As mentiras sobre o Pix que circulam em ambientes religiosos 

O Pix tornou-se parte indissociável do cotidiano brasileiro desde a implementação, em 2020. O sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central revolucionou as transações financeiras no país, democratizando o acesso a serviços bancários, gratuitamente. 

No entanto, o sucesso do sistema Pix também o transformou em alvo constante de desinformação, especialmente em ambientes digitais religiosos, onde mentiras são estrategicamente disseminadas com propósitos políticos.

A circulação de conteúdos falsos sobre o Pix em grupos de igrejas, redes digitais de lideranças religiosas e aplicativos de mensagens não é um fenômeno acidental. Trata-se de uma engrenagem estruturada que utiliza o pânico moral e a desconfiança, mas instituições para mobilizar fiéis em favor de pautas da direita política e contra adversários políticos.

Neste cenário, a desinformação ganha força ao ser travestida de “alerta espiritual” ou “defesa dos mais pobres”, com exploração da confiança que pessoas das igrejas depositam em suas lideranças e comunidades de fé. A repetição cíclica dessas narrativas, que frequentemente ressurgem em períodos pré-eleitorais ou inícios de ano, demonstra que a mentira sobre a economia se tornou uma ferramenta consolidada de disputa política.

 A explosão de mentiras sobre o Pix via Nikolas Ferreira

A magnitude do problema ficou evidente no início de 2025. Dados da empresa de monitoramento digital Palver, demonstraram que apenas entre 7 e 14 de janeiro daquele ano, mais de 9,4 milhões de brasileiros foram impactados por uma enxurrada de desinformação sobre o Pix no WhatsApp e Telegram. Foram identificadas mais de 18 mil mensagens únicas compartilhadas em 2,2 mil grupos públicos, alcançando todos os 67 DDDs do país. 

O volume impressionante representou uma média de quase duas mensagens novas por minuto sobre o tema. O conteúdo, classificado majoritariamente como “negativo” pelos sistemas de análise, foi produzido pelo deputado federal evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG). Em janeiro de 2025, o deputado protagonizou um exemplo refinado dessa estratégia de manipulação. 

O vídeo que ele publicou em seus perfis de mídias digitais, em 14 de janeiro, que alcançou 300 milhões de visualizações em dois dias, contrapôs medida anunciada pela Receita Federal, em 2024, com vigência a partir de 1 de janeiro do novo ano. Conforme o Bereia informou, a Instrução Normativa 2.219/2024, da Receita Federal, publicada no Diário Oficial da União, em 18 de setembro de 2024, dispunha sobre “a obrigatoriedade de prestação de informações relativas às operações financeiras de interesse da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil na e-Financeira”. A medida ampliava o monitoramento de transações financeiras no país, que alcançava apenas instituições financeiras tradicionais, como bancos e cooperativas de crédito, com a obrigação de prestar essas informações.

Com a norma, que vigoraria a partir de 1 de janeiro de 2025, transações via Pix e cartões de crédito, acima de R$ 5 mil para pessoas físicas e de R$ 15 mil para empresas, passariam a também ser reportadas por administradoras de cartão de crédito, bancos digitais e instituições de pagamento à Receita Federal. O órgão afirmou em nota que o objetivo era reforçar o combate à evasão fiscal e a promoção da transparência. Foi enfatizado, ainda, que a medida estaria alinhada aos compromissos internacionais do Brasil, para aumentar o controle sobre operações financeiras e facilitar a fiscalização.

No vídeo que viralizou, Nikolas Ferreira não afirmava diretamente que o Pix seria taxado. Ele distorceu a informação da Receita Federal com discurso enganoso. Com o tom alarmista, verbal e visualmente, o deputado afirmou “o governo quer saber como você ganha R$ 5 mil” e prosseguiu: “Não, o Pix não será taxado, mas é bom lembrar que a comprinha da China não seria taxada. Não ia ter sigilo, mas teve. Você ia ser isento do Imposto de Renda, não vai mais. Ia ter picanha, não teve. O Pix não será taxado, mas não duvido que possa ser”. O deputado ainda afirmou que o “governo quer tratar os trabalhadores informais como sonegadores”. 

Imagem: Reprodução do perfil de Nikolas Ferreira no Instagram, 14 jan 2025

O desgaste com a desinformação propaganda pelo parlamentar, com o apoio de outros políticos da direita extremista, como o senador Cleitinho (PL-MG), como o Bereia informou, foi tanto que a Receita Federal revogou a normativa.

Em 2016, o deputado do PL voltou à carga no mesmo mês de janeiro, desta vez com  distorção da Instrução Normativa nº 2.278/2025 da Receita Federal.  A medida técnica foi retomada para combater a lavagem de dinheiro e estendia às fintechs (bancos digitais) as mesmas obrigações de transparência já exigidas de bancos no uso do Pix. A Receita Federal reelaborou o procedimento travado no ano anterior, justamente no mês de agosto de 2025, quando desdobramentos de operações da Polícia Federal pelo país, como a Carbono Oculto, a Quasar e a Tank, demonstraram que facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) utilizam fintechs para lavagem de dinheiro por meio do uso do Pix. O órgão do Ministério da Fazenda informou que, com a revogação provocada pela desinformação de 2025, esses bancos digitais não tinham “as mesmas obrigações de transparência e de fornecimento de informações”, o que fez o crime organizado “aproveitar essa brecha para movimentar, ocultar e lavar seu dinheiro sujo”. Por isso, foi justificado que era preciso retomar a normativa.

Em janeiro de 2026, Nikolas Ferreira usou o mesmo tom do ano anterior para disseminar a ideia de perseguição do governo contra “ambulantes” e “entregadores”, criando pânico com o alarme de que as transações desses grupos passariam a ser taxadas, prejudicando trabalhadores e beneficiando banqueiros. 

“Você que é feirante, manicure, motoboy, ambulante e autônomo, se você movimentar mais de R$ 5 mil por mês pelo Pix e isso não bater com o que você declarou no Imposto de Renda, a Receita vai saber. E você pode cair na malha fina, ser chamado, ter que explicar e pagar imposto que você nunca imaginou pagar. E não porque você virou criminoso, mas porque o Estado passou a olhar para o seu Pix como se fosse um dinheiro suspeito”, alardeou Nikolas Ferreira no vídeo que tinha as mesmas características do que circulou no ano anterior. 

Imagem: Reprodução de publicação do perfil de Nikolas Ferreira no Instagram, 13 jan 2026

Por meio da distorção enganosa, o deputado do PL prosseguiu: “Quando milhões de brasileiros reagiram, eles recuaram. Agora, com o povo distraído, fizeram de novo. A liberdade não acaba de uma vez, ela vai sendo tirada aos poucos por portaria, instrução normativa, ‘ajuste técnico’. Até o dia que governo souber mais do seu dinheiro do que você mesmo, e aí pode ser tarde demais”.

Após uma das operações da Polícia Federal, o secretário especial da Receita Federal Robinson Barreirinhas, chegou a afirmar, segundo reportagem do jornal O Globo, que as “mentiras envolvendo o Pix”, em janeiro de 2025, impediram que o governo fiscalizasse as empresas investigadas, que teriam se tornado um dos “principais braços financeiros do PCC”. O comentário foi repercutido pelo líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias, que acusou Nikolas de ter “beneficiado” a facção

Outras mentiras sobre o Pix  que o Bereia já checou

Ao longo dos últimos anos, o Bereia tem monitorado e verificado os principais conteúdos falsos que circulam sobre o Pix em espaços religiosos. No  levantamento das matérias produzidas desde 2025 fica nítido que o Pix se tornou um alvo da direita extremista para confundir a população tendo em vista a campanha eleitoral de 2026. Pode-se identificar um padrão de distorção de fatos ocorrido e de normativas de órgãos públicos.

A falsa paternidade do Pix por Jair Bolsonaro

Em agosto de 2022, durante o período da campanha eleitoral, o Bereia verificou publicações de políticos alinhados ao então presidente Jair Bolsonaro (PL), que buscava a reeleição,  que atribuíam a criação do Pix ao então presidente. As mensagens, amplamente compartilhadas por fiéis, afirmavam que a oposição dos bancos ao ex-presidente devia-se aos supostos prejuízos bilionários causados pela gratuidade do sistema.

A alegação de que Jair Bolsonaro criou o Pix continua sendo repetida por aliados políticos, apesar de já ter sido desmentida por diversas checagens. O sistema de pagamentos instantâneos foi desenvolvido pelo Banco Central a partir de 2016, durante o governo de Michel Temer, e o grupo de trabalho responsável pelo projeto foi formalizado em 2018. O lançamento ocorreu em novembro de 2020, já no governo Bolsonaro, mas como etapa final de um processo concebido e estruturado anteriormente.

