
Viralizou nas redes digitais, nos primeiros dias deste abril de 2026, um vídeo da pastora da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo (INSEJEC) Valnice Milhomens no qual ela afirma que os evangélicos devem “tomar o poder” no Brasil. No conteúdo, a líder religiosa também estabelece paralelos entre o cenário político brasileiro e o dos Estados Unidos, ao afirmar que acontecimentos políticos naquele país tendem a se repetir no Brasil.
O vídeo ainda inclui convite para uma marcha prevista para 25 de abril, em Brasília, data em que a capital federal celebra seu aniversário. Diante da ampla circulação do material e do contexto pré-eleitoral, o Bereia verificou a autenticidade da fala e apurou informações sobre a mobilização anunciada.
O conteúdo do vídeo
O vídeo que circula nas redes é uma gravação da participação de Valnice Milhomens como convidada na Vitoriosas Conference: Geração em Oração, congresso feminino promovido pela Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), presidida pelo pastor Silas Malafaia. O evento ocorreu em março de 2026. Na divulgação oficial do congresso, a presença da pastora foi apresentada como celebridade em um momento de destaque.
Durante a fala, Valnice Milhomens afirma ter recebido uma visão sobre o futuro do país e associa o papel da igreja à ocupação de espaços estratégicos da sociedade. Em um dos trechos, declara: “Eu tive uma visão e vi que os céus da nação serão limpos para que o povo se entregasse a Jesus e começamos a posicionar servos de Deus em todas as áreas de influência da sociedade.”
Em outro momento, a pastora faz referência ao cenário político recente do país e sugere que houve um “recuo” da igreja após um período de avanço institucional: “Nós avançamos tanto, nós conquistamos tanto… Chegamos a um período dessa nação em que eu dizia: ‘Meu Deus, parece que estamos sonhando’. Quantas vezes eu viverei para ver um presidente da República chamando a nação para orar? Nós vimos.”
Na sequência, a líder religiosa adota uma linguagem de guerra espiritual e faz autocrítica ao comportamento do segmento evangélico: “A igreja pecou, a igreja falhou, a igreja errou, porque a igreja cometeu um grande erro de guerra: ficar celebrando. Quando um exército guerrilheiro conquista algo, não pode ficar celebrando, porque aquele que perdeu vai reunir todas as forças para um golpe fatal. Foi isso que aconteceu no Brasil.”

Imagem: Vídeo da pastora Valnice Milhomens durante o evento na ADVEC. Reprodução: Instagram
A marcha
A data mencionada por Valnice Milhomens para participação em marcha faz referência ao evento Million Women Brasil [Um Milhão de Mulheres Brasil], marcado para o dia 25 de abril, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. A mobilização integra a programação da semana de celebração do aniversário da capital federal, comemorado oficialmente em 21 de abril.
De acordo com a divulgação oficial, o encontro está previsto para ocorrer das 9h às 19h e é apresentado nas redes digitais como um “ato de clamor pela nação”. Em vídeos publicados na página do evento, as organizadoras afirmam que os participantes permanecerão no local por dez horas em oração, jejum e adoração. Em uma das gravações, a convocação declara: “estaremos aqui 10 horas, orando, clamando, adorando e bendizendo o nome do Senhor”.

Na página oficial da mobilização, o convite estabelece um paralelo explícito com um evento semelhante realizado nos Estados Unidos. A publicação afirma:
“No dia 12 de outubro de 2024, testemunhamos um marco histórico: milhares de pessoas se reuniram nos Estados Unidos para jejuar, orar e interceder por sua nação. O impacto desse clamor já pode ser visto, e seus frutos se estendem para além das fronteiras.”
De fato, o evento é uma versão brasileira do movimento A Million Women, criado pelo líder evangélico estadunidense Lou Engle, conhecido por fundar o movimento de oração e jejum The Call [O Chamado], voltado a “oração e jejum por questões morais e espirituais em diversas nações” . Ativo desde os anos 70, ele é uma figura central em grandes mobilizações religiosas com tom político, como o movimento de jovens The Send [O Envio], que chegou ao Brasil em 2020. Engle tem forte conexão com evangélicos brasileiros, com participação frequente em conferências em igrejas como a Lagoinha. Em 2024, Eagle criou o movimento para mulheres A Million Women [Um milhão de mulheres] para “orar pelos Estados Unidos”, em expressiva campanha pela reeleição de Donald Trump (Partido Republicano), bem como por apoio às ações bélicas do Estado de Israel.

