Fábio Faria: o evangélico, ex-ministro de Bolsonaro, citado 40 vezes na investigação do Master

Mensagens extraídas do celular do dono do Banco Master, o banqueiro Daniel Vorcaro, analisadas pela Polícia Federal colocaram o ex-ministro das Comunicações do governo de Jair Bolsonaro (2019-2022) Fábio Faria (PP), então deputado integrante da Bancada Evangélica,  no centro de uma investigação que reúne personagens da política, do sistema financeiro e do Judiciário. Os registros apontam que o ex-deputado federal pelo Rio Grande do Norte compartilhou contatos do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ajudou a organizar encontros e acompanhou tratativas relacionadas a um contrato entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa de Moraes, segundo reportagem do G1, publicada em 1º de setembro passado. 

A atuação descrita pelos investigadores teria ocorrido, principalmente, entre o fim de 2023 e 2024, período em que a relação de Vorcaro com integrantes de diferentes instituições públicas se tornou objeto de apuração. As mensagens também registram a participação de Faria na organização de uma festa privada realizada em São Paulo, em outubro de 2023, quando o banqueiro ainda não havia sido associado publicamente às dimensões que a investigação policial posteriormente revelaria. 

O episódio mais recente, porém, não surgiu isoladamente. Ele se soma à trajetória de um político que construiu sua carreira no encontro entre a tradição familiar potiguar, os meios de comunicação, a aproximação com grupos evangélicos e a circulação por diferentes ambientes do poder nacional. Filho do ex-governador Robinson Faria (PP), casado com Patrícia Abravanel, integrante da família que dirige o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), Fábio Faria era deputado pelo PSD-RN, quando deixou a Câmara dos Deputados para assumir o Ministério das Comunicações no governo de Jair Bolsonaro, em junho de 2020. 

A revelação das mensagens abre uma questão que ultrapassa a festa e os contatos individuais: como um ex-ministro evangélico que, durante anos, atuou como articulador político e interlocutor entre empresários, parlamentares e integrantes do governo, aparece nas trocas de mensagens de um banqueiro investigado pela Polícia Federal? 

Família na política

Fábio Salustino Mesquita de Faria nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, em 1º de setembro de 1977 . É filho de Robinson Faria, que ocupou a vice-governança e depois o governo do estado potiguar, pelo Partido Progressistas (PP), e de Maria Nina Salustino de Faria. Formado em Administração de Empresas pela Universidade Potiguar, chegou à Câmara dos Deputados em 2007 e nela permaneceu por quatro mandatos consecutivos, eleito pelo Rio Grande do Norte. Ao longo da carreira, migrou do PMN ao PSD e, desde março de 2022, está filiado ao PP. 

Fábio Faria é casado com  apresentadora do SBT e filha do dono da rede de TV, Silvio Santos, Patrícia Abravanel. O casal é sócio de uma produtora ligada à TV aberta, a New Beginnings, e a esposa é proprietária da TV Alphaville, canal por assinatura batizado com o nome do bairro de luxo onde a família reside, em Barueri, na Grande São Paulo.

A conversão ao lado de Patrícia Abravanel

Criado no catolicismo, Fábio Faria relatou publicamente, no fim de 2018, ter se batizado depois de anos de resistência a frequentar igrejas evangélicas. Segundo o próprio deputado, cerca de cinco anos antes, foi a esposa quem o levou a frequentar cultos em uma igreja batista, o que o aproximou de histórias bíblicas e o levou, segundo suas palavras, a viver “um dos maiores renovos” de sua vida. Na mesma declaração, Faria evitou o rótulo de evangélico, preferindo se definir como “homem cristão”.

Imagem: Reprodução do perfil de Fábio Faria no Instagram – publicado em 31/12/2018 – Acesso em 15 set 2026

A ligação da família com a Igreja Batista Memorial de Alphaville, em Barueri é documentada por reportagens sobre a consagração da filha Jane, cerimônia realizada naquele templo em 2018, ano do batismo de Fabio Faria. Quando residiram nos EUA, a família passou a frequentar a Igreja Batista da Lagoinha em Orlando, presidida pelo pastor André Valadão, também citado nas conversas com Vorcaro, investigadas pela Polícia Federal, conforme matéria publicada pelo Bereia.

Da bancada evangélica ao comando das Comunicações

Em junho de 2020, o presidente Bolsonaro nomeou o então deputado federal Fábio Faria (PSD/RN) ministro das Comunicações. Na função, ele assumiu o papel de articulador entre o Palácio do Planalto e o Congresso, além de intermediário na relação do governo com a imprensa.

A proximidade do ministro com o eleitorado evangélico foi um ativo político explorado dentro do próprio governo. Em 2022, Faria chegou a circular como possível nome de consenso para a vice-presidência na chapa de Bolsonaro, justamente pela capacidade de dialogar com a bancada religiosa. 

Em janeiro de 2022, Faria participou  de um evento evangélico e conservador, na Flórida (EUA), organizado pelo pastor André Valadão, ocasião em que também esteve presente o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, foragido da Justiça brasileira. Faria alegou não saber da presença do blogueiro no mesmo evento e fez chegar essa explicação a integrantes do STF. 

Imagem: reprodução/ Facebook

Voos pagos pela Câmara

Antes de chegar ao ministério das Comunicações, Faria já havia sido alvo de escrutínio por seus gastos irregulares com a cota parlamentar. Um levantamento do Congresso em Foco, em parceria com o Instituto OPS, mostrou que o deputado usou a verba para viajar a São Paulo 43 vezes contra apenas seis viagens ao Rio Grande do Norte, o estado pelo qual fora eleito, somente naquela legislatura. 

Dados de 2019 indicam mais de 72 mil reais foram gastos pelo deputado, com verbas da Câmara Federal, somente naquele ano, em passagens para a capital paulista, cidade onde reside com a esposa e os filhos. O próprio Faria já havia protagonizado, anos antes, episódio semelhante durante a chamada “farra das passagens aéreas”, que levou a Câmara a alterar as regras de uso da cota parlamentar em 2009.

Ligações íntimas

Em outubro de 2023, menos de um ano após deixar o governo Bolsonaro, Faria viajou a Paris para participar de um evento do Esfera Brasil, instituto criado pelo lobista João Camargo com o propósito declarado de reunir empresários, juristas, advogados e políticos em torno de oportunidades de negócio. Entre os convidados estava o dono do Banco Master Daniel Vorcaro, instituição que já despertava desconfiança no mercado financeiro pela agressividade de suas operações. Foi ali, segundo o próprio Faria, que os dois se conheceram.

