Pastores evangélicos mobilizam onda de mentiras sobre economia nas redes digitais

“Os economistas dizem que o Brasil está à beira de uma recessão”, “Bolsa família é esmola para quem vive às custas do Estado” – estas são frases proferidas pelo pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes e pela pastora pentecostal Valnice Milhomens, em vídeos publicados em mídias sociais, a partir deste 14 de setembro. Os conteúdos miram temas econômicos do país, em críticas ao atual governo que disputa reeleição neste pleito.

Como Bereia já divulgou, como parte da campanha Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade, mentiras sobre economia para convencimento de eleitores para o apoio a determinadas candidaturas têm sido recorrentes nos períodos eleitorais anteriores. Neste pleito em 2026, conteúdo desinformativo já vem sendo propagado desde 2025, com mentiras sobre o PIX, sobre preços de alimentos e outros temas que mobilizam pânico entre eleitores. 

Nesta segunda quinzena de setembro de 2026, a poucos dias das eleições, Bereia observa os vídeos destas lideranças religiosas como parte da mesma iniciativa de acionamento de medo no eleitorado evangélico, com base em falsidades. A equipe Bereia checou as peças digitais.

O vídeo do pastor Hernandes Dias Lopes

Uma mensagem intitulada “Como sair da crise financeira? foi publicada pelo pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes, no YouTube, em 7 de setembro”. Antes de recorrer ao livro bíblico de Provérbios para orientar os seguidores sobre trabalho, dinheiro e prosperidade, o religioso apresentou um diagnóstico da economia brasileira.

Imagem: Canal do YouTube do Pastor Hernandes Dias Lopes

Segundo Hernandes, o Brasil talvez nunca tenha vivido uma situação econômica “tão crítica”; “mais de 80% do Produto Interno Bruto” estaria comprometido com dívidas; mais de 80% das famílias estariam endividadas; pequenas e médias empresas  “colapsando”; e outras companhias “fugindo do Brasil” para se estabelecer no Paraguai. O pastor também classificou os juros como “altíssimos” e a carga tributária como “pesadíssima”. “A gastança parece não ter freios nem limites e o futuro é sombrio”, afirmou.

Uma semana depois, em 14 de setembro, Hernandes publicou outra mensagem na qual levou a leitura bíblica diretamente para a conjuntura política e institucional. Ao comentar o livro do profeta Miqueias, descreveu o Brasil como uma nação em profunda crise moral, falou em corrupção nos três Poderes, “aparelhamento” do Estado e articulação entre governantes, juízes e poder econômico.

Em determinado momento ressalta: “não estou falando do Brasil”, mas a mensagem é construída a partir da aproximação entre o contexto descrito pelo profeta e a realidade brasileira atual. No encerramento, diante do que apresenta como perda de confiança em governantes, legisladores e cortes, conclama a população brasileira a voltar-se para Deus.

Imagem: Publicação do perfil do Instagram do Pastor Hernandes Dias Lopes, 14 set 2026

Cortes das mensagens do pastor estão sendo propagados pelas plataformas digitais e compartilhados em grupos de WhatsApp de igrejas.

Bereia checou: o país vive uma situação econômica sem precedentes, como sugere a fala do pastor Hernandes? Enganoso!

O Brasil está realmente “à beira de uma recessão”? Mais de 80% do PIB está “comprometido com dívidas”? Mais de 80% das famílias estão endividadas? Há evidências de uma fuga significativa de empresas brasileiras para o Paraguai? 

Fatos e dados disponíveis não confirmam a ideia de uma economia brasileira à beira do colapso. Há problemas reais, como dívida pública elevada, endividamento das famílias, inadimplência empresarial e juros altos, mas o PIB seguiu crescendo em 2026. A afirmação de que mais de 80% do PIB estaria “comprometido com dívidas” confunde a relação entre dívida pública e PIB com recursos efetivamente destinados ao pagamento da dívida.

A informação de que mais de 80% das famílias estão endividadas é correta, embora isso não signifique que todas estejam inadimplentes. Ao fazer a crítica, o pastor omite estudos que avaliam os principais motivos do alto endividamento: as dificuldades econômicas criadas na pandemia da Covid-19 e, o principal, o envolvimento com apostas promovidas pelas “bets”.

O pastor também não mencionou a existência de políticas públicas como os programas “Desenrola” e a abertura para o uso do FGTS. Além disso, toda pessoa que adquire imóvel por financiamento, nos moldes do Minha Casa Minha Vida, também é contabilizada como devedora. Neste caso, trata-se de uma dívida “boa”, diferente de quem se endivida por bets.

Sobre a existência de investimentos de empresas brasileiras no Paraguai, eles existem, mas é enganoso que haja uma “fuga” empresarial em massa para aquele país. Hernandes Dias Lopes reproduz afirmações enganosas sobre este assunto que já circulam nas redes e foram checadas. 

A caracterização da atual conjuntura como uma crise sem precedentes não encontra respaldo nos indicadores históricos, já que o país enfrentou recessões muito mais severas em períodos recentes, como 2015-2016 e 2020. 

Segundo o economista Teófilo Cavalcanti, ouvido pelo Coletivo Bereia, Hernandes defende uma “teologia do trabalho”, sendo veemente crítico da “teologia da prosperidade”. Entretanto, os indicadores recentes do mercado de trabalho brasileiro não sustentam a descrição de uma economia em situação próxima de recessão ou de deterioração sem precedentes, como afirma o pastor. Com base em dados do IBGE, publicados no jornal Valor Econômico, Cavalcanti destaca que, desde 2022, houve queda contínua do desemprego, aumento do número de pessoas ocupadas e de trabalhadores com carteira assinada, além de crescimento da renda média real.

De acordo com os números levantados pelo especialista para esta matéria, a taxa de desemprego caiu de 9,8% em maio de 2022 para 5,6% em maio de 2026, chegando a 5,3% em julho. No mesmo período, o número de trabalhadores com carteira assinada passou de 34,4 milhões para 39,3 milhões, enquanto a população ocupada cresceu em mais de seis milhões de pessoas.

Teófilo Cavalcanti também chama atenção para a evolução da renda. Em valores reais, a renda média do trabalhador passou de R$3.099, em maio de 2022, para R$3.726 em maio de 2026, crescimento próximo de 17%. Ele relaciona esse resultado tanto à melhora do mercado de trabalho quanto à política de valorização real do salário mínimo.

Na avaliação apresentada pelo economista, o desempenho do PIB também contrasta com a ideia de uma crise econômica inédita. O especialista calcula que, considerados os resultados de 2023 a 2025 e a projeção para 2026, o PIB poderá acumular crescimento superior a 11% no período, enquanto o PIB per capita avançaria perto de 9%. Para ele, esse desempenho representa uma mudança em relação ao longo período de baixo crescimento que marcou os anos anteriores.

A leitura do especialista, portanto, não nega problemas como o aumento do endividamento das famílias e da economia. O que ele questiona é a construção de um cenário exclusivamente negativo: ͢͢”se trabalho e renda são elementos centrais no discurso de Hernandes Dias Lopes, os indicadores de aumento do emprego, da formalização e da remuneração também deveriam fazer parte de qualquer diagnóstico da conjuntura econômica brasileira”.

Cavalcanti avalia que a caracterização da atual conjuntura como uma crise sem precedentes não encontra respaldo nos indicadores históricos, já que o país enfrentou recessões muito mais severas em períodos recentes, como 2015-2016 e 2020. 

O vídeo da pastora Valnice Milhomens

O segundo vídeo checado pelo Bereia foi publicado pela pastora Valnice Milhomens, da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo (INSEJEC) também no início da segunda quinzena de setembro de 2026. O conteúdo ganhou repercussão nas redes digitais por classificar o Bolsa Família como “esmola” e associar a dependência do benefício à falta de trabalho. Na publicação, a pastora defende que a autonomia econômica ocorre por meio do trabalho e afirma que não seria “libertador” viver “às custas do Estado”. 

Na publicação, a pastora questiona a existência do Bolsa Família e associa o recebimento do benefício à dependência do Estado. Na legenda do vídeo, ela afirma: “O povo brasileiro não precisa de esmolas! Oremos pelos próximos governantes da nossa nação”. 

Valnice Milhomens também afirma que o Bolsa Família “atinge milhões de brasileiros” e questiona se esse seria o “ideal de economia”. Em seguida, defende que a libertação econômica estaria associada ao trabalho e à obtenção de renda por meio da atividade profissional. Para ela, “não é libertador você viver às custas do Estado”, enquanto “ganhar o seu dinheiro pelo seu trabalho” seria uma forma de dignidade e de contribuição para a sociedade. 

Ao desenvolver o argumento, a pastora afirma ainda que “conservar alguém escravo” da esmola “não é o melhor” e relaciona o trabalho à elevação da autoestima. Até o momento da apuração, a publicação acumulava quase 90 mil visualizações e mais de 10 mil comentários em seu perfil no Instagram. A repercussão ocorre em torno de uma interpretação sobre o programa que desconsidera seus critérios de acesso, suas condicionalidades e os mecanismos previstos para a saída ou transição das famílias beneficiárias. 

