Vídeo com celebridade pentecostal que chama evangélicos para “tomar o poder” do país viraliza

Viralizou nas redes digitais, nos primeiros dias deste abril de 2026, um vídeo da pastora da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo (INSEJEC) Valnice Milhomens no qual ela afirma que os evangélicos devem “tomar o poder” no Brasil. No conteúdo, a líder religiosa também estabelece paralelos entre o cenário político brasileiro e o dos Estados Unidos, ao afirmar que acontecimentos políticos naquele país tendem a se repetir no Brasil.

O vídeo ainda inclui convite para uma marcha prevista para 25 de abril, em Brasília, data em que a capital federal celebra seu aniversário. Diante da ampla circulação do material e do contexto pré-eleitoral, o Bereia verificou a autenticidade da fala e apurou informações sobre a mobilização anunciada. 

O conteúdo do vídeo

O vídeo que circula nas redes é uma gravação da participação de Valnice Milhomens como convidada na Vitoriosas Conference: Geração em Oração, congresso feminino promovido pela Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), presidida pelo pastor Silas Malafaia. O evento ocorreu em março de 2026. Na divulgação oficial do congresso, a presença da pastora foi apresentada como celebridade em um momento de destaque.

Durante a fala, Valnice Milhomens afirma ter recebido uma visão sobre o futuro do país e associa o papel da igreja à ocupação de espaços estratégicos da sociedade. Em um dos trechos, declara: “Eu tive uma visão e vi que os céus da nação serão limpos para que o povo se entregasse a Jesus e começamos a posicionar servos de Deus em todas as áreas de influência da sociedade.”

Em outro momento, a pastora faz referência ao cenário político recente do país e sugere que houve um “recuo” da igreja após um período de avanço institucional: “Nós avançamos tanto, nós conquistamos tanto… Chegamos a um período dessa nação em que eu dizia: ‘Meu Deus, parece que estamos sonhando’. Quantas vezes eu viverei para ver um presidente da República chamando a nação para orar? Nós vimos.”

Na sequência, a líder religiosa adota uma linguagem de guerra espiritual e faz autocrítica ao comportamento do segmento evangélico: “A igreja pecou, a igreja falhou, a igreja errou, porque a igreja cometeu um grande erro de guerra: ficar celebrando. Quando um exército guerrilheiro conquista algo, não pode ficar celebrando, porque aquele que perdeu vai reunir todas as forças para um golpe fatal. Foi isso que aconteceu no Brasil.”

Imagem: Vídeo da pastora Valnice Milhomens durante o evento na ADVEC. Reprodução: Instagram

A marcha

A data mencionada por Valnice Milhomens para participação em marcha faz referência ao evento Million Women Brasil [Um Milhão de Mulheres Brasil], marcado para o dia 25 de abril, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. A mobilização integra a programação da semana de celebração do aniversário da capital federal, comemorado oficialmente em 21 de abril.

De acordo com a divulgação oficial, o encontro está previsto para ocorrer das 9h às 19h e é apresentado nas redes digitais como um “ato de clamor pela nação”. Em vídeos publicados na página do evento, as organizadoras afirmam que os participantes permanecerão no local por dez horas em oração, jejum e adoração. Em uma das gravações, a convocação declara: “estaremos aqui 10 horas, orando, clamando, adorando e bendizendo o nome do Senhor”.

Imagem: Post de divulgação do evento. Reprodução: Instagram

Na página oficial da mobilização, o convite estabelece um paralelo explícito com um evento semelhante realizado nos Estados Unidos. A publicação afirma:

“No dia 12 de outubro de 2024, testemunhamos um marco histórico: milhares de pessoas se reuniram nos Estados Unidos para jejuar, orar e interceder por sua nação. O impacto desse clamor já pode ser visto, e seus frutos se estendem para além das fronteiras.”

De fato, o evento é uma versão brasileira do movimento A Million Women, criado pelo líder evangélico estadunidense Lou Engle, conhecido por fundar o movimento de oração e jejum The Call [O Chamado], voltado a “oração e jejum por questões morais e espirituais em diversas nações” . Ativo desde os anos 70, ele é uma figura central em grandes mobilizações religiosas com tom político, como o movimento de jovens The Send [O Envio], que chegou ao Brasil em 2020. Engle tem forte conexão com evangélicos brasileiros, com participação frequente em conferências em igrejas como a Lagoinha. Em 2024, Eagle criou o movimento para mulheres A Million Women [Um milhão de mulheres] para “orar pelos Estados Unidos”, em expressiva campanha pela reeleição de Donald Trump (Partido Republicano), bem como por apoio às ações bélicas do Estado de Israel.

