“Proteja seu filho”: discurso de medo impulsiona a promoção do homeschooling cristão no Brasil

Pauta-chave para a política ultraconservadora no Brasil, a defesa da educação domiciliar, conhecida como homeschooling, é marcada pelo engajamento de grupos cristãos alinhados à direita. 

Na segunda reportagem sobre homeschooling, Bereia investiga a origem desse movimento nos Estados Unidos, sua dimensão religiosa e os bastidores da difusão da prática no Brasil. A primeira parte da investigação explicou a situação jurídica da prática e apresentou personagens e instituições envolvidos com a pauta.

Imagem: reprodução/Instagram

‘Proteja seu filho’: marketing e medo

A chegada dos filhos muda a rotina das famílias e é carregada de novas responsabilidades, dúvidas e preocupações. A necessidade de escolha por uma escola, pedagogia ou modelo educacional que façam sentido para o contexto familiar se impõe ainda na primeira infância, e as pesquisas na internet fazem parte do processo de decisão.

É em buscas simples que muitos pais encontram perfis de famílias adeptas da educação domiciliar e páginas de venda de cursos e material didático para o ensino doméstico. Além da promessa de o conteúdo estar de acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), há um forte apelo emocional e de pânico moral para promover o homeschooling e vender conteúdos de apoio. 

Expressões como “proteja seu filho” e “abismo” são usadas para retratar a escola como um local inseguro e fazem parte de um discurso que considera a educação domiciliar a única capaz de garantir uma boa “educação cristã” aos filhos.

Imagem: reprodução/Instagram

Os materiais (que vão de guias de alfabetização a currículos completos para todos os anos escolares) custam entre R$ 69 a R$ 300 e são apresentados como a solução para pais cristãos preocupados com a educação dos filhos. Há ainda modelos de assinatura de custo mais elevado (de R$ 2.400 a R$ 5.000), que, além do material didático, oferecem treinamento aos pais, assessoria pedagógica e jurídica – já que o homeschooling não é regulamentado no Brasil.

Bereia constatou que, de modo geral, os materiais e cursos são produzidos e vendidos por pais adeptos do ensino domiciliar, mesmo que muitos não tenham formação na área da educação. Também há oferta de obras traduzidas do inglês, mas são minoria, assim como outras publicadas por editoras de materiais didáticos. Além disso, muitos conteúdos não têm indicação de autoria.

O medo da influência de “ideologias” na formação cristã das crianças é recorrente nos sites e mídias sociais sobre educação doméstica. Um site que vende material didático destaca que um dos benefícios da modalidade é que a criança não receberá doutrinação ideológica de professores na escola. 

Imagem: site da empresa vendedora de material para homeschooling

Outra empresa, na página de venda de seu serviço por assinatura, dá destaque aos “perigos” aos quais crianças estão expostas a cada dia em que seus pais não tomam a decisão pelo homeschooling: falta de educação cristã estruturada e perda de formação de caráter cristão, dentre outros.

Além da oferta de materiais e assistência jurídica e pedagógica, páginas sobre homeschooling também orientam famílias a usarem o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) a fim de obterem certificação de escolaridade. O exame é voltado a jovens e adultos que não terminaram os estudos na idade adequada e dá certificação para a conclusão do ensino fundamental e médio. A orientação também está presente no guia da Associação Nacional de Educação Domiciliar (ANED).

Psicologia sem Freud, e Pedagogia sem Paulo Freire

O evento, chamado ExpoHomeschooling, foi realizado em novembro de 2025 na Arena Cidade Viva, em João Pessoa (PB), espaço da denominação cristã evangélica Cidade Viva. A instituição religiosa tem ampla atuação no campo educacional, desde a educação básica, até o ensino superior de graduação e pós-graduação, oferecendo cursos, que segundo ela divulga, são estratégicos para a reconstrução da sociedade, como Psicologia (sem Freud), Pedagogia (sem Paulo Freire) e Direito.

Imagem: reprodução/Youtube

O evento tem como público-alvo famílias que praticam o homeschooling, mesmo sem a regulamentação da modalidade de ensino entre as autorizadas pela legislação brasileira.

Fonte: ExpoHomeschooling (site)

De acordo com a cientista da religião e pesquisadora do tema, Andréa Silveira de Souza, aparentemente a ExpoHomeschooling é uma instituição autônoma que promove anualmente esse evento, no entanto quem lidera a exposição é o atual presidente da Associação Nacional de Educação Domiciliar (ANED), Carlos Vinícius Reis.

O evento contou com a presença de diversos missionários evangélicos estadunidenses, como o casal Daniel e Silvia Baker, Daniel Craig, Kevin Swanson (diretor da Generations), Aaron Pierce (Aspen), Mark e Diane Ellis, Kevin Boden. Há também a participação de organizações que desenvolvem naquele país o homeschooling cristão, entre elas Classical Press, Generations, Christian Hall e Liga Cristã de Debate e Discurso (NCFCA), todas já com seus executivos no Brasil e outros países da América Latina.

