Narrativa histórica do campo cristão é atualizada pela extrema direita nas eleições e ganha novos contornos com conteúdos desinformativos
por Flávio Conrado e Lorena Mochel
Quatro anos após as acusações de que “Lula fecharia as igrejas” caso fosse eleito, um discurso central no campo evangélico volta a ganhar força eleitoral em 2026: a perseguição aos cristãos. As disputas pelo voto religioso tem se atualizado através de estratégias que conectam narrativas familiares a esses eleitores, ganhando novos contornos no atual cenário político.
A perseguição religiosa é uma narrativa conhecida na experiência dos cristãos. Sua força remete à memória das primeiras comunidades, com relatos de prisões e martírios no Novo Testamento, conectando-se à literatura da “igreja perseguida” nos países comunistas durante a Guerra Fria. Essa memória chega ao presente como uma suposta ameaça das esquerdas, ainda que o Brasil tenha mais de 80% de cristãos e ampla liberdade religiosa.
Nas redes sociais, entre lideranças evangélicas principalmente vinculadas ao campo das direitas, essa atualização tem sido marcada por estratégias de desinformação sobre acontecimentos em diferentes partes do Brasil e do mundo. Em vez de mera invenção, a fabricação decorre de fatos reais que podem ser retirados de contexto, associados a informações antigas e apresentados como evidência de perseguição.
É o que temos observado no monitoramento das redes evangélicas da Casa Galileia, em parceria com o Instituto Democracia em Xeque. Na Nigéria, conflitos geopolíticos de diferentes naturezas são apresentados como uma guerra contra cristãos. Imagens antigas reaparecem como atuais e a complexidade do conflito desaparece.
A mesma chave aparece nos Estados Unidos, onde Donald Trump e seu governo apresentam a situação nigeriana como perseguição aos cristãos. No Canadá, um projeto de lei circulou sob a falsa alegação de que opiniões bíblicas poderiam ser criminalizadas. No Brasil, essa narrativa chegou à reação ao PL da Misoginia, com afirmações de que padres e pastores poderiam ser presos por citar a Bíblia.
Casos no Brasil também foram apresentados como ataques à liberdade religiosa, com manifestações contrárias à intervenção policial a uma igreja no Rio Grande do Sul e a uma pregação na praça da Sé, todos associados a críticas aos governos de esquerda. Dessa forma, a narrativa opõe uma esquerda hostil à fé a representantes dispostos a defender os valores cristãos, transformando a defesa da fé em critério de identificação política.
Por encontrar uma estrutura de plausibilidade conhecida no campo cristão, essa narrativa absorve acontecimentos distintos. Se em 2022 lideranças religiosas usaram a retórica do fechamento de igrejas para desestimular o voto na esquerda, mesmo sem evidências de que isso tenha ocorrido em governos petistas anteriores, em 2026 acontecimentos distintos voltam a ser reorganizados como sinais de uma mesma ameaça: cristãos e seus valores estariam sob ataque. Ajusta-se a narrativa, mas sem abrir mão da estratégia.
É legítimo que cristãos, evangélicos e pessoas de outras tradições religiosas participem da vida pública, disputem eleições e defendam suas convicções. Perseguição, intolerância e racismo religioso precisam ser enfrentados, mas não se equivalem à defesa de que existe “cristofobia” ou uma onda de discriminações baseadas na condição de se professar a fé cristã no Brasil. O que merece atenção é o uso eleitoral dessas questões quando acontecimentos distintos são selecionados, descontextualizados ou associados para reforçar a ideia de que a fé cristã está permanentemente sob ameaça.
À medida que a campanha de 2026 avança, reconhecer esses padrões ajuda a qualificar o debate público. Não se trata de deslegitimar a fé, nem quem leva suas convicções religiosas para a política, mas de identificar os usos estratégicos e as “iscas eleitorais” construídos a partir delas. Em um ambiente digital que amplia rapidamente esse tipo de conteúdo, perceber como essas narrativas são produzidas, conectadas e mobilizadas é também uma forma de participar do debate político com mais informação.
Flávio Conrado é diretor de Campanhas da Casa Galileia, antropólogo e doutor em Sociologia e Antropologia pela UFRJ.
Lorena Mochel é antropóloga, pesquisadora da Casa Galileia e pós-doutoranda na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.


