Ataque militar de EUA e Israel contra o Irã não ocorre para libertar mulheres iranianas

Ainda circula nas redes digitais de grupos religiosos publicações que afirmam que os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã teriam como objetivo “libertar” as mulheres iranianas do regime dos aiatolás. A teoria costuma aparecer acompanhada de mensagens que justificam os ataques militares como forma de defesa dos direitos das mulheres que seriam negados pela religião islâmica. O Bereia checou estas afirmações.

O que os fatos mostram

A afirmação de que mulheres iranianas seriam beneficiadas por ataques militares não encontra respaldo nos fatos. Bombardeios atingem a população civil sem distinção de gênero e tendem a afetar de forma desproporcional mulheres e crianças.

Em nome de uma suposta “libertação” do povo iraniano do regime dos aiatolás, um dos primeiros alvos de EUA e Israel, em 28 de fevereiro, foi realizado um ataque à escola Shajareh Tayyebeh, em Minab, no sul do Irã. Justamente uma escola de educação infantil predominantemente de meninas. A ofensiva deixou ao menos 175 mortos e mais de 90 crianças ficaram feridas. O caso aconteceu pela manhã, enquanto ocorriam as aulas. A imagem do menino Mikaeil Mirdoraghi, aluno da escola, despedindo-se da mãe antes de ir às aulas no dia que morreu, tornou-se símbolo do episódio.

Imagem: Foto de Mikaeil Mirdoraghi que viralizou nas redes digitais. Reprodução: G1

As mulheres do Irã precisam ser libertadas?

Entrevistada pela Agência Brasil, a socióloga professora da Universidade de Brasília (UnB)  Berenice Bento, que estuda as relações de gênero no mundo muçulmano, afirma que o ataque revela justamente que a guerra não tem relação com direitos humanos ou democracia.

Em razão do regime do país, as mulheres sofrem, de fato, uma série de restrições no Irã, como o uso obrigatório do véu (hijab) para cobrir os cabelos, além de impedimentos para viagem e mobilidade, que geralmente precisam de autorização dos pais ou maridos. O desrespeito aos códigos é duramente punido pela chamada polícia da moralidade, ou Patrulha de Orientação da República Islâmica do Irã.

Apesar dos problemas da República Islâmica, a especialista pondera que houve avanços sociais nos últimos 47 anos. Dados do Banco Mundial e da Unesco apontam que a alfabetização das mulheres passou de cerca de 30%, nos anos 1970, para cerca de 85%, nos anos 2000. A participação das mulheres iranianas nas universidades subiu de 33%, na década de 1970, para cerca de 60%, nos anos 2000. Por outro lado, a participação delas no mercado de trabalho segue reduzida, algo em torno de 15% a 20% do total das pessoas empregadas.

A história de luta das mulheres iranianas inclui vítimas de prisões e condenações por sua militância. Uma delas é a advogada e ativista Narges Mohammadi, vencedora do Nobel da Paz em 2023 “pela sua luta contra a opressão das mulheres”. Narges está atualmente presa no Irã, condenada a sete anos e meio de reclusão por “conspiração”, segundo seu advogado. 

Ouvida pela Agência Brasil, a jornalista palestino-brasileira, doutora em Estudos Árabes pela Universidade de São Paulo (USP) Soraya Misleh afirma que mulheres iranianas lutam há décadas por seus direitos e destaca, em especial, o movimento “Mulher, Vida e Liberdade”. Ele foi criado em 2022 após a morte da estudante Mahsa Amini, detida em um protesto e espancada pela Patrulha de Orientação. “Mulheres iranianas organizaram um grande movimento, em 2022, o Mulher, Vida e Liberdade, e seguem em luta há décadas. O povo iraniano, os povos árabes, o povo palestino devem decidir seu destino, não os EUA e Israel”, comentou.

Porém, a socióloga Berenice Bento reafirma que a mobilização das mulheres no Irã não pede intervenção externa.“Quando você analisa as manifestações que aconteceram, nenhuma está dizendo que quer a volta da monarquia, ou que os Estados Unidos  e Israel vá libertá-las. Nunca. O que você tem é uma sociedade que está lutando”, ponderou.

Pesquisadora do Núcleo de Pesquisa sobre as Relações do Mundo Árabe, do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS), a professora Natália Ochôa explica que há um olhar do mundo Ocidental para a necessidade de salvar a mulher muçulmana que, no episódio da escola, foi o alvo. 

