O Bereia apurou dois desdobramentos ligados às informações circulantes nas redes sobre a 41ª Reunião Ordinária do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), realizada em Manaus (AM) entre 26 de julho e 2 de agosto de 2026. O primeiro é a atualização do inquérito policial que originou a reportagem do SBT News classificada pelo Bereia como enganosa; o segundo trata da proibição de mulheres assumirem posições de liderança na igreja.
Inquérito sobre vídeo de campanha em Patrocínio
Após a publicação da checagem do Bereia sobre a reportagem do SBT News, o prefeito de Patrocínio (MG) Gustavo Brasileiro (Democracia Cristã/DC), entrou em contato com a equipe editorial do Bereia e encaminhou a íntegra do Inquérito Policial nº 0600024-82.2025.6.13.0211, em trâmite na 211ª Zona Eleitoral de Patrocínio (MG). O documento foi instaurado pela Polícia Federal de Uberlândia (MG) para apurar suposta calúnia na campanha eleitoral à Prefeitura de Patrocínio (art. 323, §2º, I, do Código Eleitoral), a partir de vídeo divulgado nas eleições municipais de 2024 e apontado nos autos como desinformação.
Segundo o material enviado pelo prefeito que é membro da IPB, o inquérito segue em andamento e ainda não houve indiciamento formal de investigados. Já houve duas prorrogações da investigação aprovadas em Juízo. A de 10 de março de 2026 concedeu à PF mais 90 dias, porém um novo prazo foi solicitado, sobre o qual o Ministério Público Eleitoral (MPE) se manifestou favorável, uma vez que falta ouvir Eduardo Abrunhosa, apontado nos autos como mentor do vídeo investigado.
Conforme os documentos recebidos pelo Bereia, Gustavo Brasileiro, que é filho do recém-tornado ex-presidente do Supremo Concílio da IPB Roberto Brasileiro, não consta na lista de noticiados do inquérito, e não há nos autos indicação de que ele seja formalmente investigado. O mesmo acontece com a Universidade Presbiteriana Mackenzie, citada uma única vez no processo, por conta de mensagem de WhatsApp na qual um dos envolvidos descreve o currículo profissional de Abrunhosa. Igualmente, a Prefeitura de Patrocínio é mencionada apenas no contexto funcional dos envolvidos. Portanto, estas instituições, citadas na matéria do SBT NEWS, não são apontadas como investigadas pelo inquérito.
Segundo a íntegra do Inquérito Policial recebida pelo Bereia, os noticiados são Eduardo Abrunhosa, Juliano Alan Quirino, Marcos Alberto Brasileiro e o chefe de Gabinete da Prefeitura de Patrocínio Erli Voltolini Jr. O diretor administrativo da Universidade Presbiteriana Mackenzie Eduardo Abrunhosa é apontado como o principal alvo da apuração, sendo apresentado nos autos como coordenador de campanha do prefeito eleito e suposto mentor do vídeo investigado. O Bereia observou que um dos noticiados, Marcos Alberto Brasileiro, tem o mesmo sobrenome do prefeito, mas os autos não estabelecem relação de parentesco entre os dois, e essa informação não pode ser afirmada.
As informações descritas no inquérito confirmam o que havia sido apurado pelo Bereia e que levou a classificação da reportagem do SBT News como enganosa, por induzir o público a associar a IPB e a Universidade Mackenzie como partes investigadas pela Polícia Federal.
Mulheres presbiterianas contestam decisão
A propósito de matéria publicada previamente à realização do Supremo Concílio (SC), o Bereia recebeu uma carta do Coletivo de Mulheres Presbiterianas do Brasil, dirigida ao presidente eleito para o órgão máximo da igreja, pastor Juarez Marcondes Filho, e aos líderes clérigos e leigos que participaram oficialmente participaram da reunião, denominados “deputados”. A carta reafirma a legitimidade teológica do coletivo e denuncia o tratamento desqualificador dado pelo SC às motivações da mobilização, que buscou reafirmar a importância do lugar das mulheres na liderança da igreja. A carta relata o recebimento de mais de 400 e-mails de conteúdo hostil às integrantes do grupo, depois da reprovação pública à existência dele feita na reunião do SC às suas manifestações.
A carta reafirma a criação do Coletivo em 31 de julho de 2022, em resposta às resoluções do Supremo Concílio daquele ano, que restringiram a pregação feminina em cultos solenes e a distribuição da Eucaristia por mulheres. Por fim, o documento pede à Comissão de Legislação e Justiça da Igreja Presbiteriana do Braisl que substitua a reprovação sumária do coletivo por recomendação de diálogo pastoral com as mulheres do grupo.
Inquérito Policial nº 0600024-82.2025.6.13.0211 (IPL 2025.0042548), 211ª Zona Eleitoral de Patrocínio (MG). Acesso em: 04 ago. 2026.
Carta ao Rev. Juarez Marcondes Filho e à 41ª Reunião Ordinária do Supremo Concílio da IPB. Disponível em:https://www.instagram.com/coletivo_mpb. Acesso em: 04 ago. 2026.
Bereia recebeu de leitores pedido de checagem da reportagem intitulada “PF apura atuação de diretor do Mackenzie em eleição em MG”, publicada pelo SBT News, em 22 de julho de 2026, no site e no telejornal, com repercussão nas redes sociais da emissora.
Fonte: SBT News
De acordo com a reportagem, a Polícia Federal (PF) apura suspeitas de crimes eleitorais cometidos no município de Patrocínio, em Minas Gerais, nas eleições de 2024. O atual prefeito da cidade, Gustavo Brasileiro (Democracia Cristã/DC) teria conquistado o cargo, nas eleições de 2024, por meio da produção de conteúdo falso contra adversários e de negociações envolvendo pagamentos e promessas de cargos públicos em troca de apoio.
A matéria do SBT News aponta que o membro da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) Eduardo Abrunhosa teria se tornado atual diretor administrativo da Universidade Mackenzie (pertencente à IPB), após atuar como consultor da campanha de Gustavo Brasileiro.
