Site gospel repete desinformações de discurso de Trump na Assembleia Geral da ONU

*Com colaboração de Bruno Cidadão

Marcando os 75 anos de existência da Organização das Nações Unidas, a Assembleia Geral deste ano foi atípica: por conta da pandemia da Covid-19, pela primeira vez na história, os líderes globais e suas delegações diplomáticas não se reuniram presencialmente em Nova York. As discussões foram virtuais e congregaram os chefes de Estados por meio de discursos gravados previamente.

Mesmo assim, a realização remota foi apenas um entre os fatos que despertaram a atenção do público e da mídia ao redor do mundo. Isso porque, entre os desdobramentos do encontro anual estiveram em evidência, sobretudo, os discursos dos presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e do chefe do Estado brasileiro, Jair Bolsonaro, conectados pelas críticas e pressões à China e ainda por jogarem luz a temas de cunho religioso.

Neste cenário, o Coletivo Bereia volta sua atenção para uma matéria publicada no portal Gospel Mais no dia 27 de setembro, intitulada: “Trump condena a perseguição religiosa e critica relação da OMS com a China”. De acordo com o conteúdo, o presidente americano teria sido alvo de polêmica durante discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, a ONU, ao criticar a relação da Organização Mundial de Saúde (OMS) com o governo comunista da China. Segundo Gospel Mais, que já contabiliza diversos conteúdos categorizados como imprecisos, enganosos ou mesmo falsos, Trump ainda teria criticado a perseguição religiosa no mundo, tema abordado pelo chefe do Executivo brasileiro ao fazer apelo contra a cristofobia.

Gospel Mais traz uma citação do presidente na ocasião do discurso: “Se a ONU quiser ser uma organização eficiente, precisa focar nos problemas reais do mundo. Isso inclui terrorismo, a opressão de mulheres, trabalho forçado, tráfico de drogas e de pessoas, perseguição religiosa e limpeza étnica de minorias”, disse o americano. Essa foi a única menção à temática religiosa presente na fala do presidente. Mesmo assim, ganhou destaque no título da matéria de Gospel Mais.

O conteúdo afirma também que Trump teria voltado a reiterar suas críticas à OMS, sugerindo que a organização teria omitido dados importantes ao lado da China, durante o início da pandemia do novo coronavírus, o que poderia ter salvado a vida de milhares de pessoas no mundo.

Na página de Gospel Mais no Facebook, que contabilizou 218 curtidas, 10 comentários e 36 compartilhamentos até a data de checagem, a publicação dividiu a opinião dos usuários.

Por dentro do discurso de Trump na Assembleia

No segundo dia do evento, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump, disse que, 75 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial e a fundação das Nações Unidas, o mundo está uma vez mais “envolvido numa grande luta global.” Enquanto líder do país anfitrião, ele foi o segundo a tomar a tribuna na abertura dos debates de líderes internacionais na ONU.

A íntegra do discurso virtual do presidente norte americano foi acessada no portal da CNN Brasil, da qual destacamos alguns trechos que reforçam as pressões que os EUA vêm fazendo à China. “Estamos em uma luta mundial, batalhamos contra um inimigo invisível, o vírus chinês que levou muitas vidas em 188 países. Nos Estados Unidos nós fizemos uma grande mobilização, a maior desde a Segunda Guerra Mundial. Entregamos respiradores, equipamentos e pudemos compartilhar com parceiros no mundo. Criamos tratamentos, reduzindo nossa taxa de mortalidade em 85% desde abril. Três vacinas estão na fase clínica para que possam ser entregues. Vamos distribuir a vacina, vamos combater e derrotar o vírus. Acabar com a pandemia e entrar em uma nova era de prosperidade, cooperação e paz”, disse.

Trump também fez duras críticas à China e ao combate à pandemia do novo coronavírus. De acordo com ele, a Organização Mundial da Saúde (OMS) colaborou para o impasse, em parceria com o governo chinês. “Nesse futuro precisamos responsabilizar a nação que libertou esta praga no mundo: a China. Ela proibiu os voos nacionais, mas permitiu que pessoas voassem para o restante do mundo e infectasse as populações. O governo chinês e a Organização Mundial da Saúde, que é virtualmente controlada pela China, disse que não havia possibilidade de transmissão de pessoa para pessoa, depois disseram que pessoas assintomáticas não espalhariam o vírus. Precisamos responsabilizar a China por suas ações”, criticou.

O presidente norte americano ainda avaliou a saída dos EUA do Acordo de Paris como uma solução para a redução da emissão de poluentes. “A China descarta lixo e plástico nos oceanos, destrói corais e lança mais mercúrio tóxico da atmosfera do que qualquer país no mundo. As emissões de carbono na China são quase o dobro dos Estados Unidos e estão crescendo. Depois que retirei os Estados Unidos do Acordo de Paris, nós reduzimos as emissões mais do que qualquer outro país do acordo. A China não está interessada no meio ambiente, ela está interessada em punir os Estados Unidos e eu não vou aceitar isso. Se os Estados Unidos vão ficar em uma Organização, ela precisa tocar nos problemas reais do mundo: o terrorismo, problema das mulheres, trabalho escravo, tráfico de pessoas, perseguição religiosa. Os EUA sempre serão líder para os direitos humanos”, acrescentou.

“Meu governo está criando oportunidade para mulheres, descriminalização da homossexualidade e protegendo pessoas não nascidas nos EUA. A prosperidade americana é a base da liberdade e segurança no mundo. Em três anos criamos a maior economia da história e estamos fazendo isso novamente”, reforçou.

Apesar do esforço de Donald Trump em culpabilizar a China por destruição do meio ambiente, por irresponsabilidade com a pandemia de coronavírus e ligar o país ao suposto controle da OMS, s as controvérsias em torno deste discurso são observadas. Além de desinformar com exagero nas acusações à China, Trump omite que os Estados Unidos praticam o mesmo tanto quanto ao coronavírus quanto ao meio ambiente. Os ataques discursivos à China são estratégia de disputa geopolítica. Antes mesmo da pandemia, as duas maiores economias do mundo já travavam uma disputa global de interesses econômicos, que chegou a ser caracterizada como nova Guerra Fria ou um período de “grande ruptura sem nenhuma liderança”, como afirmou o economista e professor da Universidade de Columbia (EUA) Jeffrey Sachs, em entrevista à BBC.

Pontos controversos também no discurso de Bolsonaro

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, foi o primeiro líder de Estado a discursar na 75ª Assembleia Geral da ONU. Entre falas que defendem a atuação do governo no combate à pandemia e aos crimes ambientais, Bolsonaro ressaltou as medidas econômicas implementadas em caráter de urgência, acusou a imprensa de espalhar desinformação sobre as queimadas e o desmatamento na Amazônia e Pantanal.

Os argumentos repercutiram até mesmo na mídia internacional. A agência francesa AFP, por exemplo, líder mundial em verificação digital, checou vários pontos da fala do presidente, apontando, sobretudo, para uma “campanha de desinformação” sobre as queimadas na Amazônia e no Pantanal.

Segundo a matéria da AFP, para explicar os incêndios que afetam a floresta amazônica, onde foram registrados 71.673 focos ativos desde o início do ano, Bolsonaro sugeriu que as chamas são causadas por caboclos e indígenas que ateariam fogo na terra para prepará-la para a agricultura. A checagem considera que, embora essa seja uma técnica efetivamente empregada por povos indígenas brasileiros, um levantamento do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) de setembro do ano passado concluiu que uma grande proporção dos incêndios que afetam a região está atrelada ao desmatamento.

A respeito da fala do presidente brasileiro sobre a Covid-19, a AFP também categoriza como “falsa”. Isso porque, apesar de realmente ter demonstrado preocupação com as consequências da pandemia para a economia brasileira desde o início do surto de covid-19, “não é verdade que o presidente Jair Bolsonaro alertou ‘desde o princípio’ para a necessidade de combater o novo coronavírus”, explicita a matéria.

A checagem acrescenta que no dia em que o Brasil registrou a primeira morte pela doença, em 17 de março, Bolsonaro indicou ver “histeria” em algumas medidas implementadas para reduzir a propagação da doença. Em pronunciamento à população em 24 de março, quando o Brasil registrava 46 óbitos e mais de 2.200 casos confirmados de covid-19, o presidente se referiu à doença como uma “gripezinha”. “No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”, afirmou.

Alguns dias depois, em 27 de março, colocou em dúvida os dados de mortes pela doença no estado de São Paulo, que registrava 58 óbitos no momento. “Não pode ser um jogo de números para favorecer interesses políticos. Não estou acreditando nesses números de São Paulo, até pelas medidas que ele [o governador João Doria] tomou”, disse Bolsonaro em entrevista à Band TV. No mesmo mês, segundo a checagem, saiu para passear em Brasília, provocando pequenas aglomerações – já desencorajadas na época, inclusive por seu ministro da Saúde – e disse que o vírus precisaria ser enfrentado mas “não como um moleque”. “Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida. Todos nós iremos morrer um dia”, acrescentou.

Outro ponto citado por Bolsonaro que gerou debate e polêmica foi a questão religiosa, assunto inclusive já abordado pelo Coletivo Bereia em matéria publicada recentemente. Na ocasião, ele fez um apelo à comunidade internacional pelo combate ao que ele chamou de “cristofobia”. Também pregou a defesa à liberdade religiosa. Bolsonaro não mencionou nenhuma outra religião, além do cristianismo. “Faço um apelo a toda a comunidade internacional pela liberdade religiosa e pelo combate à ‘cristofobia’”, disse. A declaração se deu em um momento em que falava de liberdade e ordem democrática. Bolsonaro afirmou que o Brasil é um “país cristão e conservador e tem na família sua base”.

É possível perceber a conexão do discurso do chefe de Estado brasileiro à fala do presidente dos EUA, Donald Trump, o segundo a se pronunciar na assembleia, que também afirmou: “se a ONU quiser ser uma organização eficiente, precisa focar nos problemas reais do mundo”, afirmou. “Isso inclui terrorismo, a opressão de mulheres, trabalho forçado, tráfico de drogas e de pessoas, perseguição religiosa e limpeza étnica de minorias”.

O que os discursos têm em comum?

Essa não é a primeira vez que os líderes se referem, em discursos, a perseguição religiosa, com enfoque nos cristãos. Em fevereiro de 2020, Brasil, EUA e mais 25 Nações entraram em acordo para fundar uma aliança global de combate à intolerância religiosa após praticamente dois anos de discussão sobre o tema.

Em setembro de 2019, Donald Trump teve uma reunião com a cúpula das Nações Unidas para pedir proteção para a liberdade de religião, lembrando episódios de ataques à judeus em sinagogas e a cristãos e muçulmanos ao redor do mundo.

O Coletivo Bereia ouviu Alexandre Brasil, doutor em Sociologia e diretor do Instituto Nutes de Educação em Ciências e Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sobre os esforços brasileiros em se juntar ao governo americano na Aliança Internacional para Liberdade Religiosa. Para ele, a ação é uma estratégia política:

A necessária questão da liberdade religiosa sempre foi uma preocupação da diplomacia brasileira, tendo atuado em diversos momentos e, dentro da tradição brasileira, privilegiando os fóruns internacionais multilaterais. O Brasil sempre ocupou uma importante posição no palco internacional devido a orientação assumida de buscar a conciliação e o diálogo. Em anos recentes o governo brasileiro atuou em processos em vários países em que a liberdade religiosa de cristãos tem sido ameaçada. Isso se deu tanto por meio do diálogo e participação em eventos da alta administração com governos nacionais que ocorreram em fóruns multilaterais, como também em ações concretas visando intermediar e receber refugiados que estão com a vida ameaçada. Nunca houve desconsideração com esse tema, sendo que o que há de novo agora é a proeminência e uso político e estratégico dele. Um ponto central nessa pauta é que a mesma não pode e não deve assumir uma conotação ideológica e política, mas ser enfrentada com a seriedade e complexidade que possui visando, principalmente, a defesa e promoção da vida e dos direitos humanos.

Alexandre Brasil, doutor em Sociologia

Ainda de acordo com Alexandre Brasil, a aliança pode causar efeito inverso, definindo o que chama de “inimigos globais”:

Essa ativa atuação global americana pode ser lida como uma união entre religião e política que pode acabar por definir inimigos globais a partir da questão da liberdade religiosa. Inimigos que também serão da Aliança criada. Assim podemos estar diante de uma conformação similar daquela experimentada por ocasião da Guerra Fria, só que agora a religião acaba por servir como alimento para uma retórica persecutória que elege e estabelece inimigos a serem combatidos. O que vem sendo adotado no governo brasileiro, que reúne tanto católicos como evangélicos, são elaborações que perpassam a questão da liberdade religiosa e que afirmam que essa tem precedência sobre os outros temas dos direitos humanos. Isso tanto no Itamaraty como no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Alexandre Brasil, doutor em Sociologia

Apesar de fazer o esforço de defesa da tolerância religiosa que vem promovendo nos anos mais recentes de seu governo, uma das promessas de campanha de Trump, que foi autorizada no início de seu mandato, foi a de barrar a entrada de viajantes muçulmanos nos EUA, sob o argumento de se defender do terrorismo e defender as fronteiras do país.

Além da política imigratória restrita que marca o discurso de Trump, em outros episódios, o presidente foi conivente com falas xenofóbicas e intolerantes, como aconteceu durante sua campanha em 2016, quando, durante um comício, um eleitor levantou a questão dos muçulmanos como um problema a ser enfrentado pelo país e chamou o então presidente Barak Obama de muçulmano. Diante da fala, Trump concordou e deu uma resposta evasiva.

Já o presidente brasileiro participou, somente em 2019, de 40 encontros religiosos com líderes evangélicos, desconsiderando ainda outras profissões de fé cristãs, como os católicos. O próprio Bolsonaro já afirmou em suas falas que foi eleito graças aos votos da base eleitoral evangélica.

Em 01 de abril de 2019 Bolsonaro visitou o Muro das Lamentações em Jerusalém, ao lado do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. A visita gerou debate na comunidade internacional, pois historicamente o Brasil sempre defendeu a causa palestina, no entanto, o ato, realizado na presença do ministro de Israel foi contra a política brasileira de apoio aos palestinos. Em nota, o grupo palestino, Hamas, condenou a atitude do presidente, o que foi prontamente rebatido em rede social pelo filho de Bolsonaro, o senador, Flávio Bolsonaro, com uma frase intolerante que causou reação aos leitores. “Quero que vocês se explodam”, escreveu Flávio sobre a nota emitida pelo Hamas.

A aliança de países é uma solução para a intolerância religiosa?

Para o doutor em sociologia, Alexandre Brasil, ouvido por Bereia, já existiam fóruns de discussão no sistema internacional de direitos humanos que poderiam articular ações para essa problemática. “Por que não os utilizar?”, questiona Brasil.

Ainda de acordo com Alexandre Brasil, “a questão que se põe faz parte de uma estratégia da política internacional americana em dar precedência sobre os chamados direitos humanos de primeira geração, com foco na liberdade, e desconsiderar todo o avanço acumulado posteriormente que envolve tanto as questões sociais, como também ambientais, culturais e de participação social”.

Questionado se acredita no efetivo combate à intolerância religiosa no Brasil a partir da aliança internacional, Alexandre Brasil é enfático:

Já não estou mais na idade de acreditar em ações visivelmente marcadas por uma determinada agenda ideológica na linha da “cristofobia” anunciada por Bolsonaro em seu discurso na ONU. Essa é a agenda que está na mesa, à qual considero extremamente perigosa e prejudicial para as relações internacionais brasileiras.

Alexandre Brasil, doutor em Sociologia

De acordo com o especialista, há gargalos no sistema de proteção dos direitos humanos no Brasil e, ao invés de melhorias, houve desidratação de áreas de ministérios que estavam envolvidas com a temática no governo de Jair Bolsonaro.

O desafio brasileiro é enorme em relação à temática da liberdade religiosa. O foco e desafio do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos envolve considerar seriamente as ações previstas no último Plano Nacional de Direitos Humanos que possuem três pilares: o incentivo a criação de mecanismos públicos como secretarias, coordenadorias, conselhos e comitês para a promoção de discussões, reflexões e ações relacionadas a promoção do respeito à diversidade religiosa e para o suporte as vítimas. Há também questões que envolvem a necessidade de formação, iniciativas na educação básica, desenvolvimento de pesquisas populacionais e a formação dos servidores públicos que atuam no atendimento à população nas áreas de saúde, educação, assistência pública e segurança pública. Uma terceira frente seria a realização de campanhas e ações públicas visando sensibilizar e ampliar essa discussão. Infelizmente vemos o inverso a isso, com o desmonte de áreas nos Ministérios envolvidos com esta pauta como o da Educação. Uma total incapacidade e desinteresse por parte dos setores da área da cultura e, no caso dos Direitos Humanos, houve a extinção do Comitê que existia, sendo proposta a criação de um novo fórum com menor representação da sociedade civil e que ainda não saiu do papel. O novo comitê proposto tem como foco o tema da liberdade religiosa, sendo que o Brasil é reconhecido internacionalmente como o país campeão de liberdade religiosa no mundo em decorrência da inexistência de leis restritivas à criação e reunião em torno da religião. O nosso desafio, enquanto país, passa por identificar as questões que nos afligem em relação a existente intolerância religiosa e um marcado racismo religioso que tem se dado de forma violenta e segregacionista em relação às religiões afro-brasileiras. Isso precisa ter prioridade na agenda de qualquer esfera pública dedicada à promoção e defesa dos Direitos Humanos.

Alexandre Brasil, doutor em Sociologia

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O Coletivo Bereia categoriza a matéria publicada no portal Gospel Mais no dia 27 de setembro, intitulada: “Trump condena a perseguição religiosa e critica relação da OMS com a China” como enganosa. O veículo reproduz conteúdos, de fato, pronunciados pelo presidente dos Estados Unidos, mas não oferece aos leitores/as a informação de que são falsos.

Recentemente, o Bereia checou diversos conteúdos relacionados à disseminação de desinformações e notícias falsas no Brasil e no mundo envolvendo cristãos e o governo chinês, o que parece ser apenas uma das frentes de algo que vem sendo denominado como a Nova Guerra Fria, tendo a China e outras potências mundiais como protagonistas.

Ademais, o site gospel engana os leitores com um título que destaca o tema da perseguição religiosa, mas este foi apenas uma breve menção do presidente Donald Trump em seu discurso, que, na verdade, enfatizou as críticas à China, não tendo abordado questões referentes a religião.

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Foto de capa: ONU/Reprodução

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Referências de checagem

Trump ataca China e diz que ONU precisa ‘focar nos problemas reais do mundo’. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/2020/09/22/trump-ataca-china-e-diz-que-onu-precisa-focar-nos-problemas-reais-do-mundo Acesso em 29 de setembro de 2020.

Brasil e EUA vão fundar aliança global contra intolerância religiosa. Disponível em: https://br.usembassy.gov/pt/atendendo-ao-chamado-para-promover-a-liberdade-religiosa/ Acesso: 29 de setembro de 2020.

Nas Nações Unidas, Estados Unidos pedem proteção para liberdade de religiosa. Disponível em: https://news.un.org/pt/audio/2019/09/1688152 Acesso em: 29 de setembro de 2020.

Justiça valida decreto de Trump que proíbe entrada de viajantes muçulmanos. Disponível em: https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,justica-valida-decreto-de-trump-que-proibe-entrada-de-refugiados-muculmanos-no-pais,70002369685

AFP. https://checamos.afp.com/incendios-e-pandemia-checamos-discurso-de-bolsonaro-na-assembleia-geral-da-onu-de-2020 Acesso em 30 de setembro de 2020.

Trump é criticado por chamar Obama de muçulmano e ofender a religião. Disponível em: https://www.istoedinheiro.com.br/noticias/economia/20150918/trump-criticado-por-chamar-obama-muculmano-ofender-religiao/300183 Acesso em 29 de setembro de 2020.

Bolsonaro teve 40 compromissos oficiais com evangélicos só em 2019. Disponível em: https://extra.globo.com/noticias/brasil/bolsonaro-teve-40-compromissos-oficiais-com-evangelicos-so-em-2019-24251823.html Acesso em 29 de setembro de 2020.

Bolsonaro visita Muro das Lamentações ao lado de Netanyahu. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/04/01/bolsonaro-visita-muro-das-lamentacoes-ao-lado-de-netanyahu.ghtml Acesso em 05 de outubro de 2020.

Veja a íntegra do discurso de Bolsonaro na ONU com checagens e contextualização. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/09/veja-a-integra-do-discurso-de-bolsonaro-na-onu-com-checagens-e-contextualizacao.shtml Acesso em 29 de setembro de 2020.

Brasil prepara aliança com EUA por defesa da liberdade religiosa.Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/09/brasil-prepara-alianca-com-eua-por-defesa-da-liberdade-religiosa.shtml Acesso em 30 de setembro de 2020.

Flávio Bolsonaro ataca Hamas após crítica ao seu pai: ‘Quero que se explodam’. Disponível em: https://istoe.com.br/flavio-bolsonaro-ataca-hamas-apos-criticas-a-seu-pai-quero-que-voces-se-explodam Acesso em 30 de setembro de 2020.

Mídias sociais e noticiosas circulam desinformação sobre perseguição a cristãos na China. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/midias-sociais-e-noticiosas-circulam-desinformacao-sobre-perseguicao-a-cristaos-na-china/ Acesso em 05 de outubro de 2020.

Mídias continuam a desinformar sobre projetos que obrigam leitura da Bíblia nas escolas públicas

No mesmo dia em que a mídia nacional e a internacional rememoravam os atentados ocorridos em 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, o site Sul21, jornal online dedicado prioritariamente ao noticiário político, segundo definição na seção institucional da página, trouxe a seguinte manchete: “Câmara de Xangri-Lá (RS) torna obrigatória leitura da Bíblia nas escolas municipais”.

Segundo a matéria, a Casa Legislativa do município, localizado no litoral norte do Rio Grande do Sul, havia promulgado no dia 21 de agosto uma lei que torna obrigatória a leitura bíblica nas escolas públicas na cidade. O texto faz referência ao conteúdo publicado originalmente no Projeto de Lei (PL) n. 2.166, de 21 de agosto de 2020, assinado pelo presidente da Câmara, Valdir Machado Silveira (PSC), e pelo 1º secretário, Fábio Júnior Ramos (PP).

Fundamentada pelo texto do PL, a reportagem de Sul21 descreve como seria a inserção das leituras a partir da promulgação da lei. “Segundo o texto (ver ao final), promulgado pela Mesa Diretora da Câmara local, a leitura da Bíblia será de responsabilidade do professor de cada turma e deverá ser feita no início de cada turno escolar (manhã e tarde), podendo o docente autorizar ou não o debate do texto lido. A lei diz ainda que o trecho a ser lido, bem como capítulo e versículo, será escolhido de forma aleatória ou coletiva, ‘quando melhor convier à classe”. Ainda segundo o PL, a leitura única e exclusivamente do livro terá caráter de “tornar o ambiente escolar mais saudável e altruísta”. De acordo com Sul21, a obrigatoriedade teria entrado em vigor a partir da promulgação da lei.

A matéria jornalística salienta a inconstitucionalidade de legislações que tornam obrigatórias a leitura da Bíblia em escolas; elas são desaprovadas pelos juristas uma vez que vão de encontro à laicidade do Estado. A publicação exemplifica ainda o caso da cidade de Florianópolis, que, em 2015, instituiu uma lei que obrigava escolas públicas e privadas a disponibilizarem bíblias e que foi suspensa após ser considerada inconstitucional pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina.

Na página da Sul21 no Facebook, o post sobre o PL em Xangri-Lá, publicado no dia 12 de setembro, gerou comentários de repúdio à iniciativa da Câmara e questionamentos quanto à laicidade de Estado. Foram 68 interações, 24 comentários e 7 compartilhamentos.

Entendendo a laicidade do Estado

Conforme esclarece o advogado Paulo Roberto Iotti Vecchiatti, Estado laico é a condição de um país ou nação que adota uma posição neutra no campo religioso. Também conhecido como Estado secular, tem como princípio a imparcialidade, não apoiando ou discriminando nenhuma religião. Defende ainda a liberdade religiosa a todos os cidadãos e não permite a interferência de correntes religiosas em matérias sociopolíticas e culturais.

Um país laico é aquele que segue o caminho do laicismo, doutrina que defende que a religião não deve ter influência nos assuntos do Estado. O laicismo foi responsável pela separação entre a Igreja e o Estado e ganhou força com a Revolução Francesa.

O Brasil é oficialmente um Estado laico, pois a Constituição Federal e outras legislações preveem a liberdade de crença religiosa aos cidadãos, além de proteção e respeito às manifestações religiosas. O inciso VI do art. 5º desse dispositivo legal estabelece:

VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;”

Constituição Federal de 1988

Vecchiatti reforça que a laicidade do Estado pressupõe a não intervenção da Igreja no Estado, entretanto um aspecto que contraria essa orientação é o ensino religioso nas escolas públicas brasileiras. Já em países não laicos (teocráticos), a religião exerce controle político na definição das ações governativas. Ali, o sistema de governo está sujeito a uma religião oficial, como ocorre no Vaticano (Igreja Católica), Irã (República Islâmica) e Israel (Estado Judeu).

Outro conceito é o de Estado confessional, em que o Estado reconhece determinada religião como sendo a oficial. Apesar disso, não se deve confundir Estado teocrático com Estado confessional, porque no primeiro caso é a religião que define o rumo do país, ao passo que no segundo ela não é tão importante na comparação entre os dois modelos, mas ainda assim tem mais influência do que em um Estado laico, explica o advogado.

Deve-se destacar, no entanto, que um Estado laico não é o mesmo que um Estado ateu, que não permite que os cidadãos professem sua fé; ao contrário, assume igualdade entre todas as crenças e cidadãos que as professam e deve atuar garantir a liberdade de religião. Por essa razão, um PL que decide impor a leitura bíblica em escolas municipais e privilegia os cristãos em detrimento de estudantes e professores não cristãos fere o princípio de laicidade e, portanto, a Constituição. Sendo assim, projetos desta natureza se tornam inconstitucionais.

Outras localidades também já apresentaram PL semelhante ao de Xangri-Lá

O cristianismo é a religião com o maior número de adeptos no Brasil. Dados de uma pesquisa do Instituto Datafolha, que atualizam dados do Censo do IBGE (2010), mostram que 81% da população do país é cristã. O estudo, realizado nos dias 5 e 6 de dezembro de 2019 com 2.948 entrevistados em 176 municípios, revelou que 50% é de origem católica, 31% evangélica, 3% espírita, 2% autodeclarados como pertencentes ao candomblé ou outras religiões afro-brasileiras, 1% de ateus, 0,3% judaicos e ainda 10% autodeclarados como sem religião.

Os números explicam as iniciativas com foco em projetos de lei que visam promover conteúdos cristãos no ensino público. Nesse sentido, casos como o de Xangri-Lá já foram pauta de diversos debates ao redor do país. Recentemente, o Coletivo Bereia realizou checagem de matéria sobre a aprovação na Assembleia Legislativa do Maranhão (Alema) do Projeto de Lei nº 281/2019 que insere a Bíblia como livro obrigatório no acervo bibliográfico indicado pela Comissão de Remição pela Leitura. O documento acrescenta dispositivos à Lei Estadual nº 10.606/2017 que institui o Projeto “Remição pela Leitura” no âmbito das penitenciárias do Maranhão. A proposta foi apresentada pela deputada estadual Mical Damasceno (PTB) e aprovada com a totalidade dos votos dos parlamentares presentes.

A checagem do Bereia traz ainda outro exemplo, dessa vez ocorrido na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp). O PL nº 390/2017 foi vetado em fevereiro deste ano por ser considerado inconstitucional sob o argumento de que legislação penal é de competência do Senado e da Câmara, e não da Alesp, como prevê a Constituição.

Em São Luís (MA), decreto sancionado pelo então prefeito Tadeu Palácio (à época no PDT), em 20 de março de 2003, tornou obrigatório que as escolas municipais do ensino fundamental adotassem a leitura da Bíblia antes do início das aulas.

Por se tratar de um projeto inconstitucional, foi proposto e vetado, assim como ocorreu em outras cidades que também desejavam incluir a leitura bíblica ao ensino municipal. Foi o caso de Nova Odessa (SP), em 2014, em que projeto de autoria do vereador Vladimir Antônio da Fonseca (SDD) – e que foi vetado pelo prefeito Benjamin Bill Vieira de Souza (PSDB) – previa a leitura de um versículo bíblico por dia para os alunos do 1º ao 5º ano .

A inconstitucionalidade da lei também foi declarada no Rio de Janeiro em 2015 sobre a Lei nº 5.998/11, que obrigava escolas públicas e privadas a terem um exemplar da Bíblia em sua biblioteca. O Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio determinou que a lei feria o princípio de neutralidade das religiões.

Em dezembro de 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) negou pela terceira vez o recurso da Prefeitura de Manaus (AM), que pedia para manter as determinações previstas na Lei n. 1.679/2012 que obrigava que todos os espaços públicos municipais de leitura dispusessem de um exemplar da Bíblia. O projeto de lei, de autoria do então vereador Marcel Alexandre, já havia sido derrubado pelo Tribunal de Justiça do Amazonas em julho de 2018.

Valdir Machado Silveira (PSC), autor da lei proposta recentemente pela Câmara de Xangri-Lá (RS), é pastor evangélico e cantor gospel. A justificativa para o projeto não é religiosa, conforme ele afirmou. Segundo o vereador, por meio da leitura bíblica quer “tornar o ambiente escolar mais saudável e altruísta”.

O Coletivo Bereia entrou em contato com a Câmara Municipal de Xangri-Lá para apurar a proposição do PL. De acordo com a diretora legislativa, Camila Galvão, trata-se de um projeto aprovado em 2019, mas não sancionado pelo Executivo. A proposta veio à tona novamente, por meio do Projeto de Lei nº 2166, aprovado novamente pelos vereadores, mas ainda não sancionado pela Prefeitura.

De acordo com  Ministério Público Federal (MPF), em 2019, o órgão encaminhou ao procurador-geral de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul representação por inconstitucionalidade do referido PL. A atuação foi do procurador Regional dos Direitos do Cidadão, Enrico Rodrigues de Freitas.

Para o MPF, é evidente a inconstitucionalidade material da norma, uma vez que o STF possui vasta jurisprudência na análise das diretrizes e limites da laicidade do Estado, bem como da liberdade religiosa do cidadão. Dessa forma, a imposição de leitura e autorização/indução de debate confessional em horário escolar regular, em período de disciplinas de matrícula obrigatória, ofende tanto a Constituição Federal quanto a Constituição do Estado do Rio Grande do Sul. Além disso, viola a Lei de Diretrizes e Bases da Educação e o Estatuto da Igualdade Racial.

Soma-se a isso o fato de que a lei municipal também sofre de inconstitucionalidade formal, pois compete privativamente à União legislar sobre diretrizes e bases da educação nacional, e à União, aos estados e ao Distrito Federal legislar concomitantemente sobre educação, cultura, ensino, desporto, ciência, tecnologia, pesquisa, desenvolvimento e inovação. Não é permitido ao município editar a lei por faltar-lhe competência legislativa.

Portanto, Bereia classifica a matéria do Jornal Sul21 como imprecisa, uma vez que oferece conteúdos verdadeiros, porém sem considerar as diferentes perspectivas e não contextualizar a situação em questão. O site não explica que o PL que tornaria obrigatória a leitura bíblica em escolas de Xangri-Lá foi promulgado pela Câmara dos Vereadores, mas ainda não foi aprovado pelo Executivo.

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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Referências de checagem

A Crítica, https://www.acritica.com/channels/manaus/news/stf-afirma-ser-inconstitucional-lei-que-exige-biblia-em-escolas-de-manaus. Acesso em: 15 set 2020.

BemParaná, https://www.bemparana.com.br/noticia/leitura-obrigatoria-da-biblia-em-escolas-e-vetada-no-interior-de-sp#.X2DrtWhKjIW. Acesso em: 15 set 2020.

Constituição Federal, http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm Acesso em: 13 set 2020.

ConsultorJurídico, https://www.conjur.com.br/2015-out-06/inconstitucional-lei-rio-obriga-escolas-terem-biblia. Acesso em: 15 set 2020.

Extraclasse, https://www.extraclasse.org.br/politica/2020/09/vereadores-de-xangri-la-aprovam-lei-que-obriga-leitura-da-biblia-nas-escolas-publicas/. Acesso em: 15 set 2020.

Lei Ordinária n. 4.160/2003, https://leismunicipais.com.br/a1/ma/s/sao-luis/lei-ordinaria/2003/416/4160/lei-ordinaria-n-4160-2003-torna-obrigatorio-que-as-escolas-municipais-de-ensino-fundamental-adotem-a-leitura-da-biblia-antes-das-aulas-e-da-outras-providencias?r=p. Acesso em: 15 set 2020.

Ministério Público Federal, http://www.mpf.mp.br/rs/sala-de-imprensa/noticias-rs/mpf-representa-por-inconstitucionalidade-de-lei-que-torna-obrigatoria-a-leitura-da-biblia-nas-escolas-publicas-de-xangri-la-rs. Acesso em: 17 set 2020.

Revista Jus Navigandihttps://jus.com.br/artigos/11457. Acesso em: 15 set 2020.

Sul21, https://www.sul21.com.br/cidades/2020/09/camara-de-xangri-la-rs-torna-obrigatoria-leitura-da-biblia-nas-escolas-municipais/. Acesso em: 13 set 2020.

Sul21, https://www.facebook.com/Jornal.Sul21/. Acesso em: 13 set 2020.

Deputada católica Bia Kicis continua a publicar desinformação sobre covid-19

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No dia 16 de agosto, a deputada federal católica Bia Kicis (PSL/DF) divulgou em sua página no Twitter uma postagem contendo relato do político evangélico Syllas Valadão (PSL/MG). Acompanhando a publicação em que Syllas Valadão descreve o falecimento de uma tia, de 84 anos, diagnosticada com Covid-19, apesar da causa da morte supostamente ter sido problemas pulmonares, a legenda do post de Bia Kicis salientou: “Esse tipo de relato preocupa. Conheço o Syllas Valadão, é uma pessoa real que conta a história da morte de sua tia de 84 anos, e as razões pelas quais muitas famílias acabam sendo induzidas a aceitarem um atestado de óbito de covid mesmo quando não corresponde de à realidade”.

Até a data de apuração da presente matéria, o tuíte contabilizava 93 comentários, 671 retuítes e 1.900 curtidas. De acordo com o relato compartilhado pela deputada federal, as prefeituras arcariam com o gasto de sepultamentos em casos de morte pela Covid-19, o que geraria interesse econômico das famílias das vítimas para constatação da doença em atestado de óbito.

Desde a instauração da pandemia no país, foram refutadas, por meio de agências de checagens, as alegações de que os estados e municípios recebem dinheiro do governo federal a cada notificação de morte por Covid-19. Nas mídias digitais, circularam desinformações segundo as quais os governadores estariam então superestimando o número de óbitos. À agência Aos Fatos, o Ministério da Saúde informou que não faz qualquer repasse em função do volume de mortes pelo novo coronavírus. Os recursos da União para estados e municípios são divididos com base em critérios como o tamanho da população e a complexidade do serviço prestado.

Ainda segundo o suposto relato de Syllas Valadão, postado por Bia Kicis, isso teria se tornado uma prática nos hospitais, e os próprios médicos se ofereceriam para colocar o Covid-19 como a causa da morte para que as famílias economizassem com o sepultamento.

O relato colocou em xeque os números evidenciados pela doença. “Então, não tivemos 100 mil mortes por covid no Brasil. Nem a metade disso. Tivemos sim, milhares de pessoas que economizaram no sepultamento. É o velho jeitinho brasileiro. O pobre ganha, o hospital ganha, a funerária ganha. É o cenário perfeito para formar uma quadrilha”, finaliza o depoimento.

Na mesma data, em seu perfil no Facebook, Syllas Valadão chegou a postar a arte contendo o relato, produzida por Bia Kicis.

Entenda a polêmica que envolve Bia Kicis e a disseminação de fake news

Em 22 de julho, Bia Kicis foi retirada da vice-liderança do governo na Câmara dos Deputados pelo presidente Jair Bolsonaro. A decisão foi publicada em edição extraordinária do Diário Oficial da União (DOU). De acordo com matéria publicada pelo jornal “O Tempo”, a decisão do presidente Jair Bolsonaro se deu após Kicis e outros seis deputados votarem contra a PEC que tornou o Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) permanente. Foram 499 a favor. Sobre a polêmica acerca do voto, a parlamentar afirmou à jornalista Natuza Nery, do canal GloboNews, que agiu conforme sua consciência.

“Eu votei de acordo com a minha consciência. Aliás, eu segui o exemplo do presidente Jair Bolsonaro que, quando foi parlamentar, só votou de acordo com a confiança dele. Para mim, ele é um modelo e continua sendo um modelo”.

Bia Kicis integra a ala bolsonarista mais próxima do Planalto. Com frequência, defende as pautas do governo e manifesta apoio ao presidente, seja em atos públicos, seja nas redes sociais digitais.

Ela faz parte do grupo de parlamentares incluídos no inquérito que apura a organização e financiamento de atos antidemocráticos, que está no Supremo Tribunal Federal (STF). Houve, até mesmo, quebra de sigilo bancário dela e de outros nove deputados. Bia Kicis também é alvo no inquérito das fake news, que investiga ataques contra ministros do Supremo, bem como informações falsas a respeito dos magistrados.

De acordo com o levantamento do Radar Aos Fatos – um monitor de desinformação em tempo real –, Bia Kicis é a terceira congressista que mais disseminou notícias falsas sobre o novo coronavírus, atrás apenas dos deputados Osmar Terra (MDB-RS) e Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

A análise considerou os 1.500 tuítes sobre o assunto com mais interações (retuítes e curtidas) publicados por membros da Câmara dos Deputados e do Senado (incluindo suplentes e licenciados) entre 20 de fevereiro e 8 de abril. No total, foram encontradas 159 postagens com desinformação veiculadas por 22 parlamentares e que somavam cerca de 1,58 milhão de interações no período.

Fonte: Aos Fatos

Em março, ela relatou em suas redes sociais digitais sobre um porteiro que morreu em um acidente, mas em seu atestado de óbito a causa da morte tinha sido atribuída à Covid-19. A notícia, que circulou em redes sociais digitais e em grupos de WhatsApp, junto com o suposto atestado de óbito, foi considerada como parcialmente verdadeira. Uma versão anterior desse texto informava incorretamente que ela era falsa: de fato, ele não morreu em decorrência do novo coronavírus, mas sua morte não se deu por causa de um acidente com um pneu. Segundo apontado por matéria do UOL, a Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco esclareceu que a certidão de óbito do paciente foi preenchida com erro.

Em 4 de abril, a deputada federal publicou um banner afirmando que a Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador de medicamentos nos Estados Unidos, liberou a hidroxicloroquina para ser usada em pacientes com coronavírus, chamado na peça de divulgação de “vírus chinês”.

Na ocasião, a Agência Lupa realizou a checagem e mostrou que o órgão aprovou apenas o uso emergencial de alguns produtos com sulfato de hidroxicloroquina e fosfato de cloroquina no tratamento de pacientes com Covid-19. A agência categorizou a postagem como falsa, uma vez que o FDA não havia emitido parecer final sobre o assunto: a autorização seria temporária e para situações específicas.

Fumo, obesidade e Covid-19

Segundo a explicação do Instituto Nacional de Câncer (Inca):

“O tabaco causa diferentes tipos de inflamação e prejudica os mecanismos de defesa do organismo. Por esses motivos, os fumantes têm maior risco de infecções por vírus, bactérias e fungos. Os fumantes são acometidos com maior frequência por infecções como sinusites, traqueobronquites, pneumonias e tuberculose. Além disso, o consumo do tabaco é a principal causa de câncer de pulmão e importante fator de risco para doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), entre outras doenças. Pelo exposto, podemos dizer que o tabagismo é fator de risco para a Covid-19. Devido a um possível comprometimento da capacidade pulmonar, o fumante possui mais chances de desenvolver sintomas graves da doença”.

Em seu Programa Nacional de Controle do Tabagismo, o Inca, em texto informativo atualizado no dia 26 de agosto de 2020, explica também:

“Os riscos do tabagismo também estão relacionados ao contágio, pois o ato de fumar proporciona constante contato dos dedos (e possivelmente de cigarros contaminados) com os lábios, aumentando a possibilidade da transmissão do vírus para a boca. O uso de produtos que envolvem compartilhamento de bocais para inalar a fumaça — como narguilé (cachimbo d´água) e dispositivos eletrônicos para fumar (cigarros eletrônicos e cigarros de tabaco aquecido) — pode facilitar a transmissão do coronavírus. Há ainda o tabagismo passivo (não fumantes que convivem com fumantes na mesma casa ou em outros ambientes), que aumenta o risco de infecções respiratórias agudas. Por esses motivos, a Organização Mundial da Saúde (OMS), o INCA e diversos órgãos da saúde, encorajam as pessoas a pararem de fumar para minimizar os riscos associados à pandemia de Covid-19, tanto para os fumantes quanto para as pessoas expostas ao fumo passivo”.

Além disso, pesquisadores franceses do Instituto Lille Pasteur examinaram 124 pessoas internadas em virtude do Sars-Cov-2 de 27 de fevereiro a 5 de abril de 2020.

“Os resultados mostraram que 47,6% eram obesas (ou seja, apresentavam índice de massa corporal, o IMC, maior que 30) e 28,2% tinham obesidade grave (IMC maior que 35). Os cientistas notaram ainda que 85 pacientes (68,6% do total) utilizaram ventilação mecânica, e a proporção foi maior entre os obesos graves (85,7%)”.

De olho nos dados, eles concluíram que a seriedade da infecção aumenta à medida que o IMC cresce. No entanto, os cientistas não se debruçaram sobre os motivos por trás dessa relação. Mas pesquisadores da Universidade de Nova York avançaram nessa questão e relataram que os casos mais graves eram aqueles com maior número de marcadores inflamatórios no corpo. Identificaram também que as lesões provocadas por essa inflamação exacerbada levaram à formação de coágulos, culminando em quadros de trombose e embolia pulmonar. Segundo o trabalho, a doença crônica com a associação mais forte a essa cascata de eventos é a obesidade.

