Ataque militar de EUA e Israel contra o Irã não ocorre para libertar mulheres iranianas

Ainda circula nas redes digitais de grupos religiosos publicações que afirmam que os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã teriam como objetivo “libertar” as mulheres iranianas do regime dos aiatolás. A teoria costuma aparecer acompanhada de mensagens que justificam os ataques militares como forma de defesa dos direitos das mulheres que seriam negados pela religião islâmica. O Bereia checou estas afirmações.

O que os fatos mostram

A afirmação de que mulheres iranianas seriam beneficiadas por ataques militares não encontra respaldo nos fatos. Bombardeios atingem a população civil sem distinção de gênero e tendem a afetar de forma desproporcional mulheres e crianças.

Em nome de uma suposta “libertação” do povo iraniano do regime dos aiatolás, um dos primeiros alvos de EUA e Israel, em 28 de fevereiro, foi realizado um ataque à escola Shajareh Tayyebeh, em Minab, no sul do Irã. Justamente uma escola de educação infantil predominantemente de meninas. A ofensiva deixou ao menos 175 mortos e mais de 90 crianças ficaram feridas. O caso aconteceu pela manhã, enquanto ocorriam as aulas. A imagem do menino Mikaeil Mirdoraghi, aluno da escola, despedindo-se da mãe antes de ir às aulas no dia que morreu, tornou-se símbolo do episódio.

Imagem: Foto de Mikaeil Mirdoraghi que viralizou nas redes digitais. Reprodução: G1

As mulheres do Irã precisam ser libertadas?

Entrevistada pela Agência Brasil, a socióloga professora da Universidade de Brasília (UnB)  Berenice Bento, que estuda as relações de gênero no mundo muçulmano, afirma que o ataque revela justamente que a guerra não tem relação com direitos humanos ou democracia.

Em razão do regime do país, as mulheres sofrem, de fato, uma série de restrições no Irã, como o uso obrigatório do véu (hijab) para cobrir os cabelos, além de impedimentos para viagem e mobilidade, que geralmente precisam de autorização dos pais ou maridos. O desrespeito aos códigos é duramente punido pela chamada polícia da moralidade, ou Patrulha de Orientação da República Islâmica do Irã.

Apesar dos problemas da República Islâmica, a especialista pondera que houve avanços sociais nos últimos 47 anos. Dados do Banco Mundial e da Unesco apontam que a alfabetização das mulheres passou de cerca de 30%, nos anos 1970, para cerca de 85%, nos anos 2000. A participação das mulheres iranianas nas universidades subiu de 33%, na década de 1970, para cerca de 60%, nos anos 2000. Por outro lado, a participação delas no mercado de trabalho segue reduzida, algo em torno de 15% a 20% do total das pessoas empregadas.

A história de luta das mulheres iranianas inclui vítimas de prisões e condenações por sua militância. Uma delas é a advogada e ativista Narges Mohammadi, vencedora do Nobel da Paz em 2023 “pela sua luta contra a opressão das mulheres”. Narges está atualmente presa no Irã, condenada a sete anos e meio de reclusão por “conspiração”, segundo seu advogado. 

Ouvida pela Agência Brasil, a jornalista palestino-brasileira, doutora em Estudos Árabes pela Universidade de São Paulo (USP) Soraya Misleh afirma que mulheres iranianas lutam há décadas por seus direitos e destaca, em especial, o movimento “Mulher, Vida e Liberdade”. Ele foi criado em 2022 após a morte da estudante Mahsa Amini, detida em um protesto e espancada pela Patrulha de Orientação. “Mulheres iranianas organizaram um grande movimento, em 2022, o Mulher, Vida e Liberdade, e seguem em luta há décadas. O povo iraniano, os povos árabes, o povo palestino devem decidir seu destino, não os EUA e Israel”, comentou.

Porém, a socióloga Berenice Bento reafirma que a mobilização das mulheres no Irã não pede intervenção externa.“Quando você analisa as manifestações que aconteceram, nenhuma está dizendo que quer a volta da monarquia, ou que os Estados Unidos  e Israel vá libertá-las. Nunca. O que você tem é uma sociedade que está lutando”, ponderou.

