
Checagem da Agência Lupa confrontou movimento nas redes na véspera da abertura das urnas (sábado, 3 de outubro) que associa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a primeira-dama Janja da Silva a “rituais satânicos”. As publicações se intensificaram nas redes sociais e aplicativos de mensagem e viralizaram entre grupos de igrejas.
Conforme publicado pela Lupa, as mensagens, marcadas por intolerância religiosa, combinam conteúdos falsos que circulam há anos com imagens e vídeos manipulados por inteligência artificial (IA). Produtores deste conteúdo falso buscam, na véspera da eleição, interferir no direito do eleitorado ao voto e à escolha sem mentira.
Monitoramento da Lupa mostra que, nos últimos 90 dias, a média diária de menções sobre esse tema foi de 1,33 mil, chegando a 120 mil menções em todo período. No levantamento, a agência identificou que o movimento desinformativo surgiu após a repercussão que acusou o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) a uma suposta proposta para retirar o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida, como Bereia checou.

Entre sexta, 2 de outubro, e sábado 3, as mensagens alcançaram 208 milhões de perfis no X, Instagram, Reddit e Youtube, conforme estimativa do monitoramento da Lupa, pela plataforma Meltwater. As imagens simulam capas de revistas e transmissões da GloboNews, por IA, que levam a crer que o presidente da República e sua esposa teriam realizado a consagração do Brasil a Exu ou que estariam promovendo projetos para favorecer religiões de matriz africana em detrimento de igrejas cristãs.
Outra postagem espalha mentira ao afirmar que Janja pretende taxar igrejas evangélicas para financiar novos terreiros de umbanda, o que é inventado não tem qualquer base factual. Também voltou a circular uma antiga mentira de 2022, com vídeo que simula que Lula estaria falando a palavra “demônio” e que este estaria tomando conta do presidente.
Este tipo de mentira já foi checado pelo Bereia em 2022 e durante o governo Lula. Nas eleições de 2022, um vídeo manipulado ligava Lula ao satanismo e viralizou entre evangélicos. Em 2024, para criticar política econômica, opositores espalham um conteúdo falso de que a coluna Painel da Folha de S.Paulo teria publicado um texto intitulado “Janja encomenda ritual de candomblé para reduzir dólar, diz assessor do PT”. No ano passado, 2025, a deputada federal evangélica Clarissa Tércio (PP-PE) usou seu perfil no Instagram para atacar Janja da Silva, que havia se encontrado com mulheres evangélicas e participado de culto durante visita a Caruaru (PE), no último 30 de setembro. De acordo com a deputada, “dias atrás ela estava no terreiro de macumba, e agora quer posar de ‘amiga das evangélicas’”.
Bereia reafirma que as antigas e as novas publicações, conforme checagem da Agência Lupa, são falsas, criadas com a intenção de prejudicar a imagem de Lula com o eleitorado cristão. O conteúdo também é usado para reforçar o preconceito com religiões de matriz africana (Candomblé e Umbanda) e o racismo religioso que historicamente demonizam estas fés e as atrelam falsamente a um inventado satanismo.
Uma das postagens com esses conteúdos foi identificada pelo Bereia e caiu no filtro da Meta, dona do Instagram e do Facebook. Ao abrir a publicação, aparece o escrito “Informação falsa. Semelhante a outro post analisado por verificadores de fatos independentes” e o usuário apenas visualiza o conteúdo se assim optar, apesar do aviso. O responsável pela republicação foi Antônio Pinto Pereira, político em Portugal.


