Em vídeo publicado neste 3 de setembro, o pastor da Igreja Batista da Lagoinha André Valadão confirmou ter atuado como interlocutor entre o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em abril de 2024, como mostram os áudios revelados pela jornalista Juliana Dal Piva, do ICL Notícias. Valadão negou interesse nos negócios, mas omitiu os vínculos entre a própria fintech da Igreja Lagoinha, a Clava Forte Bank, e o Banco Master, hoje sob escrutínio da CPMI do INSS e do Banco Central.
Segundo a reportagem do ICL, no período antes de ser preso, Vorcaro se incomodou com críticas do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicadas nas redes digitais. Depois de monitorar as mídias sociais do político, o banqueiro pediu ao pastor André Valadão que “parasse Nikolas Ferreira” e questionou o empresário Flávio Carneiro sobre a efetividade de benefícios dados ao deputado.
Em março, Bereia apurou que há uma rede de relações pessoais, familiares e financeiras que conecta investigados do caso Banco Master a pessoas ligadas à Igreja Batista da Lagoinha, sem que isso configurasse evidência de envolvimento institucional da igreja.
As novas informações divulgadas pelo ICL Notícias apontam para uma interferência direta do pastor André Valadão na agenda do deputado evangélico mineiro nas mídias sociais.
O que dizem os áudios
Os áudios mostram que o papel de Valadão foi além de simplesmente aproximar as partes, como alegado em vídeo. No áudio enviado ao pastor André Valadão, em 27 de abril de 2024, Vorcaro se mostrou incomodado com posts de Nikolas Ferreira questionando a presença de ministros do STF, STJ e TSE num evento em Londres que era patrocinado pelo Master. Ao pastor, o banqueiro escreveu: “De novo pedir sua ajuda com Nikolas. Estão usando a fala dele pra me atacar, por conta de patrocínio num evento em Londres. Acontece, que talvez ele não saiba, participaram vários membros da direita, como Ciro Nogueira, um dos líderes oposição.” Valadão respondeu na hora: “Oi Dani. Claro amanhã falo com ele.”
O empresário ainda diferencia o momento das vezes anteriores, em que “eu não sabia, estava sem previsão”, desta, em que o post envolvia “um negócio com o meu nome direto” e cobra de Valadão uma resposta sobre até onde Nikolas pretendia ir
Já o áudio que Nikolas Ferreira enviou a Vorcaro confirma que foi a Valadão, e não ao banqueiro, que recorreu primeiro para se explicar pelo post sobre o evento de Londres: “Troquei uma ideia lá com o pastor André Valadão naquela época lá daquela post. Eu falei: ‘Pastor, eu não fazia ideia que era este o banco do Dani, etc e tudo. Senão obviamente não teria postado, teria conversado anteriormente.'”.
Valadão nega envolvimento e ameaça medidas legais
Em vídeo, o pastor André Valadão respondeu às revelações sobre as conversas com Vorcaro e negou qualquer envolvimento com negócios ou irregularidades do Banco Master.
“A minha participação naquele episódio se restringiu exclusivamente a uma interlocução entre pessoas que eu conheço”, afirmou o pastor, ao comentar as conversas mantidas com o banqueiro em abril de 2024. O pastor disse que ele e Vorcaro “já se conhece[m] há mais de 30 anos, muito antes de quaisquer fatos que hoje estão sendo divulgados”.
Imagem: reprodução/redes sociais
Valadão disse que foi procurado por Vorcaro porque ele tem contato mais próximo com Nikolas Ferreira. O pastor afirma que sua atuação se limitou a sugerir que os dois “conversassem diretamente antes de qualquer nova manifestação sobre o assunto, para que a situação pudesse ser esclarecida entre eles”. Sobre a frase, também revelada em áudio, em que afirmou que “o Nikolas iria contornar tudo”, o pastor da Igreja da Lagoinha disse que se referia exatamente ao fato de que o deputado falaria diretamente com Vorcaro sobre o assunto.
“Não houve qualquer relação da minha parte com negócios, interesses ou atividade do Banco Master”, disse Valadão, acrescentando não ter tido conhecimento de irregularidades posteriormente atribuídas à instituição.
