Produtora que integra GT Cristão para campanhas políticas em SP pode ter articulado verbas públicas indiretas ao filme de Bolsonaro

A produtora responsável pela realização da cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, Go Up Entertainment, envolvida no desvio de milhões de reais, também atua na produção de eventos evangélicos e recebeu emendas parlamentares para realização deles. O caso levantou suspeitas sobre a destinação de recursos públicos para o filme que homenageia Bolsonaro, pois os mesmos políticos têm conexões com empresas da sócia da produtora Karina Ferreira da Gama.

Conforme áudios vazados para a imprensa, a Go Up Entertainment teria atuado como mediadora dos milhões de dólares pagos pelo dono do Banco Master Daniel Vorcaro à família Bolsonaro, supostamente destinados para a produção do filme. A produtora do longa-metragem negou ter recebido os valores. Porém, de acordo com documentos cpom registros bancários obtidos pelo The Intercept Brasil, pelo menos 10,6 milhões de dólares  (cerca de 61 milhões de reais) foram repassados por Vorcaro para a realização do filme,  em seis operações financeiras. 

Em outra perspectiva em relação às transações suspeitas, o deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) publicou vídeo com novas informações sobre a Go Up Entertainment. Ligações com o universo evangélico ultraconservador e possível desvio de dinheiro público estão entre as suspeitas levantadas pelo deputado evangélico que colocam a empresa sob outro foco. 

Imagem: reprodução/redes sociais

No vídeo, o deputado explica o sistema de funcionamento do repasse de valores para serviços e as relações entre diversas empresas e figuras políticas, afirmando se tratar de algo “bem nebuloso”. O parlamentar evangélico levanta suspeitas sobre a relação entre políticos, religião, emendas parlamentares e a cinebiografia de Jair Bolsonaro “Dark Horse”. Bereia checou o conteúdo do que o Pastor Henrique Vieira expôs em seus perfis de redes digitais.

Karina Gama: quem é a dona da produtora

O filme em homenagem a Jair Bolsonaro, “Dark Horse”, foi produzido no Brasil pela Go Up Entertainment Ltda., empresa brasileira comandada pela jornalista e empresária Karina Gama

Karina Gama tem ainda empresas e organizações da sociedade civil ligadas ao contexto evangélico que recebem dinheiro público. Além da Go Up Entertainment, a empresária é sócia do  Instituto Conhecer Brasil (ICB) e presidente da Academia Nacional de Cultura (ANC), que têm sede no mesmo endereço em São Paulo. No perfil público de Karina Gama, o empreendedorismo cristão é registrado como sua atuação mais destacada, tanto nacional quanto internacionalmente. A ANC, tem escritórios no Brasil, nos Estados Unidos, em Portugal e em Israel.

O ICB 

O Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Gama, recebeu mais de 100 milhões de reais da Prefeitura de São Paulo, sob a gestão de Ricardo Nunes (MDB), para o fornecimento de serviços de wi-fi públicos em regiões de baixa renda da cidade. Esta informação chama a atenção pois a organização não presta serviços de telecomunicação. O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) investiga este repasse financeiro desde janeiro. É alvo da investigação o fato de que não houve concorrência na licitação pública que concedeu as verbas para a realização da implantação de cinco mil pontos de acesso à internet em São Paulo. Quase um ano após o encerramento do prazo de entrega, a Prefeitura paulistana admite que o contrato ainda não foi cumprido, com apenas 3.200 pontos instalados.

A justificativa dos agentes públicos pelo não cumprimento do contrato é que Karina Gama havia registrado um boletim de ocorrência, na Polícia Civil de São Paulo, para acusar a empresa Ultra IP de descumprir o contrato com o ICB para instalar e manter pontos de internet na cidade. O dono da empresa alega não ter ciência do inquérito, negou as acusações e informou ter aberto processo judicial contra o ICB por não ter recebido pelos serviços prestados por meio de contrato. A secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia de São Paulo afirma que todos os questionamentos do MP-SP foram devidamente respondidos dentro do prazo.

Cronograma revela que até junho de 2025, prazo final para implementação, apenas 3200 dos 5000 pontos de Wi-Fi foram considerados ativos. Foto: Reprodução/Prefeitura de São Paulo

Ocorre que levantamento feito pelo portal G1 nas prestações de contas da do ICB, publicado no último 20 de maio, mostra que a organização de Karina Gama apresentou ao menos R$ 4 milhões em notas irregulares à gestão do Prefeito Ricardo Nunes, para justificar despesas do contrato de instalação de wi-fi. A apuração do G1 demonstra que há notas milionárias canceladas no site da própria Prefeitura e até apresentação de recibos e notas sem nenhum valor fiscal para justificar gastos de até R$ 4,3 milhões em uma única fatura, de junho de 2024 a dezembro de 2025. 

Conforme alertou o deputado Pastor Henrique Vieira, o mesmo ICB realiza eventos evangélicos, bancados com emendas parlamentares. Uma delas foi destinada pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), que também é roteirista do filme-homenagem a Jair Bolsonaro. No total, Frias destinou 2 milhões de reais em emendas, também para serviços de marketing da empresa Conhecer Brasil Assessoria, mas nega irregularidades. 

ICB conseguiu, em 2018, com a prefeitura paulistana, 2,5 milhões de reais, para a realização do “Encontro literário IDE”, um evento para promover autores cristãos, na programação da feira de produtos religiosos Expo Cristã. O projeto incluiu um concurso literário, palestras de coaches para autores e encontros com livreiros. Este foi um entre vários eventos religiosos com o apoio financeiro da prefeitura de São Paulo.

Foto: Reprodução do website do Instituto Conhecer Brasil

O ICB também foi parte de um contrato de treinamento na área de educação, com o governo do Distrito Federal, em 2023, sob a gestão de Ibaneis Rocha (MDB), no valor de 4 milhões de reais. 

