Entre a saída furtiva de Flávio Bolsonaro e a divulgação de carta confusa, mentiras seguem em circulação nas redes religiosas

A repercussão de declarações do senador evangélico Flávio Bolsonaro (PL-RJ), na quarta-feira, 28 de outubro, desde os Estados Unidos, onde se estabeleceu após o resultado das eleições, reacendeu o debate sobre a circulação de informações falsas a respeito do sistema eleitoral brasileiro e sobre a responsabilidade dos veículos de comunicação na cobertura de acontecimentos políticos. 

O episódio envolve relatos da saída furtiva do senador e sua família do país, a divulgação de uma carta com questionamentos sobre a legitimidade das eleições e a reprodução dessas alegações em publicações nas redes sociais e em veículos de imprensa. 

Para compreender o caso, é necessário distinguir três questões: o que efetivamente ocorreu, quais afirmações estão documentadas e quais discursos ainda dependem de comprovação.

A situação da saída furtiva do Brasil

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais de 25 de outubro, deixou o Brasil pela fronteira com a Argentina na noite de 27 de outubro, dois dias depois da divulgação dos resultados. De lá, seguiu em uma aeronave particular, com escala no Equador, até Miami, nos Estados Unidos, onde desembarcou na manhã de 28 de outubro. 

A saída furtiva ocorreu após determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) para que o parlamentar entregasse seus passaportes e não deixasse o país, no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas que envolvem o nome dele. O responsável pela ação, ministro do STF Alexandre de Moraes, acatou pedido da Política Federal (PF) como medida cautelar por haver indícios de que o candidato derrotado planejava deixar o país.

As restrições aos documentos de viagem, porém, não caracterizam, por si só, que uma prisão seja automaticamente determinada, nem que a pessoa ausente seja considerada juridicamente como foragida. Isto significa que o descumprimento de uma determinação judicial, no caso a não entrega dos passaportes seguida da saída furtiva do país, não transforma uma pessoa em um foragida. 

Para que alguém receba formalmente a condição de foragida, é obrigatória a existência de um mandado de prisão em aberto, expedido por um juiz, o qual o indivíduo enquadrado esteja deliberadamente tentando evitar. As restrições a documentos de viagem, como a retenção ou cancelamento de passaporte, são categorizadas como medidas cautelares alternativas à prisão (conforme o artigo 319 do Código de Processo Penal).

A divulgação de carta à nação brasileira

Horas depois de chegar aos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro divulgou uma carta dirigida à população brasileira e à comunidade internacional, publicada em seu perfil oficial no X (antigo Twitter), na qual contestou o resultado eleitoral e se apresentou, inicialmente, como presidente eleito.

Imagem: Publicação do perfil de Flávio Bolsonaro no X, 28 out 2026

Segundo levantamento da Folha de S. Paulo, circularam pelo menos quatro versões do documento. As alterações incluíram a substituição da expressão que o apresentava como presidente eleito pela denominação “líder do Brasil” e “líder da oposição”, além da correção de um brasão com a antiga grafia “Brazil” em “Estados Unidos do Brazil”. 

A principal acusação do senador foi a de que a eleição teria sido fraudada. A afirmação não encontra respaldo nas informações oficiais. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou a vitória de Lula com 64.256.232 votos, correspondentes a 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 votos, ou 48,21%, de Flávio Bolsonaro. A diferença foi de aproximadamente 4,43 milhões de votos. Após a apresentação do resultado a Corte Eleitoral declarou as eleições encerradas, “tendo transcorrido dentro da mais absoluta normalidade”.

Um dos questionamentos de Flávio Bolsonaro, na carta, relaciona o resultado à prorrogação do horário de votação até as 19h, determinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin. Entretanto, segundo os dados oficiais analisados pela agência Reuters, apenas 34.393 votos foram registrados após as 17h. Esse quantitativo corresponde a, aproximadamente, 0,03% dos eleitores que compareceram, o que não seria suficiente para alterar o resultado.

Também não procede a afirmação contida na carta do candidato derrotado de que o crescimento de aproximadamente 10,3 milhões de votos de Lula entre os dois turnos representaria uma impossibilidade matemática. A variação é compatível com a redistribuição de votos de candidatos eliminados, a redução das abstenções e a diminuição dos votos brancos e nulos. 

Conteúdos falsos em circulação foram usados na carta

As alegações apresentadas na carta para contestação do resultado das eleições retomam conteúdos que já circulavam após a votação, especialmente as que associavam a ampliação do horário de funcionamento das seções eleitorais a uma suposta manipulação do resultado.

A checagem da Reuters identificou, por exemplo, a circulação da alegação falsa de que mesários poderiam votar no lugar de eleitores ausentes. Os procedimentos de identificação e os registros de liberação das urnas não sustentam essa hipótese. A mesma verificação constatou que a extensão do horário de votação não ocorreu exclusivamente no Nordeste, como sugeriam publicações que buscavam associar a medida a uma vantagem indevida para Lula. Seções eleitorais permaneceram abertas depois das 17h em todas as unidades da Federação. 

A repetição desses conteúdos em um documento assinado por um ex-candidato à Presidência amplia sua repercussão pública, mas não lhes confere validade factual. O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, reafirmou em 28 de outubro a regularidade do pleito e o respeito à vontade manifestada pelos eleitores.

O senador e coordenador da campanha Rogério Marinho (PL-RN) declarou, em 28 de outubro de 2026, que o Partido Liberal (PL) e ele próprio não podem afirmar que houve fraude na eleição presidencial porque não há provas que sustentem essa alegação.

Na mesma onda de manifestação, o presidente do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, criticou publicamente o manifesto redigido em Miami pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) após o pleito presidencial. A manifestação de reprovação foi sintetizada na declaração de que o conteúdo não foi bem aceito pela direção partidária.

Pastor que batizou o candidato derrotado rejeita a carta

Flávio Bolsonaro é evangélico e foi batizado, em 2024, na Comunidade das Nações, igreja liderada pelo bispo JB Carvalho, em Brasília. A carta divulgada em Miami termina com a frase “Que Deus abençoe o Brasil”.

O próprio bispo JB Carvalho publicou no Instagram, em 28 de outubro, uma imagem com a mensagem “As eleições terminaram. Não tem terceiro turno. Vida que segue!”. Na legenda, escreveu: “Pare de profetizar o caos”. O pastor afirmou ainda que Deus “terá misericórdia do Brasil”.

A manifestação ocorreu em meio à divisão entre lideranças evangélicas sobre o resultado das eleições. Segundo o Jornal de Brasília, o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, sustenta a narrativa de perseguição política defendida por Flávio, enquanto o pastor Cláudio Duarte afirmou que a disputa deveria ser encerrada.

Sindicato de Jornalistas chama imprensa à responsabilidade

Diante da repercussão do documento divulgado pelo candidato derrotado, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) divulgou um alerta sobre a responsabilidade ética dos profissionais de comunicação. A entidade advertiu que a reprodução de acusações sem comprovação e sem contextualização pode ampliar o alcance da desinformação e conferir aparência de credibilidade a narrativas infundadas.

Imagem: Publicação do perfil do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal, em colaboração com o Sindicato Nacional dos Jornalistas, no Instagram, 28 out 2026

O sindicato também chama a atenção para as implicações jurídicas de eventuais negociações com governos ou grupos estrangeiros destinados a provocar atos de guerra ou invasão do território brasileiro. O artigo 359-I do Código Penal prevê punição para a negociação com governo ou grupo estrangeiro, ou seus agentes, com a finalidade de provocar atos típicos de guerra contra o Brasil ou sua invasão. A existência de crime, entretanto, depende da comprovação dos elementos previstos na legislação. O simples pedido de apoio internacional não configura automaticamente essa conduta.

***

As evidências disponíveis demonstram que a carta de Flávio Bolsonaro contém alegações falsas sobre o resultado das eleições presidenciais de 2026 e apresenta de maneira distorcida informações relativas à prorrogação da votação e às investigações judiciais envolvendo o senador. A tentativa de se apresentar como presidente eleito contraria os resultados oficiais reconhecidos pela Justiça Eleitoral. Já as acusações de fraude não foram acompanhadas de provas e foram contestadas inclusive por integrantes do próprio partido do candidato derrotado e pelo pastor que o batizou. A análise do episódio também evidencia como narrativas desinformativas anteriormente difundidas nas redes sociais podem ganhar nova repercussão quando incorporadas a pronunciamentos de figuras políticas e reproduzidas pela imprensa.

Bereia classifica os argumentos centrais da carta de Flávio Bolsonaro como FALSOS, pois tratam de fraude eleitoral e  suposta impossibilidade matemática do resultado, que não se sustentam diante dos registros oficiais. Bereia classifica ainda como enganosa a apresentação descontextualizada de decisões judiciais e do processo de votação. Bereia reforça que a cobertura de acontecimentos dessa natureza exige mais do que registrar declarações: é preciso confrontá-las com documentos, dados públicos e informações verificáveis, para que eleitores e eleitoras possam distinguir fatos de acusações sem fundamento.

Bereia alerta leitores e leitoras para o uso destes conteúdos em espaços religiosos para propagar mais desinformação com a finalidade de confundir fiéis e comunidades de fé e gerar insegurança sobre o futuro posterior às eleições.

Foto: Ricardo Arduengo/AFP

Referências:

G1

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/10/26/moraes-determina-que-flavio-bolsonaro-entregue-os-passaportes-a-pf-e-proibe-senador-de-ter-contato-com-willer-tomaz.ghtml Acesso em 28 de Outubro de 2026

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/10/28/presidente-do-tse-diz-que-entregou-pleito-com-seguranca-e-que-as-eleicoes-2026-transcorreram-dentro-da-mais-absoluta-normalidade.ghtml Acesso em 28 de Outubro de 2026

Ministério da Justiça

https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/noticias/nota-a-imprensa-43 Acesso em 28 de Outubro de 2026

JusBrasil

https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10651224/artigo-319-do-decreto-lei-n-3689-de-03-de-outubro-de-1941 Acesso em 28 de Outubro de 2026

https://www.jusbrasil.com.br/topicos/485014862/art-359i-do-decreto-lei-n-2848-de-07-de-dezembro-de-1940 Acesso em 28 de Outubro de 2026

X

https://x.com/FlavioBolsonaro/status/2115544562219315474/photo/1 Acesso em 28 de Outubro de 2026

Folha de São Paulo

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/carta-de-flavio-bolsonaro-tem-ao-menos-4-versoes-com-troca-de-brasao-e-mudancas-no-texto.shtml Acesso em 29 de Outubro de 2026

UOL

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/10/28/de-verdadeiro-presidente-a-lider-do-brasil-o-que-mudou-na-carta-golpista-de-flavio.htm Acesso em 29 de Outubro de 2026

https://noticias.uol.com.br/confere/ultimas-noticias/2026/10/25/falso-mesarios-votam-eleitores-ausentes-17h.ghtm Acesso em 29 de Outubro de 2026

Agência Reuters

https://www.reuters.com/fact-check/portugues/43QF7XVSQJLZPOKXZF62FZ6JUU-2026-10-28/ Acesso em 29 de Outubro de 2026

Carta Capital

https://www.cartacapital.com.br/politica/rogerio-marinho-contradiz-flavio-bolsonaro-e-diz-que-nao-ha-provas-de-fraude-eleitoral/ Acesso em 29 de Outubro de 2026

https://www.cartacapital.com.br/cartaexpressa/valdemar-costa-neto-critica-a-carta-golpista-de-flavio-bolsonaro/ Acesso em 29 de Outubro de 2026

Gazeta do Povo

https://www.gazetadopovo.com.br/republica/leia-a-integra-da-carta-em-que-flavio-se-declara-lider-do-brasil-e-da-oposicao/ Acesso em 29 de Outubro de 2026

https://www.gazetadopovo.com.br/republica/rogerio-marinho-trata-acusacoes-de-fraude-eleitoral-feitas-por-flavio-como-desabafo/ Acesso em 29 de Outubro de 2026

https://www.gazetadopovo.com.br/republica/flavio-bolsonaro-declara-lideranca-da-oposicao-a-partir-dos-eua/ Acesso em 29 de Outubro de 2026

Instagram

https://www.instagram.com/p/DfDnzjekdsk/?rpxt=NzlxMjhwbnBmMzR6 Acesso em 29 de Outubro de 2026

Jornal de Brasília

https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/politica-e-poder/pastor-de-flavio-bolsonaro-diz-que-nao-tem-terceiro-turno-e-que-as-eleicoes-terminaram/ Acesso em 29 de Outubro de 2026

Revista Fórum

https://revistaforum.com.br/politica/jb-carvalho-pastor-flavio-carta-golpista/ Acesso em 29 de Outubro de 2026

Congresso em Foco

https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/129620/leia-a-integra-da-primeira-carta-de-flavio-apos-chegar-aos-eua Acesso em 29 de Outubro de 2026

G1

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/10/28/presidente-do-tse-diz-que-entregou-pleito-com-seguranca-e-que-as-eleicoes-2026-transcorreram-dentro-da-mais-absoluta-normalidade.ghtml

Participação de Flávio Bolsonaro no debate da Globo é marcada por desinformação e discriminação

Durante o debate entre presidenciáveis, exibido pela TV Globo em 23 de outubro, o senador Flávio Bolsonaro (PL) apresentou uma expressiva quantidade de afirmações falsas e imprecisas. O Aos Fatos analisou 23 declarações do candidato e classificou 15 delas como falsas e imprecisas. Já o Fato ou Fake, serviço de checagem do g1, também verificou falas do senador e identificou outras informações que não correspondiam aos fatos ou que precisavam de contexto.

