A “perseguição aos cristãos” volta às urnas em 2026

Narrativa histórica do campo cristão é atualizada pela extrema direita nas eleições e ganha novos contornos com conteúdos desinformativos

por Flávio Conrado e Lorena Mochel

Quatro anos após as acusações de que “Lula fecharia as igrejas” caso fosse eleito, um discurso central no campo evangélico volta a ganhar força eleitoral em 2026: a perseguição aos cristãos. As disputas pelo voto religioso tem se atualizado através de estratégias que conectam narrativas familiares a esses eleitores, ganhando novos contornos no atual cenário político.

A perseguição religiosa é uma narrativa conhecida na experiência dos cristãos. Sua força remete à memória das primeiras comunidades, com relatos de prisões e martírios no Novo Testamento, conectando-se à literatura da “igreja perseguida” nos países comunistas durante a Guerra Fria. Essa memória chega ao presente como uma suposta ameaça das esquerdas, ainda que o Brasil tenha mais de 80% de cristãos e ampla liberdade religiosa.

Nas redes sociais, entre lideranças evangélicas principalmente vinculadas ao campo das direitas, essa atualização tem sido marcada por estratégias de desinformação sobre acontecimentos em diferentes partes do Brasil e do mundo. Em vez de mera invenção, a fabricação decorre de fatos reais que podem ser retirados de contexto, associados a informações antigas e apresentados como evidência de perseguição.

É o que temos observado no monitoramento das redes evangélicas da Casa Galileia, em parceria com o Instituto Democracia em Xeque. Na Nigéria, conflitos geopolíticos de diferentes naturezas são apresentados como uma guerra contra cristãos. Imagens antigas reaparecem como atuais e a complexidade do conflito desaparece.

A mesma chave aparece nos Estados Unidos, onde Donald Trump e seu governo apresentam a situação nigeriana como perseguição aos cristãos. No Canadá, um projeto de lei circulou sob a falsa alegação de que opiniões bíblicas poderiam ser criminalizadas. No Brasil, essa narrativa chegou à reação ao PL da Misoginia, com afirmações de que padres e pastores poderiam ser presos por citar a Bíblia.

Casos no Brasil também foram apresentados como ataques à liberdade religiosa, com manifestações contrárias à intervenção policial a uma igreja no Rio Grande do Sul e a uma pregação na praça da Sé, todos associados a críticas aos governos de esquerda. Dessa forma, a narrativa opõe uma esquerda hostil à fé a representantes dispostos a defender os valores cristãos, transformando a defesa da fé em critério de identificação política.

Por encontrar uma estrutura de plausibilidade conhecida no campo cristão, essa narrativa absorve acontecimentos distintos. Se em 2022 lideranças religiosas usaram a retórica do fechamento de igrejas para desestimular o voto na esquerda, mesmo sem evidências de que isso tenha ocorrido em governos petistas anteriores, em 2026 acontecimentos distintos voltam a ser reorganizados como sinais de uma mesma ameaça: cristãos e seus valores estariam sob ataque. Ajusta-se a narrativa, mas sem abrir mão da estratégia.

É legítimo que cristãos, evangélicos e pessoas de outras tradições religiosas participem da vida pública, disputem eleições e defendam suas convicções. Perseguição, intolerância e racismo religioso precisam ser enfrentados, mas não se equivalem à defesa de que existe “cristofobia” ou uma onda de discriminações baseadas na condição de se professar a fé cristã no Brasil. O que merece atenção é o uso eleitoral dessas questões quando acontecimentos distintos são selecionados, descontextualizados ou associados para reforçar a ideia de que a fé cristã está permanentemente sob ameaça.

À medida que a campanha de 2026 avança, reconhecer esses padrões ajuda a qualificar o debate público. Não se trata de deslegitimar a fé, nem quem leva suas convicções religiosas para a política, mas de identificar os usos estratégicos e as “iscas eleitorais” construídos a partir delas. Em um ambiente digital que amplia rapidamente esse tipo de conteúdo, perceber como essas narrativas são produzidas, conectadas e mobilizadas é também uma forma de participar do debate político com mais informação.


Flávio Conrado é diretor de Campanhas da Casa Galileia, antropólogo e doutor em Sociologia e Antropologia pela UFRJ.

Lorena Mochel é antropóloga, pesquisadora da Casa Galileia e pós-doutoranda na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Empresária evangélica produtora de filme de Bolsonaro está sob nova investigação policial

A Polícia Federal (PF) executou, neste 10 de setembro, uma operação relacionada a irregularidades financeiras na produção do filme em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) “Dark Horse”. Os alvos são a empresária evangélica Karina Ferreira da Gama e o deputado federal de identidade cristã Mário Frias (PL-SP). A investigação apura se recurso público enviado pelo parlamentar para atividades de um instituto educacional foi usado para financiar o filme, que tem Karina Gama como produtora. Frias teria atuado como roteirista e produtor-executivo da peça cinematográfica. 

Batizada de Operação Make Up, a ação foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF)  a partir de relatório do ministro Flávio Dino, com base em petição da Polícia Federal, a partir de investigações sobre ilegalidades em torno do envio de emendas parlamentares por deputados federais. A PF cumpriu 49 mandados de busca e apreensão contra 22 pessoas em três estados e no Distrito Federal, além de entidades presididas por Karina Gama, o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC).

Empresária evangélica investigada

De acordo com a investigação da PF, a empresária é próxima de Mario Frias e trabalhou na campanha para elegê-lo a deputado federal pelo PL, em 2022. A Controladoria-Geral da União (CGU) identificou indícios de irregularidades na destinação de emenda parlamentar de Frias, no valor R$ 2 milhões,  para atividades do ICB. 

A suspeita é de que os recursos públicos foram desviados para outras finalidades, como a produção da cinebiografia de Bolsonaro pela empresa Go Up, que tem Karina Gama como sócia.

Em maio de 2026, uma reportagem do Bereia já tratava de investigações em torno do caso. A matéria mostra que a empresária integra o chamado GT Cristão, um grupo criado para atuar na mobilização de segmentos religiosos em campanhas eleitorais paulistas. A apuração destacou a atuação da evangélica em uma rede que reunia lideranças evangélicas, agentes políticos, organizações do terceiro setor e projetos de comunicação alinhados à direita política.

Segundo áudios obtidos pelo The Intercept Brasil, a Go Up teria atuado como intermediária de milhões de dólares que o dono do Banco Master Daniel Vorcaro destinou à família Bolsonaro. Segundo os filhos do ex-presidente, os valores foram doados para  o filme-homenagem. Segundo dados levantados pelo veículo de notícias,  ao menos US$ 10,6 milhões (cerca de R$ 61 milhões) teriam sido pagos por Vorcaro aos Bolsonaros em seis operações. A produtora nega ter recebido esses valores.

Polícia Federal suspeita de organização criminosa

Segundo a PF, as apurações revelam a existência de uma organização criminosa, formada por agentes públicos e privados, que teria desviado recursos para empresas subcontratadas de maneira irregular, sem a comprovação de que os serviços contratados foram, de fato, prestados. A polícia informou ainda que análises financeiras detectaram a movimentação de centenas de milhões de reais entre as empresas envolvidas no esquema sob investigação.

No relatório do STF, que autorizou a Operação Make Up, deste 10 de setembro, consta que a União Nacional das Igrejas e Pastores Evangélicos (Unigrejas) movimentou aproximadamente R$ 7,78 milhões entre outubro de 2025 e abril de 2026, valor considerado atípico pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Desse total, mais de R$ 1 milhão foi recebido por meio de depósitos realizados em diferentes regiões do país, incluindo cerca de R$ 928 mil em dinheiro vivo. Foi isto que chamou a atenção dos investigadores em torno do caso Dark Horse.

Entre os remetentes dos depósitos identificados está a empresária Karina Ferreira da Gama, produtora do filme e sócia do Instituto Conhecer Brasil (ICB), que transferiu R$ 50 mil a Unigrejas, somados a outros R$ 50 mil enviados pelo seu instituto, em um total de R$ 100 mil. Além dos recebimentos, o relatório do STF mostra que a própria Unigrejas repassou recursos a outras organizações religiosas. Foram R$ 157,8 mil para a Igreja Universal do Reino de Deus e R$ 150 mil para a Associação Nova Igreja Evangélica Holiness Shalom. Porém,  as igrejas mencionadas não são alvos das buscas autorizadas pela decisão, e a Polícia Federal segue apurando a natureza dessas movimentações dentro do inquérito mais amplo, que também investiga o Banco Master e outras entidades ligadas à produção do filme.

A investigação também classifica o deputado Mário Frias como “participante ativo da engrenagem financeira” do esquema. O relatório do STF aponta que o deputado retardou a prestação de informações sobre as emendas suspeitas. A operação policial apura crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios.

Durante a ação da PF deste 10 de setembro, o parlamentar teve celular, computador e sete armas de fogo apreendidos pelos investigadores. Por  decisão do STF, o deputado está impedido de viajar para o exterior e de manter qualquer contato com os demais investigados no inquérito. As armas estavam registradas em nome do parlamentar, mas foram encontradas em endereço diferente do declarado, o que configura situação irregular.

Ator com passagens por diversas novelas na TV brasileira, Mario Frias estreou na política em 2020 como Secretário Especial da Cultura, nomeado pelo então presidente Jair Bolsonaro. Foi eleito deputado federal por São Paulo em 2022 e é candidato à reeleição no pleito deste ano. 

O deputado federal se identifica publicamente como cristão e conservador, adotando um discurso alinhado ao conservadorismo religioso em sua atuação pública. Embora circule amplamente tanto em meios católicos quanto evangélicos, o parlamentar não cita sua vinculação institucional, embora o site da Câmara dos Deputados o aponte como membro da Frente Parlamentar Católica Apostólica Romana.

Imagem: Reprodução/Facebook

Em maio de 2021, enquanto secretário especial da Cultura, participou de uma transmissão ao vivo sobre a Lei Rouanet e a cultura cristã, onde criticou artistas que captavam recursos pela lei de incentivo à cultura.

Imagem: Reprodução/Youtube

Referências

STF

https://conjur.com.br/wp-content/uploads/2026/09/Decisao-PET-16669.pdf

Acesso em 10 set 2026

Câmara dos Deputados

https://www.camara.leg.br/internet/deputado/frenteDetalhe.asp?id=54326 Acesso em 10 set 2026

CNN Brasil

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/dark-horse-cgu-apura-irregularidade-em-repasse-de-r-2-milhoes/ Acesso em 10 set 2026

https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/caio-junqueira/politica/dark-horse-cnn-obtem-documento-em-que-produtora-relata-pressao-por-delacao/ Acesso em 10 set 2026

G1

https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/09/10/karina-gama-quem-e-a-produtora-de-dark-horse-alvo-de-operacao-da-policia-federal-em-sp.ghtml Acesso em 10 set 2026

BBC News Brasil

https://www.bbc.com/portuguese/live/cqn4klxypp44t Acesso em 10 set 2026

O Globo

https://oglobo.globo.com/cultura/o-governo-federal-nao-tem-obrigacao-de-bancar-marmanjo-diz-mario-frias-em-live-sobre-arte-crista-25006859 Acesso em 10 set 2026

Notícias STF 

https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/stf-autoriza-operacao-da-pf-sobre-destinacao-de-emendas-parlamentares-no-caso-dark-horse/  Acesso em 10 de set 2026

Casos de abuso eleitoral aumentam nestas eleições: o que é e como denunciar

Levantamento do Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT), divulgado neste 9 de setembro, aponta 694 processos/denúncias de assédio eleitoral no ambiente de trabalho encaminhados aos Tribunais Regionais do Trabalho (TRTs), entre maio de 2023 e dezembro de 2025. São Paulo lidera o ranking, com 129 ações, seguido por Paraná, com 109, e Rio Grande do Sul, com 77. O terror psicológico aparece em 81,9% dos casos, enquanto as mídias digitais foram utilizadas em 67,4%. Entre as práticas relatadas estão ameaças, pressão para apoiar candidaturas, monitoramento de redes sociais e criação de grupos destinados à propaganda política, por parte de chefes e superiores nos espaços de trabalho.

A divulgação destes dados do CSJT serve de alerta, a fim de que trabalhadores/as estejam atentos a esta ilegalidade, que segue praticada por empregadores nas eleições  de 2026. O  Ministério Público do Trabalho tem recebido denúncias. Só neste ano, até julho, foram 223 denúncias de assédio eleitoral no ambiente de trabalho. Em agosto, até o fechamento desta matéria, form feitos 95 registros, 42,6% do total e mais que o dobro dos 46 contabilizados em julho. A comparação com eleições anteriores também mostra aumento das denúncias. 

Imagem: Matéria do jornal O Globo, de 31 ago 2026

Como Bereia já checou, a mesma lógica de constrangimento merece atenção quando ocorre em espaços religiosos. Pastores, padres, sacerdotes, dirigentes e outras lideranças podem manifestar suas posições políticas, mas a utilização da autoridade espiritual para pressionar fiéis, impor apoio a candidaturas, ameaçar consequências religiosas ou transformar cultos e atividades comunitárias em instrumentos de campanha pode caracterizar assédio eleitoral religioso, expressão usada para descrever práticas de coação políticas associadas à autoridade ou à pertença religiosa.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) esclarece que o chamado abuso de poder religioso não constitui, isoladamente, um ilícito eleitoral autônomo. Situações envolvendo o uso indevido da autoridade religiosa, entretanto, podem ser examinadas, conforme as circunstâncias, como abuso de poder político ou econômico, além de uso irregular dos meios de comunicação. Por isso, é necessário diferenciar a liberdade de expressão religiosa de práticas que condicionem a participação na comunidade, o acesso a benefícios ou a permanência em determinado grupo à adesão a uma candidatura. 

Isso não significa que toda manifestação política feita por uma liderança religiosa seja irregular: a análise depende do contexto, do conteúdo, da forma de abordagem e da existência de pressão, ameaça, constrangimento ou abuso.

Como foi visto nos eventos realizados neste 7 de setembro, discursos de lideranças políticas e religiosas voltaram a levantar discussões sobre os limites entre liberdade de expressão, apoio político e uso da autoridade religiosa. O discurso da bispa da Igreja Renascer em Cristo Sônia Hernadez, no comício do candidato a presidente da República Flávio Bolsonaro (PL), na avenida Paulista, expressa isto ao usar linguagem religiosa para se referir a adversários do senador na disputa:  “Vamos consagrar para que toda obra das trevas malignas não tenha poder de ocupar cargo de autoridade nenhuma nesse país”.

Como o Bereia tem informado, a liberdade religiosa e a liberdade de escolha política são direitos que devem coexistir. Porém, a fé não pode ser transformada em mecanismo de constrangimento eleitoral, de acordo com a legislação do país, assim como o voto não deve ser condicionado ao pertencimento, à obediência ou à permanência em uma comunidade religiosa. Por isso, diante de relatos sobre abusos eleitorais em espaços de trabalho e religiosos, demanda da Justiça apuração que deve considerar documentos, gravações, testemunhos e o contexto completo da ocorrência. Com isso se garante transparência e se evita classificar como irregular uma manifestação que, embora política ou religiosa, não contenha coação nem abuso.

Como denunciar abuso eleitoral

Casos de propaganda eleitoral irregular podem ser comunicados à Justiça Eleitoral por meio do aplicativo – Pardal, que permite o envio de fotos, vídeos e áudios para subsidiar a apuração. 

Denúncias também podem ser encaminhadas ao Ministério Público Eleitoral, especialmente quando houver propaganda ilegal, pressão, ameaça ou tentativa de obrigar alguém a votar em determinado candidato

As denúncias podem ser encaminhadas pelo canal de assédio eleitoral do Ministério Público do Trabalho, inclusive de forma anônima ou com pedido de sigilo da identidade. 

Ao denunciar, é importante preservar as evidências, registrar data, local, responsáveis e circunstâncias do fato, sem expor desnecessariamente dados pessoais de vítimas ou denunciantes.

Referências

Folha de S. Paulo

www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/09/sp-lidera-acoes-na-justica-por-assedio-eleitoral-no-trabalho-veja-ranking.shtml  Acesso em 10 set 2026

UOL

https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/09/07/ato-bolsonarista-paulista-flavio-bolsonaro.amp.htm Acesso em 10 set 2026

G1
https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2026/08/18/crise-economica-santinho-nas-redes-e-mais-casos-na-justica-mostram-formas-mais-comuns-de-assedio-eleitoral-no-trabalho.ghtml  Acesso em 10 set 2026

TSE
https://www.tse.jus.br/eleicoes/pardal-eleicoes-2026  Acesso em 10 set 2026

Ministério Público Eleitoral

https://www.mpf.mp.br/o-mpf/unidades/procuradoria-geral-da-republica-pgr/noticias/me-explica-mpf-onde-o-cidadao-pode-denunciar-irregularidades-eleitorais Acesso em 10 set 2026

Ministério Público do Trabalho

https://mpt.mp.br/assedio-eleitoral Acesso em 10 set 2026

Combate à corrupção: pauta efetiva ou falácia política?

Da ditadura militar ao caso Banco Master, o discurso anticorrupção reaparece a cada eleição e, com frequência, os “heróis” de um ciclo viram imorais em outro

É fácil encontrar em palanques eleitorais no Brasil personagens que prometem “combater a corrupção”. A frase é tão repetida que já se tornou uma apelação, antes de qualquer proposta concreta de governo. 

Imagem: Reprodução de matéria do site do SBT News, 1 set 2026

Por que esse tema, que deveria ser uma política de Estado permanente, se transforma tantas vezes em bandeira de campanha? E por que, diante de tantas experiências no país, passadas as eleições, os “heróis do combate à corrupção” costumam aparecer, depois, debaixo de acusações que representam tudo o que discursavam antes?

Imagem: Reprodução de matéria no site da revista Veja, 17 mai 2023

Para ter informações seguras sobre o que está em jogo quando esse discurso reaparece com força nas eleições de 2026, Bereia explica o tema. Nesta matéria, é apresentado o conceito de corrupção  de onde vem a naturalização desta prática no Brasil e como, historicamente, ela foi usada como instrumento político, às vezes com resultados efetivos, às vezes como cortina de fumaça.

O que é corrupção, afinal?

Em termos jurídicos e de ciência política, corrupção é o uso de uma posição de poder ou de confiança pública para obter vantagem privada, em desrespeito às normas que deveriam orientar aquela função. Ela não tem um formato único. Entre os principais:

  • Corrupção passiva: quando um agente público solicita ou aceita vantagem indevida.
  • Corrupção ativa: quando alguém oferece ou paga essa vantagem a um agente público.
  • Corrupção administrativa: fraudes em licitações, superfaturamento de obras, contratação sem concurso.
  • Corrupção política ou eleitoral: caixa dois, compra de votos, financiamento ilegal de campanhas.
  • Corrupção sistêmica: quando o desvio deixa de ser exceção e passa a fazer parte da própria engrenagem de funcionamento do Estado ou de instituições privadas, que é o caso de esquemas que atravessam décadas e vários governos e empresas.

Existe ainda uma distinção importante entre a grande corrupção, que movimenta somas bilionárias e estrutura o financiamento da política, e as transgressões que estão no dia a dia das pessoas espalhadas pelo Brasil que raramente são chamadas pelo nome, mas alimentam a mesma lógica.

Uma herança que vem de longe: por que a corrupção está tão arraigada na cultura brasileira?

A naturalização da corrupção no Brasil não nasceu com nenhum partido ou governo recente. Ela remonta à formação colonial do país. Historiadores como Sérgio Buarque de Holanda descreveram, ainda na primeira metade do século 20, um traço estrutural da administração brasileira herdado de Portugal: o patrimonialismo, isto é, a dificuldade histórica de separar o que é público do que é privado. 

Cargos públicos foram, desde o Brasil Colônia, tratados como extensão de favores pessoais. A distribuição de cargos passou a ser feita por meio de laços familiares, apadrinhamento e troca de lealdades, e não por critérios técnicos ou legais.

Esse traço se reproduziu no Império, na Primeira República (o chamado “coronelismo”, com o voto de cabresto e a troca de favores entre poder local e poder central) e seguiu atravessando ciclos democráticos e ditatoriais até hoje. Não se trata de dizer que a corrupção é uma essência do “povo brasileiro”, o que seria uma leitura culturalista e injusta. Diz respeito a reconhecer que as instituições do país foram historicamente construídas com pouca separação entre interesse público e privado, e que essa lógica se perpetuou nas práticas político-administrativas.

No cotidiano, essa mesma lógica aparece em gestos pequenos, tantas vezes vistos como inofensivos: pedir para “dar um jeitinho” e furar uma fila ou para conseguir resolver uma questão pendente; oferecer dinheiro a um guarda de trânsito para evitar uma multa; pedir para não emitir nota fiscal e “fazer mais barato”; oferecer a pacientes uma consulta médica sem recibo com um preço menor; usar uma indicação pessoal para conseguir uma vaga de emprego ou driblar um processo seletivo; sonegar informações na Declaração de Imposto de Renda. 

Isoladamente, esses atos parecem distantes dos esquemas bilionários que ocupam manchetes. Porém, a verdade é que são parte da mesma cultura que trata protocolos públicos como algo negociável. Isto ajuda a explicar por que a indignação seletiva com a “grande corrupção” nem sempre vem acompanhada de reflexão sobre as pequenas corrupções do dia a dia.

Quando o combate à corrupção virou estratégia de campanha política 

Se a corrupção é antiga, o uso político do discurso contra ela também é. Três momentos da história recente ajudam a entender isso.

A ditadura militar (1964–1985) justificou o golpe de 1964, entre outros argumentos, com a promessa de expurgar a “subversão” e a corrupção que, segundo seus articuladores, teriam tomado conta do governo do presidente João Goulart. Na prática, o regime instalado não eliminou a corrupção. Pelo contrário, ela persistiu e, em vários momentos, foi documentada dentro do próprio aparato estatal, como contrabandos na Polícia do Exército, e de estatais como a Petrobras e a Eletrobras, bem como no próprio regime de repressão. Porém, o discurso moralizante serviu para legitimar a suspensão de direitos políticos, a censura e a perseguição a adversários.

A eleição de Fernando Collor de Mello à Presidência da República, em 1989, é outro marco. Collor se apresentou como o “caçador de marajás”, símbolo da luta contra privilégios e desvios do funcionalismo público, e venceu a primeira eleição presidencial direta após a ditadura com base nessa imagem, com a ajuda da imprensa que repercutiu amplamente este discurso.

Imagem: Reprodução da capa da revista Veja, de 23 mar 1988

Menos de três anos depois, o próprio governo de Collor foi derrubado por um processo de impeachment motivado por um esquema de corrupção liderado por seu tesoureiro de campanha, PC Farias. O “herói do combate à corrupção” tornou-se, ele mesmo, protagonista de um dos maiores escândalos da Nova República.

A Operação Lava Jato, deflagrada em 2014, radicalizou esse padrão em escala nacional. Apresentada como a maior operação anticorrupção da história do país, teve como rosto público o então juiz Sérgio Moro, da Vara Federal de Curitiba,  e procuradores da República, com destaque para o paranaense Deltan Dallagnol. Estas personagens foram alçadas à condição de heróis nacionais e figuras centrais da conversação política, com ampla repercussão na imprensa, por quase uma década. 

Imagem: Reprodução de matéria no site G1, de 19 mar 2015

Imagem: Reprodução de matéria no site do Globo, de 16 mar 2020

A operação, de fato,expôs um esquema bilionário de desvios na Petrobras e em obras públicas, com participação de grandes empreiteiras e políticos de diversos partidos. Porém, o desfecho revelou outra face da história: as mensagens obtidas pela reportagem conhecida como “Vaza Jato”, resultante de investigação do Intercept Brasil, mostraram conluio entre o juiz e os procuradores responsáveis pela acusação, com manipulação de provas, articulação indevida de delações premiadas e assédio a testemunhas e vazamentos de informações selecionadas para a imprensa. Estas ilegalidades tiveram interferência direta no cenário político do país e nas eleições, com a destruição da reputação de diversas personagens ligadas a governos anteriores, do Partido dos Trabalhadores, resultando na prisão do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, em 2018, retirando-o de candidatura nas eleições daquele ano. 

O caso levou o Supremo Tribunal Federal (STF) a declarar, em 2021, a suspeição de Moro no processo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a anular as condenações contra ele.  Deltan Dallagnol e outros procuradores foram também denunciados a instâncias judiciárias sobre as ações ilegais que praticam com pedidos de reclamações disciplinares, sindicâncias, pedidos de providências e Processo Administrativo Disciplinar (PAD).  

O “herói” da Lava Jato Sérgio Moro deixou a magistratura e tornou-se ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), que ganhou as eleições em 2018 com base no processo que o juiz havia ajudado a construir. Deltan Dallagnol, para escapar das denúncias, pediu exoneração do cargo de procurador da República enquanto estavam pendentes as análises de reclamações disciplinares, sindicâncias, pedidos de providências e Processo Administrativo Disciplinar (PAD).  Ele se candidatou a deputado federal pelo partido Novo em 2022, porém, apesar de ter vencido, teve a candidatura cassada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2023. Os ministros do TSE avaliaram que Dallagnol fraudou o processo eleitoral ao pedir exoneração do cargo de procurador, enquanto estava sob investigação por ações ilegais, para escapar da Lei da Ficha Limpa. De acordo com a sentença, os fatos ocorridos no âmbito da Operação Lava Jato se enquadrariam em hipóteses legais de demissão por quebra de dever de sigilo e de decoro, bem como pela prática de improbidade administrativa, o que o impediram de se candidatar.

O padrão que se repete nesses três episódios é semelhante: a corrupção factual e comprovável é usada como discurso de legitimação de um projeto de poder. As personagens que se apresentam como “salvadoras” morais concentram capital político em cima desse discurso. Passado o ciclo, parte desses mesmos personagens aparece envolvida em práticas questionáveis ou é apontada por instituições de controle como tendo agido de forma parcial ou ilegal.

Em outra direção, o caso em relação à figura do ministro do STF Alexandre de Moraes ilustra bem como opera a produção de heróis na cena política. Após os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, o ministro do STF foi alçado, por setores da mídia e da opinião pública, à condição de figura salvadora da democracia. Passou a ser exposto como o magistrado que “conteve” a barbárie e “puniu” os responsáveis. Esse discurso, ainda que ancorada em fatos (os inquéritos, as prisões, os processos em curso) transforma um processo institucional complexo, com suas ambiguidades e disputas de poder, em um enredo simples de bem contra mal, no qual basta confiar na figura do herói para que a Justiça se cumpra. 

O problema é que esse tipo de personificação despolitiza o debate público sobre as causas estruturais que possibilitaram o 8 de janeiro (a tentativa de golpe para perpetuação de um grupo no poder, o financiamento das milícias digitais, a omissão de outras instituições, o papel de certas igrejas e lideranças religiosas na radicalização política) e concentra na figura heroica uma expectativa que nenhuma pessoa, sozinha, pode sustentar. Quando o herói erra, ou quando suas decisões são questionadas, o efeito é duplo: descrença generalizada nas instituições e abertura de espaço para narrativas ainda mais autoritárias, que prometem um “herói” mais eficaz. 

É o caso do coro de críticas de juristas e constitucionalistas (inclusive alinhadas à esquerda política) que apontam excessos de Mores no exercício do cargo. Entre os pontos mais recorrentes estão: a acumulação, nas mãos de um único ministro das funções de investigar, indiciar, decidir medidas cautelares e julgar no mesmo processo (caso do inquérito das “fake news”), o que fragilizaria o contraditório e a ampla defesa; o uso de decisões monocráticas em temas de grande impacto político e social, sem submissão prévia ao colegiado; a determinação de bloqueios de perfis e contas em redes sociais sem debate público amplo sobre os critérios adotados; e a extensão de prazos de sigilo e a abrangência de algumas ordens de busca e apreensão, consideradas por parte da doutrina desproporcionais frente ao princípio da legalidade estrita. 