A ANC

Outra organização administrada por Karina Gama é a Academia Nacional de Cultura (ANC), que também realiza eventos religiosos, como o Mega Dance Musical, vinculado à Força Jovem Universal da Igreja Universal do Reino de Deus e o The Connect Faith 2025. Este último é uma feira de negócios que busca articular empreendedorismo cristão e tecnologia, sob a orientação de estrelas do cenário evangélico como o deputado federal Marco Feliciano (PL-SP), a bispa da Igreja Renascer em Cristo Sonia Hernandes, a pastora e cantora gospel Ana Paula Valadão, entre outras.

A ANC teve a destinação de 2,6 milhões de reais em “emendas PIX” dos deputados federais de identidade cristã do PL Alexandre Ramagem (RJ), Carla Zambelli (SP), Bia Kicis (DF) e Marcos Pollon (MS). O dinheiro foi enviado em junho de 2024 para o governo paulista de Tarcísio de Freitas (PL) para ser usado na produção da série documental que, reconta a história do Brasil sob a interpretação conservadora, “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rendem”. 

Estes repasses estão sob investigação, por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, pois a secretaria estadual de Cultura do governo Tarcísio teria que ter aprovado o plano da produção da ANC para depois assinar um termo de fomento e repassar a verba à produtora. A verba não foi repassada ainda. A secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas foi ouvida pela Agência Pública e explicou que “a referida ONG não cumpriu, até o momento a formalização de toda a documentação necessária para o recebimento do recurso”. Portanto, diz a secretaria, “há diligências em curso para verificação de restrições técnicas e documentais”. Para o G1 a secretaria de 

O valor nessa investigação é uma pequena parte diante dos milhões de dólares que Flávio Bolsonaro pediu para o dono do Banco Master Daniel Vorcaro, para a produção do filme sobre o ex-presidente, conforme revelou o site Intercept Brasil. Este valor teria sido intermediado pela produtora Go Up Entertainment, da mesma Karina Gama, que nega ter recebido qualquer repasse do banqueiro. Com a repercussão do caso foi ainda levantado pela imprensa que a empresa nunca trabalhou com produções cinematográficas.

O deputado Pastor Henrique Vieira e a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) enviaram citação ao ministro do STF Flávio Dino para verificação se há a destinação de emendas também para financiamento indireto do filme, o que resultou na abertura de uma apuração preliminar. Após a divulgação dessa nova frente de investigação, o ICB e a deputada Bia Kicis divulgaram notas à imprensa, negando irregularidades

Desinformação 

Em meio a todas esta teia de revelações, o veículo que atua como porta-voz de pautas da direita extremista, a Revista Oeste, publicou matéria em 17 de maio, na qual sustenta que as denúncias que envolvem irregularidades do ICB no contrato do Wi-Fi Livre SP foram produzidas por uma empresa concorrente, a Surf Telecom

Segundo a Oeste, a Surf teria sido prejudicada no processo de contratações porque participou de etapas anteriores do programa de conectividade da Prefeitura de São Paulo, mas acabou fora do novo modelo adotado. Em 2024, a gestão municipal abriu chamada para organizações do terceiro setor e o ICB  assumiu o contrato milionário para expansão da internet gratuita em comunidades vulneráveis, apesar de não atuar nessa frente de trabalho. 

Segundo a Revista Oeste supõe, a Surf, como forma de retaliação, teria estimulado as denúncias publicadas pelo Intercept Brasil, uma vez que haveria uma ligação direta entre a Surf Telecom e o veículo jornalístico. A matéria afirma que o jornalista Paulo Motoryn, um dos autores das reportagens sobre o caso, é parente de Mauro Motoryn, executivo da Surf. Isto levaria leitores a crerem, uma vez que não há qualquer prova sobre a suposição, em uma possível influência da disputa comercial na cobertura jornalística do The Intercept. 

Imagem: reprodução/revista Oeste

No entanto, reportagens de outros veículos credenciados, como o UOL e o G1, publicaram matérias sobre a investigação do Ministério Público e da Polícia Civil sobre as suspeitas que incluem possível sobrepreço, uso de notas fiscais irregulares, falhas na execução do serviço e inconsistências na prestação de contas. Além disso, como informado nesta matéria, o ICB foi a única organização a apresentar proposta no chamamento público da Prefeitura, o que resultou em contratação sem licitação/concorrência.

A publicação da revista Oeste vem sendo usada em redes digitais para desqualificar o trabalho do jornalista Paulo Montoryn e para defender a empresária produtora do filme-homenagem a Jair Bolsonaro. Porém, os fatos amplamente reportados e documentados por vários veículos jornalísticos, para além do The Intercept, sobre irregularidades nos contratos com a Prefeitura de São Paulo, colocam em xeque a credibilidade da matéria da Oeste. 

Karina Gama e as articulações do GT Cristão 

O Grupo de Trabalho Cristão (GT Cristão) é uma organização que funciona em São Paulo para interlocução e lobby entre pastores e igrejas evangélicas, o setor empresarial e o ambiente político, com forte alinhamento ao campo ultraconservador de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

O grupo ganhou estrutura e visibilidade durante as eleições de 2022. Ele foi originalmente montado como um “Grupo de Trabalho Cristão” para dar suporte a campanhas como as de Geraldo Alckmin, José Serra, Jair Bolsonaro (2018). Mas foi em 2022 que ganhou mais densidade no apoio à eleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao governo do estado de São Paulo. A função inicial do grupo era orientar o candidato sobre temas de interesse religioso, municiar discursos com passagens bíblicas e organizar formalmente as agendas dele em templos, cultos e grandes eventos (como a Marcha para Jesus).