Pesquisadora do Núcleo de Pesquisa sobre as Relações do Mundo Árabe, do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS), a professora Natália Ochôa explica que há um olhar do mundo Ocidental para a necessidade de salvar a mulher muçulmana que, no episódio da escola, foi o alvo. 

“Mulheres muçulmanas vistas e retratadas como oprimidas e sem capacidade de agência precisariam da salvação de mulheres ocidentais, sendo estas últimas o grande exemplo de liberdade a ser seguido. Ora, se um desses pilares é a educação, por que então logo uma escola de meninas, onde elas são alfabetizadas e aprendem sobre seus direitos, é um dos primeiros espaços a se tornarem alvos desses ataques? Se elas precisam de salvação, por que a última coisa que tem sido feita é salvá-las?”, questiona a pesquisadora em artigo publicado sobre o caso. 

Mulheres são as primeiras vítimas da guerra

A pesquisadora Rosa Meneses, especialista em Oriente Médio, afirma que as mulheres iranianas estão entre as mais afetadas pelo conflito. Para Meneses, “elas são as primeiras vítimas porque a violência só gera mais violência e qualquer tentativa de democratização nesta situação fica paralisada”.Essa avaliação reforça que a guerra interrompe processos sociais e políticos internos, além de agravar a vulnerabilidade feminina, em vez de promover emancipação.

A diretora-executiva do Brasil de Fato Nina Fideles, que esteve no Irã em 2023, também questiona o relato ocidental da “salvação”. De acordo com ela, “o Ocidente não vai salvar nenhuma mulher iraniana e, sim, promover guerra com esse discurso”.

O uso político dos direitos das mulheres

Críticos do relato apontam a contradição entre esse discurso e o histórico recente dos próprios Estados Unidos em relação aos direitos das mulheres, diante de decisões políticas e institucionais que, em diferentes contextos, têm sido avaliadas como restritivas às garantias femininas. Nesse cenário, a ideia de uma “guerra de libertação” perde sustentação diante do impacto real dos bombardeios sobre civis.

A instrumentalização da condição das mulheres também se relaciona à forma como muçulmanas costumam ser representadas no debate público. O Primeiro Relatório de Islamofobia no Brasil, com base em 653 respostas de pessoas muçulmanas, mostra que as mulheres correspondem à maioria das vítimas de islamofobia, com 68% dos casos registrados. O estudo aponta relatos de agressões físicas, sexualização, perda de oportunidades e sofrimento psíquico decorrente de hostilidades e discriminação, o que evidencia como discursos sobre “salvação” ou “libertação” frequentemente se articulam a estigmas sobre mulheres de tradição islâmica.

Desse modo, o discurso de que guerras seriam travadas em nome dos direitos das mulheres já foi mobilizado em outros contextos, como no Afeganistão e no Iraque. Em todos esses casos, a condição real das mulheres foi convertida em argumento de legitimação geopolítica.

A deputada espanhola na União Europeia Irene Montero criticou diretamente essa retórica ao afirmar: “Nenhuma mulher jamais foi libertada por bombas dos EUA.” A declaração resume a crítica de que a opressão vivida por mulheres em regimes autoritários não se resolve por meio da destruição militar.

Imagem: Declaração da eurodeputada Irene Montero. Reprodução: Facebook

Montero disse que as intervenções militares não conseguiram trazer liberdade às mulheres em países como Síria, Iraque, Líbano e Afeganistão.“Nem na Síria. Nem no Iraque. Nem no Líbano. Nem no Afeganistão. E isso também não acontecerá no Irã”, afirmou. 

Na mesma linha, o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, declarou: “Se realmente nos importamos com as mulheres iranianas, vamos parar de bombardeá-las.” Sánchez reforçou ainda que problemas internacionais não podem ser resolvidos por conflitos e bombardeios.

As verdadeiras intenções

Em 25 de março passado, uma apuração do jornalista especialista na cobertura internacional Jamil Chade, informa que diplomatas, a imprensa americana e israelense confirmaram que o governo dos EUA enviou uma proposta de plano de cessar-fogo aos iranianos, por meio de negociadores do Paquistão. O pacto prevê o fim de todas as atividades nucleares do país. Porém, não fala em mudança de regime e nem em denúncias de violações de direitos humanos, em especial de mulheres, argumentos que o presidente Donald Trump sempre usou para justificar a guerra.

