletins de ocorrência após receber ameaças de morte, ofensas e exposição de dados pessoais. Houve também episódios de intimidação presencial e circulação de montagens com uso de inteligência artificial.
3. Homenagem a Lula no Carnaval é alvo de desinformação em espaços religiosos
Também ganhou ampla repercussão a série de conteúdos sobre a homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Carnaval de 2026, que se tornou alvo de desinformação em redes digitais e espaços religiosos digitais.
O Bereia analisou a circulação de publicações que classificavam o desfile da Acadêmicos de Niterói como propaganda eleitoral antecipada. De acordo com a checagem, embora críticos tenham interpretado a apresentação como favorecimento político e uso da máquina pública, não há elementos que configurem irregularidade eleitoral. O desfile ocorreu como manifestação cultural, dentro das regras do Carnaval, e a associação automática com campanha eleitoral decorre de interpretações distorcidas amplamente difundidas nas redes digitais e em grupos religiosos.
A apuração mostra que, quando há financiamento pela Lei Rouanet, não há transferência direta de verba pública à agremiação. O mecanismo consiste na autorização para captação de recursos por meio de renúncia fiscal junto a patrocinadores privados, modelo amplamente utilizado em diversas produções culturais no país.
A transformação dessa representação em acusação de intolerância religiosa ocorreu por meio da descontextualização do desfile, o que contribuiu para ampliar tensões políticas e religiosas nas redes digitais.
4. Imagem falsa de estátua de Donald Trump em igreja viraliza nas redes
Outra desinformação amplamente compartilhada envolve uma suposta estátua de 36 metros de Donald Trump em uma igreja batista no Alabama, nos Estados Unidos.
A checagem indica que o conteúdo surgiu em uma publicação crítica na plataforma Substack e depois apareceu em um fórum do Reddit com tom satírico. Ao circular em redes como Instagram, Threads e X, o material perdeu o contexto original e passou a ser interpretado como real.
Não há registro da construção ou anúncio de tal monumento por qualquer instituição religiosa nos Estados Unidos.
5. Pregação com discurso intolerante reforça desinformação sobre religiões afro-brasileiras
No vídeo, o missionário associa essas manifestações a práticas “demoníacas” e reforça estigmas históricos contra a cultura nordestina e religiões afro-brasileiras, como o candomblé e a umbanda.
De acordo com a análise, esse tipo de discurso ultrapassa o campo da opinião religiosa e reproduz preconceitos estruturais. A associação entre religiões de matriz africana e o mal figura entre as formas mais recorrentes de intolerância religiosa no Brasil, com impacto direto sobre populações negras e grupos historicamente marginalizados.
A checagem aponta que esse tipo de conteúdo contribui para a difusão de desinformação e discursos de ódio ao transformar diferenças culturais e religiosas em ameaça moral.
*** Os cinco casos reunidos pelo Bereia evidenciam padrões recorrentes na desinformação que circula em redes religiosas: distorção de fatos, uso de conteúdos fora de contexto, exploração de pautas políticas e reforço de discursos intolerantes. Essas estratégias ampliam o alcance de conteúdo falso e enganoso, sobretudo em ambientes marcados por relações de confiança.
Circula nos últimos dias de março uma série de publicações e comentários marcados por distorções e mentiras sobre a chamada Lei da Misoginia, aprovada no Senado no último 24 de março. A inclusão da misoginia entre os crimes de preconceito ou discriminação (Projeto de Lei 896/2023) foi aprovada por unanimidade pelo Plenário da casa. O texto define a misoginia como “a conduta que exteriorize [expresse/comunique] ódio ou aversão às mulheres”. As penas estabelecidas para esse tipo de crime variam entre um a cinco anos de prisão, além de multa. A Lei também inclui a expressão “condição de mulher” entre os critérios de intolerância e discriminação, a partir da interpretação da Lei do Racismo (Lei 7.716, de 1989), ao lado de cor, etnia, religião e procedência.
Após a divulgação da aprovação no Senado, um grande número de postagens críticas à lei passou a circular nas redes digitais. Muitas das publicações foram produzidas por lideranças com identidade religiosa, por portais gospel e por pessoas comuns, escondidas sob codinomes. O conteúdo é predominantemente marcado por distorções e falsidades, com ampla circulação em espaços digitais religiosos, como nos exemplos a seguir.
Políticos
Imagem: Publicação da deputada federal católica Bia Kicis (PL-DF) no Instagram, em 25 de março de 2026Imagem: Publicação no perfil do MBL/Missão no Facebook em 25 de março de 2026Imagem: Vídeo do deputado federal evangélico Kim Kataguiri (Missão/MBL-SP) publicado no Facebook em 26 de março de 2026Imagem: Publicação do ex-deputado federal evangélico cassado Deltan Dallagnol (Novo-PR) no Facebook em 27 de março de 2026
Imagem: Publicação da deputada estadual evangélica Alana Passos (PL-RJ) no Facebook em 25 de março de 2026
Portais gospel
Imagem: Matéria do portal Pleno News, 26 de março de 2023
Imagem: Matéria do portal GoodPrime, 25 de março de 2026
Perfis anônimos
Imagem: Publicação em perfil anônimo no X em 29 mar 2026
Imagem: Publicação em perfil anônimo no X em 26 de março 2026
Do que trata a lei aprovada no Senado?
O projeto é de autoria da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA) e foi aprovado com 67 votos a favor e nenhum contra, com um substitutivo apresentado pela relatora, a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS). A nova lei inclui a misoginia no rol de crimes de preconceito ou discriminação que constam na Lei do Racismo (Lei 7.716/1989). A proposta, que agora segue para análise da Câmara dos Deputados, estabelece penas de um a cinco anos de reclusão, além de multa, para condutas que exteriorizem (expressem/comuniquem) desprezo extremo ao gênero feminino, seja por violência física, psicológica ou difamação.
Equiparada aos crimes de racismo, a misoginia se torna uma infração inafiançável e imprescritível quando manifestada por meio de atos que visem impedir ou dificultar o acesso de mulheres a empregos, serviços ou estabelecimentos, pelo simples fato de serem do sexo feminino. Além do aspecto penal, a norma reforça o enfrentamento à violência política e institucional, buscando punir discursos e condutas que tentem inferiorizar a mulher na esfera pública ou privada com base estritamente no gênero.
O texto aprovado prevê alterações no Código Penal para diferenciar a injúria motivada por misoginia daquela praticada em contextos de violência doméstica. O objetivo é punir com maior rigor a propagação de discursos de ódio e a desumanização das mulheres em esferas públicas e digitais.
A legislação atual equipara a misoginia à injúria e à difamação, com pena que pode chegar de dois meses a um ano de reclusão, de acordo com o Código Penal (arts. 139 a 141). Para evitar possíveis conflitos de interpretação, a relatora apresentou uma emenda para que o Código Penal passe a reger a injúria somente no contexto de violência doméstica e familiar. Para a senadora Thronick, a injúria misógina carece de outro tratamento por lei, pois é “substancialmente mais grave que a primeira”. Por isso, ao se equiparar misoginia ao crime de racismo, as penas previstas para injúria são de dois a cinco anos de reclusão e multa (Art. 2º). Já para o crime de praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito, as penas já previstas na Lei de Racismo (Art. 20) são de um a cinco anos de prisão e multa.
A relatora apontou que países como França, Argentina e Reino Unido já têm leis de combate à misoginia. Soraya Thronick lembrou que, só no ano de 2025, houve quase 7 mil vítimas de tentativas de feminicídio no Brasil. Ela alertou para a ameaça representada pelos chamados redpills, que incentivam o ódio contra as mulheres, frequentemente por meio da internet. “O projeto é para proteger a família e a dignidade e a liberdade das mulheres. A aprovação do projeto responde a uma realidade urgente. O ódio às mulheres não é abstrato: é estruturado, é crescente e ceifa vidas todos os dias”, afirmou a relatora do Projeto de Lei.
A senadora disse lamentar o fato de o país, segundo ela, odiar mais a palavra “feminismo” do que “feminicídio”. Segundo Soraya, para deliberar sobre o projeto seria importante o entendimento de quatro conceitos: machismo, femismo, feminismo e misoginia.
“O termo contrário ao machismo não é feminismo, é “femismo”. E o que femismo significa? Ideologia que defende a superioridade da mulher sobre o homem. O feminismo é um movimento que luta pela igualdade de direitos, oportunidades e tratamento entre homens e mulheres; não visa à superioridade. Por sua vez, o que vem a ser a misoginia? A misoginia se traduz no ódio, na aversão, no desprezo extremo às mulheres, muitas vezes manifestado por meio de violência física, psicológica e difamação”, explicou Soraya Thronick.
Logo após a votação, a autora do projeto, senadora Ana Paula Lobato pediu a palavra para ler uma série de ofensas e ameaças, inclusive de morte, que recebeu pela internet, por conta da autoria do projeto. Acrescentou que a aprovação tem peso político, jurídico e moral. Segundo ela, o Brasil está cansado de enterrar mulheres e testemunhar humilhações públicas. Por isso, ressaltou, a misoginia não pode ser tratada como um detalhe, pois é uma “cultura que desumaniza antes do crime”. “Agora, existe uma resposta clara do Estado brasileiro. É o Senado dizendo que a misoginia tem consequências”, celebrou a senadora.
Desinformação em alto grau
Bereia identificou as principais mentiras (falsidades e distorções) que têm sido propagadas em torno do Projeto de Lei da Misoginia, e recorreu ao texto legislativo aprovado no Senado para checar.
Mentira: “A lei não define o que é misoginia, deixando o juiz decidir”.
Verdade: A jurisprudência e o próprio debate parlamentar já definem misoginia como ódio, aversão ou desprezo às mulheres.
Trecho do PL: “Para os fins desta Lei, considera-se misoginia a conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres” (Art. 1º – alteração da Lei do Racismo, nº 7716/89, Art. 1º e parágrafo único).
Mentira: “A lei vai prender homens por qualquer crítica ou piada como ‘tá de TPM [Tensão Pré-Menstrual]?”
Verdade:A lei diz respeito à incitação à violência e à discriminação que nega direitos. O texto exige comprovação do dolo (intenção) de menosprezar ou discriminar a mulher pela sua condição de gênero em contextos de violência. O termo “condição de mulher” engloba ofensas motivadas pelo fato da vítima ser mulher, protegendo-as de discriminação específica.
Trecho do PL:“Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro em razão de raça, cor, etnia, procedência nacional ou em razão de misoginia.” (Art. 1º – alteração da Lei do Racismo, nº 7716/89, Art 2º-A); “Praticar, induzir ou incitar discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional ou em razão de misoginia” (Art. 1º, alteração da Lei do Racismo, nº 7716/89, Art. 20); “Na interpretação desta Lei, o juiz deve considerar como discriminatória qualquer atitude ou tratamento dado à pessoa ou a grupos minoritários que cause constrangimento, humilhação, vergonha, medo ou exposição indevida, e que usualmente não se dispensaria a outros grupos em razão da cor, etnia, religião, procedência nacional ou condição de mulher.” (alteração da Lei do Racismo, nº 7716/89, Art. 20-C).
Mentira: “A lei proíbe um pastor de fazer pregações religiosas sobre o papel da mulher”
Verdade: A lei não pode impor restrições a doutrinas de grupos religiosos, uma vez que a liberdade de culto e crença são um direito fundamental e estão protegidas pela Constituição Brasileira, Art. 5º, VI. O discurso de líderes religiosos ou quaisquer figuras relacionadas a religiões deve ser submetido à lei quando for caracterizado como injúria, ofensa à dignidade ou o decoro na forma de exteriorização de ódio ou aversão a mulheres. Isto significa ter atitude ou tratamento que cause constrangimento, humilhação, vergonha, medo ou exposição indevida relacionada à condição de mulher.
Trecho do PL: Não há trecho do PL sobre isto, uma vez que todas as leis do país estão sob o rigor da Constituição Nacional. Valerá para qualquer indivíduo ou grupo o que está definido como misoginia e como práticas que devem ser enquadradas na lei, conforme as definições nos parágrafos citados acima.
Mentira: “As penas para misoginia são maiores que para homicídio comum”
Verdade: O PL aumenta as penas para o feminicídio (homicídio qualificado) e estabelece penas específicas para a injúria e o crime de ódio misógino, que são significativamente menores que as de homicídio, respeitando a proporcionalidade das penas.
Trecho do PL: Inserção de misoginia no Art. 2º da Lei do Racismo, nº 7716/89, que prevê “reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa”; e no Art. 20 da mesma lei, que prevê “reclusão de um a três anos e multa”. O Art. 3º da Lei da Misoginia institui que “O art. 141 do Decreto-lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal, passa a vigorar com a seguinte redação: ‘Art. 141, parágrafo 3º: Se o crime é cometido contra a mulher no contexto de violência doméstica e familiar, aplica-se a pena em dobro.’”
Mentira: “Esta lei vai causar desemprego para mulheres pois exige equiparação de salário com homens e as empresas não vão querer pagar”
Verdade: Não há qualquer exigência na lei aprovada para que mulheres ganhem mais, mas sim que não haja discriminação em ambiente de trabalho, em especial no que diz respeito a salário. Este é um debate antigo no mundo e há leis em outros países que preveem isto. A Lei do Racismo, à qual a misoginia é equiparada, prevê relações trabalhistas justas, sem discriminações. Se empregadores agem de forma discriminatória nos casos previstos na lei (raça, cor, etnia, religião, procedência nacional e misoginia) devem ser cobrados por lei em sua ação injusta e desumana. O que passa disto é especulação e desinformação.
Trecho do PL: A misoginia se insere no Art. 4º da Lei do Racismo, nº 7716/89, que prevê pena de reclusão de dois a cinco anos a quem, por ódio, aversão ou desprezo a mulheres, “negar ou obstar emprego em empresa privada”; “deixar de conceder os equipamentos necessários a empregadas em igualdade de condições com os demais trabalhadores; “impedir a ascensão funcional das empregadas ou obstar outra forma de benefício profissional; “proporcionar às empregadas tratamento diferenciado no ambiente de trabalho, especialmente quanto ao salário”.
Mentira: “A Lei da Misoginia impede a liberdade de expressão”
Verdade: A lei diz respeito à incitação à violência e à discriminação que nega o direito de existir e de viver plenamente em sociedade. O texto exige comprovação do dolo (intenção) de menosprezar ou discriminar a mulher pela sua condição de gênero em contextos de violência. O termo “condição de mulher” engloba ofensas motivadas pelo fato da vítima ser mulher, protegendo-as de discriminação específica. Como Bereia insiste em suas matérias, liberdade de expressão é liberdade de emitir informações e opiniões, é liberdade de comunicar. Misoginia não é informação e nem opinião, é violência. Liberdade de expressão não é liberdade de ofender, injuriar, propagar ódio e incitar agressões.
Uma das publicações nas redes que chamou a atenção da equipe Bereia foi a da senadora evangélica Damares Alves (Republicanos-DF). No vídeo de reprodução de sua fala em plenário, na votação do Projeto de Lei, publicado no Instagram, a senadora registra a legenda:
“Gente, preciso falar seriamente com vocês. Estão espalhando por aí que eu sou a autora de um projeto de lei sobre misoginia que poderia até proibir um simples “bom dia” às mulheres. ISSO É UMA FAKE NEWS ABSURDA! Esse projeto NÃO É MEU. Pelo contrário, eu sou aquela que está no Senado analisando cada linha desse texto com toda cautela, justamente porque ele me preocupa muito. Sabe por quê? Eu já fui vítima disso! Tentaram me processar por dizer que, na minha fé, o marido deve proteger a sua esposa. Agora, imagine se aprovam um projeto mal escrito? Qualquer um de nós poderá ser perseguido apenas por expressar nossos valores. Não se deixem enganar por quem quer dividir o nosso campo com intrigas. Eu não quero guerra entre homens e mulheres; eu quero famílias fortes e protegidas!”
Imagem: Publicação da senadora Damares Alves (Republicanos-DF) no Instagram em 24 de março de 2026
Bereia atentou ao fato de a senadora, ao invés de classificar como “fake news” que a nova lei proíba um simples ‘bom dia’ às mulheres”, deixa passar esta afirmação falsa e a repete. Damares Alves diz ser “fake news absurda” apenas a prática de “espalharem por aí” que o projeto seja de autoria dela.
Desinformação alimenta grupos de ódio
Um dos vídeos publicados pelo deputado federal evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG) sobre a aprovação da Lei da Misoginia no Senado oferece conteúdo que classifica o projeto como uma “aberração”. Nos 13 minutos gravados, o parlamentar mineiro afirma que trabalhará na Câmara para derrubar a aprovação do Senado. “É um instrumento de lei extremamente subjetivo para silenciar outras pessoas”, disse, oferecendo como exemplo que não se pode mais criticar mulheres, perguntando se “estão na TPM”.
Chama a atenção que o vídeo do deputado tenha sido amplamente repercutido por perfis identificados como “redpills” como na postagem a seguir.
Imagem: Publicação de perfil autoidentificado como “redpill” no Instagram em 28 de março de 2026
O termo redpill ( “pílula vermelha” no inglês) refere-se à articulação digital, majoritariamente de homens jovens, que afirmam ter despertado para a “verdadeira realidade” das dinâmicas sociais e de gênero do tempo presente. Nessa interpretação, os homens são sistematicamente desfavorecidos em favor das mulheres e devem mudar isto.
O termo “redpill” vem do do filme Matrix, no qual o protagonista escolhe tomar uma pílula vermelha que dá acesso à “verdade dolorosa”. O protagonista acorda para o mundo real, descobrindo que a humanidade é escravizada por máquinas.
Os defensores da articulação “redpill” apregoam, então, a “libertação dos homens do domínio das mulheres na sociedade” e a conexão entre eles nas redes digitais como ferramentas de autoaperfeiçoamento e de “consciência real”. Para isto, traçam ações como manifestações nas redes digitais e em outros espaços que desqualificam as mulheres no geral e atacam mulheres de destaque social (indivíduos e grupos).
Porém, analistas destas ações e defensores de direitos associam os redpills à disseminação de discursos de ódio e ao reforço de comportamentos misóginos em fóruns e redes sociais. A gravidade desta situação foi ilustrada na série Adolescência, lançada pela Netflix, em 2025.
O crescimento do assunto nas redes se deu em resposta a casos de estupro e feminicídio de repercussão nacional, segundo a pesquisa. A população está alarmada com a sequência de casos de extrema violência, como o da mulher que foi atropelada e arrastada por uma autopista pelo marido ao volante de um carro, e de assassinatos de companheiras com armas de fogo, por policiais e por CACs (Colecionadores, Atiradores Desportivos e Caçadores) – estes últimos ganhadores de amplo acesso a armamentos durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022).
Além disso, publicações que incitam agressões a mulheres após rejeição de relacionamento viralizaram nos últimos dias e teriam ampliado os debates sobre regulação das plataformas e criação de leis para criminalizar misoginia no país.
Segundo o levantamento Nexus, o discurso crescente nas redes está centrado na urgência de medidas judiciais, exigindo que a misoginia seja tratada como a raiz de uma crise de segurança pública que mata mulheres diariamente. A frase ‘misoginia é crime’ foi pesquisada 725 vezes no Google entre os dias 6 e 13 de fevereiro, segundo dados da plataforma Google Trends.
Referências:
Agência Senado https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/03/24/inclusao-da-misoginia-como-crime-de-preconceito-e-aprovada-e-vai-a-camara Acesso 01 abr 2026
https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/156025 Acesso 01 abr 2026
https://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=10187433&ts=1774375509963&rendition_principal=S&disposition=inline Acesso 01 abr 2026
https://normas.leg.br/?urn=urn:lex:br:federal:decreto.lei:1940-12-07;2848 Acesso 01 abr 2026
https://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=10187433&ts=1774375509963&rendition_principal=S&disposition=inline Acesso 01 abr 2026
https://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=10187433&ts=1774375509963&rendition_principal=S&disposition=inline Acesso 01 abr 2026
Folha
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2026/03/citacoes-sobre-misoginia-aumentam-2575-nas-redes-sociais-em-um-mes.shtml Acesso 01 abr 2026
https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/instagram/ Acesso 01 abr 2026
https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/03/homens-simulam-em-perfis-nas-redes-sociais-agredir-mulheres-que-recusam-namoro.shtml Acesso 01 abr 2026
https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/03/e-hora-de-criminalizarmos-o-discurso-misogino.shtml Acesso 01 abr 2026
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, evangélica licenciada da presidência do Partido Liberal Mulher, provocou uma onda de ataques a jornalistas, após compartilhar nas redes digitais um vídeo com falsas acusações aos profissionais que atuam na cobertura da última internação hospitalar do marido. O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi transferido do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, onde cumpre prisão por tentativa de golpe de Estado desde novembro de 2026, para o Hospital DF Star, em Brasília, para tratar de uma grave pneumonia bacteriana bilateral.
O vídeo, compartilhado por Michelle Bolsonaro e por outros políticos e apoiadores, foi originalmente publicado pela influenciadora digital Cris Mourão, que se apresenta nas redes como “gestora imobiliária, cristã, mãe e esposa”. Na peça, Mourão filmou jornalistas reunidos no aguardo de informações sobre o estado de saúde do ex-mandatário, na área externa do hospital, em 13 de março passado.
A gravação continha a legenda “Jornalistas reunidos desejando a morte de Bolsonaro e comemorando por ser sexta-feira 13”. A acusação foi deliberadamente proferida contra os profissionais que exerciam suas funções sem apresentação de qualquer tipo de conteúdo que confirmasse a alegação.
Imagem: reprodução/Instagram
Com mais de 8 milhões de seguidores no Instagram, Michelle Bolsonaro republicou o conteúdo integralmente em seu perfil na plataforma, em 14 de março passado, sem acrescentar comentários ou contextualizações. O compartilhamento deflagrou uma campanha coordenada de desinformação e ataques contra os profissionais identificados nas imagens captadas pela influenciadora
Ameaças virtuais e ataques presenciais
O resultado foi imediato. Pelo menos três jornalistas registraram Boletins de Ocorrência após sofrerem ameaças de morte, exposição de dados pessoais e ofensas nas redes digitais. Segundo a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), as agressões não se limitaram ao ambiente digital. “Duas repórteres foram reconhecidas na rua e no transporte público e sofreram ataques presenciais”, informou a entidade em nota divulgada em 15 de março..
A Abraji também denunciou que foram produzidas montagens e vídeos por meio de inteligência artificial, “inclusive simulando que uma das profissionais é esfaqueada”. O caso ganhou contornos ainda mais graves quando fotos de filhos e de familiares de jornalistas que foram filmados começaram a circular nas redes como instrumento de intimidação. Um dos profissionais ameaçados chegou a fechar suas contas nas redes sociais para proteger a família.
Entidades denunciam padrão de violência
O deputado federal Mário Frias (PL-SP), autodenominado cristão, também publicou o material em suas redes, expondo os jornalistas com a mesma acusação infundada. A postagem de Frias e Michelle foi posteriormente apagada, mas o conteúdo já havia se espalhado.
A Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF), em nota conjunta, repudiaram o episódio . . “É inadmissível que jornalistas, no pleno exercício de sua atividade profissional, sejam cercados e hostilizados na portaria de uma unidade de saúde”, afirmaram as entidades.
O texto destaca que a “exposição irresponsável resultou no vazamento de informações pessoais dos repórteres, que passaram a receber centenas de mensagens ofensivas e ameaças de morte”. As entidades cobraram proteção imediata da Polícia Militar do Distrito Federal e apuração rigorosa das ameaças pelo Ministério Público.
A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) também se manifestou em nota, afirmando que “causa indignação” o compartilhamento do vídeo por Michelle Bolsonaro. “O episódio remete ao período de 2019 a 2022, em que a violência contra jornalistas foi praticada e estimulada diretamente pelo próprio Bolsonaro, então presidente da República, por meio de diversos episódios de triste memória”, diz trecho da nota.
Cobertura em ano eleitoral
O episódio ganha relevância adicional por ocorrer em ano eleitoral, com o filho do ex-presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com boa colocação nas pesquisas para a sucessão presidencial. Em reforço às condenações ao clima de terror à negação da liberdade de imprensa, o jornalista do Intercept Brasil Paulo Motoryn, que cobriu o caso, relatou ter recebido mais uma de várias ameaças de morte, em 12 de março. A agressão desta vez foi , motivada por reportagem de autoria dele sobre foragidos do 8 de janeiro.
“Se o Brasil entrar em um governo Flávio Bolsonaro, jornalistas precisam entender desde já qual será o clima político do país”, alertou o repórter, que registrou Boletim de Ocorrência e afirmou ter sido forçado a mudar de estado no ano passado devido a ameaças anteriores.
Circula nas mídias sociais uma publicação que destaca denúncias ao Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) relacionadas a desvios nas doações às vítimas das enchentes no estado, em 2024. Segundo o conteúdo publicado entre os dias 2 e 3 de março, enviado por parceiros do Bereia para checagem, as denúncias responsabilizam pastores e igrejas evangélicas como articuladores do desvio. Bereia verificou a veracidade das informações.
Imagem: Publicação no perfil Ploc Social no Instagram, em 04 de março 2026
Com o letreiro “Pastores e igrejas evangélicas são denunciados ao Ministério Público do Rio Grande do Sul por desviarem doações feitas em todo o Brasil para vítimas das enchentes no estado”, a publicação oferece poucas informações sobre o caso. Na legenda, o conteúdo é exposto de maneira genérica: as denúncias teriam sido feitas por dois jornalistas gaúchos em um podcast local, mas não há identificação de nomes, número de processo e nem documentos da denúncia. Bereia não conseguiu localizar estas fontes.
Os principais disseminadores do conteúdo são as contas Ploc Social e Ploc Social Notícias. Bereia entrou em contato em busca de mais informações sobre o caso, mas não obteve retorno até a data de fechamento desta matéria.
Investigações verdadeiras
Existem investigações realizadas pelo MP-RS a respeito do desvio de dinheiro e doações às vítimas das enchentes no estado em 2024. Uma das principais é relativa a doações de roupas com origem nos Estados Unidos, que teriam sido vendidas em brechós. O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaecco) do MP-RS deflagrou a Operação Ascaris, em dezembro de 2025, para investigar o caso.
Segundo o órgão, foram cumpridos oito mandados de busca e apreensão nas cidades de Caxias do Sul, São Marcos e Boa Vista do Sul, além de um bloqueio de contas bancárias, no valor de dois milhões de reais. No entanto, não há qualquer menção ao envolvimento de pastores e igrejas evangélicas no caso.
Para além da investigação do desvio de doações vindas dos EUA, há também diversas outras sobre irregularidades no encaminhamento do que foi destinado a vítimas das enchentes. Ainda em 2024, o MP-RS solicitou auxílio do Exército Brasileiro para entrega de itens doados, diante de denúncias de desvio praticado pela Defesa Civil do município de Eldorado do Sul. Em junho do mesmo ano, outra investigação teve como alvos um secretário municipal e um vereador da cidade de Palmares do Sul, diante do mesmo tipo de prática.
Sobre o perfil que compartilhou o caso
Os perfis Ploc Social e Ploc Notícias são administrados pelo compositor brasileiro independente Ray Cadin. Criados em 2018 e 2024, com 152 mil e 60,9 mil seguidores, respectivamente, os perfis se identificam como propagadores de notícias, vídeos, política, humor e famosos.
Bereia verificou nestes perfis conteúdos alinhados à esquerda que têm como foco críticas ao segmento evangélico. Como já referido, os responsáveis não responderam ao contato do Bereia sobre esta checagem.
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Bereia classifica o conteúdo sobre supostos desvios nas doações às vítimas de enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, por evangélicos, como impreciso, devido à escassez de dados, com distorção de informações verídicas. A publicação circula em meio a notícias sobre investigações do MP-RS em relação a reais desvios nas doações direcionadas ao estado gaúcho. Entretanto, não há qualquer registro que coloque pastores e igrejas evangélicas como investigados, como afirma o perfil Ploc Social, que não apresentou as fontes da informação que divulga, característica recorrente de desinformação.
Conversa com Eddy Jiménez Pérez, professor, jornalista e escritor cubano
Tem circulado notícias falsas por parte da má chamada imprensa independente, que eu chamo dependente, porque depende dos Estados Unidos. Tem circulado muitas notícias sobre Cuba que são falsas. Uma delas é precisamente que já está resolvido o problema de combustível em Cuba, porque vem um barco russo para cá carregado de combustível e que esse barco, o diz essa má chamada imprensa independente, vem escoltado por um bunker de guerra russo. Isso é mentira! Inclusive, foi desmentido oficialmente pela embaixada russa em Havana.
O real? O real é que o presidente da Rússia Vladimir Putin se encontrou com o Ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodriguez Parrila. Putin o recebeu pessoalmente e disse que ia manter a ajuda a Cuba em sua luta pela independência. Não se disse de que forma vai materializar essa ajuda, se é com combustível, com alimento etc. Na realidade, como todo mundo sabe e tu lidas perfeitamente, porque tem estado a par da situação de Cuba, nós estamos submetidos já não só a um bloqueio que dura mais de 60 anos e que tem se intensificado com a atual administração de Donald Trump. Bem, essa intensificação vem desde o primeiro mandato de Donald Trump. Biden em nenhum momento alterou essa regra do jogo imperialista e agora Trump intensifica mais o bloqueio e agrega um bloqueio energético, proibindo aos demais países a venda de combustível a Cuba.
E isso, como é lógico, nos coloca em uma situação muito difícil, dificílima, não só do ponto de vista econômico, mas do ponto de vista social, porque isso afeta a todos os cubanos nas coisas mais elementares: serviços médicos, transporte. Temos um país praticamente paralisado em alguns aspectos, como o transporte. Temos preservado o pouco combustível que há para hospitais, ambulâncias, bombeiros, coisas básicas. E o pouco combustível, que é um petróleo muito ruim que produzimos, pois é rico em enxofre e não se pode refinar, o estamos utilizando para as nossas termelétricas que são muito antigas, estão em péssimas condições pela falta de peças de reposição, de manutenção, produto do bloqueio. Porém, elas nos dão oportunidade de ter energia durante algumas horas do dia em alguns lugares do país.
É uma situação muito difícil, muito difícil sobretudo do ponto de vista da situação que temos. Tu sabes que esse é um povo heróico e tu sabes que estamos resistindo há mais de 60 anos e vamos seguir resistindo, seguir resistindo.
A solidariedade a Cuba nesses momentos é essencial, essencial por muitas razões. Não só pelo que possa contribuir com o nosso povo para evitar mais sofrimento, mais escassez, mais problemas de todo tipo, mas também para que o imperialismo saiba que o mundo está com Cuba e tenha muito cuidado para não iniciar uma invasão. Muito cuidado com uma agressão militar a Cuba a qual resistiremos também e que estamos dispostos a enfrentar.
Porém, não queremos que se derrame sangue por culpa destes criminosos fascistas. É muito importante para nós e creio que para o mundo também que Cuba resista. Eu sempre trato de parafrasear o nosso Jose Marti ao dizer que quem se levanta hoje por Cuba se levanta por todos os tempos, porque nós não estamos resistindo só por Cuba, estamos resistindo por toda América. Estamos resistindo pelo mundo, porque ele deve saber e toda América também que o que acontece hoje com Cuba pode acontecer amanhã com qualquer outro país que tente ser independente, já não socialista, que tente o mínimo de liberdade.
Há alguns governos latino-americanos que não se atrevem a enviar petróleo a Cuba, mas estão dispostos inclusive a enviar alimentos e toda uma série de produtos médicos essenciais para Cuba. Como é o caso do México, em que valentemente a presidenta do país tem enfrentado os Estados Unidos, enviando dois barcos com centenas de toneladas de comida, de produtos médicos etc. E seguirá enviando, pois tem sido muito valente.
No entanto, não se atrevem a enviar combustível, porque temem. Donald Trump já disse que o país que comercialize com Cuba, que lhe envie combustível e que o venda, será sancionado com uma subida nas tarifas de mais de 15% e isso, como é lógico, afetaria a economia dos seus países.
Não fazem um acordo, simplesmente vários países latino-americanos não se unem para enfrentarem os Estados Unidos, bem como a sua ameaça. Ressentem-se. Têm medo, têm medo de uma reação que vá contra a economia dos seus países e, com isso, não veem que quem não enfrentar agora, possivelmente fique sozinho amanhã em um enfrentamento, porque se Cuba perece, se logram destruir a Revolução Cubana, eles se tornariam órfãos amanhã. E seriam órfãos, porque a cada dia teriam menos força para enfrentar os EUA.
Está se aceitando um precedente perigosíssimo no mundo, no caso de Cuba se permite essa agressão e esse bloqueio energético ao país.
Pedes-me que fale sobre o caso do turismo. Aqui há hotéis abertos, está se recebendo turistas, ainda que muitos poucos, mas minimamente se os está recebendo. Os hotéis que os recebem têm usinas de energia e conseguem atendê-los . Há uma grande quantidade de hotéis fechados, mas alguns em funcionamento. O turismo tem baixado por uma questão lógica, se não há combustível aqui, todo o movimento se faz muito difícil e os turistas vêm para viajar, essa é a primeira coisa. A segunda, há muitas linhas aéreas canadenses, sobretudo europeias, que têm deixado de voar a Cuba. Por quê? Porque não têm possibilidade de abastecer aqui para retornar aos seus países.
Porém, há turismo, que é bem atendido. Mas aí está o tema das limitações de movimento aqui e o tema das linhas aéreas, que é o principal, impede que o turismo se mantenha. Não é um problema nosso. Se as linhas aéreas voam aqui e trazem os turistas, eles são recebidos.
*Transcrição e tradução feita por Lujan Maria Bacelar de Miranda, com quem Eddy Jiménez conversou em 23/02/2026
Um vídeo ganhou repercussão nesta semana após o anúncio da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Na gravação que circula nas redes digitais, uma mulher identificada como pastora aparece em lágrimas e afirma que “está difícil ser crente”. O Bereia verificou o conteúdo para apurar sua procedência.
A apuração revelou que o vídeo apresenta diversos indícios de geração por inteligência artificial. Entre os sinais mais evidentes estão distorções no cabelo da personagem e alterações nas marcas de sinalização da rua onde a cena supostamente ocorre.
Durante a checagem do Bereia, o conteúdo já acumulava grande alcance: mais de 3 milhões de visualizações no TikTok e cerca de 200 mil curtidas no Instagram, além de replicações no Facebook e no Kwai. No vídeo, a mulher afirma que profecias negativas feitas contra Lula teriam recaído sobre Bolsonaro, porém, trata-se de um conteúdo criado digitalmente. O compartilhamento espontâneo teve tom crítico, em especial de pessoas de oposição ao chamado “bolsonarismo”, de perfis alinhados à esquerda política e de críticos a fiéis evangélicos.
Imagem: Captura de tela do vídeo. Reprodução: Instagram.
Em algumas publicações no Instagram, o próprio sistema da plataforma já alerta que se trata de material falso, produzido com ferramentas de IA.
Imagem: Captura de tela do alerta do Instagram. Reprodução: Instagram.
Mesmo sem marca d’água ou aviso de uso de inteligência artificial, o vídeo apresenta falhas nítidas que evidenciam a manipulação. As marcas de sinalização no asfalto mudam de formato e de posição, o cabelo da mulher se mistura com os carros ao fundo e, embora ela caminhe pelo meio de uma via movimentada, não há qualquer reação dos motoristas. Esses detalhes mostram que a cena não é real, mas uma criação digital feita para enganar.
O ex-presidente Jair Bolsonaro está preso na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, após decisão do STF, por meio do ministro Alexandre de Moraes, que autorizou a prisão preventiva, em 22 de novembro passado. A medida foi tomada depois da PF apontar risco de fuga e tentativa do ex-presidente de violar a tornozeleira eletrônica. Depois que o julgamento da ação que condenou Bolsonaro e aliados por tentativa de golpe de Estado transitou em julgado, na última segunda-feira, 27 de novembro, a prisão passou a ter caráter definitivo, como cumprimento de pena. Bereia verificou que muita desinformação foi produzida por conta destes eventos.
Bereia chama leitores e leitoras a atentarem para a produção de imagens por inteligência artifical para disseminação de conteúdo falso não apenas para desinformar sobre temas diversos mas também, como neste caso, para confirmar e promover intolerância religiosa contra evangélicos, evidenciada nos comentários de quem ajudou a viralizar o vídeo checado.
A Polícia Militar do estado de São Paulo entrou em uma escola municipal da capital paulista por conta da denúncia de uma atividade proposta em sala de aula sobre cultura afro-brasileira. O caso ocorreu na Escola Municipal de Ensino Infantil (EMEI) Antônio Bento, em 12 de novembro passado, a propósito do mês da Consciência Negra.
No dia anterior, o pai de uma aluna, um policial militar, foi à escola reclamar sobre a atividade que sua filha de 4 anos havia executado em sala de aula, um desenho do orixá Iansã. Na unidade escolar, ele foi acusado por funcionários de danificar o mural com a exposição da atividade com os desenhos dos demais alunos e acusou os funcionários de praticarem “culto religioso” dentro da escola.
A intervenção da PM
A reclamação do pai da estudante aconteceu no último dia 11, e foi seguida pela intervenção da Polícia Militar na unidade, no dia seguinte. Segundo relatos de testemunhas, durante a abordagem, o responsável pela aluna, que é policial, foi visto entre agentes do lado de fora da escola.
Os homens, um deles com uma arma de grosso calibre, disseram que a criança estava sendo obrigada a ter “aula de religião africana”.
Professores e pais de crianças relataram que a atuação dos policiais foi hostil, uma funcionária da escola teria sido prensada contra a parede, com uma arma encostada em seu corpo, durante horário de saída escolar, o que causou medo e revolta entre pais e alunos.
A reclamação do pai, que não teve a identidade divulgada, era que a menina estava tendo ensino sobre uma religião que não é a da família. Relatos ainda registram que os policiais permaneceram na escola por mais de uma hora e foram embora por volta das 17h com o pai da aluna.
Sobre a atividade escolar
Como parte de atividades em torno do mês da Consciência Negra, que valoriza expressões da cultura afro-brasileira, a tarefa era desenhar uma das orixás cultuadas em religiões de matriz africana, com base na leitura do livro “Ciranda de Aruanda”, de Liu Olivina. A obra é parte da bibliografia recomendada pela Prefeitura de São Paulo e trata de mitologia afro-brasileira.