Após aquele período eleitoral, o grupo se consolidou como um canal permanente de representação. Atualmente presidido pelo pastor da Assembleia de Deus do Brás Geraldo Malta, o GT Cristão passou a atuar no agendamento de reuniões institucionais e na aproximação de interesses do empresariado e de entidades cristãs com o poder público. O grupo possui livre trânsito em gabinetes políticos de relevância, coordena encontros formais com Prefeituras no estado de São Paulo e com as respectivas secretarias de cultura e habitação. Malta afirma que o GT reúne cerca de 400 pastores e 5 mil igrejas.

É nessa intersecção entre religião, negócios e política que Karina Gama se insere. Em reuniões oficiais com governantes e Prefeituras, ela se apresenta e atua como membro do GT Cristão, às vezes ao lado do pastor presidente ou de outros pastores do grupo. A empresária conecta as pautas da organização às suas próprias frentes de atuação no grupo de empresas que dirige, que incluem a captação de recursos na área da cultura, projetos de empreendedorismo cristão e a produção de mídia audiovisual direcionada à base conservadora.

As relações da empresária Karina Gama com a Prefeitura de São Paulo são estreitas. A presidente da ANC constava no quadro de membros da Comissão Permanente de Finanças e Orçamento (CPFO) da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo, em 2019. Em documento da Prefeitura paulistana há o registro de uma reunião do prefeito Ricardo Nunes, em 22 de fevereiro de 2023, com um grupo no qual consta o nome de Karina Ferreira da Gama, sob as referências de Presidente da Academia Nacional de Cultura e membro do GT Cristão. 

Mais recentemente, em 15 de outubro de 2025, há o registro oficial de outra reunião no Gabinete do Prefeito de São Paulo, esta com a secretaria da Casa Civil e “a presidente e CEO da The Connect Faith – Karina Ferreira da Gama”, na qual também participaram “membros da Academia Nacional de Cultura – Marcelinho Machado, Mônica Cintra, Samuel Crisóstomo, Samuel Camargo, Apostolo Antônio Carlos, Mike Davis, Pastora Elaine Cardoso; Deputado Federal Missionário José Olímpio; Deputado Estadual Rodrigo Moraes; Presidente do GT Cristão – Geraldo Malta; Diretor de Comunicação do GT Cristão – Pastor Osório Brasileiro; Secretário da Casa Civil – Enrico Misasi; Secretário de Cultura e Economia Criativa – Totó Parente; Secretário de Turismo – Rui Alves; e Diretor-Presidente da SPTuris – Gustavo Pires”. 

*************************

As denúncias do deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ), publicadas em vídeo, sobre financiamentos suspeitos com verbas públicas de eventos religiosos e outros da produtora do filme-homenagem a Jair Bolsonaro “Dark Horse”,  estão no contexto das informações que circulam no noticiário em maio de 2026. Há uma série de suspeitas sob investigação na Polícia Federal, no Ministério Público de São Paulo e no Supremo Tribunal Federal sobre transações financeiras para financiamento do filme que envolveriam também verbas públicas diretas.

Como a apuração do Bereia mostra, as suspeitas expostas no vídeo do Pastor Henrique Vieira têm fundamento na documentação e nos fatos levantados e publicados pela imprensa em torno do caso e das personagens envolvidas, entre elas a Go Up Entertainment, da empresária Karina Gama. São várias frentes de investigação em curso. Portanto, Bereia classifica como inconclusivo o conteúdo verificado. A equipe seguirá acompanhando os desdobramentos para atualização das informações à medida que emerjam comprovações.

Referências

INTERCEPT BRASIL.

https://www.intercept.com.br/2026/05/16/dark-horse-producao-hollywoodiana-foi-filmada-no-brasil-de-modo-irregular/?utm https://www.intercept.com.br/2026/05/15/eduardo-bolsonaro-poder-dinheiro-dark-horse-contrato/?utm

https://www.intercept.com.br/2026/05/13/audio-flavio-negociou-vorcaro-milhoes/?utm

https://www.intercept.com.br/tag/instituto-conhecer-brasil

Acesso em 21 mai 2026

REVISTA FÓRUM. https://revistaforum.com.br/cultura/comida-estragada-agressao-e-irregularidades-set-do-filme-de-bolsonaro-e-marcado-por-denuncias-193449/?utmAcesso em: 19 mai 2026.

BRASIL. Agência Nacional do Cinema (ANCINE)

(https://www.gov.br/ancine/pt-br/acesso-a-informacao/legislacao/instrucoes-normativas/instrucao-normativa-no-79?utm . Acesso em 19 mai 2026.

VEJA.

https://veja.abril.com.br/brasil/socia-da-produtora-de-dark-horse-afirma-ser-alvo-de-extorsao-e-fraude-processual/?utm Acesso em 19 mai 2026.

Consulta cadastral empresarial

https://empresas.serasaexperian.com.br/consulta-gratis/GO-UP-ENTERTAINMENT-LTDA-EPP-44447509000152?utm_source=chatgpt.com . https://empresas.serasaexperian.com.br/consulta-gratis/ANC-ACADEMIA-NACIONAL-DE-CULTURA-38244438000198?utm_source=chatgpt.com  

Acesso em 19 mai 2026.

Academia Nacional de Cultura

https://www.instagram.com/academianacionaldecultura/?utm_source=chatgpt.com Acesso em 19 mai 2026

INSTITUTO CONHECER BRASIL. 

https://institutoconhecerbrasil.org.br/contato/?utm_source=chatgpt.com  Acesso em 19 mai 2026.