A apuração registra que as imprensas israelense e americana publicaram pontos do que teria sido o plano de paz apresentado ao Irã: 

  • As instalações nucleares de Natanz, Isfahan e Fordow serão desativadas e destruídas.
  • Transparência e supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) sobre as atividades no Irã.
  • O Irã abandonará o uso de grupos armados na região e cessará o financiamento e o armamento de seus afiliados regionais.
  • Desmantelamento das capacidades nucleares existentes já acumuladas.
  • Compromisso de nunca buscar o desenvolvimento de armas nucleares.
  • Nenhum material nuclear será enriquecido em solo iraniano, e todo o material enriquecido será entregue à AIEA.
  • O Estreito de Ormuz permanecerá aberto e constituirá uma “zona marítima livre”.
  • Os mísseis do Irã estarão sujeitos a uma decisão futura, mas serão limitados em quantidade e alcance, e destinados apenas à autodefesa.

Portanto, não há qualquer menção a mudança no regime dos aiatolás e a garantia dos direitos da população iraniana, em especial das mulheres.

Contradições nos EUA e em Israel

O relato de defesa das mulheres também entra em contradição com o histórico recente dos próprios países envolvidos na guerra. Nos Estados Unidos, decisões recentes relacionadas a direitos reprodutivos e igualdade de gênero têm sido alvo de críticas por organizações de direitos humanos.

Em Israel, relatórios internacionais apontam que mulheres e meninas palestinas em Gaza estão entre as principais vítimas do conflito. Além do alto número de mortes com os ataques de Israel à região, há graves violações de direitos básicos, inclusive acesso à saúde e segurança. Segundo relatório da Anistia Internacional, mulheres e meninas palestinas têm sido privadas das condições necessárias para viver e dar à luz com segurança.

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Bereia verifica, portanto, que a afirmação de que os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã têm como objetivo libertar as mulheres iranianas é falsa. 

Os dados, os relatos de especialistas, o histórico recente de guerras no Oriente Médio e um possível plano de paz apresentado pelos EUA ao Irã mostram o contrário: conflitos armados na região são movidos por interesses econômicos e armamentistas e terminam por causar sofrimento dramático contra mulheres e crianças, especialmente, pois, interrompem processos sociais e produzem mortes, deslocamentos e sofrimento civil.

A utilização dos direitos das mulheres como justificativa moral para operações militares constitui uma retórica política que não se sustenta diante dos fatos. Em vez de libertação, a guerra produz mais violação de direitos para as mesmas mulheres que se diz defender. 

Soma-se a esta falácia um preconceito com a religião islâmica ancorado no desconhecimento do que realmente ela significa para fiéis a ela vinculadas. Muitos comentários em mídias digitais compreendem que atacar o Irã é atacar a religião islâmica e isto está justificado pela equivocada generalizante compreensão de que é uma religião opressora. Por ignorância ou má-fé confunde-se  as posições de um regime político teocrático islâmico, sob crítica e oposição de parcela da própria população, com o Islã em seu sentido mais amplo, de manifestações diversas. Tal conteúdo promove intolerância (a aversão ao que é diferente) e fortalece a islamofobia.

Referências: 

Opera Mundi. https://operamundi.uol.com.br/guerra-eua-israel-x-ira/apoiar-guerra-ao-ira-em-nome-do-direito-das-mulheres-e-falacia-afirma-pesquisadora/. Acesso em 31 mar 2026.

Opera Mundi. https://operamundi.uol.com.br/israel-x-palestina/israel-nega-condicoes-de-vida-as-mulheres-em-gaza-acusa-anistia-internacional/. Acesso em 31 mar 2026.

G1. https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/03/14/bombardeio-a-escola-no-ira-morte-de-criancas-e-pressao-sobre-trump.ghtml. Acesso em 31 mar 2026.

https://www.brasildefato.com.br/2026/03/04/discurso-do-ocidente-nao-vai-salvar-as-mulheres-iranianas-e-sim-promover-guerra-diz-diretora-executiva-do-bdf/. Acesso em 31 mar 2026.

