Nos últimos meses, o Bereia identificou a circulação de conteúdos falsos e enganosos em redes digitais e grupos religiosos. Os casos mais recentes, com ampla repercussão, evidenciam o papel desses espaços na difusão de informações sem verificação. A seguir, um ranking com cinco episódios que mobilizaram debates públicos.
1. Falso atentado contra ministro do STF é disseminado em redes religiosas
A falsa notícia sobre um suposto atentado contra um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) circulou amplamente em portais e perfis com forte alcance entre públicos religiosos. O Bereia verificou que não há qualquer comprovação do ataque e classificou o conteúdo como enganoso.
A alegação de que o voo que transportava o ministro e pastor presbiteriano André Mendonça teria passado por uma “decolagem abortada por falha mecânica” também não procede. A informação que circulou nas redes digitais distorceu os fatos.
Conforme a apuração, o voo da Latam, que partiria de Brasília com destino ao Rio de Janeiro, foi cancelado ainda em solo, antes do início do taxiamento. A companhia aérea informou que a suspensão ocorreu de forma preventiva, após a necessidade de inspeção técnica motivada pela suspeita de colisão com ave em voo anterior, ocorrência conhecida como bird strike. Não houve pane mecânica nem tentativa de decolagem. Os passageiros, entre eles Luiz Fux, foram realocados em outro voo.
2. Conteúdo falso compartilhado por Michelle Bolsonaro gera ataques a jornalistas
Outro caso envolve o compartilhamento de desinformação por Michelle Bolsonaro, o que contribuiu para ataques contra jornalistas.
O Bereia verificou que a ex-primeira-dama e evangélica publicou um vídeo com acusação falsa contra profissionais que cobriam a internação de Jair Bolsonaro no Hospital DF Star, em Brasília. A gravação alegava, sem provas, que jornalistas “desejavam a morte” do ex-presidente e comemoravam a data de sexta-feira 13, embora as imagens não sustentem o relato.
A ampla audiência da publicação impulsionou ataques à imprensa. Jornalistas registraram boletins de ocorrência após receber ameaças de morte, ofensas e exposição de dados pessoais. Houve também episódios de intimidação presencial e circulação de montagens com uso de inteligência artificial.
3. Homenagem a Lula no Carnaval é alvo de desinformação em espaços religiosos
Também ganhou ampla repercussão a série de conteúdos sobre a homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Carnaval de 2026, que se tornou alvo de desinformação em redes digitais e espaços religiosos digitais.
O Bereia analisou a circulação de publicações que classificavam o desfile da Acadêmicos de Niterói como propaganda eleitoral antecipada. De acordo com a checagem, embora críticos tenham interpretado a apresentação como favorecimento político e uso da máquina pública, não há elementos que configurem irregularidade eleitoral. O desfile ocorreu como manifestação cultural, dentro das regras do Carnaval, e a associação automática com campanha eleitoral decorre de interpretações distorcidas amplamente difundidas nas redes digitais e em grupos religiosos.
Em outra frente de desinformação, o Bereia verificou como enganosa o discurso de que recursos públicos teriam sido utilizados de forma ilícita para financiar a homenagem. As publicações afirmavam que milhões de reais teriam sido repassados diretamente pelo governo federal à escola de samba, o que não procede.
A apuração mostra que, quando há financiamento pela Lei Rouanet, não há transferência direta de verba pública à agremiação. O mecanismo consiste na autorização para captação de recursos por meio de renúncia fiscal junto a patrocinadores privados, modelo amplamente utilizado em diversas produções culturais no país.
Por fim, a terceira parte da análise aborda a controvérsia em torno da ala “neoconservadores em conserva”, interpretada por grupos religiosos como um ataque à fé cristã. O Bereia aponta, no entanto, que a alegoria integra a tradição crítica e satírica do Carnaval, ao representar de forma caricatural diferentes segmentos políticos e ideológicos.
A transformação dessa representação em acusação de intolerância religiosa ocorreu por meio da descontextualização do desfile, o que contribuiu para ampliar tensões políticas e religiosas nas redes digitais.
4. Imagem falsa de estátua de Donald Trump em igreja viraliza nas redes
Outra desinformação amplamente compartilhada envolve uma suposta estátua de 36 metros de Donald Trump em uma igreja batista no Alabama, nos Estados Unidos.
O Bereia confirmou que a informação é falsa. A imagem, que mostra o ex-presidente em pose semelhante à do Cristo Redentor, trata-se de uma montagem digital.
A checagem indica que o conteúdo surgiu em uma publicação crítica na plataforma Substack e depois apareceu em um fórum do Reddit com tom satírico. Ao circular em redes como Instagram, Threads e X, o material perdeu o contexto original e passou a ser interpretado como real.
Não há registro da construção ou anúncio de tal monumento por qualquer instituição religiosa nos Estados Unidos.
5. Pregação com discurso intolerante reforça desinformação sobre religiões afro-brasileiras
No vídeo, o missionário associa essas manifestações a práticas “demoníacas” e reforça estigmas históricos contra a cultura nordestina e religiões afro-brasileiras, como o candomblé e a umbanda.
De acordo com a análise, esse tipo de discurso ultrapassa o campo da opinião religiosa e reproduz preconceitos estruturais. A associação entre religiões de matriz africana e o mal figura entre as formas mais recorrentes de intolerância religiosa no Brasil, com impacto direto sobre populações negras e grupos historicamente marginalizados.
A checagem aponta que esse tipo de conteúdo contribui para a difusão de desinformação e discursos de ódio ao transformar diferenças culturais e religiosas em ameaça moral.
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Os cinco casos reunidos pelo Bereia evidenciam padrões recorrentes na desinformação que circula em redes religiosas: distorção de fatos, uso de conteúdos fora de contexto, exploração de pautas políticas e reforço de discursos intolerantes. Essas estratégias ampliam o alcance de conteúdo falso e enganoso, sobretudo em ambientes marcados por relações de confiança.