A publicação aponta o envolvimento do pai do prefeito, o pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) Roberto Brasileiro, como central para a promoção de Abrunhosa à liderança da universidade presbiteriana. Ele é apresentado pelo SBT News como “presidente da Igreja Presbiteriana”. A reportagem mostra que outros dois ex-aliados da campanha do prefeito de Patrocínio, os motoristas Edvanei Cortes e Igor José Lopes, registraram em cartório conversas de WhatsApp com Abrunhosa e com o chefe de gabinete de Gustavo Brasileiro, e entregaram o material a opositores políticos, que levaram a denúncia à PF.
Fonte: SBT News
O inquérito teria sido aberto após denúncia protocolada em fevereiro deste ano, três meses antes da realização da reunião do Supremo Concílio da IPB, marcada para 26 de julho a 2 de agosto, em Manaus. A reportagem do SBT relaciona a investigação da PF à cúpula de uma das maiores denominações protestantes do país, às vésperas da sucessão de sua liderança nacional, e evidencia como redes de influência religiosa na política se cruzam com estruturas político-administrativas e educacionais, como o Mackenzie.
O que está sendo investigado
O evangélico presbiteriano Gustavo Brasileiro governa o município mineiro de Patrocínio, após vencer a eleição de 2024 com auxílio da consultoria de Eduardo Abrunhosa. Em entrevista ao programa Rádio Comunidade, da Difusora 95,3 FM, em 23 de julho passado, o prefeito rebateu a reportagem do SBT News adotando explicitamente a posição de membro da IPB, e não apenas de gestor público. O político reforçou, na entrevista, o entrelaçamento entre sua atuação política e o pertencimento à igreja, cujo Supremo Concílio era, de fato presidido pelo pai.
Segundo Gustavo Brasileiro, o inquérito trata apenas de uma representação por propaganda enganosa envolvendo um vídeo de campanha, sem relação com a Prefeitura, com o Instituto Mackenzie ou com recursos filantrópicos. Ele afirmou que buscará retratação judicial contra a emissora e o repórter responsável.
Na entrevista à rádio Difusora, o prefeito mineiro também apresentou dados de sua gestão em segurança, saúde e infraestrutura. O político afirmou, ainda, que o processo de 57 páginas, sobre a investigação da PF, estaria disponível para análise.
O Bereia não conseguiu acesso aos arquivos do inquérito, uma vez que a investigação segue em andamento, por isso não está disponível no site do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais.
Fonte: Rádio Difusora
O diretor do Mackenzie é alvo da investigação?
De acordo com a reportagem do SBT News, a relação do prefeito Gustavo Brasileiro e do seu pai Roberto Brasileiro com Eduardo Abrunhosa, teria sido um dos motivadores para a promoção dele ao atual cargo de diretor administrativo da Universidade Mackenzie. A reportagem aponta ainda que o próprio Instituto Presbiteriano Mackenzie (instituição mantenedora da universidade), afirmou em nota que não é alvo da investigação e não tem relação institucional com consultorias particulares prestadas por colaboradores, remuneradas ou não.
O Bereia não encontrou a nota publicada pela organização nas redes oficiais. O diretor-presidente do Instituto Presbiteriano Mackenzie Cid Pereira Caldas, que atua como pastor titular na Igreja Presbiteriana de Botafogo (RJ), citado pelo SBT News como uma das lideranças da IPB que ganharam cada vez mais destaque nos últimos anos, foi ouvido pelo Bereia. O pastor informou que apenas recebeu um e-mail do SBT News solicitando um posicionamento, sendo que a maior parte não teria sido usada ao longo da reportagem publicada.
“A Universidade Presbiteriana Mackenzie não tem nenhuma relação com esse tema de eleição, patrocínio, ou qualquer outro tipo de envolvimento. Essa é uma postura histórica da Mackenzie e do Conselho de Curadores, de não envolvimento. Então o que acontece, nesse caso específico, é que a nossa declaração diz respeito ao fato seguinte: nós não policiamos os nossos colaboradores no que eles fazem fora do seu ambiente de trabalho. A Mackenzie é uma colcha de retalhos, lidando com seus alunos, com seus professores, com seus colaboradores e com seus dirigentes. Ela lida com isso tudo, e nós não fazemos um policiamento ideológico das pessoas”, afirmou ao Bereia o pastor Cid Caldas.
O diretor-presidente do Instituto Presbiteriano Mackenzie também explicou que “se um determinado colaborador contribui, colabora, faz parte de uma campanha eleitoral de quem quer que seja, isso não diz respeito à Mackenzie, na medida em que não envolva a instituição ou, mais do que isso, que não coloque a Mackenzie como parte”.
Caldas enfatizou na entrevista ao Bereia que que a Universidade Mackenzie “não teve nenhum envolvimento com essa eleição, e também não cobra dos seus colaboradores que se envolvam ou que deixem de se envolver.”
De acordo com o estatuto da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a decisão de nomeação aos cargos da instituição varia conforme o nível hierárquico, mas o poder final de escolha e validação está concentrado no Instituto Presbiteriano Mackenzie, entidade mantenedora pertencente à Igreja Presbiteriana do Brasil. Caldas reafirmou essa organização durante a entrevista ao Bereia, apontando que esse formato de decisão dos cargos dentro da igreja é algo relacionado à estrutura histórica da organização.
“A Mackenzie foi criada por missionários presbiterianos norte-americanos que vieram ao Brasil se estabelecer, e ao longo das décadas ela sempre esteve ligada à Igreja. Aconteceu que, por volta de 1960, houve uma ação para que a Mackenzie deixasse de ser confessional e fosse desapropriada, se tornando uma instituição pública, contudo foi reconhecido pela Justiça que a Mackenzie pertence à Igreja Presbiteriana do Brasil. Então a Igreja Presbiteriana do Brasil é o que a gente chama de ‘associado’, é ela a dona da Mackenzie”, afirma o pastor Cid Caldas.
