Ataques ao eleitorado nordestino se repetem desde 2014 e reforçam violência política e desinformação 

Desde as eleições presidenciais de 2014, o eleitorado nordestino passou a ser alvo recorrente de discursos xenófobos que buscam deslegitimar sua participação política. Sempre que o resultado das urnas contraria determinados grupos, voltam a circular nas redes digitais mensagens que atribuem aos nordestinos a responsabilidade pela eleição do presidente da República, acompanhadas de afirmações como “nordestino não sabe votar”, “vive de Bolsa Família” ou “vende o voto”. Em 2026, às vésperas de mais um processo eleitoral, esse tipo de conteúdo voltou a ganhar força nas plataformas digitais. O Bereia investigou como esses casos se consolidaram ao longo da última década.

A origem do discurso 

Os ataques ao eleitorado nordestino ganharam força após o segundo turno das eleições presidenciais de 2014, quando a então presidente Dilma Rousseff (PT) se saiu vitoriosa. Embora a candidata tenha recebido votos em todas as regiões do país, seu desempenho expressivo no Nordeste passou a ser apontado por usuários das redes digitais como a principal explicação para o resultado das urnas. A partir daquele momento, multiplicaram-se publicações que responsabilizavam a população nordestina pelos rumos políticos do país e associavam seus eleitores à ignorância, à dependência de programas sociais e à suposta incapacidade de exercer o voto de forma consciente. 

Imagens: Recortes de mensagens ofensivas contra nordestinos publicadas no antigo Twitter (atual X) após as eleições de 2014. Fonte: Terra.

Nos dias seguintes à divulgação do resultado eleitoral, plataformas como Twitter (atual X) e Facebook registraram uma onda de manifestações preconceituosas contra nordestinos. A SaferNet Brasil, organização que monitora violações de direitos humanos na internet, recebeu mais de 400 denúncias de conteúdos com ataques à população da região logo após a confirmação da vitória de Dilma Rousseff. Entre as publicações havia insultos, discursos de exclusão e até propostas de separação do Nordeste do restante do país. As mensagens revelavam que a insatisfação com o resultado das urnas havia se convertido em manifestações de xenofobia regional. 

Imagem: Recortes de mensagens ofensivas contra nordestinos publicadas no antigo Twitter (atual X) após as eleições de 2014. Fonte: Terra. 

Desde então, esse tipo de discurso passou a se repetir a cada eleição presidencial. O conteúdo das mensagens mudou pouco ao longo dos anos: variam os personagens e o contexto político, mas permanecem as tentativas de responsabilizar o eleitorado nordestino pelos resultados das urnas. As publicações costumam associar a região à pobreza, ao assistencialismo, ao atraso econômico e à falta de discernimento político, além de reforçar estereótipos históricos, o que coloca como suspeita a legitimidade do voto de milhões de brasileiros.

Nas eleições de 2018, após o primeiro turno, voltaram a circular mensagens que classificavam os nordestinos como “burros”, “analfabetos”, “preguiçosos” e “dependentes do Bolsa Família”. Os dados da SaferNet Brasil mostram que a intensificação desses discursos acompanha os períodos eleitorais. Em 2018, ano da eleição de Jair Bolsonaro (PSL), as denúncias de conteúdos xenófobos cresceram 595,5% em relação ao ano anterior. Foram registradas 9.703 denúncias, ante 1.395 em 2017, o que demonstra uma escalada dos ataques direcionados, sobretudo, à população nordestina. 

O mesmo padrão se repetiu nas eleições de 2022. Durante a apuração do primeiro turno, apoiadores do então presidente Jair Bolsonaro (agora no PL) passaram a compartilhar postagens em grupos de WhatsApp e nas redes digitais que responsabilizavam o Nordeste pela vantagem obtida por Luiz Inácio Lula da Silva (PT)  na região. Entre as ofensas mais recorrentes estavam expressões como “imbecis”, “jumentos”, “burros”, “miseráveis” e “ingratos”. As mensagens começaram a circular ainda durante a contagem dos votos e se intensificaram à medida que Lula assumia a liderança da disputa nacional. 