Em entrevista ao Bereia, a médica Dolores Souza, do Rio de Janeiro, declarou que a idade avançada, o tabagismo e a obesidade podem prejudicar a saúde do ser humano, levando a maior predisposição a doenças que podem levar à morte, incluindo Covid-19.

Sendo assim, apesar de não ser possível afirmar que essa doença tenha sido a causa do óbito da tia de Syllas Valadão, a presença dessas comorbidades não exclui a possibilidade de Covid-19 como causa de óbito; mais ainda, elas aumentam o risco de mortalidade pelo coronavírus, uma vez que a infecção ocorre em um organismo com imunidade baixa.

Prefeituras e sepultamentos

Bereia não encontrou nenhuma informação a respeito de prefeituras arcarem com os custos de sepultamento de vítimas da Covid-19. O que existe é uma flexibilização para o registro do atestado de óbito. No município do Rio de Janeiro , por exemplo, o registro do atestado de óbito em cartório não precisa ser feito no mesmo dia do sepultamento Segundo matéria da Isto É, “A medida consta na resolução publicada no dia 27 de abril de 2020 pela Secretaria Municipal de Infraestrutura, Habitação e Conservação e é válida apenas durante o período da pandemia da Covid-19. O objetivo é dar mais agilidade ao serviço de enterro ou cremação”.

Syllas Valadão e fake news

Em 2018, Syllas Valadão, mineiro, primo do fundador da Igreja Batista da Lagoinha, concorreu ao cargo de deputado federal (PSL) por Minas Gerais, recebendo mais de três mil votos, mas não foi eleito. Em 2012 e em 2016, ele disputou uma vaga de vereador, pelo DEM, e recebeu 193 e 154 votos, respectivamente.

Fundador do Instituto Patriotas Direita Nacional, afirma em seu site que foi o primeiro a realizar uma palestra contra a ideologia de gênero no Brasil.

No dia 18 de julho de 2020, Valadão compartilhou uma notícia falsa no Facebook, afirmando que a vacina contra a Covid-19 era armadilha para a população.

Não foi a primeira notícia falsa que Syllas Valadão compartilhou em seu Facebook. No dia 27 de junho, também foi encontrada situação semelhante em uma de suas publicações:

O mesmo ocorreu no dia 13 de junho de 2020 com outra postagem:

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Diante do que foi apresentado, Bereia conclui que a postagem da deputada Bia Kicis, com o relato de Syllas Valadão, é enganosa, por indicar que uma pessoa idosa, tabagista e obesa não possa morrer por Covid-19. Outro engano identificado é o de afirmar que prefeituras estariam custeando os sepultamentos de vítimas do novo coronavírus. Assim, tanto Syllas Valadão quanto a deputada Bia Kicis apresentam informações para confundir o público.

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Foto de capa: Câmara dos Deputados/Reprodução

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Referências de checagem

Twitter de Bia Kicis. https://twitter.com/Biakicis/status/1295130687767486467/photo/1. Acesso em: 02 set 2020

Aos fatos. https://www.aosfatos.org/noticias/e-falso-que-estados-recebem-verba-federal-cada-obito-registrado-por-covid-19/. Acesso em: 24 ago 2020.

Cotado para Saúde, Osmar Terra é o congressista que mais publicou desinformação sobre Covid-19 no Twitter. https://www.aosfatos.org/noticias/cotado-para-saude-osmar-terra-e-congressista-que-mais-difundiu-desinformacao-sobre-coronavirus-no-twitter/ Acesso em: 2 set 2020

O Tempo, https://www.otempo.com.br/politica/afastada-da-vice-lideranca-por-bolsonaro-bia-kicis-diz-que-seguiu-consciencia-1.2363226 Acesso em: 24 ago 2020.

Agência Lupa,https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2020/04/13/verificamos-fda-liberou-hidroxicloroquina-todos-pacientes-covid-19/ Acesso em: 24 ago 2020.

UOL,https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/03/29/deputada-do-psl-divulga-fake-news-do-borracheiro-sobre-coronavirus.htm Acesso em: 24 ago 2020.

INCA (Instituto Nacional do Câncer),https://www.inca.gov.br/perguntas-frequentes/quem-fuma-faz-parte-do-grupo-de-risco-para-o-coronavirus-covid-19 Acesso em: 27 ago 2020.

INCA (Instituto Nacional do Câncer),https://www.inca.gov.br/programa-nacional-de-controle-do-tabagismo/tabagismo-e-coronavirus Acesso em: 27 ago 2020.

Veja Saúde, https://saude.abril.com.br/medicina/obesidade-fator-de-risco-covid-19-coronavirus/ Acesso em: 27 ago 2020.

IstoÉ Dinheiro, https://www.istoedinheiro.com.br/prefeitura-do-rio-de-janeiro-flexibiliza-registro-do-atestado-de-obito/ Acesso em: 27 ago 2020.

Biografia resumida de Syllas Valadão, http://syllasvaladao.com.br/biografia/ Acesso em: 25 ago 2020.

Facebook de Syllas Valadão, https://www.facebook.com/syllasvaladaoBH/posts/3054331494614507 Acesso em: 25 ago 2020.

Facebook de Syllas Valadão, https://www.facebook.com/syllasvaladaoBH/posts/2996020377112286 Acesso em: 25 ago 2020.

Facebook de Syllas Valadão, https://www.facebook.com/syllasvaladaoBH/posts/2958235044224153 Acesso em: 25 ago 2020.

Mídias sociais e noticiosas circulam desinformação sobre perseguição a cristãos na China

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Circula em mídias digitais de apoio ao Presidente Jair Bolsonaro a notícia do site Gazeta Brasil que o Partido Comunista Chinês obriga chineses a tirar imagens cristãs de suas casas. A origem do conteúdo está em uma publicação na revista eletrônica Bitter Winter, de 16 de julho de 2020, com o título: “People on Social Welfare Ordered to Worship CCP, Not God” [Pessoas em assistência social ordenadas a adorar o PCCh, não a Deus]. A partir da denúncia apresentada pelo Bitter Winter, outros veículos do Brasil também noticiaram a suposta ação chinesa, como a Rede Record, o jornal O Estado de São Paulo, o site gospel Pleno News.

No portal cristão CBN NEWS, a reportagem intitulada: “Communists Use COVID as Pretext for Persecution: Xi’s China Church Crackdown Worse Than Under Mao”, [Comunistas usam COVID como pretexto para perseguição: repressão do presidente chinês Xi Jinping à Igreja é pior do que à época de Mao], publicada no dia 29 de julho de 2020, reforça a ideia de uma possível perseguição do governo chinês aos cristãos.

Página de apoio ao presidente Jair Bolsonaro no Instagram

As matérias afirmam que chineses cristãos estariam sendo perseguidos pelo governo chinês, ameaçados de perder benefícios sociais em meio à pandemia do novo coronavírus por causa de sua fé. Ademais, imagens de Jesus Cristo estariam sendo trocadas por fotografias de Mao, reuniões religiosas sendo proibidas e haveria a orientação para que os cidadãos deixassem de adorar Deus e passassem a adorar o Partido Comunista.

A origem destas matérias no Brasil tem sido a revista eletrônica Bitter Winter, cujos textos são caracterizados por imprecisão – não indicam as fontes das informações que oferecem, o que torna difícil a comprovação, não contextualizam as situações expostas e as referências são sempre genéricas, “o governo de uma cidade…”, “um membro de uma igreja de três pessoas em uma das aldeias…”, “Um pregador de uma igreja doméstica…” Um exemplo de imprecisão também diz respeito a não menção a quais igrejas e quais cristãos estariam sendo proibidos de reunir e obrigados a entregar imagens de Jesus Cristo. Nesse último caso, deveriam ser mencionados católicos romanos ou ortodoxos, que são os grupos cristãos que tem imagens como objeto de devoção, mas esta informação é omitida nas matérias.

A tentativa de relacionar o governo chinês com perseguições religiosas não é algo novo.

Tema já foi alvo de checagens pelo Coletivo Bereia

O aumento de fake news e desinformações envolvendo a China tem sido algo recorrente. Essa constatação pode ser evidenciada por meio de diversas checagens realizadas pelo Coletivo Bereia ao longo dos últimos meses, que foram capazes de classificar conteúdos como imprecisos ou mesmo enganosos.

Em 23 de abril deste ano, o Bereia categorizou como “imprecisas” as notícias sobre a proibição de cultos online na China reproduzida pelo site Guia-me, que também se baseou em uma publicação do Bitter Winter. Nenhum dos 13 sites que publicaram a notícia apresenta o contexto da situação religiosa no país ou oferece a fonte da Lei chinesa que demonstra as medidas restritivas de transmissão on-line – o que impede o leitor de acessar e confirmar a informação.

Além disso, a matéria do Guia-me e da Bitter Wintter não evidenciam a outra perspectiva do fato, de que transmissões on-line de atividades religiosas são permitidas, desde que atendam às diretrizes exigidas pelo governo chinês, conforme relatou ao Bereia o estudante brasileiro que vive há anos na China. “Embora tenha tido bastante repercussão e mostre uma faceta da repressão religiosa na China, a notícia pode mais dificultar do que contribuir com o cenário construído ao redor do mundo entre governo chinês e igrejas.”

Já em 28 de maio, outra notícia foi categorizada como “Imprecisa” pela equipe de checagem do Bereia, que dava conta da demissão de professores cristãos na China. Isso porque, mesmo com um histórico de conflitos entre o governo chinês e igrejas cristãs, não foi possível confirmar a veracidade das informações publicadas. Como observado, as publicações da Bitter Winter não têm autoria identificável, apresentam fontes desconhecidas e apenas relatos sem comprovação possível, o que caracteriza a prática de desinformação.

A agência Bitter Winter iniciou suas atividades em maio de 2018 e declara ter seu conteúdo voltado para a liberdade religiosa e direitos humanos na China. Segundo o site, o diferencial do portal é uma rede com centenas de correspondentes na China, que normalmente fornecem fotografias e vídeos sobre os casos ali retratados. No entanto, na notícia destacada matéria do Coletivo Bereia de maio, a única fonte citadas é uma professora cuja identidade não é registrada.

No mês seguinte, mais precisamente em 12 de junho, o Bereia concluiu como “imprecisa” a publicação sobre possíveis demolições de igrejas em território chinês realizada pelo Bitter Winter. A equipe chegou a entrevistar um jovem cristão brasileiro que faz mestrado em uma universidade chinesa. O jovem, que preferiu não ser identificado, explicou: “Eu acho que esse tipo de entrevista [da Bitter Winter] ofusca o bom testemunho que realmente pode levar o governo a entender o quão importante é a igreja na hora de crise social”. Portanto, a imprecisão se manifesta uma vez o site noticioso, que não cita dados suficientes para que o leitor possa comprovar a informação, “recicla” fatos ocorridos no passado como se fossem atuais, além de enganar ao sugerir na manchete que as informações seriam de um relatório.

No podcast “Joio ou Trigo”, a jornalista do Bereia, Juliana Dias tratou deste caso e destacou que o site Bitter Winter parece ser a única e principal fonte primária de notícias da China republicadas pelos sites gospels brasileiros. “As publicações do Bitter Winter sobre perseguição religiosa na China seguem sempre o mesmo formato: não são assinadas, não possuem qualquer nome de fontes divulgado por supostas questões de segurança. As fotos que acompanham as matérias são retiradas da internet e não há nenhuma evidência além de relatos hipotéticos e declarações”, ressalta Juliana.

Em 15 de abril, Bereia identificou como “enganoso” o conteúdo publicado pelo site de notícias Conexão Política, braço político do grupo Conexão Cristão – um grupo de mídia independente de evangélicos. O texto era intitulado: “Partido Comunista Chinês avança no Brasil: empresa pública federal brasileira EBC e China Media Group firmam acordo para “troca de conteúdos”. A redação do Conexão Política registrou como fonte a notícia da Agência Brasil/EBC de 13 de novembro de 2019 intitulada “EBC e China Media Group firmam acordo para troca de conteúdos”. A partir daí, Conexão Política reproduziu como atual um fato publicado cinco meses antes, com título que alterava substancialmente a mensagem da original – negociação do governo brasileiro com o Partido Comunista Chinês e não com China Media Group – com o acréscimo de ironia, por meio do termo “troca de conteúdos” colocado entre aspas.

Tensões entre China e potências globais despontam como possível nova Guerra Fria?

A disseminação de desinformações e notícias falsas envolvendo cristãos e o governo chinês parece ser apenas uma das frentes de algo que vem sendo denominado como a Nova Guerra Fria, tendo a China e outras potências mundiais como protagonistas.

Nas últimas décadas, a emergência da China como potência mundial ampliou os laços políticos e econômicos do país com o resto do mundo. Contudo, desde a eleição de Donald Trump para Presidente dos Estados Unidos, em 2016, que adota uma retórica contrária ao governo de Pequim, percebe-se uma mudança nas relações da China com vários países.

Especialistas dizem que a Casa Branca está subindo o tom de sua campanha contra Pequim — em um momento em que Trump está em campanha pela sua reeleição. Desde o começo de 2020, China e Estados Unidos já vêm trocando farpas em relação à pandemia do novo coronavírus, que começou com um surto na cidade chinesa de Wuhan.

O jornalista Kennedy Alencar, em sua coluna afirma que o presidente Trump acirra uma nova Guerra Fria, agora com o China, para tentar se eleger. Trump estaria criando, na avaliação de Alencar, teorias conspiratórias para esconder sua má gestão diante da pandemia. Trump tem declarado que o coronavírus seria um vírus chinês e Pequim teria deixado – de propósito – o vírus se espalhar por todo o mundo. Mesmo que essas declarações não tenham sustentação, o presidente estadunidense busca uma ressonância nos setores mais conservadores da sociedade estadunidense. O presidente Donald Trump chegou a fechar uma embaixada chinesa no Texas, enquanto o governo chinês fechou um consulado americano em seu país. A China, na avaliação de Kennedy Alencar, tem interesse na reeleição de Trump, pois esse, por conta das suas ações e posturas, isolaria cada vez os EUA no cenário global. E, por isso, evita rechaçar de forma mais direta as declarações e ataques de Donald Trump.

Em março, o governo dos Estados Unidos já acusava Pequim de esconder seus números sobre o coronavírus, insinuando que o governo chinês ocultava o número real de casos e mortes.

Em maio, Trump partiu para o ataque contra a Organização Mundial da Saúde (OMS), que, nas palavras dele, é um “fantoche do regime chinês” por nunca exigir informações confiáveis sobre a pandemia junto aos chineses.

No mesmo mês, relata Kennedy de Alencar, Trump disse a um repórter que tinha informações de que o coronavírus havia sido criado dentro do Instituto de Virologia de Wuhan, um boato que circulava naquela época. Alguns diziam que o vírus seria uma arma biológica. No mesmo dia, agências de inteligência dos Estados Unidos descartaram a versão dada pelo presidente, dizendo que o coronavírus surgiu na natureza, e que não foi manufaturado em um laboratório.

Matéria do G1, de 21 de julho, trouxe a informação de que o FBI acusou dois hackers chineses de tentar roubar dados de laboratórios americanos que pesquisam vacinas, tratamentos e testes para covid-19. A China rebateu as acusações dizendo que são os chineses — e não os estadunidenses — que estão liderando na frente científica contra o vírus. Naqueles dias, os dois hackers foram indiciados nos Estados Unidos.

O presidente chinês Xi Jinping sempre rebateu as acusações estadunidenses, dizendo que seu governo age com transparência sobre a covid-19. Ele também prometeu um pacote de 2 bilhões de dólares para ajudar diversos países ao longo dos próximos dois anos e disse que qualquer vacina que venha a ser criada pela China será compartilhada com o resto do mundo.

A escalada de tensões entre Washington e Pequim coincide com um movimento da China de tentar projetar sua liderança global, e que enfrenta forte resistência por parte do Ocidente, sobretudo dos Estados Unidos e de seus aliados mais próximos.

Essas disputas entre Estados Unidos e China têm repercussões em outros países. Países aliados como o Reino Unido anunciaram sanções e boicotes à China.

No Brasil, políticos e ministros admiradores de Donald Trump, como o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, publicaram mensagens críticas sobre a China em relação ao coronavírus, causando desconforto diplomático. Em março, o presidente Jair Bolsonaro chegou a telefonar para o líder chinês, Xi Jinping, para amenizar as tensões.

Postagem do deputado Eduardo Bolsonaro no Twitter

Recentemente, em 29 de julho, o embaixador dos EUA Todd Chapman, em entrevista para o jornal O Globo, ameaçou o governo brasileiro explicitamente, dizendo que Brasil ‘terá consequências’ se permitir a tecnologia chinesa Huawei no 5G.

Jair Bolsonaro e Todd Chapman. Foto: Divulgação/Planalto

A declaração é mais um sinal do endurecimento das disputas comerciais entre Estados Unidos e China. No caso do 5G, a Huawei é acusada pelos estadunidenses de se aproveitar do papel de intermediário na produção de equipamentos de rede para roubar dados sigilosos e fornecê-los ao governo chinês, o que a companhia nega fazer.

Quando questionado sobre se os Estados Unidos planejam represálias caso o Brasil decida manter a Huawei entre as empresas que podem participar da implementação do 5G no país, Chapman rejeita o termo, mas afirma que, sim, haverá consequências.

“As consequências que vemos no mundo é que há um receito de empresas que estão baseadas na propriedade intelectual de fazer investimentos em países onde essa propriedade intelectual não seja protegida”, diz o embaixador ao jornal O Globo. Ele defende que a primeira consequência é a falta de segurança da informação, mas aponta que investidores podem ficar receosos em apostar no Brasil. “Ao fazer um investimento, você tem que decidir para onde vai. Quem investe em farmacêuticos, software, olham isso. (…) A maior exportação dos EUA é inteligência, propriedade intelectual. Temos que proteger nossa propriedade intelectual”.

Na prática, ele afirma que o Brasil pode deixar de receber investimentos de empresas dos Estados Unidos se o país utilizar equipamentos da Huawei no 5G. Ele também afirma que outros países estão deixando de lado a Huawei, como França e Reino Unido, e que é melhor fazer isso o quanto antes, já que o custo da troca de equipamentos pode ser alto.

A questão não é tão simples assim. Apesar da ameaça indireta do embaixador dos Estados Unidos e o alinhamento recente do governo brasileiro ao americano, a China ainda é o maior destino de exportações brasileiras, então excluir a Huawei do 5G por questões políticas também pode gerar consequências do outro lado.

Pelas declarações do vice-presidente Hamilton Mourão, o Brasil, neste momento, não está disposto a excluir a Huawei do leilão do 5G. Em 15 de julho de 2020, ele ressaltou que é “difícil” excluir a gigante chinesa, que já atua no país há mais de uma década e tem participação importante no 4G, cuja infraestrutura será em grande parte reaproveitada para implementação do 5G. Ele também admitiu que há pressão política externa para que essa exclusão aconteça.

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As matérias da Gazeta Brasil, da Rede Record, do jornal O Estado de São Paulo e Pleno News, reproduzidas em mídias sociais de apoio ao governo Bolsonaro, embasadas em publicação do Bitter Winter, sobre cristãos chineses estarem sendo coagidos pelo governo local a retirarem imagens cristãs de suas casas, caracterizam desinformação porque são imprecisas. O conteúdo não traz a contextualização e apuração necessárias para creditar a veracidade do fato. Não há citação de fontes oficiais, de quais cristãos, de quais igreja, que efetivamente tenham sido ameaçados ou de quaisquer outros personagens envolvidos nesse suposto cenário.

Um outro aspecto desinformativo é que o único veículo a indicar o link para a matéria original do Bitter Winter é a Gazeta Brasil e, ainda assim, Bereia veiculou que o site de notícias remete para outro texto que não tem relação com o que está noticiando, o que foi corrigido pelo Bereia na abertura desta matéria.

As restrições à liberdade religiosa são realidade na China, como o Coletivo Bereia já registrou em outras matérias, mas não há proibição à prática das igrejas cristãs. Bereia verificou nos websites do Conselho Cristão da China (de igrejas protestantes) e da Igreja Católica na República Popular da China que as igrejas têm atuado em solidariedade com a população daquele país frente à pandemia de coronavírus e às inundações que atingiram a região em julho.

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Referências de checagem

Bitter Winter. Acesso em 04 ago 2020

CBN News. Acesso em 04 ago 2020.

Gazeta Brasil. Acesso em 04 ago 2020

Portal R7. Acesso em 04 ago 2020

O Estado de São Paulo. Acesso em 04 ago 2020

Pleno News. Acesso em 04 ago 2020.

UOL [Kennedy Alencar]. Acesso em 04 ago 2020

UOL. Acesso em 04 ago 2020

O Globo. Acesso em 04 ago 2020

G1. Acesso em 04 ago 2020

G1. Acesso em 04 ago 2020

Assembleia de Deus perde muitos líderes no Mato Grosso mortos pela Covid-19

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Uma publicação no Twitter, em 22 de julho, motivou mais uma checagem do Coletivo Bereia: “Aqui em Mato Grosso morreram toda a alta cúpula da Igreja Assembleia de Deus. Morreram 5 pastores que comandavam a igreja em todo estado. Todos morreram por coronavírus”.

Com 5,2 mil curtidas, 414 comentários e 1,1 mil retuítes, até 27 de julho, quando esta matéria foi redigida, a mensagem gerou embates e divergiu as opiniões dos usuários engajados na postagem. Alguns solicitaram ao autor que inserisse o link dos sites e notas oficiais que confirmassem as mortes (o que foi feito), outros questionaram o número de óbitos, enquanto alguns atribuíram os falecimentos ao fato de que muitas igrejas evangélicas boicotaram as medidas de prevenção e decretos de restrições impostas ao estado desde o início da pandemia no país.

Segundo matéria publicada no portal UOL, a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) não informou o número exato de mortes, mas teria dito que entre dezenas de líderes mortos estariam pessoas de idades variadas. A instituição é a maior organização de igrejas evangélicas, com mais de 100 mil pastores associados e cerca de 25 milhões de fiéis.

Ao site Hipernotícias, do Mato Grosso, o secretário-geral da Convenção dos Ministros das Assembleias de Deus naquele estado, Pastor Juvanir de Oliveira, informou, em 21 de julho, que seis líderes da igreja faleceram no estado com a Covid-19, confirmando, com um registro a mais, a postagem do Twitter que motivou esta matéria do Coletivo Bereia. O Pastor Juvanir de Oliveira citou que os mortos foram: o presidente da Convenção Local, Pastor Sebastião Rodrigues de Souza, 89 anos, o filho dele, vice-presidente da Convenção, Pastor Rubens Siro de Souza, 68 anos, os Pastores José Geraldo dos Anjos, 76 anos, Jânio Corrêa Leite, 66 anos, Pedro Ezídio (idade não identificada), e Reginaldo Pereira de Jesus, 53 anos.

O Pastor Sebastião Rodrigues de Souza faleceu cinco dias depois do filho, Rubens Siro de Souza, morto pela Covid-19, em 3 de julho. O Pastor Sebastião Souza era também vice-presidente da CGADB desde 1995. Souza ficou reconhecido por ter construído em Cuiabá um dos maiores templos evangélicos do país, com capacidade para 20 mil fiéis.

Na ocasião, o presidente Jair Bolsonaro publicou uma nota de pesar pela morte de Souza, mas sem citar a Covid-19. A mensagem, originalmente disponibilizada no perfil da rede social do Planalto foi repostada no perfil do Instagram da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. O texto diz:

No Salmo 116:15 lemos que “Preciosa é à vista do SENHOR a morte dos seus santos”. Hoje, mais uma vez, isto ocorreu com a partida para o Senhor do saudoso pastor Sebastião Rodrigues, da Igreja Assembleia de Deus. A terra perde valoroso obreiro, mas o Senhor abraça um filho que venceu!
Meus sinceros sentimentos a toda a comunidade cristã e à família do querido pastor Sebastião! Oremos pelo conforto do Senhor na vida dos familiares!
Em Cristo,
Jair Messias Bolsonaro
Presidente da República Federativa do Brasil.

Nota de pesar pela morte de pastor com Covid-19 em Mato Grosso

Caso destacado foi também o do pastor José Geraldo dos Anjos, 76 anos, que faleceu no dia 21 de julho, após uma semana internado no hospital Santa Rita, no município de Várzea Grande, no Mato Grosso. Ele liderava a Assembleia de Deus, no Parque do Lago, no município varzea-grandense, onde estava há 36 anos. Segundo matéria do G1 publicada no dia da morte, ele era casado e deixou filhos, netos e bisnetos.


Foto: Facebook/Reprodução

No dia seguinte à declaração do secretário-geral das Assembleias de Deus no Mato Grosso, Juvanir de Oliveira, houve a sétima morte de liderança da Assembleia de Deus no mesmo mês. Ela se deu em Nobres (MT), a 151 km de Cuiabá. A vítima foi o pastor José Damasceno de Castro, 60 anos. Ele era casado e tinha quatro filhos.


Foto: Instagram | Reprodução

A Secretaria de Estado de Saúde (SES) do Mato Grosso registrou, até a tarde de 27 de julho, 45.155 casos confirmados da Covid-19 no estado, sendo registrados 1.664 óbitos em razão da pandemia. Havia ocorrido 48 mortes e 1.518 novas confirmações nas 24 horas anteriores ao relatório. Dentre os dez municípios com maior número de casos de Covid-19, estão Cuiabá (9.940), Várzea Grande (3.466), Rondonópolis (2.949), Lucas do Rio Verde (2.560), Tangará da Serra (1.899), Sorriso (1.775), Primavera do Leste (1.652), Sinop (1.627), Nova Mutum (1.257) e Pontes e Lacerda (875). Os pastores das Assembleias de Deus que perderam a vida pela doença eram da capital Cuiabá, de Várzea Grande, Tangará da Serra, Barão de Melgaço e Nobres.

O Coletivo Bereia contatou a sede da Convenção dos Ministros da Assembleia de Deus no Mato Grosso. A Convenção preferiu destacar o falecimento do Pastor Presidente, Sebastião Souza, pois era liderança da igreja no estado e na Convenção Geral e foi a perda mais repercutida de líderes das Assembleia de Deus por Covid-19.

A rejeição à gravidade da pandemia por parte de evangélicos

Desde o início daquilo que se transformaria em uma pandemia mundial, em consequência do novo coronavírus, grupos evangélicos têm colaborado a diminuir, deturpar e enganar a população através de inúmeras fake news sobre a pandemia. O Coletivo Bereia tem trabalhado intensamente com verificações dos sites de notícias religiosos e com perfis de lideranças vinculadas às igrejas, além de atender a diversos pedidos de checagem de notícias encaminhados por leitores/as.

Pastores evangélicos já prometeram unção imunizadora contra o coronavírus e já houve casos líderes políticos e religiosos minimizando e espiritualizando ação do coronavírus por meio das quais, matérias com títulos como “Goiânia é protegida por Deus e não será atingida pelo coronavírus”, eram propagadas pela própria prefeitura de Goiânia.

A cantora gospel Fabiana Anastácio publicou: “o coronavírus não atingirá a sua casa, porque quem guarda a sua casa é Jesus”. Infelizmente, Anastácio acabou falecendo por complicações devidas ao novo vírus. Houve desinformação atrelada à cantora, sobre ela ter revisto sua posição enquanto estava internada. O Coletivo Bereia apurou e explicou a verdadeira situação.

Em vários conteúdos desinformativos disseminados por grupos religiosos havia interesse em mostrar que as estatísticas eram falseadas, como a de que um borracheiro tinha morrido em um acidente com pneu, mas foi diagnosticado com Covid-19. Ainda nesse sentido, conteúdos falsos foram criados afirmando que a Polícia Federal e o Ministério da Saúde estariam auditando o número de óbitos por Covid-19 e, como consequência dessas ações, o número de óbitos teria caído.

Bereia também identificou conteúdo enganoso que dizia que “o Sol forte poderia matar coronavírus em 34 minutos”.

Toda esta desinformação foi produzida e compartilhada por grupos evangélicos, inclusive lideranças. O Coletivo Bereia produziu matéria para explicitar de onde partem as notícias falsas que circulam em grupos religiosos. Neste levantamento tornou-se nítida uma certa resistência por parte destes grupos religiosos, não apenas em admitir a gravidade da pandemia, mas, também, em seguir os protocolos internacionais de prevenção. Além do dogmatismo religioso, há o aspecto político que motiva essa postura. Muitos desses grupos e líderes apoiam irrestritamente o governo federal na liderança do Presidente Jair Bolsonaro e terminam por seguir sua postura relativizadora da doença e negadora das orientações da Organização Mundial de Saúde e de outras autoridades da área no país.

A situação entre católicos romanos

O novo coronavírus também fez vítimas no cenário católico. Segundo informações da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) cresceu também o número de padres do Brasil acometidos pela Covid-19. O último levantamento realizado pela Comissão Nacional de Presbíteros (CNP), divulgado em 29 de maio no portal da CNBB, apresenta a confirmação de 117 infectados e 14 mortes. Um novo relatório está sendo produzido pela Comissão e deverá ser divulgado em breve.

Com base nesta verificação, o Coletivo Bereia afirma ser verdadeira a informação divulgada por postagem no Twitter sobre alto número de mortos por Covid-19 entre lideranças das Assembleias de Deus em Mato Grosso. No levantamento, Bereia atualizou o número divulgado na postagem, de cinco para sete mortes até 27 de julho. O Coletivo reafirma a importância de as igrejas assumirem sua responsabilidade cristã com as medidas de prevenção e orientação de sua membresia quanto aos riscos impostos pela pandemia, que permanece grave no país dados os altos índices de infectados e mortes que vigoram.

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Foto de Capa: Reprodução/Convenção das Assembleias de Deus Mato Grosso

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Referências de checagem

Igrejas perdem pastores e padres para covid-19 e divergem sobre estratégias de reabertura. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/07/igrejas-perdem-pastores-e-padres-para-covid-19-e-divergem-sobre-estrategias-de-reabertura.shtml. Acesso em 27 de julho de 2020.

Morre mais um pastor da Assembleia de Deus vítima de covid-19. Disponível em: https://www.hnt.com.br/cidades/morre-mais-um-pastor-da-assembleia-de-deus-vitima-de-covid-19-sexto-obito-em-um-mes/178348 Acesso em 27 de julho de 2020.

Pastor da Assembleia de Deus morre quatro dias após ter recebido diagnóstico da Covid-19 em MT. Disponível em: https://g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2020/07/21/pastor-da-assembleia-de-deus-morre-4-dias-apos-ter-recebido-diagnostico-da-covid-19-em-mt.ghtml Acesso em 27 de julho de 2020.

Pastor da Assembleia de Deus de Nobres morre por Covid-19. Disponível em:

https://www.hnt.com.br/cidades/pastor-da-assembleia-de-deus-de-nobres-morre-por-covid-19/178532 Acesso em 27 de julho de 2020.

É verdade que apóstolo de igreja em Porto Alegre promete unção imunizadora contra o coronavírus. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/e-verdade-que-apostolo-de-igreja-em-porto-alegre-promete-uncao-imunizadora-contra-o-coronavirus/ Acesso em 27 de julho de 2020.

É verdade que líderes políticos e religiosos minimizam e espiritualizam ação do coronavírus. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/e-verdade-que-lideres-politicos-e-religiosos-minimizam-e-espiritualizam-acao-do-coronavirus/ Acesso em 28 de julho de 2020.

É verdade que Fabiana Anastácio negou o risco de ser infectada pela Covid-19. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/e-verdade-que-fabiana-anastacio-negou-o-risco-de-ser-infectada-pela-Covid-19 Acesso em 28 de julho de 2020.

É falsa a notícia que borracheiro morreu em acidente com pneu mas foi diagnosticado com Covid-19 para inflar estatísticas do coronavírus. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/e-falsa-a-noticia-que-borracheiro-morreu-em-acidente-com-pneu-mas-foi-diagnosticado-com-Covid-19-para-inflar-estatisticas-do-coronavirus Acesso em 28 de julho de 2020.

É falso que números por Covid-19 caem no Brasil por ações da Polícia Federal e do Ministro da Saúde. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/e-falso-que-numeros-por-Covid-19-caem-no-brasil-por-acoes-da-policia-federal-e-do-ministro-da-saude/ Acesso em 28 de julho de 2020.

É enganoso que sol forte pode matar coronavírus em 34 minutos. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/e-enganoso-que-sol-forte-pode-matar-coronavirus-em-34-minutos/ Acesso em 28 de julho de 2020.

Sites religiosos e ativistas digitais que propagam desinformação. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/sites-religiosos-e-ativistas-digitais-que-propagam-desinformacao/ Acesso em 28 de julho de 2020.

Covid-19: “a Igreja, como um todo, se entristece com cada morte: de bispos, padres, diáconos e de cada batizado”, afirma dom Joel. Disponível em: https://www.cnbb.org.br/Covid-19-a-igreja-como-um-todo-se-entristece-com-cada-morte-de-bispos-padres-diaconos-e-de-cada-batizado-afirma-dom-joel Acesso em 27 de julho de 2020.

Deputado federal evangélico exalta Roberto Jefferson em vídeo: “sempre foi sinônimo de responsabilidade”

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Em 13 de julho, o presidente nacional do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Roberto Jefferson, publicou, em seu perfil no Twitter, um vídeo ao lado do pastor da igreja pentecostal Assembleia de Deus e deputado federal pelo Rio de Janeiro, Otoni de Paula (PSC/RJ). Na legenda, ele inseriu: “Deputado Federal Otoni de Paula. Grande guerreiro de Cristo. Tenho orgulho de ser seu amigo. Pensando o Rio de Janeiro e o Brasil”.

Com mais de 24 mil visualizações até a redação desta matéria, o vídeo apresenta Otoni de Paula enaltecendo Roberto Jefferson:

Sempre foi sinônimo de austeridade e acima de tudo sempre foi sinônimo de responsabilidade. Roberto Jefferson sempre assumiu no peito os seus acertos e erros e hoje tem moral para ensinar a minha geração qual o caminho que nós temos que trilhar, porque já passou por lá e pode hoje dizer: esse é o caminho correto. Por isso, como eu faço parte dessa nova geração de políticos no Brasil, nada melhor do que estar diante do nosso mestre

Otoni de Paula, na gravação de 46 segundos publicada.

Personagens envolvidas em crimes e inquéritos

Tanto Otoni de Paula quanto Jefferson têm utilizado suas redes sociais para criticar e disseminar desinformação sobre o Supremo Tribunal Federal e são investigados no inquérito que apura a disseminação de fake news. O deputado federal do PSC é acusado de, em duas ocasiões, “empregar violência moral e grave ameaça para coagir Moraes [ministro Alexandre Moraes] e, com isso, beneficiar a si mesmo”. Jefferson, por sua vez, chegou a comparar, em maio, o STF a um tribunal nazista.

No último dia 14 de julho, Otoni de Paula foi denunciado pela Procuradoria Geral da República (PGR) ao Supremo Tribunal Federal pelos supostos crimes de difamação, injúria e coação de vídeos com ataques e ofensas ao ministro Alexandre Moraes, do STF. Na denúncia, a PGR afirma que o deputado fez duas transmissões ao vivo pela internet, nos dias 16 de junho e 5 de julho, nas quais “imputou fatos afrontosos à reputação do ministro [do STF] Alexandre de Moraes”, além de ofender a dignidade do ministro. No vídeo, o deputado chama o ministro de “lixo”, “tirano” e “canalha”, entre outras ofensas. Na ocasião, o deputado era um dos vice-líderes do governo Bolsonaro. Os fatos são investigados no inquérito que apura ataques às instituições.

A denúncia será analisada pelo tribunal e, se aceita, o deputado se tornará réu em uma ação penal. Em mensagem publicada em mídias sociais, no mesmo dia 14 de julho, o parlamentar afirmou que ainda não tinha conhecimento sobre a denúncia feita pela PGR. “Ainda não conheço o teor das denúncias da PGR contra mim, mas uma coisa prometo, lutarei até o fim contra a tirania da toga”. Nas gravações, o deputado criticou Moraes por ter libertado o blogueiro Oswaldo Eustáquio, mas proibindo-o de usar as redes sociais digitais.

Em 10 de junho, matéria do Coletivo Bereia apresentou o perfil e as ligações religiosas de investigados no inquérito do Supremo Tribunal Federal contra fake news. Entre os alvos com ligações religiosas estava Roberto Jefferson, sobre o qual o Bereia apontou a trajetória nas mídias digitais, na política, as acusações e defesas no inquérito das fake news.

Segundo a matéria do Bereia, entre as alianças religiosas de Jefferson está o ex-deputado Carlos Rodrigues, ex-bispo da Igreja Universal, um dos operadores do “Mensalão”, acusado de comandar a cobrança de uma mesada de R$10 mil a R$15 mil de todos os deputados federais e estaduais do país ligados à Igreja Universal do Reino de Deus, através do esquema chamado “Dízimo do Legislativo”.

Jefferson: de volta à cena via bolsonarismo

Desaparecido da cena política desde sua prisão, em 2005, Roberto Jefferson voltou a ganhar destaque na mídia quando o presidente Jair Bolsonaro, neste 2020, em crise na relação com o Congresso Nacional, e na iminência de sofrer um processo de impeachment, recorreu ao apoio do Centrão, que tem o presidente do PTB como um dos líderes. Apoiador de Bolsonaro, Jefferson já havia atuado em 1992 como líder da “tropa de choque” que tentou impedir o impeachment do então presidente Fernando Collor.

No final de abril de 2020, Jefferson reapareceu como aliado do governo Bolsonaro com críticas ao STF. Em postagem no Twitter, em 9 de maio, ele pedia ao presidente “para atender o povo e tomar as rédeas do governo”.

Na decisão que determinou a busca e apreensão nas casas do ex-deputado, o ministro Alexandre de Moraes determinou a apreensão de armas e também mandou bloquear as mídias sociais do ex-parlamentar e afirmou que há indícios da prática de sete crimes. Os agentes da PF realizaram buscas em dois endereços do ex-deputado federal, um na cidade de Comendador Levy Gasparian e outro em Petrópolis, ambas no Rio de Janeiro.

Ainda segundo conteúdo do Bereia, após a Operação, o partido de Jefferson, o PTB, que declarou apoio a Bolsonaro em 2018, em nota, se pronunciou à Nação brasileira: “Não vamos permitir que ministros do STF calem o Presidente”, fazendo menção a Roberto Jefferson.

Em apoio ao pai, a deputada Cristiane Brasil (PTB/RJ), que não conseguiu se reeleger depois de ser investigada, em 2018, por envolvimento em fraudes no Ministério do Trabalho, participou das manifestações pró-Jair Bolsonaro no dia 31 de maio.

Em matéria publicada pela Folha de S. Paulo, em 21 de abril, o jornalista Fábio Zanini apresentou a nova “roupagem bolsonarista” de Jefferson, salientada a partir de 19 de abril, em uma transmissão pela internet em que o ex-deputado federal criticou o congresso, tendo como alvo principal o presidente da Câmara Rodrigo Maia, por supostamente articular o esvaziamento dos poderes presidenciais.

A live, conduzida pelo jornalista Oswaldo Eustáquio, preso pelo mesmo inquérito das fake news contra o STF, até o momento da redação desta matéria contabilizava mais de 2,1 milhões de visualizações, tendo sido compartilhada pelo presidente Jair Bolsonaro e diversos integrantes de sua base de ativistas digitais.

Na transmissão, Jefferson denunciou um suposto golpe que estaria sendo arquitetado com a participação de governadores e líderes para aprovar o impeachment de Bolsonaro ou instituir um parlamentarismo branco. O mesmo tom seguiu se repetindo nas redes sociais e demais entrevistas.

À Folha, ele afirmou que uma tentativa de tirar Bolsonaro da Presidência poderia gerar violência. “Está chegando um momento de radicalização. A pressão é tão grande que se tentarem, num movimento de rua, sustentar um pedido de impeachment, vão ter que enfrentar a turma do Bolsonaro. E aí o pau vai cantar. Quando você enfrenta a força, você tem que opor a força a ela. Não tem saída”, declarou. Ainda segundo a publicação, desde o agravamento da pandemia do novo coronavírus, o presidente nacional do PTB tem demonstrado apoio a Jair Bolsonaro. Seria, de acordo com Jefferson, em razão de ambos partilharem dos mesmos valores. “Eu não tenho proximidade pessoal com o Bolsonaro. Eu tenho as mesmas convicções. Ele empunha a bandeira dos ideais que eu sustento”, disse à Folha de S. Paulo, que afirma que a aliança, para além do cenário nacional, ainda coincide com o da política carioca.

Neste 21 de julho, Roberto Jefferson voltou à cena nas mídias sociais. Em uma live, transmitida pelo canal do Youtube “Questione-se”, o apoiador do governo Bolsonaro, quando entrevistado por um blogueiro, o presidente nacional do PTB fez comentários homofóbicos contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Nas declarações, o político diz que dois magistrados “são sodomitas” e que “usam saia pela opção sexual”.

“Tem dois ministros lá que tem esses gostos (…) tem dois ministros que são meninas. Tem ministros de rabo preso e dois de rabo solto, conhecidos. Um é o (sic) Carmen Miranda, e o outro é Lulu boca de veludo (…) e eles querem fazer pauta de gênero, porque eles ainda não encontraram o deles (…) tem dois sodomitas ministros”, afirmou Roberto Jefferson. Em um determinado momento da live, o ex-deputado afirma que seria vergonhoso que dois ministros assumissem que “são enrab… por um negão”.

O jurista Marco Aurélio de Carvalho, do grupo Prerrogativas, manifestou-se sobre a live de Roberto Jefferson. “O desrespeito, a agressão e a calúnia aos ministros do Supremo Tribunal Federal, no contexto em que foram proferidos e veiculados, são claras tentativas de desgaste do próprio Tribunal que integram, e, assim, de 1 dos mais importantes pilares do Estado de Direito. A reação tem que ser firme, rápida, contundente e pedagógica”, afirmou.

Otoni de Paula: fidelidade ao bolsonarismo

O vídeo em que Otoni de Paula exalta Roberto Jefferson foi produzido por conta do contexto eleitoral em que o país está se inserindo. Definido o calendário da realização das eleições municipais para o final do ano, partidos e candidatos começam a se manifestar publicamente com articulações para candidaturas.