Entre os discursos proferidos no evento, receberam destaque pela pesquisadora as seguintes falas:

Autor / FonteFrase / Conteúdo
Sem identificação“Mudar o futuro do Brasil, Deus te deu esse poder! Restaurar a fé, a família e a liberdade no Brasil. Não é político, é espiritual”.
Sem identificação“A alma dos nossos filhos é o mais importante para a nossa vida, para a humanidade e para o Brasil”.
Sem identificação“Nos últimos 200 anos estão quebrando os nossos fundamentos, os nossos alicerces, nas escolas, nas universidades, na mídia, nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil. O que você fazer? Estão matando a sexualidade. Salvem a si mesmos e os seus filhos. Salvem os seus filhos! Amém?”
Sem identificação“Você confia em Deus ou nos profissionais e nos governos? Vou confiar em Deus! É nisso que eu vou confiar. ‘Deus, o que o Senhor diz sobre educação?’”.
Sem identificação“Um lar homeschooler é um lar verdadeiramente cristão, pois é um lar onde os pais amam a Deus a ponto de educar seus filhos em casa”.
Sem identificação“Nós e o mundo secular representamos dois conhecimentos diferentes, há uma separação entre eles. Estando na escola, nossos filhos aprendem a fé no domingo e o mundo secular nos outros dias. Devemos colocar a palavra de Deus em tudo. No homeschooling temos centenas de versículos bíblicos no nosso currículo, devemos trazer a palavra de Deus na literatura, interpretamos a ciência, a história por meio da palavra de Deus. Nossa cosmovisão é que a mão de Deus está sempre na história. Literatura é o estudo da alma do homem, e a Bíblia é a cabeça do homem”.
Sem identificação“O conteúdo não é importante, o discipulado é importante. A matemática não pode ser mais importante do que os cuidados domésticos, do que o discipulado”.
Daniel Craig(missionário, ex-aluno e pai de homeschooler)“João 14:6: ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai se não por mim’. Esse versículo se aplica ao homeschool: Jesus é o caminho na matemática, na ciência e na História. Mesmo matérias tidas como neutras estão ligadas a Ele”.
Douglas Leaman (missionário, ex-jogador do Flamengo, pastor em Recife-PE)“A esfera do Estado não tem Deus guiando porque temos poucos evangélicos reformados na política que adoram a Deus”.
Douglas Leaman“Nos Estados Unidos você não precisa saber Física para ter uma vida boa, é um país protestante. O romanismo do México para baixo muda tudo, é outra cultura que não tem Deus no centro de todas as coisas”.
Douglas Leaman“Obediência é uma tragédia no Brasil. Não existe mais honra e respeito. Nós temos que honrar a Deus”.
Daniel Baker(missionário estadunidense)“O plano do diabo é tirar os filhos de nós e depois de Deus. Educá-los é missão de vida, não apenas tarefa diária”.
Daniel Baker“O modelo é Jesus: fazer discípulos de forma prática, não só com lições acadêmicas. Os devocionais são bons, mas o discipulado precisa de plano e atender necessidades reais, começando pela obediência”.
Barbra Reis (esposa do presidente da ANED)Apoiou a vinda de materiais como o livro UpGrade, traduzido para o português brasileiro, que ajudou a entender o homeschooling como algo integrado a toda a vida familiar.

Fonte: Caderno de Campo – Andréa Silveira.

Andréa Silveira destaca que esse engajamento é o eixo central do projeto do homeschooling, porque não se trata apenas do debate a respeito de uma modalidade educacional cujo objetivo é ministrar a educação formal das crianças e adolescentes em casa. O que está em debate, no fim das contas, é uma “educação domiciliar cristã”, ou seja, um modelo de educação que, além de ser ministrado pela família (sobretudo pelas mães) no espaço doméstico, tem como eixo organizador e finalidade principal a formação religiosa das crianças para a observância dos princípios, valores e normas de uma vida distintamente cristã.

Para a pesquisadora, isso explica por que essas pessoas estão em conflito com o Estado brasileiro para tentar legalizar esse modelo. Ela comenta que o argumento para a legalização do homeschooling, de que a autoridade da família sobre a educação dos filhos é soberana e vem antes da do Estado, porque baseada em um direito natural, é também religioso, pois “parte da ideia de que a instituição familiar é anterior à própria organização social e política do Estado e de que a educação não seja compartilhada entre família e Estado para a proteção de crianças e adolescentes”. Andréa Silveira acrescenta que “esse entendimento é tão religioso que é uma perspectiva distintamente fundamentalista”.