No site do evento no Brasil, a convocação transfere o sentido do evento para o contexto brasileiro:
“E agora, nós queremos te convidar a estar conosco no dia 25 de abril de 2026. Dessa vez, nos reuniremos em Brasília-DF para mais um tempo de clamor, arrependimento e proclamação do nome de Jesus sobre esta terra. A Million Women Brasil é um chamado de intercessão e mobilização profética, convocando Esters e Mordecais [em referência ao relato bíblico da resistência da liderança judaica durante o exílio sob domínio persa] de todas as regiões a se posicionarem para um tempo como este.”
Em outra postagem, a organização utiliza referências bíblicas para reforçar o caráter mobilizador do encontro e convoca os participantes para uma atuação direta na vida pública e espiritual do país:
“Assim como Ester se levantou para interceder por seu povo, este é o nosso tempo de nos erguermos em um clamor profético pela nossa nação. Estamos nos reunindo para derrubar altares e levantar a bandeira da intercessão e você é parte essencial deste movimento. Venha assumir seu lugar neste exército de intercessores.”

A linguagem utilizada nas publicações atribui ao evento um forte tom simbólico, político e religioso, ao associar oração, arrependimento e jejum à ideia de transformação nacional. Em outras postagens, a mensagem reforça esse enquadramento ao afirmar: “Como nação, nos prostraremos diante do Senhor em arrependimento, oração e jejum. Porque somente um povo de joelhos pode mudar o destino de uma nação.”

O conteúdo da convocação, portanto, ultrapassa a proposta de um encontro estritamente religioso e articula elementos de mobilização pública, nacionalismo religioso e expectativa de mudança política, especialmente em um contexto de ano eleitoral.
Valnice Milhomens: Histórico de aparições públicas e mobilização política
A fala recente de Valnice Milhomens não surge de forma isolada. A trajetória pública da líder religiosa é marcada por manifestações de forte teor político, especialmente em períodos eleitorais, além de declarações proféticas que seguem em circulação nas redes.
1992: a profecia sobre a volta de Jesus
Um dos discursos mais conhecidos de Valnice Milhomens remonta a 1992. Em uma participação televisiva, ela afirmou que a volta de Jesus à Terra ocorreria em 2007. A declaração repercutiu amplamente e ainda hoje circula nas redes digitais, frequentemente acompanhada de críticas de cristãos que a classificam como “falsa profetiza”.
Esse episódio consolidou a imagem pública da pastora como uma liderança associada a discursos proféticos e previsões sobre acontecimentos futuros.