As atividades e a bibliografia representam o cumprimento da Lei n° 10.639, de 2003, que torna obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas. Em 2008 esta lei foi ampliada por uma nova, a de n° 11.645/2008 que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena em todas as escolas de ensino fundamental e médio no Brasil, públicas e privadas. As leis foram aprovadas no Congresso Nacional para que crianças e adolescentes recebam educação sobre as raízes indígenas e negras que formam o país e as valorizem, em busca da superação do racismo e de uma cultura antirracista.
O Ministério Público de São Paulo solicitou acesso às câmeras de segurança da unidade escolar, para identificar o momento em que o pai da estudante teria danificado o mural escolar. O MPSP solicitou também o acesso às câmeras corporais dos policiais do dia em que fizeram a abordagem na EMEI.
O presidente da Comissão Parlamentar em Defesa do Estado Laico, o deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL/RJ), repercutiu o caso em sua conta no Instagram e disse que a Comissão iria acionar o Ministério Público e a Corregedoria da PM.
“Em quantas escolas nós aprendemos sobre mitologia romana, mitologia grega? Daí é formação, quando se fala em cultura africana vão dizer que é doutrinação. O nome disso é racismo, o nome disso é truculência policial, o nome disso é fanatismo religioso tomando conta das forças de segurança pública”, disse o parlamentar.
Organizações como o Coletivo Educação em 1º Lugar e o Sindicato dos professores e funcionários municipais de São Paulo (APROFEM) prestaram solidariedade aos afetados e publicaram notas de repúdio, respectivamente.
“A APROFEM condena toda forma de intimidação e qualquer tentativa de cerceamento da autonomia pedagógica. A segurança física e emocional de Educadores e estudantes não pode ser colocada em risco por motivações pessoais, preconceitos ou desconhecimento das diretrizes legais da Educação Básica.”, disse a APROFEM, em nota.
Após o ocorrido, a diretora da unidade Aline Aparecida Floriano Nogueira pediu licença médica de 30 dias. Ela alega não conseguir voltar ao trabalho por se sentir ameaçada. A educadora disse que passou cerca de 20 minutos sendo questionada pelos agentes armados após a entrada deles na unidade. “Me apresentei como diretora da unidade, perguntei se eram da ronda escolar. Informei que a escola não trabalha com doutrina religiosa. O que fazemos é trabalho centrado a partir do currículo antirracista, documento oficial da rede e apresentamos a cultura afro-brasileira para as crianças”, contou a diretora.
A Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (SME) pediu à Ouvidoria da PMSP apuração sobre a conduta dos policiais. “A SME, por meio do Gabinete Integrado de Proteção Escolar, informa que solicitou esclarecimentos à Ouvidoria da Polícia Militar sobre a ocorrência registrada na Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Antônio Bento. A pasta quer compreender os procedimentos adotados pela corporação”, diz a nota.
Em 25 de novembro, pais, professores, estudantes e representantes de sindicatos realizaram um protesto em frente à escola, com cartazes e mensagens como “Escola não é lugar de polícia”, “Mais amor e mais livros, menos violência” e “Onde houver intolerância, que haja mais educação”. Entre as organizações articuladoras estavam o Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São Paulo (Sinpeem) e o Sindicato dos Trabalhadores nas Unidades de Educação Infantil (Sedin). O ato também teve discursos pela ampliação das redes de resistência antirracistas no país e pela eliminação do machismo dentro das escolas.
Integrante do conselho da escola e mãe de uma das estudantes, Gisele Nery acompanhou todo o episódio de perto. A conselheira relatou que os policiais ameaçaram dar voz de prisão à diretora, que é negra. Naquele instante, os conselheiros, que estavam em uma reunião, escutaram a discussão e saíram em defesa da diretora. “A polícia foi dar voz de prisão a ela. Mas aí todo mundo já tinha visto a cena, as crianças viram”.
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou que a “Polícia Militar instaurou apuração sobre a conduta da equipe que atendeu à ocorrência, inclusive com a análise das imagens das câmeras corporais”. Segundo o órgão, a professora da unidade de ensino registrou boletim de ocorrência contra o pai da estudante “por ameaça”.
“Lamentável. Triste pela criança, e por todas as crianças que passam por isso. Revoltante a atitude desse pai e da polícia. Que arte faça seu caminho de informar, que o Ciranda transforme medo em encanto. Que as crianças de terreiro sejam sim representadas em sala de aula. Não queremos doutrinar ninguém, queremos apenas informar para termos respeito, coisa que nossa religião dificilmente teve na história desse país. Agradeço o apoio de todos! E aos educadores que seguem trabalhando esse tema em sala, parabéns!”, escreveu a autora do livro Liu Olivina, em publicação na sua conta no Instagram.
A editora também se manifestou:
“A Quatro Cantos seguirá publicando livros de autores e ilustradores negros, continuará acreditando num futuro em que o racismo, inclusive o religioso, não faça mais parte de nossa sociedade. Para que isso aconteça, apresentar às crianças livros como o ‘Ciranda em Aruanda’, da incrível @liuolivina , é imprescindível. Estudamos na escola os mais variados povos, estudamos suas geografias, economias, agriculturas e religiões. Nunca ouvimos falar que algum pai tenha se oposto ao estudo da mitologia grega, ou ao estudo do cristianismo ou protestantismo. O preconceito é direcionado para religiões de origem africana, e isso tem nome: RACISMO RELIGIOSO. Por sorte a lei 10.639/2003 segue respaldando escolas e educadores para que essa luta continue. Axé!”, lamentou o perfil oficial da editora publicadora do livro trabalhado na rede municipal paulista.
Pedagoga especialista “Não houve doutrinação; houve cumprimento da lei”
Bereia ouviu a doutora em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juíz de Fora, Andréa Silveira de Souza. Ela é especialista na área de religião, política, educação, fundamentalismo religioso e ensino religioso, e professora da educação básica. Para a professora, o que ocorreu foi uma distorção provocada por desconhecimento, ou por preconceito, sobre o que se ensina na escola pública.
“Não houve culto, não houve ritual, não houve prática religiosa. As crianças apenas desenharam um personagem da mitologia afro-brasileira depois de lerem um livro. Isso é ensino de cultura, não ensino de religião”, afirma.
A pesquisadora explica, ainda, que a escola é obrigada a abordar história e cultura afro-brasileira, o que inclui elementos da religiosidade dos povos africanos. “A professora estava cumprindo a Lei 10.639/2003. O que o pai interpretou como ‘doutrinação’ é, na verdade, parte do currículo. A escola não está formando fiéis; está formando cidadãos capazes de conhecer e respeitar diferentes tradições.”
De acordo com a professora, a presença armada da polícia em uma EMEI foi desproporcional e representa um ataque à autonomia pedagógica e ao ambiente seguro de aprendizagem, além de demonstrar a persistência de preconceitos e intolerância contra religiões e culturas de matriz africana. “É inadmissível que um conflito pedagógico seja tratado como caso de segurança pública. Isso só aconteceu porque o pai é policial. É um exemplo claro de abuso de poder”.
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O episódio na EMEI Antônio Bento, em São Paulo, de fato ocorreu e evidencia o quanto persistem no Brasil percepções equivocadas e preconceituosas acerca da cultura afro-brasileira. Percepções que, quando combinadas com poder institucional e uso de força, geram violência, intimidação e violação de direitos. Ao mesmo tempo, reafirma a importância da lei que obriga o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas, como instrumento de combate ao racismo e de valorização da diversidade.
Além disso, é evidente o abuso de autoridade ocorrido por parte do pai da aluna com respaldo de colegas policiais. É imprescindível que a investigação sobre a conduta policial seja feita com transparência e que haja responsabilização, mas também é urgente que a sociedade reafirme e defenda seus direitos: escolas são território de educação, não de armas; e ensinar sobre a cultura afro-brasileira é ensinar sobre o Brasil — com toda sua diversidade histórica, cultural e religiosa.
Muito conteúdo desinformativo passou a circular com a aproximação do final do processo em que o ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado por vários crimes referentes à tentativa de golpe de Estado em 2022 e 2023. Depois do sábado, 22 de novembro, quando foi emitida a ordem de prisão preventiva de Bolsonaro em regime fechado, as publicações com falsidades e mentiras foram intensificadas.
O conteúdo enganoso que vinculava a prisão à realização de uma vigília cristã foi reforçado por matérias jornalísticas que especulavam sobre os motivos da ordem de prisão, já que o documento emitido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ainda era sigiloso nas primeiras horas.
Imagem: Reprodução de publicação de perfil desinformativo do X, 22/11/2025
Mais tarde, foi tornada pública a ordem de prisão emitida pelo STF, por meio do ministro responsável pelo caso, Alexandre de Moraes, que foi cumprida na manhã do sábado, 22 de novembro. Nela constava como causa o “risco concreto e iminente de fuga” por conta de duas situações vinculadas: a violação da tornozeleira eletrônica, que foi confessada pelo réu, e a convocação de uma vigília religiosa. No entendimento do ministro, a “eventual realização da suposta ‘vigília’ configura altíssimo risco para a efetividade da prisão domiciliar decretada e põe em risco a ordem pública e a efetividade da lei penal”.
O texto também indica que ainda que o objetivo explicitado do evento fosse a saúde de Bolsonaro, “a conduta indica a repetição do modus operandi da organização criminosa liderada pelo referido réu”, com o uso de manifestações para obter “vantagens pessoais” e “causar tumulto”. Tal afirmação relaciona, na ordem de prisão, o ato com a violação da tornozeleira: “constata a intenção do condenado de romper a tornozeleira eletrônica para garantir êxito em sua fuga, facilitada pela confusão causada pela manifestação convocada por seu filho”.
Com o caso da tornozeleira explicitado, novo conteúdo fraudulento passou a circular para se descartar a suspeita de tentativa de fuga que levou à prisão preventiva: o de que Bolsonaro tentou romper o equipamento por ter identificado uma escuta telefônica nele, para espioná-lo.
Bereia verificou como estes conteúdos circularam nas redes digitais a partir de personagens de influência religiosa.
Perseguição a cristãos
Verificações da Agência Lupa apontam que o discurso de “perseguição religiosa” usada por aliados de Bolsonaro após sua prisão está sendo usada de forma estratégica e desinformativa. Embora parte das mensagens tenha surgido em grupos menores, a tese foi impulsionada por políticos. Um dos vídeos que mais repercutiu mostra o deputado federal evangélico Marcel Van Hattem (Novo-RS) ao lado de Flávio Bolsonaro, afirmando que “pela primeira vez, uma pessoa é presa no Brasil por alguém organizar uma vigília”. O senador, por sua vez, diz: “É uma demonstração aí da perseguição religiosa, da intolerância religiosa, que não começou agora”. Até a manhã de domingo, 23 de novembro, o vídeo tinha centenas de milhares de visualizações, sendo compartilhado com textos que o tratavam como prova de que a prisão de Bolsonaro seria “uma afronta à liberdade religiosa”.
Imagem: Reprodução de publicação em perfil de pessoa evangélica no Facebook, em 23/11/12025
Para a pesquisadora e editora-geral do Bereia Magali Cunha esse discurso não se sustenta nos fatos. Em entrevista para Lupa, ela afirmou: “Não existe perseguição aos cristãos no Brasil. Os cristãos são uma grande maioria e têm plena liberdade de culto, de manifestação, de expressão. Podem ocorrer casos, mas são coisas muito pontuais.” A pesquisadora também ponderou que a retórica da “cristofobia” tem sido “instrumentalizada para que se defenda ampla ação sem qualquer limite, legal ou ético. Uma perseguição religiosa perpetrada pelo Estado, isso não existe no Brasil.”
A vigília foi realizada no dia e no horário planejados, agora com novo objetivo – orar pela libertação de Bolsonaro. O ato chamou mais a atenção pela controversa fala de um participante, um evangélico de esquerda, como Bereia checou.
Escuta na tornozeleira
Com a notícia da tentativa de violação da tornozeleira por Jair Bolsonaro, conteúdo para justificar a ação e eximir o ex-presidente da suspeita de fuga, passou a circular em ambientes religiosos. Deputados federais do PL com identidade religiosa, o evangélico Nikolas Ferreira e a católica Bia Kicis publicaram que Bolsonaro teria ouvido um barulho dentro do equipamento e, com a suspeita de que pudesse haver algum dispositivo de escuta secreta dentro dela para vigiá-lo, decidiu mexer nele.
Imagem: Reprodução de publicação no perfil do Instagram de Nikolas Ferreira, em 22/11/2025Imagem: Reprodução de publicação no perfil do Instagram de Bia Kicis, em 23/11/2025
O ex-procurador da República, deputado cassado por irregularidades na campanha eleitoral, Deltan Dallagnol (Novo-PR) também publicou um vídeo, em que, com voz exaltada, credencia a versão da escuta na tornozeleira.
Imagem: Reprodução de publicação no perfil do X de Deltan Dallagnol, em 22/11/2025
“O Bolsonaro estava lá com familiares dele, inclusive que vieram de São Paulo. Eu fico tentando imaginar por que ele teria feito isso (danificado a tornozeleira). Eu acho que pode ter sido ali algum ato de desespero dele, talvez, porque, não sei, eu estou aqui conjecturando, pode ter sentido vergonha perante familiares dele que vieram em São Paulo, os irmãos dele que vieram de São Paulo para cá e viram ele numa situação como essa. E ele se indignou e tentou mexer na tonozeleira”, afirmou o filho de Bolsonaro.
O próprio Jair Bolsonaro mudou sua versão no dia seguinte. Diferentemente do que declarou à agente do sistema penitenciário, conforme vídeo divulgado pela PF, que teria usado o ferro de soldar na tornozeleira por curiosidade, durante a audiência de custódia no STF, realizada no domingo, 23 de novembro, ele informou ter sofrido uma “alucinação”. O ex-presidente declarou que por meio de alucinação entendeu que haveria uma escuta na tornozeleira eletrônica e alegou “certa paranoia”, que o motivou a danificar o equipamento com um ferro de soldar. A ata da audiência registra: “O depoente afirmou que estava com ‘alucinação’ de que tinha alguma escuta na tornozeleira, tentando então abrir a tampa”. Em boletim anexado pela defesa do ex-presidente para explicar a violação da tornozeleira, médicos dizem que o episódio pode ter sido resultado do efeito colateral de remédios que provocam alucinações.
*** Bereia alerta leitores e leitoras sobre o excessivo recurso à desinformação para gerar reações às ações em torno do encerramento do processo de julgamento dos réus da tentativa de golpe de Estado em 2022 e 2023. Nesta matéria estão citados nomes frequentemente checados pelo Bereia em publicações de conteúdo fraudulento criado para captar apoios ou destruir a reputação de opositores em ambientes digitais religiosos.
Como sempre é registrado neste espaço, antes de compartilhar, verifiquem as fontes e as diferentes informações sobre o que está sendo afirmado: pessoas de boa vontade estão sendo usadas como propagadoras de mentiras. O Bereia segue à disposição para contribuir com checagem de conteúdo destas personagens e outros que promovam suspeita.
Circula com muita intensidade pela imprensa e nas mídias sociais um vídeo em que um homem evangélico é agredido fisicamente por participantes da vigília religiosa realizada no sábado, 22 de novembro passado, em protesto contra a prisão, em regime fechado, do ex-presidente Jair Bolsonaro. No mesmo vídeo, ao final, o homem aparece sendo entrevistado por vários veículos da imprensa, quando é autoidentificado como Ismael Lopes, morador de Brasília e integrante da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, a qual representa no Conselho de Participação Social da Presidência da República.
Com a viralização do vídeo nas redes, o Irmão Ismael, como pediu ao Bereia para ser chamado, apesar de ser apresentado como pastor e teólogo pela imprensa, tornou-se um dos nomes mais comentados do país por conta da postura crítica em meio ao ato bolsonarista, que resultou nas agressões. Bereia buscou reunir informações sobre o caso, que ainda terá desdobramentos, uma vez que o religioso registrou um boletim de ocorrência e busca o reconhecimento dos agressores.
A convocação da vigília foi realizada em tom bélico, com a indicação de que seria um primeiro momento de ação. O senador citou a Bíblia e conclamou: “Vem com a gente, vamos lutar. Nesse primeiro momento a gente vai buscar o Senhor dos exércitos. Eu te convido para uma vigília que começa neste sábado”. “Vamos pedir a Deus que aplique a sua justiça […]. E com a sua força, a força do povo, a gente vai reagir e resgatar o Brasil desse cativeiro que ele se encontra hoje”, afirmou Flávio Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro manteve a realização da vigília religiosa para o mesmo dia e horário, agora, após a realização da prisão em regime fechado. O evento reuniu, segundo a imprensa, cerca de cem pessoas no local e foi onde ocorreu a fala do Irmão Ismael e as agressões a ele.
A ação de Ismael Lopes
A presença de Ismael Lopes na vigília religiosa não estava prevista. Em entrevista ao Bereia, o religioso contou que a oportunidade surgiu quando percebeu que um pastor listado na programação não compareceu. “Eu fui (à vigília) com a intenção de gravar um vídeo para as minhas redes sociais. Entretanto, houve uma oportunidade. Parecia que tudo estava organizado para acontecer, pedi ao Flávio para dar uma palavra no lugar do pastor que faltou e ele deixou. Confesso que achei graça quando me deixaram falar e, ao mesmo tempo, fiquei nervoso, obviamente, com a situação”, conta Lopes.
Por volta das 20h10, já com o microfone na mão, Ismael leu Eclesiastes 10:8: “Quem cava uma cova cairá nela.” Em seguida, diante de centenas de apoiadores e ao lado do senador, completou: “Nós temos orado por justiça nesse país, nós temos orado para que aqueles que abrem covas, caiam nelas, não mortos, porque não é isso que a gente deseja, a gente deseja que sejam julgados e condenados pelo mal que fizeram, como o seu pai, que abriu 700 mil covas durante a pandemia, seja julgado pelo devido processo legal, tenha seu direito de defesa, mas que seja condenado e responda pelos crimes que cometeu. Assim, como todos os aliados que compuseram essa horda do mal contra o nosso estado…” Nesse momento foi interrompido. Apoiadores arrancaram o microfone das mãos de Ismael Lopes e o empurraram para fora da aglomeração.
Vídeos mostram pontapés, xingamentos e tentativas de perseguição. Ainda nos arredores da manifestação, Lopes concedeu entrevista a vários veículos de imprensa. Mesmo diante das câmeras, apoiadores do ex-presidente continuaram agredindo verbalmente o religioso. A Polícia Militar interveio com spray de pimenta e precisou escoltá-lo até um carro de aplicativo. Depois, Ismael Lopes seguiu para uma delegacia para registrar a ocorrência.“Eu fiz o BO, fiz o exame de corpo de delito, vai ser anexado ao inquérito, e agora está na fase de identificar os agressores. Fisicamente estou bem, alguns hematomas, alguns arranhões, mas nada grave”, relata.
Ele conta que, durante o discurso, ficou apreensivo com o tempo que durou sem interrupções. “Eu só pensava: ‘Não é possível que ninguém vá me interromper. Quero sair daqui logo’”, disse ao Bereia. Para ele, a reação inicial dos bolsonaristas foi de surpresa, inclusive de Flávio Bolsonaro. “A única reação dele (Flávio) é para tentar impedir que me agredissem. Então eu vou ser justo. Vou agradecê-lo, porque acho que, se não fosse a intervenção dele, provavelmente, eu teria sido bem mais machucado. Eles (os partidários do bolsonarismo) acreditam numa totalidade de evangélicos à direita. Não é verdade”. Ismael Lopes também comentou o medo que sentiu. “Eles trabalham com a dinâmica do medo. E, de fato, eu fiquei com medo. Mas medo a gente tem, só não usa.”
Evangélico desde a infância, o Irmão Ismael afirma que se sentiu provocado pela fala de uma pessoa que o precedeu na vigília, que, segundo ele, distorcia a mensagem bíblica para fins políticos. “Fui porque acredito que a instrumentalização da fé precisa ser confrontada”, afirmou em conversa com jornalistas logo após ser escoltado.
“Acredito que os evangélicos precisam, sim, se manifestar politicamente, porque têm raça, têm classe, têm gênero, têm categoria profissional. Então, os evangélicos têm que participar, se organizar em sindicatos, em partidos, em movimento popular se quiserem, claro. O que sou contra é transformar o culto em ato político partidário”, explica Lopes.
Lopes criticou ainda a suposta perseguição religiosa ao ex-presidente – ideia que circulou nas redes logo que foi noticiada a prisão em regime fechado. Ele disse que sua presença na vigília não se tratou do ato de um cristão “sofrendo perseguição”, mas de uma tentativa de denunciar a instrumentalização da fé cristã. “Eu vim para cá, para acabar com essa instrumentalização da fé cristã que eles fazem.”
Para o evangélico, o discurso de vitimização religiosa desvia a atenção de aspectos concretos do caso, como a violação da tornozeleira eletrônica por Bolsonaro, e transforma críticas legítimas em uma suposta ofensa à fé.
A Frente de Evangélicos se pronuncia
Como Ismael Lopes foi identificado no vídeo viralizado como integrante da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito (FEED), a organização publicou nota nas mídias sociais, em 23 de novembro, pela qual afirma que a ação dele teve “caráter individual e pessoal” e que o ato não havia sido coordenado por ela. O texto é concluído com um registro apoio ao Irmão Ismael e lamento pelas agressões praticadas contra ele.
A nota da FEED, porém, gerou ruídos de comunicação e provocou reações negativas de uma parcela do público. Mesmo com o registro de apoio e lamento pelas agressões sofridas, a ênfase do texto no caráter individual da ação levou a comentários críticos entre seguidores da página no Instagram. Essas pessoas interpretaram que a organização teria “rifado” e “largado a mão” de Lopes.
Diante dessas repercussões, o próprio Irmão Ismael comentou a publicação, em colaboração com a FEED, para superar os ruídos: “Estou de acordo com a nota. A ação não foi coordenada pelo movimento e estou recebendo todo apoio da Frente.”
Para o Bereia, Lopes reforçou o apoio que tem recebido do movimento e acrescentou ter participado da elaboração da nota. “O movimento está me dando todo o suporte necessário, todo o apoio, não só agora, sempre me deu muito suporte, sempre me impulsionou em ações. Foi uma nota sensata e necessária, para marcar um lugar. Eu fiz parte do processo (de elaboração do texto) e acho que era importante destacar que foi uma ação não coordenada do movimento e sim uma ação minha, da pessoa Ismael”, ressalta o carioca que é de tradição batista e, em Brasília, onde mora, frequenta uma igreja independente, mas é membro da Nossa Igreja Brasileira, no Rio de Janeiro.
Ligação com movimentos sociais e o governo federal
Autodenominado “comunista” e “radical de esquerda”, Ismael Lopes integra o Conselho de Participação Social da Presidência, criado pelo governo Lula. Seu nome foi indicado pela FEED, movimento fundado em 2016, durante o impeachment de Dilma Rousseff, que reúne cristãos comprometidos com a defesa da democracia.
A FEED tem mantido interlocução frequente com a primeira-dama Janja Lula da Silva, especialmente em agendas de diálogo com mulheres evangélicas. Antes disso, Ismael Lopes ocupou, de agosto de 2023 a janeiro de 2024, o cargo de coordenador nacional do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo, no Ministério dos Direitos Humanos do governo Lula.
*matéria atualizada às 13:31 para ajuste de título e classificação
Circula nas redes digitais uma série de publicações feitas pelo deputado estadual católico, do Espírito Santo Lucas Polese (PL) contra o coordenador geral do Vicariato para a Ação Social, Política e Ecumênica da Arquidiocese de Vitória, padre Kelder José Brandão Figueira. As postagens, de forte apelo religioso, acusam o sacerdote de “militância ideológica” e de “ensino de ideologia de gênero” e promove um linchamento virtual do religioso. Bereia recebeu o pedido de checagem de um leitor everificou o conteúdo.
O que foi publicado
O deputado Lucas Polese publicou em seu perfil no Instagram, em 20 de outubro passado, um vídeo pelo qual afirmava que enviaria ao Vaticano um suposto abaixo-assinado “com milhares de assinaturas” contra o padre Kelder Brandão.
Imagem: Postagem do deputado em 20 de outubro de 2025. Fonte: Instagram.
Na gravação, o parlamentar declarou já ter feito duas denúncias formais contra o sacerdote, uma à Cúria Metropolitana de Vitória e outra à Embaixada da Santa Sé, em Brasília. Ele prometeu encaminhar nova comunicação à embaixada “em nome dos católicos do Espírito Santo que exigem respeito ao Evangelho e à integridade doutrinária da Igreja”.
Imagem: Captura de tela do suposto abaixo assinado. Fonte: Instagram.
Polese também disponibilizou em sua biografia do Instagram, um documento intitulado “Modelo de denúncia pessoal”, no qual acusa o padre Kelder Brandão de “atos e pregação de doutrina em desconformidade com os dogmas estabelecidos pelo Magistério da Igreja e pelos Papados”. Com o “modelo de denúncia” o deputado estimula que outras pessoas compartilhem das críticas ao padre.
No texto, Polese afirma que o sacerdote “utiliza o altar e a Santa Missa para exercer militância político-partidária e defender ideologia de gênero nas escolas do Espírito Santo”, o que, conforme ele, “contraria a doutrina e causa escândalo aos fiéis”.
Outros ataques
Em 28 de agosto passado, o deputado também publicou em seu perfil no Instagram o vídeo “No tribunal eclesiástico, contra a ideologia de gênero”. Na legenda, escreveu: “Denúncia aberta, na Cúria Metropolitana de Vitória, contra o padre Kelder e os bispos que se posicionaram publicamente a favor do ensino obrigatório de ideologia de gênero para crianças nas escolas do Espírito Santo. Passados 30 dias, sem a instauração de um processo, o direito canônico me garante a oportunidade de peticionar diretamente ao Núncio Apostólico, em Brasília.”
Imagem: Post do deputado em 28 de agosto de 2025. Fonte: Instagram.
Na mesma publicação, o parlamentar também afirmou: “Antes de tentar se impor contra votações democráticas da política, o sacerdote precisa, primeiro, respeitar a doutrina da própria instituição que jurou servir. Ou então, melhor se assumir militante do PSOL, e não padre.”
Cerca de um mês depois, em 1º de outubro, Polese voltou a atacar o religioso, e publicou outro vídeo: “Denunciei o ‘padre’ Kelder ao Vaticano. Mais uma etapa da nossa denúncia contra as heresias de Kelder: desta vez, no Núncio Apostólico, em Brasília, levando ao conhecimento da Embaixada da Santa Sé o caso abominável que ocorre em um Vicariato de Vitória (ES).”
Imagem: Post do deputado em 1 de outubro de 2025. Fonte: Instagram.
Na gravação, o deputado aparece em frente à sede do Núncio Apostólico, em Brasília. E afirma que, “há muitos anos”, o padre Kelder “milita politicamente dentro da Igreja”, utilizando o altar da instituição “para fazer doutrinação ideológica”.
Em nenhum dos materiais o deputado oferece elementos concretos, factuais, que corroborem as acusações de desvios de função.
Quem é o padre que é alvo das acusações
O padre Kelder José Brandão Figueira, de 58 anos, é vigário episcopal e coordenador do Vicariato para a Ação Social, Política e Ecumênica da Arquidiocese de Vitória. Natural de Buenos Aires, o sacerdote é formado em Filosofia e Teologia, além de graduado em Ciências Contábeis e Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
A trajetória do religioso católico é marcada pela defesa da justiça social, da dignidade humana e da preservação do meio ambiente. Em suas falas públicas, o padre costuma enfatizar que a Igreja tem papel essencial no combate à exclusão, à discriminação e às desigualdades.
Imagem: Kelder José Brandão Figueira. Fonte: Arquidiocese de Vitória.
Em 2020, entidades e movimentos sociais publicaram cartas de apoio ao sacerdote em resposta às acusações que ele já sofria na época. A Comissão de Promoção da Dignidade Humana e outras organizações locais destacaram a coerência da trajetória do padre e o compromisso dele com ações em defesa dos empobrecidos. Em manifestação pública, as entidades afirmaram que as reações contra o sacerdote eram “desproporcionais e injustas” e reforçaram a importância da doutrina social da Igreja na participação política responsável.
O Vicariato para Ação Social, Política e Ecumênica foi criado para fortalecer a dimensão social da Arquidiocese de Vitória, orientado pelas diretrizes do Papa Francisco, que unificou diversos organismos de justiça e solidariedade no Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. O Vicariato mantém seis estruturas e desenvolve quatro ações permanentes, como a Campanha Permanente de Combate à Fome e o Programa de Intercâmbio de Jovens.
A atuação pública do padre também inclui produção intelectual. Em agosto deste ano, ele lançou o livro Evangelização nas periferias geográficas e existenciais, obra com 11 capítulos, de 294 páginas. O livro reúne homilias que refletem a realidade das comunidades marginalizadas e propõe diálogo entre fé e vida concreta. A renda da publicação foi destinada à Campanha Contra a Fome e aos trabalhos da Pastoral do Povo de Rua.
A reação da Igreja Católica
As declarações do deputado capixaba provocaram resposta da Arquidiocese de Vitória, que, neste 10 de novembro, divulgou uma Nota Oficial assinada pelo arcebispo Dom Ângelo Mezzari. Sem citar nomes, o documento condena “publicações em redes sociais, inclusive oriundas de agentes que ocupam cargos públicos, que têm deturpado a verdade, difamado pessoas de reconhecida idoneidade e buscado deslegitimar o trabalho da dimensão social e política da Igreja”.
O arcebispo reafirmou o apoio irrestrito ao Vicariato para a Ação Social, Política e Ecumênica e à sua equipe, e destacou que “ataques injustos a este trabalho transcendem opiniões pessoais e configuram afronta direta à missão evangelizadora da Igreja Católica”. Dom Ângelo Mezzari também lembrou que a tradição canônica prevê sanções para “aqueles que ultrajam a Igreja e seus ministros”, além das medidas legais cabíveis na esfera civil e criminal.
A nota, intitulada “Vicariato para a Ação Social, Política e Ecumênica: um sinal de esperança”, ressalta que o organismo eclesial “atua junto às minorias, aos pobres, aos excluídos e aos que se encontram em situação de vulnerabilidade, nas periferias geográficas e existenciais da realidade”. De acordo com o arcebispo, o Vicariato não se pauta por ideologias partidárias e suas ações “são inspiradas pela fé, pela fraternidade e pela dignidade inviolável da vida”.
Imagem: Nota Oficial assinada pelo arcebispo Dom Ângelo Mezzari. Fonte: Whatsapp.
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Bereia classifica as acusações feitas pelo deputado Lucas Polese contra o padre Kelder José Brandão Figueira como falsas. Elas carecem de fundamento e distorcem a natureza do trabalho pastoral desenvolvido pelo sacerdote e pela Arquidiocese de Vitória, atestado oficialmente pelo arcebispo local. A tentativa de associar a atuação social do religioso a uma suposta “militância anticatólica” constitui manipulação e instrumentalização da fé e exemplo de desinformação, que tem sido usada para atacar pautas de ação da Igreja Católica no Espírito Santo.
Bereia chama a atenção de leitores e leitoras sobre lideranças que usam sua capacidade de influir no espaço público para propagar ódio e linchamentos virtuais contra outras, das quais discordam ou desenvolvem desafetos, com uso de falsidades, sem base factual. Tal atitude pode gerar consequências graves para vida de quem se torna alvo deste tipo de abordagem
Escrevo este artigo no contexto da celebração dos seis anos de existência e atuação do Coletivo Bereia – Informação e Checagem de Notícias, projeto de enfrentamento à desinformação sobre religião que circula em ambientes digitais religiosos e laicos. A equipe do Bereia frequentemente compartilha, com muito orgulho, que o projeto nasceu de uma atividade científica. Ele foi criado em 2019 como um dos resultados de pesquisa, realizada pelo Grupo de Estudos sobre Desigualdades na Educação e na Saúde (Gedes), do Instituto NUTES da UFRJ, “Valores e argumentos na assimilação e propagação da desinformação: uma abordagem dialógica”. A iniciativa teve como objetivo investigar como a desinformação circula entre grupos ligados a religiões, pelo WhatsApp e também por outras mídias sociais, com foco no segmento evangélico. O relatório intitulado “Caminhos da Desinformação: evangélicos, fake news e WhatsApp no Brasil”, publicado em 2021, é um importante recurso que ainda não tem paralelos.
Naquele processo, foi observado que as várias agências e projetos de checagem de conteúdo desenvolvem trabalho relevante, de alcance significativo, no entanto não se dedicam a conteúdos específicos do universo religioso ou ao aprofundamento de elementos relacionados.
Bereia surgiu, portanto, fruto da pesquisa do NUTES/UFRJ, como uma iniciativa independente, sem fins lucrativos, pela necessidade de enfrentamento da desinformação, em especial a que circula em espaços digitais de identidade religiosa. Ela é levada adiante por pesquisadoras/es, jornalistas, profissionais de áreas das ciências humanas e sociais e organizações apoiadoras, estimulados e orienados pela defesa do direito humano à comunicação, à informação, à liberdade de expressão e à liberdade religiosa. O projeto segue como o único com esta característica no Brasil e na América Latina.
Desinformação: do que se trata?
Preliminarmente denominados em estudos como “fake news”, os conteúdos que são objeto da checagem e das abordagens informativas vão além da noção de “notícia falsa”. É um processo que envolve a produção e a propagação de discursos em diferentes formatos que também incluem anúncios, denúncias, sátiras concretizadas nos populares memes. Daí a compreensão de que se trata de um fenômeno complexo.
Embora o uso de mentiras para conquistar apoios ou desmoralizar adversários não seja algo inédito na história, o que se torna novo neste tempo é tanto a intensidade da propagação, viabilizada pela era digital, quanto a sofisticação dos conteúdos falsos e enganosos, elaborados de modo a afetar o público. A lógica consiste em produzir temas que despertem emoções e dialoguem com as visões de mundo das pessoas, impulsionando atitudes como o compartilhamento das mensagens (para que viralizem), a rejeição de determinadas personagens e pautas e o apoio a outras.
A disseminação massiva dessas mensagens é favorecida pelas big techs, corporações que controlam plataformas e aplicativos digitais, como Facebook, Instagram, WhatsApp (da Meta), , o Youtube (da Google), o X, o TikTok, entre outros. Nesses ambientes circula ampla variedade de materiais textuais, imagéticos e audiovisuais, que incluem conteúdos não factuais, fabricados com a intenção deliberada de interferir em assuntos de interesse público e gerar ganhos financeiros e/ou políticos.
Estudos realizados fora do Brasil somados ao que foi desenvolvido pelo NUTES/UFRJ mostram que a religião, em especial o Cristianismo, tem sido identificada como um fator de facilitação na circulação da desinformação, bem como campo de alcance preferencial de seus efeitos. Estas abordagens apontam grupos cristãos como atores relevantes nas vitórias eleitorais de Donald Trump, nos Estados Unidos (2016), e de Jair Bolsonaro, no Brasil (2018), tendo participado ativamente da difusão de conteúdos fraudulentos que mobilizaram afetos e sustentaram as campanhas desses candidatos.
Esses processos tornaram-se paradigmáticos. As eleições brasileiras nos municípios, em 2020 e 2024, assim como as estaduais e nacionais de 2022, mantiveram a mesma dinâmica. E mais: no caso do Brasil, a desinformação se tornou política de Estado com o governo Bolsonaro, sendo o segmento cristão alvo privilegiado das produções do chamado Gabinete do Ódio.
Outros estudos revelam como a população cristã foi impactada pela pandemia de covid-19 em virtude da intensa circulação de conteúdos desinformativos negacionistas sobre as medidas sanitárias e a vacinação nos ambientes digitais religiosos.
A equipe do Bereia com base na pesquisa que forjou o projeto, construiu o conceito de desinformação com o qual trabalha e o oferece como contribuição aos estudos: Conteúdo deliberadamente criado (falso ou manipulado/enganoso) para convencer, captar apoios, confundir (desviar a atenção, dividir), destruir reputações, com a finalidade de se obterem ganhos econômico-financeiros e/ou políticos (defesa de pautas e/ou campanhas eleitorais) para interferência em temas e situações de interesse público.
Com este conceito está a comprensão de que o uso da mentira é um recurso persuasivo antigo na história humana, assim como a circulação de informações equivocadas por erro ou imprecisão não intencional. Contudo, o que distingue o contexto atual é o fato da fabricação e propagação das mensagens ser digital, com alcance amplificado por um vasto ecossistema comunicacional.
Esse ecossistema combina humanos e máquinas (interlocutores reais e perfis forjados, entre eles pessoas fictícias e bots) e opera por meio de conteúdos variados, disseminados de forma segmentada conforme motivações, valores e imaginários de distintos públicos, com a exploração de diferentes formatos e canais. As plataformas das big techs são os principais veículos dessa circulação intensa que é viabilizada por uma verdadeira indústria de conteúdo fraudulento composta por profissionais de várias áreas e financiadores interessados.
A Psicologia Social explica a ampla adesão à desinformação pelas chaves da emoção e da cognição. Mesmo após reconhecerem a falsidade de uma mensagem, muitas pessoas não a descartam, pois ela atua na confirmação de suas crenças, opiniões e modos de ver o mundo, oferecendo-lhes coerência ou conforto.
Pesquisadores associam essa atitude ao “viés de confirmação”: a tendência de validar informações que reforçam convicções prévias, sem verificação. Nesse sentido, a disseminação de falsidades ocorre entre diferentes gêneros, classes sociais, idades, grupos religiosos e ideológicos. Entretanto, pesquisas indicam que há grupos mais propensos à assimalação e à propagação, caso dos ideologicamente conservadores e dos religiosos cristãos.
Desinformação entre cristãos
As pesquisas que apontam que cristãos tendem a absorver e difundir mais intensamente conteúdo fraudulento demonstram que isto se dá não apenas por coerência com suas crenças, mas também pelo sentimento de pertença e de confiança nos ambientes religiosos nos quais estão inseridos. Soma-se a isso o “espírito missionário” para o qual são doutrinados, ou seja, a motivação de compartilhar o que entendem como “verdade revelada”. Este movimento adquire contornos de uma “evangelização” digital, uma forma de difundir mensagens para converter outros à mesma noção. Pessoas de fé cristã são, ainda, alvos preferenciais de discursos alarmistas estruturados no pânico moral e na retórica do medo, que geram alimentam imaginários em torno de inimigos, promovem insegurança e reações defensivas.
A pesquisa do NUTES/UFRJ que gestou o Bereia, voltada ao contexto brasileiro pós-2018, evidencia também que a desinformação circula com facilidade entre religiosos não apenas por alinhar-se a valores e crenças, mas também por fatores ligados à prática da fé. O uso intenso das mídias sociais, em especial dos grupos WhatsApp das comunidades de fé, como extensão da vivência religiosa se configura “um novo ir à igreja”, especialmente entre evangélicos, reforça laços comunitários e a percepção de líderes e irmãos como fontes confiáveis de informação.