Imagem: Publicação no perfil do Instagram da Pastora Valnice Milhomens, 16 set 2026

Bolsa Família é esmola? Falso!

O Bolsa Família é um programa de transferência de renda, e não uma doação eventual. Para ingressar, a família precisa estar inscrita no Cadastro Único e atender aos critérios de renda estabelecidos pelo programa. A transferência é acompanhada de condicionalidades relacionadas à saúde e à educação. Entre elas estão a vacinação e o acompanhamento nutricional de crianças menores de sete anos, o pré-natal de gestantes e a frequência escolar mínima de crianças e adolescentes.

Em março de 2025, o programa atendia mais de 20,5 milhões de famílias, com benefício médio de R$ 668,65. Naquele momento, mais de 3,11 milhões de famílias estavam na chamada Regra de Proteção, criada para evitar a retirada imediata do benefício quando a renda familiar aumenta.

A existência dessa regra é particularmente relevante para a afirmação feita no vídeo. O próprio desenho do programa prevê a transição das famílias para fora da política de transferência de renda quando sua situação econômica melhora. Desde julho de 2025, famílias que ultrapassam a renda de entrada, mas permanecem dentro do limite estabelecido para a Regra de Proteção, podem continuar recebendo 50% do benefício por determinado período, conforme sua situação de renda.

Famílias vivem às custas do Estado? Falso!

Os dados também mostram que o Bolsa Família não funciona como um benefício permanente para todos os seus integrantes. Em 2024, mais de 1,3 milhão de famílias deixaram o programa após melhorar de renda, segundo dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. Outras 2,2 milhões passaram para a Regra de Proteção naquele ano.

Em 2025, o movimento continuou. Segundo relatório de gestão do MDS, 2,5 milhões de famílias deixaram de receber o Bolsa Família entre janeiro e dezembro daquele ano. Destas, 1.552.041 saíram porque a renda por integrante ultrapassou o limite do programa, 29.498 solicitaram desligamento voluntário e 967.145 concluíram o período da Regra de Proteção.

Esses números ajudam a contextualizar a relação entre transferência de renda, trabalho e autonomia econômica. A própria existência da Regra de Proteção parte do reconhecimento de que o aumento da renda de uma família não significa, necessariamente, que ela tenha superado imediatamente uma situação de vulnerabilidade. O mecanismo permite uma transição antes do desligamento definitivo

Bolsa Família e cuidado com as famílias

A crítica publicada pela pastora também pode ser vista como uma contradição com a demanda sempre colocada por lideranças religiosas de que se deve proteger a família.  No caso do Bolsa Família, como o nome diz, é uma política pública que representa  cuidado com famílias em situação de vulnerabilidade. 

O programa público não se limita ao repasse financeiro: suas condicionalidades articulam transferência de renda com acompanhamento de saúde e permanência na escola. Na saúde, crianças menores de sete anos devem cumprir o calendário de vacinação e ter acompanhamento do estado nutricional, enquanto gestantes precisam realizar o pré-natal. Na educação, crianças, adolescentes e jovens beneficiários precisam cumprir uma frequência escolar mínima.

Esse desenho permite compreender o Bolsa Família como parte de uma política de proteção social, voltada não apenas à renda imediata, mas também à redução de situações que podem perpetuar a pobreza entre gerações. Estudo divulgado pelo MDS em parceria com a FGV apontou que 60,68% dos beneficiários que recebiam o programa em 2014 haviam deixado de recebê-lo até 2025; entre adolescentes de 15 a 17 anos, o percentual chegou a 71,25%.

Quem são estas lideranças evangélicas em campanha eleitoral?

Hernandes Dias Lopes é pastor colaborador da Igreja Presbiteriana de Pinheiros (IPP), em São Paulo, função que divide com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Pastor que ocupa muito as mídias impressas com vários livros e as digitais com vídeos e palestras, é diretor executivo da organização Luz para o Caminho (LPC), dedicada à produção de conteúdo religioso em livros, rádio, vídeo, internet e formação bíblica. 

Lopes construiu parte de sua identidade pública em oposição à chamada teologia da prosperidade. Em entrevista concedida ao jornal A Gazeta em 2011, reproduzida por diferentes páginas religiosas, criticou igrejas que prometiam enriquecimento e líderes que, segundo ele, exploravam a fé dos seguidores. 

Neste período eleitoral, o pastor tem investido na discussão de temas da economia. Em fevereiro passado, ele participou do PrimoCast, de Thiago Nigro, conhecido “influenciador” do campo das finanças e autoajuda”. O episódio foi estruturado em torno de “riqueza, dinheiro e fé”, com tópicos como mérito individual, desejo de enriquecer e “o que fazer para enriquecer segundo a Bíblia”. 

Imagem: Página do PrimoCast no YouTube

Lopes afirmou conhecer “centenas de pessoas” que receberiam o Bolsa Família e, por isso, não desejariam trabalhar, desenvolvendo o que classificou como uma “mentalidade de miséria”. Bereia checou este conteúdo do pastor. Logo depois, em abril, em outro vídeo de sua produção, ao comentar o mandamento “não furtarás”, o pastor voltou à formulação causal: “O trabalho produz riqueza, o furto, pobreza”. No mesmo artigo, associa a preguiça à apropriação do trabalho alheio e leva a interpretação bíblica para escândalos financeiros, instituições públicas e corrupção. 

Já a pastora Valnice Milhomens tem presença antiga em campanhas durante períodos eleitorais. Em 2014, a pastora manifestou apoio público à candidatura de Marina Silva à Presidência da República e associou a possibilidade de eleição da candidata à mobilização por meio de jejum e oração. Em 2022, voltou a se manifestar durante a disputa presidencial, quando orientou seguidores a não votarem em candidatos com programas que considerasse “contrários ao Reino de Deus” e relacionou o voto à responsabilidade religiosa, alinhada com a reeleição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). 

Em 2026, novamente em ano eleitoral, Valnice Milhomens passou a participar de mobilizações e discursos que relacionam a atuação de evangélicos à ocupação de espaços de influência na sociedade e à participação na vida pública. O histórico foi registrado em reportagem anterior do Bereia, que também contextualizou suas manifestações políticas em diferentes eleições. 

Propagação de mentiras pelas redes: uma crise moral

Bereia ouviu o teólogo e pastor pentecostal David Mesquiati sobre o fenômeno da onda de propagação de mentiras na campanha eleitoral por lideranças religiosas. Ele explica que “durante o século 20, os evangélicos eram percebidos pela sociedade como uma ‘reserva moral’, diante de tantas mudanças culturais e da corrupção política. Era possível manter essa ideia quando se é minoria, ascetismo severo com baixa participação nas rodas sociais e vida comunitária de fé circunscrita aos guetos de afinidade religiosa”. 

Contudo, adverte Mesquiati, com o aumento numérico, ascensão social e participação mais ativa nas esferas de poder, aquela diferenciação se atenua. “Casos de infidelidade, assédio e corrupção eram tratados internamente. Com a visibilidade midiática, cada caso vira página de jornal, aumentando a percepção de crise moral”, reconhece o teólogo.

Mesquiati aponta que “há uma onda de decadência moral em setores da liderança evangélica, justamente essa que provou das benesses do sistema. Não necessariamente se busca dinheiro. Para homens de meia e avançada idade em posição de liderança, o poder é mais tentador. Uma vez que se prova dessa maçã é difícil vencer esse paladar…” 

O pastor explica que “a extrema direita soube instrumentalizar os ressentimentos e frustrações da sociedade, catalisados pelas questões moralistas,  para mover as massas. O amálgama entre uma visão dominionista da fé no espaço público, as pretensões eleitoreiras da extrema direita e a sede de poder de alguns líderes religiosos produziu um tipo de cristianismo acrítico e preso numa bolha ideológica, que cega líderes e comunidades”.

Ao fim da entrevista ao Bereia, David Mesquiati aponta um caminho: “cada cidadão, independentemente da sua vinculação religiosa, é livre para escolher seu candidato. Os diferentes grupos e agremiações, entre eles as igrejas, cumprem um papel republicano quando usam seus espaços para debate de ideias, ouvir o contraditório e até promover encontros de candidatos para consultas, mas nunca para direcionar o voto. Uma igreja cidadã respeita o voto de cada um, tornando a diversidade um valor e um bem a ser preservado”.