Entre os pontos contestados estão a versão apresentada por Flávio Bolsonaro (PL) sobre a morte de Ana Clara, menina de cinco anos, cujo policial acusado de matá-la teve o senador como advogado de defesa; o número de obras paralisadas no país; a responsabilidade do governo Lula pela autorização das apostas on-line; e a alegação de que a Polícia Federal teria confirmado a ausência de dinheiro público no financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro (PL). As checagens também examinaram declarações sobre a fala do ex-presidente durante a pandemia de Covid-19 e a atualização da Tabela SUS.

Um dos momentos mais controversos do debate ocorreu quando Flávio Bolsonaro afirmou que Lula “dá com uma mão e tira com os nove dedos”, uma referência comum na fala dele e de seus apoiadores à perda do dedo mínimo da mão esquerda do atual presidente em um acidente de trabalho. Após Lula cobrar um pedido de desculpas pela fala discriminatória, o senador o fez.

Versão sobre a morte de Ana Clara contradiz registros da época

Durante o debate, Bolsonaro afirmou que o assassinato da menina Ana Clara, de cinco anos, ocorreu durante uma troca de tiros em uma comunidade do Rio de Janeiro. A declaração contraria informações da Polícia Militar, que, segundo reportagem do G1 publicada em junho de 2021, informou que não houve confronto no local naquele dia e o policial atirou abertamente. 

A perícia encontrou no local apenas munições de calibre 7.62, compatíveis com o fuzil usado pelo policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado de matar a menina. Não foram encontradas cápsulas de outras armas que sustentassem a versão de troca de tiros. Delaroli foi solto em novembro de 2021, responde ao processo em liberdade e ainda não foi julgado. Flávio Bolsoanro também errou ao chamar Cristiane Gomes da Silva, mãe da menina e presente na plateia, de Ana Clara. A mãe teve que gritar no estúdio “ana Clara está morta”.

Número de obras paralisadas foi exagerado

Flávio Bolsonaro afirmou que havia mais de 11.500 obras paralisadas no país. O Aos Fatos contestou o número com base em dados do Tribunal de Contas da União (TCU): segundo o levantamento citado pela agência, 4.215 obras estavam nessa situação. O número apresentado pelo candidato, portanto, não corresponde ao dado utilizado na checagem.

Lula não é o “pai do tigrinho”

O senador chamou Lula de “pai do Tigrinho”, em referência aos jogos de apostas on-line. A afirmação desconsidera o histórico da legislação brasileira: as apostas de quota fixa foram autorizadas pela Lei 13.756, sancionada em dezembro de 2018, durante o governo de Michel Temer (MDB). Assim, a liberação inicial ocorreu antes do atual mandato de Lula. 

Durante o governo de Jair Bolsonaro (PL, 2019-2022) não houve politica de regulação, o que aconteceu apenas durante o terceiro governo de Lula, culminando na proibição da prática em 2026.

Fala sobre ladrões de celulares foi tirada de contexto

Flávio Bolsonaro também afirmou que Lula teria defendido ladrões de celulares ao dizer que eles roubariam para comprar cerveja. O senador distorceu uma declaração antiga do presidente. A fala original tratava da rivalidade entre torcedores de futebol e da possibilidade de convivência pacífica entre eles, e não de uma defesa de pessoas que cometem roubos.

Polícia Federal não atestou ausência de dinheiro público em Dark Horse

Outro ponto foi a afirmação do senador do PL de que a Polícia Federal teria atestado em relatório que não houve dinheiro público no financiamento do filme em homenagem a Jair Bolsonaro Dark Horse. A alegação foi classificada como falsa: as informações disponíveis não sustentam que a PF tenha confirmado essa conclusão. Há muitas suspeitas sobre a destinação do alto valor que teria sido destinado ao filme pelo banqueiro Daniel Vorcaro.

Vídeo de Jair Bolsonaro sobre a covid-19 foi editado fora de contexto

Outra afirmação falsa de Flávio Bolsonaro foi a de que seria mentira que seu pai, Jair Bolsonaro (PL), tivesse debochado de pessoas com falta de ar durante a pandemia de covid-19. Segundo o Fato ou Fake, o senador, sugeriu, durante o debate, como comprovação, um vídeo editado que retirou cerca de 30 segundos da transmissão original, realizada em 18 de março de 2021. Na gravação completa, Jair Bolsonaro criticava a orientação atribuída ao então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta de procurar atendimento hospitalar ao apresentar falta de ar e imitava uma pessoa com dificuldade para respirar.

Flávio Bolsonaro mente ao afirmar que Lula não atualizou a Tabela SUS

Outro ponto foi falso de que o presidente Lula não atualizou a Tabela SUS. Em janeiro de 2024, Lula sancionou uma lei que estabeleceu a revisão anual dos valores pagos pelos serviços prestados ao Sistema Único de Saúde (SUS). Em dezembro daquele ano, duas portarias formalizaram o primeiro reajuste: uma aumentou em 3,5% os repasses às entidades filantrópicas, com acréscimo de R$ 634,87 milhões, e outra atualizou os valores dos procedimentos de atenção especializada, com mais R$ 700,56 milhões. 

Em dezembro de 2025, o Ministério da Saúde publicou uma nova portaria que estabeleceu o repasse de R$ 200 milhões para incentivos relacionados ao reajuste dos valores dos procedimentos da tabela.

Referência aos “nove dedos” de Lula

Um dos momentos que mais repercutiu durante o debate foi quando Flávio Bolsonaro, ao criticar o salário mínimo, afirmou que Lula “dá com uma mão e tira com os 9 dedos”, referência frequente dele e de apoiadores à perda do dedo mínimo da mão esquerda do presidente em um acidente de trabalho, aos 17 anos. 

A declaração provocou críticas nas mídias sociais pelo uso de uma característica física como instrumento de ataque político. No X, a hashtag #SomosTodos9Dedos chegou ao quinto lugar entre os assuntos mais comentados da plataforma, em mobilização que ganhou força após a fala do senador.

Na contemporâneo, o site gospel Pleno News repercutiu a afirmação de forma favorável a Flávio Bolsonaro.

Imagem: Captura de tela

Foto de capa: Fernando Frazão/Agência Brasil

Referências

Aos Fatos. Checamos Flávio Bolsonaro e Lula no debate da Globo. https://www.aosfatos.org/noticias/checamos-flavio-bolsonaro-lula-debate-globo/ Acesso em 24 out. 2026.

G1. Fato ou Fake. Veja o que é fato ou fake nas falas de Flávio Bolsonaro e Lula no debate da Globo no 2º turno das eleições 2026. https://g1.globo.com/fato-ou-fake/eleicoes/noticia/2026/10/23/veja-o-que-e-fato-ou-fake-nas-falas-de-flavio-bolsonaro-e-lula-no-debate-da-globo-no-2o-turno-das-eleicoes-2026.ghtml Acesso em 24 out. 2026.

Espaço do Povo. 9 dedos: o que a fala do debate revela sobre o trabalho no Brasil. https://espacodopovo.com.br/9-dedos-acidente-de-trabalho-deficiencia-direitos/?utm_source=chatgpt.com Acesso em 24 out. 2026.

Poder360. #SomosTodos9Dedos viraliza no X após ironia de Flávio com Lula. https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes-2026/somostodos9dedos-viraliza-no-x-apos-ironia-de-flavio-com-lula/?utm_source=chatgpt.com Acesso em 24 out. 2026.

“Orar pelo Brasil” e “falo o que acredito na minha rede social”: líderes religiosos driblam lei eleitoral para fazer campanha 

A lei eleitoral proíbe que se faça propaganda política em templos religiosos. Porém, isso não impede que a política fique totalmente do lado de fora das igrejas. O que alguns pastores têm feito é deixar nas entrelinhas de seus sermões a defesa a determinado candidato. Desse modo, a mensagem é passada, mas a lei não é burlada. Ao menos de forma explícita.

O Bereia já mostrou em outras matérias que até mesmo entidades jurídicas contribuem com orientações sobre o que pode e o que não pode ser feito em termos de política em ambientes religiosos, apontando brechas na lei que acabam sendo aproveitadas por aqueles que pretendem contornar a lei eleitoral.

Com a aproximação do segundo turno da disputa presidencial, algumas atitudes juridicamente ambíguas são praticadas tanto em locais de oração quanto fora deles, inclusive nos ambientes digitais. O guia “Igreja e eleições 2026 – Liberdade religiosa, participação política e segurança jurídica”, preparado por advogados cristãos, assume que uma oração sobre um candidato possa soar como pedido de voto e, assim, funcionar como propaganda política. Porém, entende a oração como direito amplo, o que serviria como uma blindagem para acusações de uso político dos púlpitos.

Durante um culto realizado no último domingo, dia 18 de outubro de 2026, o pastor-presidente da Igreja Batista Atitude Josué Valandro Jr. aproveitou sua fala para abordar as eleições. “Se a nação vai continuar sendo dominada por um Supremo Tribunal Federal que (…) passa por cima de tudo e que protege um grupo de pessoas corruptas que dominam o poder, ou se nós vamos ter a chance de (…) ter Supremo equilibrado, (…) aonde a gente tem a liberdade de pensar o que a gente pensa e de ser o que a gente é.”

Sem explicitar uma defesa de voto, o pastor defende o candidato da oposição, já que suas indicações ao STF é que seriam, na visão dele, capazes de balancear a atual composição da Corte. “O atual presidente (…) colocou duas pessoas, ele colocaria mais quatro. Seis de 11, então ele teria a maioria completa dos seus amigos no Supremo. Ou vai entrar um outro candidato e vai colocar pessoas lá e você vai ter um equilíbrio de forças (…)”.

Como o segundo turno conta apenas com dois candidatos, ao apontar o que seria um risco da permanência do atual presidente e a vantagem de “um outro candidato”, fica clara a defesa de voto em Flávio Bolsonaro (PL).

O pastor usa outra das formas de contornar a legislação eleitoral, afirmando que na igreja não fala sobre partido político nem candidato, mas que no seu perfil de rede social ele fala o que acredita. Fica evidente o direcionamento dos fiéis para que vão ouvir no meio digital o que a lei proíbe no púlpito.

No mesmo dia 18 de outubro de 2026, o pastor-presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia também aproveitou a oração para, nas entrelinhas, falar de política. “Nós concordamos com todas as orações que estão sendo feitas, Senhor, em favor da nossa nação (…). Nós não podemos aceitar que narcotráfico, que corrupção, que bandidagem prevaleça nessa nação, que miséria”, afirma Malafaia, citando aspectos que o campo da direita costuma atribuir à esquerda. “Levanta homens sérios para os postos-chaves da nossa nação”, segue o pastor, clamando: “Envia, Deus, exerce sobre essa nação, trava esse príncipe de Satanás, que tem produzido violência, derramamento de sangue, corrupção, caia por terra pelo poder do nome de Jesus.” 

