O Pix voltou ao centro do debate público no Brasil. Desta vez, o sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central tornou-se alvo de críticas do regime do presidente dos Estados Unidos Donald Trump, que acusa a autoridade monetária brasileira de favorecer a plataforma em detrimento de empresas norte-americanas que atuam no setor de pagamentos digitais.
As acusações passaram a circular em meio a uma investigação comercial aberta pelos EUA contra o Brasil e levantaram questionamentos sobre possíveis impactos para o sistema de pagamentos brasileiro. Diante da repercussão do tema, o Bereia verificou o que motivou a investigação, quais são as acusações apresentadas pelo governo norte-americano e quais podem ser as consequências práticas para o Pix.
A investigação
As críticas ao Pix surgem no contexto de uma investigação comercial aberta pelos Estados Unidos contra o Brasil. O processo foi iniciado pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), a pedido do presidente Donald Trump, e anunciado em documento oficial divulgado em julho de 2025.
Segundo o USTR estadunidense, a investigação busca apurar práticas consideradas desleais e supostamente prejudiciais aos interesses comerciais norte-americanos. O órgão afirma que há décadas documenta medidas brasileiras que restringiriam o acesso de exportadores dos Estados Unidos ao mercado nacional.
A investigação tem como base a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo da legislação norte-americana que permite ao governo dos Estados Unidos apurar práticas comerciais consideradas injustas e, posteriormente, adotar medidas de retaliação, como tarifas ou outras restrições comerciais.
Trump já havia sinalizado a abertura da investigação na mesma carta em que anunciou a intenção de aplicar uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. No documento, o presidente estadunidense mistura argumentos comerciais e políticos para justificar a medida, e inclui alegações sobre um suposto déficit comercial dos Estados Unidos com o Brasil entre repúdio à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, julgado e condenado por tentativa de golpe de Estado. Dados oficiais, contudo, mostram que os estadunidenses mantêm superávit comercial na relação bilateral desde 2009.
Ao justificar a investigação, Trump também mencionou o que classificou como “ataques contínuos do Brasil às atividades comerciais digitais de empresas americanas”, além de outras práticas consideradas desleais pelo regime.
Por que o Pix entrou na mira dos Estados Unidos?
Embora a investigação aberta pelo USTR abranja diferentes áreas da economia brasileira, como políticas tarifárias, combate à corrupção, propriedade intelectual, comércio de etanol e desmatamento ilegal, o Pix tornou-se um dos principais focos das críticas do regime Trump.
No relatório, o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos é citado na categoria de comércio digital e serviços de pagamento eletrônico. De acordo com o governo dos Estados Unidos, o Banco Central do Brasil exerce simultaneamente as funções de regulador e operador da plataforma, o que poderia criar vantagens competitivas para o Pix em relação a empresas privadas do setor, como as empresas de cartões de crédito.
A investigação sustenta que esse modelo dificulta a atuação de companhias estrangeiras de meios de pagamento no mercado brasileiro. Entre os pontos questionados estão a obrigatoriedade de participação no Pix para instituições financeiras com mais de 500 mil contas e a exigência de que a ferramenta ocupe posição de destaque nos aplicativos das instituições participantes, com visibilidade igual ou superior à de outros meios de pagamento e transferência.
Outro alvo das críticas é a política de gratuidade do Pix para pessoas físicas. Na avaliação do USTR, empresas estrangeiras são obrigadas a disponibilizar e promover um sistema concorrente sem receber compensação financeira por isso. O documento argumenta que as regras de disponibilidade, visibilidade e cobrança estabelecidas pelo Banco Central configuram um tratamento preferencial ao Pix, em detrimento de outros prestadores de serviços de pagamento eletrônico.
O relatório afirma ainda que essas medidas favorecem o que classifica como um “campeão nacional” brasileiro, e reduz as condições de concorrência para empresas estrangeiras que atuam no setor.