Referências:

YouTube

https://www.hernandesdiaslopes.com.br/ Acesso em 15 set 2026

https://www.youtube.com/@HernandesDiasLopesOficial Acesso em 15 set 2026

https://www.youtube.com/watch?v=5iIH7hq2Jm0  Acesso em 15 set 2026

https://youtu.be/eLgFqmG0zgg?si=KEJ6WsOJQhfaMVY-  Acesso em 15 set 2026

https://www.youtube.com/watch?v=zFrLetPLiTM Acesso em 15 set 2026

IBGE

https://ftp.ibge.gov.br/Contas_Nacionais/Contas_Nacionais_Trimestrais/Fasciculo_Indicadores_IBGE  Acesso em 15 set 2026

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/47316-taxa-de-desocupacao-e-de-5-6-e-taxa-de-subutilizacao-e-de-13-3-no-trimestre-encerrado-em-maio Acesso em 15 set 2026

Banco Central do Brasil

https://www.bcb.gov.br/estatisticas/estatisticasfiscais Acesso em 15 set 2026

Rede de Investimento e Exportação (REDIEX)  

https://www.rediex.gov.py/pt/cerca-de-2-400-empresas-mostraron-interes-en-invertir-en-paraguay-durante-el-2025 Acesso em 15 set 2026

Governo Federal 

https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/bolsa-familia. Acesso em 16 set 2026.

https://www.gov.br/mds/pt-br/acesso-a-informacao/perguntas_frequentes/bolsa-familia-beneficiario/7-o-que-sao-as?utm_source. Acesso em 16 set 2026.

https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/bolsa-familia/regra-de-protecao. Acesso em 16 set 2026.

https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/bolsa-familia/original/informes/2025/relatorios/informe-bolsa-familia-80/perguntas_frequentes_nova_regra_de_protecao_pbf.pdf. Acesso em 16 set 2026.

https://www.gov.br/mds/pt-br/acesso-a-informacao/auditorias/RELATORIO_GESTAO_2025_defeso.pdf/@@download/file.

FGV Social. 

https://cps.fgv.br/bolsa-familia-o-que-e-e-como-funciona. Acesso em 16 set 2026.

CNN Brasil. https://www.cnnbrasil.com.br/economia/seu-bolso/meu-dinheiro/superacao-de-renda-tira-13-milhao-de-familias-do-bolsa-familia-em-2024/. Acesso em 16 set 2026. 

Filhos do Bolsa Família. https://static.poder360.com.br/2025/12/apresentacao_mds_03.pdf. Acesso em 16 set 2026. 

Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-03/caixa-paga-bolsa-familia-beneficiarios-com-nis-de-final-5-0. Acesso em 16 set 2026. 

Igreja Presbiteriana de Pinheiros

https://www.ippinheiros.org.br Acesso em 15 set 2026

Luz para o Caminho

https://lpc.org.br/ Acesso em 15 SET 2026

Nova Reforma

https://novareforma.blogspot.com/2011/02/uma-exploracao-da-fe-entrevista-do-rev.html Acesso em 15 set 2026

Hernandes Dias Lopes
https://www.hernandesdiaslopes.com.br/implicacoes-do-setimo-mandamento-nao-futuras  Acesso em 16 set 2026

Aos Fatos

https://www.aosfatos.org/noticias/falso-232-empresas-paraguai-governo-lula

Jota

https://www.jota.info/executivo/governo-lula-foca-em-medidas-contra-endividamento-em-cartao-e-cheque-especial

Uol

https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2026/03/26/bets-viram-maior-motor-do-endividamento-das-familias-no-brasil-diz-estudo.htm

Ataques ao eleitorado nordestino se repetem desde 2014 e reforçam violência política e desinformação 

Desde as eleições presidenciais de 2014, o eleitorado nordestino passou a ser alvo recorrente de discursos xenófobos que buscam deslegitimar sua participação política. Sempre que o resultado das urnas contraria determinados grupos, voltam a circular nas redes digitais mensagens que atribuem aos nordestinos a responsabilidade pela eleição do presidente da República, acompanhadas de afirmações como “nordestino não sabe votar”, “vive de Bolsa Família” ou “vende o voto”. Em 2026, às vésperas de mais um processo eleitoral, esse tipo de conteúdo voltou a ganhar força nas plataformas digitais. O Bereia investigou como esses casos se consolidaram ao longo da última década.

A origem do discurso 

Os ataques ao eleitorado nordestino ganharam força após o segundo turno das eleições presidenciais de 2014, quando a então presidente Dilma Rousseff (PT) se saiu vitoriosa. Embora a candidata tenha recebido votos em todas as regiões do país, seu desempenho expressivo no Nordeste passou a ser apontado por usuários das redes digitais como a principal explicação para o resultado das urnas. A partir daquele momento, multiplicaram-se publicações que responsabilizavam a população nordestina pelos rumos políticos do país e associavam seus eleitores à ignorância, à dependência de programas sociais e à suposta incapacidade de exercer o voto de forma consciente. 

Imagens: Recortes de mensagens ofensivas contra nordestinos publicadas no antigo Twitter (atual X) após as eleições de 2014. Fonte: Terra.

Nos dias seguintes à divulgação do resultado eleitoral, plataformas como Twitter (atual X) e Facebook registraram uma onda de manifestações preconceituosas contra nordestinos. A SaferNet Brasil, organização que monitora violações de direitos humanos na internet, recebeu mais de 400 denúncias de conteúdos com ataques à população da região logo após a confirmação da vitória de Dilma Rousseff. Entre as publicações havia insultos, discursos de exclusão e até propostas de separação do Nordeste do restante do país. As mensagens revelavam que a insatisfação com o resultado das urnas havia se convertido em manifestações de xenofobia regional. 

Imagem: Recortes de mensagens ofensivas contra nordestinos publicadas no antigo Twitter (atual X) após as eleições de 2014. Fonte: Terra. 

Desde então, esse tipo de discurso passou a se repetir a cada eleição presidencial. O conteúdo das mensagens mudou pouco ao longo dos anos: variam os personagens e o contexto político, mas permanecem as tentativas de responsabilizar o eleitorado nordestino pelos resultados das urnas. As publicações costumam associar a região à pobreza, ao assistencialismo, ao atraso econômico e à falta de discernimento político, além de reforçar estereótipos históricos, o que coloca como suspeita a legitimidade do voto de milhões de brasileiros.

Nas eleições de 2018, após o primeiro turno, voltaram a circular mensagens que classificavam os nordestinos como “burros”, “analfabetos”, “preguiçosos” e “dependentes do Bolsa Família”. Os dados da SaferNet Brasil mostram que a intensificação desses discursos acompanha os períodos eleitorais. Em 2018, ano da eleição de Jair Bolsonaro (PSL), as denúncias de conteúdos xenófobos cresceram 595,5% em relação ao ano anterior. Foram registradas 9.703 denúncias, ante 1.395 em 2017, o que demonstra uma escalada dos ataques direcionados, sobretudo, à população nordestina. 

O mesmo padrão se repetiu nas eleições de 2022. Durante a apuração do primeiro turno, apoiadores do então presidente Jair Bolsonaro (agora no PL) passaram a compartilhar postagens em grupos de WhatsApp e nas redes digitais que responsabilizavam o Nordeste pela vantagem obtida por Luiz Inácio Lula da Silva (PT)  na região. Entre as ofensas mais recorrentes estavam expressões como “imbecis”, “jumentos”, “burros”, “miseráveis” e “ingratos”. As mensagens começaram a circular ainda durante a contagem dos votos e se intensificaram à medida que Lula assumia a liderança da disputa nacional. 

Os dados confirmam que esse comportamento não constitui um episódio isolado. Uma pesquisa desenvolvida pelo grupo Interfaces, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), analisou 282 milhões de publicações feitas no antigo Twitter entre julho e dezembro de 2022. O estudo identificou um aumento de 821% nos discursos xenófobos contra nordestinos durante o período eleitoral. À medida que a eleição se aproximava, palavras de conotação depreciativa passaram a aparecer com maior frequência ao lado do termo “nordestino”, e as menções à região triplicaram em outubro, mês em que ocorreram os dois turnos da disputa presidencial. 

Os resultados corroboram os registros da SaferNet Brasil. De acordo com a organização, 2022 foi o terceiro processo eleitoral consecutivo marcado por crescimento expressivo dos crimes de ódio na internet. As denúncias de xenofobia passaram de 1.097, em 2021, para 10.686, em 2022, um aumento de 874%. Além da xenofobia, também houve crescimento dos registros de intolerância religiosa e misoginia, o que deixa explícito como períodos eleitorais favorecem a intensificação de discursos discriminatórios nas plataformas digitais. 

Ao longo desse período, outra estratégia ganhou força nas redes: a divulgação de mapas eleitorais que destacavam o Nordeste na cor vermelha para representar a votação majoritária no Partido dos Trabalhadores (PT). Compartilhadas sem qualquer contextualização, essas imagens passaram a sustentar a falsa informação de que a região seria responsável, sozinha, pela eleição do presidente da República. Na realidade, nenhum estado ou região tem votos suficientes para decidir isoladamente uma eleição presidencial. O presidente é eleito pela soma dos votos válidos de todo o país, e todos os candidatos eleitos recebem apoio em diferentes regiões, ainda que apresentem desempenhos distintos entre os estados.

