Reportagem desinforma sobre envolvimento de líder da Igreja Presbiteriana do Brasil em inquérito da Polícia Federal

Bereia recebeu de leitores pedido de checagem da reportagem intitulada “PF apura atuação de diretor do Mackenzie em eleição em MG”, publicada pelo SBT News, em 22 de julho de 2026, no site e no telejornal, com repercussão nas redes sociais da emissora.

Fonte: SBT News

De acordo com a reportagem, a Polícia Federal (PF) apura suspeitas de crimes eleitorais cometidos no município de Patrocínio, em Minas Gerais, nas eleições de 2024. O atual prefeito da cidade, Gustavo Brasileiro (Democracia Cristã/DC) teria conquistado o cargo, nas eleições de 2024, por meio da produção de conteúdo falso contra adversários e de negociações envolvendo pagamentos e promessas de cargos públicos em troca de apoio. 

A matéria do SBT News aponta que o membro da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) Eduardo Abrunhosa teria se tornado atual diretor administrativo da Universidade Mackenzie (pertencente à IPB), após atuar como consultor da campanha de Gustavo Brasileiro.

A publicação aponta o envolvimento do pai do prefeito, o pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) Roberto Brasileiro, como central para a promoção de Abrunhosa à liderança da universidade presbiteriana. Ele é apresentado pelo SBT News como “presidente da Igreja Presbiteriana”. A reportagem mostra que outros dois ex-aliados da campanha do prefeito de Patrocínio, os motoristas Edvanei Cortes e Igor José Lopes, registraram em cartório conversas de WhatsApp com Abrunhosa e com o chefe de gabinete de Gustavo Brasileiro, e entregaram o material a opositores políticos, que levaram a denúncia à PF.

Fonte: SBT News

O inquérito teria sido aberto após denúncia protocolada em fevereiro deste ano, três meses antes da realização da reunião do Supremo Concílio da IPB, marcada para 26 de julho a 2 de agosto, em Manaus. A reportagem do SBT relaciona a investigação da PF à cúpula de uma das maiores denominações protestantes do país, às vésperas da sucessão de sua liderança nacional, e evidencia como redes de influência religiosa na política se cruzam com estruturas político-administrativas e educacionais, como o Mackenzie.

O que está sendo investigado

O evangélico presbiteriano Gustavo Brasileiro governa o município mineiro de Patrocínio, após vencer a eleição de 2024 com auxílio da consultoria de Eduardo Abrunhosa. Em entrevista ao programa Rádio Comunidade, da Difusora 95,3 FM, em 23 de julho passado, o prefeito rebateu a reportagem do SBT News adotando explicitamente a posição de membro da IPB, e não apenas de gestor público. O político reforçou, na entrevista, o entrelaçamento entre sua atuação política e o pertencimento à igreja, cujo Supremo Concílio era, de fato presidido pelo pai.

Segundo Gustavo Brasileiro, o inquérito trata apenas de uma representação por propaganda enganosa envolvendo um vídeo de campanha, sem relação com a Prefeitura, com o Instituto Mackenzie ou com recursos filantrópicos. Ele afirmou que buscará retratação judicial contra a emissora e o repórter responsável. 

Na entrevista à rádio Difusora,  o prefeito mineiro também apresentou dados de sua gestão em segurança, saúde e infraestrutura. O político afirmou, ainda,  que o processo de 57 páginas, sobre a investigação da PF, estaria disponível para análise. 

O Bereia não conseguiu acesso aos arquivos do inquérito, uma vez que a investigação segue em andamento, por isso não está disponível no site do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais. 

Fonte: Rádio Difusora

O diretor do Mackenzie é alvo da investigação?

De acordo com a reportagem do SBT News, a relação do prefeito Gustavo Brasileiro e do seu pai Roberto Brasileiro com Eduardo Abrunhosa, teria sido um dos motivadores para a promoção dele ao atual cargo de diretor administrativo da Universidade Mackenzie. A reportagem aponta ainda que o próprio Instituto Presbiteriano Mackenzie (instituição mantenedora da universidade), afirmou em nota que não é alvo da investigação e não tem relação institucional com consultorias particulares prestadas por colaboradores, remuneradas ou não.

O Bereia não encontrou a nota publicada pela organização nas redes oficiais. O diretor-presidente do Instituto Presbiteriano Mackenzie Cid Pereira Caldas, que atua como pastor titular na Igreja Presbiteriana de Botafogo (RJ), citado pelo SBT News como uma das lideranças da IPB que ganharam cada vez mais destaque nos últimos anos, foi ouvido pelo Bereia. O pastor informou que apenas recebeu um e-mail do SBT News solicitando um posicionamento, sendo que a maior parte não teria sido usada ao longo da reportagem publicada. 