G1. 

https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/05/15/mp-investiga-contrato-de-r-108-milhoes-de-wi-fi-publico-da-prefeitura-de-sp-com-ong-ligada-a-producao-do-filme-sobre-bolsonaro.ghtml?utm_source=chatgpt.com

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/05/15/dino-abre-apuracao-preliminar-sobre-emendas-de-deputados-de-direita-a-ongs-ligadas-a-produtora-de-filmes.ghtml?utm_source=chatgpt.com

https://g1.globo.com/google/amp/pop-arte/cinema/noticia/2026/05/14/produtora-de-filme-dark-horse-nega-ter-recebido-dinheiro-de-vorcaro-nao-consta-um-unico-centavo.ghtml

https://g1.globo.com/google/amp/sp/sao-paulo/noticia/2026/05/20/ong-ligada-a-produtora-de-filme-sobre-bolsonaro-apresentou-r-165-milhoes-em-notas-irregulares-em-contrato-de-wi-fi-com-prefeitura-de-sp.ghtml

Acesso em 21 mai 2026

AGÊNCIA PÚBLICA

https://apublica.org/2026/05/os-lacos-da-dona-da-produtora-de-dark-horse-com-mario-frias-ricardo-nunes-e-tarcisio-de-freitas/?utm_source=chatgpt.com https://apublica.org/nota/flavio-bolsonaro-precisa-de-igrejas-evangelicas-onde-michelle-ja-tem-apoio/ Acesso em 20 mai 2026

Prefeitura de São Paulo

https://prefeitura.sp.gov.br/web/casa_civil/l/31132956

https://prefeitura.sp.gov.br/l/2082603

https://prefeitura.sp.gov.br/web/direitos_humanos/w/participacao_social/conselhos_e_orgaos_colegiados/cmdca/220148

Acesso em 20 mai 2026  

Tele.Síntese

https://telesintese.com.br/surf-telecom-se-credencia-para-explorar-wifi-livre-em-sao-paulo/  Acesso em 21 mai 2026

UOL

https://noticias.uol.com.br/colunas/natalia-portinari/2026/05/19/ong-ligada-a-dark-horse-e-investigada-por-contrato-de-r-103-mi-em-sp.htm Acesso em 21 mai 2026

Caso Master: novas suspeitas recaem sobre relações entre Vorcaro e a Igreja Batista da Lagoinha 

As relações suspeitas de lideranças da Igreja Batista da Lagoinha com o Banco Master, extinto por corrupção, e seu dono, o empresário Daniel Vorcaro, ganharam novos desdobramentos neste  março de 2026 com o avanço das investigações.  Embora os envolvidos neguem  laços formais, as apurações incluem suspeitas de irregularidades financeiras, movimentações consideradas atípicas por órgãos de controle e conexões pessoais e institucionais de Daniel Vorcaro com líderes religiosos e políticos. 

A nova fase da investigação foi impulsionada pela prisão de Vorcaro e do pastor da Igreja Lagoinha Fabiano Zettel, no último 4 de março  pela Polícia Federal, como parte da operação Compliance Zero. A ação, autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do inquérito sobre o Master, cumpriu mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão em diferentes estados. Zettel se entregou na Superintendência da Polícia Federal. Segundo informações divulgadas pela Agência Brasil, a operação investiga suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e irregularidades envolvendo o banco. 

Ao mesmo tempo, a Segunda Turma do STF iniciou, em 13 de março, a votação sobre a manutenção da prisão preventiva dos empresários. Até o fechamento desta matéria, três dos quatro ministros já haviam votado e decidido pela manutenção da prisão, falta apenas o voto do ministro Gilmar Mendes, já que o ministro Dias Toffoli declarou suspeição, por razões de foro íntimo, para participar de julgamentos relacionados ao caso Master.

Vínculos dos Vorcaros com a Lagoinha

A ligação entre a família Vorcaro e a Igreja Batista da Lagoinha é anterior à atuação do dono do Banco Master e remonta ao pai do banqueiro, Henrique Vorcaro, apontado como o primeiro a consolidar vínculos com a instituição religiosa. Convertido ao evangelicalismo, ele financiou projetos ligados à igreja e, segundo relatos, teria contribuído para quitar uma dívida relacionada à compra de um veículo feita por André Valadão há cerca de 25 anos. O pastor confirmou o episódio, mas afirmou tratar-se de uma transação comum, negando qualquer benefício indevido. 

Antes de se tornar banqueiro, Daniel Vorcaro participou da igreja em Belo Horizonte e apresentou um programa gospel na Rede Super, emissora ligada à igreja.

A conexão também passa por laços familiares: o pastor André Valadão celebrou o casamento da irmã de Vorcaro, Natália Vorcaro Zettel, com o também pastor da Lagoinha Fabiano Zettel. Com o tempo, as relações entre as famílias se estreitaram, incluindo eventos familiares, manifestações públicas de proximidade e iniciativas em comum. Entre elas, está a construção de um templo de aproximadamente 16 mil metros quadrados da Lagoinha,  no bairro Belvedere, em Belo Horizonte, obra conduzida pelo pastor Fabiano Zettel e concluída no ano anterior à operação policial. 

Imagem: reprodução/O Globo

Dinheiro sob análise

Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicam movimentações financeiras relevantes envolvendo pessoas próximas à igreja. Um dos registros aponta cerca de R$ 3,9 milhões transferidos pelo Banco Master a uma produtora ligada ao pastor André Valadão, a Amando Vidas Produtora e Gravadora Ltda, que diz não ter conhecimento da operação realizada em 2022.

Outro foco é Fabiano Zettel, que movimentou aproximadamente R$ 99,4 milhões em poucos meses, valor considerado incompatível com sua renda declarada.

O nome de Henrique Vorcaro, pai de Daniel, também aparece nas investigações. A PF apura o uso de uma conta associada a ele para ocultar aproximadamente R$ 2,2 bilhões, supostamente desviados do Banco Master. A defesa nega a titularidade da conta e afirma não ter acesso integral aos documentos reunidos pelas autoridades. 