Para os críticos da postura de Alexandre de Moraes, o problema não é necessariamente o mérito de cada decisão isolada, mas o padrão: um ministro do STF operando com funções que, em uma leitura mais rígida da separação de poderes, caberiam a outras instâncias (polícia, Ministério Público, ou ao colegiado da própria Corte), o que abriria um precedente perigoso independentemente de quem ocupe a cadeira no futuro. 

2026: o roteiro se repete?

A eleição de 2026 traz elementos que, para pesquisadores de comunicação política, lembram esse ciclo histórico, com uma diferença importante: desta vez, o enredo é mais disputado e cruza espectros políticos distintos. Trata-se do caso do Banco Master, de Daniel Vorcaro, considerado o maior rombo financeiro da história do Brasil, pelo volume de recursos desviados por meio de golpes e pelo envolvimento de figuras do mundo empresarial, político e criminal.

Em novembro de 2025, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial do Banco Master, e seu controlador, Daniel Vorcaro, foi preso em meio a investigações da Polícia Federal sobre um esquema bilionário de fraude contra o sistema financeiro, com rombo estimado em dezenas de bilhões de reais ao Fundo Garantidor de Créditos. 

O caso envolve dezenas de nomes da política que mantiveram contato, receberam pagamentos, doações ou negociaram vantagens com o banqueiro, com maior destaque para o candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) ao pleito de 2026. O candidato do PL é suspeito pelo recebimento de centenas de milhões de reais de Vorcaro, atribuídos por ele à produção de um filme em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro, argumento até o momento não comprovado. 

O tema entrou na campanha eleitoral simultaneamente como munição de ataque e como risco para candidatos e para partidos, pois, ao contrário do que o discurso moralista sugere, a proximidade com esquemas de corrupção e de busca de vantagens não é monopólio de um único espectro político. Apesar de a maioria dos nomes citados nas reportagens sobre as investigações da Polícia Federal, sob a guarda do STF, ser relacionada à direita política (senadores, deputados federais, ex-governadores, presidentes de partidos) , há três nomes vinculados à esquerda (ex-ministros e senador).

A crise provocada pelo escândalo do Banco Master, porém, atingiu o próprio STF, quando os próprios ministros que conduziram o inquérito passaram a aparecer nele. Mensagens periciadas no celular de Daniel Vorcaro mostram o nome de Dias Toffoli, relator do caso até fevereiro de 2026, que mencionam possíveis pagamentos cifrados a uma empresa da família do ministro. O processo, então, nesse mês, passou para as mãos de outro ministro do STF, André Mendonça. 

Nesse contexto, o ministro Alexandre Moraes também foi exposto publicamente sob suspeita. Reportagens com o conteúdo das investigações mostraram que o escritório de advocacia da esposa dele, Viviane Barci de Moraes, manteve um contrato de prestação de serviços jurídicos com o Banco Master  no valor total de R$ 131,2 milhões, distribuído em 36 parcelas mensais de cerca de R$ 3,6 milhões entre 2024 e 2027, dos quais R$ 80,2 milhões chegaram a ser efetivamente pagos antes da liquidação do banco, em novembro de 2025. Segundo apuração da Polícia Federal, a partir de metadados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, a versão final da minuta do contrato foi editada por um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, em janeiro de 2024. 

Em nota, o escritório de advocacia confirmou que o ministro teve acesso ao documento, mas afirmou que sua participação se limitou a uma consulta de compliance sobre eventual impedimento legal, que não foi identificado. Não há, até o momento, acusação formal de irregularidade nessa relação: o episódio soma-se ao conjunto de fatos que motivaram o pedido de investigação sobre a conduta de ministros do STF no caso. 

Uma crise se instalou na Corte, em 1º de setembro de 2026, a quase um mês do primeiro turno das eleições, quando o ministro Mendonça determinou a retirada do sigilo de uma petição. Ela expunha mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro apontando um interlocutor, salvo como “Alexandre de Moraes Brasília”. As investigações estão ainda em curso.

Soma-se a este episódio que envolve o ministro André Mendonça, o caso de Fábio Luís Lula da Silva. A Polícia Federal abriu inquérito, autorizado pelo STF, para apurar se o filho mais velho do presidente cometeu tráfico de influência e corrupção ao favorecer uma lobista ligada a um esquema de fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS. A CPMI do INSS chegou a autorizar a quebra de sigilo bancário do investigado, com autorização do ministro André Mendonça e nada encontrou. Porém, o próprio relatório de inteligência da Polícia Federal reconheceu que as referências a Fábio Luís nos documentos das investigações sob relatoria de Mendonça foram feitas “sem lastro probatório”. Segundo a própria PF, ele não figurava entre os alvos de medidas no procedimento, e a reunião de menções ao seu nome, mesmo sem elementos que o vinculassem aos desvios, sugeria uma “orientação investigativa não declarada”. 

A defesa de Fábio Luís Lula da Silva lança mão desse relatório para pedir o arquivamento do caso. O episódio ilustra como investigações em curso, e sem provas admitidas pela própria corporação responsável por apurá-las, já circulam na imprensa, durante a campanha eleitoral, como fato consumado, na mesma lógica observada em ciclos eleitorais anteriores.

O paralelo com 2018 é direto: naquele ano, a uma semana do primeiro turno, o então juiz Sergio Moro quebrou o sigilo de um trecho da delação de Antônio Palocci, colaboração que o próprio Ministério Público Federal havia recusado por falta de indícios. O anexo só voltou a público às vésperas da eleição que elegeu Jair Bolsonaro. Anos depois, o STF determinou que aquele material fosse retirado do processo por falta de base probatória. O que se apresenta em 2026, é a mesma lógica: usar a estrutura de investigação sigilosa não para produzir prova e levá-la ao processo, mas para produzir manchetes na imprensa no momento eleitoral mais sensível possível, deixando o desmentido, que sempre ocorre, para depois da votação.

O desgaste no STF chegou a tal ponto que, neste início de setembro de 2026, a própria Polícia Federal formalizou, no relatório de inteligência citado acima, uma queixa contra o ministro Mendonça por suposto abuso de poder e crime de responsabilidade, apontando tratamento assimétrico entre investigados conforme seu espectro político. O decano da Corte, ministro Gilmar Mendes, chegou a comparar publicamente os métodos do caso Master (prisões preventivas usadas como alavanca para delações, vazamentos de trechos sigilosos) às práticas que, anos mais tarde, levaram à anulação de provas e condenações da própria Lava Jato. Alexandre de Moraes, por sua vez, citou o relatório da PF como exemplo de ações indevidas de Mendonça. O episódio expôs uma disputa interna na cúpula do Judiciário sobre até onde vai o combate à corrupção e onde começa o excesso processual, e evidencia como o desgaste dessas instituições de controle pode se tornar, ele mesmo, matéria de disputa política.

André Mendonça passou a ser apresentado na campanha eleitoral, em especial em comícios e atos públicos alinhados à direita política e em espaços religiosos cristãos (o ministro do STF é pastor presbiteriano e foi indicado por Jair Bolsonaro à Corte, em 2021, com o apelido de o “Terrivelmente Evangélico”), como o mais novo “herói do combate à corrupção”.

Imagem: Boneco inflável que homenageia o ministro do STF André Mendonça, em comício do PL na Avenida Paulista, em 7 de setembro passado. Fonte: Mídias sociais

Cuidado quando “combater a corrupção” é a única pauta

Do ponto de vista da comunicação política, há um sinal de alerta que vale destacar: quando a plataforma de um candidato ou candidata se resume ao combate à corrupção, sem que isso venha acompanhado de propostas concretas para educação, saúde, emprego, segurança pública ou desenvolvimento econômico, é sensato desconfiar. Combater a corrupção é um dever de qualquer gestão pública responsável, não é, por si só, um projeto de país.

A pauta anticorrupção funciona, nesses casos, como um atalho retórico: mobiliza indignação moral, produz inimigos claros e dispensa o trabalho mais difícil de apresentar um plano de governo. Historicamente, como mostram a ditadura militar, Collor e a Lava Jato, os personagens que mais instrumentalizaram essa bandeira para chegar ao poder foram, com frequência, os que menos sustentaram um projeto institucional duradouro e, não raro, acabaram implicados nos mesmos crimes que prometeram exterminar.

Reconhecer esse padrão não significa relativizar a corrupção, nem transformar toda denúncia em suspeita de manipulação eleitoral. Significa exigir, de quem se apresenta como o novo herói da vez, a mesma pergunta que caberia a qualquer outro candidato: além de prometer varrer a sujeira, o que o senhor propõe para o Brasil?

Referências

Resenha Eleitoral — Revista Técnica https://www.tre-sc.jus.br/institucional/escola-judiciaria-eleitoral/resenha-eleitoral/revista-tecnica/4a-edicao-jul-dez-2013/corrupcao-um-mapa-analitico. Acesso 8 set. 2026.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1936.

Jus Brasil. https://www.jusbrasil.com.br/artigos/a-operacao-lava-jato-e-o-atropelamento-do-processo-penal-constitucional/1166995450. Acesso 8 set. 2026.

CONSULTOR JURÍDICO. https://conjur.com.br/2019-jul-29/moro-acordo-delacao-palocci-dificil-provar/. Acesso 8 set. 2026.

UOL

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2015/04/01/conheca-dez-historias-de-corrupcao-durante-a-ditadura-militar.html  Acesso 8 set. 2026.

Bereia

https://coletivobereia.com.br/a-quem-interessa-uma-crise-no-stf-a-30-dias-das-eleicoes/  Acesso 8 set 2026

Agência Pública
https://apublica.org/2026/03/banco-master-a-reconstrucao-completa-de-como-uma-fraude-capturou-a-republica/ Acesso 8 set 2026

Deputado federal evangélico em busca de reeleição viola legislação eleitoral e a Lei de Proteção de Dados

*Publicado originalmente por Quarentena News

O deputado federal e pastor evangélico Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) está usando o banco de dados da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo para fazer propaganda eleitoral. Um impresso de campanha foi enviado pelos Correios para a residência de evangélicos que são doadores de fundos para a igreja. No folheto estão as fotos de Sóstenes Cavalcante e do candidato a deputado estadual evangélico Alexandre Isquierdo, também do PL-RJ, tendo a imagem do presidente da igreja, pastor Silas Malafaia ao centro. A prática viola tanto a legislação eleitoral (Lei das Eleições e resoluções do TSE) quanto a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Quais são as violações praticadas nesta ação de propaganda dos candidatos da Assembleia de Deus Vitória em Cristo? 

1. Proibição de cessão, doação ou venda de mailing/banco de dados (Lei das Eleições, nº 9.504/1997)

O Artigo 57-E da Lei  das Eleições proíbe expressamente a utilização, doação, cessão ou venda de cadastros eletrônicos (e-mails, números de telefone, WhatsApp, etc.) de terceiros para campanhas eleitorais. 

A Resolução TSE nº 23.610/2019 (Art. 31) prevê que candidatos e partidos só podem enviar mensagens eletrônicas para endereços cadastrados direta e voluntariamente pelos próprios eleitores junto à candidatura ou ao partido. É vedado o repasse de cadastros mantidos por pessoas jurídicas, associações ou entidades religiosas. A penalidade prevista é de multa entre R$ 5 mil e R$ 30 mil, que atinge tanto quem cedeu/divulgou quanto o candidato beneficiado (se comprovado prévio conhecimento). 

Imagem: Cartões de campanha de Sóstenes, enviados pelos correios para a casa de pessoas que doaram fundos para a igreja de Silas. Foto: Jorge Antonio Barros

As igrejas e organizações religiosas são pessoas jurídicas de direito privado e entidades de cunho religioso. O Art. 24, inciso VIII, da Lei das Eleições proíbe expressamente que partidos e candidatos recebam, direta ou indiretamente, doação em dinheiro ou estimável em dinheiro de entidades religiosas. Um mailing list (banco de dados) tem valor econômico tangível. Repassar uma lista de fiéis configura doação estimável em dinheiro de fonte vedada, o que enseja a desaprovação de contas eleitorais e multas severas.

2. Violação à LGPD (com desdobramento eleitoral)

Os membros de uma congregação fornecem seus contatos (e-mail, WhatsApp, telefone) exclusivamente para fins eclesiásticos, pastorais ou comunitários. O desvio dessa finalidade para propaganda político-partidária viola frontalmente o consentimento e as bases legais da LGPD (Lei nº 13.709/2018).

A filiação ou adesão a uma igreja específica revela a convicção religiosa do indivíduo, classificada pela LGPD como dado pessoal sensível (art. 5º, II). O tratamento e compartilhamento ilícito de dados religiosos para fins de direcionamento eleitoral agravam a infração.

Se o repasse e a comunicação em massa tiverem escala, gravidade ou forem combinados com a estrutura e a autoridade eclesiástica do templo (desvio de finalidade e instrumentalização da comunidade de fiéis), a Justiça Eleitoral pode enquadrar a conduta como abuso de poder econômico ou abuso de autoridade religiosa/política.

Nesses casos mais graves, as sanções previstas incluem cassação do registro ou do diploma do candidato eleito e declaração de inelegibilidade por 8 anos.

O deputado e suas controvérsias

Em seu terceiro mandato, o deputado federal Sóstenes Cavalcante é um dos líderes da Frente Parlamentar Evangélica na Câmara Federal. Líder do PL na casa, atua na defesa de pautas classificadas como ultraconservadoras, como o projeto de sua autoria que ficou conhecido como PL do Estupro e o obstáculização da emenda constitucional que propõe o  fim da escala de trabalho 6×1

Por outro lado, Cavalcante tem o nome em investigações de esquemas de corrupção de desvio de recursos públicos advindos de cotas parlamentares.  Em dezembro do ano passado, a Polícia Federal apreendeu cerca de R$ 469,7 mil em espécie com Sóstenes Cavalcante durante a Operação Galho Fraco. Os valores estavam escondidos dentro de um armário na residência dele, em sacos de lixo. Na ocasião, o deputado alegou que o dinheiro foi obtido na venda de um imóvel. Ao apresentar a escritura, a data de registro era posterior à da batida policial que encontrou o dinheiro.

Foto: reprodução/O Globo

André Mendonça mobiliza orações e se torna ícone do 7 de setembro bolsonarista

Por Amanda Audi

Após a série de atos que estremeceram o Supremo Tribunal Federal (STF) nesta semana, o ministro André Mendonça foi alçado ao posto de um dos principais ícones dos evangélicos e um pólo de mobilização para a militância bolsonarista nos atos de 7 de Setembro. Pedidos de oração e abaixo-assinados em apoio ao ministro mobilizaram lideranças políticas e religiosas que apoiam o candidato Flávio Bolsonaro nos últimos dias.

Em posts em redes sociais como X e Instagram, Mendonça é colocado como um contraponto ao ministro Alexandre de Moraes e ao governo Lula. Algumas publicações apresentam a disputa como uma escolha entre dois lados: de um, Lula e Moraes; de outro, Mendonça e o combate à corrupção. Há, inclusive, hashtags de apoio ao ministro, como #EuApoioAndréMendonça.

A “igreja evangélica se une em oração” no episódio descrito como “a maior batalha espiritual das últimas décadas”, diz um texto publicado no portal Gospel Mais, que foi replicado em várias outras páginas evangélicas. Um site que coleta assinaturas em apoio ao ministro recebeu mais de 14 mil adesões nas primeiras horas em que esteve no ar.

Pastores e observadores do mundo evangélico relataram à Agência Pública que os pedidos de orações para Mendonça têm sido a forma de adesão mais notável entre grupos cristãos conservadores na véspera de 7 de setembro – o meio costuma ser um dos mais engajados nos atos em apoio ao bolsonarismo.

Foto: Victor Piemonte/STF

O pastor presbiteriano e doutor em Sociologia, Valdinei Fernandes, reparou que não tem visto grandes mobilizações de evangélicos para o ato que deve ocorrer no 7 de setembro em São Paulo – programado para ser o maior do dia, com a presença do candidato Flávio Bolsonaro (PL). “O que tem circulado são pedidos de oração pelo ministro André Mendonça”, disse.

O fato de Mendonça ser evangélico ajudou a criar uma aproximação maior com o público – ele é o ministro “terrivelmente evangélico” escolhido por Jair Bolsonaro durante o seu governo. “Mendonça está quase virando um mártir. A extrema direita coloca a situação como se a esquerda estivesse perseguindo um pastor. Não um ministro do Supremo, mas sim um ministro evangélico”, afirma Sérgio Dusilek, pastor batista e teólogo.

No dia em que os novos detalhes do caso Master vieram à tona, 1º de setembro, a dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano louvou o ministro durante um show em Blumenau, em Santa Catarina. “Vamos pedir uma oração para este homem. Um homem que não tem medo de colocar aquilo que ele crê, aquilo que ele acredita”, disse Luciano, que também relatou que frequenta a Igreja Presbiteriana de Pinheiros, na qual Mendonça é reverendo em São Paulo.

Pastores evangélicos influentes, como o apóstolo Estevam Hernandes, fundador da Igreja Renascer em Cristo e presidente da Marcha para Jesus, e o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, um dos principais mobilizadores de protestos de rua do bolsonarismo, declararam apoio a Mendonça.

“Neste momento, minha oração é para que Deus continue lhe dando sabedoria, coragem e firmeza para cumprir sua missão”, disse Hernandes. Malafaia publicou uma série de vídeos em defesa de Mendonça e com duras críticas a Moraes, discurso que deve ser reproduzido na manifestação programada para a Avenida Paulista, em São Paulo, quando ele prometeu a sua fala “mais dura” contra Moraes.

Políticos bolsonaristas, como os senadores Magno Malta (PL-ES), Marcos Pontes (PL-SP) e Carlos Viana (PSD-MG), também convocaram correntes de oração ao ministro Mendonça. Magno Malta declarou que o magistrado não deve recuar diante de pressões e convocou aliados a fazerem um “clamor de oração” por ele.

Na biblioteca de anúncios do Meta, que congrega conteúdo patrocinado no Instagram e Facebook, há mais de 20 posts impulsionados com pedidos de oração para Mendonça nos últimos dias. A maioria foi paga pelas campanhas de candidatos bolsonaristas.

“Tem um homem em Brasília precisando da oração da igreja hoje”, diz um post de Davi Sacer, cantor gospel e candidato a deputado federal pelo Republicanos por São Paulo, com 1,5 milhão de seguidores. “O ministro André Mendonça está à frente de um dos casos mais importantes do Brasil. (…) Ore com a gente. E compartilha com a sua igreja e o seu grupo de oração: quanto mais gente intercedendo, mais forte essa corrente pelo Brasil.”

Outro post patrocinado é de Marcos Dias, presidente do Podemos no Rio de Janeiro e candidato ao Senado pelo estado. “Diante deste momento decisivo, faço um chamado à oração pelo ministro André Mendonça. Que Deus o proteja, fortaleça seus passos e lhe dê sabedoria para cumprir sua missão”, ele escreveu. Cada uma das publicações tem alcance estimado em mais de 1 milhão de usuários.

O ministro André Mendonça (esq.) tirou o sigilo das conversas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do caso Master e Alexandre de Moraes (dir.)

Crise no Supremo

No dia 1º de setembro, Mendonça tirou o sigilo de um relatório que aponta comunicações entre o banqueiro Daniel Vorcaro, do banco Master, e autoridades, como o ministro Moraes (principal alvo do documento), o procurador-geral Paulo Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

O relatório mostra que o escritório de Viviane Barci, esposa de Moraes, fechou com o Master um contrato de R$ 131 milhões assinado 12 dias depois de um suposto almoço de Moraes numa propriedade de Vorcaro em Campos do Jordão. Os metadados da versão final do arquivo do contrato indicam um usuário com nome de “Ministro Alexandre de Moraes” como o último a editar o documento.

Dois dias depois, Moraes rebateu: usou relatórios da inteligência da Polícia Federal para acusar Mendonça de, “em tese”, ter cometido improbidade administrativa, crimes de responsabilidade e de abuso de autoridade, com “favorecimento a determinados grupos políticos”. A crise aberta no STF escalou tão rapidamente que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), chegou a cogitar abrir processos de impeachment cruzados contra os dois ministros.

Os evangélicos nas eleições de 2026

A esquerda brasileira pode registrar nas eleições de 2026 a maior bancada de parlamentares eleitos que se definem como evangélicos e que estão filiados aos partidos da base do presidente Lula da história. Levantamentos do Le Monde Diplomatique e do UOL apontam que partidos de esquerda e de centro crescem no número de candidatos com potencial de integrar a bancada religiosa, muitos deles divergindo dos recortes de raça dos já famosos evangélicos de direita.

A partir do comportamento parlamentar, é possível concluir que a filiação partidária e a disciplina de bancada exercem, frequentemente, um peso muito maior do que a origem religiosa nas votações. Ou seja, os evangélicos não formam um grande é homogêneo bloco político. Na verdade, votam junto às suas lideranças e mostram que os evangélicos são heterogêneos e estão em constante reconfiguração.

Leia o artigo completo “Os evangélicos nas eleições de 2026”, de Alexandre Brasil, no Le Monde Diplomatique.

A quem interessa uma crise no STF a 30 dias das eleições?

Alguns dias atrás, o ministro André Mendonça solicitou à Polícia Federal um relatório relativo ao inquérito do Banco Master com foco no envolvimento do ministro Alexandre de Morais, do diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues e do Procurador Geral da República, Paulo Gonet. De posse deste relatório, suspendeu o sigilo desta parte do inquérito e tornou-o público. As revelações de mensagens de Daniel Vorcaro dirigidas a Alexandre de Morais provocaram uma forte crise no STF e uma reação na opinião pública. 

André Mendonça colocou sob suspeita autoridades de três instituições fundamentais da República: o Supremo Tribunal Federal (STF), a Procuradoria Geral da República (PGR) e a Polícia Federal (PF). Assim como o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), no seu governo (2019-2022), quis decidir sobre quem poderia ficar na direção da PF, de acordo com seus interesses, o ministro André Mendonça se julga no direito de decidir qual diretor não convém a seus interesses e, portanto, deve ser afastado. Ele se coloca acima da PGR e dos outros membros do STF.

Os primeiros beneficiários da suspeição do ministro Alexandre de Morais são, evidentemente, o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e sua família e todo o espectro bolsonarista. Há tempos, a extrema direita elegeu como alvo principal de seus ataques o STF, mas, sobretudo, este ministro. Seu papel na defesa da democracia durante o processo eleitoral de 2022, quando era presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e, mais adiante, no processo que condenou os responsáveis – inclusive o ex-presidente Bolsonaro e vários generais – pela tentativa de golpe de 2022-2023, o tornou persona non grata para o bolsonarismo. 

Os métodos usados pelo ministro André Mendonça parecem uma reprodução dos métodos da Lava Jato, uma Lava Jato 2.0. Estão ocorrendo vazamentos seletivos para a imprensa, visando colocar suspeição em cima de determinadas pessoas e, ao mesmo tempo, omitir a atuação de outras pessoas.

Um juiz (do STF) se coloca na posição de investigador, tal como, na Lava Jato, um juiz federal exerceu o papel de julgador e ao mesmo tempo o de dirigente da investigação, orientando os procuradores em determinada direção e escondendo outras pessoas envolvidas no processo. Isto denota seletividade de quem pode ser atingido. 

Nas últimas semanas, o mesmo ministro – fazendo jus ao apelido que lhe foi dado quando indicado por Jair Bolsonaro ao STF – “terrivelmente evangélico” André Mendonça, “abriu as portas do inferno”, como afirmaram em off colegas da Corte, com a ajuda da grande imprensa corporativa, nos mesmos moldes da Lava Jato. Ele tem permitido vazamentos que envolvem a família do atual presidente da República e ao mesmo tempo não dá andamento à investigação do pedido de dinheiro ao banqueiro preso por golpe financeiro Daniel Vorcaro (130 milhões de reais) por parte do principal candidato adversário, para o qual há provas, inclusive áudios, admitidos como verdadeiros pelo próprio.

Em suma, a iniciativa do ministro André Mendonça parece uma tentativa de golpe, uma tentativa de interferir no processo eleitoral em favor do candidato da oposição exatamente no mês decisivo da campanha.

É importante registrar que não se pode hesitar diante da urgência de que as instituições da República, nos Três Poderes, investiguem e responsabilizem quem comete ilegalidades no exercício de funções públicas, seja quem for e de onde atue. No entanto, não pode haver qualquer dúvida de que isto precisa ocorrer de forma digna, em tempo justo, e não pode ser usado para interferir nos trâmites democráticos. Isto, em especial, em um processo eleitoral tão relevante, no qual muitos interesses estão em jogo, inclusive de outros países que buscam colocar em xeque a soberania nacional.

Deputado evangélico usou relatório forjado com logo da PF para se defender de suspeitas no caso Master

O deputado federal evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG) compartilhou um documento falso atribuído à Polícia Federal (PF) que alegava não haver indícios de crime em suas conversas com o banqueiro Daniel Vorcado. Uma apuração realizada pela agência de checagem Aos Fatos mostrou que o conteúdo foi manipulado por inteligência artificial e não corresponde ao padrão usado pela corporação policial, que também negou a autoria do suposto relatório.

O parlamentar divulgou o material em seu perfil nas mídias sociais em setembro, após viralização da reportagem da jornalista do ICL Notícias Juliana Dal Piva revelar conteúdo de áudios investigados pela PF. Neles, Nikolas Ferreira, após mediação do pastor da Igreja Batista da Lagoinha André Valadão, contata o banqueiro Daniel Vorcaro para pedir ajuda com a liberação de “um ativo de minério”, referente a negócios de um ex-assessor.

O documento publicado nas redes pelo deputado do PLfoi desmentido tanto pela própria PF quanto por uma checagem técnica realizada pelo Aos Fatos. À agência de checagem, a PF confirmou que não produziu nem o texto nem a imagem que circulavam como se fossem parte de um documento oficial.

O material, criado por IA, intitulado de “Relatório de Análise de Dados” e associado à Operação Compliance Zero, afirmava que as mensagens trocadas entre Nikolas Ferreira e Daniel Vorcaro tratavam apenas de assuntos pessoais e profissionais. Entre eles apenas pedidos de desculpas sobre críticas públicas do deputado ao Banco Master e um pedido de intermediação de procedimento financeiro parau um ex-assessor.

O falso relatório registrava, ainda, que não haveria elementos suficientes para caracterizar crime ou justificar uma investigação específica contra o parlamentar. As publicações que reproduziram esse conteúdo somaram ao menos 500 mil visualizações no X, antigo Twitter.

Uma análise feita por Aos Fatos com a ferramenta de verificação da OpenAI identificou no arquivo a presença do SynthID, uma marca d’água digital usada para sinalizar conteúdos gerados ou editados por inteligência artificial. A própria OpenAI confirmou que esse sinal indica manipulação por meio de suas ferramentas.

Além da tecnologia usada para forjar o documento, uma série de detalhes expôs a fraude: o emblema da PF que consta no material difere do símbolo oficial, com traços e dobras diferentes nas fitas; o acento da palavra “Polícia”, que no emblema original é substituído por um triângulo, aparece de forma incorreta. 

A numeração dos itens pula de 7 para 7.3, sem passar por 7.1 e 7.2, erros de português, como “contato salvado” no lugar de “contato salvo”,  também indicam que o conteúdo não é oficial.

Além disso, o documento traz elementos incomuns em relatórios oficiais da PF, como emojis. As datas também não fecham: o suposto relatório teria sido produzido no mesmo dia da extração dos dados, 18 de novembro de 2025, data que representa apenas um dia após a prisão de Vorcaro.

A ação fraudulenta de Nikolas Ferreira ocorreu como resposta à reportagem do ICL. O deputado produziu um vídeo, pelo qual negou proximidade com o ex-banqueiro, e depois publicou o laudo falso nos stories do seu perfil no Instagram. A assessoria do parlamentar disse ao Aos Fatos que ele não sabia que o material era falso e que apenas reproduziu conteúdo divulgado originalmente por outro perfil.

