Atualização: Justiça retira temporariamente abadia católica da “lista suja”, mas mantém investigação sobre trabalho análogo à escravidão 


Novas informações sobre o caso de organizações religiosas na lista de empregadores que realizam trabalho escravo recebidas pelo Bereia indicam que a Abadia Nossa Senhora da Assunção de Hardehausen Itatinga entrou com processo judicial para limpar seu nome. A instituição católica pede suspensão de sua menção na chamada “Lista Suja” do trabalho escravo e no Cadastro Informativo de Créditos não Quitados do Setor Público Federal (Cadin).

A Abadia argumenta que não teve ciência efetiva dos processos administrativos que resultaram nas penalidades, alegando que as notificações foram realizadas exclusivamente por meio do Domicílio Eletrônico Trabalhista (DET), sem acesso às comunicações.

O processo foi julgado pela Justiça do Trabalho da 15a Região. Em decisão assinada pelo juiz do Trabalho substituto Renan Martins Lopes Belutto,  o magistrado entende haver “plausibilidade da alegação de ausência de ciência efetiva”. Ele destaca que as notificações ocorreram com “ciência presumida por decurso de prazo”, sem demonstração de acesso efetivo da instituição aos autos administrativos.

A decisão também aponta que a permanência da igreja na “Lista Suja” poderia causar danos à sua reputação institucional, além de comprometer atividades econômicas e acesso a crédito. Por isso, a Justiça determinou a suspensão temporária dos efeitos da inclusão até nova deliberação judicial.

No entanto, o juiz ressaltou que os demais argumentos apresentados pela instituição, como a alegação de inexistência de vínculo empregatício e ausência de responsabilidade pelas infrações, ainda dependem de análise mais aprofundada e produção de provas. 

Desta forma, a decisão não anula os autos de infração nem afasta definitivamente as penalidades aplicadas. Conforme informado anteriormente ao Bereia, a instituição sustenta que o caso envolve um contrato de arrendamento rural relacionado a granjas de frango instaladas em sua propriedade, sendo o arrendatário o responsável direto pela contratação dos trabalhadores.

Na reportagem publicada pelo Bereia sobre a atualização da “lista suja”, também foram mencionadas as comunidades terapêuticas Maanaim, em Pernambuco, e Tenda do Encontro, em Minas Gerais, ambas denunciadas por práticas relacionadas à exploração de trabalhadores em condições análogas à escravidão.

Foto de capa: Wellyngton Souza/Sesp-MT

Agentes públicos realizam resgate no Maranhão: novo caso de exploração e violência em projeto social de igreja 

37 pessoas em condições análogas à escravidão foram resgatadas nas dependências da igreja Shekinah House Church, em São Luiz (MA). O resgate foi realizado em operação empreendida por uma força-tarefa de combate ao trabalho escravo, composta por agentes públicos estaduais e federais, em 7 de maio, em Paço do Lumiar, na região metropolitana de São Luís. 

O caso ganhou ampla repercussão nas redes digitais e voltou a colocar em evidência denúncias que envolvem o pastor David Gonçalves Silva, na preso em abril  na “operação falso profeta”. Bereia checou os fatos e verificou a veracidade das informações.

O que aconteceu?

A força-tarefa resgatou 37 pessoas nas dependências da Shekinah House Church, igreja descrita como uma congregação de orientação cristã. Entre elas, 17 foram apontadas como portadoras de deficiência e dependência de substâncias psicoativas, afirmaram porta-vozes da Polícia Federal e do Ministério Público do Trabalho no Maranhão (MPT-MA). 

Conforme as investigações, a sede da instituição religiosa funcionaria também como um espaço de prestação de serviços terapêuticos, sem comprovação de regularização legal, licenciamento administrativo ou habilitação técnica dos responsáveis. A Polícia Federal informou também que já existiam denúncias formais sobre irregularidades nas condições de permanência, segurança e atendimento oferecido às pessoas que viviam no local.

