Justiça Eleitoral decide: campanha por votos em templos religiosos é abuso de poder e crime eleitoral

O ano eleitoral começou com força total e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que acaba de realizar a transição de sua presidência, assumida pelo ministro Kássio Nunes Marques, também iniciou o ciclo com intensa atividade. Uma das frentes prioritárias é o enfrentamento ao uso dos templos religiosos para fins eleitorais, o que é marcado pelas situações em que púlpitos são transformados em palanques políticos. 

Por isso, o TSE consolidou, em 21 de maio, por unanimidade, sua atuação firme no impedimento do abuso de poder político e econômico no contexto religioso durante períodos eleitorais. Ao negar recurso de candidatos das eleições de 2024, em Votorantim (SP), condenados pelo Tribunal Eleitoral Regional de São Paulo (TRE-SP), a Corte reafirmou que a instrumentalização de templos e da autoridade de líderes religiosos para promoção eleitoral fere os princípios democráticos de igualdade entre os concorrentes.

O TRE-SP havia condenado e cassado a candidatura, com inelegibilidade de oito anos, da prefeita, do vice-prefeito, do PSDB, e de um vereador do MDB, que haviam usado a estrutura da Igreja do Evangelho Quadrangular para, durante um culto pedir votos. Na ocasião o pastor havia declarado: “A Igreja Quadrangular aqui de Votorantim, nós estamos fechados com o pastor Lilo (o vereador)”. Além disso, o culto foi usado para uma convocação aos fiéis para a votação: “A partir do dia 16, nós vamos trabalhar muito”.

Imagem: reprodução

A decisão de negar o recurso, relatada pelo ministro do TSE Antônio Carlos Ferreira, destaca o peso institucional do Tribunal ao aplicar a jurisprudência estabelecida desde 2020. O entendimento da Corte é que, embora não exista a figura jurídica autônoma do “abuso de poder religioso”, a utilização de espaços de culto como plataforma eleitoral configura desvio de finalidade passível de punição pelas leis vigentes.

A decisão ressalta que a liberdade religiosa não é absoluta e não pode ser invocada para contornar normas eleitorais. No caso analisado, o TSE identificou que a exposição de candidatos no altar e a convocação de fiéis para mobilização política desvirtuaram o caráter espiritual do evento. Além disso, a Corte demonstrou rigor ao analisar indícios de abuso econômicos relacionados a contratos entre a gestão municipal e a instituição religiosa, reforçando o papel do Tribunal como guardião da integridade das eleições.

Com esta decisão, o TSE reafirma um precedente importante para o sistema eleitoral brasileiro, sinalizando que a instituição agirá com prontidão para garantir que a estrutura religiosa não seja utilizada como ferramenta de desequilíbrio democrático.

Como denunciar

Os melhores caminhos para denúncias sobre abuso de poder podem ser consultadas nos
canais oficiais do TSE:

Para crimes eleitorais, o TSE orienta o contato com as autoridades policiais, ao
Ministério Público Eleitoral(MPE) ou à autoridade judiciária da zona eleitoral onde
verificou-se a infração; para identificar o contato das zonas eleitorais, o cidadão
pode acessar a página do Tribunal Regional Eleitoral da respectiva Unidade
Federativa;

Para registrar uma denúncia no MPE, o cidadão deve ter uma conta na plataforma
gov.br. O protocolo consiste no preenchimento de um formulário e o ideal é que na
denúncia sejam anexados documentos que sirvam como prova da infração;

Também é possível tirar dúvidas através da ouvidoria do TSE. Para demandas que
não envolvem dados pessoais, a ouvidoria fica disponível presencialmente na sede
do TSE ou pelos telefones: 0800 648 0005 e (61) 3030-8700.


