Nos últimos dias, os irmãos Bolsonaro realizaram ações de campanha eleitoral nas quais atacaram as urnas eletrônicas do Brasil com afirmações falsas, já desmentidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em em evento com embaixadores, em 21 de julho passado, disse que as máquinas usadas nas eleições brasileiras seriam da Smartmatic, empresa suspeita de fraudes eleitorais na Venezuela.
A afirmação não é nova: segundo nota do TSE publicada em 2020, a mentira circula pelas mídias sociais desde as eleições de 2018. De acordo com a Corte, as urnas eletrônicas brasileiras foram projetadas e são geridas inteiramente pela Justiça Eleitoral. A produção das máquinas é feita por empresas selecionadas em licitações públicas de ampla concorrência.
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“Há uma denúncia por parte do governo americano de suspeitas de fraudes em processo eleitoral eletrônico, em especial na Venezuela, inclusive utilizando uma documentação do próprio serviço de inteligência americano, a CIA, apontando sobre a possibilidade de vulnerabilidades do sistema eletrônico de votação (…) Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras são da mesma empresa”, disse o senador.
A nota do TSE destaca que a Smartmatic havia participado da licitação para fabricação das máquinas em 2020, mas perdeu para a empresa Positivo. Desse modo, não há fornecimento nem programação de urnas eletrônicas, apenas treinamento de profissionais para prestar suporte técnico e operacional das máquinas, e prestação de serviços de conexão de dados e voz para o Tribunal.
Segundo apuração do Uol, o documento da CIA citado por Flávio Bolsonaro relata preocupações da inteligência norte-americana com as eleições venezuelanas entre 2004 a 2020 e não estabelece relações entre as urnas do brasileiras e do país vizinho.
Pré-candidato repete o gesto que deixou Jair Bolsonaro inelegível
O ataque do senador às urnas é semelhante ao gesto do pai, o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), que levou à perda do seu poder político e consequente inegibilidade até 2030. Em evento também com embaixadores, em julho de 2022, convocado e realizado com o uso da máquina pública, o então presidente, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, afirmou, sem provas, que as urnas eletrônicas não seriam seguras e confiáveis.
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Em função do episódio e do uso da estrutura do governo para organização e transmissão do evento, o TSE condenou Jair Bolsonaro por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação.
Flávio Bolsonaro citou diretamente a condenação do pai durante o discurso, que foi realizado no evento Ciclo de Debates Debatendo o Brasil, organizado por empresas privadas.
“O ex-presidente Jair Bolsonaro, ele está inelegível após uma reunião com embaixadores. Alguém que tinha uma preocupação com a transparência e a segurança do nosso sistema eleitoral e apenas manifestava suas preocupações para que os embaixadores levassem esse cenário de preocupação para os seus países”, disse o pré-candidato.
Ataque coordenado
Dois dias após as declarações do pré-candidato senador do PL, o irmão dele, o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), atacou o sistema eleitoral em uma live com um influenciador argentino. Fernando Cerimedo foi consultor da campanha de Javier Milei à Presidência da Argentina, em 2023, e foi indiciado pela Polícia Federal (PF) no inquérito da tentativa de golpe de Estado em 2022-2023 no Brasil.
Durante a live, realizada em 23 de julho, Eduardo Bolsonaro e Fernando Cerimedo alegam que as urnas eletrônicas foram fraudadas para interferir nos resultados das eleições em 2022. O deputado cassado chega a afirmar que a votação na região Nordeste pode ter mais adulterações: “No Nordeste do Brasil é esperado que seja uma vitória da esquerda. Por ali eles ficam mais confortáveis de fazer uma alteração”.
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Eduardo Bolsonaro também relaciona a região Nordeste a uma mentira sobre mesários votarem por eleitores ausentes após as 17 horas, quando se encerra o período de votação. A informação falsa já circulou tempos atrás pelas redes digitais e foi desmentida pela Justiça Eleitoral.
“É complicado que das cinco horas da tarde comece a entrar vários votos do Nordeste. O que você começa a pensar? Poxa, depois das cinco da tarde os mesários, que normalmente no Brasil são os mesmos todas as eleições, já se conhecem. Se todos eles forem da mesma ideologia eles podem perfeitamente no final chegar e falar: ‘Ó, vou digitar aqui o título de leitor do cara e você vota por ele aí’. Faltou a votação, João da Silva, digita o número, vota aí na maquininha, João da Silva’. Aí vai lá e vota lá no candidato da esquerda, vamos supor, no Lula. E aí eles vão começando a colocar mais e mais votos dentro”, disse o filho ex-presidente Jair Bolsonaro, sem apresentar qualquer prova sobre a afirmação.
De acordo com o protocolo da Justiça Eleitoral, a liberação da urna para votação só acontece após a identificação biométrica do eleitor, ou habilitação pelo seu ano de nascimento.
Conforme as orientações oficiais: “O ano de nascimento não consta no caderno de votação, nem está facilmente acessível para o mesário. Por isso, é necessário que o eleitor compareça às urnas para repassar a informação.Tanto a operação em si quanto a informação de quem liberou o eleitor são registradas no log da urna eletrônica e podem ser consultadas em uma auditoria posterior”.
