Agentes públicos realizam resgate no Maranhão: novo caso de exploração e violência em projeto social de igreja 

37 pessoas em condições análogas à escravidão foram resgatadas nas dependências da igreja Shekinah House Church, em São Luiz (MA). O resgate foi realizado em operação empreendida por uma força-tarefa de combate ao trabalho escravo, composta por agentes públicos estaduais e federais, em 7 de maio, em Paço do Lumiar, na região metropolitana de São Luís. 

O caso ganhou ampla repercussão nas redes digitais e voltou a colocar em evidência denúncias que envolvem o pastor David Gonçalves Silva, na preso em abril  na “operação falso profeta”. Bereia checou os fatos e verificou a veracidade das informações.

O que aconteceu?

A força-tarefa resgatou 37 pessoas nas dependências da Shekinah House Church, igreja descrita como uma congregação de orientação cristã. Entre elas, 17 foram apontadas como portadoras de deficiência e dependência de substâncias psicoativas, afirmaram porta-vozes da Polícia Federal e do Ministério Público do Trabalho no Maranhão (MPT-MA). 

Conforme as investigações, a sede da instituição religiosa funcionaria também como um espaço de prestação de serviços terapêuticos, sem comprovação de regularização legal, licenciamento administrativo ou habilitação técnica dos responsáveis. A Polícia Federal informou também que já existiam denúncias formais sobre irregularidades nas condições de permanência, segurança e atendimento oferecido às pessoas que viviam no local.

As denúncias ganharam maior repercussão após relatos de vítimas apontarem situações de violência física, abusos psicológicos e exploração trabalhista dentro da instituição. Ex-integrantes relataram episódios de castigos físicos, como chicotadas, além de denúncias de abuso sexual atribuídas ao pastor David Gonçalves Silva, líder da igreja, que permanece preso por determinação judicial enquanto as investigações continuam.

De acordo com o Ministério Público do Trabalho no Maranhão, as vítimas viviam em condições degradantes. Após a interdição do imóvel pela Vigilância Sanitária, os trabalhadores resgatados foram encaminhados para centros de acolhimento organizados pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular do Maranhão (Sedihpop). 

O procurador-chefe do MPT-MA Rafael Mondego afirmou que a operação ainda está em andamento e que o processo de resgate só será concluído após a formalização das rescisões trabalhistas das vítimas. Ele informou que também está prevista uma audiência entre representantes da comunidade religiosa, advogados e autoridades para buscar o pagamento das verbas rescisórias e indenizações. Caso não haja acordo, o órgão deverá ajuizar ação civil pública para assegurar judicialmente os direitos dos trabalhadores resgatados.

Sobre a igreja

Descrita publicamente como uma congregação de orientação cristã, a Shekinah House Church existe há, pelo menos, duas décadas e ganhou projeção nacional após as operações policiais e trabalhistas realizadas no Maranhão. 

Os dados disponíveis indicam uma organização ligada a comunidades religiosas de perfil pentecostal, com dinâmica baseada em convivência coletiva e funcionamento concentrado em uma propriedade localizada em Paço do Lumiar, na Região Metropolitana de São Luís.

Bereia conseguiu identificar um perfil atribuído à igreja em uma rede digital, no qual são exibidos registros da rotina dos integrantes da comunidade. É possível observar atividades na propriedade, que é uma fazenda, cultos religiosos e conteúdos relacionados ao pastor David Gonçalves Silva. 

A publicação mais antiga encontrada é datada de 11 de agosto de 2018, enquanto a mais recente foi publicada em 12 de abril deste ano. Em comentários publicados na própria página, seguidores afirmam que a igreja funcionaria no local desde 2007.

Imagem: Perfil oficial da igreja Shekinah House Church. Fonte: Instagram

A partir das informações divulgadas no perfil, Bereia também identificou referências a outras duas igrejas associadas ao mesmo grupo religioso no Ceará, localizadas nos municípios de Maracanaú e Paracuru.

As publicações mostram ainda a criação de cavalos na propriedade e a participação frequente de integrantes em competições de montaria e equitação. Há dezenas de imagens de membros recebendo premiações nesses eventos. O pastor David Gonçalves Silva também utilizava as redes digitais para solicitar doações destinadas à manutenção do que chamava de “projeto social voltado ao acolhimento de jovens”.

Imagem: Post da igreja com integrantes. Fonte: Instagram

As investigações sobre o caso apontam que dezenas de pessoas moravam na propriedade mantida pela igreja. Entre os relatos reunidos pelas autoridades estão denúncias de castigos físicos e psicológicos, controle rígido da rotina dos integrantes, isolamento social e controle de seus bens, cartões bancários e recursos financeiros pela liderança religiosa.

Até o momento, não há registros públicos amplamente documentados de uma estrutura nacional organizada da Shekinah House Church semelhante às grandes denominações evangélicas brasileiras. O nome “Shekinah”,  inclusive, é utilizado por diferentes igrejas independentes no país, o que pode gerar confusão entre organizações sem relação entre si. O termo vem do hebraico e significa “habitação”, “morada” ou “vizinhança”, que, teologicamente, é relacionado à presença gloriosa e visível de Deus manifestada entre os seres humanos.