Entre os conteúdos verificados pelo Bereia nos seis anos de atuação, são pelo menos três os principais blocos temáticos explorados para mobilizar o apoio de religiosos para pautas na cena pública. Questões ligadas à moralidade sexual, com ênfase sobre infância, adolescência e educação, são centrais. Propagam-se denúncias de doutrinação marxista em escolas e universidades promovidas por governos de esquerda e de erotização de crianças e adolescentes, acompanhadas de forte resistência à educação sexual nas instituições de ensino. O movimento Escola sem Partido e a retórica da chamada “ideologia de gênero”, amplamente disseminada por católicos e evangélicos, alimentam esse processo.
Outro tema de forte apelo é a “cristofobia”, noção construída sobre a ideia de uma suposta perseguição aos cristãos no Brasil, inspirada em presumidos casos internacionais, e associada ao discurso sobre possível ameaça de silenciamento ao grupo religioso e de fechamento de templos por parte de governantes alinhados às esquerdas. Esse conteúdo é frequentemente utilizado por políticos e lideranças religiosas quando criticados por suas posições públicas sobre direitos relativos à sexualidade, à reprodução e a grupos tradicionais.
Além desses temas que acionam crenças e moralidades religiosas, a desinformação entre cristãos também se manifesta em estratégias extremistas de ataque ao sistema eleitoral e ao voto eletrônico. Iniciados em 2018, esses discursos se intensificaram em 2020 e tornaram-se ostensivos em 2022, chegando ao clímax nos ataques às sedes dos Três Poderes da República, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, encontrando ampla repercussão em espaços digitais religiosos. Este conteúdo ainda permanece em circulação, junto com outros como oposição ao atual governo federal, em especial no que diz respeito à economia, à saúde e ao meio ambiente.
Um campo aberto a novos estudos
Nestes anos em que a desinformação se tornou tema de debate público e objeto de pesquisas acadêmicas, ela não só é um processo consolidado que é parte da vida dos milhões de pessoas conectadas nos espaços digitais, como se tornou estratégia política dentro e fora de períodos eleitorais. Com conteúdo fraudulento se faz política para captação de apoios do público com apelo ao pânico e ao sentimento de insegurança, e com destruição de reputações na conformação de inimigos. A ampla assimilação de grupos religiosos ao conteúdo em circulação, com produções destinadas especialmente a eles, é constatada não apenas nas pesquisas de voto, mas também em situações como a queda na cobertura vacinal no país, fruto do negacionismo que encontra terreno fértil entre grupos religiosos.
Iniciativas de enfrentamento deste quadro são articuladas, entre elas o Bereia e outros projetos, entre coletivos e grupos de pesquisa de universidades, reunidos na Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD). Também estão neste grupo as atividades de agências de checagem e as medidas de instituições do Estado, como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que passou a incorporar regras específicas sobre propaganda e fake news na legislação eleitoral.
Porém, em um cenário no qual a desinformação se consolida como estratégia para ganhos políticos e econômicos, agora agravado pelo uso da inteligência artificial, se intensifica o desafio de atentar para a instrumentalização da religião como meio de influência sobre temas de interesse público. Muitas abordagens são observadas sobre desinformação, porém poucas ainda que tratem da relação com as religiões. Neste contexto, novos estudos e pesquisas na interface comunicação, religiões e política se colocam como demanda emergente e urgente.
Estudos-Base
BRONSTEIN, Michel et al. Belief in fake news is associated with delusionality, dogmatism, religious fundamentalism and reduced analitic thinking. Journal of Applied Research in Memory and Cognition, 8, p. 108-117, 2019. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2211368118301050
CUNHA, Magali N. Fundamentalismos, crise da democracia e ameaça aos direitos humanos na América do Sul: tendências e desafios para a ação. Salvador: Koinonia, 2020. Disponível em: < https://kn.org.br/wp-content/uploads/2020/10/FundamentalismosPT-1.pdf>.
DIAMOND, Patrick, NEDERGAARD, Peter, ROSAMON, Ben. The Routledge Handbook of the Politics of Brexit. Abingdon, New York: Routledge. 2018.
FONSECA, Alexandre Brasil, DIAS, Juliana (coords.). Caminhos da desinformação: evangélicos, fake news e WhatsApp no Brasil. Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro/Instituto Nutes de Educação em Ciências e Saúde, 2021. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1xl-5aqKfXmYeSPctboBoNqFzj_21yRHO/view
MISKOLCI, Raphael. Pânicos morais e controle social – reflexões sobre o casamento gay. Cadernos Pagu, n. 28, p. 101-128, 2007. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/cpa/n28/06.pdf
Como tratado na reportagem do Bereia sobre o perfil de Michelle Bolsonaro e a consolidação de sua trajetória na política, o Projeto Alicerça Brasil, lançado pela ala feminina do Partido Liberal, o PL Mulher, mistura devoção, nacionalismo e instruções políticas em reuniões domiciliares. Sob o comando da ex-primeira-dama, o partido constrói uma rede de mulheres “Alicerçadas” para atuar na cruzada político-religiosa contra supostos inimigos da Nação. A partir da reportagem, Bereia apresenta uma análise sobre a estrutura do discurso de Michelle Bolsonaro, baseada na fé, no medo e na desinformação como estratégia de mobilização.
Nas redes e nos eventos do PL Mulher, o discurso religioso não é apenas linguagem, é uma estrutura de mobilização. A retórica usada por Michelle Bolsonaro e replicada nos materiais do Projeto Alicerça Brasil apresenta a política como campo de batalha espiritual, onde as forças do bem e do mal disputam o destino do país.
Nos discursos da ex-primeira dama, “Deus” representa a ordem e a moral; “o inimigo”, frequentemente descrito como o feminismo, o marxismo cultural ou a ideologia de gênero, simboliza a corrupção da alma nacional.
Esta estrutura discursiva se apoia em três eixos centrais: o medo da decadência moral, a promessa de restauração divina e a denúncia de um inimigo invisível. Os vídeos, cursos e postagens reproduzem expressões como “as mulheres de Deus precisam se levantar”, “não deixem o mal entrar nas escolas” e “a família é o último bastião contra a ideologia”, frases que transformam o engajamento religioso em dever político e espiritual.
O que Michelle Bolsonaro diz reforça a noção de que o Brasil estaria sob ataque moral. Problemas sociais complexos, da violência urbana à inflação, são reinterpretados como sintomas de uma crise espiritual causada pela perda dos “valores cristãos”. A retórica simplifica a realidade e aciona um sentimento de urgência: é preciso agir antes que “Deus seja banido da nação”. Essa estrutura é típica do que estudiosos chamam de pânico moral, quando um grupo é retratado como ameaça aos fundamentos da sociedade.
Desinformação como ferramenta de fé
Assim como influenciadoras antifeministas, Michelle Bolsonaro e o PL Mulher reproduzem conteúdos com dados imprecisos e distorcidos, especialmente sobre gênero, sexualidade e educação. Nas palestras e publicações, temas como educação sexual nas escolas, uso de linguagem neutra e direitos reprodutivos são apresentados como “estratégias ideológicas” para corromper crianças e destruir famílias.
Esses discursos ecoam campanhas já desmentidas por veículos de checagem, como o próprio Bereia, mas persistem justamente por se apresentarem em tom devocional, travestidas de “alertas espirituais”.
Ao envolver política e desinformação em linguagem religiosa, o PL Mulher cria uma blindagem simbólica: discordar do discurso é “atacar a fé”. Isso impede o debate racional e fortalece a adesão emocional das seguidoras, que se percebem não como militantes, mas como missionárias de uma causa divina. A retórica da “guerra espiritual” funciona, assim, como uma engrenagem de desinformação, porque transforma fatos em símbolos e convicções em verdades absolutas.
A fusão entre religiosidade e pânico moral não é acidental: ela constitui o método político da extrema direita cristã. Ao transformar medo e fé em motores de mobilização, o discurso de Michelle Bolsonaro reativa antigas narrativas de salvação nacional, agora em versão digital.
Se antes as marchas produziam orações nas ruas “com Deus pela liberdade”, hoje os grupos de WhatsApp e as reuniões do Alicerça entoam o mesmo mantra — fé como arma, mulher como missionária e política como cruzada.
“Edificando a Nação: Alicerçadas!”
A fórmula transforma um gesto devocional em ato performático de identidade política, conectando fé e nação — um elemento típico da retórica da direita cristã contemporânea, em que o patriotismo assume tom religioso.
Imagem: Partido Liberal (PL Mulher)
O grito “Edificando a Nação: Alicerçadas!” é usado como método agregador para gerar pertencimento coletivo, reforçando a importância do ativismo político através da fé.
Esse tipo de ritual e linguagem programada não é inédito. Cartilhas semelhantes têm sido utilizadas há décadas em movimentos religiosos e políticos de orientação conservadora, no Brasil e fora dele.
Nos Estados Unidos, por exemplo, grupos ligados à direita cristã como o Moms for Liberty e a Focus on the Family adotam roteiros de reuniões quase idênticos: leitura bíblica, “grito de unidade” e tarefas políticas, voltadas à ocupação de conselhos escolares e legislativos locais.
As organizações femininas conservadoras que emergiram nos anos 1960, como a União Cívica Feminina (UCF) e a Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE), não foram fenômenos isolados, mas parte de uma rede nacional de entidades cívico-religiosas que se apresentavam como movimentos de “mães, esposas e donas de casa” em defesa da moral cristã e da família brasileira.
Fonte: Arquivo Nacional (Liga da Mulher Democrática (LIMDE) – Declaração de princípios)
O Movimento de Arregimentação Feminina (MAF) foi fundado na cidade de Santos (SP) em 1954. A União Cívica Feminina de São Paulo (UCF/SP) surgiu em 1962, reunindo mulheres da elite católica paulista em torno de reuniões domésticas, cursos e palestras. Pouco depois, surgiram a Liga da Mulher Democrática (LIMDE) em Belo Horizonte, a Cruzada Democrática Feminina (CDF) no Recife e a Ação Democrática Feminina Gaúcha (ADFG) em Porto Alegre — todas inspiradas e conectadas pela mesma retórica: defender Deus, a família e a liberdade contra a ameaça comunista.
Fonte: Acervo O Globo 24/03/1965
A “Declaração de Princípios” da Liga da Mulher Democrata (LIMDE), publicada em 1962, poderia facilmente ser comparada tendo em perspectiva o documento contemporâneo do PL Mulher. Sob o tom solene de defesa da fé e da moral, o texto de 60 anos atrás já trazia todos os elementos que hoje compõem a retórica da “guerra cultural” conduzida por Michelle Bolsonaro e suas seguidoras.
Assim como o manual Edificando a Nação: sobre bases e valores, divulgado pelo PL Mulher em 2024, a LIMDE apresentava-se como um movimento “não partidário”, mas com nítido projeto político-ideológico. Ambas as publicações afirmam agir em defesa da “liberdade” e da “pátria cristã”, enquanto associam o inimigo a forças externas e desumanizantes — antes o marxismo, hoje a “ideologia de gênero” e o “globalismo”. Nos dois casos, o apelo à religiosidade serve como eixo moralizador e unificador de mulheres “de bem”, transformando-as em soldadas da fé convocadas a “salvar o Brasil”.
A continuidade também aparece na concepção de gênero: tanto a LIMDE quanto o PL Mulher descrevem a mulher como guardadora da ordem e da virtude, destinada a “edificar a nação” a partir do lar, não das urnas. A “diferença natural entre os sexos”, segundo a LIMDE, justifica o afastamento da mulher da política. No contexto de atuação do PL Mulher, a missão da mulher surge sob a linguagem do empreendedorismo materno e do propósito divino feminino, uma versão modernizada da submissão.
Todo esse aparato discursivo parece enfatizar um tipo de autoajuda moral e econômica, objetiva conter o avanço do feminismo e manter o ideal da mulher piedosa, produtiva e obediente.
Como demonstra a historiadora Janaína Martins Cordeiro (2008), essas entidades “investiam-se de forte retórica conservadora e anticomunista com o objetivo de alertar a opinião pública para a pressão que as famílias brasileiras estavam sofrendo e, ao mesmo tempo, revigorar princípios e ideais sempre defendidos no Brasil cristão e democrático”, promovendo uma narrativa de que o país corria risco de degradação moral sob o governo João Goulart.
Esses grupos não se limitavam à oração. De acordo com Cordeiro, a CAMDE operava em duas frentes: uma de “esclarecimento do meio feminino”, por meio de cursos e palestras moralizantes; e outra de “movimento da opinião pública”, responsável por mobilizações, protestos e campanhas de pressão sobre o Congresso Nacional, enviando cartas, telegramas e organizando passeatas.
Fonte: Acervo O Globo – Edição de 12/07/1962 Capa – Primeira reunião pública da Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE)
Embora a Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE) tenha nascido no bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro, articulada por senhoras da elite católica carioca, a primeira cobertura do movimento, publicada por O Globo em 12 de julho de 1962, traz um elemento que merece atenção: entre as fotos do auditório lotado, aparecem mulheres negras em posição de destaque.
O texto não faz referência a elas, e apresenta apenas a legenda genérica “mães de família reunidas no auditório de O Globo”, mas a imagem cumpre um papel simbólico poderoso. Ao incluir mulheres negras na cena, o jornal constrói a aparência de um movimento nacional, inclusivo e popular, apagando o recorte de classe e raça que marcava aquelas mobilizações.
Era uma estratégia visual de legitimação: apresentar a luta “anticomunista” como uma causa de todas as mulheres, não apenas das elites.
Em paralelo, em suas campanhas atuais o PL Mulher, que também recorre a imagens de diversidade racial e social em materiais de divulgação, ainda que as lideranças – influenciadoras, deputadas, senadoras e líderes religiosas – estejam concentradas em figuras brancas, conservadoras e de elite.
Fonte: Site PL
Em ambos os casos, a representação da mulher negra serve como sinal de autenticidade nacional e moralidade popular, mesmo sem acesso real ao protagonismo político.
Fonte: Acervo O Globo – Edição de 12/07/1962 p.2 – Primeira reunião pública da Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE)
Em 1964, a Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE) publicou um manifesto à nação enaltecendo sua participação no golpe militar.
“A Revolução Brasileira de 31 de março de 1964 foi a primeira grande derrota do comunismo internacional, que colocou o Brasil na vanguarda do mundo livre. Mas liberdade traz responsabilidade. À CAMDE, que trabalhou durante os dois anos que antecederam a Revolução, vem hoje reafirmar a sua confiança no Governo do Marechal Humberto de Alencar Castello Branco.”
Fonte: Acervo O Globo – Edição de 11/07/1964 p.2 – Manifesto à Nação
A força do discurso maternal e a estrutura em rede ontem e hoje
Como mostra Janaína Cordeiro, embora as lideranças da Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE) pertencessem às elites da Zona Sul carioca, o alcance de seu discurso foi muito mais amplo.
Apresentando-se como “mães” e “mulheres brasileiras”, essas ativistas mobilizavam emoções e tradições religiosas compartilhadas por diferentes classes sociais, unindo-as pelo medo de que “o comunismo destruísse a família, a pátria e a Igreja”. O tom devocional e patriótico funcionava como ferramenta de unificação moral e política, uma forma precoce de “guerra cultural” em linguagem feminina.
Fonte: Jornal Info Cruzeiro
O movimento se organizou em núcleos locais, que surgiram em bairros do Rio de Janeiro como Ipanema, Méier, Tijuca, Ilha do Governador e Rocinha, e se espalharam por outras cidades e estados, incluindo Niterói, Petrópolis, Florianópolis e Minas Gerais.
Essa estrutura em rede, descentralizada e capilarizada, foi essencial para a rápida disseminação do discurso conservador entre mulheres de diferentes perfis, muito antes das redes sociais digitais.
O modelo lembra o formato atual das “células de 12 mulheres” do Projeto Alicerça Brasil, que também se baseia em encontros locais, leitura de textos ideológicos e tarefas de mobilização comunitária. Em ambos os casos, o que se vê é o uso da religiosidade e do papel social da mulher como instrumento político de formação de base, com a diferença de que, hoje, o púlpito se transfere para o Instagram e o grupo de WhatsApp.
Historicamente, esse modelo, que unia formação moral, ativismo político e retórica religiosa, antecipa a estrutura atual do Projeto Alicerça Brasil, coordenado por Michelle Bolsonaro no âmbito do PL Mulher. Assim como as ligas cívicas dos anos 1960, o projeto combina encontros domésticos, manuais de ação e discursos de salvação nacional.
Se antes as lideranças católicas convocavam mulheres a “defender a família contra o comunismo”, agora o chamado é para “proteger o lar contra a ideologia de gênero” e “restaurar os valores cristãos da nação”. A tecnologia mudou – das cartas e telegramas aos grupos de WhatsApp –, mas a lógica permanece: mobilizar mulheres em nome da fé para sustentar um projeto político conservador.
Edificando a Nação: o manual da cruzada moral do bolsonarismo feminino
Disponibilizado no site oficial do PL Mulher, o livro Edificando a Nação Sobre Bases e Valores apresenta-se como um guia de formação cívica e espiritual, mas funciona, na prática, como um manual do pensamento bolsonarista contemporâneo.
Imagem: Partido Liberal (PL Mulher)
O texto mistura devoção religiosa, anticomunismo, moralismo econômico e exaltação patriótica para formar o que chama de “geração do enfrentamento”. É a cartilha ideológica do projeto político liderado por Michelle Bolsonaro, que aparece nas páginas como a mulher escolhida para “conduzir outras mulheres a liderar com coragem”.
Logo na introdução, o livro convoca as leitoras a “edificar a nação sobre as bases de Deus, Pátria, Família e Liberdade”. O discurso funde religião e política –“o Brasil é uma nação consagrada a Deus” – e apresenta o empreendedorismo como forma de expressão da fé: prosperar seria prova de obediência aos princípios divinos.
A pobreza, por outro lado, é tratada como falha moral ou mental, não como resultado de estruturas sociais.Em um dos trechos mais reveladores, o texto afirma:
“Em 1820, 95% da população mundial era pobre e 85% muitíssimo pobre. 195 anos depois, menos de 10% encontra-se em situação similar.”
A passagem, apresentada sem fonte, repete uma narrativa popularizada por economistas liberais segundo a qual o capitalismo seria responsável por erradicar a pobreza global.
Na prática, trata-se de um dado distorcido e anacrônico, afinal não existiam medições globais de pobreza em 1820, e os estudos usados para sustentar o número são projeções estatísticas de renda per capita, não de condições reais de vida. O argumento, portanto, serve a uma função ideológica: atribuir à fé e ao livre mercado o papel de redentores da humanidade, apagando as contradições do sistema econômico e a desigualdade crescente.
Ciência reinterpretada como moral
O livro também recorre a uma espécie de neuroteologia do sucesso. Citando a autora Caroline Leaf, o texto afirma que “75% a 98% das doenças têm origem na mente” e conclui que “a prosperidade de uma nação também nasce da mente de seu povo”. A mensagem é clara: se uma pessoa ou país fracassa, é porque “pensa errado”. Esta apropriação pseudocientífica transfere a responsabilidade social e coletiva para o indivíduo, substituindo políticas públicas por “mudança de mentalidade”. É a tradução religiosa da cartilha neoliberal, o coaching da fé.
Anticomunismo e pânico moral
Entre os temas mais recorrentes estão o anticomunismo e o antiesquerdismo moral. A esquerda é descrita como uma “estratégia milenar para aprisionar o povo e abolir a propriedade privada”, e as políticas de redistribuição ou reforma agrária são equiparadas à “negação da liberdade”.
Imagem: Congresso em Foco
Trechos dedicados à questão fundiária afirmam que governos petistas “tomaram terras” e “mitigaram o direito de propriedade”, enquanto o governo Bolsonaro teria “restaurado a verdadeira liberdade no campo”. O tom usado se assemelha às convocações de guerras históricas, só que operacionalizada pela linguagem evangélica: comunismo é pecado, capitalismo é salvação.
O manual também insiste na retórica do pânico moral: alerta para “ideologias que ameaçam a família e a infância” e convoca as mulheres a “defender os valores cristãos nas escolas, nos conselhos e na política”. As leitoras são instruídas a “ocupar espaços”, “rejeitar narrativas” e “agir em nome da verdade” — expressões que se repetem como mandamentos militantes.
No fim, o tom pastoral dá lugar ao convocatório: “É hora de agir. É hora de reconstruir o Brasil com as próprias mãos.”
Michelle Bolsonaro como símbolo
Michelle é apresentada como “líder feminina com propósito” e “exemplo de fé em ação”. A ela é atribuído o papel de arquétipo moral: a mulher submissa, mas influente; piedosa, mas estratégica; a “mãe espiritual da nação”. Esse modelo dialoga diretamente com o discurso das influenciadoras antifeministas cristãs, que também pregam a ideia de que o verdadeiro empoderamento está na submissão e no retorno ao lar. A diferença é que, aqui, a devoção se transforma em instrumento de mobilização partidária.
Uma catequese política
O tom do livro oscila entre sermão, palestra motivacional e panfleto político. Em vez de análise, há slogans. Em vez de debate, certezas. A “verdade” é apresentada como algo revelado, e não discutido: um dom divino que se opõe às “mentiras da esquerda” e à “censura da mídia”.
Até mesmo o conceito de democracia é redefinido: segundo o capítulo assinado pelo jornalista Alexandre Garcia, “democracia é a voz livre do povo amplificada pelas redes sociais”. A regulação de plataformas digitais, por outro lado, é descrita como “censura travestida de justiça”.
O resultado é uma obra que combina fé, patriotismo e ressentimento social, o que pode ser classificado como uma catequese da direita cristã. Cada argumento cumpre uma função: o moralismo mobiliza, o anticomunismo une, o empreendedorismo promete recompensa, e a religião dá legitimidade espiritual à política.
Edificando a Nação sobre Bases e Valores não é um livro de formação cívica, mas um manual de mobilização ideológica.Seu objetivo é moldar uma identidade coletiva feminina dentro do bolsonarismo, oferecendo às mulheres uma missão divina e política: “restaurar o Brasil” por meio da fé e da obediência.
A estratégia é clara: transformar a devoção em capital político, a fé em ferramenta de engajamento e o medo em método de governo. No Brasil de Michelle Bolsonaro, a oração se tornou ato político e o púlpito, palanque.
*Matéria atualizada 12/12/2025 para correção de texto.
Circulam nas redes digitais informações enganosas sobre o Decreto nº 12.686/2025, publicado em 21 de outubro de 2025, pelo governo federal, que institui a Política e a Rede Nacional de Educação Especial Inclusiva. A política pretende garantir o acesso e o direito à educação a estudantes com deficiência, transtorno do espectro autista (TEA) e altas habilidades ou superdotação, sem discriminação e com base na igualdade de oportunidades.
Entretanto, publicações nas redes afirmam que o decreto prejudica pessoas que necessitam de atendimento especializado e que enfraquece ou extingue escolas voltadas ao público com deficiência. O Bereia checou o caso e verificou a veracidade dessas alegações.
O que diz o decreto do governo?
O Decreto nº 12.686/2025 estabelece que a educação especial deve estar presente em todas as etapas e modalidades de ensino, para garantir recursos e serviços de apoio que complementem o aprendizado dos estudantes com deficiência, TEA e altas habilidades.
O decreto reforça a cooperação entre União, estados e municípios e determina que o Atendimento Educacional Especializado (AEE) funcione como atividade complementar à escolarização, preferencialmente nas escolas comuns. A matrícula no AEE não substitui a matrícula regular, e o atendimento também pode ocorrer, de forma complementar, em centros especializados públicos ou conveniados.
O texto cria o Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE), documento individual que orienta o trabalho pedagógico, os recursos de acessibilidade e as ações de apoio ao estudante.
A política define ainda regras para formação de professores e profissionais de apoio escolar, que devem ter qualificação específica em educação inclusiva.
A Rede Nacional de Educação Especial Inclusiva reunirá União, estados e municípios para ampliar a formação de profissionais, fortalecer serviços de apoio técnico, desenvolver materiais acessíveis e monitorar as ações de inclusão.
O apoio financeiro federal será realizado por meio de programas como o Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE) e o Plano de Ações Articuladas (PAR), além de bolsas e recursos para implementação da rede. A governança da política contará com uma estrutura nacional de coordenação e participação social, acompanhada pelo MEC e outros ministérios.
Conteúdo de oposição nas redes
A publicação do decreto gerou ampla repercussão nas redes digitais, especialmente entre parlamentares e lideranças religiosas.
A deputada estadual do Paraná Flávia Francischini (União Brasil), que se identifica como evangélica, afirmou em seu perfil no X que o novo decreto “tira das famílias o direito de escolher onde seus filhos com deficiência ou autismo vão estudar”.
Imagem: Post da deputada em 22 de outubro de 2025. Reprodução: X
O deputado federal Messias Donato (Republicanos-ES), também evangélico, publicou um vídeo e classificou a medida como “descabida e injusta”, e afirmou que o decreto ameaça o trabalho das instituições que prestam atendimento educacional especializado.
Imagem: Post do deputado em 25 de outubro de 2025. Reprodução: X
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) também se manifestou em vídeo no X, onde cita que, “na prática, o decreto elimina a liberdade de escolha das famílias e enfraquece instituições que há décadas cuidam com excelência de quem mais precisa”.
Imagem: Post do deputado em 29 de outubro de 2025. Reprodução: X
Além das manifestações de políticos, usuários da rede também têm compartilhado conteúdos com críticas semelhantes, usando expressões como “inclusão de fachada” e afirmando que o “Governo Lula quer acabar com as escolas especializadas para crianças com deficiência”.
Imagem: Post de uma usuária do X. Reprodução: X
Falsidades nas publicações
As publicações que afirmam que o Decreto nº 12.686/2025 acaba com as escolas ou centros especializados para pessoas com deficiência não são verdadeiras. O decreto não extingue instituições especializadas nem retira o direito das famílias de buscar atendimento complementar.
A política mantém e regulamenta esses espaços de educação e garante que o Atendimento Educacional Especializado (AEE) continue existindo como apoio complementar à escolarização em escolas comuns.
A nova política fortalece a educação inclusiva, assegura formação para profissionais, apoio técnico e financeiro aos estados e municípios, e integra a participação das famílias no processo educativo.
Portanto, as alegações de que o decreto “acaba com o ensino especializado” ou “tira a liberdade das famílias” são falsas. O texto oficial reforça o compromisso do governo com a educação inclusiva e acessível para todos os estudantes.
Manifestações de apoio
Diante da repercussão das desinformações, também circularam nas redes manifestações públicas em apoio ao decreto. Até 30 de outubro, mais de 25 entidades e movimentos sociais haviam divulgado notas favoráveis à Política Nacional de Educação Especial Inclusiva.
Entre os apoiadores estão a Associação Brasileira para Ação por Direitos das Pessoas com Autismo (ABRAÇA), a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE), a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), além de fóruns de educação, frentes de pessoas com deficiência, entidades estudantis e coletivos ligados à diversidade e aos direitos humanos.
O Coletivo Sementes da Democracia, em nota publicada no Instagram, destacou que a nova política reforça o compromisso do Estado brasileiro com uma educação inclusiva, sem discriminação, e está alinhada à Constituição Federal e à Lei Brasileira de Inclusão. O grupo afirmou que o decreto mantém o AEE como serviço obrigatório, responsável por identificar barreiras, propor adaptações e garantir a permanência e a aprendizagem dos estudantes.
A nota também defende que o texto fortalece a educação inclusiva ao criar a Rede Nacional de Educação Especial Inclusiva e prever formação continuada para profissionais da educação.
Sementes da Democracia critica a disseminação de informações falsas que associam o decreto ao fechamento de instituições especializadas e reafirmou seu apoio integral à medida, “em defesa do direito universal à educação das pessoas com deficiência”.
Imagem: Nota do Coletivo Sementes em 29 de outubro. Reprodução Instagram
O Bereia avalia, portanto, que a informação de que o Decreto nº 12.686/2025 acaba com escolas e centros especializados, disseminada por políticos com identidade religiosa e apoiadores, é falsa. As interpretações que circulam nas redes distorcem o conteúdo do texto oficial, que não extingue instituições especializadas, mas mantém e regulamenta seu funcionamento.
A crise provocada pela operação policial em áreas de favela na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, em 28 de outubro passado, tomou conta do noticiário. Anunciada pelo governador do Estado Claudio Castro (PL) como “guerra às drogas”, a ação de ocupação resultou na morte de pelo menos 130 pessoas, entre elas quatro policiais, com as demais não identificadas, segundo a Defensoria Pública do Estado, contadas até a manhã de 29 de outubro (o governo do Estado confirmou 121).
Esse número é bem maior do que o de presos, 81, e de fuzis apreendidos, 93, segundo relato da Polícia Militar, o que, segundo especialistas, caracteriza fracasso na operação. Outra consequência foi o caos na cidade, com a suspensão de aulas em escolas e universidades e do atendimento em unidades de saúde, bloqueio de vias públicas bloqueadas, além de transporte com itinerários desviados e clima de terror entre a população.
Como Bereia publicou no dia da operação, uma nota conjunta de entidades que atuam por direitos da população, com especialistas na área de segurança pública, classificou a ação como a mais letal da história do Rio de Janeiro. Segundo o comunicado, o ocorrido “expõe o fracasso e a violência estrutural da política de segurança no estado e coloca a cidade em estado de terror”.
O texto classifica as mortes como uma “chacina” que faz parte de um “longo e trágico histórico de matanças cometidas por forças policiais no estado — apresentadas, equivocadamente, como política pública”. Matéria do jornal O Globo, levando em conta os contextos diferentes, mostra que a matança deste 28 de outubro no Rio superou o massacre do Presídio de Carandiru, ocorrido em 1992.
Entre o que foi publicado nas mídias sobre o caos na cidade e o drama das famílias que choravam seus mortos – as dos policiais e as moradoras dos bairros-alvo da intervenção policial – está uma quantidade enorme de conteúdo fraudulento (falsidades e enganos). As agências de checagem têm trabalhado bastante para indicar os materiais criados especialmente para intensificar o pânico e para capitalizar apoios políticos em torno da tragédia.
Sobre o que foi produzido para intensificar pânico, o projeto Fato ou Fake, do Portal G1, fez um levantamento detalhado que inclui os falsos anúncios de Estágio 4 na cidade do Rio, de fechamento da Ponte Rio-Niterói, imagens de incêndios na cidade manipuladas por IA e de ataques a trens, entre outros. Já a agência Lupa produziu matéria com algumas dessas checagens do Fato ou Fake e como mentiras sobre toque de recolher e arrastões e outros pontos importantes, como declarações enganosas do governador Claudio Castro. Todos circularam em ambientes digitais religiosos e devem ser conferidos.
Bereia levantou o que foi viralizado nos espaços religiosos para além da intensificação de pânico: verificou-se o que foi produzido por políticos para captar apoios às suas pautas e acumular capital político para as eleições em 2026. As classificações do tipo de desinformação serão oferecidas ao longo da matéria.
Conteúdo enganoso e impreciso do governador Claudio Castro
Em declarações públicas, o governador do Rio, cantor gospel católico, Cláudio Castro, durante a ação policial de 28 de outubro, afirmou que o governo federal teria negado três pedidos de apoio das Forças Armadas (por exemplo, blindados) ao estado do Rio de Janeiro. O governador chegou a dizer: “o estado está “sozinho” e “não temos ajuda das forças de segurança [federais] nem [do] Ministério da Defesa. Mídias de notícias publicaram esse conteúdo sem checagem e ele foi amplamente disseminado.
Ofício divulgado pelo governador sobre o pedido do Estado do Rio ao governo federal segue circulando nas redes e foi repercutido, por exemplo, pelo deputado federal evangélico Sóstenes Cavalcante (PL-RJ).
Logo depois que esse conteúdo circulou, já se verificava ser enganosa a afirmação do governador Claudio Castro.Após as declarações dele, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) divulgou nota em que afirma não ter recebido pedido de cooperação do governo do Rio. O órgão afirmou que “tem atendido, prontamente, a todos os pedidos do Governo do Estado do Rio de Janeiro para o emprego da Força Nacional de Segurança Pública no Estado, em apoio aos órgãos de segurança pública federal e estadual”. Na nota é afirmado que a Força Nacional foi mantida no Rio de Janeiro desde outubro de 2023, com atuação garantida até dezembro de 2025. Segundo o ministério, essa medida pode ser renovada.
A pasta também afirma que atendeu a todos os 11 pedidos de renovação feitos pelo governo do Rio, o que demonstra “total apoio” do governo federal às forças de segurança estaduais e federais que atuam na capital fluminense.
O ministro da Justiça e Segurança Pública Ricardo Lewandowski falou à imprensa e negou pedido de ajuda para a ação de 28 de outubro. Foi ainda destacado que a Polícia Federal realizou 178 operações no Rio neste ano, sendo 24 voltadas ao combate ao tráfico de drogas e armas.
Bereia também verificou que o documento encaminhado ao governo federal com pedido de ajuda, divulgado por veículos de imprensa e por apoiadores do governador, como o deputado Sóstenes Cavalcante, foi publicado com uma tarja vermelha com a palavra “Urgente”. A tarja foi inserida deliberadamente para esconder a data de emissão, 28 de janeiro de 2025, e fazer crer que o ofício teria sido encaminhado mais recentemente para atender à ação policial praticada em 28 de outubro. Porém, uma simples observação atenta da imagem que circula mostra a data original do envio, 28 de janeiro de 2025, no rodapé da certificação digital.
O pedido de janeiro foi, de fato, encaminhado ao Ministério da Defesa, referente a demanda específico de blindados à Marinha do Brasil, para patrulhamento da região onde está localizado o Hospital Naval Marcílio Dias, mesma Zona Norte do Rio, onde uma médica capitã de Mar e Guerra foi ferida por uma “bala perdida”, em dezembro de 2024. A Advocacia Geral da União (AGU) emitiu parecer técnico, em fevereiro de 2025, com a indicação de que o pedido de blindados não poderia ser atendido pelas Forças Armadas diretamente e que só teria condições de ocorrer no contexto de uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Segundo a AGU, tal demanda exigiria outro tipo de encaminhamento que culminaria com um decreto presidencial. Não foi dada sequência ao caso.
Depois de ter criado a polêmica e feito viralizar a ideia de apoio negado ao estado, Claudio Castro amenizou o tom das críticas ao governo federal e afirmou que foi mal interpretado ao dizer que o estado estava “sozinho” na ação policial letal na Zona Norte do Rio. “Houve uma leitura errada da minha fala”, disse o governador. “Eu não pedi ajuda. A pergunta do repórter foi se o governo federal estava participando da operação, eu falei que não e perguntaram por quê. Nas últimas três ocasiões, pedimos blindados e a resposta foi que só poderiam ser cedidos com GLO. Como o presidente é contra [a GLO], não adiantava pedir de novo”, falou.
Na entrevista, Claudio Castro explicou que não houve comunicação prévia sobre a operação de 28 de outubro porque já esperava uma negativa por parte do governo federal. Castro afirmou ainda que iria conversar com a ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffman: “Ficamos de nos falar ao fim da noite mais um mais uma vez para a gente entender os passos de amanhã. Eu não acredito que segurança se faz politizando. Então, qualquer ajuda que o governo federal quiser dar dentro do que a gente necessita, será bem bem-vinda. Eu vou ter uma outra reunião antes de falar com eles, com os nossos secretários da área de segurança para entender quais são os passos de amanhã”.
Outra declaração desinformativa do governador Claudio Castro diz respeito aos mortos. Em entrevista no dia seguinte à ação policial, ele afirmou que dos mais de 100 mortos, apenas quatro são vítimas – os policiais. O governador também disse que se a polícia matou algum inocente, foi algo ‘residual’. O portal religioso de notícias Pleno News deu destaque à fala em matéria.
A afirmação de Claudio Castro desinforma porque é imprecisa: não há informações sobre a identidade dos mortos e pode haver moradores não ligados ao crime entre eles. A cobertura da imprensa em 29 de outubro deu conta de que dezenas de corpos foram retirados por moradores de áreas de mata, na divisa das regiões onde ocorreu a megaoperação, em busca de parentes e amigos. Os corpos foram colocados pela população em uma praça pública, expondo de forma dramática o ocorrido no bairro. Apenas por volta das 8h45, veículos da Defesa Civil Estadual começaram a chegar para realizar a retirada deles do local e levá-los ao Instituto Médico Legal. Alguns estavam decapitados ou com o rosto destruído a tiros, o que dificulta o reconhecimento. Outros tinham balas na nuca e marcas de facadas nas costas. Todas essas evidências caracterizam execução sumária, como denunciado por especialistas na nota publicada pelo Bereia.
Acompanhados pela Defensoria Pública e por ativistas por direitos, os moradores reclamam da forma truculenta como a ação foi conduzida. Ouvidos pela imprensa, moradores afirmaram:
No Brasil não existe pena de morte, não. Teve corpo com a cabeça decapitada, arrancaram até a perna. Parece que eles são treinados para subir na comunidade e matar negro pobre”, disse uma moradora, que subiu até a área de mata no alto da Penha para ajudar a retirar os corpos deixados após a operação. “A polícia invadiu minha casa, bateram na cara do meu filho e jogaram spray de pimenta. Olha o rosto da minha neta. Ela teve febre e acordou hoje com o olho todo inchado. Eu estava com crianças em casa, e eles invadiram mesmo assim. Não me respeitaram”, afirmou outra moradora.
O líder de uma organização social no Complexo da Penha Raull Santiago afirmou que ainda pode haver mais corpos executados na mata. “Eu vim ajudar os familiares a encontrarem os corpos. Vimos um barranco com marcas de sangue e encontramos vários corpos”, contou.
Manipulação política da tragédia
Vários políticos da direita cristã lançaram mão da tragédia da Zona Norte do Rio para fazer política de oposição. Além do deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), já citado nesta matéria, deputados evangélicos e católicos distorceram informações para criticar o presidente Lula e o Supremo Tribunal Federal (STF).
Os evangélicos Filipe Barros (PL-PR) e Nikolas Ferreira (PL-MG) usaram a distorção de uma fala confusa do presidente da República, proferida na semana anterior, para propagarem que o governo federal defende o tráfico e não classifica as facções como terroristas.