Neste 4 de setembro, o deputado admitiu ao portal Metrópoles que compartilhou o conteúdo e que a publicação foi removida. 

“Um perfil, Space Liberdade [amplamente conhecido por publicar conteúdo falso e enganoso] postou e eu tinha compartilhado. Assim que ele deletou a minha postagem também sumiu, entendeu?”, afirmou Nikolas Ferreira.

A legislação brasileira prevê pena de dois a seis anos de reclusão, além de multa, para quem falsifica documentos públicos ou faz uso indevido de símbolos de órgãos oficiais. Porém, a responsabilização depende da identificação de quem de fato produziu e divulgou a montagem.

Bereia seguirá acompanhando o caso.

André Valadão admite ter feito articulação entre Nikolas e Vorcaro, mas omite vínculos entre sua igreja e o Master

Em vídeo publicado neste 3 de setembro, o pastor da Igreja Batista da Lagoinha André Valadão confirmou ter atuado como interlocutor entre o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em abril de 2024, como mostram os áudios revelados pela jornalista Juliana Dal Piva, do ICL Notícias. Valadão negou interesse nos negócios, mas omitiu os vínculos entre a própria fintech da Igreja Lagoinha, a Clava Forte Bank, e o Banco Master, hoje sob escrutínio da CPMI do INSS e do Banco Central.

Segundo a reportagem do ICL, no período antes de ser preso, Vorcaro se incomodou com críticas do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicadas nas redes digitais. Depois de monitorar as mídias sociais do político,  o banqueiro pediu ao pastor André Valadão que “parasse Nikolas Ferreira” e questionou o empresário Flávio Carneiro sobre a efetividade de benefícios dados ao deputado.

Em março, Bereia apurou que há uma rede de relações pessoais, familiares e financeiras que conecta investigados do caso Banco Master a pessoas ligadas à Igreja Batista da Lagoinha, sem que isso configurasse evidência de envolvimento institucional da igreja.

As novas informações divulgadas pelo ICL Notícias apontam para uma interferência direta do pastor André Valadão na agenda do deputado evangélico mineiro nas mídias sociais.

O que dizem os áudios

Os áudios mostram que o papel de Valadão foi além de simplesmente aproximar as partes, como alegado em vídeo. No áudio enviado ao pastor André Valadão, em 27 de abril de 2024, Vorcaro se mostrou incomodado com posts de Nikolas Ferreira questionando a presença de ministros do STF, STJ e TSE num evento em Londres que era patrocinado pelo Master. Ao pastor, o banqueiro escreveu: “De novo pedir sua ajuda com Nikolas. Estão usando a fala dele pra me atacar, por conta de patrocínio num evento em Londres. Acontece, que talvez ele não saiba, participaram vários membros da direita, como Ciro Nogueira, um dos líderes oposição.” Valadão respondeu na hora: “Oi Dani. Claro amanhã falo com ele.”

O empresário ainda diferencia o momento das vezes anteriores, em que “eu não sabia, estava sem previsão”, desta, em que o post envolvia “um negócio com o meu nome direto” e cobra de Valadão uma resposta sobre até onde Nikolas pretendia ir

Já o áudio que Nikolas Ferreira enviou a Vorcaro confirma que foi a Valadão, e não ao banqueiro, que recorreu primeiro para se explicar pelo post sobre o evento de Londres: “Troquei uma ideia lá com o pastor André Valadão naquela época lá daquela post. Eu falei: ‘Pastor, eu não fazia ideia que era este o banco do Dani, etc e tudo. Senão obviamente não teria postado, teria conversado anteriormente.'”.

Valadão nega envolvimento e ameaça medidas legais

Em vídeo, o pastor André Valadão respondeu às revelações sobre as conversas com Vorcaro e negou qualquer envolvimento com negócios ou irregularidades do Banco Master.

“A minha participação naquele episódio se restringiu exclusivamente a uma interlocução entre pessoas que eu conheço”, afirmou o pastor, ao comentar as conversas mantidas com o banqueiro em abril de 2024. O pastor disse que ele e Vorcaro “já se conhece[m] há mais de 30 anos, muito antes de quaisquer fatos que hoje estão sendo divulgados”.

Imagem: reprodução/redes sociais

Valadão disse que foi procurado por Vorcaro porque ele tem contato mais próximo com Nikolas Ferreira. O pastor afirma que sua atuação se limitou a sugerir que os dois “conversassem diretamente antes de qualquer nova manifestação sobre o assunto, para que a situação pudesse ser esclarecida entre eles”. Sobre a frase, também revelada em áudio, em que afirmou que “o Nikolas iria contornar tudo”, o pastor da Igreja da Lagoinha disse que se referia exatamente ao fato de que o deputado falaria diretamente com Vorcaro sobre o assunto.

“Não houve qualquer relação da minha parte com negócios, interesses ou atividade do Banco Master”, disse Valadão, acrescentando não ter tido conhecimento de irregularidades posteriormente atribuídas à instituição. 

Segue a declaração de André Valadão na íntegra:

Gente, eu quero trazer uma nota aqui de esclarecimento hoje, dia 3 de setembro, né, diante das informações que estão sendo divulgadas sobre conversas que eu tive em abril de 2024 com o Daniel Vorcaro, relacionadas a uma publicação do deputado Nikolas Ferreira. E eu quero esclarecer pessoalmente com você alguns pontos.

A minha participação naquele episódio se restringiu exclusivamente a uma interlocução entre pessoas que eu conheço. Não houve qualquer relação da minha parte com negócios, interesses ou atividade do Banco Master. Eu e o Daniel a gente já se conhece há mais de 30 anos, muito antes de quaisquer fatos que hoje estão sendo divulgados.

Naquela ocasião, o Daniel me procurou por saber que eu tinha contato mais próximo com o Nikolas. Como as próprias mensagens e áudios mencionados já demonstram aí na mídia, eu simplesmente sugeri que os dois conversassem diretamente antes de qualquer nova manifestação sobre o assunto, para que a situação pudesse ser esclarecida entre eles.

Quando posteriormente afirmei que o Nikolas iria contornar tudo, eu estava me referindo exatamente a isso: ao fato que ele faria diretamente com o Daniel, ele falaria com ele para tratar daquele assunto.

Então eu quero deixar aqui absolutamente claro: essa interlocução não representa, de maneira alguma, qualquer envolvimento meu em negócios, interesses ou atividades do Daniel Vorcaro ou do Banco Master. Não tinha conhecimento, gente, de irregularidades que posteriormente são atribuídas ao banco. Não participei de qualquer prática ilícita e, inclusive, eu repudio de forma inequívoca toda e qualquer conduta dessa natureza.

Eu tenho aqui com você plena consciência das responsabilidades que eu carrego diante da minha família, da igreja que eu lidero e de milhões de pessoas que acompanham o meu trabalho e o meu ministério. Então eu faço aqui questão de tratar esse assunto com você com seriedade, com transparência e tô falando a verdade aqui com você. Eu reafirmo o meu compromisso com essa verdade e com a correta compreensão desses fatos.

E diante de qualquer eventual informação falsa, de afirmação que tente atribuir a mim conduta que eu não pratiquei, eu vou me resguardar com o direito de adotar inclusive medidas legais cabíveis, tá? Essa é a verdade dos fatos e esse é o esclarecimento que eu faço pessoalmente para todos vocês. Deus abençoe!

Lagoinha e Banco Master

Daniel Vorcaro e o cunhado dele, pastor da Igreja Batista da Lagoinha, Fabiano Zettel foram presos, em 4 de março de 2026, pela Polícia Federal em decorrência da Operação Compliance Zero.A operação está associada à apuração mais ampla sobre crimes financeiros e possíveis danos a aposentados, tema que ganhou relevância após o avanço dos trabalhos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

A investigação também apura vínculos entre empresários, intermediários e entidades que teriam se beneficiado de créditos indevidos. Registro em relatório  do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) aponta cerca de R$ 3,9 milhões transferidos pelo Banco Master a uma produtora ligada ao pastor André Valadão, a Amando Vidas Produtora e Gravadora Ltda, que diz não ter conhecimento da operação realizada em 2022. 

Os pastores Fabiano Zettel e André Valadão  foram citados em requerimentos oficiais apresentados à CPMI do INSS, baseados em Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) e informações da Receita Federal.  A senadora evangélica Damares Alves expôs o caso, o que também foi apurado por Bereia.

Em novembro de 2025, Bereia publicou matéria com denúncias da relação entre a Igreja da Lagoinha e o esquema do Master. Elas foram apresentadas pelo deputado federal Rogério Correia (PT-MG) à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do INSS.  Repasses citados nos documentos levantados pelo parlamentar incluem o patrocínio do evento de Réveillon da Lagoinha (“Vira Brasil”), no estádio Allianz Parque (São Paulo-SP), em 2024, pelo ex-presidente da Amar Brasil Clube de Benefícios (ABCB) Felipe Macedo, investigado e apontado como alguém próximo de lideranças da igreja, incluindo André Valadão.  

De acordo com a Agência Senado, o empresário investigado Felipe Macedo Gomes negou ter financiado o evento realizado no estádio Allianz Parque e afirmou que não mantém amizade com Valadão. “Eu não paguei réveillon algum. Sou uma ovelha da igreja. Também é uma falácia me colocar como amigo do Valadão”.

A Amar Brasil é uma das entidades investigadas por fraudes contra o INSS. A organização oferecia taxas associativas ou serviços fictícios por meio de descontos inseridos em benefícios de aposentados e pensionistas sem autorização dos beneficiários. 

Quem é o deputado Cezinha de Madureira, evangélico articulador do encontro secreto entre Vorcaro e André Mendonça 

Mensagens e áudios extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, divulgados pela imprensa neste 2 de setembro de 2026, revelam que o deputado federal e pastor evangélico Cezinha de Madureira (PL), ao lado do advogado baiano Ciro Rocha Soares, passou semanas articulando um encontro em Brasília entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), o pastor presbiteriano André Mendonça e o banqueiro, preso desde março de 2026. A reunião durou cerca de duas horas e não constava na agenda pública do ministro.

Mendonça confirma parcialmente o episódio, ocorrido em 14 de março de 2025,no Instituto Iter, em Jardim Paulista, São Paulo. Ele afirma ter “se limitado a ouvir” Vorcaro e ter tratado apenas de uma ação sobre precatórios, a STP 976. Apesar de ser um encontro entre o juiz da causa e o investigado/réu, Mendonça nega ter discutido os problemas do Master junto ao Banco Central.

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Suspensão de Tutela Provisória (STP) é um processo da Advocacia Geral da União (AGU) encaminhado ao STF para suspensão de decisões que interfiram negativamente em políticas públicas. No caso da STP 976, a AGU demandou do STF a suspensão do pagamento de precatórios (dívidas judiciais do governo) que o Banco Master comprou de terceiros em 2023,  sob suspeita de que parte desses créditos tenha sido emitida de forma irregular. O ministro do STF André Mendonça assumiu a relatoria desse processo específico em fevereiro de 2026, quase um ano depois do encontro reservado com Vorcaro, o maior interessado no pagamento dos precatórios.

A revelação do caso, pelo jornalista Paulo Motoryn, em sua newsletter Noites Húngaras, publicada com exclusividade pelo ICL Notícias, colocou Cezinha de Madureira no centro de uma investigação sensível e levanta algumas questões: por que um deputado federal, liderança da Bancada Evangélica, serviu de ponte entre um banqueiro sob escrutínio regulatório e um ministro da mais alta corte do país, e o que essa capacidade de abrir portas em qualquer esfera de poder revela sobre o personagem que a exerce?

Foto: Marina Ramos/Câmara dos Deputados

Essa não é a primeira vez que Cezinha de Madureira aparece como o homem que conecta personagens políticas em esferas diferentes. Bereia faz um levantamento do perfil do deputado federal e reconstrói a trajetória do radialista baiano que virou “ungido” da maior denominação evangélica do país, a Assembleia de Deus – Ministério Madureira. Também aborda como, décadas depois, ele transita com desenvoltura entre direita, esquerda, bancada evangélica e ministros do Supremo. 

Imagem: Cezinha de Madureira acompanha bispo Samuel Ferreira (Assembleia de Deus Madureira) em visita ao presidente Lula, em outubro de 2025. Reprodução do perfil de Gleisi Hoffmann no Instagram, 16 out 2025.

Imagem: Cezinha de Madureira na garupa durante motociata do ex-presidente Jair Bolsonaro, em 2021. Imagem extraída de matéria da CNN – https://www.cnnbrasil.com.br/politica/bolsonaro-escolhe-lider-religioso-para-garupa-de-moto-de-olho-em-2022/ Acesso em 2 set 2026

O encontro que vazou

Segundo a reportagem de Motoryn, veiculada pelo ICL, a aproximação entre Daniel Vorcaro e André Mendonça foi arquitetada ao longo de semanas no início de 2025, quando o banqueiro estava em vias de ser preso por golpes no sistema financeiro. Em troca de mensagens com Vorcaro, nos dias 7 e 8 de fevereiro, o advogado baiano Ciro Rocha Soares relata que está “trabalhando” por ele e que havia conseguido um encontro com Mendonça. Em seguida, envia uma foto ao lado do ministro do STF numa alfaiataria em São Paulo. Soares diz, ainda, ter deixado Mendonça “balançado” com o assunto do Master. Um novo encontro chegou a ser agendado para 19 de fevereiro, sem confirmação de que tenha ocorrido. 

Em 13 de março, foi a vez do deputado Cezinha de Madureira entrar em ação: marcou um encontro com Mendonça sobre o caso Vorcaro para o dia seguinte, às 17h, no Instituto Iter, ,do próprio ministro do STF. No áudio de posse da Polícia Federal, Ciro Soares relata que o deputado avisa Vorcaro, a caminho da reunião:  “o ministro já está te esperando”. Segundo o advogado, Mendonça já sabia previamente do assunto, pois “o Cezinha já tinha falado com ele” sobre os problemas do Banco Master junto ao Banco Central. Portanto, as mensagens sugerem que Cezinha de Madureira não apenas articulou a logística do encontro, mas também preparou o terreno de conteúdo antes que ele acontecesse.

O encontro de 14 de março durou cerca de duas horas. Na nota oficial em que confirmou o episódio, Mendonça disse ter recebido Vorcaro “uma única vez”, por iniciativa do banqueiro; afirmou que se “limitou a ouvi-lo”, que manteve registro escrito do encontro em seu gabinete, que o assunto se restringiu à ação STP 976 sobre precatórios, então sob relatoria de outro ministro, e que seu voto posterior no caso Master foi contrário aos interesses do banqueiro. 

No dia seguinte ao encontro, o advogado Ciro Soares enviou a Daniel Vorcaro uma foto ao lado do procurador-geral da República Paulo Gonet, com a mensagem “Liga aqui… Ele quer falar com você”, seguida de quatro ligações entre os dois em poucos minutos. Este seria um indício, ainda não plenamente esclarecido publicamente, de que a rede de contatos articulada por Cezinha de Madureira e Ciro Soares pode não ter se limitado ao Judiciário.

Antes da reunião de Vorcaro e Mendonça, na manhã daquele mesmo dia, o ministro do STF participou de um evento no Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) junto com Cezinha de Madureira. A questão Master/Vorcaro não foi tratada no encontro, Mendonça e o deputado do PL compuseram a mesma mesa durante a posse solene do conselheiro Maxwell Borges de Moura Vieira, segundo registro oficial do TCE-SP

A cerimônia ocorreu no Auditório Nobre do tribunal, na capital paulista. Horas depois, segundo os áudios já divulgados, André Mendonça recebeu Vorcaro no Instituto Iter, entidade fundada por ele em 2024, em encontro que durou cerca de duas horas.

A Revista Fórum revelou que a instituição acumulou ao menos R$ 10,8 milhões em contratos com órgãos públicos desde novembro de 2023, dos quais 54, o equivalente a 98,2% do total, foram firmados sem licitação prévia, a maior parte por inexigibilidade.

Após as revelações sobre os contratos firmados sem licitação com órgãos públicos pelo instituto do qual é sócio, o ministro André Mendonça decidiu deixar a entidade, da qual detém, com a esposa, 77,5% de participação. Segundo nota divulgada pelo Iter, ele cederá suas cotas e de sua esposa sem contrapartida financeira e passará a prestar ali apenas serviços acadêmicos, na condição de professor.

Até o fechamento desta apuração, não havia declaração pública de Cezinha de Madureira sobre seu papel no episódio. 

De rádio comunitária ao púlpito político

Antonio Cezar Correia Freire nasceu em 12 de dezembro de 1973 em Ipiaú, na Bahia, e começou a trabalhar no rádio ainda adolescente, na comunicação comunitária baiana. Membro da Assembleia de Deus, aos 18 anos, em 1991, mudou-se para São Paulo, onde construiu carreira como radialista e apresentador de programas religiosos. Apresentou o “Plantão da Vida” (Band e RedeTV!) e o “Palavra de Vida” (Rádio Musical FM) ao lado do pastor Samuel Ferreira, hoje bispo e presidente-executivo da Convenção Nacional das Assembleias de Deus – Ministério de Madureira, denominação presente em quase todo o país e também no exterior. Em 2012, foi ordenado pastor do ministério, em São Paulo.

Foi esse vínculo com a família Ferreira que o lançou à política. Elegeu-se deputado estadual em São Paulo em 2014, pelo Democratas (ex-PFL), ainda como “Pastor Cezinha”. O pseudônimo “de Madureira” só viraria marca política depois, associando seu nome à força eleitoral da vertente das Assembleias de Deus.  

Em 2018 e 2022 Cezinha de Madureira elegeu-se e reelegeu-se deputado federal por São Paulo, agora pelo PSD, tendo sido vice-líder do governo de Jair Bolsonaro na Câmara Federal. Em 2026, filiou-se ao PL para concorrer à reeleição, mudança de legenda que ocorreu, em São Paulo, na mesma leva que incluiu outros pastores do Ministério Madureira, incluindo seu colega de bancada estadual Oséias de Madureira.

Imagem: Reprodução de publicação de Cezinha de Madureira no Instagram, 29 ago 2026

O ungido do bispo

A reportagem “Ungido por chefe de igreja, Cezinha de Madureira dobrou patrimônio na política”, da Folha de S.Paulo (Carlos Petrocilo, 2019), descreve com precisão a natureza dessa relação. O deputado federal  é apresentado como o escolhido do bispo Samuel Ferreira para “alavancar o projeto de poder da igreja” no Legislativo. Venceu, para isso, uma disputa interna com outros pastores-políticos da denominação, entre eles Alex de Madureira.

Samuel Ferreira comanda o Ministério Madureira ao lado do pai, o bispo Manoel Ferreira (presidente vitalício da Convenção Nacional das Assembleias de Deus e bispo-primaz da AD Madureira), e do irmão, o bispo e pastor-presidente da igreja Abner Ferreira. Este núcleo familiar, segundo a mesma reportagem, Cezinha de Madureira trata como sua própria família, inclusive se referindo à Samuel Ferreira como “pai adotivo” e do qual diz depender para dar entrevistas, redigir discursos e propor projetos: “Estou aqui porque a igreja me colocou, foi a igreja que me elegeu. Respondo ao meu povo através do meu líder.”

A reportagem da Folha de S. Paulo também registra que o patrimônio declarado do deputado federal do PL-SP à Justiça Eleitoral saltou de R$ 230 mil, em 2014 (um único imóvel), para R$ 469 mil, em 2018 (dois veículos, aplicações, previdência privada, consórcio e uma casa de R$ 380 mil). Além disso, o nome do parlamentar apareceu, com um valor simbólico de R$ 16, na lista de doações da JBS a 1.829 políticos nas eleições de 2014, repassado via campanha do então colega de chapa Antônio Goulart (PSD-SP). Em 2026, o político declarou um total em bens de R$ 3.104.759,28, mais de 10 vezes o patrimônio inicial. 

Imagem: Reprodução de publicação do perfil de Cezinha de Madureira no Instagram, 21 mai 2026

A guerra pela Frente Parlamentar Evangélica

Cezinha de Madureira presidiu a Frente Parlamentar Evangélica (FPE) em 2021, sob um acordo informal de revezamento fechado, em dezembro de 2020, com o pastor deputado federal Sóstenes Cavalcante (então DEM-RJ, depois PL), afilhado político do pastor Silas Malafaia, presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. O acordo previa a transferência da presidência a Sóstenes Cavalcante em 2022. Entretanto, quando deveria repassar a presidência, Cezinha de Madureira sugeriu que “o que existe hoje é um combinado entre nós”. Com isso, questionou o caráter formal do pacto inicial, enquanto Cavalcante reivindicava um acordo gravado em vídeo e assinado por quatro parlamentares da bancada de Madureira.

A disputa expôs publicamente a rivalidade entre os dois maiores polos do pentecostalismo político brasileiro: de um lado a família Ferreira e seu Ministério da Assembleia de Deus, com Cezinha de Madureira como principal fiador no Congresso; do outro, Silas Malafaia e seu afilhado Sóstenes Cavalcante, com direito a áudio vazado em que o presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo chama Samuel Ferreira de “pseudo líder covarde”.

A transição na FPE só se consumou em 9 de fevereiro de 2022, em sessão marcada por um culto com Santa Ceia, hinos evangélicos e a declaração do deputado federal Silas Câmara  (Republicanos/AM) de que os parlamentares evangélicos eram “a boca de Deus no Parlamento”. Como saída para o impasse, a bancada reduziu o mandato da presidência da FPE de dois para um ano, um desfecho que, na prática, distribuiu o poder entre as duas facções em vez de resolver a disputa por hegemonia.

Imagem: Reprodução de matéria do jornal O Globo, publicada em 17 jan 2022

Articulações pelos poderes

A relação entre o deputado Cezinha de Madureira e o ministro André Mendonça não é de agora. Na ocasião da candidatura do pastor presbiteriano, ex- ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro, ao STF, foi o parlamentar quem levou Mendonça a um evento da Assembleia de Deus Madureira, no Rio, para apresentá-lo à liderança e conquistar o apoio do ministério. O lobby foi bem sucedido: as principais lideranças assembleanas do Ministério Madureira, estiveram ao lado de Mendonça durante a sabatina no Senado. O apoio pressionou por votos para a aprovação de seu nome ao cargo que ocupa até hoje. A votação ocorreu em dezembro de 2021, justamente quando Cezinha de Madureira presidia a Frente Parlamentar Evangélica na Câmara Federal. 

A figura de Cezinha de Madureira como mediador de articulações de poder, se mostrou destacada em 2025, em outra direção. Em 16 de outubro daquele ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu no Palácio do Planalto os bispos Manoel Ferreira e Samuel Ferreira, da Igreja Assembleia de Deus Madureira, em um encontro articulado pelo deputado federal, então do PSD. Cezinha atuou como elo entre o Planalto e as lideranças assembleanas, enquadrando a visita como institucional e não política, segundo ele, a convite do próprio presidente. Também participaram do encontro o evangélico batista, advogado-geral da União, Jorge Messias, e a então ministra das Relações Institucionais Gleisi Hoffmann. O encontro reforçava a busca de aproximação entre o governo e o segmento evangélico. De acordo com o Cezinha de Madureira, o grupo orou com Lula “diante do momento conturbado do país”, num gesto que buscou emprestar ao encontro um tom espiritual e conciliador.

Questionado por jornalistas sobre possíveis tratativas políticas, como a indicação de Messias ao STF ou articulações de alianças para 2026, o deputado federal negou qualquer negociação ou pedido, insistindo no caráter estritamente protocolar da visita. Ao final, os bispos entregaram a Lula uma edição especial da “Bíblia do Culto do Ministro” e um exemplar comemorativo do Centenário de Glória da igreja, gesto simbólico que reforçou o tom de aproximação institucional buscado por Cezinha. 

A repercussão veio principalmente pelas redes depois de Gleisi Hoffmann ter publicado registros do encontro destacando a presença das lideranças religiosas e a oração feita pelo país e pelo presidente. Houve comentários de apoio e de condenação ao papel do deputado, reconhecidamente integrante da oposição.

Imagem: Senadora evangélica Eliziane Gama (PSD/MA) repercute o encontro de Lula com bispos da AD Madureira. Perfil de Eliziane Gama no Instagram, 16 out 2025. 

Imagem: Reprodução de matéria da revista Comunhão, publicada em 24 out 2025

Dias antes de as mensagens sobre o encontro com Vorcaro virem a público, o nome de Cezinha de Madureira já havia circulado por outro motivo. Em 25 de agosto, a Polícia Federal apreendeu R$ 510 mil em espécie na bagagem da advogada e empresária Valéria Rodrigues Linhares, no Aeroporto de Congonhas. Na cobertura do caso, o colunista do Globo Lauro Jardim identificou a mulher como esposa do deputado. Ainformação era incorreta, já que a mulher do deputado é a pedagoga Elis Freire. 

O próprio parlamentar telefonou ao colunista para desmentir a relação; Jardim registrou a ligação na nota, mas manteve a informação errada original no ar. Os sites da Revista Fórum e do Brasil 247, que também haviam reproduzido o erro, retiraram as matérias do ar, (mas ainda aparecem em pesquisas do Google); o ICL Notícias, por sua vez, publicou uma retratação. 

Até o fechamento desta reportagem, a nota do Globo permanecia publicada sem correção, apenas com o registro da ligação do deputado, o que induz ao erro e causa desinformação. Quem apenas lê rapidamente a manchete ou o link inicial continua absorvendo a informação falsa. 

A coluna errou também a data da atualização: Como a nota original foi publicada em 28 de agosto de 2026, a inserção do texto de correção com menção “Atualização no dia 20 de agosto” ficou cronologicamente incoerente (uma data anterior à própria notícia), expondo o descuido e a pressa no momento de publicar a retificação.

Imagem: Reprodução de matéria do jornal O Globo, publicada em 28 Ago 2026. Acesso em 3 set 2026

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A articulação entre o banqueiro preso por golpe financeiro Daniel Vorcaro e o ministro do STF André Mendonça não é caso isolado na trajetória do deputado federal e pastor Cezinha de Madureira. É a mesma habilidade que o levou a ser escolhido pelo bispo Samuel Ferreira para representar a Assembleia de Deus Madureira no Congresso, e que o manteve relevante nas articulações da Frente Parlamentar Evangélica dividida por disputas internas: a de transitar entre esferas de poder que, em tese, não costumam se comunicar.

Nesse mesmo período, o patrimônio declarado do político evangélico saltou de R$ 230 mil, em 2014, para mais de R$ 3,1 milhões hoje. A investigação sobre o encontro com Vorcaro não trata desse crescimento patrimonial, mas o dado ajuda a dimensionar a trajetória de um deputado cuja principal marca, ao longo de três décadas, foi a proximidade com figuras de peso em espaços de poder distintos.

Até o fechamento desta apuração, Cezinha de Madureira não havia se pronunciado sobre seu papel na articulação do encontro. Bereia seguirá acompanhando o caso.

