Caso Master: novas suspeitas recaem sobre relações entre Vorcaro e a Igreja Batista da Lagoinha 

As relações suspeitas de lideranças da Igreja Batista da Lagoinha com o Banco Master, extinto por corrupção, e seu dono, o empresário Daniel Vorcaro, ganharam novos desdobramentos neste  março de 2026 com o avanço das investigações.  Embora os envolvidos neguem  laços formais, as apurações incluem suspeitas de irregularidades financeiras, movimentações consideradas atípicas por órgãos de controle e conexões pessoais e institucionais de Daniel Vorcaro com líderes religiosos e políticos. 

A nova fase da investigação foi impulsionada pela prisão de Vorcaro e do pastor da Igreja Lagoinha Fabiano Zettel, no último 4 de março  pela Polícia Federal, como parte da operação Compliance Zero. A ação, autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do inquérito sobre o Master, cumpriu mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão em diferentes estados. Zettel se entregou na Superintendência da Polícia Federal. Segundo informações divulgadas pela Agência Brasil, a operação investiga suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e irregularidades envolvendo o banco. 

Ao mesmo tempo, a Segunda Turma do STF iniciou, em 13 de março, a votação sobre a manutenção da prisão preventiva dos empresários. Até o fechamento desta matéria, três dos quatro ministros já haviam votado e decidido pela manutenção da prisão, falta apenas o voto do ministro Gilmar Mendes, já que o ministro Dias Toffoli declarou suspeição, por razões de foro íntimo, para participar de julgamentos relacionados ao caso Master.

Vínculos dos Vorcaros com a Lagoinha

A ligação entre a família Vorcaro e a Igreja Batista da Lagoinha é anterior à atuação do dono do Banco Master e remonta ao pai do banqueiro, Henrique Vorcaro, apontado como o primeiro a consolidar vínculos com a instituição religiosa. Convertido ao evangelicalismo, ele financiou projetos ligados à igreja e, segundo relatos, teria contribuído para quitar uma dívida relacionada à compra de um veículo feita por André Valadão há cerca de 25 anos. O pastor confirmou o episódio, mas afirmou tratar-se de uma transação comum, negando qualquer benefício indevido. 

Antes de se tornar banqueiro, Daniel Vorcaro participou da igreja em Belo Horizonte e apresentou um programa gospel na Rede Super, emissora ligada à igreja.

A conexão também passa por laços familiares: o pastor André Valadão celebrou o casamento da irmã de Vorcaro, Natália Vorcaro Zettel, com o também pastor da Lagoinha Fabiano Zettel. Com o tempo, as relações entre as famílias se estreitaram, incluindo eventos familiares, manifestações públicas de proximidade e iniciativas em comum. Entre elas, está a construção de um templo de aproximadamente 16 mil metros quadrados da Lagoinha,  no bairro Belvedere, em Belo Horizonte, obra conduzida pelo pastor Fabiano Zettel e concluída no ano anterior à operação policial. 

Imagem: reprodução/O Globo

Dinheiro sob análise

Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicam movimentações financeiras relevantes envolvendo pessoas próximas à igreja. Um dos registros aponta cerca de R$ 3,9 milhões transferidos pelo Banco Master a uma produtora ligada ao pastor André Valadão, a Amando Vidas Produtora e Gravadora Ltda, que diz não ter conhecimento da operação realizada em 2022.

Outro foco é Fabiano Zettel, que movimentou aproximadamente R$ 99,4 milhões em poucos meses, valor considerado incompatível com sua renda declarada.

O nome de Henrique Vorcaro, pai de Daniel, também aparece nas investigações. A PF apura o uso de uma conta associada a ele para ocultar aproximadamente R$ 2,2 bilhões, supostamente desviados do Banco Master. A defesa nega a titularidade da conta e afirma não ter acesso integral aos documentos reunidos pelas autoridades. 

Bereia já havia publicado matéria com denúncias apresentadas pelo deputado federal Rogério Correia (PT-MG) à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do INSS, em novembro de 2025. O Clava Forte Bank é uma fintech da Igreja Lagoinha, criada em 2024, divulgada como um “banco digital cristão”. A instituição apareceu no debate público por conta de reportagens que abordaram “movimentações atípicas” que envolviam entidades religiosas. Nas investigações há apurações que conectam a fintech pertencente à Lagoinha ao Banco Master. A igreja fechou o banco no final de 2025, após o caso ter vindo à tona.