Nas eleições de 2022, o influenciador argentino Fernando Cerimedo fez diversas afirmações falsas sobre o sistema eleitoral brasileiro, chegando a afirmar em um vídeo que havia recebido um relatório secreto que provava irregularidades nas urnas eletrônicas. O documento citado no vídeo é um material falso que já foi desmentido.
Segundo as investigações da Polícia Federal, as informações falsas disseminadas pelo influenciador alimentaram o planejamento do golpe de Estado no Brasil, para que Jair Bolsonaro se mantivesse no poder, depois de ter perdido as eleições. A apuração resultou no indiciamento do argentino, em novembro de 2024.
Mentira recorrente
Ataques às urnas eletrônicas são frequentes em conteúdos falsos que circulam em ambientes religiosos, e são checados pelo Bereia desde 2020. Em 2024, um levantamento do Bereia apurou que a desinformação sobre o sistema eleitoral esteve entre os temas que marcaram a campanha eleitoral daquele ano.
Em novembro 2020, Bereia checou alegações falsas de Eduardo Bolsonaro sobre suspeitas de fraude na apuração de votos das eleições municipais. No mesmo ano, a fala de um pastor sobre a suposta “insegurança” das urnas também foi checada e classificada como enganosa.
É importante que o público fique atento para não cair em discursos falsos carregados de tom de denúncia, insistentemente usados em campanhas eleitorais. A referência à agência de inteligência e espionagem dos Estados Unidos, a CIA, também merece atenção, uma vez que levanta suspeitas, no debate público, sobre possíveis articulações para interferência estrangeira nas eleições do Brasil pró-candidatura de Flávio Bolsonaro.
Os ataques dos irmãos Bolsonaro ao sistema eleitoral renderam audiência nas mídias sociais. Dados da plataforma de monitoramento Meltwater divulgados pela Agência Lupa mostram que, após o discurso de Flávio Bolsonaro, publicações sobre fraudes nas urnas eletrônicas registraram o maior alcance médio dos últimos seis meses.
No X, antigo Twitter, e no Youtube, a média estimada de alcance é de 20,3 milhões de perfis no dia da fala do senador. Menções a supostas fraudes também aumentaram em aplicativos de mensagem: dados da plataforma OpenMeasures apontam que conversas sobre urnas em aplicativos como Telegram e redes como BlueSky e TikTok teve o maior volume desde janeiro.
A média do alcance de mensagens sobre voto impresso também cresceu: segundo dados da Meltwater, o alcance chegou a 23,4 milhões de perfis distintos no X e no YouTube.
De acordo com a Lupa, grande parte das publicações menciona a falsa relação entre as urnas brasileiras e a empresa Smartmatic. Por outro lado, há um volume expressivo de publicações que contestam as afirmações falsas.
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Bereia reafirma o que já vem sendo verificado há anos: as alegações antecipadas de fraude nas urnas eleitorais do processo eleitoral do Brasil são falsas e têm sido frequentemente desmentidas pelo TSE. Tais acusações também não encontram sentido nos resultados dos pleitos anteriores. O sistema questionado é o mesmo que consagrou Jair Bolsonaro presidente em 2018, e que tornou o Partido Liberal (PL) a agremiação com o maior número de deputados federais eleitos em 2022.
A presença de políticos em cultos religiosos, seja em momentos de oração, bênção ou reconhecimento público, tem se tornado cada vez mais frequente no ambiente evangélico brasileiro. Em diferentes denominações e regiões do país, líderes políticos são recebidos em púlpitos, apresentados às congregações e, em alguns casos, associados simbolicamente à autoridade espiritual das lideranças religiosas.
Esse fenômeno, que se intensifica em períodos eleitorais, levanta questionamentos sobre os limites entre liberdade religiosa e uso de espaços de culto como plataforma de projeção política, tema que já foi analisado pela Justiça Eleitoral e por quem pesquisa religião e política.
O que diz a Justiça Eleitoral sobre cultos e campanha
A discussão ganhou novo fôlego a partir de decisões recentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que têm reafirmado o entendimento de que a instrumentalização de templos para promoção eleitoral pode configurar abuso de poder político e econômico.
Os políticos haviam utilizado a estrutura e o altar da Igreja do Evangelho Quadrangular local para pedir votos explicitamente durante um culto. Na ocasião, o pastor declarou que a instituição estava “fechada” com os candidatos e convocando os fiéis a trabalharem pela campanha.
No relatório do ministro Antônio Carlos Ferreira, o TSE reafirma que, embora o “abuso de poder religioso” não constitua uma figura jurídica autônoma na legislação, as condutas que instrumentalizam a fé e a estrutura dos templos configuram abuso de poder político e econômico. A decisão ressaltou que a liberdade religiosa não é absoluta e não pode ser invocada como um salvo-conduto para contornar as normas que garantem a igualdade de condições na disputa eleitoral.