“Mulheres muçulmanas vistas e retratadas como oprimidas e sem capacidade de agência precisariam da salvação de mulheres ocidentais, sendo estas últimas o grande exemplo de liberdade a ser seguido. Ora, se um desses pilares é a educação, por que então logo uma escola de meninas, onde elas são alfabetizadas e aprendem sobre seus direitos, é um dos primeiros espaços a se tornarem alvos desses ataques? Se elas precisam de salvação, por que a última coisa que tem sido feita é salvá-las?”, questiona a pesquisadora em artigo publicado sobre o caso. 

Mulheres são as primeiras vítimas da guerra

A pesquisadora Rosa Meneses, especialista em Oriente Médio, afirma que as mulheres iranianas estão entre as mais afetadas pelo conflito. Para Meneses, “elas são as primeiras vítimas porque a violência só gera mais violência e qualquer tentativa de democratização nesta situação fica paralisada”.Essa avaliação reforça que a guerra interrompe processos sociais e políticos internos, além de agravar a vulnerabilidade feminina, em vez de promover emancipação.

A diretora-executiva do Brasil de Fato Nina Fideles, que esteve no Irã em 2023, também questiona o relato ocidental da “salvação”. De acordo com ela, “o Ocidente não vai salvar nenhuma mulher iraniana e, sim, promover guerra com esse discurso”.

O uso político dos direitos das mulheres

Críticos do relato apontam a contradição entre esse discurso e o histórico recente dos próprios Estados Unidos em relação aos direitos das mulheres, diante de decisões políticas e institucionais que, em diferentes contextos, têm sido avaliadas como restritivas às garantias femininas. Nesse cenário, a ideia de uma “guerra de libertação” perde sustentação diante do impacto real dos bombardeios sobre civis.

A instrumentalização da condição das mulheres também se relaciona à forma como muçulmanas costumam ser representadas no debate público. O Primeiro Relatório de Islamofobia no Brasil, com base em 653 respostas de pessoas muçulmanas, mostra que as mulheres correspondem à maioria das vítimas de islamofobia, com 68% dos casos registrados. O estudo aponta relatos de agressões físicas, sexualização, perda de oportunidades e sofrimento psíquico decorrente de hostilidades e discriminação, o que evidencia como discursos sobre “salvação” ou “libertação” frequentemente se articulam a estigmas sobre mulheres de tradição islâmica.

Desse modo, o discurso de que guerras seriam travadas em nome dos direitos das mulheres já foi mobilizado em outros contextos, como no Afeganistão e no Iraque. Em todos esses casos, a condição real das mulheres foi convertida em argumento de legitimação geopolítica.

A deputada espanhola na União Europeia Irene Montero criticou diretamente essa retórica ao afirmar: “Nenhuma mulher jamais foi libertada por bombas dos EUA.” A declaração resume a crítica de que a opressão vivida por mulheres em regimes autoritários não se resolve por meio da destruição militar.

Imagem: Declaração da eurodeputada Irene Montero. Reprodução: Facebook

Montero disse que as intervenções militares não conseguiram trazer liberdade às mulheres em países como Síria, Iraque, Líbano e Afeganistão.“Nem na Síria. Nem no Iraque. Nem no Líbano. Nem no Afeganistão. E isso também não acontecerá no Irã”, afirmou. 

Na mesma linha, o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, declarou: “Se realmente nos importamos com as mulheres iranianas, vamos parar de bombardeá-las.” Sánchez reforçou ainda que problemas internacionais não podem ser resolvidos por conflitos e bombardeios.

As verdadeiras intenções

Em 25 de março passado, uma apuração do jornalista especialista na cobertura internacional Jamil Chade, informa que diplomatas, a imprensa americana e israelense confirmaram que o governo dos EUA enviou uma proposta de plano de cessar-fogo aos iranianos, por meio de negociadores do Paquistão. O pacto prevê o fim de todas as atividades nucleares do país. Porém, não fala em mudança de regime e nem em denúncias de violações de direitos humanos, em especial de mulheres, argumentos que o presidente Donald Trump sempre usou para justificar a guerra.