O discurso da falsa paternidade do Pix voltou a ganhar força após a investigação comercial aberta pelos Estados Unidos contra o  Brasil, em 2025, que incluiu o Pix entre as pautas analisadas. Empresas estadunidenses de cartões de crédito e débito,  como Visa e Mastercard, denunciam perda de lucros com a popularização do Pix, gratuito, e demandaram ações do governo dos EUA contra o Brasil.

Em resposta às críticas às pressões externas sobre o sistema e a soberania brasileiros, parlamentares do PL, como os evangélicos senador Flávio Bolsonaro (RJ), pré-candidato à  Presidência da República,  e o deputado federal Sóstenes Cavalcante (RJ),  passaram a reafirmar que Jair Bolsonaro seria o criador do Pix e que caberia ao seu grupo político defendê-lo.

Imagem: reprodução/redes sociais


Imagem: reprodução/Facebook

A controvérsia evidencia a permanência de uma estratégia de capitalização política sobre uma política pública de amplo sucesso.

O pânico em torno da taxação 

Outro conteúdo recorrente é o de que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva pretende  cobrar taxas sobre as transferências via Pix. Assim como foi feito em relação ao vídeo do deputado Nikolas Ferreira, de janeiro de 2025, em junho de 2023, o Bereia classificou como enganosas publicações de deputados como Carla Zambelli (PL-SP) e Eduardo Bolsonaro (PL-SP) que disseminaram a mesma ideia a partir de uma notificação da Caixa Econômica Federal. Esses políticos apoiadores publicaram distorções do documento que declarava taxar empresas que lançam mão do Pix para transações financeiras de altos valores de reais.

A desinformação omitia intencionalmente que a cobrança anunciada pela Caixa aplicava-se exclusivamente a contas de Pessoa Jurídica (PJ) e não a pessoas físicas ou microempreendedores individuais (MEI). Além disso, o conteúdo enganoso ocultava o fato de que a cobrança para empresas já era permitida pela Resolução BCB nº 1/2020 (editada no governo anterior) e era praticada por grandes bancos privados como Bradesco, Itaú e Santander. A distorção da informação correta contribuiu para gerar pânico entre a população, especialmente entre fiéis cristãos que recebiam as mensagens com o alerta de que o governo confiscaria parte de seus rendimentos.

A estrutura do medo e a instrumentalização da fé 

A análise das campanhas de desinformação sobre o Pix revela uma mudança tática da direita extremista e de setores religiosos ultraconservadores. Conforme apontado no balanço do Bereia de janeiro de 2025, observa-se uma transição estratégica: quando a “agenda de costumes” (aborto, gênero, família) perde força mobilizadora temporária, a pauta econômica é acionada com a mesma estrutura de pânico moral.

O método consiste em transformar questões técnicas ou normativas, como atualizações de monitoramento da Receita Federal ou regras de tarifação empresaria,em discurso de perseguição e confisco. Em ambientes religiosos, isso frequentemente assume contornos apocalípticos, nos quais o Estado é retratado como um inimigo opressor que busca controlar os recursos dos “cidadãos de bem”. A instrumentalização da fé ocorre quando influenciadores e políticos utilizam a linguagem religiosa para validar essas mentiras.

A desinformação sobre economia é apresentada não apenas como um alerta financeiro, mas como uma denúncia moral contra um governo descrito como inimigo dos valores cristãos.

O custo social dessa prática é elevado. Instituições como a Receita Federal, o Banco Central e a  Federação Brasileira de Bancos (Febraban) são frequentemente obrigadas a lançar mão de tempo e de recursos para desmentir boatos infundados. Mais grave ainda é a corrosão do debate público, substituído por um ambiente de desconfiança crônica onde fatos perdem relevância diante de conteúdos construídos para gerar medo e engajamento político.

Referências

Agência Lupa

https://www.agencialupa.org/jornalismo/2025/01/14/desinformacao-sobre-pix-impacta-mais-de-9-milhoes-no-whatsapp-e-telegram-em-7-dias/ . Acesso em 15 jun 2026

Focus Brasil

https://fpabramo.org.br/receita-desmente-fake-news-sobre-pix-e-expoe-escalada-de-desinformacao-as-vesperas-das-eleicoes/ . Acesso 16 jun 2026

O Globo

https.//oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/01/14/nikolas-ferreira-volta-a-afirmar-em-video-que-governo-ira-monitorar-o-pix-o-que-a-receita-diz-ser-falso.ghtml. Acesso 16 jun 2026

https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2025/08/29/coordenacao-invisivel-investigacao-contra-o-pcc-encontrou-rede-de-empresas-ficticias-conectadas-pelo-mesmo-endereco-digital.ghtml Acesso 18 jun

https.//oglobo.globo.com/blogs/sonar-a-escuta-das-redes/post/2025/08/lider-do-pt-acusa-nikolas-de-ter-beneficiado-pcc-por-campanha-de-fake-news-contra-o-pix.ghtml Acesso 18 jun

Por que os Estados Unidos abriram uma investigação contra o Pix? 

O Pix voltou ao centro do debate público no Brasil. Desta vez, o sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central tornou-se alvo de críticas do regime do presidente dos Estados Unidos Donald Trump, que acusa a autoridade monetária brasileira de favorecer a plataforma em detrimento de empresas norte-americanas que atuam no setor de pagamentos digitais.

As acusações passaram a circular em meio a uma investigação comercial aberta pelos EUA contra o Brasil e levantaram questionamentos sobre possíveis impactos para o sistema de pagamentos brasileiro. Diante da repercussão do tema, o Bereia verificou o que motivou a investigação, quais são as acusações apresentadas pelo governo norte-americano e quais podem ser as consequências práticas para o Pix.

A investigação

As críticas ao Pix surgem no contexto de uma investigação comercial aberta pelos Estados Unidos contra o Brasil. O processo foi iniciado pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), a pedido do presidente Donald Trump, e anunciado em documento oficial divulgado em julho de 2025. 

Segundo o USTR estadunidense, a investigação busca apurar práticas consideradas desleais e supostamente prejudiciais aos interesses comerciais norte-americanos. O órgão afirma que há décadas documenta medidas brasileiras que restringiriam o acesso de exportadores dos Estados Unidos ao mercado nacional. 

A investigação tem como base a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo da legislação norte-americana que permite ao governo dos Estados Unidos apurar práticas comerciais consideradas injustas e, posteriormente, adotar medidas de retaliação, como tarifas ou outras restrições comerciais. 

Trump já havia sinalizado a abertura da investigação na mesma carta em que anunciou a intenção de aplicar uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. No documento, o presidente estadunidense mistura argumentos comerciais e políticos para justificar a medida, e inclui alegações sobre um suposto déficit comercial dos Estados Unidos com o Brasil entre repúdio à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, julgado e condenado por tentativa de golpe de Estado. Dados oficiais, contudo, mostram que os estadunidenses mantêm superávit comercial na relação bilateral desde 2009.

Ao justificar a investigação, Trump também mencionou o que classificou como “ataques contínuos do Brasil às atividades comerciais digitais de empresas americanas”, além de outras práticas consideradas desleais pelo regime. 

Por que o Pix entrou na mira dos Estados Unidos?

Embora a investigação aberta pelo USTR abranja diferentes áreas da economia brasileira, como políticas tarifárias, combate à corrupção, propriedade intelectual, comércio de etanol e desmatamento ilegal, o Pix tornou-se um dos principais focos das críticas do regime Trump. 

No relatório, o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos é citado na categoria de comércio digital e serviços de pagamento eletrônico. De acordo com o governo dos Estados Unidos, o Banco Central do Brasil exerce simultaneamente as funções de regulador e operador da plataforma, o que poderia criar vantagens competitivas para o Pix em relação a empresas privadas do setor, como as empresas de cartões de crédito. 

A investigação sustenta que esse modelo dificulta a atuação de companhias estrangeiras de meios de pagamento no mercado brasileiro. Entre os pontos questionados estão a obrigatoriedade de participação no Pix para instituições financeiras com mais de 500 mil contas e a exigência de que a ferramenta ocupe posição de destaque nos aplicativos das instituições participantes, com visibilidade igual ou superior à de outros meios de pagamento e transferência. 

Outro alvo das críticas é a política de gratuidade do Pix para pessoas físicas. Na avaliação do USTR, empresas estrangeiras são obrigadas a disponibilizar e promover um sistema concorrente sem receber compensação financeira por isso. O documento argumenta que as regras de disponibilidade, visibilidade e cobrança estabelecidas pelo Banco Central configuram um tratamento preferencial ao Pix, em detrimento de outros prestadores de serviços de pagamento eletrônico. 