Novamente, sem deixar explícita a opção do voto em determinado candidato, fica clara a defesa de Flávio Bolsonaro; caso contrário, não seria preciso pedir por “homens sérios em postos-chave”, já que o candidato da esquerda já ocupa o governo. Seria ele o “príncipe de Satanás”, conforme as palavras do líder religioso, responsável pela “violência, derramamento de sangue, corrupção”. A cartilha do Instituto Brasileiro de Direito e Religião (IBDR), aparentemente, vem sendo seguida. A legislação eleitoral, ao que tudo indica, nem sempre. 


Referências:

Youtube
https://www.youtube.com/live/-Bs2reXQRGM?t=1894s acesso em: 21 out 2026.

Silas Malafaia
https://www.facebook.com/watch/?v=1108480188559917 acesso em: 21 out 2026.

7 de Setembro: líderes evangélicos e candidatos se unem em comícios e cultos marcados por desinformação

O 7 de Setembro de 2026 foi marcado não apenas por manifestações políticas nas ruas, mas também pela presença ostensiva de candidatos, mandatários e lideranças religiosas em templos e atos públicos marcados pela disputa eleitoral. Em diferentes contextos, a data foi usada como palco para discursos de teor político-eleitoral, apelos religiosos em favor de candidaturas e circulação de conteúdos enganosos ou falsos.

Em ano de eleição, a associação entre religião e política voltou a aparecer de forma explícita em cultos, mobilizações e publicações nas redes, o que reforça um padrão já observado em pleitos anteriores: o uso da autoridade religiosa, da linguagem da fé e de símbolos cristãos como estratégia política. Ao lado disso, conteúdos desinformativos também circularam para mobilizar fiéis, alimentar antagonismos e reforçar discursos de perseguição, corrupção e guerra moral.

A fronteira entre prática religiosa, campanha política e desinformação foi tensionada ao longo da data cívica e ajudam a compreender o modo como a fé tem sido mobilizada como linguagem de convencimento, de guerra simbólica e de disputa por poder.

Púlpito como palanque: candidatos do PL com o vídeo antigo de André Mendonça na Igreja Mundial

Um dos episódios mais emblemáticos do 7 de Setembro ocorreu em culto liderado pelo apóstolo da Igreja Mundial do Poder de Deus Valdemiro Santiago. No encontro, estiveram presentes o candidato à Presidência da República senador Flávio Bolsonaro (PL) e o candidato à reeleição para o governo de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos), além de outros nomes ligados à direita política, como os candidatos ao Senado por São Paulo Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL). 

O evento reuniu oração, discurso político e gestos de apoio público em um ambiente religioso, com apropriação do templo como espaço de projeção eleitoral.

Imagem: Publicação no perfil oficial da Igreja Mundial do Poder de Deus no Facebook, publicado em 7 de set 2026. Acesso em 7 de set 2026 

Chamaram mais atenção no culto, porém, a presença do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (Republicanos), que teve o mandato cassado em 2016 e cuja candidatura à Câmara foi barrada pelo TRE-MG poucos dias antes do ato. Também,  a presença do prefeito de Sorocaba Rodrigo Manga, missionário da própria Igreja Mundial e personagem propagadora de desinformação, já citada em diferentes checagens do Bereia. 

Imagem: Foto no perfil oficial da Igreja Mundial do Poder de Deus no Facebook. Eduardo Cunha ao lado do Governador Tarcísio de Freitas (Republicanos/SP), publicada em 7 de set 2026. Acesso em 7 de set 2026.

Imagem: Foto publicada em perfil oficial da Igreja Mundial do Poder de Deus no Facebook. Prefeito Rodrigo Manga atrás de Flávio Bolsonaro. Publicada em 7 de set 2026. Acesso em 7 de set 2026

Recentemente, Rodrigo Manga passou 145 dias afastado da Prefeitura de Sorocaba por decisão judicial no âmbito da Operação Copia e Cola, da Polícia Federal, que investiga suspeitas de desvios de recursos públicos em contratos da área da saúde. A PF apontou o prefeito como suposto líder e principal beneficiário do grupo investigado. 

Em 31 de março, o ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, autorizou Manga a reassumir a prefeitura, por considerar que a manutenção do afastamento por período tão prolongado representava uma intervenção excessiva na administração municipal. A decisão não significou absolvição das acusações ou encerramento das investigações. Em maio, a Segunda Turma do STF referendou por unanimidade a suspensão da medida cautelar que o mantinha afastado.

Poucos meses depois, Manga viveu nova crise, desta vez partidária. Em agosto passado, o político foi expulso do Republicanos, legenda do governador Tarcísio de Freitas, por decisão unânime do Conselho de Ética nacional. O motivo formal não foram as investigações criminais, mas o apoio público de Manga à candidatura da esposa, Sirlange Maganhato,  deputada federal pelo União Brasil. O comportamento foi considerado pelo partido uma violação aos deveres de lealdade e fidelidade partidárias. Mesmo depois da expulsão, Manga afirmou que continuaria apoiando Tarcísio de Freitas.

É neste contexto que Rodrigo Manga reaparece, no 7 de Setembro, ao lado de Freitas, Flávio Bolsonaro e outras figuras políticas no púlpito da Igreja Mundial. A cena reúne, portanto, não apenas um prefeito identificado com a denominação de Valdemiro Santiago, mas um político recentemente afastado do cargo, denunciado pelo MPF e expulso do partido do governador que estava ao seu lado no culto.

Depois de apresentar aos fiéis o testemunho de um homem que atribuía à fé sua recuperação de um câncer, o apóstolo Valdemiro Santiago passa a orar por Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. Simbolicamente, o ambiente sacralizado denota a realização de impossíveis.


Imagem: Perfil oficial da Igreja Mundial do Poder de Deus no Facebook. Prefeito Rodrigo Manga atrás de Flávio Bolsonaro. Publicado em 7 de set 2026 – Acesso em 7 de set 2026


Nesse ambiente, Santiago afirmou que o país havia testemunhado “maus exemplos” de pessoas que se consideravam “intocáveis” e disse que Deus estaria “se zangando”, colocando cada um “no seu devido lugar”. Em seguida, após um fiel gritar o nome de André Mendonça, Tarcísio de Freitas reagiu positivamente e o líder da Igreja Mundial passou a pedir bênçãos ao ministro do STF, a quem apresentou como alguém que serve a Deus. 

Pouco depois, o apóstolo exibiu aos fiéis um vídeo com pronunciamento de Mendonça e o encorajou a “ir em frente” e “não desistir”. O religioso omitiu que a gravação havia sido feita meses antes, em março, para a comemoração do aniversário da própria denominação, e não especialmente para o culto de 7 de Setembro. Ao ser apresentado como se dialogasse diretamente com o ato do 7 de Setembro, o vídeo ajudou a reforçar a ideia de alinhamento e legitimação religiosa e institucional de uma agenda política específica.

Imagem: Reprodução de matéria do site Uol, publicada em 7 de set 2026. Acesso em 8 de set 2026


Ato na Avenida Paulista

Imagem: Foto em mídias sociais. Boneco inflável representando o ministro André Mendonça, do STF, durante ato na Avenida Paulista. Publicada em 7 set 2026. Acesso em 8 set 2026.

No Dia da Independência foi realizado, em São Paulo, na Avenida Paulista, o comício dos candidatos a presidente, governador do Estado e senadores do Partido Liberal. Sem discussão de projetos para o Brasil, o foco do evento, que reuniu em torno de 28 mil pessoas, segundo levantamento do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), foram críticas a uma parcela do Supremo Tribunal Federal. 

Em cima do carro de som, o pastor presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia fez um apelo direto aos ministros do STF:  “Alexandre de Moraes tem que ser afastado e tomar o impeachment”, afirmou. 

Imagem: Reprodução de publicação no perfil do pastor Silas Malafaia no X, em 7 de set 2026 . Acesso em 7 set 2026

Imagem: Reprodução do perfil do deputado Nikolas Ferreira na plataforma X. Publicação em 7 set 2026. Acesso em 8 set 2026

Também subiu ao palanque o deputado federal evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG),  que reforçou os ataques a Alexandre de Moraes e o apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro. Depois de puxar o coro de “Fora Moraes”, o parlamentar afirmou que o lugar do ministro seria “na cadeia” e associou a eleição presidencial à possibilidade de mudança na composição do STF. O deputado do PL, frequentemente checado em matérias do Bereia, ainda anunciou uma manifestação no Amapá para pressionar o presidente do Senado Davi Alcolumbre a pautar os pedidos de impeachment contra Moraes.

A cenografia do comício também produziu forte simbolismo. Em pleno Dia da Independência, um enorme boneco inflável do presidente dos Estados Unidos Donald Trump foi instalado na Avenida Paulista. O boneco segurava, suspensa em uma das mãos, uma representação do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva  vestido como presidiário. 

Imagem: Reprodução de matéria do jornal O Globo. Acesso em 7 set 2026

A alegoria colocava literalmente o presidente dos Estados Unidos em posição de superioridade sobre o presidente brasileiro, em contraposição aos discursos sobre patriotismo, soberania e defesa do Brasil. 

R R Soares e seus cinco filhos políticos

O missionário lider da Igreja Internacional da Graça R. R. Soares também atuou com esforços para a eleição de seus cinco filhos a cargos públicos neste 2026. O religioso tem rodado os templos de sua denominação pelo Rio de Janeiro e São Paulo, estados pelos quais os herdeiros estão concorrendo. David e Daniel Soares disputam vagas em São Paulo, enquanto André, Marcos e Felipe Soares miram cargos no Rio. 

Em agosto, o fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus passou por 30 templos nos dois estados. Até 2 de outubro, estão previstas as visitas a outros 56, sem contar as igrejas onde outros líderes da denominação repetem o mesmo roteiro, de acordo com a agenda disponível no site oficial da denominação evangélica.

A cena se repete em cada cidade. Ao final da pregação de R.R. Soares em cada culto, ele chama os filhos à frente, pede que a congregação ore por eles e fala do caráter de cada um. Depois, aborda pautas caras à direita, como o aborto. Em Jales, no interior paulista, foi além: Soares pediu que o filho Flávio detalhasse o orçamento que destina às cidades da região, diante da igreja reunida. 

Neste 7 de setembro, entretanto, quando chegou o momento de apresentar David e Daniel em outro culto, também no interior paulista, a transmissão ao vivo pelo Facebook e YouTube foi interrompida. Apesar disso, há registros da passagem dos irmãos no perfil do Instagram de uma das igrejas visitadas.

Imagem: Reprodução da página oficial do Missionário RR Soares no Facebook, vídeo publicado em 27 ago 26. Acesso em 8 set 2026

Imagem: Reprodução do story do perfil da Igreja da Graça em São José do Rio Preto (SP)no Instagram. Publicação de 7 set 26. Acesso em 8 set 26. 

A engenharia eleitoral da família reparte os herdeiros para que não briguem pelo mesmo eleitor. Felipe e Marcos Soares concorrem a deputados federal e estadual pelo PSDB no Rio; David Soares a deputado federal pelo Podemos e Daniel Soares a estadual, pelo União em São Paulo; enquanto André Soares tenta a suplência no Senado fluminense pelo Republicanos,  na mesma disputa em que enfrenta o primo, o bispo Marcelo Crivella, da Igreja Universal do Reino de Deus. Some-se a eles a tia Edna Macedo, candidata à reeleição como deputada estadual em São Paulo, e o clã Macedo/Soares chega a sete candidaturas.

O sobrenome de urna revela a origem do capital político que sustenta essas campanhas. R.R. Soares foi sócio de Edir Macedo na fundação da Igreja Universal do Reino de Deus, em 1977, até um racha na liderança separar os dois três anos depois.  Soares saiu e criou a Igreja Internacional da Graça, em 1980, enquanto Macedo manteve a Universal. As duas denominações seguem, hoje, o mesmo padrão de lançar candidaturas políticas dentro do próprio grupo religioso. A Universal já elegeu dezenas de parlamentares ao longo das últimas três décadas, entre eles o próprio Crivella. Os filhos de R.R. Soares estão na política desde 2006, mas essa é a primeira vez que quatro deles usam o “RR” no nome de urna, numa referência direta ao pai. Apenas Daniel Soares preservou o nome de urna usado em pleitos anteriores.

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A desinformação não apareceu neste 7 de Setembro apenas como uma informação falsa facilmente isolável e detectável, mas esteve presente também na recontextualização de conteúdos, na omissão de informações relevantes, em documentos falsamente revestidos de autoridade institucional e em discursos que selecionam partes de fatos reais para construir um discurso político. 