Bereia já havia publicado matéria com denúncias apresentadas pelo deputado federal Rogério Correia (PT-MG) à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do INSS, em novembro de 2025. O Clava Forte Bank é uma fintech da Igreja Lagoinha, criada em 2024, divulgada como um “banco digital cristão”. A instituição apareceu no debate público por conta de reportagens que abordaram “movimentações atípicas” que envolviam entidades religiosas. Nas investigações há apurações que conectam a fintech pertencente à Lagoinha ao Banco Master. A igreja fechou o banco no final de 2025, após o caso ter vindo à tona.

O que diz a igreja

Em nota divulgada à imprensa, a Igreja Batista da Lagoinha afirma não ser alvo de investigação e nega qualquer relação institucional com o caso. Segundo a igreja, relações pessoais entre famílias não configuram vínculo institucional.

A igreja também informou que Fabiano Zettel foi afastado do pastoreio em novembro de 2025, quando surgiram as primeiras informações públicas sobre o caso.

No comunicado, a instituição reforça que relações pessoais entre famílias não configuram, por si só, ligação institucional com eventuais irregularidades e afirma estar à disposição das autoridades para esclarecimentos.

Fabiano Zettel no centro das apurações

O nome de Fabiano Zettel aparece como um dos principais elos entre o empresário e o ambiente religioso. Além de cunhado de Vorcaro, ele atuou como pastor na Lagoinha e se tornou alvo da Polícia Federal na segunda fase da Operação Compliance Zero. Além disso, a Lagoinha Belvedere tem nos registros do CNPJ Zettel como presidente da pessoa jurídica. A filial da igreja foi fechada e teve o perfil nas mídias sociais fechado neste março.

Dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicam que Zettel movimentou cerca de R$ 99,4 milhões em pouco mais de sete meses, entre 2021 e 2022. Segundo o órgão, o volume é incompatível com a renda declarada pelo empresário e sugere uso da conta para trânsito de recursos de terceiros, prática frequentemente associada a esquemas de ocultação de valores.

Zettel teve atuação relevante no campo político, tendo sido  um dos maiores doadores individuais das eleições de 2022, com contribuições na casa do milhão para as campanhas de Jair Bolsonaro (PL)  para presidente da República e de Tarcísio de Freitas (Republicanos) para o governo de São Paulo, em 2022.

O que está sob investigação

As apurações da Polícia Federal se concentram nas operações financeiras do Banco Master e em um possível esquema que envolveria fraude, lavagem de dinheiro e uso de terceiros para movimentação de recursos.

Também são investigadas suspeitas de pagamento de propina a agentes públicos e tentativas de ocultação patrimonial, o que amplia o alcance do caso para além do setor financeiro.

Até o momento, não há denúncia formal que inclua a Igreja Batista da Lagoinha como instituição nas investigações.

***

As informações disponíveis e documentadas denotam vínculos pessoais e familiares entre os Vorcaros e lideranças da Igreja Batista da Lagoinha, incluindo a atuação de sua irmã como pastora e a presença de seu cunhado Fabiano Zettel na igreja. Relatórios do Coaf apontam ainda movimentações financeiras consideradas atípicas envolvendo Zettel, com valores incompatíveis com a renda declarada, além do registro de transferência de recursos do banco para empresa ligada ao pastor André Valadão.

Por outro lado, não há, até o momento, acusação formal ou investigação que aponte envolvimento institucional da Igreja Batista da Lagoinha nas irregularidades apuradas. Tampouco foi comprovada a participação de lideranças religiosas citadas nas reportagens em práticas ilegais, sendo que, no caso da transferência mencionada, a defesa de André Valadão afirma desconhecer a operação. Fato é que a igreja fechou a fintech Clava Forte e o templo da filial que era dirigida pelo pastor Zettel.

As investigações seguem em andamento e buscam esclarecer a origem e o destino dos recursos movimentados no âmbito do Banco Master, incluindo a possível utilização de terceiros para circulação de valores, bem como o papel de pessoas próximas a Vorcaro nessas operações e eventuais conexões com agentes públicos ou campanhas políticas. Há ainda especulações sobre uma possível delação premiada do empresário, hipótese que, se confirmada e acompanhada de provas relevantes, pode ampliar o alcance das apurações.

Diante desse conjunto de informações, é possível afirmar que há uma rede de relações pessoais, familiares e financeiras que conecta investigados a pessoas ligadas à Igreja Batista da Lagoinha, sem que isso configure, até o momento, evidência de envolvimento institucional da igreja. 

O caso permanece em apuração e requer cautela para que se evite desinformação: a existência de proximidade social ou religiosa não implica, por si só, participação em ilícitos, mas a interseção dessas relações com movimentações financeiras sob suspeita mantém o tema sob atenção das autoridades e do debate público.

O que se sabe sobre as relações entre o banqueiro preso Daniel Vorcaro e Banco da Igreja da Lagoinha

*atualizado 27/11 para correção de informação.

A prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, instituição colocada em liquidação extrajudicial pelo Banco Central em 18 de novembro passado, reacendeu questionamentos sobre irregularidades na Igreja Batista da Lagoinha, uma das maiores e mais influentes denominações evangélicas do país.

Reportagens recentes com declarações de parlamentares que integram a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, instalada para apurar fraudes em descontos indevidos em benefícios previdenciários, mencionam vínculos pessoais e possíveis repasses financeiros envolvendo o banqueiro e a igreja. Porém, ainda não há documentação pública que confirme o teor e a natureza dessas transações. 

Como há muita circulação de conteúdo nas redes digitais sobre este tema que envolve um grupo religioso, o Bereia oferece informação sobre o que já é conhecido, o que está sendo especulado e colocado como suspeita e permanece sem comprovação.

Quem é Daniel Vorcaro e por que ele foi preso?