Segue a declaração de André Valadão na íntegra:
Gente, eu quero trazer uma nota aqui de esclarecimento hoje, dia 3 de setembro, né, diante das informações que estão sendo divulgadas sobre conversas que eu tive em abril de 2024 com o Daniel Vorcaro, relacionadas a uma publicação do deputado Nikolas Ferreira. E eu quero esclarecer pessoalmente com você alguns pontos.
A minha participação naquele episódio se restringiu exclusivamente a uma interlocução entre pessoas que eu conheço. Não houve qualquer relação da minha parte com negócios, interesses ou atividade do Banco Master. Eu e o Daniel a gente já se conhece há mais de 30 anos, muito antes de quaisquer fatos que hoje estão sendo divulgados.
Naquela ocasião, o Daniel me procurou por saber que eu tinha contato mais próximo com o Nikolas. Como as próprias mensagens e áudios mencionados já demonstram aí na mídia, eu simplesmente sugeri que os dois conversassem diretamente antes de qualquer nova manifestação sobre o assunto, para que a situação pudesse ser esclarecida entre eles.
Quando posteriormente afirmei que o Nikolas iria contornar tudo, eu estava me referindo exatamente a isso: ao fato que ele faria diretamente com o Daniel, ele falaria com ele para tratar daquele assunto.
Então eu quero deixar aqui absolutamente claro: essa interlocução não representa, de maneira alguma, qualquer envolvimento meu em negócios, interesses ou atividades do Daniel Vorcaro ou do Banco Master. Não tinha conhecimento, gente, de irregularidades que posteriormente são atribuídas ao banco. Não participei de qualquer prática ilícita e, inclusive, eu repudio de forma inequívoca toda e qualquer conduta dessa natureza.
Eu tenho aqui com você plena consciência das responsabilidades que eu carrego diante da minha família, da igreja que eu lidero e de milhões de pessoas que acompanham o meu trabalho e o meu ministério. Então eu faço aqui questão de tratar esse assunto com você com seriedade, com transparência e tô falando a verdade aqui com você. Eu reafirmo o meu compromisso com essa verdade e com a correta compreensão desses fatos.
E diante de qualquer eventual informação falsa, de afirmação que tente atribuir a mim conduta que eu não pratiquei, eu vou me resguardar com o direito de adotar inclusive medidas legais cabíveis, tá? Essa é a verdade dos fatos e esse é o esclarecimento que eu faço pessoalmente para todos vocês. Deus abençoe!
Lagoinha e Banco Master
Daniel Vorcaro e o cunhado dele, pastor da Igreja Batista da Lagoinha, Fabiano Zettel foram presos, em 4 de março de 2026, pela Polícia Federal em decorrência da Operação Compliance Zero.A operação está associada à apuração mais ampla sobre crimes financeiros e possíveis danos a aposentados, tema que ganhou relevância após o avanço dos trabalhos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A investigação também apura vínculos entre empresários, intermediários e entidades que teriam se beneficiado de créditos indevidos. Registro em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) aponta cerca de R$ 3,9 milhões transferidos pelo Banco Master a uma produtora ligada ao pastor André Valadão, a Amando Vidas Produtora e Gravadora Ltda, que diz não ter conhecimento da operação realizada em 2022.
Os pastores Fabiano Zettel e André Valadão foram citados em requerimentos oficiais apresentados à CPMI do INSS, baseados em Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) e informações da Receita Federal. A senadora evangélica Damares Alves expôs o caso, o que também foi apurado por Bereia.
Em novembro de 2025, Bereia publicou matéria com denúncias da relação entre a Igreja da Lagoinha e o esquema do Master. Elas foram apresentadas pelo deputado federal Rogério Correia (PT-MG) à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do INSS. Repasses citados nos documentos levantados pelo parlamentar incluem o patrocínio do evento de Réveillon da Lagoinha (“Vira Brasil”), no estádio Allianz Parque (São Paulo-SP), em 2024, pelo ex-presidente da Amar Brasil Clube de Benefícios (ABCB) Felipe Macedo, investigado e apontado como alguém próximo de lideranças da igreja, incluindo André Valadão.