As denúncias ganharam maior repercussão após relatos de vítimas apontarem situações de violência física, abusos psicológicos e exploração trabalhista dentro da instituição. Ex-integrantes relataram episódios de castigos físicos, como chicotadas, além de denúncias de abuso sexual atribuídas ao pastor David Gonçalves Silva, líder da igreja, que permanece preso por determinação judicial enquanto as investigações continuam.

De acordo com o Ministério Público do Trabalho no Maranhão, as vítimas viviam em condições degradantes. Após a interdição do imóvel pela Vigilância Sanitária, os trabalhadores resgatados foram encaminhados para centros de acolhimento organizados pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular do Maranhão (Sedihpop). 

O procurador-chefe do MPT-MA Rafael Mondego afirmou que a operação ainda está em andamento e que o processo de resgate só será concluído após a formalização das rescisões trabalhistas das vítimas. Ele informou que também está prevista uma audiência entre representantes da comunidade religiosa, advogados e autoridades para buscar o pagamento das verbas rescisórias e indenizações. Caso não haja acordo, o órgão deverá ajuizar ação civil pública para assegurar judicialmente os direitos dos trabalhadores resgatados.

Sobre a igreja

Descrita publicamente como uma congregação de orientação cristã, a Shekinah House Church existe há, pelo menos, duas décadas e ganhou projeção nacional após as operações policiais e trabalhistas realizadas no Maranhão. 

Os dados disponíveis indicam uma organização ligada a comunidades religiosas de perfil pentecostal, com dinâmica baseada em convivência coletiva e funcionamento concentrado em uma propriedade localizada em Paço do Lumiar, na Região Metropolitana de São Luís.

Bereia conseguiu identificar um perfil atribuído à igreja em uma rede digital, no qual são exibidos registros da rotina dos integrantes da comunidade. É possível observar atividades na propriedade, que é uma fazenda, cultos religiosos e conteúdos relacionados ao pastor David Gonçalves Silva. 

A publicação mais antiga encontrada é datada de 11 de agosto de 2018, enquanto a mais recente foi publicada em 12 de abril deste ano. Em comentários publicados na própria página, seguidores afirmam que a igreja funcionaria no local desde 2007.

Imagem: Perfil oficial da igreja Shekinah House Church. Fonte: Instagram

A partir das informações divulgadas no perfil, Bereia também identificou referências a outras duas igrejas associadas ao mesmo grupo religioso no Ceará, localizadas nos municípios de Maracanaú e Paracuru.

As publicações mostram ainda a criação de cavalos na propriedade e a participação frequente de integrantes em competições de montaria e equitação. Há dezenas de imagens de membros recebendo premiações nesses eventos. O pastor David Gonçalves Silva também utilizava as redes digitais para solicitar doações destinadas à manutenção do que chamava de “projeto social voltado ao acolhimento de jovens”.

Imagem: Post da igreja com integrantes. Fonte: Instagram

As investigações sobre o caso apontam que dezenas de pessoas moravam na propriedade mantida pela igreja. Entre os relatos reunidos pelas autoridades estão denúncias de castigos físicos e psicológicos, controle rígido da rotina dos integrantes, isolamento social e controle de seus bens, cartões bancários e recursos financeiros pela liderança religiosa.

Até o momento, não há registros públicos amplamente documentados de uma estrutura nacional organizada da Shekinah House Church semelhante às grandes denominações evangélicas brasileiras. O nome “Shekinah”,  inclusive, é utilizado por diferentes igrejas independentes no país, o que pode gerar confusão entre organizações sem relação entre si. O termo vem do hebraico e significa “habitação”, “morada” ou “vizinhança”, que, teologicamente, é relacionado à presença gloriosa e visível de Deus manifestada entre os seres humanos.

Bereia também não identificou um site oficial vinculado diretamente à instituição. Nas buscas realizadas, foram encontrados apenas registros da localização da propriedade em Paço do Lumiar e um número de contato associado ao local. A reportagem solicitou posicionamento da igreja sobre as denúncias e investigações, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.

