Eleições 2026: Campanha contra desinformação nas eleições em espaços religiosos é alvo de mentira de influenciadora cristã candidata 

Poucas horas depois de lançada a campanha de enfrentamento da desinformação circulante em espaços religiosos, durante a eleições de 2026, Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade! , a iniciativa foi alvo de mentira. Circula nas redes um vídeo publicado por uma influenciadora digital evangélica, candidata a deputada federal pelo Novo (RJ), que viralizou nas redes digitais ao afirmar que a campanha  Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade!  teria sido criada pelo governo federal para orientar o voto dos cristãos e favorecer candidatos de esquerda. 

Bereia verificou as declarações e constatou que elas são falsas, pois atribuem à campanha objetivos que não correspondem ao que foi estabelecido pela organização e omitem informações sobre a origem e a finalidade. 

O que é a campanha Boto Fé no Voto?

Lançada nacionalmente em 30 de julho, em Brasília, a campanha Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade! é promovida pela Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) com o Bereia, em parceria com organizações ecumênicas, da sociedade civil para enfrentar a desinformação durante o período eleitoral no Brasil. Com o lema “Eu escolho a verdade”, a iniciativa busca fortalecer a circulação de informações confiáveis, incentivar o voto consciente e estimular o compromisso com a verdade nas eleições de 2026. 

O lançamento ocorreu na Catedral Anglicana de Brasília, em formato de roda de diálogo, e reuniu representantes da CESE, do Bereia, do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), do Coletivo Novas Narrativas, da Cáritas Brasileira, do Fé no Clima/ISER, da Diaconia, da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, entre outros presentes. O encontro teve como tema os impactos da desinformação no processo eleitoral, os desafios da comunicação em ambientes religiosos e o papel das comunidades de fé na promoção da verdade, da democracia e dos direitos humanos.

A campanha lançada será realizada no período eleitoral, e contará com rodas de diálogo, formações, produção de materiais educativos, vídeos, podcasts, cards e outros conteúdos digitais. As ações têm como objetivo incentivar a verificação de informações, ampliar o acesso a fontes confiáveis e promover uma reflexão sobre a responsabilidade ética na circulação de conteúdos e a importância da verdade para o fortalecimento da democracia.

Quem publicou as mentiras?

A autora do vídeo desinformativo é Juliana Fidelis, que se apresenta como “influenciadora digital, humorista e comentarista política”. Ela ganhou popularidade nas redes pela publicação de vídeos de humor sobre o universo evangélico. Como ocorre com muitas personagens nos processos eleitorais anteriores, com base no sucesso digital, nestas eleições, a humorista será candidata à Câmara dos Deputados pelo Partido Novo no estado do Rio de Janeiro. 

Nas redes digitais, onde reúne centenas de milhares de seguidores, a influencer evangélica tem comentado sobre temas ligados ao ultraconservadorismo, ao liberalismo econômico e críticas a governos de esquerda.

Imagem: postagem com o conteúdo enganoso publicada no perfil oficial de Juliana Fidelis

O vídeo com as mentiras alcançou ampla repercussão nas redes digitais. Até a publicação desta checagem, a publicação acumulava mais de 300 mil visualizações, cerca de 7 mil curtidas e mais de 400 comentários.

Quais são as mentiras publicadas?

No vídeo que circula desde 2 de agosto, a humorista evangélica candidata do Novo-RJ afirma que a campanha Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade! teria sido criada pelo governo federal para ensinar cristãos a distinguir “verdade” de “mentira”. Esta afirmação é falsa. A iniciativa não foi criada pelo governo federal, mas por uma articulação de organizações ecumênicas e da sociedade civil. O objetivo é fortalecer a circulação de informações confiáveis, incentivar o voto consciente e promover a educação midiática durante as eleições de 2026. Em nenhum dos materiais oficiais a campanha afirma que cristãos são incapazes de identificar desinformação ou que precisem ser orientados pelo governo. 

Pelo contrário, a CESE e o Bereia já realizaram campanhas com o mesmo objetivo em 2021 e nas eleições municipais de 2024. No material da campanha de 2026 está explicitado que “a desinformação não tem partido nem ideologia, religião, identidade racial, de gênero, de faixa etária ou de escolaridade. Ela pode surgir e ser compartilhada por quaisquer pessoas e grupos. Por essa razão, a campanha Boto Fé no Voto atua de forma apartidária, comprometida exclusivamente com a defesa da verdade, da ética, do diálogo democrático e do acesso a informações verificadas. Toda informação falsa ou enganosa, checada pela campanha, será tratada com o mesmo rigor, independentemente de favorecer qualquer posicionamento político-partidário ou governamental”.