De acordo com a Agência Senado, o empresário investigado Felipe Macedo Gomes negou ter financiado o evento realizado no estádio Allianz Parque e afirmou que não mantém amizade com Valadão. “Eu não paguei réveillon algum. Sou uma ovelha da igreja. Também é uma falácia me colocar como amigo do Valadão”.
A Amar Brasil é uma das entidades investigadas por fraudes contra o INSS. A organização oferecia taxas associativas ou serviços fictícios por meio de descontos inseridos em benefícios de aposentados e pensionistas sem autorização dos beneficiários.
Mensagens e áudios extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, divulgados pela imprensa neste 2 de setembro de 2026, revelam que o deputado federal e pastor evangélico Cezinha de Madureira (PL), ao lado do advogado baiano Ciro Rocha Soares, passou semanas articulando um encontro em Brasília entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), o pastor presbiteriano André Mendonça e o banqueiro, preso desde março de 2026. A reunião durou cerca de duas horas e não constava na agenda pública do ministro.
Mendonça confirma parcialmente o episódio, ocorrido em 14 de março de 2025,no Instituto Iter, em Jardim Paulista, São Paulo. Ele afirma ter “se limitado a ouvir” Vorcaro e ter tratado apenas de uma ação sobre precatórios, a STP 976. Apesar de ser um encontro entre o juiz da causa e o investigado/réu, Mendonça nega ter discutido os problemas do Master junto ao Banco Central.
________________________ Suspensão de Tutela Provisória (STP) é um processo da Advocacia Geral da União (AGU) encaminhado ao STF para suspensão de decisões que interfiram negativamente em políticas públicas. No caso da STP 976, a AGU demandou do STF a suspensão do pagamento de precatórios (dívidas judiciais do governo) que o Banco Master comprou de terceiros em 2023, sob suspeita de que parte desses créditos tenha sido emitida de forma irregular. O ministro do STF André Mendonça assumiu a relatoria desse processo específico em fevereiro de 2026, quase um ano depois do encontro reservado com Vorcaro, o maior interessado no pagamento dos precatórios.
A revelação do caso, pelo jornalista Paulo Motoryn, em sua newsletter Noites Húngaras, publicada com exclusividade pelo ICL Notícias, colocou Cezinha de Madureira no centro de uma investigação sensível e levanta algumas questões: por que um deputado federal, liderança da Bancada Evangélica, serviu de ponte entre um banqueiro sob escrutínio regulatório e um ministro da mais alta corte do país, e o que essa capacidade de abrir portas em qualquer esfera de poder revela sobre o personagem que a exerce?
Foto: Marina Ramos/Câmara dos Deputados
Essa não é a primeira vez que Cezinha de Madureira aparece como o homem que conecta personagens políticas em esferas diferentes. Bereia faz um levantamento do perfil do deputado federal e reconstrói a trajetória do radialista baiano que virou “ungido” da maior denominação evangélica do país, a Assembleia de Deus – Ministério Madureira. Também aborda como, décadas depois, ele transita com desenvoltura entre direita, esquerda, bancada evangélica e ministros do Supremo.
Imagem: Cezinha de Madureira acompanha bispo Samuel Ferreira (Assembleia de Deus Madureira) em visita ao presidente Lula, em outubro de 2025. Reprodução do perfil de Gleisi Hoffmann no Instagram, 16 out 2025.Imagem: Cezinha de Madureira na garupa durante motociata do ex-presidente Jair Bolsonaro, em 2021. Imagem extraída de matéria da CNN – https://www.cnnbrasil.com.br/politica/bolsonaro-escolhe-lider-religioso-para-garupa-de-moto-de-olho-em-2022/ Acesso em 2 set 2026
O encontro que vazou
Segundo a reportagem de Motoryn, veiculada pelo ICL, a aproximação entre Daniel Vorcaro e André Mendonça foi arquitetada ao longo de semanas no início de 2025, quando o banqueiro estava em vias de ser preso por golpes no sistema financeiro. Em troca de mensagens com Vorcaro, nos dias 7 e 8 de fevereiro, o advogado baiano Ciro Rocha Soares relata que está “trabalhando” por ele e que havia conseguido um encontro com Mendonça. Em seguida, envia uma foto ao lado do ministro do STF numa alfaiataria em São Paulo. Soares diz, ainda, ter deixado Mendonça “balançado” com o assunto do Master. Um novo encontro chegou a ser agendado para 19 de fevereiro, sem confirmação de que tenha ocorrido.