Quem é o pastor?

O líder da Shekinah House Church, pastor David Gonçalves Silva, é investigado pela Polícia Civil do Maranhão há cerca de dois anos por suspeitas de crimes como estelionato, estupro de vulnerável, posse sexual mediante fraude e associação criminosa. Ele foi preso durante a operação “Falso Profeta”. 

Imagem: pastor David Gonçalves Silva. Fonte: Uol

Bereia identificou um perfil atribuído ao pastor em uma rede digital. Na biografia David Gonçalves Silva se apresenta como “pastor”, “fundador da Shekinah House Church”, além de utilizar as descrições “capelão”, “psicólogo” e “equoterapeuta”. O perfil, no entanto, está configurado como privado, sem acesso público ao conteúdo publicado.

As investigações apontam que o líder religioso exercia forte influência sobre os integrantes da comunidade, no qual foi acusado por vítimas e ex-fiéis de utilizar discursos religiosos como mecanismo de controle psicológico e manipulação. Além disso, o pastor também administraria diretamente aspectos da rotina, do trabalho e da vida financeira de membros da comunidade religiosa.

Operação “Falso Profeta” 

Deflagrada em abril deste ano, a operação “Falso Profeta” marcou o início das investigações contra o pastor David Gonçalves Silva. A ação foi motivada após mais de dez pessoas procurarem a polícia para denunciar uma série de violações, entre elas maus-tratos, abusos psicológicos, violência física e crimes sexuais supostamente praticados pelo líder religioso contra integrantes da comunidade, inclusive adolescentes. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Maranhão, havia de cinco a seis possíveis vítimas identificadas no momento em que a operação foi realizada.

David Gonçalves passou a ser monitorado pela Polícia Civil há cerca de dois anos, após ex-fiéis relatarem que ele comandava uma estrutura baseada em manipulação religiosa, controle psicológico e violência. O pastor foi preso em abril passado. Entre as acusações estão estupro de vulnerável, estelionato, associação criminosa, agressões físicas e abusos sexuais cometidos contra jovens que viviam no sítio da instituição.

As denúncias também revelaram condições análogas à escravidão dentro da comunidade religiosa, o que levou à operação de resgate, realizada no início deste maio. Ela segue em andamento, com participação de auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), procuradores do Ministério Público do Trabalho (MPT), agentes da Polícia Federal, além do apoio da Defensoria Pública e da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos do Maranhão.

De acordo com o relatório de fiscalização, os membros da comunidade realizavam jornadas de trabalho sem qualquer remuneração. Em troca, recebiam alimentação, abrigo e vestimentas. As atividades incluíam construção civil, limpeza, preparo de refeições e o cuidado de 32 cavalos pertencentes ao pastor,  embora muitos fiéis acreditassem que os animais faziam parte do patrimônio da igreja.

Os depoimentos indicam jornadas superiores a 12 horas diárias, sem descanso semanal ou férias. Há relatos de pessoas que dormiam apenas uma ou duas horas por noite durante períodos de obras no local. Caso descumprissem as ordens, elas eram punidas com castigos físicos e psicológicos, como chicotadas, tapas, exposição prolongada ao sol, agressões. Denunciantes também relataram serem obrigados a copiarem frases como “eu preciso obedecer à minha liderança” por páginas inteiras de caderno, sem autorização para dormir antes da conclusão.

As investigações também apontam uma sistemática de exploração sexual de membros da comunidade, especialmente adolescentes do sexo masculino. De acordo com os relatos colhidos, o pastor se apresentava como “o anjo da igreja” e afirmava às vítimas que manter relações com ele significava se relacionar com Deus. Em alguns casos, os jovens recebiam privilégios, como acesso a celular, alimentação diferenciada e participação em competições de equitação, benefícios que, conforme os investigadores, funcionavam como instrumento de manipulação e controle.