Referências

Blog Noites Húngaras

https://paulomotoryn.substack.com/p/urgente-mensagens-e-audios-ineditos – Acesso em 2 set 26

ICL Notícias
https://iclnoticias.com.br/vaza-mendonca-mensagens-e-audios-ineditos – Acesso em 2 set 26

CNN Brasil

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/mendonca-admite-encontro-com-vorcaro-em-2025-para-tratar-de-precatorios/ – Acesso em 2 set 26

Câmara dos Deputados

https://www.camara.leg.br/deputados/204504?ano=2025 – Acesso em 2 set 26

G1

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/09/02/mendonca-diz-que-recebeu-vorcaro-uma-unica-vez-para-tratar-de-acao-sobre-precatorios-no-stf.ghtml – Acesso em 2 set 26

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/09/01/quem-e-ciro-soares.ghtml – Acesso em 2 set 26

Veja

https://veja.abril.com.br/coluna/radar/deputado-que-orou-com-lula-rebate-critica-de-lider-do-pl-a-messias-no-stf/ – Acesso em 2 set 26

Uol

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/10/19/deputado-aliado-bispo-samuel-ferreira-encontro-lula.htm – Acesso em 2 set 26

Metrópoles

https://www.metropoles.com/sao-paulo/pl-filiacao-evangelicos-ex-kassab-sp – Acesso em 2 set 26

O Globo

https://oglobo.globo.com/politica/briga-pelo-poder-abre-crise-na-bancada-evangelica-no-congresso-1-25356916 – Acesso em 2 set 26

Folha

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/01/ungido-por-chefe-de-igreja-cezinha-de-madureira-dobrou-patrimonio-na-politica.shtml – Acesso em 2 set 26

Congresso em Foco

https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/113023/com-messias-lula-recebe-deputado-e-bispos-evangelicos-no-planalto   Acesso em 2 set 2026

Candidato Renan Santos tem restrições na campanha eleitoral por descumprimento de regras e apela a discurso de censura 

O candidato à Presidência da República Renan Santos (Missão), autodeclarado católico, publicou vídeo nas redes digitais no qual afirma ter sofrido “censura” do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A denúncia aconteceu após decisão do ministro do TSE Dias Toffoli, em 30 de agosto passado, ter decidido pela suspensão de uma parte da campanha eleitoral da chapa de Santos. A medida teve como fundamento o descumprimento de uma regra eleitoral que exige a comunicação prévia à Justiça Eleitoral dos canais digitais utilizados na campanha. 

No entanto, dois dias depois, em 1º de setembro, Toffoli reviu parte das restrições e liberou a propaganda nos canais já registrados, além da participação da chapa em debates e do acesso aos recursos do Fundo Eleitoral. Bereia analisou as declarações de Renan Santos e as decisões do TSE e verificou que é enganosa a afirmação de que a medida aplicada em 31 de agosto representava censura ao candidato. 

O conteúdo publicado 

Após a divulgação da primeira decisão, Renan Santos publicou um vídeo em seus perfis de redes digitais no qual afirmou: “esse aqui é provavelmente o último vídeo que você vai ver nas minhas redes sociais”. Na gravação, classificou a decisão como “ilegal” e “persecutória” e mencionou que a medida teria relação com as manifestações que promoveu contra o ministro Dias Toffoli e com as críticas ao envolvimento de autoridades no caso Banco Master. 

Imagem: Renan Santos faz pronunciamento após ter campanha digital suspensa pelo TSE. Fonte: G1

Em outro trecho, Renan Santos questionou a justificativa apresentada pela Justiça Eleitoral e afirmou que suas redes teriam sido suspensas por causa de um “problema técnico” no registro das candidaturas. O candidato também declarou que estaria impedido de realizar praticamente qualquer atividade de campanha e classificou a medida como censura. A afirmação apresenta de forma incompleta o motivo da decisão judicial.

Imagem: Captura da tela do perfil de Renan Santos no Instagram. Fonte: Instagram

Por conta das declarações do candidato do Missão, muita desinformação passou a ser propagada, não só com afirmação à “censura” a Renan Santos, como com divulgação, inclusive por mídias de notícias, que sua candidatura, na totalidade, havia sido suspensa. 

O que, de fato, aconteceu?

A decisão de Dias Toffoli foi proferida em 30 de agosto pelo ministro Dias Toffoli, relator do registro de candidatura de Renan Santos. Conforme o documento, o Requerimento de Registro de Candidatura (RRC) da chapa foi apresentado à Justiça Eleitoral, em 7 de agosto.

A legislação determina que partidos e candidatos informem à Justiça Eleitoral os endereços eletrônicos de sites, blogs, redes digitais, serviços de mensagens e outras aplicações que serão utilizados para propaganda eleitoral, juntamente com o pedido de registro da candidatura. A obrigação está prevista no artigo 57-B da Lei nº 9.504/1997 e é regulamentada por resoluções do TSE. No caso de Renan Santos, 16 perfis digitais foram informados 12 dias após o pedido de registro de candidatura, somente em 19 de agosto, quando a campanha eleitoral já havia sido iniciada (16 de agosto). 

A regra permite que a Justiça Eleitoral identifique quais perfis integram oficialmente a estrutura digital de cada campanha e fiscalize a divulgação de conteúdos durante as eleições. O objetivo é que os algoritmos das plataformas atuem igualmente para todos os candidatos. As plataformas digitais que utilizam sistemas de recomendação automatizada de conteúdo (a indicação de visualizações que aparece nas telas de cada usuário) são obrigadas a excluir da programação desses algoritmos os perfis oficiais de candidatos e partidos, para que a distribuição automática não favoreça artificialmente qualquer candidatura. 

Perfis já existentes que não tenham sido informados no ato do registro da candidatura podem ser informados depois, mas só devem ser utilizados para campanha 48 horas após o cadastramento perante a Justiça Eleitoral.

Para o ministro do TSE, o atraso na comunicação dos perfis não configurava apenas uma falha formal, mas configurou uma estratégia. De acordo com a decisão, a ausência dessas informações poderia permitir que perfis utilizados para propaganda eleitoral fossem recomendados pelas plataformas antes de sua identificação oficial pela Justiça Eleitoral.

No caso analisado, pelo menos um dos perfis informados fora do prazo tinha cerca de 2,4 milhões de seguidores, publicava conteúdo eleitoral e aparecia em sistemas de recomendação da plataforma. Para o relator, a situação poderia proporcionar vantagem indevida à candidatura em relação às concorrentes que haviam cumprido a obrigação dentro do prazo.

Com base nesse entendimento, Toffoli determinou, em caráter cautelar e até nova decisão no processo, a suspensão da propaganda eleitoral da chapa nos endereços digitais que não haviam sido informados tempestivamente à Justiça Eleitoral. A medida também suspendeu os repasses do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) à chapa e sua participação em debates em rádio, televisão, podcasts e outros meios de comunicação. Neste caso, não houve suspensão da campanha mas de uma parte dela.

Além disso, Renan Santos e o Missão deveriam informar, em 24 horas, a data de criação e o início da utilização de cada perfil para propaganda eleitoral e comunicar a existência de eventuais outros canais digitais utilizados pela campanha.

As restrições, contudo, haviam sido determinadas em caráter cautelar e ficaram sujeitas à revisão após o cumprimento das diligências estabelecidas pelo ministro. Esse processo resultou em um novo desdobramento dois dias depois, em 1º de setembro.

Novo desdobramento: TSE libera campanha digital de Renan Santos

Em 1º de setembro, o ministro do TSE determinou a liberação da propaganda eleitoral da chapa de Renan Santos nos sites, blogs, redes digitais, aplicativos de mensagens e demais endereços de internet já registrados no sistema da Justiça Eleitoral. O ministro também autorizou a participação do candidato em debates, entrevistas e sabatinas e liberou o acesso aos recursos do FEFC e a realização de despesas com valores já transferidos.

A revisão ocorreu após a defesa de Renan Santos recorrer da decisão anterior e depois de parte das determinações do TSE ter sido cumprida. Na nova decisão, Toffoli considerou que a finalidade das providências cautelares havia sido parcialmente atendida e estabeleceu prazo de 72 horas para que o Missão informe quais redes digitais e demais páginas utilizadas pela campanha ainda não foram registradas.

A nova determinação, porém, não afastou o entendimento de que houve descumprimento da legislação eleitoral. Toffoli reiterou a obrigação de informar previamente os canais digitais utilizados na campanha e destacou que os 16 perfis de Renan Santos foram comunicados apenas 12 dias depois do registro da candidatura e foram utilizados no período. Os perfis que permanecerem fora do cadastro continuarão excluídos dos sistemas de recomendação de conteúdo das plataformas.

A liberação da campanha também não representa a aprovação definitiva do registro de candidatura. O processo continua sob análise da Justiça Eleitoral, e o ministro advertiu que o descumprimento das diligências determinadas no processo poderá trazer consequências para a candidatura.

Decisão não foi censura

A decisão do TSE não apresenta como fundamento a retirada de conteúdo por causa das opiniões políticas de Renan Santos, nem determina a suspensão de suas redes por críticas ao TSE, ao ministro Dias Toffoli ou a outras autoridades.

O fundamento apresentado no documento é o descumprimento de regras eleitorais relativas à identificação dos canais digitais usados pela campanha. O próprio ministro afirma que as campanhas eleitorais são orientadas pela liberdade de expressão, mas também devem respeitar a isonomia entre candidaturas e a fiscalização da propaganda eleitoral.

Isso não significou que Renan Santos estivesse impedido de realizar qualquer atividade de campanha. A medida restringia a propaganda eleitoral no ambiente digital nos termos estabelecidos pela decisão, além de suspender o acesso da chapa a recursos do FEFC e sua participação em debates. A decisão inicial não estabelecia uma proibição geral de atos presenciais de campanha, como (des)informado por vários perfis e grupos.

Também não havia, no documento com a decisão, determinação que relacionasse a suspensão dos perfis a críticas feitas por Renan Santos ao ministro Dias Toffoli. A alegação do candidato de que a medida ocorreu como retaliação às manifestações que ele teria proferido anteriormente, não encontra sustentação na decisão do TSE.

***

Bereia classifica como enganosa a afirmação de Renan Santos e de apoiadores de que a decisão do TSE de suspender uma parte da campanha eleitoral do candidato à Presidência pelo Missão representou “censura”. Os documentos analisados não apontam como motivo às restrições suas opiniões ou críticas políticas, mas o descumprimento da regra que determina a comunicação dos canais digitais utilizados pela campanha à Justiça Eleitoral. 

Embora a decisão inicial tenha suspendido a propaganda nos perfis não informados tempestivamente, o acesso ao FEFC e a participação em debates, essas medidas foram posteriormente revistas por Dias Toffoli após o cumprimento parcial das determinações estabelecidas em caráter cautelar. A posterior revisão das medidas não sustenta a alegação de que a decisão inicial tenha sido motivada pelas críticas de Renan Santos ao ministro ou por suas posições políticas.

Bereia alerta leitores e leitoras ao uso da acusação de censura e de restrições à liberdade de expressão por pessoas que reagem ao enquadramento de suas ações a leis existentes no país como discurso apelativo a apoios.

Referências:

TSE – Decisão 

https://static.poder360.com.br/uploads/2026/08/Decisao-14-1.pdf. Acesso em 1 set  2026.

Folha de S.Paulo

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/09/toffoli-recua-e-libera-campanha-eleitoral-de-renan-santos-nas-redes.shtml. Acesso em 1 set  2026.

G1

https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/08/31/por-que-os-candidatos-devem-informar-perfis-de-redes-ao-tse-e-por-que-renan-santos-foi-punido.ghtml. https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/08/31/eu-nao-vou-desistir-eu-vou-lutar-na-justica-diz-renan-santos.ghtml. Acesso em 1 set  2026

Poder 360

https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes-2026/entenda-por-que-renan-santos-foi-punido-pelo-tse/. Acesso em 1 set  2026.

TSE – Resolução nº 23.609

https://www.tse.jus.br/legislacao/compilada/res/2019/resolucao-no-23-609-de-18-de-dezembro-de-2019. Acesso em 1 set  2026

Planalto – Lei nº 9.504

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9504.htm. Acesso em 1 set  2026

Consultor Jurídico

https://conjur.com.br/2026-ago-31/toffoli-suspende-redes-sociais-verba-eleitoral-e-debates-de-renan-santos/. Acesso em 1 set  2026

Candidatos do PL e apoiadores usam Deus em publicação enganosa contra Lula

Um vídeo que circula nas redes digitais mostra um corte (de vídeo que tem abordagem mais ampla) de um trecho do discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante comício em Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro para acusar o candidato à reeleição de  afirmar “não acreditar em Deus”. 

O conteúdo foi compartilhado pela deputada federal Bia Kicis (PL-DF), candidata ao Senado Federal, e pelo candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL). O episódio também repercutiu em diferentes veículos de imprensa, que deram tratamentos distintos ao caso. 

O Bereia verificou o corte dos vídeos  constatou que a alegação é enganosa. 

Imagem: reprodução/redes sociais

O contexto da fala

Em 22 de agosto, o candidato do PT à reeleição para a Presidência da República Lula discursou de comício de campanha no Estádio Moça Bonita, em Bangu (bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro). Durante o discurso, o presidente elogiou o governador interino Ricardo Couto e afirmou que, quando a situação do estado parecia perdida, Deus havia colocado um homem para conduzir o processo. 

Ao comentar o cenário político do estado, Lula declarou: “A gente que não acredita em Deus… a gente tem que lembrar de uma coisa: quando tudo parecia perdido aqui no RJ, Deus nos deu um homem chamado Ricardo Couto”. O trecho difundido nas redes termina exatamente nesse ponto, o que cria a impressão de que o presidente se incluiria entre as pessoas que não acreditam em Deus.

A sequência do discurso, no entanto, revela outro sentido. Lula explicou que Ricardo Couto nunca havia sido filiado a partido político nem disputado uma eleição, e atribuiu sua chegada ao governo a uma intervenção divina. Em seguida, afirmou: “Isso é coisa sagrada, é por isso que eu acredito em Deus, porque Deus faz acontecer, na nossa vida, aquilo que não estava previsto acontecer […] De vez em quando, Deus dá uma demonstração da sua existência pra nós”.  

Assim, poucos segundos após o trecho usado nas publicações (minuto 1:53:15 da gravação), o presidente afirma o oposto do que lhe foi atribuído. A frase “a gente que não acredita em Deus” pode ser lida como um lapso de fala ou recurso retórico do uso de um coletivo (a gente) para se referir a outrem, porque o restante do discurso deixa claro o sentido pretendido. Não há, no trecho completo, elementos que sustentem a alegação de que Lula tenha declarado não acreditar em Deus. 

Repercussão nas redes digitais

A fala descontextualizada repercutiu nas redes digitais e foi compartilhada por políticos de direita, entre eles a deputada federal católica e candidata ao Senado Bia Kicis (PL-DF). Em seu canal oficial no YouTube, Kicis publicou um vídeo de 48 segundos intitulado “Em ato no RJ, Lula deixa escapar que não acredita em Deus…”.

Imagem: Captura de tela do vídeo publicado pela deputada Bia Kicis. Fonte: Youtube

No conteúdo, é exibido o corte com pequena e única frase do discurso de Lula em que o presidente afirma: “a gente que não acredita em Deus”. A mesma passagem é reproduzida duas vezes e, em seguida, o vídeo é interrompido. Na sequência, Bia Kicis comenta a declaração e afirma: “É isso, ele fala com todas as letras: nós que não acreditamos em Deus”.

A deputada prossegue dizendo que a fala não surpreende, pois, para ela, “todo comunista é ateu” e Lula “finge que acredita em Deus”, especialmente durante períodos eleitorais. Kicis também relaciona a suposta falta de crença do presidente a posições políticas que atribui a ele, como ser favorável ao aborto, deixar “o povo na miséria” e apoiar “ditadura” e “tirania”.

Dessa forma, a publicação de Bia Kicis repete o trecho que contém a frase “a gente que não acredita em Deus”, mas interrompe a gravação antes da conclusão da fala, o que impede o público a ter acesso à declaração posterior em que Lula afirma acreditar em Deus. Além disso recorre ao “fantasma do comunismo” para acionar pânico em seguidores,  prática que Bereia já checou.

Além da deputada Bia Kicis, o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) também reproduziu a alegação. Em 23 de agosto, o senador publicou um vídeo em sua página oficial do X, para explicar sua ausência no primeiro debate presidencial da eleição de 2026, realizado pela Band.

Na gravação, Flávio afirmou que deseja participar de debates, mas que gostaria de confrontar quem, conforme ele, “está destruindo o Brasil e piorando a sua vida”. Ao mencionar Lula, declarou que queria debater “com quem não acredita em Deus”.

Em seguida, Flávio associou a afirmação ao seu discurso religioso e afirmou: “quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” – uma promessa que infringe o direito à liberdade de crença garantida pela Constituição do país a todas as religiões e a quem não tem religião. A declaração foi feita um dia após o comício de Lula em Bangu, no qual o presidente pronunciou a frase que passou a circular nas redes de forma descontextualizada. 

Imagem: Captura de tela do vídeo publicado peplo deputado Flávio Bolsonaro. Fonte: X 

Portal gospel repercute

A declaração também repercutiu de diferentes formas em portais de notícias. Parte das publicações deu destaque apenas ao trecho “a gente que não acredita em Deus”, enquanto outras reproduziram a fala considerando a sequência, na qual Lula afirma explicitamente: “é por isso que eu acredito em Deus”. A diferença entre os conteúdos evidencia como a seleção de um trecho específico do discurso pode produzir interpretações distintas sobre a declaração. Os exemplos a seguir mostram como o episódio foi apresentado por diferentes veículos. 


Imagens: Capturas de tela de manchetes dos veículos de imprensa sobre a fala de Lula. 

***

Na checagem das publicações dos políticos do PL em campanha eleitoral, Bereia verificou que a frase destacada “a gente que não acredita em Deus” foi retirada de um discurso mais amplo, em que o presidente da República, em comício por reeleição, usa a expressão apenas como recurso de fala. Na sequência imediata, ele afirma o contrário: que acredita em Deus e associa a chegada de Ricardo Couto ao governo a uma demonstração divina. 

A edição do vídeo compartilhado pela candidata ao Senado Bia Kicis e a leitura reproduzida pelo candidato à Presidência da Republica Flávio Bolsonaro alteraram o sentido original da declaração. Por isso, a alegação de que o presidente afirmou não acreditar em Deus é enganosa. Ela busca captar a atenção e comprometer a imagem do presidente da República com o público religioso, em especial o de identidade cristã. 

Bereia alerta leitoras e leitores a não acolher informação contida em vídeos muito curtos, críticos a quaisquer figuras públicas, que representem um corte, uma edição de falas mais amplas, que não apresentem todo o pensamento exposto por quem se expressa em público.  Tal prática de comunicação é apelo maldoso e deve ser confrontada.

Referências:

CBN. https://cbn.globo.com/coberturas/eleicoes-2026/noticia/2026/08/22/lula-faz-comicio-no-rio-em-primeiro-grande-ato-de-campanha-no-estado.ghtml. Acesso em 25 de ago de 2026.

Youtube. https://www.youtube.com/live/bjyzXayx-E8?si=w-gdq9YMKjPaYHo0&t=6782. Acesso em 25 de ago de 2026.

Câmara. https://camara.sapienslabs.com.br/deputados/204374?utm_source. Acesso em 25 de ago de 2026.

Band. https://www.band.com.br/politica/eleicoes/2026/flavio-bolsonaro-justifica-ausencia-em-debate-e-mira-confronto-com-lula-202608232234. Acesso em 25 de ago de 2026.

Religião e Poder. https://religiaoepoder.org.br/categoria/glossario. Acesso em 25 de ago de 2026.

Eleições 2026: Candidato a suplente usa caracterização de Jesus em foto eleitoral e TRE pede troca da imagem

O candidato a primeiro suplente de senador pelo Democracia Cristã (DC), no Piauí, que é empresário e ator, Dilcon Afonso Santos Carvalho, foi intimado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PI) a substituir a fotografia apresentada no registro de sua candidatura. Na imagem, Carvalho aparece caracterizado como Jesus Cristo, personagem que interpreta há cerca de 35 anos em apresentações da Paixão de Cristo e encenações da Via-Sacra.

A intimação foi expedida em 16 de agosto passado e estabelece prazo de três dias para que o candidato apresentasse uma nova fotografia. Segundo a Justiça Eleitoral, a imagem não atende aos critérios estabelecidos para as fotografias de candidatas e candidatos pela Resolução nº 23.609/2019 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O artigo 27, inciso II, da resolução determina que a fotografia seja recente, colorida, com fundo uniforme e mostre a pessoa candidata de forma frontal, em enquadramento de busto e com trajes adequados para uma fotografia oficial.

A mesma norma assegura a possibilidade de utilização de “indumentária e pintura corporal étnicas ou religiosas”, além de acessórios necessários às pessoas com deficiência. Entretanto, estabelece que são vedados “elementos cênicos e outros adornos”, especialmente aqueles que tenham conotação de propaganda eleitoral ou que possam induzir ou dificultar o reconhecimento da pessoa candidata pelo eleitorado.

É nesse ponto que está a controvérsia envolvendo a fotografia de Dilcon Carvalho. Na imagem apresentada à Justiça Eleitoral, ele aparece caracterizado como Jesus, incluindo a coroa associada à representação do personagem.

Dionísio compara caso com foto de Lula

A candidatura de Dilcon Carvalho integra a chapa ao senado encabeçada por Dionísio Carvalho, também do Democracia Cristã. Após a intimação, o candidato a senador  publicou um vídeo nas redes sociais em que questiona a decisão do TRE-PI e compara a situação com a fotografia utilizada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em sua candidatura, na qual o político aparece usando chapéu.

“E se o Lula pode usar o chapéu na urna, por que que a coroa de Jesus não pode?”, questiona o candidato no vídeo.

O candidato ressalva que não pretende fazer uma crítica a Lula e afirma utilizar a imagem do presidente apenas como exemplo de um candidato que aparece na urna com um acessório associado à sua imagem pública. “Não estou falando mal do Lula, estou usando como uma representação”, afirma.

Imagem: reprodução/Instagram

A norma do TSE estabelece regras gerais para as fotografias eleitorais e, ao mesmo tempo em que permite elementos relacionados à identidade étnica ou religiosa, proíbe elementos cênicos e outros adornos que possam dificultar o reconhecimento da pessoa candidata. No caso do candidato a suplente de senador Dilcon Carvalho, a questão submetida à Justiça Eleitoral tem relação com a caracterização utilizada na fotografia, que continha também uma coroa de espinhos junto de outros adornos. Foi avaliado se a forma como o candidato se apresenta se enquadra nas exceções previstas pela resolução do TSE ou se constituiria elemento cênico incompatível com os critérios estabelecidos para a imagem eleitoral. Portanto, não diz respeito a censura à expressão religiosa do candidato.

O TRE-PI concedeu três dias para que Dilcon Carvalho apresente uma nova fotografia. O descumprimento da determinação poderá resultar em consequências para o registro da candidatura, conforme as regras aplicáveis ao processo eleitoral.

Bereia Explica: O que é soberania e por que ela é tema de destaque nas eleições 2026?

A campanha eleitoral começou oficialmente neste 16 de agosto. Agora, candidatas e candidatos podem realizar propaganda eleitoral nas ruas e na internet. Com a aproximação das eleições, temas e pautas relacionados à vida no país e às relações do  Brasil com outras nações ganham espaço no debate público. Entre eles está a soberania. Este tema não apareceu em outros processos eleitorais recentes, por que se tornou uma discussão central, inserida nos comícios dos principais candidatos já no primeiro dia de campanha.

O Bereia Explica busca responder esta pergunta mas antes, importa informar o que significa a soberania na agenda de um país e como ela se relaciona à soberania popular.

O que significa soberania quando se discute governança?

A palavra soberania está relacionada às ideias de poder, autonomia e autoridade. No caso de um país, significa a capacidade de seus poderes organizarem sua estrutura política e jurídica, tomarem decisões sobre seu território e definirem suas próprias políticas sem estar subordinado ou sofrer interferência de outro país ou nação. No Brasil, que é uma República, os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário devem atuar por um país soberano.

Isso não significa que estes poderes tenham poder absoluto. O exercício da soberania deve respeitar a Constituição Federal, as leis e os compromissos internacionais assumidos pelo próprio país nas suas relações externas. A soberania também possui uma dimensão interna. Em uma democracia, o poder político tem como centro o povo. É o que a Constituição brasileira define como soberania  popular.

Soberania popular: o poder vem do povo

A Constituição Federal estabelece, em seu artigo 1º, que “todo o poder emana do povo”. Na prática, isso significa que o poder político não pertence, por natureza, a uma pessoa, a um partido ou a um grupo específico. A população exerce esse poder de forma direta ou por meio de representantes escolhidos nas eleições para atuarem nos poderes Executivo (governos federal, estaduais e municipais) e Legislativo (Parlamentos nacional, estaduais e municipais).  

O artigo 14 da Constituição do Brasil determina que a soberania popular é exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos. Esse princípio está na base da democracia brasileira: cada eleitor/eleitora possui o mesmo peso na escolha de seus representantes.

As eleições são uma das principais formas de exercício da soberania popular. Por meio do voto, os cidadãos e cidadãs escolhem quem terá a responsabilidade de exercer cargos públicos e tomar decisões em nome da população.

O voto não entrega um poder pessoal a candidatos. A vitória nas urnas confere legitimidade para o exercício de um mandato público, dentro das regras previstas pela Constituição e pelas leis eleitorais. Após as eleições, governantes eleitos não representam apenas quem votou nele/nela. O mandato é público e deve atender às necessidades e aos direitos do conjunto da população.

Por que o tema soberania entrou na campanha eleitoral em 2026?

A soberania ganhou espaço no debate eleitoral brasileiro em razão de uma conjuntura internacional que passou a se relacionar diretamente com questões políticas internas do país. Em 2025, o Brasil passou a ser alvo de ações dos Estados Unidos que colocaram em xeque a soberania nacional. O regime do presidente Donald Trump determinou altas tarifas sobre produtos brasileiros e associou as medidas ao trabalho feito no Brasil contra crimes nas plataformas digitais, ao processo judicial que condenou e prendeu o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado e ao sistema PIX. Na avaliação estadunidense, as políticas governamentais e decisões econômicas e judiciais brasileiras ameaçariam a segurança nacional, a política externa e a economia dos Estados Unidos. Naquele momento, especialistas já avaliavam que tais ações poderiam atingir a soberania brasileira. 

Em abril de 2025, o secretário de Defesa dos EUA Pete Hegseth afirmou, em entrevista à Fox News, que o governo americano pretendia conter a expansão da China na América Latina, após acusar a gestão Barack Obama de perder influência econômica e cultural na América do Sul e Central.

“Vamos investir no que favorece os interesses americanos no nosso ‘quintal’, à medida que interrompemos a influência chinesa lá”, disse Hegseth à Fox.

No mesmo período, o governo Trump aplicou sanções ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. As medidas foram posteriormente retiradas, em dezembro de 2025, mas o episódio estabeleceu um novo elemento na relação entre os dois países: decisões tomadas por instituições brasileiras se tornaram alvo de uma disputa diplomática a partir de Washington.

O tema ganhou ainda mais peso neste ano de 2026, com eleições para a Presidência da República e para o Congresso Nacional. As tensões impostas pelo governo estadunidense passaram a envolver, além das tarifas e das questões relacionadas ao STF, o debate sobre segurança pública. Em maio, os Estados Unidos designaram o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. A medida gerou reação no Brasil e abriu uma discussão sobre os limites da atuação de um governo estrangeiro diante de questões de segurança pública dentro do território nacional.

A classificação também entrou no debate eleitoral. Antes da decisão, a possibilidade de designação das duas facções como narcoterroristas já era discutida pelo governo Trump e o tema ganhou pressão por aliados do atual candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). Críticos desta candidatura acusam a família Bolsonaro e seguidores de instigarem o governo dos Estados Unidos contra  a soberania brasileira. 

O governo brasileiro contestou a possibilidade de ações extraterritoriais dos Estados Unidos. Em julho, o Ministério das Relações Exteriores informou ao Congresso Nacional que a classificação das facções como narcoterroristas poderia abrir espaço para medidas estadunidenses contra as instituições do Estado brasileiro. O Itamarary afirmou existir possibilidade de uso de força militar dos Estados Unidos em território brasileiro.

Ao mesmo tempo, a questão econômica permaneceu no centro da relação bilateral. Neste ano, o governo Trump voltou a impor tarifas sobre produtos brasileiros, em meio às negociações e às disputas políticas entre os dois países. Em agosto, o governo brasileiro iniciou um processo que pode levar à adoção de medidas de reciprocidade contra os Estados Unidos.