O deputado federal Otoni de Paula, filho do famoso e histórico cantor evangélico, da Assembleia de Deus, Ozeias de Paula, estreou na política institucional como vereador pelo PSC do Rio de Janeiro, de 2017 a 2018. Em 2018 foi eleito deputado federal pelo mesmo partido, na aliança com o PSL de Jair Bolsonaro, que elegeu o governador Wilson Witzel. Otoni de Paula logo se tornou um dos vice-líderes do governo federal na Câmara.

O pastor evangélico e deputado federal produziu o vídeo exaltando o presidente do PTB, Roberto Jefferson, neste mês de julho, no contexto em que foi convidado a se filiar ao partido. No acordo, ele apoiará a candidatura da ex-deputada federal Cristiane Brasil, filha de Jefferson, à prefeitura. Por outro lado, ele terá o apoio do PTB para disputar o governo do Rio de Janeiro em 2022.

Em 16 de julho, Otoni de Paula confirmou as afirmações do noticiário, em um vídeo de sete minutos em seu canal no YouTube, em que afirma:

Saiu uma matéria no site O Antagonista e em alguns veículos de comunicação dando conta da minha filiação ao PTB, de Roberto Jefferson, o grande guerreiro Roberto Jefferson. Bem, queria esclarecer algo muito importante. Eu tive a honra de sentar com o deputado Roberto Jefferson, tive a honra de ter uma longa conversa com esse grande patriota, antes desse dia, na semana passada, eu não tinha tido nenhum contato pessoal com o Roberto Jefferson. Nunca tinha tido antes. Mas, resolvi me aproximar de Roberto Jefferson por conta da sua brilhante defesa à pátria brasileira e sua brilhante defesa ao presidente Bolsonaro. E eu disse que quem defende o meu amigo, meu amigo passa a ser. Realmente nós estamos construindo uma boa amizade que queremos que transcenda as questões políticas. Roberto Jefferson sempre foi um sujeito homem, e eu gosto de sujeitos corajosos, que assumem os seus acertos e assumem os seus erros também. Por isso é que eu não tenho vergonha nenhuma, nenhuma, nenhuma de estar ao lado de Roberto Jefferson, porque tem se demonstrado um grande patriota. E os erros que ele cometeu lá atrás ele pagou por todos eles e, graças a ele, nós começamos a quebrar o império do PT no Brasil. Bem, portanto, nós conversamos sim, conversamos sobre uma possível ida nossa para o PTB. Recebi esse convite do próprio Roberto Jefferson, que disse que o PTB está aberto para que eu me candidate para 2022 ao governo do estado do Rio de Janeiro ou ao senado federal, já que estamos em uma batalha imensa lá em Brasília e também outra aqui no estado do Rio de Janeiro. Contudo, é bom que fique claro que eu ainda estou no PSC, eu ainda estou filiado no PSC e eu só poderia sair hoje do PSC através de um acordo que dificilmente haverá ou através do TSE, me liberando, liberando a minha saída do PSC. Do contrário eu corro o risco de perder o meu mandato e, ao perder o mandato, eu perco o meu maior patrimônio, a minha voz, em poder estar cerrando fileiras ao lado do Brasil, pela nossa pátria amada Brasil. Portanto, me senti muito honrado, mas muito honrado mesmo por esse convite do Roberto Jefferson, da sua filha Cristiane Brasil. Porém, ainda continuo filiado no PSC, ok? Só para colocar claro tudo isso para todos vocês. O convite para vir para o governo do Rio de Janeiro pelo PTB, o convite de poder decidir se em 2022 vamos vir governador ou senador pelo PTB muito nos honrou. Agora, quem vai decidir isso, se eu serei candidato a governador do Rio de Janeiro ou se eu serei candidato ao Senado Federal é o povo da minha terra, é o povo do meu Rio de Janeiro. São eles. Caso eu perceba que não há essa vontade do povo que a gente venha ao governo do estado ou ao Senado Federal , que a única casa que pode mudar isso que está acontecendo o STF , então nós vamos colocar o nosso nome novamente à disposição da população do Rio de Janeiro para uma reeleição a deputado federal se essa for a vontade do papai do céu. Porque o dia do amanhã só pertence a Deus. Estamos vivos agora, hoje, nesse momento, não sabemos se estaremos vivos amanhã. Mas, se estivermos, e se estivermos com saúde, não vamos recuar da batalha porque não nos faltará a coragem de continuar lutando pelo nosso Brasil. Um abraço ao presidente Roberto Jefferson, à Cristiane Brasil. Obrigado pelo convite que muito me honrou. Estar no PTB, quem sabe, de acordo com a vontade de Deus, será uma honra muito grande. Mas isso está na vontade de Deus porque eu ainda estou filiado ao PSC. Um abraço a todos. Esclarecido? É sempre assim, é olho no olho. Eu falando com você e você falando comigo. Quem puder compartilhar, compartilha. Beijo no coração. Deus abençoe. Cheguei no Rio agora. Estou indo agora para Iguaba visitar minha querida Iguaba, a cidade praiana aqui no Rio de Janeiro. Mas não é para tomar banho de praia não, é para levantar a bandeira da direita conservadora lá na cidade de Iguaba, ao lado do meu amigo Juninho Negão. Júnior Negão, um abraço. Deus abençoe o Júnior Negão e Deus abençoe sua esposa Jéssica e toda a sua família. Estamos chegando aí na querida Iguaba. Um abraço, pessoal. Deus abençoe!”.

Deputado Otoni de Paula

O deputado, que rompeu com o PSC por conta de críticas ao governador Wilson Witzel, confirmou o convite e comentou a denúncia do MPF: “Aceitei o convite do PTB com a convicção de que essa ação é feita para me intimidar e intimidar protestos e manifestações populares. A mensagem é: ‘Se a gente faz isso com um deputado, que tem imunidade (parlamentar), imagina o que não podemos fazer com vocês’”.

O fracasso na criação do partido do presidente Jair Bolsonaro Aliança Pelo Brasil, com previsão atualizada para sair do papel apenas no fim de 2021, quase dois anos após o planejamento, fez com que muitos deputados bolsonaristas desistissem do projeto. Além de Otoni de Paula, festejado pela militância bolsonarista no evento de lançamento do Aliança, que irá para o PTB, os deputados Luiz Lima (RJ) e Coronel Chrisóstomo (RO) decidiram permanecer no PSL, enquanto Flávio e Carlos Bolsonaro foram para o Republicanos.

A debandada pode ser ainda maior: o PSL, partido que saiu do anonimato com o bolsonarismo, planeja uma reunião com todos os deputados e, diante da reaproximação com o Palácio do Planalto, tentará convencer mais bolsonaristas a não se desfiliarem. No grupo de WhatsApp do Aliança, 90% dos políticos que atuam para fundar a legenda estão, hoje, no PSL.

No Twitter, Otoni reclamou recentemente da postura moderada de Bolsonaro, que reatou pontes com Judiciário e Legislativo: “Estou tendo a sensação de que combinaram algo e não me avisaram. Fui chamado para uma guerra pela minha pátria, mas tô tendo a sensação de que há um acordo de paz com o inimigo, que eu não participei e não participaria”.

Já no dia 20 de julho de 2020, Otoni de Paula criticou o Ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência da República, General Luiz Ramos, também evangélico (batista), dizendo que ele será o responsável por tornar Jair Bolsonaro refém do Centrão, liderado por Roberto Jefferson.

O inquérito do STF não é o primeiro envolvimento do deputado federal evangélico em investigações pela justiça. Em julho de 2018, três meses antes das eleições, Otoni de Paula publicou um vídeo convidando fiéis de sua igreja para comparecerem ao lançamento de sua pré-candidatura e passou a ser investigado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Estado. No vídeo, o pastor e candidato agradece a disposição de “alguns irmãos em alugar um ônibus” para levar fiéis ao evento. Na sequência do vídeo, Otoni pede “palmas para Jesus” e diz que “vivemos um momento de guerra por conta do golpe do impeachment contra o prefeito do Rio, Marcelo Crivella. O pedido de impeachment de Crivella, também evangélico, havia sido processado por alguns vereadores por ter o prefeito oferecido vantagens a fiéis de sua igreja em um evento reservado a pastores na sede da prefeitura. Em outros vídeos, Otoni critica a atuação do juíz que mandou Crivella “parar de usar a prefeitura para favorecer seu grupo religioso”

Bereia classifica o conteúdo do vídeo do deputado federal pastor Otoni de Paula (PSC/RJ), publicado pelo presidente do PTB Roberto Jefferson, como material de campanha, com divulgação imprecisa da figura pública de Jefferson. Atributos como “sempre sinônimo de responsabilidade” e “moral para ensinar esta geração” não correspondem ao histórico do envolvimento do ex-deputado federal, que preside o PTB, com ilegalidades, culminando na atual investigação do seu papel como disseminador de fake news e de discurso de ódio, que é omitido na divulgação do deputado Otoni de Paula.

Foto de Capa: Twitter/Reprodução

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Referências de Checagem

Conheça o perfil e as ligações religiosas dos investigados no inquérito do STF contra Fake News – Parte I. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/conheca-o-perfil-e-as-ligacoes-religiosas-dos-investigados-no-inquerito-do-stf-contra-fake-news-parte-i/. Acesso em 20 de julho de 2020.

PGR denuncia deputado Otoni de Paula por difamação e injúria contra Alexandre de Moraes. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/07/14/pgr-denuncia-deputado-otoni-de-paula-por-difamacao-e-injuria-contra-alexandre-de-moraes.ghtml. Acesso em 20 de julho de 2020.

Roberto Jefferson veste figurino bolsonarista após defender Collor e delatar Mensalão. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/apos-defender-collor-e-delatar-mensalao-roberto-jefferson-veste-figurino-bolsonarista.shtml. Acesso em 20 de julho de 2020.

PGR denuncia deputado Otoni de Paula por ameaças contra Alexandre de Moraes. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/07/14/interna_politica,872147/pgr-denuncia-deputado-otoni-de-paula-por-ameacas-contra-alexandre-de-m.shtml. Acesso em 20 de julho de 2020.

Alvo de operação, Jefferson compara STF ao nazismo: ”Tribunal do Reich”. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/05/27/interna_politica,858735/alvo-de-operacao-jefferson-compara-stf-ao-nazismo-tribunal-do-reich.shtml Acesso em 20 de julho de 2020.

PGR denuncia deputado ao STF por ofensas a Alexandre de Moraes. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2020-07/pgr-denuncia-deputado-ao-stf-por-ofensas-alexandre-de-moraes. Acesso em 20 de julho de 2020.

Denunciado por ataque a ministro do STF, Otoni de Paula vai se filiar ao PTB. Disponível em: https://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2020-07-16/denunciado-por-ataque-a-ministro-do-stf-otoni-de-paula-vai-se-filiar-ao-ptb.html. Acesso em 20 de julho de 2020.

Demora na criação do Aliança faz deputados desistirem do partido anunciado por Bolsonaro. Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/demora-na-criacao-do-alianca-faz-deputados-desistirem-do-partido-anunciado-por-bolsonaro-24540810. Acesso em 20 de julho de 2020.

TRE/RJ mira pastor do PSC que convocou fieis para lançamento de pré-candidatura. Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/tre-rj-mira-pastor-do-psc-que-convocou-fieis-para-lancamento-de-pre-candidatura-22894513. Acesso em 20 de julho de 2020.

É falso que médica foi afastada do Hospital Albert Eisntein por defender cloroquina

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Circulam pelas mídias sociais de apoiadores do Presidente Jair Bolsonaro e de relativistas da gravidade da pandemia do novo coronavírus conteúdos em tom de denúncia, de que a médica Nise Yamagushi teria sido afastada do Hospital Albert Einsten por defender a cloroquina na cura da Covid-19, como nos exemplos a seguir:

Reprodução/ Twitter

A partir do fato, o site evangélico de notícias Pleno News publicou uma matéria intitulada: “Nise Yamaguchi é afastada por apoiar a hidroxicloroquina”. Além do título, o subtítulo também atrela a suspensão da médica ao suposto apoio da profissional ao uso da hidroxicloroquina: “”Tenho a certeza que ela cura os pacientes nas etapas iniciais”, disse a imunologista”. 

Pesquisadora científica, imunologista e oncologista, a médica Nise Hitomi Yamagushi tornou-se uma das principais defensoras do uso da hidroxicloroquina como tratamento precoce ao novo coronavírus. Ela foi convidada pelo presidente Jair Bolsonaro, em abril, a integrar o comitê de crise ainda na gestão de Luiz Henrique Mandetta no Ministério da Saúde e chegou a ser cotada como ministra quando ele pediu demissão, o que ocorreu novamente quando Nelson Teich se demitiu em maio. Em abril e maio, esteve em diversas agendas com ministros.

Dessa vez, o nome de Nise Yamagushi ganha destaque no cenário nacional mediante seu afastamento do Hospital Israelita Albert Einstein.  De acordo com o Pleno News, a médica concedeu uma entrevista ao jornalista Roberto Cabrini, que foi ao ar na sexta-feira, 10 de julho no programa SBT Brasil, por meio da qual ela teria revelado que foi afastada do hospital. O aviso teria vindo através de uma ligação do diretor clínico da instituição, que acreditaria que o apoio de Nise Yamaguchi ao uso da hidroxicloroquina “denigre o hospital”. 

Matéria Pleno News/ Reprodução

O portal, que na seção “Quem somos” afirma ser uma “referência segura de conteúdo, principalmente no momento de profusão das fake News”, traz a afirmação de que a médica garantiu que grande parte da comunidade médica defende o uso do medicamento.

O Pleno News se baseou na matéria do SBT Brasil publicada no portal da emissora no dia 10 de julho, que registra que Nise Yamaguchi afirmou ter sido afastada do hospital por defender o uso da hidroxicloroquina, ao ser entrevistada exclusivamente pelo jornalista da emissora Roberto Cabrini para o programa Conexão Repórter, que iria ao ar em 13 de julho. 

“Eu recebi uma ligação do diretor clínico do hospital me informando que, a partir deste momento, eu não poderia estar exercendo as minhas funções no hospital, não poderia estar prescrevendo e nem atendendo meus pacientes que já estão internados. (…) Eles acreditam que a minha fala, sempre em prol da hidroxicloroquina, que eles consideram que não tenha fundo científico, denigre o hospital“, afirmou a médica ao jornalista Roberto Cabrini.

Entretanto, o programa também incluiu entrevista exclusiva com o presidente do Hospital Israelita Albert Einstein Sidney Klajner, que confirmou a suspensão de Nise, mas deu outra explicação:

Em entrevista recente a médica teria feito uma comparação infeliz entre o pânico provocado pela pandemia e a postura das vítimas do holocausto, denominada por ela “massa de rebanho de judeus famintos” incontrolável. 

A entrevista à TV Brasil

Nise Yamaguchi concedeu entrevista à emissora pública TV Brasil, programa Impressões, transmitida no domingo, 2 de julho de 2020

Yamaguchi descreveu no programa como deve ser o tratamento com cloroquina, e não mencionou o fato de não haver comprovação científica de sua eficácia, o que vem agradando o governo federal, que tem indicado o medicamento.

“O tratamento é de cinco dias, de hidroxicloroquina. Isso eu posso falar, porque normalmente médico não pode falar receita de bolo na… Mas como ninguém vai conseguir se automedicar, porque precisa de receituário, de controle…”. 

A médica também recomendou o uso preventivo da ivermectina, o que tampouco é embasado categoricamente por estudos clínicos.

“Você pode usar na primeira fase hidroxicloroquina ou ivermectina, ou os dois, com azitromicina e zinco. Porque essa composição é a melhor coisa”.

A apresentadora do programa da TV Brasil Katiuscia Neri, reforçou o que disse a médica:

“Se você não traz essa informação para a gente de que há um tratamento, eu vou continuar com pânico em casa. Não é que a gente está pregando que as pessoas saiam de casa, mas que entendam que tem um tratamento. Esse medo também é muito prejudicial, né?”. 

Neise Yamaguchi respondeu: 

“O medo é prejudicial para tudo. Em primeiro lugar, te paralisa, te deixa massa de manobra. Qualquer pessoa, você pega… Você acha que alguns poucos militares nazistas conseguiriam controlar aquela massa de rebanho de judeus famintos se não submetessem diariamente a humilhações, humilhações e humilhações, tirando deles todas as iniciativas?”.

Ao repórter do SBT, Roberto Cabrini, dias depois, e já suspensa do Albert Einstein, a médica reconheceu que sua fala, comparando o medo do uso da hidroxicloroquina com o nazismo, foi uma das justificativas dadas pelo hospital para sua suspensão.

“Eles [direção do hospital] se referiram também a uma fala que eu teria dito na semana passada, que foi interpretada de uma forma errônea. Eu falei que existia uma situação muito grave no mundo com o pânico que foi instalado, com o medo que levava as pessoas a ficarem reféns de seus algozes”, explicou.

Questionada por Cabrini sobre a relação entre medo, nazismo e uso de hidroxicloroquina, Nise Yamaguchi disse que:

“Todo mundo fala que não tem cura, que não tem tratamento, que você vai morrer. Toda noite tem uma série de campanhas pra pessoa ficar cada vez mais amedrontada e achar que vai entrar em um aparelho de respiração imediatamente. Eu estou dizendo para o público que existe tratamento, sim. Principalmente na fase precoce, que se a pessoa se tratar na fase inicial, ela não vai ter a fase grave”, finalizou. 

Questionada ainda sobre manter um posicionamento contrário ao da maioria da comunidade científica, a médica afirma não saber se este é, de fato, um consenso. “Não acredito que a comunidade inteira pense assim“, diz a médica. Ela ainda afirma que há uma “grande maioria silenciosa” que defende o uso do medicamento.

Depois da divulgação, pelo SBT Notícias, em 10 de julho, de que Nise Yamaguchi teria sido afastada por ser defensora do medicamento hidroxicloroquina para a cura da Covid-19, o Hospital Israelita Albert Einstein divulgou nota à imprensa:

Íntegra da nota do hospital Albert Einstein:

“Com relação a declarações prestadas pela Dra. Nise Yamagushi, o Hospital Israelita Albert Einstein tem a esclarecer o seguinte:

1. O hospital respeita a autonomia inerente ao exercício profissional de todos os médicos, jamais permitindo restrições ou imposições que possam impedir a sua liberdade ou possam prejudicar a eficiência e a correção de seu trabalho.

2. A Dra. Nise Yamagushi faz parte do corpo clínico do Hospital, sendo admissível que perfilhe entendimento próprio com relação ao atendimento de seus pacientes ou à sua postura em face da pandemia ora combatida, desde que observe as regras relacionadas ao uso da sua condição de integrante do Corpo Clínico em sua comunicação.

3. Trata-se, contudo, de hospital israelita e a Dra. Nise Yamagushi, em entrevista recente, estabeleceu analogia infeliz e infundada entre o pânico provocado pela pandemia e a postura de vítimas do holocausto ao declarar que “você acha que alguns poucos militares nazistas conseguiriam controlar aquela MASSA DE REBANHO de judeus famintos se não os submetessem diariamente a humilhações, humilhações, humilhações…”.

4. Como se trata de manifestação insólita, o hospital houve por bem averiguar se houve mero despropósito destituído de intuito ofensivo ou manifestação de desapreço motivada por algum conflito. Durante essa averiguação, que deve ser breve, o hospital não esperava que o fato viesse a público.

A expectativa do hospital é a de que o incidente tenha a melhor e mais célere resolução, de modo a arredar dúvidas e remover desconfortos”.

Pedido de desculpas

Após ter sido afastada das atividades do Hospital Israelita Albert Einstein e procurado o SBT para criticar a medida, atribuindo-a ao fato de ser defensora da hidroxicloroquina, a médica Nise Yamaguchi divulgou nota, por meio de sua assessoria jurídica, em 12 de julho de 2020, se desculpando por qualquer comentário ofensivo à comunidade judaica, ainda que, segundo ela, seja proveniente de uma “interpretação errônea”. 

Íntegra da nota de Nise Yamaguchi:

“Dra. Nise Yamaguchi, por meio de sua assessoria jurídica, manifesta este esclarecimento: 

Têm orgulho de ser membro do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein por mais de 30 (trinta) anos, possibilitando ajudar e atender inúmeros pacientes. Agradece de forma especial todo o apoio por cartas, e-mails e ligações de diversos membros da Comunidade Judaica, que compreenderam que jamais seria ela anti-semita, já que foi ela a maior apoiadora do processo de conversão da sua irmã para o Judaísmo (Greice Naomi Yamaguchi).

Homenageia os brilhantes cientistas judeus na pessoa do seu mentor, o Professor Doutor Reuben Lotan (Z”L) do M.D. Anderson Cancer Center e previamente do Instituto Weizmann de Israel, que muito a apoiou na sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo.

Por tudo aqui já relatado, é cristalino o entendimento de que nunca foi ela antisemita, ao contrário, expressa verdadeira e irrestrita admiração ao conhecimento e toda a contribuição que o povo judeu deu ao planeta, quer por suas percepções cientificas, quer pela sua convivência mais íntima.

Por fim, manifesta o pedido de desculpas por expressões outras e interpretações errôneas sobre assuntos sensíveis ao grande sofrimento judaico que envolveram seu nome, pois é solidária à dor dessa ilustre comunidade como a maior das atrocidades de nossa história ocidental.

Suas palavras, objeto de interpretações não condizentes com suas convicções, foram manifestadas no intuito de expressar a maior dor que ela conhece.”

Apesar do pedido de desculpas, no portal UOL, em matéria de 12 de julho, traz o título: Albert Einstein não descarta demissão de médica após fala sobre holocausto” .

Ao UOL, o presidente do hospital explicou:

“A doutora Nise teve uma suspensão provisória enquanto o nosso comitê de ética apura o que norteou os comentários relativos à comparação do medo da pandemia ao holocausto, um momento extremamente importante, onde 6 milhões de judeus foram mortos, e vários sobreviventes contribuíram inclusive com a fundação do próprio Israelita Albert Einstein”. Ele reiterou que a médica foi chamada para conversar com a diretoria clínica a respeito da utilização do nome Albert Einstein ou contra ou favor de qualquer tratamento promovido por ela. “E não pesa, neste momento, a prescrição ou não da hidroxicloroquina na decisão de sua suspensão”, acrescentou. 

Questionado sobre a possibilidade de demissão, Klajner afirmou. “Aí nós temos que consultar quais as consequências que podem haver porque nunca, na história do Albert Einstein, houve uma situação igual a essa”, finalizou o presidente.

Repúdio de entidades judaicas

A Confederação Israelita do Brasil (Conib) e a Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp) emitiram nota conjunta, em 11 de julho, condenando as declarações da médica Nise Yamaguchi comparando a tragédia do Holocausto com a pandemia do coronavírus. Diz a nota:

“São deploráveis as declarações da médica Nise Yamaguchi comparando a tragédia do Holocausto, que causou a morte de 6 milhões de judeus inocentes, além de outras minorias, com a atual pandemia do coronavírus. Comparações desse tipo não têm qualquer fundamento, minimizam os horrores do nazismo e ofendem a memória das vítimas, dos sobreviventes e de suas famílias.

A politização da medicina só contribui para a disseminação desta pandemia. Nosso total apoio ao Hospital Israelita Albert Einstein, referência médico-hospitalar de nosso país e orgulho da comunidade judaica”.

Perda de prestígio com o governo

Reportagem de O Globo, de 3 de julho, já indicava que Nise Yamaguchi havia dito a pessoas próximas que não é mais ouvida pelo Palácio do Planalto ou pelo Ministério da Saúde  estaria escanteada pelo governo federal desde que o General Eduardo Pazuello assumiu o Ministério da Saúde. 

A reportagem de O Globo diz que evidências científicas mostram que o uso da cloroquina não tem efeito sobre pacientes de coronavírus. Mesmo sem uma comprovação da eficácia do remédio, porém, o Ministério da Saúde mantém a orientação de que o medicamento deve ser usado em casos leves, desde que observada a dosagem. Hospitais têm descartado a cloroquina no tratamento do coronavírus. O Hospital Albert Einstein, por exemplo, recomenda que médicos não receitem a substância no tratamento dao Covid. A recomendação ocorreu após a agência norte-americana que regula alimentos e medicamentos, FDA, equivalente à Anvisa brasileira, ter revogado a autorização do uso da cloroquina no tratamento da Covid-19.

Com a perda do protagonismo da medicação no tratamento do coronavírus, Nise Yamaguchi vinha passando mais tempo em São Paulo, onde tem consultório. Procurada pela reportagem de O Globo, a médica negou que tenha havido qualquer estranhamento entre ela e o governo federal, mas reconheceu que estaria trabalhando mais diretamente com o governo de São Paulo: “Sou uma consultora científica independente, o que faço é um trabalho de levantamento da literatura, trabalho com as sociedades médicas. Nunca existiu um vínculo formal”.

Bereia conclui que o conteúdo de postagens e matéria site do site Pleno News, em tom de denúncia, sobre o afastamento da médica Nise Yamaguchi do Hospital Israelita Albert Einstein são falsas. Elas foram induzidas por chamada enganosa da matéria do SBT, de 10 de julho, baseada na fala da médica, sobre ter sido afastada por ser defensora da cloroquina, desconsiderando a afirmação do hospital à própria emissora, de que a ação deveu-se à declaração indevida sobre judeus e o holocausto, uma vez ser funcionária de uma instituição israelita. 

*     *     *

Referências 

SBT Notícias, 10 de julho de 2020, https://www.sbt.com.br/jornalismo/sbt-brasil/noticia/144931-medica-diz-ter-sido-afastada-de-hospital-por-defender-uso-da-hidroxicloroquina.  Acesso em 14 de julho de 2020

Pleno News, 11 de julho 2020, https://pleno.news/saude/coronavirus/nise-yamaguchi-e-afastada-por-apoiar-a-hidroxicloroquina.html Acesso em 14 de julho de 2020

Conexão Repórter, 13 de julho de 2020, https://www.sbt.com.br/jornalismo/conexao-reporter/noticia/144998-exclusivo-roberto-cabrini-entrevista-medica-nise-yamaguchi Acesso em 14 de julho de 2020

 TV Brasil, Impressões, 2 de julho de 2020, https://www.youtube.com/watch?v=Hi-KDKCRQXs. Acesso em 14 de julho de 2020

Hospital Israelita Albert Einstein, Imprensa: https://www.einstein.br/sobre-einstein/imprensa/press-release/nota-a-imprensa-13072020  Acesso em 14 de julho de 2020 

G1, 12 de julho de 2020, https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/07/12/medica-afastada-por-hospital-albert-einstein-apos-declaracao-sobre-nazismo-pede-desculpas-por-expressoes-e-interpretacoes-erroneas.ghtml Acesso em 14 de julho de 2020

UOL Notícias, 12 de julho de 2020, https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/07/12/albert-einstein-nao-descarta-demissao-de-medica-apos-fala-sobre-holocausto.htm. Acesso em 14 de julho de 2020

CONIB, https://www.conib.org.br/conib-e-fisesp-condenam-comparacao-do-holocausto-com-o-coronavirus/ Acesso em 14 de julho de 2020 

O Globo, 3 de julho de 2020, https://oglobo.globo.com/sociedade/nise-yamaguchi-defensora-da-cloroquina-escanteada-pelo-governo-24514102 Acesso em 14 de julho de 2020

É enganosa a notícia de que evangélicos foram condenados pela justiça por rejeitarem união gay em espaço de eventos

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O site de notícias Gospel Mais publicou, em 20 de junho, matéria intitulada: “Evangélicos rejeitam união gay em espaço de eventos e são condenados”.  A informação provocou reações divergentes entre leitores, sobretudo os evangélicos.

Segundo a matéria, uma empresa localizada na cidade de Campinas (SP) teria sido processada por um casal homoafetivo por rejeitar sediar o evento de união homoafetiva. Os proprietários, evangélicos, teriam alegado também que a recepção seria contrária aos princípios filosóficos e religiosos da família do dono do local, o que poderia ser caracterizado ato discriminatório. 

A questão foi levada à 1ª Vara do Juizado Especial Cível de Campinas, que decidiu condenar os responsáveis à frente do estabelecimento, impondo ainda o pagamento de indenização.

A publicação ainda apontou que o casal “repetiu uma estratégia que é usada por ativistas LGBT nos Estados Unidos, e processaram os proprietários, como no caso do confeiteiro Jack Phillips, que já foi processado três vezes por recusar produzir bolos para cerimônias de união entre pessoas do mesmo sexo”. 

Outros sites também noticiaram o caso, como o portal R7.

De acordo com informações do portal Conjur , a juíza Thais Migliorança Munhoz, à frente do caso, afirmou, na sentença, que levou em conta as circunstâncias da causa, o grau de culpa e a condição socioeconômica do autor da ação para estipular o valor da indenização por danos morais em R$ 28 mil.

Entenda a sentença

A sentença foi liberada nos autos em 20 de maio de 2020, a juíza citou, entre outros, o Código de Defesa do Consumidor, o Código Civil e a Carta Magna.

 “O nó górdio da presente reside sobre a necessidade de se apurar se a recusa da empresa requerida em recepcionar o casamento dos autores, sob argumento de que iria de encontro aos princípios filosóficos e religiosos do proprietário e sua família, caracteriza ato discriminatório e, por conseguinte, merece reparação civil. Pois bem. A Constituição da República Federativa do Brasil dispõe, em seu artigo 5º, caput, que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. O artigo 3º, inciso IV, da Carta Magna, prescreve, ainda, que constitui objetivo fundamental da República Federativa do Brasil promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.”

Afirma ainda: 

“A reprovação do ato de recusa do requerido em recepcionar o casamento homoafetivo dos autores mostra-se adequada para se alcançar o fim almejado, qual seja a salvaguarda de uma sociedade pluralista, onde reine a tolerância. Assegura-se a posição do Estado, no sentido de defender os fundamentos da dignidade da pessoa humana (artigo 1°, III da Constituição Federal), do pluralismo político (artigo 1°, V, CF), o princípio do repúdio ao terrorismo e ao racismo, que rege o Brasil nas suas relações internacionais (artigo 4°, VIII), e a norma constitucional que estabelece ser o racismo um crime imprescritível”,

Para a juíza, não se contesta a proteção conferida constitucionalmente à liberdade de crença e de expressão do dono da empresa de Campinas. “Todavia, é inegável que essa liberdade não pode alcançar o campo da discriminação e da homofobia. Há inúmeros outros bens jurídicos de base constitucional que estariam sacrificados na hipótese de se dar uma amplitude absoluta, intangível, à liberdade de expressão, de consciência e crença etc., na espécie”, afirma na sentença.

Dessa forma, a juíza entende que a condenação da empresa é necessária para salvaguardar uma sociedade pluralista, em que reine a tolerância, sob o pressuposto de ausência de outro meio menos gravoso e igualmente eficaz para tanto.

Ressalta que a Lei 7.716/89 estabelece que são puníveis os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, sendo vedada a recusa ou impedimento de acesso a estabelecimento comercial, negando-se a servir, atender ou receber cliente ou comprador (artigo 1º e 5º). 

E lembra que o Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), recentemente, entendeu pelo enquadramento da homofobia e da transfobia como tipo penal definido na Lei do Racismo (Lei 7.716/1989) até que o Congresso Nacional edite lei sobre o tema. O caso foi julgado na Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO) 26 e no Mandado de Injunção (MI) 4733.

A magistrada também cita parte da ementa do julgamento da ADI 4.277, de relatoria do ministro Ayres Britto, em maio de 2011, que reconheceu a união homoafetiva como entidade familiar.

Por fim, ela julga ilícita a conduta da empresa em se negar a recepcionar o casamento homoafetivo, sob argumento de incompatibilidade com a política de atuação instituída dentro de convicções filosóficas e religiosas. Segundo a juíza, estão presentes todos os elementos ensejadores da responsabilidade civil: “ação ou omissão do agente (falha na prestação dos serviços, deixando de cumprir o pactuado); dano (ofensa íntima ao autor em evento de extrema importância pessoal); nexo de causalidade e culpa”.

Discussões se estendem desde maio 

A notícia, que veio novamente à tona em junho, já havia sido publicada em outros sites a partir do dia 22 de maio. No site paulopes.com.br, destinado a fatos sobre religião, ateísmo e ciências, em entrevista, Wilson Lima Barreto, responsável pela casa de eventos, disse que o empreendimento é familiar e cristão, estando registrado no nome de um dos filhos. Em sua defesa, a casa citou, nos autos, a sentença da Suprema Corte dos Estados Unidos que inocentou um confeiteiro que recusou pedido de um bolo de casamento de um casal gay, garantindo ao profissional o direito de crença.

De acordo com a matéria, na Suprema Corte, a multa foi derrubada porque, segundo entenderam os julgadores, a comissão que aplicou a multa violou o dever do Estado sob a Primeira Emenda de não basear leis ou regulamentos na hostilidade a um culto ou ponto de vista religioso. Isto porque um dos membros da comissão havia feito comentários “hostis” em relação à religião. Ou seja, a Suprema Corte não adentrou ao mérito da questão, e deu ganho de causa ao confeiteiro por uma questão processual.

Por outro lado, a advogada do casal afirma que “homofobia é uma violação do direito humano fundamental de liberdade de expressão da singularidade humana, revelando-se um comportamento discriminatório” e que “a negativa de locar o espaço aos requerentes pelo simples fato de serem um casal homoafetivo já constitui homofobia”.

Wilson Barreto afirmou durante o processo que “a gente trabalha só em família e todos nós somos evangélicos, está lá pra qualquer um ver. Dessa forma, falamos para eles procurarem outro lugar, porque não iria ficar bom se fizéssemos”. 

A empresa ainda apontou que “não impede homossexuais de visitar suas instalações ou realizarem qualquer outro tipo de evento (confraternização, aniversário, baile de debutante etc.)”

Em contraponto, a matéria apresenta a fala da advogada do casal homoafetivo, que acusou a prática de homofobia, o que fica confirmado, segundo ela, com “a negativa de locar o espaço aos requerentes pelo simples fato de serem um casal homoafetivo”. Ela considerou também que a partir do momento que a organização se dispõe a locar um espaço ao público, não cabe aos donos distinguir os locatários pela orientação sexual. Ressaltou que o casal se preparava para um dia especial e, ao receber a negativa, tiveram de lidar com a tristeza de serem discriminados pela sua orientação sexual.

Na sentença, a juíza Munhoz argumentou que não está em questão a liberdade de crença e de expressão dos donos do estabelecimento, mas, sim, a preservação de uma sociedade pluralista e, portanto, tolerante. 

Na ocasião, o site Jota fez uma cobertura ampla do caso. Logo no primeiro parágrafo, apresenta a fala de um dos contratantes do serviço de buffet:

“Conversei com Wilson, né, que é o proprietário, e você tinha até comentado comigo no telefone, né, quando eu falei para você vir visitar e você falou que viria com ele, no caso comigo no telefone, e eu conversei com ele e ele falou assim que eles aqui no espaço não fecham contratos para celebração de casamento, ou seja, recepção de convidados que seja de pessoas do mesmo sexo, né…”.

A partir daí, a reportagem traz os apontamentos já evidenciados em outros conteúdos, finalizando com a afirmação de que a casa de eventos iria recorrer à decisão e apresentando o número da tramitação no Tribunal de Justiça de São Paulo.

As abordagens da matéria causaram reações divergentes no Twitter @JotaInfo

Bereia conclui que a matéria publicada no site Gospel Mais é enganosa, pois apresenta um fato ocorrido com abordagem não-informativa, opinativa e tendenciosa, já no título que vitimiza “evangélicos”, apresentados no texto como uma “família”. Também por levar leitores a se revoltarem com uma a “falta de liberdade” da empresa em negar a realização de um evento, o que disfarça a atitude de homofobia, explicitada na sentença da juíza. Ainda, com a classificação da reivindicação do casal homoafetivo, legítima diante da justiça, como “estratégia usada por ativistas LGBT nos Estados Unidos”. Por fim, há na matéria do Gospel Mais a ocultação de informações sobre os direitos garantidos à população LGBTI+ em casos como este.

***

Referências da Checagem

JM Notícia– Juíza condena evangélicos por não aceitarem casamento gay em seu espaço de eventos. Disponível em: https://www.jmnoticia.com.br/2020/06/16/juiza-condena-evangelicos-por-nao-aceitarem-casamento-gay-em-seu-espaco-de-eventos/

Paulopes– Eventos Alvorada terá de indenizar gays por negar locação por motivo religioso. Disponível em:https://www.paulopes.com.br/2020/05/homofobia-eventos-alvorado.html#.XvFCrGhKiUk

R7 – Espaço de eventos vai indenizar casal gay após recusar festa. Disponível em: https://noticias.r7.com/sao-paulo/espaco-de-eventos-vai-indenizar-casal-gay-apos-recusar-festa-12062020

JOTA – Casa de eventos deve indenizar casal gay por recusa a celebrar casamento. Disponível em: https://www.jota.info/coberturas-especiais/liberdade-de-expressao/casa-de-eventos-deve-indenizar-casal-gay-por-recusa-a-celebrar-casamento-22052020

Conjur – Processo Digital nº: 1041244-74.2019.8.26.0114. Disponível em: https://www.conjur.com.br/dl/decisao-espaco-eventos.pdf

Matérias sobre pastor que sofreu espancamento na Índia são desinformativas

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Em 01 de julho, a coluna Giro Cristão disponível no site da Rádio 93 FM, emissora com sede na cidade do Rio de Janeiro, do Grupo MK, do senador evangélico Arolde de Oliveira (DEM/RJ) focada em temas cristãos, publicou uma matéria intitulada: “Pastor é espancado na Índia depois de orar por um doente”.De acordo com o texto, assinado pela jornalista Marcella Bastos, oito ataques contra cristãos teriam acontecido na Índia após a flexibilização do isolamento social por causa da Covid-19. 

Um deles teria sido contra o pastor Suresh Rao. O ato contaria com cerca de 150 pessoas que o arrastaram e espancaram, sob a justificativa de que Rao teria orado por uma pessoa doente. “Eles me arrastaram para a rua e me jogaram no chão. Começaram a pisar em mim, rasgaram minhas roupas, me chutaram por todo o corpo e socaram meu olho esquerdo. Sofri uma lesão ocular grave como resultado de um coágulo sanguíneo”, explicou a vítima em depoimento. Segundo a matéria, que não cita a fonte da notícia, os agressores acusaram o pastor de converter hindus ao Cristianismo, afirmando que a Índia seria uma nação hindu e não teria lugar para cristãos. 

Bereia verificou que sites de notícias cristãs do exterior publicaram matéria sobre o caso, dias antes. Um deles é o CBN News  (Christian Broadcasting Network) que noticiou a agressão ocorrida no dia 21 de junho, ocasião em que o Pastor Rao estaria orando por um doente na vila de Kolonguda. As informações foram baseadas em texto de outro grupo cristão que publica notícias na internet: International Christian Concern (ICC), instituição de caridade, sem fins lucrativos, que se declara prestadora de assistência, conscientização e serviços jurídicos a igrejas cristãs perseguidas em todo o mundo, desde 1995. A matéria na coluna “Persecution” [Perseguição], provavelmente a base para as demais, relaciona o aumento repentino de ataques a cristãos na Índia a partir da suspensão do isolamento social imposto contra a Covid-19. 

“Eles disseram que a Índia é uma nação hindu e que não há lugar para cristãos”, explicou Rao ao ICC. Em outro ponto, ele afirma: “Estou preparado para esse tipo de eventualidade”, explicou o pastor Rao. “Conheço o custo de servir a Jesus nessas aldeias remotas e continuarei a servir as pessoas desta região”. 

O ICC aponta também um outro incidente da mesma natureza no estado indiano de Tamil Nadu, onde uma igreja teria sido reduzida a cinzas, deixando 100 cristãos sem local de culto. “Fiquei tão angustiado e com dores no coração“, disse Ramesh, pastor da Igreja da Paz Real, em entrevista ao ICC, replicada também na matéria da CBN News.

“Foi um trabalho árduo por dez anos construir a igreja. Todo o trabalho árduo e doações de sacrifício dos pobres membros da congregação foram derrubados no chão. Tudo o que resta são cinzas”. Na entrevista, ele acrescentou: “Nos últimos dez anos, radicais me disseram várias vezes para fechar a igreja. Pela graça de Deus, fui capaz de suportar todas essas dificuldades e abusos, mas desta vez é uma devastação total”, acrescentou o pastor.

Um terceiro exemplo apontado na publicação diz respeito a possíveis ameaças de radicais aos membros da Igreja Evangélica Leigos, realizadas em 13 de junho, feitas quando eles estavam montando a igreja para reabrir após o confinamento motivado pela Covid-19. Como explicitado na matéria, o pastor Augustine salientou que os radicais estariam dizendo aos cristãos que orar ou se reunir na igreja era proibido e que os cristãos haviam causado a propagação do vírus.

“Não sabemos o que o futuro reserva”, disse o pastor Augustine. “No entanto, estamos preocupados que os radicais não nos permitam ter um culto na igreja”.

O texto apresenta o temor dos cristãos indianos, preocupados que a perseguição continue à medida que mais pessoas comecem a emergir do isolamento social.

O site evangélico brasileiro Gospel Mais também publicou a notícia sobre o espancamento do pastor Suresh Rao, além de ter abordado o momento político na Índia, considerando-o como extremista, tendo à frente o líder ultranacionalista Narendra Modi, do Partido Bharatiya Janata, no comando do país desde 2014. Gospel Mais sinaliza ainda as restrições da liberdade religiosa aprovadas em 2018, baseadas em argumento de que evangelistas “forçam” ou dão benefícios financeiros aos hindus para convertê-los ao cristianismo.

Entenda a situação dos cristãos na Índia

A Índia é o segundo país mais populoso do mundo, ficando atrás da China. De acordo com o World Christian Database (WCD), a maior religião do país é o hinduísmo, com 72,5% da população. A religião predomina a Índia há séculos (começou a se desenvolver entre 500 e 300 a.C.). A segunda maior religião na Índia é o islamismo, com 14,4% da população. Já o cristianismo desponta como a terceira maior religião no país, com 4,8% da população. Em seguida, vêm as chamadas etno-religiões, com 3,8% da população, que são religiões tribais tradicionais anteriores à chegada do hinduísmo e do budismo no país. Por último, está o budismo, com 0,7% da população, e se originou na Índia Antiga em algum momento entre os séculos 4 e 6 a.C., de onde se espalhou por grande parte da Ásia. 