A polícia também apura denúncias de vigilância e coerção contra membros que tentavam deixar o local. De acordo com os relatos, pessoas que fugiam eram localizadas em casas de familiares e pressionadas a retornar por meio de ameaças psicológicas e discurso religioso.

Outro ponto apurado pelas autoridades envolve um grupo chamado internamente de “especiais”, formado por pessoas entre 25 e 70 anos com condições como esquizofrenia, deficiência visual e dependência de substâncias psicoativas. Essas pessoas viviam na fazenda sem registro formal de comunidade terapêutica vinculada à igreja. O cuidado com elas era imposto aos demais membros como tarefa obrigatória, incluindo higiene pessoal e lavagem de roupas.

Entre as provas reunidas no inquérito está um vídeo que mostra um adolescente em estado de exaustão após cumprir uma punição determinada pelo pastor. A investigação divulgou que um jovem foi obrigado a permanecer horas em pé, sem dormir, além de passar a madrugada escrevendo repetidamente a frase: “Eu preciso aprender a respeitar meu líder”.

Imagem: Captura de tela do vídeo. Fonte: G1 Maranhão //  Folha de caderno apreendida pela polícia com a frase “Eu preciso aprender a respeitar o meu líder” repetida mais de 100 vezes.

Outro adolescente relatou que começou a frequentar a igreja aos 13 anos, quando vivia em situação de rua. Em depoimento, afirmou que os abusos começaram com manipulação psicológica e evoluíram para violência sexual. Segundo o relato, o pastor dizia que a relação íntima com ele seria uma forma de aproximação com Deus.

As denúncias reunidas na operação passaram a integrar o inquérito conduzido pelas autoridades do Maranhão, que investigam crimes de abuso sexual, estupro de vulnerável, exploração psicológica, agressões físicas e violações de direitos humanos dentro da instituição. O pastor permanece preso por decisão judicial, enquanto o caso segue em investigação.

Caso não é novidade

O caso envolvendo a Shekinah House Church não é um episódio isolado no contexto religioso brasileiro. Em reportagem recente publicada pelo Bereia, instituições religiosas aparecem relacionadas a denúncias de exploração trabalhista e submissão de fiéis a condições análogas à escravidão. 

Situações semelhantes foram registradas em diferentes estados do país e, acabaram resultando na inclusão de líderes religiosos e organizações na chamada “lista suja” do trabalho escravo. Trata-se de cadastro mantido pelo Ministério do Trabalho e Emprego que registra empregadores responsabilizados administrativamente por este tipo de violação. 

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Bereia classifica, portanto, as informações divulgadas sobre a operação de resgate realizada na Shekinah House Church como verdadeiras e possuem respaldo em documentos oficiais, relatórios de fiscalização e declarações de órgãos públicos envolvidos nas investigações, como a Polícia Federal, o Ministério Público do Trabalho no Maranhão e a Polícia Civil do Maranhão. 

O caso segue em investigação e evidencia a necessidade de acompanhamento rigoroso de denúncias quando envolve instituições religiosas, especialmente quando há indícios de violação de direitos humanos, exploração da vulnerabilidade social e uso da autoridade espiritual como mecanismo de controle e submissão de fiéis.

Referências:

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Uol. https://noticias.uol.com.br/colunas/carlos-madeiro/2026/04/22/ma-pastor-e-preso-acusado-de-abusar-jovens-vigiar-banho-e-chicotear-fieis.htm.  Acesso em 12 de maio de 2026.

Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/geral/audio/2026-05/forca-tarefa-resgata-40-pessoas-em-condicoes-analogas-escravidao. Acesso em 12 de maio de 2026.

G1. https://g1.globo.com/ma/maranhao/videos-jmtv-1-edicao/video/forcas-de-seguranca-fazem-nova-operacao-na-shekinah-house-church-14591816.ghtml. Acesso em 12 de maio de 2026.

G1. https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2026/04/17/vitima-que-denunciou-pastor-por-abusos-no-ma-relata-chantagem-dizia-que-se-eu-me-relacionasse-com-ele-estaria-me-relacionando-com-deus.ghtml. Acesso em 12 de maio de 2026.