Em 11 de agosto passado, um vídeo publicado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos sobre ‘domínio’ no Hemisfério Ocidental voltou a colocar em evidência a Doutrina Monroe, base histórica da política externa americana de submissão da América Latina, desde o século 10.

Imagem: reprodução/X

No vídeo publicado na plataforma X o governo Trump afirma que a ‘dominância americana’ na região ‘nunca mais será questionada’. Por meio desta ideologia política, ditaduras no continente, como a do Brasil (1964-1985) foram apoiadas e sustentadas pelos Estados Unidos. O vídeo foi divulgado um dia após a China pedir para participar das consultas abertas pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.

É nesse contexto que a defesa da soberania passou a ocupar um espaço mais evidente na campanha eleitoral. O conceito deixou de aparecer apenas em debates sobre relações internacionais ou defesa nacional e passou a se relacionar diretamente com questões que fazem parte da disputa política brasileira: o processo judicial contra Bolsonaro, a atuação do STF, as relações comerciais com os Estados Unidos, as políticas de segurança pública e as eleições de 2026.

A discussão também envolve a influência de governos estrangeiros sobre decisões internas do Brasil. Assim, as medidas adotadas pelo governo de Trump passaram a ser relacionadas ao cenário eleitoral brasileiro, especialmente por seus efeitos sobre questões políticas e institucionais do país. É importante, porém, distinguir a interpretação sobre possíveis impactos eleitorais dos fatos objetivos, como as tarifas impostas ao Brasil, as sanções contra autoridades brasileiras e as medidas relacionadas às organizações criminosas.

O debate, portanto, não se resume a uma disputa comercial entre dois países. As medidas adotadas por Washington passaram a tocar assuntos que pertencem ao funcionamento interno do Estado brasileiro. É justamente essa aproximação entre pressões externas, decisões nacionais e disputa eleitoral que colocou a soberania no centro do debate de 2026.

Desta forma, as eleições ganham importância porque definem quem terá a responsabilidade de conduzir o Estado e tomar decisões que afetam a população. Por isso, a soberania passou a aparecer em propostas e discursos de candidatos, com o levantamento de suspeitas sobre os interesses dos Estados Unidos nas pressões aplicadas, em torno de questões como recursos naturais, energia, tecnologia, economia, defesa do território.

Soberania nos primeiros discursos da campanha 

Durante os primeiros atos da campanha eleitoral desta ano, o presidente da República Luís  Inácio Lula da Silva (PT), em.busca de reeleição, associou a soberania nacional à proteção dos recursos naturais brasileiros. Ele defende que o país tenha autonomia sobre a exploração de terras raras. 

Imagem: reprodução/Youtube

Já Flávio Bolsonaro (PL) relacionou  a soberania à pauta da segurança pública e ao controle de áreas dominadas por organizações criminosas. Embora os temas possam se relacionar, soberania e segurança pública não são sinônimos: a primeira diz respeito à autonomia do Estado e à autoridade sobre seu território, enquanto a segunda envolve a proteção da população, que é responsabilidade direta dos governos estaduais.

Imagem: reprodução/Youtube

Os exemplos mostram que a palavra pode assumir diferentes sentidos no debate eleitoral. Por isso, ao se ouvir propostas sobre “defesa” ou “recuperação” da soberania, é importante observar o contexto, o problema abordado e as medidas apresentadas. O significado do termo não muda conforme o discurso político; o que muda é a forma como cada candidato o utiliza para defender suas propostas e apresentar sua visão sobre os problemas do país. 

Referências:

Constituição Federal de 1988. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em 18 de ago de 2026.

G1. https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/08/16/campanha-eleitoral-comeca-neste-domingo-entenda-o-que-muda.ghtml. Acesso em 18 de ago de 2026.

Tribunal Superior Eleitoral. https://www.tse.jus.br/institucional/escola-judiciaria-eleitoral/publicacoes/revistas-da-eje/artigos/revista-eletronica-eje-n.-1-ano-5/ilegitimidade-do-comite-financeiro-para-interpor-recurso-eleitoral. Acesso em 18 de ago de 2026.

Agência Pública. https://apublica.org/2026/08/lancamento-das-campanhas-de-lula-e-flavio-o-que-voce-nao-viu/. Acesso em 18 de ago de 2026.

Jus Brasil. https://www.jusbrasil.com.br/artigos/o-que-e-soberania-no-sentido-politico-juridico/4260794965. Acesso em 18 de ago de 2026.

BBC News Brasil. https://www.bbc.com/portuguese/articles/clyjj0ykp55o. Acesso em 18 de ago de 2026.

https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/a-nova-ameaca-de-trump-contra-o-brasil/.  Acesso em 18 de ago de 2026.

https://apublica.org/2026/08/os-eua-ja-estao-interferindo-nas-eleicoes-brasileiras/.  Acesso em 18 de ago de 2026.

The Conversation. . https://theconversation.com/quando-a-soberania-de-um-pais-vira-barganha-as-pressoes-hemisfericas-na-era-trump-2-0-262476.  Acesso em 18 de ago de 2026.

Congresso em foco. https://www.congressoemfoco.com.br/coluna/110576/soberania-nao-se-negocia-nao-se-vende-e-nem-se-renuncia.  Acesso em 18 de ago de 2026.

Monitor Mercantil. https://monitormercantil.com.br/diante-da-ameaca-dos-eua-defender-a-soberania-e-a-unica-opcao-digna-para-o-povo-brasileiro/.  Acesso em 18 de ago de 2026.

Intercept Brasil. https://www.intercept.com.br/2026/08/10/trump-e-rubio-ameacam-soberania-do-brasil/.  Acesso em 18 de ago de 2026.

Relações exteriores. https://relacoesexteriores.com.br/eua-receita-soberania-brasileira-risco/.  Acesso em 18 de ago de 2026.

Jornal da Usp. https://jornal.usp.br/radio-usp/ameacas-de-trump-atacam-soberania-nacional/.  Acesso em 18 de ago de 2026.

Publica. https://apublica.org/2026/08/os-eua-ja-estao-interferindo-nas-eleicoes-brasileiras/. Acesso em 18 de ago de 2026.

Outras Palavras. https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/a-nova-ameaca-de-trump-contra-o-brasil/. Acesso em 18 de ago de 2026.

Eleições 2026: o curioso processo de voltas e reviravoltas na candidatura do senador católico Cleitinho ao governo de Minas Gerais

Com a colaboração de Ana Clara Bento 

A tentativa de candidatura do senador católico Cleiton Gontijo de Azevedo, conhecido na política como Cleitinho (Republicanos-MG), para o governo de Minas Gerais,  passou por várias reviravoltas nos últimos meses. As muitas matérias jornalísticas sobre o caso e as postagens do senador nas redes chegaram a confundir quem acompanha o noticiário.

Bereia checou os acontecimentos que se sucederam e as possíveis motivações do que passou por anúncios de desistência e de disponibilidade para a disputa, veto do partido Republicanos, reafirmação da candidatura e anúncio oficial do nome do senador.

As muitas voltas e reviravoltas

Lançado como pré-candidato ao governo de Minas Gerais em março deste ano, Cleitinho alternou entre declarações de que disputaria a eleição com anúncios de desistência. Em junho passado, em discurso no Senado, Cleitinho negou que desistiria da corrida eleitoral. Na ocasião, ele afirmou que a candidatura estaria condicionada à “vontade de Deus” e ao fato de estar liderando as pesquisas de intenção de voto. Desde que o nome de Cleitinho foi testado em pesquisas de voto para governador de Minas, os números registraram entre 34% a 36% da preferência no primeiro turno, com vitória em todos os cenários de segundo turno simulados contra adversários locais, entre eles Alexandre Kalil (PDT), Patrus Ananias (PT) e Marcelo Aro (PP).

Em 5 de julho, o presidente do diretório estadual do Republicanos, deputado federal Euclydes Pettersen, declarou que a candidatura do senador estava confirmada. No entanto, a partir de meados daquele mês, ocorreu uma sequência de episódios que cercaram o anúncio da candidatura com uma grande confusão. A definição do nome do partido para os cargos majoritários deveria ter acontecido até 5 de agosto, prazo final para as convenções dos partidos de acordo com o calendário da Justiça Eleitoral, que dá até o dia 15 de agosto para que as candidaturas sejam registradas.

18 de julho – Tragédia familiar: falece o irmão mais novo do senador Cleitinho, Matheus Azevedo, vítima de complicações de leucemia. O fato abalou o senador e provocou uma postura de indecisão relacionada ao luto.
25 de julho – Ausência na convenção estadual: Cleitinho não compareceu à convenção estadual dos Republicanos, em Belo Horizonte. O partido lançou deputados, mas deixou as vagas majoritárias em aberto, gerando um vácuo político e impasses internos.

28 de julho – vídeo com Inteligência Artificial: após rumores de bastidores de que iria desistir, Cleitinho publicou um vídeo gerado por IA simulando uma conversa com seu pai, falecido em 2024, e com o irmão morto dias antes. Na gravação, eles o incentivaram a “ir em frente”, sinalizando que ele manteria a disputa. Na legenda da publicação nas redes o senador escreveu: “Seguirei na missão”. 

Imagem: trecho do vídeo publicado nas redes pelo senador Cleitinho em 28 de julho, em que ele afirma receber do pai e do irmão falecidos a missão de disputar o governo de Minas Gerais

29 de julho – Em nota oficial, o diretório nacional do Republicanos anuncia que Cleitinho não seria mais o candidato do partido. Logo após o anúncio, em entrevista à GloboNews, o presidente do Republicanos, deputado federal Marcos Pereira (SP) confirmou a desistência do senador. Porém, minutos depois, a  assessoria do senador publicou uma nota afirmando que a candidatura dele ao governo de Minas Gerais estava confirmada. No mesmo dia houve um convite à imprensa para uma coletiva em uma praça em Divinópolis-MG. No evento, Cleitinho ressalta a liderança nas intenções de voto, “Não é só eu que quero ser candidato não, tem quase 50% da população mineira que quer que eu seja candidato a governador, e as pesquisas mostram isso”. O senador negou participação em suposta reunião entre partidos onde ele teria aceitado desistir da candidatura “É mentira. Eu sou candidato”, afirmou o senador. 

3 de agosto – novo anúncio de desistência: após reunião em Brasília, Cleitinho gravou um vídeo chorando ao lado de representantes da cúpula do partido. Ele anunciou oficialmente sua renúncia à candidatura e, em lágrimas, afirmou não ter condições emocionais para enfrentar a campanha devido ao luto e que precisa cuidar de si e de sua família.

4 de agosto Convenção Nacional dos Republicanos, em Brasília, com nova declaração do senador Cleitinho. Ele pediu a palavra na reunião e, de surpresa, clamou publicamente pela ocupação da vaga para a disputa ao governo de Minas Gerais.  Na nova tentativa, Cleitinho disse que o Republicanos não se decepcionaria com ele e que Deus teria enviado uma mensagem, por meio do Espírito Santo, para que fosse candidato. O presidente da sigla Marcos Pereira negou o pedido de forma imediata e dura, alegando que a fase deliberativa havia sido encerrada e criticou a instabilidade e a falta de foco do senador.

4 de agosto – em vídeo intitulado “Tudo sobre a candidatura de Cleitinho: a verdade que você precisa saber”, publicado no canal no YouTube do partido Republicanos, durante a Convenção Nacional do Republicanos, o presidente nacional do partido, o deputado federal Marcos Pereira, comentou a decisão do senador Cleitinho de retomar a intenção de disputar o Governo de Minas Gerais. Ele recordou o vídeo do dia anterior em que o senador Cleitinho anunciou, ao seu lado, que não disputaria mais o cargo de governador. Pereira afirmou que o Republicanos concedeu todos os prazos necessários para a definição da candidatura e ressaltou que um partido com responsabilidade institucional precisa agir com previsibilidade e estabilidade na condução de um projeto eleitoral. “O senador Cleitinho ora dizia que era candidato, ora dizia que não era candidato. Nunca assumiu o papel de liderança de uma candidatura. (…) Eu seria irresponsável com o povo de Minas, em colocar Minas nas mãos de uma pessoa que ora pensa uma coisa e, cinco minutos depois, pensa outra”, afirmou o deputado presidente do partido.

Imagem: Trecho da gravação do pronunciamento do deputado Federal Marcos Pereira Convenção do Partido Republicanos, Youtube, 4 ago 2026.

7 de agosto de 2026 – O senador Cleitinho Azevedo anunciou, mais uma vez, que será candidato ao governo de Minas Gerais nas eleições de 2026. A declaração foi feita durante uma nova coletiva na Praça do Santuário, em Divinópolis (MG). O G1 apurou que horas antes, o presidente estadual do Republicanos, o deputado federal Euclydes Pettersen, havia ido a São Paulo pedir ao presidente nacional do partido que liberasse a candidatura. Em ligação de vídeo com o presidente do partido Marcos Pereira, Cleitinho agradeceu pela candidatura: “Presidente, quero agradecer por ter confiado em mim. Estou passando um momento difícil, mas o soldado vai ferido para a guerra, pois eu sei que terei milhões de soldados me defendendo em Minas Gerais”.

Minutos após a coletiva de Cleitinho, o partido Republicanos publicou nota confirmando a candidatura do senador ao governo de Minas Gerais.

A decisão foi tomada após o senador reconhecer os equívocos cometidos durante o processo, apresentar formalmente suas desculpas à direção nacional e estadual do partido, à população mineira e às forças políticas envolvidas na construção eleitoral, além de assumir o compromisso definitivo de levar sua candidatura até o fim. ”

Quem é Cleitinho Azevedo

Cleiton Gontijo de Azevedo, com nome de urna Cleitinho Azevedo, nasceu em Divinópolis, cidade do Centro-Oeste de Minas Gerais, e construiu sua trajetória pública como comerciante no sacolão de verduras da família e músico. Católico, com ampla ocupação nas mídias sociais, foi eleito  vereador, em 2016, em sua cidade natal, e deputado estadual, em 2018, com 115 mil votos, tendo disputado os dois pleitos pelo PPS/Cidadania. 

Nas eleições de 2022, já filiado ao Partido Social Cristão (PSC), foi eleito senador por Minas Gerais com 4.268.193 votos, tendo construído sua popularidade sobretudo por vídeos que viralizaram nas mídias sociais com críticas aos privilégios dos políticos. No final de 2022, mesmo antes de tomar posse como senador, filiou-se ao Republicanos e, em 2026, lidera as pesquisas de intenção de voto para o governo de Minas Gerais. Sobre a inserção na política, declarou em entrevista ao jornal O Globo, em julho passado:

“Entrei na política para aparecer, não sou hipócrita. Nunca nem tive título de eleitor, só queria ser famoso — afirma, para depois realmente dizer o seu sonho que nada tem a ver com o comando do Palácio da Liberdade. — Na verdade, queria ser comentarista de futebol ou apresentador de TV igual ao Ratinho. Se um dia tiver uma proposta, largo essa merda aqui”.

No Senado, Cleitinho consolidou o estilo que o tornou conhecido como alinhado da direita extremista no Congresso Nacional:  forte presença digital, discurso “antissistema” e mobilização de pautas ultraconservadoras com linguagem religiosa. Na Comissão Parlamentar de Inquérito das Bets, ao interrogar uma suspeita de ganhos ilegais, a influenciadora Virgínia Fonseca, fez um apelo à moral cristã: “Eu queria falar para você, se tocar seu coração, como cristão: você não precisa mais disso. Acaba com isso”. Depois, posou com a influenciadora, que também é católica, para uma selfie.

Em entrevista ao jornal O Globo, em julho passado, Cleitinho, chamou o bispo Edir Macedo de “falso profeta”, o que gerou tensão com a cúpula de seu próprio partido, que é conduzido pela Igreja Universal do Reino de Deus. “[O presidente do partido Marcos Pereira] garante que me dará a legenda para me candidatar, mas não confio 100%. Não sou amigo dele, tenho nojo de qualquer coisa que envolva partido do bispo Edir Macedo, falso profeta, nem quero me aproximar”, declarou ao jornalista Thiago Prado.

O Bereia checou várias publicações com mentiras e enganos produzidas pelo senador para as mídias sociais. Entre elas, em outubro de 2022, já eleito, Cleitinho divulgou um vídeo falso que atrelava o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao satanismo, para convocar eleitores ao segundo turno em apoio a Jair Bolsonaro (PL). Em maio de 2024, o senador compartilhou um vídeo originalmente publicado por Pablo Marçal afirmando que a Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Sul estaria impedindo a entrada de caminhões com doações às vítimas das enchentes, o que era falso. Na ocasião, o governo federal acionou a Polícia Federal diante do conjunto de desinformações que atrapalhavam as operações de salvamento. Em janeiro de 2025, Cleitinho publicou conteúdo enganoso, em tom alarmista, sobre “a Receita Federal tomar conta dos gastos do seu cartão de crédito e Pix” da população, distorcendo a aplicação de uma norma tributária de rotina. O senador também publicou várias falsidades sobre vacinas, como o Bereia checou. O padrão é consistente: conteúdos que exploram o medo e atacam o atual governo federal e circulam com forte apelo entre o público religioso nas redes digitais.

Bastidores das reviravoltas

Analistas políticos observam os bastidores das reviravoltas da candidatura de Cleitinho ao governo de Minas Gerais, e atribuem as controvérsias a uma trama política articulada entre o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, que se filiou ao Republicanos em Minas Gerais, e será candidato a deputado federal, e o ex-secretário da Casa Civil de Romeu Zema, Marcelo Aro (PP). Aro, conhecido como “o Eduardo Cunha nascido em Minas”, por sua forma ousada de atuar na política, tem a intenção de disputar o governo daquele estado com apoio do partido de Cleitinho e da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). 

Outro fato de bastidores é que Cleitinho é o principal nome da direita mineira para governador e as reviravoltas dos últimos meses afetam a campanha eleitoral do também senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL). Minas Gerais é o segundo maior colégio eleitoral do Brasil, com 16 milhões de votantes, e é considerado, historicamente, um reflexo eleitoral do Brasil inteiro por conta da pluralidade no perfil dos eleitores. Desde 1989, quem ganha em Minas, ganha as eleições.

Com a insegurança em torno da candidatura de Cleitinho, o PL teria avaliado apoiar Marcelo Aro (PP). Porém, em 6 de agosto, o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, anunciou, em uma transmissão ao vivo ao lado do candidato a presidente, a retirada do apoio de seu partido a Cleitinho. Marinho informou que o PL teria candidato próprio, o empresário e presidente licenciado da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais Flávio Roscoe (PL). 

Na gravação, o senador Marinho disse que o partido teve “uma aproximação muito grande com o Cleitinho” e que havia “se colocado à disposição para apoiá-lo” mas que com essas “idas e vindas” o Partido Liberal ficou “fragilizado” e não poderia ficar sem um candidato no estado. Ao seu lado, Flávio Bolsonaro afirmou que estava no aguardo da definição de Cleitinho há mais 120 dias, mas devido a instabilidade da situação, decidiu, com a bancada do PL em Minas Gerais, lançar Roscoe. “É um dos nossos. Faz política com coração de verdade”, disse o candidato à presidência ao citar Cleitinho. 

O noticiário político informa que Marcelo Aro concorrerá ao Senado e, com a nova declaração oficial do lançamento da candidatura de Cleitinho, aguarda novas definições de articulações.

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Bereia segue acompanhando o confuso processo em torno da disputa do senador católico Cleitinho pelo governo do estado de Minas Gerais nas eleições de 2026.

Referências

G1

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/08/04/cleitinho-pede-em-convencao-do-republicanos-para-ser-candidato-a-governador-de-minas-gerais.ghtml Acesso em 5 ago 2026

https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/eleicoes/2026/noticia/2026/08/04/eleicoes-2026-as-idas-e-vindas-de-cleitinho-na-disputa-pelo-governo-de-minas-gerais.ghtml Acesso em 5 ago 2026

https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2026/07/29/assessoria-de-cleitinho-contradiz-presidente-do-republicanos-e-diz-que-senador-sera-candidato-ao-governo-de-mg.ghtml Acesso em 5 ago 2026

https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2026/07/28/cleitinho-posta-video-de-ia-com-pai-e-irmao-dizendo-para-ir-em-frente-e-fazer-o-que-tem-que-ser-feito.ghtml Acesso em 6 ago 2026

https://g1.globo.com/mg/centro-oeste/eleicoes/2026/noticia/2026/08/07/cleitinho-anuncia-pela-3a-vez-que-sera-candidato-ao-governo-de-minas.ghtml Acesso em 7 ago 2026

Veja

https://veja.abril.com.br/brasil/governador-de-minas-diz-que-cleitinho-foi-alvo-de-humilhacao-publica-pelo-republicanos/ Acesso em 6 ago 2026

Uol Notícias

https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/08/03/cleitinho-anuncia-que-nao-sera-candidato-ao-governo-de-minas-gerais.ghtm Acesso em 6 ago 2026

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/08/04/cleitinho-governador-mg.ghtm Acesso em 6 ago 2026

https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/08/05/como-o-vaivem-de-cleitinho-fragmenta-direita-em-mg.ghtm Acesso em 6 ago 2026

CNN Brasil

https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/cleitinho-volta-atras-e-insiste-em-ser-candidato-ao-governo-de-mg/ Acesso em 6 ago 2026

ICL Notícias

https://iclnoticias.com.br/choro-de-senador-desonra-minas/ Acesso em 6 ago 2026

Jornal Opção

https://www.jornalopcao.com.br/ultimas-noticias/apos-dizer-ter-recebido-pedido-do-espirito-santo-cleitinho-tenta-disputar-o-governo-de-mg-e-e-rejeitado-novamente-853872/ Acesso em 7 ago 2026

Diário do Centro do Mundo

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/como-desistencia-de-cleitinho-atrapalha-flavio-bolsonaro-em-mg/ Acesso em 7 ago 2026

Congresso em Foco

https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/121106/rogerio-marinho-diz-que-pl-retirou-apoio-a-cleitinho-ao-governo-de-mg  Acesso em 7 ago 2026

Partido Republicanos

https://republicanos10.org.br/estadual/republicanos-divulga-nota-sobre-candidatura-de-cleitinho-ao-governo-de-minas-gerais/  Acesso em 8 ago 2026

https://republicanos10.org.br/imprensa/republicanos-confirma-candidatura-de-cleitinho-ao-governo-de-minas-gerais/ Acesso em 8 ago 26

O Globo

https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/06/05/jogo-politico-a-classe-politica-me-subestima-e-nao-tenho-medo-de-virar-governador-diz-cleitinho-lider-nas-pesquisas-em-minas.ghtml  Acesso em 9 ago 2026

Eleições 2026: Operação contra grupo extremista inclui seminarista católico entre investigados 

Atualizado 11/08/2026 para inclusão de novas informações

A participação de um seminarista católico entre os investigados da Operação Rede Interrompida, deflagrada pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), repercutiu no noticiário e nas redes digitais e gerou diferentes interpretações sobre o caso. A investigação apura a atuação de uma rede extremista suspeita de planejar ações violentas em Brasília durante o período eleitoral de 2026. 

De acordo com a Polícia Civil, o seminarista, vinculado a um mosteiro em Pernambuco, participava das discussões sobre a estruturação nacional do grupo. Bereia verificou as informações sobre a investigação. 

A operação

A Operação Rede Interrompida foi deflagrada em 4 de agosto passado, pela PCDF, com apoio do Ministério da Justiça e Segurança Pública. A investigação teve origem em alertas produzidos pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) em conjunto com o Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), vinculado à Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp).

Foram cumpridos oito mandados de busca e apreensão em Pernambuco, no Paraná, no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e em São Paulo. Os investigados têm entre 19 e 31 anos, não possuem antecedentes criminais. De acordo com a Polícia Civil, estes jovens mantinham contato apenas por ambientes digitais.

As investigações indicam que o grupo utilizava principalmente comunidades no Telegram para compartilhar conteúdos neonazistas, antissemitas e misóginos, recrutar novos integrantes e discutir possíveis ataques contra autoridades e prédios públicos em Brasília durante o período eleitoral. Os investigadores também identificaram a circulação de manuais para fabricação de artefatos explosivos e mensagens trocadas em fóruns da internet e na dark web.

Durante o cumprimento dos mandados, foram apreendidos armas de fogo, facas, canivetes, anotações com referências ao nazismo e um capuz semelhante ao utilizado pela organização supremacista Ku Klux Klan. 

O que se sabe sobre o seminarista investigado?

Entre os investigados está um seminarista católico vinculado a um mosteiro de Pernambuco. Conforme o coordenador de Inteligência da PCDF delegado Maurílio Coelho, a operação teve como foco a coleta de provas, sem pedidos de prisão nesta fase. Até a publicação desta nota, o investigado não havia sido denunciado à Justiça e sua identidade permanecia sob sigilo.

As autoridades não divulgaram o nome do mosteiro nem da paróquia ou da diocese da Igreja Católica à qual o seminarista estaria vinculado. Até a publicação desta nota, também não havia manifestação pública da instituição religiosa sobre o caso. As informações divulgadas pela Polícia Civil não indicam envolvimento institucional da Igreja Católica ou do mosteiro com a investigação, que se concentra na conduta individual dos investigados. 

O Bereia buscou informações sobre o caso com lideranças da Igreja Católica em Brasília e em Pernambuco. As pessoas ouvidas afirmam que desconhecem a situação do investigado identificado como seminarista ou sobre o mosteiro ao qual ele estaria vinculado.

Mais detalhes sobre os planos do grupo vêm à tona

Novas informações divulgadas em 9 de agosto, detalham os planos identificados pela investigação policial. O grupo discutia a possibilidade de explodir o Palácio do Planalto e o prédio onde seria realizado o debate presidencial do segundo turno das eleições de 2026.

As investigações apontam que os integrantes compartilhavam mapas e plantas de prédios públicos de Brasília e discutiam formas de entrada e saída dos locais. Entre os materiais analisados estavam também instruções para fabricação de explosivos e coquetéis Molotov, além de cálculos sobre quantidade de materiais e custos para a execução dos ataques.

De acordo com as informações, o grupo era dividido em duas comunidades no Telegram. A maior reunia mais de 600 integrantes, enquanto um grupo restrito, com 46 pessoas, concentrava discussões consideradas mais radicalizadas e relacionadas à preparação de ações violentas. Um relatório do CiberLab classificou o conteúdo analisado como de alto grau de periculosidade, e apontou planejamento de ações violentas com artefatos explosivos, além da disseminação de ideologia neonazista, misoginia e incentivo à violência.

As novas informações reforçam que a investigação não se limitou à circulação de conteúdos extremistas em ambientes digitais. Conforme os investigadores, havia discussões sobre alvos, materiais, custos e formas de execução dos possíveis ataques. A Polícia Civil, contudo, ainda apura o estágio de desenvolvimento desses planos e se alguma das ações chegou a ser efetivamente iniciada.

A equipe do Bereia continuará acompanhando os desdobramentos do caso e buscando novas informações. Leitores e leitoras que tenham algum conhecimento sobre ele podem entrar em contato com o Bereia pelo número de WhatsApp 21-97884-2525. A identidade de quem fizer o contato será preservada, caso deseje permanecer em sigilo.

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Bereia classifica como inconclusiva a informação de que um seminarista vinculado a um mosteiro em Pernambuco é um dos investigados na Operação Rede Interrompida. O fato foi confirmado pela Polícia Civil do Distrito Federal e pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. No entanto, as investigações ainda estão em curso e não há detalhes sobre quem é o jovem e sobre a instituição católica a que ele está vinculado. Até o momento, não há denúncia apresentada à Justiça e elementos que permitam associar a investigação à Igreja Católica ou ao mosteiro onde o mandado teria sido cumprido.  Bereia ouviu lideranças católicas em Brasília e em Pernambuco que declararam desconhecimento sobre a situação.