Fonte: ExpoHomeschooling/Instagram

Além disso, o engajamento dos defensores da pauta do homeschooling tem formado uma rede interdenominacional, cujos integrantes são atores religiosos do campo cristão conservador de famílias cristãs (tanto católicas quanto evangélicas) adeptas a esse modelo de educação.

Para Andréa Silveira, essa aliança fica muito mais evidenciada quando se refere ao campo político. Segundo ela, ali é possível perceber deputados e senadores das frentes parlamentares católica e evangélica atuando em conjunto pela agenda, pré-candidatos a cargos legislativos e executivos autodeclarados religiosos de ambas as denominações e também dirigentes de associações como a Associação Nacional de Educação Domiciliar (ANED) e a Associação de Famílias Educadoras de Santa Catarina (AFESC) – algumas das principais associações que organizam as famílias homeschoolers no Brasil – e organizações da sociedade civil com presença incisiva no campo político, como o Instituto Isabel e o Instituto Brasileiro de Direito e Religião (IBDR).

Em todos esses grupos, o que se observa é um engajamento incisivo de católicos e evangélicos e também de alguns que se autodeclaram somente cristãos e que têm no homeschooling o meio por excelência de educar seus filhos e filhas distantes das influências do que chamam de “ideologias”, com o propósito principal de educar para o ministério cristão. Esse engajamento pautado em alianças interdenominacionais é uma característica distintiva do neofundamentalismo religioso de cunho cristão em franca ascensão no Brasil na última década e que vem pautando a atuação de atores civis e políticos no campo da extrema direita conservadora.

Origem estadunidense do homeschooling que está sendo importado para o Brasil

O homeschooling é um movimento iniciado no final da década de 1970 nos Estados Unidos da América e que ganhou maior visibilidade nos anos de 1980. A iniciativa partiu do educador John Holt, que acabou por chamar a atenção de muitas famílias interessadas na proposta educacional alternativa apresentada que fomentava a experiência da desescolarização. Crítico das potencialidades da instituição escolar, Holt liderou, entre os anos 1960 e 1970 do século 20, um movimento internacional pela divulgação e legalização do ensino doméstico.

Holt ganhou notoriedade nacional como opositor da educação institucional com a publicação de uma revista cujo conteúdo criticava o modelo de ensino dos Estados Unidos. A iniciativa radical tinha como objetivo principal o processo de aprendizagem vigente e sua crença de que a maioria dos ambientes escolares dificultava a verdadeira aprendizagem. O educador insistia em que grande maioria das crianças estadunidenses fracassava na escola, no sentido de que “elas não conseguiam desenvolver mais do que uma pequena parte da enorme capacidade de aprender.”

O modelo de homeschooling importado para o Brasil se consolidou baseado na ideia de que o ambiente escolar sufoca a criatividade dos alunos e que somente um espaço “livre” viabilizaria o potencial máximo de cada criança. Além disso, um dos argumentos usado por seus adeptos é que a educação é responsabilidade comunitária, e não institucional, colocando a família como única encarregada por ela.

Até 2018, os Estados Unidos contavam com mais de 2 milhões de crianças em idade escolar fora da escola, e um dos principais motivos era a divergência entre a educação institucional e crenças religiosas.

Ao longo do tempo, as estimativas federais de participação no ensino domiciliar giravam em torno de 2 a 3% dos alunos do ensino fundamental e médio. No entanto, durante a pandemia de COVID-19, a participação no ensino domiciliar aumentou significativamente, com pesquisas do Censo dos EUA que indicaram que aproximadamente 11% das famílias optaram por essa modalidade.

Devido aos cortes realizados pelo presidente Donald Trump, o último censo não pôde ser feito, inviabilizando a atualização dos dados sobre o homeschooling nos Estados Unidos. Abaixo, o mapa mostra o panorama sobre a educação domiciliar no país com base no último recenseamento.

Fonte: Johns Hopkins University (Homeschool Hub).

Referências

UFPE
https://wp.ufpel.edu.br/coisapublica/2023/08/08/homeschooling-um-retrocesso-na-educacao/  Acesso em: 10 jul. 2026 

NHERI https://nheri.org/home-school-researcher-a-radical-ideology-for-home-education-the-journey-of-john-holt-from-school-critic-to-home-school/ Acesso em: 10 jul. 2026 


ERIC https://eric.ed.gov/?id=EJ593810 Acesso em: 10 jul. 2026 


USP
https://jornal.usp.br/artigos/homeschooling-a-pratica-de-educar-em-casa/&sa=D&source=docs&ust=1783462591350266&usg=AOvVaw2vSDfmpyLXGEYiEvmbemZE
Acesso em: 10 jul. 2026 

JHU https://education.jhu.edu/edpolicy/policy-research-initiatives/homeschool-hub/homeschool-growth-2024-2025/ Acesso em: 10 jul. 2026

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