G1. https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2026/04/24/caso-pastor-david-goncalves-silva-video-mostra-vitima-em-exaustao-apos-castigo-imposto-pelo-lider-religioso.ghtml. Acesso em 12 de maio de 2026.

G1. https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2026/04/17/operacao-falso-profeta-pastor-e-preso-suspeito-de-estelionato-e-estupro-de-vulneravel-na-grande-sao-luis.ghtml. Acesso em 12 de maio de 2026.

G1. https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2026/04/17/pastor-preso-por-estelionato-e-estupro-de-vulneravel-em-sao-luis-e-investigado-ha-dois-anos-pela-policia-civil.ghtml.  Acesso em 15 de maio de 2026.

G1. https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2026/04/18/vitimas-de-pastor-preso-no-ma-eram-obrigadas-a-escrever-dezenas-de-vezes-eu-preciso-aprender-a-respeitar-o-meu-lider-diz-policia.ghtml. Acesso em 15 de maio de 2026.

Ministério Público do Trabalho no Maranhão. https://www.prt16.mpt.mp.br/8-institucional/1413-procurador-chefe-do-mpt-ma-rafael-mondego-comenta-operacao-de-resgate-em-paco-do-lumiar-em-entrevista-a-tv-cidade. Acesso em  12 de maio de 2026.

Coletivo Bereia. https://coletivobereia.com.br/relatorio-insere-instituicoes-religiosas-em-lista-de-empregadores-que-impoem-sistema-de-escravidao-a-trabalhadores/. Acesso em 12 de maio de 2026.

Policia Civil. https://www.policiacivil.ma.gov.br/policia-civil-deflagra-operacao-falso-profeta-e-prende-lider-religioso-em-paco-do-lumiar/. Acesso em 13 de maio de 2026. Secretária de Segurança Pública do Maranhão https://www.ssp.ma.gov.br/operacao-falso-profeta-prende-lider-religioso-investigado-por-crimes-graves-no-maranhao/ Acesso em 15 de maio de 2026

Relatório insere instituições religiosas em lista de empregadores que impõem sistema de escravidão a trabalhadores

Publicações nas midias sociais deram destaque ao fato de instituições religiosas terem sido citadas na mais recente versão da “lista suja” do Ministério do Trabalho e do Emprego (MTE), que relata empregadores que submeteram trabalhadores a condições análogas à escravidão. Entre os nomes incluídos nessa lista estariam instituições como a Abadia de Hardehausen, em São Paulo, além das comunidades terapêuticas Maanaim, em Pernambuco, e Tenda do Encontro, em Minas Gerais. Bereia checou as informações sobre esta grave situação que envolve grupos religiosos. 

Imagem: Instagram 

A atualização do relatório 

O novo Cadastro de Empregadores foi divulgado pelo MTE em abril passado. Nessa atualização foram incluídos 169 novos nomes de empregadores que fazem uso de trabalho em condições de escravidão. Entre eles estão 102 pessoas físicas e 67 pessoas jurídicas, o que representa um aumento de 6,28% em relação à versão anterior, do segundo semestre de 2025. Com isso, o cadastro passa a reunir 613 empregadores.

Os casos incorporados nesta edição resultaram no resgate de 2.247 trabalhadores em situação de exploração, distribuídos em 21 unidades da federação. Entre os estados com maior número de ocorrências estão Minas Gerais (35 casos), São Paulo (20), Bahia (17), Paraíba (17) e Pernambuco (13).

A chamada “lista suja” é o nome popular do “Cadastro de Empregadores que tenham submetido trabalhadores a condições análogas à escravidão”. Produzido pelo governo federal, o cadastro registra nomes de pessoas físicas e jurídicas responsabilizadas por este crime. A divulgação ocorre semestralmente e tem como objetivo dar transparência às ações de fiscalização e combate a esse tipo de violação no país.