O que é violência política?

Os ataques dirigidos aos nordestinos durante os períodos eleitorais não se resumem a manifestações de preconceito regional. Ao questionar a legitimidade do voto de uma parcela da população e atribuir a ela a responsabilidade pelos resultados, essas mensagens também podem ser compreendidas como uma forma de violência política baseada na origem regional. 

A cartilha Violência Política de Gênero, elaborada pelo Observatório de Violência Política contra a Mulher com apoio do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), define violência política como qualquer ação, conduta ou omissão que tenha como objetivo impedir, restringir, desestimular ou dificultar o exercício dos direitos políticos de uma pessoa. Conforme o documento, essas práticas podem ocorrer por meio de violência física, psicológica, moral, econômica, sexual ou simbólica. 

Entre essas modalidades, a violência simbólica ocupa lugar central na circulação de discursos xenófobos nas redes digitais. Ela se manifesta por meio de intimidações, humilhações, desqualificação pública, linguagem ofensiva e estratégias destinadas a desacreditar a capacidade política de determinados grupos.

Embora a cartilha trate especificamente da violência política de gênero, seus conceitos ajudam a compreender outras formas de discriminação dirigidas a grupos sociais em razão de características como raça, religião, território ou origem regional. 

Xenofobia eleitoral ameaça a democracia, avalia pesquisadora

Para a professora titular do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Karla Patriota, a intensificação dos discursos xenófobos contra nordestinos durante os períodos eleitorais está diretamente relacionada ao protagonismo político da região e à polarização que marca a política brasileira nos últimos anos.

De acordo com a pesquisadora, que é mestre em Comunicação e doutora em Sociologia, sempre que o voto nordestino ganha relevância no resultado das eleições, parte do debate público deixa de discutir projetos políticos para atacar a identidade dos eleitores. “Eles se intensificam porque, no período eleitoral, o Nordeste aparece com muita nitidez como força política, e isso incomoda determinados setores”.

Na avaliação de Patriota, existe uma inclinação histórica recente do eleitorado do Nordeste ao campo progressista, além de uma relação afetiva muito forte com Lula, que, segundo ela, representa para muita gente uma trajetória de reconhecimento, ascensão e pertencimento. “Quando o voto nordestino se torna decisivo, o ataque deixa de ser à escolha política e passa a atingir a própria identidade regional. Em vez de discutir o voto, desqualifica-se quem vota”, esclarece.

A pesquisadora afirma que o crescimento desses discursos reflete a radicalização da vida pública brasileira e foi potencializado pelas mídias sociais, que ampliaram a circulação de conteúdos discriminatórios. “As redes sociais deram escala, velocidade e aparência de impunidade a preconceitos que já existiam. Hoje, uma fala xenofóbica contra nordestinos pode circular rapidamente, virar meme, ganhar adesão e estimular novos ataques”.

Ela lembra também que nos últimos processos eleitorais, o Nordeste foi tratado como culpado pelo resultado das urnas. “Isso é muito perigoso, porque nega a legitimidade política de uma região inteira. O voto nordestino tem o mesmo valor democrático de qualquer outro voto no Brasil”.

Para Patriota, esse discurso combina preconceito regional e desigualdade social ao associar o voto dos nordestinos ao recebimento de políticas públicas. Conforme seu entendimento, há uma “mistura de xenofobia com desprezo de classe”. Isso significa, acrescenta a pesquisadora, que “a afirmação de que o nordestino vota por causa das políticas sociais, principalmente do Bolsa Família, porque ‘não quer trabalhar’, transforma direito em favor, cidadania em dependência e voto popular em voto inferior. Esse é o ponto mais perverso”.

Na avaliação da professora da UFPE, esse tipo de discurso ameaça diretamente a democracia porque rompe um de seus princípios fundamentais: o reconhecimento da igualdade política entre os cidadãos. Segundo explica, quando ocorre de uma região inteira ser atacada pela forma como vota, o próprio princípio democrático de que cada cidadão vale um voto fica prejudicado. “O discurso xenofóbico também destrói a convivência nacional porque autoriza a humilhação. Primeiro se desumaniza, depois se normaliza o ataque”.

A pesquisadora ressalta ainda que as consequências vão além do ambiente digital. Para ela, essas manifestações produzem constrangimento, silenciam parte da população e aprofundam divisões históricas entre as regiões do país. “Muitos nordestinos passam a se sentir julgados pelo lugar onde nasceram, pelo sotaque, pela condição social, pela história da família e pelo voto. Isso transforma um direito democrático em motivo de exposição e violência simbólica”.

Por outro lado, o comportamento de ataque a essas pessoas acabam por fortalecer a identidade nordestina, segundo avalia Patriota. “Muitos respondem com orgulho, reafirmando a importância cultural, econômica, política e histórica da região para o Brasil”. “Ainda assim”, completa, “nenhuma região deveria precisar provar o tempo inteiro que merece respeito”.

Quando a religião reforça a xenofobia 

Além das mensagens compartilhadas nas redes durante os períodos eleitorais, discursos xenófobos contra nordestinos também passaram a ser reproduzidos por lideranças religiosas e agentes públicos. Em diferentes episódios, essas manifestações associam a região ao atraso, à pobreza, à dependência de programas sociais ou até mesmo à ação de forças malignas, o que contribui para reforçar preconceitos históricos e conferir legitimidade moral ou religiosa à discriminação.

Um dos episódios que confirmam esse comportamento ocorreu poucos dias após o segundo turno das eleições presidenciais de 2022. Durante um culto realizado na Primeira Igreja Batista de Piabetá (RJ), o pastor Luiz Antonio Vieira criticou a vitória de Lula (PT) e afirmou que seus eleitores seriam “inimigos de Deus”.

Em seguida, ele dirigiu ofensas aos nordestinos, e os classificou como um “povo preguiçoso” que “gosta de viver das migalhas”. O religioso também declarou que não voltaria mais ao Nordeste nem consumiria produtos da região. Em outro momento, negou que suas falas configurassem preconceito, e afirmou que não sofria de “nordestinofobia”. O vídeo provocou ampla repercussão e motivou manifestações de repúdio. Dias depois, Vieira divulgou um pedido público de desculpas.

Os discursos xenófobos também alcançaram representantes do poder público. Em fevereiro de 2023, durante uma sessão da Câmara Municipal de Caxias do Sul (RS), o então vereador Sandro Fantinel (Republicanos) sugeriu que produtores rurais deixassem de contratar trabalhadores baianos, pois eles estariam acostumados apenas com “Carnaval e festa”.

As declarações ocorreram após o resgate de mais de 200 trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão em vinícolas da Serra Gaúcha, a maioria oriunda da Bahia. Em fevereiro de 2026, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região manteve a condenação do ex-vereador ao pagamento de R$ 100 mil por danos morais coletivos, ao entender que suas declarações configuraram discriminação baseada na origem regional. 

Em 2026, Bereia também verificou declarações do missionário evangélico Nick Moretti, da Zion Church, que viralizaram nas redes. Durante uma pregação destinada ao público jovem, o religioso afirmou que, ao chegar a Salvador, teve a impressão de que seria necessário “pedir licença para demônio”. Ele também associou o Carnaval de Olinda e símbolos das religiões de matriz africana à atuação de forças malignas. Após a repercussão do vídeo, Moretti divulgou uma retratação pública, reconheceu que suas declarações foram equivocadas e pediu desculpas aos moradores de Salvador e Olinda. 

Outro episódio analisado pelo Bereia envolveu o pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes, que, durante participação em um podcast, afirmou que beneficiários do Bolsa Família desenvolvem uma “mentalidade de miséria” e deixam de trabalhar. Embora não tenha citado diretamente o Nordeste, a declaração recupera um dos principais estereótipos historicamente associados à região: a ideia de que sua população depende de programas sociais e rejeita o trabalho. Na checagem publicada pelo Bereia, dados oficiais mostraram que essa generalização não encontra respaldo nas informações sobre o Bolsa Família nem no perfil de seus beneficiários. 

Em comum, esses episódios demonstram que a xenofobia contra nordestinos vai além de manifestações isoladas nas redes sociais. Quando reproduzidos por líderes religiosos, influenciadores ou agentes públicos, esses discursos ampliam seu alcance, reforçam estereótipos históricos e contribuem para deslegitimar a participação política de milhões de brasileiros em razão de sua origem regional.

***

Dessa forma, ao analisar publicações nas redes digitais, dados da SaferNet Brasil, estudos acadêmicos e episódios que envolvem lideranças religiosas e agentes públicos, Bereia verificou que o discurso de que “nordestino não sabe votar” não encontra fundamento em evidências. Trata-se de um comportamento que se repete desde as eleições presidenciais de 2014 e que se intensifica em períodos eleitorais, especialmente em contextos de polarização política. Além de reforçar preconceitos históricos contra a população nordestina, essas mensagens procuram deslegitimar a participação política de milhões de brasileiros e atribui ao eleitorado da região a responsabilidade exclusiva pelos resultados das urnas. 