Entre o púlpito e o palanque, fé, campanha eleitoral e crise institucional se encontraram em uma mesma disputa pela interpretação dos acontecimentos e pela definição de quem deveria ser apresentado ao público como aliado, perseguido ou inimigo.

Referências:

Ministério Público Federal https://www.mpf.mp.br/o-mpf/unidades/prr6/noticias/justica-acolhe-pedido-do-mp-eleitoral-e-nega-registro-de-candidatura-de-eduardo-cunha-em-minas-gerais Acesso em 7 set 2026

G1

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2026/02/06/nucleos-copia-e-cola.ghtml Acesso em 7 set 2026

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2026/03/31/stf-suspende-afastamento-de-rodrigo-manga-da-prefeitura-de-sorocaba.ghtml Acesso em 7 set 2026

O Globo

https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/09/07/ato-na-paulista-tem-trump-segurando-boneco-de-lula-bandeiras-dos-eua-e-flavio-bolsonaro-em-segundo-plano.ghtml Acesso em 8 set 2026

UOL https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/08/19/republicanos-expulsa-prefeito-tiktoker-manga-por-infidelidade-partidaria-em-votacao-unanime.htm Acesso em 7 set 2026

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/05/11/por-unanimidade-segunda-turma-do-stf-mantem-prefeito-tiktoker-no-cargo.ghtm Acesso em 7 set 2026

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/09/07/pastor-resgata-video-de-mendonca-e-o-exibe-em-culto-com-flavio-e-tarcisio.ghtm – Acesso em 8 set 2026

VEJA https://veja.abril.com.br/brasil/ao-vivo-flavio-bolsonaro-realiza-ato-de-campanha-na-avenida-paulista   Acesso em 7 set 2026   

Ongrace

https://ongrace.com/buscar-eventos/ Acesso em 08 set 2026

TSE

https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/SUDESTE/RJ/20322002026/190002550290/2026/RJ Acesso em 08 set 2026

https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/SUDESTE/RJ/20322002026/190002550487/2026/RJ Acesso em 08 set 2026

https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/SUDESTE/RJ/20322002026/190002550183/2026/RJ Acesso em 08 set 2026

https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/SUDESTE/SP/20322002026/250002533756/2026/SP Acesso em 08 set 2026

https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/SUDESTE/SP/20322002026/250002544834/2026/SP Acesso em 08 set 2026

Por que os Estados Unidos abriram uma investigação contra o Pix? 

O Pix voltou ao centro do debate público no Brasil. Desta vez, o sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central tornou-se alvo de críticas do regime do presidente dos Estados Unidos Donald Trump, que acusa a autoridade monetária brasileira de favorecer a plataforma em detrimento de empresas norte-americanas que atuam no setor de pagamentos digitais.

As acusações passaram a circular em meio a uma investigação comercial aberta pelos EUA contra o Brasil e levantaram questionamentos sobre possíveis impactos para o sistema de pagamentos brasileiro. Diante da repercussão do tema, o Bereia verificou o que motivou a investigação, quais são as acusações apresentadas pelo governo norte-americano e quais podem ser as consequências práticas para o Pix.

A investigação

As críticas ao Pix surgem no contexto de uma investigação comercial aberta pelos Estados Unidos contra o Brasil. O processo foi iniciado pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), a pedido do presidente Donald Trump, e anunciado em documento oficial divulgado em julho de 2025. 

Segundo o USTR estadunidense, a investigação busca apurar práticas consideradas desleais e supostamente prejudiciais aos interesses comerciais norte-americanos. O órgão afirma que há décadas documenta medidas brasileiras que restringiriam o acesso de exportadores dos Estados Unidos ao mercado nacional. 

A investigação tem como base a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo da legislação norte-americana que permite ao governo dos Estados Unidos apurar práticas comerciais consideradas injustas e, posteriormente, adotar medidas de retaliação, como tarifas ou outras restrições comerciais. 

Trump já havia sinalizado a abertura da investigação na mesma carta em que anunciou a intenção de aplicar uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. No documento, o presidente estadunidense mistura argumentos comerciais e políticos para justificar a medida, e inclui alegações sobre um suposto déficit comercial dos Estados Unidos com o Brasil entre repúdio à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, julgado e condenado por tentativa de golpe de Estado. Dados oficiais, contudo, mostram que os estadunidenses mantêm superávit comercial na relação bilateral desde 2009.

Ao justificar a investigação, Trump também mencionou o que classificou como “ataques contínuos do Brasil às atividades comerciais digitais de empresas americanas”, além de outras práticas consideradas desleais pelo regime. 

Por que o Pix entrou na mira dos Estados Unidos?

Embora a investigação aberta pelo USTR abranja diferentes áreas da economia brasileira, como políticas tarifárias, combate à corrupção, propriedade intelectual, comércio de etanol e desmatamento ilegal, o Pix tornou-se um dos principais focos das críticas do regime Trump. 

No relatório, o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos é citado na categoria de comércio digital e serviços de pagamento eletrônico. De acordo com o governo dos Estados Unidos, o Banco Central do Brasil exerce simultaneamente as funções de regulador e operador da plataforma, o que poderia criar vantagens competitivas para o Pix em relação a empresas privadas do setor, como as empresas de cartões de crédito. 

A investigação sustenta que esse modelo dificulta a atuação de companhias estrangeiras de meios de pagamento no mercado brasileiro. Entre os pontos questionados estão a obrigatoriedade de participação no Pix para instituições financeiras com mais de 500 mil contas e a exigência de que a ferramenta ocupe posição de destaque nos aplicativos das instituições participantes, com visibilidade igual ou superior à de outros meios de pagamento e transferência. 

Outro alvo das críticas é a política de gratuidade do Pix para pessoas físicas. Na avaliação do USTR, empresas estrangeiras são obrigadas a disponibilizar e promover um sistema concorrente sem receber compensação financeira por isso. O documento argumenta que as regras de disponibilidade, visibilidade e cobrança estabelecidas pelo Banco Central configuram um tratamento preferencial ao Pix, em detrimento de outros prestadores de serviços de pagamento eletrônico. 

O relatório afirma ainda que essas medidas favorecem o que classifica como um “campeão nacional” brasileiro, e reduz as condições de concorrência para empresas estrangeiras que atuam no setor. 

A insatisfação das autoridades dos EUA com o Pix não é recente. Em relatório divulgado pela Casa Branca em abril deste ano, o sistema já havia sido citado como um fator que afeta os interesses de grandes operadoras de cartões de crédito, como Visa e Mastercard. A avaliação considera que a ampla adesão dos consumidores brasileiros ao Pix reduziu o espaço de atuação de modelos tradicionais de pagamento baseados na cobrança de taxas por transação. 

Em resumo: a gratuidade de um sistema brasileiro,  soberano, criado para permitir ampla participação da população do Brasil nas transações digitais, sem passar pelo dólar estadunidense,  prejudica os lucros de operadoras financeiras daquele país. Por isso estes agentes querem retaliação.

O Pix corre risco de sofrer sanções?

Até o momento, não há qualquer medida específica anunciada contra o Pix. A conclusão da investigação do USTR representa uma etapa do processo e não resulta automaticamente em sanções ou restrições ao sistema brasileiro de pagamentos.

As acusações integram a conclusão da investigação comercial que aponta supostas práticas brasileiras capazes de restringir ou onerar o comércio com empresas norte-americanas. Como consequência, o USTR propôs a adoção de tarifas de 25% sobre parte das exportações brasileiras destinadas aos EUA. 

O relatório abre espaço para que o regime Trump avalie possíveis respostas comerciais em relação ao Brasil, mas eventuais decisões ainda dependem das próximas fases da investigação e das discussões entre os dois países.

O cronograma divulgado pelo USTR prevê a continuidade das consultas públicas sobre o tema, além da realização de audiências e negociações diplomáticas antes de uma decisão final. Nesse período, representantes do governo brasileiro, instituições financeiras e demais interessados poderão apresentar argumentos e esclarecimentos sobre os pontos levantados pela investigação.

Dessa forma, embora o Pix tenha sido incluído entre os alvos das críticas estadunidenses ainda não há definição sobre quais consequências práticas poderão decorrer do processo nem sobre eventuais impactos diretos para o sistema de pagamentos brasileiro.

Como o setor financeiro brasileiro responde às acusações?

As críticas das autoridades norte-americanas ao Pix foram contestadas tanto pelo setor bancário quanto pelo governo brasileiro. Em nota, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) afirmou que as conclusões do USTR decorrem de uma compreensão incompleta sobre os objetivos e o funcionamento do Pix. Para a entidade, o sistema opera em um modelo aberto e não discriminatório, com participação de bancos, fintechs e instituições financeiras nacionais e estrangeiras. A federação também argumenta que não existem barreiras para a entrada de novos participantes, desde que estejam autorizados a atuar no mercado brasileiro.

A Febraban ressalta ainda que o Pix é gratuito para pessoas físicas, mas pode ter tarifas aplicadas a empresas, sem distinção entre companhias brasileiras e estrangeiras. Na avaliação da entidade, o sistema contribuiu para ampliar o acesso da população aos serviços financeiros, reduzir custos operacionais e aumentar a eficiência das transações comerciais, especialmente nas operações de menor valor. 

Outro argumento apresentado pelo setor bancário é que o Pix não substitui outros meios de pagamento, como cartões de débito e crédito. Para a federação, diferentes instrumentos continuam coexistindo e atendendo a demandas distintas de consumidores e empresas, o que preserva a concorrência no sistema financeiro. 

O governo brasileiro também rejeitou as acusações de tratamento preferencial ou discriminatório. Em resposta à conclusão preliminar da investigação, afirmou que o Pix é uma infraestrutura pública administrada pelo Banco Central e que suas regras são aplicadas de forma uniforme a todos os participantes do mercado. 

O governo argumenta ainda que empresas estadunidenses atuam normalmente no ecossistema de pagamentos brasileiro e não enfrentam restrições específicas. Além disso, destaca que o Brasil figura entre os principais mercados mundiais para companhias dos EUA que operam no setor de pagamentos.

De acordo com o governo, a legislação brasileira assegura tratamento equitativo a empresas nacionais e estrangeiras, e não há evidências de que as regras do Pix prejudiquem a atuação de companhias norte-americanas no país.

O que os Estados Unidos podem fazer contra o Pix?

As críticas ao Pix não começaram com a investigação mais recente. Em março deste ano, o sistema brasileiro de pagamentos já havia sido mencionado em um relatório do USTR que lista barreiras comerciais e regulatórias identificadas pelo regime Trump em mais de 60 países. 

Na ocasião, o governo brasileiro reagiu às críticas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Pix é uma ferramenta nacional e rejeitou a possibilidade de alterações motivadas por pressões externas. O sistema também recebeu manifestações de apoio de autoridades estrangeiras, entre elas o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que elogiou o modelo brasileiro e defendeu a ampliação de iniciativas semelhantes na América Latina. 

Com a conclusão preliminar da investigação, uma das principais dúvidas é se os EUA têm mecanismos para agir diretamente contra o Pix. Especialistas em comércio exterior e regulação econômica afirmam que não. Como se trata de uma infraestrutura financeira administrada pelo Banco Central do Brasil, as autoridades norte-americanas não possuem jurisdição para interferir diretamente em seu funcionamento. 

As medidas previstas na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, utilizada como base para a investigação, concentram-se no campo das relações comerciais. Entre os instrumentos disponíveis ao regime Trump estão a imposição de tarifas, a suspensão de benefícios comerciais e outras restrições relacionadas ao comércio bilateral.

Por esse motivo, especialistas avaliam que eventuais consequências da investigação tendem a atingir setores da relação comercial entre Brasil e EUA, e não o funcionamento do Pix em si. Qualquer medida dependerá das próximas etapas do processo, das consultas públicas previstas pelo USTR e das negociações diplomáticas entre os dois países.

Portanto, embora o sistema brasileiro de pagamentos esteja entre os temas analisados pela investigação, não há indicação de que os EUA possam suspender, controlar ou alterar diretamente o funcionamento do Pix.

A disputa em dimensão política

O debate sobre o Pix ultrapassou a esfera econômica e passou a integrar o embate político entre governo e oposição no Brasil.

No mesmo dia em que o governo dos Estados Unidos anunciou a conclusão da investigação, o presidente Donald Trump publicou em sua conta oficial do X, uma mensagem ao lado do senador evangélico, pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), após um encontro realizado na Casa Branca. Na publicação, Trump elogiou o parlamentar brasileiro e destacou sua atuação política.