Os dados confirmam que esse comportamento não constitui um episódio isolado. Uma pesquisa desenvolvida pelo grupo Interfaces, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), analisou 282 milhões de publicações feitas no antigo Twitter entre julho e dezembro de 2022. O estudo identificou um aumento de 821% nos discursos xenófobos contra nordestinos durante o período eleitoral. À medida que a eleição se aproximava, palavras de conotação depreciativa passaram a aparecer com maior frequência ao lado do termo “nordestino”, e as menções à região triplicaram em outubro, mês em que ocorreram os dois turnos da disputa presidencial. 

Os resultados corroboram os registros da SaferNet Brasil. De acordo com a organização, 2022 foi o terceiro processo eleitoral consecutivo marcado por crescimento expressivo dos crimes de ódio na internet. As denúncias de xenofobia passaram de 1.097, em 2021, para 10.686, em 2022, um aumento de 874%. Além da xenofobia, também houve crescimento dos registros de intolerância religiosa e misoginia, o que deixa explícito como períodos eleitorais favorecem a intensificação de discursos discriminatórios nas plataformas digitais. 

Ao longo desse período, outra estratégia ganhou força nas redes: a divulgação de mapas eleitorais que destacavam o Nordeste na cor vermelha para representar a votação majoritária no Partido dos Trabalhadores (PT). Compartilhadas sem qualquer contextualização, essas imagens passaram a sustentar a falsa informação de que a região seria responsável, sozinha, pela eleição do presidente da República. Na realidade, nenhum estado ou região tem votos suficientes para decidir isoladamente uma eleição presidencial. O presidente é eleito pela soma dos votos válidos de todo o país, e todos os candidatos eleitos recebem apoio em diferentes regiões, ainda que apresentem desempenhos distintos entre os estados.

O que é violência política?

Os ataques dirigidos aos nordestinos durante os períodos eleitorais não se resumem a manifestações de preconceito regional. Ao questionar a legitimidade do voto de uma parcela da população e atribuir a ela a responsabilidade pelos resultados, essas mensagens também podem ser compreendidas como uma forma de violência política baseada na origem regional. 

A cartilha Violência Política de Gênero, elaborada pelo Observatório de Violência Política contra a Mulher com apoio do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), define violência política como qualquer ação, conduta ou omissão que tenha como objetivo impedir, restringir, desestimular ou dificultar o exercício dos direitos políticos de uma pessoa. Conforme o documento, essas práticas podem ocorrer por meio de violência física, psicológica, moral, econômica, sexual ou simbólica. 

Entre essas modalidades, a violência simbólica ocupa lugar central na circulação de discursos xenófobos nas redes digitais. Ela se manifesta por meio de intimidações, humilhações, desqualificação pública, linguagem ofensiva e estratégias destinadas a desacreditar a capacidade política de determinados grupos.

Embora a cartilha trate especificamente da violência política de gênero, seus conceitos ajudam a compreender outras formas de discriminação dirigidas a grupos sociais em razão de características como raça, religião, território ou origem regional. 

Xenofobia eleitoral ameaça a democracia, avalia pesquisadora

Para a professora titular do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Karla Patriota, a intensificação dos discursos xenófobos contra nordestinos durante os períodos eleitorais está diretamente relacionada ao protagonismo político da região e à polarização que marca a política brasileira nos últimos anos.

De acordo com a pesquisadora, que é mestre em Comunicação e doutora em Sociologia, sempre que o voto nordestino ganha relevância no resultado das eleições, parte do debate público deixa de discutir projetos políticos para atacar a identidade dos eleitores. “Eles se intensificam porque, no período eleitoral, o Nordeste aparece com muita nitidez como força política, e isso incomoda determinados setores”.

Na avaliação de Patriota, existe uma inclinação histórica recente do eleitorado do Nordeste ao campo progressista, além de uma relação afetiva muito forte com Lula, que, segundo ela, representa para muita gente uma trajetória de reconhecimento, ascensão e pertencimento. “Quando o voto nordestino se torna decisivo, o ataque deixa de ser à escolha política e passa a atingir a própria identidade regional. Em vez de discutir o voto, desqualifica-se quem vota”, esclarece.

A pesquisadora afirma que o crescimento desses discursos reflete a radicalização da vida pública brasileira e foi potencializado pelas mídias sociais, que ampliaram a circulação de conteúdos discriminatórios. “As redes sociais deram escala, velocidade e aparência de impunidade a preconceitos que já existiam. Hoje, uma fala xenofóbica contra nordestinos pode circular rapidamente, virar meme, ganhar adesão e estimular novos ataques”.

