As mentiras sobre o Pix que circulam em ambientes religiosos 

O Pix tornou-se parte indissociável do cotidiano brasileiro desde a implementação, em 2020. O sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central revolucionou as transações financeiras no país, democratizando o acesso a serviços bancários, gratuitamente. 

No entanto, o sucesso do sistema Pix também o transformou em alvo constante de desinformação, especialmente em ambientes digitais religiosos, onde mentiras são estrategicamente disseminadas com propósitos políticos.

A circulação de conteúdos falsos sobre o Pix em grupos de igrejas, redes digitais de lideranças religiosas e aplicativos de mensagens não é um fenômeno acidental. Trata-se de uma engrenagem estruturada que utiliza o pânico moral e a desconfiança, mas instituições para mobilizar fiéis em favor de pautas da direita política e contra adversários políticos.

Neste cenário, a desinformação ganha força ao ser travestida de “alerta espiritual” ou “defesa dos mais pobres”, com exploração da confiança que pessoas das igrejas depositam em suas lideranças e comunidades de fé. A repetição cíclica dessas narrativas, que frequentemente ressurgem em períodos pré-eleitorais ou inícios de ano, demonstra que a mentira sobre a economia se tornou uma ferramenta consolidada de disputa política.

 A explosão de mentiras sobre o Pix via Nikolas Ferreira

A magnitude do problema ficou evidente no início de 2025. Dados da empresa de monitoramento digital Palver, demonstraram que apenas entre 7 e 14 de janeiro daquele ano, mais de 9,4 milhões de brasileiros foram impactados por uma enxurrada de desinformação sobre o Pix no WhatsApp e Telegram. Foram identificadas mais de 18 mil mensagens únicas compartilhadas em 2,2 mil grupos públicos, alcançando todos os 67 DDDs do país. 

O volume impressionante representou uma média de quase duas mensagens novas por minuto sobre o tema. O conteúdo, classificado majoritariamente como “negativo” pelos sistemas de análise, foi produzido pelo deputado federal evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG). Em janeiro de 2025, o deputado protagonizou um exemplo refinado dessa estratégia de manipulação. 

O vídeo que ele publicou em seus perfis de mídias digitais, em 14 de janeiro, que alcançou 300 milhões de visualizações em dois dias, contrapôs medida anunciada pela Receita Federal, em 2024, com vigência a partir de 1 de janeiro do novo ano. Conforme o Bereia informou, a Instrução Normativa 2.219/2024, da Receita Federal, publicada no Diário Oficial da União, em 18 de setembro de 2024, dispunha sobre “a obrigatoriedade de prestação de informações relativas às operações financeiras de interesse da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil na e-Financeira”. A medida ampliava o monitoramento de transações financeiras no país, que alcançava apenas instituições financeiras tradicionais, como bancos e cooperativas de crédito, com a obrigação de prestar essas informações.

Com a norma, que vigoraria a partir de 1 de janeiro de 2025, transações via Pix e cartões de crédito, acima de R$ 5 mil para pessoas físicas e de R$ 15 mil para empresas, passariam a também ser reportadas por administradoras de cartão de crédito, bancos digitais e instituições de pagamento à Receita Federal. O órgão afirmou em nota que o objetivo era reforçar o combate à evasão fiscal e a promoção da transparência. Foi enfatizado, ainda, que a medida estaria alinhada aos compromissos internacionais do Brasil, para aumentar o controle sobre operações financeiras e facilitar a fiscalização.

No vídeo que viralizou, Nikolas Ferreira não afirmava diretamente que o Pix seria taxado. Ele distorceu a informação da Receita Federal com discurso enganoso. Com o tom alarmista, verbal e visualmente, o deputado afirmou “o governo quer saber como você ganha R$ 5 mil” e prosseguiu: “Não, o Pix não será taxado, mas é bom lembrar que a comprinha da China não seria taxada. Não ia ter sigilo, mas teve. Você ia ser isento do Imposto de Renda, não vai mais. Ia ter picanha, não teve. O Pix não será taxado, mas não duvido que possa ser”. O deputado ainda afirmou que o “governo quer tratar os trabalhadores informais como sonegadores”. 

Imagem: Reprodução do perfil de Nikolas Ferreira no Instagram, 14 jan 2025

O desgaste com a desinformação propaganda pelo parlamentar, com o apoio de outros políticos da direita extremista, como o senador Cleitinho (PL-MG), como o Bereia informou, foi tanto que a Receita Federal revogou a normativa.