Imagem: Extrato de vídeo do canal do Youtube Lagoinha Alphaville: Lou Eagle prega sermão na Igreja Lagoinha Alphaville, em 26 out 2025. 

No site do evento no Brasil, a convocação transfere o sentido do evento para o contexto brasileiro:

“E agora, nós queremos te convidar a estar conosco no dia 25 de abril de 2026. Dessa vez, nos reuniremos em Brasília-DF para mais um tempo de clamor, arrependimento e proclamação do nome de Jesus sobre esta terra. A Million Women Brasil é um chamado de intercessão e mobilização profética, convocando Esters e Mordecais [em referência ao relato bíblico da resistência da liderança judaica durante o exílio sob domínio persa] de todas as regiões a se posicionarem para um tempo como este.”

Em outra postagem, a organização utiliza referências bíblicas para reforçar o caráter mobilizador do encontro e convoca os participantes para uma atuação direta na vida pública e espiritual do país:

“Assim como Ester se levantou para interceder por seu povo, este é o nosso tempo de nos erguermos em um clamor profético pela nossa nação. Estamos nos reunindo para derrubar altares e levantar a bandeira da intercessão e você é parte essencial deste movimento. Venha assumir seu lugar neste exército de intercessores.”

Imagem: Post de divulgação do evento. Reprodução: Instagram

A linguagem utilizada nas publicações atribui ao evento um forte tom simbólico, político e religioso, ao associar oração, arrependimento e jejum à ideia de transformação nacional. Em outras postagens, a mensagem reforça esse enquadramento ao afirmar: “Como nação, nos prostraremos diante do Senhor em arrependimento, oração e jejum. Porque somente um povo de joelhos pode mudar o destino de uma nação.”

Imagem: Post de divulgação do evento. Reprodução: Instagram

O conteúdo da convocação, portanto, ultrapassa a proposta de um encontro estritamente religioso e articula elementos de mobilização pública, nacionalismo religioso e expectativa de mudança política, especialmente em um contexto de ano eleitoral.

Valnice Milhomens: Histórico de aparições públicas e mobilização política

A fala recente de Valnice Milhomens não surge de forma isolada. A trajetória pública da líder religiosa é marcada por manifestações de forte teor político, especialmente em períodos eleitorais, além de declarações proféticas que seguem em circulação nas redes.

1992: a profecia sobre a volta de Jesus

Um dos discursos mais conhecidos de Valnice Milhomens remonta a 1992. Em uma participação televisiva, ela afirmou que a volta de Jesus à Terra ocorreria em 2007. A declaração repercutiu amplamente e ainda hoje circula nas redes digitais, frequentemente acompanhada de críticas de cristãos que a classificam como “falsa profetiza”.

Esse episódio consolidou a imagem pública da pastora como uma liderança associada a discursos proféticos e previsões sobre acontecimentos futuros.

Imagens: Comentários sobre o discurso de Milhomens em 1992. Reprodução: Youtube 

2014: apoio explícito a Marina Silva

Durante a eleição presidencial de 2014, Valnice Milhomens manifestou apoio público à candidatura de Marina Silva, então candidata à Presidência.

À época, a pastora participou de mobilizações religiosas em apoio à ex-senadora e divulgou mensagem em que defendia oração, jejum e mobilização dos fiéis em favor da candidatura.

Em um dos textos divulgados, afirmou:

“O Pai falou-me que é possível a sua serva Marina ser eleita ainda este ano, mas depende de duas coisas: MUITO TRABALHO NA MOBILIZAÇÃO E NO JEJUM E ORAÇÃO”

A aproximação entre fé e processo eleitoral já se fazia presente naquele momento, com a defesa explícita de uma candidatura identificada com o segmento evangélico.

2022: campanha religiosa em ano eleitoral

A presença de Valnice nas redes voltou a ganhar força em 2022, durante a eleição presidencial. Em vídeo que ultrapassou 300 mil visualizações no Instagram, a líder religiosa orientou os fiéis a não votarem em candidatos com programas “contrários ao Reino de Deus”.