A fala de Lula ocorreu em 23 de outubro, no contexto de uma entrevista à imprensa durante a viagem à Indonésia para participar de encontro de cúpula de presidentes. Ao ser indagado sobre o enfrentamento às drogas (a propósito das ações letais dos Estados Unidos contra supostos traficantes no Mar do Caribe), Lula disse: “Toda vez que a gente fala de combater as drogas, possivelmente fosse mais fácil a gente combater os nossos viciados internamente, os usuários. Os usuários são responsáveis pelos traficantes, que são vítimas dos usuários também. Ou seja, você tem uma troca de gente que vende porque tem gente que compra, e tem gente que compra porque tem gente que vende”.
Lula ainda criticou as ações dos EUA: “Se a moda pega, cada um acha que pode invadir o território do outro para fazer o que quer. Onde é que vai surgir a palavra respeitabilidade à soberania dos países? Então eu pretendo discutir esses assuntos com o presidente Trump se ele colocar na mesa”.
De imediato houve uso político da declaração por parte de lideranças do PL e apoiadores nas redes, com a afirmação de que Lula estaria defendendo traficantes como vítimas. Nikolas Ferreira já havia publicado naqueles dias. “Lula acaba de anunciar que traficantes são vítimas dos usuários. No ritmo que vai, daqui a pouco o PCC vira ONG”, escreveu no X.
Figuras do governo federal e apoiadores do presidente publicaram conteúdo com explicações sobre o sentido da fala ser condenatório ao sistema do narcotráfico. No dia seguinte, Lula publicou uma retratação nas redes.
“Fiz uma frase mal colocada nesta quinta e quero dizer que meu posicionamento é muito claro contra os traficantes e o crime organizado. Mais importante do que as palavras são as ações que o meu governo vem realizando, como é o caso da maior operação da história contra o crime organizado, o encaminhamento ao Congresso da PEC da Segurança Pública e os recordes na apreensão de drogas no país. Continuaremos firmes no enfrentamento ao tráfico de drogas e ao crime organizado”
Desde a semana anterior e novamente após a megaoperação policial no Rio, há o uso enganoso da fala, de fato, confusa do presidente como munição de oposição, com a distorcida alegação de que o governo federal defende o tráfico e os traficantes. Uma audição atenta da entrevista em Jacarta e uma leitura simples da transcrição do que Lula disse são suficientes para identificar o discurso de que o tráfico não se sustenta sozinho e que é importante levar em conta o consumo de drogas pelas classes média e alta das populações, o que é base para a manutenção deste mercado ilegal que gera vítimas de todo tipo.
Os políticos que usam o argumento enganoso atuam para atender a uma pauta dos Estados Unidos e classificar o narcotráfico como terrorismo, caso da postagem de Filipe Barros, o que seria pretexto para uma intervenção militar daquele país em terras brasileiras. Há projetos de lei apresentados por deputados, especialmente os de identidade militar, na Câmara Federal que já visam tornar lei esta pauta.
Especialistas questionam a associação do narcotráfico com terrorismo pelas naturezas diferentes das ações do tráfico de drogas. O jurista André Callegari, por exemplo, afirma: “Ao contrário (…) do que ocorre com os terroristas e guerrilheiros, que lutam por uma causa (mesmo que equivocada), os integrantes do PCC, longe do seu ideal inaugural, ou a melhora do sistema prisional, visam, única e exclusivamente ao lucro, praticando tráfico de drogas, sequestros, homicídios, lesões corporais, ameaças, furtos, roubos de toda espécie, carros fortes, caixas eletrônicos, agências lotéricas etc.), contrabandos, tráfico de armas, enfim, a lista de infrações penais é enorme e quase impossível de ser descrita” .
Já o deputado federal católico Carlos Jordy usou o caos no Rio para criticar o STF que julgou favoravelmente a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 63 sobre o que Jordy atribui o “avanço das facções criminosas”. A declaração do deputado é falsa, pois, além de não estar respaldada no objetivo da ação julgada no STF, ele faz a crítica sem qualquer embasamento científico ou, ao menos, em dados.
A ADPF 635, conhecida como “ADPF das Favelas”, foi protocolada pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), em 2020, com apoio de entidades de defesa de direitos e de movimentos sociais. A ação foi apresentada ao STF para denunciar a violência policial nas favelas do Rio de Janeiro e pedir medidas que limitassem as operações das forças de segurança, no contexto da pandemia de covid-19. Naquele momento, pessoas eram vitimadas nas ações armadas sem aviso prévio, dentro de suas casas onde estavam reclusas como medida sanitária. O PSB argumentou que o Estado violava preceitos fundamentais da Constituição, como o direito à vida, à segurança e à dignidade humana.
Em junho de 2020, o STF concedeu uma decisão histórica: determinou que as operações policiais em favelas só poderiam ocorrer em casos excepcionais, com comunicação prévia ao Ministério Público e justificativa formal, o que reduziu significativamente o número de incursões naquele período.
Ao contrário do que diz o deputado Jordy, não houve “canetada”, mas um longo processo de discussão, audiências públicas e estudos da Corte, e a ADPF segue em andamento. O STF continua discutindo medidas para garantir maior controle e transparência nas ações policiais para que se garantam, de fato, segurança e não ameaça da população pelos órgãos públicos.
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Bereia chama a atenção de leitores e leitoras sobre o uso de uma tragédia social, como a ocorrida no Rio em 28 de outubro, para propagação de desinformação tanto para intensificar pânico e causar transtornos à vida da população, quanto para manipulação política seja para angariar e manter apoios seja para atacar opositores.
Frente a esta ação maldosa, Bereia reafirma a necessidade de desconfiar de todo e qualquer conteúdo que tenha estas características, com a devida verificação da veracidade antes de qualquer compartilhamento. Como parte desta ação, o número do WhatsApp do Bereia esta à disposição para consultas e envio de materiais para checagem.
*matéria atualizada às 10:45h para ajuste de texto.
A recente fala da senadora Damares Alves (Republicanos-DF) de que o Brasil estaria “falido” ou em “colapso financeiro”, que circula amplamente pelas mídias sociais, é falsa. Dados oficiais do Banco Central e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a economia brasileira apresenta crescimento moderado, inflação controlada e queda no desemprego — cenário distante de uma falência nacional.
A declaração foi feita em uma palestra para lideranças evangélicas no Acre, neste outubro de 2025, e circulou por meio de vídeos. Durante o evento, a senadora afirmou que teria acesso a informações que comprovariam um “colapso financeiro” e acusou o governo de maquiar dados econômico.
Bereia checou a declaração e verificou os principais indicadores macroeconômicos do país com base em dados públicos e oficiais do Banco Central (BCB) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atualizados até setembro e outubro de 2025. Os números contradizem a fala da senadora.
Outros indicadores também apontam para uma realidade diferente da descrita pela senadora. A inflação, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), acumulou 5,17% nos últimos doze meses até setembro, segundo o IBGE. Embora o patamar exija atenção, o índice está longe de um cenário de hiperinflação que caracterizaria um colapso. No mercado de trabalho, a taxa de desemprego registrada pelo IBGE em julho de 2025 foi de 7,9%, um dos menores níveis da série histórica recente. O dado indica uma recuperação do emprego, e não uma crise terminal.
Dívida pública está longe de nível de crise
O argumento de que a dívida pública sinalizaria um “colapso” também se mostra enganoso. A Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) estava em 64,2% do PIB em agosto de 2025, de acordo com o Banco Central. Embora seja um desafio fiscal, o percentual é significativamente inferior ao pico de 79,5% registrado em 2020, ano em que o país também não “faliu”.
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O que checamos: A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) afirmou, em palestra no Acre, que o Brasil estaria “falido” ou em “colapso financeiro”.
Onde foi dito: A declaração foi feita durante um encontro com lideranças evangélicas em outubro de 2025 e circulou em vídeos nas redes sociais. A senadora alegou ter acesso a dados “preocupantes” e que os números oficiais da economia estariam sendo “maquiados”.
Avaliação do Bereia: a afirmação da senadora Damares Alves é falsa, pois os indicadores oficiais de crescimento, inflação e desemprego, como os do IBGE e os do Banco Central e fontes internacionais, e como o Moodys’s Analytics, demonstram um cenário de crescimento econômico, inflação sob controle e melhora nos indicadores de emprego.
A disseminação de informações falsas ou enganosas sobre a economia pode gerar pânico e desconfiança. Esta é uma estratégia de grupos políticos da direita extremista quando atuam em oposição e a senadora mantém a prática, já checada muitas vezes pelo Bereia.
Portanto, é preciso sempre desconfiar deste tipo de afirmação quando não são apresentados dados concretos e verificáveis, como foi o caso na palestra de Damares Alves. Nesse sentido é fundamental que cidadãos busquem informações em fontes primárias e confiáveis para formar suas próprias conclusões sobre a saúde financeira do país.
Circula nas redes um vídeo apresentado como flagrante de uma pastora em ação na qual ela combina “milagres” com atores antes de um culto. A publicação viralizou, alcançando mais de um milhão de visualizações, centenas de compartilhamentos e “reacts”, além de ser replicada por perfis e portais de notícias que a utilizam para atacar a fé evangélica.
Bereia apurou que a mulher que aparece no vídeo não é pastora e que o conteúdo não é um flagrante. Trata-se, na verdade, de uma encenação do canal de esquetes Kauê Wutke, que publica vídeos ficcionais roteirizados com situações “polêmicas” e exageradas.
No vídeo, a personagem distribui papéis e combina cenas típicas de um culto onde se explora a temática dos milagres e atividades sobrenaturais. “Quando eu passar, colocando as mãos, vocês vão levantar. Quer dizer o quê? Milagre. Querem ver milagre? Vamos fazer milagre”, declara a atriz. Além disso, os atores encenam cenas sobre pagamento durante o recolhimento de ofertas, “Na hora que estiverem passando o dízimo, eu já faço o pagamento pra vocês. Não tem erro que todo mundo paga dízimo”.
Imagens: prints de portais e redes sociais.
A apresentação do vídeo como “flagra”, atribuição da personagem à figura real de uma “pastora” e a falta de explicação explícita sobre o objetivo dos produtores favorecem o erro do público. Estudos mostram que humor e sátira aumentam a capacidade de viralizar conteúdos e podem mascarar intenções, criando terreno fértil para confusão e cinismo quando o enquadramento não é claro. Em ambientes digitais, memes e esquetes circulam rápido e, sem sinalização de contexto, podem se transformar em desinformação e reforçar intolerância, com estímulo a preconceitos contra grupos minorizados.
Bereia classifica os conteúdos repercutidos por veículos e usuários como enganoso. Após verificar a origem do material, Bereia confirmou que o vídeo integra a linha de esquetes do canal Kauê Wutke, que simula “questões polêmicas e bizarras” para atrair a audiência. Além disso, não há evidências de que a mulher seja pastora fora do papel interpretado na encenação. A circulação descontextualizada do conteúdo, sem apuração jornalística, somada à cobertura apressada de alguns portais, transformou uma sátira em munição para ataques generalizados à expressão de fé do segmento evangélico.
A semana fecha com a memória dos 50 anos de execução do jornalista Vladimir Herzog, morto nas dependências do DOI-Codi do II Exército, em São Paulo, em 25 de outubro de 1975, após ser levado para depor e torturado, no contexto da repressão política e da censura da ditadura militar.
Vlado, como era carinhosamente conhecido, e sua família foram vítimas de uma das fraudes informativas mais utilizadas pelo Estado ditatorial: pessoas mortas sob tortura, e outras executadas sumariamente em prisões e porões, eram oficialmente declaradas como suicidas. Foi o que o Estado declarou sobre a morte do jornalista. Na época, o Exército divulgou à imprensa uma foto em que ele aparecia pendurado por um cinto amarrado ao pescoço.
Foto: acervo Instituto Vladimir Herzog
De família de tradição judaica, com um laudo falso de “suicídio”, Vlado deveria ser enterrado na ala destinada a suicidas, à margem do cemitério israelita de São Paulo, uma vez que no judaismo há questões teológicas em relação ao suicídio. O rabino Henry Sobel, porém, viu o corpo e as marcas de tortura e decidiu confrontar as autoridades e resistências internas da comunidade. Sobel e a família enterraram Herzog no centro do cemitério. O ato contestou, publicamente, a política recorrente do regime de forjar laudos para ocultar atrocidades e manter o estado de exceção. Este caso mostra como uma mentira política desta proporção afeta a vida das pessoas e do país de tantas formas.
Sete dias após a morte de Herzog, em 31 de outubro de 1975, realizou-se o histórico ato inter-religioso na Catedral da Sé, conduzido por Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o pastor presbiteriano Jaime Wright. O ato se tornou um marco histórico por ser o primeiro grande protesto público contra a ditadura após o Ato Institucional n.5 (AI-5) — que fechou o Congresso Nacional e instaurou oficialmente a censura. É lembrado também pela mobilização pacífica e pela denúncia da morte do jornalista com repercussão internacional. ,
A verdade sobre o caso levou décadas para vir à tona. Em 2013, 38 anos depois, a família recebeu um novo atestado de óbito, com o reconhecimento de que Herzog morreu “em decorrência de lesões e maus-tratos sofridos durante interrogatório” no DOI-Codi, com a reparação formal diante da versão falsa dos militares.
Foto: Agência Brasil
Saiba mais sobre esta memória assistindo ao documentário, produzido pela TV Cultura, com apoio do Instituto Vladimir Herzog, que será lançado na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, no dia 24 de outubro, às 19h, na Cinemateca Brasileira, e exibido pela emissora no dia 25, às 23h.
Um vídeo-convite para um evento dirigido para homens presbiterianos tem chamado a atenção nas mídias sociais nos últimos dias. Na publicação, o pastor da 2ª Igreja Presbiteriana de Martinópolis (SP) Alencar Torres da Silva aparece com uma Bíblia na mão e com um revólver na cintura para chamar participantes para o “Encontro de Homens Presbiterianos”. Bereia recebeu de leitor link de mídia social sobre o evento e o vídeo-convite que circula em grupos de WhatsApp e checou a veracidade do caso.
O conteúdo do vídeo
Imagem: Extrato de vídeo-convite em circulação em grupos no WhatsApp
Na publicação, o pastor compartilha a programação do evento: momento devocional, dinâmicas com distribuição de brindes, churrasco e um momento livre. Ao final, ele completa: “para aqueles que quiserem pescar, podem trazer a sua vara de pesca, para aqueles que quiserem praticar tiro ao alvo, também teremos um local apropriado para isso”, enquanto toca em sua própria arma.
Além de liderar a 2ª Igreja Presbiteriana de Martinópolis, Alencar também é secretário da União Presbiteriana de Homens de Presidente Prudente (SP). A UPH é uma organização nacional que planeja diversos encontros e projetos com o objetivo de unir a parcela masculina das igrejas presbiterianas pelo país.
Imagem: Banner do evento divulgado nas redes sociais da igreja
O pastor, a igreja e o grupo de homens presbiterianos
A 2ª Igreja Presbiteriana de Martinópolis foi fundada em agosto de 2010. É parte da Igreja Presbiteriana do Brasil, uma denominação histórica, estabelecida no Brasil no século 19, com raízes na Reforma Protestante. Alencar Torres é o pastor-presidente desta comunidade local presbiteriana desde 2016.
Foto: Blog da igreja
Em novembro de 2017, Alencar Torres da Silva participou da Audiência Pública Interativa que buscava opiniões da população sobre a Sugestão nº 44, proveniente da Ideia Legislativa nº 73.169/2017, que buscava a “extinção do termo feminicídio [do Código Penal] e a criação de agravante para qualquer crime passional”. No documento, o proponente Felipe Medina, um morador de Minas Gerais, diz: “O feminicídio, cuja lei foi sancionada como se as mulheres morressem por serem mulheres, é um termo totalmente infundado que fere o princípio de igualdade constitucional. Qualquer crime contra qualquer pessoa em função de violência passional deve ter o agravante de crime hediondo”. Naquele ano, a proposta recebeu mais de 20 mil assinaturas, o suficiente para que uma ideia apresentada por qualquer cidadão se torne uma sugestão legislativa e seja debatida no Senado Federal. Por isso houve consulta aberta no Portal E-Cidadania e audiências públicas sobre o tema, articuladas pela casa legislativa.
No relatório da audiência virtual, Bereia identificou manifestação do pastor da 2ª Igreja Presbiteriana de Martinópolis. Alencar Torres da Silva aparece como “apoiador” da Ideia Legislativa, mostrando-se a favor da extinção do termo “feminicídio”, criado para definir crimes contra mulheres em razão de suas condições de gênero.
Masculinidade viril evangélica
A realização de eventos que ressaltam ideais de homens viris tem se tornado prática corrente em ambientes evangélicos . Vários deles oferecem conteúdo e atividades identificados com a cultura militar, alguns com as armas de fogo.
A liberação do porte de armas de fogo foi um dos grandes debates durante o período eleitoral de 2022, com idealizações do ex-presidente e então candidato à reeleição Jair Messias Bolsonaro (PL). Em 2023, apesar do “esfriamento” do assunto, os dados do Sistema Nacional de Armas (Sinarm) mostram que o mercado armamentístico cresceu cerca de 33% quando comparado a 2022.
Nos últimos dias, o Intercept Brasil publicou matéria sobre atividade da “Igreja da Família”, em Marataízes-ES. Desde 2022, ela promove uma nova modalidade de acampamento chamado “Retiro Sobreviventes”. Organizado e “comandado” pelo pastor e ex-militar Leandro Saldanha, o evento reúne jovens cristãos com o intuito de “testar suas forças físicas e espirituais”, com provas de resistência e dinâmicas buscando alcançar o extremo cansaço corporal. Saldanha define o “Sobreviventes” como “uma vivência militar e uma experiência com Deus”.
O movimento Legendários é outro exemplo, iniciado na Guatemala e popularizado no Brasil, nos últimos anos. No website do movimento, há a afirmação de ele ser espaço que “busca a transformação de homens, famílias e comunidades por meio de experiências que levam os homens a encontrar a melhor versão de si mesmos e seu novo potencial”. Entre as atividades estão desafios físicos praticados em acompanhamentos e retiros para homens casados e solteiros. No website é indicado que com a programação, os participantes vão romper com tudo que os “prende e aprender a desfrutar o caminho, lutar suas batalhas certas e desenvolver seu potencial máximo para chegar ao seu nível 10 e se tornar o herói caçador que toda família precisa”.
Bereia ouviu a antropóloga e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Christina Vital, para compreender a relação entre organizações e eventos masculinos evangélicos, a cultura militar e o uso de armas de fogo. Ela recorre à memória para compreensão deste fenômeno: “a valorização do militarismo entre protestantes no Brasil não é nova. Devemos lembrar o apoio institucional importante que várias denominações protestantes deram aos militares durante a ditadura no Brasil”.
Christina Vital coloca um desafio de pensar o contexto evangélico para compreensão do que se apresenta nesta busca por ênfase de masculinidade viril e armada:
“É importante ressaltar que embora a valorização da disciplina, da ordem, ambos muito ligados ao ideal militar seja significativo no campo religioso cristão de um modo geral. Entre protestantes históricos no Brasil é maior até do que entre pentecostais. Isto por uma questão ligada também à dinâmica racial e de classe. As igrejas protestantes reúnem um perfil mais branco e de poder econômico e escolaridade maior que os pentecostais. Os pentecostais, embora tenham uma importante valorização da ordem, da disciplina e do mérito, contrabalançam essa valorização com a experiência que tem racial e a experiência territorial em contextos urbanos nos quais muitas vezes as forças militares são associadas a principal violência que eles sofrem no dia a dia”, destaca a professora.
A antropóloga e pesquisadora das religiões recorda que segundo pesquisas nacionais, são os protestantes que têm os posicionamentos mais conservadores quanto ao quadro da violência no país, inclusive de apoio ao uso de armas de fogo. Na conversa com o Bereia, ela recupera o fato de que principalmente protestantes que ocuparam cargos de destaque no governo de Jair Bolsonaro.
“Essa dinâmica de valorização militar se amplificou sem dúvida com o ‘bolsonarismo’. Em razão de uma valorização da recuperação da masculinidade viril, apresentada como recuperação da funcionalidade masculina. E essa funcionalidade masculina está ligada a várias símbolos de força. As armas são muito ligadas a essa representação de força combinada com uma representação também militar. É um fenômeno que vem crescendo e que se contrapõe a posicionamentos que apresentam outros tipos de masculinidade possíveis e que vinham ganhando importante representação no mainstreaming social e da cultura, a partir de uma demanda feminina pela maior participação doméstica dos homens”, afirma Christina Vital.
A professora ouvida pelo Bereia também destaca que o fenômeno de crescimento dessa demanda por masculinidade viril, por afirmação e recuperação da masculinidade viril é resultante também de um empoderamento de outras masculinidades. “Friso essa questão na medida em que talvez venhamos a observar um crescimento ainda significativo de retiros e cursos de recuperação da masculinidade viril entre católicos e evangélicos no Brasil. Uns mais ostensivos em relação às armas, porém com a maioria vinculada a outras perspectivas importantes no militarismo, para além das armas. Aí entra a própria noção de disciplina, ordem, mérito, força física”, ressalta Christina Vital.
*** Bereia classifica como verdadeiro o vídeo que circula com imagens do pastor presbiteriano com uma Bíblia e um revólver à cintura, ao anunciar atividades de um evento para homens presbiterianos, como pesca e “tiro ao alvo”. O vídeo checado pelo Bereia ilustra um movimento crescente entre homens cristãos em busca de ideais viris, como uma espécie de reação às ações que afirmam um lugar social mais destacado às mulheres, de alinhamento com ideais militares na política ultraconservadora nacional, que se soma ao aquecimento do mercado de armas de fogo no país após ampliação das possibilidades de porte no governo federal anterior.
A deputada federal evangélica Clarissa Tércio (PP-PE) usou seu perfil no Instagram para atacar a Primeira Dama Janja da Silva, que se encontrou com mulheres evangélicas e participou de culto durante visita a Caruaru (PE), no último 30 de setembro. De acordo com a deputada, “dias atrás ela estava no terreiro de macumba, e agora quer posar de ‘amiga das evangélicas’”.
Reprodução: Instagram
A parlamentar também afirma, no mesmo vídeo, que “eles (o Partido dos Trabalhadores, as esquerdas, lideranças progressistas) querem o voto das mulheres de Deus, mas não têm respeito nenhum pelo Evangelho”. Em outra publicação, Clarissa Tércio também reprime a presença de membros do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) em um culto evangélico. “Janja chegou na igreja com o MST… só esqueceram de avisar que invadir o que é dos outros não tá no Evangelho”, escreveu na legenda. No último 2 de outubro, a vereadora Liana Cirne (PT-PE), de Recife, denunciou a deputada federal ao Ministério Público Federal por intolerância religiosa.
A Primeira Dama do Brasil, que é praticante de religiões de matriz africana, já afirmou que tem buscado entender como as políticas públicas do governo do presidente Lula têm atingido as mulheres, principalmente mulheres negras e das periferias. Janja mencionou, ao compartilhar sobre o encontro com as evangélicas em Caruaru, que foi um momento potente e de troca de experiências. “Quando caminhamos lado a lado, a esperança se fortalece e a transformação acontece”, escreveu.
Mesmo não sendo abertamente professa de qualquer religião, Janja já acenou em entrevista que se emociona em diferentes contextos religiosos, como na missa, com a fala do padre, com o tambor do candomblé e da umbanda, e com hinos evangélicos. A Primeira Dama já relatou ter sofrido intolerância outras vezes, e frequentemente é vítima de desinformação relacionada à sua proximidade com religiões de matriz africana. Em julho de 2024, por exemplo, Bereia desmentiu que ela havia encomendado um ritual de candomblé para reduzir o dólar.
Jurista afirma que falas da deputada federal se enquadram como intolerância religiosa
De acordo com, doutor em Direito do Estado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) Renato Ribeiro de Almeida, crenças religiosas não devem estar na discussão política. “Quando se ataca o que uma pessoa pensa, temos uma crítica política. Quando o ataque se direciona às crenças da pessoa, deixa de ser política”.
Ele acrescenta que as falas da deputada federal Clarissa Tércio podem ser consideradas criminosas, e que a imunidade parlamentar não é salvo-conduto para a prática de crimes.
“A intolerância religiosa apresenta ampla possibilidade de interpretação. O caminho é analisar se nas palavras houve a intenção de ofender, humilhar ou menosprezar quem é praticante de dada religião. No contexto dos fatos, parece-me que a deputada pretendeu justamente atacar a primeira dama”, afirma o jurista.
Líderes evangélicos defendem que deputada contraria ensinamentos cristãos
Desde julho de 2025, Janja e Lula participaram de vários encontros com evangélicos, como a participação no podcast “Papo de Crente”, em setembro; visita de Janja a igreja de pastor crítico a Malafaia, em Brasília, e reunião com grupo de evangélicas em Salvador, em agosto, e participação de Janja e da ministra Anielle Franco em encontro com evangélicas no Rio de Janeiro, em julho. Bereia ouviu pastoras e pastor sobre a reação publicada pela deputada evangélica do PP.
A pastora da Igreja Evangélica de Confissão Luterana Romi Bencke comenta que o encontro de Janja com mulheres de diferentes fés não parece ser sobre “estar atrás de voto”, mas sobre valorizar as diferentes espiritualidades das mulheres brasileiras. “A religião é um elemento importante para boa parte das mulheres no Brasil. O encontro entre Janja e mulheres evangélicas é um belo exemplo de como deveria ser o Brasil, ou seja, sem intolerâncias e discriminação”.
A líder eclesiástica enxerga o encontro como um acerto da Primeira Dama ao “ouvir o que mulheres evangélicas pensam sobre a política e sobre os desafios de se viver em uma sociedade misógina, mas que têm nas mulheres o pilar de sustentação das casas e dos cuidados”.
As mulheres, evangélicas ou não, votam em quem quiser, argumenta Bencke, que vê o encontro em Caruaru como uma demonstração de que podemos e devemos dialogar e nos reconhecer em nossas diversidades.“Tomara que ela repita estes encontros com mulheres de outras espiritualidades,reafirmando este Brasil feminino com diferentes experiências do sagrado”, conclui.
Para o pastor batista Sérgio Ricardo Dusilek, a fala e os vídeos da deputada hostilizam alguém que deveria ser acolhida por quem professa a fé evangélica. “Não faz o menor sentido alguém que se diz evangélico botar uma porta giratória na frente da igreja e começar a dizer quem entra e quem não entra. Porque se se coloca isso, você tem que mostrar a carteirinha. Se só pode entrar quem é crente premium, então virou clube, já não é mais igreja. Não deveria haver nenhum óbice, nenhum obstáculo para que Janja ou qualquer outra pessoa que deseje participe de um culto em uma igreja evangélica”, afirma.
O pastor acrescenta que as falas da parlamentar não representam o posicionamento dos evangélicos como um todo, pois para a grande maioria do mundo evangélico, “o que mais se quer é que as pessoas que não professem a fé que nós professamos comecem a frequentar as igrejas que nós vamos, para que, quem sabe, de alguma forma, em algum momento, elas tenham um encontro com Jesus”.
Sérgio Dusilek também critica grupos fundamentalistas da extrema direita, do meio evangélico e também do integrismo católico, que vêm, desde as eleições de 2018, colocando a escolha político-partidária e o voto como se fossem equivalentes a uma profissão de fé, o que não é verdade.
“Dizer que uma pessoa só pode se considerar salva se e somente se crê em Jesus e também vota no Bolsonaro (porque, se crê em Jesus e vota no Lula, salva ela não é), é uma argumentação estranha ao coração do evangelho. O evangelho é a afirmação de que Jesus completou cabalmente a obra salvífica na sua morte vicária e também na sua ressurreição. Então não há nada mais”, afirma.
A reverenda da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil Bianca Daéb’s reitera que pessoas políticas que usam o texto bíblico para pregar o ódio precisam ser denunciadas como quem tem compromisso com sua autopromoção. Ela destaca o compromisso da Constituição Federal de 1988 em garantir a liberdade de culto e de crença. “Estamos numa democracia, e as pessoas podem defender pontos de vistas distintos, podem discordar sobre questões políticas e argumentar acerca de suas ideias. Mas, se a pessoa, sobretudo se for cristã, deixar os argumentos de lado para fazer falsas acusações, certamente ela comete crime e pode ser processada, além de dar um péssimo testemunho”, afirma.
“Eu vejo com alegria grupos de mulheres e juventudes que se levantam desde as periferias do Brasil resgatando um Evangelho de potencial revolucionário, com força suficiente para questionar o sistema e com abertura para o ecumenismo e diálogo inter-religioso, mantendo acesa nossa esperança profética que nos permite viver a fé na beleza de nossa diversidade”, diz Daéb’s.
Intolerância religiosa no Brasil
Assim como apurado pelo Bereia, a intolerância religiosa é um problema grave no Brasil. De acordo com dados do canal de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), o Disque 100, o Brasil registrou 3.853 violações motivadas por intolerância religiosa em 2024, um aumento de mais de 80% em relação a 2023, que teve 2.128 casos. As religiões que registraram o maior número de violações foram a umbanda e o candomblé, ambas de matriz africana. Os evangélicos ocupam o terceiro lugar no ranking, com 111 registros em 2024, crescimento de mais de 50 ocorrências em relação a 2023. A maioria das vítimas da discriminação religiosa são mulheres, que foram vítimas de 1.423 casos registrados no Disque 100 em 2024.
No Brasil, há duas leis específicas sobre intolerância religiosa: a Lei nº 7.716/1989 (Lei Caó), que considera como crime de racismo a prática de atos que envolvam discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional; e a Lei nº 9.459/1997, que define o crime de discriminação ou preconceito de religião e estabelece que a discriminação religiosa é um crime inafiançável (o acusado não pode pagar fiança para responder em liberdade) e imprescritível (pode ser punido a qualquer tempo), com pena de reclusão de um a três anos e multa.
Além dessas legislações, o Código Penal (CP) tipifica o crime de “Ultraje a culto e impedimento ou perturbação de ato a ele relativo” e prevê punição para quem zombar de alguém por motivo de crença religiosa, impedir ou perturbar cerimônia religiosa ou vilipendiar objeto de culto. O CP também descreve a injúria racial com a qualificadora de intolerância religiosa, quando alguém ofende alguém com xingamentos relacionados à religião, e prevê pena de um a três anos de reclusão.
Uma das formas de promoção de intolerância e da violência religiosas é a instrumentalização da religião por políticos para criar reação negativa e destruir reputação de opositores. Intolerância e violência religiosa é o conjunto de ideologias e atitudes ofensivas a diferentes crenças e religiões, podendo em casos extremos tornar-se uma perseguição. É um crime de ódio que fere a liberdade e a dignidade humana, e essa violência constitui práticas de extrema gravidade.
Verbete sobre intolerância religiosa publicado na Plataforma Religião e Poder doInstituto de Estudos da Religião (ISER), a liberdade religiosa, garantia constitucional, não significa agredir e destruir outras fés, mas conviver, respeitar e construir a paz social. A intolerância religiosa intensificou-se no Brasil na última década com a instrumentalização política da religião por movimentos que promovem uma visão de mundo hegemônica ao utilizar discursos e símbolos religiosos para fins políticos.
Com isso, grupos extremistas excluem visões diferentes, e têm como principais alvos as religiões minoritárias, especialmente as de matriz africana, espiritualidades indígenas, a fé islâmica e também ateus. No período eleitoral de 2021-2022, por exemplo, a organização Safernet registrou um aumento de 522% nos casos de intolerância religiosa online. Nesse contexto, o discurso de “liberdade religiosa” é distorcido para justificar posturas autoritárias, alimentar a retórica de guerra contra “inimigos” e atuar contra a pluralidade religiosa e os avanços da inclusão social.
Bereia chama a atenção para o tipo de oposição política extremista que usa a religião para se basear em mentiras e intolerância religiosa, estimulando ódio às diferenças. Oposição política é saudável em uma democracia, por meio de debates qualificados e denúncias, quando couberem, não com o uso de discurso de ódio e preconceito contra pessoas e religiões determinadas.
Um Estado laico não deve oferecer espaço em suas instituições e representantes para que determinadas expressões de fé se sobreponham sobre outras e haja promoção de intolerância. Em um contexto democrático e plural, o diálogo e a cooperação inter-religiosos deve ser ressaltado por agentes públicos como fonte de paz e coexistência pacífica e deve ser incentivado e não desqualificado e demonizado.
A Câmara Municipal de Salvador aprovou, em 24 de setembro passado, o Projeto de Lei Municipal n. 28/2025, intitulado “Programa de Combate a Cristofobia”, que impõe direcionamentos contra o preconceito direcionado às religiões cristãs na capital baiana. O PL foi proposto pelo vereador evangélico, da Igreja Batista, Cezar Leite (PL). De acordo com Leite, o projeto é uma “demanda da comunidade cristã” e visa “responsabilizar e punir com multa quem ataca o povo cristão”.
A proposta da lei foi apresentada em fevereiro passado, como resposta ao caso que envolveu a cantora Claúdia Leitte, acusada de intolerância e racismo religioso durante o carnaval. A cantora trocou, em uma apresentação pública,a palavra referente à orixá das religiões de matriz africana “Yemanjá”, citada em uma música popular do carnaval baiano, por “Yeshua” nome hebraíco para Jesus, referência do Cristianismo.
O PL n°28/2025 acabou se tornando uma nova controvérsia, uma vez que a proposta de lei aprovada na câmara soteropolitana, proíbe a representação de símbolos, temas e personagens do Cristianismo no carnaval da cidade. O texto prevê a punição com taxas e multas de três salários mínimos para pessoas físicas, empresas, eventos ou blocos de carnavais que usarem fantasias que remetem à religião cristã nas ruas da cidade, principalmente durante o carnaval.
Além disso, o “Programa de Combate a Cristofobia” tem como diretrizes a criação de um canal de denúncia para cristãos que sofram alguma injúria por exercerem suas religiões, a realização de ações educativas que promovam respeito a fé cristã e a promoção de eventos inter-religiosos que fomentem o diálogo, a tolerância e o respeito entre as diversas crenças.
“Agora vai se pagar multa se colocar roupa de freira, se colocar roupa de Cristo para ficar sambando no carnaval, vai ter multa. E artistas também que fizerem isso, não vai ter mais contratação da prefeitura de Salvador. Aqui nós defendemos a fé cristã”, disse o vereador Cezar Leite, em vídeo publicado em seu perfil no Instagram, após a aprovação da lei, em 24 de setembro.
A falácia da “cristofobia” no Brasil
A ideia de cristofobia no Brasil passou a ser disseminada a partir de 2018, como pauta da campanha eleitoral que mobilizou intensamente o tema da religião e da “defesa dos valores cristãos”. O vencedor da disputa para a Presidência da República naquele ano, Jair Bolsonaro (à época, do PSL, depois do PL), depois de ocupar o cargo em 2019 passou a lançar mão do assunto como política de Estado. Em 2020, em discurso na abertura da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Bolsonaro defendeu que o Brasil seria um “país cristão e conservador” e que a “cristofobia precisava ser combatida”.
O Bereia já checou um amplo número de matérias sobre o tema da “cristofobia” desde 2019, quando foi criado e já explicou que se tornou um discurso político alinhado à direita cristã dos EUA, que busca consolidar poder por meio da narrativa de perseguição religiosa. Em texto publicado pelo Bereia, a pesquisadora da Unicamp Brenda Carranza explica que o termo é utilizado como estratégia retórica por políticos para reafirmar a supremacia da maioria cristã e justificar a perseguição contra as minorias sociais.
Em colaboração para o jornal Correio, sobre a aprovação do projeto de lei “que protege a religião cristã no carnaval”, a pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (Iser) e editora-geral do Bereia Magali Cunha afirma a inexistência da prática defendida pelo político: “A aprovação dessa lei da Câmara de Salvador faz parte de um contexto do uso desse discurso para captação de apoio por quem entende que há um eleitorado sujeito a esse tipo de abordagem. Não faz sentido que um projeto como esse seja colocado para combater algo que não existe”.
Cunha reforça: “É uma acusação de que cristãos sofrem perseguição pelo Estado ou por determinados grupos. Isso pode até ocorrer em outros lugares do mundo, mas aqui no Brasil, isso não existe. Os cristãos são uma religião majoritária, e nunca houve perseguição sistemática a cristãos.”
Ao recorrer ao tema da “cristofobia”, o vereador Cezar Leite, do mesmo PL de Bolsonaro, mantém a mobilização política em torno da ideia de perseguição a cristãos e da existência de defensores desta religião nos espaços públicos. A lei aprovada torna-se um instrumento de disputa política pois já existem leis para proteger ataques aos símbolos religiosos no Brasil.
O Código Penal (artigos 208 e 2012) tipifica o crime de vilipêndio público de ato ou objeto de culto religioso. Para isso é necessário que a conduta recaia sobre ato religioso ou sobre objeto de culto religioso e que ocorra em público. No artigo 208 está explicitado: ““Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso”. A pena é de um mês a um ano de detenção ou multa”. Bereia já checou desinformação sobre isto que explora a inexistente prática de perseguição sistemática a cristãos.
Quem é Cezar Leite?
O autor do PL sobre “cristofobia” em Salvador, é nascido e criado naquela cidade. Ele é médico há cerca de 30 anos. Cezar Leite é casado e tem seis filhos, sendo, dois deles, portadores de alguma deficiência. Por isso, como vereador, ele tem como pauta de seus principais projetos a inclusão de crianças deficientes ou com algum tipo de transtorno, como a Lei Municipal de Prioridade para Autistas (n°9237).
Em seus perfis em redes sociais, Leite se auto intitula como “representante da direita conservadora na Bahia, alinhado com as pautas defendidas pelo presidente Jair Bolsonaro” e afirma que sua atuação no cenário político é “reconhecida pela firme defesa dos valores cristãos, da família, pátria e da liberdade, além do combate à corrupção”.
Nesses perfis, o vereador do Partido Liberal compartilha registros de participação em dezenas de eventos da direita extremista , como a manifestação no Farol da Barra, no Dia 7 de setembro, em prol da aprovação da anistia aos que planejaram e atuaram pelo golpe de Estado em 2022-2023 e da volta do ex-presidente Jair Bolsonaro ao poder.
Cezar Leite ao lado do ex-presidente Jair Bolsonaro Imagem: Instagram/@cezarleiteoficial
Manifestantes em várias cidades do país saíram às ruas no domingo, 21 de setembro, para protestar contra a chamada PEC da Blindagem, aprovada na Câmara dos Deputados na última semana, e contra o projeto que prevê anistia a condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro. Os atos aconteceram em 33 cidades (22 capitais), foram convocados por movimentos sociais e parlamentares de partidos de esquerda e reuniram também artistas de projeção nacional, como Daniela Mercury, Gilberto Gil, Chico Buarque e Caetano Veloso.