Em 13 de março, foi a vez do deputado Cezinha de Madureira entrar em ação: marcou um encontro com Mendonça sobre o caso Vorcaro para o dia seguinte, às 17h, no Instituto Iter, ,do próprio ministro do STF. No áudio de posse da Polícia Federal, Ciro Soares relata que o deputado avisa Vorcaro, a caminho da reunião: “o ministro já está te esperando”. Segundo o advogado, Mendonça já sabia previamente do assunto, pois “o Cezinha já tinha falado com ele” sobre os problemas do Banco Master junto ao Banco Central. Portanto, as mensagens sugerem que Cezinha de Madureira não apenas articulou a logística do encontro, mas também preparou o terreno de conteúdo antes que ele acontecesse.
O encontro de 14 de março durou cerca de duas horas. Na nota oficial em que confirmou o episódio, Mendonça disse ter recebido Vorcaro “uma única vez”, por iniciativa do banqueiro; afirmou que se “limitou a ouvi-lo”, que manteve registro escrito do encontro em seu gabinete, que o assunto se restringiu à ação STP 976 sobre precatórios, então sob relatoria de outro ministro, e que seu voto posterior no caso Master foi contrário aos interesses do banqueiro.
No dia seguinte ao encontro, o advogado Ciro Soares enviou a Daniel Vorcaro uma foto ao lado do procurador-geral da República Paulo Gonet, com a mensagem “Liga aqui… Ele quer falar com você”, seguida de quatro ligações entre os dois em poucos minutos. Este seria um indício, ainda não plenamente esclarecido publicamente, de que a rede de contatos articulada por Cezinha de Madureira e Ciro Soares pode não ter se limitado ao Judiciário.
A cerimônia ocorreu no Auditório Nobre do tribunal, na capital paulista. Horas depois, segundo os áudios já divulgados, André Mendonça recebeu Vorcaro no Instituto Iter, entidade fundada por ele em 2024, em encontro que durou cerca de duas horas.
A Revista Fórum revelou que a instituição acumulou ao menos R$ 10,8 milhões em contratos com órgãos públicos desde novembro de 2023, dos quais 54, o equivalente a 98,2% do total, foram firmados sem licitação prévia, a maior parte por inexigibilidade.
Após as revelações sobre os contratos firmados sem licitação com órgãos públicos pelo instituto do qual é sócio, o ministro André Mendonça decidiu deixar a entidade, da qual detém, com a esposa, 77,5% de participação. Segundo nota divulgada pelo Iter, ele cederá suas cotas e de sua esposa sem contrapartida financeira e passará a prestar ali apenas serviços acadêmicos, na condição de professor.
Até o fechamento desta apuração, não havia declaração pública de Cezinha de Madureira sobre seu papel no episódio.
De rádio comunitária ao púlpito político
Antonio Cezar Correia Freire nasceu em 12 de dezembro de 1973 em Ipiaú, na Bahia, e começou a trabalhar no rádio ainda adolescente, na comunicação comunitária baiana. Membro da Assembleia de Deus, aos 18 anos, em 1991, mudou-se para São Paulo, onde construiu carreira como radialista e apresentador de programas religiosos. Apresentou o “Plantão da Vida” (Band e RedeTV!) e o “Palavra de Vida” (Rádio Musical FM) ao lado do pastor Samuel Ferreira, hoje bispo e presidente-executivo da Convenção Nacional das Assembleias de Deus – Ministério de Madureira, denominação presente em quase todo o país e também no exterior. Em 2012, foi ordenado pastor do ministério, em São Paulo.
Foi esse vínculo com a família Ferreira que o lançou à política. Elegeu-se deputado estadual em São Paulo em 2014, pelo Democratas (ex-PFL), ainda como “Pastor Cezinha”. O pseudônimo “de Madureira” só viraria marca política depois, associando seu nome à força eleitoral da vertente das Assembleias de Deus.