Daniel Vorcaro é um empresário do setor financeiro e controlador do Banco Master, instituição que cresceu oferecendo produtos chamativos ao público, como CDBs com rendimento acima da média do mercado, o que atraiu milhares de investidores. 

O banco atuava também no setor de crédito consignado e em chamadas operações estruturadas, que são montagens financeiras mais complexas usadas para captar recursos ou conceder crédito a empresas — muitas vezes envolvendo garantias, fundos e emissão de títulos. Também realizava financiamentos de grande porte, isto é, empréstimos milionários para empresas e projetos específicos.

A prisão de Vorcaro ocorreu no âmbito de uma operação da Polícia Federal que investiga fraudes financeiras, lavagem de dinheiro e gestão temerária dentro do conglomerado Master. Segundo a PF, há indícios de que o banco teria operado esquemas envolvendo empréstimos consignados irregulares, triangulação de recursos e movimentações incompatíveis com a legislação bancária. 

A investigação também apura vínculos entre empresários, intermediários e entidades que teriam se beneficiado de créditos indevidos. A operação está associada a apuração  mais ampla sobre crimes financeiros e possíveis danos a aposentados, tema que ganhou relevância após o avanço dos trabalhos da CPMI do INSS.

O que se sabe sobre a relação entre Vorcaro e a Igreja Batista da Lagoinha

Até o momento, o que existe de público sobre a relação entre Daniel Vorcaro e a Lagoinha é uma combinação de menções da imprensa, vínculos familiares e declarações de membros da CPMI do INSS, mas ainda não há documentação financeira pública que detalhe doações, contratos ou transferências diretas entre o banqueiro e a denominação.

Reportagens citadas por veículos nacionais apontam que a família de Vorcaro mantém laços estreitos com a igreja, sobretudo em Belo Horizonte. Um dado relevante é que a irmã mais nova do banqueiro, Natalia Vorcaro Zettel, é pastora e uma das líderes da Lagoinha Belvedere, fundada em outubro de 2024, localizada em um dos bairros mais nobres da capital mineira. A presença de membros da família em posições de liderança reforça a percepção pública de proximidade, mas não implica, por si só, qualquer irregularidade.

É importante destacar que a família de Daniel Vorcaro não é alvo das investigações da Polícia Federal relacionadas ao Banco Master. A apuração se concentra em operações financeiras atribuídas ao banqueiro e ao grupo empresarial sob seu comando.

Ainda assim, circulam em meios políticos e jornalísticos afirmações sobre possíveis repasses financeiros, citadas de forma indireta em notas vinculadas a investigações federais. Alguns trechos de relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), ligado ao Banco Central, mencionados por parlamentares e reproduzidos na imprensa, fazem referência a operações consideradas “atípicas” envolvendo entidades religiosas, entre elas a Lagoinha. Contudo, tais relatórios não foram divulgados oficialmente, o que impede confirmar valores, datas ou o contexto dessas movimentações.

A Lagoinha, por sua vez, é uma organização religiosa com forte presença nacional, conhecida por receber empresários, realizar projetos sociais e movimentar grandes volumes financeiros em suas diversas unidades. É necessário distinguir entre transações regulares próprias desse tipo de instituição e eventuais operações que motivam especulação pública.

A fintech ligada à Lagoinha: o “banco da igreja” entrou no debate público

Nos últimos anos, a Igreja Batista da Lagoinha expandiu sua atuação em comunicação, educação e serviços comunitários. Nesse contexto, surgiu uma fintech (instituição financeira digital) associada à denominação, o Clava Forte Bank, divulgada como um “banco digital cristão” voltado para fiéis, igrejas e pastores. Dados públicos registram que os sócios/administradores registrados são André Machado Valadão e Eduardo Pentagna Guimarães Pedras.

Foto: reprodução/Instagram

Embora não seja um banco regulado pelo Banco Central nos moldes tradicionais, a plataforma opera como correspondente bancário digital, oferecendo conta digital, cartões, microcrédito e serviços voltados a templos e instituições religiosas. No momento da apuração desta matéria, o site oficial da fintech estava fora do ar

A fintech Clava Forte, fundada em março de 2024, com a justificativa de ser um “banco para impulsionar os projetos do Reino de Deus” e uma fintech voltada a oferecer soluções financeiras a igrejas, pastores e empresas cristãs. A empresa é apresentada ainda com atividades registradas nos setores de desenvolvimento de software, intermediação de serviços e agenciamento de negócios.

A Clava Forte reapareceu no debate público porque foi mencionada em discussões parlamentares e em reportagens que tratam de “movimentações atípicas” envolvendo entidades religiosas. Algumas dessas abordagens conectam o Clava Forte ao contexto mais amplo das investigações do Banco Master, uma associação ainda sem comprovação documental por parte das autoridades.

A relevância da fintech nesta matéria se dá pelo contexto: ela integra um ecossistema financeiro mais amplo ao redor da igreja, que tem sido citado por parlamentares ao discutir a necessidade de transparência e rastreamento de recursos enviados ou recebidos por instituições religiosas.

A CPMI do INSS e as investigações sobre repasses a instituições religiosas

A CPMI do INSS foi criada para investigar um esquema nacional de descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas, envolvendo associações, sindicatos e entidades que passaram a cobrar mensalidades e serviços sem autorização dos beneficiários. O golpe operava principalmente por meio de crédito consignado não solicitado e “taxas associativas” aplicadas de forma automática, resultando em prejuízos milionários para idosos e para o próprio INSS.

A comissão apura a participação de organizações como a Confederação Nacional dos Agricultores Familiares (Conafer), a Amar Brasil (Associação de Assistência ao Trabalhador), a AAB (Associação dos Aposentados do Brasil) e a Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA), além de rastrear possíveis fluxos financeiros entre essas entidades e líderes religiosos ou políticos.