Evangélicos reagem criticamente
Se por um lado as cúpulas partidárias e certas lideranças forçam a entrada da política nas igrejas, por outro, os bancos das congregações dão sinais claros de saturação. Ao contrário do que aponta o senso comum de que o voto religioso é de cabresto, a ampla maioria dos fiéis rejeita o avanço dos palanques sobre os altares. Uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem, da Universidade Federal do Paraná), realizada em 2025, revela que 75% dos evangélicos condenam a realização de campanhas eleitorais dentro dos templos.
O levantamento aponta ainda que a politização escancarada é exceção, não a regra no cotidiano das igrejas. Os dados indicam que 34,1% dos pastores entrevistados afirmaram que lideranças de sua igreja apoiaram algum candidato nas eleições municipais. Embora expressiva, essa proporção mostra que a maior parte do segmento busca preservar o ambiente de culto, mesmo que o índice de engajamento político dos líderes evangélicos seja cerca de duas vezes maior que o registrado entre os católicos (16,9%).
O lugar das Assembleias de Deus
Por ser a maior denominação evangélica do país, com cerca de 13 milhões de seguidores segundo o IBGE, as Assembleias de Deus concentram historicamente o maior assédio de políticos interessados em sua capilaridade. A trajetória do ex-deputado federal Eduardo Cunha (Republicanos-MG) ilustra de forma nítida essa dinâmica. Originalmente membro da igreja Sara Nossa Terra, que contava com pouco mais de 1 milhão de fiéis, Cunha migrou estrategicamente para as Assembleias de Deus para expandir suas bases no Rio de Janeiro. Em um dos episódios gravados na Catedral das Assembleias de Deus em Santa Cruz, o pastor local o apresentou formalmente como o “candidato oficial da nossa convenção”, o que o ajudou a se consagrar como o terceiro deputado mais votado do estado. Em 2024, ao participar do culto que marcou o centenário das igrejas Assembleias de Deus, no Rio de Janeiro, o deputado foi vaiado.
A tradição de abrir as portas para o poder político é personificada hoje pelo pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC). O trânsito de Malafaia entre diferentes forças políticas é antigo: em 2014, a inauguração da nova sede de sua igreja reuniu no mesmo altar nomes como Lindbergh Farias (PT), Eduardo Paes (PSD) e Luiz Fernando Pezão (PMDB). Na época, o respaldo litúrgico de Malafaia funcionou como um verdadeiro “escudo eleitoral” para Pezão concorrer no segundo turno para o governo do Estado do Rio contra Marcelo Crivella (Republicanos). Isto mostrou ao eleitorado tradicional que o candidato do PMDB não possuía hostilidade contra os evangélicos em geral, mas apenas contra a cúpula da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), da qual fazia parte seu concorrente direto.
Desde a campanha eleitoral de 2018, Silas Malafaia abandonou a diversidade e estreitou laços com a família Bolsonaro e partidos da extrema direita. Em maio deste ano, um culto que reuniu o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o ex-governador Cláudio Castro (PL-RJ) e os deputados Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), Malafaia convocou os membros da igreja a estenderem as mãos em direção aos políticos. Proferindo uma oração que pedia “bênção e vitória” nas urnas, o pastor aproveitou o momento sagrado para tecer duras críticas ao governo federal e ao Poder Judiciário, atacando nominalmente o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
Imagem: Reprodução Instagram
O caso da Igreja Batista Atitude
Outro reduto político importante no Rio de Janeiro, neste caso com apoio voltado para a família Bolsonaro, é a Igreja Batista Atitude, liderada pelo pastor Josué Valandro Jr. A congregação, frequentada pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, costuma receber autoridades públicas para momentos de oração. Durante o período em que esteve na Presidência da República (2019-2022), o próprio Jair Bolsonaro participava, com frequência, dos cultos na sede da igreja no bairro da Barra da Tijuca, recebendo, no altar, orações públicas conduzidas pelo pastor.
A atuação de Valandro Jr., no entanto, ultrapassa as preces e assume contornos de blindagem política. O pastor saiu em defesa do pré-candidato à Presidência da República pelo PL Flávio Bolsonaro, após o vazamento de áudios que revelaram o envolvimento do senador com repasses de altos valores em dólares pelo empresário preso por corrupção Daniel Vorcaro. Em suas declarações para a comunidade, o líder religioso afirmou não ver indícios de crime no episódio, criticou o que chamou de distorções políticas da esquerda contra a direita e defendeu que os recursos tratados na conversa eram de natureza puramente privada, legitimando a conduta de Flávio Bolsonaro perante os fiéis.
Imagem: Reprodução do site da revista Comunhão
A postura da Igreja Mundial
Na disputa por espaço e influência com suas concorrentes, a Igreja Mundial do Poder de Deus, liderada pelo apóstolo Valdemiro Santiago, ex-bispo da IURD, também desenha suas alianças políticas. Se no passado a denominação deu sustentação à candidatura de Luiz Fernando Pezão para fazer contraponto à IURD, hoje, ela serve de abrigo para a ressurreição política de Eduardo Cunha, que historicamente mantém forte presença em ambientes evangélicos e articulação com diferentes lideranças religiosas.