Bereia também não identificou um site oficial vinculado diretamente à instituição. Nas buscas realizadas, foram encontrados apenas registros da localização da propriedade em Paço do Lumiar e um número de contato associado ao local. A reportagem solicitou posicionamento da igreja sobre as denúncias e investigações, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.

Quem é o pastor?

O líder da Shekinah House Church, pastor David Gonçalves Silva, é investigado pela Polícia Civil do Maranhão há cerca de dois anos por suspeitas de crimes como estelionato, estupro de vulnerável, posse sexual mediante fraude e associação criminosa. Ele foi preso durante a operação “Falso Profeta”. 

Imagem: pastor David Gonçalves Silva. Fonte: Uol

Bereia identificou um perfil atribuído ao pastor em uma rede digital. Na biografia David Gonçalves Silva se apresenta como “pastor”, “fundador da Shekinah House Church”, além de utilizar as descrições “capelão”, “psicólogo” e “equoterapeuta”. O perfil, no entanto, está configurado como privado, sem acesso público ao conteúdo publicado.

As investigações apontam que o líder religioso exercia forte influência sobre os integrantes da comunidade, no qual foi acusado por vítimas e ex-fiéis de utilizar discursos religiosos como mecanismo de controle psicológico e manipulação. Além disso, o pastor também administraria diretamente aspectos da rotina, do trabalho e da vida financeira de membros da comunidade religiosa.

Operação “Falso Profeta” 

Deflagrada em abril deste ano, a operação “Falso Profeta” marcou o início das investigações contra o pastor David Gonçalves Silva. A ação foi motivada após mais de dez pessoas procurarem a polícia para denunciar uma série de violações, entre elas maus-tratos, abusos psicológicos, violência física e crimes sexuais supostamente praticados pelo líder religioso contra integrantes da comunidade, inclusive adolescentes. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Maranhão, havia de cinco a seis possíveis vítimas identificadas no momento em que a operação foi realizada.

David Gonçalves passou a ser monitorado pela Polícia Civil há cerca de dois anos, após ex-fiéis relatarem que ele comandava uma estrutura baseada em manipulação religiosa, controle psicológico e violência. O pastor foi preso em abril passado. Entre as acusações estão estupro de vulnerável, estelionato, associação criminosa, agressões físicas e abusos sexuais cometidos contra jovens que viviam no sítio da instituição.

As denúncias também revelaram condições análogas à escravidão dentro da comunidade religiosa, o que levou à operação de resgate, realizada no início deste maio. Ela segue em andamento, com participação de auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), procuradores do Ministério Público do Trabalho (MPT), agentes da Polícia Federal, além do apoio da Defensoria Pública e da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos do Maranhão.

De acordo com o relatório de fiscalização, os membros da comunidade realizavam jornadas de trabalho sem qualquer remuneração. Em troca, recebiam alimentação, abrigo e vestimentas. As atividades incluíam construção civil, limpeza, preparo de refeições e o cuidado de 32 cavalos pertencentes ao pastor,  embora muitos fiéis acreditassem que os animais faziam parte do patrimônio da igreja.

Os depoimentos indicam jornadas superiores a 12 horas diárias, sem descanso semanal ou férias. Há relatos de pessoas que dormiam apenas uma ou duas horas por noite durante períodos de obras no local. Caso descumprissem as ordens, elas eram punidas com castigos físicos e psicológicos, como chicotadas, tapas, exposição prolongada ao sol, agressões. Denunciantes também relataram serem obrigados a copiarem frases como “eu preciso obedecer à minha liderança” por páginas inteiras de caderno, sem autorização para dormir antes da conclusão.

As investigações também apontam uma sistemática de exploração sexual de membros da comunidade, especialmente adolescentes do sexo masculino. De acordo com os relatos colhidos, o pastor se apresentava como “o anjo da igreja” e afirmava às vítimas que manter relações com ele significava se relacionar com Deus. Em alguns casos, os jovens recebiam privilégios, como acesso a celular, alimentação diferenciada e participação em competições de equitação, benefícios que, conforme os investigadores, funcionavam como instrumento de manipulação e controle.

A polícia também apura denúncias de vigilância e coerção contra membros que tentavam deixar o local. De acordo com os relatos, pessoas que fugiam eram localizadas em casas de familiares e pressionadas a retornar por meio de ameaças psicológicas e discurso religioso.

Outro ponto apurado pelas autoridades envolve um grupo chamado internamente de “especiais”, formado por pessoas entre 25 e 70 anos com condições como esquizofrenia, deficiência visual e dependência de substâncias psicoativas. Essas pessoas viviam na fazenda sem registro formal de comunidade terapêutica vinculada à igreja. O cuidado com elas era imposto aos demais membros como tarefa obrigatória, incluindo higiene pessoal e lavagem de roupas.