A apuração registra que as imprensas israelense e americana publicaram pontos do que teria sido o plano de paz apresentado ao Irã: 

  • As instalações nucleares de Natanz, Isfahan e Fordow serão desativadas e destruídas.
  • Transparência e supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) sobre as atividades no Irã.
  • O Irã abandonará o uso de grupos armados na região e cessará o financiamento e o armamento de seus afiliados regionais.
  • Desmantelamento das capacidades nucleares existentes já acumuladas.
  • Compromisso de nunca buscar o desenvolvimento de armas nucleares.
  • Nenhum material nuclear será enriquecido em solo iraniano, e todo o material enriquecido será entregue à AIEA.
  • O Estreito de Ormuz permanecerá aberto e constituirá uma “zona marítima livre”.
  • Os mísseis do Irã estarão sujeitos a uma decisão futura, mas serão limitados em quantidade e alcance, e destinados apenas à autodefesa.

Portanto, não há qualquer menção a mudança no regime dos aiatolás e a garantia dos direitos da população iraniana, em especial das mulheres.

Contradições nos EUA e em Israel

O relato de defesa das mulheres também entra em contradição com o histórico recente dos próprios países envolvidos na guerra. Nos Estados Unidos, decisões recentes relacionadas a direitos reprodutivos e igualdade de gênero têm sido alvo de críticas por organizações de direitos humanos.

Em Israel, relatórios internacionais apontam que mulheres e meninas palestinas em Gaza estão entre as principais vítimas do conflito. Além do alto número de mortes com os ataques de Israel à região, há graves violações de direitos básicos, inclusive acesso à saúde e segurança. Segundo relatório da Anistia Internacional, mulheres e meninas palestinas têm sido privadas das condições necessárias para viver e dar à luz com segurança.

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Bereia verifica, portanto, que a afirmação de que os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã têm como objetivo libertar as mulheres iranianas é falsa. 

Os dados, os relatos de especialistas, o histórico recente de guerras no Oriente Médio e um possível plano de paz apresentado pelos EUA ao Irã mostram o contrário: conflitos armados na região são movidos por interesses econômicos e armamentistas e terminam por causar sofrimento dramático contra mulheres e crianças, especialmente, pois, interrompem processos sociais e produzem mortes, deslocamentos e sofrimento civil.

A utilização dos direitos das mulheres como justificativa moral para operações militares constitui uma retórica política que não se sustenta diante dos fatos. Em vez de libertação, a guerra produz mais violação de direitos para as mesmas mulheres que se diz defender. 

Soma-se a esta falácia um preconceito com a religião islâmica ancorado no desconhecimento do que realmente ela significa para fiéis a ela vinculadas. Muitos comentários em mídias digitais compreendem que atacar o Irã é atacar a religião islâmica e isto está justificado pela equivocada generalizante compreensão de que é uma religião opressora. Por ignorância ou má-fé confunde-se  as posições de um regime político teocrático islâmico, sob crítica e oposição de parcela da própria população, com o Islã em seu sentido mais amplo, de manifestações diversas. Tal conteúdo promove intolerância (a aversão ao que é diferente) e fortalece a islamofobia.

Referências: 

Opera Mundi. https://operamundi.uol.com.br/guerra-eua-israel-x-ira/apoiar-guerra-ao-ira-em-nome-do-direito-das-mulheres-e-falacia-afirma-pesquisadora/. Acesso em 31 mar 2026.

Opera Mundi. https://operamundi.uol.com.br/israel-x-palestina/israel-nega-condicoes-de-vida-as-mulheres-em-gaza-acusa-anistia-internacional/. Acesso em 31 mar 2026.

G1. https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/03/14/bombardeio-a-escola-no-ira-morte-de-criancas-e-pressao-sobre-trump.ghtml. Acesso em 31 mar 2026.

https://www.brasildefato.com.br/2026/03/04/discurso-do-ocidente-nao-vai-salvar-as-mulheres-iranianas-e-sim-promover-guerra-diz-diretora-executiva-do-bdf/. Acesso em 31 mar 2026.

I Relatório de Islamofobia no Brasil. https://www.ambigrama.com.br/_files/ugd/ffe057_6fb8d4497c4748f8961c92a546c5b3fc.pdf.  Acesso em 31 mar 2026.

Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2023-03/mulheres-sao-maioria-das-vitimas-de-islamofobia-no-brasil. Acesso em 31 mar 2026.

Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-03/ataque-escola-de-meninas-no-ira-expoe-os-horrores-da-guerra Acesso em 1 abr2026

ICL

https://iclnoticias.com.br/eua-enviam-plano-de-paz-e-ira-rebate/#:~:text=O%20que%20diz%20o%20plano,e%20destinados%20apenas%20%C3%A0%20autodefesa. Acesso em 1 abr 2026

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Foto de capa: Unplash

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