Em 2018 e 2022 Cezinha de Madureira elegeu-se e reelegeu-se deputado federal por São Paulo, agora pelo PSD, tendo sido vice-líder do governo de Jair Bolsonaro na Câmara Federal. Em 2026, filiou-se ao PL para concorrer à reeleição, mudança de legenda que ocorreu, em São Paulo, na mesma leva que incluiu outros pastores do Ministério Madureira, incluindo seu colega de bancada estadual Oséias de Madureira.
Imagem: Reprodução de publicação de Cezinha de Madureira no Instagram, 29 ago 2026
Samuel Ferreira comanda o Ministério Madureira ao lado do pai, o bispo Manoel Ferreira (presidente vitalício da Convenção Nacional das Assembleias de Deus e bispo-primaz da AD Madureira), e do irmão, o bispo e pastor-presidente da igreja Abner Ferreira. Este núcleo familiar, segundo a mesma reportagem, Cezinha de Madureira trata como sua própria família, inclusive se referindo à Samuel Ferreira como “pai adotivo” e do qual diz depender para dar entrevistas, redigir discursos e propor projetos: “Estou aqui porque a igreja me colocou, foi a igreja que me elegeu. Respondo ao meu povo através do meu líder.”
A reportagem da Folha de S. Paulo também registra que o patrimônio declarado do deputado federal do PL-SP à Justiça Eleitoral saltou de R$ 230 mil, em 2014 (um único imóvel), para R$ 469 mil, em 2018 (dois veículos, aplicações, previdência privada, consórcio e uma casa de R$ 380 mil). Além disso, o nome do parlamentar apareceu, com um valor simbólico de R$ 16, na lista de doações da JBS a 1.829 políticos nas eleições de 2014, repassado via campanha do então colega de chapa Antônio Goulart (PSD-SP). Em 2026, o político declarou um total em bens de R$ 3.104.759,28, mais de 10 vezes o patrimônio inicial.
Imagem: Reprodução de publicação do perfil de Cezinha de Madureira no Instagram, 21 mai 2026
A guerra pela Frente Parlamentar Evangélica
Cezinha de Madureira presidiu a Frente Parlamentar Evangélica (FPE) em 2021, sob um acordo informal de revezamento fechado, em dezembro de 2020, com o pastor deputado federal Sóstenes Cavalcante (então DEM-RJ, depois PL), afilhado político do pastor Silas Malafaia, presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. O acordo previa a transferência da presidência a Sóstenes Cavalcante em 2022. Entretanto, quando deveria repassar a presidência, Cezinha de Madureira sugeriu que “o que existe hoje é um combinado entre nós”. Com isso, questionou o caráter formal do pacto inicial, enquanto Cavalcante reivindicava um acordo gravado em vídeo e assinado por quatro parlamentares da bancada de Madureira.
A disputa expôs publicamente a rivalidade entre os dois maiores polos do pentecostalismo político brasileiro: de um lado a família Ferreira e seu Ministério da Assembleia de Deus, com Cezinha de Madureira como principal fiador no Congresso; do outro, Silas Malafaia e seu afilhado Sóstenes Cavalcante, com direito a áudio vazado em que o presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo chama Samuel Ferreira de “pseudo líder covarde”.
A transição na FPE só se consumou em 9 de fevereiro de 2022, em sessão marcada por um culto com Santa Ceia, hinos evangélicos e a declaração do deputado federal Silas Câmara (Republicanos/AM) de que os parlamentares evangélicos eram “a boca de Deus no Parlamento”. Como saída para o impasse, a bancada reduziu o mandato da presidência da FPE de dois para um ano, um desfecho que, na prática, distribuiu o poder entre as duas facções em vez de resolver a disputa por hegemonia.