Imagem: Reprodução do site da Revista Piauí publicada em 1/8/2026 – Acesso 15 set 26

Questionado pela Revista Piauí em janeiro deste ano, o ex-ministro minimizou o vínculo: “Eu tenho zero de relação com Master. Nunca vendi nada para o Master. Tenho nada com o Master”, declarou. A reportagem, no entanto, apurou que o encontro em Paris deu início a laços que resultaram em movimentações milionárias. 

Menos de um mês depois de o vínculo Faria-Vorcaro ter começado, Fábio Faria já aparecia envolvido na organização de um evento privado do banqueiro em São Paulo. Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do banqueiro mostram o ex-ministro atuando na montagem da lista de convidados de uma festa de Halloween, realizada em 31 de outubro de 2023, que reuniu 120 mulheres acompanhantes e 20 homens. O evento aconteceu na casa noturna Madame Satã, em São Paulo, e teve proibição total do uso de celulares por parte dos convidados. A casa noturna afirmou ter apenas alugado o espaço, sem participação na organização.

As conversas investigadas registram referências a políticos e a integrantes do Judiciário entre os convidados da festa, lista discutida por Faria e Vorcaro, além da preocupação recorrente dos dois em evitar vazamentos sobre o encontro. Por isso a presença de mulheres brasileiras foi limitada e dada preferência a modelos estrangeiras.

Nomes como os dos senadores Davi Alcolumbre (União Brasil) e Rodrigo Pacheco (PP) e o do ministro do STF Dias Toffoli foram citados como convidados para o evento. A defesa de Faria sustenta que ele apenas repassou convites a pedido do banqueiro e que nenhuma dessas autoridades esteve presente na festa, e diz que reunirá agendas públicas, itinerários de voos da FAB e registros de deslocamentos institucionais para comprovar as ausências perante a Justiça. Segundo essa mesma defesa, Faria conhecia Vorcaro havia apenas 15 dias quando essas trocas de mensagens ocorreram.

Pontes até o Supremo

O relatório da Polícia Federal que relaciona Vorcaro ao ministro do STF Alexandre de Moraes aponta que Faria atuou como intermediário de contatos entre os dois. As mensagens analisadas pelos investigadores mostram o ex-ministro das Comunicações compartilhando contatos de Moraes, organizando encontros presenciais entre as partes e acompanhando as tratativas de um contrato entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do jurista. Segundo a Polícia Federal, essa atuação se repete entre o fim de 2023 e 2024, período que coincide com o estreitamento da relação entre o banqueiro e o ministro.

O papel de Faria como elo entre Vorcaro e figuras de peso em esferas de poder distintas não se limita, portanto, à articulação de uma festa. O mesmo nome que discutia a lista de convidados de um evento em uma casa noturna paulistana aparece, nos autos, coordenando também contatos que envolvem o gabinete do ministro Moraes e o escritório particular da esposa dele.

A ofensiva jurídica contra sites e memes

Diante da repercussão dos diálogos, o ex-ministro acionou advogados para processar portais de notícias e perfis que, segundo a defesa, atribuíram a ele “condutas divergentes da realidade”. Interlocutores de Faria afirmaram que a decisão de recorrer à Justiça veio depois de publicações terem extrapolado o que de fato havia sido apurado, gerando consequências para a família do ex-ministro. Paralelamente às ações contra veículos, o ex-ministro determinou um levantamento de páginas e perfis que produziram memes ou investiram em publicidade paga para impulsionar o conteúdo sobre o caso, com o objetivo de definir as ações judiciais cabíveis em cada situação.

Ainda que citado dezenas de vezes no relatório da PF, Fábio Faria não ocupa hoje cargo público: depois de deixar o Ministério das Comunicações, passou a atuar como executivo do grupo de televisão comandado pela família da esposa e, mais recentemente, à frente da implantação do canal de notícias SBT News. 

É justamente essa proximidade entre o nome de Faria e a emissora que fez da crise um problema também corporativo: o Diário do Centro do Mundo registrou que, embora Patrícia Abravanel não seja citada no relatório da Polícia Federal, ela passou a ser alvo de ataques e memes nas redes sociais depois da repercussão das suspeitas sobre o marido. 

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A relação de Fábio Faria com Daniel Vorcaro não aparece de forma isolada em sua trajetória. O ex-ministro construiu, ao longo dos anos, uma posição de trânsito entre a política, o empresariado, o setor de comunicação e o meio evangélico ultraconservador, onde passou a circular depois da conversão e do batismo em igrejas batistas. Nas mensagens analisadas pela Polícia Federal, essa capacidade de trânsito aparece novamente: Faria é apontado como articulador de contatos entre Vorcaro e autoridades e, no mesmo circuito de relações, como responsável por ajudar a organizar uma festa marcada pelo sigilo e pela seleção de mulheres.

Para um político que tornou pública sua identidade cristã e cuja trajetória passou a ser associada também à representação de valores conservadores, o conteúdo dessas conversas acrescenta uma contradição que não pode ser reduzida à esfera privada. A questão central está na combinação entre relações pessoais, acesso a autoridades e interesses privados, revelada nos documentos da investigação. A defesa de Faria nega irregularidades e afirma que sua atuação se limitou ao repasse de contatos e convites. Bereia seguirá acompanhando os desdobramentos do caso.

Referências

G1

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/09/01/ex-ministro-fabio-faria-atuou-para-intermediar-contatos-entre-vorcaro-e-moraes-aponta-pf.ghtml – Acesso em 15 set. 26

https://g1.globo.com/economia/blog/ana-flor/post/2022/01/10/fabio-faria-faz-chegar-ao-stf-explicacao-de-que-nao-sabia-que-estava-em-mesmo-evento-que-blogueiro-bolsonarista-foragido.ghtml – Acesso em 15 set. 26

Câmara dos Deputados

https://www.camara.leg.br/deputados/141428 – Acesso em 15 set. 26

Agência Estado / UOL

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2020/06/12/na-heranca-familiar-de-faria-radios-e-politica.htm – Acesso em 15 set. 26

IstoÉ

https://istoe.com.br/quem-e-fabio-faria-o-nome-forte-por-tras-do-sbt-news-e-marido-de-patricia-abravanel – Acesso em 15 set. 26

Veja

https://veja.abril.com.br/paginas-amarelas/fabio-faria-precisamos-manter-o-clima-de-entendimento-e-paz – Acesso em 15 set. 26

O Globo

https://oglobo.globo.com/politica/fabio-faria-participa-de-evento-com-blogueiro-foragido-nos-eua-25347225 – Acesso em 15 set. 26