As apurações dizem respeito à conduta individual dos investigados e ao funcionamento de uma rede extremista em ambientes digitais. Elas se assemelham a grupos que atuaram em que envolveram pessoas e grupos extremistas de direita que agiram contra o processo eleitoral nas eleições de 2022 e culminaram nos ataques a Brasília em 8 de janeiro de 2023. É preciso atenção a isto.

Referências:

CNN Brasil. https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/elijonasmaia/politica/grupo-que-planejava-ataques-a-autoridades-e-alvo-de-operacao/. Acesso em 5 de agosto de 2026.

Governo Federal. https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/noticias-1/operacao-livia-e-rede-interrompida-mobilizam-ministerio-da-justica-e-seguranca-publica-e-policias-civis-de-oito-estados. Acesso em 5 de agosto de 2026.

Folha de Pernambuco. https://www.folhape.com.br/noticias/seminarista-vinculado-a-mosteiro-em-pernambuco-e-investigado-por/504742/. Acesso em 5 de agosto de 2026.

Folha de Pernambuco. https://www.folhape.com.br/noticias/ministerio-da-justica-e-seguranca-publica-detalha-operacao-para/504661/. Acesso em 5 de agosto de 2026.

Carta Capital. https://www.cartacapital.com.br/justica/operacao-mira-grupo-suspeito-de-planejar-atentado-em-debate-presidencial/. Acesso em 5 de agosto de 2026.

G1. https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2026/08/04/operacao-mira-grupos-suspeitos-de-disseminar-odio-contra-mulheres-e-extremismo-nas-redes.ghtml. Acesso em 5 de agosto de 2026.

Eleições 2026: Campanha contra desinformação nas eleições em espaços religiosos é alvo de mentira de influenciadora cristã candidata 

Poucas horas depois de lançada a campanha de enfrentamento da desinformação circulante em espaços religiosos, durante a eleições de 2026, Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade! , a iniciativa foi alvo de mentira. Circula nas redes um vídeo publicado por uma influenciadora digital evangélica, candidata a deputada federal pelo Novo (RJ), que viralizou nas redes digitais ao afirmar que a campanha  Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade!  teria sido criada pelo governo federal para orientar o voto dos cristãos e favorecer candidatos de esquerda. 

Bereia verificou as declarações e constatou que elas são falsas, pois atribuem à campanha objetivos que não correspondem ao que foi estabelecido pela organização e omitem informações sobre a origem e a finalidade. 

O que é a campanha Boto Fé no Voto?

Lançada nacionalmente em 30 de julho, em Brasília, a campanha Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade! é promovida pela Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) com o Bereia, em parceria com organizações ecumênicas, da sociedade civil para enfrentar a desinformação durante o período eleitoral no Brasil. Com o lema “Eu escolho a verdade”, a iniciativa busca fortalecer a circulação de informações confiáveis, incentivar o voto consciente e estimular o compromisso com a verdade nas eleições de 2026. 

O lançamento ocorreu na Catedral Anglicana de Brasília, em formato de roda de diálogo, e reuniu representantes da CESE, do Bereia, do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), do Coletivo Novas Narrativas, da Cáritas Brasileira, do Fé no Clima/ISER, da Diaconia, da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, entre outros presentes. O encontro teve como tema os impactos da desinformação no processo eleitoral, os desafios da comunicação em ambientes religiosos e o papel das comunidades de fé na promoção da verdade, da democracia e dos direitos humanos.

A campanha lançada será realizada no período eleitoral, e contará com rodas de diálogo, formações, produção de materiais educativos, vídeos, podcasts, cards e outros conteúdos digitais. As ações têm como objetivo incentivar a verificação de informações, ampliar o acesso a fontes confiáveis e promover uma reflexão sobre a responsabilidade ética na circulação de conteúdos e a importância da verdade para o fortalecimento da democracia.

Quem publicou as mentiras?

A autora do vídeo desinformativo é Juliana Fidelis, que se apresenta como “influenciadora digital, humorista e comentarista política”. Ela ganhou popularidade nas redes pela publicação de vídeos de humor sobre o universo evangélico. Como ocorre com muitas personagens nos processos eleitorais anteriores, com base no sucesso digital, nestas eleições, a humorista será candidata à Câmara dos Deputados pelo Partido Novo no estado do Rio de Janeiro. 

Nas redes digitais, onde reúne centenas de milhares de seguidores, a influencer evangélica tem comentado sobre temas ligados ao ultraconservadorismo, ao liberalismo econômico e críticas a governos de esquerda.

Imagem: postagem com o conteúdo enganoso publicada no perfil oficial de Juliana Fidelis

O vídeo com as mentiras alcançou ampla repercussão nas redes digitais. Até a publicação desta checagem, a publicação acumulava mais de 300 mil visualizações, cerca de 7 mil curtidas e mais de 400 comentários.

Quais são as mentiras publicadas?

No vídeo que circula desde 2 de agosto, a humorista evangélica candidata do Novo-RJ afirma que a campanha Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade! teria sido criada pelo governo federal para ensinar cristãos a distinguir “verdade” de “mentira”. Esta afirmação é falsa. A iniciativa não foi criada pelo governo federal, mas por uma articulação de organizações ecumênicas e da sociedade civil. O objetivo é fortalecer a circulação de informações confiáveis, incentivar o voto consciente e promover a educação midiática durante as eleições de 2026. Em nenhum dos materiais oficiais a campanha afirma que cristãos são incapazes de identificar desinformação ou que precisem ser orientados pelo governo. 

Pelo contrário, a CESE e o Bereia já realizaram campanhas com o mesmo objetivo em 2021 e nas eleições municipais de 2024. No material da campanha de 2026 está explicitado que “a desinformação não tem partido nem ideologia, religião, identidade racial, de gênero, de faixa etária ou de escolaridade. Ela pode surgir e ser compartilhada por quaisquer pessoas e grupos. Por essa razão, a campanha Boto Fé no Voto atua de forma apartidária, comprometida exclusivamente com a defesa da verdade, da ética, do diálogo democrático e do acesso a informações verificadas. Toda informação falsa ou enganosa, checada pela campanha, será tratada com o mesmo rigor, independentemente de favorecer qualquer posicionamento político-partidário ou governamental”.

Ao comentar o lema da campanha, “Eu escolho a verdade”, a influenciadora também afirma que a iniciativa seria destinada exclusivamente aos cristãos e ironiza: “Ó, só para quem é cristão, tá?” , e aproveita para criticar o que chama de “governo esquerdista”. O conteúdo apresentado pela influenciadora candidata a deputada federal pelo Novo distorce a proposta da campanha. Embora as comunidades de fé sejam um dos públicos prioritários da mobilização, a iniciativa não se dirige apenas aos cristãos nem estabelece qualquer associação entre o conceito bíblico de verdade e um posicionamento político. O próprio material de divulgação da campanha convida igrejas, organizações da sociedade civil, educadores, comunicadores e toda a população a refletirem sobre a importância da informação de qualidade para a democracia.

Outra afirmação da humorista evangélica é que a campanha foi feita para orientar o voto de cristãos. Este conteúdo é falso. A campanha Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade!  não orienta o voto de cristãos nem de qualquer outro segmento da população. De acordo com a organização, a iniciativa surgiu diante da preocupação com o aumento da circulação de conteúdos falsos e enganosos em ambientes religiosos durante os períodos eleitorais. Estudos acadêmicos, investigações jornalísticas e iniciativas de monitoramento identificaram que, nas últimas eleições, mensagens falsas e descontextualizadas circularam amplamente em grupos de aplicativos de mensagens e em redes digitais seguidos por pessoas de comunidades de fé, influenciando o debate público e o comportamento eleitoral.

A organização reafirma que os materiais oficiais da campanha não indicam candidatos, não recomendam partidos e não orientam o voto em nomes específicos. A proposta é promover educação midiática e estimular o consumo crítico de informações, para que o eleitorado com vinculado a uma comunidade de fé possa identificar conteúdos falsos ou enganosos antes de compartilhá-los.

Por que comunidades cristãs são destacadas?

A escolha das comunidades cristãs como um dos públicos da campanha, por sua vez, está fundamentada em pesquisas sobre a circulação da desinformação em ambientes religiosos. O Bereia surgiu justamente a partir de um estudo desenvolvido pelo NUTES/UFRJ, que investigou a propagação de conteúdos falsos entre grupos religiosos no WhatsApp e em outras redes digitais. As pesquisas indicam que cristãos tendem a absorver e difundir com maior intensidade conteúdos falsos e enganosos, não por uma suposta incapacidade de distinguir verdade de mentira, mas porque a confiança construída nas comunidades de fé favorece o compartilhamento de mensagens recebidas de líderes e pessoas próximas. Soma-se a isso o chamado “espírito missionário”, que incentiva a divulgação do que muitos fiéis entendem como uma “verdade revelada”, além da frequente exploração de discursos de pânico moral e medo por produtores de desinformação

Assim, ao afirmar que a campanha parte da premissa de que “o cristão não sabe o que é verdade” ou que foi criada para favorecer o governo federal, a candidata do Novo-RJ inventa objetivos e despreza o contexto que motivou a criação a iniciativa: o enfrentamento à circulação recorrente de desinformação em ambientes religiosos, fenômeno amplamente documentado por pesquisas acadêmicas e pelo trabalho de monitoramento realizado pelo Bereia.

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Bereia classifica, portanto, o conteúdo publicado pela influenciadora evangélica candidata a deputada federal pelo Novo-RJ como Falso. Ela mente deliberadamente  ao afirmar que a campanha educativa de organizações ecumênicas e da sociedade civil foi criada pelo governo federal para orientar o voto de cristãos e para favorecer um grupo político. O material de divulgação da campanha, disponível a qualquer pessoa, e o evento de lançamento, realizado em Brasília, aberto ao público (e registrado em vídeo) mostram quem promove a campanha e a quê ela se destina. É explicitamente declarado que a iniciativa não apoia candidatos ou partidos políticos e tem como finalidade incentivar o consumo crítico de informações e o enfrentamento à desinformação durante as eleições de 2026. Espera-se, com a campanha, que o eleitorado vinculado às comunidades de fé exerça livremente o direito de escolher em quem votar, sem influências nocivas, como esta exposta no próprio conteúdo mentiroso espalhado pela influenciadora evangélica que tem interesse eleitoreiro.

Bereia alerta leitores e leitoras a não assimilarem e compartilharem conteúdo crítico e acusatório a qualquer pessoa, grupo, iniciativa, sem antes verificar a validade e a veracidade do que está sendo dito. Quem propaga mentira quer esconder a verdade e não deseja que as pessoas pensem por elas próprias e se baseiam em informação e conteúdo confiável e justo.

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Referências:

Cese. https://cese.org.br/noticia/boto-fe-no-voto-campanha-nacional-mobiliza-comunidades-de-fe-para-enfrentar-a-desinformacao-nas-eleicoes-de-2026/. Acesso em 3 de agosto de 2026. 

G1. https://g1.globo.com/df/distrito-federal/eleicoes/2026/noticia/2026/07/31/boto-fe-no-voto-acao-mobiliza-igrejas-de-todo-o-pais-contra-a-desinformacao-nas-eleicoes-2026.ghtml. Acesso em 3 de agosto de 2026. 

Foto de Capa: Unplash

Eleições 2026: Publicações sobre perseguição a cristãos voltam a ganhar espaço nas redes digitais

*colaboração: Ana Clara Bento

O tema sobre perseguição a cristãos voltou a ocupar espaço nas mídias digitais. Publicações sobre casos avaliados como perseguição religiosa ao redor do mundo passaram a circular com maior frequência nos últimos meses. A Nigéria é um país com um grande número de menções, mas Israel começa a aparecer em várias postagens.

Por se tratar de ano eleitoral, é comum ver este tema sendo instrumentalizado especialmente por atores da direita extremista, para fomentar pânico religioso e clima de ameaça sobre daqueles que professam a fé cristã. 

Bereia checou as publicações que ganharam mais visibilidade nas últimas semanas no Brasil.

Israel no foco da perseguição a cristãos

A divulgação, neste julho de 2026, do Relatório de Liberdade Religiosa, publicado trimestralmente pela Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACN), da Igreja Católica, colocou Israel no foco da perseguição a cristãos. Na edição do relatório referente ao trimestre de abril a junho de 2026, foram registrados 83 atos de assédio em 76 incidentes distintos em Israel. Dentre esses, se destacam os ‘cuspes’ direcionados aos cristãos, principalmente a monges e freiras, com 47 casos.

A ACN tem uma linha direta que recebe relatos de assédio por meio de um telefone multilíngue e de um sistema de denúncia online. Os voluntários mantêm contato regular com as comunidades cristãs e instituições religiosas, coletam informações e documentação e auxiliam as vítimas a entrar em contato com as autoridades e a registrar boletins de ocorrência.

A Fundação Pontifícia ACN é uma obra da Santa Sé que apoia projetos pastorais da Igreja no mundo e tem sua sede no Vaticano. As contribuições coletadas pelos 23 escritórios nacionais da organização são gerenciadas pela sede administrativa na cidade de Königstein, na Alemanha. Conhecida no Brasil como ‘Ajuda à Igreja que Sofre’, a sigla atual, adotada mundialmente em 2016, vem do inglês, Aid to the Church in Need. O nome ACN reflete a sua missão: apoiar projetos da Igreja em locais de extrema necessidade ou de perseguição.

Fonte: Centro de Dados de Liberdade Religiosa (RFDC)

De acordo com o último relatório do RFDC, Jerusalém continua sendo o epicentro do assédio anticristão. Dos 76 incidentes registrados no segundo trimestre de 2026, 68 ocorreram na região.

Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Em maio deste ano repercutiu fortemente nas redes o vídeo de uma freira francesa sendo agredida e empurrada ao chão em Jerusalém por um homem, que só saiu de perto da mulher quando uma terceira pessoa interveio. Depois da ampla repercussão do caso nas redes digitais, o Ministério das Relações Exteriores de Israel se manifestou sobre o ocorrido e o classificou como um “ato vergonhoso”. As autoridades israelenses também se apressaram para condenar o ataque a freira e afirmou que o ataque “não tem lugar” na sociedade israelense e efetuou  a prisão do agressor. 

Imagem: Captura das redes da BBC News Brasil

O vídeo, entretanto, não é um caso isolado do que está acontecendo na região de Jerusalém agora. Para os cerca de 180 mil cristãos que vivem em Israel, e para os cerca de 10 mil cristãos que vivem em Jerusalém Oriental, o ataque é o mais recente de um número crescente de episódios de abuso, agressão e intimidação. De acordo com os depoimentos, as situações aumentaram em paralelo ao crescimento do nacionalismo de extrema direita em Israel. Analistas do tema dizem que a confiança no Estado israelense é pequena e muitos dos casos sequer são denunciados.

De acordo com o relatório da ACN de outubro de 2025, a situação na Palestina segue grave. As garantias constitucionais na região não são suficientes para o exercício da liberdade religiosa pelos cristãos, que se veem limitados pela guerra e pelas restrições israelenses. Em Gaza, os fiéis cristãos e os muçulmanos sofreram graves perdas e enfrentam insegurança, tendo o acesso a Jerusalém bloqueado e os locais de culto destruídos, diz o documento.

O material divulgado é um estudo global compartilhado pela ACN a cada dois anos desde 1999, que analisa a liberdade religiosa em 196 países do mundo e abrange todas as religiões. Em 2025, o relatório enquadrou os cristãos palestinos como vítimas de discriminação, e não perseguição religiosa. A ACN afirma que o nacionalismo religioso está aumentando em Israel, alimentando a exclusão e a repressão das minorias, e que a identidade nacional é cada vez mais moldada pelo nacionalismo étnico-religioso, corroendo os direitos das minorias. 

O caso da Nigéria

Bereia recebeu para checagem uma publicação que tem circulado nas mídias desde julho deste ano sobre “mais de 350 cristãos mortos por ataques de extremistas islâmicos” na Nigéria. O conteúdo foi publicado em um perfil do Instagram que publica conteúdos “sob uma perspectiva cristã”. 

Imagem: reprodução/Instagram

Esta é mais uma de muitas publicações sobre violência contra cristãos na Nigéria, o que de fato existe, porém expostas sem contextualização e sem a informação de que a violência é política e atinge outros grupos religiosos além dos cristãos, como Bereia já checou.

Em maio deste ano, Bereia checou o vídeo compartilhado em ambientes digitais religiosos que mostrava milhares de corpos cristãos enterrados no continente africano com as mãos levantadas ao céu. Bereia concluiu que o conteúdo é falso e foi gerado por inteligência artificial com intuito de causar comoção e pânico. Em 2025, Bereia classificou como enganoso informações propagadas por veículos religiosos alinhados à extrema direita brasileira sobre ataques sofridos por cristãos na Nigéria, nas quais foram usados dados antigos como se fossem atuais e houve falta de contextualização de fatos para o estabelecimento de outros sentidos a eles.

A Nigéria foi considerada, em 2025, o maior cemitério do mundo para cristãos. Os registros indicam que o país tem sofrido com ataques de grupos armados e políticos do norte e centro do país promoveram investidas a civis, atingindo de modo especial meninas e mulheres, que foram sequestradas, submetidas à violência sexual, conversão forçada e casamento forjado.

Em 2022, o então diretor editorial da revista África, Marco Trovato havia mostrado um panorama da situação de perseguição a cristãos na Nigéria. De acordo com Marco, o incidente acompanhado por ele teve como principais motivações a guerra política entre as milícias locais, que buscam estabelecer seu poder, incluindo sua crença.  

Em 2025, Bereia entrevistou o executivo do Programa de Promoção da Paz na África do Conselho Mundial de Igrejas e pastor da Convenção de Igrejas Batistas da Nigéria Dr. Ibrahim Wushishi Yusuf que explicou com detalhes a situação complexa que envolve disputas de poder político.

Em janeiro deste ano, mais de 160 cristãos foram sequestrados durante um ataque realizado por bandos armados contra duas igrejas em um vilarejo isolado no estado de Kaduna, no norte da Nigéria. A informação foi divulgada por um representante do clero cristão local e por um relatório sobre a segurança das Nações Unidas consultado pela Agence France-Presse  (AFP).

No mês de junho deste ano, a Organização das Nações Unidas (ONU) informou que grupos extremistas armados estão atuando no norte da Nigéria, em um contexto de impunidade marcado por violência sistemática contra cristãos e contra outras minorias religiosas.  De acordo com o comunicado, existe um ambiente hostil, intensificado pela aplicação de interpretações locais da Sharia, a lei islâmica, nos estados do norte da Nigéria. Nesse cenário, os cristãos e outros cidadãos de outras religiões, inclusive islâmicos, sofrem com a imposição de leis contra a blasfêmia, que são aplicadas, muitas vezes, sem critério rigoroso. Os acusados também enfrentam dificuldades de acesso à justiça.  

Fonte: InterSociety

Geopolítica internacional: distorção dos fatos e dos dados

A compreensão de que o cristianismo está sob ataque há muito tempo permeia a cultura política americana. Grupos conservadores nos Estados Unidos afirmam, inclusive, que os cristãos são o grupo religioso mais perseguido do mundo

Em 2025, o vice-presidente James David Vance publicou que “em todo o mundo, os cristãos são o grupo religioso mais perseguido”. Essa ideia comum é repetida por presidentes , autoridades governamentais e membros do Congresso, influenciando debates sobre política interna e externa, imigração, ajuda externa e eleições presidenciais. 

Líderes religiosos e políticos frequentemente citam dados quantificados, principalmente pelo Pew Research Center, sobre restrições religiosas, e pela organização Portas Abertas, que denuncia perseguição a cristãos. Estes dados ajudam a fortalecer a afirmação de que os cristãos são o grupo religioso mais perseguido em todo o mundo.

Fonte: Alma Preta Jornalismo/ Instagram

No entanto, nenhuma dessas fontes de dados comprova essa afirmação. A Portas Abertas é uma organização missionária cristã que coleta informações sobre a perseguição aos cristãos em várias partes do mundo. Anualmente, ela publica uma lista com os 50 países “onde é mais difícil seguir Jesus”, além de divulgar o número de cristãos que vivem em nações com alto risco de perseguição. Curiosamente, diferentemente do relatório ACN da Igreja Católica, Israel não consta nesta lista.

Como as Portas Abertas coletam dados apenas sobre cristãos, não é possível usar suas informações para sustentar afirmações sobre a experiência de sofrimento entre diferentes grupos religiosos, impossibilitando uma análise comparativa.

O Pew Research Center é outra fonte de dados muito valorizada por defensores da liberdade religiosa internacional em Washington, D. C. Esta organização apartidária analisa dados sobre religiões, entre elas as restrições a grupos, a partir de dados sobre limitações governamentais e hostilidades sociais. Os relatórios do Pew indicam o número total de países onde cada grupo religioso enfrenta restrições. 

Em 2021, os cristãos foram afetados em 160 países, seguidos pelos muçulmanos em 141 e pelos judeus em 91 países.

Entretanto, a instituição esclarece que suas conclusões sobre a extensão das restrições não devem ser interpretadas como indicativas de que um determinado grupo esteja sofrendo a maior perseguição globalmente.  O problema é amplificado pela falta de consistência e clareza sobre o que exatamente está sendo medido. Termos como perseguição a cristãos, liberdade religiosa e restrições religiosas são usados indistintamente, apesar de se referirem a fenômenos sociais diferentes. É importante notar que o termo “perseguição” é vago e evocativo, pois não identifica o agressor e também não esclarece a natureza da ofensa, mas caracteriza um grupo de pessoas como vítimas. A expressão pode ser eficaz na mobilização daqueles que se preocupam com o sofrimento dos cristãos, mas empobrece a clareza conceitual e empírica. 

Fonte: É o Mundo Oficial/Instagram

Recentemente, em uma publicação do presidente do Instituto de Liberdade Religiosa nos Estados Unidos David Trimble, sobre as conclusões do relatório Portas Abertas para 2025, é enfatizado que a atenção à perseguição dos cristãos não deve se transformar na polarização política partidária, nem ofuscar a perseguição de outros grupos religiosos. 

Fonte: Jovem Pan News/TikTok

Enfrentando a desinformação

No Brasil, o termo “cristofobia” ganhou força durante o governo de Jair Bolsonaro (PL, 2019-2022), tornando-se parte de um discurso alinhado à direita cristã dos EUA, que busca consolidar poder político por meio do tema da perseguição religiosa. E, em ano eleitoral, a direita extremista costuma trazer a expressão novamente à tona, para incentivar a ideia de uma perseguição religiosa que não é comprovada. O Bereia já apurou as motivações por trás do uso da palavra e produziu material explicando por que não se deve propagar esse tipo de ideia. Um artigo da professora e pesquisadora da Unicamp Brenda Carranza também mostra ser falso que os cristãos sofram algum tipo de perseguição no Brasil.

Nas eleições de 2022 o Bereia fez um levantamento que mostrou que a  perseguição a cristãos e ameaças de fechamento de igrejas estavam entre os temas com mais conteúdo falso e enganoso circulante em espaços digitais religiosos. 

Em outras apurações, o Bereia checou casos de afirmações falsas de perseguição religiosa, dentre esses, a queixa do pastor presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia, divulgada em redes digitais e na imprensa, após ele ter sido incluído em inquérito da Polícia Federal (PF). Também sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), junto a extremistas da direita política, ter usado seus perfis nas mídias digitais para denunciar uma suposta perseguição religiosa contra o padre de Osasco (SP) José Eduardo de Oliveira e Silva, um dos 37 indiciados no inquérito da Polícia Federal (PF) sobre a tentativa de um golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito durante e depois das eleições de 2022. 

Possivelmente este tema será pautado nas discussões da campanha eleitoral no Brasil em 2026 e deve ter a atenção de leitores e leitoras do Bereia para não assimilarem conteúdo desinformativo, baseado em pânico e ameaças que em nada contribuem para o debate público.

Referências

Organização das Nações Unidas

https://news.un.org/pt/story/2026/06/1853370 23 JUL 26

https://brasil.un.org/pt-br/84022-mundo-precisa-acabar-com-persegui%C3%A7%C3%A3o-grupos-religiosos-diz-chefe-da-onu-em-dia-internacional 23 JUL 26

Instituto Humanitas

https://ihu.unisinos.br/categorias/172-noticias-2012/505846-cinco-mitos-sobre-a-perseguicao-anticrista 24 JUL 26

https://ihu.unisinos.br/categorias/625688-um-cristao-em-cada-sete-no-mundo-e-perseguido-por-sua-fe 24 JUL 26

https://ihu.unisinos.br/categorias/619312-nigeria-e-um-choque-enorme-agora-mesmo-no-sul-cristao-ninguem-se-sente-seguro-entrevista-com-marco-trovato 24 JUL 26

O Globo

https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2023/09/24/ataques-a-cristaos-aumentam-na-terra-santa.ghtml 24 JUL 26

Vatican News

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2025-04/terra-santa-100-casos-violencia-contra-cristaos-2024.html 24 JUL 26

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-07/israel-cristao-religiao-jerusalem.html 24 JUL 26

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-01/nigeria-mais-fieis-sequestrados-ataque-duas-igrejas.html 24 JUL 26

BBC

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx23v1jd01yo 24 JUL 26

Religious Freedom Data Center (Relatório)

https://report-hotline-jlm.co.il/reports/RFDC_2026_Q2_Report.pdf 24 JUL 26

Revista Opera Mundi

https://revistaopera.operamundi.uol.com.br/2026/07/12/morte-aos-cristaos-a-crescente-violencia-anticrista-em-israel/ 24 JUL 26

Federação Árabe Palestina do Brasil

https://fepal.com.br/para-os-cristaos-em-israel-e-em-jerusalem-a-intolerancia-esta-se-tornando-normal/ 24 JUL 26

Intercept Brasil

https://www.intercept.com.br/2020/02/04/evangelicos-calvinistas-bolsonaro/ 24 JUL 26

Canopy Forum

https://canopyforum.org/2025/09/11/are-christians-the-most-persecuted-religious-group-worldwide/ 24 JUL 26

Coletivo Bereia

https://coletivobereia.com.br/cristofobia/ 24 JUL 26

https://coletivobereia.com.br/cristofobia-perseguicao-a-cristaos-e-fechamento-de-igrejas-estao-entre-os-temas-com-mais-desinformacao-em-espacos-religiosos-nestas-eleicoes/ 24 JUL 26

https://coletivobereia.com.br/cristofobia-uma-estrategia-preocupante/ 24 JUL 26

https://coletivobereia.com.br/pastor-malafaia-usa-ideia-de-perseguicao-religiosa-para-questionar-inclusao-em-inquerito-da-pf/ 24 JUL 26

https://coletivobereia.com.br/politicos-apoiadores-de-padre-indiciado-em-trama-golpista-usam-falsa-acusacao-de-perseguicao-religiosa/ 24 JUL 26

https://coletivobereia.com.br/video-de-cristaos-enterrados-com-maos-erguidas-foi-feito-por-ia/  28 JUL 26

https://coletivobereia.com.br/site-gospel-manipula-conteudo-antigo-para-ligar-casos-recentes-de-violencia-na-nigeria-a-religiao-islamica/  28 JUL 26

Resolução 594. Congresso

https://rileymoore.house.gov/media/bills/h-res-594 24 JUL 26

Religious Freedom Institute

https://religiousfreedominstitute.org/david-trimble-2/ 24 JUL 26

Ajuda à Igreja que Sofre

https://www.acn.org.br/tag/ajuda-a-igreja-que-sofre/  24 JUL 26

https://www.acn.org.br/quem-somos/ 24 JUL 26

Em ações de campanha eleitoral, irmãos Bolsonaro mentem sobre urnas eletrônicas e repetem o pai, ex-presidente

Nos últimos dias, os irmãos Bolsonaro realizaram ações de campanha eleitoral nas quais atacaram as urnas eletrônicas do Brasil com afirmações falsas, já desmentidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em em evento com embaixadores, em 21 de julho passado, disse que as máquinas usadas nas eleições brasileiras seriam da Smartmatic, empresa suspeita de fraudes eleitorais na Venezuela.