O ex-deputado e ex-presidente Câmara Federal esteve preso de outubro de 2016 até março de 2020, devido a escândalos de corrupção. Depois de obter o direito a prisão domiciliar, Cunha obteve decisões favoráveis no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná), em 2022, para a retirada de tornozeleira eletrônica e teve condenações anuladas pelo STF, além de conseguir a suspensão de sua inelegibilidade pelo TRF-1 (Brasília e mais 13 estados brasileiros: Acre, Amapá, Amazonas, Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Piauí, Rondônia, Roraima e Tocantins).
Cunha fixou residência em Belo Horizonte (MG), com o objetivo de construir uma nova base eleitoral para as eleições de 2026, tendo se filiado ao Republicanos e passado a frequentar os cultos da Igreja Mundial como base. A filha, a deputada federal Daniela Cunha (PL-RJ), tem visitado as igrejas da denominação com certa frequência.
Imagem:Reprodução/Instagram
Em abril de 2025, no culto realizado em Araxá (MG), Cunha sentou-se ao lado do apóstolo Valdemiro Santiago no palco principal. O líder tomou a palavra para elogiá-lo explicitamente, chamando-o de “eterno deputado” e afirmando que ele foi “um dos melhores que já viu”, justificando que as decisões tomadas por Cunha na presidência da Câmara foram fundamentais para a nação, apesar do sofrimento que lhe custaram. Pouco tempo depois, a cena de legitimação se repetiu na sede da igreja no Brás, em São Paulo, onde Cunha dividiu o altar com o apóstolo e com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), consolidando sua reinserção no meio evangélico.
Imagem: Reprodução site da Revista Liberta
A posição da Igreja Internacional da Graça de Deus
Não é apenas na igreja do apóstolo Valdemiro que Eduardo Cunha encontra abertura. Na Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD), liderada pelo missionário R. R. Soares, a fusão entre liderança eclesiástica e representação parlamentar ganha contornos de um modelo corporativo e familiar, servindo também de palco para consolidar suas alianças.
O ex-deputado estendeu sua rede de influência a R.R. Soares por meio de um expressivo acordo comercial e de comunicação: Cunha cedeu horários em suas novas emissoras de rádio no interior de Minas Gerais para a transmissão da programação religiosa da denominação. O arranjo foi celebrado e declarado abertamente pelo próprio missionário durante um culto na sede de Belo Horizonte, chancelando a proximidade e o apoio mútuo entre a instituição e o político no estado.
Imagem: Reprodução vídeo YouTube
A prática de aproximar a gestão pública dos interesses da igreja é rotina na IIGD, onde o R. R. R. Soares costuma apresentar políticos aliados diretamente no púlpito. Foi o que aconteceu na inauguração do grande templo de Sorocaba (SP), quando as lideranças pastorais chamaram à frente o prefeito Rodrigo Manga (Republicanos), referindo-se a ele como um “obreiro de Deus” que realizava um trabalho excelente na cidade. Manga, figura central no meio evangélico local, chegou a ser afastado do cargo pela Operação Cópia e Cola da Polícia Federal, por suspeitas de desvios na área da saúde. O prefeito de Sorocaba, porém, retornou ao posto graças a uma liminar impetrada no STF e concedida pelo ministro do STF Kassio Nunes Marques.
Imagem: Reprodução YouTube
Para além do apoio a aliados externos como Cunha e Manga, R.R. Soares utiliza a estrutura e a capilaridade da denominação para promover a carreira de seus próprios filhos, transformando o rebanho em uma base eleitoral sólida e hereditária. Adotando o slogan “Mesmo sangue, mesma fé e mesmo amor”, o televangelista legitima religiosamente os mandatos de sua família.
A estratégia tem garantido o sucesso nas urnas de David (Podemos-SP) e Marcos Soares (PSDB-SP) como deputados federais, além de Filipe e Daniel Soares como deputados estaduais no Rio de Janeiro (PSDB) e em São Paulo (União), respectivamente. O único filho fora do parlamento atualmente é André Soares (União), que não conseguiu se reeleger após cumprir três mandatos na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).
Imagem: Reprodução do site Ongrace.com
O espaço da IURD
Com grande destaque no espaço público, Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) opera a política sob uma lógica de centralização institucional e rígida disciplina de voto. Fundada pelo bispo Edir Macedo, a denominação foi pioneira na criação de um projeto oficial de poder, ocupando um partido político, antes o Partido Republicano do Brasil (PRB), hoje Republicanos. A IURD elege bancadas expressivas na Câmara Federal ao utilizar a estrutura de seus templos, da Rede Record de TV e da Rede Aleluia de Rádio como catalisadores eleitorais.
A expressão máxima desse projeto é o bispo licenciado e deputado federal Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), ex-prefeito do Rio de Janeiro (2013-2016). Sua gestão na Prefeitura ficou marcada pelo tensionamento entre o dever público e os interesses da denominação, cujo ápice foi o escândalo em torno de uma reunião secreta no Palácio da Cidade. Na ocasião, em áudio vazado, Crivella ofereceu a pastores facilidades em cirurgias de catarata e no IPTU de templos, cunhando o famoso jargão: “É só falar com a Márcia”.