Ela lembra também que nos últimos processos eleitorais, o Nordeste foi tratado como culpado pelo resultado das urnas. “Isso é muito perigoso, porque nega a legitimidade política de uma região inteira. O voto nordestino tem o mesmo valor democrático de qualquer outro voto no Brasil”.

Para Patriota, esse discurso combina preconceito regional e desigualdade social ao associar o voto dos nordestinos ao recebimento de políticas públicas. Conforme seu entendimento, há uma “mistura de xenofobia com desprezo de classe”. Isso significa, acrescenta a pesquisadora, que “a afirmação de que o nordestino vota por causa das políticas sociais, principalmente do Bolsa Família, porque ‘não quer trabalhar’, transforma direito em favor, cidadania em dependência e voto popular em voto inferior. Esse é o ponto mais perverso”.

Na avaliação da professora da UFPE, esse tipo de discurso ameaça diretamente a democracia porque rompe um de seus princípios fundamentais: o reconhecimento da igualdade política entre os cidadãos. Segundo explica, quando ocorre de uma região inteira ser atacada pela forma como vota, o próprio princípio democrático de que cada cidadão vale um voto fica prejudicado. “O discurso xenofóbico também destrói a convivência nacional porque autoriza a humilhação. Primeiro se desumaniza, depois se normaliza o ataque”.

A pesquisadora ressalta ainda que as consequências vão além do ambiente digital. Para ela, essas manifestações produzem constrangimento, silenciam parte da população e aprofundam divisões históricas entre as regiões do país. “Muitos nordestinos passam a se sentir julgados pelo lugar onde nasceram, pelo sotaque, pela condição social, pela história da família e pelo voto. Isso transforma um direito democrático em motivo de exposição e violência simbólica”.

Por outro lado, o comportamento de ataque a essas pessoas acabam por fortalecer a identidade nordestina, segundo avalia Patriota. “Muitos respondem com orgulho, reafirmando a importância cultural, econômica, política e histórica da região para o Brasil”. “Ainda assim”, completa, “nenhuma região deveria precisar provar o tempo inteiro que merece respeito”.

Quando a religião reforça a xenofobia 

Além das mensagens compartilhadas nas redes durante os períodos eleitorais, discursos xenófobos contra nordestinos também passaram a ser reproduzidos por lideranças religiosas e agentes públicos. Em diferentes episódios, essas manifestações associam a região ao atraso, à pobreza, à dependência de programas sociais ou até mesmo à ação de forças malignas, o que contribui para reforçar preconceitos históricos e conferir legitimidade moral ou religiosa à discriminação.

Um dos episódios que confirmam esse comportamento ocorreu poucos dias após o segundo turno das eleições presidenciais de 2022. Durante um culto realizado na Primeira Igreja Batista de Piabetá (RJ), o pastor Luiz Antonio Vieira criticou a vitória de Lula (PT) e afirmou que seus eleitores seriam “inimigos de Deus”.

Em seguida, ele dirigiu ofensas aos nordestinos, e os classificou como um “povo preguiçoso” que “gosta de viver das migalhas”. O religioso também declarou que não voltaria mais ao Nordeste nem consumiria produtos da região. Em outro momento, negou que suas falas configurassem preconceito, e afirmou que não sofria de “nordestinofobia”. O vídeo provocou ampla repercussão e motivou manifestações de repúdio. Dias depois, Vieira divulgou um pedido público de desculpas.

Os discursos xenófobos também alcançaram representantes do poder público. Em fevereiro de 2023, durante uma sessão da Câmara Municipal de Caxias do Sul (RS), o então vereador Sandro Fantinel (Republicanos) sugeriu que produtores rurais deixassem de contratar trabalhadores baianos, pois eles estariam acostumados apenas com “Carnaval e festa”.

As declarações ocorreram após o resgate de mais de 200 trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão em vinícolas da Serra Gaúcha, a maioria oriunda da Bahia. Em fevereiro de 2026, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região manteve a condenação do ex-vereador ao pagamento de R$ 100 mil por danos morais coletivos, ao entender que suas declarações configuraram discriminação baseada na origem regional. 

Em 2026, Bereia também verificou declarações do missionário evangélico Nick Moretti, da Zion Church, que viralizaram nas redes. Durante uma pregação destinada ao público jovem, o religioso afirmou que, ao chegar a Salvador, teve a impressão de que seria necessário “pedir licença para demônio”. Ele também associou o Carnaval de Olinda e símbolos das religiões de matriz africana à atuação de forças malignas. Após a repercussão do vídeo, Moretti divulgou uma retratação pública, reconheceu que suas declarações foram equivocadas e pediu desculpas aos moradores de Salvador e Olinda. 