Referências:

Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/geral/audio/2014-10/preconceito-contra-nordestinos-nas-redes-aumenta-denuncias. Acesso em 3 de julho de 2026. 

Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2014-10/dilma-vence-no-norte-e-no-nordeste-aecio-ganha-nas-outras-tres-regioes. Acesso em 3 de julho de 2026. 

BCC News Brasil. https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63112880. Acesso em 3 de julho de 2026. 

Terra. https://www.terra.com.br/noticias/eleicoes/nordestinos-sao-hostilizados-apos-vitoria-de-dilma-rousseff,aa13fc86bd059410VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html. Acesso em 3 de julho de 2026. 

Agência Fapesp. https://agencia.fapesp.br/discurso-de-odio-contra-nordestinos-cresceu-821-nas-eleicoes-presidenciais-de-2022/56947. Acesso em 3 de julho de 2026. 

Artigo de Hellen Gouveia Rodrigues de Melo. https://sistemas.intercom.org.br/pdf/submissao/nacional/17/06282024173215667f1dcfe3194.pdf. Acesso em 3 de julho de 2026. 

G1. https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/02/01/miseravel-ingrato-burro-pesquisa-mapeia-aumento-de-ataques-a-nordestinos-em-anos-eleitorais.ghtml. Acesso em 3 de julho de 2026.

G1. https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2022/11/07/pastor-do-rj-que-chamou-nordestinos-de-preguicosos-pede-desculpas-e-diz-que-vai-antecipar-ferias-da-igreja.ghtml. Acesso em 3 de julho de 2026.

G1. https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2022/11/06/em-video-pastor-do-rj-diz-que-petistas-sao-inimigos-de-deus-chama-nordestinos-de-preguicosos-e-causa-revolta-nas-redes-sociais.ghtml. Acesso em 3 de julho de 2026.

Base de dados do SaferNet. https://docs.google.com/spreadsheets/d/1hmB3ZiyABDLe0u2lYVxaXL328GdNI0IQQQGB4d99To8/edit?gid=0#gid=0. Acesso em 3 de julho de 2026.

SaferNet. https://new.safernet.org.br/content/safernet-denuncias-de-xenofobia-na-internet-explodem-apos-1o-turno-das-eleicoes. Acesso em 3 de julho de 2026. 

Cartilha Violência Política de Gênero. https://transparenciaeleitoral.com.br/wp-content/uploads/2022/07/Cartilla-bras-1-1.pdf. Acesso em 3 de julho de 2026.

Consultor Jurídico. https://www.conjur.com.br/2026-fev-28/vereador-e-condenado-por-discurso-xenofobico-contra-nordestinos/. Acesso em 3 de julho de 2026.

Foto de capa: Agencia Brasil

Crítica de pastor influenciador sobre Bolsa Família espalha preconceito e desinformação

“Centenas de pessoas” que, ao receberem o Bolsa Família, “não querem trabalhar” e acabam se acomodando a uma “mentalidade de miséria” – estas palavras foram proferidas pelo pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes, durante participação no podcast O Que a Bíblia Diz Sobre Dinheiro. A fala do pastor no canal do influenciador financeiro Thiago Nigro, o Primo Rico, ocorreu no episódio que discute riqueza, fé e prosperidade e acendeu um debate recorrente sobre políticas de transferência de renda no Brasil. Segundo o Lopes, quando o benefício se torna visto como “bênção”, pode se transformar em “maldição”, ao gerar dependência. Para fundamentar sua visão, o pastor citou os Dez Mandamentos para defender a ideia que Deus ordena o trabalho por seis dias e o descanso em um.

A fala adiciona conteúdo a um contexto em que o programa de transferência de renda é alvo frequente de desinformação nas redes sociais, muitas vezes associadas à ideia de que o benefício desestimularia o trabalho formal. Dados recentes, no entanto, indicam um cenário mais complexo.

O primeiro programa de transferência de renda do Brasil: a história do Bolsa Família 

Criado em 2003, no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Bolsa Família unificou iniciativas anteriores de transferência de renda implementadas no governo Fernando Henrique Cardoso, como o Bolsa Escola, o Bolsa Alimentação e o Auxílio Gás. A consolidação ocorreu por meio da Lei nº 10.836/2004, que instituiu oficialmente o programa como política pública federal voltada ao enfrentamento da pobreza e da extrema pobreza.

O Bolsa Família opera por meio de transferência direta de renda a famílias em situação de vulnerabilidade, com critérios definidos a partir da renda per capita e com exigências relacionadas à frequência escolar e ao acompanhamento de saúde. A proposta combina alívio imediato da pobreza com estímulos à permanência na escola e ao acesso a serviços básicos.

Foto: Sergio Amaral/MDS

Ao longo de duas décadas, o programa passou por reformulações. Em 2021, foi substituído pelo Auxílio Brasil, durante o governo Jair Bolsonaro (PFL e PL, 2019-2022). Em 2023, retomou o nome original por meio da Lei nº 14.601/2023, mantendo a lógica de transferência condicionada e incorporando ajustes nos valores e na estrutura de benefícios.

A criação e a manutenção do programa se inserem em um contexto de desafios sociais persistentes. Em 2022, cerca de 70 milhões de brasileiros enfrentavam algum grau de insegurança alimentar, segundo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU). No mesmo período, levantamento da FGV Social indicou que aproximadamente 29,6% da população vivia com renda domiciliar per capita de até R$ 497 mensais, o pior índice desde 2012.

Estudo da Fundação Getúlio Vargas aponta que, entre 2022 e 2024, 17,4 milhões de pessoas deixaram a pobreza e passaram a integrar as classes A, B e C, contingente equivalente à população do Equador. Segundo o pesquisador e diretor da FGV Social, Marcelo Neri, o avanço foi impulsionado principalmente pela renda do trabalho. “O ganho de renda do trabalho foi o principal motor de ascensão social da chamada classe média. A regra de proteção do Bolsa Família impulsiona a geração de carteiras de trabalho”, afirmou.

Como são os programas em outros lugares do mundo

A adoção de programas de transferência direta de renda não é uma particularidade brasileira. Entre as dez maiores economias do mundo, iniciativas voltadas à garantia de renda mínima ou ao apoio a famílias de baixa renda estão presentes, ainda que com formatos distintos. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicam que países desenvolvidos gastam, em média, 1,6% do Produto Interno Bruto (PIB) em benefícios condicionados à renda, percentual superior ao registrado no Brasil, onde o Bolsa Família representa cerca de 0,5% do PIB.

Na França, por exemplo, os programas de transferência de renda somam cerca de 2,1% do PIB e integram um sistema de proteção social mais amplo, que inclui auxílio-moradia, subsídios para energia e benefícios vinculados à criação de filhos. A Alemanha garante um valor mensal para necessidades básicas, além de complementos para aluguel e educação. No Reino Unido, o Crédito Universal unificou benefícios destinados a famílias de baixa renda, trabalhadores informais e desempregados.

Nos Estados Unidos, o principal programa federal é o SNAP, voltado à segurança alimentar de famílias de baixa renda, além de iniciativas como o Supplemental Security Income (SSI), destinado a idosos e pessoas com deficiência. O sistema estadunidense inclui ainda o Temporary Assistance for Needy Families (TANF), que pode exigir contrapartidas relacionadas ao trabalho.

Já no Canadá, o modelo de transferência de recursos assume formato distinto do brasileiro. A chamada Transferência Social do Canadá (Canada Social Transfer – CST) é uma das principais transferências federais para províncias e territórios e financia áreas como educação pós-secundária, assistência social e políticas para a primeira infância. Diferentemente de programas focalizados diretamente em famílias, o mecanismo canadense repassa recursos de forma per capita e quase incondicional aos governos subnacionais, que têm autonomia para definir a aplicação dos fundos.

Imagem: CBC

Na Ásia, a China mantém programas como o Dibao, que assegura um nível mínimo de renda tanto em áreas urbanas quanto rurais, com valores ajustados às realidades locais. O Japão opera o Seikatsu Hogo, que calcula o benefício com base no custo de vida da família e inclui apoio para moradia e despesas médicas. A Coreia do Sul ampliou, após a crise de 1997, seu programa nacional de subsistência básica, que combina transferência de renda com assistência educacional e médica.

Fora do eixo das economias desenvolvidas, programas de transferência de renda também foram estruturados em países de baixa renda. Um deles é o Programa de Rede de Segurança Produtiva (PSNP), da Etiópia, lançado em 2005 para enfrentar a insegurança alimentar crônica. A iniciativa combina transferências em dinheiro ou alimentos com frentes de trabalho em obras públicas voltadas principalmente a famílias vulneráveis em regiões de alto risco climático. O modelo etíope prevê ainda apoio incondicional para grupos sem capacidade laboral, como gestantes, pessoas com deficiência e idosos, e integra ações de adaptação climática e fortalecimento de meios de subsistência, com o objetivo de reduzir a dependência prolongada do programa.