Referências:

Consultor Jurídico 

https://www.conjur.com.br/2026-mai-20/uso-de-igreja-para-promover-candidatos-e-abuso-de-poder-diz-tse/ Acesso em 21 mai 2026

UOL Notícias, 

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/05/21/tse-torna-candidatos-em-sp-inelegiveis-por-usar-igreja-para-se-promover.htm Acesso em 21 mai 2026

Religião no cenário pré-eleitoral: um olhar sobre a pesquisa Atlas/Bloomberg de julho 2025

A mais recente edição da pesquisa Latam Pulse, realizada pela AtlasIntel em parceria com a Bloomberg, revela uma mudança significativa no cenário pré-eleitoral brasileiro. Entre maio e julho de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ultrapassou Jair Bolsonaro (PL) nas intenções de voto para a presidência, apesar de o ex-presidente constar na lista dos institutos de pesquisas mesmo estando inelegível, depois de condenado em processo no Tribunal Superior Eleitoral.

Na pesquisa de maio, Bolsonaro aparecia à frente com 46,7%, contra 43,9% de Lula. Dois meses depois, Lula assumiu a dianteira, alcançando 47,8%, enquanto Bolsonaro oscilou para 44,2%. A virada se dá fora da margem de erro, que é de um ponto percentual, e reflete um reposicionamento do eleitorado em diferentes segmentos.

Imagem: Coletivo Bereia

O recorte por religião é um dos principais destaques desse movimento. Entre os evangélicos, Bolsonaro mantinha em maio um amplo domínio, com 65,6%, enquanto Lula registrava apenas 27,2%. Na pesquisa de julho, Bolsonaro oscilou três décimos positivamente, para 65,9%, mas Lula subiu dois pontos e meio, para 29,7%, o que indica um avançado pela preferência no atual presidente nesse segmento historicamente mais resistente ao seu nome.

Imagem: Coletivo Bereia 

Entre os católicos, Lula ampliou sua vantagem. Em maio, ele tinha 46,2%, contra 44,5% de Bolsonaro. Já em julho, a diferença aumentou: Lula passou a 51,7% em preferência, enquanto Bolsonaro caiu para 41,1%. 

A análise dos demais cenários testados pela pesquisa AtlasIntel/Bloomberg de julho passado confirma a vantagen de Lula no primeiro turno. Contra o governador Tarcísio de Freitas (PL), Lula tem 48,5% contra 33%; contra Michelle Bolsonaro (PL), o placar é de 48,5% a 29,7% para o atual presidente da República.

Em eventual segundo turno, a vantagem também é mantida: Lula venceria Tarcísio por 50,4% a 46,6%, Michelle por 50,6% a 45,9% e Bolsonaro (inelegível) por 50,1% a 46,3%.

Aprovação de governo e avaliação de desempenho

A mudança nas intenções de voto também se espelha nos índices de aprovação do governo. Segundo a pesquisa de julho, 50,2% dos brasileiros aprovam o desempenho do presidente Lula, enquanto 49,7% desaprovam e apenas 0,2% não souberam ou não responderam. Quando o recorte é feito por religião, as diferenças se acentuam:

  • Católicos: 52,8% aprovam / 47,1% desaprovam
  • Evangélicos: 30,4% aprovam / 69,3% desaprovam
  • Crentes sem religião: 51,1% aprovam / 48,9% desaprovam
  • Agnósticos ou ateus: 75,5% aprovam / 23,5% desaprovam
  • Outras religiões: 64,5% aprovam / 35,5% desaprovam

Imagem: Coletivo Bereia 

Na avaliação do governo Lula de forma geral (sem considerar apenas a figura do presidente), 46,6% dos brasileiros classificam a gestão como “ótima ou boa”, enquanto 48,2% consideram “ruim ou péssima”, e 5,1% avaliam como regular. Entre os evangélicos, apenas 29,8% avaliam positivamente, enquanto 69,1% classificam como ruim ou péssima. 

Ao comparar os dados de maio e julho no cenário de primeiro turno contra Bolsonaro, é possível identificar que a mudança positiva pró-Lula se deu principalmente pelo aumento da sua aprovação entre católicos, que passaram de 47,1% para 52,8%, e entre outros grupos religiosos, onde Lula também avançou. 