Imagem: Encontro entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump na Casa Branca. Fonte: X. 

Antes da manifestação de Trump, Flávio Bolsonaro tentava desviar-se de críticas de ter sido promotor dos novos ataques do regime dos EUA à economia brasileira. As novas medidas foram divulgadas logo após a visita do senador a Trump. Por isso, ele divulgou um vídeo nas redes digitais em que afirmou ser contrário à adoção de novas tarifas sobre produtos brasileiros. O senador informou que durante a reunião na Casa Branca, solicitou que eventuais medidas comerciais não fossem direcionadas às empresas do país. Porém,  a publicação dos elogios de Trump a Flávio Bolsonaro intensificaram as críticas a possíveis ações de traição à pátria  do candidato à Presidência do Brasil.

Posteriormente, Flávio encaminhou uma carta ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, na qual pediu que Washington não adotasse novas restrições comerciais contra o Brasil. No documento, argumentou que eventuais sanções poderiam causar prejuízos à economia brasileira e à população. 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, atribuiu parte da escalada das tensões à atuação internacional de Flávio Bolsonaro e do irmão dele, o deputado federal evangélico cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Em declarações públicas, Lula acusou ambos de incentivarem a interferência de um governo estrangeiro em assuntos internos do Brasil. 

Eduardo Bolsonaro rejeitou as acusações. Em publicação nas redes, afirmou que sua família não influenciou a decisão do governo estadunidense e negou qualquer participação na abertura da investigação ou na discussão de possíveis medidas comerciais contra o Brasil.

A controvérsia ocorre em meio às negociações entre Brasília e Washington para tentar reduzir as divergências comerciais entre os dois países. Em encontro oficial realizado em maio passado na Casa Branca, Lula e Trump discutiram o tema e concordaram em manter canais de negociação para buscar soluções diplomáticas.

Referências:

USTR. https://ustr.gov/about/policy-offices/press-office/press-releases/2026/june/ustr-section-301-determination-brazils-unreasonable-acts-policies-and-practices. Acesso em 9 de junho de 2026.

G1. https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/06/02/por-que-o-pix-virou-alvo-de-trump-em-investigacao-comercial-contra-o-brasil.ghtml. Acesso em 9 de junho de 2026.

G1. https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/06/08/investigacao-dos-eua-contra-o-pix-expoe-disputa-global-por-controle-dos-pagamentos-digitais.ghtml. Acesso em 9 de junho de 2026.

G1. https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/06/02/eua-concluem-investigacao-e-propoem-retaliacao-comercial-contra-o-brasil-por-decisoes-judiciais-tarifas-e-desmatamento.ghtml. Acesso em 9 de junho de 2026.

G1. https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/07/09/trump-manda-carta-a-lula-e-anuncia-tarifa-de-50percent-sobre-produtos-brasileiros.ghtml. Acesso em 9 de junho de 2026.

G1. https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/07/09/balanca-comercial-brasil-importa-mais-do-que-exporta-na-relacao-com-os-eua-desde-2009.ghtml. Acesso em 9 de junho de 2026.

BBC NEWS Brasil. https://www.bbc.com/portuguese/articles/cvgzjydl9lgo. Acesso em 9 de junho de 2026.

BBC NEWS Brasil. https://www.bbc.com/portuguese/articles/cvgkq492dzwo. Acesso em 9 de junho de 2026.

BBC NEWS Brasil. https://www.bbc.com/portuguese/articles/c809z9kne38o. Acesso em 9 de junho de 2026.

Nota da Federação Brasileira de Bancos. https://static.poder360.com.br/2026/06/nota-febraban-defesa-pix-2-jun-2026.pdf. Acesso em 9 de junho de 2026.

Secretária de Comunicação Social. https://www.gov.br/secom/pt-br/acompanhe-a-secom/noticias/2026/06/conclusao-preliminar-da-investigacao-da-secao-301. Acesso em 9 de junho de 2026.

Secretária de Comunicação Social. https://www.gov.br/secom/pt-br/acompanhe-a-secom/noticias/2026/05/nota-a-imprensa. Acesso em 9 de junho de 2026.Relatório de Estimativa do Comércio Nacional. https://ustr.gov/sites/default/files/files/Press/Releases/2026/National%20Trade%20Estimate%20Report%202026.pdf. Acesso em 9 de junho de 2026.

Evangélico é agredido em vigília pró-Bolsonaro após ter espaço de fala e dizer que a justiça está sendo feita

Circula com muita intensidade pela imprensa e nas mídias sociais um vídeo em que um homem evangélico é agredido fisicamente por participantes da vigília religiosa realizada no sábado, 22 de novembro passado, em protesto contra a prisão, em regime fechado, do ex-presidente Jair Bolsonaro. No mesmo vídeo, ao final, o homem aparece sendo entrevistado por vários veículos da imprensa, quando é autoidentificado como Ismael Lopes, morador de Brasília e integrante da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, a qual representa no Conselho de Participação Social da Presidência da República.

Com a viralização do vídeo nas redes, o Irmão Ismael, como pediu ao Bereia para ser chamado, apesar de ser apresentado como pastor e teólogo pela imprensa, tornou-se um dos nomes mais comentados do país por conta da postura crítica em meio ao ato bolsonarista, que resultou nas agressões. Bereia buscou reunir informações sobre o caso, que ainda terá desdobramentos, uma vez que o religioso registrou um boletim de ocorrência e busca o reconhecimento dos agressores.

A “vigília de oração”

A vigília já havia sido convocada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), nas mídias sociais, um dia antes, 21 de novembro, para a frente do condomínio, em Brasília, onde o pai, Jair Bolsonaro, cumpria prisão domiciliar, com tornozeleira eletrônica, desde 4 de agosto, como medida cautelar por obstrução da justiça. Com a aproximação do final do processo em que o ex-presidente foi condenado por vários crimes referentes à tentativa de golpe de Estado em 2022 e 2023, a vigília de “oração pela saúde de Bolsonaro e pela liberdade do Brasil” tinha o objetivo de pressionar parlamentares pela votação do projeto de anistia e os agentes judiciários pelo cumprimento da pena em regime domiciliar. 

A convocação da vigília foi realizada em tom bélico, com a indicação de que seria um primeiro momento de ação. O senador citou a Bíblia e conclamou: “Vem com a gente, vamos lutar. Nesse primeiro momento a gente vai buscar o Senhor dos exércitos. Eu te convido para uma vigília que começa neste sábado”. “Vamos pedir a Deus que aplique a sua justiça […]. E com a sua força, a força do povo, a gente vai reagir e resgatar o Brasil desse cativeiro que ele se encontra hoje”, afirmou Flávio Bolsonaro.

Na noite do mesmo 21 de novembro, porém, o quadro mudou. O Supremo Tribunal Federal (STF) emitiu, por meio do ministro responsável pelo caso, Alexandre de Moraes, uma ordem de prisão de Jair Bolsonaro em regime fechado, que foi cumprida na manhã do sábado, 22 de novembro. O documento registra “risco concreto e iminente de fuga” por conta de tentativa de violação da tornozeleira, que foi confessada pelo réu, somada à convocação da aglomeração em frente ao condomínio onde Bolsonaro cumpria prisão domiciliar.

Flávio Bolsonaro manteve a realização da vigília religiosa para o mesmo dia e horário, agora, após a realização da prisão em regime fechado. O evento reuniu, segundo a imprensa, cerca de cem pessoas no local e foi onde ocorreu a fala do Irmão Ismael e as agressões a ele.

A ação de Ismael Lopes 

A presença de Ismael Lopes na vigília religiosa não estava prevista. Em entrevista ao Bereia, o religioso contou que a oportunidade surgiu quando percebeu que um pastor listado na programação não compareceu. “Eu fui (à vigília) com a intenção de gravar um vídeo para as minhas redes sociais. Entretanto, houve uma oportunidade. Parecia que tudo estava organizado para acontecer, pedi ao Flávio para dar uma palavra no lugar do pastor que faltou e ele deixou. Confesso que achei graça quando me deixaram falar e, ao mesmo tempo, fiquei nervoso, obviamente, com a situação”, conta Lopes. 

Por volta das 20h10, já com o microfone na mão, Ismael leu Eclesiastes 10:8: “Quem cava uma cova cairá nela.” Em seguida, diante de centenas de apoiadores e ao lado do senador, completou:  “Nós temos orado por justiça nesse país, nós temos orado para que aqueles que abrem covas, caiam nelas, não mortos, porque não é isso que a gente deseja, a gente deseja que sejam julgados e condenados pelo mal que fizeram, como o seu pai, que abriu 700 mil covas durante a pandemia, seja julgado pelo devido processo legal, tenha seu direito de defesa, mas que seja condenado e responda pelos crimes que cometeu. Assim, como todos os aliados que compuseram essa horda do mal contra o nosso estado…” Nesse momento foi interrompido. Apoiadores arrancaram o microfone das mãos de Ismael Lopes e o empurraram para fora da aglomeração. 

Vídeos mostram pontapés, xingamentos e tentativas de perseguição. Ainda nos arredores da manifestação, Lopes concedeu entrevista a vários veículos de imprensa. Mesmo diante das câmeras, apoiadores do ex-presidente continuaram agredindo verbalmente o religioso. A Polícia Militar interveio com spray de pimenta e precisou escoltá-lo até um carro de aplicativo. Depois, Ismael Lopes seguiu para uma delegacia para registrar a ocorrência.“Eu fiz o BO, fiz o exame de corpo de delito, vai ser anexado ao inquérito, e agora está na fase de identificar os agressores. Fisicamente estou bem, alguns hematomas, alguns arranhões, mas nada grave”, relata.

Ele conta que, durante o discurso, ficou apreensivo com o tempo que durou sem interrupções. “Eu só pensava: ‘Não é possível que ninguém vá me interromper. Quero sair daqui logo’”, disse ao Bereia. Para ele, a reação inicial dos bolsonaristas foi de surpresa, inclusive de Flávio Bolsonaro. “A única reação dele (Flávio) é para tentar impedir que me agredissem. Então eu vou ser justo. Vou agradecê-lo, porque acho que, se não fosse a intervenção dele, provavelmente, eu teria sido bem mais machucado. Eles (os partidários do bolsonarismo) acreditam numa totalidade de evangélicos à direita. Não é verdade”. Ismael Lopes também comentou o medo que sentiu. “Eles trabalham com a dinâmica do medo. E, de fato, eu fiquei com medo. Mas medo a gente tem, só não usa.”

Evangélico desde a infância, o Irmão Ismael afirma que se sentiu provocado pela fala de uma pessoa que o precedeu na vigília, que, segundo ele, distorcia a mensagem bíblica para fins políticos. “Fui porque acredito que a instrumentalização da fé precisa ser confrontada”, afirmou em conversa com jornalistas logo após ser escoltado.

“Acredito que os evangélicos precisam, sim, se manifestar politicamente, porque têm raça, têm classe, têm gênero, têm categoria profissional. Então, os evangélicos têm que participar, se organizar em sindicatos, em partidos, em movimento popular se quiserem, claro. O que sou contra é transformar o culto em ato político partidário”, explica Lopes. 

Lopes criticou ainda a suposta perseguição religiosa ao ex-presidente – ideia que circulou nas redes logo que foi noticiada a prisão em regime fechado. Ele disse que sua presença na vigília não se tratou do ato de um cristão “sofrendo perseguição”, mas de uma tentativa de denunciar a instrumentalização da fé cristã. “Eu vim para cá, para acabar com essa instrumentalização da fé cristã que eles fazem.” 

Para o evangélico, o discurso de vitimização religiosa desvia a atenção de aspectos concretos do caso, como a violação da tornozeleira eletrônica por Bolsonaro, e transforma críticas legítimas em uma suposta ofensa à fé.

A Frente de Evangélicos se pronuncia

Como Ismael Lopes foi identificado no vídeo viralizado como integrante da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito (FEED), a organização publicou nota nas mídias sociais, em 23 de novembro, pela qual afirma que a ação dele teve “caráter individual e pessoal” e que o ato não havia sido coordenado por ela.  O texto é concluído com um registro apoio ao Irmão Ismael e lamento pelas agressões praticadas contra ele.