Estudos atribuem a introdução do cristianismo na Índia pelo Apóstolo Tomé, que supostamente desembarcou em Kerala em 52 d.C. Há, porém, consensos de vários estudiosos de que o cristianismo foi estabelecido na Índia pelo século 6 d.C., por algumas comunidades que usaram liturgias sírio-aramaicas.  Os cristãos são encontrados em toda a Índia, entre católico romanos, ortodoxos de várias tradições e evangélicos, com grandes grupos em partes do sul e da costa sul do país, a costa de Konkan, e também no Nordeste da Índia.

Igrejas protestantes e ortodoxas, bem como organizações ecumênicas, conselhos regionais e agências cristãs da Índia estão articuladas no Conselho Nacional de Igrejas da Índia (NCCI, sigla em inglês). O Conselho foi estabelecido em 1914 como Conselho Missionário Nacional e, em 1979, o Conselho se transformou no que é conhecido como Conselho Nacional de Igrejas na Índia. O NCCI é composto por 30 igrejas-membro, 17 conselhos cristãos regionais, 18 organizações da Índia e 7 agências relacionadas. Representa cerca de 14 milhões de pessoas na Índia. 

O Conselho e seus membros constituintes declaram estar ativamente engajados nos serviços religiosos, na construção da nação e na transformação social. É um Conselho autônomo inter-confessional que indica promover e coordenar vários tipos de atividades pela vida e pelo testemunho responsáveis, pela defesa da dignidade humana, pela justiça ecológica e econômica, pela transparência e prestação de contas e pela equidade e harmonia, através de seus membros constituintes e em parceria com a sociedade civil, ONGs, movimentos populares e simpatizantes em nível local, nacional e internacional.

Cristãos indianos sempre contribuíram significativamente para a vida pública na Índia, segundo o NCCI, e estão representados em várias esferas da vida nacional, entre ministros de Estado, governadores e comissários eleitorais principais. 

A intolerância religiosa na Índia

Apesar da constituição da Índia ser secular e tolerante no tocante à liberdade religiosa, de haver representação religiosa ampla em vários aspectos da sociedade, incluindo no governo, do papel ativo desempenhado por órgãos autônomos, tais como a Comissão Nacional de Direitos Humanos da Índia e a Comissão Nacional para as Minorias, e do trabalho de organizações não- governamentais, há um histórico de perseguição a cristãos e muçulmanos na Índia. Vinham sendo ações pontuais de grupos radicais hindus que consideram tanto o islamismo quanto o cristianismo religiões estrangeiras que devem ser removidas do país, desta forma, muçulmanos e cristãos enfrentam intolerância de parte destes grupos. Já os budistas e siques (membros do siquismo, religião monoteísta que se originou no século XV, em Punjabe, cidade que limita a Índia e o Paquistão) são muito mais aceitos pelos radicais hindus, pois essas religiões se originaram em território indiano.

Pesquisa dos professores da Universidade Tecnológica Nanyang de Singapura, Nilay Saiya, Stuti Manchanda, mostra que, desde 1967, sete dos 29 estados da Índia têm imposto leis de ‘anticonversão’, que são projetadas para impedir que indivíduos e grupos convertam ou tentem converter, direta ou de outra forma, pessoas através de meios ‘forçados’ ou ‘fraudulentos’, incluindo ‘atração’ ou ‘ indução’. Saiya e Manchanda afirmam: 

“Esse pode parecer um objetivo nobre o suficiente [liberdade religiosa]; no entanto, argumentamos que as leis anticonversão realmente servem para gerar violenta perseguição anticristã, criando uma cultura de vigilantismo nos estados onde essas leis existem. Nossa análise conclui que os estados que aplicam leis anti-conversão têm, de fato, estatisticamente mais probabilidade de dar origem a violenta perseguição contra os cristãos do que estados onde essas leis não existem”.

A situação se agrava desde 2014, quando o partido de extrema-direita Bharatiya Janata (BJP, na sigla em inglês) tomou o poder e tem incentivado a ideia de que a Índia deve ser uma nação hindu, com o hinduísmo como sua única fé. Ligada à legenda, a organização Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS) é a principal responsável por disseminar essas ideias, por meio da perseguição religiosa.

Cristãos e muçulmanos têm visto o aumento drástico dos casos de agressão física, de ataques contra igrejas e comunidades, de prisões arbitrárias e de violência sexual, desde que o BJP conquistou a maioria dos assentos no Parlamento e seu líder, Narendra Modi, assumiu o comando do país como primeiro-ministro. Modi renovou o mandato nas eleições de 2019.

O objetivo expresso pelo governo de Modi é fazer da Índia uma nação 100% hindu, livre de outras religiões minoritárias até o fim de 2021. Os poderes Legislativo e Judiciário e organizações ligadas ao governo têm sido incentivados a trabalhar para isso.

Um relatório da organização Human Rights Watch (Observatório de Direitos Humanos) trata dos graves eventos ocorridos em 2018, com perseguição da parte do governo do BJP a ativistas, advogados, defensores de direitos humanos, jornalistas que se colocaram diante dos ataques a minorias religiosas e comunidades marginalizadas. Foram contabilizados 18 ataques apenas no mês de novembro daquele ano.

Em 2017, o jornal O Globo noticiou a prisão de um grupo de 32 católicos enquanto ouvia músicas de Natal no estado de Madhya Pradesh, na Índia, sob suspeita de tentar converter outras pessoas ao cristianismo. Na data, quando um grupo de sacerdotes foi à delegacia de polícia indagar sobre as detenções, o carro em que estavam foi incendiado no estacionamento. Os suspeitos pertencem a um grupo hindu de direita, de acordo com informações do secretário geral da Conferência Episcopal da Índia, Theodore Mascarenhas.

O NCCI (Conselho Nacional de Igrejas da Índia) tem, frequentemente, se manifestado publicamente contra as ações violentas contra cristãos e muçulmanos, por meio de cartas abertas dirigidas ao primeiro-ministro. Da mesma forma a Conferência Cristã da Ásia, organização regional que representa 15 conselhos nacionais de igrejas de mais de 100 denominações cristãs.

Lei recentemente aprovada pelo parlamento indiano foi condenada pelo NCCI e teve repercussão mundial. É a emenda à Lei da Cidadania, aprovada em 2019, que dá cidadania aos hindus, sikhs, budistas, jainistas, parses e cristãos não-indianos residentes na Índia antes de 2014, mas exclui os muçulmanos. O comissariado de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) afirma que esta lei é “fundamentalmente discriminatória”.

O relatório do Alto Comissário dos Direitos Humanos da ONU, de março de 2018, já afirmava:

“Na Índia, estou cada vez mais perturbado pela discriminação e violência dirigida a minorias, incluindo dalits e outras castas programadas, e minorias religiosas como muçulmanos. Em alguns casos, essa injustiça parece ativamente endossada por autoridades locais ou religiosas. Estou preocupado com o fato de as críticas de políticas governamentais serem frequentemente contestadas por alegações de que constituem sedição ou ameaça à segurança nacional. Estou profundamente preocupado com os esforços para limitar as vozes críticas através do cancelamento ou suspensão do registro de milhares de ONGs, incluindo grupos que defendem os direitos humanos e até grupos de saúde pública”.

* * *

Diante da verificação empreendida pelo Coletivo Bereia, é possível afirmar que casos de intolerância e perseguição religiosa contra cristãos e outras minorias religiosas, em especial muçulmanos, que eram pontuais na Índia há muitas décadas, estão ocorrendo com mais intensidade desde que o partido de extrema-direita Bharatiya Janata, com o primeiro ministro Narendra Modi, chegaram ao poder em 2014. 

É possível que o relato do espancamento do pastor Suresh Rao tenha ocorrido, diante deste quadro, no entanto, este caso específico não pode ser comprovado nas pesquisas empreendidas pelo Bereia. A matéria da Rádio 93 FM, do Rio, publicada também no Gospel Mais, a partir de veículos de notícias cristãs internacionais, é classificada, portanto, como imprecisa. A matéria não apresenta dados relevantes como a fonte de onde foi baseada a notícia, a data do ocorrido, o nome da igreja ao qual o pastor está vinculado, a cidade onde ocorreu a possível ação violenta e as providências tomadas por justiça em relação a este caso de violência e o contexto em que se dá o caso (exceção do Gospel Mais, neste ponto).

A imagem utilizada como capa da notícia é o registro de um protesto entre hindus e mulçumanos, e não entre cristãos (Foto: Reuters/Danish Siddiqui)

Além disso faz uso de foto enganosa. A foto de um homem sendo espancado atribuída pela Rádio 93 FM ao pastor Rao, é, na verdade, da Agência Reuters, de caso ocorrido em 26 de junho de 2020, com ataque ao muçulmano Mohammad Zubai que se dirigia a uma mesquita. A possível fonte localizada pelo Coletivo Bereia, o International Christian Concern também não oferece dados sobre o caso, apenas diz que o pastor atua no estado de Telangana mas não publicou fotos atribuídas ao caso.


Este tipo de matéria sobre a perseguição religiosa desinforma, pois, além de reforçar o sensacionalismo de imagens de violência, silencia sobre outros grupos religiosos que são alvo, além dos cristãos, até mesmo com mais discriminação por leis. O caso do uso da foto enganosa é bem ilustrativo desta postura desinformativa. Com isso se faz, leitores pensarem que apenas cristãos sofrem violações naquele país, reforçando imaginários de vitimização exclusiva. De igual modo, as matérias ignoram as ações diante desta violação de direitos humanos nos países em que ocorre a perseguição, inclusive as dos próprios Conselho de Igrejas locais e as pressões de órgãos internacionais por procedimentos de justiça nestes casos, levando à falsa compreensão de que nada é realizado.

***

Referências da Checagem:

Pastor que orava por doentes é arrastado e espancado por multidão na Índia. Disponível em: https://noticias.gospelmais.com.br/pastor-orava-espancado-multidao-india-136861.html. Acesso em 06 de julho de 2020.

Pastor espancado por Mob, igreja incendiada enquanto a perseguição cristã violenta aumenta na Índia.  Disponível em: https://www1.cbn.com/cbnnews/world/2020/june/pastor-beaten-by-mob-church-set-on-fire-as-violent-christian-persecution-escalates-in-india. Acesso em 06 de julho de 2020.

Giuliano Martins Massi. Cristianismo na Índia: os cristãos de São Tomé, sua constituição, suas tradições e suas práticas religiosas. Dissertação de Mestrado, Ciência da Religião UFJF. Disponível em: http://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UFJF_7564a2e9be6e6356aa1ff80bf65c2653   Acesso em 06 de julho de 2020.

Católicos são presos na Índia após cantar músicas de Natal. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/catolicos-sao-presos-na-india-apos-cantarem-musicas-de-natal-22195956. Acesso em 06 de julho de 2020.

Nilay Saiya, Stuti Manchanda. Anti-conversion laws and violent Christian persecution in the states of India: a quantitative analysis. Ethnicities Volume: 20 issue: 3, page(s): 587-607  Disponível em https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1468796819885396. Acesso em 07 jul 2020

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy. A Constituição da Índia. Jus.com.br, jan 2008. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/10831/a-constituicao-da-india#:~:text=A%20constitui%C3%A7%C3%A3o%20da%20%C3%8Dndia%20principia,a%20igualdade%20e%20a%20fraternidade.. Acesso em 07 jul 2020

O Estado de São Paulo. Ódio religioso: políticas de líder indiano acendem barril de pólvora, 6 mar 2020. Disponível em: https://outline.com/aKrUdz. Acesso em 07 jul 2020.

El País. Índia dá vitória à tradição e ao nacionalismo hindu nas urnas, 24 mai 2019. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/23/internacional/1558592881_394460.html Acesso em 07 jul 2020. 

NCCI (Conselho Nacional de Igrejas da Índia). Disponível em: https://ncci1914.com/1825/2014/07/03/general-news/. Acesso em 07 jul 2020

Conferência Cristã da Ásia. Disponível em: https://cca.org.hk/attacks-on-christians-in-india/. Acesso em 07 jul 2020

Human Rights Watch. Disponível em: https://www.hrw.org/world-report/2019/country-chapters/india. Acesso em 07 jul 2020

ONU, Direitos Humanos. Disponível em https://news.un.org/en/story/2019/12/1053511 Acesso em 07 jul 2020

Zeid Ra’ad al-Hussein (March 2018). High Commissioner’s global update of human rights concerns (Report). UN Office of Human Rights. Dsiponível em: https://www.ohchr.org/EN/NewsEvents/Pages/DisplayNews.aspx?NewsID=22772&LangID=E. Acesso em: 07 jul 2020

Tabibi Tossul – https://tabibitosoul.com/2014/08/12/cristaos-na-india-2a-parte/

Matéria enganosa afirma que movimento ‘Vidas Negras Importam’ incentiva derrubada de estátuas de Jesus

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O título é categórico: “‘Black Lives Matter’ incentiva derrubada de estátuas de Jesus: ‘Supremacia branca”. A partir daí, a matéria publicada no site evangélico Gospel Mais, no último dia 25 de junho, afirma logo no primeiro parágrafo que “o movimento Black Lives Matter (BLM) [Vidas Negras Importam] vem incitando protestos violentos em meio à comoção generalizada decorrente do assassinato de George Floyd [em 25 de maio de 2020]”. O texto indica aos leitores que um dos principais líderes da militância está “incentivando a derrubada de estátuas e bustos que representem Jesus Cristo como um homem branco”. A afirmação declara de forma evidente que a ideia de derrubar as referidas imagens partem do movimento BLM.

Contudo, apenas no parágrafo posterior da matéria, Gospel Mais traz a explicação de que a declaração que originou a matéria foi feita por Shaun King, ativista formador de opinião e apoiador do movimento antirracista.  Ele ainda comanda o podcast “The Breakdown”, em que conta as histórias relacionadas à injustiça, ao racismo e à corrupção. Em seu perfil no Twitter, o ativista criou polêmica ao afirmar que representações de Jesus Cristo com características europeias são uma “forma de supremacia branca”, tendo ainda defendido que tais obras deveriam ser derrubadas. O tweet, publicado por Shaun King no dia 22 de junho, contabilizou mais de nove mil retweets e 11,5 mil curtidas. Em português, o texto diz:

Sim, acho que as estátuas do europeu branco que afirmam ser Jesus também deveriam ser postas abaixo.

Eles são uma forma de supremacia branca.

Sempre foi.

Na Bíblia, quando a família de Jesus queria se esconder e se misturar, adivinha para onde eles foram?

EGITO!

Não na Dinamarca.

Derrube-os.

Os protestos que atingem os monumentos históricos

A postagem de Shaun King foi feita no contexto da onda de protestos contra o assassinato de George Floyd, homem negro de 46 anos, desempregado, pela polícia de Minneapolis (EUA). Floyd havia sido detido em 25 de maio de 2020, por suspeita de uso de dinheiro falso e, no ato, foi imobilizado por um policial que ajoelhou em seu pescoço por mais de oito minutos. Apesar de George Floyd não ter oferecido resistência à prisão, acabou morto por asfixia pelo policial que o imobilizou, acompanhado por dois policiais, desconsiderando os gritos do preso: “Eu não consigo respirar!”.  O caso, mais um no histórico de ações violentas da polícia nos EUA contra a população negra, ganhou destaque no noticiário e nas mídias sociais e gerou revolta não apenas entre pessoas negras, mas entre todas naquele país que se opõem ao racismo estrutural que marca sua história.

Durante muitos dias foram realizados protestos pacíficos, outros nem tanto, seguidos de depredações, em todos os EUA, alcançando, em poucos dias, vários outros lugares do mundo, em desafio ao isolamento contra a pandemia de coronavírus, para que pessoas de todas as cores, classes sociais e idades se manifestassem contra o racismo, as desigualdades sociais e a brutalidade policial. Os protestos se transformaram em um movimento histórico mundial – BLM [Vidas Negras Importam] – que, mais uma vez, expôs as entranhas do racismo e reacendeu o desejo de justiça e mudança nas relações humanas. 

Foto: Estátua do rei Leopoldo 2°, que havia sido manchada de tinta vermelha por manifestantes, foi removida na Bélgica (DW)

O BLM gerou resultados: os policiais foram demitidos e presos e modificações nas políticas de segurança foram adotadas em várias cidades e estados. 

Entre as manifestações, começou a ser questionada a existência de monumentos e homenagens públicas a figuras racistas e que, historicamente, contribuíram para a violência contra não-brancos. A partir deste questionamento, foram tomadas iniciativas de reivindicação da retirada oficial destes monumentos e algumas ações concretas. Em 9 de junho, uma estátua de Cristóvão Colombo foi derrubada em Richmond, nos EUA, incendiada e jogada em um lago por manifestantes. Um cartaz foi colocado no pedestal vazio com a frase “Colombo representa genocídio”. Defensores dos direitos de nativos americanos há muito pressionam os estados dos EUA a mudarem o Dia de Colombo para Dia dos Povos Indígenas, devido a críticas de que Colombo teria sido o precursor de um genocídio de populações indígenas das Américas. 

Já a prefeitura de Londres, Inglaterra, anunciou que estátuas de pessoas ligadas ao período colonial poderão ser removidas das ruas e parques, e deverão refletir melhor a diversidade racial e cultural da capital. Em 9 de junho, uma estátua do proprietário de escravos Robert Milligan, que estava em frente ao Docklands Museum, perto do rio Tâmisa, foi retirada pela entidade responsável pelo monumento, a Canal and River Trust, para expressar “o sentimento da comunidade”. Milligan foi um comerciante proprietário de fazendas e de escravos nas Índias Ocidentais no século 18 e 19.  A estátua dele estava no local desde o início dos anos 1800. A remoção ocorreu depois de um grupo de manifestantes, em 7 de junho, ter derrubado e lançado ao rio a estátua do comerciante de escravos Edward Colston, em Bristol, no oeste de Inglaterra. Na cidade de Oxford, centenas de manifestantes pediram, em 9 de junho, a retirada do monumento do colonizador Cecil Rodhes, situado em frente ao Oriel College. Também houve protestos no centro de Londres e em outras cidades britânicas.

(Reprodução/ La Tercera)

É importante recordar que a derrubada de estátuas de personagens homenageadas em uma época e questionados em outra, é processo comum, especialmente quando há movimentos revolucionários, mudanças de regime político. Da mesma forma, a mudança de nomes de ruas, de locais públicos e até de cidades em protesto às homenagens não mais apoiadas. Um exemplo clássico se deu com o fim da União Soviética nos anos 1990.  Os povos sob o regime soviético recuperaram sua memória, e tradições culturais e religiosas foram reinstauradas: bandeiras redesenhadas, ruas renomeadas, estátuas de heróis do mundo soviético foram derrubadas, e os livros de história reescritos. Este episódio foi fartamente celebrado pelo mundo ocidental à época. ) 

A postagem de Shaun King ocorreu neste contexto, o que não foi explicado na matéria do Gospel Mais. No compromisso com a informação e com um jornalismo coerente, o Coletivo Bereia oferece esta contextualização, que ainda demanda aprofundamento, pois estes movimentos e os questionamentos que os embasam não nascem com a morte de George Floyd. 

Movimentos por justiça racial são antigos

A questão da justiça racial está em alta com estas manifestações estimuladas pelo assassinato de George Floyd, porém a justiça racial é uma discussão que permeou o século 20, com a realidade imposta à população de cor preta, desde a extinção da escravidão na Europa e nas Américas, na segunda metade do século 19. Ela ganhou auge nas lutas pelos direitos civis para as pessoas negras nos Estados Unidos nos anos 1950 e 1960. O movimento buscava reformas naquele país visando abolir a discriminação e a segregação racial, com ele surgiram articulações como o Black Power e os Panteras Negras (Demétrio Magnoli, Uma Gota de Sangue: história do pensamento racial. 2009).

O marco inicial do movimento pelos direitos civis se deu no sul dos Estados Unidos, fortemente racista no país, especificamente na cidade de Montgomery, estado do Alabama, em 1 de dezembro de 1955, quando a costureira negra Rosa Parks (conhecida como “A Mãe dos Direitos Civis”) se recusou a ceder seu lugar para um homem branco em um ônibus, prática obrigatória de acordo com as leis segregacionistas daquele estado. 

Grupos religiosos fizeram história na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, que inspiraram demandas por justiça racial em todo o mundo. O pastor batista Martin Luther King Jr. e o líder islâmico Malcom X não apenas se destacaram nas ações pelo fim da segregação racial e os direitos das pessoas negras como tornaram-se mártires do movimento – os dois foram assassinados por racistas oposicionistas da causa. Luther King havia ganho o Prêmio Nobel da Paz, em 1964, como reconhecimento dos esforços pacíficos que empenhou.

Foto: o teólogo e pastor batista, Luther King, à sua esquerda, e o ativista Malcolm X (Reprodução/ PSTU)

Estas ações inspiraram o movimento anti-apartheid nos anos 1980, o regime segregacionista da África do Sul, que impôs uma prisão de 27 anos ao líder oposicionista Nelson Mandela, mais tarde presidente do país. Grupos cristãos também tiveram protagonismo na causa anti-apartheid, tendo se destacado a liderança do Bispo Anglicano Desmond Tutu. As ações e todas estas personagens continuam inspirando movimentos por justiça racial até hoje, como foi com a confluência em tono da morte de George Floyd, em 25 de maio de 2020.

A Teologia Negra

Destes movimentos do século 20 nasceu, entre cristãos nos Estados Unidos, a Teologia Negra. É uma leitura teológica, que atualmente está presente em diversas partes do mundo, e contextualiza a fé cristã pelo olhar dos povos negros escravizados, injustiçados e segregados. A Teologia Negra oferece uma leitura da Bíblia, a partir da experiência de fé dos negros estadunidenses, manifestada nos cânticos, nos sermões e em orações. Esta leitura destaca o êxodo do Egito e a ressurreição de Jesus como inspirações-chave da libertação de segregados e injustiçados. Um dos precursores desta teologia é James Cone, um teólogo afro-americano, cristão da Igreja Metodista Episcopal Africana, falecido em 2018, aos 80 anos. O livro de Cone, considerado um clássico da Teologia Negra, “O Deus dos Oprimidos” (1985), foi publicado no Brasil pelas Edições Paulinas. No Brasil, entre os precursores da Teologia, estão o teólogo evangélico Joaquim Beato (anos 60) e a teóloga feminista católica Sílvia Regina de Lima (anos 80). Entre os jovens teólogos brasileiros está o evangélico Ronilso Pacheco, autor do livro Teologia Negra (Recriar e Novos Diálogos, 2019), atualmente em estudos de Mestrado em Teologia no Union Theological Seminary (Nova Iorque/EUA). Ele é também autor de “Ocupar, resistir, subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão” (Novos Diálogos, 2016).

Fotos: Da esquerda par a direita: o teólogo afro-americano James Cone (Reprodução/ NYT); o Pastor Joaquim Beato ( Reprodução feita a partir do documentário “O sonho ecumênico); e a teóloga feminista católica Sílvia Regina de Lima (Reprodução/ Feminino Praxis)

Uma das reflexões provocadas pela Teologia Negra diz respeito ao “embranquecimento”, a negação das diferenças de cor em nome da supremacia branca, com o desprezo à negritude e a outras etnias, nas bases do Cristianismo. De acordo com o pesquisador Matheus Souza Gomes,  

“A história do cristianismo no Ocidente é marcadamente etnocêntrica e racista. Ainda que as teorias raciais datem do século 19 (muitas delas baseadas no etnocentrismo europeu construído desde os séculos 9º e 10º e no chamado darwinismo social), a tradição cristã europeia, que se tornou hegemônica na parte ocidental do mundo, carrega consigo a marca do etnocentrismo com base na crença de que a verdade divina foi revelada com exclusividade na pessoa de (um) Jesus de Nazaré (branco). Já se sabe, a partir de estudos bíblicos, arqueológicos, históricos e teológicos, que o Nazareno, era de origem judaica, nascido na região da Palestina durante a ocupação do território por forças romanas. Bem, devido à sua herança geográfica e étnica, é possível afirmar que a imagem do Cristo concebido pela tradição cristã europeia e que se popularizou não guarda nenhuma semelhança com o Jesus histórico nascido na Palestina dominada pelos romanos. Jesus de Nazaré não era branco. Era um judeu negro do Oriente Médio.

Essa constatação que, muitas vezes, passa batido por uma parcela significativa dos cristãos e que é negligenciada por diversas lideranças religiosas, possuí relevância para a história do cristianismo e revela um interessante paradoxo da tradição: o processo de embranquecimento da principal figura religiosa da tradição cristã: o próprio Jesus de Nazaré. Se a mensagem do Cristo se baseia na abertura e respeito para com o outro, por que as igrejas cristãs no Ocidente, principalmente, se deram ao trabalho de modificar as características físicas do “Filho de Deus”? Mais do que isto, por que durante o processo de expansão do cristianismo, a imagem de Jesus com características europeias foi conservada e, ainda hoje, é difundida pela tradição cristã ocidental? São perguntas inquietantes, mas que retratam um aspecto do cristianismo hegemônico no Ocidente: o seu racismo religioso”.

Estas concepções teológicas não dizem respeito apenas às imagens de Jesus, mas a todas as personagens bíblicas que, ao longo da história, tiveram seus traços do Oriente Médio embranquecidos, ocidentalizados. Esta observação extrapola a religião e entra pela História, por exemplo, quando personagens são representados de forma embranquecida, tendo sua negritude negada. Um exemplo, no Brasil, são os destacados escritores que têm sua identidade negra apagada nos estudos de literatura, como Machado de Assis e Cruz e Souza. É neste contexto, não abordado na matéria produzida por Gospel Mais, que se dá a afirmação de Shaun King, na postagem em que protesta contra as estátuas que representam Jesus na Europa branca.  

Desdobramentos 

Como é possível concluir, a partir de uma contextualização, a postagem de Shaun King não trata de uma incitação, e, sim, de um parecer defendido por ele, inserido em um debate norte americano por anos reivindicado, inclusive por diversas denominações negras. Em depoimento ao Coletivo Bereia, o teólogo Ronilso Pacheco acrescenta:

“Sim, a afirmação de King está pública no Twitter. Ela não é uma incitação, mas o que ele acha que deveria acontecer. E está inserida em um debate próprio do contexto americano, que não é de hoje, reivindicado inclusive por muitas igrejas negras. O Jesus, branco e de traços europeus, não corresponde em nada à realidade mais próxima do que se sabe sobre a imagem de Jesus. Desfazer essa imagem e o que ela significa na luta pelo fim do legado da escravidão é um debate sempre atual nos Estados Unidos. A matéria do Gospel Mais, de forma mentirosa, põe um título que afirma categoricamente que o Black Lives Matter está incitando a derrubada de estátuas de Jesus. A afirmação não é do BLM, mas do Shaun King”.

Reportagem do site Aventuras na História que também noticiou o fato, salienta que, para Shaun, diversas obras que mostram um Jesus Cristo branco são peças “criadas como ferramentas de opressão”, um tipo de “propaganda racista”. Na opinião do ativista, segundo a matéria, a imagem caucasiana do profeta foi “criada para ajudar os brancos a usar a fé como uma ferramenta de opressão”. Portanto, ratifica-se que crítica foi feita em meio aos muitos protestos antirracistas que tomam as ruas ao redor do mundo. Nesse contexto, como referido, diversos personagens históricos vêm sendo questionados, enquanto suas estátuas são pichadas, derrubadas e retiradas de seus pilares.

Na coluna Mundialista da revista Veja, do dia 24 de junho, a jornalista Vilma Gryzinski afirmou: 

“Shaun King, o autor das tuitadas provocadoras, tem uma obsessão por tons de pele. Sua mãe e seu pai dizem que ele é branco, mas King ganhou notoriedade como militante do Black Lives Matter. Usa até um bigodinho fino parecido com o de seu xará muitíssimo mais famoso, Martin Luther King, além de óculos e cabelos à la Malcolm X. O King atual diz que seu pai biológico era ‘um negro de pele clara’ com quem a mãe teve um relacionamento. Quando alguém põe a mãe no meio, voluntariamente, a coisa está feia. Sem falar em envolver Jesus na atual onda de estátuas derrubadas nos Estados Unidos, num furor iconoclasta que levou Donald Trump a ameaçar invocar a justiça federal e criar uma pena de 10 anos de prisão para quem continuar a praticar o vandalismo”.

O site UOL também noticiou o fato sem, no entanto, remeter ao suposto estímulo à derrubada de estátuas de Cristo ao movimento BLM. A matéria cita Shaun King como ativista norte americano, um dos fundadores da organização Real Justice PAC e apoiador do movimento “Black Lives Matter”. Segundo o texto, nas últimas semanas, algumas estátuas — principalmente aquelas ligadas a personagens escravagistas ou de passado colonial dos países — foram derrubadas ou pichadas por manifestantes nos EUA e em outros lugares do mundo.

Em alusão à mesma matéria da UOL, o deputado federal evangélico Carlos Jordy, fez uma postagem em seu perfil no Instagram, que atualmente possui mais de 263 mil seguidores. Ao citar a fonte, o deputado destaca: “organização ligada ao black lives matter, a esquerda americana que diz combater o racismo”.

Num recurso comum de quem usa desinformação para fins políticos, com imposição de medo e terror ao público, para criar rejeição a temas dos quais discorda e a opositores, o deputado usa a imagem do Cristo Redentor para relacionar à “ameaça” de derrubada de estátuas de Jesus.  O Coletivo Bereia mostrou a postagem do deputado Carlos Jordy no Instagram ao teólogo Ronilso Pacheco, que assim avaliou:  

“É ainda tão desonesta quanto à matéria do Gospel Mais, porque ele tira as frases do contexto, coloca entre aspas para passar a ideia de que são as afirmações de Shaun King, mas na verdade elas estão ‘editadas’. Nitidamente, Jordy está forçando a barra para que o leitor acredite que King pura e simplesmente disse que imagens de Jesus (qualquer uma, sem qualquer contexto) sejam derrubadas. Passar a ideia de que a crítica de King é contra a igreja e o cristianismo por si só, e não contra o uso racista e seletiva da imagem de Jesus”.

De volta à publicação do Gospel Mais, percebe-se ainda o termo “vandalizem”, o que, na verdade, não foi utilizado pelo ativista norte americano na ocasião da postagem no Twitter. Para o teólogo Ronildo Pacheco, em depoimento ao Coletivo Bereia, “Shaun King não usou o termo ‘vandalizar’ exatamente porque ele não tem o mesmo simbolismo que ‘derrubar’. Derrubar a imagem do Jesus europeizado tem o mesmo valor simbólico da derrubada da imagem de um general confederado que escravizou e matou milhares de afro-americanos. Esse é o contexto da mensagem”.

Como é comum em material desinformativo, para chancelar a aparente veracidade, a matéria do Gospel Mais recorre à opinião de Voddie Baucham Jr, pastor e teólogo negro, que participou de um programa de rádio para comentar os episódios do assassinato de George Floyd, no qual descreveu o movimento BLM como “anticristão”.  No depoimento, Baucham teria destacado que já é realidade a percepção de alguns cristãos que a Igreja deveria abraçar essas pautas, em busca da chamada justiça social, mas o resultado, para ele, é que essas pessoas terminam se distanciando do que a Bíblia ensina e prega. 

O teólogo Ronilso Pacheco explica, em depoimento ao Coletivo Bereia: 

Teólogo e pastor , Ronilson Pacheco é ativista no campo dos direitos humanos e colaborador de diversas organizações, igrejas e movimentos sociais. É formado em Teologia pela PUC-Rio e mestrando em Teologia pelo Union Theological Seminary, da Universidade de Columbia (EUA).
(Reprodução/ Facebook)

“Para mostrar ‘veracidade’, a matéria ouve a opinião de um pastor, negro, Voddie Baucham. Curioso ouvir justamente o pastor que enfureceu a comunidade negra, incluindo tantos pastores e pastoras, em 2014, quando, na ocasião do assassinato de Michael Brown, em Ferguson (contexto em que nasce o BLM) afirmou, em artigo na The Gospel Coalition, que a polícia não matava tantos negros. Para Baucham, homens negros morriam mais nas mãos de outros negros, e que achava preocupante ter negros que se preocupavam mais em fazer parte de uma raça do que do corpo de Cristo”.

O Coletivo Bereia classifica a matéria do site evangélico Gospel Mais como enganosa, uma vez que ela se baseia em uma postagem que, de fato, foi feita pelo ativista estadunidense Shaun King no seu perfil Twitter. No entanto, Gospel Mais desinforma para criar rejeição dos seus leitores ao BLM, ao atribuir a fala pessoal de Shaun King ao movimento, ao distorcer o conteúdo para criticar o ativista, com ausência de contextualização do discurso contido na postagem, com uso de termos com juízo de valor e com manipulação da declaração de uma fonte para levar seus leitores a acreditarem que foi feita uma incitação de “vandalismo”.  

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Referência de Checagem

Gospel Mais Black Lives Matter’ incentiva derrubada de estátuas de Jesus: ‘Supremacia branc. Disponível em: https://noticias.gospelmais.com.br/?p=136649&amp

Mundialista, Veja, Nem Cristo escapa: militante derrubaria estátuas “brancas”. 24 jun 2020. Disponível em: https://veja.abril.com.br/blog/mundialista/nem-cristo-escapa-militante-derrubaria-estatuas-brancas/

Notícias UOL, Ativista: estátuas de Jesus ‘europeu’ são símbolos de supremacia branca, 23 jun 2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/06/23/ativista-diz-que-estatuas-de-jesus-sao-simbolos-de-supremacia-branca.htm

Aventuras na História. Ativista afirma que imagem de Jesus Cristo caucasiano é uma “forma de supremacia branca”, 24 jun 2020. Disponível em:https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/historia-hoje/ativista-afirma-que-imagem-de-jesus-cristo-caucasiano-e-uma-forma-de-supremacia-branca.phtml

MAGNOLI, Demétrio. Uma Gota de Sangue: história do pensamento racial. São Paulo: Contexto, 2009.

IHU On Line. Uma teologia como chave para oprimidos resistirem à aspereza da vida. Entrevista com Ronilso Pacheco. IHU On Line, 4 set 2019. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/592266-uma-teologia-como-chave-para-oprimidos-resistirem-a-aspereza-da-vida-entrevista-especial-com-ronilso-pacheco

Dom Total. Por um cristianismo que assuma o Jesus Negro, 11 out 2019. Disponível em https://domtotal.com/noticia/1394162/2019/10/por-um-cristianismo-que-assuma-o-jesus-negro/ 

Russia Beyond. Da ascensão ao tombo: como os monumentos a Stálin sumiram do mapa europeu. 27 jun 2018. Disponível em: https://br.rbth.com/historia/80804-ascensao-tombo-monumentos-stalin-sumiram-mapa-europeu

Revista Prosa Verso e Arte. Disponível em: https://www.revistaprosaversoearte.com/15-escritoras-e-escritores-negros-que-deveriam-ser-estudados-nas-escolas/

É verdade que Fabiana Anastácio negou o risco de ser infectada pela COVID-19

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A cantora gospel Fabiana Anastácio publicou “o coronavírus não atingirá a sua casa, porque quem guarda a sua casa é Jesus”

Na última quinta-feira, 04, o novo Coronavírus vitimou de forma fatal a cantora gospel Fabiana Anastácio. Ela era hipertensa e diabética, tendo falecido em São Paulo, após ficar uma semana internada em decorrência da Covid-19, segundo a página da artista no Facebook.

Último clipe lançado durante a internação da cantora

Natural de Santo André (SP), ela era filha de um pastor e de uma maestrina. Fabiana tinha 45 anos e era pastora da igreja evangélica Assembleia de Deus, no bairro Demarchi, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. De acordo com matéria publicada em 08 de junho, no portal G1 , em 2008, uma apresentação de Fabiana na igreja Assembleia de Deus de Santo André viralizou e ela passou a ser conhecida em todo o Brasil pelos evangélicos. Em 2012, gravou seu primeiro CD intitulado: “Adorador 1″. Outros dois CD’s foram lançados posteriormente: “Adorador 2 – Além da Canção”, em 2015, e “Adorador 3 – Além das Circunstâncias”, em 2017.

Segundo matéria publicada no portal Hoje em Dia no dia 04 de junho, a cantora teria esperado por sete dias uma vaga na UTI em uma unidade pública.

Conforme anunciado na mídia social da cantora no dia 01 de junho, amigos, familiares e fãs se mobilizaram para custear as despesas por meio de uma campanha de arrecadação. 

De acordo com o site Correio Braziliense, em matéria publicada no dia 04 de junho, a campanha conseguiu angariar mais R$ 24 mil para ajudar no tratamento de Fabiana.

“Como igreja sabemos que quando uma parte do corpo perece, todo corpo sente a dor ou, pelo menos, deveria sentir. A dor não escolhe cor, nem raça, nem status ou condição… ela simplesmente surge e traz suas consequências. Nesse momento nossa amiga/pastora/cantora Fabiana Anastácio precisa da nossa ajuda para combater o COVID-19, ela está internada no hospital com todos os cuidados necessários, mas com um custo alto para a família, ainda mais nesse momento de recesso de agendas e claro, com algo que ninguém esperava. Estamos todos juntos nessa causa, #SomosTodosFabiana!”, dizia a campanha

Na já citada reportagem do Hoje em Dia, o esposo e pastor, Ruben Nascimento também foi testado positivo para Covid-19, mas se recuperou. Fabiana e Ruben estavam juntos há 21 anos e casados há 20, tendo gerado três filhos: Ruben Junior, 17 anos, Guilherme, 16 e Lucas, de 13.

De acordo com o marido, a doença evoluiu rápido para Fabiana. Segundo ele, no início, ela tinha sintomas de gripe e foi isolada em casa. Quando piorou, foi para um hospital, testou positivo e ficou internada. Ruben chegou a convocar uma campanha de oração e jejum na segunda-feira, 01.

Dois dias depois, uma nota oficial nas mídias sociais da cantora mostrava que havia a expectativa dela se recuperar.

“Ela continua na UTI do hospital aqui em São Paulo. Seu quadro geral ainda é estável, mas com um pouco de dificuldade pra respirar. Lembrando que essa dificuldade tem a ver com seu peso, ou seja, a recuperação toda tem a tendência de ser mais lenta por causa disso”, dizia o texto.

Contudo, a cantora gospel Fabiana Anastácio morreu na manhã desta quinta-feira, 04. A notícia foi confirmada na página oficial da artista, nas mídias sociais.

Na nota dizia: “Deus decidiu levar, nossa (Fabiana Anastacio Nascimento) para os seus braços. Obrigado a todos pelas orações, ao longo do dia será postado mais informações.

Te Adorarei, te adorarei, quando chegar aí no Céu te adorarei”.

A publicação contou com 191 mil interações, 41 mil comentários e 24 mil compartilhamentos. “Deus decidiu levar, nossa (Fabiana Anastácio Nascimento) para os seus braços. Obrigado a todos pelas orações, ao longo do dia será postado mais informações. Te Adorarei, te adorarei, quando chegar aí no Céu te adorarei”, dizia a legenda.

Ao G1, o Pastor Ruben Souza Nascimento, marido da cantora, afirmou que Fabiana deixa como lembrança para familiares e fãs o sorriso largo e contagiante que carregava e afirma que a cantora “cumpriu sua missão de levar fé e alegria para pessoas de todo o Brasil“.

Ela era muito bonita, muito alegre. Todo ambiente em que ela estava, era contaminado por alegria e simpatia. Ela cantava e palestrava em igrejas no Brasil inteiro e quem a conheceu sabia que era uma pessoa extraordinária”, disse  o p Pastor Ruben em entrevista ao G1 nesta segunda-feira, 08 de junho.

Na entrevista, Ruben ainda afirmou que a missão dele e da família agora é caminhar e, apesar da dor do luto, encontrar forças na fé para superar a perda. O pastor diz que a esposa cumpriu em vida uma importante missão.

Cantora publicou frase sobre o Coronavírus? 

Circula nas redes sociais uma frase que teria sido publicada pela cantora Fabiana Anastácio. A postagem, realizada em um perfil do Facebook no dia 05 de junho, salienta na legenda: “O negacionismo é que está matando a população”.

Reprodução/ Facebook

O Coletivo Bereia checou as mídias sociais da cantora, de onde a publicação teria surgido e constatou que a existência da frase é verdadeira e foi postada no Instagram de Fabiana Anastácio no dia 21 de março, período em que os governos se mobilizavam para implantar o sistema de isolamento social como forma de conter o avanço da doença no país. 

Cantora gravou áudio alertando sobre Covid-19 enquanto esteve internada?

Circula na internet um áudio atribuído à Fabiana Anastácio, no qual essa afirmaria que a doença não vê religião. Além disso, o áudio alerta os cristãos a ficarem em casa para não se exporem ao vírus.

Segundo a matéria do Boatos.org, diversas histórias falsas de pessoas gravando áudio antes de morrerem já circularam na internet. Outrossim, é perceptível o caráter vago e alarmista da mensagem, sem contar os erros de português e a falta de fontes confiáveis. Todos esses pontos são indicativos de uma fake news.

Confira o áudio :

Mesmo que a mensagem tenha algo de verdadeiro, quando afirma que “a doença não vê religião”, além da sugestão positiva para “que fiquem casa”, o áudio não é da cantora Fabiana Anastácio. De acordo com a assessoria da cantora, Fabiana não teve acesso a nenhum tipo de dispositivo móvel enquanto permaneceu no hospital.

Por fim, Bereia checou que o áudio foi gravado pela missionária Maiara Machado, da Assembleia de Deus, da Bahia.

A própria missionária comentou o assunto em sua página no Facebook :

Agora sim!!! A postagem está correta!!

ÁUDIO QUE VAZOU DIZENDO SER A CANTORA FABIANA ANASTÁCIO ANTES DE MORRER!!

Obs: Não foi da cantora!! Entrem nesse canal e vejam!”

Pandemia e o racha entre os evangélicos no Brasil

Em entrevista para a BBC Brasil, o teólogo Kenner Terra afirma que “só de você estar considerando as recomendações da OMS já é quase como um ‘ato de resistência”.

Terra é pastor de uma igreja Batista, coordenador do Fórum Evangelho e Justiça no Espírito Santo e está entre os que defendem as medidas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para evitar a disseminação da covid-19. Por isso, foi alvo de muitas críticas e comentários agressivos de outros evangélicos contrários ao isolamento.