Vestida com as cores verde, amarelo e azul, associadas à campanha de Jair Bolsonaro, a pastora declarou que cada eleitor “responderia diante de Deus pelo seu voto”.

Naquele período, ela também promoveu movimentos de oração e jejum nos dias que antecederam o segundo turno, em uma atuação pública novamente associada ao calendário eleitoral.

2026: marcha e discurso sobre “tomada de poder”

Em 2026, mais um ano eleitoral, a nova repercussão ocorre em torno da marcha convocada para Brasília e da fala sobre os evangélicos “tomarem o poder”, em paralelo com referências de caráter teocrático.

O histórico revela um padrão de maior presença midiática e mobilização religiosa em anos de eleição ou em momentos de forte disputa política, o que reforça o contexto em que a fala atual circula.

Teologia do Domínio e os “Sete montes”

O discurso de Valnice Milhomens dialoga com a chamada Teologia do Domínio, corrente difundida entre evangélicos de vários ramos.

Essa perspectiva defende que os cristãos devem exercer influência direta sobre os principais campos da vida social, conhecidos como os “Sete montes” ou sete esferas da sociedade: família, religião, educação, mídia, artes e entretenimento, negócios e governo.

Nessa lógica, o objetivo é conquistar esses espaços para os valores do que é entendido como “Reino de Deus”, inclusive com incidência sobre o campo político e institucional.

A referência à transformação da nação por meio de mobilização espiritual, intercessão e presença no governo se conecta diretamente a essa teologia, frequentemente mencionada pela pastora em suas pregações e eventos públicos.

Teocracia, teologia do domínio e uso político da fé

Para aprofundar a análise sobre a repercussão do vídeo, o Bereia ouviu o doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) Alonso Gonçalves, com estudos de pós-doutorado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Bereia questionou o pesquisador se a declaração da pastora, ao afirmar que os evangélicos devem “tomar o poder”, guarda semelhanças com o regime dos aiatolás no Irã, como propagado em várias publicações sobre o vídeo.  Ele pondera que a comparação não se sustenta do ponto de vista conceitual, embora a linguagem de conflito esteja presente no discurso.

Para Gonçalves, o regime iraniano se estrutura como uma teocracia de matriz islâmica, na qual o poder político se organiza sob a autoridade de um líder supremo, representante religioso máximo do Estado.

“Embora os termos de ‘guerra’ estejam presentes na fala da pastora Valnice Milhomens, não entendo que tenha alguma relação próxima com o regime dos aiatolás como está hoje no Irã. O regime dos aiatolás parte de uma teocracia, ou seja, o governo de Allah cujo representante não é a comunidade, mas sim o líder supremo”, explica.

Para o pesquisador, a fala de Valnice Milhomens se aproxima mais do que, no contexto brasileiro, é conhecido como Teologia do Domínio, corrente de origem estadunidense que defende a ocupação das principais esferas da vida social por lideranças cristãs.

“A fala de Milhomens está permeada pelo que conhecemos no Brasil como teologia do domínio. Essa teologia tem provocado líderes midiáticos a um discurso de guerra cultural e espiritual”, afirma.

Gonçalves destaca que, ao mencionar as “sete montanhas de influência”, a pastora faz referência direta à formulação difundida pelo pregador norte-americano Johnny Enlow, que propõe a atuação da igreja sobre sete áreas consideradas estratégicas da sociedade: família, religião, educação, mídia, artes, economia e governo.

Na avaliação do especialista, essa estrutura discursiva se organiza em torno de uma lógica dualista de enfrentamento entre “bem” e “mal”, característica de setores do fundamentalismo evangélico contemporâneo. “Essa é a base da fala da pastora. Uma fala de bem contra o mal, discurso típico do fundamentalismo evangélico que só aumentou nos últimos anos.”

Ao comentar o uso da linguagem religiosa em contexto eleitoral, Alonso Gonçalves afirma que a instrumentalização da fé para fins político-partidários não é um fenômeno recente. “Milhomens vem fazendo isso há muito tempo, assim como outros líderes evangélicos. Desde 2018, líderes evangélicos estão instrumentalizando a fé e a denominação para o uso político-partidário. Não há mais uma clara distinção entre culto e palanque; candidato e irmão em Cristo.”