Ao comentar o lema da campanha, “Eu escolho a verdade”, a influenciadora também afirma que a iniciativa seria destinada exclusivamente aos cristãos e ironiza: “Ó, só para quem é cristão, tá?” , e aproveita para criticar o que chama de “governo esquerdista”. O conteúdo apresentado pela influenciadora candidata a deputada federal pelo Novo distorce a proposta da campanha. Embora as comunidades de fé sejam um dos públicos prioritários da mobilização, a iniciativa não se dirige apenas aos cristãos nem estabelece qualquer associação entre o conceito bíblico de verdade e um posicionamento político. O próprio material de divulgação da campanha convida igrejas, organizações da sociedade civil, educadores, comunicadores e toda a população a refletirem sobre a importância da informação de qualidade para a democracia.

Outra afirmação da humorista evangélica é que a campanha foi feita para orientar o voto de cristãos. Este conteúdo é falso. A campanha Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade!  não orienta o voto de cristãos nem de qualquer outro segmento da população. De acordo com a organização, a iniciativa surgiu diante da preocupação com o aumento da circulação de conteúdos falsos e enganosos em ambientes religiosos durante os períodos eleitorais. Estudos acadêmicos, investigações jornalísticas e iniciativas de monitoramento identificaram que, nas últimas eleições, mensagens falsas e descontextualizadas circularam amplamente em grupos de aplicativos de mensagens e em redes digitais seguidos por pessoas de comunidades de fé, influenciando o debate público e o comportamento eleitoral.

A organização reafirma que os materiais oficiais da campanha não indicam candidatos, não recomendam partidos e não orientam o voto em nomes específicos. A proposta é promover educação midiática e estimular o consumo crítico de informações, para que o eleitorado com vinculado a uma comunidade de fé possa identificar conteúdos falsos ou enganosos antes de compartilhá-los.

Por que comunidades cristãs são destacadas?

A escolha das comunidades cristãs como um dos públicos da campanha, por sua vez, está fundamentada em pesquisas sobre a circulação da desinformação em ambientes religiosos. O Bereia surgiu justamente a partir de um estudo desenvolvido pelo NUTES/UFRJ, que investigou a propagação de conteúdos falsos entre grupos religiosos no WhatsApp e em outras redes digitais. As pesquisas indicam que cristãos tendem a absorver e difundir com maior intensidade conteúdos falsos e enganosos, não por uma suposta incapacidade de distinguir verdade de mentira, mas porque a confiança construída nas comunidades de fé favorece o compartilhamento de mensagens recebidas de líderes e pessoas próximas. Soma-se a isso o chamado “espírito missionário”, que incentiva a divulgação do que muitos fiéis entendem como uma “verdade revelada”, além da frequente exploração de discursos de pânico moral e medo por produtores de desinformação

Assim, ao afirmar que a campanha parte da premissa de que “o cristão não sabe o que é verdade” ou que foi criada para favorecer o governo federal, a candidata do Novo-RJ inventa objetivos e despreza o contexto que motivou a criação a iniciativa: o enfrentamento à circulação recorrente de desinformação em ambientes religiosos, fenômeno amplamente documentado por pesquisas acadêmicas e pelo trabalho de monitoramento realizado pelo Bereia.

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Bereia classific, portanto, o conteúdo publicado pela influenciadora evangélica candidata a deputada federal pelo Novo-RJ como Falso. Ela mente deliberadamente  ao afirmar que a campanha educativa de organizações ecumênicas e da sociedade civil foi criada pelo governo federal para orientar o voto de cristãos e para favorecer um grupo político. O material de divulgação da campanha, disponível a qualquer pessoa, e o evento de lançamento, realizado em Brasília, aberto ao público (e registrado em vídeo) mostram quem promove a campanha e a quê ela se destina. É explicitamente declarado que a iniciativa não apoia candidatos ou partidos políticos e tem como finalidade incentivar o consumo crítico de informações e o enfrentamento à desinformação durante as eleições de 2026. Espera-se, com a campanha, que o eleitorado vinculado às comunidades de fé exerça livremente o direito de escolher em quem votar, sem influências nocivas, como esta exposta no próprio conteúdo mentiroso espalhado pela influenciadora evangélica que tem interesse eleitoreiro.

Bereia alerta leitores e leitoras a não assimilarem e compartilharem conteúdo crítico e acusatório a qualquer pessoa, grupo, iniciativa, sem antes verificar a validade e a veracidade do que está sendo dito. Quem propaga mentira quer esconder a verdade e não deseja que as pessoas pensem por elas próprias e se baseiam em informação e conteúdo confiável e justo.

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Referências:

Cese. https://cese.org.br/noticia/boto-fe-no-voto-campanha-nacional-mobiliza-comunidades-de-fe-para-enfrentar-a-desinformacao-nas-eleicoes-de-2026/. Acesso em 3 de agosto de 2026. 

G1. https://g1.globo.com/df/distrito-federal/eleicoes/2026/noticia/2026/07/31/boto-fe-no-voto-acao-mobiliza-igrejas-de-todo-o-pais-contra-a-desinformacao-nas-eleicoes-2026.ghtml. Acesso em 3 de agosto de 2026. 

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