Políticos em contraponto
Em contraposição à exposição frequente dos candidatos nos altares, o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva tem adotado uma postura de maior distanciamento de palanques religiosos durante períodos de campanha eleitoral. Embora tenha frequentado templos ao longo de seus mais de 50 anos de vida pública, o católico Lula hoje defende enfaticamente a separação entre Igreja e Estado. O presidente tem reiterado em seus discursos que a fé constitui um momento de conexão sagrada e intimidade do cidadão, e que não deve ser explorada politicamente para a obtenção de votos.
Esse posicionamento encontra eco direto na atuação do deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ). O líder religioso e parlamentar de esquerda manifesta, reiteradamente, em publicações em suas contas nas redes digitais, e em entrevistas que concede à imprensa, um cansaço compartilhado por muitos fiéis que não aceitam ver a mensagem bíblica ser instrumentalizada por projetos personalistas de poder. Vieira enfatiza que o debate público faz parte da caminhada cristã, mas repudia veementemente o controle do voto por meio do constrangimento espiritual.
“Não é sobre tirar o debate público da fé, é sobre impedir que a autoridade espiritual seja usada para controlar voto, punir divergência e transformar culto em comitê”, defende o deputado. Para ele, o papel da igreja deve ser o de zelar pela consciência crítica e pela democracia, mantendo uma distância saudável da idolatria partidária. “A Igreja não é espaço de manipulação. A fé precisa ser espaço de consciência, liberdade, justiça e bem comum, não de idolatria ao poder”.
Somando-se a essa convergência, está a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), parlamentar histórica com trajetória consolidada na defesa dos direitos sociais e evangélica presbiteriana. Ela tem atuado como um elo central na denúncia contra o pragmatismo eleitoral baseado na fé.
Benedita da Silva, que vivencia o ambiente religioso muito antes da atual onda de polarização política, desde que foi membro das Assembleias de Deus, argumenta que o papel do cristianismo nos espaços institucionais deve se pautar na promoção da dignidade humana e da justiça, e nunca no sequestro da consciência dos fiéis para benefícios individuais de poder.
Ao abordar o tema em pronunciamento em fevereiro deste 2026, em sua conta oficial no Instagram, a deputada pontuou de forma contundente. “A fé que eu aprendi no evangelho não anda de mãos dadas com a mentira, porque a mentira aprisiona. Como irmã, eu te peço: não entregue sua fé a quem quer usar o nome de Deus por interesses políticos e eleitorais. Olhe para os frutos. Fé de verdade não se usa, fé de verdade se vive.” A parlamentar reforça que a manipulação do sentimento religioso desidrata o debate democrático e degrada a própria espiritualidade, devendo os fiéis rejeitar candidatos que reduzem a sacralidade do altar a um balcão de negócios por votos.
Essa postura de preservação do espaço sagrado também ganha contornos dentro do próprio campo da direita conservadora, evidenciando que o desgaste com a partidarização da fé ultrapassa fronteiras ideológicas. Exemplo disso é o posicionamento do deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ). Pastor evangélico e declaradamente de direita, o parlamentar rompeu com o discurso radical ao contestar publicamente a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que afirmou em um culto sofrer perseguição religiosa e ter seu “culto doméstico cerceado”. Ao rebater a narrativa de Michelle Bolsonaro, o deputado classificou a tese de “guerra espiritual” como puro oportunismo político. “É uma narrativa falaciosa, mentirosa, oportunista e para autoproteção essa de que nós estamos diante de uma guerra religiosa. Eu sou a única voz a estar nesse contraponto com eles, única voz dissonante. Porque não quero que levem a igreja para essa vala comum”, declarou.
Para ele, o uso de discursos vitimistas nos altares serve apenas como blindagem para lideranças políticas, rebaixando a fé dos fiéis e a instituição religiosa ao papel de escudo partidário.
O impacto simbólico dos púlpitos e a resistência nas igrejas
A presença de candidatos e lideranças políticas nos púlpitos não produz apenas efeitos eleitorais. Para especialistas que estudam as relações entre religião e política, a prática mobiliza símbolos centrais da experiência religiosa e pode gerar tensões dentro das próprias comunidades de fé.
A pesquisadora em Comunicação, Política e Religiões e editora-geral do Coletivo Bereia Magali Cunha destaca que o altar ocupa um lugar de forte significado para quem participa de uma celebração religiosa. Segundo ela, quando um político é apresentado, homenageado ou abençoado nesse espaço, a mensagem transmitida ultrapassa o gesto protocolar. “Os púlpitos estão em altares, e o altar é uma simbologia muito forte. É o lugar onde se professam os sacramentos, a pregação, as orações de onde parte a ação de culto, a ação celebrativa que envolve a fé coletiva daquelas pessoas”, explica.
Para a pesquisadora, a autoridade simbólica das lideranças religiosas confere peso adicional a esse tipo de exposição pública. Pastores, padres e demais líderes costumam ser reconhecidos por suas comunidades como referências espirituais e morais, o que faz com que manifestações de apoio político produzam impactos que vão além do campo partidário.