O que diz a igreja

Em nota divulgada à imprensa, a Igreja Batista da Lagoinha afirma não ser alvo de investigação e nega qualquer relação institucional com o caso. Segundo a igreja, relações pessoais entre famílias não configuram vínculo institucional.

A igreja também informou que Fabiano Zettel foi afastado do pastoreio em novembro de 2025, quando surgiram as primeiras informações públicas sobre o caso.

No comunicado, a instituição reforça que relações pessoais entre famílias não configuram, por si só, ligação institucional com eventuais irregularidades e afirma estar à disposição das autoridades para esclarecimentos.

Fabiano Zettel no centro das apurações

O nome de Fabiano Zettel aparece como um dos principais elos entre o empresário e o ambiente religioso. Além de cunhado de Vorcaro, ele atuou como pastor na Lagoinha e se tornou alvo da Polícia Federal na segunda fase da Operação Compliance Zero. Além disso, a Lagoinha Belvedere tem nos registros do CNPJ Zettel como presidente da pessoa jurídica. A filial da igreja foi fechada e teve o perfil nas mídias sociais fechado neste março.

Dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicam que Zettel movimentou cerca de R$ 99,4 milhões em pouco mais de sete meses, entre 2021 e 2022. Segundo o órgão, o volume é incompatível com a renda declarada pelo empresário e sugere uso da conta para trânsito de recursos de terceiros, prática frequentemente associada a esquemas de ocultação de valores.

Zettel teve atuação relevante no campo político, tendo sido  um dos maiores doadores individuais das eleições de 2022, com contribuições na casa do milhão para as campanhas de Jair Bolsonaro (PL)  para presidente da República e de Tarcísio de Freitas (Republicanos) para o governo de São Paulo, em 2022.

O que está sob investigação

As apurações da Polícia Federal se concentram nas operações financeiras do Banco Master e em um possível esquema que envolveria fraude, lavagem de dinheiro e uso de terceiros para movimentação de recursos.

Também são investigadas suspeitas de pagamento de propina a agentes públicos e tentativas de ocultação patrimonial, o que amplia o alcance do caso para além do setor financeiro.

Até o momento, não há denúncia formal que inclua a Igreja Batista da Lagoinha como instituição nas investigações.

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As informações disponíveis e documentadas denotam vínculos pessoais e familiares entre os Vorcaros e lideranças da Igreja Batista da Lagoinha, incluindo a atuação de sua irmã como pastora e a presença de seu cunhado Fabiano Zettel na igreja. Relatórios do Coaf apontam ainda movimentações financeiras consideradas atípicas envolvendo Zettel, com valores incompatíveis com a renda declarada, além do registro de transferência de recursos do banco para empresa ligada ao pastor André Valadão.

Por outro lado, não há, até o momento, acusação formal ou investigação que aponte envolvimento institucional da Igreja Batista da Lagoinha nas irregularidades apuradas. Tampouco foi comprovada a participação de lideranças religiosas citadas nas reportagens em práticas ilegais, sendo que, no caso da transferência mencionada, a defesa de André Valadão afirma desconhecer a operação. Fato é que a igreja fechou a fintech Clava Forte e o templo da filial que era dirigida pelo pastor Zettel.

As investigações seguem em andamento e buscam esclarecer a origem e o destino dos recursos movimentados no âmbito do Banco Master, incluindo a possível utilização de terceiros para circulação de valores, bem como o papel de pessoas próximas a Vorcaro nessas operações e eventuais conexões com agentes públicos ou campanhas políticas. Há ainda especulações sobre uma possível delação premiada do empresário, hipótese que, se confirmada e acompanhada de provas relevantes, pode ampliar o alcance das apurações.

Diante desse conjunto de informações, é possível afirmar que há uma rede de relações pessoais, familiares e financeiras que conecta investigados a pessoas ligadas à Igreja Batista da Lagoinha, sem que isso configure, até o momento, evidência de envolvimento institucional da igreja. 

O caso permanece em apuração e requer cautela para que se evite desinformação: a existência de proximidade social ou religiosa não implica, por si só, participação em ilícitos, mas a interseção dessas relações com movimentações financeiras sob suspeita mantém o tema sob atenção das autoridades e do debate público.

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