Foto: Young Lives/Antonio Fiorente

Na Índia, a política de transferência de renda opera em larga escala por meio do sistema de Transferência Direta de Benefícios (Direct Benefit Transfer – DBT), que reúne centenas de programas federais. Nos últimos anos, o país ampliou sobretudo as transferências incondicionais, cujo volume cresceu de forma expressiva e já representa parcela relevante do gasto social. Entre as principais iniciativas estão o PM-KISAN, que garante apoio anual a agricultores elegíveis; o National Social Assistance Programme (NSAP), que paga pensões a idosos, viúvas e pessoas com deficiência; e o Pradhan Mantri Matru Vandana Yojana (PMMVY), voltado a gestantes, com parcelas vinculadas ao acompanhamento de saúde materno-infantil.

O que dizem os dados

Estudo divulgado em dezembro de 2025 pela Escola de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV EPGE) aponta que, entre o início de 2023 e outubro de 2025, o número total de beneficiários do Novo Bolsa Família diminuiu, assim como o volume total de recursos pagos. De acordo com a pesquisa, 31,25% das pessoas que estavam no programa no começo de 2023 já não recebiam o benefício em outubro de 2025. O levantamento descreve o movimento como uma “rotatividade saudável”, com mais saídas do que novas entradas no período analisado.

A análise também destaca que o programa funciona como proteção temporária em momentos de vulnerabilidade de renda, e não como política de permanência automática. Entre os beneficiários de 2014, 60,68% não estavam mais no Bolsa Família em 2025. Entre aqueles que eram adolescentes naquele ano, as taxas de saída ultrapassam 70%.

Os dados indicam ainda que a permanência no programa não impede a inserção no mercado formal. Em 2024, 13,4 milhões de beneficiários estavam empregados. No primeiro semestre de 2025, pessoas cadastradas no Bolsa Família ocuparam 58,2% das novas vagas formais criadas no país. O programa prevê uma regra de proteção que permite à família continuar recebendo parte do benefício por até dois anos após aumento da renda, mecanismo que busca evitar quedas bruscas e reduzir o receio de aceitar emprego formal.

Levantamento do IBGE mostra que o Brasil tinha, em dezembro de 2025, 103,2 milhões de pessoas ocupadas, número que inclui trabalhadores formais, informais, autônomos e servidores públicos. O dado é mais que o dobro do total de empregados com carteira assinada, frequentemente utilizado de forma isolada em comparações enganosas que circulam nas redes.

Desinformação contra o Bolsa Família

Em novembro passado, o Estadão Verifica classificou como enganosa uma postagem que comparava 48 milhões de beneficiários do Bolsa Família com 39 milhões de trabalhadores formais, sugerindo que haveria mais “dependentes” do que empregados no país. A checagem apontou que o total de beneficiários inclui crianças e adolescentes e que parte significativa dos adultos atendidos exerce atividade remunerada.

A circulação desse tipo de enquadramento foi analisada em estudo acadêmico recente publicado no Brazilian Journal of Development. No artigo, os pesquisadores Lana Krisna Morais e Heitor Costa Lima da Rocha identificam que a desinformação sobre o Bolsa Família se organiza, com frequência, em torno da ideia de “dependência permanente” e da associação entre recebimento do benefício e falta de esforço individual, como propagado pelo pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes. 

Muitos desses discursos midiáticos não apresentam dados falsos, mas recorrem a generalizações a partir de casos isolados ou a comparações numéricas descontextualizadas, o que produz percepções distorcidas sobre o programa. 

Um exemplo são os casos de fraude durante a pandemia de covid-19. Na época, órgãos de controle identificaram pagamentos indevidos do Auxílio Emergencial, administrado pelo governo de Jair Bolsonaro, a pessoas fora dos critérios. O Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que mais de 79 mil militares das Forças Armadas receberam o benefício de forma irregular, apesar de ele ser destinado a desempregados e pessoas sem renda. À época, o ministro do TCU Bruno Dantas afirmou que não havia hipótese legal para militares da ativa, da reserva ou pensionistas figurarem como titulares do auxílio, determinando a devolução dos valores.

Os autores do estudo observam ainda que parte das postagens críticas ao programa constroem uma “moralização da pobreza”, ao atribuir ao indivíduo a responsabilidade exclusiva por sua condição socioeconômica. Essa lógica tende a desconsiderar fatores estruturais que impõem empobrecimento a cidadãos como desigualdade regional, informalidade e acesso desigual à educação.

Leitura teológica contesta ideia de “acomodação” atribuída ao Bolsa Família

Para o teólogo e pastor da Primeira Igreja Batista do Limoeiro (São Paulo) Alonso Gonçalves a afirmação de que beneficiários do Bolsa Família se acomodam e deixam de trabalhar carece de base de dados e ignora o funcionamento do programa. “Por aí já se vê a falta de informação e lisura na afirmação que o programa incentiva a preguiça, a acomodação”, contesta.

Gonçalves destaca que se trata de uma política de Estado com critérios definidos e foco prioritário em mulheres responsáveis pelo cuidado dos filhos. Segundo ele, há condicionalidades ligadas principalmente ao acompanhamento das crianças, o que afasta a ideia de incentivo à inatividade. O pastor também observa que, em 2025, mais de 2 milhões de famílias deixaram o benefício após melhora de renda, movimento que, em sua avaliação, reforça o caráter transitório da política.

Foto: PIB do Limoeiro/Youtube

No campo teológico, Gonçalves sustenta que a assistência aos mais vulneráveis encontra respaldo direto na tradição cristã. “Dar o que comer para quem tem fome é um ensinamento de Jesus”, afirma, ao citar o Evangelho de Mateus como referência ética central da fé cristã. Para ele, episódios bíblicos mostram que a ajuda imediata não é condicionada previamente à situação de trabalho de quem passa necessidade.

Ao recuperar a tradição protestante, Gonçalves afirma que iniciativas históricas de cuidado social, como práticas diaconais ligadas a Calvino, em Genebra, no século 16, e a atuação social de John Wesley, na Inglaterra, no século 18, demonstram que a assistência aos pobres sempre integrou a prática cristã. Ele também menciona a atuação de Walter Rauschenbusch, estadunidense precursor do Evangelho Social, no início do século 20, e, no Brasil, o trabalho da médica sanitarista católica Zilda Arns, nos séculos 20 e 21..

“Os evangélicos, caso seguissem sua tradição, seriam os primeiros a defender que os mais vulneráveis da sociedade tivessem auxílio e, assim, diminuir a desigualdade que fere o caráter de Deus”, afirma o pastor.

Referências:

Estado de S. Paulo

https://www.estadao.com.br/estadao-verifica/postagem-engana-ao-comparar-numeros-de-beneficiarios-do-bolsa-familia-e-de-empregos-formais/ Acesso em 23 FEV 2026

Portal Câmara dos Deputados

https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2004/lei-10836-9-janeiro-2004-490604-publicacaooriginal-1-pl.html Acesso em 23 FEV 2026

Portal do Governo Federal Ministério do Desenvolvimento

https://www.gov.br/mds/pt-br/noticias-e-conteudos/desenvolvimento-social/noticias-desenvolvimento-social/em-dois-anos-17-4-milhoes-de-pessoas-sairam-da-pobreza-e-ascenderam-de-classe-social Acesso em 23 FEV 2026

G1

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/12/08/como-funcionam-programas-nos-moldes-do-bolsa-familia-nas-10-maiores-economias-do-mundo.ghtml Acesso em 23 FEV 2026

ONU

https://openknowledge.fao.org/handle/20.500.14283/cc3017en Acesso em 23 FEV 2026

FGV

https://www.cps.fgv.br/cps/bd/docs/FGVSOCIAL_Classes76a24.pdf

https://projetos.fgv.br/sites/default/files/users/user6/apresentacao_mds_04.pdf?utm_source=portal-fgv&utm_medium=fgvnoticias&utm_id=fgvnoticias-2025-12-05 Acesso em 23 FEV 2026

Governo do Canadá

https://www.canada.ca/en/department-finance/programs/federal-transfers/canada-social-transfer.html Acesso em 23 FEV 2026

Global Alliance

https://globalallianceagainsthungerandpoverty.org/pt-br/country-example/ethiopia-productive-safety-net-program-psnp/ Acesso em 23 FEV 2026

The Wire
https://thewire.in/ptiprnews/indias-unconditional-cash-transfers-grow-23x-in-a-decade-cross-inr-2-8-lakh-crore-project-deep-report  Acesso em 23 FEV 2026

IBGE

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45761-desocupacao-cai-para-5-1-em-dezembro-e-2025-tem-melhores-resultados-da-serie-historica Acesso em 23 FEV 2026

Brazilian Journal of Development

https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BRJD/article/view/77603/53858 Acesso em 23 FEV 2026

TCU 

https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/tcu-determina-devolucao-do-auxilio-emergencial-da-covid-19-recebido-por-militares.htm Acesso em 23 FEV 2026

Ministro das Comunicações e deputado federal divulgam desinformação sobre pobreza no Brasil

* Com colaboração de Rafaely Camilo

O Ministro das Comunicações, Fábio Faria, e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL/SP), ambos políticos evangélicos, publicaram em suas mídias sociais, nos dias que se seguiram às eleições no Brasil, conteúdo que contesta a situação de extrema  pobreza e fome no país. 

