Partido dos Trabalhadores desinforma ao citar redução no crescimento de evangélicos

* Matéria atualizada às 19:58. A etiqueta foi atualizada como resposta a questionamento do autor do texto verificado.

Recentemente, o portal oficial do Partido dos Trabalhadores (PT) publicou notícia em que afirma o crescimento de 129% na quantidade de brasileiros autointitulados evangélicos ao longo dos governos liderados pela legenda, enquanto o número seria de apenas 6,5% durante o mandato de Jair Bolsonaro (PL). A publicação aponta, ainda, que a administração atual teria sido responsável por instabilidades, perseguições e desinstituicionalizações dentro do meio evangélico. A notícia foi divulgada em vários espaços digitais de esquerda na forma de card. 

Imagem: Reprodução | Site do Partido dos Trabalhadores

Crescimento no número de evangélicos 

De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, o número total de brasileiros autointitulados evangélicos subiu de 26,2 milhões no ano de 1999, para 42,3 milhões em 2010. Proporcionalmente, os evangélicos passaram de 15,5% para 22,2% no número total de brasileiros, sendo pentecostais, protestantes, religiosos de missão, carismáticos e outras denominações consideradas como evangélicas. 

Imagem: Reprodução | Censo IBGE 2010

É importante salientar que o censo do IBGE é realizado a cada 10 anos. Porém,  o último data do ano de 2010, já que, por decisão do governo federal atrelada aos cortes orçamentários relacionados à pandemia da covid-19, o levantamento que deveria ter sido realizado em 2020, foi suspenso e está em curso atualmente, já em 2022. Este déficit de dados torna especulativa qualquer informação que venha a defender um crescimento, ou diminuição, no número de práticas e de praticantes religiosos no país. 

No entanto, instituições privadas costumam produzir suas próprias aferições de dados. É o caso do  Instituto de Pesquisa Datafolha, vinculado ao jornal Folha de S. Paulo. Mencionado na matéria produzida pelo PT, o Instituto Datafolha conduz pesquisas sob encomenda para veículos de informações e políticos. Sua base de dados tende a se concentrar em centros urbanos e metrópoles, limitando a qualidade da amostra colhida. 

Em pesquisa realizada pelo Instituto em 2016, três em cada dez (29%) brasileiros com 16 anos ou mais atualmente se dizem evangélicos; em 2020, ainda segundo o Datafolha, esse número subiu para 31%, isto é, 65,4 milhões de pessoas.  Isto representaria um aumento de apenas 2% no número de evangélicos no país, dos anos de 2016 a 2020. 

Todavia, os dados provenientes do Datafolha não são um parâmetro oficial adotado para mensuração do crescimento, ou não, no número de evangélicos ou de qualquer grupo religioso. Os resultados alcançados pelo instituto da Folha de S. Paulo dizem respeito a um universo amostral menor do que a parcela colhida pelo IBGE, portanto, não podem ser utilizados para afirmação comparativa referente a governos. Estas pesquisas estimativas são úteis na produção de resultados parciais para uma abordagem geral sobre possível distribuição de fiéis por religiões e sondagem de opinião como intenção de votos, aprovação do presidente etc, mas não configuram uma fonte oficial para ser utilizada na discussão de políticas públicas, como é o IBGE.

Imagem: Reprodução | Site do Partido dos Trabalhadores

Políticas  dos governos petistas voltadas ao público evangélico

A matéria do PT menciona ainda uma série de leis, projetos e acordos firmados entre o governo Lula e instituições religiosas, dentre elas: lei que permitiu que as igrejas e associações religiosas passassem a ter personalidade jurídica, em 2003, proibindo intervenções do Estado nas ações das igrejas e possibilitando a criação de seus próprios estatutos; criação do Dia Nacional da Marcha para Jesus, em 2009; criação do Dia Nacional do Evangélico (30 de novembro), em  2010. 