A afirmação não é nova: segundo nota do TSE publicada em 2020, a mentira circula pelas mídias sociais desde as eleições de 2018. De acordo com a Corte, as urnas eletrônicas brasileiras foram projetadas e são geridas inteiramente pela Justiça Eleitoral. A produção das máquinas é feita por empresas selecionadas em licitações públicas de ampla concorrência. 

Imagem: Reprodução/Facebook

“Há uma denúncia por parte do governo americano de suspeitas de fraudes em processo eleitoral eletrônico, em especial na Venezuela, inclusive utilizando uma documentação do próprio serviço de inteligência americano, a CIA, apontando sobre a possibilidade de vulnerabilidades do sistema eletrônico de votação (…) Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras são da mesma empresa”, disse o senador.

A nota do TSE destaca que a Smartmatic havia participado da licitação para fabricação das máquinas em 2020, mas perdeu para a empresa Positivo. Desse modo, não há fornecimento nem programação de urnas eletrônicas, apenas treinamento de profissionais para prestar suporte técnico e operacional das máquinas, e prestação de serviços de conexão de dados e voz para o Tribunal.

Segundo apuração do Uol, o documento da CIA citado por Flávio Bolsonaro relata preocupações da inteligência norte-americana com as eleições venezuelanas entre 2004 a 2020 e não estabelece relações entre as urnas do brasileiras e do país vizinho.

Pré-candidato repete o gesto que deixou Jair Bolsonaro inelegível

O ataque do senador às urnas é semelhante ao gesto do pai, o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), que levou à perda do seu poder político e consequente inegibilidade até 2030. Em evento também com embaixadores, em julho de 2022, convocado e realizado com o uso da máquina pública, o então presidente, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, afirmou, sem provas, que as urnas eletrônicas não seriam seguras e confiáveis.

Imagem: Reprodução/Youtube

Em função do episódio e do uso da estrutura do governo para organização e transmissão do evento, o TSE condenou Jair Bolsonaro por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. 

Flávio Bolsonaro citou diretamente a condenação do pai durante o discurso, que foi realizado no evento Ciclo de Debates Debatendo o Brasil, organizado por empresas privadas.

“O ex-presidente Jair Bolsonaro, ele está inelegível após uma reunião com embaixadores. Alguém que tinha uma preocupação com a transparência e a segurança do nosso sistema eleitoral e apenas manifestava suas preocupações para que os embaixadores levassem esse cenário de preocupação para os seus países”, disse o pré-candidato.

Ataque coordenado

Dois dias após as declarações do pré-candidato senador do PL, o irmão dele, o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), atacou o sistema eleitoral em uma live com um influenciador argentino. Fernando Cerimedo foi consultor da campanha de Javier Milei à Presidência da Argentina, em 2023, e foi indiciado pela Polícia Federal (PF) no inquérito da tentativa de golpe de Estado em 2022-2023 no Brasil.

Durante a live, realizada em 23 de julho, Eduardo Bolsonaro e Fernando Cerimedo alegam que as urnas eletrônicas foram fraudadas para interferir nos resultados das eleições em 2022. O deputado cassado chega a afirmar que a votação na região Nordeste pode ter mais adulterações: “No Nordeste do Brasil é esperado que seja uma vitória da esquerda. Por ali eles ficam mais confortáveis de fazer uma alteração”.

Imagem: Reprodução/Youtube

Eduardo Bolsonaro também relaciona a região Nordeste a uma mentira sobre mesários votarem por eleitores ausentes após as 17 horas, quando se encerra o período de votação. A informação falsa já circulou tempos atrás pelas redes digitais e foi desmentida pela Justiça Eleitoral.

 “É complicado que das cinco horas da tarde comece a entrar vários votos do Nordeste. O que você começa a pensar? Poxa, depois das cinco da tarde os mesários, que normalmente no Brasil são os mesmos todas as eleições, já se conhecem. Se todos eles forem da mesma ideologia eles podem perfeitamente no final chegar e falar: ‘Ó, vou digitar aqui o título de leitor do cara e você vota por ele aí’. Faltou a votação, João da Silva, digita o número, vota aí na maquininha, João da Silva’. Aí vai lá e vota lá no candidato da esquerda, vamos supor, no Lula. E aí eles vão começando a colocar mais e mais votos dentro”, disse o filho ex-presidente Jair Bolsonaro, sem apresentar qualquer prova sobre a afirmação.

De acordo com o protocolo da Justiça Eleitoral, a liberação da urna para votação só acontece após a identificação biométrica do eleitor, ou habilitação pelo seu ano de nascimento. 

Conforme as orientações oficiais: “O ano de nascimento não consta no caderno de votação, nem está facilmente acessível para o mesário. Por isso, é necessário que o eleitor compareça às urnas para repassar a informação.Tanto a operação em si quanto a informação de quem liberou o eleitor são registradas no log da urna eletrônica e podem ser consultadas em uma auditoria posterior”.

Nas eleições de 2022, o influenciador argentino Fernando Cerimedo fez diversas afirmações falsas sobre o sistema eleitoral brasileiro, chegando a afirmar em um vídeo que havia recebido um relatório secreto que provava irregularidades nas urnas eletrônicas. O documento citado no vídeo é um material falso que já foi desmentido.

Segundo as investigações da Polícia Federal, as informações falsas disseminadas pelo influenciador alimentaram o planejamento do golpe de Estado no Brasil, para que Jair Bolsonaro se mantivesse no poder, depois de ter perdido as eleições.  A apuração resultou no indiciamento do argentino, em novembro de 2024.

Mentira recorrente

Ataques às urnas eletrônicas são frequentes em conteúdos falsos que circulam em ambientes religiosos, e são checados pelo Bereia desde 2020. Em 2024, um levantamento do Bereia apurou que a desinformação sobre o sistema eleitoral esteve entre os temas que marcaram a campanha eleitoral daquele ano.

Em novembro 2020, Bereia checou alegações falsas de Eduardo Bolsonaro sobre suspeitas de fraude na apuração de votos das eleições municipais. No mesmo ano, a fala de um pastor sobre a suposta “insegurança” das urnas também foi checada e classificada como enganosa.

É importante que o público fique atento para não cair em discursos falsos carregados de tom de denúncia, insistentemente usados em campanhas eleitorais. A referência à agência de inteligência e espionagem dos Estados Unidos, a CIA, também merece atenção, uma vez que levanta suspeitas, no debate público, sobre possíveis articulações para interferência estrangeira nas eleições do Brasil pró-candidatura de Flávio Bolsonaro.

Os ataques dos irmãos Bolsonaro ao sistema eleitoral renderam audiência nas mídias sociais. Dados da plataforma de monitoramento Meltwater divulgados pela Agência Lupa mostram que, após o discurso de Flávio Bolsonaro, publicações sobre fraudes nas urnas eletrônicas registraram o maior alcance médio dos últimos seis meses.

No X, antigo Twitter, e no Youtube, a média estimada de alcance é de 20,3 milhões de perfis no dia da fala do senador. Menções a supostas fraudes também aumentaram em aplicativos de mensagem: dados da plataforma OpenMeasures apontam que conversas sobre urnas em aplicativos como Telegram e redes como BlueSky e TikTok teve o maior volume desde janeiro.

A média do alcance de mensagens sobre voto impresso também cresceu: segundo dados da Meltwater, o alcance chegou a 23,4 milhões de perfis distintos no X e no YouTube.

De acordo com a Lupa, grande parte das publicações menciona a falsa relação entre as urnas brasileiras e a empresa Smartmatic. Por outro lado, há um volume expressivo de publicações que contestam as afirmações falsas.

***

Bereia reafirma o que já vem sendo verificado há anos: as alegações antecipadas de fraude nas urnas eleitorais do processo eleitoral do Brasil são falsas e têm sido frequentemente desmentidas pelo TSE. Tais acusações também não encontram sentido nos resultados dos pleitos anteriores. O sistema questionado é o mesmo que consagrou Jair Bolsonaro presidente em 2018, e que tornou o Partido Liberal (PL) a agremiação com o maior número de deputados federais eleitos em 2022.

Referências

Tribunal Superior Eleitoral

https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2020/Novembro/empresa-smartmatic-nao-fornece-urnas-eletronicas-ou-softwares-para-as-eleicoes-brasileiras Acesso 27 JUL 2027

g1

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/07/22/flavio-bolsonaro-diz-que-urnas-usadas-no-brasil-sao-de-empresa-suspeita-de-envolvimento-em-fraudes-na-venezuela.ghtml Acesso 27 JUL 2027

https://g1.globo.com/politica/noticia/2022/07/18/bolsonaro-reune-embaixadores-para-repetir-sem-provas-suspeitas-ja-esclarecidas-sobre-urnas.ghtml Acesso 27 JUL 2027

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2024/11/21/saiba-quem-e-o-influenciador-argentino-ex-estrategista-de-milei-indiciado-em-inquerito-sobre-tentativa-de-golpe.ghtml Acesso 27 JUL 2027

O Globo

https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/07/23/eduardo-bolsonaro-descredibiliza-sistema-eleitoral-brasileiro-em-live-com-argentino-indiciado-no-inquerito-do-golpe.ghtml Acesso 27 JUL 2027

UOL

https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/07/22/relatorio-cia-urnas-venezuela-flavio.ghtm Acesso 27 JUL 2027

Euronews

https://pt.euronews.com/2026/07/17/venezuela-cia-revela-provas-da-maquina-eleitoral-usada-pelo-chavismo-desde-2012 Acesso 27 JUL 2027

Agência Lupa

https://www.agencialupa.org/jornalismo/2024/11/19/fake-de-argentino-alimentou-plano-para-golpe-e-morte-de-lula-diz-pf Acesso 27 JUL 2027

https://www.agencialupa.org/jornalismo/2022/11/10/relatorio-ffaa-fraude-urnas Acesso 27 JUL 2027

https://www.agencialupa.org/reportagem/2026/07/24/ataques-de-flavio-bolsonaro-as-urnas-geram-pico-de-mencoes-a-fraude-eleitoral-em-redes Acesso 27 JUL 2027

DW

https://www.dw.com/pt-br/defesa-entrega-relatório-sobre-o-sistema-eleitoral-sem-apontar-fraude/a-63707625 Acesso 27 JUL 2027

Justiça Eleitoral

https://www.justicaeleitoral.jus.br/fato-ou-boato/checagens/e-mentira-que-mesarios-votam-na-urna-eletronica-no-lugar-de-eleitores/# Acesso 27 JUL 2027

https://www.justicaeleitoral.jus.br/fato-ou-boato/checagens/nao-e-verdade-que-mesario-pode-votar-em-nome-da-eleitora-ou-eleitor/# Acesso 27 JUL 2027

Vero Notícias

https://veronoticias.com/artigo/inteligencia-suspeita-de-acao-da-cia-contra-o-brasil/ Acesso 27 JUL 2027

“BOTO FÉ NO VOTO”: campanha nacional mobiliza comunidades de fé para enfrentar a desinformação nas eleições de 2026

Lançamento da campanha acontece em Brasília, no dia 30 de julho, com roda de diálogo e transmissão ao vivo pelas redes sociais

A circulação de informações falsas e enganosas durante os períodos eleitorais representa um dos maiores desafios para a democracia brasileira. Diante desse cenário, organizações ecumênicas e da sociedade civil lançam, no próximo 30 de julho, em Brasília, a campanha nacional BOTO FÉ NO VOTO, iniciativa que busca fortalecer a circulação de informações confiáveis, incentivar o voto consciente e promover o compromisso com a verdade nas eleições de 2026.


Com o lema “Eu escolho a verdade”, a campanha convida igrejas, comunidades de fé, organizações da sociedade civil, educadores/as, comunicadores/as e toda a população a refletirem sobre o papel da informação de qualidade na construção de uma democracia participativa e na defesa dos direitos humanos.


O lançamento será realizado às 19h, na Catedral Anglicana de Brasília, em formato de roda de diálogo. A programação reunirá representantes do Coletivo Bereia, do Coletivo Novas NarrativasCáritas Brasileira, Fé no Clima/ISERDiaconia Frente de Evangélicos pelo Estado de DireitoConic – Conselho Nacional Igrejas Cristãs e da CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviço) para discutir os impactos da desinformação no processo eleitoral, os desafios da comunicação nos ambientes religiosos e o papel das comunidades de fé na promoção da verdade, da justiça e da democracia.

O evento será aberto ao público e contará com transmissão ao vivo pelas redes sociais das organizações parceiras. 

A campanha parte do reconhecimento de que as comunidades de fé são espaços estratégicos para a circulação de informações confiáveis e para o fortalecimento da democracia. Ao longo do processo eleitoral de 2026, promoverá rodas de diálogo, formações, produção de materiais educativos, vídeos, podcasts, cards e conteúdos digitais para apoiar a identificação da desinformação e incentivar escolhas conscientes baseadas em fontes confiáveis. A campanha reafirma que, diante da desinformação, a melhor escolha é sempre a verdade. Antes de compartilhar uma mensagem, é preciso perguntar, verificar e confirmar. Escolher a verdade é fortalecer a democracia.

Eleições 2026 | “LGBTs na política são uma obscenidade”: violência política contra a diversidade em ambientes religiosos

A presença de pessoas LGBTQIA+ em cargos eletivos no Brasil tem sido acompanhada por uma escalada de violência política que transcende o debate de ideias e se ancora em discursos de ódio e desinformação. Expressões como “LGBTs na política são uma obscenidade” circulam em nichos digitais religiosos para provocar pânico moral e deslegitimar mandatos conquistados pelo voto popular. O Bereia analisa nesta matéria como essa violência se estrutura, o papel de lideranças religiosas nesse cenário e a importância dos mecanismos de proteção, como a cartilha do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre violência política de gênero.

O preconceito como ferramenta de exclusão política

A participação política de pessoas LGBTQIA+ é frequentemente alvo de discursos que buscam reduzir mandatos complexos a uma suposta “agenda de costumes” ou “ideologia de gênero”. Essa estratégia de desinformação visa desumanizar parlamentares, sugerindo que sua existência nos espaços de poder seria uma afronta aos valores cristãos. Lideranças religiosas e políticos de frentes conservadoras utilizam-se dessa retórica para inflamar suas bases eleitorais. O uso de termos como “obscenidade” ou “aberração” não é apenas uma ofensa pessoal, mas uma ferramenta política de exclusão que tenta convencer o eleitorado de que certas identidades são incompatíveis com a vida pública.

Um marco importante no combate a essas práticas é a definição de Violência Política de Gênero. Conforme a cartilha do TSE, que o Bereia já divulgou e analisa recorrentemente, essa violência se caracteriza por ações que visam impedir ou restringir os direitos políticos das mulheres e pessoas de gêneros diversos, por meio da imposição da força física ou de poder para causar danos e sofrimento. A legislação brasileira (Lei 14.192/2021) criminaliza condutas que humilhem, desprezem ou discriminem candidatas ou detentoras de mandato em razão do gênero. 

No entanto, parlamentares LGBTQIA+ enfrentam uma camada extra de violência: a transfobia e a homofobia institucionalizadas. Muitas vezes, o ataque não é apenas contra a atuação parlamentar, mas contra o direito básico de ser tratado pelo gênero com o qual se identifica, uma prática comum em sessões legislativas para desestabilizar e deslegitimar essas lideranças.

Casos emblemáticos: do ataque físico à deslegitimação da identidade

A violência política contra LGBTs no Brasil apresenta casos de extrema gravidade. A vereadora de Niterói (RJ) Benny Briolly (PT)  é um dos exemplos mais contundentes. Primeira mulher trans eleita na cidade, Briolly, de identidade religiosa umbandista,  acumula um histórico de agressões verbais e ameaças que a forçaram a sair temporariamente do país para garantir sua integridade física. Em março passado, a parlamentar foi alvo de violência física e hospitalizada após ataques em espaços públicos, evidenciando que a agressividade das redes transborda para o mundo físico.

Imagem: divulgação

Briolly destaca que a LGBTfobia na política se manifesta como uma tentativa de dizer a toda uma população que ela não pertence aos espaços de decisão. Para a vereadora, esse cenário exige um gasto de energia em defesa da própria existência que deveria ser canalizado para o debate de políticas públicas.

Ouvida pelo Bereia, Benny Briolly enfatiza que essa violência não é apenas um ataque individual, mas uma tentativa de silenciar toda uma população, gerando medo e desgaste emocional. No entanto, a vereadora ressalta a importância da representatividade:

“Mas, ao mesmo tempo, nossa presença é um ato de transformação. Cada pessoa LGBTQIA+ eleita rompe uma barreira histórica e mostra que a democracia só é completa quando todas as pessoas têm o direito de participar dela em igualdade de condições. Por isso, enfrentar a LGBTfobia na política não é uma pauta de uma minoria; é defender a própria democracia, o respeito aos direitos humanos e o direito de toda a sociedade de ser representada”. 

Outro caso central é o da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP). Frequentemente atacada com o argumento de que “não é mulher”, Hilton enfrenta a violência política de gênero em sua forma mais crua: a negação da identidade. Ataques similares são dirigidos à deputada de identidade cristã Duda Salabert (PDT-MG), que convive com ameaças de morte constantes propagadas por  grupos extremistas. 

O legado do deputado David Miranda (falecido em 2023) também é um símbolo dessa resistência. Casado com o jornalista Glenn Greenwald, Miranda foi o primeiro vereador LGBT da história da Câmara do Rio e, posteriormente, deputado federal. Sua trajetória foi marcada por uma luta contínua contra ataques que misturavam homofobia com perseguição política, demonstrando como a orientação sexual é usada como arma de arremesso no debate público.

O papel da religião e o discurso fundamentalista

O uso da religião para justificar a violência política é destaque neste acompanhamento do  Bereia. Políticos com identidade religiosa frequentemente apregoam ataques verbais sob o manto da “liberdade de expressão” ou “defesa da fé”. Sobre este tema, o pastor anglicano Reverendo Arthur Cavalcante, que também é cientista da religião, foi ouvido pelo Bereia.  Líder da Paróquia da Santíssima Trindade, em São Paulo, ele   observou que a religião busca participação na esfera pública, mas que, dependendo dos interesses, pode atravancar políticas públicas ao impor valores de crença em detrimento do direito do outro. 

Imagem: SIMpodCRER/Youtube

Cavalcante alerta para o avanço do fundamentalismo, que se apresenta de forma complexa e muitas vezes negocia apoios políticos baseados exclusivamente no voto religioso, ignorando as reais necessidades da população. O reverendo anglicano aponta que lideranças progressistas têm buscado desmontar o discurso do “voto evangélico” monolítico, mostrando que o fiel também está preocupado com questões estruturais do país. Para ele, é urgente que setores das igrejas e movimentos sociais ocupem espaços legislativos onde o fundamentalismo já fincou raízes, garantindo que os direitos conquistados não sejam retrocedidos.

“Diante dessa complexidade, não podemos pôr todos dentro do mesmo cercado. Há possibilidades de diálogos com grupos religiosos mais conservadores que não se reconhecem nas pautas excludentes dos fundamentalistas e nem com os reacionários políticos.  Tenho notado, em alguns discursos de lideranças religiosas progressistas, uma sensibilidade sobre essa população religiosa, começando a desmontar o discurso do ‘voto evangélico’, como se aquele eleitor de fé não estivesse preocupado com a falta de emprego, educação de qualidade, inflação corroendo o seu poder aquisitivo, saneamento básico, acesso à saúde e segurança” conclui Cavalcante.

É fácil concluir que a violência política contra pessoas LGBTQIA+ é alimentada por uma engrenagem de desinformação que utiliza o pânico moral religioso como combustível. A deslegitimação de mandatos trans e homossexuais não é apenas uma questão de “opinião religiosa”, mas um crime previsto em lei que fere os princípios do Estado laico e da democracia brasileira. O combate a essa violência passa pelo fortalecimento das instituições, pela aplicação rigorosa das normas do TSE e pela desconstrução de discursos fundamentalistas que usam o sagrado para promover a exclusão.

Referências

BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Cartilha sobre Violência Política de Gênero.

Cartilla bras  acesso em 02 de julho de 2026

COLETIVO BEREIA. Arquivos cristianismo e violência política

Arquivos violência religiosa – Coletivo Bereia  acesso em 02 de julho de 2026

Brasil de Fato: Vereadora negra e transexual foi atacada

Vereadora Benny Briolly foi atacada nesta terça-feira (19) | Brasil de Fato 

Coletivo Bereia Desinformação: uma das dimensões da violência de gênero  

Desinformação e violência de gênero é tema de cartilha à disposição do público – 

Do altar às urnas: como lideranças religiosas e políticos ocupam os mesmos palcos em períodos eleitorais

A presença de políticos em cultos religiosos, seja em momentos de oração, bênção ou reconhecimento público, tem se tornado cada vez mais frequente no ambiente evangélico brasileiro. Em diferentes denominações e regiões do país, líderes políticos são recebidos em púlpitos, apresentados às congregações e, em alguns casos, associados simbolicamente à autoridade espiritual das lideranças religiosas.

Esse fenômeno, que se intensifica em períodos eleitorais, levanta questionamentos sobre os limites entre liberdade religiosa e uso de espaços de culto como plataforma de projeção política, tema que já foi analisado pela Justiça Eleitoral e por quem pesquisa religião e política.

O que diz a Justiça Eleitoral sobre cultos e campanha

A discussão ganhou novo fôlego a partir de decisões recentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que têm reafirmado o entendimento de que a instrumentalização de templos para promoção eleitoral pode configurar abuso de poder político e econômico.

Como já apontou o próprio órgão em julgamento recente, ao negar recurso de candidatos do município paulista de Votorantim nas eleições de 2024. A Corte reforçou que a utilização de igrejas como ambiente de campanha fere a isonomia eleitoral e compromete a integridade do processo democrático, o que foi noticiado por Bereia em maio passado. 

Os políticos haviam utilizado a estrutura e o altar da Igreja do Evangelho Quadrangular local para pedir votos explicitamente durante um culto. Na ocasião, o pastor declarou que a instituição estava “fechada” com os candidatos e convocando os fiéis a trabalharem pela campanha.

No relatório do ministro Antônio Carlos Ferreira, o TSE reafirma que, embora o “abuso de poder religioso” não constitua uma figura jurídica autônoma na legislação, as condutas que instrumentalizam a fé e a estrutura dos templos configuram abuso de poder político e econômico. A decisão ressaltou que a liberdade religiosa não é absoluta e não pode ser invocada como um salvo-conduto para contornar as normas que garantem a igualdade de condições na disputa eleitoral.

Evangélicos reagem criticamente

Se por um lado as cúpulas partidárias e certas lideranças forçam a entrada da política nas igrejas, por outro, os bancos das congregações dão sinais claros de saturação. Ao contrário do que aponta o senso comum de que o voto religioso é de cabresto, a ampla maioria dos fiéis rejeita o avanço dos palanques sobre os altares. Uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem, da Universidade Federal do Paraná), realizada em 2025, revela que 75% dos evangélicos condenam a realização de campanhas eleitorais dentro dos templos.

O levantamento aponta ainda que a politização escancarada é exceção, não a regra no cotidiano das igrejas. Os dados indicam que 34,1% dos pastores entrevistados afirmaram que lideranças de sua igreja apoiaram algum candidato nas eleições municipais. Embora expressiva, essa proporção mostra que a maior parte do segmento busca preservar o ambiente de culto, mesmo que o índice de engajamento político dos líderes evangélicos seja cerca de duas vezes maior que o registrado entre os católicos (16,9%).

O lugar das Assembleias de Deus

Por ser a maior denominação evangélica do país, com cerca de 13 milhões de seguidores segundo o IBGE, as Assembleias de Deus concentram historicamente o maior assédio de políticos interessados em sua capilaridade. A trajetória do ex-deputado federal Eduardo Cunha (Republicanos-MG) ilustra de forma nítida essa dinâmica. Originalmente membro da igreja Sara Nossa Terra, que contava com pouco mais de 1 milhão de fiéis, Cunha migrou estrategicamente para as Assembleias de Deus para expandir suas bases no Rio de Janeiro. Em um dos episódios gravados na Catedral das Assembleias de Deus em Santa Cruz, o pastor local o apresentou formalmente como o “candidato oficial da nossa convenção”, o que o ajudou a se consagrar como o terceiro deputado mais votado do estado. Em 2024, ao participar do culto que marcou o centenário das igrejas Assembleias de Deus, no Rio de Janeiro, o deputado foi vaiado.

A tradição de abrir as portas para o poder político é personificada hoje pelo pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC). O trânsito de Malafaia entre diferentes forças políticas é antigo: em 2014, a inauguração da nova sede de sua igreja reuniu no mesmo altar nomes como Lindbergh Farias (PT), Eduardo Paes (PSD) e Luiz Fernando Pezão (PMDB). Na época, o respaldo litúrgico de Malafaia funcionou como um verdadeiro “escudo eleitoral” para Pezão concorrer no segundo turno para o governo do Estado do Rio contra Marcelo Crivella (Republicanos). Isto mostrou ao eleitorado tradicional que o candidato do PMDB não possuía hostilidade contra os evangélicos em geral, mas apenas contra a cúpula da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), da qual fazia parte seu concorrente direto.

Desde a campanha eleitoral de 2018, Silas Malafaia abandonou a diversidade e estreitou laços com a família Bolsonaro e partidos da extrema direita. Em maio deste ano, um culto que reuniu o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o ex-governador Cláudio Castro (PL-RJ) e os deputados Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), Malafaia convocou os membros da igreja a estenderem as mãos em direção aos políticos. Proferindo uma oração que pedia “bênção e vitória” nas urnas, o pastor aproveitou o momento sagrado para tecer duras críticas ao governo federal e ao Poder Judiciário, atacando nominalmente o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

Imagem: Reprodução Instagram

O caso da Igreja Batista Atitude

Outro reduto político importante no Rio de Janeiro, neste caso com apoio voltado para a família Bolsonaro, é a Igreja Batista Atitude, liderada pelo pastor Josué Valandro Jr. A congregação, frequentada pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, costuma receber autoridades públicas para momentos de oração. Durante o período em que esteve na Presidência da República (2019-2022), o próprio Jair Bolsonaro participava, com frequência, dos cultos na sede da igreja no bairro da Barra da Tijuca, recebendo, no altar, orações públicas conduzidas pelo pastor.

A atuação de Valandro Jr., no entanto, ultrapassa as preces e assume contornos de blindagem política. O pastor saiu em defesa do pré-candidato à Presidência da República pelo PL Flávio Bolsonaro, após o vazamento de áudios que revelaram o envolvimento do senador com repasses de altos valores em dólares pelo empresário preso por corrupção Daniel Vorcaro. Em suas declarações para a comunidade, o líder religioso afirmou não ver indícios de crime no episódio, criticou o que chamou de distorções políticas da esquerda contra a direita e defendeu que os recursos tratados na conversa eram de natureza puramente privada, legitimando a conduta de Flávio Bolsonaro perante os fiéis.

Imagem: Reprodução do site da revista Comunhão

A postura da Igreja Mundial

Na disputa por espaço e influência com suas concorrentes, a Igreja Mundial do Poder de Deus, liderada pelo apóstolo Valdemiro Santiago, ex-bispo da IURD, também desenha suas alianças políticas. Se no passado a denominação deu sustentação à candidatura de Luiz Fernando Pezão para fazer contraponto à IURD, hoje, ela serve de abrigo para a ressurreição política de Eduardo Cunha, que historicamente mantém forte presença em ambientes evangélicos e articulação com diferentes lideranças religiosas. 

O ex-deputado e ex-presidente Câmara Federal esteve preso de outubro de 2016 até março de 2020, devido a escândalos de corrupção. Depois de obter o direito a prisão domiciliar, Cunha obteve decisões favoráveis no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná), em 2022, para a retirada de tornozeleira eletrônica e teve condenações anuladas pelo STF, além de conseguir a suspensão de sua inelegibilidade pelo TRF-1 (Brasília e mais 13 estados brasileiros: Acre, Amapá, Amazonas, Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Piauí, Rondônia, Roraima e Tocantins).