Criado em 2003, este instrumento teve a constitucionalidade reconhecida, em 2020, pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Ao ser acionada por empregadores citados, a Corte confirmou que ele não configura uma sanção, mas uma medida de transparência pública, em conformidade com a Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011).

O Cadastro de Empregadores funciona como um instrumento de monitoramento das ações realizadas por diferentes órgãos, como a Auditoria Fiscal do Trabalho, a Polícia Federal, o Ministério Público do Trabalho, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União. Durante as operações de fiscalização, quando são identificadas situações de trabalho análogo à escravidão, os responsáveis recebem autos de infração que registram as irregularidades trabalhistas encontradas. Entre esses documentos, há um auto específico que caracteriza a submissão de trabalhadores a trabalho similar ao de escravização, considerada uma grave violação de direitos humanos.

A inclusão no cadastro ocorre somente após a conclusão do processo administrativo, etapa em que são assegurados aos empregadores autuados o direito ao contraditório e à ampla defesa. Após a publicação, os nomes permanecem na lista por um período de dois anos.

Comunidades terapêuticas em evidência 

Bereia apurou que duas instituições identificadas como comunidades terapêuticas (que atendem pessoas dependentes de substâncias químicas) aparecem na atualização do cadastro do MTE. Estão citadas a Maanaim, em Pernambuco, e a Tenda do Encontro, em Minas Gerais. 

A comunidade terapeutica Maanaim foi responsabilizada por submeter internos, em sua maioria pessoas em situação de vulnerabilidade e com histórico de dependência química, a condições análogas à escravidão. As apurações indicam a imposição de trabalho sem remuneração, jornadas exaustivas e uso de práticas como medicação irregular, além de restrições à liberdade dos acolhidos, sob a justificativa de tratamento. Em 2025, o local também esteve presente na “lista suja” e foi alvo de denúncias de maus tratos, superexploração e cárcere privado, com pessoas internas sujeitas a diversos tipos de violência.

No caso da Tenda do Encontro, que é não somente uma comunidade terapêutica mas também o nome da igreja evangélica mantenedora da instituição, houve investigações que identificaram dinâmica semelhante. Internos teriam sido obrigados a realizar atividades laborais sem pagamento, em condições precárias e com limitação de circulação. A prática foi caracterizada como exploração, com violação de direitos fundamentais, o que resultou em condenação judicial da instituição. 

Esta não é a primeira vez que o Bereia reporta sobre a Tenda do Encontro. Em julho de 2025, a instituição e o pastor Vander Ribeiro Campos, então dirigente, foram condenados por submeter dependentes químicos em tratamento no local a trabalhos análogos a escravidão. Na época, a fiscalização encontrou pessoas trabalhando por 12h por dia, comendo alimentos fora da validade e com condições de vida insalubres.

Os casos reforçam alertas recorrentes de órgãos de fiscalização e de organizações da sociedade civil sobre o funcionamento de comunidades terapêuticas no país, especialmente aquelas que utilizam o trabalho como eixo central de “tratamento” sem garantia de direitos trabalhistas e sem supervisão adequada. Outro caso reportado pelo Bereia ocorreu em 2023, quando um casal de pastores foi preso na zona rural de Anápolis (GO) por maus tratos realizados na clínica clandestina da qual eram proprietários. Na época, os religiosos e mais quatro funcionários foram acusados de sequestro, tortura e cárcere privado.

O caso da Abadia de Hardehausen

Entre as instituições citadas na atualização do cadastro do MTE, neste primeiro semestre de 2026, está a Abadia de Nossa Senhora da Assunção de Hardehausen, um monastério católico da ordem cirsteciense (beneditina, de Cirster, França), localizado no município de Itatinga, no interior de São Paulo. De acordo com informações disponíveis no site da Prefeitura, o templo foi fundado em 1950 por monges católicos alemães que vieram ao Brasil após deixarem a Europa no contexto de fuga da Segunda Guerra Mundial. 