Ao mesmo tempo, a pesquisadora ressalta que os frequentadores das igrejas não recebem essas mensagens de forma passiva. Segundo ela, o que foi confirmado na pesquisa da Universidade Federal do Paraná, cresce entre evangélicos a resistência ao uso dos espaços de culto para promoção de projetos políticos específicos. “As pessoas estão cada vez mais críticas nas igrejas a esse abuso religioso de forçar uma relação da fé com personagens específicos. Fere uma ética comunitária, porque não diz respeito a um pastor ou pastora na condução de uma comunidade definir voto de ninguém”, aponta.
Os limites legais e o entendimento da Justiça Eleitoral
Enquanto o debate ético avança dentro das próprias comunidades de fé, a Justiça Eleitoral vem consolidando parâmetros cada vez mais rígidos sobre a participação de candidatos em templos durante períodos eleitorais.
Bereia ouviu o professor de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais Alexandre Bahia sobre os casos. Ele explica que a legislação proíbe tanto a propaganda eleitoral quanto a propaganda antecipada em templos religiosos, classificados pela Lei das Eleições como bens de uso comum.
Segundo o jurista, a simples presença de políticos em celebrações religiosas não constitui irregularidade. O problema surge quando o culto é transformado em espaço de promoção eleitoral. “A justiça eleitoral tem certamente uma dificuldade para localizar, em alguns casos, porque não é proibido para pessoas que estão na política frequentar cultos. Mas o que não pode acontecer é a transformação do culto em um palanque, em que seja dada palavra ao líder político ou ao candidato para falar sobre propostas, ou que o líder religioso aponte aquela pessoa como sendo alguém em quem os fiéis devem votar”, explica.
De acordo com Bahia, a irregularidade não se limita ao pedido explícito de votos. A Justiça Eleitoral também pode considerar abusivas situações em que o ambiente de culto é utilizado para promover uma candidatura ou associar determinado político à autoridade religiosa da liderança que conduz a celebração. “Discursos políticos durante a realização da reunião religiosa, qualquer associação de um candidato com a vontade de Deus, ou algo assim, pode inclusive configurar abuso de autoridade por parte do líder religioso”, garante o professor.
O jurista ressalta ainda que as consequências podem ser severas. “As propagandas irregulares têm possibilidade de multa por parte da Justiça Eleitoral e, se configurar abuso de poder político ou abuso de poder econômico, isso pode levar à cassação do registro da candidatura. Se ele já tiver sido eleito, esses fatos podem configurar causa de perda do mandato e inclusive inelegibilidade por oito anos”, completa.
A linha que separa o exercício legítimo da cidadania e da fé da instrumentalização política dos altares tornou-se um dos terrenos mais vigiados da democracia brasileira. Os dados sociológicos e as manifestações de resistência interna revelam que a grande maioria dos fiéis repudia a transformação dos cultos em comitês eleitorais, exigindo que o espaço sagrado permaneça ético e focado em sua missão espiritual.
Ao mesmo tempo, as decisões recentes e unânimes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mandam um recado claro a candidatos e lideranças eclesiásticas: a liberdade religiosa não é um salvo-conduto para burlar a legislação. A integridade do voto e a igualdade entre os concorrentes continuam sendo os pilares soberanos do processo eleitoral, e o uso abusivo do púlpito como palanque será punido com o rigor da cassação e da inelegibilidade.
Referências
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https://www.conjur.com.br/2026-mai-20/uso-de-igreja-para-promover-candidatos-e-abuso-de-poder-diz-tse/ – Acesso em 22 jun. 2026
Coletivo Bereia https://coletivobereia.com.br/justica-eleitoral-decide-campanha-por-votos-em-templos-religiosos-e-abuso-de-poder-e-e-crime-eleitoral/ – Acesso em 22 jun. 2026
Folha de S.Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/03/cada-vez-mais-disputados-evangelicos-rejeitam-campanha-nos-pulpitos.shtml – Acesso em 22 jun. 2026
Instagram – Pastor Henrique Vieira
https://www.instagram.com/reel/DX61-dgO4Ge/ – Acesso em 22 jun. 2026
Senado Federal (reprodução de reportagem do Estadão)
https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/513754/noticia.html – Acesso em 22 jun. 2026
UOL Notícias
https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2024/06/30/eduardo-cunha-e-vaiado-durante-culto-da-assembleia-de-deus-no-rio-veja.htm – Acesso em 22 jun. 2026
O Globo https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2025/05/11/biblia-boi-e-bola-cunha-mira-mg-e-investe-em-estacoes-de-radio-time-de-futebol-e-visitas-a-igreja-e-leilao-de-gado.ghtml – Acesso em 22 jun. 2026
Vai na Fonte
https://vainafonte.ig.com.br/2025-02-12/eduardo-cunha-comprou-predio-bh-e-candidato-a-deputado-por-mg.html – Acesso em 22 jun. 2026
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https://odia.ig.com.br/noticia/brasil/2014-04-06/pezao-e-lindbergh-vao-a-inauguracao-de-templo-de-silas-malafaia.html – Acesso em 22 jun. 2026
Tempo Real RJ
https://temporealrj.com/malafaia-ora-douglas-ruas-bolsonaro-rio/ – Acesso em 22 jun. 2026
Veja
https://veja.abril.com.br/brasil/a-rapida-expansao-da-igreja-que-virou-parada-obrigatoria-para-politicos-do-rio/ – Acesso em 22 jun. 2026
O ano eleitoral começou com força total e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que acaba de realizar a transição de sua presidência, assumida pelo ministro Kássio Nunes Marques, também iniciou o ciclo com intensa atividade. Uma das frentes prioritárias é o enfrentamento ao uso dos templos religiosos para fins eleitorais, o que é marcado pelas situações em que púlpitos são transformados em palanques políticos.