Imagem: Reprodução de matéria do jornal O Globo, publicada em 17 jan 2022
Articulações pelos poderes
A relação entre o deputado Cezinha de Madureira e o ministro André Mendonça não é de agora. Na ocasião da candidatura do pastor presbiteriano, ex- ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro, ao STF, foi o parlamentar quem levou Mendonça a um evento da Assembleia de Deus Madureira, no Rio, para apresentá-lo à liderança e conquistar o apoio do ministério. O lobby foi bem sucedido: as principais lideranças assembleanas do Ministério Madureira, estiveram ao lado de Mendonça durante a sabatina no Senado. O apoio pressionou por votos para a aprovação de seu nome ao cargo que ocupa até hoje. A votação ocorreu em dezembro de 2021, justamente quando Cezinha de Madureira presidia a Frente Parlamentar Evangélica na Câmara Federal.
A figura de Cezinha de Madureira como mediador de articulações de poder, se mostrou destacada em 2025, em outra direção. Em 16 de outubro daquele ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu no Palácio do Planalto os bispos Manoel Ferreira e Samuel Ferreira, da Igreja Assembleia de Deus Madureira, em um encontro articulado pelo deputado federal, então do PSD. Cezinha atuou como elo entre o Planalto e as lideranças assembleanas, enquadrando a visita como institucional e não política, segundo ele, a convite do próprio presidente. Também participaram do encontro o evangélico batista, advogado-geral da União, Jorge Messias, e a então ministra das Relações Institucionais Gleisi Hoffmann. O encontro reforçava a busca de aproximação entre o governo e o segmento evangélico. De acordo com o Cezinha de Madureira, o grupo orou com Lula “diante do momento conturbado do país”, num gesto que buscou emprestar ao encontro um tom espiritual e conciliador.
Questionado por jornalistas sobre possíveis tratativas políticas, como a indicação de Messias ao STF ou articulações de alianças para 2026, o deputado federal negou qualquer negociação ou pedido, insistindo no caráter estritamente protocolar da visita. Ao final, os bispos entregaram a Lula uma edição especial da “Bíblia do Culto do Ministro” e um exemplar comemorativo do Centenário de Glória da igreja, gesto simbólico que reforçou o tom de aproximação institucional buscado por Cezinha.
A repercussão veio principalmente pelas redes depois de Gleisi Hoffmann ter publicado registros do encontro destacando a presença das lideranças religiosas e a oração feita pelo país e pelo presidente. Houve comentários de apoio e de condenação ao papel do deputado, reconhecidamente integrante da oposição.
Imagem: Senadora evangélica Eliziane Gama (PSD/MA) repercute o encontro de Lula com bispos da AD Madureira. Perfil de Eliziane Gama no Instagram, 16 out 2025.
Imagem: Reprodução de matéria da revista Comunhão, publicada em 24 out 2025
Dias antes de as mensagens sobre o encontro com Vorcaro virem a público, o nome de Cezinha de Madureira já havia circulado por outro motivo. Em 25 de agosto, a Polícia Federal apreendeu R$ 510 mil em espécie na bagagem da advogada e empresária Valéria Rodrigues Linhares, no Aeroporto de Congonhas. Na cobertura do caso, o colunista do Globo Lauro Jardim identificou a mulher como esposa do deputado. Ainformação era incorreta, já que a mulher do deputado é a pedagoga Elis Freire.
O próprio parlamentar telefonou ao colunista para desmentir a relação; Jardim registrou a ligação na nota, mas manteve a informação errada original no ar. Os sites da Revista Fórum e do Brasil 247, que também haviam reproduzido o erro, retiraram as matérias do ar, (mas ainda aparecem em pesquisas do Google); o ICL Notícias, por sua vez, publicou uma retratação.
Até o fechamento desta reportagem, a nota do Globo permanecia publicada sem correção, apenas com o registro da ligação do deputado, o que induz ao erro e causa desinformação. Quem apenas lê rapidamente a manchete ou o link inicial continua absorvendo a informação falsa.
A coluna errou também a data da atualização: Como a nota original foi publicada em 28 de agosto de 2026, a inserção do texto de correção com menção “Atualização no dia 20 de agosto” ficou cronologicamente incoerente (uma data anterior à própria notícia), expondo o descuido e a pressa no momento de publicar a retificação.