O diretor-presidente da mantenedora da Universidade Mackenzie também explica que a Igreja Presbiteriana não tem uma ação direta dentro da instituição de ensino, que tem um Conselho Deliberativo. E esse conselho é formado, na sua totalidade, por pastores, presbíteros e membros da Igreja Presbiteriana do Brasil que têm qualificação para isso.
A equipe de reportagem do SBT News teria entrado em contato com Abrunhosa que nega irregularidades e sustenta que sua atuação na campanha foi voluntária e paralela às suas funções na universidade. Sua promoção ao cargo de diretor de Administração, dois meses após a vitória de Gustavo Brasileiro à Prefeitura de Patrocínio, é apontada pela reportagem do SBT News como um dado relevante para contextualizar a proximidade com a cúpula administrativa do Mackenzie, contudo, até o momento, essa relação não configura acusação formal contra a universidade.
O pastor Cid Caldas aponta ainda que as atividades realizadas pelos membros da universidade, tratados como colaboradores em âmbito exterior ao da universidade, não são regulamentadas pela liderança universitária.
A Igreja Presbiteriana do Brasil e seu presidente
Um dos pontos da reportagem do SBT News é que Roberto Brasileiro seria “presidente da Igreja Presbiteriana do Brasil”, cargo que, institucionalmente, não existe. Bereia checou nos registros oficiais da Igreja Presbiteriana e constatou que, de acordo com a instituição, não há presidente na hierarquia eclesiástica. Roberto Brasileiro é, de fato, presidente do Supremo Concílio, o órgão máximo de deliberação da denominação. Ele foi eleito por voto direto para mandatos de quatro anos desde 2002 (reeleito em 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022), somando 24 anos à frente do Concílio.
Em 2026, pela primeira vez em 24 anos, o pastor Roberto Brasileiro decidiu não concorrer à reeleição. A sucessão foi decidida em 27 de julho, em segundo turno, no segundo dia do Supremo Concílio reunido em Manaus. Foi eleito para o cargo de presidente o pastor Juarez Marcondes Filho, até então secretário executivo do órgão.
De acordo com registros oficiais, a IPB se organiza como federação de igrejas locais, regida por concílios, e é representada oficialmente pelo presidente do Supremo Concílio nos âmbitos interno, civil e judicial. A Igreja Presbiteriana do Brasil “exerce seu governo por meio de concílios e indivíduos, regularmente instalados e o Supremo Concílio é a sua Assembleia Geral. A Igreja é representada ativa, passiva, judicial e extrajudicialmente pelo presidente do Supremo Concílio, ao qual também compete: Presidir às reuniões do Supremo Concílio e da Comissão Executiva; representar a Igreja internamente bem como em suas relações intereclesiásticas, civis e sociais.”
Presbiterianos e política: uma presença antiga, não recente
A cobertura do caso pela reportagem do SBT News trata a proximidade entre lideranças presbiterianas e o poder público como novidade, mas o histórico é longo. Como já abordado pelo Bereia em reportagens anteriores, durante a ditadura militar (1964-1985), setores da cúpula da IPB alinharam-se ao regime, promovendo o afastamento de pastores ligados a posições progressistas e ecumênicas, o que resultou, inclusive, na criação da Igreja Presbiteriana Unida por dissidentes discordantes desse alinhamento. Evangélicos presbiterianos também ocuparam cargos públicos importantes durante o Estado de exceção: Eraldo Gueiros Leite foi ministro do Supremo Tribunal Militar, e integrava a família Gueiros, nome destacado de presbiterianos, com outros membros em posições no Poder Judiciário na época.
Essa presença se renovou décadas depois. O Bereia já publicou matérias que informaram sobre presbiterianos que assumiram pastas técnicas e “ideológicas” durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL, 2019-2022). Entre eles, o ministro da Educação pastor Milton Ribeiro; o ex-reitor do Mackenzie, que presidiu a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes, MEC) Benedito Guimarães Aguiar Neto; e o pastor André Mendonça, que foi ministro da Advocacia Geral da União e da Justiça, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), indicado por Jair Bolsonaro.
Esse dado desafia a leitura simplificada que associa apenas a lideranças pentecostais à direita política e ao chamado bolsonarismo. Parte relevante da adesão institucional ao governo de Jair Bolsonaro é de evangélicos históricos, como os presbiterianos e os batistas.
Informação também importante é que a IPB não é politicamente monolítica. Bereia também checou informações, em 2022, quando houve tentativa de aprovar, na reunião do Supremo Concílio, um relatório visto por críticos como um movimento de expurgo de membros identificados com a esquerda. A proposta foi derrubada por um substitutivo aprovado, ainda que por margem apertada, indicando a divisão interna.
O pano de fundo: o Supremo Concílio em Manaus
Na reportagem do SBT News a investigação sobre a campanha de Gustavo Brasileiro ganha peso adicional pelo momento: ela avançou justamente no período em que a IPB elegeu, em Manaus, em 27 de julho, a nova composição do Supremo Concílio, a primeira sucessão em 24 anos, já que Roberto Brasileiro optou por não concorrer à reeleição.
A divulgação da reportagem do SBT se insere em um cenário de disputa interna, pouco tempo após a publicação de reportagens, em várias mídias, que vinculam o Supremo Concílio a debates ultraconservadores sobre a liderança feminina na igreja, como o Bereia publicou. Observar esse cenário ajuda a explicar por que o caso extrapola os limites de uma eleição municipal e repercute nacionalmente: entra em jogo não apenas a legalidade de uma campanha eleitoral em Minas Gerais, mas o mapa de influências dentro de uma das denominações protestantes mais antigas e institucionalmente organizadas do Brasil.
Bereia ouviu o membro leigo da IPB em Formosa (Goiás) Jared Victor Lopes, que acompanha de perto os debates relacionados à igreja nas redes digitais. Na entrevista realizada antes das eleições do Supremo Concílio, Lopes aponta a percepção e a apreensão da comunidade presbiteriana nos últimos meses diante das diferentes repercussões e temáticas vinculadas à IPB.