Durante as manifestações, políticos extremistas da direita política reagiram com críticas e difundiram informações distorcidas que envolvem à Lei de Incentivo à Cultura, conhecida popularmente como Lei Rouanet, ao retomarem conteúdo enganoso recorrente sobre o mecanismo de fomento à cultura. Vários destes políticos têm identidade religiosa evangélica e estão ocupando ambientes digitais religiosos com esta desinformação.
Repercussão nas redes
O ex-deputado federal evangélico, que teve a candidatura cassada por ilegalidades, Deltan Dallagnol (Novo-PR) utilizou seu perfil na plataforma X para comentar os atos realizados em 21 de setembro. Em suas publicações, ele criticou a participação de artistas nas manifestações, e afirmou que “a esquerda e os artistas que enchem os bolsos com a Lei Rouanet vão às ruas hoje contra a anistia”. Em outra postagem, no mesmo dia, escreveu: “a hipocrisia dos mamadores da Lei Rouanet atacando trabalhadores perseguidos”.
Imagem: Publicação do deputado federal Deltan Dallagnol (Novo-PR) em 21 de setembro. Fonte: X
Imagem: Publicação do deputado federal Deltan Dallagnol (Novo-PR) em 21 de setembro. Fonte: X
O senador evangélico Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também se manifestou em seu perfil na plataforma X sobre os atos de 21 de setembro. Em uma postagem no dia anterior, escreveu: “Os poucos milionários mamadores da Rouanet, que ficam com a grana forte, querem que os milhares de artistas que não recebem Rouanet vão para um ato anti-anistia”.
Imagem: Publicação do senador Flávio Bolsonaro em 20 de setembro. Fonte: X
Além disso, o parlamentar compartilhou uma publicação do deputado federal também evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG), que usou ironia ressentida sobre o amplo público presente nas manifestações (mais de 100 mil pessoas, somente no Rio de Janeiro, em São Paulo e Salvador, segundo monitoramentos científicos). Em vídeo com imagens dos protestos, ele escreveu: “Nem com a Rouanet vingou”.
Imagem: Publicação compartilhada pelo senador Flávio Bolsonaro em 21 de setembro. Fonte: X
O que diz a lei?
A Lei de Incentivo à Cultura nº 8.313/91, conhecida como Lei Rouanet, é o principal mecanismo de incentivo à cultura no Brasil e tem sido alvo recorrente de desinformação. O nome é uma homenagem ao diplomata autor da lei Sergio Paulo Rouanet, que foi secretário nacional de Cultura, de 1991 a 1992, no governo de Fernando Henrique Cardoso.
A norma não retira recursos do orçamento federal que poderiam ser destinados a áreas como saúde ou educação, como quem distorce o assunto apregoa. O que ela permite é que pessoas físicas e jurídicas destinem parte do imposto de renda a ser pago ao patrocínio de projetos culturais previamente aprovados pelo Ministério da Cultura.
Trata-se de um instrumento de renúncia fiscal: ao apoiar um projeto, empresas e cidadãos podem abater esse valor do imposto a pagar. A decisão sobre quais iniciativas receberão apoio cabe exclusivamente à iniciativa privada, e não ao governo.
Esse processo, que envolve controle técnico e escolha privada, refuta a ideia de que artistas ou políticos tenham acesso direto e ilimitado a recursos públicos por meio da lei.
O Bereia também identificou o uso frequente da lei como alvo de ataques por personagens de identidade ultraconservadora em ambientes religiosos. Em 2023, duas checagens expuseram conteúdos enganosos que afirmavam, de forma incorreta, que o atual governo teria excluído projetos religiosos do mecanismo e manipulado valores destinados à cultura em detrimento da segurança nas escolas.
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O Bereia verifica que as informações publicadas pelos parlamentares são enganosas. As declarações dos evangélicos Deltan Dallagnol, Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira distorcem o funcionamento da Lei Rouanet e retomam narrativas já desmentidas em outras ocasiões. O mecanismo não transfere recursos diretamente a artistas, mas autoriza a captação junto à iniciativa privada após avaliação técnica e sob rígidas regras de prestação de contas. Longe de beneficiar apenas grandes nomes, a lei também alcança projetos culturais de médio e pequeno porte em diferentes regiões do país.
A morte do ativista ultraconservador estadunidense Charlie Kirk, vítima de um atentado, no último 10 de setembro, durante um evento em universidade nos Estados Unidos, gerou reações calorosas do presidente Donald Trump, repetidas por políticos ultraconservadores brasileiros. Eles manifestaram indignação em publicações nas redes digitais e responsabilizaram a violência à esquerda política. Bereia investigou o caso e concluiu, a partir de verificações já realizadas, que essa associação é falsa.
Quem é Charlie Kirk?
Charlie Kirk foi um evangélico ativista ultraconservador estadunidense, fundador e líder da organização estudantil Turning Point USA [Ponto de Virada EUA], criada em 2012 para difundir pautas ultraconservadoras em universidades dos Estados Unidos. A Turning Point USA tem uma frente cristã denominada TPUSA FAith (Fé TPUSA) para disseminar essas pautas com um público das igrejas.
Aos 18 anos, Kirk iniciou o movimento que hoje conta com forte presença em mídias digitais e eventos voltados a jovens simpatizantes da extrema direita e do ultraconservadorismo. Entre as pautas defendidas por ele estão:
Fervoroso defensor de Donald Trump: mobilizava eleitores jovens para o movimento “Make America Great Again” e questionava a legitimidade das eleições de 2020, alegando fraudes.
Imigração restritiva: apoiava políticas anti-imigranção para os EUA como construção de muros na fronteira e deportações em massa, enfatizando esta forma de nacionalismo.
Direitos às Armas: Defendia o armamentismo argumentando que o porte de armas de civis é essencial para autodefesa e contra um potencial “governo tirânico” e como uma defesa dos direitos dados por Deus.
Oposição a políticas de inclusão: Criticava iniciativas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), chamando-as de discriminatórias e contrárias à meritocracia. Era contra o reconhecimento de identidades de gênero fluidas e políticas transgênero.
Defesa da submissão das mulheres: Apregoava que mulheres deveriam renunciar à educação e à carreira de trabalho para se concentrarem em ter uma vida de dona de casa submissa.
Posição radical antiaborto: Defendia restrições ao aborto, alinhado com valores cristãos ultraconservadores, promovendo a proteção da vida desde a concepção, fechando-se a qualquer direito relacionado à interrupção da gravidez, o que comparava ao Holocausto.
Posição racista: era contra o movimento Black Lives Matter, desacreditava a figura de Martin Luther King, negava a atrocidade da escravidão alegando que africanos eram voluntários e fazia pronunciamentos depreciativos de pessoas negras, como seres amaldiçoados por Deus.
Livre mercado e governo limitado: advogava por menos regulamentações governamentais, redução de impostos e promoção do capitalismo de livre mercado.
Negacionismo climático e ideias conspiracionistas: minimizava a crise climática, chamando-a de exagero, e promovia ideias como “marxismo cultural” e “globalismo” como ameaças à cultura americana.
Apoio a Israel: Defendia as ações violentas do Estado Israel, especialmente na tomada da Palestina e se posicionava como pró-sionismo.
Imagem: Kirk pouco antes de ser alvo de tiro mortal na Universidade Utah Valley. Fonte BCC News Brasil.
Kirk apresentava um podcast diário e acumulava milhões de seguidores nas plataformas digitais. Ele ficou conhecido por promover debates públicos em campi universitários e abordar temas como identidade de gênero, mudanças climáticas, fé e valores familiares. O Turning Point teve participação ativa no apoio ao atual presidente dos EUA Donald Trump, e a outros candidatos do partido Republicanos nas eleições de 2024 naquele país.
Imagem: Charlie Kirk ao lado do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Fonte: BCC News Brasil.
Charlie Kirk era um evangélico vinculado à Dream City Church [Igreja da Cidade do Sonho], localizada em Phoenix, estado Arizona (EUA). A denominação é uma megaigreja do ramo pentecostal das Assembleias de Deus, que pratica ativismo político conservador que dá espaço a eventos com figuras do movimento ultraconservador estadunidense. Um deles é Freedom Night in America [Noite da Liberdade na América], que aborda fé e política, dando voz a ativistas do ultrconservadorismo cristão, como Kirk, e pautas do Partido Republicano.
A organização Turning Point liderada por Charlie Kirk lançou, em convênio com a Dream City Church, a Academia Turning Point, uma escola particular de linha educacional ultraconservadora que rechaça conteúdo que trate do enfrentamento ao racismo e dos direitos de gênero. Há também parceria na realização da Strong Church Dream Conference [Conferência Sonho Forte da Igreja] voltada para fomação de líderes religiosos e militantes políticos ultraconservadores.
O que aconteceu?
O ativista foi baleado no último 10 de setembro, enquanto participava de um evento universitário na Utah Valley University (UVU), no estado de Utah. O disparo atingiu seu pescoço durante o evento “The American Comeback Tour”. Ele foi levado em estado crítico para o hospital regional de Timpanogos, onde teve sua morte confirmada.
Logo após o anúncio da morte de Charles Kirk, o presidente dos EUA Donald Trump fez acusações ao que chamou de “esquerda radical” como responsável pela morte do jovem influenciador. Sem provas, Trump estimulou aliados da extrema direita mundial a honrarem Charlie Kirk, a quem classificou de “mártir da verdade”.
Em entrevista ao programa de TV Fox and Friends, que teve algumas edições apresentadas por Kirk, Trump afirmou: “Vou te dizer algo que vai me deixar encrencado, mas não me importo. Os radicais na direita muitas vezes só são radicais porque não querem ver crimes. (…) Eles estão preocupados com a fronteira, eles não querem toda essa gente entrando e queimando nossos shoppings. Não querem que eles atirem no nosso povo no meio da rua”, disse o presidente, sem esclarecer a que incidentes se referia. “O problema são os radicais da esquerda. Eles são cruéis e terríveis e politicamente astutos, porque embora digam que querem esportes para homens e mulheres, na verdade querem transgêneros para todo mundo, querem fronteiras abertas.”
Ao contrário do que apregoou o presidente Trump, de acordo com as investigações que se sucederam, o suspeito de assassinar Charlie Kirk é Tyler Robinson, de 22 anos, criado em uma família branca, conservadora, cristã e apoiadora do presidente Donald Trump. Entrevistas da CNN com familiares indicam que o jovem teria se envolvido mais recentemente com política, embora não tenham apontado uma ideologia específica. Há indícios de que ele faça parte da comunidade “Exército Groyper”, grupo alternativo de extrema direita ligado a ideias do supremacista branco Nick Fuentes e opositor de Kirk. Os “groypers” consideravam Kirk “moderado demais”. Segundo o escrivão do condado onde Robinson reside, ele nunca votou, não é filiado a qualquer partido e está atualmente registrado para votar.
Políticos ultraconservadores brasileiros exploram o caso
O chamado de Donald Trump aos radicais na direita repercutiu entre políticos brasileiros. Alguns manifestaram tristeza e pesar nas redes digitais, enquanto outros exploraram politicamente a situação para acusar opositores.
O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) comentou em uma postagem no X em 10 de setembro: “Mais um conservador vítima do ódio e da intolerância”.
Imagem: Post de Eduardo Bolsonaro sobre a morte de Charlie Kirk. Fonte: X
Em outra publicação mais recente, o deputado compartilhou um vídeo com imagens de atentados e acrescentou a legenda: “(…) E quando não executam seus adversários, botam seus juízes corruptos para prendê-los. Eis alguns exemplos dessa violência, cujas vítimas sempre são de direita”.
Imagem: Post de Eduardo Bolsonaro sobre a morte de Charlie Kirk e de outros políticos conservadores. Fonte: X.
No Instagram, o deputado federal Gustavo Gayer (PL-MG) publicou um vídeo sobre o ativista, com a legenda: “A esquerda mata, a esquerda é doente”.
Imagem: Post do deputado federal Gustavo Gayer sobre a morte de Charlie Kirk. Fonte: Instagram
O professor de Teologia Franklin Ferreira, reitor do Seminário Martin Bucer, afirmou em seu perfil no Instagram que a morte de Kirk teria sido motivada por opositores ideológicos, e acrescentou que grupos de esquerda utilizam métodos para “calar e destruir quem pensa diferente”.
Imagem: Post do professor Franklin Ferreira. Fonte: Instagram
Relações com o ex-presidente Bolsonaro
A atuação de Charlie Kirk, de fato, ultrapassava o cenário estadunidense. Em relação ao Brasil, em 2023, o ativista entrevistou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para o seu podcast e organizou um evento em Miami no qual o político brasileiro foi palestrante. A aproximação rendeu destaque a Kirk entre conservadores no Brasil, como o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que frequentemente mencionava o trabalho do líder da Turning Point USA em manifestações públicas.
Naquele mesmo período, Jair Bolsonaro permaneceu por três meses na Flórida, após deixar a Presidência do Brasil, entre a virada de 2022 para 2023. Nesse intervalo ocorreram a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os atos violentos contra a democracia ocorridos em 8 de janeiro de 2023, em Brasília.
No começo de fevereiro daquele ano, um mês após a posse de Lula, Bolsonaro participou do evento “Power to the People”, promovido pela Turning Point USA. No discurso, falou sobre sua trajetória política, defendeu pautas ultraconservadoras e destacou o que chamou de realizações de seu governo. Ao final, Kirk fez perguntas sobre os riscos de o Brasil “se tornar uma Venezuela” e sobre os desafios do governo Lula.
Em março de 2025, Kirk utilizou seu programa de rádio para solicitar que o governo de Donald Trump aplicasse sanções e tarifas contra o Brasil, em retaliação à condução do Judiciário brasileiro no julgamento da chamada “trama golpista”, no Supremo Tribunal Federal, que tinha Jair Bolsonaro como um dos réus.. O ativista classificou o processo contra Bolsonaro como “chocante e horrível”.
A esquerda mata a direita no Brasil? Dados negam esta afirmação
A afirmação da responsabilidade da esquerda política no caso Kirk não se sustentou diante do resultado das investigações nos EUA, que apontaram o suspeito – um jovem branco cristão ligado a um movimento ultraconservador. Além disso, não é preciso pesquisa muito densa para apurar que atentados e episódios de violência política não sao exclusividade da esquerda e não atingem apenas pessoas de direita. Estes casos decorrem do ódio e da intolerância presentes nas relações sociais, independentemente da ideologia.
Para a psicóloga doutora em Psicologia Social Rebecca Maciel, atentados e episódios de violência política não são fenômenos exclusivos de uma ideologia. Ela explica que emoções como raiva e nojo fazem parte da experiência humana, mas o ódio é algo construído, resultado da combinação de sentimentos com crenças que levam a pessoa a considerar certos grupos ou ideias como repulsivos e passíveis de eliminação.
Segundo Maciel, embora as emoções sejam majoritariamente reativas (por exemplo, a raiva surge quando algo nos afeta), a forma como transformamos essa energia pode variar: pode gerar agressão ou ser canalizada para mudanças sociais positivas.
Ela ressalta ainda que a motivação por trás dos ataques é fundamental para compreender se se trata de um atentado, e lembra que a crença no extermínio do diferente e na agressão como opção é mais frequente em determinados grupos, mas não está restrita a uma ideologia. Maciel cita o ativista islâmico negro estadunidense Malcolm X, assassinado em 1965: “Não confundir a reação do oprimido com a violência do opressor”, e reforça a importância de analisar contexto e intenções em episódios de violência política.
Nos Estados Unidos, ao longo da história, diversos presidentes e figuras políticas foram alvo de violência armada. Dos 46 presidentes norte-americanos desde a independência, em 1776, quatro foram assassinados enquanto exerciam o cargo: Abraham Lincoln (1865), James A. Garfield (1881), William McKinley (1901) e John F. Kennedy (1963). Além disso, outros 16 atentados foram registrados contra presidentes e candidatos, incluindo Theodore Roosevelt (1912), Franklin D. Roosevelt (1933), Harry S. Truman (1950), Gerald Ford (1975) e Ronald Reagan (1981).
Ativistas e líderes políticos daquele país também sofreram violência, como o islâmico negro Malcolm X (1965), Robert F. Kennedy (1968) e Martin Luther King Jr. (1968), que era pastor batista e defensor dos direitos civis dos negros no país. Neste 2025, em 14 de junho, a senadora estadual do Partido Democrata Melissa Hortman e o marido foram assassinados a tiros na casa em que moravam, no estado de Minnesota.
Um levantamento do Instituto Cato, credenciada organização estadunidense sem filiação partidária, revela que o discurso adotado por Trump de que “lunáticos de esquerda” são os maiores responsáveis por esses crimes não condiz com a realidade dos números.
De acordo com o estudo, entre 1° de janeiro de 1975 e 10 de setembro de 2025, 620 pessoas foram assassinadas por terrorismo político nos Estados Unidos. Neste período, 391 pessoas foram mortas por grupos ou pessoas ligadas ao terrorismo de direita, e 65 por terroristas de esquerda. Desde 2020, foram 44 mortos por motivações da direita, e 18, da esquerda. Em 2025, foram registradas 24 mortes no total, incluindo a de Charlie Kirk.
Casos recentes no Brasil
No Brasil, atentados políticos têm ocorrido há séculos e envolvem diferentes motivações. Em 1889, meses antes da Proclamação da República, o imperador D. Pedro II foi alvo de um atentado, sem ser atingido. O terceiro presidente do Brasil, Prudente de Morais, sobreviveu a uma tentativa de assassinato em 1897.
Um caso muito destacado na história ocorreu 1954, quando o principal opositor do presidente Getúlio Vargas, o jornalista e futuro governador da Guanabara (atual cidade do Rio de Janeiro) foi alvo de um atentado, em 5 de agosto, no bairro de Copacabana. Quem acabou morrendo foi o major da Aeronáutica Rubens Vaz. O ataque fracassado, cuja investigação levou ao mandante, o chefe da guarda presidencial Gregório Fortunato, provocou a derrocada política de Getúlio Vargas, que cometeu suicídio, 19 dias depois.
Em 25 de julho de 1966 uma bomba explodiu no saguão do Aeroporto de Guararapes, em Recife (PE), e matou o vice-almirante Nelson Gomes Fernandes, o jornalista e secretário de governo de Pernambuco Edson Régis de Carvalho e deixou 14 feridos.O alvo era o então ministro do Exército e futuro presidente da República, general Artur da Costa e Silva, que não estava no terminal.
Durante a década de 1980, o presidente José Sarney foi alvo de uma tentativa de ataque que envolveu um sequestro de avião, levado a cabo por um homem, isoladamente, para atingir o Palácio do Planalto e “prestar contas” com aquele a quem culpava pela crise econômica em que o país se encontrava.
Atualmente, episódios de violência política também revelam que o ódio e a intolerância não se restringem a um único campo ideológico. Casos emblemáticos ilustram esta realidade.
Em 2018, a vereadora Marielle Franco (PSOL) e o motorista Anderson Gomes foram assassinados no Rio de Janeiro. O crime, de grande repercussão nacional e internacional, atingiu uma liderança reconhecida pela defesa dos direitos humanos e pela luta contra a violência policial. Investigações levaram ao mandante, seis anos depois, o deputado federal Chiquinho Brazão (RJ), vereador à época, que acabou expulso do partido de direita ao qual era filiado, o União Brasil.
Ainda em 2018, ano eleitoral, o então candidato à Presidência Jair Bolsonaro foi alvo de uma facada durante ato de campanha em Juiz de Fora (MG). As investigações apontaram que o agressor Adélio Bispo, preso em seguida, agiu sozinho e foi declarado inimputável pela Justiça por transtorno mental, decisão que não teve contestação da defesa de Bolsonaro.
No mesmo contexto eleitoral de 2018, em 7 de outubro, o ativista negro e mestre de capoeira Môa do Katendê (Romualdo Rosário da Costa) foi assassinado após uma discussão política. Ele teria defendido o voto no PT e irritou eleitores de Jair Bolsonaro (PSL) em um bar na periferia de Salvador. Um dos homens desferiu doze facadas no capoeirista.
No segundo turno das eleições para presidente e governadores naquele 2022, a deputada federal reeleita Carla Zambelli (PL-SP), foi filmada ameaçando um homem com uma arma nos Jardins, bairro da zona central de São Paulo. Segundo testemunhas, o homem havia debochado criticamente da deputada, que revidou com a ameaça armada. O Supremo Tribunal Federal (STF) condenou a deputada, em agosto passado, a cinco anos de prisãoe regime semiaberto, por porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal com emprego de arma de fogo. Ela já havia sido condenada em outro processo por invasão ao sistema eletrônico do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A deputada esteve foragida na Itália, onde foi presa e terá extradição ao Brasil julgada.
Neste setembro de 2025, o STF julgou a tentativa de golpe contra o processo eleitoral de 2022 que incluía o plano denominado “Punhal Verde Amarelo”. Nele, o general do Exército Mário Fernandes confessou ter elaborado um esquema para impedir a posse do governo eleito em 2022, que previa o assassinato do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, do vice-presidente na chapa, Geraldo Alckmin, e do ministro Alexandre de Moraes (STF). Fernandes foi condenado junto com outros integrantes do chamado Núcleo 2 da tentativa de golpe de Estado, acusados de redigir a “minuta do golpe”, monitorar autoridades e tentar impedir o voto de eleitores em 2022.
Violência política e eleitoral se agrava no Brasil
Pesquisa desenvolvida pela organização Terra de Direitos, intitulada “Violência Política e Eleitoral no Brasil”, mostra que entre 1° de novembro de 2022 e 27 de outubro de 2024 foram registrados 713 casos de violência política. Somente em 2024, foram 558. Até 2018, uma pessoa era vítima desta violência a cada oito dias. O relatório identifica quea, após as eleições de 2018, com a ocupação de uma direita extremista dos poderes Executivo e Legislativo, o ano de 2022 alcançou o recorde com o registro de um caso a cada 27 horas.
Nas últimas eleições gerais, 2022, houve pelo menos cinco homicídios motivados por política em um intervalo de quase três meses. Os crimes se intensificaram com a proximidade do primeiro turno. Entre os cinco casos, quatro ocorreram entre 4 de setembro e 4 de outubro de 2022 — média de um assassinato por semana desde a reta final das eleições.
Naquele ano, além do caso tesoureiro do PT no Paraná Marcelo Arruda assassinado por um bolsonarista, em sua festa de aniversário, houve outros casos apontados na pesquisa de Terra de Direitos. Em 7 de setembro, o petista Benedito Cardoso dos Santos foi morto pelo bolsonarista Rafael Silva de Oliveira, em Confresa (MT). Em 24 de setembro, Antônio Carlos Silva de Lima, eleitor de Lula, foi esfaqueado por Edmilson Freire da Silva, em Cascavel (CE), depois de discussão em um bar. Dois dias depois, Ianário Pereira Souza Rocha, motorista da candidata a deputada estadual Sabrina Veras (MDB), foi morto a tiros em evento político em Fortaleza (CE). Em 4 de outubro, o estilista bolsonarista José Roberto Gomes Mendes foi assassinado pelo amigo, o petista Luiz Antonio Ferreira da Silva, em Itanhaém (SP), depois de discussão e agressões físicas em uma mesa de almoço.
De acordo com informações mais recentes do Grupo de Investigação Eleitoral da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Giel/Unirio), dos 338 casos de violência política no terceiro trimestre de 2024, 76 resultaram em morte.
De acordo com o doutor em Direito Constitucional e professor associado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) Rubens Beçak, crimes contra a vida de políticos devem ser punidos “com todas as tintas possíveis, e tudo aquilo que a legislação de cada país permite”.
“É claro que a legislação estadunidense é diferente da brasileira, mas no direito brasileiro, os crimes dessa natureza podem ser entendidos, depois de apurada a fase de inquéritos, e transformados numa ação penal, como crimes hediondos. Assim, eles são punidos e têm um tratamento bastante diferenciado”, afirma.
“A gente muitas vezes acha que esse é um fenômeno do Brasil, dos Estados Unidos, mas nós observamos que isso acontece no mundo todo e em uma intensidade muito grande. E agride o nosso senso moral de ser humano, de que sempre existem possibilidades de tirar as diferenças na discussão, no debate, de formas muito mais inteligentes, sem que nós tenhamos que recorrer à violência, que muitas vezes se dá na intolerância e leva até a morte de pessoas como Charlie Kirk”, conclui.
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De acordo com a checagem do Bereia, é falsoafirmar que pessoas de esquerda sejam odientas ou que promovam o ódio. Os exemplos demonstram que atentados e violência política não são exclusivos de um espectro ideológico. Apesar de se acumularem por responderem a estímulos em uma dada atmosfera política, como demonstrado nas pesquisas nos Estados Unidos e no Brasil, estas práticas estão fortemente relacionadas a questões de saúde mental, transtornos psicológicos, ao cultivo do ódio, à intolerância e a conflitos sociais mais amplos. Toda ação violenta e letal é humana e condenável.
Em 18 de julho de 2024, o Bereia já havia checado a afirmação do ex-presidente Jair Bolsonaro de que “só os conservadores sofrem atentados”, feita após o ex-presidente dos EUA Donald Trump ter sido alvo de um atirador em um comício na Pensilvânia, dias antes, em 13 de julho. A verificação já havia demonstrado que atentados contra líderes políticos não são exclusivos de um espectro ideológico.
Entretanto, chama a atenção e merece reflexão a constatação da pesquisa do Instituto Cato, nos Estados Unidos, onde aconteceu o assassinato de Charlie Kirk, que mostra que metade dos crimes desse tipo foram causados por autores alinhados às direita política. Embora no Brasil não haja pesquisa com a mesma metodologia, o levantamento de Terra de Direitos revela um aumento dos casos de mortes por motivação política depois de 2018, com o fortalecimento do poder político da direita extremista no país.
Em outra matéria desta série, o Bereia explicou o termo “woke”, seu contexto de surgimento e como foi ressignificado pelo extremismo de direita, passando a ser usado como rótulo pejorativo.
Agora, voltamos a atenção para outra expressão que segue caminho semelhante: o chamado “marxismo cultural”. Assim como woke, o termo ganhou espaço no Brasil em discursos religiosos e políticos, apresentado como explicação rápida para mudanças sociais vistas como ameaças à família, à fé cristã e à moral.
Apesar de ser associado à tradição marxista ou à Escola de Frankfurt, o conceito não tem base acadêmica: trata-se de uma construção conspiratória surgida em ambientes conservadores do século XX. No Brasil, a expressão tornou-se recorrente em sermões pregados em igrejas, debates públicos e campanhas eleitorais, sendo usada para denunciar desde propostas educacionais até manifestações culturais.
Compreender as origens e o percurso desse termo é essencial para desfazer simplificações e mostrar como ele foi transformado em arma retórica, servindo mais ao extremismo político conservador do que ao esclarecimento dos debates públicos.
A origem do termo marxismo cultural
A expressão “marxismo cultural” não aparece em um texto sequer de Karl Marx ou em qualquer das correntes do pensamento marxista. O pensamento do filósofo alemão foi construído com a noção de que a transformação da sociedade viria da luta entre classes sociais e da apropriação dos meios de produção pelo proletariado. Em nenhum de seus textos há referência a um plano de “revolução cultural” ou de infiltração em instituições culturais. A teoria conspiratória do “marxismo cultural” deturpou a obra de Marx ao atribuir a ele e a seus seguidores uma estratégia jamais defendida por esta corrente de pensamento.
O uso atual desta noção remonta aos Estados Unidos dos anos 1990, quando o escritor Michael Minnicino publicou o artigo New Dark Age: Frankfurt School and ‘Political Correctness’[A nova idade das trevas: a Escola de Frankfurt e o “politicamente correto”], na revista Fidelio, do Instituto Schiller, ligado ao movimento liderado pelo político estadunidense Lyndon LaRouche, conhecido por discursos conspiratórios.
O texto acusava intelectuais da chamada Escola de Frankfurt (círculo de estudiosos na Alemanha dos anos 1930, criador da Teoria Crítica da Sociedade, que influenciou amplos estudos sociais, políticos e segue como referência até hoje) de serem responsáveis pelo “politicamente correto” e por mudanças culturais que estariam enfraquecendo os valores ocidentais.
O termo “politicamente correto” apareceu nos Estados Unidos nos anos 1970, em movimentos de esquerda que buscavam evitar expressões e atitudes ofensivas, como linguagem racista ou sexista. Mais tarde, setores da direita passaram a usar a expressão de forma negativa, tratando-a como sinônimo de censura, ataque à liberdade de expressão e vitimismo.
Michael Minnicino escreveu: “Os homens da Escola de Frankfurt desenvolveram a ideia de que não se poderia mais confiar na classe trabalhadora para promover a revolução. A tarefa, então, era subverter a cultura em todos os seus aspectos — literatura, música, arte, filosofia — de modo a criar uma nova base para a transformação social.”
Apesar do tom de denúncia, não há registro comprobatório de que os professores Theodore Adorno, Max Horkheimer e Herbert Marcuse tenham proposto um projeto de “subversão cultural” como descrito por Minnicino. A afirmação é parte de uma narrativa conspiratória que depois se consolidou no termo marxismo cultural.
O texto de Minnicino não foi apenas apropriado por pessoas e grupos conservadores e pela extrema direita política, mas nasceu do ambiente criado por LaRouche, já marcado por visões conspiratórias. Anos mais tarde, Minnicino se afastou do grupo e renegou o artigo, afirmando que seu trabalho havia sido “irremediavelmente deformado” pela necessidade de sustentar a “visão de mundo lunática” de LaRouche.
Ainda assim, a tese lançada naquele texto já havia se disseminado e acabou sendo incorporada por diferentes setores da direita, até chegar à nova direita e à extrema direita atuais. A ideia ganhou força nos EUA quando grupos da direita religiosa e política passaram a falar em “marxismo cultural” para condenar mudanças sociais como o feminismo, a ampliação dos direitos civis e as políticas de diversidade.
Raízes antigas de uma “Guerra Cultural”
Segundo o cientista político Jérôme Jamin , a noção de “marxismo cultural” deve ser entendida como um mito político que se apoia em tradições conspiratórias mais antigas, como o “bolchevismo cultural” (como sinônimo de comunismo cultural) propagado pelo nazismo, na Alemanha dos anos 1920 e 1930, que criticava os movimentos modernistas nas artes. Líderes nazistas relacionavam a arte moderna ao marxismo revolucionário russo, classificando-a como uma forma de “arte degenerada”.
Ao chegar ao poder, o regime nazista promoveu censura às obras modernistas e passou a exaltar a chamada “arte nacional”, com temas propagandísticos que apoiavam o governo de Adolf Hitler e exaltavam a supremacia racial ariana. Pesquisadores indicam que o conceito de bolchevismo cultural funcionava como justificativa para reprimir toda produção intelectual e artística que não se alinhava às diretrizes políticas do regime.
Desta maneira, essas teorias da conspiração de um plano contra a “civilização ocidental” reapareceram mais tarde em outras versões, como o marxismo cultural. Elas sempre servem como rótulo conspiratório para simplificar transformações sociais e atribuí-las a um plano deliberado de subversão. O artigo de Michael Minnicino, em 1992, é visto como o ponto de partida da versão contemporânea deste discurso.
Foi nos anos 2000 que autores conservadores nos Estados Unidos, como William S. Lind, passaram a incluir o nome do pensador marxista italiano Antonio Gramsci na noção. Estes autores tomaram de forma distorcida a noção de hegemonia cultural de Gramsci como se fosse um plano deliberado de infiltração ideológica:
“O que chamamos hoje de ‘politicamente correto’ é, de fato, o marxismo cultural: uma tradução de Marx da economia para a cultura, que busca derrubar a civilização ocidental a partir de dentro”, escreve Willian Lind.
Entretanto, Gramsci desenvolveu o conceito de hegemonia cultural e destacou como as classes dominantes mantêm o poder não só pela economia e pela política, mas também por meio de instituições como a escola, a igreja e a imprensa.
Seu objetivo era compreender como a cultura reforça estruturas de poder. Na versão conspiratória, essa reflexão foi distorcida e apresentada como se fosse um plano secreto da esquerda para controlar a sociedade.
“Marxismo Cultural” no Brasil
No Brasil, a expressão “marxismo cultural” ganhou popularidade sobretudo a partir dos anos 2000, com a atuação do influenciador ultraconservador católico Olavo de Carvalho. Na linha dos estadunidenses em livros, aulas e vídeos, Carvalho apontava a Escola de Frankfurt e o pensamento de Antonio Gramsci como responsáveis por uma suposta infiltração ideológica em universidades, nas artes e nos meios de comunicação.
Para ele, esse “plano” visava corromper valores cristãos e dissolver a família tradicional. Essa leitura passou a estruturar a ideia de uma “guerra cultural”, que se tornou marca registrada da nova direita brasileira.
Imagem: Perfil no Twitter (X) @oproprioolavo Imagem: Página no Youtube @oproprioolavo
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Sob a influência forte de Olavo de Carvalho, políticos ligados ao campo conservador e à extrema direita incorporaram o termo. O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus aliados repetiram diversas vezes a expressão “marxismo cultural” em entrevistas, discursos e postagens em redes sociais. Este grupo sempre associandou a ideia a temas como educação sexual, políticas de gênero, diversidade e direitos humanos. O termo também foi mobilizado em campanhas eleitorais como um “rótulo de alerta” contra adversários progressistas.
O discurso ganhou força adicional no campo religioso. Pastores, padres e lideranças católicas e evangélicas identificadas como conservadoras passaram a denunciar o “marxismo cultural” em sermões e artigos, descrevendo-o como ameaça à fé e à família.
Imagem: Perfil no Twitter (X) @PastorMalafaia
Nas igrejas, a expressão é frequentemente associada a debates sobre educação escolar, costumes e moralidade, funcionando como explicação rápida para transformações sociais que incomodam setores conservadores.
Pesquisadores destacam que esse uso está alinhado ao que já se observava em outros países. Para o historiador João Cezar de Castro Rocha, o que se convencionou chamar de “bolsonarismo” se organizou em grande medida a partir dessa retórica de guerra cultural. O também historiador Flávio Casimiro identifica o termo como parte do arsenal ideológico da “nova direita” no Brasil Já a filósofa Marcia Tiburi classifica o “marxismo cultural” como um rótulo vazio, usado apenas para criar inimigos e justificar perseguições
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O chamado “marxismo cultural” não é uma teoria científica, mas uma construção conspiratória que atravessou diferentes contextos históricos — do nazismo aos Estados Unidos dos anos 1990 — até ser importada e adaptada ao Brasil. Sua função não é explicar a realidade, mas construir um inimigo fácil de identificar, usado como arma retórica por políticos e líderes religiosos para mobilizar apoiadores. Mais do que esclarecer debates, o termo serve à polarização política e à difusão de desinformação.
Assim como aconteceu com woke — uma palavra nascida no movimento negro e esvaziada de seu sentido original ao ser apropriada como insulto pela extrema direita —, o chamado “marxismo cultural” também se transformou em arma retórica. Neste caso, não a partir de uma experiência social legítima, mas como uma teoria conspiratória criada em ambientes ultraconservadores. Hoje, os dois termos circulam lado a lado nos discursos políticos e religiosos, usados não para favorecer debates, mas para simplificá-los e até mesmo para impedi-los.
Woke é uma palavra da língua inglesa: a conjugação do verbo wake, acordar, com o significado de “acordado”. A construção política do termo, nos Estados Unidos, remonta ao século XX, quando ganha significado no vocabulário das pautas afro-americanas. Nesse contexto, woke tornou-se alerta de vigilância contra a injustiça, hoje o termo é usado em memes, discursos políticos e pregações religiosas de forma bem diferente de sua origem. Importado do debate estadunidense, o termo woke ganhou força no Brasil como rótulo pejorativo.
Esta matéria integra a série especial Bereia Explica sobre termos usados para desinformação em discursos políticos e religiosos. Nesta primeira parte, são apresentadas a origem e a trajetória de woke. Na segunda, é introduzido o conceito de “marxismo cultural”, outro rótulo amplamente difundido em redes religiosas e políticas, também marcado por distorções históricas e ideológicas.
Primeiros registros do termo “Woke”
A National Association for the Advancement of Colored People (NAACP) – maior e mais antigo grupo de direitos civis da América dos Estados Unidos – afirma que, o uso do termo “woke” está documentado desde a década de 1920 e surgiu como um sinal interno ao grupo afro-americano, “incentivando os negros a estarem cientes dos sistemas que os prejudicam e, os colocam em desvantagem”.
O ativista Marcus Garvey, em sua coletânea The Philosophy and Opinions, publicada em 1923, apresenta a inspiradora convocação:
“Wake up Ethiopia! Wake up Africa! Let us work towards the one glorious end of a free, redeemed and mighty nation. Let Africa be a bright star among the constellation of nations.”
Imagem: The Majority Press
Esse apelo pode ser traduzido livremente como: “Acorde, Etiópia! Acorde, África! Trabalhemos em direção ao único e glorioso objetivo de uma nação livre, redimida e poderosa. Que a África seja uma estrela brilhante entre a constelação de nações”. Isto reflete o ideal pan-africanista e o chamado à emancipação coletiva promovido por Garvey, que inspirou o uso do termo woke em outras expressões de busca por justiça para a população negra.
De acordo com o jornalista e escritor Michael Harriot, autor do livro, Black AF History: The Un-Whitewashed Story of America, em 1940, após descobrir que estavam recebendo menos do que seus colegas brancos, o líder de um sindicato de mineiros negros na Virgínia Ocidental, que lançou uma greve contra salários discriminatórios, teria dito, segundo a pesquisa de Harriot: “Estávamos dormindo. Mas continuaremos acordados de agora em diante”
A investigação de Elijah Watson
O jornalista Elijah Watson realizou, em 2017,uma longa pesquisa sobre as origens do termo “woke”. Em uma série de três reportagens, Watson mostrou como o termo nasceu na cultura afro-americana, como sinônimo de estar acordado e atento às injustiças raciais, ganhou nova vida nos anos 2000 nas culturas hip hop e do soul com artistas como Erykah Badu e Georgia Anne Muldrow Por fim, foi desgastado e transformado em rótulo pejorativo, como sinônimo de radicalismo de esquerda.
📸 Imagem: Disco New Amerykah Part One (4th World War) (2008). Erykah Badu.
Watson analisa que o termo começou a perder força a partir de meados da década de 2010.