Para ele, a convocação da marcha em Brasília, apresentada como ato de oração pela nação, também deve ser lida dentro desse contexto. “Trata-se de uma equação muito simples: política com apelo espiritual.” O pesquisador acrescenta que, em anos eleitorais, esse tipo de discurso tende a ganhar maior visibilidade porque o segmento evangélico passou a ser compreendido como um grupo decisivo nas disputas majoritárias. “Depois das eleições de 2018, percebeu-se que os evangélicos contribuem muito para definir uma eleição majoritária. Por isso, neste ano, ouviremos muito sobre ‘família’ enquanto tema a ser explorado, alimentando novamente a disputa simbólica entre o bem e o mal.”

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O Bereia classifica, portanto, que o vídeo em que Valnice Milhomens chama evangélicos para “tomar o poder do país” como verdadeiro. A peça corresponde a uma gravação de fala da pastora feita durante a Vitoriosas Conference: Geração em Oração, em março de 2026. A circulação do conteúdo nas redes reforça um discurso político-religioso recorrente em anos eleitorais, marcado pela mobilização de fiéis em torno da ideia de influência direta sobre os rumos do país. A convocação para a marcha em Brasília e a linguagem de “tomada de poder” se inserem em uma tradição já observada em outras aparições públicas da líder religiosa, especialmente em contextos de disputa política, articulando fé, nacionalismo religioso e projeto de ocupação das esferas de poder.

Referências:

Million Women Brasil. https://www.amillionwomen.com.br/. Acesso em 8 abr 2026. 

Estadão. https://www.estadao.com.br/politica/eleicoes/pastores-declaram-apoio-a-marina-citando-que-projeto-da-candidata-vem-de-deus/. Acesso em 8 abr 2026. 

BBC News Brasil. https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63209750. Acesso em 8 abr 2026. 

Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=H0ZEgVwcaYg&t=113s. Acesso em 8 abr 2026. 

Guiame. https://guiame.com.br/gospel/mundo-cristao/o-pai-falou-me-que-e-possivel-marina-ser-eleita-afirma-valnice-milhomens.html. Acesso em 8 abr 2026. 

Lagoinha Alphaville, Youtubehttps://docs.google.com/document/d/1O4QEWrqq2LJ3jjaSdY4NrDS9XWCfn0U9/edit Acesso em 13 abr 2026

Evangélicos à direita sobre as mortes nos Complexos da Penha e do Alemão (RJ)

*Publicado originalmente no blog Religião em Debate


Ganhou grande repercussão o pronunciamento do pastor assembleiano e deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ) sobre as dezenas de mortes e de feridos provocadas pela “megaoperação” policial nos complexos de favelas da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, em 28 de outubro de 2025.

Otoni relatou que ao menos quatro membros de sua igreja foram mortos, apesar de não terem qualquer relação com o crime organizado. Em seu discurso, defendeu a ordem e o combate às facções que destroem vidas nas favelas e na cidade, mas não se calou diante do massacre ocorrido. Com emoção, lembrou que seu filho frequenta a região para evangelizar e que teme por sua vida diante de ações policiais como aquela. Um homem negro na favela, “se estiver de sandalha havaiana e correndo, ainda por cima”, é automaticamente visto como bandido pelo Estado e pela sociedade em geral, lamentou o deputado.

Em seu pronunciamento fez questão de dizer que é um pastor do tipo “não progressista”. Esse seria um modo de limpeza moral própria diante do duplo estigma sobre “evangélicos de esquerda ou progressistas”: a de não serem “verdadeiramente evangélicos” (Vital da Cunha 2021), o de estarem “ao lado dos bandidos”, tal como extremistas de direita costumam dizer em relação aos defensores de direitos humanos no Brasil e em outros países das Américas e Europa (Passos e Sanchez 2025) .

Seu irmão de fé e deputado federal, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), também não ficou em silêncio. Durante sessão na Câmara, a bancada do PL, seu partido, propôs um minuto de aplausos às mortes resultantes da operação. Sóstenes reagiu de imediato: “Vocês estão loucos”, disse. Parecia se levantar ali uma voz pastoral, de um político identificado à direita radical, mas que diante dos fatos se posicionava em favor de mulheres e homens de sua base religiosa que sofreram com a perda de parentes, amigos e vizinhos, sem direito de defesa, sem voz, sem visibilidade. No entanto, diante da oportunidade políticavislumbrada pelo seu partido, voltou-se ao apoio da chamada “megaoperação” enfatizando o discurso oficial do governador do Rio, Claudio Castro e dos chefes de polícia.