I Relatório de Islamofobia no Brasil. https://www.ambigrama.com.br/_files/ugd/ffe057_6fb8d4497c4748f8961c92a546c5b3fc.pdf.  Acesso em 31 mar 2026.

Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2023-03/mulheres-sao-maioria-das-vitimas-de-islamofobia-no-brasil. Acesso em 31 mar 2026.

Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-03/ataque-escola-de-meninas-no-ira-expoe-os-horrores-da-guerra Acesso em 1 abr2026

ICL

https://iclnoticias.com.br/eua-enviam-plano-de-paz-e-ira-rebate/#:~:text=O%20que%20diz%20o%20plano,e%20destinados%20apenas%20%C3%A0%20autodefesa. Acesso em 1 abr 2026

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Foto de capa: Unplash

Pastor de Santa Catarina propaga mentiras sobre governo do Brasil colaborar na criação de bomba atômica do Irã

Desde o início do último ataque de Israel ao Irã, em 13 de junho passado, muitos conteúdos falsos pró-Israel que atrelam o governo brasileiro ao conflito bélico têm circulado em ambientes digitais religiosos. Um deles tem como base a justificativa dada por Israel para realizar o ataque, que ocasionou a morte de quase 500 iranianos e feriu mais de 1.500 até o fechamento desta matéria. Israel propaga que realizou um “ataque preventivo” para impedir que o Irã desenvolva uma bomba atômica, apesar de não existirem elementos que comprovem tal projeto. 

Neste contexto, passaram a circular publicações digitais que afirmam que o governo federal, na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, forneceu urânio para o Irã – componente necessário para a criação de bombas nucleares. O conteúdo foi propagado por políticos e influenciadores, compartilhado por usuários das plataformas digitais e veiculado na forma de notícia por mídias que servem à disseminação de desinformação da direita política. As publicações usam de tom apelativo, alegando que os Estados Unidos estariam investigando tal apoio ao Irã e retaliariam o Brasil, sendo Lula culpado por colocar o país na guerra. 

Entre os propagadores deste conteúdo com amplo alcance está o pastor da Igreja do Porto de Cristo (Tijucas/SC) Sandro Rocha. Um vídeo foi publicado por ele, com a divulgação desta pauta, em 16 de junho passado. A veiculação se deu em duas contas do pastor no TikTok, identificadas por codinomes (uma delas com o termo “news”), nas quais o religioso discorre sobre temas diversos alinhados à direita extremista. O vídeo viralizou e foi compartilhado por muitos perfis de mídias sociais e em grupos de WhatsApp. 

O que é falso nestas afirmações

Os conteúdos circulantes afirmam que os Estados Unidos estariam investigando o fornecimento de urânio ao Irã, com base na presença de dois navios iranianos no porto da cidade do Rio de Janeiro, em fevereiro-março de 2023. A este caso é adicionado um vídeo com fala do presidente Lula, em reunião da cúpula dos Brics, em agosto de 2023, destacando a importância do Irã e o convite para que integrasse o grupo, o que justificaria o apoio para a criação da bomba.

Os dois navios militares do Irã de fato atracaram no Rio de Janeiro, em 2023, com autorização da Marinha, publicada no Diário Oficial da União. A atracação de navios militares em serviço, originados de quaisquer países, nos portos brasileiros é prática comum, desde que seguido o protocolo da Marinha brasileira, como ocorreu nesse caso. Não há registro de que esses navios do Irã tenham recebido carga com qualquer conteúdo.

Já o trecho de vídeo com a fala do presidente Lula, diz respeito a entrevista concedida pelo presidente na 15ª Cúpula do Brics (sigla da aliança de países formada por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), realizada de 22 a 24 de agosto de 2023, em Joanesburgo, na África do Sul. O vídeo de 52 segundos, publicado no Youtube pelo portal Metrópoles, em agosto de 2023, destaca, de forma crítica, Lula descrevendo o convite para que o Irã e outras seis nações integrassem aquele grupo de países. 