Se antes era positivo, sinônimo de consciência crítica, woke passou a ser usado também de forma pejorativa — inclusive por progressistas, que criticavam o uso performático e superficial da palavra. Com o tempo, o termo foi apropriado por influenciadores da extrema direita política como uma caricatura de militância exagerada.
Hoje, assinei um projeto de lei que acaba com a doutrinação woke em nossas escolas e locais de trabalho. Estamos dando a pais, estudantes e funcionários a capacidade de reagir — Ron DeSantis, 22 de abril de 2022
O percurso do termo woke mostra como uma palavra criada por negros estadunidenses para despertar consciências contra a desigualdade racial foi apropriada pelo público em geral e, depois, distorcida por interesses ideológicos.
Como lembra o jornalista Elijah Watson, as palavras evoluem rapidamente, e com as redes sociais esse processo se acelera: expressões criadas na comunidade negra logo são absorvidas, diluídas e até caricaturadas. Foi o que aconteceu com “woke”, que deixou de ser alerta contra injustiças para virar rótulo de disputa cultural. O processo teve a colaboração de meios de comunicação tradicionais — que tratam o termo como gíria de moda — e também de políticos interessados em transformá-lo em alvo.
Para especialistas, esse ataque não é apenas a uma palavra, mas à própria possibilidade de ensinar a história e reconhecer a dignidade da população negra. Como resume o escritor Michael Harriot, é mais fácil demonizar uma palavra do que admitir que se está atacando vidas e trajetórias humanas.
Uso político
O uso político do termo woke atingiu seu auge depois dos protestos de 2020 contra o racismo e a violência policial, quando milhões de norte-americanos buscaram aprender mais sobre racismo sistêmico e a história da anti negritude no país. Como resume o NAACP Legal Defense Fund:
“Mas quem é o culpado pela escalada especialmente febril em torno da palavra ‘woke’, que atingiu seu pico após o acerto de contas com a justiça racial de 2020, que na época inspirou uma onda de interesse entre os americanos que buscavam aprender mais sobre o racismo sistêmico e a história da anti-negritude neste país? A resposta, é claro, inclui políticos com motivações políticas e outros atores mal-intencionados que buscam disseminar o medo e impedir o progresso da justiça racial. Mas vai além disso.
Nos Estados Unidos, a disputa em torno da palavra woke chegou à legislação. O exemplo mais emblemático é a Stop WOKE Act , sancionada em 2022 pelo governador da Flórida, Ron DeSantis. A lei apresenta-se como uma defesa da “liberdade contra a doutrinação” nas escolas, proibindo o ensino de princípios associados à Teoria Crítica da Raça (CRT) e classificando treinamentos de diversidade como ilegais no ambiente de trabalho.
À primeira vista, a lei pode soar positiva: afirma incluir a história dos Estados Unidos, do Holocausto, de afro-americanos, hispânicos e mulheres, e se apresenta como proteção contra ideias discriminatórias. No entanto, especialistas e organizações de direitos civis apontam que, na prática, ela funciona como instrumento de censura, restringindo debates sobre racismo estrutural, privilégio e desigualdade. Pesquisadores compararam seus efeitos a antigas leis que proibiam a alfabetização de negros, agora aplicadas à proibição de um ensino crítico sobre raça.
O NAACP Legal Defense Fund alerta que a medida cria um efeito “gélido” nas salas de aula, levando professores e estudantes a se autocensurar por medo de retaliações. Há relatos de docentes que deixaram seus cargos por não terem liberdade de abordar sistemas racistas, além do bloqueio de programas de ensino avançado em estudos afro-americanos.
Assim, o termo woke, antes usado como alerta contra injustiças, é transformado em inimigo simbólico, mobilizado em políticas públicas que, sob a aparência de neutralidade, promovem o apagamento da história negra e freiam avanços em justiça racial e inclusão.
Como o termo circula em redes religiosas no Brasil
Neste enquadramento, praticamente tudo pode ser classificado como woke: desde debates sobre diversidade até produções culturais ou medidas de inclusão social. A palavra funciona, assim, como uma atualização de outros termos já usados no país com o mesmo propósito, como “ideologia de gênero” ou “marxismo cultural”, todos mobilizados para criar a sensação de que valores tradicionais estariam sob ataque.
Além de servir como rótulo genérico, woke foi incorporado às narrativas conspiratórias em redes religiosas no Brasil. Estudos recentes mostram que comunidades no Telegram com agendas anti-woke, anti-gênero e revisionistas formam uma parte central do debate conspiratório nacional. Ao ser usado como “insulto genérico”, “woke” perde seu sentido original de vigilância contra injustiças e passa a operar como arma retórica para controlar a linguagem e limitar os espaços de debate democrático.
Em paralelo, trabalhos do Instituto Atlas alertam para o fato de que o discurso político extremista que faz uso da religião para convencer tem reconfigurado o debate público, transformando woke em símbolo — inclusive sob o viés moral — de uma “máxima ameaça” à fé e à família.
A história do termo woke ajuda a entender como as palavras podem atravessar fronteiras culturais e ganhar novos sentidos em contextos distintos. O que nasceu como um chamado afro-americano para vigilância contra a injustiça racial foi absorvido pelo vocabulário popular, diluído pela mídia, apropriado por movimentos políticos e transformado em rótulo pejorativo em disputas ideológicas.
Nos Estados Unidos, essa transformação chegou ao ponto de orientar legislações que restringem o ensino crítico sobre raça. No Brasil, o termo “woke” circula com força em redes religiosas, apresentados como ameaças à fé e à família, em um processo que mistura moralidade, identidade e política.
Recuperar a origem e o verdadeiro significado desses termos é, portanto, um passo essencial para evitar simplificações e desinformação e para se compreender como a linguagem pode ser usada tanto para promover consciência quanto para justificar exclusões.
Passou a circular nas redes neste agosto de 2025, notícia de que o Ministério Público do Estado do Ceará (MP-CE) anunciou, em 15 de julho, a determinação da suspensão de todos os episódios da produtora Brasil Paralelo (BP) que tratam do caso Maria da Penha. O parecer é que são “uma campanha de ódio promovida nas redes sociais contra a farmacêutica!”.
A decisão da Justiça diz respeito à terceira temporada do projeto “Investigação Paralela”, publicado pela BP em 10 de julho de 2023, com o episódio nomeado “O Caso Maria da Penha”; A sinopse afirma:”o documentário vai te surpreender com uma das possíveis maiores reviravoltas do país”´.
“Investigação Paralela” é uma série do BP que tem como objetivo produzir documentários sobre casos populares e expor, o que a produtora anuncia ser, a veracidade dos fatos. No entanto, no episódio lançado em 10 de julho há uma série de inconsistências. Bereia checou o caso, uma vez que as produções da BP circulam amplamente em ambientes digitais religiosos.
O caso Maria da Penha
Maria da Penha Maia Fernandes foi vítima, em 1983, de dupla tentativa de feminicídio por parte do então marido Marco Antonio Heredia Viveiros. Primeiro, ele deu um tiro nas costas da mulher enquanto ela dormia. Como resultado dessa agressão, Maria da Penha, hoje com 80 anos, farmacêutica bioquímica de Fortaleza (CE) ficou paraplégica, além de outras complicações físicas e traumas psicológicos.
Após meses de tratamento e diversas cirurgias, Maria da Penha voltou para casa, onde foi posta em cativeiro pelo marido. Viveiros declarou à polícia que tudo não havia passado de uma tentativa de assalto, versão que foi posteriormente desmentida pela perícia. Passados 15 dias, o homem fez nova tentativa de assassinato ao tentar eletrocutá-la durante o banho. Receosa de sair de casa e perder a guarda das filhas pela possível alegação de abandono de lar, Maria da Penha ingressou na Justiça para se afastar legalmente de casa e garantir seus direitos, sendo amparada pela família e por amigos.
Concluídas as investigações, constatou-se que os atentados à vida de Maria da Penha haviam sido planejados e executados por Marco Antônio Viveiros. No entanto, o primeiro julgamento só aconteceu em 1991, oito anos depois dos crimes. Ele foi condenado a 15 anos de prisão, mas pôde recorrer em liberdade. Após muitos recursos, somente em 1996 aconteceu um novo julgamento, que resultou na redução da pena do ex-marido de Maria da Penha, a dez anos e seis meses de reclusão. Porém, por meio de alegações de irregularidades, a defesa conseguiu a anulação do julgamento.
Na busca incessante por reparação, o Centro para a Justiça e o Direito Internacional (CEJIL) e o Comitê Latino-americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM) denunciaram, em 1998, o caso de Maria da Penha para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH/OEA).
Mesmo diante de um litígio internacional, o qual trazia uma questão grave de violação de direitos humanos e deveres protegidos por documentos que o próprio Estado assinou, as instituições brasileiras permaneciam omissas e não se pronunciaram em nenhum momento durante o processo. Em 2001, após receber quatro ofícios da CIDH/OEA (1998 a 2001) − silenciado diante das denúncias −, o Estado foi responsabilizado por negligência, omissão e tolerância em relação à violência doméstica praticada contra as mulheres brasileiras.
A Lei Maria da Penha foi resultado da ação de um Consórcio de ONGs Feministas, em 2002, motivado pelo que Maria da Penha passou, diante da falta de medidas legais e ações efetivas, como acesso à justiça, proteção e garantia de direitos humanos a mulheres vítimas de violência doméstica e familiar. em 2002. O consórcio atuou pela elaboração de uma lei, o que, após muitos debates com o Legislativo, o Executivo e a sociedade, resultou em Projetos de Lei na Câmara e no Senado Federal e foi aprovado por unanimidade em ambas as Casas.
Uma das recomendações da CIDH foi reparar Maria da Penha tanto material quanto simbolicamente. O Estado do Ceará pagou a ela uma indenização e o governo federal, por meio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nomeou Lei 11.340/2006 com o nome Lei Maria da Penha, como reconhecimento da luta contra as violações dos direitos humanos das mulheres.
Maria da Penha no episódio da Brasil Paralelo
O episódio da Brasil Paralelo, publicado em 2023, oferece roteiro de desqualificação da memória de Maria da Penha e da relevância dela nas políticas de enfrentamento da violência contra mulheres. O conteúdo é baseado na tese de defesa do ex-marido e agressor condenado Marco Antonio Heredias Viveiros e dá voz a ele.
O documentário de 84 minutos recupera um documento que foi usado pela defesa de Viveiros no processo de 25 anos atrás. Foi alegado, à época, que houve uma troca de laudos periciais durante o processo para que o agressor fosse condenado. Na produção em vídeo é apresentado um suposto laudo de posse do ex-marido de Maria da Penha, que, sem motivo determinado, não foi anexado ao processo judicial.
Na investigação decorrente de denúncia contra a veiculação do documentário, o MP-CE afirma que o referido laudo é resultante de um crime de falsificação de documento público, com irregularidades claras, como baixa qualidade na imagem, diferenças nas assinaturas e até mesmo erros de datilografia.
Comparação do laudo verdadeiro com o laudo apresentado por Marco Antonio.
Na operação do último 15 de agosto, o MP-CE cumpriu um mandado de busca e apreensão na cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, contra um dos suspeitos do envolvimento nas campanhas de ódio promovida nas redes sociais contra a farmacêutica Maria da Penha. Além disso, a 9ª Vara Criminal de Fortaleza determinou a suspensão de todos os episódios do documentário por 90 dias.
Na ação foram apreendidos aparelhos eletrônicos e documentos que seguirão para análise no MP do Ceará. Segundo o órgão, a medida visa aprofundar a investigação de crimes cibernéticos e perseguição virtual praticados nas redes sociais contra Maria da Penha desde o início da investigação, no primeiro semestre de 2024.
Reação da produtora
Em nota à imprensa, a liderança da Brasil Paralelo alega ser alvo de censura pelo MP-CE, “Trata-se de um ato grave, que fere frontalmente a liberdade de imprensa e o direito constitucional à livre expressão do pensamento. Estamos diante da censura prévia de um conteúdo jornalístico, algo inaceitável em qualquer democracia séria”.
Como veículo é vinculado e serve a pautas da direita extremista, a reação da Brasil Paralelo tem ampla repercussão nas redes deste grupo político e de apoiadores.
Captura feita do X do perfil “Chequei Ancap”, projeto autodeclarado como contra a censura.
O episódio não foi a última vez que a BP direcionou ataques à integridade de Maria da Penha. Em agosto de 2023, a produtora publicou um artigo com a divulgação de conteúdo que contesta a memória do caso e dá crédito à versão oposta do ex-marido agressor.
Título do artigo produzido pela redação da Brasil Paralelo em 2023
É importante mencionar a participação do diretor-presidente do Instituto de Defesa do Direito do Homem (IDDH) Alexandre Paiva no documentário suspenso pelo MP-CE. Paiva cumpre uma medida protetiva, requerida há quase seis anos, por meio da Lei Maria da Penha, pela ex-esposa, que inclui as duas filhas do ex-casal. Desde então, o diretor do IDDH faz uso de seus perfis em redes sociais para propagar discursos contra a principal lei antifeminicídio do país.
Em sua biografia em perfil de mídia social, Paiva afirma estar “alertando sobre o mal uso da Lei Maria da Penha”.
Reprodução do perfil de Alexandre Paiva no Instagram
Alexandre Paiva é um dos principais personagens do documentário produzido pelo Brasil Paralelo, tendo a primeira aparição nos primeiros minutos, com fala em defesa de Viveiros.
Sobre a Brasil Paralelo
A Brasil Paralelo é uma empresa brasileira, fundada em 2016, que produz conteúdo audiovisual sobre política, história, filosofia e outras áreas do conhecimento afins, sob um viés conservador e alinhado às pautas da extrema direita politica que se intensificou no período.
Na pesquisa de Mestrado em História, pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Mayara Aparecida Machado expõe o objetivo do conteúdo publicado pela Brasil Paralelo. o estudo mostra que a produtora busca apresentar versões paralelas e negacionistas de questões sociais importantes historicamente desenvolvidas entre pesquisadores e jornalistas brasileiros, os quais a organização acusa de serem “esquerdistas”. Além disso, a BP defende explicitamente valores políticos da direita, do ultraconservadorismo moral e do Cristianismo fundamentalista.
Mayara Machado mostra que o escritor e ativista da direita Olavo de Carvalho é a principal referência da BP, que é 8articulada por pessoas e entidades representativas desse grupo político, como o Instituto Millenium, o Instituto de Estudos Empresariais, o Fórum da Liberdade, o Instituto Liberal, o Instituto Borborema e o Instituto Von Mises Brasil. Os materiais da BP, de acordo com a pesquisa de Machado, são voltados à produção e à disseminação de conteúdos sobre o que seus articuladores consideram ser a “verdadeira” história do país.
Como parte das investigações, Malafaia foi alvo de mandado de busca pessoal e de apreensão de celulares pela PF no último dia 20 de agosto. A investigação faz parte de inquérito que diz respeito a possível coação e obstrução no curso do processo no Supremo Tribunal Federal (STF), no qual o ex-presidente Jair Bolsonaro é réu por tentativa de golpe de Estado em 2022-2023.
Em vídeos publicados em seus perfis em mídias sociais, o pastor Malafaia diz ter tomado conhecimento sobre a inclusão dele no inquérito após notícia exclusiva veiculada pelo canal de TV GloboNews, sem ter sido notificado pela PF. O líder religioso alega censura e relaciona a suposta perseguição religiosa que estaria sofrendo a momentos históricos, como o nazismo de Adolf Hitler.
O Inquérito n. 4.995/DF foi aberto pela PF em maio de 2025, com o objetivo de investigar ações de obstrução da Justiça praticadas pelo deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) a partir dos Estados Unidos. O parlamentar estaria agindo para que o governo daquele país exerça pressões com sanções sobre o comércio com o Brasil e sobre ministros do STF, com o objetivo de impedir o curso do processo que levará a julgamento o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros seis aliados, em setembro próximo.
O pastor Malafaia foi incluído no processo com base em “suposta participação em crimes de coação no curso do processo (artigo 344 do Código Penal), obstrução de investigação envolvendo organização criminosa (Lei 12.850/2013) e abolição violenta do Estado Democrático de Direito (artigo 359-L do Código Penal)”, de acordo com informações do Portal do STF. A investigação é um desdobramento do inquérito que apura a conduta de Eduardo Bolsonaro.
A Ordem de Ministros do Evangelho de Palmas e Tocantins (OMEP-TO), como filiação de pastores, bispos e apóstolos de igrejas pentecostais, por outro lado, publicou uma carta de repúdio. O texto não cita nominalmente Silas Malafaia, mas alega que os filiados à OMEP-TO repudiam qualquer forma de perseguição religiosa e censura à manifestação da fé cristã no país. A carta diz, de forma genérica, que está havendo uma perseguição a um pastor evangélico.
Imagem: Reprodução/ANAJURE
O pastor da Igreja da Lagoinha André Valadão, o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) também se posicionaram contra a inclusão de Silas Malafaia no inquérito da PF. As personalidades públicas usaram os argumentos de que Malafaia estaria sendo perseguido por usar seu direito à liberdade de expressão.
Recorrentemente, personalidades que praticam ilegalidades e são investigadas ou condenadas judicialmente por seus atos alegam ser vítimas de perseguição religiosa e censura, em busca de apoio de fiéis. O pastor Silas Malafaia tem declarado que a suposta perseguição de Alexandre de Moraes não é mais somente política, mas também religiosa.
O pastor e deputado federal Marco Feliciano (PL-SP) e o pastor Cláudio Duarte também defenderam Silas Malafaia sob argumentos de que ele estaria sofrendo suposta perseguição. Em vídeos republicados pelo presidente da Assembleia Vitória em Cristo em suas contas nas mídias sociais, os pastores evangélicos defendem que Malafaia está sendo perseguido por ‘criticar o poder’ e o ‘sistema’.
Não existe perseguição sistemática a cristãos no Brasil
A perseguição religiosa é, em termos simples, a opressão a pessoas com base em suas crenças religiosas. No entanto, a cientista social do Laboratório de Antropologia e Religião da Universidade de Campinas (Unicamp) Brenda Carranza, em artigo publicado pelo Bereia, explica que a perseguição voltada a cristãos, que vem sendo chamada de “cristofobia” em campanhas políticas, não se aplica ao Brasil.
O Brasil é um país com maioria histórica, demográfica e simbolicamente cristã. É o Cristianismo sua matriz cultural, a orientação de seu código de costumes e o horizonte jurídico que impregna direitos fundamentais garantidos por lei na Constituição de 1988. Ainda que por diversos motivos, entre eles de cunho político, tanto no passado remoto quanto no recente, tenham-se registrado perseguições a pessoas que se confessam cristãs, atualmente isso não é um fato. Mesmo assim, no passado essa perseguição não era explicitada como sendo uma perseguição religiosa em massa, nem se colocava o sistema jurídico, policial e/ou militar para a perpetrar. Atualmente o Brasil não pode ser enquadrado entre os países como a Índia e no Oriente Médio, nos quais existe, em diferentes graus, essa perseguição por motivos religiosos. Contudo, dentro do Cistianismo e fora não tem sido referido como cristofobia e sim como perseguição aos cristãos, como o próprio Papa Francisco se referiu no seu discurso à ONU em ocasião do seu 75º aniversário, na mesma data do pronunciamento do Sr. Presidente Bolsonaro.
Não há registros de inquéritos policiais ou processos judiciais no Brasil regido pela Constituição Cidadã de 1988 abertos por conta da vinculação religiosa de alguém. Pelo contrário, a intolerância religiosa é tipificada como crime no país pela Lei nº 7.716/1989, que prevê penas de reclusão e multa.
No caso do pastor Malafaia, Bereia verificou que o texto do inquérito colocado à disposição do público explicita que ele não é investigado por ser pastor ou ser cristão. Silas Malafaia foi incluído na investigação por suspeitas de coação da Justiça e ações de obstrução do processo contra Jair Bolsonaro.
Declaração com este conteúdo foi dada em entrevista à GloboNews em 22 de agosto, pelo deputado federal e pastor da Assembleia de Deus Otoni de Paula(MDB-RJ) afirmou que não há perseguição religiosa a Malafaia, visto que ele não está no inquérito por pregar a palavra de Deus ou manifestar sua fé.
Reprodução/Mídias sociais
Silas Malafaia e a propagação de falsidades
O pastor Silas Malafaia é notório propagador de desinformação. Bereia já publicou matéria sobre as condenações judiciais do líder religioso por promover calúnia e conteúdo fraudulento. Em novembro de 2024, ele foi condenado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo a publicar uma retratação pública após ser acusado de propagar desinformação contra o Partido dos Trabalhadores (PT), afirmando que o partido invadiu o Congresso Nacional em 2017.
O pastor também já foi condenado a pagar R$100 mil ao ex-deputado federal Marcelo Freixo (PSB-RJ, então Psol) após promover uma campanha difamatória durante a campanha eleitoral para a Prefeitura do Rio em 2016, dizendo que Freixo apoiava “cartilhas eróticas” e a sexualização de crianças.
Já em 2022, o líder religioso foi condenado a pagar uma multa à jornalista Vera Magalhães por danos morais, após afirmar que esta recebia R$500 mil por ano do governo João Dória (PSDB-SP) para tecer críticas ao então presidente Jair Bolsonaro.
O pastor Malafaia tem obtido destaque no noticiário desde 2023 como o organizador de manifestações de rua contra a prisão de condenados pelos atos de atentado ao Estado Democrático de Direito, de 8 de janeiro de 2023, e contra o processo que responsabiliza o ex-presidente Jair Bolsonaro de golpe de Estado.
Desde então, o pastor tem usado seus perfis nas mídias sociais para atacar o STF e o ministro relator dos casos na Corte, Alexandre de Moraes, chamado por ele de “ditador de toga”. Sobretudo desde o anúncio do presidente dos Estados Unidos Donald Trump de imposição de sobretaxação dos produtos importados do Brasil, articulada por Eduardo Bolsonaro, Malafaia passou a defender publicamente o impeachment de Moraes.
Desdobramentos do caso acompanhados pelo Bereia
Apesar da lista de apoios que vem sendo propagada nas redes de Silas Malafaia, é fato que muitos evangélicos destacados não se manifestaram a respeito dos acontecimentos envolvendo o pastor presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. Os líderes da Igreja Universal do Reino de Deus, bispo Edir Macedo, o missionário da Igreja Internacional da Graça Romildo Ribeiro Soares (R.R. Soares) e o apóstolo da Igreja Mundial do Poder de Deus Valdemiro Santiago estão entre as personalidades religiosas que não se pronunciaram, seja em seus próprios espaços digitais, seja em listas de assinaturas, conforme verificação do Bereia.
O cenário controverso no qual Malafaia está inserido, foi agravado após a divulgação de áudios trocados entre ele e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), nos quais Malafaia se utiliza de xingamentos e palavras obscenas, conforme apuração do UOL. Além do deputado federal pastor Otoni de Paula (MDB-RJ), citado nesta matéria, foram muitos os influenciadores evangélicos que criticaram a postura de Malafaia nas redes digitais.
O volume de críticas levou Silas Malafaia a publicar um vídeo, em 23 de agosto, por meio do qual pede desculpas pelos palavrões e xingamentos que apareceram em áudios divulgados pela Polícia Federal nesta semana.
Imagem: Reprodução de vídeo publicado no perfil de Silas Malafaia no X
No pronunciamento, o pastor reconheceu que muitos fiéis se incomodaram com o que foi divulgado: “Alguns irmãos evangélicos criticaram o meu jeito de falar”, afirmou. O pastor então pediu desculpas, mas defendeu-se citando passagens bíblicas. Entre as citações, Malafaia referiu-se a palavra de Jesus “Quem não tem pecado, atire a primeira pedra”: “Quem é aí que nunca falou uma palavra indevida ou um palavrão ou pensou só em você pensar? Não precisa falar não, você tá pecando”, questionou o pastor.
Porém, o pastor Malafaia, em seguida, passou a condenar os críticos e a Justiça brasileira. “Os que me criticaram não falaram do crime que cometeram. É inviolável a privacidade, artigo 5º, inciso 10º da Constituição, que são as garantias individuais. É crime. É crime manifestar a privacidade de alguém. Eles não criticaram isso, não falaram nada”, condenou, e fez mais menções à Bíblia: “Tipo de hipócritas engolem camelo e se engasgam com os mosquitos”.
No vídeo, Silas Malafaia também buscou se antecipar a possíveis novos escândalos, oriundos de conversas armazenadas em seu aparelho celular apreendido pela PF, em 20 de agosto. Novamente, o conteúdo pode ser tornar público por meio do acesso livre ao inquérito, publicado nos espaços digitais do Judiciário. Por isso ele disse: “Aqueles que ficaram escandalizados com as minhas palavras, me perdoem, porque eu tenho fraquezas. Então me perdoe, mas quero dar um aviso: se essa Gestapo de Alexandre Moraes vazar conversas privadas do meu telefone, deve ter até palavrão”.
A condenação aplicada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo estipulou o prazo de 15 dias para se cumprir o pagamento da indenização
Decisão foi formulada pelo juiz Carlos Brito, em 25 de julho passado, que decretou que o ex-procurador da República e ex-deputado federal Deltan Dallagnol indenize, em R$ 135 mil, Luiz Inácio Lula da Silva. A indenização por danos morais é mais um caso judicial que envolve irregularidades e desinformação relacionada à Operação Lava Jato. Nesta caso, está em questão o destacado PowerPoint, apresentação à imprensa sobre a investigação em torno de um triplex no Guarujá (SP), em 14 de setembro de 2016, na qual Dallagnol expôs o hoje presidente da República Lula como “líder de uma organização criminosa”.
A Justiça decidiu pela condenação por entender que o réu extrapolou os limites da sua função como procurador. Segundo o parecer judicial, foram feitas acusações de situações que não estavam entre as denúncias investigadas, foi usada linguagem inapropriada diante de uma exposição da Procuradoria da República e emitido um juízo de culpa precoce a Lula.
Imagem: Reprodução de mídias sociais
O valor da indenização (R$ 135.416,88) inclui correção monetária, juros (já que o caso corre na Justiça desde 2016) e honorários advocatícios. Se Dallagnol não realizar o pagamento no prazo estipulado (15 dias), ele terá que pagar multa de 10% sobre o valor, além de 10% de honorários do advogado.
O ex-deputado pelo Podemos/PR, cuja candidatura foi cassada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por irregularidades nas contas da campanha eleitoral de 2022, ainda pode entrar com uma ação para questionar a correção do valor da indenização. Porém, não cabe mais recurso por já ter tramitado em instâncias superiores.
Na tarde deste 30 de julho, o deputado federal autodeclarado cristão Mário Frias (PL-RJ) republicou em suas redes um conteúdo falso sobre a filha do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso, Luna Barroso, ser escoltada e deportada dos EUA. A mentira circula desde o dia 19 de julho passado, depois do anúncio das ameaças de sanções daquele país contra exportações do Brasil e oito ministros do STF. Grupos alinhados e simpatizantes do extremismo de direita espalharam o conteúdo que foi verificado pelo Bereia e demais agências de checagem.
A “requentada” na desinformação deu fôlego ao conteúdo, impulsionando milhares de compartilhamentos entre perfis de políticos e religiosos apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. Estes grupos propagam que o Brasil se renderá diante das ameaças dos EUA pela concessão de anistia dos crimes do militar, que é réu por tentativa de golpe nas eleições de 2022.
Em resposta à agência Reuters, o STF negou que a filha do ministro estude nos Estados Unidos e afirmou que “também é mentira que ela será deportada. A única filha de Barroso mora no Brasil”.
A desinformação, articulada por perfis de extrema direita, ocorreu um dia após a prisão da deputada federal Carla Zambelli (PL-SP), na Itália, foragida depois de condenada por invadir o sistema digital do STF. A nova circulação também se dá na esteira da imposição formal das tarifas contra exportações brasileiras pelos EUA, acompanhada de sanções mais duras ao ministro do STF Alexandre de Moraes, relator do processo de golpe nas eleições de 2022, anunciadas em 30 de julho.
Uma pesquisa realizada entre 11 e 13 de julho de 2025, pelo instituto Atlas Random Digital Recruitment (RDR) analisou a percepção da população brasileira sobre a taxação de 50% aplicada pelo ex-presidente dos Estados Unidos (EUA) Donald Trump, a produtos brasileiros. O levantamento também detalha como diferentes segmentos religiosos reagiram à medida adotada pelo atual presidente dos Estados Unidos.
Com base nos dados, Bereia realizou um balanço das respostas do público religioso, organizou as informações principais, e ressaltou as diferenças de opinião entre evangélicos, católicos e pessoas de outras religiões. Além disso, Bereia identificou na pesquisa os níveis de aprovação, rejeição e indecisão em relação à política tarifária dos Estados Unidos.
A metodologia utilizada na pesquisa Atlas, conta com uma tecnologia que dispensa contato direto entre entrevistador e entrevistado e garante maior anonimato e neutralidade nas respostas ao recrutar participantes de forma orgânica durante a navegação na internet, em qualquer dispositivo conectado.
Percepção da taxação de Trump por grupo religioso
A pesquisa Atlas, contratada pela empresa global de informações financeiras Bloomberg, foi realizada entre os dias 11 e 13 de julho de 2025 e está estruturada em quatro eixos temáticos: 1. Aprovação presidencial; 2. Política externa do governo Lula; 3. Tarifas de Trump; 4. Imagem dos Estados Unidos e de Donald Trump.
O foco do balanço do Bereia é o terceiro eixo, abordado a partir da página 24 do relatório divulgado. Os entrevistados foram questionados sobre a seguinte questão: “Na sua opinião, a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de taxar em 50% os produtos brasileiros, é justificada ou injustificada?”
As respostas revelam percepções distintas entre os grupos religiosos, como demonstram os dados a seguir:
Grupo religioso
Injustificada (%)
Justificada (%)
Não sei (%)
Católicos
66,9%
32,1%
1%
Evangélicos
44,9
53,1
2
Outra religião
64,5
35
0,5
Crente sem religião
52,3
47,6
0,1
Agnóstico ou ateu
78,6
21,4
0
Injustificada (%)
Justificada (%)
Não sei (%)
Dados gerais do total de 2841 respondentes
62,2
36,8
1
Os dados apresentados acima revelam diferenças marcantes entre os grupos religiosos quanto à percepção da taxação imposta por Donald Trump sobre produtos brasileiros. A maioria de católicos (66,9%), de pessoas com outra religião (64,5%) e especialmente agnósticos ou ateus (78,6%) consideram a medida injustificada, por ampla quantidade de respostas, com média de 70%, somados à maioria dos crentes sem religião que consideram o mesmo, com 52,3%, menor índice em relação aos demais.
Já os evangélicos se destacam como o único grupo em que a maioria (53,1%) considera a taxação justificada.
Este quadro chama a atenção por evidenciar a construção de uma possível afinidade maior deste grupo religioso, evangélicos, com políticas protecionistas radicais, caso da taxação imposta ao Brasil e outros países, e/ou com a figura do ex-presidente estadunidense. Já o índice de indecisos (os que responderam “Não sei”) foi baixo em todos os segmentos, com destaque para os agnósticos/ateus (0%) e crentes sem religião (0,1%), o que indica que a maioria dos entrevistados sabe do que se trata e tem opinião formada sobre o tema.
Veja os demais dados de cada pergunta do eixo três:
Na sua opinião, qual foi a principal motivação que levou Donald Trump a anunciar uma taxação de 50% sobre produtos brasileiros?
Grupo religioso
Retaliação contra a participação nos Brasil na Brics (%)
Atuação da família Bolsonaro junto a Donald Trump (%)
Retaliação contra decisões do STF sobre redes sociais americanas (%)
Desejo genuíno de tornar o comércio com o Brasil mais favorável aos EUA (%)
Não sei (%)
Católicos
33,2
47,7
16,6
2,5
0
Evangélicos
50,9
15,4
24,1
9,4
0,1
Outra religião
37
36,2
12,5
6,4
7,8
Crente sem religião
59,7
12,4
20,2
0,5
7,2
Agnóstico ou ateu
36,6
54
9,4
0
0
Dados gerais do total de 2841 respondentes
40,9
36,9
16,8
3,5
1,9
A análise dos dados revela percepções bastante distintas entre os grupos religiosos sobre o que teria motivado Donald Trump a anunciar a taxação de 50% sobre produtos brasileiros. Entre católicos, pessoas de outra religião e agnósticos/ateus, prevalece a compreensão enfatizada no noticiário de que a medida foi influenciada pela articulação da família Bolsonaro com o governo dos EUA. O destaque expressivo é da avaliação de agnósticos e ateus (54%), que são seguidos por católicos (47,7%) e pessoas de outra religião (36,2%).
A hipótese de retaliação dos EUA contra decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre responsabilização de redes sociais digitais na propagação de conteúdo ilícito aparece com quantidade de respostas moderada, especialmente entre evangélicos (24,1%) e crentes sem religião (20,2%), o que sugere uma afinidade destes grupos com esta abordagem disseminada nas redes digitais por políticos e comentaristas críticos à atuação da Corte neste quesito.
A opinião relacionada ao “desejo de favorecer os EUA comercialmente” teve poucas respostas em todos os grupos, o que afirma a percepção das pessoas com identidade religiosa entrevistadas de que a medida teve motivações mais políticas do que econômicas.
O número de indecisos é muito baixo entre a maioria dos grupos, o que demonstra um alto nível de engajamento e opinião formada sobre o tema, com exceção das pessoas das categorias “outra religião” (7,8%) e “crentes sem religião” (7,2%), nas quais a incerteza aparece de forma mais significativa.
Na sua opinião, as justificativas usadas por Donald Trump ao decidir taxar em 50% produtos brasileiros a partir de 1º de agosto podem ser consideradas uma ameaça à soberania brasileira?
Grupo religioso
Sim, configuram uma ameaça à soberania brasileira (%)
Não, não configuram uma ameaça à soberania brasileira (%)
Não sei (%)
Católicos
44,6
54
1,4
Evangélicos
53,2
46,7
0,2
Outra religião
53
38,4
8,6
Crente sem religião
36,8
63,2
0
Agnóstico ou ateu
75,8
24,2
0
Dados gerais do total de 2841 respondentes
50,3
47,8
1,8
Os dados mostram que a percepção sobre a taxação de produtos brasileiros por Donald Trump como uma ameaça à soberania nacional tem uma curiosa variação entre os grupos religiosos. Agnósticos ou ateus são os que mais veem a medida como uma afronta à soberania do Brasil, com 75,8% expressando essa visão, seguidos por pessoas de religiões não cristãs (53%).
O único grupo religioso destacado com maioria mais expressiva são os crentes sem religião. 63,2% desta categoria consideram que não há ameaça à soberania nacional, uma abordagem assumida por políticos, grupos da direita política e aliados, que procuram colocar a responsabilidade da taxação sobre o governo federal e sobre o STF, como indicado nas questão anterior.
Neste ponto católicos e evangélicos estão divididos de forma oposta. Entre os primeiros, uma pequena maioria (54%) não considera a taxação uma ameaça à soberania, enquanto evangélicos, também em maioria não muito ampla (53,2%), pensa o contrário, que, sim, representa uma intimidação. Nestes dois grupos a divergência vem de parcelas significativas: 44,6% de católicos acreditam que a soberania brasileira está ameaçada pelas tarifas, ao passo que 46,7% de evangélicos avaliam que não.
O número de indecisos permanece baixo em todos os grupos, com exceção das pessoas com outra religião (8,6%), o que evidencia que, no geral, os entrevistados têm acompanhado notícias sobre esta disputa.
Como você avalia a reação do governo brasileiro diante das tarifas aplicadas pelo governo Trump sobre os produtos brasileiros?
Grupo religioso
Adequada (%)
Agressiva (%)
Fraca (%)
Não sei (%)
Católicos
41,7
27,2
28,2
2,8
Evangélicos
20
39,1
40,1
0,3
Outra religião
76,1
17
4,4
2,5
Crente sem religião
38
44,4
15,6
2
Agnóstico ou ateu
80
5,6
6
8,4
Dados gerais do total de 2841 respondentes
44,8
27,5
25,2
2,5
A avaliação da resposta do governo brasileiro às tarifas impostas por Donald Trump revela uma forte divergência entre os grupos religiosos. Agnósticos ou ateus (80%) e pessoas com outra religião (76,1%) consideram a reação adequada, demonstram alto grau de aprovação do governo federal e, possivelmente, uma visão mais institucional ou diplomática da postura do governo.
Em contraste, evangélicos se mostram mais críticos, com apenas 20% que consideram a resposta adequada, enquanto a maioria (79,2%) a percebe como fraca (40,1%) e agressiva (39,1%), o que sugere insatisfação com os posicionamentos adotados.
Entre os crentes sem religião, a avaliação é mais dividida, com 38% que tomam as ações do governo como adequadas, embora 44,4% as consideram agressivas e 15,6%, fracas, dados negativos que somam 60%. De igual modo, católicos se dividem entre 41,7% que veem a reação como adequada, 28,2% como fraca e 27,2% como agressiva, somando 55,4% de indicadores com denotação negativa.
Os índices de indecisão foram baixos na maioria dos grupos, exceto entre agnósticos ou ateus (8,4%).
Você acredita que o governo federal será capaz de negociar e chegar a um acordo com os Estados Unidos para reduzir as tarifas aplicadas sobre os produtos brasileiros?
Grupo religioso
Sim (%)
Não(%)
Não sei (%)
Católicos
50,2
34,6
15,2
Evangélicos
18,8
65,1
16,1
Outra religião
61,4
29
9,6
Crente sem religião
43,6
42,9
13,4
Agnóstico ou ateu
74,1
19,8
6,1
Dados gerais do total de 2841 respondentes
44,7
38,8
13,3
Os dados demonstram que a confiança na capacidade do governo brasileiro de negociar com os Estados Unidos para reduzir as tarifas varia significativamente entre os grupos religiosos. Agnósticos ou ateus (74,1%) e os com outra religião (61,4%) são os mais otimistas, e indicam maior confiança na atuação diplomática do governo federal.
Católicos também tendem ao otimismo, com 50,2% que acreditam na possibilidade de um acordo, embora uma parcela considerável (34,6%) demonstre ceticismo, com um número significativo de pessoas nesta categoria que não sabem ou não querem responder, 15%.
Já entre os crentes sem religião, as opiniões estão divididas, com 43,6% que confiam na negociação e 42,9% que não acredita no sucesso mais uma boa parcela que não sabe responder, 13,4%.
O grupo mais descrente das ações do governo federal é o dos evangélicos, com expressivos 65,1% que acreditam que o não conseguirá reverter as tarifas, e apenas 18,8% com confiança em um possível acordo, o menor índice entre todos os grupos, que divide a balança com os 16,1% que não sabem ou optaram por não responder. Tais respostas se mostram coerentes com a tendência de crítica ao governo federal presente nas demais registradas por este grupo.