Os moradores de favelas cariocas, privadas de cidadania plena, foram trazidos à luz por Otoni de Paula e até por Sóstenes Cavalcante no lampejo humanista e pastoral que teve diante da bancada do PL em festa. Parlamentares historicamente comprometidos com os direitos humanos, como Benedita da Silva e Henrique Vieira, e diversas organizações da sociedade civil estiveram e estão ao lado dos moradores reconhecendo-lhes o sofrimento diante da operação que se prolongou por muitas horas deixando o cheiro de pólvora no ar, como diziam os moradores, dos corpos nas ruas e das idas e vindas dilacerantes ao IML a procura de parentes e amigos.

Causa espanto que um jovem ex-morador de favela e também evangélico, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), se posicione de forma tão irresponsável, apoiando ainda mais violência e arbitrariedade ao defender a “bukelização” do Rio de Janeiro e do Brasil. Ele e os que celebram as mortes estão contra o povo das favelas e contra os próprios policiais, que são insuflados por discursos de honra e heroísmo para se arriscarem em nome de corporações que não valorizam suas vidas. Quando o chefe da Polícia se refere aos agentes de campo como “heróis”, revela indiretamente a precariedade em que trabalham — gladiadores modernos convocados para um espetáculo que atende às elites políticas, policiais e financeiras, todas comprometidas com seus próprios interesses, distantes da justiça social.

Diante de tudo isso, onde esteve Silas Malafaia? A igreja que herdou do sogro — e que lhe rendeu projeção nacional — está justamente na Penha, onde ocorreu a tragédia. Os fiéis de sua igreja, moradores locais e da redondeza, deviam estar aguardando sua palavra de consolo, sua indignação, seu clamor aos céus — como ele tantas vezes fez em outras causas. Onde estava a voz potente de Malafaia para exigir justiça pelas famílias destroçadas? Onde estava a sua veemência em defesa da paz e da competência do Estado do Rio que o projetou politicamente e que garantiu tantos votos a seus aliados? Nada havia sido publicado até sábado, quatro dias depois daquela tragédia. Por esse motivo, fui à celebração em sua igreja, ADVEC na Penha.

Era o primeiro domingo após as operações. O culto era da Santa Ceia e a igreja estava repleta de fiéis. O templo, fundado em 2014, tem capacidade para 6 mil pessoas e creio que era esse o total de pessoas reunidas naquele domingo, dia 01 de novembro de 2025, véspera do feriado de finados. Não havia uma cadeira vaga nem na nave principal e nem no mezanino. O culto das 9:30 foi celebrado por Silas Malafaia. Ao final de quase 3 horas ininterruptas de culto com momentos de louvores, dízimo, ofertas, apresentação de novos projetos da igreja, de agendas de eventos, de produtos e da realização de sua pregação, houve uma consideração sobre o ocorrido. Silas pediu um jejum pela paz e, em seguida, disse que “a polícia que mais mata no Brasil é do PT, é a polícia da Bahia. O Rio de Janeiro é a quinta capital mais violenta. Não é a primeira. É a quinta”. Frisou ainda que é contra a morte de qualquer pessoa concluindo: “Se eu sou contra o aborto, como posso ser a favor da morte de um adulto?”. Essa foi a sua lógica argumentativa. Contudo, frisou três vezes: “Em qualquer lugar do mundo alguém que levanta uma arma para um policial é morto na hora. Eu sou contra qualquer morte, mas na polícia americana, a mais preparada do mundo, se alguém levantar uma arma o policial pode matar. Então, sou contra. Mas no Rio não tem traficantes, são narcoterroristas”.

Toda a ambiguidade narrativa em relação ao número de mortes na megaoperação chama atenção ao corroborar um crescendo de pânico em relação ao crime organizado. No limite, esse pânico ao narcoterrorismo” se conecta a ações supra legais do governo de Donald Trump no Caribe e a manobras de militares próximas a países Sul-Americanos que estariam perdendo o controle sobre “narcoterroristas”. É verdade que o crime violento mudou muito em 10 anos e o antigo clientelismo que marcava muito a relação de traficantes com moradores no território hoje dá lugar a um medo crescente, a uma insatisfação com o achaque, com as intimidações e violências contra moradores. Mas a quem serve o uso contínuo do termo narcoterrorismo no contexto político de radicalização nacional e internacional?