Entre as provas reunidas no inquérito está um vídeo que mostra um adolescente em estado de exaustão após cumprir uma punição determinada pelo pastor. A investigação divulgou que um jovem foi obrigado a permanecer horas em pé, sem dormir, além de passar a madrugada escrevendo repetidamente a frase: “Eu preciso aprender a respeitar meu líder”.

Imagem: Captura de tela do vídeo. Fonte: G1 Maranhão //  Folha de caderno apreendida pela polícia com a frase “Eu preciso aprender a respeitar o meu líder” repetida mais de 100 vezes.

Outro adolescente relatou que começou a frequentar a igreja aos 13 anos, quando vivia em situação de rua. Em depoimento, afirmou que os abusos começaram com manipulação psicológica e evoluíram para violência sexual. Segundo o relato, o pastor dizia que a relação íntima com ele seria uma forma de aproximação com Deus.

As denúncias reunidas na operação passaram a integrar o inquérito conduzido pelas autoridades do Maranhão, que investigam crimes de abuso sexual, estupro de vulnerável, exploração psicológica, agressões físicas e violações de direitos humanos dentro da instituição. O pastor permanece preso por decisão judicial, enquanto o caso segue em investigação.

Caso não é novidade

O caso envolvendo a Shekinah House Church não é um episódio isolado no contexto religioso brasileiro. Em reportagem recente publicada pelo Bereia, instituições religiosas aparecem relacionadas a denúncias de exploração trabalhista e submissão de fiéis a condições análogas à escravidão. 

Situações semelhantes foram registradas em diferentes estados do país e, acabaram resultando na inclusão de líderes religiosos e organizações na chamada “lista suja” do trabalho escravo. Trata-se de cadastro mantido pelo Ministério do Trabalho e Emprego que registra empregadores responsabilizados administrativamente por este tipo de violação. 

***

Bereia classifica, portanto, as informações divulgadas sobre a operação de resgate realizada na Shekinah House Church como verdadeiras e possuem respaldo em documentos oficiais, relatórios de fiscalização e declarações de órgãos públicos envolvidos nas investigações, como a Polícia Federal, o Ministério Público do Trabalho no Maranhão e a Polícia Civil do Maranhão. 

O caso segue em investigação e evidencia a necessidade de acompanhamento rigoroso de denúncias quando envolve instituições religiosas, especialmente quando há indícios de violação de direitos humanos, exploração da vulnerabilidade social e uso da autoridade espiritual como mecanismo de controle e submissão de fiéis.

Referências:

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Uol. https://noticias.uol.com.br/colunas/carlos-madeiro/2026/04/22/ma-pastor-e-preso-acusado-de-abusar-jovens-vigiar-banho-e-chicotear-fieis.htm.  Acesso em 12 de maio de 2026.

Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/geral/audio/2026-05/forca-tarefa-resgata-40-pessoas-em-condicoes-analogas-escravidao. Acesso em 12 de maio de 2026.

G1. https://g1.globo.com/ma/maranhao/videos-jmtv-1-edicao/video/forcas-de-seguranca-fazem-nova-operacao-na-shekinah-house-church-14591816.ghtml. Acesso em 12 de maio de 2026.

G1. https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2026/04/17/vitima-que-denunciou-pastor-por-abusos-no-ma-relata-chantagem-dizia-que-se-eu-me-relacionasse-com-ele-estaria-me-relacionando-com-deus.ghtml. Acesso em 12 de maio de 2026.

G1. https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2026/04/24/caso-pastor-david-goncalves-silva-video-mostra-vitima-em-exaustao-apos-castigo-imposto-pelo-lider-religioso.ghtml. Acesso em 12 de maio de 2026.

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G1. https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2026/04/17/pastor-preso-por-estelionato-e-estupro-de-vulneravel-em-sao-luis-e-investigado-ha-dois-anos-pela-policia-civil.ghtml.  Acesso em 15 de maio de 2026.

G1. https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2026/04/18/vitimas-de-pastor-preso-no-ma-eram-obrigadas-a-escrever-dezenas-de-vezes-eu-preciso-aprender-a-respeitar-o-meu-lider-diz-policia.ghtml. Acesso em 15 de maio de 2026.

Ministério Público do Trabalho no Maranhão. https://www.prt16.mpt.mp.br/8-institucional/1413-procurador-chefe-do-mpt-ma-rafael-mondego-comenta-operacao-de-resgate-em-paco-do-lumiar-em-entrevista-a-tv-cidade. Acesso em  12 de maio de 2026.

Coletivo Bereia. https://coletivobereia.com.br/relatorio-insere-instituicoes-religiosas-em-lista-de-empregadores-que-impoem-sistema-de-escravidao-a-trabalhadores/. Acesso em 12 de maio de 2026.

Policia Civil. https://www.policiacivil.ma.gov.br/policia-civil-deflagra-operacao-falso-profeta-e-prende-lider-religioso-em-paco-do-lumiar/. Acesso em 13 de maio de 2026. Secretária de Segurança Pública do Maranhão https://www.ssp.ma.gov.br/operacao-falso-profeta-prende-lider-religioso-investigado-por-crimes-graves-no-maranhao/ Acesso em 15 de maio de 2026

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