A nota da FEED, porém, gerou ruídos de comunicação e provocou reações negativas de uma parcela do público. Mesmo com o registro de apoio e lamento pelas agressões sofridas, a ênfase do texto no caráter individual da ação levou a comentários críticos entre seguidores da página no Instagram. Essas pessoas interpretaram que a organização teria “rifado” e “largado a mão” de Lopes.

Diante dessas repercussões, o próprio Irmão Ismael comentou a publicação, em colaboração com a FEED, para superar os ruídos: “Estou de acordo com a nota. A ação não foi coordenada pelo movimento e estou recebendo todo apoio da Frente.”

Para o Bereia, Lopes reforçou o apoio que tem recebido do movimento e acrescentou ter participado da elaboração da nota. “O movimento está me dando todo o suporte necessário, todo o apoio, não só agora, sempre me deu muito suporte, sempre me impulsionou em ações. Foi uma nota sensata e necessária, para marcar um lugar. Eu fiz parte do processo (de elaboração do texto) e acho que era importante destacar que foi uma ação não coordenada do movimento e sim uma ação minha, da pessoa Ismael”, ressalta o carioca que é de tradição batista e, em Brasília, onde mora, frequenta uma igreja independente, mas é membro da Nossa Igreja Brasileira, no Rio de Janeiro.

Ligação com movimentos sociais e o governo federal 

Autodenominado “comunista” e “radical de esquerda”, Ismael Lopes integra o Conselho de Participação Social da Presidência, criado pelo governo Lula. Seu nome foi indicado pela FEED, movimento fundado em 2016, durante o impeachment de Dilma Rousseff, que reúne cristãos comprometidos com a defesa da democracia.

A FEED tem mantido interlocução frequente com a primeira-dama Janja Lula da Silva, especialmente em agendas de diálogo com mulheres evangélicas. Antes disso, Ismael Lopes ocupou, de agosto de 2023 a janeiro de 2024, o cargo de coordenador nacional do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo, no Ministério dos Direitos Humanos do governo Lula.

Jornalismo declaratório repercute conteúdo disseminado por Eduardo Bolsonaro desmentido depois pelo governo Trump e por seu irmão

O início da primeira semana útil de maio de 2025 foi agitado por notícia disseminada pelo deputado federal licenciado evangélico Eduardo Bolsonaro (PL-SP): o funcionário do governo estadunidense, chefe interino da coordenação de sanções internacionais, David Gamble estaria a caminho do Brasil, em 5 de maio, para tratar de punições contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes por promoção de censura e perseguição política.

A notícia havia sido publicada inicialmente pelo portal Metrópoles, em 2 de maio, com base em declarações de Eduardo Bolsonaro, que teria “costurado a visita de membros do governo Trump a solo brasileiro”. Fiel ao conteúdo oferecido pelo filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que se licenciou do mandato como parlamentar para fazer política a partir dos EUA, o Metrópoles informou que David Gamble se reuniria com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que levaria o funcionário do governo Trump para um encontro com Jair Bolsonaro.

Com o credenciamento da informação pelo Metrópoles, o deputado licenciado, que se autodeclara batista, reproduziu o conteúdo em seus perfis de mídias sociais e emplacou repercussão em mídias da direita estadunidenses e brasileiras.

Outras mídias de notícias no Brasil transformaram as declarações de Eduardo Bolsonaro em notícia.

Informação desmentida pelo governo dos EUA

A primeira matéria jornalística com informação qualificada sobre a anunciada visita de David Gamble ao Brasil foi produzida pelo jornalista do UOL Jamil Chade, publicada no domingo, 4 de maio. Chade informou que o governo de Donald Trump havia desmentido a versão dada por Eduardo Bolsonaro quanto ao objetivo de sanções contra autoridades brasileiras. A apuração do jornalista confirmou que a viagem ocorreria, de fato, a partir da segunda-feira, 5 de maio, mas a embaixada dos EUA no Brasil indicou outros temas a serem tratados com o governo brasileiro.

Segundo Jamil Chade, a apuração do UOL já havia confirmado que a viagem anunciada por Eduardo Bolsonaro de um funcionário do governo Trump já havia sido organizada pelo próprio governo brasileiro e tem como objetivo estabelecer uma cooperação entre os dois países no combate ao crime organizado.

Em nota ao UOL a Assessoria de Imprensa da Embaixada dos EUA no Brasil declarou que “O Departamento de Estado dos Estados Unidos enviará uma delegação a Brasília, chefiada por David Gamble, chefe interino da Coordenação de Sanções. Ele participará de uma série de reuniões bilaterais sobre organizações criminosas transnacionais e discutirá os programas de sanções dos EUA voltados ao combate ao terrorismo e ao tráfico de drogas”. 

Nas declarações de Eduardo Bolsonaro repercutidas em diversas mídias não foi mencionado que a viagem já fazia parte de uma agenda oficial de cooperação entre Brasil e EUA. David Gamble veio ao país em uma comitiva que tem agendas no Itamaraty, no Ministério da Justiça e com outros órgãos federais, deputados e senadores. Jamil Chade apurou que a cooperação Brasil-EUA foi intensificada com contatos entre ministérios e até uma missão da Polícia Federal, relacionada a ações do governo Trump contra gangues estrangeiras.

Em abril passado a direção internacional da PF havia viajado até Washington e assinado um acordo para ampliar a luta contra o crime organizado, com previsão de troca de informações entre os dois países. O anúncio foi feito com destaque pelo próprio governo Trump. No mês anterior, março, a polícia estadunidense havia anunciado a prisão de 18 brasileiros, suspeitos de participarem de ações do Primeiro Comando da Capital (PCC) em território americano.

Na apuração do UOL, Jamil Chade acrescenta que, mesmo neste contexto, o governo brasileiro viu com desconfiança o anúncio de Bolsonaro e procurou o Departamento de Estado dos EUA para saber se a visita oficial teria desdobramentos para além da agenda que estabelecida com o governo. Residindo nos EUA nos últimos meses, Eduardo Bolsonaro tem liderado uma campanha para que haja uma ação do governo Trump contra autoridades brasileiras e contribua com a oposição nas eleições que ocorrerão em 2026.

Estas informações foram confirmadas em matérias publicadas nos jornais O Globo, Folha de S. Paulo, Estado de Minas, no portal G1, entre outras mídias.

Flávio Bolsonaro desmente o suposto objetivo

O senador Flávio Bolsonaro confirmou à imprensa, em 6 de maio, que se reuniu com um assessor do Departamento de Estado dos EUA mas não tratou de sanções contra o STF, como havia anunciado o irmão Eduardo Bolsonaro. “Não foi tratado”, afirmou o senador, ao final do encontro, e acrescentou: “quem trata desse tema é o Eduardo”. Segundo o parlamentar, o tema da reunião foi o enfrentamento do crime organizado.

“Eu, na qualidade de presidente da Comissão de Segurança do Senado, havia pedido já há alguns dias, via embaixada, uma reunião aqui no Brasil com alguma autoridade do governo americano para que a gente pudesse tratar dessa pauta de segurança pública. Então, o assunto aqui não tem nada a ver com sanções, com relação a quem quer que seja, como foi tratado aí por parte da imprensa”, disse o senador ao jornal O Globo, após o término do encontro.

Em nova apuração de Jamil Chade para o UOL, foi informado que o chefe da delegação estadunidense David Gamble não esteve com Flávio Bolsonaro. De fato, uma reunião foi realizada entre o senador e um integrante da delegação americana, o funcionário Ricardo Pita. Ele é nascido na Venezuela e integra o terceiro escalão do Departamento de Estado dos EUA, sem experiência prévia na diplomacia. O cargo de Pita leva o nome de “Conselheiro sênior para assuntos do Hemisfério Ocidental.

Antes de entrar para o governo, em janeiro de 2025, Ricardo Pita era assistente do senador republicano Ted Cruz, que dialoga com membros da família Bolsonaro e do PL. No mesmo dia em que se reuniu com Flávio Bolsonaro, Pita visitou Jair Bolsonaro em casa. O conteúdo da conversa foi divulgado por Eduardo Bolsonaro em mídias sociais e teria sido marcado por denúncia das “ameaças à democracia brasileira e aos interesses dos EUA na região”. O deputado licenciado afirma que Ricardo Pita se comprometeu em levar a mensagem do ex-presidente aos EUA.

Novas afirmações de Eduardo Bolsonaro

Eduardo Bolsonaro rebateu o desmentido sobre a agenda da equipe de Trump e atribuiu a divergência a integrantes do governo Biden, que ainda estariam representando os EUA no Brasil. “Os Estados Unidos já enviaram um novo embaixador para o Brasil? Não. Então, o corpo diplomático do governo americano no Brasil ainda é da administração Biden? Sim. Então, morreu já por aqui essa história” disse o deputado licenciado, em entrevista ao canal do YouTube Programa 4 por 4, conforme matéria do jornal O Globo.

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Bereia alerta leitores e leitoras sobre o papel desinformativo do jornalismo declaratório praticado intensamente pela grande imprensa no Brasil e também por outras mídias. Este tipo de fazer jornalístico é caracterizado pela publicação de declarações de personagens da cena pública em matérias que a elas se restringem, ou seja, em que não é praticado o essencial no processo informativo do jornalismo que é a apuração, o oferecimento de dados, de elementos factuais, de comprovações, de outras perspectivas sobre o tema.

Tal prática tem por objetivos: 1) a defesa de assuntos que são os temas tratados por personagens em suas declarações ou a crítica a eles, de forma que público seja levado a acatar ou a rejeitar o que se diz; 2) a simples captura de público – no caso das mídias digitais, os chamados caça-cliques – uma vez que muitas declarações são vazias de informação e não poderiam ser transformadas em notícia.

No caso destacado nesta matéria do Bereia, há uma prática recorrente de personagens identificadas com a extrema direita política:

– uma afirmação “bombástica”, ancorada em alguma situação verdadeira – uma visita de delegação dos EUA ao Brasil, por exemplo -, é lançada para publicação na imprensa;

– a declaração não tem base factual (não tem fontes, nomes, dados, pautas, datas, elementos comprováveis) – “EUA envia delegação para impor sanções ao STF”, por exemplo ;

– veículos da imprensa, seja por alinhamento ao que é dito (desejar sanções para o STF, o que traria danos à diplomacia do atual governo, por exemplo), seja por avidez por cliques e público (sensacionalismo que capta audiência), não apuram o conteúdo e simplesmente o reproduzem;

– o que é vazio de informação vira notícia (“o deputado disse” ou “foi confirmado pelo deputado”, por exemplo).

– as personagens que propagam tais declarações lançam mão da notícia, unicamente ancorada no que disseram ou confirmaram, para credenciar e validar suas próprias afirmações (“saiu na imprensa”).

Bereia chama a atenção para matérias fundamentadas apenas em “Fulano disse” ou “Beltrano anuncia” ou “Cicrano confirma”, que não oferecerem conteúdo próprio do jornalismo comprometido com a informação – apuração de dados, fatos, ocorrências, fontes, nomes, datas, pautas, elementos comprováveis. Não compartilhe este tipo de conteúdo! Pesquise o que outros veículos dizem sobre o caso para não se tornar “isca” para captura de apoio político ou para alavanca de audiência.

Referências

Metrópoles

https://www.metropoles.com/colunas/paulo-cappelli/governo-trump-chega-ao-brasil-para-tratar-de-sancoes-a-moraes Acesso em 06 mai 2025

UOL

https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2025/05/04/visita-de-americano-anunciada-por-eduardo-ja-estava-na-agenda-do-planalto.htm Acesso em 06 mai 2025

UOL

https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2025/05/05/flavio-diz-que-nao-tratou-de-sancoes-contra-stf-com-americano-de-3-escalao.htm Acesso em 06 mai 2025

O Globo

https://oglobo.globo.com/blogs/sonar-a-escuta-das-redes/post/2025/05/bolsonaro-encontra-enviado-de-trump-e-eduardo-diz-que-alerta-sobre-ameaca-a-democracia-brasileira-sera-levado-aos-eua.ghtml Acesso em 06 mai 2025

Reverendo envolvido no escândalo da compra de vacinas pelo Ministério da Saúde tem perfil controverso – Parte 1

* Com colaboração de Alexandre Brasil Fonseca, André Mello, Bruno Cidadão, Magali Cunha e Raquel Rocha

Matéria atualizada em 04/08/2021 às 21:28

Em 1º de julho, a Agência Pública publicou a matéria “Grupo Evangélico fez oferta paralela de vacinas ao Ministério da Saúde e prefeituras”. A reportagem apresenta uma organização não governamental (ONG) chamada Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (SENAH), que atuou como intermediária junto ao Ministério da Saúde para a venda de doses das vacinas dos laboratórios da Oxford/Astrazeneca e Johnson & Johnson/Janssen. Ela teria facilitado a venda para uma terceira empresa, a multinacional Davati Medical Supply.

