
Uma antiga alegação de que apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) criaram uma “igreja bolsonariana” (ou “bolsoriana”) voltou a circular nas redes digitais, acompanhada de vídeos apresentados como suposta prova da existência da instituição. Compartilhadas principalmente em tom de denúncia, crítica ou deboche, as gravações são apresentadas como evidência de que apoiadores do político teriam fundado uma denominação religiosa dedicada a ele. A checagem do Bereia, porém, mostra que as publicações reúnem conteúdos de diferentes origens, entre gravações descontextualizadas e outras com tom satírico.
Contexto de um dos vídeo
Uma das gravações foi compartilhada massivamente nas últimas semanas, como prova da existência da chamada “Igreja Bolsoriana”. O vídeo mostra pessoas reunidas em um ambiente semelhante ao de uma celebração religiosa. Parte dos membros usa roupas com a imagem de Jair Bolsonaro e, ao fundo, aparecem símbolos e mensagens de apoio ao ex-presidente, além de críticas a integrantes do governo federal e do Poder Judiciário.

As imagens são reais, mas não apresentam elementos que comprovem a criação de uma instituição religiosa com esse nome. Não há identificação formal da congregação, endereço, nome de liderança, calendário de cultos, estatuto ou qualquer documento relacionado à abertura de uma nova denominação. Além disso, não há como precisar a data da realização do encontro religioso. O cenário se assemelha a uma reunião realizada em espaço doméstico, sala ou garagem, na qual os participantes manifestam simultaneamente sua fé e preferência política.
A expressão “igreja bolsonariana” foi utilizada por páginas e perfis que republicaram as imagens, muitas vezes em tom de crítica, deboche ou denúncia. O material mostra a presença de símbolos comumente expostos por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro em uma atividade religiosa, mas não demonstra que o local tenha sido constituído como uma igreja dedicada a ela.
Humor levado a sério
Um dos vídeos mais compartilhados, que foi publicado em 2024 e voltou a circular nos últimos dez dias, mostra um homem que diz ser pastor de uma “igreja bolsonariana” e reclama dos baixos valores oferecidos pelos participantes. Na gravação, ele exibe notas de R$ 2 e um saco de moedas, critica as contribuições e declara que a arrecadação de um culto de domingo deveria alcançar pelo menos R$ 25 mil.

O homem é Rod Rocha, empresário e produtor de vídeos humorísticos. Em seus perfis, ele interpreta de maneira séria um apoiador radical de Jair Bolsonaro e publica situações inventadas. A descrição de sua conta no TikTok, entretanto, informa que os conteúdos envolvem “fantasias, sátiras, comédia, sem base na realidade” e foi verificado, em 2024, por agência de checagem.
A estratégia utilizada por Rocha ajuda a explicar por que parte do público interpreta seus vídeos como verdadeiros. O influenciador fala diretamente para a câmera, mantém postura séria e não insere risadas, legendas ou outros sinais evidentes de que se trata de uma encenação. Quando as gravações são retiradas de seus perfis originais e republicadas sem a identificação do autor, o aviso de sátira desaparece.

O mesmo personagem aparece em outras histórias falsas. Rod Rocha já publicou vídeos nos quais pede contribuições para a construção de uma estátua de 50 metros de Bolsonaro no centro do Rio de Janeiro e afirma que um acidente doméstico sofrido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva seria usado para substituí-lo por um sósia.
Outro influencer que usa o humor para criticar a relação entre igrejas e bolsonarismo é o ator Everaldo Leite, que se apresenta em seu perfil como criador de “humor crítico e sátiras sociais com personagens que denunciam hipocrisia”. Entre seus personagens está o “Pastor Everaldo”, integrante da fictícia “Religião de Marte”. Em uma das publicações, ele aparece em frente à montagem de um templo identificado como “Assembleia de Zeus Bolsonariana”, anunciando a inauguração da suposta igreja. Leite produz muitos vídeos com conteúdo fictício sobre o chamado Pr. Everaldo, fundador da dita Igreja Bolsonariana.

Assim como o influencer Rod Rocha, Leite deixa claro que o conteúdo que compartilha é fictício e utiliza recursos de humor para satirizar a associação entre política e religião, porém, ainda assim, há muitos compartilhamentos de pessoas que dão crédito às publicações.
O caso do “Patriota da Pedra”
Outro caso relacionado à alegação da criação de uma igreja dedicada ao ex-presidente da República envolve Joseilson José da Silva, morador de Petrolina, no Sertão de Pernambuco. Ele ganhou repercussão nas redes digitais e em sites da imprensa local e nacional, em janeiro de 2026, depois de aparecer carregando uma pedra de aproximadamente 25 quilos amarrada ao pescoço, com a inscrição “Bolsonaro 22”.

Imagem: Reprodução Correio Brasiliense

Nos vídeos, Silva afirmou que “Jeová” teria se manifestado a um pastor de Petrolina e determinado que apoiadores do ex-presidente realizassem o “sacrifício” de carregar pedras com o nome de Bolsonaro. Ele também anunciou que, junto com um pastor ou “irmão”, estaria criando uma igreja “100% bolsonariana”.
O pernambucano disse que participaria da chamada “Caminhada pela Liberdade”, organizada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), em janeiro passado, e apareceu em publicações que o associavam ao ato político. Entretanto, Silva fez um vídeo, claramente manipulado por inteligência artificial, pelo qual se coloca no ato, sem contudo ter participado dele. Tal publicação reforça o aspecto satírico e pouco comprometido de suas publicações.

Em 28 de maio de 2026, em entrevista a uma rádio local, Joseilson Silva declarou que não era mais bolsonarista. Ele afirmou ter “pulado do barco” após se decepcionar com integrantes do grupo político e mencionou um episódio envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro.