Tais projetos não se deram apenas por uma boa vontade do então presidente para com os evangélicos, mas, sim, graças ao cumprimento de acordos políticos firmados entre ele, a Bancada Evangélica e lideranças políticas/religiosas. Em igual medida, Bolsonaro se alinha a uma bancada formada majoritariamente por agentes religiosos e realizou a aprovoção de projetos como maior flexibilização da compra de armas de fogos, redução de investimento em ONGs que atuam por direitos relacionados à pauta de costumes, nomeação de evangélicos para primeiro e segundo escalões de ministérios no governo federal, perdão para dívidas de igrejas com a Receita Federal, além de movimentar os debates sobre aborto, família e Direitos Humanos sob uma perspectiva conservadora de sua base aliada.  

O interesse dos presidenciáveis no eleitorado evangélico

O voto dos evangélicos está sendo disputado pelos dois candidatos que lideram as pesquisas eleitorais para Presidente.  Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Messias Bolsonaro (PL) têm buscado o apoio do segmento, que representa aproximadamente 30% da população brasileira, segundo os institutos de pesquisa, e deve ter um peso nas eleições de outubro de 2022.

De acordo com pesquisa do PoderData realizada de 22 a 24 de maio deste ano, Jair Bolsonaro lidera com 46% das intenções de voto entre eleitores evangélicos para o 1º turno, enquanto Lula marca 33%. A distância entre os dois presidenciáveis nesse grupo específico é de 13 pontos percentuais. Na rodada realizada de 8 a 10 de maio, era de 27 pontos. Os números  desmistificam o apoio massivo dos evangélicos a Bolsonaro.

Ainda, segundo dados obtidos por uma pesquisa do Datafolha, também é possível  relativizar  a suposta homogeneidade do voto desses fiéis, principalmente quando se fala sobre as mulheres evangélicas. Entre elas, 39% votariam no petista, enquanto 30% declararam voto no atual Presidente. Os números seguem a tendência dos votos pelo país, que indicam preferência do gênero feminino por Lula. A vantagem do ex-presidente se amplia quando são consideradas mulheres jovens, de 16 a 24 anos, das quais  50% optam pelo candidato do PT, contra 22% que votariam em Bolsonaro. Se comparadacom a intenção de voto dos homens da mesma religião, a situação se inverte, são 46% contra 28% que votariam em Lula. 

Diante deste cenário, de um lado, o atual Presidente procura acenar para o público evangélico ao defender publicamente as chamadas pautas de costume, e até mesmo alçando representantes religiosos a cargos políticos na tentativa de manter o apoio do segmento. Foi através de medidas como essas que Bolsonaro, mesmo se declarando católico, conquistou grande parte do apoio dos evangélicos.

Do outro, o candidato do PT visa se aproximar desse eleitorado. A legenda formou núcleos evangélicos em 21 estados da Federação, a fim de adaptar a comunicação das campanhas aos valores desse segmento religioso.  No início deste mês, o Partido também criou o CEU (Comitê Evangélico Unificado) com o objetivo de enfrentar as fake news que circularam fortemente entre a população evangélica na última disputa eleitoral. De acordo com a pesquisa “Caminhos da desinformação: evangélicos, fake news e WhatsApp no Brasil”, que deu origem ao Bereia e foi realizada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 49%, ou quase metade, dos evangélicos que responderam aos questionários afirmaram ter tido acesso a conteúdo falso. Desses, 77,6% disseram ter recebido as fake news em grupos de WhatsApp relacionados às suas igrejas.

***

Bereia classifica a notícia como IMPRECISA, uma vez que se vale de dados não oficiais, estimativas de pesquisas, para corroborar argumentos de campanha que envolvem políticas governamentais. Como mencionado, as pesquisas de censo IBGE ainda estão sendo realizadas e os resultados divulgados pelo Instituto Datafolha dizem respeito a um universo amostral menor do que a parcela colhida pelo IBGE, além de o primeiro não ser uma fonte oficial do Estado. A matéria em questão cumpre um papel político de reconciliação do PT com o público evangélico, mostrando como a legenda e o povo evangélico lograram conquistas e prosperam durante o governo petista, levando o público leitor a uma compreensão de que durante o governo bolsonarista o pequeno crescimento do número de fiéis seria resultado de um não interesse político nessa comunidade. O crescimento, a estagnação ou decréscimo no número de fiéis de um grupo religioso depende de uma série de fatores socioeconômicos e culturais que precisam ser devidamente avaliados para se produzir uma afirmação como a que foi feita no site do Partido dos Trabalhadores.