Em nota publicada neste 17 de junho, a Secretaria de Comunicação Social do governo federal informou que as publicações referentes a este tema são todas falsas, com base nas seguintes informações:
1. O Brasil é signatário de diversos tratados internacionais onde se compromete em não fornecer material nuclear para fins armamentistas. Desde 1998, o Brasil é parte do Tratado sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP). O TNP tem como objetivo promover o desarmamento nuclear geral e completo, impedir a proliferação das armas nucleares e fomentar a cooperação no uso pacífico da energia nuclear. Aberto para assinatura em 1968, o tratado entrou em vigor em 1970. Em 11 de maio de 1995, o TNP foi prorrogado por tempo indeterminado.

2. O controle da atividade nuclear no Brasil é realizado pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e não há qualquer negócio com o Irã neste quesito nem jamais houve.

Registros do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) demostram que as exportações do Brasil para o Irã são de milho e soja. 

Todas as principais agências e projetos de checagem de conteúdo no Brasil publicaram sobre a falsidade deste conteúdo.

Pastor é conhecido propagador de desinformação

O pastor Sandro Rocha acumula uma longa lista de casos de desinformação religiosa e política nas redes sociais, e já foi checado pelo Bereia. Com forte presença digital, ele utiliza lives e vídeos sensacionalistas em múltiplas plataformas para disseminar conteúdos falsos sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e outras figuras públicas, sempre sob um discurso que mistura crença religiosa e teorias conspiratórias.

Após a eleição de Lula, em 2022, Rocha passou a divulgar em seus vídeos que o presidente eleito havia morrido e sido substituído por um sósia. Na época, ele chegou a declarar: “Luiz Inácio Lula da Silva está morto e já está no quinto dos infernos”, diante de uma audiência de mais de 280 mil pessoas. A gravação foi amplamente difundida, e o trecho republicado no TikTok ultrapassou dois milhões de visualizações. Segundo o jornal catarinense Razão, o episódio resultou em uma intimação ao pastor pela Polícia Federal.

Rocha também compartilhou conteúdos desmentidos por diversas agências de checagem. No segundo turno das eleições de 2022, ele publicou no YouTube um tuíte falso atribuído a Fernando Haddad, originalmente desmentido em 2018. No mesmo vídeo, divulgou outra falsidade: que Lula teria incentivado a entrega de armas pela população em 2023. Além disso, Rocha já foi alvo de ao menos duas checagens do Projeto Comprova por propagar conteúdos enganosos de teor político.

Em uma delas, o pastor foi desmentido por afirmar que o drone usado para lançar fezes e urina em um comício de Lula em Minas Gerais,em 2022, teria sido contratado pelo próprio PT, em uma suposta estratégia de autopromoção. Em outra, inventou que o governo Lula teria descoberto a maior reserva de gás natural do mundo no Paraná, mas que o presidente teria criado o Parque Nacional do Iguaçu no local para impedir a exploração e beneficiar Evo Morales, ex-presidente da Bolívia.

O hábito do pastor de divulgar o que anuncia como “profecias” também chamou a atenção de pesquisadores. Em artigo publicado pela Revista de Estudos da Religião (REVER), intitulado “Fake profecias: a desinformação embalada em mensagem divina nas eleições presidenciais de 2022”, os pesquisadores Karla Patriota e Rafael Dantas analisaram vídeos com predições do pastor. Em um deles, Rocha narra visões de manifestações com fumaça, rodovias paralisadas e multidões com rostos pintados, anunciando o retorno de Jair Bolsonaro à presidência como parte de um “plano espiritual”. Ele chegou a prever a morte de Lula antes do final de 2022.

Segundo o estudo, as chamadas “fake profecias” de Sandro Rocha e outros pastores exemplificam o uso da autoridade religiosa como ferramenta de desinformação, mobilizando crenças e simbologias religiosas para reforçar discursos políticos e teorias conspiratórias.

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Bereia classifica a alegação de que o governo brasileiro, sob a gestão do presidente Lula, forneceu urânio ao Irã para a construção de uma bomba atômica como falsa. As publicações que veiculam essa afirmação manipulam informações com conteúdo verdadeiro, como a atracação de navios iranianos no Brasil e a participação do Irã em reuniões do Brics, para sugerir uma colaboração inexistente.

De acordo com a apuração, não há qualquer evidência de fornecimento de material nuclear por parte do Brasil ao Irã. O país é signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares e não possui histórico de cooperação com fins armamentistas com o Irã. Os conteúdos analisados também foram desmentidos por órgãos oficiais do governo federal, além de múltiplas agências e projetos de checagem.