Já entre os evangélicos, a oscilação foi pequena, mas significativa: Lula subiu de 27,2% para 29,7%. Estes dados apontam para novas avaliações de eleitores religiosos.

Alinhamentos internacionais e corte religioso

A pesquisa de Atlas Intel / Bloomberg de junho também investigou as preferências do eleitorado brasileiro em relação aos alinhamentos internacionais do país. Para 44,2% dos entrevistados, o Brasil deveria se alinhar mais com os BRICS, enquanto 36,9% preferem os Estados Unidos.

Imagem: Coletivo Bereia 

 O recorte religioso revela posicionamentos bem distintos:

  • Evangélicos: 50,8% preferem os EUA / 28,1% preferem os BRICS
  • Católicos: 45,7% BRICS / 33,1% EUA
  • Crentes sem religião: 52,6% BRICS / 35% EUA
  • Agnósticos ou ateus: 77,6% BRICS / 14% EUA
  • Outras religiões: 49,2% BRICS / 32,7% EUA


Imagem: Coletivo Bereia

Os dados revelam que, assim como no comportamento eleitoral, os evangélicos formam o principal núcleo de apoio a uma política externa mais alinhada aos Estados Unidos, enquanto os demais segmentos tendem a apoiar a aproximação com os BRICS — articulação do Brasil com Rússia, Índia, China e África do Sul,  priorizada no governo Lula.

Religião e polarização social

A religião como fator preponderante nas divisões políticas nacionais já havia sido apontada na edição de fevereiro de 2025 da pesquisa Latam Pulse, realizada pela AtlasIntel em parceria com a Bloomberg. Segundo o Índice de Polarização Social (Atlas-SPI), o Brasil liderava a América Latina em grau de polarização, com pontuação 60 em uma escala de 0 a 100. Segundo o Índice de Polarização Social (Atlas-SPI), o Brasil lidera, dentre os países analisados, em grau de polarização, com pontuação 60 em uma escala de 0 a 100. 

Imagem:  Latam Pulse Atlas & Bloomberg 02/2025 

Entre os cinco vetores avaliados — polarização política, de classe, étnica, religiosa e urbano-rural — a dimensão religiosa surge como um dos focos de tensão mais perceptíveis: 55% dos brasileiros identificam conflitos entre grupos de diferentes crenças, sendo que 39% consideram esse conflito “muito forte”. 

Imagem:  Latam Pulse Atlas & Bloomberg 02/2025 

A inclusão da fé como uma das dimensões do índice evidencia o quanto a religião tem sido instrumentalizada no Brasil contemporâneo, deixando de ser apenas uma expressão espiritual ou comunitária para se transformar em elemento ativo de disputa política e cultural. Essa reconfiguração tem impactos concretos sobre a coesão social, pois amplia antagonismos, fomenta ressentimentos e dificulta o diálogo entre diferentes grupos da sociedade.

A emergência da religião como vetor central da polarização ajuda a explicar tanto a importância estratégica do eleitorado evangélico nas eleições quanto às variações nos índices de apoio ao governo Lula observadas nos diferentes recortes religiosos. Em um cenário onde fé e política se entrelaçam de maneira cada vez mais explícita, compreender essas dinâmicas torna-se essencial para antecipar tensões e disputas futuras.

Referências:

Atlas Intel Latam Pulse: Brasil | Julho de 2025: https://atlasintel.org/poll/latam-pulse-brazil-july-2025-07-31 

Atlas Intel Latam Pulse: Brasil | Maio de 2025: https://atlasintel.org/poll/latam-pulse-brazil-may-2025-2025-05-30 Atlas Intel Latam Pulse: Brasil |Fevereiro de 2025 https://www.atlasintel.org/poll/latam-pulse-brazil-february-2025-2025-02-07

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