“Isso atinge diretamente o atual presidente do Supremo Concílio [Roberto Brasileiro], mas é um presidente que hoje deixa o quadro da liderança, então definitivamente não é algo que vai prejudicá-lo nesse sentido. É claro que isso pode respingar em possíveis pessoas que ele apoia para ser um sucessor e seguramente pode comprometer algum estabelecimento posterior dentro da igreja ou dentro das instituições da igreja”, afirma o presbiteriano.
Lopes considera que “de qualquer maneira é algo assim que a gente ainda não sabe até que ponto vai prejudicar ou vai ecoar com grande influência dentro da denominação, particularmente dentro de uma eleição no Supremo Concílio”.
Além da reportagem do SBT, recentemente, debates sobre o papel das mulheres na igreja tomaram grandes proporções e foram alvo de notícias enganosas nas redes digitais. Lopes aponta que esse é um tema delicado de debate dentro da própria cúpula.
“Neste ano estamos observando todas essas movimentações e vamos ter um novo ciclo de debate sobre algumas questões, principalmente em relação à atuação das mulheres dentro da igreja. Já estamos há um pouco mais de uma década discutindo constantemente o papel das mulheres na igreja, há uma tendência a restringir o papel das mulheres enquanto você tem setores da igreja dispostos e interessados em aberturas para alguns ministérios. Neste ano existem alguns documentos enviados para o concílio com a tentativa de derrubar algumas resoluções e estamos com uma expectativa de que pelo menos que a discussão aconteça”, pontua Jared Victor Lopes.
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Bereia classifica a reportagem do SBT como enganosa, pois induz o leitor a relacionar a Igreja Presbiteriana do Brasil e a Universidade Mackenzie como partes investigadas em inquérito da Polícia Federal. Como apurado pelo Bereia, a ação policial ainda em curso não aponta qualquer das instituições como investigadas, e, sim, o prefeito de Patrocínio Gustavo Brasileiro (MG) e seu consultor de campanha eleitoral Eduardo Abrunhosa, suspeitos de produção de falsidades contra concorrentes. A matéria jornalística é que levanta suspeitas de que Abrunhosa tenha recebido cargo na instituição de ensino por conta dessa relação.
Além disso, a matéria do SBT News desinforma ao desconsiderar o contexto histórico no qual se insere a relação entre a Igreja Presbiteriana do Brasil, a Universidade Presbiteriana Mackenzie e seus membros com a política. O conteúdo leva a audiência a compreender as ações políticas presentes na trajetória da igreja como algo novo.
Bereia chama a atenção de leitores e leitoras para publicações nas mídias digitais e nas grandes mídias de notícias sobre religião. Na onda do protagonismo que, especialmente evangélicos, têm assumido no cenário público, temas relacionados ao grupo se tornam pautas com abordagem frágil, do ponto de vista da informação, mas fortes promotoras de audiência.
O debate em torno do questionamento da atuação das mulheres em determinadas funções na igreja, como oficiais e pregadoras, passou a circular amplamente em redes digitais acompanhadas pelo Bereia nas últimas semanas. A discussão é provocada pelo fato de o tema ter sido incluído na agenda do Supremo Concílio (SC) da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), uma das mais destacadas igrejas evangélicas históricas do país, que se reúne entre os dias 26 de julho e 02 de agosto, em Manaus, para a 41ª reunião ordinária.
As pautas que serão abordadas na reunião do SC devem ser previamente enviadas à Comissão Executiva (CE) do órgão, que nomeia subcomissões para emitir pareceres a serem votados na sessão plenária. As considerações da comissão de Legislação e Justiça sobre o tema indicam que a denominação deve manter posição contrária à atuação feminina na direção dos cultos.
Por outro lado, as manifestações remetidas à CE do órgão presbiteriano apontam para um movimento consistente de questionamento dessa posição da denominação em relação às mulheres. Conforme os documentos analisados pelo Bereia, os sínodos Matogrossense, Sudoeste Paulista, Unido (de São Paulo), Leste Fluminense, Rio Grande do Norte e Zona da Mata Mineira são alguns dos quais expediram indagações acerca do assunto.
Os sínodos são as assembléias de representantes dos presbitérios de uma região. Os presbitérios, por sua vez, são constituídos de todos os pastores e presbíteros das igrejas de uma região determinada pelo sínodo. O SC reúne deputados eleitos pelos presbitérios, que compõem delegações mistas, com pastores e presbíteros (leigos), que votam nas reuniões dos sínodos, a cada dois anos, e no Supremo Concílio, a cada quatro anos, cabendo revisões e recursos.
O sistema de governo da denominação se dá, assim, em parlamentos em ordem ascendente, a começar pelos conselhos das igrejas. Segundo dados oficiais da IPB, são mais de 4,3 mil igrejas, 402 presbitérios, 98 sínodos.
Posicionamento da Comissão Executiva do Supremo Concílio da IPB
A comissão de Legislação e Justiça, ao encaminhar parecer para análise do plenário do Supremo Concílio, agrupou consultas, propostas, e pedido de revogação e alteração de resolução em dois relatórios, nos quais aponta que a questão de fundo diz respeito a uma resolução do SC/IPB – 2022. Um dos documentos inclui um apelo para “evitar que matérias sejam repetidamente submetidas sem fatos novos ou argumentos substanciais”.
Há ainda outros dois relatórios encaminhados para apreciação do SC que tratam da autorização para mulheres servirem a Santa Ceia (Eucaristia) e da ordenação como diaconisas (atuação em diversos serviços). Em seu parecer, a CE reafirma a resolução do SC/IPB – 2022 (que trata do tema da Santa Ceia) e orienta os concílios jurisdicionados a “não submeter novamente matérias que já foram objeto de decisão definitiva pelo Supremo Concílio, sem que existam fatos novos ou mudanças nos fundamentos bíblico-confessionais que as justifiquem”.
O parecer determina aos concílios que não deem acolhimento e divulgação de “documentos dessa natureza”, reforça que as resoluções de 2022 foram amplamente discutidas e aprovadas de forma majoritária pelo plenário para reafirmar a fidelidade aos padrões confessionais e “manter a pureza do culto contra agendas seculares”.