“A Universidade Presbiteriana Mackenzie não tem nenhuma relação com esse tema de eleição, patrocínio, ou qualquer outro tipo de envolvimento. Essa é uma postura histórica da Mackenzie e do Conselho de Curadores, de não envolvimento. Então o que acontece, nesse caso específico, é que a nossa declaração diz respeito ao fato seguinte: nós não policiamos os nossos colaboradores no que eles fazem fora do seu ambiente de trabalho. A Mackenzie é uma colcha de retalhos, lidando com seus alunos, com seus professores, com seus colaboradores e com seus dirigentes. Ela lida com isso tudo, e nós não fazemos um policiamento ideológico das pessoas”, afirmou ao Bereia o pastor Cid Caldas.

O diretor-presidente do Instituto Presbiteriano Mackenzie também explicou que “se um determinado colaborador contribui, colabora, faz parte de uma campanha eleitoral de quem quer que seja, isso não diz respeito à Mackenzie, na medida em que não envolva a instituição ou, mais do que isso, que não coloque a Mackenzie como parte”.

Caldas enfatizou na entrevista ao Bereia que  que a Universidade  Mackenzie “não teve nenhum envolvimento com essa eleição, e também não cobra dos seus colaboradores que se envolvam ou que deixem de se envolver.”

De acordo com o estatuto da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a decisão de nomeação aos cargos da instituição varia conforme o nível hierárquico, mas o poder final de escolha e validação está concentrado no Instituto Presbiteriano Mackenzie, entidade mantenedora pertencente à Igreja Presbiteriana do Brasil. Caldas reafirmou essa organização durante a entrevista ao Bereia,  apontando que esse formato de decisão dos cargos dentro da igreja é algo relacionado à estrutura histórica da organização.

“A Mackenzie foi criada por missionários presbiterianos norte-americanos que vieram ao Brasil se estabelecer, e ao longo das décadas ela sempre esteve ligada à Igreja. Aconteceu que, por volta de 1960, houve uma ação para que a Mackenzie deixasse de ser confessional e fosse desapropriada, se tornando uma instituição pública, contudo foi reconhecido pela Justiça que a Mackenzie pertence à Igreja Presbiteriana do Brasil. Então a Igreja Presbiteriana do Brasil é o que a gente chama de ‘associado’, é ela a dona da Mackenzie”, afirma o pastor Cid Caldas.

O diretor-presidente da mantenedora da Universidade Mackenzie também explica que a Igreja Presbiteriana não tem uma ação direta dentro da  instituição de ensino, que tem um Conselho Deliberativo. E esse conselho é formado, na sua totalidade, por pastores, presbíteros e membros da Igreja Presbiteriana do Brasil que têm qualificação para isso.

A equipe de reportagem do SBT News teria entrado em contato com Abrunhosa que nega irregularidades e sustenta que sua atuação na campanha foi voluntária e paralela às suas funções na universidade. Sua promoção ao cargo de diretor de Administração, dois meses após a vitória de Gustavo Brasileiro à Prefeitura de Patrocínio, é apontada pela reportagem do SBT News como um dado relevante para contextualizar a proximidade com a cúpula administrativa do Mackenzie, contudo, até o momento, essa relação não configura acusação formal contra a universidade. 

O pastor Cid Caldas aponta ainda que as atividades realizadas pelos membros da universidade, tratados como colaboradores em âmbito exterior ao da universidade, não são regulamentadas pela liderança universitária.

A Igreja Presbiteriana do Brasil e seu presidente

Um dos pontos da reportagem do SBT News é que Roberto Brasileiro seria “presidente da Igreja Presbiteriana do Brasil”, cargo que, institucionalmente, não existe. Bereia checou nos registros oficiais da Igreja Presbiteriana e constatou que, de acordo com a instituição, não há presidente na hierarquia eclesiástica. Roberto Brasileiro é, de fato, presidente do Supremo Concílio, o órgão máximo de deliberação da denominação. Ele foi eleito por voto direto para mandatos de quatro anos desde 2002 (reeleito em 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022), somando 24 anos à frente do Concílio. 