O relatório afirma ainda que essas medidas favorecem o que classifica como um “campeão nacional” brasileiro, e reduz as condições de concorrência para empresas estrangeiras que atuam no setor. 

A insatisfação das autoridades dos EUA com o Pix não é recente. Em relatório divulgado pela Casa Branca em abril deste ano, o sistema já havia sido citado como um fator que afeta os interesses de grandes operadoras de cartões de crédito, como Visa e Mastercard. A avaliação considera que a ampla adesão dos consumidores brasileiros ao Pix reduziu o espaço de atuação de modelos tradicionais de pagamento baseados na cobrança de taxas por transação. 

Em resumo: a gratuidade de um sistema brasileiro,  soberano, criado para permitir ampla participação da população do Brasil nas transações digitais, sem passar pelo dólar estadunidense,  prejudica os lucros de operadoras financeiras daquele país. Por isso estes agentes querem retaliação.

O Pix corre risco de sofrer sanções?

Até o momento, não há qualquer medida específica anunciada contra o Pix. A conclusão da investigação do USTR representa uma etapa do processo e não resulta automaticamente em sanções ou restrições ao sistema brasileiro de pagamentos.

As acusações integram a conclusão da investigação comercial que aponta supostas práticas brasileiras capazes de restringir ou onerar o comércio com empresas norte-americanas. Como consequência, o USTR propôs a adoção de tarifas de 25% sobre parte das exportações brasileiras destinadas aos EUA. 

O relatório abre espaço para que o regime Trump avalie possíveis respostas comerciais em relação ao Brasil, mas eventuais decisões ainda dependem das próximas fases da investigação e das discussões entre os dois países.

O cronograma divulgado pelo USTR prevê a continuidade das consultas públicas sobre o tema, além da realização de audiências e negociações diplomáticas antes de uma decisão final. Nesse período, representantes do governo brasileiro, instituições financeiras e demais interessados poderão apresentar argumentos e esclarecimentos sobre os pontos levantados pela investigação.

Dessa forma, embora o Pix tenha sido incluído entre os alvos das críticas estadunidenses ainda não há definição sobre quais consequências práticas poderão decorrer do processo nem sobre eventuais impactos diretos para o sistema de pagamentos brasileiro.

Como o setor financeiro brasileiro responde às acusações?

As críticas das autoridades norte-americanas ao Pix foram contestadas tanto pelo setor bancário quanto pelo governo brasileiro. Em nota, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) afirmou que as conclusões do USTR decorrem de uma compreensão incompleta sobre os objetivos e o funcionamento do Pix. Para a entidade, o sistema opera em um modelo aberto e não discriminatório, com participação de bancos, fintechs e instituições financeiras nacionais e estrangeiras. A federação também argumenta que não existem barreiras para a entrada de novos participantes, desde que estejam autorizados a atuar no mercado brasileiro.

A Febraban ressalta ainda que o Pix é gratuito para pessoas físicas, mas pode ter tarifas aplicadas a empresas, sem distinção entre companhias brasileiras e estrangeiras. Na avaliação da entidade, o sistema contribuiu para ampliar o acesso da população aos serviços financeiros, reduzir custos operacionais e aumentar a eficiência das transações comerciais, especialmente nas operações de menor valor. 

Outro argumento apresentado pelo setor bancário é que o Pix não substitui outros meios de pagamento, como cartões de débito e crédito. Para a federação, diferentes instrumentos continuam coexistindo e atendendo a demandas distintas de consumidores e empresas, o que preserva a concorrência no sistema financeiro. 

O governo brasileiro também rejeitou as acusações de tratamento preferencial ou discriminatório. Em resposta à conclusão preliminar da investigação, afirmou que o Pix é uma infraestrutura pública administrada pelo Banco Central e que suas regras são aplicadas de forma uniforme a todos os participantes do mercado. 

O governo argumenta ainda que empresas estadunidenses atuam normalmente no ecossistema de pagamentos brasileiro e não enfrentam restrições específicas. Além disso, destaca que o Brasil figura entre os principais mercados mundiais para companhias dos EUA que operam no setor de pagamentos.

De acordo com o governo, a legislação brasileira assegura tratamento equitativo a empresas nacionais e estrangeiras, e não há evidências de que as regras do Pix prejudiquem a atuação de companhias norte-americanas no país.

O que os Estados Unidos podem fazer contra o Pix?

As críticas ao Pix não começaram com a investigação mais recente. Em março deste ano, o sistema brasileiro de pagamentos já havia sido mencionado em um relatório do USTR que lista barreiras comerciais e regulatórias identificadas pelo regime Trump em mais de 60 países. 

Na ocasião, o governo brasileiro reagiu às críticas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Pix é uma ferramenta nacional e rejeitou a possibilidade de alterações motivadas por pressões externas. O sistema também recebeu manifestações de apoio de autoridades estrangeiras, entre elas o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que elogiou o modelo brasileiro e defendeu a ampliação de iniciativas semelhantes na América Latina. 

Com a conclusão preliminar da investigação, uma das principais dúvidas é se os EUA têm mecanismos para agir diretamente contra o Pix. Especialistas em comércio exterior e regulação econômica afirmam que não. Como se trata de uma infraestrutura financeira administrada pelo Banco Central do Brasil, as autoridades norte-americanas não possuem jurisdição para interferir diretamente em seu funcionamento. 

As medidas previstas na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, utilizada como base para a investigação, concentram-se no campo das relações comerciais. Entre os instrumentos disponíveis ao regime Trump estão a imposição de tarifas, a suspensão de benefícios comerciais e outras restrições relacionadas ao comércio bilateral.

Por esse motivo, especialistas avaliam que eventuais consequências da investigação tendem a atingir setores da relação comercial entre Brasil e EUA, e não o funcionamento do Pix em si. Qualquer medida dependerá das próximas etapas do processo, das consultas públicas previstas pelo USTR e das negociações diplomáticas entre os dois países.

Portanto, embora o sistema brasileiro de pagamentos esteja entre os temas analisados pela investigação, não há indicação de que os EUA possam suspender, controlar ou alterar diretamente o funcionamento do Pix.

A disputa em dimensão política

O debate sobre o Pix ultrapassou a esfera econômica e passou a integrar o embate político entre governo e oposição no Brasil.

No mesmo dia em que o governo dos Estados Unidos anunciou a conclusão da investigação, o presidente Donald Trump publicou em sua conta oficial do X, uma mensagem ao lado do senador evangélico, pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), após um encontro realizado na Casa Branca. Na publicação, Trump elogiou o parlamentar brasileiro e destacou sua atuação política.

Imagem: Encontro entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump na Casa Branca. Fonte: X. 

Antes da manifestação de Trump, Flávio Bolsonaro tentava desviar-se de críticas de ter sido promotor dos novos ataques do regime dos EUA à economia brasileira. As novas medidas foram divulgadas logo após a visita do senador a Trump. Por isso, ele divulgou um vídeo nas redes digitais em que afirmou ser contrário à adoção de novas tarifas sobre produtos brasileiros. O senador informou que durante a reunião na Casa Branca, solicitou que eventuais medidas comerciais não fossem direcionadas às empresas do país. Porém,  a publicação dos elogios de Trump a Flávio Bolsonaro intensificaram as críticas a possíveis ações de traição à pátria  do candidato à Presidência do Brasil.

Posteriormente, Flávio encaminhou uma carta ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, na qual pediu que Washington não adotasse novas restrições comerciais contra o Brasil. No documento, argumentou que eventuais sanções poderiam causar prejuízos à economia brasileira e à população. 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, atribuiu parte da escalada das tensões à atuação internacional de Flávio Bolsonaro e do irmão dele, o deputado federal evangélico cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Em declarações públicas, Lula acusou ambos de incentivarem a interferência de um governo estrangeiro em assuntos internos do Brasil. 

Eduardo Bolsonaro rejeitou as acusações. Em publicação nas redes, afirmou que sua família não influenciou a decisão do governo estadunidense e negou qualquer participação na abertura da investigação ou na discussão de possíveis medidas comerciais contra o Brasil.

A controvérsia ocorre em meio às negociações entre Brasília e Washington para tentar reduzir as divergências comerciais entre os dois países. Em encontro oficial realizado em maio passado na Casa Branca, Lula e Trump discutiram o tema e concordaram em manter canais de negociação para buscar soluções diplomáticas.

Referências:

USTR. https://ustr.gov/about/policy-offices/press-office/press-releases/2026/june/ustr-section-301-determination-brazils-unreasonable-acts-policies-and-practices. Acesso em 9 de junho de 2026.