Resoluções da reunião do Supremo Concílio em 2022
As resoluções aprovadas pelo Supremo Concílio, em 2022, estabelecem expressamente que a autoridade na igreja deve ser exercida pelos homens, que a distribuição dos elementos da Santa Ceia está intrinsecamente ligada ao oficialato e que situações de excepcionalidade em que mulheres pregam impõe sobre elas um encargo do qual Deus não lhes incumbiu e, portanto, devem ser corrigidas.
“O Senhor Deus ordenou a escolha de presbíteros e diáconos varões na Igreja para sua administração e serviço. Não é correto nem necessário designar as irmãs para servirem a Ceia do Senhor sob qualquer circunstância, ou corre-se o risco de se estabelecer paulatinamente um modelo antibíblico de liderança. Aqui não se deve depreender qualquer discriminação contra as mulheres, o propósito é o cumprimento de dons e ministérios dentro daquilo que lhes foi confiado por Deus em seu papel de auxiliadoras idôneas”, conforme trecho de um das resoluções (CCLII).
Parte de outra resolução (CCLIII) alerta ministros, igrejas e concílios para o “avanço das novas mentalidades identitárias seculares e de sua respectiva agenda, na qual o tema do lugar da mulher se torna cada vez mais recorrente e que não há previsão de que tal assunto seja ofuscado nas pautas futuras do mundo evangélico brasileiro. Sendo assim, é mister que a igreja de Deus reafirme o propósito divino para homens e mulheres em sua igualdade essencial, mas em seus distintos papéis, e os concílios deem esse assunto como resolvido dentro da jurisdição das Igrejas federadas”.
Estes posicionamentos da IPB renderam, ao ano de 2022, um marco político para denominação evangélica que, apesar de nunca ter adotado a ordenação feminina, sempre permitiu a atuação de mulheres. A ala mais conservadora da IPB segue com uma visão complementarista dos papéis da mulher e do homem na igreja e na família, aliando-se às pautas políticas conservadoras e de costumes, defendidas pelos movimentos ultradireitistas que ganharam espaço a partir de 2018.
No contexto da masculinidade cristã, o Sínodo Tocantins enviou para apreciação plenária na próxima reunião do Supremo Concílio uma consulta sobre o Movimento Legendários, ao considerar a crescente participação de membros e oficiais da IPB.
O Sínodo aponta que dentro do movimento, a masculinidade não é definida pelos parâmetros bíblicos, mas por “estereótipos idealizados de masculinidade conservadora, enraizados em cultura de performance, força e competitividade”.
O governo ultraconservador de Jair Bolsonaro teve laços estreitos com alguns líderes presbiterianos, como a indicação do pastor e atual ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça à corte, com a referência do então presidente da República de que se tratava de um “ministro terrivelmente evangélico”. Além disso, Bolsonaro nomeou o pastor Milton Ribeiro como ministro da Educação, que foi preso durante investigação do esquema de favorecimento de verbas com atuação de outros pastores como lobistas na pasta.
Crescente restrição às mulheres e oposição às decisões
Imagem: recorte do livro “Por que não diaconisas?”, de Edijéce Martins Ferreira, publicado em 1990.
Bereia identificou que igrejas que integram o presbiterianismo do Brasil do Nordeste propuseram a ordenação de mulheres ao pastorado, em 1986. Em 2012, a Comissão Executiva do Supremo Concílio declarou não haver impedimento bíblico para que, em ocasiões ou situações especiais, mulheres pregassem, sob a autoridade do pastor. Essa resolução deu origem ao relatório da comissão permanente de interpretação da pergunta 158 do Catecismo Maior de Westminster (um dos símbolos de fé oficiais da IPB), que define por quem a Palavra de Deus deve ser pregada.
O documento, que foi aprovado na 39ª reunião do Supremo Concílio (SC), em 2018, proíbe a ordenação de mulheres aos ofícios da IPB e que mulheres ordenadas a qualquer ofício em outras denominações ocupem os púlpitos da igreja. Após as definições do SC em 2022, além do surgimento do Coletivo de Mulheres Presbiterianas, o Sínodo Leste Fluminense e outros interpuseram sucessivos questionamentos ao SC, em 2023, 2024 e novamente em 2026. Assim como, o Sínodo da Zona da Mata Mineira em 2025.
Um estudo sobre desigualdade de gênero na liderança da igreja protestante nos Estados Unidos indica que a visão coletiva dos membros sobre as mulheres, como tão capazes e elegíveis quanto os homens, para se tornarem suas líderes espirituais pode ser a chave para eliminar a disparidade de gênero no acesso ao púlpito. O artigo sugere que confrontar as visões sobre liderança feminina e abordar as desigualdades de gênero dentro da congregação ajuda os membros a perceberem os estereótipos e preconceitos existentes e permite que a igreja se beneficie do que as mulheres podem oferecer como líderes de comunidades religiosas.
O movimento de presbiterianos e presbiterianas Ecclesiae Renovare, liderado pelo pastor Rev. Wilson Emerich, também defende oposição firme a posturas que firam a liberdade cristã e civil. Por isso, com uma pauta ampla e integral para revitalizar a Igreja, tem na valorização da mulher um de seus objetivos centrais. “Rejeitamos visões distorcidas e preconceituosas sobre o papel eclesiástico da mulher. A alegação de que elas não podem atuar por falta de ordenação explícita na Bíblia parte de uma hermenêutica tendenciosa”, declara o ministro da IPB, ouvido pelo Bereia.
O Rev. Emerich pontua que o Novo Testamento cita apóstolos, profetisas e bispos (cargos que a IPB não adota), e também não menciona Sínodos, Supremo Concílio, Comissão Executiva, Estatutos, Código de Disciplina, Manual de Culto, Sociedades internas, Escola Dominical, Ministério de Louvor e Casais – estruturas criadas posteriormente pela denominação para organizar a missão da Igreja. O ministro defende, com base nesta compreensão, que a estrutura eclesiástica evolui.