Imagem: reprodução do Twitter

Imagem: reprodução do Twitter

Fábio Faria contestou o número  de 33 milhões de brasileiros em situação de fome, divulgado pela oposição ao governo em campanha. O ministro de Estado afirmou que a quantidade é  de 1,9 milhões de pessoas em  situação de extrema pobreza no Brasil. 

Já Eduardo Bolsonaro publicou que 4,14 milhões estariam na linha de pobreza. De acordo com o deputado do PL “é tudo sobre narrativas”, e a fome não seria tão grande assim no Brasil, como afirmam os grupos de oposição ao governo Bolsonaro. 

Fábio Faria e Eduardo Bolsonaro correlacionam as faixas de pobreza e extrema pobreza ao número de pessoas que passam fome no país, mas as duas questões devem ser apresentadas a partir de um contexto mais amplo e diversas variáveis como metodologia para categorizar as faixas de pobreza, características de cada país e região, inflação, mercado de trabalho, entre outros. 

A publicação do ministro Fábio Faria traz duas imagens, uma com o título da matéria do jornal O Globo e a outra do site Poder 360. Fábio Faria relaciona a matéria de O Globo a informações falsas sobre a fome durante o período eleitoral e faz um contraponto com as informações do Poder 360,  buscando fazer entender que o número de pessoas na extrema pobreza é equivalente ao número de pessoas que passam fome no Brasil.

A publicação de Eduardo Bolsonaro segue na mesma linha, apresentando os dados do Banco Mundial que indicam os brasileiros na faixa da pobreza extrema como uma resposta às críticas da  oposição ao atual governo durante a campanha eleitoral e os dados da fome. Bereia checou os dados e identificou que informações sobre  os anos de 2021 e 2022 ainda não estão disponíveis em qualquer órgão oficial ou entidade privada reconhecida. Os dados mais recentes dizem respeito a 2020.

Últimos dados apresentados pelo Banco Mundial: pobreza e extrema-pobreza no Brasil

Os dados apresentados nas publicações de Fábio Faria e Eduardo Bolsonaro apresentam como fonte o Banco Mundial. De acordo com as métricas definidas pelo Banco Mundial, a pobreza extrema é caracterizada quando um indivíduo vive abaixo da linha internacional de pobreza, com renda de US$1,90 por dia, a preços de 2011, e US$2,15 por dia, a preços de 2017. Esses dados são ajustados pela inflação e pelas diferenças no custo de vida entre os países.

Entre os anos de 2003 e 2014 o número daqueles que viviam na extrema pobreza foi reduzido de forma constante ano após ano, por conta das políticas de distribuição de renda assumidas no país. A partir de 2015 este número voltou a subir de forma constante até 2019. De acordo com os últimos dados apresentados pelo Banco Mundial, eram 4,86%, em 2019. Em 2020 houve redução para 1,75% da população na faixa de extrema pobreza.

Os dados apresentados nas publicações dos políticos em relação aos números da extrema pobreza estão corretos, entretanto, esta questão não está diretamente ligada à fome do país. Mesmo que a faixa dos que estão na extrema pobreza tenha diminuído, existem outras faixas de pobreza e outras questões que levam à população a sofrer com a fome.

Banco Mundial estabelece outras duas faixas de medição de pobreza

A linha de pobreza de US$3,20 por dia per capita a preços de 2011 e US$3,65  por dia a preços de 2017, com 5,32% da população do Brasil nesta faixa.

A linha de pobreza de US$5,50 por dia per capita  nos preços de 2011 e US$6,85 por dia nos preços de 2017, com 18,73% dos brasileiros nesta faixa

De acordo com os dados apresentados pelo Banco Mundial, o Brasil teria em torno de 25% da população incluída em uma das três faixas de pobreza. Desta forma, há um  número muito alto de pessoas com renda muito baixa, entre estas, as que sustentam famílias inteiras, enfrentam as condições de trabalho precário e informal.

Não se pode comparar fome com extrema pobreza

As publicações de Fábio Faria e Eduardo Bolsonaro fazem referência à matéria do Jornal O Globo que afirma que 33 milhões de brasileiros passam fome. O número foi obtido por pesquisadores da Rede Penssan, formada por entidades como Ação da Cidadania, Actionaid, Ford Foundation, Vox Populi e Oxfam.

Na última divulgação dos dados do 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, a fome avançou no Brasil em 2022 e atingiu 33,1 milhões de pessoas. 

Em setembro de 2021, os pesquisadores da Rede Penssan destacam que o recente reajuste no valor do Auxílio Brasil para R$ 600, a partir de agosto de 2022, não mudou o quadro da fome, porque a alta inflação dos alimentos, a piora no mercado de trabalho e a fila de pessoas que não conseguem entrar no Cadastro Único — e que, por isso, não recebem o auxílio — agravaram a crise.

No Brasil de 2022, apenas quatro em cada dez domicílios conseguem manter acesso pleno à alimentação – ou seja, estão em condição de segurança alimentar. Os outros seis lares se dividem numa escala, que vai dos que permanecem preocupados com a possibilidade de não ter alimentos no futuro até os que já passam fome. De acordo com a pesquisa,em números absolutos, são 125,2 milhões de brasileiros que passaram por algum grau de insegurança alimentar. É um aumento de 7,2% desde 2020, e de 60%, em comparação com 2018.

De acordo com o coordenador da Rede Penssan, Renato Maluf, “já não fazem mais parte da realidade brasileira aquelas políticas públicas de combate à pobreza e à miséria que, entre 2004 e 2013 [como se pode  constatar nos gráficos apresentados pelo Banco Mundial], reduziram a fome a apenas 4,2% dos lares brasileiros. As medidas tomadas pelo governo para contenção da fome hoje são isoladas e insuficientes, diante de um cenário de alta da inflação, sobretudo dos alimentos, do desemprego e da queda de renda da população, com maior intensidade nos segmentos mais vulnerabilizados”. 

***

Bereia classifica que as publicações do ministro Fábio Faria e do deputado Eduardo Bolsonaro desinformam, pois são imprecisas. Mesmo que apresentem dados reais quanto à acentuada queda do número de brasileiros na extrema pobreza, baseados na última faixa de renda do Banco Mundial, o conteúdo não trata a questão específica da fome, alvo da campanha da oposição nas eleições.

Qualquer abordagem sobre a temática deve ser relacionada ao Auxílio Brasil de R$600,00, que com a alta da inflação e do custo dos alimentos não é suficiente para a manutenção básica das famílias. Além disso, as publicações, em defesa do governo federal, omitem  dados como o alto preço dos combustíveis (controlados atualmente de maneira artificial), mercado de trabalho precário e uma série de informações que permitem uma discussão ampla em torno da fome no país. Portanto, as publicações não oferecem dados substanciais ou comprováveis, não consideram diferentes perspectivas, não contextualizam a situação em questão, fazendo uso frio e isolado de números. 

Deve ser feita ainda a distinção entre os números da fome e os números da pobreza, uma vez que são dados diferentes e nas publicações verificadas, tanto Fábio Faria quanto Eduardo Bolsonaro usam como dados iguais ou correlacionados, o que não é correto. 

Referências de checagem:

IBGE.

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/25882-extrema-pobreza-atinge-13-5-milhoes-de-pessoas-e-chega-ao-maior-nivel-em-7-anos Acesso em 7 nov 2022

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/32418-sintese-de-indicadores-sociais-em-2020-sem-programas-sociais-32-1-da-populacao-do-pais-estariam-em-situacao-de-pobreza#:~:text=De%202019%20para%202020%2C%20as,24%2C1%25%20da%20popula%C3%A7%C3%A3o. Acesso em 7 nov 2022 

Banco Mundial.  https://ourworldindata.org/from-1-90-to-2-15-a-day-the-updated-international-poverty-line Acesso em 07 nov 2022  

Rede PENSSAN.  https://pesquisassan.net.br/ Acesso em 7 nov 2022  

O Globo. https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2022/noticia/2022/09/entenda-os-numeros-que-mostram-que-33-milhoes-de-pessoas-passam-fome-no-brasil.ghtml Acesso em 07 nov 2022

Poder 360. https://www.poder360.com.br/economia/extrema-pobreza-do-brasil-cai-para-a-minima-historica-em-2020/ Acesso em 7 nov 2022

Quando comunicar é servir

* Publicado originalmente no jornal argentino Página 12. Traduzido por Magali Cunha.