GospelMais

https://gospelmais.com/noticias/patricia-abravanel-bebe-carla-perez-batismo-filha-98132 – Acesso em 15 set. 26

Congresso em Foco

https://www.congressoemfoco.com.br/coluna/31720/eleito-pelo-rn-fabio-faria-foi-43-vezes-a-sp-e-seis-ao-seu-estado-camara-pagou-tudo – Acesso em 15 set. 26

Revista Piauí

https://piaui.uol.com.br/web/fabio-faria-daniel-vorcaro-lobby/ – Acesso em 15 set. 26

Correio Braziliense

https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2026/09/7498396-mensagens-da-pf-mostram-bastidores-de-festa-de-vorcaro-com-fabio-faria.html – Acesso em 15 set. 26

Brasil 247

https://www.brasil247.com/sudeste/madame-sata-se-pronuncia-sobre-festa-organizada-por-vorcaro-e-fabio-faria – Acesso em 15 set. 26

Revista Fórum

https://revistaforum.com.br/politica/dialogos-fabio-faria-vazamento-festa-vorcaro/ – Acesso em 15 set. 26

Poder360

https://static.poder360.com.br/uploads/2026/09/pet16662_relatorio_pf_celular_vorcaro_moraes_gonet_andrei_barci.pdf – Acesso em 15 set. 26

Terra

https://www.terra.com.br/diversao/gente/marido-de-patricia-abravanel-reage-apos-polemica-e-toma-medida-extrema,f2ef0576572d32bebf836aeda85a8de1jga6pfcy.html – Acesso em 15 set. 26

Folha de S.Paulo

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2026/09/fabio-faria-vai-processar-sites-e-personalidades-por-relatos-sobre-festa-de-vorcaro-que-diz-serem-falsos.shtml – Acesso em 15 set. 26

Diário do Centro do Mundo

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/mensagens-de-vorcaro-e-marido-de-patricia-abravanel-pioram-crise-no-sbt-entenda/ – Acesso em 15 set. 26

André Valadão admite ter feito articulação entre Nikolas e Vorcaro, mas omite vínculos entre sua igreja e o Master

Em vídeo publicado neste 3 de setembro, o pastor da Igreja Batista da Lagoinha André Valadão confirmou ter atuado como interlocutor entre o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em abril de 2024, como mostram os áudios revelados pela jornalista Juliana Dal Piva, do ICL Notícias. Valadão negou interesse nos negócios, mas omitiu os vínculos entre a própria fintech da Igreja Lagoinha, a Clava Forte Bank, e o Banco Master, hoje sob escrutínio da CPMI do INSS e do Banco Central.

Segundo a reportagem do ICL, no período antes de ser preso, Vorcaro se incomodou com críticas do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicadas nas redes digitais. Depois de monitorar as mídias sociais do político,  o banqueiro pediu ao pastor André Valadão que “parasse Nikolas Ferreira” e questionou o empresário Flávio Carneiro sobre a efetividade de benefícios dados ao deputado.

Em março, Bereia apurou que há uma rede de relações pessoais, familiares e financeiras que conecta investigados do caso Banco Master a pessoas ligadas à Igreja Batista da Lagoinha, sem que isso configurasse evidência de envolvimento institucional da igreja.

As novas informações divulgadas pelo ICL Notícias apontam para uma interferência direta do pastor André Valadão na agenda do deputado evangélico mineiro nas mídias sociais.

O que dizem os áudios

Os áudios mostram que o papel de Valadão foi além de simplesmente aproximar as partes, como alegado em vídeo. No áudio enviado ao pastor André Valadão, em 27 de abril de 2024, Vorcaro se mostrou incomodado com posts de Nikolas Ferreira questionando a presença de ministros do STF, STJ e TSE num evento em Londres que era patrocinado pelo Master. Ao pastor, o banqueiro escreveu: “De novo pedir sua ajuda com Nikolas. Estão usando a fala dele pra me atacar, por conta de patrocínio num evento em Londres. Acontece, que talvez ele não saiba, participaram vários membros da direita, como Ciro Nogueira, um dos líderes oposição.” Valadão respondeu na hora: “Oi Dani. Claro amanhã falo com ele.”

O empresário ainda diferencia o momento das vezes anteriores, em que “eu não sabia, estava sem previsão”, desta, em que o post envolvia “um negócio com o meu nome direto” e cobra de Valadão uma resposta sobre até onde Nikolas pretendia ir

Já o áudio que Nikolas Ferreira enviou a Vorcaro confirma que foi a Valadão, e não ao banqueiro, que recorreu primeiro para se explicar pelo post sobre o evento de Londres: “Troquei uma ideia lá com o pastor André Valadão naquela época lá daquela post. Eu falei: ‘Pastor, eu não fazia ideia que era este o banco do Dani, etc e tudo. Senão obviamente não teria postado, teria conversado anteriormente.'”.

Valadão nega envolvimento e ameaça medidas legais

Em vídeo, o pastor André Valadão respondeu às revelações sobre as conversas com Vorcaro e negou qualquer envolvimento com negócios ou irregularidades do Banco Master.

“A minha participação naquele episódio se restringiu exclusivamente a uma interlocução entre pessoas que eu conheço”, afirmou o pastor, ao comentar as conversas mantidas com o banqueiro em abril de 2024. O pastor disse que ele e Vorcaro “já se conhece[m] há mais de 30 anos, muito antes de quaisquer fatos que hoje estão sendo divulgados”.

Imagem: reprodução/redes sociais

Valadão disse que foi procurado por Vorcaro porque ele tem contato mais próximo com Nikolas Ferreira. O pastor afirma que sua atuação se limitou a sugerir que os dois “conversassem diretamente antes de qualquer nova manifestação sobre o assunto, para que a situação pudesse ser esclarecida entre eles”. Sobre a frase, também revelada em áudio, em que afirmou que “o Nikolas iria contornar tudo”, o pastor da Igreja da Lagoinha disse que se referia exatamente ao fato de que o deputado falaria diretamente com Vorcaro sobre o assunto.

“Não houve qualquer relação da minha parte com negócios, interesses ou atividade do Banco Master”, disse Valadão, acrescentando não ter tido conhecimento de irregularidades posteriormente atribuídas à instituição. 

Segue a declaração de André Valadão na íntegra:

Gente, eu quero trazer uma nota aqui de esclarecimento hoje, dia 3 de setembro, né, diante das informações que estão sendo divulgadas sobre conversas que eu tive em abril de 2024 com o Daniel Vorcaro, relacionadas a uma publicação do deputado Nikolas Ferreira. E eu quero esclarecer pessoalmente com você alguns pontos.