Imagens: Comentários sobre o discurso de Milhomens em 1992. Reprodução: Youtube
2014: apoio explícito a Marina Silva
Durante a eleição presidencial de 2014, Valnice Milhomens manifestou apoio público à candidatura de Marina Silva, então candidata à Presidência.
À época, a pastora participou de mobilizações religiosas em apoio à ex-senadora e divulgou mensagem em que defendia oração, jejum e mobilização dos fiéis em favor da candidatura.
Em um dos textos divulgados, afirmou:
“O Pai falou-me que é possível a sua serva Marina ser eleita ainda este ano, mas depende de duas coisas: MUITO TRABALHO NA MOBILIZAÇÃO E NO JEJUM E ORAÇÃO”
A aproximação entre fé e processo eleitoral já se fazia presente naquele momento, com a defesa explícita de uma candidatura identificada com o segmento evangélico.
2022: campanha religiosa em ano eleitoral
A presença de Valnice nas redes voltou a ganhar força em 2022, durante a eleição presidencial. Em vídeo que ultrapassou 300 mil visualizações no Instagram, a líder religiosa orientou os fiéis a não votarem em candidatos com programas “contrários ao Reino de Deus”.
Vestida com as cores verde, amarelo e azul, associadas à campanha de Jair Bolsonaro, a pastora declarou que cada eleitor “responderia diante de Deus pelo seu voto”.
Naquele período, ela também promoveu movimentos de oração e jejum nos dias que antecederam o segundo turno, em uma atuação pública novamente associada ao calendário eleitoral.
2026: marcha e discurso sobre “tomada de poder”
Em 2026, mais um ano eleitoral, a nova repercussão ocorre em torno da marcha convocada para Brasília e da fala sobre os evangélicos “tomarem o poder”, em paralelo com referências de caráter teocrático.
O histórico revela um padrão de maior presença midiática e mobilização religiosa em anos de eleição ou em momentos de forte disputa política, o que reforça o contexto em que a fala atual circula.
Teologia do Domínio e os “Sete montes”
O discurso de Valnice Milhomens dialoga com a chamada Teologia do Domínio, corrente difundida entre evangélicos de vários ramos.
Essa perspectiva defende que os cristãos devem exercer influência direta sobre os principais campos da vida social, conhecidos como os “Sete montes” ou sete esferas da sociedade: família, religião, educação, mídia, artes e entretenimento, negócios e governo.
Nessa lógica, o objetivo é conquistar esses espaços para os valores do que é entendido como “Reino de Deus”, inclusive com incidência sobre o campo político e institucional.
A referência à transformação da nação por meio de mobilização espiritual, intercessão e presença no governo se conecta diretamente a essa teologia, frequentemente mencionada pela pastora em suas pregações e eventos públicos.
Teocracia, teologia do domínio e uso político da fé
Para aprofundar a análise sobre a repercussão do vídeo, o Bereia ouviu o doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) Alonso Gonçalves, com estudos de pós-doutorado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Bereia questionou o pesquisador se a declaração da pastora, ao afirmar que os evangélicos devem “tomar o poder”, guarda semelhanças com o regime dos aiatolás no Irã, como propagado em várias publicações sobre o vídeo. Ele pondera que a comparação não se sustenta do ponto de vista conceitual, embora a linguagem de conflito esteja presente no discurso.
Para Gonçalves, o regime iraniano se estrutura como uma teocracia de matriz islâmica, na qual o poder político se organiza sob a autoridade de um líder supremo, representante religioso máximo do Estado.
“Embora os termos de ‘guerra’ estejam presentes na fala da pastora Valnice Milhomens, não entendo que tenha alguma relação próxima com o regime dos aiatolás como está hoje no Irã. O regime dos aiatolás parte de uma teocracia, ou seja, o governo de Allah cujo representante não é a comunidade, mas sim o líder supremo”, explica.
Para o pesquisador, a fala de Valnice Milhomens se aproxima mais do que, no contexto brasileiro, é conhecido como Teologia do Domínio, corrente de origem estadunidense que defende a ocupação das principais esferas da vida social por lideranças cristãs.
“A fala de Milhomens está permeada pelo que conhecemos no Brasil como teologia do domínio. Essa teologia tem provocado líderes midiáticos a um discurso de guerra cultural e espiritual”, afirma.
Gonçalves destaca que, ao mencionar as “sete montanhas de influência”, a pastora faz referência direta à formulação difundida pelo pregador norte-americano Johnny Enlow, que propõe a atuação da igreja sobre sete áreas consideradas estratégicas da sociedade: família, religião, educação, mídia, artes, economia e governo.
Na avaliação do especialista, essa estrutura discursiva se organiza em torno de uma lógica dualista de enfrentamento entre “bem” e “mal”, característica de setores do fundamentalismo evangélico contemporâneo. “Essa é a base da fala da pastora. Uma fala de bem contra o mal, discurso típico do fundamentalismo evangélico que só aumentou nos últimos anos.”
Ao comentar o uso da linguagem religiosa em contexto eleitoral, Alonso Gonçalves afirma que a instrumentalização da fé para fins político-partidários não é um fenômeno recente. “Milhomens vem fazendo isso há muito tempo, assim como outros líderes evangélicos. Desde 2018, líderes evangélicos estão instrumentalizando a fé e a denominação para o uso político-partidário. Não há mais uma clara distinção entre culto e palanque; candidato e irmão em Cristo.”
Para ele, a convocação da marcha em Brasília, apresentada como ato de oração pela nação, também deve ser lida dentro desse contexto. “Trata-se de uma equação muito simples: política com apelo espiritual.” O pesquisador acrescenta que, em anos eleitorais, esse tipo de discurso tende a ganhar maior visibilidade porque o segmento evangélico passou a ser compreendido como um grupo decisivo nas disputas majoritárias. “Depois das eleições de 2018, percebeu-se que os evangélicos contribuem muito para definir uma eleição majoritária. Por isso, neste ano, ouviremos muito sobre ‘família’ enquanto tema a ser explorado, alimentando novamente a disputa simbólica entre o bem e o mal.”
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O Bereia classifica, portanto, que o vídeo em que Valnice Milhomens chama evangélicos para “tomar o poder do país” como verdadeiro. A peça corresponde a uma gravação de fala da pastora feita durante a Vitoriosas Conference: Geração em Oração, em março de 2026. A circulação do conteúdo nas redes reforça um discurso político-religioso recorrente em anos eleitorais, marcado pela mobilização de fiéis em torno da ideia de influência direta sobre os rumos do país. A convocação para a marcha em Brasília e a linguagem de “tomada de poder” se inserem em uma tradição já observada em outras aparições públicas da líder religiosa, especialmente em contextos de disputa política, articulando fé, nacionalismo religioso e projeto de ocupação das esferas de poder.
Referências:
Million Women Brasil. https://www.amillionwomen.com.br/. Acesso em 8 abr 2026.
Estadão. https://www.estadao.com.br/politica/eleicoes/pastores-declaram-apoio-a-marina-citando-que-projeto-da-candidata-vem-de-deus/. Acesso em 8 abr 2026.
BBC News Brasil. https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63209750. Acesso em 8 abr 2026.
Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=H0ZEgVwcaYg&t=113s. Acesso em 8 abr 2026.
Guiame. https://guiame.com.br/gospel/mundo-cristao/o-pai-falou-me-que-e-possivel-marina-ser-eleita-afirma-valnice-milhomens.html. Acesso em 8 abr 2026.
Lagoinha Alphaville, Youtubehttps://docs.google.com/document/d/1O4QEWrqq2LJ3jjaSdY4NrDS9XWCfn0U9/edit Acesso em 13 abr 2026


