Sobre o “Supremo Concílio de Jerusalém” em Manaus

por Grupo de Trabalho de Mulheres do Movimento Ecclesiae Renovare


Eram Maria Madalena, e Joana, e Maria, mãe de Tiago; também as demais que estavam com elas relataram estas coisas aos apóstolos. Tais palavras lhes pareciam como desvario, e não acreditaram nelas. Lucas 24:10-11

Em tempos de intensa mobilização civil contra o PL 896/23 – o PL da Misoginia, a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) articula os preparativos finais para a sua 41ª reunião do Supremo Concílio (SC) no templo da Igreja Presbiteriana de Manaus entre os dias 26 de julho a 2 de agosto de 2026. E por qual razão damos esse enfoque inicial?

Com mais de 160 anos de história, foi o SC/IPB 2018 que resolveu fechar a participação das mulheres nos púlpitos e na distribuição dos elementos da Santa Ceia. Na mesma toada e em progressão, o SC/IPB 2022 radicalizou com a exclusão total das mulheres destes espaços de prática litúrgica. E apesar das insistentes consultas sobre a ordenação de diaconisas, presbíteras e pastoras desde a década de 1960, há uma negligência em ignorar o chamado ao debate sério sob os princípios eclesiológicos e a própria tradição reformada.

As decisões conciliares sobre as mulheres, embora sem a participação das mulheres, carregam o tom majoritariamente contrário às próprias mulheres. E isto quer dizer que são argumentações pretensamente travestidas de rigor bíblico, teológico e confessional para reafirmar a pureza dos cultos e dos tais padrões confessionais contra as agendas seculares. Diante destas justificativas, há quem de maneira alarmada sinta a força e a aceleração centrípeta a partir das carcaças fétidas dos movimentos masculinistas e nacionalistas cristãos made USA e intensifiquem suas preces buscando o socorro de Deus.

Tal qual a fotografia exata da cultura machista de nossa sociedade, é de se notar mesmo que uma grande parcela de homens presbiterianos do séc. XXI (há exceções) experienciaram um forte ímpeto pelo reordenamento das mulheres nas dinâmicas eclesiásticas a partir das mais recentes reuniões do Supremo Concílio.

Irmãs e irmãos da comunidade presbiteriana que ainda não extraíram o dente do siso ficam ironicamente se questionando o que faziam os ilustres presbiterianos antepassados que não se deram conta de um “erro” que estava fora das resoluções normativas e administrativas da IPB. Afinal, em outros tempos, como várias mulheres presbiterianas podiam subir nos púlpitos das igrejas e pregar a palavra de Deus nos cultos de domingo? Ou ainda: como várias outras presbiterianas podiam distribuir o pão e o vinho na celebração da Santa Ceia, inclusive no trabalho pastoral de atendimento às pessoas enfermas e hospitalizadas?

A análise dos documentos que serão aprovados ou não pelo SC/IPB – 2026 podem apontar um recálculo da rota? Será que o editorial do Jornal Brasil Presbiteriano deste mês (Ano 67, nº 860) está revelando a mentalidade que moldará a assembleia de Manaus? Ao tentar traçar um paralelo teológico elástico entre o evento atual e o relato de Atos 15, o editorialista comete um ato falho retumbante. Ironicamente, a comparação sobre o “Supremo Concílio de Jerusalém” confessa o que tenta esconder: o viés estritamente masculino e cultural da estrutura decisória da IPB. O texto do jornal evoca Jerusalém, mas nas entrelinhas nos lembra que o primeiríssimo grande concílio das comunidades cristãs nascentes teve por motivação a desavença sobre a circuncisão. O concílio foi culturalmente motivado e culturalmente resolvido. Um debate de homens, sobre homens e para homens.

Para além da cultura machista e misógina em nossa sociedade amplificada também nos espaços decisórios da IPB, restam a nós os exemplos maiores das comunidades cristãs primitivas que, ainda bem distantes das institucionalidades do “Supremo Concílio de Jerusalém em Manaus” se reuniam em casas, no cuidado mútuo, no ensino e no serviço prático. De fato, o respiro vem das construções teológicas e historicamente documentadas sobre as atuações das mulheres cristãs que foram e continuam sendo as verdadeiras pastoras do cotidiano e as artérias do serviço eclesiástico nas igrejas brasileiras e para além delas.

Em tempo: em nome da transparência e da tão defendida pureza doutrinária, a IPB deveria abrir mão da parceria internacional com a ReFrame Ministries. Registra-se a contradição hipócrita da manutenção de um relacionamento institucional com uma agência cuja denominação-mãe, a Igreja Cristã Reformada da América do Norte (CRCNA) ordena mulheres e defende o igualitarismo. Fica evidente que a IPB flexibiliza seus critérios de isolamento teológico por mera conveniência burocrática. Ou o rigor contra as mulheres só precisa funcionar em terras nacionais?

E vale frisar: o machismo é pecado!

*foto de capa: Unplash

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