Depois do tom político-religioso do posicionamento de Silas Malafaia no púlpito, solicitou que um pastor amigo na plateia fosse ao púlpito clamar por paz para o Rio e para o Brasil. Uma rápida oração foi feita com a participação de uma plateia muito engajada. Em seguida um louvor dava fim à celebração.

Oração pela Paz – ADVEC. Foto: Christina Vital

Não há dúvida sobre a crescente violência na cidade, sobretudo nos bairros da Zona Norte, Zona Oeste e Baixada Fluminense. As pessoas dizem repetidamente que “não aguentam mais”. No entanto, no contexto fluminense hoje, a venda de soluções parece vir daqueles mesmos que também produzem as situações de violência. Parecendo o argumento de Bauman em seu célebre livro Medo: o causador do problema é aquele que se apresenta na venda das soluções. Isso pode dar certo? Em momentos dramáticos como este, o joio se separa do trigo. A sociedade não pode se calar diante do crime, da corrupção, do abuso de poder — e da hipocrisia, termo que tantos policiais e moradores de favelas cansados disso tudo gostam usar. As lideranças religiosas podem ter um papel central na mediação entre poder público e população, na cooperação por políticas de paz. No entanto, várias delas tem se entregado aos interesses políticos de modo a se tornarem cegos para as dores de suas bases que clamam por justiça – não por “justiceiros” que servem a quem lhes paga mais.

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PASSOS, JOÃO DÉCIO; SANCHEZ, WAGNER L (Org.) . A salvação da Pátria
amada; religião e extrema direita no Brasil. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2024. v. 1. 310p .

VITAL DA CUNHA, Christina. “Irmãos contra o Império: evangélicos de esquerda nas
eleições 2020 no BRASIL”. DEBATES DO NER. v.21, p.13 – 80, 2021.

Indígena? Evangélica? As controvérsias em torno de Sílvia Waiãpi, deputada que teve mandato cassado pelo TRE-AP

Sob processo por uso indevido de recursos públicos durante a campanha eleitoral de 2022, a deputada federal Silvia Waiãpi (PL-AP) teve o mandato cassado, em 19 de junho de 2024, pelo Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (TRE-AP),

A decisão se baseou em provas de que verbas da candidatura foram usadas para custear um procedimento estético de harmonização facial. Alegando preconceito por ser indígena e da Amazônia, a deputada recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e permanece no cargo enquanto aguarda o resultado.

Diante da repercussão do caso, Bereia levantou o controverso histórico da parlamentar — que inclui sua atuação política, discursos religiosos, identidade indígena contestada e omissões em sua biografia — para oferecer a leitores e leitoras as informações que permeiam o caso.

Imagem: Portal G1

Perfil 

Silvia Nobre Lopes é oficial da reserva do exército, se apresenta como indígena do povo Wajãpi e foi eleita deputada federal pelo Partido Liberal (PL), no estado do Amapá em 2022, com 5.435 votos. Antes de entrar para a política institucional, participou da equipe de transição do governo Bolsonaro, em 2018, exerceu funções na Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e foi indicada pelo então presidente da República para a coordenação de promoção de políticas indígenas na Secretaria Especial de Cultura, em 2019.

Entusiasta do bolsonarismo, Silvia Waiãpi se apresenta como “Defensora da Mulher, da Criança e da Família, Embaixadora da Paz e Republicana Conservadora”.

Imagem: Instagram

A ausência de menções explícitas à sua fé em discursos ou entrevistas contrasta com sua participação em eventos religiosos evangélicos, o que levanta questões sobre a relação entre religiosidade, identidade e estratégia política, objeto desta matéria. 

A construção de uma cruzada: “indígena, conservadora e erguida por Deus

Durante o culto “Uma Noite de Celebração”, realizado na sede daAssembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), no Rio de Janeiro, em dezembro de 2022, a deputada federal Silvia Waiãpi protagonizou um longo testemunho emotivo e estrategicamente estruturado. Combinando tragédia pessoal, superação e exaltação patriótica, a parlamentar  se apresenta como filha da floresta, mãe solo, militar, atleta, evangélica e patriota. A fala foi transmitida ao vivo no canal da igreja no YouTube e segue o modelo clássico de narrativa de superação, comum tanto nos testemunhos em cultos evangélicos quanto na retórica motivacional do estilo coach.