Imagem: Reprodução de matéria do jornal O Globo, publicada em 28 Ago 2026. Acesso em 3 set 2026
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A articulação entre o banqueiro preso por golpe financeiro Daniel Vorcaro e o ministro do STF André Mendonça não é caso isolado na trajetória do deputado federal e pastor Cezinha de Madureira. É a mesma habilidade que o levou a ser escolhido pelo bispo Samuel Ferreira para representar a Assembleia de Deus Madureira no Congresso, e que o manteve relevante nas articulações da Frente Parlamentar Evangélica dividida por disputas internas: a de transitar entre esferas de poder que, em tese, não costumam se comunicar.
Nesse mesmo período, o patrimônio declarado do político evangélico saltou de R$ 230 mil, em 2014, para mais de R$ 3,1 milhões hoje. A investigação sobre o encontro com Vorcaro não trata desse crescimento patrimonial, mas o dado ajuda a dimensionar a trajetória de um deputado cuja principal marca, ao longo de três décadas, foi a proximidade com figuras de peso em espaços de poder distintos.
Até o fechamento desta apuração, Cezinha de Madureira não havia se pronunciado sobre seu papel na articulação do encontro. Bereia seguirá acompanhando o caso.
As relações suspeitas de lideranças da Igreja Batista da Lagoinha com o Banco Master, extinto por corrupção, e seu dono, o empresário Daniel Vorcaro, ganharam novos desdobramentos neste março de 2026 com o avanço das investigações. Embora os envolvidos neguem laços formais, as apurações incluem suspeitas de irregularidades financeiras, movimentações consideradas atípicas por órgãos de controle e conexões pessoais e institucionais de Daniel Vorcaro com líderes religiosos e políticos.
A nova fase da investigação foi impulsionada pela prisão de Vorcaro e do pastor da Igreja Lagoinha Fabiano Zettel, no último 4 de março pela Polícia Federal, como parte da operação Compliance Zero. A ação, autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do inquérito sobre o Master, cumpriu mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão em diferentes estados. Zettel se entregou na Superintendência da Polícia Federal. Segundo informações divulgadas pela Agência Brasil, a operação investiga suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e irregularidades envolvendo o banco.
Ao mesmo tempo, a Segunda Turma do STF iniciou, em 13 de março, a votação sobre a manutenção da prisão preventiva dos empresários. Até o fechamento desta matéria, três dos quatro ministros já haviam votado e decidido pela manutenção da prisão, falta apenas o voto do ministro Gilmar Mendes, já que o ministro Dias Toffoli declarou suspeição, por razões de foro íntimo, para participar de julgamentos relacionados ao caso Master.
Vínculos dos Vorcaros com a Lagoinha
A ligação entre a família Vorcaro e a Igreja Batista da Lagoinha é anterior à atuação do dono do Banco Master e remonta ao pai do banqueiro, Henrique Vorcaro, apontado como o primeiro a consolidar vínculos com a instituição religiosa. Convertido ao evangelicalismo, ele financiou projetos ligados à igreja e, segundo relatos, teria contribuído para quitar uma dívida relacionada à compra de um veículo feita por André Valadão há cerca de 25 anos. O pastor confirmou o episódio, mas afirmou tratar-se de uma transação comum, negando qualquer benefício indevido.
Outro foco é Fabiano Zettel, que movimentou aproximadamente R$ 99,4 milhões em poucos meses, valor considerado incompatível com sua renda declarada.
O nome de Henrique Vorcaro, pai de Daniel, também aparece nas investigações. A PF apura o uso de uma conta associada a ele para ocultar aproximadamente R$ 2,2 bilhões, supostamente desviados do Banco Master. A defesa nega a titularidade da conta e afirma não ter acesso integral aos documentos reunidos pelas autoridades.
Bereia já havia publicado matéria com denúncias apresentadas pelo deputado federal Rogério Correia (PT-MG) à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do INSS, em novembro de 2025. O Clava Forte Bank é uma fintech da Igreja Lagoinha, criada em 2024, divulgada como um “banco digital cristão”. A instituição apareceu no debate público por conta de reportagens que abordaram “movimentações atípicas” que envolviam entidades religiosas. Nas investigações há apurações que conectam a fintech pertencente à Lagoinha ao Banco Master. A igreja fechou o banco no final de 2025, após o caso ter vindo à tona.