G1. https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/06/02/por-que-o-pix-virou-alvo-de-trump-em-investigacao-comercial-contra-o-brasil.ghtml. Acesso em 9 de junho de 2026.

G1. https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/06/08/investigacao-dos-eua-contra-o-pix-expoe-disputa-global-por-controle-dos-pagamentos-digitais.ghtml. Acesso em 9 de junho de 2026.

G1. https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/06/02/eua-concluem-investigacao-e-propoem-retaliacao-comercial-contra-o-brasil-por-decisoes-judiciais-tarifas-e-desmatamento.ghtml. Acesso em 9 de junho de 2026.

G1. https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/07/09/trump-manda-carta-a-lula-e-anuncia-tarifa-de-50percent-sobre-produtos-brasileiros.ghtml. Acesso em 9 de junho de 2026.

G1. https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/07/09/balanca-comercial-brasil-importa-mais-do-que-exporta-na-relacao-com-os-eua-desde-2009.ghtml. Acesso em 9 de junho de 2026.

BBC NEWS Brasil. https://www.bbc.com/portuguese/articles/cvgzjydl9lgo. Acesso em 9 de junho de 2026.

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Nota da Federação Brasileira de Bancos. https://static.poder360.com.br/2026/06/nota-febraban-defesa-pix-2-jun-2026.pdf. Acesso em 9 de junho de 2026.

Secretária de Comunicação Social. https://www.gov.br/secom/pt-br/acompanhe-a-secom/noticias/2026/06/conclusao-preliminar-da-investigacao-da-secao-301. Acesso em 9 de junho de 2026.

Secretária de Comunicação Social. https://www.gov.br/secom/pt-br/acompanhe-a-secom/noticias/2026/05/nota-a-imprensa. Acesso em 9 de junho de 2026.Relatório de Estimativa do Comércio Nacional. https://ustr.gov/sites/default/files/files/Press/Releases/2026/National%20Trade%20Estimate%20Report%202026.pdf. Acesso em 9 de junho de 2026.

Grupos e políticos extremistas de direita disseminam nova confusão em torno do  Pix. Agora, contra regras antigolpes

Circulam novamente nas redes digitais informações enganosas sobre o Pix. Nesta quinta-feira (6), o Banco Central anunciou mudanças no regulamento do sistema de pagamentos para evitar fraudes, e determinou que instituições financeiras e de pagamento garantam a conformidade dos nomes vinculados às chaves Pix com os registros de CPF e CNPJ da Receita Federal. No entanto, a informação tem sido compartilhada de forma incorreta. O Bereia verificou os dados para esclarecer a questão.

O ex-presidente católico Jair Bolsonaro (PL) e o deputado federal evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG) comentaram ironicamente, em seus perfis pessoais do X, a decisão do Banco Central sobre a verificação de conformidade das chaves Pix. As publicações geraram repercussão e levaram, mais uma vez, a interpretações equivocadas por parte dos leitores. Postagens miram o Pix para criar pânico e fazer crer que o governo federal e o presidente da República (que não são responsáveis pela gestão deste sistema, mas, sim, o Banco Central) colocam este recurso financeiro popular em risco.

Imagem: Reprodução X. 

Banco Central estabelece novas regras para chaves Pix

O Banco Central determinou que a verificação de conformidade das chaves Pix será obrigatória em operações como registro, alteração, portabilidade e reivindicação de posse. Chaves associadas a CPFs ou CNPJs com situação irregular na Receita Federal deverão ser excluídas, uma vez que foi identificado pelo órgão que registros pertencentes a pessoas falecidas e empresas encerradas vêm sendo utilizados por golpistas.

Imagem: Reprodução: X

A medida busca dificultar fraudes ao impedir que golpistas usem nomes diferentes dos registrados na Receita. O Banco Central realizará monitoramento contínuo e poderá aplicar penalidades às instituições que não cumprirem as regras.

Também foi proibida a alteração de dados vinculados a chaves aleatórias e a reivindicação de posse de chaves do tipo e-mail. Apenas chaves associadas a números de celular poderão continuar sendo transferidas para novos titulares.

As novas medidas aprovadas pelo Banco Central não alteram a forma como pessoas e empresas realizam ou recebem transferências via Pix. As mudanças são operacionais e visam aumentar a segurança para os participantes do sistema, o que reduz riscos de fraude.

Bereia verificou que as falsidades sobre o Pix circularam novamente nas redes digitais após o anúncio de novas regras pelo Banco Central. Ao contrário do que foi divulgado, as mudanças não envolvem uma fiscalização maior sobre as transações financeiras. A norma apenas exige que as chaves Pix estejam em conformidade com os registros de CPF e CNPJ da Receita Federal, com o objetivo de combater fraudes. 

As chaves associadas a documentos irregulares serão excluídas, e a alteração de dados em chaves aleatórias foi proibida. Essas medidas operacionais não afetam o uso do Pix para os usuários. Apesar de não apresentarem afirmações diretas, os conteúdos publicados por Nikolas Ferreira e Jair Bolsonaro induzem de forma enganosa a uma visão negativa sobre o atual governo, que não é responsável pela gestão do Pix, e as novas regras implementadas pelo Banco Central.

É a segunda vez neste ano que políticos de oposição ao governo federal, vinculados ao extremismo de direita, disseminam falsidades sobre o Pix, entre eles o próprio deputado Nikolas Ferreira (PL-MG)

Referências: 

Banco Central do Brasil. https://www.bcb.gov.br/detalhenoticia/20568/nota. Acesso em 07 de março de 2025. Coletivo Bereia. https://coletivobereia.com.br/balanco-janeiro-2024-mentiras-sobre-o-pix-como-estrategia-de-oposicao-politica/. Acesso em 07 de março de 2025.

Coletivo Bereia

https://coletivobereia.com.br/balanco-janeiro-2024-mentiras-sobre-o-pix-como-estrategia-de-oposicao-politica/

Balanço Janeiro 2025: Mentiras sobre o Pix como estratégia de oposição política

O ano de 2025 teve início com agitação nas redes digitais sobre o Pix, refletida em matérias da grande imprensa, provocada por viralização de conteúdo que contrapôs medida anunciada pela Receita Federal, em 2024, com vigência a partir de 1 de janeiro do novo ano.

A Instrução Normativa 2.219/2024, da Receita Federal, publicada no Diário Oficial da União, em 18 de setembro de 2024, dispunha sobre “a obrigatoriedade de prestação de informações relativas às operações financeiras de interesse da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil na e-Financeira”. A medida ampliava o monitoramento de transações financeiras no país, que alcançava apenas instituições financeiras tradicionais, como bancos e cooperativas de crédito, com a obrigação de prestar essas informações.

Com a norma, que vigoraria a partir de 1 de janeiro de 2025, transações via Pix e cartões de crédito, acima de R$ 5 mil para pessoas físicas e de R$ 15 mil para empresas, passariam a também ser reportadas por administradoras de cartão de crédito, bancos digitais e instituições de pagamento à Receita Federal. O órgão afirmou em nota que o objetivo era reforçar o combate à evasão fiscal e a promoção da transparência. Foi enfatizado, ainda, que a medida estaria alinhada aos compromissos internacionais do Brasil, para aumentar o controle sobre operações financeiras e facilitar a fiscalização.

A agitação com consequências

A agitação em torno da medida da Receita Federal foi promovida por dois parlamentares evangélicos de Minas Gerais nas redes: o senador Cleitinho (Republicanos) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL). Dias depois de iniciado o período de aplicação da nova norma, em 6 de janeiro de 2025, Cleitinho publicou um vídeo em seus perfis de mídias sociais com a legenda “Urgente! Governo Lula fazendo o povo de palhaço. Receita Federal irá tomar conta dos seus gastos do seu cartão de crédito e pix”.

Imagem: reprodução/Instagram

Com um minuto e meio de duração, em tom alarmista, o vídeo do senador ganhou forte repercussão ao anunciar que a cada seis meses, pessoas comuns, usuárias do Pix, teriam que informar suas operações financeiras ao governo federal. O senador assumiu o papel de “defensor” dos usuários do Pix e fez uma série de novas postagens sobre o tema, diante da repercussão do alarme, incluindo o anúncio de autoria de um “Decreto Legislativo para impedir o monitoramento do Pix”.

Em curto tempo, outros políticos e influenciadores digitais alinhados à direita política passaram a repercutir a ideia que passou a ser ampliada com outra, a de que o Pix seria taxado pelo governo federal.