Por isso, o TSE consolidou, em 21 de maio, por unanimidade, sua atuação firme no impedimento do abuso de poder político e econômico no contexto religioso durante períodos eleitorais. Ao negar recurso de candidatos das eleições de 2024, em Votorantim (SP), condenados pelo Tribunal Eleitoral Regional de São Paulo (TRE-SP), a Corte reafirmou que a instrumentalização de templos e da autoridade de líderes religiosos para promoção eleitoral fere os princípios democráticos de igualdade entre os concorrentes.
O TRE-SP havia condenado e cassado a candidatura, com inelegibilidade de oito anos, da prefeita, do vice-prefeito, do PSDB, e de um vereador do MDB, que haviam usado a estrutura da Igreja do Evangelho Quadrangular para, durante um culto pedir votos. Na ocasião o pastor havia declarado: “A Igreja Quadrangular aqui de Votorantim, nós estamos fechados com o pastor Lilo (o vereador)”. Além disso, o culto foi usado para uma convocação aos fiéis para a votação: “A partir do dia 16, nós vamos trabalhar muito”.
A decisão ressalta que a liberdade religiosa não é absoluta e não pode ser invocada para contornar normas eleitorais. No caso analisado, o TSE identificou que a exposição de candidatos no altar e a convocação de fiéis para mobilização política desvirtuaram o caráter espiritual do evento. Além disso, a Corte demonstrou rigor ao analisar indícios de abuso econômicos relacionados a contratos entre a gestão municipal e a instituição religiosa, reforçando o papel do Tribunal como guardião da integridade das eleições.
Com esta decisão, o TSE reafirma um precedente importante para o sistema eleitoral brasileiro, sinalizando que a instituição agirá com prontidão para garantir que a estrutura religiosa não seja utilizada como ferramenta de desequilíbrio democrático.
Como denunciar
Os melhores caminhos para denúncias sobre abuso de poder podem ser consultadas nos canais oficiais do TSE:
Para crimes eleitorais, o TSE orienta o contato com as autoridades policiais, ao Ministério Público Eleitoral(MPE) ou à autoridade judiciária da zona eleitoral onde verificou-se a infração; para identificar o contato das zonas eleitorais, o cidadão pode acessar a página do Tribunal Regional Eleitoral da respectiva Unidade Federativa;
Para registrar uma denúncia no MPE, o cidadão deve ter uma conta na plataforma gov.br. O protocolo consiste no preenchimento de um formulário e o ideal é que na denúncia sejam anexados documentos que sirvam como prova da infração;
Também é possível tirar dúvidas através da ouvidoria do TSE. Para demandas que não envolvem dados pessoais, a ouvidoria fica disponível presencialmente na sede do TSE ou pelos telefones: 0800 648 0005 e (61) 3030-8700.
Referências:
Consultor Jurídico
https://www.conjur.com.br/2026-mai-20/uso-de-igreja-para-promover-candidatos-e-abuso-de-poder-diz-tse/ Acesso em 21 mai 2026
A mais recente edição da pesquisa Latam Pulse, realizada pela AtlasIntel em parceria com a Bloomberg, revela uma mudança significativa no cenário pré-eleitoral brasileiro. Entre maio e julho de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ultrapassou Jair Bolsonaro (PL) nas intenções de voto para a presidência, apesar de o ex-presidente constar na lista dos institutos de pesquisas mesmo estando inelegível, depois de condenado em processo no Tribunal Superior Eleitoral.
Na pesquisa de maio, Bolsonaro aparecia à frente com 46,7%, contra 43,9% de Lula. Dois meses depois, Lula assumiu a dianteira, alcançando 47,8%, enquanto Bolsonaro oscilou para 44,2%. A virada se dá fora da margem de erro, que é de um ponto percentual, e reflete um reposicionamento do eleitorado em diferentes segmentos.
Imagem: Coletivo Bereia
O recorte por religião é um dos principais destaques desse movimento. Entre os evangélicos, Bolsonaro mantinha em maio um amplo domínio, com 65,6%, enquanto Lula registrava apenas 27,2%. Na pesquisa de julho, Bolsonaro oscilou três décimos positivamente, para 65,9%, mas Lula subiu dois pontos e meio, para 29,7%, o que indica um avançado pela preferência no atual presidente nesse segmento historicamente mais resistente ao seu nome.
Imagem: Coletivo Bereia
Entre os católicos, Lula ampliou sua vantagem. Em maio, ele tinha 46,2%, contra 44,5% de Bolsonaro. Já em julho, a diferença aumentou: Lula passou a 51,7% em preferência, enquanto Bolsonaro caiu para 41,1%.