Bereia alerta para o conteúdo veiculado pelo pastor Sandro Rocha, ele tem histórico recorrente de publicação de desinformação com exploração do sentimento religioso e político.

Referências

Agência Brasil https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2025-06/brasil-condena-ataque-de-israel-contra-o-ira-violacao-de-soberania  Acesso 17 jun 2025

BBC 

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy0j0jkxqydo

Acesso 17 jun 2025

Governo Federal

https://www.gov.br/mre/pt-br/delbrasonu/paz-e-seguranca-internacional/desarmamento-e-nao-proliferacao#:~:text=Desde%201998%2C%20o%20Brasil%20%C3%A9,uso%20pac%C3%ADfico%20da%20energia%20nuclear Acesso 17 jun 2025

https://www.in.gov.br/web/dou/-/despacho-decisorio-mb-n-12-de-23-de-fevereiro-de-2023-465773903 Acesso 17 jun 2025

Comprova

https://projetocomprova.com.br/publica%C3%A7%C3%B5es/parque-do-iguacu-nao-possui-reserva-de-gas-e-foi-criado-por-vargas-nao-por-lula/ Acesso 17 jun 2025

Coletivo Bereia

https://coletivobereia.com.br/perfis-religiosos-repercutem-conteudo-falso-sobre-morte-de-lula/ Acesso 17 jun 2025

UOL confere

https://noticias.uol.com.br/confere/ultimas-noticias/2022/10/11/tuite-falso-de-haddad-sobre-a-venezuela-volta-a-circular-4-anos-depois.htm Acesso 17 jun 2025

PUC-SP

https://revistas.pucsp.br/index.php/rever/article/view/65154/45505 Acesso 17 jun 2025

Jornal Razão

https://jornalrazao.com/seguranca/pastor-de-sao-joao-batista-diz-ter-canal-direto-com-deus-e-garante-que-lula-morreu/#google_vignette Acesso 17 jun 2025

https://projetocomprova.com.br/publica%C3%A7%C3%B5es/parque-do-iguacu-nao-possui-reserva-de-gas-e-foi-criado-por-vargas-nao-por-lula/ Acesso 17 jun 2025

Cientista político e ONG desinformam sobre boicote do Brasil ao discurso do primeiro-ministro de Israel na ONU

Publicações sobre a participação do Brasil na Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), na última sexta (27), ganharam relevância nas mídias sociais, em especial em espaços digitais religiosos. No Instagram, uma postagem do cientista político André Lajst, em parceria com a StandWithUs Brasil (organização educacional sobre Israel), afirma que as delegações de Brasil, Cuba, Irã, Turquia, Arábia Saudita e Venezuela se retiraram do plenário durante o discurso da delegação de Israel no órgão. 

Na legenda da imagem, Lajst diz que o ato é uma demonstração de que a ONU se transformou em uma plataforma para o antissemitismo e que o Brasil seguiu o “viés anti-Israel” da organização. O cientista político afirma, ainda, que algumas delegações que deixaram o salão “possuem um grave histórico de violações de direitos humanos, a exemplo do Irã, Arábia Saudita, Venezuela e Cuba”. A deputada federal católica Bia Kicis (PL-DF) compartilhou a publicação em seu perfil no Instagram.

Imagem: Reprodução/Instagram

Boicote e plenário vazio 

Bereia levantou o que foi reportado pelas mídias de notícias sobre o discurso do primeiro- ministro de Israel na ONU. De acordo com o Jornal Nacional, da Rede Globo, ao menos 12 delegações se tiraram do salão da Assembleia Geral em sinal de protesto ao discurso primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu. Essa foi a primeira vez que o Brasil boicotou um discurso na ONU, e, segundo o jornal, a instrução foi para que os diplomatas saíssem do local antes da entrada do premier israelense no plenário.

Segundo o Estadão, a ordem partiu do Ministro de Relações Exteriores Mauro Vieira, e foi motivada não só pela escalada do conflito no Oriente Médio, protagonizado por Israel, mas também pela morte de dois brasileiros nas recentes ofensivas de Netanyahu no Líbano. 