O ápice da disseminação de desinformação baseada em pânico ocorreu em 14 de janeiro, quando foi lançado nas redes digitais um vídeo do deputado Nikolas Ferreira. Com o mesmo tom alarmista, no discurso verbal e visual, o deputado afirmou “o governo quer saber como você ganha R$ 5 mil” e fez uso da mentira sobre a taxação do Pix, mantendo-a viva com a frase: “Não, o Pix não será taxado, mas é bom lembrar que a comprinha da China não seria taxada. Não ia ter sigilo, mas teve. Você ia ser isento do Imposto de Renda, não vai mais. Ia ter picanha, não teve. O Pix não será taxado, mas não duvido que possa ser”. O deputado ainda afirmou que o “governo quer tratar os trabalhadores informais como sonegadores”. Em 16 de janeiro a publicação no Instagram ultrapassou a marca de 275 milhões de visualizações.

Imagem: reprodução/Instagram

Nikolas Ferreira também foi publicado na rede X, com versão com legendas em inglês, e chamada em que marca Elon Musk, proprietário da rede.

Imagens: reprodução/X

Os vídeos de Nikolas Ferreira seguem nas duas redes e continuam com milhões de visualizações.

Líderes e veículos religiosos repercutiram amplamente a desinformação e o tom de pânico que a embasou. O missionário R. R. Soares, foi um dos que fez uso de espaços religiosos para ampliar a disseminação das falsidades. No programa Show da Fé, em horário de TV pago na Rede Bandeirantes, que foi ao ar em 13 de janeiro, gravado com a presença de centenas de fiéis da Igreja Internacional da Graça, no momento em que pedia ofertas, Soares afirmou: “Está acontecendo uma campanha contra o pix, só porque a pessoa ajuda um parente, um amigo e é de graça, já querem cobrar imposto. Eles cobram imposto de tudo da gente. É uma maldade que querem fazer”. O missionário ainda fez um apelo público ao governo federal para que desse “um basta” na taxação do Pix. Matérias sobre o caso foram publicadas pela Folha de S. Paulo e pelo jornal O Globo.

O site evangélico de notícias Pleno.News deu espaço aos pronunciamentos de políticos com identidade religiosa com base nas falsidades, mesmo quando já circulavam amplos desmentidos oficiais e por parte de mídias noticiosas, um deles publicado pelo próprio veículo.

Imagens: reprodução/Pleno.News

Ações de comunicação do governo federal foram realizadas para confrontar as falsidades sobre a normativa da Receita e a grande imprensa também agiu com veiculação de informações corretas sobre as novas regras. A Federação de Bancos do Brasil (Febraban) e a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP) também divulgaram notas com desmentidos de que a normativa não afeta usuários de Pix e de cartões de crédito. “Os clientes que utilizam o Pix para pagamentos e transferências não precisam tomar qualquer providência, nem passarão a ser cobrados”, divulgaram a organizações.

Influenciadores digitais comprometidos com a informação tiveram papel importante em comunicações de desmentidos, como Gil do Vigor e Nath Finanças que se destacaram nas redes. A deputada federal Erika Hilton (Psol/SP) produziu vídeo, veiculado em 18 de janeiro em seus perfis de mídias sociais, que contrapôs o de Nikolas Ferreira e teve alcance também na casa dos milhões.

Imagem: reprodução/Instagram

Ainda assim, o alcance da enxurrada de material desinformativo em todas as redes digitais nos primeiros quinze dias de janeiro teve efeitos fortes. Houve redução no volume de transações realizadas por Pix, diante da insegurança, em especial em bom número de pequenos comerciantes, que passaram a recusar pagamentos por este sistema e demandar dinheiro em espécie, e houve abusos de outros que passaram a aplicar taxas de até 10% sobre pagamentos por Pix.

Em 15 de janeiro, o Ministério da Economia do Brasil anunciou a revogação do ato normativo que estendeu o monitoramento das transações financeiras. Segundo o ministro Fernando Haddad, o governo editará uma medida provisória (MP) para proibir a cobrança diferenciada por transações em Pix e em dinheiro. Ele explicou que a MP também reforçará princípios garantidos pela Constituição nas transações via Pix, como o sigilo bancário e a não cobrança de impostos nas transferências pela modalidade, além de garantir a gratuidade do Pix para pessoas físicas.

O ministro indicou que, com a edição da MP, nenhum comerciante poderá cobrar preços diferentes entre pagamentos via Pix e em dinheiro, prática detectada como consequência das falsidades disseminadas neste janeiro de 2025. Haddad ainda negou que a revogação do ato seja o reconhecimento da derrota para as fake news. “Pelo contrário. Isso é impedir que esse ato [a instrução normativa] seja usado como justificativa para não votar a MP. Estamos lançando uma medida provisória e queremos que ela seja discutida com sobriedade pelo Congresso Nacional”, justificou.

Criação de caos como estratégia

Um estudo do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) oferece compreensão sobre como as mentiras sobre a economia popular, que geraram o caos nas transações via Pix e pânico na população, foram propagadas com ajuda da Meta, empresa proprietária das redes Facebook, Instagram e WhatsApp. A pesquisa mostra como a Meta foi paga para impulsionar a divulgação de anúncios fraudulentos sobre o tema para alcançar um número extenso de usuários.

Além de um vídeo falso em que o ministro da Economia do Brasil Fernando Haddad afirmava que taxaria o Pix, entre 10 e 21 de janeiro de 2025, 1.770 anúncios fraudulentos foram impulsionados no Facebook e no Instagram para promover informações falsas contra programas governamentais, mais golpes e desinformações sobre o Pix (falsa taxa a pagar) e supostos valores a receber. Os anúncios foram pagos por 151 perfis de anunciantes (que podem ser também fraudulentos) e direcionaram os usuários para 85 sites falsos para aplicação de golpes financeiros.

O estudo do Netlab indica: “(1) o número de golpes e fraudes em anúncios da Meta cresceu 35% após a revogação das novas regras pelo governo; e 2) o uso de deepfakes do deputado federal Nikolas Ferreira (PL/MG), protagonista da campanha pela revogação da norma, aumentou 234%”.

Em nota enviada ao veículo Olhar Digital, a Meta afirmou que não permite “atividades que tenham como objetivo enganar, fraudar ou explorar terceiros”. A empresa disse estar sempre aprimorando a sua tecnologia para combater atividades suspeitas, porém, não respondeu qual o destino do dinheiro recebido pelos anúncios fraudulentos.

As postagens com conteúdo falso e enganoso da parte de políticos, influenciadores e outros usuários seguem no ar em todas as plataformas digitais.

Bereia identifica há cerca de um ano, a estratégia de notórios propagadores de desinformação com criação de pânico com falsidades em torno de temas de interesse público com foco na economia. Tais conteúdos circulam amplamente em espaços digitais religiosos. Há várias matérias publicadas pelo Bereia em 2024, como as que trataram da regulamentação do trabalho por aplicativos, do uso dos lucros extraordinários com ações da Petrobrás, do projeto de taxação de offshores, entre outras.

Esta tendência observada pelo Bereia em 2024, foi objeto de matéria do jornal O Globo com o título “Oposição muda a tática: ‘esquece’ agenda de costumes e tenta desgastar governo Lula com pauta econômica”. Tal conteúdo pode ser observado nos conteúdos enganosos circulantes em espaços digitais religiosos, como os acima citados, e em materiais que exploram o pânico com abordagens infundadas, como este publicado em vídeo em setembro passado:

Matéria do jornal O Globo trouxe à tona em 16 de janeiro, após a revogação da medida da Receita Federal sobre a ampliação do monitoramento de movimentações financeiras, que o vídeo de Nikolas Ferreira, peça importante na disseminação de desinformação e pânico na economia popular, foi articulado pelo Partido Liberal (PL). A estratégia para explorar o tema foi traçada pelo marqueteiro responsável pela campanha eleitoral de Jair Bolsonaro à reeleição para presidente da República em 2022, Duda Lima.

Mais informações sobre o caso das mentiras sobre o Pix podem ser acessadas aqui.


Bereia alerta leitores e leitoras, como recorrentemente registra, que é muito importante em uma democracia que haja oposição a governos. Eles precisam ser cobrados, pressionados, o que é saudável em um Estado democrático de direito. Um espaço político sem oposição é um espaço que nega a diversidade de ideias, de opiniões e tende a um regime de exceção. Porém, a oposição deve ser feita de forma digna, ancorada na honestidade e na justiça, em discursos e em ações. O uso de mentiras, falsidades e enganos para contrapor governos e para convencer e ganhar aliados para causas de determinados grupos não é coerente com os princípios de oposição política democrática e deve ser denunciado, bem como seus agentes.