Na mesma entrevista, foi feito um questionamento sobre a suposta igreja. Joseilson Silva garantiu que a proposta não teria sido uma invenção e afirmou que ele e um irmão realmente chegaram a fundá-la. No entanto, não apresentou documentos, endereço, registros, imagens de uma sede ou qualquer outro elemento que comprovasse a existência formal da instituição. A própria apresentadora demonstrou dificuldade em identificar quando o entrevistado falava seriamente e quando mantinha o tom performático que marca seus vídeos no Instagram.

Ao contrário dos conteúdos produzidos por Rod Rocha e Everaldo Leite, cujo caráter satírico é informado pelos próprios autores, o caso de Joseilson Silva é marcado por declarações contraditórias e performances que dificultam distinguir o que é encenação e o que ele afirma ser verdadeiro.
O perfil de Joseilson utiliza elementos de humor de absurdo, como a pedra presa ao pescoço, o anúncio de um sacrifício coletivo e referências bíblicas empregadas em defesa de um político. Todavia, ele não explicita as publicações como sátira. Por isso, as falas do pernambucano foram tratadas por parte do público e da imprensa como declarações verdadeiras.
De qualquer forma, afirmar em um vídeo que uma igreja foi ou será fundada não comprova que a instituição exista. Até o momento, os conteúdos disponíveis mostram apenas a afirmação de Joseilson Silva de ter criado, por alguns meses, a dita igreja bolsonariana, sem apresentar qualquer estrutura religiosa constituída.
Religião e política
A circulação de vídeos que associam práticas religiosas ao apoio político encontra um contexto já conhecido no Brasil: a aproximação entre lideranças religiosas e agentes políticos, especialmente em períodos eleitorais. Como mostrou Bereia em reportagem publicada em junho de 2026, a presença de candidatos em cultos, cerimônias de oração e homenagens públicas tem se tornado frequente em diferentes denominações cristãs, levantando debates sobre os limites entre a liberdade religiosa e o uso dos espaços de culto como plataforma de projeção política. Essa aproximação, entretanto, não significa que exista uma denominação religiosa criada para cultuar um líder político. A participação de políticos em celebrações religiosas ou o apoio de lideranças religiosas a candidaturas não configura, por si só, a criação de uma nova igreja. O que os vídeos analisados exploram é justamente a associação entre símbolos religiosos e políticos para sustentar a falsa alegação de que haveria uma “igreja bolsonariana”.
Outra reportagem recente do Bereia lembra que a legislação brasileira garante tanto a liberdade religiosa quanto a laicidade do Estado. A Justiça Eleitoral não restringe manifestações de fé, mas pode atuar quando templos, lideranças religiosas ou estruturas eclesiásticas são instrumentalizados para favorecer candidaturas, comprometendo a igualdade da disputa eleitoral. Em decisões recentes, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reafirmou que o uso de espaços religiosos para promoção eleitoral pode caracterizar abuso de poder político e econômico, ainda que não haja pedido explícito de votos.
É justamente nesse cenário que conteúdos satíricos e vídeos descontextualizados encontram terreno para circular. Ao registrar cultos marcados por manifestações políticas ou utilizar personagens humorísticos que simulam igrejas fictícias, essas publicações alimentam a percepção de que teria surgido uma denominação oficialmente dedicada ao ex-presidente Jair Bolsonaro. As evidências reunidas por Bereia, no entanto, mostram que essa conclusão não encontra respaldo nos fatos e tem sido utilizada, principalmente, por pessoas e grupos que buscam publicar conteúdo crítico a evangélicos.
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Bereia classifica como falsa a afirmação de que os vídeos comprovam a criação de uma “igreja bolsonariana”, uma igreja dedicada à homenagem e adoração do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro.
As publicações misturam conteúdos de origens distintas. Uma das gravações mostra uma reunião religiosa com forte presença de símbolos bolsonaristas, mas não identifica o grupo como uma nova igreja. Outros vídeos são sátiras produzidas pelo influencer Rod Rocha e pelo ator e humorista Everaldo Leite e foram retirados do contexto humorístico em que foram publicados.
No caso de Joseilson José da Silva, as declarações sobre a fundação da igreja não são acompanhadas de documentos ou de qualquer evidência de que uma instituição religiosa tenha sido efetivamente criada. Suas performances e versões contraditórias dificultam determinar quais afirmações são verídicas, mas também não comprovam a existência do templo.
O que está documentado é a presença de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro e de sua ideologia política em setores de igrejas cristãs já existentes e a utilização de símbolos religiosos em manifestações políticas do grupo. Isto tem sido amplamente tratado por Bereia em suas publicações e não equivale à abertura de uma denominação oficialmente dedicada ao ex-presidente.
Ao reunir sátiras, declarações performáticas e imagens descontextualizadas, as publicações induzem o público a acreditar na existência de uma instituição que não foi comprovada, o que serve apenas para depreciar um grupo religioso sobre o qual se pretende criticar.
Referências
Estadão
https://www.estadao.com.br/estadao-verifica/pastor-cobra-dos-fieis-que-ta-pouco-satira/ – Acesso em 19 jul. 2026
Correio Braziliense
https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2026/01/7338286-bolsonarista-carregara-pedra-de-25-kg-na-caminhada-com-nikolas.html – Acesso em 19 jul. 2026
O Rio Branco
https://oriobranco.net/homem-anuncia-fundacao-de-igreja-inspirada-em-bolsonaro-e-gera-repercussao-nas-redes/ – Acesso em 19 jul. 2026