As igrejas estão divididas. De um lado líderes que defendem o fim do isolamento, a manutenção dos templos abertos e os cultos presenciais — destes, alguns até entraram em disputa com o Ministério Público do Rio de Janeiro pelo direito de manter as igrejas abertas. Do outro lado, líderes que fecharam os templos, fazem cultos online e pedem que os fiéis orem em casa”, diz a matéria da BBC Brasil. 

Para Terra, essa divergência expõe uma divisão nesse grupo religioso que se acentuou durante os últimos anos, à medida que o presidente Jair Bolsonaro assumia uma “aura de autoridade religiosa”. Esses que minimizam a pandemia, continua Terra, “em geral, são grupos que se alinham com o projeto bolsonarista e o acompanham na forma de lidar com a pandemia”.

Já em matéria publicada em 14 de abril de 2020, a socióloga Rosana Pinheiro-Machado afirma que:

Nos últimos dias, pastores como Edir Macedo e Silas Malafaia têm feito um grande desserviço ao combate da epidemia, colocando-se contra o isolamento social e temendo o esvaziamento das igrejas, que é fonte de arrecadação de dízimo e também de formação de coesão social. Mais do que isso, multiplicam-se memes e vídeos no WhatsApp de pastores charlatões, dizendo que quem tem fé está imune, que a epidemia é coisa de satã, uma vingança divina. Também há aqueles que oferecem receitas de cura”.

A relação entre parte do público evangélico e Bolsonaro é de mão dupla. Como exemplo, há a fala de Bolsonaro, no Programa do Ratinho, onde esse se conecta com esses religiosos quando diz que a igreja às vezes é a única coisa que as pessoas têm. Além disso, ele também pediu jejum nacional para combater o vírus com a fé.

Em uma entrevista dada para a jornalista Patrícia Fachin, do Instituto Humanitas Unisinos, a socióloga Rosana Pinheiro-Machado afirma que “o que está em jogo é uma disputa por novos discursos, regimes de verdade e fontes de autoridade”. “São sistemas de pensamentos distintos. Um é baseado em evidência; outro, na autoridade da fé” [].

Conclusão

Bereia conclui ser verdadeira a informação de que a cantora gospel Fabiana Anastácio disse que o Coronavirus não atingirá a sua casa, porque quem guarda a sua casa é Jesus. A publicação está em sua própria página no Instagram. Por outro lado, o áudio atribuído à cantora é falso

***

Referências de Checagem

Metropoles– Frase sobre Coronavirus – Disponível em: https://www.metropoles.com/colunas-blogs/pipocando/o-coronavirus-nao-atingira-sua-casa-disse-cantora-gospel-antes-de-morrer

Instagram de Fabiana Anastáciohttps://www.instagram.com/p/B9_v_KDA51b/ acessado em 09.06.20

BBC – Como a crise do coronavírus expõe racha entre evangélicos no Brasil – Disponível em : https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52313890

Intercept – Coronavírus: como as igrejas evangélicas estão se aproveitando da crise para ocupar o vácuo do estado  – https://theintercept.com/2020/04/14/coronavirus-igrejas-evangelicas/

Ihu – Esquerda e direita disputam regimes de verdade. Entrevista especial com Rosana Pinheiro-Machado Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/573311-esquerda-e-direita-disputam-a-verdade-entrevista-especial-com-rosana-pinheiro-machado

Boatos– Cantora gospel Fabiana Anastácio gravou áudio alertando sobre Covid-19 no hospital Disponível em: https://www.boatos.org/religiao/cantora-gospel-fabiana-anastacio-audio-covid-19-hospital.html

Áudio da missionária Maiara Machado alertando os cristãos contra o coronavírus –

Página do Facebook da missionária Maiara Machado

Relacionar brinde do Presidente Bolsonaro com leite ao nazismo é enganoso

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A Live da Semana do Presidente Jair Bolsonaro (sem partido), da última quinta-feira, 28 de maio, despontou como mais uma polêmica que o envolve. Na ocasião, ele tomou um copo de leite junto com os participantes, o presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, e o Secretário de Aquicultura e Pesca do Ministério da Agricultura, Jorge Seif Junior.

Na transmissão no YouTube, cujas visualizações chegavam até quase 287 mil até a data desta matéria, o presidente diz (minuto 10’40’’)

“Vamos aproveitar o momento aqui, pessoal, eu não estou fazendo propaganda de marca nenhuma, tá? Desafio do Leite. Vamos brindar aqui o nosso produtor rural, o pessoal do setor leiteiro do Brasil, é uma atividade que não é fácil – eu morei em fazenda por algum tempo lá em Eldorado Paulista, na Fazenda Quirongosi – nós somos o terceiro maior produtor de leite do mundo e sempre tomei isso aqui. De vez em quando tomo uns venenos aí, tá certo, que vem aí a gente compra em lata nos bares, tá? Mas um brinde a todos os produtores de leite do Brasil e um brinde a nossa querida Tereza Cristina. Não é a melhor não né? Porque se for a melhor só podia ser ela porque não tem outra mulher. Entre todos os outros, homens, que passaram pela agricultura, com todo o respeito, a melhor… Ministério da Agricultura do Brasil, Tereza Cristina. Vamos lá. Selva!

Foto: Reprodução/ Youtube

Matéria publicada no site do Canal Rural, no mesmo dia daquela transmissão em vídeo, confirmou que o presidente teria feito “uma pequena homenagem” aos produtores de leite no Brasil.

A ação viral teria consistido no “desafio” entre produtores e personalidades midiáticas para que gravassem um vídeo tomando um copo de leite. A pessoa entrava na brincadeira, desafiava outros amigos durante a gravação e bebia o leite.

Em pouco tempo, várias postagens em mídias sociais de pessoas e organizações passaram a criticar o ato, que, em sua compreensão, seria uma mensagem subliminar do presidente em prol da supremacia branca, ou seja, Bolsonaro acreditaria na superioridade da raça caucasiana em detrimento das outras. Isso porque foi recuperado que diversos movimentos neonazistas têm adotado a prática de tomar leite em vídeos como um símbolo da tal supremacia racial. Alguns exemplos:

Reprodução/ Twitter

Depois que o debate sobre o tema viralizou nas mídias sociais, Jair Bolsonaro postou mensagens em seu perfil no Twitter dizendo que a discussão era fake news e mostrando estar participando do desafio do leite:

Foto: Reprodução/ Twitter

O filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL/SP), e o blogueiro pró-governo Allan dos Santos também se manifestaram com ampla repercussão. 

O primeiro postou no Twitter uma foto do casal de atores negros Taís Araújo e Lázaro Ramos tomando leite, enquanto o segundo postou um vídeo, ele mesmo, bebendo um copo de leite durante uma transmissão em seu canal do Youtube, logo após a live de Bolsonaro. Rindo, Allan dos Santos faz ainda o comentário de que “entendedores entenderão”. Um dos participantes da live ainda chega a citar “mensagem subliminar”.

Foto: Reprodução/ Youtube

Foram muitas as postagens de apoiadores do presidente com críticas às suspeitas levantadas pelos opositores:

Foto: Reprodução/ Twitter

Sobre Desafio do Leite

O Desafio do Leite é uma iniciativa apoiada pela Associação Brasileira dos Produtores de Leite. Segundo o seu Estatuto Social, a Abraleite é uma entidade civil sem fins lucrativos, constituída com o objetivo de defender nacionalmente os interesses dos produtores de leite e criadores de raças bovídeas leiteiras, representada por pessoas físicas ou jurídicas que atuem diretamente com a produção de leite e criação de raças bovídeas leiteiras.

Segundo o Canal do Leite,  foram os produtores Reynold Groenwold e Robert Salomons, juntamente com a equipe da COWSDIARIO, que criaram um  “desafio do leite” nas mídias sociais, em 20 de maio, antes da live do presidente Bolsonaro.

Destacando a importância e o dinamismo do setor lácteo nesse momento de crise do coronavírus, o ‘desafio’ consiste em gravar um vídeo tomando um copo de leite e convidar três outras pessoas para fazer o mesmo. Com o objetivo de valorizar a atividade leiteira e o consumo deste nobre produto pecuaristas do Brasil e de outros países, se uniram nessa campanha em prol do leite, buscando também maiores garantias para o setor e mais valorização do produto e seus derivados na vida das pessoas.”

O engenheiro agrônomo Marcelo Pereira de Carvalho explica, no portal da empresa especializada em informação para o agronegócio como AgriPoint, como a campanha é avaliada como bem sucedida:

“A ‘brincadeira’ foi ganhando corpo, as pessoas foram se desafiando e o número de vídeos atingiu um crescimento exponencial. Foi criado um perfil no Instagram, que já tem mais de 1000 seguidores. Lá, grande parte dos vídeos está sendo reproduzida. Produtores, técnicos, industriais, pesquisadores, lideranças, todo mundo entrou no jogo (até o técnico Dorival Jr gravou um vídeo), quem sabe em parte por precisarmos nos aproximar de alguma forma, ainda que simbólica, nesse momento de pandemia, elegendo o leite como algo em comum (…) Não sei se Reynold, Hans e Robert tinham ideia de que sua campanha iria atingir proporção tão grande que até o presidente da república bebeu seu leite, momento raro em que somos lembrados pelas mais altas esferas administrativas.”.

Além do presidente Jair Bolsonaro, a ministra da Agricultura Tereza Cristina também aceitou o desafio da Abraleite, conforme declarou em entrevista ao site do Globo Rural. No vídeo publicado no perfil da Abraleite do Facebook, no dia 28 de maio, a ministra tomou um copo de leite, um de iogurte e ainda comeu um pedaço de queijo. “Aceitei com muito prazer o Desafio do Leite. Fui desafiada por produtores rurais, deputados federais e associações do setor. Vamos tomar mais leite, faz bem para a saúde. Esse é um produto que nós precisamos incentivar”, disse Tereza Cristina no vídeo.

Foto: Reprodução/ Facebook

A deputada federal Aline Sleutjes (PSL/PR) havia publicado em perfil do Facebook, em 22 de maio de 2020, antes da live de Bolsonaro, sua participação no desafio do leite:

Reprodução/Facebook

O site Notícias Agrícolas publicou texto de dois produtores de leite criticando “grupos de esquerda” por atrelarem a campanha “desafio do leite” ao nazismo e classificam como “mediocridade de alguns que acreditam que ao se alimentar com leite, a pessoa estaria difundindo ideias nazistas”.

Qual o fundamento da relação ao símbolo neonazista?

Acredita-se que com o ressurgimento de movimentos supremacistas, entre os quais se destaca o neonazismo, a discussão sobre a simbologia do leite entrou novamente em pauta. Contudo, segundo a reportagem “Bebida mais do que branca: O leite como símbolo do neonazismo”, publicada em 01 de junho, no site Aventuras na História, seção do Portal UOL,  o significado tem origens ainda mais remotas.

São datadas de 100 anos atrás, quando um panfleto do Conselho Nacional de Laticínios dos EUA foi bastante categórico ao explicar a situação. De acordo com a reportagem, na peça, fica evidenciado que pessoas que consomem mais leite “são progressivas na ciência e em todas as atividades do intelecto humano”. Além disso, em 1933, a História da Agricultura do Estado de Nova York teria declarado que “de todas as raças, os arianos parecem ter sido os bebedores mais pesados ​​de leite e os maiores usuários de manteiga e queijo”. Para o órgão, isso teria ligação direta com o “rápido e alto desenvolvimento dessa divisão de seres humanos”.

Na matéria, a professora de direito na Faculdade de Direito da Universidade do Havaí Andrea Freeman ressalta que a ligação entre o leite e a simbologia neonazista é indiscutível. “Não é um novo relacionamento”, explica, pontuando o passado histórico. Autora de um artigo crítico intitulado “A brancura insuportável do leite”, Andrea Freeman acredita que a ligação entre o leite e a ideia supremacista ainda parte de origens biológicas e a indústria dos EUA se aproveita de diferenças raciais para estimular o consumo de leite nas elites norte-americanas.  “Neste momento”, teoriza Freeman, “tanto os supremacistas brancos quanto a política federal de alimentos nos Estados Unidos estão oprimindo através do leite”. Segundo ela, a maior parte do mundo não digere o leite de forma confortável, enquanto a população branca, original de países escandinavos, consome a bebida com facilidade.

Em 2019, a temática volta à tona. De acordo com matéria publicada no jornal Washington Post, em setembro de 2019,

o uso da imagem do leite começou em fevereiro de referido, quando usuários do 4chan, fórum de compartilhamento de imagens que acabou se transformando em um dos mais influentes e anárquicos sites da internet, usando uma imagem extraída de um artigo da revista Nature sobre 2013 sobre intolerância à lactose, aproveitaram a ideia de que adultos do norte da Europa não têm problemas com a lactose. A partir daí, foi apenas um pequeno salto para uma possível analogia racista e a ideia de fazer do leite um símbolo de brancura. 

Pesquisadores brasileiros enxergam uma correlação do gesto com movimentos neonazistas – que adotam o copo de leite como símbolo. À revista Fórum, a doutora em antropologia social pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Adriana Dias, que há anos pesquisa o fenômeno do nazismo,  disse que há uma referência clara entre o episódio e o neonazismo. “O leite é o tempo todo referência neonazi. Tomar branco, se tornar branco. Ele vai dizer que não é, que é pelo desafio, mas é um jogo de cena, como eles sempre fazem”, declarou à Fórum.

Segundo a pesquisadora, Bolsonaro poderia ter se escorado no Shavuot, festa judaica que teve início na quinta-feira, 28 de maio, para se justificar pelo ato, que ocorreu no mesmo dia em que explodiram manifestações em Minneapolis contra a violência policial contra negros – em razão do bárbaro assassinato de George Floyd. O leite como símbolo está diretamente ligado aos chamados “alt-right” estadunidenses. 

Já o antropólogo David Nemer, que pesquisa o bolsonarismo, fez uma sequência de postagens no Twitter comentando também a questão:

Em entrevista ele ressaltou:

Nacionalistas brancos fazem manifestações bebendo leite para chamar a atenção para um traço genético conhecido por ser mais comum em pessoas brancas do que em outros – a capacidade de digerir lactose quando adultos. É uma tentativa racista para se embasar em “ciência” p/ diferenciar e justificar a “raça branca”. Mas como já provado e explicado por toda ciência: Não há evidência genética para apoiar qualquer ideologia racista. O que há, é na verdade, um governo tosco e motivado pelo ódio”.

Outro ponto destacado pelo especialista diz respeito à apropriação do leite por um grupo de bolsonaristas ligado ao perfil Leitadas do Loen, cuja conta é alvo do inquérito do STF que investiga ataques ao Supremo e disseminação de fake news.

“O símbolo do copo de leite foi apropriado por uma facção das redes bolsonaristas, que são channers. Esse pessoal gosta da confusão que o meme gera com a simbologia nazista e se refestelam com a notoriedade que recebem da mídia. Essa fação é do Leon Leitadas”, acrescentou Nemer.

Reprodução/ Twitter

A pesquisa do Coletivo Bereia verificou que a declaração do presidente Jair Bolsonaro na transmissão ao vivo de 28 de maio, relacionando o ato de brindar com leite com seus acompanhantes à produção de leite no Brasil, pode estar associada à campanha “Desafio do Leite, de acordo com a menção do presidente no momento. A campanha de fato existe, tendo sido lançada em 20 de maio pelo Instagram, por dois produtores. Ela foi apoiada pela ministra da Agricultura Tereza Cristina, citada por Jair Bolsonaro no brinde com leite, e já vinha sendo divulgada por deputada ligada a ruralistas do Paraná antes da live de 28 de maio.

Bereia conclui que a relação do ato de Jair Bolsonaro com a simbologia do leite disseminada por nazistas e grupos supremacistas brancos disseminada em mídias sociais é enganosa pois relaciona um elemento real (a simbologia nazista e supremacista do leite) a um episódio que denota outra motivação (a live que responde ao “Desafio do Leite”). 

O Coletivo Bereia analisa que este conteúdo enganoso pode ter duas origens:

1) uma reação de opositores a Jair Bolsonaro (de esquerda e de outras tendências políticas, pois oposição atual ao presidente não está restrita às esquerdas), que recorreu a estudos do nazismo e dos movimentos da supremacia branca, ancorada na concepção de que o presidente do Brasil é racista. Esta concepção se consolidou por declarações públicas e atitudes dele ao longo de sua vida pública, como as de ser contra as cotas raciais; afirmar que seus filhos não se apaixonariam por uma mulher negra pois “foram muito bem educados”, quando se referiu à cantora Preta Gil em programa de TV (caso que rendeu a Bolsonaro condenação na Justiça); fala que negros habitantes de quilombos são gado; não nomeou ministros negros; faz “piadas” racistas frequentes com seu “braço direito” deputado federal Hélio Lopes (PSL-RJ). 

2) por uma estratégia diversionista (desviadora de atenção um dia depois da operação da Polícia Federal relacionada ao inquérito que investiga propagadores de fake news e de ódio contra o STF e outras autoridades públicas. Os investigados são aliados do presidente entre políticos, empresários, comediantes e blogueiros. O diversionismo criado pela viralização da história do leite não só desviraria a atenção do caso da operação da PF, tendo ocupado o lugar dela em discussões virtuais, como lançaria sobre a oposição a acusação de ser propagadora de fake news, o que também se deu em várias postagens sobre em apoio ao presidente e dele próprio. 

Sobre estas duas origens mais pesquisas são necessárias. 

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Referências de Checagem:

Revista Fórum. https://revistaforum.com.br/politica/copo-de-leite-bolsonaro-usa-simbolo-nazista-de-supremacia-racial-em-live/.  Acesso em 2 jun 2020.

Perfil no Twitter do antropólo David Nemer. https://twitter.com/DavidNemer. Acesso em 2 jun 2020.

Perfil no Twitter de Eduardo Bolsonaro. https://twitter.com/bolsonarosp Acesso em 2 jun 2020.

Revista Globo Rural.   https://revistagloborural.globo.com/Noticias/Criacao/Leite/noticia/2020/05/bolsonaro-e-tereza-cristina-participam-do-desafio-do-leite.html Acesso em 2 jun 2020.

Canal rural. https://www.canalrural.com.br/radar/bolsonaro-faz-homenagem-a-produtores-de-leite-durante-live/ Acesso em 2 jun 2020.

Washington Post. https://www.washingtonpost.com/technology/2019/09/26/okay-hand-sign-has-moved-trolling-campaign-real-hate-symbol-civil-rights-group-says/ Acesso em 2 jun 2020.

Farmfor. https://www.farmfor.com.br/posts/a-estupidez-de-quem-associa-o-desafio-do-leite-ao-nazismo/ Acesso em 2 jun 2020.

Página da Abraleite no Facebook. https://www.facebook.com/pg/ABRALEITE/posts/?ref=page_internal Acesso em 2 jun 2020.

Catraca Livre. https://catracalivre.com.br/cidadania/bolsonaro-toma-leite-em-live-enquanto-milhares-morrem-de-coronavirus/ Acesso em 2 jun 2020.

Estatuto Social disponível no site da Abraleite. http://abraleite.org.br/wp-content/uploads/2017/09/Estatuto_Social.pdf Acesso em 2 jun 2020.

Aventuras na História. Portal UOL. https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/bebida-mais-do-que-branca-o-leite-como-simbolo-do-neonazismo.phtml Acesso em 2 jun 2020.

Perfil do Desafio do Leite. no Instagramhttps://www.instagram.com/p/CAaJLbjjcYV/ Acesso em 2 jun 2020.

MilkPoint. https://www.milkpoint.com.br/colunas/milkpoint-20-anos/milkpoint20anos-dia-mundial-do-leite-219749/ Acesso em 2 jun 2020.

Notícias Agrícolas. https://www.noticiasagricolas.com.br/videos/leite/260682-como-bolsonaro-bebemos-leite-e-nao-somos-nazistas-por-jbolivi-e-jlcoelho.html?utm_source=parceiros&utm_medium=rss#.XtbKzTpKjIU Acesso em 2 jun 2020.

Exame. https://exame.com/brasil/o-diversionismo-como-estrategia-para-camuflar-os-problemas-do-governo/ Acesso em 2 jun 2020.

Ministra Damares Alves faz acusações sem provas sobre contaminação de indígenas por Covid-19

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Durante a reunião ministerial do governo federal, cujo vídeo foi tornado público em 22 de maio pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, relatou que pessoas estariam contaminando povos indígenas propositalmente com o novo coronavírus a fim de dizimá-los e atingir o presidente Jair Bolsonaro.

Eu fui lá para a Amazônia e para Roraima para acompanhar o primeiro óbito [pela covid-19]. E por que que nós fomos lá, presidente? Porque nós recebemos a notícia que haveria contaminação criminosa em Roraima e Amazônia, de propósito, em índios, pra dizimar aldeias e povos inteiros pra colocar nas costas do presidente Bolsonaro. (…) Eu tive que ir pra lá com o presidente da Funai e me reuni com generais da região e o superintendente da Polícia Federal, pra gente fazer uma ação ali meio que sigilosa, porque eles precisavam matar mais índio pra dizer que a nossa política não tava dando certo.”

A íntegra da fala da ministra e de toda a reunião pode ser assistida em vídeo e a gravação dos conteúdos pode ser lida aqui.

A acusação feita pela ministra é muito grave e é muito sério também  que ela não tenha apresentado dados que corroborassem sua afirmação, referindo-se à necessidade de fazer uma ação “meio que sigilosa” com a Polícia Federal, porque, segundo ela, “eles” [e não fica claro quem são “eles”] precisavam matar “mais índio” para fazer crer que a política bolsonarista não estaria dando certo.

O Coletivo Bereia checou a veracidade desta informação dada pela ministra Damares Alves na reunião ministerial de 22 de abril.

A reunião ministerial

O vídeo foi solicitado pela defesa do ex-ministro da justiça Sérgio Moro, para ser apresentado como prova no inquérito da Polícia Federal que investiga a denúncia do ex-ministro sobre possível intervenção indevida de Jair Bolsonaro neste mesmo órgão, para atender objetivos pessoais.

O acesso livre ao vídeo da reunião foi liberado pelo Supremo Tribunal Federal em 22 de maio, inclusive a degravação das falas (com exceção de trechos que mencionam a China e o Paraguai, por questões de segurança nacional), por se tratar de assunto de interesse público.

O conteúdo da reunião chamou a atenção, além dos trechos que podem ser ou não interpretados como prova na investigação em curso, pelo baixo nível do que foi dito pelos líderes nacionais. Houve excesso de expressões de baixo calão, pedidos de prisão de ministros do STF, classificados como “vagabundos”, também de governadores e prefeitos que atuam em medidas de isolamento social contra a Covid-19, além de outras intervenções de ética questionável.

Quando lhe foi dada a palavra, a ministra Damares Alves questionou o STF sobre a possibilidade de liberar o aborto a “todos que tiveram coronavírus” no Brasil, falou sobre a  informação de que indígenas haviam sido contaminados de propósito para se colocar a culpa em Jair Bolsonaro e que “nunca houve tanta violação de direitos no Brasil como neste período“, indicando que pediria a prisão de governadores e prefeitos.

Indígenas no Brasil e o descaso governamental

Segundo o Instituto Socioambiental, uma organização da sociedade civil brasileira, sem fins lucrativos, fundada em 1994, com atuação em torno de questões sociais e ambientais com foco central na defesa de bens e direitos sociais, coletivos e difusos relativos ao meio ambiente, ao patrimônio cultural, aos direitos humanos e dos povos.

Em pleno século XXI a grande maioria dos brasileiros ignora a imensa diversidade de povos indígenas que vivem no país. Estima-se que, na época da chegada dos europeus, fossem mais de 1.000 povos, somando entre 2 e 4 milhões de pessoas. Atualmente encontramos no território brasileiro 256 povos, falantes de mais de 150 línguas diferentes.

Os povos indígenas somam, segundo o Censo IBGE 2010, 896.917 pessoas. Destes, 324.834 vivem em cidades e 572.083 em áreas rurais, o que corresponde aproximadamente a 0,47% da população total do país.

A maior parte dessa população distribui-se por milhares de aldeias, situadas no interior de 724 Terras Indígenas, de norte a sul do território nacional. 

Entre as principais etnias indígenas brasileiras na atualidade estão a Ticuna (35.000), Guarani (30.000), Caiagangue ou Caigangue (25.000), Macuxi (20.000), Terena (16.000), Guajajara (14.000), Xavante (12.000), Ianomâmi (12.000), Pataxó (9.700) e Potiguara (7.700).

A defesa dos direitos dos povos indígenas, os habitantes originários das terras brasileiras, tem sido árdua. A maior conquista foi o direito à demarcação de terras alcançado com a Constituição de 1988. Os direitos constitucionais dos índios estão expressos em capítulo específico da Constituição (título VIII, “Da Ordem Social”, capítulo VIII, “Dos Índios”), além de outros dispositivos dispersos ao longo do texto e de um artigo do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.

São, pelo menos, duas inovações importantes em relação a Constituições anteriores e ao chamado Estatuto do Índio. A primeira é o abandono de uma perspectiva assimilacionista, que entendia os índios como categoria social transitória, fadada ao desaparecimento. A segunda é que os direitos dos índios sobre suas terras são definidos como direitos originários, isto é, direitos anteriores à criação do próprio Estado. Isto decorre do reconhecimento do fato histórico de que os índios foram os primeiros ocupantes do Brasil. A Constituição de 1988 estabelece, desta forma, novos marcos para as relações entre o Estado, a sociedade brasileira e os povos indígenas.

Em relação ao atual governo, são cinco principais pontos de conflito que envolvem os povos indígenas: demarcações paralisadas (cumprimento de promessa de campanha), defesa de que haja mineração em terras indígenas, indicação de expansão do agronegócio em áreas indígenas, repetição do discurso da ditadura militar de que indígenas devem se integrar à sociedade, agrado à bancada ruralista com transferência da FUNAI do Ministério da Justiça para o Ministério da Agricultura (o que foi impedido pelo STF, declarado inconstitucional).

Esta tensão entre o governo Jair Bolsonaro e povos indígenas brasileiros fez com que membros de 45 etnias se reunissem em uma aldeia em Mato Grosso em protesto, em janeiro passado. O encontro foi convocado pelo cacique kayapó Raoni Metuktire e, nele, os indígenas afirmaram em um manifesto “que está em curso um projeto político do governo brasileiro de genocídio, etnocídio e ecocídio“. “As ameaças e falas de ódio do atual governo estão promovendo a violência contra povos indígenas, o assassinato de nossas lideranças e a invasão das nossas terras“, diz o texto, redigido ao fim da reunião, na aldeia Piaraçu, na Terra Indígena Capoto Jarina.

Em uma de suas transmissões ao vivo pelo Youtube às quintas-feiras, o presidente Jair Bolsonaro disse em 24 de janeiro, referindo-se à criação do Conselho da Amazônia e a ações previstas para a proteção de terras indígenas, que “cada vez mais, o índio é um ser humano igual a nós”. Ele afirmou pretender fazer com que os povos nativos da Amazônia sejam integrados à sociedade, e que sejam donos das terras indígenas. O conselho foi criado após o governo brasileiro, e o próprio Presidente da República, sofrerem críticas, inclusive em âmbito internacional, pela atuação destrutiva na área ambiental.  A coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) Sônia Guajajara, reagiu à época afirmando que os indígenas exigem respeito.

Bolsonaro mais uma vez rasga a Constituição ao negar nossa existência enquanto seres humanos. É preciso dar um basta a esse perverso!

De acordo com o coordenador do Conselho Indigenista Missionário – CIMI Sul, Roberto Liebgott, em entrevista ao IHU On-Line,

Nos últimos anos intensificaram-se os ataques aos direitos indígenas tendo como foco a desconstituição do Artigo 231 da Constituição Federal de 1988, que assegura aos povos originários a demarcação das terras que tradicionalmente ocupam. Os ataques visam abrir caminho para a exploração agrária e agrícola; a expropriação e o esbulho da terra; a expansão minerária, madeireira e hidráulica; e a cobiça pelos recursos ambientais. O governo eleito não admite que na Constituição Federal (que ele [Bolsonaro] jurou defender) estejam expressos os direitos à diferença étnica, à terra demarcada e respeitada e o fato destas populações serem sujeitos de direitos.”

Neste 2020 o governo Bolsonaro foi denunciado ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas por diversas violações ao meio ambiente, a mulheres e a indígenas. O país vive pressão inédita desde o fim da ditadura com relatores da ONU, ONGs e ativistas do Brasil e de outros países referente ao desmonte dos mecanismos de proteção a direitos fundamentais.

Contaminação por Covid-19 entre povos indígenas

Se o coronavírus entrar nas aldeias, é possível que o aumento de casos seja explosivo”, alertou o pesquisador Andrey Moreira Cardoso, da Fiocruz, em entrevista ao site do Instituto Socioambiental, organização da sociedade civil brasileira, sem fins lucrativos, fundada em 1994, para propor soluções de forma integrada a questões sociais e ambientais com foco central na defesa de bens e direitos sociais, coletivos e difusos relativos ao meio ambiente, ao patrimônio cultural, aos direitos humanos e dos povos. 

Na entrevista, publicada em 26 de março, o especialista sinalizou estudos em várias partes do mundo e também no Brasil  que atestam que os índios são mais vulneráveis a epidemias em função de condições sociais, econômicas e de saúde piores do que as dos não índios, o que amplifica o potencial de disseminação de agentes causadores de doenças.

A questão está estreitamente associada às possibilidades de acesso aos territórios tradicionais e aos recursos lá disponíveis. Também se vincula à proximidade dos centros urbanos, ao grau de dependência em relação ao mercado regional e à disponibilidade de políticas públicas. A possibilidade de contato com populações onde ocorre transmissão comunitária da doença, a depender da localização onde residem e do grau de contato, pode facilitar com que uma pessoa se infecte e volte para a aldeia. Então, um dos grandes desafios é evitar esse contato e que ocorra a transmissão para alguém que vai retornar à aldeia. No momento em que essa pessoa retorna à aldeia, é muito difícil conter a disseminação do vírus.”

Andrey Moreira Cardoso

O apontamento se materializou em uma triste estatística.  Em 1º de abril foi confirmado o primeiro caso de Covid-19 em uma jovem indígena da etnia Kokama, no município de Santo Antônio do Içá, no interior do Amazonas. Ela atua no SUS e é agente indígena de saúde no Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Solimões. A vítima se recuperou integralmente. Entretanto, dez dias depois, o número de casos confirmados em indígenas subiu para nove, incluindo cinco prováveis contatos da jovem kokama, um caso no DSEI Manaus, um no DSEI Parintins e um adolescente de 15 anos da etnia yanomami, no estado de Roraima, de acordo com o boletim epidemiológico da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), subordinada ao Ministério da Saúde.

Em 9 de abril de 2020 houve o registro da primeira morte de indígena pelo coronavírus no país. O adolescente yanomami Alvaney Xiriana Pereira, de 15 anos, ficou internado na UTI do Hospital Geral de Roraima (HGR) por sete dias. No dia seguinte à morte, a FUNAI lançou uma nota, lamentando o ocorrido.

Depois da morte do adolescente yanomanmi e da nota da FUNAI, a Associação Yanomami fez um apelo em carta aberta, para que o próprio órgão, a PF e o Exército retirem imediatamente os garimpeiros das terras indígenas a fim de evitar novas contaminações dos povos locais.

Entidades de defesa da causa indígena, como o Instituto Socioambiental e o CIMI denunciaram a subnotificação de casos da Covid-19 entre esta população, gerando preocupação quanto ao que isso pode representar de risco para as comunidades.

As duas entidades também denunciaram que outros dois indígenas contaminados pelo novo coronavírus já tinham ido a óbito e que o governo federal não registrou as ocorrências no balanço. Os indígenas eram uma mulher idosa da etnia Borari, de 87 anos, que morreu em Alter do Chão, no município de Santarém (PA), no dia 19 de março,  e o outro era um homem de 55 anos, do povo Mura, morto em Manaus, no dia 5 de abril. Em consequência da morte da idosa, o Ministério Público Federal (MPF) abriu inquérito, no dia 2 de abril, pedindo medidas para evitar a disseminação da Covi-19 em Santarém. Além disso, uma das denúncias investigadas é de que não houve notificação da suspeita de Covid-19. No dia 20 de março, centenas de pessoas compareceram ao funeral da mulher borari, muito querida em toda a vila. 

A Secretaria de Saúde Pública do Pará (Sespa) publicou o exame da idosa indígena no Twitter porque um parente teria negado que se tratava de uma vítima do coronavírus.

Em 12 de abril de 2020, a ministra Damares Alves chegou a Boa Vista. Visitou o projeto Operação Acolhida, responsável pela imigração dos venezuelanos naquele estado e participou de reuniões com a FUNAI, para articular ações de combate ao coronavírus.

Em toda a cobertura sobre a visita da ministra Damares Alves à Amazônia em abril, tanto no âmbito oficial, quanto pela imprensa de um modo geral, não foi encontrada qualquer menção dela, de representantes da FUNAI ou de qualquer outra autoridade sobre uma possível contaminação criminosa de indígenas.

Pelo contrário, as declarações foram todas positivas em relação a ações do governo. Na ocasião, o presidente da FUNAI Marcelo Augusto Xavier destacou que o governo federal estaria adotando todas as medidas para conter a transmissão da Covid-19 entre os povos indígenas. “É importante assegurar que o governo federal está presente em Roraima e Boa Vista e ninguém ficará para trás”, ressaltou.

Estamos aqui para encontrar respostas neste momento de enfrentamento ao coronavírus, completou Damares.

Antes da viagem Damares Alves,  os órgãos ligados à proteção indígena já vinham sendo questionados sobre uma possível omissão em meio à pandemia. No começo de abril, foram destinados R$ 10,8 milhões para a Funai no combate à pandemia entre as comunidades indígenas. Duas semanas depois, nada havia sido feito. Isto resultou cobrança do subprocurador-geral da República Antonio Carlos Alpino Bigonha questionando a FUNAI e o Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos, em 16 de abril, sobre o motivo das verbas reservadas para o combate ao coronavírus em comunidades tradicionais e indígenas não terem sido empenhadas. Dos quase R$ 11 milhões da verba emergencial para o combate à Covid-19, Damares Alves teria usado apenas R$ 1 milhão para comprar caminhonetes. Um parecer técnico interno da Procuradoria ainda dizia que a falta do investimento não é “questão financeira”. O subprocurador-geral ressaltou que “a necessidade é urgente em cada comunidade indígena, seja por alimentos, seja por proteção e segurança”.

No entanto, a pandemia seguiu avançando em terras indígenas. Assim, até 3 de maio, cerca de cem índios foram contaminados, sendo que o maior número de casos entre indígenas no Brasil está concentrado no Amazonas, epicentro da doença. Os dados foram apontados em matéria do G1 do referido dia, intitulada: “Índios temem ‘catástrofe’ e tentam fugir da Covid-19”.

Segundo a reportagem, cuja versão em vídeo foi exibida no programa Globo Rural, da emissora Globo, em 20 de março, a associação que representa os povos, no norte do Mato Grosso,  pediu que os caciques interrompessem o deslocamento dos índios para as cidades, e reivindicou o fechamento das estradas que levam para fora do parque. Mediante a dificuldade de deslocamento para a cidade, os grupos que compõem as 16 etnias presentes na região estariam sofrendo com a falta de produtos básicos, como sabão e creme dental. O confinamento também estaria comprometendo o trabalho e a renda dos índios.

A estatística evidencia uma preocupação desvelada em maio, de acordo o boletim da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do dia 25, que apresenta são 40 mortos indígenas, 824 casos de contaminação confirmados e 218 casos suspeitos. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) apresentava em 11 de maio números já maiores, com  77 mortos com teste positivo para a doença e 308 indígenas de contaminados. Vale registrar que a Sesai não está contabilizando casos de indígenas que vivem em cidades.

Uma rede de colaboradores foi criada para levantar casos e mortes suspeitos, tendo à frente a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coaib). A APIB ainda mantém uma lista de vítimas disponível no site quarentenaindigena.info (http://quarentenaindigena.info/casos-indigenas/), a qual, até o dia 22 de maio, às 16h30, contabilizava 125 indígenas mortos, 987 contaminados e 61 povos atingidos.

Em matéria publicada no site do Instituto Socioambiental, em 8 de maio, a coordenadora da APIB, Sonia Guajajara, aponta a divergência entre os números.

“Os números apurados pelo movimento indígena, quando comparados aos da Sesai, revelam uma discrepância absurda. Além da negligência do Estado brasileiro, há um racismo institucionalizado (…) O movimento indígena está preocupado em registrar minuciosamente os dados e exigir sua oficialização, para que daqui a 30 anos não tenham que ser revelados os ‘desaparecidos pela covid-19’.”

Contaminação de Covid proposital?

Sobre as afirmações da ministra Damares Alves, de que toda esta contaminação de indígenas teria sido realizada de forma proposital para atingir o presidente Jair Bolsonaro, Bereia não localizou registros de investigações ou quaisquer indicações comprobatórias de tal situação entre os organismos oficiais FUNAI, SESAI ou de proteção a indígenas como APIB ou Instituto Socioambiental. Para as organizações que atuam em apoio a essas populações, as causas da contaminação são de conhecimento notório dos órgãos governamentais e são criminosas, sim, relacionadas às invasões das terras indígenas.

O Presidente do CIMI, Bispo D. Roque Paloschi explica:

“A principal preocupação e ameaças com relação aos povos indígenas é que garimpeiros, grileiros, madeireiros e invasores em geral, não fazem a quarentena. Ao contrário, aproveitam a falta de fiscalização e de gestão política e administrativa no país para continuar com as ações ilícitas nas terras indígenas, com um agravante maior, os contínuos discursos do governo do Brasil em incentivar as invasões, com sua retórica desenvolvimentista. Outra grande preocupação são os projetos de emenda constitucional e projetos de lei, como o PL 191/20, que regulamentam a exploração de recursos minerais, hídricos e orgânicos em reservas indígenas.”

Sobre isto Bereia ouviu o Pastor Sandro Luckmann, educador do Conselho de Missão entre Povos Indígenas (COMIN), da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil:

“A fala da ministra é extremamente grave. É uma fala cujo objetivo principal é omitir, é esconder a situação de ausência e de trabalho articulado e com melhor resposta do próprio governo. Os dados que temos levantados a partir da Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde (SESAI) e o que as próprias organizações indígenas têm levantado mostram isto. Há uma disparidade bastante grande neste sentido. A SESAI no seu último boletim reconhece que em nível nacional houve somente 35 mortes de pessoas indígenas enquanto as próprias organizações de indígenas falam que este número já está em 125 indígenas falecidos, atingindo em torno de 61 povos. E na Amazônia a situação é extremamente grave por conta da geografia. Para acessar os recursos emergenciais, os benefícios, as comunidades precisam descer de barco até as cidades e não há infraestrutura, local adequado para ficar. O sistema de comunicação é difícil, complexo, não é ágil. Estive no início de março, antes do isolamento social, visitando uma comunidade lá. Para chegar eu levei seis horas num barco veloz da cidade mais próxima. Mas os barcos que os indígenas geralmente usam levam um ou dois dias. Já houve manifestações de lideranças indígenas que dizem que caso aconteça de indígenas pegarem a COVID-19, não vão buscar ajuda porque sabem que chegando até lá não terão atendimento. Há uma denúncia de falta de hospitais de campanha que possam ser interiorizados, com equipamento. Outra denúncia é que quando há necessidade de hospital as comunidades indígenas são as últimas a ocuparem o espaço porque viajam do interior da Amazônia para Manaus e o sistema já está caótico. Há um problema muito sério nesse sentido. Avaliamos então esta tentativa do governo de esconder a real situação e a falta de infraestrutura, a falta de capacidade deste governo em atender esta demanda das comunidades indígenas. O Estado do Amazonas é o estado que tem a maior população indígena e há uma invasão deliberada das terras indígenas. Há denúncias em Roraima mesmo, um dos estados que a Ministra cita, denúncias da invasão de garimpeiros, madeireiros, grileiros, e isto tem feito avançar a doença sobre as comunidades indígenas. Nesse sentido a FUNAI não tem sido uma agente protetora dos territórios indígenas então há uma situação bem complexa neste sentido.”

O coordenador do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), da Igreja Católica, Região Sul Roberto Antônio Liebgott, também ouvido por Bereia, afirma que a declaração de Damares Alves é mentirosa e explica que isto acontece porque a ministra não menciona que:

por omissão e falta de fiscalização, por parte do governo que ela integra, ocorrem invasões nas terras indígenas por milhares de garimpeiros, madeireiros, grileiros, posseiros e tantos outros que saqueiam o patrimônio público. Também não foi por um acaso o discurso do Presidente ao propor, como medida de segurança, o armamento em massa – em suas palavras, todos devem estar armados. Quem são ‘todos’? Os indígenas e os quilombolas poderão se armar para se defender da invasão de seus territórios? Os pais de família, das periferias, poderão se armar para se defender da ação de milicianos? As pessoas que sofrem violências poderão se armar para se defender de ataques fascistas? 

Bereia conclui que a ministra Damares Alves fez uso de desinformação na reunião ministerial de 22 de abril, no que diz respeito à suposta à contaminação criminosa de coronavírus entre indígenas para atingir negativamente o presidente Jair Bolsonaro. O Coletivo classifica a fala como imprecisa pois não apresenta as fontes que corroborem tais afirmações nem dados coerentes com a grave situação descrita nesta matéria, desconsiderando as ações historica e comprovadamente criminosas de invasão de terras indígenas da parte de garimpeiros e grileiros, que são fonte de doenças para estas populações. O uso de desinformação, em caso como este, é irresponsável pois levanta acusações sem apresentar autoria e dados, levando quem ouve as afirmações a atitudes de desconfiança e condenação precoce, que são frequentemente direcionadas a pessoas opostas no campo político.