Como você avalia o impacto econômico das tarifas de Trump na economia brasileira?
Grupo religioso
Alto impacto (%)
Baixo impacto (%)
Muito alto impacto (%)
Nenhum impacto (%)
Não sei (%)
Católicos
43,6
35
14,9
2,1
4,4
Evangélicos
61,7
16
21,4
0
0,9
Outra religião
55,1
32,1
6,8
0,4
5,6
Crente sem religião
44,2
24,2
17,4
13,9
0,3
Agnóstico ou ateu
42,1
45,2
9,9
0,9
1,9
Dados gerais do total de 2841 respondentes
48,6
30,8
14,9
2,4
3,2
Como você avalia o impacto da política de aumento de tarifas do governo Trump sobre a inflação e o crescimento econômico do Brasil especificamente?
Grupo religioso
Inflação: Vai aumentar? (%)
Inflação: Não terá impacto? (%)
Inflação: Vai diminuir? (%)
Inflação: Não sei (%)
Católicos
70,9
15,3
5,8
8,1
Evangélicos
85,4
11
1,2
2,4
Outra religião
66,3
19,3
10,2
4,2
Crente sem religião
72,5
17,5
4,8
5,5
Agnóstico ou ateu
49,3
33,5
14,7
2,5
Dados gerais do total de 2841 respondente
70
18
6
6
Grupo religioso
Crescimento econômico: Vai aumentar? (%)
Crescimento econômico: Não terá impacto?(%)
Crescimento econômico: Vai diminuir? (%)
Crescimento econômico: Não sei (%)
Católicos
6,9
15,1
70,1
8
Evangélicos
3,2
8,9
85,7
2,1
Outra religião
5,5
23,3
64,9
6,4
Crente sem religião
11,9
7,9
77,5
2,7
Agnóstico ou ateu
15,2
24
58,9
1,9
Dados gerais do total de 2841 respondente
8
15
72
5
Estas respostas foram obtidas de uma mesma pergunta na pesquisa sobre o impacto econômico das tarifas impostas por Donald Trump na economia brasileira. A grande maioria de todos os grupos religiosos avalia que ele existirá e que será alto e muito alto.
Os evangélicos são os que mais avaliam que a medida impactará a economia, com total de 83,1% entre alto (61,7%) e muito alto (21,4%). O grupo mais dividido é o de agnósticos ou ateus com 52% que acreditam que haverá impacto entre alto, 42,1%, e muito alto, 9,9%, e 45,2% que percebem que ele será baixo.
De forma geral, os diferentes grupos religiosos veem a política tarifária dos EUA como negativa tanto para a inflação quanto para o crescimento econômico do Brasil, embora existam nuances importantes entre eles.
A percepção de que a inflação vai aumentar, é majoritária em todos os segmentos, com destaque para evangélicos (85,4%), crentes sem religião (72,5%) e católicos (70,9%), o que sinaliza uma preocupação ampla com o impacto direto nos preços. Já entre agnósticos ou ateus, este índice é bem menor (49,3%), com uma parcela expressiva (33,5%) que afirma que não haverá impacto.
Em relação ao crescimento econômico, o pessimismo é ainda mais acentuado. A avaliação de que ele vai diminuir é predominante em todos os grupos, especialmente entre evangélicos (85,7%), crentes com outra religião (77,5%) e católicos (70,1%). Mesmo entre os agnósticos ou ateus, grupo que mostrou mais moderação quanto à inflação, 58,9% acreditam e retração econômica, embora também sejam os mais propensos a enxergar estabilidade (24%) e crescimento (15,2%).
As respostas demonstram uma percepção generalizada de que a medida tarifária terá consequências inflacionárias e recessivas, com variações na intensidade da percepção a depender da identidade religiosa.
Você acha que o governo federal deveria retaliar os Estados Unidos diante da decisão de Trump de taxar os produtos do Brasil?
Grupo religioso
Sim (%)
Não (%)
Não sei (%)
Católicos
58,7
39,7
1,6
Evangélicos
16,2
63,2
20,6
Outra religião
64,3
24,9
10,8
Crente sem religião
34,4
48,2
17,4
Agnóstico ou ateu
78,5
20,9
0,6
Dados gerais do total de 2841 respondentes
51,2
40,9
7,9
Os dados revelam posições contrastantes entre os grupos religiosos quanto à ideia de o governo federal retaliar os EUA após a taxação dos produtos brasileiros por Donald Trump. Agnósticos ou ateus são os mais favoráveis à retaliação, com expressivos 78,5% que defendem essa postura, seguidos por pessoas de outras religiões (64,3%) e católicos (58,7%), o que demonstra uma forte adesão à ideia de uma resposta firme e simétrica.
Em contraposição, os evangélicos são majoritariamente contrários à retaliação, com 63,2% que rejeitam a medida e apenas 16,2% favoráveis, o menor índice entre todos os grupos analisados. Tal posição é coerente com a questão em que a maioria deste grupo respondeu que as medidas impostas pelos EUA se justificam.
Os crentes sem religião também tendem a ser mais contrários à retaliação (48,2%), embora com uma divisão mais equilibrada. O alto índice de indecisos entre evangélicos (20,6%) e crentes sem religião (17,4%) é significativo, indicando, possivelmente, dúvidas sobre as consequências de tal ação.
Como você acha que o governo deveria retaliar os Estados Unidos? Escolha a opção que você considera mais adequada.
Grupo religioso
Aumentar tarifas sobre produtos americanos (%)
Reforçar relações diplomáticas e comerciais com rivais dos EUA, como a China (%)
Reduzir a dependência do dólar americano (%)
Suspender pagamentos de direitos autorais e patentes de medicamentos americanos (%)
Impor restrições a investimentos norte- americanos (%)
Outra medida (%)
Católicos
51,8
33,9
9,7
1,9
0,8
2
Evangélicos
56,1
14,1
29,1
0,1
0
0,2
Outra religião
51,8
25,3
16,1
1,1
3,6
2,1
Crente sem religião
35,8
33,7
18,7
1,7
5,8
4,3
Agnóstico ou ateu
54,8
19,1
19,4
6,3
0,3
0
Dados gerais do total de 2841 respondentes
51,2
28,6
14,5
2,4
1,5
1,8
Os dados indicam que, entre os diferentes grupos religiosos, há uma preferência clara por medidas econômicas diretas como forma de retaliação à taxação imposta pelos Estados Unidos. A opção mais escolhida por todos os grupos foi “aumentar tarifas sobre produtos americanos”, com destaque entre evangélicos (56,1%), agnósticos ou ateus (54,8%), católicos (51,8%) e pessoas de outras religiões (51,8%), o que revela um consenso em torno de uma resposta comercial simétrica.
Posteriormente, aparece a estratégia de reforçar relações com rivais dos EUA, como a China, com maior adesão entre católicos (33,9%) e crentes sem religião (33,7%).
Chama a atenção que os evangélicos tenham sido os que mais rejeitaram esta opção, com apenas 14,1% de escolhas dela no grupo.
A proposta de reduzir a dependência do dólar americano também tem algum apelo, especialmente entre evangélicos (29,1%) e crentes sem religião (18,7%), o que sugere coerência com as respostas relacionadas à defesa da soberania nacional. Medidas mais radicais, como suspender o pagamento de patentes de medicamentos e de impor restrições a investimentos estadunidenses tiveram baixíssima adesão.
As relações entre Brasil e Estados Unidos ficarão mais fortes ou mais fracas com a política de aumento de tarifas do governo Trump?
Grupo religioso
Ficarão mais fracas (%)
Ficarão iguais (%)
Ficarão mais fortes (%)
Não sei (%)
Católicos
74,6
17,6
1,5
6,2
Evangélicos
86,1
10,1
3,2
0,6
Outra religião
80,4
19,2
0
0,4
Crente sem religião
67,1
27,6
0,1
5,3
Agnóstico ou ateu
67,5
22,6
0,7
9,3
Dados gerais do total de 2841 respondentes
75,7
18,2
1,5
4,7
A percepção geral entre os grupos religiosos é de que a política de aumento de tarifas implementada por Donald Trump fragilizou as relações entre Brasil e Estados Unidos. A maioria em todos os segmentos acredita que os laços diplomáticos e comerciais ficaram mais fracos, com destaque para os evangélicos (86,1%) e pessoas de outras religiões (80,4%), seguidos por católicos (74,6%).
Mesmo entre os mais críticos a medidas de retaliação, como os crentes sem religião (67,1%) e agnósticos ou ateus (67,5%), essa percepção de enfraquecimento das relações também predomina.
A parcela que considera as relações inalteradas é minoritária, variando de 10,1% (evangélicos) a 27,6% (crentes sem religião). Já a ideia de que os laços tenham se fortalecido após a medida tarifária é praticamente inexistente, com índices residuais em todos os grupos.
Para buscar compreender este quadro
A forma como a resposta de grupos religiosos, em especial de evangélicos, aparece neste levantamento da pesquisa Atlas/Bloomberg reflete mais conteúdos circulantes em redes sociais digitais do que o noticiário, seja para justificar a tarifação imposta pelos EUA ao Brasil, seja para responsabilizar o governo federal por esta ação… (as conclusões que elenquei acima).
Esta constatação retoma o dado já levantado em pesquisa de que as pessoas se informam mais pelas redes digitais do que por meios tradicionais. De acordo com o Relatório Desigualdades Informativas: Entendendo os caminhos informativos dos brasileiros na internet 2024, de autoria da Aláfia Lab, mais da metade da população brasileira (51,6%) recorre às redes sociais como principal fonte de informação. Entre as plataformas, o Instagram lidera com 68,8% dos entrevistados afirmando utilizá-lo para se manter informados. Na sequência, aparecem o YouTube (55,9%) e o Facebook (43,7%).
Isto significa que o que as pessoas consomem nas redes digitais é fundamental para a formação da opinião que elas têm sobre determinados assuntos, entre eles, o caso da taxação do Brasil pelos EUA. A questão é que entre estes conteúdos, como o Bereia mostra, está uma considerável parcela de desinformação, parte dela embasada no medo.
Bereia buscou referências para apontar caminhos de compreensão deste quadro. A doutora em Comunicação e Informação Sandra Bitencourt, que também é jornalista e atua como coordenadora da Região Sul da Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD), indica: “As agendas geopolíticas têm funcionado como espelho ideológico e vêm posicionando grupos no debate interno do país. Há questões práticas que afetam cotidianos, como a imigração, o emprego e as consequências de uma chantagem comercial, mas também há preocupações que unificam segmentos, como a liberdade religiosa e o sempre acionado tema do aborto.”
Sandra Bittencourt ainda observa que a extrema-direita, tanto nos EUA quanto no Brasil, tem explorado essas pautas com eficiência. “A extrema-direita, mundialmente, tem sido muito hábil em colocar essas posições como uma luta ‘civilizatória’ em defesa da família e dos seus valores, o que acaba por direcionar, mesmo com contradições, percepções e escolhas. É uma estratégia, obviamente, que cria divisões, não apenas na sociedade, mas no interior das denominações religiosas, pois muitos fundamentam sua fé e seus valores religiosos com uma missão política.”
Em artigo sobre a relação de evangélicos com os governos Lula 1, 2 e 3, a cientista política diretora-executiva do Instituto de Estudos da Religião (ISER) Ana Carolina Evangelista reflete que a parcela da população identificada como evangélica tem sido mais blindada por mensagens diárias, dentro e fora dos templos, e se tornado refratária a tudo que venha da política no espectro progressista. “O bolsonarismo se amalgamou com o campo evangélico nos territórios, não apenas na política palaciana”, avalia e acrescenta: “quem está falando sistematicamente e com muita desenvoltura [com este grupo] são lideranças religiosas e comunitárias bolsonarizadas. Tudo isso imerso num ambiente político mais violento e intolerante, como um todo, na sociedade”.
A Justiça do Rio de Janeiro condenou, em 22 de julho, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) a pagar R$ 10 mil de indenização por danos morais à ilustradora e cartunista Cecília Siqueira Neres Ramos, conhecida como Cartumante. Na campanha das eleições municipais em 2024, o parlamentar mineiro divulgou um vídeo considerado difamatório e desinformativo contra a influenciadora. A sentença foi proferida no 27º Juizado Especial Cível da Capital e ainda cabe recurso. A decisão também determina a retirada do vídeo, que permanece no canal de Telegram do parlamentar, em até dez dias úteis, sob pena de multa diária de R$ 1 mil, limitada a R$ 30 mil. Ainda cabe recurso.
O vídeo, divulgado por Nikolas Ferreira e aliados, às vésperas do segundo turno das eleições municipais de 2024, associa indevidamente a cartunista a condutas criminosas, ao associá-la a um suposto “conteúdo sexual para crianças” exposto na 12ª edição do Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte.
O deputado expõe no vídeo o nome e a imagem da artista Cecília Ramos, que participava do festival, associando-a diretamente a condutas criminosas. A cartunista afirmou que se tornou alvo de ataques virtuais, perdeu patrocínios e contratos. Sua defesa alega que o vídeo teve claro intuito de manipular o eleitorado e demonizar os artistas do evento, reforçando estigmas contra os quadrinhos, como se fossem exclusivamente conteúdos infantis. Cartumante produz quadrinhos direcionados para o público adulto.
Imagem: Reprodução de um dos cartuns da artista Cecília Ramos exposto em seu perfil no Instagram
O deputado federal justificou que suas ações estavam amparadas por imunidade parlamentar. A juíza leiga Maria Fernanda de Mattos Calil, que redigiu o projeto de sentença, no entanto, não acolheu o argumento. Segundo a decisão da magistrada, “a imunidade parlamentar não é absoluta” e “não se aplica a manifestações desvinculadas das atribuições legislativas”. Ela destacou ainda que o vídeo foi produzido fora do ambiente institucional e continha ataques diretos e sem base fática à honra da artista — o que configura ato ilícito. O projeto de sentença foi homologado pela juíza de Direito Sonia Maria Monteiro.
O mesmo material já havia sido alvo de decisão da Justiça Eleitoral de Minas Gerais, que ordenou sua remoção por conter informações “falsas, descontextualizadas e com o claro intuito de prejudicar a imagem” do então prefeito e candidato à reeleição Fuad Jorge Noman Filho (PSD-MG), como Bereia checou. Nikolas Ferreiraignorou a decisão e manteve o vídeo no ar, o que levou o Ministério Público Eleitoral (MPE-MG) a denunciá-lo por difamação, propaganda irregular e descumprimento de ordem judicial, no último dia 8 de julho. O prefeito, que venceu as eleições, faleceu em março deste ano, vítima de um câncer.
Essa denúncia do MPE por desinformação inclui outros parlamentares do PL de MG, como Bruno Engler, Coronel Cláudia e Delegada Sheila, todos acusados de replicar o mesmo conteúdo falso. Os ataques envolviam ainda acusações contra o livro “Cobiça”, escrito por Noman Filho em 2020. A obra de ficção, que trata de temas sensíveis como abuso sexual infantil, foi usada por Nikolas Ferreira para sugerir que o então prefeito endossava os crimes descritos no romance — o que o MP classificou como desinformação com “dolo intenso e persistente”. O texto aponta, ainda, que o grupo disseminou intencionalmente informações que sabia ser inverídicas “com o claro intuito de prejudicar a imagem do candidato à reeleição”.
O MPE pede a suspensão dos direitos políticos de Nikolas Ferreira e o pagamento de indenização por danos morais, a ser destinada a instituições de caridade indicadas pela família de Fuad Noman.
Na publicação, Nikolas faz referências ao livro “Cobiça” (2020), escrito pelo ex-prefeito de Belo Horizonte, à época candidato à reeleição, Fuad Jorge Noman Filho (PSD-MG). Noman faleceu em março deste ano, vítima de um câncer. A Justiça Eleitoral determinou a remoção do vídeo publicado por Nikolas Ferreira nas redes sociais e concedeu direito de resposta a Fuad durante o tempo de propaganda eleitoral reservado para Engler. O deputado federal, no entanto, não apagou a gravação de suas redes sociais, no que o MP classificou como “um crime de desobediência”.
Uma tarifa de 50% será aplicada sobre as exportações brasileiras para os EUA, a partir de 1º de agosto, de acordo com anúncio do presidente daquele país Donald Trump. Ele afirmou que a medida não se baseia exclusivamente em fatores econômicos, mas é uma resposta direta ao julgamento de Jair Bolsonaro (PL), réu em ação penal que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado em 2022. Ao abordar as “questões econômicas”, o presidente estadunidense não apresentou dados que justificassem a nova alíquota, uma vez que não há déficit na balança comercial entre os dois países ou comprovadas ilegalidades.
O líder estadunidense divulgou a decisão em sua rede digital, Truth Social, por meio de uma carta endereçada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No documento, comunicou a imposição da tarifa e afirmou que a medida foi adotada em resposta a “ataques insidiosos” contra as eleições livres no Brasil. O documento, enviado poucos dias após a realização da cúpula do Brics, no Rio de Janeiro, traz ainda críticas ao julgamento de Jair Bolsonaro e defende a suspensão da ação penal que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF).
“Conheci e tive contato com o ex-presidente Jair Bolsonaro, e o respeitei profundamente, assim como a maioria dos outros líderes mundiais. A maneira como o Brasil tem tratado o ex-presidente Bolsonaro, um líder altamente respeitado em todo o mundo durante seu mandato — inclusive pelos Estados Unidos —, é uma desgraça internacional. Este julgamento não deveria estar acontecendo. Trata-se de uma caça às bruxas que deve acabar IMEDIATAMENTE!“, escreveu Trump.
O filho do ex-presidente Bolsonaro, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL – SP), cuja licença terminou no último 20 de julho, segue nos EUA e tem atuado de forma ostensiva junto ao governo estadunidense, na tentativa de livrar o pai do processo judicial que está enfrentando.
Diante da repercussão das tarifas entre os brasileiros, a oposição tem se empenhado em culpabilizar o presidente Lula e o governo federal pelo chamado “Tarifaço”. A notícia reverbera nas redes digitais de líderes e políticos religiosos, por isso, Bereia analisa e checa as informações atreladas ao caso divulgadas na rede.
O Contexto
A Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu em 14 de julho ao STF a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e a expectativa é de que o julgamento seja realizado em setembro de 2025. Apesar de a defesa da liberação de Bolsonaro do processo ser apresentada na carta de Trump, analistas alertam para um contexto mais denso no qual o caso se insere.
Enquanto lideranças do BRICS (bloco econômico e político formado por economias emergentes – Brasil, Rússia. Índia, China e África do Sul) participavam de sua 17ª Cúpula anual, realizada no Rio de Janeiro entre 6 e 7 de julho, o presidente dos Estados Unidos fez sua primeira ameaça indireta ao Brasil. Em publicação na rede social Truth Social, declarou que pretendia aplicar tarifas de 10% a países que, segundo ele, adotem “políticas antiamericanas”, entretanto, não detalhou o que seriam essas práticas consideradas antiamericanas.
De acordo com o professor e economista da Universidade George Washington, em Washington, capital estadunidense, Maurício Moura, o que deu o impulso para o presidente Trump impor o “tarifaço” foi basicamente o protagonismo do Brasil na articulação dos Brics. “O Trump ficou bem atento à reunião, por um motivo bastante óbvio, é que ele fica bem atento ao noticiário, basicamente ele tem o ímpeto de tentar comandar o noticiário local e todas as emissoras americanas deram relevância ao encontro”, explicou. O economista apontou também, em entrevista ao jornal gaúcho Zero Hora, outra preocupação de Donald Trump: a manutenção da relevância do dólar no cenário mundial, que têm sido posta em xeque, além do temor de uma possível moeda concorrente do bloco.
A jornalista Míriam Leitão refuta um dos argumentos usados pelo governo dos EUA no campo comercial, de que há um déficit com o Brasil. “Isso não se aplica à realidade. Segundo dados de diversas representações, a balança comercial entre Brasil e Estados Unidos é favorável ao governo americano”, aponta a analista com base nos próprios relatórios do governo brasileiro
“O governo brasileiro manifesta sua indignação com o anúncio, feito em 9 de julho, da imposição de tarifas de importação de 50% sobre todos os produtos exportados pelo Brasil para os Estados Unidos, a partir de 1° de agosto”, ressalta a carta.
No documento, o governo brasileiro argumenta ainda que a imposição das tarifas terá um “impacto muito negativo em setores importantes de ambas as economias”, colocando em risco a histórica parceria econômica entre os dois países. “Nos dois séculos de relacionamento bilateral entre o Brasil e os Estados Unidos, o comércio provou ser um dos alicerces mais importantes da cooperação e da prosperidade entre as duas maiores economias das Américas”.
O texto também contesta a alegação de que o Brasil prejudica os EUA nas transações comerciais, uma vez que aquele país apresenta superávit.
O governo brasileiro tem atuado para minimizar os efeitos negativos da ação dos EUA. Uma das medidas é a criação de um fundo privado temporário para dar crédito a empresas ou setores afetados pelo tarifaço. O fundo deve ser criado por Medida Provisória (MP) e capitalizado pelo Tesouro Nacional por meio de crédito extraordinário, instrumento que permite abrir espaço no Orçamento sem esbarrar no limite de despesas do arcabouço fiscal.
O vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Geraldo Alckmin estuda organizar uma comitiva interministerial para negociar em Washington a retirada das tarifas dos EUA sobre produtos brasileiros. A proposta é apresentar medidas de interesse comercial para os norte-americanos, como o fim de barreiras a produtos dos EUA, com o objetivo de afastar o viés político da discussão. As informações foram dadas por empresários que participaram das conversas com Alckmin.
O ministro da Casa Civil Rui Costa defendeu o fortalecimento das relações comerciais do Brasil com outros países em resposta às retaliações dos Estados Unidos. Ele destacou o interesse do Canadá e do México em estreitar laços com o Mercosul e reafirmou a meta de assinar, até dezembro, o acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul. Segundo auxiliares do Planalto, a ampliação dessa base comercial já estava nos planos do governo diante das sanções impostas por Donald Trump.
Além do “tarifaço”, o governo dos EUA anunciou, em uma segunda carta, de 17 de julho passado, que irá investigar se políticas e práticas adotadas pelo Brasil têm restringido ou prejudicado o comércio estadunidense. O documento que formaliza a investigação menciona temas que representam prejuízos à relações econômicas com empresas daquele país como comércio ilegal na Rua 25 de Março, em São Paulo, e o sistema de pagamentos eletrônicos Pix, livre de taxas.
Campanha nas redes
O governo lançou uma campanha nas redes digitais com o slogan “Brasil Soberano”. Em um vídeo da campanha há uma narração que diz “O Brasil é um país soberano. E um país soberano é um país independente, que respeita suas leis. Um país soberano protege seu povo e sua democracia. Um país soberano não baixa sua cabeça para outros países”.
Em contrapartida, figuras político-religiosas têm usado as mídias sociais para propagar informações e campanhas que culpabilizam Lula e o Partido dos Trabalhadores(PT) das tarifas de Trump.
Propagadores e repercussão
O presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia, que acumula quase 4,3 milhões de seguidores no Instagram, postou, até o fechamento desta matéria, 19 vídeos sobre o assunto. Ele ainda defende a rendição do país à pressão dos EUA, ao afirmar que se houver anistia ampla, as taxas não existirão. “A questão não é econômica. A questão é de justiça, liberdade e anistia”, diz o pastor em trecho de vídeo no qual credita a culpa pela taxação ao presidente Lula e ao ministro do STF Alexandre de Moraes.
A hashtag “Defenda o Brasil do PT”, utilizada por apoiadores de Jair Bolsonaro em resposta à campanha oficial do governo, chegou ao topo dos assuntos mais comentados do X (antigo Twitter) em 11 de julho, ultrapassando 255 mil publicações. O deputado federal evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG) participou do movimento nas mídias sociais.
Já o deputado federal e pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Sóstenes Cavalcante(PL-RJ), líder do Partido Liberal (PL) na Câmara, usou sua conta no X para rebater a campanha do governo federal. Ele usou uma arte: “Defenda o Brasil de Moraes”, em referência ao ministro do STF Alexandre de Moraes e o slogan que circulou na rede e foi divulgado por diversas figuras políticas (“Defenda o Brasil do PT”).
É fundamental destacar que, embora figuras públicas que endossam a narrativa do ex-presidente Jair Bolsonaro responsabilizem o presidente Lula e o ministro Alexandre de Moraes pela crise, é imprescindível compreender o amplo contexto geopolítico que motiva as tarifas impostas por Donald Trump.
Desde seu retorno à Casa Branca, Trump adotou uma nova política externa — marcada por um afastamento do multilateralismo (diálogo e cooperação entre países) e uma orientação estritamente nacionalista (exclusivista e isolacionismo do próprio país).
Nesse cenário, o presidente estadunidense engajou-se em uma guerra comercial que afeta diversos países, tendo o Brasil sido o mais impactado, até o momento, pelas medidas tarifárias que alcançam 50%. Analistas de Relações Internacionais apontam que tais políticas podem estar delineando uma Nova Ordem Mundial, conforme refletido em relatórios da BBC News.
Nesse contexto, a pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada entre 11 e 13 de julho de 2025 revela que 61,1% dos brasileiros consideram que Lula representa o país no exterior de forma mais eficaz do que Jair Bolsonaro, enquanto 38,8% discordam. A aprovação ao governo petista cresceu no período, passando de 47,3% em junho para 49,7% em julho, ao passo que a desaprovação diminuiu de 51,8% para 50,3%
A pesquisa, entretanto, destaca um contraste religioso marcante: os evangélicos continuam sendo o grupo mais crítico ao governo Lula, com 66,9% de desaprovação, enquanto a taxa entre católicos é de 48,2%. Entre os evangélicos, cresceu também a percepção de que a tarifa de Trump é justificada (53,1%). Este índice contrasta com a maioria nacional, 62,2%, que vê a medida como injusta e motivada politicamente. Apesar de concordar com as tarifas, a maioria dos evangélicos entende que a ação de Trump é uma ameaça à soberania brasileira (53,2%).
A resistência dos evangélicos nesse cenário pode sugerir uma adesão a lideranças conservadoras que influenciam percepções religiosas e políticas. Esse posicionamento contrasta com a maioria dos brasileiros, que enxergam a reação oficial de Lula às tarifas como proporcional e responsável, especialmente no plano da política externa .
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Embora críticos do governo atribuam ao PT e a Lula a origem da crise, análises indicam que a escalada tarifária de Trump é fruto de uma estratégia externa com motivações políticas. O impacto desse conflito transcende a política doméstica, reforçando o debate sobre soberania, alinhamentos globais e a representação do Brasil no panorama internacional. A aparente polarização religiosa evidencia tensões internas que se intensificaram com a imposição das tarifas, apontando para um eleitorado fragmentado diante das pressões externas.
Bereia classifica a tentativa de culpar o governo federal e o presidente Lula pelo chamado tarifaço de Trump como conteúdo desinformativo enganoso. Extremistas da direita no Brasil, que defendem que Jair Bolsonaro não seja julgado pelos crimes pelos quais é acusado pela Justiça brasileira (tentativa de golpe nas eleições de 2022, entre outros), usam o caso para impedir o processo e fazer oposição política ao governo federal. Farto número de informações e análises expõe que o ataque partiu do governo dos EUA, a despeito das históricas boas relações comerciais com o Brasil, também lucrativas para aquele país. Há vasta informação disponível sobre possíveis reais motivações do governo dos EUA que passam pelas políticas nacionalistas extremistas do presidente Trump e a busca de reversão do enfraquecimento da posição país no quadro geopolítico mundial.
Bereia chama a atenção de leitores e leitoras para não assimilarem ou compartilharem informações que chegam em suas redes sem verificar a procedência e a veracidade. Caso contrário, passam a ser usados como instrumentos de campanhas políticas que usam de falsidades e enganosos.
Após a notícia da revogação de vistos de ministros do STF e seus familiares pelos EUA, passou a circular nas redes sociais digitais a alegação de que a filha do presidente do STF, Luís Roberto Barroso, Luna Barroso, que estuda nos EUA, seria deportada.
Tal situação se colocaria no contexto da retaliação dos EUA ao governo federal e ao STF por terem não apenas respondido às exigências ao Brasil, em carta divulgada na internet pelo presidente dos EUA Donald Trump, dirigida ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 9 de julho passado, como também imposto medidas cautelares sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, com tornozeleira eletrônica. Entre as exigências consta, principalmente, a anistia a Bolsonaro dos crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado em 2022 e 2023, que lhe foram atribuídos por investigação da Polícia Federal do Brasil e estão em processo de julgamento pelo STF.
Essa informação é falsa.
Luna Barroso não mora nos Estados Unidos e não será deportada. De fato, ela estudou na prestigiada Yale Law School nos anos de 2022 e 2023. Contudo, atualmente vive no Brasil, onde cursa um mestrado na Universidade de São Paulo (USP) e atua como advogada no escritório Barroso Fontelles, Barcellos, Mendonça Advogados, no Rio de Janeiro — conforme consta em seu perfil no LinkedIn e no site do próprio escritório.
Estratégia
Esta mentira integra uma campanha de desinformação coordenada, que tenta explorar a tensão entre o Brasil e os Estados Unidos para desacreditar o STF e inflamar setores da sociedade com mentiras sobre perseguições e retaliações.
Apesar deste conteúdo ser falso, ele se articula com uma conspiração política que tem se configurado, segundo várias análises, e envolve influenciadores brasileiros e interesses estrangeiros.
As recentes ameaças e sanções dos EUA fazem parte de um movimento mais profundo de pressão geopolítica, segundo estas avaliações mais amplas do caso. O governo Trump estaria usando o caso do julgamento de Jair Bolsonaro para buscar interferir nas eleições de 2026, favorecer candidatos alinhados aos interesses estratégicos estadunidenses e pressionar as instituições brasileiras por um alinhamento às políticas de controle econômico-financeiro daquele país.
Circulam nas mídias sociais dois vídeos manipulados utilizando imagens indevidas dos padres Júlio Lancellotti e Marcelo Rossi. As peças de desinformação foram denunciadas por leitores ao Bereia. Assim como já ocorrido com o pastor Cláudio Duarte, as imagens são alteradas com uso de inteligência artificial para induzir o público ao erro.
Vídeo manipulado do Padre Júlio Lancellotti
No vídeo denunciado, imagens do padre Júlio Lancellotti são usadas para supostamente promover um pedido de doações em benefício de uma criança. Bereia realizou uma busca reversa das imagens utilizadas no vídeo utilizando o Google Lens e constatou que a criança apresentada como beneficiária é, na realidade, uma criança africana cuja imagem já foi utilizada em outras campanhas falsas na internet.
Esta manipulação reforça um padrão recorrente de ataques contra o padre Júlio Lancellotti, amplamente conhecido por seu trabalho social em defesa dos direitos de pessoas em situação de rua e combate à fome. Bereia já havia identificado e desmentido anteriormente outras tentativas de desinformação relacionadas ao líder religioso, sempre com teor difamatório ou para exploração financeira indevida da imagem pública do padre. Além disso devido seu posicionamento político em favor de causas sociais, o padre enfrenta uma campanha difamatória produzida por atores ligados à extrema-direita politica.
Bereia solicitou a remoção do vídeo na plataforma, porém a Meta informou que apesar do conteúdo não seguir os padrões da comunidade ele não foi removido.
Vídeo manipulado do Padre Marcelo Rossi
Outro vídeo denunciado envolve o Padre Marcelo Rossi e apresenta uma suposta oração para eliminar dívidas em três dias e ficar rico. A manipulação utiliza uma participação do padre no programa de auditório The Noite, apresentado pelo humorista e apresentador Danilo Gentili. Com o auxílio da ferramenta InVID-WeVerify, Bereia identificou indícios nítidos de manipulação por IA, tais como cortes abruptos, evidente descompasso entre o áudio e a movimentação labial do religioso. O intuito do produtor da peça seria convencer as pessoas para clicar em um link para direcionar pessoas a aquisição de guias e e-books. O vídeo postado como não listado no Youtube era compartilhado via WhatApp com link para sites fraudulentos.
As técnicas de edição do vídeo são semelhantes às já observadas em outras fraudes analisadas pelo Bereia, nas quais figuras religiosas são utilizadas indevidamente para promover produtos falsos e sem eficácia comprovada. Casos como estes dos padres Júlio Lancellotti e Marcelo Rossi e o do pastor Cláudio Duarte (para vender produto para tratamento de diabetes, que Bereia já checou) são explorados com uso de inteligência artificial para promover produtos e causas falsas explorando a credibilidade pública desses religiosos para atingir objetivos comerciais ilícitos ou causar danos reputacionais.
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Bereia alerta para que leitores e leitoras tenham atenção ao uso de Inteligência Artificial para a elaboração de vídeos com todo tipo de mensagens. Nem toda produção com IA deve ser rechaçada, pois há usos corretos e dignos deste recurso, que favorecem o acesso a informações necessárias e o debate público. Tecnologia pode ser sempre utilizada a favor do direito à comunicação e à informação. O problema é o uso fraudulento!
Leitoras e leitores do Bereia: sempre que receber um vídeo que trate de destruir a imagem de alguma pessoa ou grupo, peça doações, ofereça produtos à venda ou indique cliques em algum site comercial utilizando a imagem de alguma liderança religiosa ou mesmo alguma pessoa de destaque público, não responda ou compartilhe: verifique antes a veracidade do material.
Qualquer dúvida, chame o Bereia! Envie o material que gerou desconfiança para o WhatsApp: 21-978842525.
Como cristãos, devemos ser coerentes na vida on-line, agindo de acordo com os valores da fé que professamos. Compartilhar conteúdo edificante, combater a desinformação e promover a justiça e o amor são ações que refletem a pessoa de Cristo no mundo digital. Essa foi a conclusão apresentada pela professora de Teologia e integrante da equipe de jornalistas do Coletivo Bereia no trabalho de checagem de conteúdos Rafaely Camilo. Ela dirigiu um estudo voltado a adolescentes e jovens durante a Escola Bíblica Dominical da Igreja Batista Pentecostal Mundial, no Rio de Janeiro, em 22 de junho.
Sob o tema “Sendo cristão nas redes sociais”, Rafaely Camilo, que é doutoranda em Sociologia, tratou a respeito das mídias sociais e igreja, e alertou sobre as fake news. Segundo destacou, é muito importante estar atento ao que elas significam e as consequências que provocam, como pânico, medo, divisão e xenofobia. “Mentira não se propaga”, reforçou.
A professora também chamou a atenção para alguns aspectos que devem fazer parte da postura cristã, como coerência em todos os ambientes e domínio para se expressar e discernir sobre o que é correto. “Temos que lembrar também dos papéis do cristão na sociedade, e entre eles estão o de refletir a pessoa de Jesus Cristo e o de servir”.
O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, no último 26 de junho, que o artigo 19 do Marco Civil da Internet (MCI), trecho sobre a responsabilidade das plataformas digitais por conteúdos publicados na internet, é parcialmente inconstitucional. Até então, essas empresas – como o Google e a Meta – somente poderiam ser responsabilizadas por conteúdos de terceiros, que tomam a forma de crimes (crimes sexuais, racismo, indução ao suicídio, entre outros), após desobedecer uma ordem judicial para remover o conteúdo.
Por maioria de votos (8 contra 3), o entendimento foi de que “há um estado de omissão parcial que decorre do fato de que a regra geral do art. 19 não confere proteção suficiente a bens jurídicos constitucionais de alta relevância (proteção de direitos fundamentais e da democracia)”.
A partir de agora, com a tese de repercussão geral, determinados conteúdos poderão ser retirados do ar sem decisão judicial. Bereia chama a atenção para que se rechace a desinformação de que tal decisão significa censura. Há, sim, um avanço em novas possibilidades para a construção de um cenário digital mais favorável à preservação da democracia e ao combate à desinformação, aos crimes virtuais e aos discursos de ódio. Confira:
Marco Civil da internet e o julgamento do artigo 19
O Marco Civil da Internet (MCI) sancionado como a Lei n° 12.965, de 2014, é a principal legislação brasileira no estabelecimento de direitos e deveres de usuários, empresas e Estado no uso da internet. Ele foi elaborado em um contexto de crescente preocupação com a privacidade, a liberdade de expressão e a neutralidade das redes, e se destacou internacionalmente por ser uma das primeiras legislações a garantir princípios democráticos no ambiente digital, tornando-se referência global em regulação da internet.
O julgamento da constitucionalidade do artigo 19 do MCI tem sido um dos debates jurídicos mais importantes no Brasil sobre liberdade de expressão, responsabilidade das plataformas e combate à desinformação. A lei é atualmente a principal fonte para julgamento de casos ocorridos nos espaços das mídias sociais e serviços de mensagens, uma vez que ainda não há regulamentação específica sobre as plataformas digitais no Brasil.
O modelo em vigor desde 2014 foi duramente criticado por setores da sociedade civil e por acadêmicos, os quais defendem que a exigência de ordem judicial torna o processo de remoção lento e ineficaz. Isso permite que conteúdos ofensivos ou criminosos continuem circulando por muito tempo e colaborem com a proliferação de desinformação, discursos de ódio e crimes virtuais.
A votação no STF
A votação, ocorrida em 26 de junho, decorre de casos concretos recebidos pelo colegiado, como os Recursos Extraordinários (RE) 1037396 e 1057258, contra o Facebook e o Google, respectivamente. O julgamento sobre o artigo 19 do MCI começou em 2023, tendo como relator o ministro Dias Toffoli, que entendeu ser constitucional o entendimento do texto original. O julgamento foi interrompido quando o ministro Luís Roberto Barroso pediu vistas ao processo – ou seja, solicitou mais tempo para analisar o caso – e foi retomado em junho de 2025.
No placar de votos, apenas três dos onze ministros se manifestaram a favor da constitucionalidade do artigo 19, ou seja, tomaram a posição contrária à possibilidade de responsabilização das plataformas sem a devida decisão judicial.
Reprodução: Portal Migalhas
O ministro André Mendonça foi o primeiro a se posicionar favoravelmente às empresas de tecnologia conhecidas como big techs, no voto feito no último 5 de junho. Ele afirmou que, ao seu ver, as medidas mais endurecidas podem inibir a participação cidadã nos espaços digitais e que “pelo simples fato de ser mentiroso, o discurso não deve ser censurado. Mentir é errado, mas não necessariamente é crime”
O ministro Edson Fachin também se manifestou de forma contrária à decisão do colegiado. Para ele, a regulação das plataformas precisa ser estruturada e sistêmica, e preferentemente não via Poder Judiciário. Ele entende que o remédio empregado ainda não é suficiente para enfrentar os problemas analisados nas plataformas.