A minha participação naquele episódio se restringiu exclusivamente a uma interlocução entre pessoas que eu conheço. Não houve qualquer relação da minha parte com negócios, interesses ou atividade do Banco Master. Eu e o Daniel a gente já se conhece há mais de 30 anos, muito antes de quaisquer fatos que hoje estão sendo divulgados.

Naquela ocasião, o Daniel me procurou por saber que eu tinha contato mais próximo com o Nikolas. Como as próprias mensagens e áudios mencionados já demonstram aí na mídia, eu simplesmente sugeri que os dois conversassem diretamente antes de qualquer nova manifestação sobre o assunto, para que a situação pudesse ser esclarecida entre eles.

Quando posteriormente afirmei que o Nikolas iria contornar tudo, eu estava me referindo exatamente a isso: ao fato que ele faria diretamente com o Daniel, ele falaria com ele para tratar daquele assunto.

Então eu quero deixar aqui absolutamente claro: essa interlocução não representa, de maneira alguma, qualquer envolvimento meu em negócios, interesses ou atividades do Daniel Vorcaro ou do Banco Master. Não tinha conhecimento, gente, de irregularidades que posteriormente são atribuídas ao banco. Não participei de qualquer prática ilícita e, inclusive, eu repudio de forma inequívoca toda e qualquer conduta dessa natureza.

Eu tenho aqui com você plena consciência das responsabilidades que eu carrego diante da minha família, da igreja que eu lidero e de milhões de pessoas que acompanham o meu trabalho e o meu ministério. Então eu faço aqui questão de tratar esse assunto com você com seriedade, com transparência e tô falando a verdade aqui com você. Eu reafirmo o meu compromisso com essa verdade e com a correta compreensão desses fatos.

E diante de qualquer eventual informação falsa, de afirmação que tente atribuir a mim conduta que eu não pratiquei, eu vou me resguardar com o direito de adotar inclusive medidas legais cabíveis, tá? Essa é a verdade dos fatos e esse é o esclarecimento que eu faço pessoalmente para todos vocês. Deus abençoe!

Lagoinha e Banco Master

Daniel Vorcaro e o cunhado dele, pastor da Igreja Batista da Lagoinha, Fabiano Zettel foram presos, em 4 de março de 2026, pela Polícia Federal em decorrência da Operação Compliance Zero.A operação está associada à apuração mais ampla sobre crimes financeiros e possíveis danos a aposentados, tema que ganhou relevância após o avanço dos trabalhos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

A investigação também apura vínculos entre empresários, intermediários e entidades que teriam se beneficiado de créditos indevidos. Registro em relatório  do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) aponta cerca de R$ 3,9 milhões transferidos pelo Banco Master a uma produtora ligada ao pastor André Valadão, a Amando Vidas Produtora e Gravadora Ltda, que diz não ter conhecimento da operação realizada em 2022. 

Os pastores Fabiano Zettel e André Valadão  foram citados em requerimentos oficiais apresentados à CPMI do INSS, baseados em Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) e informações da Receita Federal.  A senadora evangélica Damares Alves expôs o caso, o que também foi apurado por Bereia.

Em novembro de 2025, Bereia publicou matéria com denúncias da relação entre a Igreja da Lagoinha e o esquema do Master. Elas foram apresentadas pelo deputado federal Rogério Correia (PT-MG) à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do INSS.  Repasses citados nos documentos levantados pelo parlamentar incluem o patrocínio do evento de Réveillon da Lagoinha (“Vira Brasil”), no estádio Allianz Parque (São Paulo-SP), em 2024, pelo ex-presidente da Amar Brasil Clube de Benefícios (ABCB) Felipe Macedo, investigado e apontado como alguém próximo de lideranças da igreja, incluindo André Valadão.  

De acordo com a Agência Senado, o empresário investigado Felipe Macedo Gomes negou ter financiado o evento realizado no estádio Allianz Parque e afirmou que não mantém amizade com Valadão. “Eu não paguei réveillon algum. Sou uma ovelha da igreja. Também é uma falácia me colocar como amigo do Valadão”.

A Amar Brasil é uma das entidades investigadas por fraudes contra o INSS. A organização oferecia taxas associativas ou serviços fictícios por meio de descontos inseridos em benefícios de aposentados e pensionistas sem autorização dos beneficiários. 

Quem é o deputado Cezinha de Madureira, evangélico articulador do encontro secreto entre Vorcaro e André Mendonça 

Mensagens e áudios extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, divulgados pela imprensa neste 2 de setembro de 2026, revelam que o deputado federal e pastor evangélico Cezinha de Madureira (PL), ao lado do advogado baiano Ciro Rocha Soares, passou semanas articulando um encontro em Brasília entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), o pastor presbiteriano André Mendonça e o banqueiro, preso desde março de 2026. A reunião durou cerca de duas horas e não constava na agenda pública do ministro.

Mendonça confirma parcialmente o episódio, ocorrido em 14 de março de 2025,no Instituto Iter, em Jardim Paulista, São Paulo. Ele afirma ter “se limitado a ouvir” Vorcaro e ter tratado apenas de uma ação sobre precatórios, a STP 976. Apesar de ser um encontro entre o juiz da causa e o investigado/réu, Mendonça nega ter discutido os problemas do Master junto ao Banco Central.

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Suspensão de Tutela Provisória (STP) é um processo da Advocacia Geral da União (AGU) encaminhado ao STF para suspensão de decisões que interfiram negativamente em políticas públicas. No caso da STP 976, a AGU demandou do STF a suspensão do pagamento de precatórios (dívidas judiciais do governo) que o Banco Master comprou de terceiros em 2023,  sob suspeita de que parte desses créditos tenha sido emitida de forma irregular. O ministro do STF André Mendonça assumiu a relatoria desse processo específico em fevereiro de 2026, quase um ano depois do encontro reservado com Vorcaro, o maior interessado no pagamento dos precatórios.

A revelação do caso, pelo jornalista Paulo Motoryn, em sua newsletter Noites Húngaras, publicada com exclusividade pelo ICL Notícias, colocou Cezinha de Madureira no centro de uma investigação sensível e levanta algumas questões: por que um deputado federal, liderança da Bancada Evangélica, serviu de ponte entre um banqueiro sob escrutínio regulatório e um ministro da mais alta corte do país, e o que essa capacidade de abrir portas em qualquer esfera de poder revela sobre o personagem que a exerce?