Referências de checagem:

Receita Federal.

http://normas.receita.fazenda.gov.br/sijut2consulta/link.action?idAto=140539 Acesso em: 11 fev 2025.

https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/assuntos/noticias/2024/setembro/receita-atualiza-regras-da-e-financeira-e-amplia-obrigatoriedade-para-novas-entidades Acesso em: 11 fev 2025.

Folha de S. Paulo. https://f5.folha.uol.com.br/colunistas/outro-canal/2025/01/rr-soares-usa-horario-comprado-na-band-para-espalhar-noticia-falsa-sobre-pix.shtml Acesso em: 11 fev 2025.

O Globo.

https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2025/01/14/pastor-rr-soares-difunde-fake-news-sobre-o-pix-ao-pedir-doacao-a-fieis-na-tv-cobram-imposto-de-tudo-video.ghtml Acesso em: 11 fev 2025.

https://oglobo.globo.com/blogs/sonar-a-escuta-das-redes/noticia/2025/02/09/oposicao-muda-a-tatica-esquece-agenda-de-costumes-e-tenta-desgastar-governo-lula-com-pauta-economica.ghtml Acesso em: 11 fev 2025.

https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2025/01/16/video-de-nikolas-fez-parte-de-acao-coordenada-de-marqueteiro-de-bolsonaro-sobre-pix.ghtml Acesso em: 11 fev 2025.

Netlab/UFRJ. https://netlab.eco.ufrj.br/post/danos-causados-pela-publicidade-enganosa-na-meta Acesso em: 11 fev 2025.

Febraban. https://portal.febraban.org.br/noticia/4246/pt-br/ Acesso em: 11 fev 2025.

Fecomércio. https://www.fecomercio.com.br/noticia/medida-provisoria-reforca-seguranca-do-pix-e-encerra-fake-news-sobre-cobranca Acesso em: 11 fev 2025.

ICL Notícias. https://iclnoticias.com.br/fake-news-pix-influenciadores-no-debate-publico/ Acesso em: 11 fev 2025.

Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-01/receita-revoga-ato-normativo-que-previa-fiscalizacao-do-pix Acesso em: 11 fev 2025.

Olhar Digital. https://olhardigital.com.br/2025/02/07/pro/meta-foi-paga-para-divulgar-fake-news-sobre-pix-diz-estudo/ Acesso em: 11 fev 2025.

Bereia.

https://coletivobereia.com.br/deputado-evangelico-publica-falsidade-sobre-a-regulamentacao-do-trabalho-por-aplicativos/ Acesso em: 11 fev 2025.

https://coletivobereia.com.br/deputada-catolica-dissemina-enganos-sobre-uso-dos-lucros-extraordinarios-com-acoes-da-petrobras-pelo-governo/ Acesso em: 11 fev 2025.

https://coletivobereia.com.br/deputado-catolico-mente-sobre-projeto-de-lei-de-taxacao-de-offshores/ Acesso em: 11 fev 2025.

Instagram. https://www.instagram.com/reel/DF5f1GYRI06/?igsh=MWhja2h1bDRzOXlmcw%3D%3D Acesso em: 11 fev 2025.

Nikolas Ferreira se converterá ao catolicismo?

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) foi o parlamentar mais votado do Brasil nas eleições de 2022, tendo recebido mais de 1,47 milhão de votos. Natural de Belo Horizonte, Nikolas é evangélico e consolidou sua trajetória política com forte presença nas redes sociais digitais, ao adotar um discurso conservador alinhado aos valores da direita cristã. Sua popularidade cresceu especialmente entre jovens e eleitores religiosos, destacando-se como uma das principais figuras da nova geração da direita brasileira.

Ele protagonizou o que parte da mídia, principalmente de direita, chamou de “Revolta do Pix”, neste janeiro de 2025, ao publicar um vídeo que, na data de fechamento deste artigo, conta com mais visualizações do que o número de brasileiros (mais de 300 milhões), o que provocou uma das maiores crises do governo Lula em seu terceiro mandato. Porém, não é exatamente sobre isso que eu quero falar neste texto. O que gostaria de abordar são as articulações estabelecidas por Nikolas Ferreira com a chamada “bolha católica”. Alguns influenciadores e perfis católicos de direita têm chamado atenção para uma possível conversão do jovem deputado ao Catolicismo. Essa hipótese não é desarrazoada, pois encontra respaldo em postagens feitas por ele em suas redes sociais.

No Instagram, por exemplo, Nikolas Ferreira recomendou o livro do padre Paulo Ricardo, “Um Olhar que Cura: Terapia das Doenças Espirituais” (2008), mencionou estar lendo a biografia de São Josemaría Escrivá, fundador da Opus Dei, e realizou uma live no Youtube com o padre Chrystian Shankar. Além disso, ele tem citado conceitos cristãos específicos da doutrina católica, como a “abertura à vida” no contexto conjugal — um princípio que reflete a disposição de casais católicos em acolher novos filhos, alinhando-se à visão da Igreja sobre o papel procriador do matrimônio.

Em um episódio que reforça essa aproximação, o Centro Dom Bosco — think tank católico ultraconservador — realizou uma live sobre a posse de Donald Trump, na qual citou o “fenômeno Nikolas Ferreira”, tendo exaltado sua aparente abertura ao Catolicismo o que incluiu um convite explicito para ele aderir à fé católica.

Outro elemento que ilustra a formação de uma coalizão ampla entre a direita e a extrema direita no Brasil é a ação do deputado federal por Minas Gerais Eros Biondini (PL), católico ligado à Canção Nova — principal organização do Catolicismo carismático brasileiro, tipicamente conservadora e que apoiou Jair Bolsonaro. Biondini protocolou na Câmara dos Deputados um projeto de lei cujo objetivo é diminuir a idade mínima para que candidatos possam concorrer aos cargos de governador e presidente no Brasil.

Diante disso, estaria Nikolas Ferreira se convertendo ao Catolicismo? O deputado, que foi aluno de Olavo de Carvalho — o ideólogo da direita que, enquanto católico tradicionalista, desprezava fortemente os evangélicos —, já conciliava o plano olavista de hegemonia cultural da direita com a pauta evangélica. Agora, porém, parece acenar também para as alas do Catolicismo conservador.

Se Nikolas Ferreira irá se converter ao Catolicismo ou não, por ora, permanece uma incógnita. O que podemos observar, no entanto, é o seu protagonismo na construção de uma formação discursiva hegemônica dentro da extrema direita, que busca minimizar antagonismos internos e articular diferentes identidades políticas e religiosas em torno de um núcleo comum. Esse movimento, ao fortalecer uma coalizão ampla, evidencia a capacidade estratégica de redefinir fronteiras ideológicas e consolidar um projeto político que se apresenta como uma totalidade capaz de integrar demandas diversas sob um mesmo horizonte.

**Artigo publicado pelo Bereia em parceria com o Laboratório de Antropologia da Religião da Unicamp

** Os artigos da seção Areópago são de responsabilidade de autores e autoras e não refletem, necessariamente, a opinião do Coletivo Bereia

Imagem de capa: Facebook/Nikolas Ferreira

Cobrança de Pix para pessoa jurídica é alvo de desinformação nas redes digitais

Políticos religiosos voltaram a disseminar, nas redes digitais, que o atual presidente da República Lula da Silva irá taxar as transações financeiras por pix. Os deputados federais Carla Zambelli (PL) e Eduardo Bolsonaro (PL) foram alguns dos políticos que compartilharam a ideia, se valendo de uma suposta notificação enviada aos clientes de contas Pessoa Jurídica (PJ) da Caixa Econômica Federal sobre tarifas para esta modalidade, em seus perfis no Twitter.

O discurso sobre taxação da modalidade de pagamento foi bastante repercutido durante a disputa eleitoral presidencial. Apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro usavam, como uma das estratégias políticas de ataque à campanha adversária, a afirmativa de que o então presidente teria criado o Pix e que o atual presidente, e adversário político à época, iria taxar a medida caso assumisse o poder. Bereia checou estas informações.

Imagem: reprodução Twitter

Taxação do Pix para Pessoa Jurídica (PJ) foi definida em 2020 e já é feita por outros bancos

A Caixa Econômica Federal publicou, em 19 de junho, em seu site oficial, uma nota sobre a situação. O texto da instituição financeira esclarece que as cobranças de fato acontecerão, a partir de 19 de julho, e que, portanto, informou com antecedência os clientes PJ. O banco reforçou que não cobra tarifa Pix de seus clientes pessoa física.

No entanto, as afirmações e publicações compartilhadas pelos deputados e outros políticos religiosos suscitam a ideia de que a decisão foi tomada pelo atual presidente da República e que o próximo passo será taxar as operações financeiras da modalidade Pix também para pessoas físicas.