Em 2026, pela primeira vez em 24 anos, o pastor Roberto Brasileiro decidiu não concorrer à reeleição. A sucessão foi decidida em 27 de julho, em segundo turno, no segundo dia do Supremo Concílio reunido em Manaus. Foi eleito para o cargo de presidente o pastor Juarez Marcondes Filho, até então secretário executivo do órgão.

De acordo com registros oficiais, a IPB se organiza como federação de igrejas locais, regida por concílios, e é representada oficialmente pelo presidente do Supremo Concílio nos âmbitos interno, civil e judicial.  A Igreja Presbiteriana do Brasil “exerce seu governo por meio de concílios e indivíduos, regularmente instalados e o Supremo Concílio é a sua Assembleia Geral. A Igreja é representada ativa, passiva, judicial e extrajudicialmente pelo presidente do Supremo Concílio, ao qual também compete: Presidir às reuniões do Supremo Concílio e da Comissão Executiva; representar a Igreja internamente bem como em suas relações intereclesiásticas, civis e sociais.”

Presbiterianos e política: uma presença antiga, não recente

A cobertura do caso pela reportagem do SBT News trata a proximidade entre lideranças presbiterianas e o poder público como novidade, mas o histórico é longo. Como já abordado pelo Bereia em reportagens anteriores, durante a ditadura militar (1964-1985), setores da cúpula da IPB alinharam-se ao regime, promovendo o afastamento de pastores ligados a posições progressistas e ecumênicas, o que resultou, inclusive, na criação da Igreja Presbiteriana Unida por dissidentes discordantes desse alinhamento. Evangélicos presbiterianos também ocuparam cargos públicos importantes durante o Estado de exceção: Eraldo Gueiros Leite foi ministro do Supremo Tribunal Militar, e integrava a família Gueiros, nome destacado de presbiterianos, com outros membros em posições no Poder Judiciário na época.

Essa presença se renovou décadas depois. O Bereia já publicou matérias que informaram sobre presbiterianos que assumiram pastas técnicas e “ideológicas” durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL, 2019-2022). Entre eles, o ministro da Educação pastor Milton Ribeiro; o ex-reitor do Mackenzie, que presidiu a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes, MEC) Benedito Guimarães Aguiar Neto; e o pastor André Mendonça, que foi ministro da Advocacia Geral da União e da Justiça, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal (STF),  indicado por Jair Bolsonaro. 

Esse dado desafia a leitura simplificada que associa apenas a lideranças pentecostais à direita política e ao chamado bolsonarismo. Parte relevante da adesão institucional ao governo de Jair Bolsonaro é de evangélicos históricos, como os presbiterianos e os batistas.

Informação também importante é que a IPB não é politicamente monolítica. Bereia também checou informações, em 2022, quando houve tentativa de aprovar, na reunião do Supremo Concílio, um relatório visto por críticos como um movimento de expurgo de membros identificados com a esquerda. A proposta foi derrubada por um substitutivo aprovado, ainda que por margem apertada,  indicando a divisão interna.

O pano de fundo: o Supremo Concílio em Manaus

Na reportagem do SBT News a investigação sobre a campanha de Gustavo Brasileiro ganha peso adicional pelo momento: ela avançou justamente no período em que a IPB elegeu, em Manaus, em 27 de julho, a nova composição do Supremo Concílio, a primeira sucessão em 24 anos, já que Roberto Brasileiro optou por não concorrer à reeleição.

A divulgação da reportagem do SBT se insere em um cenário de disputa interna, pouco tempo após a publicação de reportagens, em várias mídias, que vinculam o Supremo Concílio a debates ultraconservadores sobre a liderança feminina na igreja, como o Bereia publicou. Observar esse cenário ajuda a explicar por que o caso extrapola os limites de uma eleição municipal e repercute nacionalmente: entra em jogo não apenas a legalidade de uma campanha eleitoral em Minas Gerais, mas o mapa de influências dentro de uma das denominações protestantes mais antigas e institucionalmente organizadas do Brasil.

Bereia ouviu o membro leigo da IPB em Formosa (Goiás) Jared Victor Lopes, que acompanha de perto os debates relacionados à igreja nas redes digitais. Na entrevista realizada antes das eleições do Supremo Concílio, Lopes aponta a percepção e a apreensão da comunidade presbiteriana nos últimos meses diante das diferentes repercussões e temáticas vinculadas à IPB.

“Isso atinge diretamente o atual presidente do Supremo Concílio [Roberto Brasileiro], mas é um presidente que hoje deixa o quadro da liderança, então definitivamente não é algo que vai prejudicá-lo nesse sentido. É claro que isso pode respingar em possíveis pessoas que ele apoia para ser um sucessor e seguramente pode comprometer algum estabelecimento posterior dentro da igreja ou dentro das instituições da igreja”, afirma o presbiteriano. 