Foto: Marina Ramos/Câmara dos Deputados

Essa não é a primeira vez que Cezinha de Madureira aparece como o homem que conecta personagens políticas em esferas diferentes. Bereia faz um levantamento do perfil do deputado federal e reconstrói a trajetória do radialista baiano que virou “ungido” da maior denominação evangélica do país, a Assembleia de Deus – Ministério Madureira. Também aborda como, décadas depois, ele transita com desenvoltura entre direita, esquerda, bancada evangélica e ministros do Supremo. 

Imagem: Cezinha de Madureira acompanha bispo Samuel Ferreira (Assembleia de Deus Madureira) em visita ao presidente Lula, em outubro de 2025. Reprodução do perfil de Gleisi Hoffmann no Instagram, 16 out 2025.

Imagem: Cezinha de Madureira na garupa durante motociata do ex-presidente Jair Bolsonaro, em 2021. Imagem extraída de matéria da CNN – https://www.cnnbrasil.com.br/politica/bolsonaro-escolhe-lider-religioso-para-garupa-de-moto-de-olho-em-2022/ Acesso em 2 set 2026

O encontro que vazou

Segundo a reportagem de Motoryn, veiculada pelo ICL, a aproximação entre Daniel Vorcaro e André Mendonça foi arquitetada ao longo de semanas no início de 2025, quando o banqueiro estava em vias de ser preso por golpes no sistema financeiro. Em troca de mensagens com Vorcaro, nos dias 7 e 8 de fevereiro, o advogado baiano Ciro Rocha Soares relata que está “trabalhando” por ele e que havia conseguido um encontro com Mendonça. Em seguida, envia uma foto ao lado do ministro do STF numa alfaiataria em São Paulo. Soares diz, ainda, ter deixado Mendonça “balançado” com o assunto do Master. Um novo encontro chegou a ser agendado para 19 de fevereiro, sem confirmação de que tenha ocorrido. 

Em 13 de março, foi a vez do deputado Cezinha de Madureira entrar em ação: marcou um encontro com Mendonça sobre o caso Vorcaro para o dia seguinte, às 17h, no Instituto Iter, ,do próprio ministro do STF. No áudio de posse da Polícia Federal, Ciro Soares relata que o deputado avisa Vorcaro, a caminho da reunião:  “o ministro já está te esperando”. Segundo o advogado, Mendonça já sabia previamente do assunto, pois “o Cezinha já tinha falado com ele” sobre os problemas do Banco Master junto ao Banco Central. Portanto, as mensagens sugerem que Cezinha de Madureira não apenas articulou a logística do encontro, mas também preparou o terreno de conteúdo antes que ele acontecesse.

O encontro de 14 de março durou cerca de duas horas. Na nota oficial em que confirmou o episódio, Mendonça disse ter recebido Vorcaro “uma única vez”, por iniciativa do banqueiro; afirmou que se “limitou a ouvi-lo”, que manteve registro escrito do encontro em seu gabinete, que o assunto se restringiu à ação STP 976 sobre precatórios, então sob relatoria de outro ministro, e que seu voto posterior no caso Master foi contrário aos interesses do banqueiro. 

No dia seguinte ao encontro, o advogado Ciro Soares enviou a Daniel Vorcaro uma foto ao lado do procurador-geral da República Paulo Gonet, com a mensagem “Liga aqui… Ele quer falar com você”, seguida de quatro ligações entre os dois em poucos minutos. Este seria um indício, ainda não plenamente esclarecido publicamente, de que a rede de contatos articulada por Cezinha de Madureira e Ciro Soares pode não ter se limitado ao Judiciário.

Antes da reunião de Vorcaro e Mendonça, na manhã daquele mesmo dia, o ministro do STF participou de um evento no Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) junto com Cezinha de Madureira. A questão Master/Vorcaro não foi tratada no encontro, Mendonça e o deputado do PL compuseram a mesma mesa durante a posse solene do conselheiro Maxwell Borges de Moura Vieira, segundo registro oficial do TCE-SP. 

A cerimônia ocorreu no Auditório Nobre do tribunal, na capital paulista. Horas depois, segundo os áudios já divulgados, André Mendonça recebeu Vorcaro no Instituto Iter, entidade fundada por ele em 2024, em encontro que durou cerca de duas horas.

A Revista Fórum revelou que a instituição acumulou ao menos R$ 10,8 milhões em contratos com órgãos públicos desde novembro de 2023, dos quais 54, o equivalente a 98,2% do total, foram firmados sem licitação prévia, a maior parte por inexigibilidade.

Após as revelações sobre os contratos firmados sem licitação com órgãos públicos pelo instituto do qual é sócio, o ministro André Mendonça decidiu deixar a entidade, da qual detém, com a esposa, 77,5% de participação. Segundo nota divulgada pelo Iter, ele cederá suas cotas e de sua esposa sem contrapartida financeira e passará a prestar ali apenas serviços acadêmicos, na condição de professor.

Até o fechamento desta apuração, não havia declaração pública de Cezinha de Madureira sobre seu papel no episódio. 

De rádio comunitária ao púlpito político

Antonio Cezar Correia Freire nasceu em 12 de dezembro de 1973 em Ipiaú, na Bahia, e começou a trabalhar no rádio ainda adolescente, na comunicação comunitária baiana. Membro da Assembleia de Deus, aos 18 anos, em 1991, mudou-se para São Paulo, onde construiu carreira como radialista e apresentador de programas religiosos. Apresentou o “Plantão da Vida” (Band e RedeTV!) e o “Palavra de Vida” (Rádio Musical FM) ao lado do pastor Samuel Ferreira, hoje bispo e presidente-executivo da Convenção Nacional das Assembleias de Deus – Ministério de Madureira, denominação presente em quase todo o país e também no exterior. Em 2012, foi ordenado pastor do ministério, em São Paulo.

Foi esse vínculo com a família Ferreira que o lançou à política. Elegeu-se deputado estadual em São Paulo em 2014, pelo Democratas (ex-PFL), ainda como “Pastor Cezinha”. O pseudônimo “de Madureira” só viraria marca política depois, associando seu nome à força eleitoral da vertente das Assembleias de Deus.  

Em 2018 e 2022 Cezinha de Madureira elegeu-se e reelegeu-se deputado federal por São Paulo, agora pelo PSD, tendo sido vice-líder do governo de Jair Bolsonaro na Câmara Federal. Em 2026, filiou-se ao PL para concorrer à reeleição, mudança de legenda que ocorreu, em São Paulo, na mesma leva que incluiu outros pastores do Ministério Madureira, incluindo seu colega de bancada estadual Oséias de Madureira.