Da mesma forma, o ministro Kassio Nunes Marques acompanhou o posicionamento para manter a interpretação de constitucionalidade do artigo 19 do MCI. Para ele, “o Congresso Nacional é o ambiente mais apropriado para conduzir essa discussão”.
Em posicionamento de acordo com a maioria, a ministra Carmen Lúcia sintetizou que a interpretação pela inconstitucionalidade do artigo julgado busca preservar o direito, como em casos de crimes contra a honra e contra o Estado Democrático de Direito.
Em seu voto, a ministra afirmou que o tempo tecnológico de 2014 é muito diferente do ano atual. “A lei é feita baseada na realidade para a qual ela se volta”, disse, e questionou também sobre a atuação da inteligência artificial nas próximas eleições presidenciais ao discorrer sobre os interesses econômicos e políticos das plataformas.
O que muda com a decisão?
Com a tese de repercussão geral elaborada com o término do julgamento, Bereia explica as principais mudanças que ocorrerão.
Regra geral de responsabilização civil das plataformas
AGORA
ANTES
Provedores podem ser responsabilizados mesmo sem ordem judicial em casos de conteúdos notoriamente ilícitos.
Plataformas só eram responsabilizadas se descumprissem ordem judicial para remoção de conteúdo.
Passam a ter dever de cuidado ativo quando o conteúdo for grave ou de alta circulação.
A responsabilidade era condicionada à inércia judicialmente comprovada.
Aplicação do Art. 21 (responsabilidade subsidiária por notificação)
AGORA
ANTES
Provedores passam a ser responsabilizados civilmente pelos danos causados por qualquer conteúdo ilícito de terceiros após notificação. Casos como contas falsas (inautênticas) também entram nesse regime.
Aplicado apenas em casos específicos, como nudez não consentida, mediante notificação extrajudicial.
Crimes contra a honra
AGORA
ANTES
Aplica-se o art. 19 do MCI, sem prejuízo da possibilidade de remoção por notificação extrajudicial.
Remoção de conteúdo mediante decisão judicial.
Impulsionamento e anúncios pagos (incluindo robôs/chatbots)
AGORA
ANTES
Redes sociais presumem responsabilidade direta por impulsionamento de conteúdos ilícitos (mesmo por robôs/inteligência artificial).
A responsabilidade era definida conforme o caso concreto.
Plataformas devem agir preventivamente ou demonstrar que agiram em tempo hábil para evitar a disseminação.
Não havia exigência de ação proativa.
Plataformas isentas da nova interpretação
Os seguintes serviços continuam seguindo a regra original do art. 19 (responsabilidade apenas após ordem judicial):
Provedores de email
Plataformas de videoconferência fechada
Mensageria instantânea (como WhatsApp)
Marketplaces (como Mercado Livre, Shopee e Amazon. Agora também respondem conforme o Código de Defesa do Consumidor)
Rol taxativo de crimes com responsabilidade imediata
Segundo o STF, as plataformas devem agir imediatamente quando se tratar dos seguintes crimes elencados, conforme o princípio do dever de cuidado inaugurado pela legislação europeia:
Crimes contra instituições democráticas;
Terrorismo e atos preparatórios;
Indução ao suicídio e automutilação;
Racismo e discriminação (raça, etnia, sexualidade, identidade de gênero);
Violência contra a mulher;
Crimes sexuais contra vulneráveis (como pornografia infantil);
Tráfico de pessoas
Critérios para ausência de responsabilidade
O STF declarou que a existência de conteúdo ilícito isolado não gera automaticamente responsabilidade. A responsabilização só se aplica quando há inércia (omissão das plataformas) diante de ilícitos graves e com circulação massiva. Nestes casos, vale o regime do Art. 21 (no modelo retirada após notificação).
As plataformas também deverão cumprir deveres como autorregulação obrigatória, que deverá ser composta por:
Sistema de notificações e canais de atendimento acessíveis e disponíveis para usuários e não usuários;
Devido processo de moderação de conteúdo;
Divulgação anual de relatórios de transparência (sobre anúncios, impulsionamentos e remoções de conteúdos);
Revisão periódica e transparente das políticas de moderação.
Além disso, vale a regra que os provedores devem ter sede e representante no Brasil.
Novas regras favorecem a democracia e ajudam a combater a desinformação
Dentre os vários discursos desinformativos que perpassam as discussões sobre a responsabilização e a regulamentação das plataformas no Brasil, é comum deparar com abordagens que sugerem que essas medidas são uma forma de censura e que cerceiam a liberdade de expressão.
Bereia entrevistou especialistas que destacam a importância do julgamento em questão para o fortalecimento da democracia e o enfrentamento à desinformação. O professor pesquisador do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) e coordenador da Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD) Marco Schneider, afirma que com a legislação anterior, não era possível dar conta do volume, da velocidade, nem do alcance da desinformação. Por isso, a atualização no entendimento do STF é importante para se adequar à realidade atual.
O pesquisador explica que o questionamento sobre as medidas serem uma forma de censura traz desafios quanto ao peso histórico vivido no Brasil, e diferencia a censura que houve no Brasil no século passado do estabelecimento de regras para os ambientes virtuais:
“Uma coisa é um governo se arvorar, como no caso da ditadura militar, no direito de estabelecer de cima para baixo o que pode ou não ser produzido no âmbito da da arte, da ciência, do jornalismo, com base em valores morais, conservadores, e com base numa blindagem da sua própria prática política.
Outra coisa é estabelecermos que nem tudo pode ser dito o tempo inteiro, e em todas as ocasiões, para todas as pessoas. Nesse segundo sentido, a noção de censura não é aplicável, pois tem a ver com a noção de escolha e a imposição de limites”, comenta.
Para o coordenador da RNCD, muitos dos que acusam a regulação de censura se colocam como defensores da liberdade de expressão, “mas me parece muitas vezes cínico e oportunista, porque são muitas vezes as mesmas pessoas que defendiam a censura da ditadura militar. “A liberdade de expressão como um valor absoluto aparece como uma panaceia, que não pode ser limitada por nada. Ela é um direito fundamental, mas se ela agride outros, ela tem que ser limitada. Isso não é censura”.
O pesquisador de direitos digitais e professor de Políticas de Comunicação na Universidade de Brasília Marcos Urupá complementa que é equivocado afirmar que a regulamentação de plataformas digitais incorre em censura. “Basta fazer uma analogia com os meios de comunicação. Rádio e televisão têm uma série de compromissos que devem ser cumpridos. Você pode questionar se eles cumprem ou não, mas tem todo um regramento aí, por exemplo, como é o caso da publicidade”. Quanto ao tema, conclui: “não se trata de censura, trata-se de garantir um ambiente digital que respeite a cidadania, os direitos humanos e, acima de tudo, o Estado Democrático de Direito”.
Urupá destaca a responsabilização das plataformas como um avanço na aplicação de freios ao poder que elas exercem. “Hoje elas são configuradas como grandes meios de comunicação e, sem critério nenhum, determinados conteúdos ofensivos, inclusive ao próprio Estado Democrático de Direito, circulam sem ressalvas, sendo que são condutas tipicamente qualificadas como criminosas. Então, sem dúvidas, há um avanço mediante ao cenário anterior”, aponta.
O papel do STF na decisão extrapola a função do Judiciário?
Diante das decisões tomadas pelo Supremo Tribunal Federal quanto aos usos e abusos das plataformas digitais, o papel do Poder Judiciário tem sido criticado por certos grupos, que julgam uma atuação excedente às competências dos ministros da Suprema Corte. No entanto, Marco Schneider reafirma que o órgão máximo do Judiciário age, nesse caso, de acordo com a previsão constitucional de assegurar o cumprimento e interpretar a legislação conforme a Constituição Federal. “Nesse caso, em particular, eles estão com a razão e agem em favor do interesse público, pois estão cobrindo com urgência uma lacuna legislativa. Quando houver uma lei aprovada no Congresso Nacional que regule o assunto, ela passará a valer”.
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Bereia avalia que a decisão do Supremo Tribunal Federal age de acordo com a previsão legal e é favorável ao enfrentamento da desinformação, de forma que abre novos caminhos para um cenário regulatório das plataformas e ressalta a urgência de responsabilizar as grandes empresas de tecnologia por conteúdos que causam danos reais aos cidadãos e ainda lhes rende lucros com a monetização de ilícitos.
A morte da jovem brasileira Juliana Marins, de 26 anos, em 24 de junho, durante uma trilha no Monte Rinjani, na Indonésia, gerou comoção nacional e uma onda de desinformação sobre o traslado de brasileiros mortos no exterior. Opositores do governo federal passaram a compartilhar conteúdos enganosos com alegação de que o Estado teria se recusado a cumprir uma “obrigação” de repatriar o corpo, o que não corresponde à legislação vigente até então.
Bereia identificou que essas mentiras passaram a circular também em grupos de WhatsApp com pastores evangélicos e em portais de notícias gospel.
Entenda o caso
O Decreto nº 9.199/2017, assinado pelo então presidente da República Michel Temer (MDB) e a Lei nº 9.199/2019, aprovada aprovada no primeiro ano do mandato de Jair Bolsonaro (PL) estabelecem que o governo federal não poderia custear sepultamentos ou translado de corpos de brasileiros falecidos no exterior, salvo em situações excepcionais, como missões oficiais.
Diante dessa limitação jurídica, em 25 de junho, o Itamaraty informou à família da jovem morta na trilha do vulcão que prestaria assistência consular, mas não poderia arcar com as despesas do traslado.
Diante da repercussão e comoção com o caso e do apelo da família, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva telefonou ao pai de Juliana Marins e anunciou a mudança da norma.
O Decreto nº 12.535, publicado neste 27 de junho, prevê agora a possibilidade de o governo federal custear, em caráter excepcional, o traslado de brasileiros falecidos no exterior, desde que haja comoção pública, comprovação de vulnerabilidade econômica da família, inexistência de seguro ou vínculo com missões oficiais.
Apesar da mudança legal, o monitoramento do Bereia aponta que vídeos, postagens e matérias de viés religioso têm atribuído falsamente ao governo uma omissão deliberada, sem contextualizar o marco legal anterior nem a alteração feita por decreto.
Para a editora-geral do Bereia Magali Cunha, o episódio revela como tragédias podem ser instrumentalizadas politicamente: “Há um uso recorrente de desinformação em ambientes religiosos digitais para reforçar discurso de oposição ao governo federal. Mesmo em momentos de luto, a verdade é sacrificada em nome de disputas ideológicas. A oposição é saudável e necessária em uma democracia, porém tal estratégia precisa ser refutada”.
O novo decreto ainda dependerá de regulamentação do Ministério das Relações Exteriores e da disponibilidade orçamentária para ser aplicado a outros casos. Enquanto isso, a família de Juliana Marins aguarda a chegada do corpo e segue em luto, agora com o apoio oficial do Estado brasileiro para que a jovem seja sepultada no país.
Relembre o caso
Juliana Marins, moradora de Niterói, Rio de Janeiro, desapareceu no sábado, 21 de junho, após escorregar de um penhasco durante uma escalada no segundo maior vulcão da Indonésia. Seu corpo foi localizado por um drone dois dias depois e resgatado apenas na quarta, 25 de junho, após sucessivos atrasos causados por terreno íngreme e mau tempo.
A família afirmou que houve negligência das autoridades locais no resgate, pois a jovem teria sido ouvida com vida horas após o acidente. A tragédia mobilizou apoio popular nas redes e gerou uma campanha pública para financiar o retorno do corpo ao Brasil.
Depois de sete meses, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets do Senado Federal foi encerrada, no último 12 de junho, com a rejeição do relatório final elaborado pela senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS). A CPI foi palco de debates calorosos e dividiu opiniões em relação às intenções que motivaram as discussões e à forma em que as sessões foram conduzidas. A comissão pode ser considerada histórica, pois foi a primeira vez, em dez anos, que o documento final de uma Comissão de Inquérito no Congresso Nacional não foi aprovado.
As audiências da CPI das Bets tiveram ampla repercussão midiática: menos pela relevância da investigação e mais por conta da convocação de testemunhas e da presença de convidados que são celebridades do universo digital. Bereia verificou que depoentes e outros atores lançaram mão do discurso religioso cristão para chamar a atenção para si ou para o tema.
O parecer do relatório final
A CPI das Bets foi instalada no Senado Federal em 12 de novembro de 2024, sob a presidência do Dr. Hiran (PP-RR) e relatoria de Soraya Thronicke. A comissão tinha o objetivo de investigar a influência dos jogos virtuais de apostas online no orçamento das famílias brasileiras e apurar a possível associação dessas plataformas com organizações criminosas envolvidas em lavagem de dinheiro. Havia expectativa de que os resultados contribuíssem para o estabelecimento de regras para o funcionamento das casas de apostas digitais e de assegurar a proteção dos consumidores-jogadores diante delas.
A CPI foi criada com um prazo inicial de 130 dias, com término previsto para 30 de abril de 2025, e um orçamento de R$ 110 mil. Em abril de 2025, foi prorrogada por 45 dias, até 14 de junho de 2025. Além do processo de levantamento de documentos, a CPI colheu o depoimento de testemunhas e convidados, em um total de 19 pessoas, entre elas influenciadores digitais como Virgínia Fonseca, Rico Melquíades, Deolane Bezerra e o padre Patrick Fernandes. A presença destas celebridades colocou foco na comissão e acendeu o interesse público nas discussões acerca das plataformas de jogos de azar.
O relatório final, da senadora Thronicke, afirma que a CPI constatou “a existência de um crescimento descontrolado e desregulado das bets”, com a identificação de “abusos claros, com influenciadores simulando apostas falsas, propagandas apresentando as apostas como meio de investimento ou de ficar rico facilmente”. Segundo as provas levantadas, as plataformas de apostas digitais teriam movimentado até R$ 129 bilhões em 2024, tendo como alvo os recursos da população das classes mais baixas. O parecer pedia o indiciamento de 16 pessoas, pela contravenção penal de jogos de azar e pelos crimes de lavagem de dinheiro, propaganda enganosa, entre outros.
Na lista de pessoas a serem indiciadas estavam empresários e influenciadores digitais, como Virgínia Fonseca e Deolane Bezerra. Fonseca foi acusada de ter induzido seguidores a realizar apostas com simulações irreais de ganhos. Bezerra, que é advogada, foi apontada como sócia oculta de uma bet e também como autora de propagandas irregulares.
O relatório final, rejeitado em sessão esvaziada, por quatro votos a três, também propôs 20 Projetos de Lei, dentre os quais estão propostas de proibição de jogos como o Tigrinho e a restrição de apostas online por pessoas inscritas no CadÚnico.
Religião no palco da CPI
A convocação de celebridades digitais, comoVirgínia Fonseca, para deporem na CPI foi bastante explorada pelo jornalismo e em diferentes perfis de mídias sociais. A chegada da empresária, que acumula cerca de 53 milhões de seguidores no Instagram, ao plenário da comissão, causou tumulto nos corredores por conta do assédio de fãs. Fonseca, que se declara católica, começou suas declarações, na condição de testemunha, fazendo uso da expressão “que Deus abençoe nossa audiência”.
Na inquirição da influenciadora digital, o senador evangélico Cleitinho (Assembleia de Deus, Republicanos-MG) fez um apelo à moral cristã. “Eu queria falar para você, se tocar seu coração, como cristão: você não precisa mais disso. Acaba com isso, não faz mais esse tipo de propaganda”, disse Cleitinho à Virgínia Fonseca, com quem posou para uma selfie. O número de visualizações desse depoimento ultrapassava 1,2 milhão no canal da TV Senado no YouTube, no fechamento desta matéria.
Virgínia foi tietada pelo senador Cleitinho (Republicanos). — Foto: Reprodução/TV Senado
Um dos depoimentos que chamou a atenção pelo destaque à religião foi o do padre Patrick Fernandes, que também é influenciador digital e pediu para depor na CPI. O pároco na cidade de Parauapebas (PA), 37 anos, tem mais de 6,5 milhões de seguidores e é sucesso entre os jovens por uma presença “descolada” nas mídias sociais.
Fernandes acabou convidado depois de publicar um vídeo, no período da realização das audiências, afirmando que gostaria de contribuir com o processo, porque conhecia muitas famílias endividadas por conta das apostas. “Eu sei o estrago que isso está fazendo na vida de tantas pessoas e famílias. Esse negócio de jogar com responsabilidade, pelo amor de Deus, não existe isso não”, Fernandes comentou no vídeo. Ele ainda relatou na publicação que já havia recusado pedidos de divulgação de sites de apostas em seus espaços digitais.
No depoimento, que se deu em 21 de maio passado, ele tratou abertamente dos problemas familiares e financeiros de fiéis que chegam até ele como líder eclesiástico. Patrick Fernandes fez referência a uma frase célebre de Santo Agostinho para afirmar que as bets tentam “saciar uma sede que não é saciada nunca”, e que, para ele, essa incompletude revela uma falta no ser humano da compreensão de Deus.
No último 20 de maio, antes do comparecimento à comissão, o padre havia afirmado que poderia “ser uma voz profética” no Senado Federal ao alertar acerca dos perigos provocados pelas plataformas de apostas online. O depoimento dele à CPI foi mais um momento com ênfase religiosa que teve forte repercussão midiática.
Reprodução: X
Reprodução: X
Bets: uma lacuna conveniente de direitos e obrigações
Nome popularizado em inglês, bets é um termo em português que quer dizer jogos de apostas ou de azar on line (digitais). Estas atividades têm um histórico de proibição no Brasil que remonta a 1946, quando o Decreto-Lei nº 9.215, assinado pelo presidente da República Eurico Gaspar Dutra, baniu cassinos e outros jogos de azar no país.
No entanto, as apostas e jogos online começaram a ganhar espaço no Brasil em um contexto de vácuo regulatório, durante o governo do ex-presidente Michel Temer (MDB). Isso quer dizer que o sistema começou a funcionar em um período em que não existia uma legislação ou norma clara e específica para regular a atividade. Nesse caso, havia uma lacuna nas regras jurídicas sobre apostas online.
Em 2018, a Lei nº 13.756 foi sancionada, legalizando as apostas esportivas de cota fixa (onde o apostador sabe previamente o retorno potencial). Essa legislação surgiu como resposta ao crescimento exponencial dessas plataformas, muitas vezes sediadas no exterior. A lei determinou que o Ministério da Fazenda deveria regulamentar o setor em até dois anos, prazo que poderia ser prorrogado por mais dois.
Durante esse período, a ausência de regras claras possibilitou a proliferação de plataformas que atraíram milhões de brasileiros às casas de apostas virtuais. Porém não assegurou a proteção ao consumidor nem viabilizou a fiscalização contra práticas abusivas. Embora a lei também previsse a tributação das operadoras, a falta de regulamentação detalhada impediu que questões como publicidade, proteção de crianças e adolescentes, e a prevenção ao vício fossem incluídas inicialmente.
O atual Ministério da Fazenda publicou a Portaria nº 1.207/2024, que estabelece os requisitos técnicos dos jogos online, com as regras para apostas. Segundo a normativa, a partir de 2025, foi liberada a atuação de plataformas de apostas online sediadas no Brasil, que deverão ser certificadas para oferecer os jogos no mercado, como o Tigrinho e o Aviãozinho. Os jogos por meio de equipamentos em estabelecimentos físicos seguem continuam proibidos.
O relatório da CPI das Bets estima que a atividade movimentou, no Brasil, entre R$ 89 bilhões e R$ 129 bilhões só no ano passado. Como comparação, o orçamento do Ministério da Educação (MEC) previsto para 2025 é de R$ 187,2 bilhões. “Com crescimento de 1.300% desde 2018, parece-nos que é o melhor negócio que existe nesse momento no nosso país. O consumo das famílias brasileiras diminuiu e empregos da economia real foram destruídos em benefício do lucro astronômico de poucos”, disse a relatora da CPI, senadora Soraya Thronicke.
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Bereia avalia que, embora o relatório final tenha sido rejeitado pela maioria dos membros da CPI, os debates promovidos na comissão trouxeram à tona questões fundamentais sobre os impactos sociais, econômicos, emocionais e espirituais das plataformas virtuais de jogos de azar. A coleta de material da CPI revelou que o vício em jogos online não é apenas uma questão individual, mas um fenômeno que afeta famílias, comunidades e valores coletivos, exigindo respostas que articulem diferentes esferas da sociedade.
Bereia alerta que com o encerramento o trabalho da Comissão do Senado, existe o risco de que a desinformação ganhe espaço, seja em relação às figuras públicas envolvidas nas discussões, seja com a distorção do papel desempenhado pela religião no acolhimento e na prevenção dos malefícios causados pelo uso dessas plataformas de jogos.
A relatora da CPI, senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), afirmou que continuará o trabalho de investigação e encaminhará o conteúdo do parecer a autoridades como o procurador-geral da República Paulo Gonet e o ministro da Justiça Ricardo Lewandowski. “Saio feliz, com a missão cumprida, e todos os brasileiros saberão que não terminou e não terminará em pizza. Eu não sou a pizzaiola”, declarou à TV Senado após o encerramento da CPI. Ela também prometeu apresentar projetos de lei com base nas descobertas da comissão.
Bereia chama a atenção de leitores e leitoras para o fato de a religião cristã ter estado no palco da CPI por meio de discurso defensivo de personagem acusada de exploração ilegal da atividade, apelativo de político a uma moral individual e de articulador de religoso em busca de propagação de suas ações. Descartada a efemeridade e a fragilidade desta presença da religião nas discussões das CPI, ela tem outras dimensões na relação com o tema que são tratadas na parte 2 desta reportagem.
Como Bereia já havia levantado, Promotoria afirma agora que jornal atuou como ferramenta de campanha e desequilibrou o pleito em Niterói. Caso pode tornar deputado inelegível por oito anos.
A Procuradoria Regional Eleitoral do Rio de Janeiro pediu, no início de junho, a declaração de inelegibilidade do deputado federal de identidade cristã não determinada Carlos Jordy (PL-RJ) e do empresário Lindomar Alves Lima, proprietário do jornal O Fluminense. O parecer, enviado ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ), sustenta que ambos cometeram abuso de meios de comunicação ao instrumentalizarem o veículo para atacar o então candidato Rodrigo Neves (PDT) e enaltecer Jordy durante as eleições municipais de 2024 em Niterói.
Bereia já havia publicado sobre o caso, em novembro passado, e apontado um padrão de publicações com forte viés editorial partidário e manipulação informativa na cobertura do histórico jornal de Niterói, O Fluminense. Segundo o levantamento feito pelo jornalista Daniel Reis, foram 23 matérias negativas contra Rodrigo Neves e 14 favoráveis a Jordy, sem qualquer conteúdo crítico sobre o então candidato do PL.
Agora, o Ministério Público Eleitoral (MPE) corrobora esse diagnóstico e afirma que o jornal atuou de forma sistemática para desequilibrar a disputa. O parecer descreve uma “veiculação massiva e reiterada de matérias positivas a Carlos Jordy e negativas a Rodrigo Neves”, em formatos impresso e digital, e também em redes sociais, às vésperas do segundo turno da eleição.
“As fartas provas coligidas aos autos demonstram a veiculação sistemática e massiva, durante todo o período eleitoral, pelo Jornal O Fluminense, de matérias desfavoráveis apenas ao então candidato Rodrigo Neves”, afirma o procurador Flávio Paixão de Moura Júnior no parecer oficial.
Conluio e conteúdo antecipado
Um dos elementos mais graves destacados pelo MPE é a existência de conluio entre Carlos Jordy e a direção do jornal. O procurador cita como indício o fato de Jordy ter publicado em suas redes sociais uma matéria do jornal antes mesmo de ela ser divulgada oficialmente. Segundo o parecer, a prática revela acesso prévio ao conteúdo e coordenação direta.
A Procuradoria conclui que Jordy não foi apenas beneficiado, mas contribuiu ativamente para a prática ilícita, o que justifica a aplicação da pena de inelegibilidade por oito anos conforme a Lei Complementar nº 64/1990.
Apoio religioso como estratégia de campanha
Durante a campanha eleitoral de 2024, o deputado federal Carlos Jordy fortaleceu sua imagem junto ao eleitorado evangélico. Ele se declara cristão e manteve uma relação próxima e estratégica com líderes religiosos, com destaque para encontros e alianças firmadas com pastores influentes. Um dos principais episódios ocorreu em outubro de 2024, quando Jordy reuniu cerca de 250 pastores evangélicos em um evento de apoio à sua candidatura, em Niterói. Na ocasião, ele reforçou seu compromisso com “valores cristãos”, criticou o que denomina “comunismo” e fez uso da menção à importância da fé em Deus como parte de sua plataforma política.
O documento do MPE também reforça que, às vésperas do segundo turno, O Fluminense intensificou a distribuição de edições impressas gratuitamente pela cidade, com matérias que associavam Rodrigo Neves à corrupção e à compra de votos, sem provas ou direito de resposta.
Esse tipo de ação, segundo o parecer, “tem aptidão para desequilibrar a disputa eleitoral e comprometer a normalidade e a legitimidade do pleito”. Apesar de Jordy não ter vencido as eleições, o procurador destaca que a sanção de inelegibilidade independe do resultado final.
O parecer foi encaminhado ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), que deve julgar o recurso nas próximas semanas. A ação é movida pela coligação “Por Amor a Niterói”, encabeçada por Rodrigo Neves, reeleito prefeito com 57,20% dos votos válidos.
A sentença de primeira instância havia julgado improcedente a ação, mas o Ministério Público e os autores do processo recorreram. Para o MPE, a decisão anterior falhou ao ignorar a gravidade das circunstâncias e o impacto da cobertura enviesada do jornal.
Caso o TRE aceite o recurso, Carlos Jordy poderá ficar inelegível até 2032, o que inviabilizaria uma possível candidatura à Prefeitura de Niterói ou à reeleição para deputado federal em 2026.
Atualmente, Jordy, 43 anos, é vice-líder da minoria na Câmara, conhecido deputado da “tropa de choque” da direita extremista e um dos mais aguerridos aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Notório propagador de conteúdo falso e enganoso, é citado em várias matérias do Bereia.
Um vídeo com críticas ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e os recentes casos de ilegalidades envolvendo a família do político foi publicado em mídias sociais pelo vereador de Belo Horizonte Pedro Rousseff (PT-MG), em 1 de junho passado. O conteúdo traça uma relação entre o deputado federal e o crime organizado na comunidade “Cabana do Pai Tomás”, em Belo Horizonte (MG). São usadas as noções de “facção evangélica” e “narcopentecostalismo” para criticar o vínculo de Nikolas Ferreira com pessoas ligadas ao crime organizado na região, uma vez que ele é declaradamente evangélico.
Fonte: Reprodução perfil do vereador Pedro Rousseff no Instagram
O que Bereia checou no vídeo de Pedro Rousseff?
No vídeo, o vereador mineiro relaciona Nikolas Ferreira, que é membro da Comunidade Evangélica Graça e Paz em Belo Horizonte (MG), à facção criminosa do Rio de Janeiro, Terceiro Comando Puro (TCP), que usa símbolos cristãos e cujos membros se autointitulam evangélicos. Rousseff se baseia na informação de que os narcotraficantes cariocas passaram a dominar a comunidade “Cabana do Pai Tomás”, na capital mineira, reduto eleitoral do deputado do PL, logo depois de ele ter sido eleito.
Imagem: reprodução do site do deputado federal Nikolas Ferreira
O vídeo é um dos muitos conteúdos publicados depois da prisão de Glaycon Raniere de Oliveira Fernandes, primo de Nikolas Ferreira, por tráfico de drogas. Ele foi detido com 30kg de maconha e quatro gramas de cocaína, em 30 de maio passado.
As críticas emergiram nas redes digitais pois, além da relação de parentesco, há um vínculo político do deputado mineiro com o traficante preso. Glaycon Fernandes é filho do ex-candidato a prefeito de Nova Serrana (MG) Enéas Fernandes (PL), tio de Nikolas Ferreira. O município foi beneficiado com R$ 1,5 milhão em verbas de emenda parlamentar de Ferreira, conforme ele mesmo divulgou em sua conta no X. Em depoimento, o primo do deputado do PL disse que estava levando a droga para Nova Serrana.
Fonte: Reprodução do perfil de Nikolas Ferreira no X
Os conteúdos críticos, como o vídeo de Pedro Rousseff, têm como alvo também o fato de o deputado do PL e seus aliados do partido, como o tio de Nova Serrana, fazerem uso de discursos morais contra drogas. Neste contexto há ainda as situações em que estes políticos propagam falsidades relacionadas ao tema para atacar opositores, como ocorreu na campanha eleitoral de 2022. Na ocasião, Nikolas Ferreira acusou publicamente o então candidato a presidente da República Lula de incentivar o uso de drogas por crianças e adolescentes.
Imagem: Reprodução de notícia no site UOL, publicada em 10 out 2022
Na checagem do vídeo de Pedro Rousseff, Bereia se deteve no apelo às noções de “facção evangélica” e “narcopentecostalismo”, que caracterizam desinformação relacionada à religião. Bereia já publicou matérias que refutam e explicam porque o uso de expressões como estas, que relacionam o tráfico à religião evangélica, são equivocadas.
Traficante evangélico?
Várias mídias noticiosas estão revendo a forma de apresentar o tema da instrumentalização da fé cristã por criminosos. Matérias jornalísticas recentes abordaram o chamado Complexo de Israel – conjunto de comunidades do Rio de Janeiro comandadas por traficantes autointitulados evangélicos. Porém, apesar de continuarem a usar o termo “traficante evangélico”, portais noticiosos como o G1, Brasil de Fato, entre outros, não mencionaram o termo “narcopentecostalismo” nos textos.
A Folha de S. Paulo, por sua vez, não rotula os criminosos como evangélicos, usa o termo mais apropriado, “autointitulados evangélicos”. Já o jornal Extra, que circula na capital fluminense, nem sequer cita a filiação religiosa dos traficantes do Complexo de Israel, envolvidos em confronto com a polícia, ocorrido neste 10 de junho.
Imagem: Reprodução do site da Folha de São Paulo
Em artigo para a Folha de S. Paulo, o doutor em Teologia pela Universidade de Aberdeen, pastor presbiteriano, psicólogo e líder do movimento Pastores pela Vida (Visão Mundial) Daniel Guanaes critica a forma como a relação entre o crime e a fé evangélica tem sido tratada na imprensa. “Como líder religioso, o tema me sensibiliza. Mas minha angústia é pastoral. Como uma pessoa pode estar na igreja e no tráfico? (…) A conversão a um novo tipo de vida é mais importante do que a adesão ao seu grupo social. Não é possível separar uma religião de sua ética”, ressalta o pastor.
Guanaes recorre a dois personagens da Bíblia para exemplificar o que diz. “Quando um traficante se declara evangélico, a primeira pergunta entre os fiéis é se ele abandonou o tráfico. Essa é a prova de que ele se converteu. Na Bíblia, seria como Saulo de Tarso virando o apóstolo Paulo. Ou como Zaqueu, um coletor de impostos corrupto dizendo, depois de se encontrar com Jesus, que restituiria as pessoas que lesou”.
Para o pastor e teólogo, o crescimento evangélico acelerado na sociedade brasileira pode explicar em parte essa relação nada ortodoxa. “Tudo indica que esse fenômeno ‘narcorreligioso’ seguirá existindo. Não há na religião evangélica uma fiscalização que decide o que ou quem faz parte dela. Ainda que não frequente uma igreja, se um traficante se diz evangélico, quem o proibirá? Seria o mesmo caso ele se apresentasse como praticante de qualquer outra religião. Qualquer tarefa de controle nesse sentido é ineficaz”, argumenta.
Imagem: Reprodução do site da Folha de São Paulo
Bereia já tinha ouvido a doutora em Ciências Sociais, antropóloga, professora da Universidade Federal Fluminense e integrante da equipe do Instituto de Estudos da Religião (ISER) Christina Vital sobre o tema. A pesquisadora, pioneira no estudo sobre a relação entre lideranças do tráfico de drogas e igrejas evangélicas nas periferias do Rio de Janeiro, identificou nos seus estudos, ainda no limiar dos anos 2000, que, na virada dos anos 1990 para os anos 2000 houve uma mudança radical da sociabilidade nas favelas do Rio de Janeiro, no que diz respeito à relação entre religiosidade e tráfico.
“O que acontece em Acari, como em outras favelas, é o crescimento do número de igrejas formando um público cada vez mais numeroso de pessoas que estão nas igrejas. E mesmo aquelas que não estão começam a partilhar daquilo que poderíamos chamar de ‘cultura pentecostal’. Isso é uma marca estética e uma gramática utilizada pelos moradores de modo que os traficantes são influenciados por essas perspectivas compartilhadas de modo mais geral”, explica a doutora.
Ainda de acordo com Vital, não há base concreta para se denominar tal fenômeno como “narcopentecostalismo”, na atualidade. “Não sabemos do futuro, mas, hoje, não temos uma igreja liderada por alguém que está deliberadamente no crime e que tenha uma liturgia ou teologia voltada somente a esta atividade criminosa. Se é isso que o termo supõe, não se sustenta. A aproximação entre criminosos e redes religiosas não é nova, não foi inventada por evangélicos e nem acontece exclusivamente em torno desta religião”, salienta.
Para a antropóloga, no entanto, a expressão “traficantes evangélicos” tem base concreta para se sustentar, mas deve ser usada com cuidado e ética. “Lancei este termo em 2006 para descrever um fenômeno identificado nas favelas cariocas em que eu pesquisava, e o fiz entre aspas, explicando que não era uma autorreferência dos traficantes em relação a eles mesmos. O termo incomodava muitos evangélicos e evangélicas que se sentiam estigmatizados pelo uso descuidado desta expressão que fazia parecer que sua religião era permissiva em relação ao crime e eles afirmam que não”.
A pesquisadora alertou: “No entanto, usei esta terminologia pioneira e cuidadosamente para descrever um fenômeno que chamava atenção: a emergência de traficantes que atuavam em favelas e faziam orações publicamente, participavam de cultos, alguns eram dizimistas em grandes denominações, falavam sobre a redução de práticas violentas em seu cotidiano. Além dos pedidos de oração facilmente identificados pela mídia, esses traficantes apoiavam a divulgação da Palavra e a faziam de forma direta, eventualmente”, explica.
Christina Vital afirmou, entretanto, que ainda não existem dados que comprovem a existência de “narcopentecostalismo” ou “narcorreligião” no Brasil hoje. “Vemos pessoas que estão no crime e se aproximam de religiões, não só evangélicas, mas com isso não podemos dizer que há uma teologia criminal específica, que haja uma igreja de traficantes, para traficantes, propagando valores criminosos, violentos e o uso de drogas à luz da Bíblia ou de qualquer livro sagrado”.
Vital faz um alerta para a desinformação carregada pelo uso desses termos. “Estes termos atendem mais a um anseio sensacionalista de uma mídia e de pesquisadores mal-intencionados ou não tão bem informados”, pontua a professora que coordena o Laboratório de Estudos Sócio Antropológicos em Política, Arte e Religião (Lepar/UFF).
Na mesma reportagem do Bereia, a teóloga, pastora e autora do livro “Traficantes evangélicos: Quem são e a quem servem os novos bandidos de Deus”, Viviane Costa, aborda o aspecto preconceituoso que essas expressões carregam. “O termo ‘narcopentecostalismo’ é equivocado e vem se revelando como parte de um alinhamento preconceituoso midiático contra evangélicos pentecostais. ‘Narcopentecostalismo’ força a ideia de exclusividade e até de ineditismo da presença de religiões em dinâmicas do crime”, enfatiza.
Ainda sobre o tema, em outro veículo, Costa fala sobre as relações religiosas que sempre se deram entre criminosos. “Religião e o crime sempre se entrelaçaram no Brasil. No passado, traficantes pediam proteção a entidades afro-brasileiras e santos católicos. Se olharmos para o nascimento do Comando Vermelho e depois do Terceiro Comando e do TCP, a presença do catolicismo e das religiosidades afro estão ali desde a sua gênese”, descreve a pastora.
Viviane Costa pondera que “vamos ver a presença de São Jorge, a presença de Ogum, os corpos fechados, as tatuagens, as guias, os crucifixos, os cultos, as velas, as oferendas. Por isso, chamar de narcopentecostalismo é reduzir essa relação tão presente, tão sólida, tão histórica e tradicional do crime com a religião”, analisa a teóloga que prefere falar em uma “narcorreligiosidade”. A teóloga explica que isto tem ligação com “uma relação entre religião e tráfico que sempre existiu e agora se reconfigurou para abarcar a crença evangélica, reflexo do espaço e expressão que esta ganhou na sociedade”.
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Bereia checou o vídeo divulgado nas mídias sociais pelo vereador de Belo Horizonte Pedro Rousseff, pelo qual faz críticas à política do deputado federal Nikolas Ferreira e da ligação dos parentes dele, do interior de Minas Gerais, também políticos, com o tráfico de drogas. Apesar de considerar que as suspeitas de que o parlamentar teria relações com novos narcotraficantes na capital daquele estado são lançadas sem indicação de comprovação, Bereia se deteve no uso de desinformação como apelo no vídeo. O vereador mineiro da esquerda fez uso das noções de “facção evangélica” e “narcopentecostalismo”, em contraposição ao fato de Nikolas Ferreira ser evangélico, e elas representam desinformação promotora de intolerância.
Como esta matéria recupera, diante das evidências apresentadas por pesquisadores e analisadas por Bereia, fica nítido que o termo “narcopentecostalismo” — assim como suas variações, como “narcopastor” e “traficantes evangélicos” — carece de base teológica e sociológica. Sua utilização pelas mídias distorcem realidades complexas vividas nas favelas brasileiras, onde há uma coabitação tensa entre igrejas e o tráfico de drogas, mas não uma fusão entre fé e crime.
Chamar esse fenômeno de “narcopentecostalismo” é sensacionalismo. É espalhar uma ideia deturpada que prejudica a compreensão do que realmente acontece nesses territórios. Bereia alerta leitores e leitoras que esta expressão simplifica uma realidade complexa e contribui para reforçar preconceitos contra os evangélicos, alimentando a intolerância religiosa.
Abordagens críticas no espaço político são importantes, bem como a denúncia de instrumentalização da religião para campanhas, mas é preciso rever argumentos que, ao invés de ajudarem a sociedade a entender os desafios enfrentados por igrejas nas periferias, espalham desinformação e fortalecem julgamentos contra um grupo religioso que também é alvo de intolerância.