Referências de checagem:

PT.

https://pt.org.br/evangelicos-cresceram-129-nos-governos-do-pt-no-governo-bolsonaro-so-65/ Acesso em: 29 jun 2022

https://pt.org.br/blog-secretarias/comite-evangelico-e-criado-com-objetivo-de-combater-as-noticias-falsas/ Acesso em: 29 jun 2022

Veja.

https://veja.abril.com.br/coluna/matheus-leitao/o-crescimento-evangelico-a-proxima-eleicao-e-o-pastor-no-stf/ Acesso em: 29 jun 2022

https://veja.abril.com.br/coluna/matheus-leitao/por-que-a-juventude-brasileira-esta-se-tornando-cada-vez-mais-evangelica/ Acesso em: 29 jun 2022

Terra. https://www.terra.com.br/noticias/brasil/numero-de-evangelicos-cresce-61-no-brasil-diz-ibge,c0addc840f0da310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html Acesso em: 29 jun 2022

IBGE. https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/9662-censo-demografico-2010.html?edicao=9749&t=destaques Acesso em: 29 jun 2022

Folha de São Paulo.

https://datafolha.folha.uol.com.br/ Acesso em: 29 jun 2022

https://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2022/06/1989394-reprovado-por-47-bolsonaro-tem-avaliacao-de-governo-estavel.shtml Acesso em: 29 jun 2022

https://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2022/06/1989391-69-dos-eleitores-discordam-da-frase-o-povo-armado-jamais-sera-escravizado.shtml Acesso em: 29 jun 2022

https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2022/pesquisa-eleitoral/noticia/2022/06/07/datafolha-numero-de-evangelicos-de-direita-e-equivalente-aos-de-esquerda.ghtml Acesso em: 29 jun 2022

http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2022/03/25/Intencao_de_voto_presidente_mar_22.pdf Acesso em: 29 jun 2022

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/06/datafolha-20-dos-eleitores-religiosos-dizem-ouvir-instrucoes-sobre-voto-nas-igrejas.shtml Acesso em: 29 jun 2022

http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2016/12/28/da39a3ee5e6b4b0d3255bfef95601890afd80709.pdf Acesso em: 30 jun 2022

Istoé Dinheiro. https://www.istoedinheiro.com.br/pt-cria-nucleos-evangelicos-em-21-estados/ acesso em: 29 jun 2022

Pesquisa: Caminhos da desinformação: evangélicos, fake news e WhatsApp no Brasil.

https://drive.google.com/file/d/1xl-5aqKfXmYeSPctboBoNqFzj_21yRHO/view Acesso em: 29 jun 2022

Carta Capital. https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/mulheres-evangelicas-olham-para-a-vida-e-resistem-mostram-as-pesquisa-eleitorais/ Acesso em: 29 jun 2022

The Intercept. https://theintercept.com/2022/04/07/macedo-malafaia-negociam-voto-evangelicos-presidente/ Acesso em: 29 jun 2022

Metrópoles.

https://www.metropoles.com/brasil/eleicoes-2022/em-luta-contra-o-mal-bolsonaro-volta-a-defender-pauta-de-costumes Acesso em: 29 jun 2022

https://www.metropoles.com/colunas/guilherme-amado/qual-a-religiao-de-jair-bolsonaro-confusao-o-beneficia-ha-tempos Acesso em: 29 jun 2022

Catarinas. https://catarinas.info/deus-acima-de-todos-o-avanco-do-estado-teocratico-no-governo-bolsonaro/ Acesso em: 29 jun 2022

Poder 360. https://www.poder360.com.br/poderdata/bolsonaro-tem-46-entre-evangelicos-lula-44-entre-catolicos/ Acesso em: 29 jun 2022

Correio Braziliense. https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2022/05/5004555-candidatos-as-eleicoes-de-2022-disputam-o-voto-da-mulher-evangelica.html Acesso em: 29 jun 2022

Vivendo Bauru. https://www.vivendobauru.com.br/qual-e-o-numero-de-evangelicos-no-brasil/ Acesso em: 30 jun 2022

Agência Brasil. http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2003-12-22/lula-sanciona-lei-que-garante-personalidade-juridica-organizacoes-religiosas Acesso em: 30 jun 2022

Imagem de capa: Divulgação/PT

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