Imagem: Reprodução de publicação de Cezinha de Madureira no Instagram, 29 ago 2026

O ungido do bispo

A reportagem “Ungido por chefe de igreja, Cezinha de Madureira dobrou patrimônio na política”, da Folha de S.Paulo (Carlos Petrocilo, 2019), descreve com precisão a natureza dessa relação. O deputado federal  é apresentado como o escolhido do bispo Samuel Ferreira para “alavancar o projeto de poder da igreja” no Legislativo. Venceu, para isso, uma disputa interna com outros pastores-políticos da denominação, entre eles Alex de Madureira.

Samuel Ferreira comanda o Ministério Madureira ao lado do pai, o bispo Manoel Ferreira (presidente vitalício da Convenção Nacional das Assembleias de Deus e bispo-primaz da AD Madureira), e do irmão, o bispo e pastor-presidente da igreja Abner Ferreira. Este núcleo familiar, segundo a mesma reportagem, Cezinha de Madureira trata como sua própria família, inclusive se referindo à Samuel Ferreira como “pai adotivo” e do qual diz depender para dar entrevistas, redigir discursos e propor projetos: “Estou aqui porque a igreja me colocou, foi a igreja que me elegeu. Respondo ao meu povo através do meu líder.”

A reportagem da Folha de S. Paulo também registra que o patrimônio declarado do deputado federal do PL-SP à Justiça Eleitoral saltou de R$ 230 mil, em 2014 (um único imóvel), para R$ 469 mil, em 2018 (dois veículos, aplicações, previdência privada, consórcio e uma casa de R$ 380 mil). Além disso, o nome do parlamentar apareceu, com um valor simbólico de R$ 16, na lista de doações da JBS a 1.829 políticos nas eleições de 2014, repassado via campanha do então colega de chapa Antônio Goulart (PSD-SP). Em 2026, o político declarou um total em bens de R$ 3.104.759,28, mais de 10 vezes o patrimônio inicial. 

Imagem: Reprodução de publicação do perfil de Cezinha de Madureira no Instagram, 21 mai 2026

A guerra pela Frente Parlamentar Evangélica

Cezinha de Madureira presidiu a Frente Parlamentar Evangélica (FPE) em 2021, sob um acordo informal de revezamento fechado, em dezembro de 2020, com o pastor deputado federal Sóstenes Cavalcante (então DEM-RJ, depois PL), afilhado político do pastor Silas Malafaia, presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. O acordo previa a transferência da presidência a Sóstenes Cavalcante em 2022. Entretanto, quando deveria repassar a presidência, Cezinha de Madureira sugeriu que “o que existe hoje é um combinado entre nós”. Com isso, questionou o caráter formal do pacto inicial, enquanto Cavalcante reivindicava um acordo gravado em vídeo e assinado por quatro parlamentares da bancada de Madureira.

A disputa expôs publicamente a rivalidade entre os dois maiores polos do pentecostalismo político brasileiro: de um lado a família Ferreira e seu Ministério da Assembleia de Deus, com Cezinha de Madureira como principal fiador no Congresso; do outro, Silas Malafaia e seu afilhado Sóstenes Cavalcante, com direito a áudio vazado em que o presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo chama Samuel Ferreira de “pseudo líder covarde”.

A transição na FPE só se consumou em 9 de fevereiro de 2022, em sessão marcada por um culto com Santa Ceia, hinos evangélicos e a declaração do deputado federal Silas Câmara  (Republicanos/AM) de que os parlamentares evangélicos eram “a boca de Deus no Parlamento”. Como saída para o impasse, a bancada reduziu o mandato da presidência da FPE de dois para um ano, um desfecho que, na prática, distribuiu o poder entre as duas facções em vez de resolver a disputa por hegemonia.

Imagem: Reprodução de matéria do jornal O Globo, publicada em 17 jan 2022

Articulações pelos poderes

A relação entre o deputado Cezinha de Madureira e o ministro André Mendonça não é de agora. Na ocasião da candidatura do pastor presbiteriano, ex- ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro, ao STF, foi o parlamentar quem levou Mendonça a um evento da Assembleia de Deus Madureira, no Rio, para apresentá-lo à liderança e conquistar o apoio do ministério. O lobby foi bem sucedido: as principais lideranças assembleanas do Ministério Madureira, estiveram ao lado de Mendonça durante a sabatina no Senado. O apoio pressionou por votos para a aprovação de seu nome ao cargo que ocupa até hoje. A votação ocorreu em dezembro de 2021, justamente quando Cezinha de Madureira presidia a Frente Parlamentar Evangélica na Câmara Federal. 

A figura de Cezinha de Madureira como mediador de articulações de poder, se mostrou destacada em 2025, em outra direção. Em 16 de outubro daquele ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu no Palácio do Planalto os bispos Manoel Ferreira e Samuel Ferreira, da Igreja Assembleia de Deus Madureira, em um encontro articulado pelo deputado federal, então do PSD. Cezinha atuou como elo entre o Planalto e as lideranças assembleanas, enquadrando a visita como institucional e não política, segundo ele, a convite do próprio presidente. Também participaram do encontro o evangélico batista, advogado-geral da União, Jorge Messias, e a então ministra das Relações Institucionais Gleisi Hoffmann. O encontro reforçava a busca de aproximação entre o governo e o segmento evangélico. De acordo com o Cezinha de Madureira, o grupo orou com Lula “diante do momento conturbado do país”, num gesto que buscou emprestar ao encontro um tom espiritual e conciliador.

Questionado por jornalistas sobre possíveis tratativas políticas, como a indicação de Messias ao STF ou articulações de alianças para 2026, o deputado federal negou qualquer negociação ou pedido, insistindo no caráter estritamente protocolar da visita. Ao final, os bispos entregaram a Lula uma edição especial da “Bíblia do Culto do Ministro” e um exemplar comemorativo do Centenário de Glória da igreja, gesto simbólico que reforçou o tom de aproximação institucional buscado por Cezinha. 

A repercussão veio principalmente pelas redes depois de Gleisi Hoffmann ter publicado registros do encontro destacando a presença das lideranças religiosas e a oração feita pelo país e pelo presidente. Houve comentários de apoio e de condenação ao papel do deputado, reconhecidamente integrante da oposição.

Imagem: Senadora evangélica Eliziane Gama (PSD/MA) repercute o encontro de Lula com bispos da AD Madureira. Perfil de Eliziane Gama no Instagram, 16 out 2025. 