Em 2016, o deputado do PL voltou à carga no mesmo mês de janeiro, desta vez com  distorção da Instrução Normativa nº 2.278/2025 da Receita Federal.  A medida técnica foi retomada para combater a lavagem de dinheiro e estendia às fintechs (bancos digitais) as mesmas obrigações de transparência já exigidas de bancos no uso do Pix. A Receita Federal reelaborou o procedimento travado no ano anterior, justamente no mês de agosto de 2025, quando desdobramentos de operações da Polícia Federal pelo país, como a Carbono Oculto, a Quasar e a Tank, demonstraram que facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) utilizam fintechs para lavagem de dinheiro por meio do uso do Pix. O órgão do Ministério da Fazenda informou que, com a revogação provocada pela desinformação de 2025, esses bancos digitais não tinham “as mesmas obrigações de transparência e de fornecimento de informações”, o que fez o crime organizado “aproveitar essa brecha para movimentar, ocultar e lavar seu dinheiro sujo”. Por isso, foi justificado que era preciso retomar a normativa.

Em janeiro de 2026, Nikolas Ferreira usou o mesmo tom do ano anterior para disseminar a ideia de perseguição do governo contra “ambulantes” e “entregadores”, criando pânico com o alarme de que as transações desses grupos passariam a ser taxadas, prejudicando trabalhadores e beneficiando banqueiros. 

“Você que é feirante, manicure, motoboy, ambulante e autônomo, se você movimentar mais de R$ 5 mil por mês pelo Pix e isso não bater com o que você declarou no Imposto de Renda, a Receita vai saber. E você pode cair na malha fina, ser chamado, ter que explicar e pagar imposto que você nunca imaginou pagar. E não porque você virou criminoso, mas porque o Estado passou a olhar para o seu Pix como se fosse um dinheiro suspeito”, alardeou Nikolas Ferreira no vídeo que tinha as mesmas características do que circulou no ano anterior. 

Imagem: Reprodução de publicação do perfil de Nikolas Ferreira no Instagram, 13 jan 2026

Por meio da distorção enganosa, o deputado do PL prosseguiu: “Quando milhões de brasileiros reagiram, eles recuaram. Agora, com o povo distraído, fizeram de novo. A liberdade não acaba de uma vez, ela vai sendo tirada aos poucos por portaria, instrução normativa, ‘ajuste técnico’. Até o dia que governo souber mais do seu dinheiro do que você mesmo, e aí pode ser tarde demais”.

Após uma das operações da Polícia Federal, o secretário especial da Receita Federal Robinson Barreirinhas, chegou a afirmar, segundo reportagem do jornal O Globo, que as “mentiras envolvendo o Pix”, em janeiro de 2025, impediram que o governo fiscalizasse as empresas investigadas, que teriam se tornado um dos “principais braços financeiros do PCC”. O comentário foi repercutido pelo líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias, que acusou Nikolas de ter “beneficiado” a facção

Outras mentiras sobre o Pix  que o Bereia já checou

Ao longo dos últimos anos, o Bereia tem monitorado e verificado os principais conteúdos falsos que circulam sobre o Pix em espaços religiosos. No  levantamento das matérias produzidas desde 2025 fica nítido que o Pix se tornou um alvo da direita extremista para confundir a população tendo em vista a campanha eleitoral de 2026. Pode-se identificar um padrão de distorção de fatos ocorrido e de normativas de órgãos públicos.

A falsa paternidade do Pix por Jair Bolsonaro

Em agosto de 2022, durante o período da campanha eleitoral, o Bereia verificou publicações de políticos alinhados ao então presidente Jair Bolsonaro (PL), que buscava a reeleição,  que atribuíam a criação do Pix ao então presidente. As mensagens, amplamente compartilhadas por fiéis, afirmavam que a oposição dos bancos ao ex-presidente devia-se aos supostos prejuízos bilionários causados pela gratuidade do sistema.

A alegação de que Jair Bolsonaro criou o Pix continua sendo repetida por aliados políticos, apesar de já ter sido desmentida por diversas checagens. O sistema de pagamentos instantâneos foi desenvolvido pelo Banco Central a partir de 2016, durante o governo de Michel Temer, e o grupo de trabalho responsável pelo projeto foi formalizado em 2018. O lançamento ocorreu em novembro de 2020, já no governo Bolsonaro, mas como etapa final de um processo concebido e estruturado anteriormente.

O discurso da falsa paternidade do Pix voltou a ganhar força após a investigação comercial aberta pelos Estados Unidos contra o  Brasil, em 2025, que incluiu o Pix entre as pautas analisadas. Empresas estadunidenses de cartões de crédito e débito,  como Visa e Mastercard, denunciam perda de lucros com a popularização do Pix, gratuito, e demandaram ações do governo dos EUA contra o Brasil.