Para o pastor, o sistema parlamentar e conciliar da IPB perdeu a eficácia, e a denominação se transformou em uma igreja gerida por comissões, onde relatores são escolhidos a dedo para manter o status quo. Com a expectativa de mudança na liderança do Supremo Concílio em 2026, segundo ele, há esperança que a denominação decida devolver os direitos cassados por uma mentalidade retrógrada e machista que invadiu a igreja.
No contexto da Igreja Presbiteriana do Brasil, o posicionamento da instituição em relação à ordenação das mulheres, não as priva somente de servir elementos da Santa Ceia, pregar ou ensinar nos púlpitos, mas de liderar órgãos internos. A medida restringe a própria composição do Supremo Concílio (SC) aos homens, e com isso, impede a participação das mulheres nas tomadas de decisão. Mesmo em um sistema de votos, o atual presidente do SC, o pastor Roberto Brasiliero Silva, ocupa o cargo há seis mandatos, ou seja, há 24 anos.
“O Ecclesiae Renovare propõe o rodízio de lideranças em todas as esferas da igreja como forma de reoxigenar a estrutura eclesiástica e valorizar os dons de toda a comunidade presbiteriana. Além disso, valorizamos o Estado laico — com a estrita separação entre Igreja e Estado — e a despolitização partidária dos púlpitos, rejeitando a imposição de uma linha política única que fira o livre-arbítrio dos cidadãos. Combatemos veementemente a misoginia, o sexismo e o preconceito, enfatizando sempre a teologia do amor e da graça”, afirma o pastor Emerich, na entrevista com o Bereia.
As reações críticas à recente pregação sobre violência contra mulheres nas igrejas, pela pastora das Assembleias de Deus Helena Raquel, durante o 41º Congresso Internacional de Missões dos Gideões Missionários da Última Hora, são exemplos de que a presença de mulheres no púlpito ainda provoca incômodo e resistência em diferentes segmentos. A participação feminina em espaços de autoridade religiosa permanece um tema sensível e revela que as disputas em torno da legitimidade da voz feminina continuam longe de serem superadas.
Um vídeo-convite para um evento dirigido para homens presbiterianos tem chamado a atenção nas mídias sociais nos últimos dias. Na publicação, o pastor da 2ª Igreja Presbiteriana de Martinópolis (SP) Alencar Torres da Silva aparece com uma Bíblia na mão e com um revólver na cintura para chamar participantes para o “Encontro de Homens Presbiterianos”. Bereia recebeu de leitor link de mídia social sobre o evento e o vídeo-convite que circula em grupos de WhatsApp e checou a veracidade do caso.
O conteúdo do vídeo
Imagem: Extrato de vídeo-convite em circulação em grupos no WhatsApp
Na publicação, o pastor compartilha a programação do evento: momento devocional, dinâmicas com distribuição de brindes, churrasco e um momento livre. Ao final, ele completa: “para aqueles que quiserem pescar, podem trazer a sua vara de pesca, para aqueles que quiserem praticar tiro ao alvo, também teremos um local apropriado para isso”, enquanto toca em sua própria arma.
Além de liderar a 2ª Igreja Presbiteriana de Martinópolis, Alencar também é secretário da União Presbiteriana de Homens de Presidente Prudente (SP). A UPH é uma organização nacional que planeja diversos encontros e projetos com o objetivo de unir a parcela masculina das igrejas presbiterianas pelo país.
Imagem: Banner do evento divulgado nas redes sociais da igreja
O pastor, a igreja e o grupo de homens presbiterianos
A 2ª Igreja Presbiteriana de Martinópolis foi fundada em agosto de 2010. É parte da Igreja Presbiteriana do Brasil, uma denominação histórica, estabelecida no Brasil no século 19, com raízes na Reforma Protestante. Alencar Torres é o pastor-presidente desta comunidade local presbiteriana desde 2016.
Foto: Blog da igreja
Em novembro de 2017, Alencar Torres da Silva participou da Audiência Pública Interativa que buscava opiniões da população sobre a Sugestão nº 44, proveniente da Ideia Legislativa nº 73.169/2017, que buscava a “extinção do termo feminicídio [do Código Penal] e a criação de agravante para qualquer crime passional”. No documento, o proponente Felipe Medina, um morador de Minas Gerais, diz: “O feminicídio, cuja lei foi sancionada como se as mulheres morressem por serem mulheres, é um termo totalmente infundado que fere o princípio de igualdade constitucional. Qualquer crime contra qualquer pessoa em função de violência passional deve ter o agravante de crime hediondo”. Naquele ano, a proposta recebeu mais de 20 mil assinaturas, o suficiente para que uma ideia apresentada por qualquer cidadão se torne uma sugestão legislativa e seja debatida no Senado Federal. Por isso houve consulta aberta no Portal E-Cidadania e audiências públicas sobre o tema, articuladas pela casa legislativa.
No relatório da audiência virtual, Bereia identificou manifestação do pastor da 2ª Igreja Presbiteriana de Martinópolis. Alencar Torres da Silva aparece como “apoiador” da Ideia Legislativa, mostrando-se a favor da extinção do termo “feminicídio”, criado para definir crimes contra mulheres em razão de suas condições de gênero.
Masculinidade viril evangélica
A realização de eventos que ressaltam ideais de homens viris tem se tornado prática corrente em ambientes evangélicos . Vários deles oferecem conteúdo e atividades identificados com a cultura militar, alguns com as armas de fogo.
A liberação do porte de armas de fogo foi um dos grandes debates durante o período eleitoral de 2022, com idealizações do ex-presidente e então candidato à reeleição Jair Messias Bolsonaro (PL). Em 2023, apesar do “esfriamento” do assunto, os dados do Sistema Nacional de Armas (Sinarm) mostram que o mercado armamentístico cresceu cerca de 33% quando comparado a 2022.
Nos últimos dias, o Intercept Brasil publicou matéria sobre atividade da “Igreja da Família”, em Marataízes-ES. Desde 2022, ela promove uma nova modalidade de acampamento chamado “Retiro Sobreviventes”. Organizado e “comandado” pelo pastor e ex-militar Leandro Saldanha, o evento reúne jovens cristãos com o intuito de “testar suas forças físicas e espirituais”, com provas de resistência e dinâmicas buscando alcançar o extremo cansaço corporal. Saldanha define o “Sobreviventes” como “uma vivência militar e uma experiência com Deus”.