Imagem: Reprodução de matéria da revista Comunhão, publicada em 24 out 2025

Dias antes de as mensagens sobre o encontro com Vorcaro virem a público, o nome de Cezinha de Madureira já havia circulado por outro motivo. Em 25 de agosto, a Polícia Federal apreendeu R$ 510 mil em espécie na bagagem da advogada e empresária Valéria Rodrigues Linhares, no Aeroporto de Congonhas. Na cobertura do caso, o colunista do Globo Lauro Jardim identificou a mulher como esposa do deputado. Ainformação era incorreta, já que a mulher do deputado é a pedagoga Elis Freire. 

O próprio parlamentar telefonou ao colunista para desmentir a relação; Jardim registrou a ligação na nota, mas manteve a informação errada original no ar. Os sites da Revista Fórum e do Brasil 247, que também haviam reproduzido o erro, retiraram as matérias do ar, (mas ainda aparecem em pesquisas do Google); o ICL Notícias, por sua vez, publicou uma retratação. 

Até o fechamento desta reportagem, a nota do Globo permanecia publicada sem correção, apenas com o registro da ligação do deputado, o que induz ao erro e causa desinformação. Quem apenas lê rapidamente a manchete ou o link inicial continua absorvendo a informação falsa. 

A coluna errou também a data da atualização: Como a nota original foi publicada em 28 de agosto de 2026, a inserção do texto de correção com menção “Atualização no dia 20 de agosto” ficou cronologicamente incoerente (uma data anterior à própria notícia), expondo o descuido e a pressa no momento de publicar a retificação.

Imagem: Reprodução de matéria do jornal O Globo, publicada em 28 Ago 2026. Acesso em 3 set 2026

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A articulação entre o banqueiro preso por golpe financeiro Daniel Vorcaro e o ministro do STF André Mendonça não é caso isolado na trajetória do deputado federal e pastor Cezinha de Madureira. É a mesma habilidade que o levou a ser escolhido pelo bispo Samuel Ferreira para representar a Assembleia de Deus Madureira no Congresso, e que o manteve relevante nas articulações da Frente Parlamentar Evangélica dividida por disputas internas: a de transitar entre esferas de poder que, em tese, não costumam se comunicar.

Nesse mesmo período, o patrimônio declarado do político evangélico saltou de R$ 230 mil, em 2014, para mais de R$ 3,1 milhões hoje. A investigação sobre o encontro com Vorcaro não trata desse crescimento patrimonial, mas o dado ajuda a dimensionar a trajetória de um deputado cuja principal marca, ao longo de três décadas, foi a proximidade com figuras de peso em espaços de poder distintos.

Até o fechamento desta apuração, Cezinha de Madureira não havia se pronunciado sobre seu papel na articulação do encontro. Bereia seguirá acompanhando o caso.

Referências

Blog Noites Húngaras

https://paulomotoryn.substack.com/p/urgente-mensagens-e-audios-ineditos – Acesso em 2 set 26

ICL Notícias
https://iclnoticias.com.br/vaza-mendonca-mensagens-e-audios-ineditos – Acesso em 2 set 26

CNN Brasil

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/mendonca-admite-encontro-com-vorcaro-em-2025-para-tratar-de-precatorios/ – Acesso em 2 set 26

Câmara dos Deputados

https://www.camara.leg.br/deputados/204504?ano=2025 – Acesso em 2 set 26

G1

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/09/02/mendonca-diz-que-recebeu-vorcaro-uma-unica-vez-para-tratar-de-acao-sobre-precatorios-no-stf.ghtml – Acesso em 2 set 26

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/09/01/quem-e-ciro-soares.ghtml – Acesso em 2 set 26

Veja

https://veja.abril.com.br/coluna/radar/deputado-que-orou-com-lula-rebate-critica-de-lider-do-pl-a-messias-no-stf/ – Acesso em 2 set 26

Uol

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/10/19/deputado-aliado-bispo-samuel-ferreira-encontro-lula.htm – Acesso em 2 set 26

Metrópoles

https://www.metropoles.com/sao-paulo/pl-filiacao-evangelicos-ex-kassab-sp – Acesso em 2 set 26

O Globo

https://oglobo.globo.com/politica/briga-pelo-poder-abre-crise-na-bancada-evangelica-no-congresso-1-25356916 – Acesso em 2 set 26

Folha

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/01/ungido-por-chefe-de-igreja-cezinha-de-madureira-dobrou-patrimonio-na-politica.shtml – Acesso em 2 set 26

Congresso em Foco

https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/113023/com-messias-lula-recebe-deputado-e-bispos-evangelicos-no-planalto   Acesso em 2 set 2026

Caso Master: novas suspeitas recaem sobre relações entre Vorcaro e a Igreja Batista da Lagoinha 

As relações suspeitas de lideranças da Igreja Batista da Lagoinha com o Banco Master, extinto por corrupção, e seu dono, o empresário Daniel Vorcaro, ganharam novos desdobramentos neste  março de 2026 com o avanço das investigações.  Embora os envolvidos neguem  laços formais, as apurações incluem suspeitas de irregularidades financeiras, movimentações consideradas atípicas por órgãos de controle e conexões pessoais e institucionais de Daniel Vorcaro com líderes religiosos e políticos. 

A nova fase da investigação foi impulsionada pela prisão de Vorcaro e do pastor da Igreja Lagoinha Fabiano Zettel, no último 4 de março  pela Polícia Federal, como parte da operação Compliance Zero. A ação, autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do inquérito sobre o Master, cumpriu mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão em diferentes estados. Zettel se entregou na Superintendência da Polícia Federal. Segundo informações divulgadas pela Agência Brasil, a operação investiga suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e irregularidades envolvendo o banco. 

Ao mesmo tempo, a Segunda Turma do STF iniciou, em 13 de março, a votação sobre a manutenção da prisão preventiva dos empresários. Até o fechamento desta matéria, três dos quatro ministros já haviam votado e decidido pela manutenção da prisão, falta apenas o voto do ministro Gilmar Mendes, já que o ministro Dias Toffoli declarou suspeição, por razões de foro íntimo, para participar de julgamentos relacionados ao caso Master.

Vínculos dos Vorcaros com a Lagoinha

A ligação entre a família Vorcaro e a Igreja Batista da Lagoinha é anterior à atuação do dono do Banco Master e remonta ao pai do banqueiro, Henrique Vorcaro, apontado como o primeiro a consolidar vínculos com a instituição religiosa. Convertido ao evangelicalismo, ele financiou projetos ligados à igreja e, segundo relatos, teria contribuído para quitar uma dívida relacionada à compra de um veículo feita por André Valadão há cerca de 25 anos. O pastor confirmou o episódio, mas afirmou tratar-se de uma transação comum, negando qualquer benefício indevido. 