Cunha fixou residência em Belo Horizonte (MG),  com o objetivo de construir uma nova base eleitoral para as eleições de 2026, tendo se filiado ao Republicanos e passado a frequentar os cultos da Igreja Mundial como base. A filha, a deputada federal Daniela Cunha (PL-RJ), tem visitado as igrejas da denominação com certa frequência. 

Imagem:Reprodução/Instagram

Em abril de 2025, no culto realizado em Araxá (MG), Cunha sentou-se ao lado do apóstolo Valdemiro Santiago no palco principal. O líder tomou a palavra para elogiá-lo explicitamente, chamando-o de “eterno deputado” e afirmando que ele foi “um dos melhores que já viu”, justificando que as decisões tomadas por Cunha na presidência da Câmara foram fundamentais para a nação, apesar do sofrimento que lhe custaram. Pouco tempo depois, a cena de legitimação se repetiu na sede da igreja no Brás, em São Paulo, onde Cunha dividiu o altar com o apóstolo e com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), consolidando sua reinserção no meio evangélico.

Imagem: Reprodução site da Revista Liberta

A posição da Igreja Internacional da Graça de Deus

Não é apenas na igreja do apóstolo Valdemiro que Eduardo Cunha encontra abertura. Na Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD), liderada pelo missionário R. R. Soares, a fusão entre liderança eclesiástica e representação parlamentar ganha contornos de um modelo corporativo e familiar, servindo também de palco para consolidar suas alianças. 

O ex-deputado estendeu sua rede de influência a R.R. Soares por meio de um expressivo acordo comercial e de comunicação: Cunha cedeu horários em suas novas emissoras de rádio no interior de Minas Gerais para a transmissão da programação religiosa da denominação. O arranjo foi celebrado e declarado abertamente pelo próprio missionário durante um culto na sede de Belo Horizonte, chancelando a proximidade e o apoio mútuo entre a instituição e o político no estado. 

Imagem: Reprodução vídeo YouTube

A prática de aproximar a gestão pública dos interesses da igreja é rotina na IIGD, onde o R. R. R. Soares costuma apresentar políticos aliados diretamente no púlpito. Foi o que aconteceu na inauguração do grande templo de Sorocaba (SP), quando as lideranças pastorais chamaram à frente o prefeito Rodrigo Manga (Republicanos), referindo-se a ele como um “obreiro de Deus” que realizava um trabalho excelente na cidade. Manga, figura central no meio evangélico local, chegou a ser afastado do cargo pela Operação Cópia e Cola da Polícia Federal, por suspeitas de desvios na área da saúde. O prefeito de Sorocaba, porém, retornou ao posto graças a uma liminar impetrada no STF e concedida pelo ministro do STF Kassio Nunes Marques. 

Imagem: Reprodução YouTube

Para além do apoio a aliados externos como Cunha e Manga, R.R. Soares utiliza a estrutura e a capilaridade da denominação para promover a carreira de seus próprios filhos, transformando o rebanho em uma base eleitoral sólida e hereditária. Adotando o slogan “Mesmo sangue, mesma fé e mesmo amor”, o televangelista legitima religiosamente os mandatos de sua família. 

A estratégia tem garantido o sucesso nas urnas de David (Podemos-SP) e Marcos Soares (PSDB-SP) como deputados federais, além de Filipe e Daniel Soares como deputados estaduais no Rio de Janeiro (PSDB) e em São Paulo (União), respectivamente. O único filho fora do parlamento atualmente é André Soares (União), que não conseguiu se reeleger após cumprir três mandatos na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). 

Imagem: Reprodução do site Ongrace.com

O espaço da IURD

Com grande destaque no espaço público, Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) opera a política sob uma lógica de centralização institucional e rígida disciplina de voto. Fundada pelo bispo Edir Macedo, a denominação foi pioneira na criação de um projeto oficial de poder, ocupando um partido político, antes o Partido Republicano do Brasil (PRB), hoje Republicanos. A IURD elege bancadas expressivas na Câmara Federal ao utilizar a estrutura de seus templos, da Rede Record de TV e da Rede Aleluia de Rádio como catalisadores eleitorais.  

A expressão máxima desse projeto é o bispo licenciado e deputado federal Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), ex-prefeito do Rio de Janeiro (2013-2016). Sua gestão na Prefeitura ficou marcada pelo tensionamento entre o dever público e os interesses da denominação, cujo ápice foi o escândalo em torno de uma reunião secreta no Palácio da Cidade. Na ocasião, em áudio vazado, Crivella ofereceu a pastores facilidades em cirurgias de catarata e no IPTU de templos, cunhando o famoso jargão: “É só falar com a Márcia”.  

Políticos em contraponto

Em contraposição à exposição frequente dos candidatos nos altares, o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva tem adotado uma postura de maior distanciamento de palanques religiosos durante períodos de campanha eleitoral. Embora tenha frequentado templos ao longo de seus mais de 50 anos de vida pública, o católico Lula hoje defende enfaticamente a separação entre Igreja e Estado. O presidente tem reiterado em seus discursos que a fé constitui um momento de conexão sagrada e intimidade do cidadão, e que não deve ser explorada politicamente para a obtenção de votos. 

Como reflexo prático desse posicionamento, Lula ausentou-se do evento evangélico conduzido pela Igreja Renascer em Cristo Marcha para Jesus, em São Paulo. Ele justificou  que preferia não transformar um encontro de natureza estritamente espiritual em palco para disputas partidárias, buscando preservar o respeito à fé dos fiéis.

Imagem: reprodução/Itatiaia

Esse posicionamento encontra eco direto na atuação do deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ). O líder religioso e parlamentar de esquerda manifesta, reiteradamente, em publicações em suas contas nas redes digitais, e em entrevistas que concede à imprensa, um cansaço compartilhado por muitos fiéis que não aceitam ver a mensagem bíblica ser instrumentalizada por projetos personalistas de poder. Vieira enfatiza que o debate público faz parte da caminhada cristã, mas repudia veementemente o controle do voto por meio do constrangimento espiritual.

“Não é sobre tirar o debate público da fé, é sobre impedir que a autoridade espiritual seja usada para controlar voto, punir divergência e transformar culto em comitê”, defende o deputado. Para ele, o papel da igreja deve ser o de zelar pela consciência crítica e pela democracia, mantendo uma distância saudável da idolatria partidária. “A Igreja não é espaço de manipulação. A fé precisa ser espaço de consciência, liberdade, justiça e bem comum, não de idolatria ao poder”.

Somando-se a essa convergência, está a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), parlamentar histórica com trajetória consolidada na defesa dos direitos sociais e evangélica presbiteriana. Ela tem atuado como um elo central na denúncia contra o pragmatismo eleitoral baseado na fé. 

Benedita da Silva, que vivencia o ambiente religioso muito antes da atual onda de polarização política, desde que foi membro das Assembleias de Deus, argumenta que o papel do cristianismo nos espaços institucionais deve se pautar na promoção da dignidade humana e da justiça, e nunca no sequestro da consciência dos fiéis para benefícios individuais de poder. 

Ao abordar o tema em pronunciamento em fevereiro deste 2026, em sua conta oficial no Instagram, a deputada pontuou de forma contundente. “A fé que eu aprendi no evangelho não anda de mãos dadas com a mentira, porque a mentira aprisiona. Como irmã, eu te peço: não entregue sua fé a quem quer usar o nome de Deus por interesses políticos e eleitorais. Olhe para os frutos. Fé de verdade não se usa, fé de verdade se vive.” A parlamentar reforça que a manipulação do sentimento religioso desidrata o debate democrático e degrada a própria espiritualidade, devendo os fiéis rejeitar candidatos que reduzem a sacralidade do altar a um balcão de negócios por votos. 

Essa postura de preservação do espaço sagrado também ganha contornos dentro do próprio campo da direita conservadora, evidenciando que o desgaste com a partidarização da fé ultrapassa fronteiras ideológicas. Exemplo disso é o posicionamento do deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ). Pastor evangélico e declaradamente de direita, o parlamentar rompeu com o discurso radical ao contestar publicamente a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que afirmou em um culto sofrer perseguição religiosa e ter seu “culto doméstico cerceado”. Ao rebater a narrativa de Michelle Bolsonaro, o deputado classificou a tese de “guerra espiritual” como puro oportunismo político. “É uma narrativa falaciosa, mentirosa, oportunista e para autoproteção essa de que nós estamos diante de uma guerra religiosa. Eu sou a única voz a estar nesse contraponto com eles, única voz dissonante. Porque não quero que levem a igreja para essa vala comum”, declarou.

Para ele, o uso de discursos vitimistas nos altares serve apenas como blindagem para lideranças políticas, rebaixando a fé dos fiéis e a instituição religiosa ao papel de escudo partidário.

O impacto simbólico dos púlpitos e a resistência nas igrejas

A presença de candidatos e lideranças políticas nos púlpitos não produz apenas efeitos eleitorais. Para especialistas que estudam as relações entre religião e política, a prática mobiliza símbolos centrais da experiência religiosa e pode gerar tensões dentro das próprias comunidades de fé.

A pesquisadora em Comunicação, Política e Religiões e editora-geral do Coletivo Bereia Magali Cunha destaca que o altar ocupa um lugar de forte significado para quem participa de uma celebração religiosa. Segundo ela, quando um político é apresentado, homenageado ou abençoado nesse espaço, a mensagem transmitida ultrapassa o gesto protocolar. “Os púlpitos estão em altares, e o altar é uma simbologia muito forte. É o lugar onde se professam os sacramentos, a pregação, as orações de onde parte a ação de culto, a ação celebrativa que envolve a fé coletiva daquelas pessoas”, explica.

Para a pesquisadora, a autoridade simbólica das lideranças religiosas confere peso adicional a esse tipo de exposição pública. Pastores, padres e demais líderes costumam ser reconhecidos por suas comunidades como referências espirituais e morais, o que faz com que manifestações de apoio político produzam impactos que vão além do campo partidário.

Ao mesmo tempo, a pesquisadora ressalta que os frequentadores das igrejas não recebem essas mensagens de forma passiva. Segundo ela, o que foi confirmado na pesquisa da Universidade Federal do Paraná, cresce entre evangélicos a resistência ao uso dos espaços de culto para promoção de projetos políticos específicos. “As pessoas estão cada vez mais críticas nas igrejas a esse abuso religioso de forçar uma relação da fé com personagens específicos. Fere uma ética comunitária, porque não diz respeito a um pastor ou pastora na condução de uma comunidade definir voto de ninguém”, aponta.

Os limites legais e o entendimento da Justiça Eleitoral

Enquanto o debate ético avança dentro das próprias comunidades de fé, a Justiça Eleitoral vem consolidando parâmetros cada vez mais rígidos sobre a participação de candidatos em templos durante períodos eleitorais.

Como mostrou reportagem publicada pelo Bereia, o TSE reafirmou, em maio de 2026, o entendimento de que a utilização de igrejas para promoção eleitoral configura abuso de poder e pode resultar em cassação de mandatos e inelegibilidade. A matéria do Bereia Explica sobre abuso de poder religioso também traz informações sobre a posição da Corte.

Bereia ouviu o professor de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais Alexandre Bahia sobre os casos. Ele explica que a legislação proíbe tanto a propaganda eleitoral quanto a propaganda antecipada em templos religiosos, classificados pela Lei das Eleições como bens de uso comum.

Segundo o jurista, a simples presença de políticos em celebrações religiosas não constitui irregularidade. O problema surge quando o culto é transformado em espaço de promoção eleitoral. “A justiça eleitoral tem certamente uma dificuldade para localizar, em alguns casos, porque não é proibido para pessoas que estão na política frequentar cultos. Mas o que não pode acontecer é a transformação do culto em um palanque, em que seja dada palavra ao líder político ou ao candidato para falar sobre propostas, ou que o líder religioso aponte aquela pessoa como sendo alguém em quem os fiéis devem votar”, explica.

De acordo com Bahia, a irregularidade não se limita ao pedido explícito de votos. A Justiça Eleitoral também pode considerar abusivas situações em que o ambiente de culto é utilizado para promover uma candidatura ou associar determinado político à autoridade religiosa da liderança que conduz a celebração. “Discursos políticos durante a realização da reunião religiosa, qualquer associação de um candidato com a vontade de Deus, ou algo assim, pode inclusive configurar abuso de autoridade por parte do líder religioso”, garante o professor.

O jurista ressalta ainda que as consequências podem ser severas. “As propagandas irregulares têm possibilidade de multa por parte da Justiça Eleitoral e, se configurar abuso de poder político ou abuso de poder econômico, isso pode levar à cassação do registro da candidatura. Se ele já tiver sido eleito, esses fatos podem configurar causa de perda do mandato e inclusive inelegibilidade por oito anos”, completa.

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A linha que separa o exercício legítimo da cidadania e da fé da instrumentalização política dos altares tornou-se um dos terrenos mais vigiados da democracia brasileira. Os dados sociológicos e as manifestações de resistência interna revelam que a grande maioria dos fiéis repudia a transformação dos cultos em comitês eleitorais, exigindo que o espaço sagrado permaneça ético e focado em sua missão espiritual.

Ao mesmo tempo, as decisões recentes e unânimes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mandam um recado claro a candidatos e lideranças eclesiásticas: a liberdade religiosa não é um salvo-conduto para burlar a legislação. A integridade do voto e a igualdade entre os concorrentes continuam sendo os pilares soberanos do processo eleitoral, e o uso abusivo do púlpito como palanque será punido com o rigor da cassação e da inelegibilidade.

Referências

Consultor Jurídico

https://www.conjur.com.br/2026-mai-20/uso-de-igreja-para-promover-candidatos-e-abuso-de-poder-diz-tse/ – Acesso em 22 jun. 2026

Coletivo Bereia https://coletivobereia.com.br/justica-eleitoral-decide-campanha-por-votos-em-templos-religiosos-e-abuso-de-poder-e-e-crime-eleitoral/ – Acesso em 22 jun. 2026

Folha de S.Paulo 

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/03/cada-vez-mais-disputados-evangelicos-rejeitam-campanha-nos-pulpitos.shtml – Acesso em 22 jun. 2026

Instagram – Pastor Henrique Vieira

https://www.instagram.com/reel/DX61-dgO4Ge/ – Acesso em 22 jun. 2026

Senado Federal (reprodução de reportagem do Estadão) 

https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/513754/noticia.html – Acesso em 22 jun. 2026

UOL Notícias 

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2024/06/30/eduardo-cunha-e-vaiado-durante-culto-da-assembleia-de-deus-no-rio-veja.htm – Acesso em 22 jun. 2026

O Globo https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2025/05/11/biblia-boi-e-bola-cunha-mira-mg-e-investe-em-estacoes-de-radio-time-de-futebol-e-visitas-a-igreja-e-leilao-de-gado.ghtml – Acesso em 22 jun. 2026

Vai na Fonte 

https://vainafonte.ig.com.br/2025-02-12/eduardo-cunha-comprou-predio-bh-e-candidato-a-deputado-por-mg.html – Acesso em 22 jun. 2026

O Dia 

https://odia.ig.com.br/noticia/brasil/2014-04-06/pezao-e-lindbergh-vao-a-inauguracao-de-templo-de-silas-malafaia.html – Acesso em 22 jun. 2026

Tempo Real RJ 

https://temporealrj.com/malafaia-ora-douglas-ruas-bolsonaro-rio/ – Acesso em 22 jun. 2026

Veja

https://veja.abril.com.br/brasil/a-rapida-expansao-da-igreja-que-virou-parada-obrigatoria-para-politicos-do-rio/ – Acesso em 22 jun. 2026

https://vejario.abril.com.br/cidade/pastor-familia-bolsonaro/ – Acesso em 22 jun. 2026

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https://www.youtube.com/watch?v=t1RHba1cznc – Acesso em 22 jun. 2026

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https://iclnoticias.com.br/em-defesa-da-minha-familia-tradicional/ – Acesso em 22 jun. 2026

Comunhão 

https://comunhao.com.br/pastor-defende-flavio-apos-audio/ – Acesso em 22 jun. 2026

Tribunal Superior Eleitoral (TSE) 

https://www.tse.jus.br – Acesso em 22 jun. 2026

Ministério Público Eleitoral (MPE) 

https://www.mpf.mp.br/pge – Acesso em 22 jun. 2026

Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3)

https://www.trf3.jus.br – Acesso em 22 jun. 2026

G1 Sorocaba e Jundiaí

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/ – Acesso em 22 jun. 2026

Veja

https://veja.abril.com.br/coluna/marcela-rahal/deputado-da-frente-evangelica-fala-sobre-polarizacao-na-eleicao-da-bancada

Justiça Eleitoral decide: campanha por votos em templos religiosos é abuso de poder e crime eleitoral

O ano eleitoral começou com força total e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que acaba de realizar a transição de sua presidência, assumida pelo ministro Kássio Nunes Marques, também iniciou o ciclo com intensa atividade. Uma das frentes prioritárias é o enfrentamento ao uso dos templos religiosos para fins eleitorais, o que é marcado pelas situações em que púlpitos são transformados em palanques políticos. 

Por isso, o TSE consolidou, em 21 de maio, por unanimidade, sua atuação firme no impedimento do abuso de poder político e econômico no contexto religioso durante períodos eleitorais. Ao negar recurso de candidatos das eleições de 2024, em Votorantim (SP), condenados pelo Tribunal Eleitoral Regional de São Paulo (TRE-SP), a Corte reafirmou que a instrumentalização de templos e da autoridade de líderes religiosos para promoção eleitoral fere os princípios democráticos de igualdade entre os concorrentes.

O TRE-SP havia condenado e cassado a candidatura, com inelegibilidade de oito anos, da prefeita, do vice-prefeito, do PSDB, e de um vereador do MDB, que haviam usado a estrutura da Igreja do Evangelho Quadrangular para, durante um culto pedir votos. Na ocasião o pastor havia declarado: “A Igreja Quadrangular aqui de Votorantim, nós estamos fechados com o pastor Lilo (o vereador)”. Além disso, o culto foi usado para uma convocação aos fiéis para a votação: “A partir do dia 16, nós vamos trabalhar muito”.

Imagem: reprodução

A decisão de negar o recurso, relatada pelo ministro do TSE Antônio Carlos Ferreira, destaca o peso institucional do Tribunal ao aplicar a jurisprudência estabelecida desde 2020. O entendimento da Corte é que, embora não exista a figura jurídica autônoma do “abuso de poder religioso”, a utilização de espaços de culto como plataforma eleitoral configura desvio de finalidade passível de punição pelas leis vigentes.

A decisão ressalta que a liberdade religiosa não é absoluta e não pode ser invocada para contornar normas eleitorais. No caso analisado, o TSE identificou que a exposição de candidatos no altar e a convocação de fiéis para mobilização política desvirtuaram o caráter espiritual do evento. Além disso, a Corte demonstrou rigor ao analisar indícios de abuso econômicos relacionados a contratos entre a gestão municipal e a instituição religiosa, reforçando o papel do Tribunal como guardião da integridade das eleições.

Com esta decisão, o TSE reafirma um precedente importante para o sistema eleitoral brasileiro, sinalizando que a instituição agirá com prontidão para garantir que a estrutura religiosa não seja utilizada como ferramenta de desequilíbrio democrático.

Como denunciar

Os melhores caminhos para denúncias sobre abuso de poder podem ser consultadas nos
canais oficiais do TSE:

Para crimes eleitorais, o TSE orienta o contato com as autoridades policiais, ao
Ministério Público Eleitoral(MPE) ou à autoridade judiciária da zona eleitoral onde
verificou-se a infração; para identificar o contato das zonas eleitorais, o cidadão
pode acessar a página do Tribunal Regional Eleitoral da respectiva Unidade
Federativa;

Para registrar uma denúncia no MPE, o cidadão deve ter uma conta na plataforma
gov.br. O protocolo consiste no preenchimento de um formulário e o ideal é que na
denúncia sejam anexados documentos que sirvam como prova da infração;

Também é possível tirar dúvidas através da ouvidoria do TSE. Para demandas que
não envolvem dados pessoais, a ouvidoria fica disponível presencialmente na sede
do TSE ou pelos telefones: 0800 648 0005 e (61) 3030-8700.


Referências:

Consultor Jurídico 

https://www.conjur.com.br/2026-mai-20/uso-de-igreja-para-promover-candidatos-e-abuso-de-poder-diz-tse/ Acesso em 21 mai 2026

UOL Notícias, 

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/05/21/tse-torna-candidatos-em-sp-inelegiveis-por-usar-igreja-para-se-promover.htm Acesso em 21 mai 2026

Religião no cenário pré-eleitoral: um olhar sobre a pesquisa Atlas/Bloomberg de julho 2025

A mais recente edição da pesquisa Latam Pulse, realizada pela AtlasIntel em parceria com a Bloomberg, revela uma mudança significativa no cenário pré-eleitoral brasileiro. Entre maio e julho de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ultrapassou Jair Bolsonaro (PL) nas intenções de voto para a presidência, apesar de o ex-presidente constar na lista dos institutos de pesquisas mesmo estando inelegível, depois de condenado em processo no Tribunal Superior Eleitoral.

Na pesquisa de maio, Bolsonaro aparecia à frente com 46,7%, contra 43,9% de Lula. Dois meses depois, Lula assumiu a dianteira, alcançando 47,8%, enquanto Bolsonaro oscilou para 44,2%. A virada se dá fora da margem de erro, que é de um ponto percentual, e reflete um reposicionamento do eleitorado em diferentes segmentos.

Imagem: Coletivo Bereia

O recorte por religião é um dos principais destaques desse movimento. Entre os evangélicos, Bolsonaro mantinha em maio um amplo domínio, com 65,6%, enquanto Lula registrava apenas 27,2%. Na pesquisa de julho, Bolsonaro oscilou três décimos positivamente, para 65,9%, mas Lula subiu dois pontos e meio, para 29,7%, o que indica um avançado pela preferência no atual presidente nesse segmento historicamente mais resistente ao seu nome.

Imagem: Coletivo Bereia 

Entre os católicos, Lula ampliou sua vantagem. Em maio, ele tinha 46,2%, contra 44,5% de Bolsonaro. Já em julho, a diferença aumentou: Lula passou a 51,7% em preferência, enquanto Bolsonaro caiu para 41,1%. 

A análise dos demais cenários testados pela pesquisa AtlasIntel/Bloomberg de julho passado confirma a vantagen de Lula no primeiro turno. Contra o governador Tarcísio de Freitas (PL), Lula tem 48,5% contra 33%; contra Michelle Bolsonaro (PL), o placar é de 48,5% a 29,7% para o atual presidente da República.

Em eventual segundo turno, a vantagem também é mantida: Lula venceria Tarcísio por 50,4% a 46,6%, Michelle por 50,6% a 45,9% e Bolsonaro (inelegível) por 50,1% a 46,3%.

Aprovação de governo e avaliação de desempenho

A mudança nas intenções de voto também se espelha nos índices de aprovação do governo. Segundo a pesquisa de julho, 50,2% dos brasileiros aprovam o desempenho do presidente Lula, enquanto 49,7% desaprovam e apenas 0,2% não souberam ou não responderam. Quando o recorte é feito por religião, as diferenças se acentuam:

  • Católicos: 52,8% aprovam / 47,1% desaprovam
  • Evangélicos: 30,4% aprovam / 69,3% desaprovam
  • Crentes sem religião: 51,1% aprovam / 48,9% desaprovam
  • Agnósticos ou ateus: 75,5% aprovam / 23,5% desaprovam
  • Outras religiões: 64,5% aprovam / 35,5% desaprovam

Imagem: Coletivo Bereia 

Na avaliação do governo Lula de forma geral (sem considerar apenas a figura do presidente), 46,6% dos brasileiros classificam a gestão como “ótima ou boa”, enquanto 48,2% consideram “ruim ou péssima”, e 5,1% avaliam como regular. Entre os evangélicos, apenas 29,8% avaliam positivamente, enquanto 69,1% classificam como ruim ou péssima. 

Ao comparar os dados de maio e julho no cenário de primeiro turno contra Bolsonaro, é possível identificar que a mudança positiva pró-Lula se deu principalmente pelo aumento da sua aprovação entre católicos, que passaram de 47,1% para 52,8%, e entre outros grupos religiosos, onde Lula também avançou. 

Já entre os evangélicos, a oscilação foi pequena, mas significativa: Lula subiu de 27,2% para 29,7%. Estes dados apontam para novas avaliações de eleitores religiosos.

Alinhamentos internacionais e corte religioso

A pesquisa de Atlas Intel / Bloomberg de junho também investigou as preferências do eleitorado brasileiro em relação aos alinhamentos internacionais do país. Para 44,2% dos entrevistados, o Brasil deveria se alinhar mais com os BRICS, enquanto 36,9% preferem os Estados Unidos.

Imagem: Coletivo Bereia 

 O recorte religioso revela posicionamentos bem distintos:

  • Evangélicos: 50,8% preferem os EUA / 28,1% preferem os BRICS
  • Católicos: 45,7% BRICS / 33,1% EUA
  • Crentes sem religião: 52,6% BRICS / 35% EUA
  • Agnósticos ou ateus: 77,6% BRICS / 14% EUA
  • Outras religiões: 49,2% BRICS / 32,7% EUA


Imagem: Coletivo Bereia

Os dados revelam que, assim como no comportamento eleitoral, os evangélicos formam o principal núcleo de apoio a uma política externa mais alinhada aos Estados Unidos, enquanto os demais segmentos tendem a apoiar a aproximação com os BRICS — articulação do Brasil com Rússia, Índia, China e África do Sul,  priorizada no governo Lula.

Religião e polarização social

A religião como fator preponderante nas divisões políticas nacionais já havia sido apontada na edição de fevereiro de 2025 da pesquisa Latam Pulse, realizada pela AtlasIntel em parceria com a Bloomberg. Segundo o Índice de Polarização Social (Atlas-SPI), o Brasil liderava a América Latina em grau de polarização, com pontuação 60 em uma escala de 0 a 100. Segundo o Índice de Polarização Social (Atlas-SPI), o Brasil lidera, dentre os países analisados, em grau de polarização, com pontuação 60 em uma escala de 0 a 100. 

Imagem:  Latam Pulse Atlas & Bloomberg 02/2025 

Entre os cinco vetores avaliados — polarização política, de classe, étnica, religiosa e urbano-rural — a dimensão religiosa surge como um dos focos de tensão mais perceptíveis: 55% dos brasileiros identificam conflitos entre grupos de diferentes crenças, sendo que 39% consideram esse conflito “muito forte”. 

Imagem:  Latam Pulse Atlas & Bloomberg 02/2025 

A inclusão da fé como uma das dimensões do índice evidencia o quanto a religião tem sido instrumentalizada no Brasil contemporâneo, deixando de ser apenas uma expressão espiritual ou comunitária para se transformar em elemento ativo de disputa política e cultural. Essa reconfiguração tem impactos concretos sobre a coesão social, pois amplia antagonismos, fomenta ressentimentos e dificulta o diálogo entre diferentes grupos da sociedade.

A emergência da religião como vetor central da polarização ajuda a explicar tanto a importância estratégica do eleitorado evangélico nas eleições quanto às variações nos índices de apoio ao governo Lula observadas nos diferentes recortes religiosos. Em um cenário onde fé e política se entrelaçam de maneira cada vez mais explícita, compreender essas dinâmicas torna-se essencial para antecipar tensões e disputas futuras.

Referências:

Atlas Intel Latam Pulse: Brasil | Julho de 2025: https://atlasintel.org/poll/latam-pulse-brazil-july-2025-07-31 

Atlas Intel Latam Pulse: Brasil | Maio de 2025: https://atlasintel.org/poll/latam-pulse-brazil-may-2025-2025-05-30 Atlas Intel Latam Pulse: Brasil |Fevereiro de 2025 https://www.atlasintel.org/poll/latam-pulse-brazil-february-2025-2025-02-07