Em resposta às críticas às pressões externas sobre o sistema e a soberania brasileiros, parlamentares do PL, como os evangélicos senador Flávio Bolsonaro (RJ), pré-candidato à  Presidência da República,  e o deputado federal Sóstenes Cavalcante (RJ),  passaram a reafirmar que Jair Bolsonaro seria o criador do Pix e que caberia ao seu grupo político defendê-lo.

Imagem: reprodução/redes sociais


Imagem: reprodução/Facebook

A controvérsia evidencia a permanência de uma estratégia de capitalização política sobre uma política pública de amplo sucesso.

O pânico em torno da taxação 

Outro conteúdo recorrente é o de que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva pretende  cobrar taxas sobre as transferências via Pix. Assim como foi feito em relação ao vídeo do deputado Nikolas Ferreira, de janeiro de 2025, em junho de 2023, o Bereia classificou como enganosas publicações de deputados como Carla Zambelli (PL-SP) e Eduardo Bolsonaro (PL-SP) que disseminaram a mesma ideia a partir de uma notificação da Caixa Econômica Federal. Esses políticos apoiadores publicaram distorções do documento que declarava taxar empresas que lançam mão do Pix para transações financeiras de altos valores de reais.

A desinformação omitia intencionalmente que a cobrança anunciada pela Caixa aplicava-se exclusivamente a contas de Pessoa Jurídica (PJ) e não a pessoas físicas ou microempreendedores individuais (MEI). Além disso, o conteúdo enganoso ocultava o fato de que a cobrança para empresas já era permitida pela Resolução BCB nº 1/2020 (editada no governo anterior) e era praticada por grandes bancos privados como Bradesco, Itaú e Santander. A distorção da informação correta contribuiu para gerar pânico entre a população, especialmente entre fiéis cristãos que recebiam as mensagens com o alerta de que o governo confiscaria parte de seus rendimentos.

A estrutura do medo e a instrumentalização da fé 

A análise das campanhas de desinformação sobre o Pix revela uma mudança tática da direita extremista e de setores religiosos ultraconservadores. Conforme apontado no balanço do Bereia de janeiro de 2025, observa-se uma transição estratégica: quando a “agenda de costumes” (aborto, gênero, família) perde força mobilizadora temporária, a pauta econômica é acionada com a mesma estrutura de pânico moral.

O método consiste em transformar questões técnicas ou normativas, como atualizações de monitoramento da Receita Federal ou regras de tarifação empresaria,em discurso de perseguição e confisco. Em ambientes religiosos, isso frequentemente assume contornos apocalípticos, nos quais o Estado é retratado como um inimigo opressor que busca controlar os recursos dos “cidadãos de bem”. A instrumentalização da fé ocorre quando influenciadores e políticos utilizam a linguagem religiosa para validar essas mentiras.

A desinformação sobre economia é apresentada não apenas como um alerta financeiro, mas como uma denúncia moral contra um governo descrito como inimigo dos valores cristãos.

O custo social dessa prática é elevado. Instituições como a Receita Federal, o Banco Central e a  Federação Brasileira de Bancos (Febraban) são frequentemente obrigadas a lançar mão de tempo e de recursos para desmentir boatos infundados. Mais grave ainda é a corrosão do debate público, substituído por um ambiente de desconfiança crônica onde fatos perdem relevância diante de conteúdos construídos para gerar medo e engajamento político.

Referências

Agência Lupa

https://www.agencialupa.org/jornalismo/2025/01/14/desinformacao-sobre-pix-impacta-mais-de-9-milhoes-no-whatsapp-e-telegram-em-7-dias/ . Acesso em 15 jun 2026

Focus Brasil

https://fpabramo.org.br/receita-desmente-fake-news-sobre-pix-e-expoe-escalada-de-desinformacao-as-vesperas-das-eleicoes/ . Acesso 16 jun 2026

O Globo

https.//oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/01/14/nikolas-ferreira-volta-a-afirmar-em-video-que-governo-ira-monitorar-o-pix-o-que-a-receita-diz-ser-falso.ghtml. Acesso 16 jun 2026

https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2025/08/29/coordenacao-invisivel-investigacao-contra-o-pcc-encontrou-rede-de-empresas-ficticias-conectadas-pelo-mesmo-endereco-digital.ghtml Acesso 18 jun

https.//oglobo.globo.com/blogs/sonar-a-escuta-das-redes/post/2025/08/lider-do-pt-acusa-nikolas-de-ter-beneficiado-pcc-por-campanha-de-fake-news-contra-o-pix.ghtml Acesso 18 jun

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