Antes de se tornar banqueiro, Daniel Vorcaro participou da igreja em Belo Horizonte e apresentou um programa gospel na Rede Super, emissora ligada à igreja.

A conexão também passa por laços familiares: o pastor André Valadão celebrou o casamento da irmã de Vorcaro, Natália Vorcaro Zettel, com o também pastor da Lagoinha Fabiano Zettel. Com o tempo, as relações entre as famílias se estreitaram, incluindo eventos familiares, manifestações públicas de proximidade e iniciativas em comum. Entre elas, está a construção de um templo de aproximadamente 16 mil metros quadrados da Lagoinha,  no bairro Belvedere, em Belo Horizonte, obra conduzida pelo pastor Fabiano Zettel e concluída no ano anterior à operação policial. 

Imagem: reprodução/O Globo

Dinheiro sob análise

Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicam movimentações financeiras relevantes envolvendo pessoas próximas à igreja. Um dos registros aponta cerca de R$ 3,9 milhões transferidos pelo Banco Master a uma produtora ligada ao pastor André Valadão, a Amando Vidas Produtora e Gravadora Ltda, que diz não ter conhecimento da operação realizada em 2022.

Outro foco é Fabiano Zettel, que movimentou aproximadamente R$ 99,4 milhões em poucos meses, valor considerado incompatível com sua renda declarada.

O nome de Henrique Vorcaro, pai de Daniel, também aparece nas investigações. A PF apura o uso de uma conta associada a ele para ocultar aproximadamente R$ 2,2 bilhões, supostamente desviados do Banco Master. A defesa nega a titularidade da conta e afirma não ter acesso integral aos documentos reunidos pelas autoridades. 

Bereia já havia publicado matéria com denúncias apresentadas pelo deputado federal Rogério Correia (PT-MG) à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do INSS, em novembro de 2025. O Clava Forte Bank é uma fintech da Igreja Lagoinha, criada em 2024, divulgada como um “banco digital cristão”. A instituição apareceu no debate público por conta de reportagens que abordaram “movimentações atípicas” que envolviam entidades religiosas. Nas investigações há apurações que conectam a fintech pertencente à Lagoinha ao Banco Master. A igreja fechou o banco no final de 2025, após o caso ter vindo à tona.

O que diz a igreja

Em nota divulgada à imprensa, a Igreja Batista da Lagoinha afirma não ser alvo de investigação e nega qualquer relação institucional com o caso. Segundo a igreja, relações pessoais entre famílias não configuram vínculo institucional.

A igreja também informou que Fabiano Zettel foi afastado do pastoreio em novembro de 2025, quando surgiram as primeiras informações públicas sobre o caso.

No comunicado, a instituição reforça que relações pessoais entre famílias não configuram, por si só, ligação institucional com eventuais irregularidades e afirma estar à disposição das autoridades para esclarecimentos.

Fabiano Zettel no centro das apurações

O nome de Fabiano Zettel aparece como um dos principais elos entre o empresário e o ambiente religioso. Além de cunhado de Vorcaro, ele atuou como pastor na Lagoinha e se tornou alvo da Polícia Federal na segunda fase da Operação Compliance Zero. Além disso, a Lagoinha Belvedere tem nos registros do CNPJ Zettel como presidente da pessoa jurídica. A filial da igreja foi fechada e teve o perfil nas mídias sociais fechado neste março.

Dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicam que Zettel movimentou cerca de R$ 99,4 milhões em pouco mais de sete meses, entre 2021 e 2022. Segundo o órgão, o volume é incompatível com a renda declarada pelo empresário e sugere uso da conta para trânsito de recursos de terceiros, prática frequentemente associada a esquemas de ocultação de valores.

Zettel teve atuação relevante no campo político, tendo sido  um dos maiores doadores individuais das eleições de 2022, com contribuições na casa do milhão para as campanhas de Jair Bolsonaro (PL)  para presidente da República e de Tarcísio de Freitas (Republicanos) para o governo de São Paulo, em 2022.

O que está sob investigação

As apurações da Polícia Federal se concentram nas operações financeiras do Banco Master e em um possível esquema que envolveria fraude, lavagem de dinheiro e uso de terceiros para movimentação de recursos.

Também são investigadas suspeitas de pagamento de propina a agentes públicos e tentativas de ocultação patrimonial, o que amplia o alcance do caso para além do setor financeiro.

Até o momento, não há denúncia formal que inclua a Igreja Batista da Lagoinha como instituição nas investigações.

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As informações disponíveis e documentadas denotam vínculos pessoais e familiares entre os Vorcaros e lideranças da Igreja Batista da Lagoinha, incluindo a atuação de sua irmã como pastora e a presença de seu cunhado Fabiano Zettel na igreja. Relatórios do Coaf apontam ainda movimentações financeiras consideradas atípicas envolvendo Zettel, com valores incompatíveis com a renda declarada, além do registro de transferência de recursos do banco para empresa ligada ao pastor André Valadão.

Por outro lado, não há, até o momento, acusação formal ou investigação que aponte envolvimento institucional da Igreja Batista da Lagoinha nas irregularidades apuradas. Tampouco foi comprovada a participação de lideranças religiosas citadas nas reportagens em práticas ilegais, sendo que, no caso da transferência mencionada, a defesa de André Valadão afirma desconhecer a operação. Fato é que a igreja fechou a fintech Clava Forte e o templo da filial que era dirigida pelo pastor Zettel.

As investigações seguem em andamento e buscam esclarecer a origem e o destino dos recursos movimentados no âmbito do Banco Master, incluindo a possível utilização de terceiros para circulação de valores, bem como o papel de pessoas próximas a Vorcaro nessas operações e eventuais conexões com agentes públicos ou campanhas políticas. Há ainda especulações sobre uma possível delação premiada do empresário, hipótese que, se confirmada e acompanhada de provas relevantes, pode ampliar o alcance das apurações.

Diante desse conjunto de informações, é possível afirmar que há uma rede de relações pessoais, familiares e financeiras que conecta investigados a pessoas ligadas à Igreja Batista da Lagoinha, sem que isso configure, até o momento, evidência de envolvimento institucional da igreja. 

O caso permanece em apuração e requer cautela para que se evite desinformação: a existência de proximidade social ou religiosa não implica, por si só, participação em ilícitos, mas a interseção dessas relações com movimentações financeiras sob suspeita mantém o tema sob atenção das autoridades e do debate público.