O movimento Legendários é outro exemplo, iniciado na Guatemala e popularizado no Brasil, nos últimos anos. No website do movimento, há a afirmação de ele ser espaço que “busca a transformação de homens, famílias e comunidades por meio de experiências que levam os homens a encontrar a melhor versão de si mesmos e seu novo potencial”. Entre as atividades estão desafios físicos praticados em acompanhamentos e retiros para homens casados e solteiros. No website é indicado que com a programação, os participantes vão romper com tudo que os “prende e aprender a desfrutar o caminho, lutar suas batalhas certas e desenvolver seu potencial máximo para chegar ao seu nível 10 e se tornar o herói caçador que toda família precisa”.
Bereia ouviu a antropóloga e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Christina Vital, para compreender a relação entre organizações e eventos masculinos evangélicos, a cultura militar e o uso de armas de fogo. Ela recorre à memória para compreensão deste fenômeno: “a valorização do militarismo entre protestantes no Brasil não é nova. Devemos lembrar o apoio institucional importante que várias denominações protestantes deram aos militares durante a ditadura no Brasil”.
Christina Vital coloca um desafio de pensar o contexto evangélico para compreensão do que se apresenta nesta busca por ênfase de masculinidade viril e armada:
“É importante ressaltar que embora a valorização da disciplina, da ordem, ambos muito ligados ao ideal militar seja significativo no campo religioso cristão de um modo geral. Entre protestantes históricos no Brasil é maior até do que entre pentecostais. Isto por uma questão ligada também à dinâmica racial e de classe. As igrejas protestantes reúnem um perfil mais branco e de poder econômico e escolaridade maior que os pentecostais. Os pentecostais, embora tenham uma importante valorização da ordem, da disciplina e do mérito, contrabalançam essa valorização com a experiência que tem racial e a experiência territorial em contextos urbanos nos quais muitas vezes as forças militares são associadas a principal violência que eles sofrem no dia a dia”, destaca a professora.
A antropóloga e pesquisadora das religiões recorda que segundo pesquisas nacionais, são os protestantes que têm os posicionamentos mais conservadores quanto ao quadro da violência no país, inclusive de apoio ao uso de armas de fogo. Na conversa com o Bereia, ela recupera o fato de que principalmente protestantes que ocuparam cargos de destaque no governo de Jair Bolsonaro.
“Essa dinâmica de valorização militar se amplificou sem dúvida com o ‘bolsonarismo’. Em razão de uma valorização da recuperação da masculinidade viril, apresentada como recuperação da funcionalidade masculina. E essa funcionalidade masculina está ligada a várias símbolos de força. As armas são muito ligadas a essa representação de força combinada com uma representação também militar. É um fenômeno que vem crescendo e que se contrapõe a posicionamentos que apresentam outros tipos de masculinidade possíveis e que vinham ganhando importante representação no mainstreaming social e da cultura, a partir de uma demanda feminina pela maior participação doméstica dos homens”, afirma Christina Vital.
A professora ouvida pelo Bereia também destaca que o fenômeno de crescimento dessa demanda por masculinidade viril, por afirmação e recuperação da masculinidade viril é resultante também de um empoderamento de outras masculinidades. “Friso essa questão na medida em que talvez venhamos a observar um crescimento ainda significativo de retiros e cursos de recuperação da masculinidade viril entre católicos e evangélicos no Brasil. Uns mais ostensivos em relação às armas, porém com a maioria vinculada a outras perspectivas importantes no militarismo, para além das armas. Aí entra a própria noção de disciplina, ordem, mérito, força física”, ressalta Christina Vital.
*** Bereia classifica como verdadeiro o vídeo que circula com imagens do pastor presbiteriano com uma Bíblia e um revólver à cintura, ao anunciar atividades de um evento para homens presbiterianos, como pesca e “tiro ao alvo”. O vídeo checado pelo Bereia ilustra um movimento crescente entre homens cristãos em busca de ideais viris, como uma espécie de reação às ações que afirmam um lugar social mais destacado às mulheres, de alinhamento com ideais militares na política ultraconservadora nacional, que se soma ao aquecimento do mercado de armas de fogo no país após ampliação das possibilidades de porte no governo federal anterior.
Bereia acompanhou a repercussão de uma proposta de expurgo de membros da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) alinhados à esquerda e a partidos políticos. A proposta, compartilhada por grandes mídias de notícias, sites evangélicos e perfis em mídias sociais, fazia parte da documentação a ser apresentada no Supremo Concílio, órgão máximo de deliberação da denominação, entre os dias 24 e 31 de julho, em Cuiabá (MT).
O documento que continha a proposta (com o selo “Aguardando aprovação”) foi divulgado nas mídias sociais da Secretaria Executiva da Igreja Presbiteriana do Brasil e no aplicativo iCalvinus. Ele foi compartilhado em mídias sociais e viralizou. Trata-se de um relatório assinado pelo Rev. Osni Ferreira, que propunha o que em várias mídias sociais e sites passou a ser chamado de “caça aos comunistas”. O relator, após a redação, divulgou um vídeo no Youtube, “Nós temos que reeleger Bolsonaro”, tornando explícita a orientação política em sua liderança.
Imagem: reprodução do app iCalvinus
A cobertura do caso pela grande imprensa
Além das mídias sociais, vários órgãos da imprensa tradicional, que não costumam pautar assuntos internos das igrejas, noticiaram o concílio da IPB e seus desdobramentos (referências ao final da matéria).
Daniel Weterman (repórter do Jornal Estado de São Paulo, Brasília) foi o primeiro a publicar, em 21/07/2022, às 07h50, que havia uma proposta para cercear fiéis de esquerda, na IPB, tendo dado destaque, também, o tratamento preferencial ao candidato Jair Bolsonaro.