A análise dos demais cenários testados pela pesquisa AtlasIntel/Bloomberg de julho passado confirma a vantagen de Lula no primeiro turno. Contra o governador Tarcísio de Freitas (PL), Lula tem 48,5% contra 33%; contra Michelle Bolsonaro (PL), o placar é de 48,5% a 29,7% para o atual presidente da República.
Em eventual segundo turno, a vantagem também é mantida: Lula venceria Tarcísio por 50,4% a 46,6%, Michelle por 50,6% a 45,9% e Bolsonaro (inelegível) por 50,1% a 46,3%.
Aprovação de governo e avaliação de desempenho
A mudança nas intenções de voto também se espelha nos índices de aprovação do governo. Segundo a pesquisa de julho, 50,2% dos brasileiros aprovam o desempenho do presidente Lula, enquanto 49,7% desaprovam e apenas 0,2% não souberam ou não responderam. Quando o recorte é feito por religião, as diferenças se acentuam:
Católicos: 52,8% aprovam / 47,1% desaprovam
Evangélicos: 30,4% aprovam / 69,3% desaprovam
Crentes sem religião: 51,1% aprovam / 48,9% desaprovam
Agnósticos ou ateus: 75,5% aprovam / 23,5% desaprovam
Outras religiões: 64,5% aprovam / 35,5% desaprovam
Imagem: Coletivo Bereia
Na avaliação do governo Lula de forma geral (sem considerar apenas a figura do presidente), 46,6% dos brasileiros classificam a gestão como “ótima ou boa”, enquanto 48,2% consideram “ruim ou péssima”, e 5,1% avaliam como regular. Entre os evangélicos, apenas 29,8% avaliam positivamente, enquanto 69,1% classificam como ruim ou péssima.
Ao comparar os dados de maio e julho no cenário de primeiro turno contra Bolsonaro, é possível identificar que a mudança positiva pró-Lula se deu principalmente pelo aumento da sua aprovação entre católicos, que passaram de 47,1% para 52,8%, e entre outros grupos religiosos, onde Lula também avançou.
Já entre os evangélicos, a oscilação foi pequena, mas significativa: Lula subiu de 27,2% para 29,7%. Estes dados apontam para novas avaliações de eleitores religiosos.
Alinhamentos internacionais e corte religioso
A pesquisa de Atlas Intel / Bloomberg de junho também investigou as preferências do eleitorado brasileiro em relação aos alinhamentos internacionais do país. Para 44,2% dos entrevistados, o Brasil deveria se alinhar mais com os BRICS, enquanto 36,9% preferem os Estados Unidos.
Imagem: Coletivo Bereia
O recorte religioso revela posicionamentos bem distintos:
Evangélicos: 50,8% preferem os EUA / 28,1% preferem os BRICS
Católicos: 45,7% BRICS / 33,1% EUA
Crentes sem religião: 52,6% BRICS / 35% EUA
Agnósticos ou ateus: 77,6% BRICS / 14% EUA
Outras religiões: 49,2% BRICS / 32,7% EUA
Imagem: Coletivo Bereia
Os dados revelam que, assim como no comportamento eleitoral, os evangélicos formam o principal núcleo de apoio a uma política externa mais alinhada aos Estados Unidos, enquanto os demais segmentos tendem a apoiar a aproximação com os BRICS — articulação do Brasil com Rússia, Índia, China e África do Sul, priorizada no governo Lula.
Religião e polarização social
A religião como fator preponderante nas divisões políticas nacionais já havia sido apontada na edição de fevereiro de 2025 da pesquisa Latam Pulse, realizada pela AtlasIntel em parceria com a Bloomberg. Segundo o Índice de Polarização Social (Atlas-SPI), o Brasil liderava a América Latina em grau de polarização, com pontuação 60 em uma escala de 0 a 100. Segundo o Índice de Polarização Social (Atlas-SPI), o Brasil lidera, dentre os países analisados, em grau de polarização, com pontuação 60 em uma escala de 0 a 100.
Entre os cinco vetores avaliados — polarização política, de classe, étnica, religiosa e urbano-rural — a dimensão religiosa surge como um dos focos de tensão mais perceptíveis: 55% dos brasileiros identificam conflitos entre grupos de diferentes crenças, sendo que 39% consideram esse conflito “muito forte”.
A inclusão da fé como uma das dimensões do índice evidencia o quanto a religião tem sido instrumentalizada no Brasil contemporâneo, deixando de ser apenas uma expressão espiritual ou comunitária para se transformar em elemento ativo de disputa política e cultural. Essa reconfiguração tem impactos concretos sobre a coesão social, pois amplia antagonismos, fomenta ressentimentos e dificulta o diálogo entre diferentes grupos da sociedade.
A emergência da religião como vetor central da polarização ajuda a explicar tanto a importância estratégica do eleitorado evangélico nas eleições quanto às variações nos índices de apoio ao governo Lula observadas nos diferentes recortes religiosos. Em um cenário onde fé e política se entrelaçam de maneira cada vez mais explícita, compreender essas dinâmicas torna-se essencial para antecipar tensões e disputas futuras.