A insatisfação das autoridades dos EUA com o Pix não é recente. Em relatório divulgado pela Casa Branca em abril deste ano, o sistema já havia sido citado como um fator que afeta os interesses de grandes operadoras de cartões de crédito, como Visa e Mastercard. A avaliação considera que a ampla adesão dos consumidores brasileiros ao Pix reduziu o espaço de atuação de modelos tradicionais de pagamento baseados na cobrança de taxas por transação.
Em resumo: a gratuidade de um sistema brasileiro, soberano, criado para permitir ampla participação da população do Brasil nas transações digitais, sem passar pelo dólar estadunidense, prejudica os lucros de operadoras financeiras daquele país. Por isso estes agentes querem retaliação.
O Pix corre risco de sofrer sanções?
Até o momento, não há qualquer medida específica anunciada contra o Pix. A conclusão da investigação do USTR representa uma etapa do processo e não resulta automaticamente em sanções ou restrições ao sistema brasileiro de pagamentos.
As acusações integram a conclusão da investigação comercial que aponta supostas práticas brasileiras capazes de restringir ou onerar o comércio com empresas norte-americanas. Como consequência, o USTR propôs a adoção de tarifas de 25% sobre parte das exportações brasileiras destinadas aos EUA.
O relatório abre espaço para que o regime Trump avalie possíveis respostas comerciais em relação ao Brasil, mas eventuais decisões ainda dependem das próximas fases da investigação e das discussões entre os dois países.
O cronograma divulgado pelo USTR prevê a continuidade das consultas públicas sobre o tema, além da realização de audiências e negociações diplomáticas antes de uma decisão final. Nesse período, representantes do governo brasileiro, instituições financeiras e demais interessados poderão apresentar argumentos e esclarecimentos sobre os pontos levantados pela investigação.
Dessa forma, embora o Pix tenha sido incluído entre os alvos das críticas estadunidenses ainda não há definição sobre quais consequências práticas poderão decorrer do processo nem sobre eventuais impactos diretos para o sistema de pagamentos brasileiro.
Como o setor financeiro brasileiro responde às acusações?
As críticas das autoridades norte-americanas ao Pix foram contestadas tanto pelo setor bancário quanto pelo governo brasileiro. Em nota, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) afirmou que as conclusões do USTR decorrem de uma compreensão incompleta sobre os objetivos e o funcionamento do Pix. Para a entidade, o sistema opera em um modelo aberto e não discriminatório, com participação de bancos, fintechs e instituições financeiras nacionais e estrangeiras. A federação também argumenta que não existem barreiras para a entrada de novos participantes, desde que estejam autorizados a atuar no mercado brasileiro.
A Febraban ressalta ainda que o Pix é gratuito para pessoas físicas, mas pode ter tarifas aplicadas a empresas, sem distinção entre companhias brasileiras e estrangeiras. Na avaliação da entidade, o sistema contribuiu para ampliar o acesso da população aos serviços financeiros, reduzir custos operacionais e aumentar a eficiência das transações comerciais, especialmente nas operações de menor valor.
Outro argumento apresentado pelo setor bancário é que o Pix não substitui outros meios de pagamento, como cartões de débito e crédito. Para a federação, diferentes instrumentos continuam coexistindo e atendendo a demandas distintas de consumidores e empresas, o que preserva a concorrência no sistema financeiro.
O governo brasileiro também rejeitou as acusações de tratamento preferencial ou discriminatório. Em resposta à conclusão preliminar da investigação, afirmou que o Pix é uma infraestrutura pública administrada pelo Banco Central e que suas regras são aplicadas de forma uniforme a todos os participantes do mercado.
O governo argumenta ainda que empresas estadunidenses atuam normalmente no ecossistema de pagamentos brasileiro e não enfrentam restrições específicas. Além disso, destaca que o Brasil figura entre os principais mercados mundiais para companhias dos EUA que operam no setor de pagamentos.
De acordo com o governo, a legislação brasileira assegura tratamento equitativo a empresas nacionais e estrangeiras, e não há evidências de que as regras do Pix prejudiquem a atuação de companhias norte-americanas no país.
O que os Estados Unidos podem fazer contra o Pix?