Embora pudéssemos dizer que tudo é um ato comunicacional no ser humano – mesmo quando o silêncio de seus ditos e ações é a única coisa que aparentemente se nota – é o fato básico de poder fazer que nos define em toda a nossa própria história.

Isso junto com tudo que deriva do ato de se comunicar e que pode ser rapidamente inferido; perguntas como: quem comunica? Para quem você comunica o quê? Andam de mãos dadas com outras nem sempre tão óbvias: quem pode ou não comunicar? Quando podemos ou não podemos comunicar quais elementos de nossa cultura? E assim… sempre complicando o arco de análise cotidiana das questões, bem como a desconfiança metodológica necessária para poder distinguir que há além da superfície que se torna visível, audível, tangível.

Da WACC na América Latina (Associação Mundial para a Comunicação Cristã, World Association for Christian Communication, na sigla em Inglês), mais uma vez observamos com expectativa e esperança como um plano de governo em nossa região, em face do novo cenário de crise derivado de covid-19, levanta medidas que fazem da comunicação um paradigma de participação, para além das grandes multimídias que nos envolvem todos os dias.

O fato de o governo do atual presidente na Argentina Alberto Fernández, promover a partir de 2 de janeiro de 2021, o chamado Benefício Básico Universal Obrigatório para serviços móveis, fixos, Internet e televisão a cabo, tornando-os mais acessíveis às pessoas mais vulneráveis ​​em sociedade – beneficiárias do Bolsa-Família, Bolsa-Gravidez, bem como das suas filhas e filhos com idades compreendidas entre os 16 e os 18 anos e membros do seu grupo familiar, beneficiários e beneficiários de Pensões Não-Contributivas que recebam rendimentos mensais brutos não superiores a dois salários mínimos vitais e móveis, bem como seus filhos e filhas; clubes de bairros e cidades registrados na lei 27.098, associações de bombeiros voluntários definidas na lei 25.054 entre outras e outras – coincide com uma importante linha de ação e pensamento que a WACC Global (com mais de 50 anos de trajetória pelo mundo), defende e apoia nas diferentes regiões do mundo e em particular a América Latina, um dos continentes mais violentos segundo a ONU em seus estudos de 2018, bem como entre os social e economicamente desiguais.

Continuamos a apoiar a partir da WACC na América Latina, os princípios que movem a comunicação de um espírito cristão, aberto e plural onde entendemos que:

  • A comunicação é um exercício espiritual na medida em que é um exercício transcendente de todo ser humano que cria significados “sagrados” entre os seres humanos em suas múltiplas formas de compreender e viver sua espiritualidade.
  • A comunicação aumenta a participação. O incentivo à comunicação é um ato com vontade política própria. Aqueles de nós que pretendem sociedades participantes e atuantes nas dinâmicas de mudança que têm de viver diariamente, devem possibilitar a comunicação em todos os seus espaços possíveis.
  • A comunicação promove liberdade e exige responsabilidade. Em tempos de tecnologia digital onde o “Cancelamento” de outras pessoas é utilizado como meio de controle e também de censura, é fundamental promover a liberdade de nos comunicarmos com base na premissa de não explorar essa liberdade para coibir a extensão de direitos aos setores mais vulneráveis.
  • A comunicação afirma a justiça e desafia a injustiça. Por fim, comunicar é deixar claro que para ser eficaz, deve-se considerar chegar onde a grande multimídia não chega (por opção política, por interesses próprios ou apenas por preguiça) e ser uma voz audível que gera incidência e define uma agenda comprometida com a vida dos outros.

Por tudo o que foi dito, afirmamos no início deste texto que comunicar é servir. Apesar do atípico 2021 que temos que atravessar, temos expectativas e esperanças de que este gesto feito lei aproxime a comunicação (em todo o seu sentido amplo) dos nossos povos latino-americanos.

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Foto de capa: Pixabay/Reprodução

Pastor e deputado Marco Feliciano desinforma ao falar de inflação

Na última terça-feira (08), o pastor e deputado federal por São Paulo, Marco Feliciano (Podemos), publicou um tuíte a respeito da relação do auxílio emergencial concedido pelo governo federal no período da pandemia de covid-19 com a inflação. Em seu tweet, afirma que “na pandemia, inflação alta é bom, pois significa que a economia não parou”. A declaração, no entanto, é uma afirmação falsa.

“Inflação alta na pandemia é bom” – FALSO

A inflação é o processo de encarecimento de produtos, do custo de vida, que pode acontecer por diversos motivos. A economia se dedica a estudar esse fenômeno, propondo diferentes explicações para ele. Duas vertentes da economia apontavam o que o deputado diz: que o aumento da produção levaria a um aumento do preço dos produtos. Essas eram a teoria convencional e teoria estruturalista da economia.

O ex-ministro da Fazenda do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-1998), doutor na área pela Universidade de São Paulo (USP), Luiz Carlos Bresser-Pereira, estuda sobre inflação desde 1980, sendo um dos criadores do conceito de “inflação inercial”. Segundo ele, a noção de uma inflação associada a crescimento econômico é ultrapassada e limitada.

Em um de seus artigos, Bresser-Pereira refere-se ao professor e pesquisador Ignácio Rangel que afirmava que as empresas, “diante das crises ou ameaças de crise, procuravam proteger sua taxa de lucro através do aumento administrado dos preços. Em consequência, a inflação se acelerava na recessão para acomodar as demandas dos agentes econômicos, que viam seus lucros diminuírem”

O movimento de alta da inflação pode ser observado como consequência do aumento do valor do dólar. Atualmente, por exemplo, com o dólar comercial a 5,04 reais, torna-se mais atrativo para produtores de alimentos exportar sua produção e receber na moeda estrangeira. A escassez de produtos para compra no Brasil, é causada justamente por este desvio dos produtores para o exterior e leva a um aumento dos preços nas prateleiras nacionais. Portanto, inflação alta não é bom em qualquer circunstância na vida de um país.

“Graças ao auxílio emergencial a economia arrancou” – FALSO

Dados: IBGE – gráfico: Bereia

A informação é de difícil análise, pois o ano de 2020 não acabou e ainda não foi possível medir todos os impactos da inserção do Auxílio Emergencial na economia. Sabe-se que o auxílio foi responsável pela inserção de R$ 213,06 bi na economia, ao gerar receita para mais de 60 milhões de brasileiros. No entanto os dados do IBGE sobre a variação do Produto Interno Bruto (PIB) indicam que o movimento não foi suficiente para evitar que o país passasse para o vermelho no saldo total. A queda no PIB até o balanço do terceiro trimestre de 2020 foi de -3,4%.

A economia do Brasil vinha em quadro de recessão desde 2019, que foi agravado pela pandemia da covid-19.

“[O Auxílio Emergencial] foi o maior programa de assistência social da história” – ENGANOSO

O auxílio emergencial foi o programa de assistência social que atendeu um maior número de brasileiros em menor tempo – foram 60 milhões de brasileiros atendidos com mensalidades no valor de 600 reais, somando R$ 213,06 bi até agosto deste ano. No entanto, em quantidades absolutas, o programa ainda é inferior ao Bolsa Família, programa mais abrangente que trabalha com o conceito de distribuição de renda e superação da pobreza. O Bolsa Família injeta, R$ 29,5 bi por ano na economia desde 2004, chegando a um total de R$ 472 bi até o fim deste ano – sem considerar a inflação.

A afirmação também desconsidera o contexto global: países como Argentina, Espanha, Alemanha, França, Japão e Estados Unidos ofereceram auxílios emergenciais e ajuda à empresas que ultrapassam os valores do governo brasileiro em duração e quantia por família.

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O Coletivo Bereia conclui que o tuíte do deputado Marco Feliciano é falso e enganoso. O conteúdo tem uma visão econômica sobre inflação já desmentida pela pesquisa em economia no Brasil e no mundo, e não encontra respaldo. O auxílio oferecido pelo governo brasileiro, durante o período da pandemia de covid-19, não foi suficiente para evitar uma recessão até o presente momento, nem tampouco figura entre os maiores programas de assistência social da história – seja da história mundial ou brasileira.

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Referências

BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. A descoberta da inflação inercial. In: Revista Economia contemporânea, Rio de Janeiro, v. 14, n. 1, p. 167-192, jan./abr. 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/rec/v14n1/a08v14n1.pdf. Acesso em 10/12/2020

G1, https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/05/19/veja-medidas-economicas-adotadas-pelos-paises-para-socorrer-populacao-e-empresas.ghtml, acesso em 10/12/2020

Senado, https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2020/09/25/pandemia-ja-causou-despesas-de-r-411-bilhoes-para-o-governo, acesso em 10/12/2020

Yahoo Finanças, https://br.financas.yahoo.com/noticias/bolsa-familia-gastos-governo-070036578.html, acesso em 10/12/2020