Lopes considera que “de qualquer maneira é algo assim que a gente ainda não sabe até que ponto vai prejudicar ou vai ecoar com grande influência dentro da denominação, particularmente dentro de uma eleição no Supremo Concílio”. 

Além da reportagem do SBT, recentemente, debates sobre o papel das mulheres na igreja tomaram grandes proporções e foram alvo de notícias enganosas nas redes digitais. Lopes aponta que esse é um tema delicado de debate dentro da própria cúpula.

“Neste ano estamos observando todas essas movimentações e vamos ter um novo ciclo de debate sobre algumas questões, principalmente em relação à atuação das mulheres dentro da igreja. Já estamos há um pouco mais de uma década discutindo constantemente o papel das mulheres na igreja, há uma tendência a restringir o papel das mulheres enquanto você tem setores da igreja dispostos e interessados em aberturas para alguns ministérios. Neste ano existem alguns documentos enviados para o concílio com a tentativa de derrubar algumas resoluções e estamos com uma expectativa de que pelo menos que a discussão aconteça”, pontua Jared Victor Lopes.

***

Bereia classifica a reportagem do SBT como enganosa, pois induz o leitor a relacionar a Igreja Presbiteriana do Brasil e a Universidade Mackenzie como partes investigadas em inquérito da Polícia Federal.  Como apurado pelo Bereia, a ação policial ainda em curso não aponta qualquer das instituições como investigadas, e, sim, o prefeito de Patrocínio Gustavo Brasileiro (MG) e seu consultor de campanha eleitoral Eduardo Abrunhosa, suspeitos de produção de falsidades contra concorrentes. A matéria jornalística é que levanta suspeitas de que Abrunhosa tenha recebido cargo na instituição de ensino por conta dessa relação.

Além  disso, a matéria do SBT News desinforma ao desconsiderar o contexto histórico no qual se insere a relação entre a Igreja Presbiteriana do Brasil, a Universidade Presbiteriana Mackenzie e seus membros com a política. O conteúdo leva a audiência a compreender as ações políticas presentes na trajetória da igreja como algo novo.

Bereia chama a atenção de leitores e leitoras para publicações nas mídias digitais e nas grandes mídias de notícias sobre religião. Na onda do protagonismo que, especialmente evangélicos, têm assumido no cenário público, temas relacionados ao grupo se tornam pautas com abordagem frágil, do ponto de vista da informação, mas fortes promotoras de audiência. 

Referências

SBT News – Coluna do Cézar. PF apura atuação de diretor do Mackenzie em eleição em MG. https://sbtnews.sbt.com.br/colunas/coluna-do-cezar/pf-apura-atuacao-de-diretor-do-mackenzie-em-eleicao-em-mg Acesso em: 24 jul. 2026.

Difusora 95,3 FM – Rádio Comunidade. Gustavo Brasileiro rebate denúncias, defende a Igreja Presbiteriana e cita avanços em Patrocínio. https://difusora95.com.br/noticias/gustavo-brasileiro-rebate-denuncias-defende-a-igreja-presbiteriana-e-cita-avancos-em-patrocinio/ Acesso em: 24 jul. 2026.

Folha de S.Paulo. Igreja Presbiteriana do Brasil elege novo presidente em meio a tensões políticas e doutrinárias. https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/07/igreja-presbiteriana-do-brasil-elege-novo-presidente-em-meio-a-tensoes-politicas-e-doutrinarias.shtml Acesso em: 27 jul. 2026.

IPB – Igreja Presbiteriana do Brasil. Organização. https://www.ipb.org.br/organizacao Acesso em: 24 jul. 2026.

Religião e Poder. Evangélicos no Brasil – dos missionários à ditadura militar. https://religiaoepoder.org.br/artigo/evangelicos-no-brasil-dos-missionarios-a-ditadura-militar Acesso em: 24 jul. 2026.

Instituto Presbiteriano Mackenzie. Diretoria de Administração. https://www.mackenzie.br/instituto/diretorias/diretoria-de-administracao Acesso em: 24 jul. 2026.

Universidade Presbiteriana Mackenzie. Estatuto da Universidade Presbiteriana Mackenzie. https://www.mackenzie.br/fileadmin/user_upload/1Atual_-_ESTATUTO_DA_UPM.pdf Acesso em: 24 jul. 2026.

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