Pesquisa nacional mostra que o grupo raramente recorre a agências de checagem e está entre os mais expostos a notícias falsas sobre religião e fé
*Publicado originalmente em Revista Fórum
A desinformação já não é apenas um problema das redes sociais ou da política. Ela se tornou uma questão que atravessa famílias, igrejas, comunidades e afeta diretamente a forma como as pessoas compreendem a realidade. No Brasil, um dos grupos mais impactados por esse fenômeno é justamente o segmento evangélico.
O dado aparece no relatório “Como os Brasileiros percebem a circulação da desinformação e o uso da Inteligência Artificial”, produzido pelo Aláfia Lab. Segundo a pesquisa, os evangélicos são o grupo religioso que menos utiliza agências de checagem de fatos para verificar informações recebidas. Ao mesmo tempo, aparecem entre os grupos que mais relatam contato com notícias falsas relacionadas a religião e fé.
A combinação desses fatores ajuda a compreender por que boatos, teorias conspiratórias, falsas perseguições religiosas, informações distorcidas sobre projetos de lei e narrativas políticas travestidas de discurso religioso encontram terreno fértil para circular em muitos ambientes cristãos.
O problema não é exclusivo dos evangélicos, mas assume características próprias dentro desse universo. Grande parte da circulação de informações ocorre por meio de redes de confiança: grupos de WhatsApp, canais religiosos, influenciadores digitais, líderes e membros de igrejas. Quando uma informação chega acompanhada da recomendação de alguém respeitado pela comunidade, ela tende a ser aceita com menos questionamentos.
A pesquisa mostra que apenas 17% dos brasileiros recorrem a agências especializadas de checagem para verificar conteúdos suspeitos. A maioria prefere confiar em sua própria percepção, em comentários publicados nas redes sociais ou em alertas de amigos e familiares. Essa lógica reforça a força dos vínculos pessoais, mas também aumenta a vulnerabilidade à manipulação.
O resultado é que conteúdos enganosos conseguem se espalhar rapidamente, principalmente quando apelam para emoções fortes. Medo, indignação, sensação de ameaça aos valores religiosos ou à família costumam ser ingredientes frequentes das fake news que circulam em grupos religiosos. Muitas vezes, a intenção não é apenas informar de forma incorreta, mas mobilizar comportamentos políticos e sociais a partir de informações falsas.
O próprio relatório mostra que os brasileiros reconhecem os danos causados pela desinformação. A maioria considera que ela contribui para espalhar medo, fortalecer grupos extremistas, aumentar preconceitos, confundir as pessoas sobre o que é verdade ou mentira e influenciar decisões políticas e eleitorais.
Coletivo Bereia
Nesse cenário, ganha relevância o trabalho de iniciativas voltadas especificamente para o monitoramento da desinformação religiosa. Um dos principais exemplos é o Coletivo Bereia, agência de verificação especializada em conteúdos que circulam entre cristãos.
O nome faz referência aos bereanos citados no livro de Atos dos Apóstolos, elogiados por examinarem cuidadosamente aquilo que ouviam antes de aceitarem uma mensagem como verdadeira. Inspirado nesse princípio, o coletivo realiza checagens de notícias, discursos, vídeos, publicações e narrativas que circulam em ambientes religiosos, analisando sua veracidade e contexto.
Mais do que corrigir informações equivocadas, o trabalho do Bereia procura incentivar uma cultura de responsabilidade informacional. A proposta é simples, mas profunda: fé e compromisso com a verdade não podem caminhar separados.
Essa é uma discussão particularmente importante porque a tradição cristã sempre atribuiu enorme valor à verdade. O mandamento contra o falso testemunho, as advertências bíblicas sobre falsos profetas e os inúmeros apelos à honestidade mostram que o combate à mentira não é apenas uma preocupação jornalística ou acadêmica. Trata-se também de uma exigência ética da própria fé.
Por isso, discutir fake news nas igrejas não deve ser visto como um tema secundário ou partidário. Trata-se de fortalecer uma prática coerente com os valores do Evangelho: o compromisso com a verdade, a responsabilidade com a palavra e o cuidado com o próximo.
Em tempos de excesso de informação, talvez uma das contribuições mais importantes que as igrejas possam oferecer à sociedade seja justamente recuperar uma virtude antiga: a disposição de verificar antes de acreditar e de refletir antes de compartilhar.