Entrevistado por Weterman, contudo, o Rev. Osni Ferreira negou que a Igreja tenha candidato. Também ouvido, o presidente da igreja também procurou afastar conexões com a candidatura de Bolsonaro.“Cada pastor é responsável por aquilo que ele fala, por aquilo que ele pronuncia, e responde ao seu conselho e também ao presbitério. Quando a igreja faz um posicionamento oficial é através da minha pessoa, e nós não fizemos nenhum pronunciamento”, afirmou Roberto Brasileiro Silva ao jornal O Estado de São Paulo.
O jornalista Matheus Leitão, da revista Veja, que é evangélico, também escreveu sobre o assunto em sua coluna (que se tornou a mais lida da semana naquele veículo). Ele chamou a proposta para o Supremo Concílio da IPB de “a nova vergonha da igreja evangélica”. Neto de pastor, o colunista abriu espaço para vozes presbiterianas críticas do movimento de alinhamento da igreja com Jair Bolsonaro.
Reinaldo Azevedo, católico romano e jornalista político da rádio Band News FM, abordou o assunto no programa “É da Coisa”. O comentarista cita uma das doutrinas mais enfatizadas pela denominação presbiteriana, a predestinação, o entendimento de que Deus determinou de antemão o “destino” da humanidade.
“A ideia da predestinação é muito importante para a Igreja Presbiteriana. Eu pergunto aos irmãos presbiterianos: vocês acham mesmo que Jair Bolsonaro é compatível com a ideia da predestinação? Será isso o que Deus nos reservou?”. Reinaldo Azevedo,, além de comentar a proposta, alertou: “se a Igreja Presbiteriana fez a opção de se tornar partido político, deve também abrir mão da isenção de impostos, da qual gozam os evangélicos, suas igrejas, pastores e instituições” .
No texto apresentado por Caldas consta que a “IPB tem mantido equidistância de radicalismos” e a defesa de que “não é finalidade da IPB manifestar-se sobre partidos políticos”.O relatório substitutivo foi aprovado pelo Supremo Concílio, por maioria, em 29/07/2022, por 738 votos contra 538.
A Folha também apurou que “Cid Pereira Caldas é presidente do Conselho de Administração do Instituto Presbiteriano Mackenzie e pastor da Igreja Presbiteriana de Botafogo. Ele é próximo do presidente do Supremo Concílio da IPB, Roberto Brasileiro”. No mesmo texto, cita-se que “três membros da cúpula da IPB e interlocutores de Cid afirmaram à Folha, sob reserva, que o relatório inicial tinha potencial para rachar a igreja como ocorreu na década de 1970, durante a ditadura militar. Na época, a Igreja Presbiteriana do Brasil apoiava o governo militar. Indignados, pastores decidiram romper com a liderança da instituição e criaram a Igreja Presbiteriana Unida”. Não foram ouvidos, pela Folha, os representantes na Igreja Presbiteriana Unida (IPU), apesar do Supremo Concílio da IPB também ter aprovado, nesta mesma reunião de 2022, documento no qual declara “que a IPB não reconhece a IPU como genuinamente evangélica”. Também não foram ouvidos os vários lados nessa matéria.
Imagem: reprodução da Folha de S. Paulo
Alinhamento político
Pesquisa do Instituto Datafolha, publicada em 28 e 29 de julho de 2022 constatou que a candidatura de Lula (PT) tinha 18 pontos à frente de Jair Bolsonaro (PL). Em todos os segmentos, o candidato do PT mantinha a liderança, com exceção dos mais ricos (44% dos que ganham até mais de 5 salários mínimos), empresários (54%) e evangélicos ( Bolsonaro tem 43%, contra 33% de Lula).
Este alinhamento do segmento evangélico com a candidatura de Jair Bolsonaro, embora não seja majoritário, tem sido bem constatado nas cúpulas e concílios de várias igrejas. Curiosamente, reproduz-se o posicionamento de uma dissidência entre os presbiterianos (que não faz parte da IPB), a “Igreja Presbiteriana Conservadora” como lugar comum – a pauta anti-esquerda e anti-identitária está disseminada nas igrejas.
A Convenção Batista do Brasil está discutindo a sua matriz doutrinária (princípios) e já expulsou da ordem de pastores batistas o pastor da Igreja Batista da Água Branca (São Paulo-SP) Ed René Kivitz, por suas posições progressistas. Também houve intervenção da Igreja Adventista do Sétimo Dia em uma de suas mais famosas comunidades (Nova Semente) com o afastamento do pastor Edson Nunes. Até mesmo a Igreja Presbiteriana Independente (IPI), ramo dissidente da IPB, que ordena mulheres pastoras, reuniu-se-se em concílio, uma semana após a IPB, com uma pauta para que a Assembleia Geral não acatasse nenhum documento que proponha posicionamento da instituição favorável às relações homoafetivas e de identidade de gênero, além de não receber, nas igrejas locais, pessoas que militam em favor das causas LGBTQIA+. Além disso, o documento também determina uma intervenção na FATIPI (Faculdade de Teologia de São Paulo da igreja) para afastar professores que defendam tais pautas.
Embora oficialmente haja algum silêncio por parte das cúpulas das igrejas históricas no espaço público quanto a questões políticas, na prática, observa-se uma convergência excludente.
De todos os órgãos de imprensa que cobriram o caso do Supremo Concílio da IPB, apenas a coluna de notícias do UOL ouviu pessoas perseguidas por suas posições políticas dentro da Igreja.
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Bereia conclui que embora os fatos noticiados sobre o clima de exclusão na Igreja Presbiteriana do Brasil sejam verdadeiros, a cobertura da imprensa foi parcial, pois não houve abordagem ampla sobre os movimentos de resistência internos bem como de consideração da memória histórica. A cultura de exclusão presente na IPB e em outras igrejas não foi tratada, o que auxiliaria os leitores a entender melhor o movimento e as medidas internas nas igrejas. Por exemplo, nenhum veículo noticiou o sombrio momento vivido pelas igrejas durante a ditadura militar – material que está disponível para acesso público.