O que diz a igreja
Em nota divulgada à imprensa, a Igreja Batista da Lagoinha afirma não ser alvo de investigação e nega qualquer relação institucional com o caso. Segundo a igreja, relações pessoais entre famílias não configuram vínculo institucional.
A igreja também informou que Fabiano Zettel foi afastado do pastoreio em novembro de 2025, quando surgiram as primeiras informações públicas sobre o caso.
No comunicado, a instituição reforça que relações pessoais entre famílias não configuram, por si só, ligação institucional com eventuais irregularidades e afirma estar à disposição das autoridades para esclarecimentos.
Fabiano Zettel no centro das apurações
O nome de Fabiano Zettel aparece como um dos principais elos entre o empresário e o ambiente religioso. Além de cunhado de Vorcaro, ele atuou como pastor na Lagoinha e se tornou alvo da Polícia Federal na segunda fase da Operação Compliance Zero. Além disso, a Lagoinha Belvedere tem nos registros do CNPJ Zettel como presidente da pessoa jurídica. A filial da igreja foi fechada e teve o perfil nas mídias sociais fechado neste março.
Dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicam que Zettel movimentou cerca de R$ 99,4 milhões em pouco mais de sete meses, entre 2021 e 2022. Segundo o órgão, o volume é incompatível com a renda declarada pelo empresário e sugere uso da conta para trânsito de recursos de terceiros, prática frequentemente associada a esquemas de ocultação de valores.
Zettel teve atuação relevante no campo político, tendo sido um dos maiores doadores individuais das eleições de 2022, com contribuições na casa do milhão para as campanhas de Jair Bolsonaro (PL) para presidente da República e de Tarcísio de Freitas (Republicanos) para o governo de São Paulo, em 2022.
O que está sob investigação
As apurações da Polícia Federal se concentram nas operações financeiras do Banco Master e em um possível esquema que envolveria fraude, lavagem de dinheiro e uso de terceiros para movimentação de recursos.
Também são investigadas suspeitas de pagamento de propina a agentes públicos e tentativas de ocultação patrimonial, o que amplia o alcance do caso para além do setor financeiro.
Até o momento, não há denúncia formal que inclua a Igreja Batista da Lagoinha como instituição nas investigações.
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As informações disponíveis e documentadas denotam vínculos pessoais e familiares entre os Vorcaros e lideranças da Igreja Batista da Lagoinha, incluindo a atuação de sua irmã como pastora e a presença de seu cunhado Fabiano Zettel na igreja. Relatórios do Coaf apontam ainda movimentações financeiras consideradas atípicas envolvendo Zettel, com valores incompatíveis com a renda declarada, além do registro de transferência de recursos do banco para empresa ligada ao pastor André Valadão.
Por outro lado, não há, até o momento, acusação formal ou investigação que aponte envolvimento institucional da Igreja Batista da Lagoinha nas irregularidades apuradas. Tampouco foi comprovada a participação de lideranças religiosas citadas nas reportagens em práticas ilegais, sendo que, no caso da transferência mencionada, a defesa de André Valadão afirma desconhecer a operação. Fato é que a igreja fechou a fintech Clava Forte e o templo da filial que era dirigida pelo pastor Zettel.
As investigações seguem em andamento e buscam esclarecer a origem e o destino dos recursos movimentados no âmbito do Banco Master, incluindo a possível utilização de terceiros para circulação de valores, bem como o papel de pessoas próximas a Vorcaro nessas operações e eventuais conexões com agentes públicos ou campanhas políticas. Há ainda especulações sobre uma possível delação premiada do empresário, hipótese que, se confirmada e acompanhada de provas relevantes, pode ampliar o alcance das apurações.
Diante desse conjunto de informações, é possível afirmar que há uma rede de relações pessoais, familiares e financeiras que conecta investigados a pessoas ligadas à Igreja Batista da Lagoinha, sem que isso configure, até o momento, evidência de envolvimento institucional da igreja.
O caso permanece em apuração e requer cautela para que se evite desinformação: a existência de proximidade social ou religiosa não implica, por si só, participação em ilícitos, mas a interseção dessas relações com movimentações financeiras sob suspeita mantém o tema sob atenção das autoridades e do debate público.