Em 25 de setembro, dois dias antes do discurso do primeiro-ministro, o Itamaraty confirmou a morte de Ali Kamal Abdallah, de 15 anos, primeiro brasileiro vitimado em um ataque de Israel ao Líbano. No dia do protesto, uma segunda morte foi confirmada: Mirna Raef Nasser, de 16 anos, estava em casa quando uma explosão atingiu o local no início daquela semana.

Em vídeo publicado pelo jornal The Guardian, é possível notar que membros das delegações começam deixar o local assim que o nome do premier israelense foi anunciado – o que contraria a afirmação de que o protesto ocorreu no meio do discurso. Por outro ângulo, um vídeo da agência AFP mostra que muitos lugares já estavam vazios antes da movimentação.

Analisando as imagens, Bereia verificou que os assentos das seguintes delegações estavam vazios: Turquia; Santa Lúcia; Paraguai; Nepal; Mauritânia; Madagascar; Argélia; Macedônia do Norte; Libéria; Namíbia; Nauru; Jordânia; Kuwait.

As ausências não significam adesão automática ao protesto, pois não é possível determinar em que momento os diplomatas deixaram do local, mas, além do Brasil, há confirmação de que no caso de Malásia, Indonésia e Turquia a saída foi intencional. Imagens do discurso do primeiro-ministro do Paquistão, que falou imediatamente antes de Benjamin Netanyahu, mostram que muitas delegações já haviam deixado o plenário. 

Imagem: Reprodução/ Youtube

A situação não foi diferente após o discurso do premier israelense: a primeira-ministra de Barbados também encarou um auditório parcialmente vazio.

Imagem: Reprodução/ Youtube

Netanyahu pede paz em meio aos piores ataques dos últimos 20 anos

Nos registros em vídeo, Netanyahu foi vaiado no início. Ele fez críticas ao Irã, a quem chamou de “maldição”,  falou sobre uma “reconciliação histórica” entre árabes e judeus, defendeu o que chamou de “mentiras e calúnias” sobre seu país. Netanyahu expôs uma demonstração de força diante da escalada do conflito no Líbano, onde o premier afirma “não ter escolha e ter todo o direito”.

Enquanto Netanyahu discursava, o número de vítimas dos bombardeios de Israel no Líbano nos cinco dias anteriores chegou a 700, mais da metade do número de mortos na guerra de 2006. A ofensiva de Israel contra o Hamas matou mais 40 mil palestinos nos primeiros 10 meses de conflito, marcado por ataques a campo de refugiados, hospitais, escolas, comboio de ajuda humanitária e civis desarmados.  

Diante deste cenário, Israel sofre duras críticas de toda a comunidade internacional e da ONU, que, em março de 2024, afirmou ter motivos para sustentar que o país comete genocídio na Faixa de Gaza. Em julho deste ano, o principal tribunal das Nações Unidas considerou ilegal a ocupação de Israel em territórios palestinos e pediu a suspensão da construção de assentamentos israelenses na região.

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Bereia classifica a publicação de André Lajst e da organização Stand with Us como enganosa. Apesar de se basear em informações verdadeiras sobre o boicote do Brasil ao premier israelense, Lajst divulga desinformação para reforçar mensagem pró-governo israelense. Em primeiro lugar, afirma que a delegação brasileira se retirou do plenário da Assembleia Geral da ONU durante o discurso de Netanyahu, quando, de acordo com diplomatas ouvidos pela imprensa brasileira, ela nem estava presente quando o primeiro-ministro foi anunciado. 

Em segundo lugar, a publicação coloca o Brasil em um suposto grupo de países que teria deixado o plenário. Como Bereia verificou, o grupo de países ausentes é muito maior do que o que foi listado nos perfis do Instagram. A seleção apresentada é composta por países que recebem frequentes críticas públicas a respeito de suas políticas interna e externa. Colocar o Brasil no grupo selecionado oferece a leitores e seguidores uma mensagem negativa como se o país se alinhasse às mesmas tendências políticas, o que não é factual. 

Em terceiro lugar, a publicação reduz o gesto dos países a antissemitismo e descarta a dimensão política do protesto na Assembleia da ONU, associado aos fatos recentes, como a violenta ação no Líbano que vitimou centenas de civis, incluindo dois adolescentes brasileiros. 