A decisão da instituição financeira, divulgada neste mês de junho, se baseia na Resolução BCB nº 1/2020 que permite aos bancos a aplicação de tarifas em transações Pix relacionadas a contas PJ. A Caixa não foi a primeira instituição a optar pela aplicação das tarifas. 

O site do Banco Central do Brasil esclarece que a isenção da cobrança de tarifas para pessoas físicas apresenta exceções, como no caso de o Pix ser realizado utilizando canais presenciais da instituição, ao invés dos meios eletrônicos disponíveis, ou quando houver transferências em razão da venda de produtos ou serviços.

No caso das pessoas jurídicas, as possibilidades de cobrança são mais amplas, podendo ser aplicadas em caso de transações de transferência financeira ou compra, e pela contratação de serviços acessórios que permitam a oferta de atividades complementares pelas empresas. Os informes foram atualizados ainda em janeiro de 2023.

Grandes bancos, como Bradesco, Banco do Brasil, Santander e Itaú já aplicam tarifas a transações via Pix realizadas por pessoas jurídicas,a depender do valor da operação e do tipo de chave cadastrada. As taxas aplicadas por cada instituição foram compiladas pela CNN Brasil.

O que é o Pix

Pix é um meio eletrônico de pagamento instantâneo desenvolvido pelo Banco Central do Brasil. Trata-se de um recurso rápido para transações financeiras a partir de uma conta corrente, conta poupança ou conta de pagamento pré-paga, sendo possível realizar transações sem limite de data, horário ou instituição bancária. 

Além de ter instituído o método de pagamento, o Banco Central também exerce o papel de regulador do Pix, definindo suas regras de funcionamento, e de gestor das plataformas operacionais, ou seja, disponibilizando a tecnologia para diversas instituições.

A tecnologia, gestada durante o governo de Michel Temer, foi amplamente aceita pela população, conforme apontado por estudo da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) divulgado em dezembro de 2021. A rapidez e a gratuidade da transação para contas de pessoa física popularizou rapidamente a inovação.

O Pix já foi alvo de desinformação eleitoral checada por Bereia, em que se considerou falsa a afirmação, veiculada nas redes digitais, de que Jair Bolsonaro foi o criador da transação bancária. Na ocasião, também se afirmava que o Pix causaria prejuízo a bancos e que Lula da Silva poderia acabar com a transação, ambas consideradas falsas.

Imagem: reprodução Twitter

Repercussão nas redes digitais

Após o anúncio de que a Caixa Econômica Federal iniciará cobrança por transações via Pix, exclusivamente para pessoas jurídicas privadas, políticos de oposição ao atual governo federal repercutiram a medida, associando-a ao atual presidente da República Lula da Silva.

A deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) compartilhou, em seu perfil no Twitter, uma imagem com os dizeres “Lula começou a taxar o Pix”, dizendo, ainda, que “Bolsonaro avisou”.

Já o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), também no Twitter, veiculou mensagem questionando: “dar tanto dinheiro do seu trabalho para o Lula por quê?”. Na imagem veiculada, é possível ler os dizeres “PT vai taxar o Pix”.

Reação do Governo Federal

Na tarde de 20 de junho,  a Caixa anunciou a suspensão da medida. A decisão teria sido tomada depois de um pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de acordo com o ministro da Casa Civil, Rui Costa. 

Costa afirmou que, em conversa com a presidente da Caixa Rita Serrano, pediu que aguardassem o retorno de Lula ao Brasil para uma reavaliação da medida. O presidente está em viagem oficial à Itália.

Segundo Costa,a presidente da Caixa mostrou-se surpresa com a repercussão do caso, já que trata de uma medida já praticada por outros bancos no país.

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Bereia considera enganoso o conteúdo checado. As publicações feitas pelos deputados citados na checagem, considerando-se não apenas as imagens, mas também os textos veiculados, são apresentadas para confundir. A informação de que a Caixa Econômica Federal começaria a taxar transações financeiras via Pix para pessoa jurídica são verdadeiras, mas os deputados omitem que se trata de prática comum dos bancos brasileiros. 

A publicação feita por Eduardo Bolsonaro (PL-SP) sugere, ainda, que após a cobrança para pessoa jurídica, o público em geral também será taxado. Tal suposição não encontra respaldo nas informações disponibilizadas pela Caixa, pelo Banco Central ou por qualquer outra instituição que faz uso do Pix.

A ausência da informação de que a cobrança estava restrita apenas a pessoa jurídica, excetuados também os microempreendedores individuais (MEI), contribui para que o público em geral sinta-se atingido pela cobrança, o que não é verdade à luz dos fatos.

As mais recentes informações sobre a medida a ser adotada pela Caixa indicam que haverá uma suspensão de sua implementação, até que seja feita uma reavaliação conjunta sobre sua efetivação.

Referências de checagem:

Bereia. https://coletivobereia.com.br/apoiadores-do-governo-mentem-sobre-pix-ser-de-bolsonaro-causar-prejuizo-a-bancos-e-ser-ameacado-por-lula/ Acesso em: 20 jun 2023

Caixa. https://caixanoticias.caixa.gov.br/noticia/32049/nota-da-caixa-cobranca-pix-pj Acesso em: 20 jun 2023

Folha de São Paulo.

https://www1.folha.uol.com.br/mpme/2021/09/saiba-como-funciona-a-cobranca-de-taxa-do-pix-para-empresas.shtml Acesso em: 20 jun 2023

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2023/06/planalto-manda-caixa-suspender-cobranca-de-pix-para-pessoa-juridica.shtml Acesso em: 20 jun 2023

UOL. https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2022/05/10/pix-banco-central-bolsonaro-eleicoes-2022.htm Acesso em: 20 jun 2023

Febraban. https://febrabantech.febraban.org.br/temas/meios-de-pagamento/pix-e-aprovado-por-85-dos-brasileiros-diz-estudo-da-febraban Acesso em: 20 jun 2023

CNN https://www.cnnbrasil.com.br/politica/lula-roma-visita-tera-encontro-com-o-papa-e-presidente-da-italia/ Acesso em: 20 jun 2023

Banco Central do Brasil.

https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/exibenormativo?tipo=Resolu%C3%A7%C3%A3o%20BCB&numero=1 Acesso em: 20 jun 2023

https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/papeldobcpix Acesso em: 20 jun 2023

https://www.bcb.gov.br/meubc/faqs/p/quais-as-tarifas-relacionadas-ao-pix Acesso em: 21 jun 2023CNN https://www.cnnbrasil.com.br/economia/pode-cobrar-pelo-pix-entenda-o-que-determina-o-banco-central/#:~:text=Taxa%20do%20Pix&text=A%20tarifa%20prevista%20varia%20de,BC%20desde%20novembro%20de%202020.&text=Segundo%20o%20BC%2C%20n%C3%A3o%20h%C3%A1,h%C3%A1%20s%C3%A3o%20regras%20de%20tarifa%C3%A7%C3%A3o. Acesso em: 21 jun 2023

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Foto de capa: Pixabay

Apoiadores do governo mentem sobre Pix ser de Bolsonaro, causar prejuízo a bancos e ser ameaçado por Lula

Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro divulgaram várias mensagens em suas mídias sociais com críticas à Federação Brasileira de Bancos (Febraban), após a divulgação de que a instituição assinou um manifesto em defesa das urnas eletrônicas e da democracia. A deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) chegou a postar no Twitter: “Banqueiros assinam carta em defesa das urnas e da democracia. Bolsonaro manda um abraço por Pix pra eles. Lembrando que o custo do Pix é R$ 0,00 — causando prejuízo bilionário para banqueiros”.

As mensagens afirmam que a oposição da Febraban ao presidente Bolsonaro explica-se porque os bancos teriam diminuído expressivamente seus lucros nos últimos dois anos, com a implantação do Pix pelo atual governo federal. 

Imagem: reprodução do Twitter

Há também disseminação de pânico de que se a oposição vencer as eleições com o ex-presidente Lula, o Pix vai ser extinto.

Imagem: reprodução do Twitter

Prejuízo dos bancos?

O Bereia checou notícias sobre o lucro dos maiores bancos privados no país no primeiro trimestre deste ano: “O lucro líquido recorrente dos três maiores bancos privados do país – Bradesco, Itaú e Santander Brasil – somou R$ 18,2 bilhões no 1º trimestre de 2022. O valor representa um crescimento de 7,8% em comparação com o mesmo período do ano passado”.

