por Camila Duarte, Luis Henrique Vieira e Viviane Castanheira
Pastores e políticos evangélicos propagam nas redes discursos conspiratórios de que o governo Lula teria articulado um golpe para ganhar as eleições. Após a decisão judicial de prorrogação do horário da votação, devido a impedimentos ao eleitorado de comparecer, entre 17h e 18h30, as alegações de golpe sobre a votação somaram 428,9 mil publicações e 1,4 milhão de interações nas plataformas digitais, segundo levantamento do Instituto Democracia em Xeque.
As alegações conspiratórias, que geram insegurança no eleitorado, tiram de contexto a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin de prorrogar a votação até às 19h por conta da dificuldade enfrentada por eleitores para comparecer às urnas. A decisão atendeu ao pedido tanto das campanhas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). O STF foi acionado por conta da falta de encaminhamento do TSE no decorrer das horas, diante das queixas comprovadas.
A conspiração nas redes religiosas
O pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia publicou em sua conta no Instagram: “URGENTE! Lula perdeu essa eleição e quer ganhar no tapetão. É UMA VERGONHA O QUE ESTAMOS ASSISTINDO NO BRASIL!”. Quando a mensagem foi publicada, a totalização dos votos estava suspensa, e nenhum resultado oficial havia sido divulgado.
Em vídeo, o pastor afirmou que “o PT quer ganhar no tapetão com sua gente no STF” e que a decisão de um ministro da Corte “desmoraliza” o TSE. Ele questionou a existência dos problemas na Bahia: “Cadê as filas? Ônibus adesivado lá na Bahia, que não deixaram sair com propaganda do PT. Onde é que está isso, gente?”. Malafaia também disse que a apuração “começa no Nordeste e para”, e pediu aos seguidores: “Não caiam nesse jogo sujo”.

A afirmação do pastor não se sustenta. A ausência de filas não prova que não houve problema: o que foi denunciado foi que eleitores não conseguiam chegar às seções por falta de ônibus. A Justiça Eleitoral e o Procon constataram a retenção da frota em Salvador.
A versão dos ônibus adesivados é um comunicado da Prefeitura de Salvador e se refere a 75 veículos, enquanto relatório do Procon no Estado registra 544 ônibus parados nas garagens, mas aptos a operar. Além disso, a divulgação da apuração, iniciada após as 17h, não estava restrita ao Nordeste e incluía as outras regiões. O TSE, em seguida, suspendeu a divulgação da apuração em todo o país para cumprir a decisão que prorrogou a votação até as 19h.
O pastor da Igreja Batista Atitude Josué Valandro Jr., congregação frequentada pela senadora eleita Michelle Bolsonaro (PL-DF), afirmou em vídeo no seu perfil do Instagram que a “esquerda sabe que perdeu a eleição e quer tumultuar as eleições”. Assim como Malafaia, o pastor tratou o resultado como definido antes de qualquer divulgação oficial.

Em seu perfil nas mídias sociais, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) disse que “Todo mundo já sabe que o ex-advogado pessoal do Lula prorrogou as eleições” e que “os petistas criaram em Salvador uma narrativa de que estavam sendo impedidos de votar”.

Cristiano Zanin, de fato, foi advogado de Lula antes de ser indicado ao STF, porém este dado do passado não tem relação com a retirada dos ônibus de circulação em Salvador, nem com o sorteio, do agora ministro, para julgar o pedido de providências, conforme o protocolo da Corte.
Como o Bereia já publicou, o impedimento da mobilidade de eleitores foi confirmado por um juiz do TRE-BA em inspeção e pelo Procon da Bahia. O magistrado da Justiça Eleitoral decretou a prisão do secretário municipal de Mobilidade de Salvador Pablo Souza por crime eleitoral.
O senador eleito Deltan Dallagnol (Novo-PR) publicou vídeo com a mensagem “Gravíssimo: Zanin dá a Lula o caminho para anular as eleições”. Porém a decisão do ministro Zanin não tratam de anulação, diferentemente do que diz o ex-procurador da República. O magistrado determinou a prorrogação do horário da votação e, depois, esclareceu que ela valia apenas para as urnas ainda abertas, com a totalização normal dos votos das urnas já fechadas.
O site gospel Pleno News publicou nas redes digitais um card com a imagem do ex-presidente da Venezuela Nicolás Maduro sobre a bandeira daquele país o título “Em 2015, eleição na Venezuela foi prorrogada; oposição a Nicolás Maduro venceu”.
O card foi publicado logo depois da prorrogação do período de votação, aproximando a decisão do STF de uma suposta manobra do governo de outro país, em outro contexto. As situações não são equivalentes. No Brasil, a prorrogação foi pedida pelas duas campanhas, como já citado nesta matéria, checado pelo Bereia e reportado por outras fontes jornalísticas.
O recém-eleito deputado federal Lucas Pavanato (PL) publicou uma sequência de mensagens no X: “Querem ‘ganhar’ no tapetão? Tentem a sorte!”, “Vamos fazer o que tiver que ser feito para garantir que não roubem a eleição!” e “Entendam: Nessa eleição não aceitamos ‘perder’”. As publicações somavam mais de 300 mil visualizações em menos de uma hora.

Campanha de Flávio também pediu prorrogação da votação
A narrativa de “golpe do PT” omite que a campanha de Flávio Bolsonaro também pediu ao TSE a prorrogação da votação até as 19h, em 17 municípios de São Paulo, Paraná e Santa Catarina atingidos por chuvas. O pedido do candidato inclui ainda que a divulgação dos resultados fosse adiada até o fim da votação nessas cidades.
No despacho em que esclareceu o alcance da decisão, o ministro Zanin registrou: “As duas candidaturas que disputam as eleições presidenciais no segundo turno alegaram problemas no transporte de eleitores, razão pela qual concedi a medida liminar”.
A prorrogação foi decidida pelo STF porque o TSE não se manifestou em tempo. O primeiro pedido foi entregue ao presidente do tribunal, ministro Kassio Nunes Marques, às 13h22, e não foi decidido até o encerramento da votação, às 17h. Como reportado aqui, integrantes do TSE ouvidos pelo portal Vero Notícias, o presidente do tribunal se absteve de decidir e aguardou o posicionamento do STF.
Desde o início do dia, denúncias de que ônibus foram retirados de circulação em diversas cidades do país, dificultando o exercício do direito ao voto, circularam pelas redes digitais e foram amplamente noticiadas pela imprensa.
Às 13:22, a campanha do candidato Lula protocolou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um pedido para estender a votação até as 19h em municípios e zonas eleitorais que enfrentavam problemas de transporte de eleitores.
A solicitação abrangeu Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas, além de áreas do Piauí, da Paraíba, do Paraná, do Pará, do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Alagoas, de Pernambuco e de Roraima. A campanha também pediu que a medida fosse aplicada a outros estados com problemas semelhantes.
O pedido da campanha de Flávio Bolsonaro foi protocolado às 15:27 em nome do próprio candidato, e teve como justificativa as fortes chuvas que atingiram as regiões citadas e prejudicaram o deslocamento dos eleitores.
Referências
Agência Brasil
R7
g1
ICL Notícias
Vero Notícias