Essa imprecisão e a omissão de um contexto importante para a compreensão de uma questão tão complexa leva o público a uma percepção enganosa dos fatos.

Referências 

StandWithUs

https://www.standwithus.com/brazil-about-us Acesso em 30 set 2024

The Guardian

https://www.theguardian.com/world/video/2024/sep/27/delegates-walk-out-of-un-general-assembly-chamber-as-benjamin-netanyahu-takes-podium-video Acesso em 30 set 2024

G1

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2024/09/27/no-discurso-do-primeiro-ministro-de-israel-na-onu-delegacoes-do-brasil-e-de-outras-nacoes-deixam-o-plenario-em-protesto.ghtml Acesso em 30 set 2024

Reuters

https://www.reuters.com/world/middle-east/netanyahu-says-israel-seeks-peace-fighting-life-2024-09-27/ Acesso em 01 out 2024

Estadão

https://www.estadao.com.br/internacional/brasil-deixa-plenario-antes-de-discurso-de-binyamin-netanyahu-na-assembleia-geral-da-onu/ Acesso em 01 out 2024

CNN Brasil

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/itamaraty-confirma-morte-de-segundo-adolescente-brasileiro-no-libano/ Acesso em 30 set 2024

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/israel-abre-fogo-mata-e-fere-centenas-que-esperavam-por-comida-em-gaza/#:~:text=Pelo%20menos%20112%20pessoas%20morreram,da%20Saúde%20palestino%20em%20Gaza. Acesso em 02 out 2024

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/ataque-a-comboio-humanitario-foi-sistematico-carro-a-carro-diz-fundador-de-ong/ Acesso em 02 out 2024

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/ataque-aereo-israelense-contra-escola-da-onu-em-gaza-deixa-dezenas-de-mortos-dizem-autoridades-de-hospital/ Acesso em 02 out 2024

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/discurso-netanyahu-assembleia-onu-delegacoes-deixam-plenario/ Acesso em 30 set 2024

Instagram  

https://www.instagram.com/p/DAcRsJWp1P9/?igsh=MXcxMGw1ZGV0ZG1yag== Acesso em 30 set 2024

https://www.instagram.com/p/DAbdsUgRDhe/?igsh=MW91MTU4NzJ2OTg0NQ== Acesso em 30 set 2024

Youtube

https://youtu.be/w0b0dAb81qQ?si=QgS7TEWxG3LBbLIB Acesso em 02 out 2024

https://www.youtube.com/watch?v=ARZGgK1x4oM Acesso em 02 out 2024

https://www.youtube.com/watch?v=lTMm8BYRG4E Acesso em 02 out 2024

https://www.youtube.com/watch?v=aUvWnTesK3w&t=1588s Acesso em 02 out 2024

ONU News

https://news.un.org/pt/story/2024/09/1838336 Acesso em 02 out 2024

Nexo Jornal

https://www.nexojornal.com.br/extra/2024/09/27/benjamin-netanyahu-na-onu-boicote-brasil-ataques-contra-o-libano Acesso em 02 out 2024

Monitor do Oriente

https://www.monitordooriente.com/20240927-discurso-de-netanyahu-na-onu-e-marcado-por-vaias-e-saida-de-diplomatas/ Acesso em 02 out 2024

Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2024-03/relatora-da-onu-diz-que-israel-comete-genocidio-na-faixa-de-gaza Acesso em 02 out 2024 

https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2024-03/ataque-de-israel-hospital-em-gaza-faz-quatro-mortos-e-17-feridos#:~:text=Ataque%20de%20Israel%20a%20hospital%20em%20Gaza%20faz%20quatro%20mortos%20e%2017%20feridos,-Exército%20israelense%20visava&text=Um%20ataque%20das%20forças%20militares,Mundial%20de%20Saúde%20(OMS).Acesso em 02 out 2024

BBC News Brasil

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cn33r5lkkn4o Acesso em 02 out 2024

Euronews

https://pt.euronews.com/2024/07/19/tribunal-da-onu-considera-ilegal-a-ocupacao-dos-territorios-palestinianos-por-israel Acesso em 02 out 2024

Capa: Reprodução/Youtube

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