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Referências de Checagem:

Portal do STF (1) https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=443959&ori=1 Acesso em 26 mai 2020

Portal do STF (2) https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=418183 Acesso em 26 mai 2020

Instituto Socioambiental. Povos Indígenas no Brasil https://pib.socioambiental.org/pt/Quem_s%C3%A3o Acesso em 26 mai 2020

Instituto Socioambiental. Direitos constitucionais dos índios https://pib.socioambiental.org/pt/Constitui%C3%A7%C3%A3o Acesso em 26 mai 2020

BBC https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51229884 Acesso em 26 mai 2020

IHU On Line http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/586730-a-ameaca-institucional-juridica-e-fisica-a-existencia-dos-povos-indigenas-entrevista-especial-com-roberto-liebgott  Acesso em 26 mai 2020

El País https://brasil.elpais.com/brasil/2020-03-10/50-anos-depois-brasil-volta-a-ser-alvo-sistematico-de-denuncias-internacionais-por-violacoes-de-direitos-humanos.html Acesso em 26 mai 2020

Instituto Sociambiental Notícias (1) https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/se-coronavirus-entrar-nas-aldeias-e-possivel-que-aumento-de-casos-seja-explosivo-alerta-especialista Acesso em 26 mai 2020

Instituto Socioambiental Notícias (2)  https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/em-alter-do-chao-pa-teste-de-indigena-falecida-da-positivo-para-covid-19 Acesso em 26 mai 2020

Instituto Sociambiental Notícias (3) https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/indigenas-de-cidades-com-covid-19-nao-ficarao-sem-assistencia-mas-responsabilidade-e-do-sus-diz-sesai Acesso em 26 mai 2020

Instituto Socioambiental Notícias (4) https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/indigenas-mortos-por-covid-19-chegam-a-55-segundo-APIB-numero-salta-45-em-dois-dias Acesso em 26 mai 2020

Boletim Epidemiológico da SESAI http://www.saudeindigena.net.br/coronavirus/mapaEp.php Acesso em 26 mai 2020

G1https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2020/04/12/ministra-damares-alves-faz-visita-surpresa-a-boa-vista-neste-domingo-12.ghtml Acesso em 26 mai 2020

Nota: Funai lamenta morte de indígena com COVID-19 http://www.funai.gov.br/index.php/comunicacao/noticias/6006-nota-funai-lamenta-morte-de-indigena-com-covid-19 Acesso em 26 mai 2020

Notícias UOL https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/04/11/apos-morte-indigenas-apelam-que-pf-funai-e-exercito-expulsem-garimpeiros.htm Acesso em 26 mai 2020

Agência Brasil https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-04/morre-indio-yanomami-com-coronavirus Acesso em 26 mai 2020

MPF http://www.mpf.mp.br/pa/sala-de-imprensa/noticias-pa/mpf-cobra-medidas-para-evitar-disseminacao-da-covid-19-em-santarem-pa/view Acesso em 26 mai 2020

Publicação na página da Sespa (PA) no Twitter https://twitter.com/SespaPara/status/1245461415005167617?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1245461415005167617%7Ctwgr%5E&ref_url=https%3A%2F%2Fwww.socioambiental.org%2Fpt-br%2Fnoticias-socioambientais%2Fem-alter-do-chao-pa-teste-de-indigena-falecida-da-positivo-para-covid-19 Acesso em 26 mai 2020

Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2020-2/abril/em-roraima-ministra-damares-visita-a-sede-da-operacao-acolhida  Acesso em 26 mai 2020

Ecoamazônia https://www.ecoamazonia.org.br/2020/04/ministra-mulher-familia-direitos-humanos-damares-alves-visita-roraima/ Acesso em 26 mai 2020

FUNAI  http://www.funai.gov.br/index.php/comunicacao/noticias/6009-comitiva-do-governo-federal-articula-acoes-de-combate-a-covid-19-no-norte-do-pais Acesso em 26 mai 2020

O Estado de São Paulo https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,funai-recebe-r-11-milhoes-para-proteger-indigenas-do-coronavirus-mas-nao-gastou-nenhum-centavo,70003269873 Acesso em 26 mai 2020

G1https://g1.globo.com/economia/agronegocios/globo-rural/noticia/2020/05/03/indios-temem-catastrofe-e-tentam-fugir-da-covid-19.ghtml Acesso em 26 mai 2020

Boletim Covid-19 Ministério da Saúde https://saudeindigena.saude.gov.br/

APIB http://APIB.info/2020/05/14/1-vidas-indigenas-e-covid-19/ Acesso em 26 mai 2020

Atualização de casos indígenas http://quarentenaindigena.info/casos-indigenas Acesso em 26 mai 2020

Ministro apresenta desinformação sobre a Covid-19 em entrevista

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Em entrevista coletiva na sexta-feira, 15 de maio de 2020, ministros do governo federal apresentaram um quadro dos 500 dias do governo de Jair Bolsonaro e enfatizaram o enfrentamento da pandemia de coronavírus. O Ministro da Secretaria de Governo General Luiz Eduardo Ramos, da ala evangélica de apoio a Bolsonaro (Igreja Batista), criticou, mais uma vez, a cobertura jornalística sobre a Covid-19.

Ramos disse que as notícias transmitem “clima de terror”. Ele já havia feito a mesma crítica na entrevista coletiva de 22 de abril, quando disse que os telejornais só mostram “imagens de caixão e corpo”, acusou a imprensa de não estar ajudando” e pediu que mostrasse “coisa positiva”.

O Ministro General Ramos, na entrevista de 15 de maio, alegou defender uma “questão de bom senso”. Ele apresentou dois argumentos: uma tabela do número de óbitos de coronavírus no mundo, com o Brasil atrás de muitos países. “Não estou minimizando as mortes (…), mas é importante que nós tenhamos consciência quando estamos noticiando”, afirmou o ministro.

O segundo argumento foi número de mortes por ano no país, por diversas causas, para comparar com números inferiores de óbitos por coronavírus, e concluir que não se deve causar um “clima de terror” no Brasil.

O vídeo com a fala do Ministro General Luiz Eduardo Ramos, na íntegra, pode ser acessado aqui (do minuto 5 ao minuto 18). Segue a transcrição dos trechos que justificam a crítica ao “clima de terror” da cobertura da imprensa:

(8’50) “O quadro que os senhores estão vendo, considerando a população, o Brasil está atrás de praticamente todos esses países: Bélgica, Espanha, Reino Unido, Itália, França, Estados Unidos, Alemanha, e aí vem o Brasil. Em números de óbitos, por milhão de habitantes, 58 óbitos. Tá aí, no quadro.”

(9’14) “Não estou minimizando as mortes, pelo amor de Deus. Uma morte é pleiteada pelo pranto de seus familiares, sofridos. Eu não estou dizendo isso. Eu estou dizendo o seguinte: é importante que nós tenhamos a consciência quando noticiamos, vamos explicar o que estamos noticiando.”

(9’33): “Outro dado, apenas para a reflexão de todos aqui, inclusive para o nosso ministro: isso aqui é estudo, dados abertos do Ministério da Saúde. Não estou falando de Covid-19! Não estou falando. Considerando o que seria um ano normal. A média, considerando os anos de 2016 ao ano de 2018, a média de óbitos por ano, 1 milhão e 253 mil pessoas, de várias causas. De doença de Chagas, que é muito ruim, cerca de 4 mil e 800 pessoas. Dessa doença, infelizmente muito forte, o câncer, 221 mil e 651 pessoas. De aparelho circulatório, ou infarto, qualquer um de nós,  – meu querido repórter [apontou para um repórter que estava presente], não vou citar o nome, mas todos nós, eu me incluo, podemos, a qualquer momento, sofrer um infarto do miocárdio. E vamos deixar essa vida, pois assim é. Como diz a Bíblia Sagrada, para aqueles que creem, não sabemos o dia e a hora [referência a Mateus 25:13]. Temos que nos preparar.”

(10’48) “E mais um dado, que não é Covid, pneumonia, 80 mil e 327. Outra coisa, todo mundo aqui deve andar de carro, ou deve andar de ônibus, pratica esporte… a média de mortes, por ano, de queda, afogamento, acidente automobilístico, lesões provocadas de toda ordem, 164 mil mortes. Os números são impactantes. Mas nem por isso é instaurado um clima de terror.” 

(11’27) “Nosso Presidente da República tem batido muito na tecla, e aqui está o ministro Paulo Guedes: é uma pandemia; medidas estão sendo adotadas, o ministro Braga Neto acabou de dizer que 7 bilhões de dinheiro (sic), importando kits… tudo está sendo feito. Mas é uma pandemia que atingiu o mundo.”

Bereia checou os argumentos do ministro para verificar se o governo está veiculando informações corretas.

O Brasil e o número de óbitos no mundo

O Ministro General Luiz Eduardo Ramos argumentou que o Brasil não tem número de mortes que promova um alarde tão grande das mídias, afinal, na tabela que apresenta, datada de 12 de maio, o Brasil é o oitavo colocado em óbitos, em comparação com Bélgica, Espanha, Reino Unido, Itália, França, Estados Unidos e Alemanha (em ordem de óbitos por milhão de habitantes).

Fonte: TV BrasilGov

A tabela apresentada pelo Ministro não indica a fonte. Ela é bastante similar a tabelas que têm circulado em mídias sociais, com comparações de países por número de óbitos por habitantes, tendo como fonte dados da plataforma Worldometer, usadas para minimizar os impactos da pandemia no Brasil e acusar a imprensa de exagero na cobertura da crise.

Este tipo de abordagem é desinformativa porque se baseia em números frios. Apesar de os dados apresentados serem corretos, as postagens fixam-se na simples comparação dos números e desconsideram: 1) que os países estão em fases diferentes da pandemia; 2) que há diferenças populacionais que impedem a comparação, como idade e densidade demográfica; e 3) que o nível de testagem no Brasil é muito menor do que em outros países, o que leva à subnotificação de infectados e mortos.

A agência de checagem Aos Fatos já havia verificado estas postagens, e, a partir do acordo de verificação que tem com o Facebook, publicações com esta comparação, sem a devida contextualização, foram marcadas como DISTORCIDAS.

De acordo com a verificação de Aos Fatos, feita antes da entrevista coletiva do Ministro General Ramos, o número de mortes por milhão de habitantes não é recomendado para fazer comparações sobre o impacto da pandemia em diferentes países. 

A agência ouviu o médico intensivista e epidemiologista da USP (Universidade de São Paulo) Otávio Ranzani, que explicou:

“Essa métrica pouco ajuda no entendimento e controle da pandemia na fase em que o Brasil está. Ela não indica se a pandemia está ativa ou em expansão. Na verdade, ela indica erroneamente o contrário. No Brasil, a ascensão da curva é ativa e dividir [o número de mortos] por uma população continental como a nossa só mostra que temos ainda muitos suscetíveis a terem infecção.”

Países como Bélgica e Itália, por exemplo, apresentam uma diminuição dos casos diários.

De acordo com o Otávio Ranzani, uma comparação de números correta só pode ser feita entre países que estão nas mesmas fases da pandemia e que tenham população com idade média similar. Um artigo da BBC, de 18 de maio de 2020, explica o mesmo e indica que países com populações mais velhas ou com maior densidade populacional podem ter maior taxa de infecção e de mortalidade.

Ainda há também um elemento fundamental a ser levado em conta: a testagem da população e as diferenças na forma como os óbitos são computados. A Bélgica, por exemplo, inclui mortes suspeitas na contabilização geral, o que não é o caso do Brasil que notifica “pneumonia” e “Síndrome Respiratória Aguda” em milhares de casos que teriam relação com a Covid-19.

Quanto à testagem, o Brasil tem ações muito inferiores a dos países citados. Segundo a própria fonte dos números, a Worldometers, o Brasil havia feito 1,5 testes por milhão de habitantes até 12 de maio de 2020 (data da tabela apresentada pelo ministro) enquanto Bélgica, Espanha e Itália haviam feito 50,4, 52,7 e 43,1 respectivamente.

Sobre as mortes por coronavírus comparadas a mortes por outras causas

O Ministro General Luiz Eduardo Ramos argumenta, na entrevista de 15 de maio, que há centenas de milhares de mortos por ano por doenças váriasv – por câncer, por infarto e por acidentes de trânsito e afogamentos, que oferecem números impactantes mas nem por isso é “instaurado um clima de terror”.

O ministro também faz uso de conteúdo fartamente exposto em mídias sociais em diversas publicações que procuram relativizar e minimizar os graves efeitos da Covid-19. Várias destas publicações nas redes foram classificadas como falsas porque são apresentados dados como se fossem atuais, para comparação com números dos casos de coronavírus. Checagem da agência Aos Fatos tornou possível que estas postagens no Facebook fossem marcadas como falsas, por conta do convênio de verificação, também já citado nesta matéria.

O Ministro General da Secretaria de Governo registrou na entrevista que apresentava dados do Ministério da Saúde de 2018. De fato, os registros disponíveis mais recentes do DataSus são os números de mortalidade no país em 2018.

Nesse sentido, não há dados disponíveis sobre mortalidade no Brasil entre os meses de janeiro e maio de 2020 que permitam uma comparação do número de vítimas de Covid-19 (todos de 2020) com os de outras causas citadas pelo ministro, como doença de chagas, câncer, infarto, pneumonia, acidentes de trânsito e afogamentos. Qualquer comparação nesse sentido, será enganosa pela ausência de compatibilidade dos dados.

Além disso, como já indicado nesta matéria, toda comparação que se fizer no Brasil com outras doenças já começa prejudicada por conta da subnotificação dos casos de Covid-19. Este problema acontece em todos os países em maior ou menor grau. No Brasil, o grau é altíssimo. Os registros oficiais de mortos levam em conta apenas pessoas que falecem em hospitais ou que tiveram resultado de exame positivo para o vírus. Mortes sem diagnóstico preciso e as que ocorreram em casa ou em casas de repouso para idosos, por exemplo, não entram nas estatísticas imediatamente. Projeções feitas por instituto de pesquisa científica e por universidades diferentes dizem que o número de casos reais de Covid-19 pode ser de 12 a 16 vezes maior do que o número oficial.

Segundo o Ministério da Saúde afirmou à agência Aos Fatos, fazer uma comparação entre causas de morte também é equivocado, porque “pacientes que vieram a óbito poderiam ter mais de uma comorbidade [a ocorrência de duas ou mais doenças relacionadas no mesmo paciente e ao mesmo tempo]. Já em relação à Covid-19, várias são as comorbidades associadas nos casos dos pacientes que vieram a óbito”.

Aos Fatos também ouviu a especialista em história das epidemias do IFBA (Instituto Federal da Bahia) Christiane Maria Cruz de Sousa. Ela explica que a comparação com a incidência de outras doenças é desinformativa pois diferentemente de uma doença que mata cotidianamente, como o câncer, uma epidemia “surge repentinamente e o número de mortos se acumula. São muitos mortos e doentes que colocam em xeque o sistema de saúde disponível para tratar de tanta gente ao mesmo tempo”.

Desinformação oficializada

Bereia conclui, com base na verificação dos argumentos do Ministro General da Secretaria de Governo Luiz Eduardo Ramos, que culpou a imprensa de “alarmista” e instauradora de “clima de terror” em relação à cobertura da Covid-19, que o governo transmite desinformação de caráter enganoso. Dados verdadeiros são utilizados, mas são feitos com números frios sem a devida contextualização para uma comparação correta. Também há a apresentação de dados do Ministério da Saúde de dois anos atrás, com comparação defasada e também incompatível com a nova realidade de uma doença contagiosa em nível gravíssimo.

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 Referência da Checagem:

Estado de Minas https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/04/22/interna_politica,1141003/ramos-critica-imprensa-por-cobertura-da-covid-19-nao-esta-ajudando.shtml Acesso em 19 mai 2020

Agência Brasil, EBChttps://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2020-05/comparacao-mortes-covid-19-deve-ser-proporcional-dizem-ministros Acesso em 19 mai 2020

TV BrasilGovhttps://youtu.be/yJwPf2wuO2E Acesso em 19 mai 2020

Worldometer https://web.archive.org/web/20200512010559/https://www.worldometers.info/coronavirus/ Acesso em 19 mai 2020

Aos Fatos https://www.aosfatos.org/noticias/aos-fatos-adere-iniciativa-de-verificacao-de-noticias-do-facebook/ Acesso em 19 mai 2020

Aos Fatos https://www.aosfatos.org/noticias/numero-de-mortos-por-milhao-de-habitantes-nao-evidencia-que-pandemia-no-brasil-e-menos-grave/ Acesso em 19 mai 2020

BBC, https://www.bbc.com/news/52311014 Acesso em 19 mai 2020

Folha de S. Paulo, https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/04/explosao-de-casos-de-sindrome-respiratoria-aponta-para-subnotificacao-de-casos-de-covid-19-no-pais.shtml 

Aos Fatos https://www.aosfatos.org/noticias/tabela-que-compara-mortes-por-covid-19-com-outras-causas-traz-dados-falsos/ Acesso em 19 mai 2020

DataSus, Mortalidade http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=0205&id=6937 Acesso em 19 mai 2020

É falso que números por Covid-19 caem no Brasil por ações da Polícia Federal e do Ministro da Saúde

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No início de maio, voltaram a circular nas mídias sociais conteúdos que afirmam que a Polícia Federal (PF) e órgãos federais de saúde estariam auditando o número de óbitos por Covid-19. O Coletivo Bereia teve acesso à postagem de uma líder religiosa, em 8 de maio, com a tarja em vermelho trazendo os dizeres “Eita a casa caiu”, que ainda apresenta a afirmação de que a PF buscava esclarecimentos com famílias das vítimas e investigava as compras realizadas sem licitação.

O texto diz ainda que, por conta da ação do Ministro da Saúde empossado em abril, Nelson Teich, os números de vítimas em São Paulo começaram a cair, a Rede Globo teria parado de divulgar o número de óbitos e os estados e municípios teriam avisado que reabririam as economias. Segundo o conteúdo na página pessoal da pastora, caracterizado como “Informação falsa” pelo Facebook, o ex-ministro da pasta, Luiz Henrique Mandetta, teria mencionado o achatamento da curva relacionada à doença.

Antes mesmo da publicação da líder evangélica, que é presidente de uma igreja, juíza de paz, capelã e conselheira matrimonial, outras postagens em mídias sociais sobre o mesmo conteúdo já haviam sido pulverizadas a partir do dia 20 de abril.

Segundo o site Boatos.org, trata-se de uma espécie de teoria da conspiração sobre uma suposta queda no número de óbitos em decorrência do coronavírus divulgado pelas autoridades de saúde no país. A postagem também foi compartilhada por grupos pró-governo e outros contrários ao isolamento social horizontal. No perfil Bolsoteus um post enaltece o presidente Jair Bolsonaro e traz a chamada: “Corrigindo os dados ‘errados’ – Foi só trocar de ministro e começaram as correções no número de mortos por covid-19, imaginem então, até hoje quantos “erros” passaram sem averiguação?”.

Mediante a disseminação das publicações, a Boatos.org realizou a checagem, chegando à constatação de que são falsas. Isso porque são vagas, sem informações para comprovar a tese; alarmistas, com o objetivo de tirar as pessoas do isolamento social; apresentam erros de português e ainda não indicam fontes confiáveis para corroborar o que foi dito.

A seção “Fato ou Fake” do portal de notícias G1 também averiguou a informação e constatou a falsidade da mensagem. Segundo a matéria, o Ministério da Saúde negou a existência de uma auditoria. Em nota ao Fato ou Fake, o órgão informou que “os registros de casos e óbitos com confirmação de Covid-19 são reportados pelas secretarias estaduais e municipais de Saúde, levando-se em conta o número de pacientes hospitalizados e óbitos registrados no Sistema de Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP Gripe) e o número de exames positivos de Covid-19 em casos leves“.

A seção ainda menciona a afirmação do Ministério Público de que esses dados são repassados diariamente para equipes técnicas do Ministério da Saúde e divulgados por meio do portal – covid.saude.gov.br. Também não seria possível dizer que os números de São Paulo começaram a cair, uma vez que no dia 23 de abril o estado bateu recorde de mortes, com 211 novas ocorrências em 24 horas e, apesar de oscilações pontuais, a curva permanece ascendente. Já o número de casos tem variado bastante, mas não há uma tendência de queda.

Fato ou Fake também desmente a afirmação de que Rede Globo teria parado de divulgar os números de óbitos, o que segue sendo feito por meio dos telejornais e portal G1, pertencente ao Grupo Globo.

O entendimento de que todos os estados e municípios anunciaram uma reabertura imediata da economia também é contestado. De acordo com a checagem, em São Paulo, por exemplo, no período das postagens a quarentena estava mantida, como ainda está, pelo menos até o 31 de maio.

A Agência Lupa também verificou as publicações de que Teich estaria auditando números da Covid-19. A checagem se deu mediante o pedido feito por usuários do Facebook, por meio de projeto de verificação em parceria com a mídia social. A matéria, redigida pelo repórter Plínio Lopes e publicada em 24 de abril, taxa como falsa a informação sobre a suposta auditoria realizada pelo então novo Ministro da Saúde. Também categoriza como falso que os números de vítimas em São Paulo começaram a cair “como mágica”.

Segundo a reportagem, o presidente Jair Bolsonaro anunciou Nelson Teich como o novo ministro da Saúde no final da tarde do dia 16 de abril. Ele tomou posse no dia seguinte e, desde então, em São Paulo, o número de óbitos atingiu o maior valor diário e o número de casos confirmados o segundo maior desde o início da pandemia. Ratificando a verificação da Fato ou Fake, é falsa também a informação de que a emissora Globo parou de divulgar os números de vítimas por Covid-19. A Lupa apurou que, desde o anúncio de Nelson Teich como novo ministro da Saúde, no dia 16 de abril, todas as edições do Jornal Nacional (16, 17, 18, 20, 21 e 22 de abril) e a edição do Fantástico, de 19 de abril, divulgaram o número de óbitos por covid-19 no Brasil.

Sobre a reabertura das economias pelos estados e prefeituras, a agência classificou como exagerada, uma vez que, segundo a matéria, alguns estados e municípios, de fato, anunciaram a reabertura de certas atividades comerciais e outros, inclusive, já reabriram. Entretanto, isso varia de estado para estado e de município para município. São Paulo, por exemplo, condicionou a reabertura à manutenção de índices altos de isolamento. Outros, como Ceará e a Amazonas, mantiveram a suspensão do funcionamento de estabelecimentos comerciais não essenciais.

Por meio de nota ao Estadão Verifica, o Ministério da Justiça e Segurança Pública afirmou que “qualquer informação que circule nas redes sociais em nome da Polícia Federal que não tenha partido de nossos canais oficiais é de total responsabilidade de quem a divulgou”.

A mesma checagem foi realizada pela agência Aos Fatos, que participa do projeto de verificação de conteúdos em parceria com o Facebook, e identificou que, em 24 de abril, publicações com esse conteúdo acumulavam ao menos 40 mil compartilhamentos nessa mídia social até a tarde desta sexta-feira (24).

Por que o Facebook passou a identificar as postagens que têm informação falsa?

Após o escândalo, em 2015, envolvendo Facebook e Cambridge Analytica, em que informações pessoais de mais de 50 milhões de usuários foram vendidas para fins políticos com o desconhecimento dos usuários, Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, precisou dar explicações a parlamentares norte-americanos e europeus e apresentou novos mecanismos preventivos contra fake news.

Segundo o pesquisador Claudio Marques:

“Nos casos em que o conteúdo de publicações, fotos ou vídeos forem identificados como sendo falsos, Zuckerberg afirma que técnicos irão avaliar as possíveis consequências da disseminação da suposta notícia falsa para tomar duas possíveis atitudes: exclusão definitiva do conteúdo da plataforma nos casos mais graves (ameaça à integridade física de pessoas envolvidas, por exemplo) ou redução da sua capacidade de circulação e alcance, fazendo com que ela tenha uma chance muito menor de aparecer no feed de notícias dos usuários e se espalhar.”

Como exemplo dessa atuação, há o caso no Brasil em que 196 páginas e 87 contas falsas ligadas ao Movimento Brasil Livre, durante a campanha eleitoral de 2018, foram desativadas por sua participação em “uma rede coordenada que se ocultava com o uso de contas falsas no Facebook, e escondia das pessoas a natureza e a origem de seu conteúdo com o propósito de gerar divisão e espalhar desinformação”. O escândalo das fake news na campanha eleitoral de 2018 no Brasil acabaram se tornando objeto de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) no Congresso Nacional.

Desde os escândalos que envolveram o Facebook com uso ilegal de dados e veiculação de material falso, a empresa tem trabalhado em mudanças em seu algoritmo para amplificar as notícias de fontes confiáveis.

Segundo Claudio Marques, “algoritmo é uma sequência de instruções que orientam passo a passo a realização de uma tarefa ou a solução de um problema”. A pesquisadora Cathy O’Neil, no livro “Armas de destruição em massa: como o big data cresce e ameaça à democracia” (tradução livre), opina que os algoritmos podem se constituir em “Armas de Destruição Matemática”, pois teriam potencial para promover os privilegiados ao reforçar preconceitos e estereótipos. Eles podem desconsiderar fatores relevantes e permitir que se tirem conclusões enviesadas, como a de que prisioneiros não-brancos vindos de bairros pobres têm maior probabilidade de voltar a cometer crimes.

Dessa forma, algoritmos que não primam pela transparência e pela ética estariam sendo cada vez mais utilizados para tomada de decisões que impactam diretamente na vida das pessoas, prejudicando principalmente os pobres, os negros, os imigrantes e os que possuem baixa escolarização. Por outro lado, há muitos algoritmos que são positivos para a sociedade. O Facebook foi pressionado a construir o seu contra as fake news.

Em 2018, o Facebook lançou no Brasil o seu programa de verificação de notícias, em parceria com as agências de checagem Aos Fatos e Lupa. Pelo programa, as duas agências de verificação têm acesso às notícias denunciadas como falsas pela comunidade no Facebook para analisar sua veracidade. Os conteúdos classificados como falsos têm sua distribuição orgânica reduzida de forma significativa no Feed de Notícias. Páginas no Facebook que repetidamente compartilharem notícias falsas terão todo o seu alcance diminuído.

Esse mecanismo, quando aplicado nos Estados Unidos desde 2015, permitiu cortar em até 80% a distribuição orgânica de notícias consideradas falsas por agências de
verificação parceiras.

“Estamos comprometidos em combater a disseminação de notícias falsas no Facebook. Essa parceria com Aos Fatos e Agência Lupa é mais um passo em nossos esforços para combater a desinformação e melhorar a qualidade das notícias que as pessoas encontram no Facebook”, afirma a líder de parcerias com veículos de mídia do Facebook para América Latina, Cláudia Gurfinkel.

Além de reduzir o alcance de conteúdos considerados falsos, o Facebook envia notificações para pessoas e administradores de Páginas que tentarem compartilhar esse conteúdo, alertando-os que a sua veracidade foi questionada por agências de verificação.

Notícias consideradas falsas pelas agências de verificação não podem ser impulsionadas no Facebook. E as Páginas que publicarem com frequência tais conteúdos não têm mais a opção de usar anúncios para construir suas audiências. Aos Fatos e Agência Lupa podem, ainda, associar a sua checagem a uma notícia que
tenha sido questionada. Esse texto com a checagem será mostrado no Feed de Notícias por meio do recurso Artigos Relacionados, fornecendo mais contexto às pessoas para que tomem decisões mais informadas sobre o conteúdo que consomem.

Aos Fatos e Agência Lupa podem, ainda, associar a sua checagem a uma notícia que tenha sido questionada. Esse texto com a checagem será mostrado no Feed de Notícias por meio do recurso Artigos Relacionados, fornecendo mais contexto às pessoas para que tomem decisões mais informadas sobre o conteúdo que consomem. Como no caso da postagem da pastora que originou esta matéria:

O programa de verificação de notícias do Facebook está disponível em alguns países e conta com a parceria de organizações de checagem integrantes da International Fact-Checking Network (IFCN), da Poynter.

Já em 16 de abril de 2020, o Facebook anunciou uma nova ferramenta para evitar o compartilhamento de desinformação acerca do coronavírus. Usuários que tiverem interação em postagens com conteúdos falsos ou que confundem sobre a pandemia serão notificados. E encaminhados para informações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Por isso o presidente Jair Bolsonaro teve um vídeo removido do Facebook e do Instagram em 30 de março. No vídeo publicado em seus perfis nestas mídias, Bolsonaro provocava aglomerações durante um passeio em Brasília e se posicionava contra o isolamento social, defendido por autoridades de saúde do mundo inteiro como medida eficaz para conter o coronavírus.

Um porta-voz do Facebook explicou que a plataforma removeconteúdo no Facebook e Instagram que viole nossos Padrões da Comunidade, que não permitem desinformação que possa causar danos reais às pessoas”.

Cristãos e desinformação sobre a Covid-19

A agência Aos Fatos alerta que tentativas de desacreditar os dados estaduais de mortes por Covid-19 fazem parte de um processo de desinformação cada vez mais frequente com o avanço da pandemia.

Em geral, as postagens lançam suspeitas sobre os números para fazer crer que há interesses políticos de governadores dos estados contra o governo de Jair Bolsonaro. Já houve várias publicações que sugeriram que atestados de óbitos estavam sendo forjados para inflar os números de casos no Brasil. Depois, houve postagens com acusações de que governos estaduais de estarem superestimando os dados.

Todas estas postagens ainda circulam, apesar das matérias das agências de checagem já as terem classificadas como falsas. Indivíduos e grupos cristãos têm participado na disseminação deste material desinformativo, como é o caso da pastora, cuja postagem foi base para a elaboração desta matéria. O Coletivo Bereia já produziu várias checagens de conteúdo desinformativo sobre a pandemia que circula entre cristãos.

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Referências de checagem

Boatos.org, https://www.boatos.org/saude/numero-de-mortes-covid-19-caiu-investigacao-teich-moro.html Acesso em 11 mai 2020

Fato ou Fake, G1, https://g1.globo.com/fato-o fake/coronavirus/noticia/2020/04/24/e-fake-que-ministro-da-saude-faz-auditoria-dos-numeros-de-casos-e-mortes-de-covid-19.ghtm. Acesso em 11 mai 2020

Lupa, https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2020/04/24/verificamos-nelson-teich-auditando-covid/ Acesso em 11 maio 2020

Estadão Verifica, https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/pf-nao-tem-inquerito-para-apurar-mortes-pela-covid-19/ Acesso em 11 mai 2020

Aos Fatos, https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/pf-nao-tem-inquerito-para-apurar-mortes-pela-covid-19/ Acesso em 11 mai 2020

The Guardian, https://www.theguardian.com/technology/2019/mar/17/the-cambridge-analytica-scandal-changed-the-world-but-it-didnt-change-facebook Acesso em 11 mai 2020

Facebook, https://about.fb.com/br/news/2018/05/facebook-lanca-produto-de-verificacao-de-noticias-no-brasil-em-parceria-com-aos-fatos-e-agencia-lupa/. Acesso em 11 mai 2020.

G1, https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2020/04/16/facebook-vai-avisar-quem-interagiu-com-informacoes-falsas-sobre-o-coronavirus.ghtml Acesso em 11 mai 2020

G1, https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2020/03/30/facebook-e-instagram-removem-video-de-jair-bolsonaro-por-violacao-de-regras.ghtml Acesso em 11 mai 2020

Claudio Marques, “Entre algoritmos e bolhas: as fake news e a comunicação do IBGE”. Disponível em: http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/encontros-nacionais/12o-encontro-2019/gt-2013-historia-do-jornalismo/entre-algoritmos-e-bolhas-as-fake-news-e-a-comunicacao-do-ibge/at_download/file . Acesso em 11 mai 2020

Cathy O’Neil. Weapons of math destruction: how big data increases and threatens democracy.New York: Crown, 2016.

Reuters, https://br.reuters.com/article/domesticNews/idBRKBN1KF1MI-OBRDN . Acessado em 11/05/2020. Acesso em 11 mai 2020.

Fonte/imagem de destaque: https://www.haribhoomi.com/news/india/doctors-gave-information-about-outbreak-of-corona-infection-and-symptoms-of-corona-virus-325500

Novos conteúdos que ligam o ex-deputado Jean Wyllys a atentado a Bolsonaro são falsos – Parte 2

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Parte 2: Propaganda em momento de crise

Postagem publicada pelo deputado federal Marco Feliciano (Podemos/SP), em 27 de abril, traz mais uma acusação que liga o ex-deputado federal Jean Wyllys (PSOL/RJ) ao autor da facada no então candidato Jair Bolsonaro, em 2018.

O conteúdo da postagem é matéria assinada pelo jornalista Oswaldo Eustáquio e publicada no site renews, no mesmo 27 de abril de 2020, com o título “Exclusivo: Em depoimento à PF, testemunha revela que Adélio Bispo esteve no gabinete Jean Wyllys” (sic). O texto afirma que um homem chamado Luciano Carvalho de Sá contou que o autor do atentado à facada, em setembro de 2018, contra o então candidato à Presidencia da República Jair Bolsonaro, foi Adélio Bispo, e que ele mantinha ligações com o ex-deputado federal do PSOL, Jean Wyllys. A matéria ainda afirma que Adélio disse a Luciano:

“Já estive com Jean Wyllys no Anexo 4 da Câmara dos deputados por duas vezes. Você precisa conhecer ele, nem todos os políticos são inúteis. Se quiser te levo lá” (sic).

Essa frase foi dita, segundo o jornalista, após Adélio ver Luciano segurando uma placa com os dizeres “Fora Temer” e “Contra Políticos Inúteis”, em uma manifestação na paralisação dos caminhoneiros, em 2017. O jornalista Oswaldo Eustáquio conclui, a partir disso, que “a informação mostra fortes indícios de um braço político do esquema que tentou assassinar o então candidato Jair Bolsonaro”. Oswaldo também conclui que o depoimento de Luciano pode colocar Jean Wyllys e o PSOL como suspeitos de serem os mandantes do crime contra Jair Bolsonaro.

Uma contextualização do caso Adélio e dos recorrentes ataques de fake news ao ex-deputado Jean Wyllys pode ser encontrada na parte 1 desta matéria.

Jean Wyllys e Adélio Bispo voltam à cena

O caso do atentado à facada em Jair Bolsonaro volta à cena política, neste momento, no contexto da exoneração do diretor da Polícia Federal (PF) Maurício Valeixo, que levou à demissão do Ministro da Justiça Sérgio Moro, na sexta-feira, 24 de abril passado. Moro acusou o presidente Jair Bolsonaro de interferir politicamente na PF ao exonerar Valeixo para nomear pessoa de sua intimidade:

O presidente me disse mais de uma vez, expressamente, que queria ter uma pessoa do contato pessoal dele que ele pudesse ligar, colher informações, colher relatórios de inteligência, seja diretor-geral, superintendente e realmente não é o papel da polícia federal prestar esse tipo de informação.”

Ao rebater a acusação em pronunciamento na mesma data, o presidente Jair Bolsonaro afirmou:

Será que é interferir na Polícia Federal quase que exigir, implorar a Sergio Moro, que apure quem mandou matar Jair Bolsonaro? A PF de Sergio Moro mais se preocupou com Marielle do que com seu chefe supremo. Cobrei muito deles isso daí. Não interferi. Eu acho que todas as pessoas de bem no Brasil querem saber. Entendo, me desculpe senhor ex-ministro: entre meu caso e o da Marielle, o meu está muito menos difícil de solucionar. Afinal de contas, o autor foi preso em flagrante de delito, mais pessoas testemunharam, telefones foram apreendidos. Três renomados advogados, em menos de 24 horas, estavam lá para defender o assassino.

No mesmo dia já circulava nas mídias sociais postagens com a hashtag “#QuemMandouMatarBolsonaro” criada em contraposição à hashtag “#QuemMandouMatarMarielle”, que circula nas mídias desde março de 2018 quando a vereadora do Rio Marielle Franco foi executada.

Dois dias depois, em 26 de abril, o jornalista independente Oswaldo Eustáquio publicou em seu perfil do Twitter que faria uma live naquela noite para “revelar algo que a Polícia Federal não descobriu sobre Adélio Bispo” e que a informação traria uma “reviravolta para o caso”. Eustáquio solicitava ainda que seguidores repercutissem a hashtag “#QuemMandouMatarBolsonaro”.

A live do jornalista Oswaldo Eustáquio foi realizada via Youtube, com o título “A última testemunha viva que esteve com Adélio Bispo desmente inquérito da PF de Moro” e a chamada:

O núcleo de jornalismo investigativo comandado por Oswaldo Eustáquio encontrou a última testemunha viva que esteve comprovadamente com Adélio Bispo. Luciano Mergulhador, conheceu o homem que tentou matar Bolsonaro em uma manifestação em Florianópolis e revela detalhes.

A transmissão apresentou ao público um homem denominado “Luciano Mergulhador”, quem o jornalista disse estar ao lado de Adélio Bispo em foto de manifestação, momento em que o homem teria ouvido que Bispo teria estado com o deputado Jean Wyllys por duas vezes na Câmara Federal.

Foto: Renews

O homem é apresentado como testemunha-chave, que foi mostrada na divulgação da foto à época das investigações pela Globo News e nunca teria sido encontrada. Luciano Mergulhador declara que ele é a pessoa que aparece na foto e afirma ser conhecido do jornalista: Eustáquio, você conhece o nosso histórico lá de Paranaguá (PR), nós já enfrentamos lá o crime organizado político em Paranaguá, nós fizemos milagres e prodígios lá na cidade muitas vezes e fomos perseguidos”.

Ele diz que em nenhum momento a Polícia Federal o procurou e que: “muitas vezes a imprensa acaba não tendo a credibilidade que nós temos com a comunidade mais simples”, por isso“pessoas que estão nesta linha investigatória acabaram nos procurando. E temos informações que, com esta audiência aqui, poderão mudar a trajetória deste inquérito”.

Em seguida o jornalista afirma que o objetivo da live “é trazer a verdade que liberta, a verdade que está em João 8.32” e apresenta dois convidados Roberto Zibenberg e Roberta Lopes, do Direita Minas.

O jornalista Oswaldo Eustáquio reforça a ideia de que a transmissão poderá mudar a história do inquérito, visto que a hashtag “#QuemMandouMatarBolsonaro ficou em primeiro lugar por todo o dia. Ainda, questiona o entrevistado principal se realmente esteve com Adélio Bispo e se este se aproximou por conta da placa “Renuncia Temer”. Luciano responde que sim. “Adélio se aproximou por conta das placas “Renuncia Temer” e “Políticos Inúteis”’.

Oswaldo continua questionando Luciano:

“Quando ele [Adélio] se aproximou de você, ele falou sobre alguns políticos inúteis e sobre alguns bons políticos?”

Luciano inicia a sua resposta reforçando que a PF não o procurou para que ele pudesse fazer declarações. Luciano disse que estava com o cartaz na escadaria da catedral em Florianópolis e que este chamou a atenção de muitas pessoas à época da greve dos caminhoneiros. Disse que Adélio, em relação ao cartaz “Políticos Inúteis”, falou que nem todos os políticos são inúteis. A partir dessa afirmação, Luciano o questionou: “mas quem seria um bom político?” E Adélio respondeu, nas palavras de Luciano: “Lá no Congresso Nacional, no Anexo 4, tem um deputado federal que é um bom político”. Luciano diz que essa é a informação que chamou a sua atenção e acha que isso mudará o rumo das investigações. Luciano diz que tomou a liberdade e fez uma investigação. Diz ele:

“No anexo 4, têm vários deputados, mas Jean Wyllys, que é do PSOL – e houve essa ligação, ele [Adélio] era filiado ao partido. E Jean Wyllys, nós sabemos, que tem um ódio ferrenho por Bolsonaro, tanto que cuspiu em Bolsonaro. Isso foi noticiado no Brasil e no mundo. Mas há essa ligação. E mais uma informação, aí que entra a questão, pois nos passaram essa informação: meu amigo Eustáquio, repórter Eustáquio – e chamamos a PF para analisar essa questão aí – sabemos que no anexo 4, ali por 2013, Adélio adentrou o anexo 4, mas as câmeras de vídeo do anexo 4, simplesmente foram apagadas. E acredito que, para o inquérito, isso seja uma informação muito importante. Por que nunca fomos procurados para, talvez, trazer essa informação, debater sobre isso aí. Então, esse questionamento feito pela hashtag “#QuemmandoumatarBolsonaro”, e por que há um silêncio por grande parte da imprensa sobre esse questionamento? Por que há esse segredo da parte investigativa? São perguntas que eu recebo seguidamente. Só que eu não tenho poder de polícia federal. Eu sou apenas um cidadão, um trabalhador, mergulhador, tenho muito orgulho, amo a minha profissão, mas eu também sou um ativista. E a gente coloca a nossa vida em risco, quando a gente enfrenta esse crime organizado político que se perpetua, que quer manter e, talvez, queira voltar à presidênciada república. Então, amado [se referindo ao jornalista Oswaldo], eu achei de muita coragem, porque de algumas informações os repórteres têm medo, têm medo da verdade. Então, nós trazemos essas informações – eu tentei anotar algumas coisas – para que entremos em uma linha de inquérito. Acrescento, algo que percebi aqui, e desde as primeiras entrevistas eu falei em relação a isso, em nenhum momento, quanto para mim, quanto para as pessoas, mas têm as fotos do dia do evento. O Adélio foi aquele que recebeu os telefones das pessoas que estavam na manifestação e isso nos causa estranheza: como que a pessoa que é cotada como insana [se referindo a Adélio], mas era uma pessoa que fazia stand de tiro e para a pessoa fazer stand de tiro ela tem que passar por… [provavelmente estava pensando em falar sobre avaliação psicológica]. Outro ponto: o telefone celular é um patrimônio que cuidamos com muito carinho, mas todas as pessoas permitiram que Adélio batesse foto com os seus celulares. Eu não tenho poder de polícia federal, agora eu digo uma coisa: a rede globo em não retirar o meu rosto dessa foto, que correu o Brasil inteiro, assustou muito a minha família, as pessoas que nos conhecem ficaram questionando: ‘será que o mergulhador que fez esse atentado?’ E como fazemos o movimento civil da sociedade organizada e esse movimento tem como principal objetivo combater o crime organizado político, nós temos muito inimigos. E você sabe como é forte o crime organizado em Paranaguá, por exemplo” (sic).

Luciano continua falando de Paranaguá, mas é interrompido pelo jornalista Oswaldo Eustáquio, que questiona se o entrevistado compreendia a gravidade das denúncias que estava trazendo. O jornalista Oswaldo afirma que há um elo perdido pela PF:

“Adélio Bispo esteve na Câmara dos Deputados em 2013. E por duas vezes entrou no Anexo 4, mas isso foi, ou apagado do sistema, o gabinete que ele foi, ou o atendente da Câmara não colocou [não registrou] o gabinete visitado.”