O presidente da SENAH é Amilton Gomes de Paula, que recebeu aval do ex-diretor de Imunizações do Ministério da Saúde, o médico veterinário Laurício Monteiro Cruz. Ele foi citado na CPI da Covid como intermediador das negociações com a SENAH. Cruz presidiu o Conselho Regional de Medicina Veterinária do Distrito Federal, antes de assumir o cargo como diretor de imunizações do qual foi exonerado em 08 de julho de 2021. A exoneração, publicada no Diário Oficial da União, foi assinada pelo ministro-chefe da Casa-Civil, Luiz Eduardo Ramos. Estas denúncias levaram à convocação do reverendo Amilton Gomes de Paula pela CPI da Covid como testemunha.

Imagem: Reprodução DOU de 08/07/2021

Diante da participação de um personagem religioso na oferta de vacinas feita pela Davati ao Ministério da Saúde, da menção à Embaixada Mundial pela Paz no caso e a uma alegada parceria com a Frente Parlamentar Mista Internacional Humanitária pela Paz (cujos membros têm como base a Frente Parlamentar Evangélica), Bereia buscou construir o perfil do Reverendo Amilton Gomes de Paula para verificar o lugar que ocupa nesta trama. 

“Reverendo”: por que não “pastor”?

No levantamento inicial, observa-se que a imprensa está apenas repetindo o currículo de Amilton Gomes que consta na página oficial da SENAH. Nela, ele é apresentado como membro da Convenção Batista Nacional do Brasil, e reitor da Faculdade Batista do Brasil, doutor em Ciências da Educação. O currículo exposto no site da SENAH também indica que Amilton Gomes é bacharel em Filosofia, mestre em Teologia Sistemática, com quatro especializações na área de Psicologia e Saúde Mental, diretor e membro de diferentes associações e sociedades nessas duas áreas.

Amilton Gomes de Paula foi graduado em Teologia, em 2010, pela Faculdade de Ciências, Educação e Teologia do Norte do Brasil (FACETEN), com sede em Boa Vista-RR e envolvida em escândalos que envolvem a emissão de diplomas falsos a policiais militares. A faculdade conta com oito cursos de graduação, cinco em EAD e três presenciais, além de 37 cursos de pós-graduação lato sensu (especializações). O curso de Bacharel em Teologia está na origem da faculdade, criada em 2000.

A reportagem da Agência Pública relaciona Amilton Gomes como “Reverendo Dr.”, forma com a qual se apresenta publicamente, o pastor da Igreja Batista Ministério da Nova Vista. Outras reportagens apenas citam o tratamento religioso “reverendo” (como a do Jornal Nacional, da Rede Globo, de 3 de julho) ou a filiação à Igreja Batista (é o caso da CNN Brasil, de 5 de julho). 

No entanto, no site da SENAH e no perfil de Amilton Gomes no LinkedIn não há menção específica à igreja à qual ele está vinculado. No site da SENAH há apenas o registro “Membro da Convenção Batista Nacional do Brasil”.

O nome correto da igreja com a qual o pastor Amilton Gomes tem vínculo é a Igreja Batista Ministério Vida Nova, cujo website está desativado mas que tem dados registrados no localizador Findglocal (o telefone que consta não atende) que confirmam o endereço e o nome do pastor.

Foto: Reprodução/FindGlocal

No cadastro de Igrejas, da Convenção Batista Nacional, a Igreja Batista Ministério Vida Nova não está entre as igrejas arroladas. A Convenção Batista Nacional  representa um grupo de aproximadamente 2.700 igrejas com mais de 400 mil membros articulados, desde 1967, em comunhão e cooperação com uma doutrina comum e uma visão e estrutura organizacional compartilhada.

De acordo com o Presidente da Convenção Batista Nacional do Distrito Federal, Pastor José Carlos da Silva, da Primeira Igreja Batista de Brasília (DF), não há informações sobre o pastor Amilton Gomes ou sobre a Igreja Batista Ministério Nova Vida registradas na organização. “A informação que tive, do secretário da Ordem de Ministros Batistas Nacionais é que ele (Amilton Gomes de Paula) não consta no rol de filiados. Realmente, não faz parte de nossa denominação. Sou o presidente da CBN-DF e desconheço a igreja e o Pr. Amilton”, afirma o pastor que foi por duas vezes presidente da Convenção Batista Nacional.

Foram analisados também conteúdos de divulgação da SENAH com vídeos no Youtube e registros de eventos. É utilizado um conjunto de logomarcas nestes conteúdos vinculados ao Reverendo Amilton Gomes de Paula, e não há qualquer marca relacionada à Convenção Batista Nacional ou referente aos batistas no Brasil.

Bereia também não conseguiu identificar referências da ordenação de Amilton Gomes (ou investidura, termo utilizado na consagração e inserção de pastores em quadros clericais em igrejas evangélicas) por alguma ordem de ministros batistas. O título de “Reverendo” não é comum entre batistas no Brasil, como se pode observar no registro de pastores da diretoria da CBN. 

Lideranças de diferentes igrejas, ouvidas pelo Bereia, esclareceram que, no vocabulário religioso, “reverendo” é uma forma de tratamento dirigida a clérigos, padres católicos e pastores de algumas igrejas evangélicas tradicionais, como a Metodista e a Presbiteriana. Portanto, “reverendo” não é uma função, mas uma forma de se dirigir a estas lideranças religiosas. A Igreja Episcopal Anglicana é que se diferencia, uma vez que “Reverendo”, “Reverenda” é uma categoria eclesiástica estabelecida a clérigos ordenados. Nas demais igrejas evangélicas, Luteranas, Batistas, Congregacionais, Pentecostais, é corrente a utilização do tratamento e da titulação “pastor”,”pastora”, “missionário”, “bispo” ou, mais recentemente, “apóstolos” para suas lideranças. 

O título “Reverendo” foi concedido pela “Ordem dos Cavaleiros de Sião”, informação incluída por Amilton Gomes no seu Currículo Lattes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico- CNPq. 

Imagem: Reprodução Currículo Lattes de Amilton Gomes de Paula

Igreja Batista Ministério Vida Nova

A Igreja Batista Ministério Vida Nova se destacou no cenário evangélico do Centro-Oeste nos anos 2016 e 17 com a realização do evento Fest Vida, envolvendo diferentes igrejas e voluntários ligados a ela, uma ação sociocultural que mesclava shows gospel com assistência social. Um pastor que atuava em Brasília à época, apoiou o Fest Vida, e que preferiu não ser identificado, declarou ao Bereia: “o evento ‘prometeu’ muita coisa e foi bem fraco. Na época, houve notícias na imprensa local sobre superfaturamento daquele evento e outros junto a Secretaria de Cultura do DF. Muita lábia. Chegou a abrir uma ONG meio estranha. E, agora, o SENAH”. O Fest Vida teve patrocínio do governo do Distrito Federal, tendo sido citado, em 2017, na lista de contratos sob suspeita no DF. Hoje, no entanto, não há muitos vestígios da Igreja Batista Ministério Vida Nova. O website principal da igreja está inativado, estando ativo apenas um outro site aparentemente desatualizado sobre a igreja do religioso e no endereço que consta em seus registros de CNPJ, funciona outra igreja, a Igreja Adventista Renovada do Sétimo Dia. 

Imagem: Reprodução do cadastro do CNPJ
Imagem: Google Maps – Igreja que ocupa o endereço registrado para a Igreja Batista Ministério Nova Vida.

Sobre a reitoria de faculdade e o título de doutorado

O website da SENAH apresenta extenso currículo de Amilton Gomes de Paula no campo da educação, indicando-o como reitor da Faculdade Batista do Brasil, doutor em Ciências da Educação. A verificação realizada pelo Bereia mostra que esta faculdade não se encontra cadastrada no Ministério da Educação, cujo website está inativo. Apenas com o recurso do site de pesquisa Wayback Machine, foi possível acessar a página oficial da instituição inativa. O Wayback é um arquivo digital que mantém uma biblioteca com o histórico de inúmeras páginas na web.

Segundo o doutor em Ciências da Religião, Alonso Gonçalves, pastor da Igreja Batista Central em Pariquera-Açu (SP), a Faculdade Batista do Brasil não existe entre os batistas no Brasil. “Em conversas com vários colegas aqui pastores da Convenção Batista Brasileira (CBB), ninguém conhece essa Faculdade Batista do Brasil. Parece que a tal “faculdade” é fake. Existe a Faculdade Batista Brasileira em Salvador/BA. Quanto a essa faculdade da qual ele diz ser o reitor ninguém nunca ouviu falar”, diz Gonçalves que também é professor de Teologia.

Imagem: Site da SENAH/Reprodução
Imagem: Site da Faculdade Batista do Brasil encontrado via Wayback

Sobre o Doutorado em Educação, não há inclusão da titulação no Currículo Lattes de Amilton Gomes, nem registro da instituição onde concluiu o doutorado. O que se verifica é que o uso do título se deve à conquista, pelo pastor, de quatro títulos de Doutor Honoris Causa em Psicologia e Psicanálise. Isto seria um grande feito, não fossem os títulos concedidos por instituições de educação sem reconhecimento acadêmico e sem publicações referidas ou congressos científicos. O registro no Currículo Lattes do termo também está feito erroneamente como “Doutor em Honoris Causa”.

As publicações e congressos científicos são duas das formas mais comuns de promoção e renome entre as universidades que oferecem titulação de doutorado. Duas das instituições que conferiram títulos indicados no Currículo Lattes de Amilton Gomes não têm destaque ou referências na área de educação – como a Sociedade de Psicologia do Centro Oeste (presidida pelo próprio religioso) e a Federação Nacional dos Teólogos e Filósofos do Brasil. Nesse currículo, há quatro graduações e três especializações, todas cursadas entre 2004 e 2013. Amilton Gomes também é identificado pela SENAH como graduado em Psicologia, mas no seu Currículo Lattes constam apenas duas especializações na área.

As inconsistências curriculares podem, de fato, ser fruto de algumas dificuldades na regulação acadêmica, porém há outras titulações e referências que extrapolam o campo dos cursos e instituições já citados. O religioso afirma ter o título de Diplomata Humanitário concedido pela American Diplomatic Mission of International Relations Intergovernmental Organization (ADMIR). Textualmente a organização apresenta-se da seguinte forma:

A Missão Diplomática Americana de Relações Internacionais (ADMIR) é a organização intergovernamental humanitária mundial, sediada nos Estados Unidos da América. Nessa reunião, foi aprovado o estabelecimento do Departamento de Estado na Flórida e foi montado o cenário para a tecitura de uma teia de dispositivos e instituições que veio a ser conhecida como Sistema Interamericano, o mais antigo sistema institucional internacional.

(Tradução livre)

A instituição, portanto, não pertence ao governo estadunidense, apesar das inúmeras logos associadas ao governo americano em sua página oficial na internet. 

Imagem: Site da ADMIR

O que é a SENAH?

De acordo com o site oficial da instituição, a ONG surgiu em 1999 por iniciativa de Amilton Gomes de Paula em decorrência de ações socioculturais. O nome original da organização era Secretaria Nacional de Assuntos Religiosos (SENAR) e em 2020 foi alterado para SENAH. “Hoje nosso DNA está na cultura pela paz mundial, na fomentação de apoio ao meio ambiente, sempre buscando meios sustentáveis para o desenvolvimento da sociedade harmonizando Homem e Meio Ambiente”, descreve a página oficial da ONG. A alteração estatutária dos objetivos e do nome da instituição facilita, inclusive, a celebração de parcerias e contratos com o Poder Público.

Como relata a reportagem da Agência Pública, Amilton Gomes de Paula tem fácil circulação entre políticos evangélicos em Brasília desde 2019. Nesse ano, ele participou de forma institucional, representando a SENAR, da criação da Frente Parlamentar Mista Internacional Humanitária pela Paz Mundial (FremhPaz) 

Imagem: Reprodução do site da Câmara dos Deputados

Fotos publicadas nas mídias sociais do religioso dão conta dessa proximidade com políticos. Uma delas mostra o pastor com a ministra da Família, Mulher e Direitos Humanos Damares Alves em agosto de 2019. Em outras, ele segura uma moção de louvor no Congresso e aparece ao lado do senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ).