As críticas ao Pix não começaram com a investigação mais recente. Em março deste ano, o sistema brasileiro de pagamentos já havia sido mencionado em um relatório do USTR que lista barreiras comerciais e regulatórias identificadas pelo regime Trump em mais de 60 países.
Na ocasião, o governo brasileiro reagiu às críticas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Pix é uma ferramenta nacional e rejeitou a possibilidade de alterações motivadas por pressões externas. O sistema também recebeu manifestações de apoio de autoridades estrangeiras, entre elas o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que elogiou o modelo brasileiro e defendeu a ampliação de iniciativas semelhantes na América Latina.
Com a conclusão preliminar da investigação, uma das principais dúvidas é se os EUA têm mecanismos para agir diretamente contra o Pix. Especialistas em comércio exterior e regulação econômica afirmam que não. Como se trata de uma infraestrutura financeira administrada pelo Banco Central do Brasil, as autoridades norte-americanas não possuem jurisdição para interferir diretamente em seu funcionamento.
As medidas previstas na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, utilizada como base para a investigação, concentram-se no campo das relações comerciais. Entre os instrumentos disponíveis ao regime Trump estão a imposição de tarifas, a suspensão de benefícios comerciais e outras restrições relacionadas ao comércio bilateral.
Por esse motivo, especialistas avaliam que eventuais consequências da investigação tendem a atingir setores da relação comercial entre Brasil e EUA, e não o funcionamento do Pix em si. Qualquer medida dependerá das próximas etapas do processo, das consultas públicas previstas pelo USTR e das negociações diplomáticas entre os dois países.
Portanto, embora o sistema brasileiro de pagamentos esteja entre os temas analisados pela investigação, não há indicação de que os EUA possam suspender, controlar ou alterar diretamente o funcionamento do Pix.
A disputa em dimensão política
O debate sobre o Pix ultrapassou a esfera econômica e passou a integrar o embate político entre governo e oposição no Brasil.
No mesmo dia em que o governo dos Estados Unidos anunciou a conclusão da investigação, o presidente Donald Trump publicou em sua conta oficial do X, uma mensagem ao lado do senador evangélico, pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), após um encontro realizado na Casa Branca. Na publicação, Trump elogiou o parlamentar brasileiro e destacou sua atuação política.

Imagem: Encontro entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump na Casa Branca. Fonte: X.
Antes da manifestação de Trump, Flávio Bolsonaro tentava desviar-se de críticas de ter sido promotor dos novos ataques do regime dos EUA à economia brasileira. As novas medidas foram divulgadas logo após a visita do senador a Trump. Por isso, ele divulgou um vídeo nas redes digitais em que afirmou ser contrário à adoção de novas tarifas sobre produtos brasileiros. O senador informou que durante a reunião na Casa Branca, solicitou que eventuais medidas comerciais não fossem direcionadas às empresas do país. Porém, a publicação dos elogios de Trump a Flávio Bolsonaro intensificaram as críticas a possíveis ações de traição à pátria do candidato à Presidência do Brasil.
Posteriormente, Flávio encaminhou uma carta ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, na qual pediu que Washington não adotasse novas restrições comerciais contra o Brasil. No documento, argumentou que eventuais sanções poderiam causar prejuízos à economia brasileira e à população.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, atribuiu parte da escalada das tensões à atuação internacional de Flávio Bolsonaro e do irmão dele, o deputado federal evangélico cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Em declarações públicas, Lula acusou ambos de incentivarem a interferência de um governo estrangeiro em assuntos internos do Brasil.
Eduardo Bolsonaro rejeitou as acusações. Em publicação nas redes, afirmou que sua família não influenciou a decisão do governo estadunidense e negou qualquer participação na abertura da investigação ou na discussão de possíveis medidas comerciais contra o Brasil.
A controvérsia ocorre em meio às negociações entre Brasília e Washington para tentar reduzir as divergências comerciais entre os dois países. Em encontro oficial realizado em maio passado na Casa Branca, Lula e Trump discutiram o tema e concordaram em manter canais de negociação para buscar soluções diplomáticas.
Referências:
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