Segundo as investigações da Polícia Federal, da CGU e da CPMI do INSS, o esquema funcionaria da seguinte forma: aposentados e pensionistas tinham descontos inseridos em seus benefícios sem autorização, geralmente na forma de taxas associativas ou serviços fictícios. Esse dinheiro era repassado para entidades conveniadas ao INSS — como Conafer, Amar Brasil, AAB e CBPA — que, segundo as suspeitas apuradas, retinham parte dos valores e direcionavam outra parte para instituições financeiras parceiras, que lucravam com a operação. Há também a hipótese, ainda em investigação, de que parte desses recursos retornava em forma de comissões irregulares ou propina, alimentando um circuito de enriquecimento ilícito entre empresários, dirigentes de entidades e intermediários.

CPMI e Igrejas

A Comissão Parlamentar tornou-se uma das fontes centrais para entender por que igrejas, entre elas a Batista da Lagoinha, passaram a ser mencionadas em debates sobre repasses financeiros. Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf)  e da Receita Federal, encaminhados à comissão, apontam movimentações volumosas e incomuns envolvendo entidades investigadas e diversas organizações religiosas.

Entre os repasses citados em sessões da CPMI estão:

  • R$ 694 mil enviados para a Sete Church, em Barueri (SP);
  • R$ 200 mil destinados a um pastor da mesma região;
  • R$ 1,9 milhão da CBPA – Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura para uma empresa intermediária, que posteriormente enviou valores a familiares do deputado federal evangélico Silas Câmara (Republicanos/AM) e à Fundação Boas Novas, pertencente à igreja dele, a Assembleia de Deus em Manaus.
Imagem: Reprodução/O Repórter Regional

A CPMI também identificou relações entre dirigentes da Associação dos Aposentados do Brasil (AAB) e igrejas do Distrito Federal, sugerindo um entrelaçamento entre líderes religiosos e entidades beneficiadas pelo esquema investigado.

Com isso, a comissão protocolou requerimentos de quebra de sigilo bancário e fiscal, além de convocações de líderes religiosos citados nos documentos. Parlamentares também demonstraram interesse em examinar operações do Clava Forte Bank, embora não haja evidências oficiais de irregularidades envolvendo a fintech.

A CPMI reforça que nenhuma instituição religiosa é, até agora, investigada formalmente, mas defende que todos os destinatários de recursos provenientes de entidades suspeitas devem prestar esclarecimentos.

Lagoinha e Daniel Vorcaro no radar político da CPMI

A relação entre Daniel Vorcaro, o setor de crédito consignado e lideranças da Igreja Batista da Lagoinha ganhou ainda mais visibilidade após declarações do  deputado federal Rogério Correia (PT-MG) durante sessão da CPMI do INSS. Em a fala, registrada em notas taquigráficas, o parlamentar apresentou uma série de conexões que, segundo ele, justificariam a ampliação das investigações da comissão.

Correia afirmou que Vorcaro teria forte atuação no setor de crédito consignado, que é justamente o eixo central das fraudes investigadas pela CPMI e  que o banqueiro seria “muito amigo” do pastor André Valadão, liderança nacional da Lagoinha. O deputado indicou que haveria vínculos indiretos entre Vorcaro, o pastor Fabiano Zettel, citado como o maior doador para a campanha eleitoral de Jair Bolsonaro, e Valadão. Ele ainda demandou que a fintech Clava Forte seja investigada devido a possíveis conexões com entidades como Amar Brasil e Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares (Conafer), ambas sob suspeita no esquema de descontos indevidos.

Rogério Correia também mencionou na sessão da CPMI dois repasses citados em documentos da comissão que envolvem a igreja: R$ 200 mil enviados pelo investigado Américo Monte ao pastor da Lagoinha Alphaville André Fernandes; o patrocínio do evento de Réveillon da Lagoinha (“Vira Brasil”), no estádio Allianz Parque (São Paulo-SP), em 2024, pelo ex-presidente da Amar Brasil Clube de Benefícios (ABCB) Felipe Macedo, investigado e apontado como alguém próximo de lideranças da igreja, incluindo  André Valadão, presidente da Lagoinha Global, responsável por mais de 700 templos no Brasil e exterior.

Durante a mesma sessão da comissão, o deputado Rogério Correia também expôs uma série de ligações familiares e institucionais que envolvem lideranças da Lagoinha e a família Vorcaro: “O pastor Fabiano Zettel, líder de uma das unidades da Lagoinha, seria cunhado de Henrique Vorcaro, pai do banqueiro Daniel Vorcaro, pois sua filha seria casada com ele. Henrique Vorcaro, por sua vez, seria sócio de André Valadão em alguns negócios”. Correia afirmou ainda que André Valadão teria autorizado Fabiano Zettel a abrir a unidade Lagoinha Belvedere e que, a partir dessa ligação, teria surgido o banco digital Clava Forte.

Imagem: Advogado e pastor evangélico Fabiano Campos Zettel durante culto. Foto: Bola de Neve Church/Reprodução

Essa declaração, apresentada pelo deputado com base em sua interpretação dos documentos e depoimentos analisados pela comissão, não foi comprovada por autoridades policiais ou financeiras. Entretanto, ela compõe o conjunto de justificativas usadas por parlamentares para defender a necessidade de aprofundamento de investigações sobre a fintech Clava Forte e líderes da igreja Lagoinha.

Para Correia, esses elementos comporiam um “ecossistema de relações” entre empresários investigados, entidades suspeitas e lideranças religiosas. Em sua interpretação, o deputado destacou que “as pontas precisam ser ligadas” entre Vorcaro, figuras religiosas e atores políticos.