Bereia entrou em contato com a Abadia e solicitou posicionamento oficial sobre a sua inclusão na “lista suja” do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Em resposta, a instituição afirmou que a autuação não se refere a vínculo direto dela com trabalhadores, mas a uma relação contratual de arrendamento. Conforme a Abadia, o caso envolve granjas de frango instaladas em sua propriedade e operadas por um arrendatário, responsável pela contratação de funcionários.

De acordo com o prior administrador Dom Luis Alberto Ruas Santos, “a autuação diz respeito à relação trabalhista entre o arrendatário e seu empregado, que apresentou a queixa”. A Abadia sustenta que não manteve relação trabalhista com o funcionário e que o contrato firmado estabelecia que todas as obrigações trabalhistas eram de responsabilidade exclusiva do arrendatário.

A instituição também afirma que a interpretação de corresponsabilidade decorreu da existência de uma cláusula contratual que previa, além do valor fixo do arrendamento, uma participação nos resultados da produção. Para a Abadia, esse elemento levou à compreensão de que haveria sociedade no empreendimento, o que, em sua avaliação, não corresponde à realidade da relação contratual.

Ainda conforme o posicionamento enviado ao Bereia, a Abadia informa que firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) à época da autuação, mas relata surpresa com a inclusão recente no cadastro. A instituição destaca que o arrendatário, apontado como responsável direto pela contratação do trabalhador, não consta na lista até o momento. A Abadia declarou ainda que já adotou medidas jurídicas cabíveis para contestar a inclusão e reiterou que não tinha conhecimento das condições de trabalho denunciadas.

Bereia também procurou o MTE para obter detalhes sobre a natureza da autuação e esclarecer os critérios que levaram à inclusão da instituição no cadastro. Até o fechamento desta matéria, não houve retorno. Caso haja manifestação, o conteúdo será atualizado.

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Bereia classifica como verdadeira a informação de que a atualização do Cadastro de Empregadores do Ministério do Trabalho e Emprego inclui instituições religiosas, como a Abadia de Hardehausen (SP) e as comunidades terapêuticas Maanaim (PE) e Tenda do Encontro (MG), em casos relacionados a trabalho análogo à escravidão. 

Enquanto a abadia católica reconhece a autuação, mas contesta responsabilidade direta, atribuindo o caso a um arrendatário, as comunidades terapêuticas evangélicas foram alvo de investigações e condenações por práticas como trabalho forçado e restrição de liberdade. A inclusão na “lista suja” ocorre após processo administrativo com direito à defesa, o que confirma a legitimidade dos dados e evidencia a importância da fiscalização e da transparência no enfrentamento dessas graves violações de direito no país.

Referências:

Cadastro de empregadores. https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/assuntos/inspecao-do-trabalho/areas-de-atuacao/cadastro_de_empregadores.pdf. Acesso em 25 de abril de 2026. 

Sistema Ipê Trabalho Escravo. https://ipe.sit.trabalho.gov.br/#!/. Acesso em 25 de abril de 2026. 

Ministério do Trabalho e Emprego. https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/noticias-e-conteudo/2026/abril/mte-atualiza-201clista-suja201d-do-trabalho-analogo-a-escravidao-com-169-novos-empregadores. Acesso em 25 de abril de 2026. 

Repórter Brasil. https://reporterbrasil.org.br/2025/10/dopagens-trabalho-escravo-comunidade-terapeutica-lista-suja/. Acesso em 25 de abril de 2026. 

Repórter Brasil. https://reporterbrasil.org.br/2025/07/comunidade-terapeutica-condenada-escravizar-dependentes-quimicos/. Acesso em 25 de abril de 2026. 

Repórter Brasil. https://reporterbrasil.org.br/2025/07/posicionamento-mds-condenacao-comunidade-terapeutica/. Acesso em 25 de abril de 2026. 

Abadia de Nossa Senhora da Assunção de Hardehausen. https://www.abadiadeitatinga.org/. Acesso em 25 de abril de 2026.