Continua dizendo que essa informação era um elo perdido na investigação.

“E você [Luciano] está dizendo, agora, e eu preciso entender isso, e queria que você falasse um pouco mais sobre isso para eu entender, que Adélio Bispo disse nessa manifestação que vocês se encontraram, que ele gostava do Jean Wyllys como político e que ele já tinha ido ao seu gabinete. Essa informação que você traz pode colocar Jean Wyllys como um dos suspeitos do atentado contra Bolsonaro. Isso é muito grave. Por isso eu preciso entender direitinho o que aconteceu. Estamos aqui para transmitir a informação para a população. Explica melhor isso aí.”

Diz Luciano:

“Eustáquio, eu até acrescento: Onde está Jean Wyllys agora? Jean Wyllys se encontra no Brasil? Você me entende? Ele já prometia que no momento que entrasse o Bolsonaro ele sairia do país. Você me entende? O que me causa estranheza – eu não sou PF, eu não tenho esse poder de PF, mas eu acho, eu acredito, e aproveitamos agora para pedir, talvez, uma certa proteção, dessa mesma PF, que possa proteger a nossa vida. Porque eu sei da dinâmica do que está acontecendo. Porque para amigos, nós não falamos dessa parte do diálogo. Porque eu acredito que, para entrarmos nesse assunto é necessária uma certa proteção.”

Eustáquio insiste na transmissão que Adélio Bispo foi absolvido do crime (na 1ª parte desta matéria Bereia explica o que é “absolvição imprópria”). Esta retórica de Eustáquio reforça o caráter de conspiração em torno do caso. E o vídeo prossegue por mais de 120 minutos, reforçando a acusação sobre Jean Wyllys.

A repercussão da acusação de Oswaldo Eustáquio

A matéria no site renews, diz que Luciano Carvalho de Sá, o Luciano Mergulhador, prestou depoimento à PF, no dia seguinte à acusação do jornalista Oswaldo Eustáquio. A matéria diz que outras testemunhas que estavam na escadaria da manifestação em que Luciano Mergulhador conversou com Adélio Bispo se apresentaram depois da live de Eustáquio.

A matéria do renews foi reproduzida por outros sites e em perfis de mídias sociais já assumida como verdade (como o do deputado federal Marcos Feliciano, da Bancada Evangélica, que levou a esta checagem do Coletivo Bereia). A acusação ganhou ainda mais força com publicações dos filhos de Bolsonaro, o vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro (Republicanos), e o deputado federal, Eduardo Bolsonaro (PSL/SP).

O senador Marcos do Val (Podemos/ES) assumiu a repercussão da acusação de Eustáquio no meio político e apresentou pedido, em 28 de abril, para que Jean Wyllys preste esclarecimentos à Comissão de Constituição e Justiça do Senado (o que ainda precisa ser avaliado).

O senador Marcos do Val anunciou que o faria, com postagem no Facebook assumindo a fala de Luciano Mergulhador como verdade em relação à ligação Adélio Bispo-Jean Wyllys.

A ação do senador foi divulgada pelos sites evangélicos Pleno News e Conexão Política e por vários outros de notícias de apoio a Jair Bolsonaro, como Jornal da Cidade, Agora Paraná, Relevante News, Aqui Notícias, Notícias Brasil On Line, República de Curitiba, entre outros. Nenhum órgão reconhecido de notícias publicou sobre a acusação divulgada pelo jornalista Eustáquio ou sobre a repercussão de Marcos do Val.

O presidente Jair Bolsonaro manifestou-se no Twitter em relação à publicação do Jornal da Cidade com o sinal de polegar para cima:

Em 28 de abril, o PSOL protocolou uma queixa-crime contra Carlos Bolsonaro pela divulgação da acusação no Twitter. No mesmo dia, Jean Wyllys publicou também no Twitter que as fake news foram criadas para desqualificar as denúncias feitas contra o presidente Jair Bolsonaro pelo ex-ministro Sérgio Moro, pois apareceram nos dias posteriores ao caso, como reconhecemos, acima, nesta checagem.

Ainda em 28 de abril, o presidente Jair Bolsonaro anunciou, durante conversa com apoiadores na frente do Palácio Alvorada, que a investigação da facada seria reaberta (apesar de não ter sido ainda concluída, como referido na Parte 1, nesta checagem).

“Vai ser reaberta a investigação. Foi negligenciado. Foi a conclusão. Foi um lobo solitário. Como pode um lobo solitário com três advogados? Quatro celulares? Inclusive, andando pelo Brasil.”

Sobre Luciano Mergulhador ter deposto na PF em Santa Catarina, em 27 de abril, é verdadeira a informação. O jornalista Fausto Macedo de O Estado de São Paulo, teve acesso à íntegra do depoimento colhido pelo delegado Reginaldo Donizetti Gallan Batista.

Conforme publicou o jornalista, em nenhum momento Luciano Mergulhador confirmou para os investigadores que Adélio tivesse ido ao gabinete de Wyllys, como foi divulgado pelas matérias em mídias independentes e por perfis de mídias sociais. Perante a PF, diferentemente do que disse na live de Oswaldo Estáquio, Mergulhador disse que não conhece Adélio Bispo e que o único contato que teve com ele “foi no referido movimento social e na ocasião da fotografia“. Sobre a menção de Jean Wyllys, Luciano Mergulhador não mencionou, em nenhum momento, ligação de Adélio com o ex-deputado ou supostas visitas ao gabinete dele. O depoente narrou apenas que ouviu, no dia da foto: ‘alguém’ citar deputados de esquerda, como Wyllys, contra a afirmação de seu cartaz, que dizia no verso a frase ‘políticos inúteis’. Ele não declarou à PF que quem disse isto foi Adélio Bispo. O documento registrado com o depoimento e assinado por Luciano Mergulhador diz:

Que [o depoente] esclarece que na ocasião, conversou com várias pessoas no local sobre o movimento e se recorda de alguém ter comentado sobre os deputados do anexo 4, ou seja, deputados de esquerda, tendo sido citado expressamente o ex-deputado Jean Wyllys. Que [o depoente] esclarece que o comentário sobre tais deputados se deu em razão da frase ‘políticos inúteis’ no verso do cartaz ‘Renuncia Temer’, tendo alguém afirmado que não são todos os políticos inúteis, sendo citado os deputados do Anexo 4 e expressamente o ex-deputado Jean Wyllys.

Luciano Mergulhador disse à PF que, no dia da foto com Adélio, não houve “nenhum comentário sobre atentar contra a vida de políticos, especificamente contra o presidente Jair Bolsonaro, na época deputado federal”. Afirmou ainda que não recebeu nada para participar da live do jornalista Oswaldo Eustáquio.

Checagem sobre a live de Oswaldo Eustáquio pelo jornal O Estado de São Paulo acrescentou que o delegado, ex-superintendente da PF em Minas Gerais, avalia que foi exonerado do cargo em fevereiro de 2019 porque contrariou o desejo do presidente Jair Bolsonaro e de seus filhos no processo da investigação. Ele estima que a família demonstrava interesse de que a averiguação chegasse à conclusão de que Adélio Bispo tinha sido financiado por partidos políticos ou uma organização criminosa.

Não há comprovação de que outras testemunhas tenham ido à PF, estimuladas pelo depoimento de Luciano Mergulhador, como diz a matéria do renews.

O que se pode concluir

Levando-se em conta os históricos do caso do atentado de Adélio Bispo de Oliveira contra o então candidato Jair Bolsonaro e os recorrentes processos de difamação e perseguição de milícias virtuais e apoiadores do hoje Presidente da República contra o ex-deputado federal Jean Wyllys, já é possível inferir que os recentes conteúdos sobre a ligação Jean Wyllys-Adélio Bispo, indicada por “última testemunha viva”, são falsos.

Esta inferência se soma às características da origem divulgadora do conteúdo. Oswaldo Eustáquio, 36 anos, se apresenta no perfil do Twiitter como “Jornalista Investigativo (DRT 8802), apaixonado pela verdade, inimigo da corrupção. Conservador”. Tornou-se conhecido por meio de blogs em mídias do Paraná, Gazeta do Povo e Agora Paraná, e por transmissões no canal do Youtube, com mais evidência depois da campanha de Jair Bolsonaro à Presidência.

Em 19 de abril passado, pelo canal do Youtube, Eustáquio transmitiu uma live com a participação do ex-deputado federal e presidente do PTB, Roberto Jefferson. Para denunciar uma suposta “trama urdida” pelos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP) e do Supremo Tribunal Federal (STF), do PT e da TV Globo, para impor um impeachment a Jair Bolsonaro. Jefferson é um dos líderes do chamado “centrão”, bloco que tem sido alvo do governo Bolsonaro para superar o isolamento em que se encontra no Congresso (o presidente encontra-se sem partido) e conquistar apoio político nas Casas.

A live foi compartilhada nas mídias sociais do presidente Jair Bolsonaro, que fez uma transmissão ao vivo, em que aparecia assistindo.

Oswaldo Eustáquio ficou destacado nas mídias noticiosas recentemente, quando foi condenado na Justiça por publicar ofensas em seus espaços nas mídias sociais. Ele foi condenado a pagar R$ 15 mil por danos morais por ter ofendido a mãe do jornalista Glenn Greenwald, Arlene Greenwald, que morreu em dezembro vítima de um tumor no cérebro.

Em agosto de 2019, Eustáquio afirmou que Glenn Greenwald mentiu sobre o estado de saúde da mãe apenas para acelerar a concessão de visto para os filhos menores e, assim, partir com eles para os EUA. O jornalista reagiu chamando Eustáquio de “lixo humano” e decidiu processá-lo.

O juiz Antonio Carlos Maisonette Pereira afirmou na sentença que as postagens de Eustáquio tinham “uma carga ofensiva ao autor e sua mãe que ultrapassa o objetivo legítimo de criticar”. Ainda, que o jornalista não se ateve “ao compromisso ético de checar a veracidade das informações divulgadas, exorbitando da crítica para o campo das insinuações, as quais, no caso, são pejorativas e induvidosamente ofensivas à honra do autor e sua mãe, imputando ao primeiro, ainda, o cometimento de crime”.

O juiz Maisonette decretou que “ultrapassou os limites das liberdades constitucionais que lhe são asseguradas, agindo de forma abusiva ao disseminar informações equivocadas sobre o estado de saúde” da mãe de Glenn Greenwald. Cabe recurso da decisão”.

Com base neste levantamento, o Coletivo Bereia classifica o conteúdo da postagem do deputado federal Marco Feliciano (e todas as outras reproduções dele) como falso, com o objetivo de fazer propaganda em meio ao contexto político de crise do governo federal.

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Referências de Checagem:

Exclusivo: Em depoimento à PF, testemunha revela que Adélio Bispo esteve no gabinete Jean Wyllys. Disponível em: https://www.renews.com.br/noticia/exclusivo-em-depoimento-a-pf-testemunha-revela-que-adelio-bispo-esteve-no-gabinete-jean-wyllys#.XqciLoIO5Mw.twitter. Acesso em 30 abr 2020.

Leia a íntegra do discurso de Moro. Disponivel em: https://jornaldebrasilia.com.br/politica-e-poder/leia-a-integra-do-discurso-de-moro/ Acesso em 30 abr 2020.

Leia íntegra do discurso de Bolsonaro após demissão de Moro . Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/04/24/leia-integra-do-discurso-de-bolsonaro-apos-demissao-de-moro.htm?cmpid=copiaecola . Acesso em 30 abr 2020.

A última testemunha viva que esteve com Adélio Bispo desmente inquérito da PF de Moro. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=l7Nj77fhohA Acesso em 30 abr 2020.

Exclusivo: Em depoimento à PF, testemunha revela que Adélio Bispo esteve no gabinete Jean Wyllys. Disponível em : https://www.renews.com.br/noticia/exclusivo-em-depoimento-a-pf-testemunha-revela-que-adelio-bispo-esteve-no-gabinete-jean-wyllys#.XqciLoIO5Mw.twitter. Acesso em 30 abr 2020.

Senador pede que Jean Wyllys esclareça relação com facada. Disponível em: https://pleno.news/brasil/politica-nacional/senador-pede-que-jean-wyllys-esclareca-relacao-com-facada.html Acesso em 30 abr 2020.

Marcos do Val pede que Jean Wyllys esclareça suposta relação com facada em Bolsonaro. Disponível em: https://conexaopolitica.com.br/ultimas/marcos-do-val-pede-que-jean-wyllys-esclareca-suposta-relacao-com-facada-embolsonaro/ Acesso em 30 abr 2020.

Após acusar ligação de Wyllys com facada, homem que aparece em foto com Adélio não sustenta versão para PF
Disponível em : https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/apos-acusar-ligacao-de-wyllys-com-facada-homem-que-aparece-em-foto-com-adelio-nao-sustenta-versao-para-pf/ Acesso em 30 abr 2020.

Depoimento na Polícia Federal não liga Jean Wyllys a Adélio Bispo. Disponível em: https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/depoimento-na-policia-federal-nao-liga-jean-wyllys-a-adeliobispo/ Acesso em 30 abr 2020.

Vídeo: Roberto Jefferson revela detalhes da trama do golpe iminente de Rodrigo Maia contra Bolsonaro. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lzynxvq7iHw Acesso em 30 abr 2020.

Vídeo: BOLSONARO assiste ao vivo Roberto Jeferson denunciar GOLPE DE MAIA. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=qX_mZcnEGsk. Acesso em 30 abr 2020.

Blogueiro é condenado a pagar R$ 15 mil por ofender a mãe de Glenn Greenwald. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2020/02/blogueiro-e-condenado-a-pagar-r-15-mil-por-ofender-a-mae-de-glenn-greenwald.shtml; Acesso em 30 abr 2020.

Novos conteúdos que ligam o ex-deputado Jean Wyllys a atentado a Bolsonaro são falsos – Parte 1

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Parte 1: Alvo Preferido

Postagem publicada pelo deputado federal Marco Feliciano (Podemos/SP), em 27 de abril, traz mais uma acusação que liga o ex-deputado federal Jean Wyllys (PSOL/RJ) ao autor da facada no então candidato Jair Bolsonaro, em 2018.

O conteúdo da postagem é matéria assinada pelo jornalista Oswaldo Eustáquio e publicada no site renews, no mesmo 27 de abril de 2020, com o título “Exclusivo: Em depoimento à PF, testemunha revela que Adélio Bispo esteve no gabinete Jean Wyllys” (sic). O texto afirma que um homem chamado Luciano Carvalho de Sá contou que o autor do atentado à facada, em setembro de 2018, contra o então candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro, foi Adélio Bispo, e que ele mantinha ligações com o ex-deputado federal do PSOL, Jean Wyllys. A matéria ainda afirma que Adélio disse a Luciano:

“Já estive com Jean Wyllys no Anexo 4 da Câmara dos deputados por duas vezes. Você precisa conhecer ele, nem todos os políticos são inúteis. Se quiser te levo lá” (sic).

Essa frase foi dita, segundo o jornalista, após Adélio ver Luciano segurando uma placa com os dizeres “Fora Temer” e “Contra Políticos Inúteis”, em uma manifestação na paralização dos caminhoneiros, em 2017. O jornalista Oswaldo Eustáquio conclui, a partir disso, que “a informação mostra fortes indícios de um braço político do esquema que tentou assassinar o então candidato Jair Bolsonaro”. Oswaldo também conclui que o depoimento de Luciano pode colocar Jean Wyllys e o PSOL como suspeitos de serem os mandantes do crime contra Jair Bolsonaro.

A matéria foi compartilhada por outros influenciadores digitais religiosos, como a católica Sara Winter, e reproduzida pelo site de notícias evangélicas Pleno News, além de diversos sites apoiadores de Jair Bolsonaro como TV Gente Brasil, Real News Notícias, REDDIT.

O caso Adélio Bispo de Oliveira

Desde que o homem de nome Adélio Bispo de Oliveira desferiu uma facada no então candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro, em Juiz Fora/MG, em setembro de 2018, foi preso em flagrante e confessou o crime, dois inquéritos foram instaurados pela Polícia Federal. Uma primeira investigação foi concluída pouco tempo depois do atentado, em 28 de setembro de 2018, e definiu que o agressor do candidato Jair Bolsonaro agiu sozinho. A investigação analisou imagens de câmeras de segurança de lojas e de bancos do local do crime e também verificou que Adélio Bispo tentou atacar Bolsonaro antes, menos de um minuto depois do começo da passeata em Juiz de Fora. A PF constatou ainda que as quebras de sigilo bancário do autor não indicaram repasses suspeitos e análises de celulares e chips mostraram informações irrelevantes. As provas reforçaram os indícios de que ele agiu sozinho, e que a motivação foi “indubitavelmente política”.

No relatório do inquérito, a PF registrou como Adélio Bispo agiu:

Fotografou previamente alguns locais onde Bolsonaro estaria na cidade. Em outras fotos e imagens encontradas em seu celular, ficou evidenciado que esteve acompanhando o candidato durante todo o dia,tendo tido inclusive acesso ao hotel em que estava programado um almoço com empresários. Configuram-se, portanto, elementos robustos de que houve uma decisão prévia, reflexiva e arquitetada por parte de Adélio para atentar contra a vida de Bolsonaro.

Um segundo inquérito foi aberto pela PF, em 25 de setembro de 2018, para investigar a participação de terceiros no atentado e apurar quem financiou a defesa de Adélio Bispo de Oliveira. O advogado responsável, Zanone Manuel de Oliveira Júnior, havia declarado que o nome de quem o contratou era sigiloso.

Em 2 de outubro, o autor do atentado foi denunciado pelo MPF por prática de atentado pessoal por inconformismo político, crime previsto na Lei de Segurança Nacional. Dias após o indiciamento, ele se tornou réu no processo.

O segundo inquérito foi prorrogado e encontra-se ainda em curso e, segundo a PF, está em fase final de conclusão. Nele, foram analisados os registros telefônicos, todas as informações bancárias, milhares de e-mails e todas as publicações em redes sociais. Também foram realizadas pesquisas na internet e em todos os documentos apreendidos com Adélio Bispo. A perícia não encontrou indícios da participação de terceiros no crime.

Exames psiquiátricos e psicológicos, solicitados pela defesa de Adélio Bispo, levaram a laudos concluídos em fevereiro de 2019. Eles apontaram que o agressor tem transtorno delirante permanente paranoide e, por isso, foi considerado inimputável. Diz ainda que, em entrevistas com psicólogos e psiquiatras, Bispo afirmou que não cumpriu sua missão, e que saindo da cadeia iria matar o presidente.

Em 14 de julho de 2019 foi emitida a sentença pelo juiz Bruno Savino, da 3ª Vara Federal de Juiz de Fora (MG). Ele converteu a prisão preventiva em internação por tempo indeterminado com permanência no presídio de segurança máxima de Campo Grande (MS), onde o autor do atentado estava preso desde dois dias depois do caso. Na sentença, o juiz determinou a “absolvição imprópria”, na qual uma pessoa não pode ser condenada, pois ficou constatado que Adélio Bispo é inimputável, não pode ser punido por ter doença mental.

Nem os advogados de Jair Bolsonaro nem o Ministério Público recorreram da decisão da Justiça Federal, por isso, foram esgotados os prazos para recursos e a sentença transitou julgado. O escritório Moraes Pitombo, pelo presidente Jair Bolsonaro, afirmou em nota:

“Os advogados do sr. presidente preferiram adotar nova estratégia jurídica, em razão da persecução penal evidenciar que o condenado se apresentou como instrumento, ou parte de uma engrenagem, para a prática do grave crime.”

Como parte do segundo inquérito, ainda em dezembro de 2019, Adélio Bispo recusou-se a fechar acordo de delação premiada proposto pela PF, alegando não ter nada a falar além do que já disse à polícia. Ao ser ouvido pelo delegado Rodrigo Morais, da superintendência da PF em Belo Horizonte, na prisão em Campo Grande (MS), Adélio manteve a afirmação de que agiu sozinho e negou que o atentado tenha sido encomendado

No final de 2019, Adélio pediu à Justiça que seus atuais advogados fossem destituídos e que ele passasse a ser representado pela DPU (Defensoria Pública da União) na ação penal originária, que corre em Juiz de Fora. A solicitação estava em análise. O advogado Zanone confirmou que deixaria de atuar no caso pois a representação tinha se tornado muito trabalhosa e onerosa e que continuaria como curador.

Já neste março de 2020, o caso teve novo capítulo: o juiz Dalton Igor Kita Conrado, da 5ª Vara Federal Criminal de Campo Grande (MS), determinou a transferência em até 30 dias de Adélio Bispo para seu juízo de origem, a 3ª Vara Criminal Federal da Subseção Judiciária de Juiz de Fora, em Minas Gerais. A decisão foi justificada pela necessidade de o preso ser internado em local apropriado ao cumprimento da medida de segurança, com aparatos e medicamentos necessários. Segundo a decisão do juiz Conrado, a permanência em presídio federal poderia, ainda, acarretar o agravamento do quadro de saúde de Adélio Bispo.

Procuradores do Ministério Público Federal (MPF) do Mato Grosso do Sul já vinham defendendo a transferência de Adélio Bispo para presídio especializado de Minas Gerais, para que sua doença mental e periculosidade pudessem ser avaliadas continuamente por profissionais de saúde, impedindo desinternação antecipada.

Teorias da conspiração e fake news

O caso da facada em Jair Bolsonaro gerou um número extenso de publicações com teorias conspiratórias e fake news. Vídeos no Youtube em forma de documentário, questionando a versão da Polícia Federal, que estaria prejudicando Bolsonaro, mas também colocando o atentado em suspeita, como estratégia de campanha, foram, e ainda são fartamente acessados.

Pessoas passaram a ser acusadas de cumplicidade com Adélio Bispo e foram agredidas em mídias sociais, bem como o próprio autor do atentado foi alvo de vários perfis fake.

Entre os acusados de cúmplices de Adélio Bispo, por meio de fake news, estiveram os ex-presidentes Lula e Dilma, e os então deputados federais Manuela Dávila (candidata a Vice-Presidente da República) e Jean Wyllys do PSOL.

Foi apurado que Adélio Bispo foi filiado ao PSOL, entre 2007 e 2014 e visitou a Câmara dos Deputados em 2013, mas não foi possível identificar com quem ele esteve nesta visita. Conteúdos desinformativos que ligam o PSOL à ação de Adélio no atentado surgiram e ainda existem, mas foram checados e desqualificados em 2018 por várias agências informativas.

Jean Wyllys: alvo recorrente de fake news

O ex-deputado federal Jean Wyllys (PSOL/RJ) tem sido, entre personagens da política nacional, alvo recorrente de fake news sobre vários assuntos há algum tempo. Em 2015, ele foi acusado de usar dinheiro público para produzir documentário sobre sua vida:

Em 2018, Wyllys foi acusado de ser diretor de filme que retrata Jesus Cristo como homossexual:

O nome de Jean Wyllys foi usado durante a campanha eleitoral em 2018, como tendo sido convidado para ser ministro da Educação de Fernando Haddad, por meio de falsa composição de matéria do G1.

Print de matéria do G1 sobre convite a Wyllys para ser ministro da Educação é falso. — Foto: Alexandre Mauro/Arte

Assumidamente homossexual, Jean Wyllys defende os movimentos LGBTI+, negro e de mulheres, no enfrentamento da homofobia, da intolerância e de fundamentalismos religiosos. Por seu caráter aguerrido e pelos processos contra autores de fake news, Jean Wyllys tornou-se alvo de difamações e ameaças de morte, bem como sua família. Ele foi ameaçado a ponto de abrir mão da carreira na política em janeiro de 2019 (tinha acabado de ser reeleito deputado federal para novo mandato) e deixou o país.

Em entrevista à Folha de S. Paulo no dia 24 de janeiro de 2019, o parlamentar, que estava em férias fora do Brasil, informou que abriria mão do mandato, mediante a intensificação das ameaças de morte, prática comum mesmo antes do assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL), em março de 2018. Segundo Wyllys, na matéria da Folha, também pesaram em sua resolução de deixar o país as recentes informações de que familiares de um ex-PM, suspeito de chefiar milícia investigada pela morte de Marielle, trabalharam para o senador Flávio Bolsonaro ao longo do seu mandato como deputado estadual pelo Rio de Janeiro.

Em dezembro de 2018, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, vinculada à Organização dos Estados Americanos (OEA), demandou do governo brasileiro proteção ao parlamentar e que essas ameaças fossemapuradas. À época o ex-deputado declarou ao jornal El País:

“Desde o início do primeiro mandato, sou alvo de fake news e campanhas difamatórias que tentam me associar à pedofilia e me colocar como ameaça para as famílias e inimigo de parte da população, particularmente dos cristãos.
Para isso, atribuem a mim projetos de lei inexistentes e declarações que nunca fiz, usando vídeos editados, montagens de fotos, notícias falsas e deturpação de informações.

As fake news têm por objetivo não apenas a destruição da minha imagem e o ataque a uma agenda de direitos humanos e liberdades individuais, como também a invenção de falsas justificativas para espalhar ódio contra mim e contra minha família e promover atos de violência que possam me atingir.

As constantes ameaças de morte que recebo há anos, e que passaram a incluir referências explícitas à minha família, se intensificaram especialmente durante o processo de impeachment da presidenta Dilma e depois do assassinato da Marielle, minha colega e amiga, me obrigando a pedir escolta oficial e circular em carro blindado, restringindo meus movimentos inclusive durante a última campanha. Não posso ir a lugar nenhum sem a escolta, porque essas são as condições para me proteger, de modo que é como se eu estivesse em cárcere privado sem ter praticado crime nenhum, sendo eu a vítima. Isso tem afetado muito minha saúde física e emocional. ”

Jean Wyllys nas fake news do caso da facada

Logo após o ex-deputado Jean Wyllys (PSol) renunciar ao cargo de deputado federal, em 24 de janeiro de 2019, diversas acusações, desinformações e fake news começaram a circular nas mídias sociais, ligando-o ao caso Adélio Bispo. Com o anúncio da desistência do mandato por Wyllys, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, postou em sua conta no Twitter: “Vá com Deus e seja feliz!”

Antes disso, no perfil de Jair Bolsonaro, foi evidenciado o seguinte post:

Apesar do presidente ter informado que a publicação dizia respeito à missão cumprida no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, muitos internautas atribuíram o post como referência a Wyllys.

A matéria de Bruno Fonseca, da Agência Pública, de 11 de fevereiro, trouxe a informação de que, entre as ameaças denunciadas por Wyllys antes de deixar o país, havia avisos sobre um atentado com explosivos e advertências de que seus familiares seriam estuprados e esquartejados, incluindo dados pessoais de parentes, como endereços e placa de carro.

Paralelamente, nos dias 24 e 25 de janeiro, as versões insinuavam ou afirmavam que o ex-deputado estaria envolvido no atentado contra o presidente Jair Bolsonaro (PSL) cometido por Adélio Bispo.

Já no site boatos.org, uma reportagem apresentou e desmentiu a seguinte manchete: “Jean Wllys é namorado de Adélio Bispo que esfaqueou Bolsonaro”. Segundo a publicação, circulavam conteúdos que afirmavam que, antes de deixar o Brasil, o parlamentar teria pagado R$54 mil a advogados para defender o suspeito Adélio Bispo.

Os rumores sobre o suposto envolvimento do parlamentar com Adélio tomaram grandes proporções na internet nos dias 24 e 25 de janeiro do ano passado. Alguns sugeriam que, no dia da facada, Adélio teria sido registrado no Congresso pela equipe de Wyllys para criar um álibi caso conseguisse escapar; com o aprofundamento das investigações sobre o atentado, o parlamentar, que seria suspeito, teria decidido fugir do país. Contudo, a PF descobriu que o registro foi um erro de um atendente ao fazer uma pesquisa para saber se Adélio já tinha estado no Congresso.

No Facebook, uma publicação no perfil MBR – Movimento Brasil Ribeirão Preto, que contabilizou cerca de 6,3 mil compartilhamentos, acendeu ainda mais a polêmica. Contudo, também foi desmentida por meio da atuação da Agência Lupa.

Na ocasião, algumas agências de checagem de notícias apuraram os rumores sobre o repasse bancário no valor de R$54 mil feito pelo deputado federal Jean Wyllys ao advogado de Adélio Bispo. Segundo a Agência Lupa, a informação é falsa. Em nota, o Ministério Público Federal informou que não havia identificado nenhum repasse bancário do deputado federal Jean Wyllys para o advogado Zanone Manuel de Oliveira, que defendeu Adélio. O mesmo conteúdo também foi desmentido pela Procuradoria da República de Minas Gerais.

O vídeo da jornalista Regina Vilella, publicado na noite do dia 24 no canal de Youtube Cabra da Peste TV e reproduzido em outros canais, inflamou ainda mais os boatos sobre a saída do deputado federal do parlamento. No vídeo, ela lista diversas razões para a partida de Wyllys do país, relacionando ainda um suposto fim da imunidade parlamentar, a investigação da Polícia Federal e os vínculos de Adélio com o PSOL e Jean Wyllys. Sobre isso, a agência Aos Fatos realizou a checagem e definiu como falsas as informações apresentadas por Regina Villela.

De acordo com reportagem publicada no site do jornal O Estado de São Paulo, a jornalista Regina Villela, candidata a deputada federal derrotada do PSL-CE, tentou ligar o Adélio a Wyllys, pelo fato de o suspeito de esfaquear Jair Bolsonaro ter visitado a Câmara dos Deputados no início de agosto de 2013. Para o Estadão Verifica, tal conteúdo foi considerado como enganoso e viral.

Aos Fatos checou um texto que dizia que o deputado estaria fugindo de uma investigação da Polícia Federal envolvendo desvio de verbas de movimentos sociais. Segundo a matéria, publicada em 25 de janeiro de 2019, essa não foi a primeira informação falsa referente a Wyllys divulgada após sua renúncia.

Na madrugada do dia 25 de janeiro de 2019, foi a vez de Olavo de Carvalho publicar: “… a perseguição ao Flávio Bolsonaro, a fuga de Jean Wyllys e a tentativa de assassinato de Jair Bolsonaro, por um ex-membro do PSOL, estão ligados de alguma forma bem bizarra”. A postagem, com mais de 2,1 mil compartilhamentos, ainda trouxe um vídeo que acusa o PSOL de ter origens terroristas.

Todas as insinuações e desinformações apontadas foram desmentidas por meio das checagens das agências Lupa, Aos Fatos, Boatos.org e E-Farsas. Além disso, muitas testemunhas dizendo-se ligadas a Adélio Bispo ou que teriam ouvido Adélio Bispo falar dos laços com mandantes do atentado (até na prisão) se apresentaram à PF, mas foram descartadas depois de investigações que indicavam falso testemunho.

A segunda parte da checagem será postada amanhã, com a conclusão da história.

AGUARDE!!!

***

Referências de Checagem:

Exclusivo: Em depoimento à PF, testemunha revela que Adélio Bispo esteve no gabinete Jean Wyllys. Disponível em:https://www.renews.com.br/noticia/exclusivo-em-depoimento-a-pf-testemunha-revela-que-adelio-bispo-esteve-no-gabinete-jean-wyllys#.XqciLoIO5Mw.twitter. Acesso em 30 abr 2020.

Relatório Conclusivo da Prisão em Flagrante de Adélio Bispo – Disponível em :https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/wp-content/uploads/sites/41/2020/04/relatorio-final-pf-adelio_280420201356.pdf. Acesso em 30 abr 2020.

Inquérito que apura quem financiou defesa do agressor de Bolsonaro é prorrogado. Disponível em:: https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/01/23/justica-prorroga-segundo- inquerito-sobre-ataque-a-bolsonaro.ghtml. Acesso em 30 abr 2020.

Caso Adélio: Polícia Federal diz que inquérito que Bolsonaro pede para reabrir nunca foi fechado. Disponível em:
https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2020/04/29/caso-adelio-policia-federal-diz-que-inquerito-que-bolsonaro-pede-para-reabrir-segue-aberto.ghtml. Acesso em 30 abr 2020.

Agressor de Bolsonaro tem doença mental e é inimputável, diz juiz – Disponível em: https://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/2019/05/27/juiz-federal-diz-que-agressor-de-bolsonaro-tem-doenca-mental-e-e-inimputavel.ghtml Acesso em
30 abr 2020.

Sentença de Adélio Bispo emitida pela Justiça Federal. Disponível em: http://estaticog1.globo.com/2019/06/14/Sentenca4600152018.pdf?_ga=2.155048241.88333041.1588272588-7815a143-64c7-2b92-03c5-ab24beac8613. Acesso em 30 abr 2020.

Julho/2019: Bolsonaro não recorre contra Adélio, e caso é encerrado. Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/bolsonaro-nao-recorre-em-processo-contra-adelio-e-caso-e-encerrado/ Acesso em 30 abr 2020.

Adélio recusa delação, repete que agiu sozinho e insiste em transferência de presídio – Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/11/adelio-recusa-delacao-repete-que-agiu-sozinho-e-insiste-em-transferencia-de-presidio.shtml

Vídeo: A facada permanente de Adélio. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=efWxO2br4Fo. Acesso em 30 abr 2020.

Vídeo: A facada no mito – Documentário / *Assista o novo vídeo:”Inconsistências”. Disponível em: https://youtu.be/8hv1D6EgWfc Acesso em 30 abr 2020.

Facebook é inundado de perfis fake do suspeito de esfaquear Bolsonaro – Disponível em: https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2018/09/06/facebook-e-inundado-de-perfis-fake-do-suspeito-de-esfaquear-bolsonaro.htm. Acesso em 30 abr 2020.

Adélio esteve na Câmara em 2013, mas ainda não se sabe se visitou deputados do PSOL. Disponível em: https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/adelio-esteve-na-camara-em-2013-mas-ainda-nao-se-sabe-se-visitou-deputados-do-psol/. Acesso em 30 abr 2020.

O Governo liberou 843 mil para filme sobre Jean Wyllys? Disponível em: https://www.e-farsas.com/o-governo-liberou-843-mil-para-filme-de-jean-wyllys.html Acesso em 30 abr 2020.

Jean Wyllys não fará filme com Jesus Cristo gay nem foi atacado por Ratinho. Disponível em:https://noticias.uol.com.br/confere/ultimas-noticias/2018/08/24/jean-wyllys-nao-fara-filme-com-jesus-cristo-gay-nem-foi-atacado-por-ratinho.htm. Acesso em 30 abr 2020.

Jean Wyllys não recebeu convite para ser Ministro da Educação de Haddad. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2018/09/24/verificamos-jean-wyllys-ministro-educacao-haddad/ Acesso em 30 abr 2020.

Com medo de ameaças, Jean Wyllys, do PSOL, desiste de mandato e deixa o Brasil. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/01/com-medo-de-ameacas-jean-wyllys-do-psol-desiste-de-mandato-e-deixa-o-brasil.shtml Acesso em 30 abril 2020.

Jean Wyllys: “As fake news promovem atos de violência que podem me atingir”. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/12/14/politica/1544825670_895192.html. Acesso em 30 abr 2020.

Rastreamos a hashtag que espalhou fake news sobre Jean Wyllys. Disponível em: https://apublica.org/2019/02/rastreamos-a-hashtag-que-espalhou-fake-news- jean-wyllys/ Acesso em 30 abr 2020.

Jean Wyllys é namorado de Adélio Bispo, homem que esfaqueou Bolsonaro. Disponível em:https://www.boatos.org/brasil/jean-wyllys-namorado-adelio-bispo.html Acesso em 30 abr 2020.

Verificamos: É falso que Jean Wyllys repassou R$ 50 mil a advogado deAdélio Bispo. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2019/01/29/verificamos-jean-wyllys-adelio/Acesso em 30 abr 2020.

Vídeo: Por que Jean Willis está fugindo do Brasil? Disponível em: https://youtu.be/ujcZEVu7mkw Acesso em 30 abr 2020.

Vídeo e posts tentam vincular Jean Wyllys a Adélio usando informações falsas Disponível em: https://aosfatos.org/noticias/video-e-posts-tentam-vincular-jean-wyllys-adelio-usando-informacoes-falsas/ Acesso em 30 abr 2020.

Após ameaças de morte contra Jean Wyllys, boatos tentam ligar parlamentar a Adélio. Disponível em: https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/apos-ameacas-de-morte-contra-jean-wyllys-boatos-tentam-ligar-parlamentar-a-adelio/ Acesso em 30 abril 2020.

Vídeo e posts tentam vincular Jean Wyllys a Adélio usando informações falsas. Disponível em: https://aosfatos.org/noticias/video-e-posts-tentam-vincular-jean-wyllys-adelio-usando-informacoes-falsas/ Acesso em 30 abr 2020.

Adélio recusa delação, repete que agiu sozinho e insiste em transferência de presídio. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/11/adelio-recusa-delacao-repete-que-agiu-sozinho-e-insiste-em-transferencia-de-presidio.shtml Acesso em 30 abr 2020.

Motoboys de São Paulo não protestaram contra João Doria

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FOTO: Reprodução/ Sindicato dos Motoboys de São Paulo

Uma manifestação de motoboys na capital paulista em 20 de abril de 2020 ganhou espaço no noticiário. Eles reivindicavam melhores condições de trabalho durante o período de quarentena, preconizado como medida para conter o avanço da Covid-19. 

O fato ganhou outras proporções no momento em que a youtuber católica, Sara Winter, que se declara ex-feminista, compartilhou, no mesmo dia, em sua página no Facebook, a notícia, originalmente publicada pela Folha de S. Paulo, e incluiu a seguinte chamada:

“Os trabalhadores paulistas das mais variadas classes de serviços já estão sentido o peso das atitudes impensadas e autocráticas do governador João Doria!”. 

Imagem: Reprodução/Facebook

Sara Winter é consultora particular do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, função assumida depois de ter sido cotada como Coordenadora Nacional de Atenção Integral à Gestação e Maternidade no mesmo Ministério. Segundo biografia disponível em seu site, após passar pela experiência traumática de um aborto, Sara converteu-se ao catolicismo, tornando-se uma das maiores lideranças e conferencista pró-vida e pró-família em nível nacional e internacional. 

O alcance e o volume de usuários em sua página no Facebook impressionam. São mais de 270 mil usuários impactados por cada publicação. Portanto, o post do dia 20 de abril, que sugere que o protesto dos motoboys foi motivado em oposição ao governador João Doria (PSDB), é submetido à checagem como forma de verificar a associação entre a matéria compartilhada do site da Folha de S. Paulo e a chamada redigida por Sara Winter.

Vale lembrar que, desde o registro da primeira morte pelo vírus em São Paulo, no dia 17 de março, Doria, determinou uma gradual quarentena no estado de São Paulo. A primeira medida foi a suspensão das aulas nas escolas e, logo em seguida, o fechamento do comércio, shoppings e serviços não essenciais. A ação foi, depois, acompanhada por outros governadores. 

Matéria da revista IstoÉ, de 03 de abril, traz avaliação favorável a João Dória, também realizada por outras mídias de que, ao assumir as medidas preventivas de isolamento social, indicadas pela Organização Mundial de Saúde, o governador paulista “virou um antídoto contra Bolsonaro e suas atitudes irresponsáveis de mandar todo mundo voltar ao trabalho, o que, se tivesse sido obedecido pela população, teria levado o País a números devastadores como os já registrados nos EUA, Espanha, Itália e China”.

A matéria compartilhada por Sara Winter

O Coletivo Bereia checou a matéria original postada por Sara Winter como crítica a João Doria, veiculada no site da Folha de S. Paulo, às 12h54, de 20 de abril. Não é difícil constatar pela simples leitura que o protesto não foi direcionado ao governador, mas, sim, contra as empresas de entregas por aplicativo. Segundo a reportagem, os motoboys pediram melhores condições de trabalho ao longo da quarentena contra o novo coronavírus. Entre os questionamentos, destacaram-se o bloqueio dos entregadores diante da não conclusão das rotas, a falta de suporte mediante casos de acidentes no trabalho e ainda o baixo valor que a categoria está recebendo para fazer as entregas neste contexto de pandemia.

A matéria da Folha de S. Paulo traz depoimentos de alguns motoboys que salientam, de forma clara, a insatisfação com empresas como Rappi, iFood e Uber Eats, e em qualquer momento mencionam o governador de São Paulo.

O desfecho do protesto dos motoboys ocorreu na cidade de Osasco (SP). De acordo com a matéria da Folha, após a moto-carreata, que começou na Praça Leonor Kaupa, no Bosque da Saúde (zona sul), o grupo de manifestantes se aglomerou em frente à sede do iFood, onde, por meio de um carro de som, discursou contra as empresas de entrega por aplicativo.

A Folha de S. Paulo ainda apurou os questionamentos com as empresas. O Rappi informou por meio de uma nota que segue atendendo às recomendações preconizadas pelos órgãos de saúde, como a entrega sem contato, oferta de máscaras e álcool em gel 70% ou mais, disponibilização de botão específico para que o entregador informe possíveis sintomas de Covid-19, além da criação de um fundo de apoio financeiro por 15 dias para motoboys diagnosticados com a doença. 

À Folha, o iFood também confirmou a entrega de equipamentos de proteção individual (EPIs) e a implantação do fundo de apoio financeiro. Sobre o valor do frete, o aplicativo afirmou em nota que considera o tipo de rota percorrida, o modal utilizado e a cidade, salientando ainda que só bloqueia aqueles que utilizam a plataforma de forma indevida. Já o Uber Eats, segundo a publicação, não se posicionou.

A situação dos entregadores por aplicativos

O protesto apurado pela Folha de S. Paulo, no dia 20 de abril, ocorreu três dias depois de um outro, também em São Paulo, realizado por entregadores, contra a redução do valor pago por entregas realizadas por aplicativo. Nessa ocasião, os trabalhadores queixavam-se de má remuneração e falta de equipamento de proteção. 

Quem também noticiou a difícil situação que os entregadores se encontram foi Gregório Duvivier, em seu programa Greg News, intitulado “Delivery”. Em um dos depoimentos, um entregador mostrou que, passado um ano que trabalhava no aplicativo, teve que fazer o dobro de entregas para conseguir ganhar a metade do que tinha recebido no ano anterior. Ele revela o quanto as empresas de aplicativos de entrega reduziram o valor do pagamento pelas entregas em tempos de pandemia, quando os pedidos se multiplicaram, ou seja, ganham mais e pagam menos aos trabalhadores.