Ele afirmou ainda ter recebido a informação de que o banco digital Clava Forte teria encerrado suas atividades recentemente, após a prisão de Daniel Vorcaro, o que, segundo ele, reforçaria a necessidade de apuração sobre a natureza e o funcionamento da fintech. Ressaltou também que possíveis ligações entre o Banco Master e operações de crédito consignado poderiam justificar a convocação de Vorcaro pela comissão.

Correia finalizou dizendo que há “uma mistura muito grande” entre empresários investigados, lideranças religiosas e estruturas financeiras, e que caberia à CPMI esclarecê-las. As declarações constam integralmente nas notas oficiais do Senado, mas não constituem prova de irregularidade.

Em outra frente, o deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ), presidente da Comissão Parlamentar em Defesa do Estado Laico, encaminhou ofício à Polícia Federal “solicitando a apuração de possíveis relações de natureza econômica e institucional entre o líder da Igreja Batista da Lagoinha pastor André Valadão, e o empresário Daniel Vorcaro.”

O requerimento que coloca a Clava Forte Bank no centro do debate

As declarações do deputado Rogério Correia ganharam peso institucional quando, na mesma sessão, ele apresentou um requerimento formal pedindo que a CPMI encaminhe ao Coaf e à Receita Federal a elaboração de Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) e a quebra de sigilo bancário e fiscal da Clava Forte Bank S/A.

O requerimento, de 19 de novembro de 2025, solicita um dossiê completo com dados bancários, fiscais, declarações contábeis e movimentações financeiras da empresa da Igreja Batista Lagoinha, de março de 2024 a novembro de 2025. 

O documento ressalta que a Clava Forte não aparece entre as instituições autorizadas ou supervisionadas pelo Banco Central, o que, segundo o parlamentar, “acende alertas” sobre a regularidade das operações. O texto cita ainda o empresário investigado Felipe Macedo Gomes, apontando que ele teria patrocinado eventos da Lagoinha e que manteria proximidade com lideranças da igreja. 

O requerimento sustenta que seria necessário investigar o “fluxo financeiro existente entre essas entidades e a Clava Forte”, especialmente no contexto das movimentações atribuídas ao grupo conhecido como Golden Boys, suspeito de drenar recursos de aposentados por meio de operações fraudulentas.

O parlamentar afirma que a análise dos RIFs e das movimentações financeiras é “essencial” para identificar: eventuais favorecimentos indevidos, vantagens econômicas ou operações compatíveis com lavagem de dinheiro.

Os Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) são documentos produzidos pelo Coaf que apontam movimentações de dinheiro consideradas fora do padrão, como valores muito altos, transações rápidas ou incompatíveis com a renda declarada. Eles não são provas de crime, mas funcionam como alertas enviados às autoridades — como a Polícia Federal ou a CPMI — para ajudar a identificar possíveis irregularidades financeiras.

Embora o requerimento não constitua qualquer prova de irregularidade e é um pedido de investigação a partir de uma suspeita, ele torna fato que a instituição financeira Clava Forte, e, por consequência, a proprietária, a Igreja Batista da Lagoinha, passou a integrar o escopo da CPMI, ao lado de entidades investigadas por fraudes, como Amar Brasil, Conafer, AAB e CBPA.

A presença da Igreja da Lagoinha e da família Vorcaro no debate público se deve, principalmente, à Operação Compliance Zero, que prendeu Daniel Vorcaro, ao contexto da CPMI do INSS, com a documentação apresentada por um  parlamentar, e à existência de uma fintech ligada à denominação. Até o momento, porém, o que existe é uma combinação de proximidade familiar, interpretações políticas e suspeitas, ainda sem investigações e sem provas de irregularidades financeiras relacionadas à igreja.

O Bereia seguirá acompanhando o desenrolar das investigações para atualizar esta matéria caso novos documentos oficiais sejam divulgados.

Referências:

Senado https://www25.senado.leg.br/web/atividade/notas-taquigraficas/-/notas/r/14263 

https://www6g.senado.leg.br/busca/?portal=Atividade+Legislativa&q=inss+lagoinha

https://www12.senado.leg.br/noticias/videos/2025/08/ao-vivo-instalacao-da-cpmi-do-inss-2013-20-8-25

https://legis.senado.leg.br/atividade/comissoes/comissao/2794/requerimentos-cpi?numero=02637

https://www12.senado.leg.br/noticias/audios/2025/11/diretor-da-pf-aponta-fraudes-bilionarias-na-cpi-do-crime-organizado

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2025/10/21/ex-presidente-de-associacao-se-cala-na-cpmi-e-parlamentares-falam-em-prisao

Banco Central https://www.bcb.gov.br/detalhenoticia/20936/nota 

https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2025/04/14/andre-valadao-lanca-banco-voltado-ao-publico-cristao.ghtml

https://psolnacamara.org.br/deputado-pastor-henrique-vieira-pede-que-pf-investigue-relacao-entre-andre-valadao-e-empresario-daniel-vorcaro/

https://www.instagram.com/lagoinha.belvedere

https://clavafortebank.com.br

https://empresas.serasaexperian.com.br/consulta-gratis/CLAVA-FORTE-BANK-SA-54340142000127#google_vignette

https://empresas.serasaexperian.com.br/consulta-gratis/IGREJA-BATISTA-DA-LAGOINHA-BELVEDERE-57391420000163

Agência Brasil https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2025-11/fraudes-no-master-podem-chegar-r-12-bilhoes-estima-diretor-da-pf 

Jornal Opção 

https://www.jornalopcao.com.br/ultimas-noticias/igreja-evangelica-lanca-banco-digital-comandado-por-andre-valadao-695855

Coaf
https://www.gov.br/coaf/pt-br/pastas-antigas-disponiveis-para-pesquisa/sobre-o-coaf-1/publicacoes/publicacoes-do-coaf-1/o-que-faz-o-coaf-versao-20200124.pdf

Apoie o Bereia!

Faça parte da comunidade que apoia o jornalismo independente