Amilton Gomes aparece em foto com a Ministra Damares Alves (Foto: Amilton Gomes/Reprodução)
Amilton Gomes recebe Moção de Louvor (Foto: Amilton Gomes/Reprodução)
Amilton Gomes em foto com Flávio Bolsonaro (Foto: Amilton Gomes/Reprodução)

Em vídeo de reunião com líderes religiosos e empresários da cidade de Monte Mor/SP, em 20 de janeiro de 2020, Amilton Gomes faz referência ao apoio do governo federal para projetos da SENAH. Ele se refere tanto à recepção em Israel pelo embaixador do Brasil naquele país, Paulo César Meira de Vasconcelos, quanto pela presença do ministro da Advocacia-Geral da União André Mendonça, no lançamento do projeto de casas populares da entidade Morada Brasil. 

Imagem: TV Senar Br Global News, reunião em Monte Mor/SP 20/01/2021

Entre as logomarcas que se apresentam nas divulgações da SENAH, inclusive é a capa do canal da entidade no YouTube, chama a atenção a da Comissão de Direito e Liberdade Religiosa da OAB-SP. No entanto, conforme contato feito pela equipe Bereia com o presidente da Comissão Dr. Samuel Gomes de Lima não há parcerias entre a SENAH e a OAB de São Paulo. “O Sr. Amilton Gomes de Paula não é membro da Comissão de Direito e Liberdade Religiosa da OAB-SP e nem a mesma tem qualquer relação de parceria com a SENAH, sendo indevido o uso do logotipo da Comissão, passível até de ação judicial”, ressaltou.  

Fonte: TV SENAR/SENAH – Canal/Youtube

SENAH e a negociação de vacinas contra a covid-19

Conforme reportagem da Agência Pública, fotos postadas pelo presidente da SENAH, o pastor Amilton Gomes, em mídias sociais, em quatro de março de 2021, registram sua participação em uma negociação pela aquisição de vacinas contra a covid-19. As imagens mostram a presença de Amilton Gomes, Luiz Paulo Dominguetti (policial militar de Minas Gerais que depôs à CPI da Pandemia, depois de declarar à imprensa um suposto pedido de propina pelo servidor da Saúde Roberto Dias), o diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis Lauricio Monteiro Cruz e o major da Força Aérea Hardaleson Araújo de Oliveira. À Pública, Amilton Gomes confirmou a oferta e a visita ao Ministério da Saúde.

Hardaleson tem proximidades religiosas com Amilton Gomes. Há menções de que ele seja missionário evangélico e há vídeos no YouTube dele cantando músicas evangélicas em igrejas. Hardaleson ambém aparece cantando o hino nacional brasileiro em reuniões com Amilton Gomes e em atos de grupos em apoio ao presidente Jair Bolsonaro, como no caso da Marcha da Família Cristã pela Liberdade de maio de 2021. Desde maio de 2020, ele consta como militar da reserva, sem ter exercido funções no governo federal.

Imagem: Major Adelson Araújo de Oliveira
Imagem: Reprodução/Agência Pública

Em 3 de julho, o Jornal Nacional, da TV Globo, veiculou uma reportagem que detalha a troca de e-mails entre Laurício Cruz, Amilton Gomes e Herman Cardenas, presidente da Davati nos Estados Unidos. De acordo com o jornal, em 9 de março, Cruz enviou e-mail para Cárdenas informando sobre a reunião de cinco dias antes e o aval que a SENAH tinha para negociar vacinas com o Governo Federal. Um dia depois, o pastor Gomes enviou um e-mail a Cardenas agradecendo a confiança e pedindo detalhes para preenchimento do contrato. Nessa proposta, o valor por dose era de US$ 17,50. A quantia é mais de cinco vezes maior do que o gasto pelo Governo Federal para vacina da AstraZeneca com a FioCruz (US$ 3,16) e pouco mais que o triplo do valor dos imunizantes via Instituto Sérum (US$ 5,25).

Outro e-mail, no dia seguinte, enviado de Amilton Gomes a Cardenas dá conta de que em 12 de março haveria uma reunião com o então Secretário Executivo da Saúde Coronel Élcio Franco para tratar de aquisição de vacinas. O representante da Davati Cristiano Carvalho confirmou ao Jornal Nacional que participou da reunião com Franco (na agenda oficial consta uma reunião com o Instituto Força Brasil), mas o negócio não foi concretizado. O valor de 17,50 dólares difere da proposta que Dominguetti afirma ter feito ao Ministério da Saúde em fevereiro de 2021, de US$ 3,50. Os e-mails mencionados pelo Jornal Nacional também aparecem na reportagem de Renata Agostini para a CNN Brasil.

Em entrevista ao jornal O Globo do dia 7 de julho, Amilton Gomes admitiu que a SENAH receberia uma doação da empresa Davati Medical Supply, sem valor estipulado. Em troca, o religioso se comprometeria a ajudá-los com a venda das 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca para o Ministério da Saúde. “Quando eles vieram a mim, eles já tinham ido ao governo e não tinham conseguido nada. Isso tudo está documentado. Eles foram primeiro no governo. Depois que não conseguiram vender a vacina, vieram a mim. Com outro nome, com outra proposta”, disse o pastor à reportagem. 

Imagem: Reprodução da reportagem do Jornal O Globo

Durante o fechamento desta matéria foi divulgado pela imprensa que em uma das mensagens do cabo da PM Luiz Dominguetti, que intermediava vacinas com a ajuda de Amilton Gomes, aparece menção à esposa de Jair Bolsonaro, Michelle Bolsonaro, o que estenderia o alcance do religioso ao Palácio do Planalto.

Nas novas mensagens, Dominguetti comenta assustado sobre os avanços do reverendo. “Michele (sic) está no circuito agora. Junto ao reverendo. Misericórdia”, escreve. O interlocutor se mostra incrédulo diante do nome da primeira-dama. “Quem é? Michele Bolsonaro?” E Dominguetti retorna: “Esposa sim”.

Deputado da Bancada Evangélica deu apoio a negociações via SENAH

Em quatro de julho, tanto a Agência Pública quanto o jornal Folha de S. Paulo publicaram reportagens sobre o apoio do deputado federal da Bancada Evangélica Roberto de Lucena (Podemos-SP) às negociações de vacinas envolvendo a SENAH.

No documento obtido pelas reportagens, consta que o parlamentar parabenizou a SENAH e Amilton Gomes “na interlocução entre laboratórios e governo”. Roberto de Lucena é pastor da Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil para Cristo, faz parte da Frente Parlamentar Evangélica e da Frente Parlamentar Mista Internacional Humanitária pela Paz Mundial (FremhPaz), instituída em 2019 na Câmara Federal, tendo a SENAH (então SENAR) como membro cooperadora.

À Folha de S. Paulo, o parlamentar disse que não viu nada de suspeito no pedido de apoio. “Não se tratava de nenhuma iniciativa comercial, era uma iniciativa humanitária. Naquele momento, a nossa crise era pela aquisição de vacinas, e o propósito deles [SENAH] era poder conversar com organismos internacionais falando sobre a necessidade de vacinas para o Brasil. Eles me pediram para assinar um apoiamento a eles e disseram que estavam pegando apoiamento de vários parlamentares”, afirmou Lucena ao jornal.

Lucena é autor do Projeto de Lei (PL) 1066/2021, que autoriza a aquisição e comercialização de vacinas contra covid-19 pela iniciativa privada e desobriga as empresas a repassar as vacinas ao SUS. O PL foi apresentado depois de sancionada a lei que permite a compra privada de vacinas aprovadas pela Anvisa desde que as doses sejam doadas ao SUS enquanto a vacinação de grupos prioritários não tenha sido finalizada.

Oferta da SENAH a municípios

Além das reuniões com o Ministério da Saúde, a SENAH também enviou proposta de venda das vacinas a Governadores, Prefeitos e Secretários de Saúde. O valor dessa oferta era de US$ 11 por dose de imunizantes da Astrazeneca e da Jonhson & Jonhson.

Na matéria de 4 de julho, a Agência Pública reporta que Amilton Gomes nega ter feito proposta de imunizantes a prefeituras, apesar de a carta obtida pelo veículo ter a assinatura dele. O religioso diz que a iniciativa partiu de um dos diretores da SENAH e que este foi repreendido por isso. Também procurado pela reportagem da Pública, o diretor mencionado, Renato Gabbi, afirma que a organização não faz negociações ou vendas, apenas informa sobre assuntos de grande necessidade nos países em que a SENAH atua.

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Bereia conclui que Amilton Gomes de Paula é, de fato, ligado ao cenário evangélico do Distrito Federal e confirma que as referências às conexões religiosas e políticas existem. Todavia, há lacunas e imprecisões na formação do líder religioso, entre as quais destacamos a ausência de sua vinculação à comunidade dos Ministros Batistas Nacionais – e do registro de sua igreja na Convenção Batista Nacional (CBN), diferentemente de como declara o website da SENAH. Também, é digno de nota que Amilton Gomes use a designação “reverendo”, mais comum entre pastores presbiterianos, metodistas e anglicanos, e que a tenha recebido como título da “Ordem dos Cavaleiros de Sião”. 

O Coletivo Bereia também conclui que as referências institucionais utilizadas pela SENAR/SENAH são imprecisas e que sua profusão pode induzir a erro, pois não é uma instituição governamental, não tem status diplomático, não possui relacionamentos institucionais de subordinação ou coordenação, nem tem autorização oficial para falar em nome da Frente Parlamentar Mista Internacional Humanitária pela Paz Mundial (FREMHPAZ) cujo coordenador é o deputado federal e pastor Fausto Pinato (PP-SP), advogado integrante da bancada evangélica.

A reportagem do Bereia entrou em contato no dia 08/07 com o religioso, que respondeu positivamente ao contato. Amilton Gomes alegou que somente poderia responder à entrevista com anuência de seus advogados. As perguntas sobre as inconsistências do perfil religioso e sobre a suposta intermediação de Gomes na compra de vacinas pelo governo federal foram enviadas no início da noite do mesmo dia, mas até o fechamento desta matéria, não houve resposta. No site oficial da SENAH, há um comunicado que chama as denúncias de envolvimento no esquema fraudulento de compra de vacinas de “fatos totalmente inverídicos e distorcidos da realidade”. A íntegra da nota está reproduzida abaixo:

Íntegra da Nota publicada pela SENAH (Foto: Reprodução/Portal Senah)

A CPI da Covid agendou a oitiva do reverendo Amilton Gomes de Paula para a quarta-feira, 14 de Julho de 2021. O requerimento de convocação o arrolou como testemunha (nº 1065/2021). Porém, em 12 de julho, Gomes apresentou atestado médico para não depor à Comissão no dia agendado.

O Coletivo Bereia segue em busca de informações que elucidem as inconsistências do perfil do líder religioso. Veja aqui a parte 2 desta reportagem.

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Foto de Capa: Youtube/Reprodução

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Referências

Agência Pública, https://apublica.org/2021/07/grupo-evangelico-fez-oferta-paralela-de-vacinas-ao-ministerio-da-saude-e-prefeituras/. Acesso em 1º de julho de 2021.

Diário Oficial da União, https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=08/07/2021&jornal=529&pagina=1. Acesso em 9 de julho de 2021.

Senado Federal, https://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento/download/277be4ef-5ae4-487f-ad57-62586efbcd65. Acesso em 10 de julho de 2021.

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Wayback Machine, https://web.archive.org/web/20201205114553/https://www.usadiplomatic-gov.org/single-post/2014/09/14/His-Excellency-Honorary-Consul-Dr-Amilton-Gomes-De-Paula-Brazil. Acesso em 9 de julho de 2021.

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CNN Brasil, https://www.cnnbrasil.com.br/politica/2021/07/05/diretor-de-imunizacoes-da-saude-diz-que-reverendo-levou-proposta-da-davati. Acesso em 5 de julho de 2021.

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Agência Pública, https://apublica.org/2021/07/deputado-federal-apoiou-grupo-religioso-em-oferta-de-vacinas-ao-ministerio-da-saude/. Acesso em 10 de julho de 2021.

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Convenção Batista Nacional, https://cbn.org.br/2021/institucional/diretoria/. Acesso em 12 jul 2021