Por outro lado, após ouvirem o desafio ao final do programa Greg News, programadores criaram um canal digital para conectar entregadores e advogados trabalhistas.

O estímulo à informalidade desde a “Reforma Trabalhista” aprovada no governo Temer, em 2017, e enfatizada pelo governo Jair Bolsonaro, fez crescer intensamente o número de trabalhadores entregadores vinculados aos aplicativos de serviços de entrega. São inúmeras as situações de exploração destas pessoas que não gozam de direitos como máximo de horas de trabalho, férias, seguro-acidente, licença de saúde, como mostram as matérias da Folha de S. Paulo e do programa Greg News. Alguns entregadores recorrem à Justiça.

Em março, o TRT reconheceu o vínculo empregatício entre um entregador e o aplicativo Rappi e reformou sentença de 1ª grau. O reclamante deu entrada em ação trabalhista em 2019, após ter sido bloqueado permanentemente do aplicativo e pedia verbas indenizatórias.  Em seu voto, o desembargador ainda lembra que o aplicativo trabalha com uma classificação dos entregadores, repercutindo na divisão do trabalho.

 Há quem se preocupe com esta situação. Um projeto de lei (PL 391/2020) do senador Fabiano Contarato (Rede-ES) determina que empresas de aplicativos de entregas paguem seguro de acidentes pessoais para os entregadores. Segundo o senador, o número de acidentes envolvendo esses trabalhadores aumentou 64%, no estado de São Paulo. Por isso, é necessário exigir o direito para preservar a vida dos entregadores.

Por que Sara Winter atribuiu o protesto dos motoboys a João Doria?

João Doria: "Eu não criei o 'BolsoDoria', movimento nasceu ...

O governador João Doria, que fez campanha utilizando a alcunha “BolsoDoria” tornou-se, recentemente, o novo inimigo da rede de apoio ao presidente Jair Bolsonaro. Esta oposição já vem ocorrendo desde 2019, quando Doria passou a fazer críticas ao governo Bolsonaro e apresentar-se como pré-candidato à Presidência da República nas eleições de 2022. A disputa entre Doria e Bolsonaro foi potencializada agora durante a crise da pandemia de coronavírus. Enquanto o presidente defende um isolamento parcial, Doria determinou, em linha com a Organização Mundial da Saúde, uma quarentena mais ampla. Ou seja, “mais do que uma discordância técnica, os seguidores de Bolsonaro veem na postura de Doria uma estratégia para derrubar o capitão reformado na corrida presidencial de 2022”.

A partir desse posicionamento dissonante, o governador João Doria passou a ser alvo de várias notícias falsas criadas ou compartilhadas por partidários do presidente.

"Meme" que circula em meio aos bolsonaristas ataca Doria e Covas por medidas contra coronavírus - Reprodução
Imagem que circula em redes bolsonaristas

Bereia selecionou algumas:

3. Ditador comunista João Doria rouba 500 mil máscaras da 3M ( Reprodução/ Youtube)

A checagem do Coletivo Bereia, portanto, conclui que a postagem na página do Facebook da ativista católica anti-feminista Sara Winter é enganosa. Ela faz uso da matéria da Folha de S. Paulo sobre o protesto de motoboys em São Paulo, por conta de direitos negados pelas empresas de entrega por aplicativos, e propaga para seus seguidores que os trabalhadores protestavam contra “as atitudes impensadas e autocráticas do governador João Doria!”. 

Sara Winter produziu desinformação com conteúdo enganoso em oposição a João Doria e recebeu várias curtidas para sua postagem, outros tantos compartilhamentos e comentários como: “#fechadoscomBolsonaro”, “Fora Doria”, “o Doriana também já está vendo o tamanho da caca e dizendo que dia 11 começa a reabrir o estado….”

Boa parte dos curtidores e compartilhadores da postagem guia-se apenas pela chamada de Sara Winter e pelo título da matéria, que não menciona contra quem é feito o protesto. Esta prática é muito comum em mídias sociais – leitores ficam apenas com chamadas e títulos e não leem o conteúdo das matérias compartilhadas por link. Muitos não apenas curtem e comentam, mas compartilham, levando adiante o engano. 

Quem deliberadamente produz material enganoso se vale desta prática comum e usa seguidores como multiplicadores de desinformação. Bereia alerta seus leitores e leitoras que atentem para esta ação injusta e os conclama a ler todo o conteúdo que lhes é destinado, comparando chamadas e títulos com o que compõe o texto e, se gerar dúvida, buscar outras fontes antes de curtir, comentar em apoio e compartilhar.

 Referências de Checagem:

Página eletrônica de Sara Winter. Disponível em: https://www.sarawinter.com.br

Dória: o antídoto contra Bolsonaro, por Germano Oliveira. IstoÉ, 3 abr 2020. Disponível em: https://istoe.com.br/o-antidoto-contra-bolsonaro/

Motoboys fazem buzinaço em SP por melhor condição de trabalho na crise do coronavírus, por Dhiego Maia. Folha de S. Paulo, 20 abr 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/04/motoboys-fazem-buzinaco-em-sp-por-melhor-condicao-de-trabalho-na-crise-do-coronavirus.shtml?fbclid=IwAR1LPBwnz6o700hcguPA6ZCc9zQUk8wln62yji-56TUnJ12-gs1EQXaiGW4 

Entregadores protestam contra redução de valor pago por aplicativos em SP, por Felipe Pereira. UOL Notícias, 17 abr 2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/04/17/motoboys-de-sp-protestam-contra-baixos-pagamentos-de-aplicativos-de-entrega.htm?cmpid=copiaecola

Greg News – Delivery. HBO Brasil, 17 abr 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=v3B9w6wWNQA 

Em meio à pandemia, redes bolsonaristas elegem Doria como novo inimigo, por Alex Tjara. UOL Notícias, 1 abr 2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/04/01/sob-coronavirus-redes-bolsonaristas-elegem-joao-doria-como-novo-inimigo.htm]?cmpid=copiaecola

Montagem de Doria pichando símbolo do comunismo viraliza no Facebook, por Alessandra Monerat. Estadão Verifica, 17 mar 2020. Disponível em: https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/montagem-de-doria-pichando-simbolo- 

Crise do coronavírus faz web relembrar que João Doria é a cara do Dio [x-vocalista da banda Black Sabbath]. UOL Entretenimento, 28 mar 2020. Disponível em: https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/28/crise-do-coronavirus-faz-web-relembrar-que-joao-doria-e-a-cara-do-dio.htm?cmpid=copiaecola. 

Ditador comunista João Dória rouba 500 mil máscaras da 3M. Youtube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ansugBxxGO8

TRT-2 reconhece vínculo empregatício entre entregador e aplicativo Rapp, por Rafa Santos. Conjur, 11 mar 2020. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2020-mar-11/trt-reconhece-vinculo-entre-entregador-aplicativo-rappi 

Aplicativos podem ser obrigados a pagar seguro para entregadores. Agência Senado, 21 fev 2020. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/audios/2020/02/aplicativos-podem-ser-obrigados-a-pagar-seguro-para-entregadores 

O Partido Comunista Chinês não avança no Brasil, mercado chinês, sim

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Em 13 de abril o site de notícias Conexão Política, braço político do grupo Conexão Cristão (um grupo de mídia independente de evangélicos), publicou matéria intitulada “Partido Comunista Chinês avança no Brasil: empresa pública federal brasileira EBC e China Media Group firmam acordo para “troca de conteúdos”.

A matéria da Redação do Conexão Política, registrou como fonte a Agência Brasil/EBC, que publicou em 13 de novembro de 2019 a notícia intitulada “EBC e China Media Group firmam acordo para troca de conteúdos”.

Chama a atenção o fato de o Conexão Política publicar matéria sobre fato ocorrido cinco meses atrás, com título que altera substancialmente a mensagem da original – negociação do governo brasileiro com o Partido Comunista Chinês e não com China Media Group –  com o acréscimo de ironia, por meio do termo “troca de conteúdos” colocado entre aspas.  

Dois intertítulos na matéria do Conexão Política também chamam a atenção. Um deles apresenta a redação: “Monopólio comunista da informação” e ressalta como a estratégia do Partido Comunista Chinês, em expandir seu domínio e difundir sua propaganda através da mídia mundial, tem sido realizada com êxito. O trecho é um acréscimo à matéria original da Agência Brasil/EBC. O outro intertítulo diz: “Promoção dos valores comunistas chineses”, em trecho que enfatiza a forma com que a parceria (palavra que é o intertítulo original) com os chineses foi “FESTEJADA” (exposta desta forma em maiúsculas pelo Conexão Política) pelo diretor-presidente da EBC, Luiz Carlos Pereira Gomes. 

A relação China-Brasil 

As relações comerciais entre o Brasil e a China datam do tempo da colonização portuguesa. Em 1812, a Família Real Portuguesa que estava no Brasil, importou trabalhadores chineses para trabalharem em uma plantação de chá próxima da capital da colônia, o Rio de Janeiro. Na República, em 1900, um novo grupo de imigrantes chineses se estabeleceu em São Paulo.  

As relações formais foram abaladas com a Revolução Chinesa que criou, sob o regime comunista, a República Popular da China (1949). Elas foram restabelecidas em 1974, durante a ditadura militar. Foi em 2009, durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que a China se tornou o maior parceiro comercial do Brasil, com alta demanda chinesa por matérias-primas e produtos agrícolas. Os investimentos de empresas chinesas no Brasil estão concentrados nos setores de energia, mineração, siderurgia e petróleo.  

As comunicações também são alvo da cooperação econômica entre China e Brasil. Entre os vários projetos de cooperação estão o Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres, iniciado em 1988 e que gerou dois satélites (em 1999 e em 2002) que fornecem informações importantes sobre recursos naturais.  

Ao relacionar-se economicamente com a China, o Brasil estabelece conexão com a segunda maior economia do mundo, superada apenas pelos EUA, considerada a nação com o maior desenvolvimento econômico das últimas duas décadas no mundo, com crescimento do PIB na casa dos 10% ao ano. Apesar de manter o regime político comunista, a China aderiu à economia de mercado no final dos anos 1970, com força do setor privado e também estatal e denomina seu sistema de “socialismo com características chinesas” (explicado seja como “economia mista” seja como “forma de capitalismo”). Em 2018, o fluxo de comércio entre os dois países alcançou a marca histórica de US$ 98,9 bilhões.  

O acordo EBC-China Media Group 

Antes de ganhar espaço no noticiário brasileiro como fonte da pandemia de coronavírus, a China destacou-se nas mídias, em 2019, por conta do acordo de cooperação entre a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e a China Media Group (CMG), as duas empresas estatais de comunicação dos dois países, assinado em 13 de novembro do ano passado, em Brasília, com a presença do então Ministro da Cidadania Osmar Terra. O acordo ocorreu poucas semanas depois da visita de três dias do presidente do Brasil Jair Bolsonaro à China, em outubro de 2019.

O acordo seguiu a linha dos demais estabelecidos na visita de Bolsonaro, visando à troca de programas, compartilhamento de conteúdos, produção conjunta, transmissão cooperativa, formação de pessoal e intercâmbio tecnológico.  

A matéria da EBC apresenta a grandiosidade do grupo. Ao todo, a CMG, empresa estatal de mídia da China opera 47 canais de TV (com conteúdo em seis idiomas e alcance de 162 países), 17 emissoras de rádio e produção de conteúdo radiofônico em 44 idiomas, além de administrar três sites de notícia e 20 jornais e revistas de circulação nacional. Considerado o maior conglomerado de comunicação do mundo em escala de operações, CMG foi criado em 2018 por meio da fusão entre a Televisão Central da China (CGTN, em inglês), a Rádio Nacional da China e a Rádio Internacional da China.  

Nesse âmbito, o atual acordo substitui e amplia o termo de cooperação firmado anteriormente pela EBC e a antiga CGTN – assinado em 2015 e prorrogado em 2017 –, cuja validade é de 60 meses, sem previsão de repasse de recursos.  

De acordo com a matéria no site da EBC, em discurso durante a assinatura do acordo na sede da EBC, o presidente do CMG Shen Haixiong, afirmou que a orientação de firmar o convênio com a EBC partiu do presidente chinês Xi Jinping, com quem o presidente Bolsonaro havia se encontrado semanas antes. “[Ele] disse que devemos promover o intercâmbio entre povos, reforçar a cooperação no setor cultural, impulsionar o intercâmbio em futebol e na medicina tradicional chinesa, duas áreas características de ambos”, disse Haixiong à EBC.  

“Sendo veículo de imprensa, nós temos essa missão importante de aprofundar a amizade e o conhecimento mútuo entre povos e promover o intercâmbio e a cooperação em todas as áreas. Por isso, estamos em momento oportuno para as mídias dos dois países iniciarem a cooperação de benefício recíproco”, destacou. 

Conforme assinalado no conteúdo, em discurso, o diretor-presidente da EBC, Luiz Carlos Pereira Gomes afirmou que “a cobertura de grandes eventos jornalísticos de forma conjunta, com troca de matérias jornalísticas, bem como possibilidade de veiculação de programação que promova os valores sociais e culturais de nossos países, também se constituem em importantes áreas a serem exploradas nesta parceria”. 

Já em conversa com jornalistas, o presidente da EBC caracterizou a iniciativa como estratégica. “É uma oportunidade de projetar [nosso] país em outro país sobre as nossas riquezas, sobre o nosso turismo, sobre a parte educacional. Tudo isso contribui para o Brasil ganhar, para crescer e ser mais respeitado no concerto das nações”, salienta. Para ele, as produções televisivas e de outros meios podem ajudar a agregar valor à pauta comercial do Brasil com a China. “Nós exportamos commodities, o retorno é muito pouco. Nós importamos deles produtos industrializados, aí vem o 5G [futura geração de telecomunicação móvel] a reboque. Então essa balança está desigual. Motivo de o presidente [Jair] Bolsonaro passar na China foi a gente começar a agregar valor.” 

Luiz Carlos Gomes destacou a importância da EBC. “Como empresa de comunicação pública, nós somos estratégicos para o país, pela radiodifusão pública, isso tudo indica poder. Quem tem a comunicação hoje tem poder.” 

A assinatura do acordo entre EBC e CMG ocorreu em novembro de 2019, em meio a diversas reuniões bilaterais entre o governo brasileiro e chinês no âmbito da Cúpula do Brics, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.  

China Media Group e outras empresas de mídia do Brasil 

O acordo da CMG com a EBC, do governo brasileiro, não foi o único tratado que a empresa chinesa fez com grupos brasileiros de mídia. Dois dias antes, em 11 de novembro de 2019, o CMG assinou acordo com o Grupo Globo, no Rio de Janeiro, para cooperações em cinema, televisão, esporte, entretenimento, 5G e outras áreas.   

Na mesma data foi assinado acordo com o Grupo Bandeirantes de Comunicação. O contrato prevê produções conjuntas e compartilhamento de conteúdo com o objetivo de promover o desenvolvimento das relações entre os dois países.  As duas empresas pretendem trocar conteúdos, além de coberturas jornalísticas conjuntas. O acordo ainda prevê parceria em produtos de entretenimento – como novelas, programas e documentários – e intercâmbio de tecnologias de rádio e televisão. Uma das atrações que já estreou recentemente nos canais BandNews TV e Arte 1 foi a série Frases Clássicas Citadas pelo Presidente Xi Jinping, ancorada pelo embaixador Sérgio Amaral. 

China Media Group e o Partido Comunista Chinês 

A China tem uma Constituição, em vigor desde 1982, que determina que a República Popular da China é um Estado multinacional, unitário, regido pela democracia popular, para desenvolver a economia socialista de mercado. O país tem feito importantes transformações nas suas instituições e no seu posicionamento internacional, como citado acima. Essas mudanças se materializaram, por exemplo, na abertura econômica, na entrada na Organização Mundial do Comércio, em 2001, e na busca por ser reconhecida como uma economia de mercado. Com isso, sua Constituição sofreu quatro emendas, com vistas a incorporar uma nova mentalidade econômica. 

Em 1988, por exemplo, a China estabeleceu que a economia privada seria complementar ao socialismo público e que o Estado deveria proteger os direitos e interesses do setor privado, guiando, supervisionando e controlando a economia. Também passou a permitir as transferências do direito de uso da terra. Já em 1993, oficializou a mudança de “central planned economy” para “market planned economy” e transformou as empresas estatais (State Enterprises) em StateOwned Enterprises (SOEs), com operações independentes e responsabilidades separadas por perdas e lucros. Em 1999, uma nova emenda confirmou que a China continuaria no estágio primário do socialismo por mais um longo período.  

Essa emenda também elevou o status da economia privada, que deixou de ser “complementar ao socialismo público” para ser o principal componente de um socialismo com economia de mercado. Em 2004, foi oficialmente incluído na Constituição que o Estado “respeita e preserva os Direitos Humanos”. Adicionalmente, essa emenda determinou compensações para os casos de expropriação de terra, entre outras mudanças. 

Segundo a Constituição, a China tem um Legislativo representado pelo Congresso Nacional do Povo, e classificado como a mais alta organização dentro da estrutura de poder do Estado, um Executivo liderado pelo Conselho de Estado, e um Judiciário independente. Na prática, porém, o Congresso Nacional do Povo se reúne somente uma vez por ano, o Conselho de Estado é o órgão mais atuante e o Judiciário tem pouca autonomia.

O Partido Comunista Chinês (PCC) não é mencionado pela Constituição da China, apesar de ser de fato o mais importante órgão na estrutura de poder. O PCC é o responsável pelas principais decisões de governo. É ele quem, na prática, elege os membros dos comitês e o Presidente da República, os membros do Comitê Central, Comissão Central de Inspeção Disciplinar, o Secretário Geral, os membros do Politburo e do Secretariado. O PCC tem também papel decisivo na aprovação das emendas e nas principais diretrizes do governo. Nesse sentido, qualquer política estabelecida pelo governo chinês pode ser referenciada ao PCC, que é a base do governo. 

O China Media Group não pertence ao PCC, mas é uma empresa estatal do país que é governado pelo partido. Com base nesta realidade, o Conexão Política reconstruiu a matéria da EBC sobre o acordo com o CMG, expondo uma proposição crítica de que o grupo de mídia pertence ao “Partido Comunista Chinês do ditador Xi Jinping”. 

A afirmação de que o acordo com o China Media Group representa “o avanço do PCC no Brasil”, não é informação, mas uma opinião, e seria semelhante à mídia  chinesa afirmar em outubro de 2019, que o Partido Social Liberal (PSL), ao qual estava vinculado o visitante presidente Jair Bolsonaro, avançava na China por meio dos acordos de cooperação assinados naquela ocasião por empresas estatais como a Petrobrás. 

Esta afirmação de um suposto avanço do PCC no Brasil poderia ser feita desde muitas décadas por conta da infinidade de produtos chineses comercializados em lojas e no comércio popular informal. 

O sempre inimigo imaginário  

A matéria do Conexão Política que traz, em março de 2020, uma informação de fato consolidado em novembro de 2019, reescreve o texto original da Agência Brasil, inserindo opinião dos editores sobre a relação do acordo da CMG com o governo brasileiro ser “estratégia do PCC”. A opinião é expressa no título, no subtítulo, na inserção da palavra “ditador” em referência ao presidente chinês, da frase avaliativa da CMG como “estratégia do Partido Comunista Chinês em expandir seu domínio e difundir sua propaganda através da mídia mundial têm sido realizada com êxito”, e nos destaques que denotam crítica como maiúsculas para o termo “FESTEJADA” para classificar a parceria com os chineses, e negrito para a declaração do presidente da EBC Luiz Carlos Gomes, “Quem tem a comunicação hoje tem poder”. 

Esta notícia, exposta de tal forma, se coloca em um conjunto de notícias de sites de desinformação e postagens em mídias sociais nos primeiros dias abril, de conteúdo crítico à China, como país “culpado” pela pandemia de coronvírus, uma vez que os primeiros casos foram originados naquele país. Este processo foi potencializado com crítica à China vinda do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).   

O período de postagens contra a China coincide a exposição de críticas em mídias sociais ao Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, da parte de apoiadores do presidente Bolsonaro, por conta das divergências públicas entre os dois no tocante ao combate ao coronavírus no país. Várias postagens de conteúdo falso da parte de apoiadores do presidente chegou a promover a mesclagem das duas críticas, como no exemplo a seguir

Aos Fatos classificou como falso este conteúdo que circulou pelas redes. Foram várias as publicações falsas e enganosas com relação a este caso. 

A matéria do Conexão Política checada pelo Coletivo Bereia é classificada, portanto, como enganosa.  O site de notícias faz uso de texto noticioso da Agência Brasil (agência de notícias do governo federal), de fato consolidado há cinco meses, adiciona opinião ao texto informativo para induzir leitores a assimilarem a ideia de que acordos comerciais históricos da China com o Brasil tratam-se de estratégia de implantação do comunismo no Brasil.   

Em tempos de coronavírus, a desinformação em torno da “ameaça comunista” se constrói de forma oportunista pelo fato de a China (regime comunista) ter sido o país de onde se originou a pandemia, e fazem uso de conteúdo falso e enganoso para relacionar a China a projetos de conquista de poder comunista no mundo. Nesse sentido, aciona-se o antigo imaginário da “ameaça comunista”, que vai e volta quando grupos políticos se arvoram a enfrentar disputas em curso por meio do discurso de medo e de intimidação. 

Referências  de Checagem:

EBC e China Media Group firmam acordo para troca de conteúdos.  Agência Brasil/EBC, 13 nov 2019. Disponível em: http://www.ebc.com.br/institucional/sala-de-imprensa/noticias/2019/11/ebc-e-china-media-group-firmam-acordo-para-troca-de-conteudos  

China Media Group assina memorando de cooperação com Grupo Globo. China Radio Internacional (Portuguese), 13 nov 2019. Disponível em: http://portuguese.cri.cn/news/world/408/20191113/380255.html  

Grupo Bandeirantes e China Media Group fecham acordo de cooperação. Band.com.br,11 nov 2019. https://noticias.band.uol.com.br/noticias/100000975707/grupo-bandeirantes-e-china-media-group-fecham-acordo-de-cooperacao.html  

Chinese economy slows to still sizzling 11.5% growth. USA Today, 25 out 2007. Disponível em: https://usatoday30.usatoday.com/money/world/2007-10-25-china-gdp_N.htm 

 Reducing Inequalities in China Requires Inclusive Growth. Wayback Machine., Asian Development Bank, News Release, 9 ago 2007. Disponível em: http://www.adb.org/media/Articles/2007/12084-chinese-economics-growths/  

Fighting Poverty: Findings and Lessons from China’s Success  Wayback Machine. (World Bank). Disponível em: http://econ.worldbank.org/WBSITE/EXTERNAL/EXTDEC/EXTRESEARCH/0,,contentMDK:20634060~pagePK:64165401~piPK:64165026~theSitePK:469382,00.html  

The Sino-Brazilian Principles in a Latin American and BRICS Context: The Case for Comparative Public Budgeting Legal Research  Wisconsin International Law Journal. 13 mai 2015. Disponível em: http://www.migalhas.com.br/arquivos/2015/6/art20150601-02.pdf.  

Some Recent Features of Brazil-China Economic Relations Wayback Machine. CEBC.org, abr 2009 Disponível em:  http://www.cebc.org.br/sites/500/521/00001316.pdf   

The China-Brazil Earth Resources Satellite (CBERS), por T. M. Sausen. ISPRS Society, 6 (2). Disponível em: https://www.isprs.org/publications/highlights/highlights0602/27-28_HL_06_01_CBERS.pdf   

Bolsonaro se encontra com presidente chinês para assinaturas de acordos. Agência Brasil/EBC, 25 out 2019. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2019-10/bolsonaro-se-encontra-com-presidente-chines-para-assinatura-de-acordos

Conhecendo o sistema político chinês, por APEX Brasil, 2014. Disponível em: http://arq.apexbrasil.com.br/portal/ConhecendoOSistemaPoliticoChines.pdf 

É imprecisa afirmação de Flávio Bolsonaro sobre cloroquina no tratamento de Covid19

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O senador Flavio Bolsonaro (Sem Partido/RJ) postou no domingo, 5 de abril, em seu perfil no Facebook, um card com uma afirmação do consultor do mercado financeiro, seguidor do influenciador midiático Olavo de Carvalho e apoiador do governo federal Leandro Ruschel. A afirmação era uma postagem feita por Ruschel no Twitter, na mesma data, com respeito ao medicamento hidroxicloroquina como possível meio de cura para infectados com o coronavírus.

Perfil do Facebook de Flavio Bolsonaro:

Perfil no Twitter de Leandro Ruschel:

Leandro Ruschel afirma, e é referendado pelo senador Flávio Bolsonaro, que a Prevent Senior, empresa de saúde, cujo público-alvo são idosos, teria passado a utilizar tratamento com o medicamento hidroxicloroquina em 400 pacientes internados com o coronavírus, sem registro de óbitos desde então.

Bereia checou a informação a partir do seguinte questionamento: a Prevent Senior está obtendo sucesso com o tratamento de pacientes com hidroxicloroquina?

SOBRE O MEDICAMENTO

A partir da segunda semana de março, a cloroquina e a hidroxicloroquina entraram na pauta das discussões da mídia e sociedade civil por apresentarem, além da efetividade contra malária e doenças autoimunes, um suposto potencial para o combate ao novo coronavírus (Covid-19).

Diante das notícias veiculadas sobre medicamentos que contêm os fármacos para o tratamento da Covid-19, em nota técnica publicada no dia 17 de março, a Anvisa esclareceu que, apesar de promissores, ainda não existiam estudos conclusivos capazes de comprovar o uso para o tratamento da doença. Portanto, não havia recomendações da Agência, até a redação desta matéria, para a utilização em pacientes infectados ou mesmo como forma de prevenção à contaminação pelo novo coronavírus.

Na mesma data, 20 de março, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou, em conferência com o presidente Jair Bolsonaro e empresários, que o Brasil validou e estava fornecendo cloroquina para pacientes mais graves da Covid-19.

No dia anterior, 19 de março, o presidente dos Estados Unidos,  Donald Trump, havia pressionado a FDA (entidade responsável por controlar alimentos e remédios naquele país) a liberar medicamentos com potencial de tratamento contra a Covid-19. Trump mencionou dois medicamentos: o antigripal Remdesivir (ainda experimental) e a hidroxicloroquina.

Na Resolução RDC nº 351/2020, publicada em 20 de março, a Anvisa enquadrou a cloroquina e a hidroxicloroquina como medicamentos de controle especial, com compra apenas por meio de receita, como forma de evitar que pessoas que não precisassem desses medicamentos provocassem um desabastecimento no mercado.

Ainda segundo a Anvisa, até então, as indicações aprovadas no Brasil para esses medicamentos seriam:  afecções reumáticas e dermatológicas, artrite reumatoide, artrite reumatoide juvenil, lúpus eritematoso sistêmico, lúpus eritematoso discoide, condições dermatológicas e malária, devendo serem seguidas as recomendações de cada Protocolo Clínico e Diretriz Terapêutica (PCDT) emitidos pelo Ministério da Saúde (MS).

Já no dia 27 de março, o MS, por meio da Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde e do Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos, divulgou o uso da cloroquina como terapia adjuvante no tratamento dos casos muito graves da Covid-19, a critério médico.

A decisão foi baseada em estudos que demonstram o potencial benefício do uso em pacientes graves. A justificativa diz respeito à emergência em saúde pública causada pela pandemia, sendo autorizado o uso a partir dos dados preliminares disponíveis. De acordo com a Anvisa, esse é o chamado uso compassivo (por compaixão), já que não há alternativa terapêutica específica para esses pacientes.

Segundo a Fundação Oswaldo Cruz, foi apenas nesse sentido que o governo brasileiro liberou o uso desses medicamentos, mas apenas para decisão de cada médico sobre sua aplicação em relação a cada paciente específico. A Fiocruz esclarece que especialistas afirmam que não se deve usar cloroquina ou hidroxicloroquina para prevenir ou tratar a Covid-19 sem o devido acompanhamento médico e ressaltam que todo medicamento possui efeitos colaterais e que a cloroquina e a hidroxicloroquina afetam o coração e podem levar à morte. Além disso, a automedicação traz o risco de interação medicamentosa com outros remédios que a pessoa tome regularmente, o que pode agravar a toxicidade da cloroquina e da hidroxicloroquina.

Segundo a infectologista Keila Mara Freitas, existem diferenças entre cloroquina e a hidroxicloroquina, mas não tão significativas. “A cloroquina tem um custo mais baixo – é o remédio distribuído pela farmácia popular – e é mais eficaz. A outra consiste nos efeitos adversos; a cloroquina deposita-se em muitos tecidos do corpo, entre os quais o olho e o canal auditivo. São, portanto, efeitos colaterais da cloroquina, quando em uso prolongado, alterações de visão e audição. Essas, entretanto, não são alterações exorbitantes e desaparecem com a suspensão da medicação. A hidroxicloroquina pode ser considerada então um pouco mais segura, mas isso varia entre pacientes, visto que suas respostas aos medicamentos podem ser diferentes ”.

Por conta do aumento dos casos e a velocidade de transmissão do coronavírus no Brasil, projetou-se para a primeira distribuição do medicamento um quantitativo calculado com base no número de casos notificados no último boletim oficial do MS, realizado em 25 de março, e um estoque de reserva.

SOBRE A PREVENT SENIOR

No dia 20 de março de 2020, mesmo dia em que o ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, declarou que o país havia validado o uso experimental da cloroquina, a operadora Prevent Senior afirmou que iniciaria o tratamento de pacientes com diagnóstico confirmado de Covid-19 utilizando essa medicação, além da azitromicina (um tipo de antibiótico). Até o dia 19 de março, 28 pacientes tinham diagnóstico confirmado para a Covid-19 nos hospitais da rede, com, pelo menos, cinco mortes.

A Prevent Senior é uma operadora de saúde que, em 1997, já possuía o seu primeiro hospital. A empresa cresceu nos últimos anos com foco no atendimento a idosos. Por outro lado, o motivo de seu crescimento se transformou em crítica por parte do Ministério da Saúde, com o avanço do coronavírus no Brasil.O ministro Mandetta criticou a concentração de idosos doentes em um único hospital e disse que estudava com o governo de São Paulo uma intervenção na unidade onde ocorreram as mortes.

Em pronunciamento, Mandetta disse que criou-se um “ambiente de transmissão” de coronavírus em um hospital da operadora e questionou o modelo de negócio da empresa, focada em clientes idosos. Das 136 mortes por coronavírus confirmadas no estado de São Paulo, 79 ocorreram em hospitais da operadora.

Já o presidente da operadora Fernando Parrillo, afirmou: “não estamos inventando moda. Estamos seguindo os protocolos e recomendações da Organização Mundial da Saúde. O isolamento nos hospitais é uma estratégia para não precisar parar completamente o atendimento aos pacientes com outras necessidades. Isolamos hospitais para os pacientes que estão com o vírus, e o restante atende aos demais beneficiários que continuam com suas demandas”.

No dia 4 de abril de 2020, o PROCON de São Paulo notificou, pela segunda vez, a operadora. Segundo o PROCON, a empresa não respondeu todas as perguntas sobre as 79 mortes por covid-19 em unidades da rede Sancta Maggiore. Entre as perguntas não respondidas pelo grupo está a questão da causa da internação das vítimas, quantas foram por suspeita de coronavírus, e se todas tiveram diagnóstico confirmado da doença. A empresa alegou sigilo médico e proteção legal para não repassar as informações.

Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, em 4 de abril, o presidente da Prevent Senior, Fernando Parrillo, e o diretor-executivo da empresa, Benedito Batista Júnior, declararam que a concentração de 58% das mortes por Covid-19 de São Paulo em seus hospitais mostra um retrato real da pandemia  e que pior são os óbitos que estão acontecendo na cidade e que não aparecem nas estatísticas oficiais, subnotificados. Segundo eles, as críticas resultam do desconhecimento sobre a seriedade com que a empresa atua há 23 anos em São Paulo.

Há quem avalie que a disputa entre o ministro da Saúde e a Prevent Senior deva-se à concorrência entre planos de saúde, área na qual o ex-deputado Luiz Henrique Mandetta atuou como ex-conselheiro e ex-presidente da UNIMED (Mato Grosso do Sul). Os ataques à operadora de saúde cujo alvo são idosos, que teriam migrado de outros planos, têm levantado a suspeita de que o ministro atende a interesses inconcebíveis no grave momento de crise vivido pelo país.

SOBRE A APLICAÇÃO DA CLOROQUINA

Sobre o uso da cloroquina em seus pacientes, a Prevent Senior disse ao UOL Notícias, em 23 de março, que cumpre os protocolos e entrou com pedido para uso do medicamento na Plataforma Brasil, tendo recebido autorização. “Entramos com um pedido na Plataforma Brasil, que já deu o ‘OK’. E, em uma audiência extraordinária do hospital, o protocolo foi aprovado. Todos os pacientes diagnosticados com coronavírus dentro da rede Prevent Senior estão recebendo esse tratamento”, afirmou o diretor-executivo da Prevent Senior Pedro Benedito. Benedito acrescentou que a primeira paciente a receber esses medicamentos foi a mãe dos donos da Prevent Senior. Aos 75 anos, ela foi internada em estado grave e começou o tratamento na quinta-feira (19/3), a pedido dos filhos. O quadro dela começou a melhorar dois dias depois, com a estabilização dos processos no pulmão. “Nós decidimos tratá-la a pedido dos filhos, e de sábado para cá ela começou a responder adequadamente à inflamação”, disse o diretor-executivo da empresa.

Matéria do portal de notícias G1 afirma que a Prevent Senior estaria contrariando a recomendação do MS quanto ao uso da cloroquina. Funcionários da rede disseram que profissionais foram orientados a prescrever cloroquina para qualquer paciente com mais de 70 anos que estivesse com sintomas de febre, até por meio de atendimento por telefone (telemedicina).

O G1 teve acesso ao Protocolo Institucional da Prevent Senior para inclusão de pacientes no tratamento da Covid-19 com hidroxicloroquina e azitromicina, com indicação das consequências:

Em nota, a Prevent Senior afirma que “o uso da hidroxicloroquina associado à azitromicina faz parte de protocolo de pesquisa científica aprovado pelo Ministério da Saúde. A medicação é ministrada a pacientes cujos sintomas e exames tomográficos apontem a suspeita de contaminação por coronavírus, uma vez que os laboratórios que realizam os exames virais têm demorado, em média, de 10 a 15 dias para entregar os resultados por excesso de demanda.”

De acordo com a nota, a Prevent Senior afirma que “houve mais de 70 altas de pacientes que se recuperaram após o uso das duas drogas. Os pacientes não são obrigados a tomar a medicação, mas os médicos da Prevent têm o dever ético de prescrever os tratamentos que avaliem mais eficazes.”

O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP) afirmou também em nota que “o uso da cloroquina está indicado apenas em caráter de estudos clínicos, com protocolos bem definidos em que sejam descritos resultados bem estabelecidos, assim como dados de efeitos adversos”. O CREMESP afirma que “o uso indiscriminado, como já foi dito anteriormente, inclusive pelo Ministério da Saúde, oferece riscos aos pacientes”. O órgão declarou que ainda não foi formalmente acionado por profissionais que atuam na rede Prevent Senior:

“Até o momento, o CREMESP não foi formalmente acionado sobre este caso e poderá abrir sindicância para apurar se houve indícios de má conduta ética e profissional, respeitando os fluxos formais e garantindo o direito de manifestação a todos os envolvidos. O Conselho reitera ainda que – dentro de suas atribuições institucionais e de acordo com as normas legais – cumpre seu dever de apurar infrações éticas cometidas por médicos, no exercício da profissão, quando oficialmente acionado ou quando os fatos chegam ao seu conhecimento”.

Na entrevista que deu ao jornal Folha de São Paulo, em 4 de abril, o diretor-executivo da Prevent Senior Benedito Batista Júnior, confirmou as 79 mortes em seu hospital até aquela data e disse que foram realizados 1.100 exames, com 600 internações necessárias. Benedito afirmou que tinham 275 internações até aquela data e mais de 200 altas de pacientes tratados com medicação de hidroxicloroquina 400 mg com azitromicina, que tem se mostrado efetiva quando as lesões no pulmão alcançam 25%. O diretor-executivo da empresa declarou que aprenderam que entrar com o tratamento no sétimo dia seria tardio, no ápice da infecção, mas aplicar no segundo dia seria mais eficaz. Com este procedimento, deram alta para 200 pacientes. Ele afirma que a falta de sucesso com cloroquina em algumas experiências teria se dado pelo uso da medicação tardiamente.

A médica imunologista e cancerologista do Hospital Albert Einstein (São Paulo), Nise Yamaguchi, reuniu-se com o presidente Jair Bolsonaro, a convite dele, em 6 de abril, e teria sugerido a adoção do tratamento precoce com cloroquina em todo o Brasil, tendo relatado os êxitos das experiências no Albert Einstein e no hospital da Prevent Senior.  Ela foi convidada para integrar o gabinete de crise do Palácio do Planalto criado para monitorar o avanço da Covid-19, o que ainda está sob avaliação da médica. A médica Nise Yamaguchi tem tido seu nome bastante citado em mídias sociais e em sites de apoio ao governo Bolsonaro.

*       *      *

Bereia conclui que o conteúdo da postagem do senador Flávio Bolsonaro, que reproduz um incentivo ao uso do medicamento hidroxicloroquina em pacientes com Covid-19, afirmando o êxito da Prevent Senior no tratamento, é impreciso. A Prevent Senior declarou oficialmente que, até o dia 4 de abril, tinha 275 pacientes internados tratados com o medicamento, 200 altas e 79 óbitos registrados, estacionados desde o dia 31 de março, o que corresponde à postagem do senador. No entanto, é fato que a Prevent Senior está aplicando o medicamento em todos os pacientes, o que contraria as orientações do Ministério da Saúde e da Anvisa. Ademais, não há dados disponíveis para se comprovar o sucesso do uso da hidroxicloroquina nas pessoas que obtiveram alta, declaradas pela Prevent Senior, no que diz respeito aos efeitos colaterais. O alerta dado pelo Ministério da Saúde quanto ao amplo uso do medicamento diz justamente sobre efeitos da medicação que pode curar por um lado mas causar até a morte por outros motivos.

Referências de Checagem:

Anvisa. Nota Técnica sobre Cloroquina e Hidroxicloroquina, 17 mar 2020. Disponivel em: http://portal.anvisa.gov.br/documents/219201/4340788/Nota+Te%C2%B4cnica+sobre+Cloroquina+e+Hidroxicloroquina.pdf/659d0105-60cf-4cab-b80a-fa0e29e2e799

Mandetta afirma que país validou e está fornecendo cloroquina para pacientes mais graves de Covid-19. O Estado de São Paulo, 20 mar 2020. Disponível em: https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,mandetta-afirma-que-pais-validou-e-esta-fornecendo-cloroquina-para-pacientes-mais-graves-de-covid-19,70003241781

Anvisa. Resolução RDC nº 351/2020, 20 mar 2020. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/portaria/Resolucao%20n%C2%BA%20351-ANVISA.htm

Ministério da Saúde. NOTA INFORMATIVA Nº 5/2020-DAF/SCTIE/MS, 27 mar 2020. Disponível em: https://www.saude.gov.br/images/pdf/2020/marco/30/MS—0014167392—Nota-Informativa.pdf

Fiocruz. Covid-19, perguntas e respostas. Disponível em: https://portal.fiocruz.br/pergunta/medicamentos-como-hidroxicloroquina-e-cloroquina-funcionam-contra-o-coronavirus

Doctoralia. Disponível em: https://www.doctoralia.com.br/perguntas-respostas/qual-a-diferenca-entre-cloroquina-e-hidroxicloroquina-posso-substituir-um-pelo-outro

Einstein e PreventSenior testarão cloroquina em pacientes com coronavírus. O Estado de São Paulo, 21 mar 2020. Disponível em: https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,einstein-e-prevent-senior-farao-testes-clinicos-da-cloroquina-em-pacientes-com-coronavirus,70003242396

PreventSenior responde a Mandetta: “Queremos que nos deixem trabalhar”. Exame, 1 abr 2020. Disponível em: https://exame.abril.com.br/negocios/prevent-senior-responde-a-mandetta-queremos-que-nos-deixem-trabalhar/

Procon de SP volta a pedir informações da PreventSenior. Valor Econômico, 4 abr 2020. Disponível em: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2020/04/04/procon-de-so-paulo-volta-a-pedir-informaes-da-prevent-senior.ghtml

Mandetta x Prevent Senior – o que há por trás dessa história? Por Marcos Emílio Gomes. Veja, 3 abr 2020. Disponível em: https://veja.abril.com.br/blog/marcos-emilio-gomes/mandetta-x-prevent-senior-o-que-ha-por-tras-dessa-historia/

Mandetta, o conservador que vestiu o colete do SUS e entrincheirou Bolsonaro. El País, 5 abr 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-04-04/mandetta-o-conservador-que-vestiu-o-colete-do-sus-e-entrincheirou-bolsonaro.html

PreventSenior usa cloroquina em todos os casos com covid-19, diz diretor. UOL Notícias, 23 mar 2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/03/23/prevent-senior-usa-cloroquina-em-todos-os-pacientes-com-coronavirus.htm?cmpid=copiaecola

PreventSenior contraria recomendação e receita medicamento a pacientes que não estão internados com coronavírus. G1, 3 abr 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/04/03/prevent-senior-contraria-recomendacao-do-ministerio-e-receita-medicamento-a-pacientes-sem-confirmacao-de-coronavirus.ghtml

Laudos mostram a nossa idoneidade, dizem representantes da PreventSenior. Folha de S. Paulo, 4 abr 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/04/laudos-mostram-a-nossa-idoneidade-dizem-representantes-da-prevent-senior.shtml

Sem Mandetta, Bolsonaro faz reunião com Terra e NikseYamaguchi, médica elogiada por bolsonaristas. O Estado de São Paulo, 6 abr 2020. https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,sem-mandetta-bolsonaro-faz-reuniao-com-terra-e-medica-elogiada-por-bolsonaristas,70003262353

Fonte imagem: https://jornaldebrasilia.com.br/politica-e-poder/antes-de-reuniao-com-mandetta-bolsonaro-volta-a-defender-uso-de-cloroquina/