Outro episódio analisado pelo Bereia envolveu o pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes, que, durante participação em um podcast, afirmou que beneficiários do Bolsa Família desenvolvem uma “mentalidade de miséria” e deixam de trabalhar. Embora não tenha citado diretamente o Nordeste, a declaração recupera um dos principais estereótipos historicamente associados à região: a ideia de que sua população depende de programas sociais e rejeita o trabalho. Na checagem publicada pelo Bereia, dados oficiais mostraram que essa generalização não encontra respaldo nas informações sobre o Bolsa Família nem no perfil de seus beneficiários. 

Em comum, esses episódios demonstram que a xenofobia contra nordestinos vai além de manifestações isoladas nas redes sociais. Quando reproduzidos por líderes religiosos, influenciadores ou agentes públicos, esses discursos ampliam seu alcance, reforçam estereótipos históricos e contribuem para deslegitimar a participação política de milhões de brasileiros em razão de sua origem regional.

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Dessa forma, ao analisar publicações nas redes digitais, dados da SaferNet Brasil, estudos acadêmicos e episódios que envolvem lideranças religiosas e agentes públicos, Bereia verificou que o discurso de que “nordestino não sabe votar” não encontra fundamento em evidências. Trata-se de um comportamento que se repete desde as eleições presidenciais de 2014 e que se intensifica em períodos eleitorais, especialmente em contextos de polarização política. Além de reforçar preconceitos históricos contra a população nordestina, essas mensagens procuram deslegitimar a participação política de milhões de brasileiros e atribui ao eleitorado da região a responsabilidade exclusiva pelos resultados das urnas. 

Referências:

Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/geral/audio/2014-10/preconceito-contra-nordestinos-nas-redes-aumenta-denuncias. Acesso em 3 de julho de 2026. 

Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2014-10/dilma-vence-no-norte-e-no-nordeste-aecio-ganha-nas-outras-tres-regioes. Acesso em 3 de julho de 2026. 

BCC News Brasil. https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63112880. Acesso em 3 de julho de 2026. 

Terra. https://www.terra.com.br/noticias/eleicoes/nordestinos-sao-hostilizados-apos-vitoria-de-dilma-rousseff,aa13fc86bd059410VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html. Acesso em 3 de julho de 2026. 

Agência Fapesp. https://agencia.fapesp.br/discurso-de-odio-contra-nordestinos-cresceu-821-nas-eleicoes-presidenciais-de-2022/56947. Acesso em 3 de julho de 2026. 

Artigo de Hellen Gouveia Rodrigues de Melo. https://sistemas.intercom.org.br/pdf/submissao/nacional/17/06282024173215667f1dcfe3194.pdf. Acesso em 3 de julho de 2026. 

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G1. https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2022/11/07/pastor-do-rj-que-chamou-nordestinos-de-preguicosos-pede-desculpas-e-diz-que-vai-antecipar-ferias-da-igreja.ghtml. Acesso em 3 de julho de 2026.

G1. https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2022/11/06/em-video-pastor-do-rj-diz-que-petistas-sao-inimigos-de-deus-chama-nordestinos-de-preguicosos-e-causa-revolta-nas-redes-sociais.ghtml. Acesso em 3 de julho de 2026.

Base de dados do SaferNet. https://docs.google.com/spreadsheets/d/1hmB3ZiyABDLe0u2lYVxaXL328GdNI0IQQQGB4d99To8/edit?gid=0#gid=0. Acesso em 3 de julho de 2026.

SaferNet. https://new.safernet.org.br/content/safernet-denuncias-de-xenofobia-na-internet-explodem-apos-1o-turno-das-eleicoes. Acesso em 3 de julho de 2026. 

Cartilha Violência Política de Gênero. https://transparenciaeleitoral.com.br/wp-content/uploads/2022/07/Cartilla-bras-1-1.pdf. Acesso em 3 de julho de 2026.

Consultor Jurídico. https://www.conjur.com.br/2026-fev-28/vereador-e-condenado-por-discurso-xenofobico-contra-nordestinos/. Acesso em 3 de julho de 2026.

Foto de capa: Agencia Brasil

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