Já o Banco do Brasil apresentou lucro recorde no mesmo período, conforme a Agência Brasil: “O Banco do Brasil (BB) teve lucro líquido ajustado recorde de R$6,6 bilhões no primeiro trimestre de 2022, um crescimento anual de 34,4% e 11,5% maior que o do quarto trimestre de 2021”. E ainda  segundo a notícia, o BB explica que “o resultado do período é explicado pelo crescimento do crédito, com performance positiva em todos os segmentos […] e pelo bom desempenho das receitas de prestação de serviços”. 

A identificação do alto lucro dos bancos no Brasil neste último período já é suficiente para afirmar a falsidade das postagens como a deputada federal Carla Zambelli. No entanto, Bereia atenta para o discurso incluído nas mensagens que afirma ser o Pix um benefício criado pelo governo de Jair Bolsonaro, daí a afirmação “Bolsonaro manda um abraço por Pix pra eles [os banqueiros]”. Este é um discurso que está permeando a campanha eleitoral de 2022 para justificar feitos do atual governo em busca da reeleição e circula fartamente em ambientes digitais religiosos.

O que é o Pix

O Pix é um meio eletrônico de fazer pagamentos e transferências bancárias. Foi criado pelo Banco Central do Brasil em outubro de 2020 e implantado em 16 de novembro do mesmo ano. Transações bancárias podem ser feitas pelo celular a qualquer hora e dia, a partir de conta-corrente, poupança ou de pagamento. 

O Pix tornou possível transferências gratuitas e instantâneas de uma conta bancária para outra. O recurso se difere do antigo Documento Bancário (DOC) e da Transferência Eletrônica Disponível (TED), criada em 2002,  que contam com restrições, respectivamente, de dia e horário para o acesso aos valores e são operações taxadas pelos bancos.

O sistema rapidamente se popularizou. A aprovação do Pix entre os brasileiros já chega a 85 por cento dos usuários, de acordo com pesquisa divulgada no final de 2021 pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban). “Levantamento mostra que a ferramenta já é usada por 7 a cada 10 pessoas no Brasil”, informa o site Noomi-Febrabantech.

Quem criou o Pix?

O Pix não foi criado pelo governo de Jair Bolsonaro. Apesar de ter sido lançado durante o mandato deste governo, em 2020, o projeto já existia no Banco Central desde 2016, quatro anos antes,  ainda no governo de Michel Temer, quando o Banco Central (BC) era presidido pelo economista Ilan Goldfajn. O BC sempre se ajustou aos movimentos tecnológicos de aperfeiçoamento de transações bancárias (caso da TED) e criou o PIX inspirado na Zelle, plataforma similar ao Pix que a empresa Early Warning Services havia anunciado pouco tempo antes nos Estados Unidos, conforme apurou o UOL Notícias. 

Em maio de 2018, portanto, antes das eleições que levaram Bolsonaro ao poder, o BC criou o grupo de trabalho “Pagamentos Instantâneos” para levar adiante o projeto do que viria a se tornar o Pix, conforme consta no Diário Oficial da União da época.

À reportagem do UOL sobre o tema, o BC emitiu a seguinte declaração oficial:
“Como outros projetos de grande porte, o Pix foi desenvolvido pelo BC ao longo de um processo evolutivo que envolveu várias áreas técnicas e diversos servidores. As especificações, o desenvolvimento do sistema e a construção da marca se deram entre 2019 e 2020, culminando com seu lançamento em novembro de 2020. A agenda evolutiva do Pix é permanente e prevê o lançamento de diversas novas funcionalidades, a serem entregues nos vários anos à frente”.

um registro em vídeo em que o presidente Jair Bolsonaro foi cumprimentado por um apoiador, em frente ao Palácio da Alvorada, pelo lançamento do Pix em novembro de 2020. Bolsonaro revelou, então, não saber do que se tratava e tratou o Pix como algo relacionado à aviação civil. O vídeo mostra o presidente afirmando: “Tem um documento aí [do Ministério da Infraestrutura] esta semana que vai praticamente desregulamentar, desburocratizar tudo sobre aviação civil… Carteira de habilitação para piloto”. O apoiador então esclareceu que Pix era uma nova forma de transferência de dinheiro: “Esse é do Banco Central, usado para pagamentos 24 horas, sete dias por semana, a qualquer hora, não precisa de DOC nem de TED”. Bolsonaro então afirmou que não sabia do que se tratava. 

Lula pode acabar com o Pix?

O jornal O Estado de São Paulo e outros veículos de notícias já verificaram esta falsidade criada para disseminar pânico como campanha eleitoral e que, com a assinatura do manifesto pró-democracia pela Febraban retornou relacionada aos bancos. 

As matérias explicam que a autonomia do Banco Central não permite a interferência de um presidente da República no órgão. Justamente por isso foi determinado mandato fixo de quatro anos ao presidente e a diretores  do BC. Além disso, as apurações também indicam que todas as discussões sobre o sistema financeiro passam pelo Comitê de Política Monetária (Copom). Por isso, o fim do Pix não seria algo simples de se estabelecer com a “canetada” de um presidente. E ainda há a questão de que o fim do Pix, um recurso positivo e popular, não geraria qualquer vantagem para um governo.  

A campanha do ex-presidente Lula desmentiu as postagens sobre tal projeto para um próximo governo. 

Imagem: reprodução do Twitter

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Bereia declara serem falsas as afirmações de que o sistema de transferências bancárias Pix foi criado pelo governo Bolsonaro, de que os bancos têm prejuízo com este sistema de transferências gratuito e de que, se eleito, o ex-presidente Lula vai dar fim ao Pix para ter apoio dos banqueiros.  Bereia alerta leitores e leitoras sobre estratégias de campanha eleitoral em 2022 que fazem uso de mentiras para convencer apoiadores e captar votos.

Referências de checagem:

Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2022-05/bb-tem-lucro-recorde-de-r-66-bilhoes-no-1o-trimestre-de-2022 Acesso em: 2 ago 2022.

Banco Central do Brasil.

https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/exibenormativo?tipo=Resolu%C3%A7%C3%A3o&numero=4781 Acesso em: 2 ago 2022.

https://www.bcb.gov.br/acessoinformacao/perguntasfrequentes-respostas/faq_transferencias Acesso em: 2 ago 2022.

Brasil Escola. https://brasilescola.uol.com.br/economia/o-que-e-pix.htm Acesso em: 2 ago 2022.

Canal Tech. https://canaltech.com.br/negocios/tarifas-bancarias-do-pix-empresarial-podem-chegar-a-ate-r-150-208576/ Acesso em: 2 ago 2022.

Instituto Propague. https://institutopropague.org/pagamentos/como-funciona-o-pix/#:~:text=O%20Pix%20disponibiliza%20transfer%C3%AAncias%20instant%C3%A2neas,sistema%20de%20pagamentos%20instant%C3%A2neos%20funciona.&text=O%20Pix%20%C3%A9%20um%20sistema,f%C3%ADsicas%2C%20empresas%20e%20o%20governo Acesso em: 2 ago 2022.

Infomoney. https://www.infomoney.com.br/guias/pix/ Acesso em: 2 ago 2022.

Noomis Febrabantech. https://noomis.febraban.org.br/temas/meios-de-pagamento/pix-e-aprovado-por-85-dos-brasileiros-diz-estudo-da-febraban Acesso em: 2 ago 2022.

Poder 360. https://www.poder360.com.br/economia/bancos-privados-lucram-r-182-bilhoes-no-1o-trimestre/ Acesso em: 2 ago 2022.

Veja. https://veja.abril.com.br/coluna/maquiavel/banqueiros-pix-e-a-nova-fake-news-eleitoral-bolsonarista/ Acesso em: 2 ago 2022.

FDR. https://fdr.com.br/2022/02/09/tarifas-no-pix-brasileiros-estao-pagando-ate-r-150-por-mes-sem-saber/ Acesso em: 2 ago 2022.

O Estado de São Paulo.

https://politica.estadao.com.br/blogs/gestao-politica-e-sociedade/afinal-quem-criou-o-pix/ Acesso em: 2 ago 2022.

https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/lula-acabar-pix-banco-central-autonomia/  Acesso em: 2 ago 2022.

UOL.

https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2022/05/10/pix-banco-central-bolsonaro-eleicoes-2022.htm Acesso em: 2 ago 2022.

https://economia.uol.com.br/videos/2020/10/05/bolsonaro-confunde-pix-com-aviacao-civil-entenda-a-nova-tecnologia-do-banco-central.htm Acesso em: 2 ago 2022.

Site do Lula. https://lula.com.br/lula-nao-vai-acabar-com-o-pix-isso-e-mentira-velha-oxente/ Acesso em: 2 ago 2022.

Foto de capa: PxHere