Imagem: Youtube

Silvia Waiãpi começa se identificando como “uma filha do Amapá, uma mulher da floresta, uma filha do Norte do Brasil” e afirma ter sido menina de rua no Rio de Janeiro, onde dormia em praças e vendia revistas velhas e pedras. 

Relata ter passado por momentos de extrema vulnerabilidade e sofrimento na juventude. Como marco de superação, conta que, ao decidir reagir à dor, calçou os tênis e saiu para correr. Em suas palavras: “Acabei virando, em dois meses, uma atleta profissional. Fui atleta do Vasco da Gama.”

A partir dessa virada, a deputada conta que conquistou uma bolsa de estudos, formou-se em fisioterapia e posteriormente ingressou nas Forças Armadas, onde se tornou tenente —  segundo ela, é a “primeira mulher indígena a alcançar o posto de oficial”. 

A história é contada de forma linear e épica, seguindo o modelo de superação pessoal típico de testemunhos religiosos e da lógica de autoajuda, em que a dor é convertida em disciplina, esforço e vitória individual.

Durante o culto, a deputada reforça sua autoridade mencionando uma longa lista de especializações: afirma ser formada em política e estratégia pela Escola Superior de Guerra, em liderança estratégica pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro, e possuir formação em defesa química, biológica, radiológica e nuclear, transporte aeromédico, gestão financeira e orçamentária em organizações públicas, entre outras. 

A enumeração impressiona pela quantidade e pelo tom técnico, contribuindo para a construção de uma imagem pública credenciada, de excelência, mérito e competência — frequentemente associada ao ideal da “mulher que venceu sozinha”.

Ao final da fala, Silvia Waiãpi declara: “Hoje eu sou a sua deputada federal pelo estado do Amapá. A primeira mulher indígena conservadora e de direita, que foi erguida por Deus para defender a sua nação e lutar pela liberdade do seu povo.”

O tom do testemunho intensifica-se com uma convocação de guerra espiritual, em que a deputada afirma enfrentar “principados e potestades” e pede orações pelas mulheres que estão “rompendo grilhões”. A performance política e espiritual visa criar uma figura quase mítica — uma mulher forjada na dor e abençoada por Deus para conduzir uma missão redentora.

Rejeição pública do povo Wajãpi: notas de repúdio à identidade reivindicada pela deputada 

A identidade indígena reivindicada por Silvia Nobre é formalmente contestada pelo próprio povo Wajãpi. Duas notas públicas divulgadas pelo Conselho das Aldeias Wajãpi – Apina, principal instância representativa da Terra Indígena Wajãpi, acusam a deputada federal de utilizar indevidamente o nome da etnia para obter legitimidade política.

Foto: Facebook – Conselho das Aldeias Wajãpi – Apina

Na primeira nota, divulgada em 2022, quando a então candidata foi eleita, o conselho afirma: [Silvia Nobre] “não representa nosso povo Wajãpi, não faz parte das nossas organizações representativas e não pode falar em nosso nome”. A nota critica a aliança da candidata eleita pelo PL com o ex-presidente Jair Bolsonaro e rejeita seu uso político da identidade indígena. Os líderes ressaltam que, na votação de primeiro turno na Terra Indígena Wajãpi, Lula obteve 378 votos, enquanto Silvia Nobre recebeu apenas 31.

Além disso, a carta menciona postagens de parentes não indígenas da deputada, que afirmam que ela foi criada por uma família não indígena em Macapá e que não teria pertencimento ao povo Wajãpi. A  história da “menina indígena que desapareceu na década de 1970”, adotada por alguns poucos apoiadores, é refutada pela maioria dos líderes locais.

Na segunda nota, datada de 15 de maio de 2023, o conselho indígena afirma de forma categórica: “Sabemos que ela não é Wajãpi, ela está se aproveitando do nosso nome para ganhar força política”.

Segundo os signatários, Silvia Nobre Lopes não vive na Terra Indígena Wajãpi, não participa da organização social ou política do povo, nem foi eleita por seus representantes. O documento reforça que somente pessoas legitimamente escolhidas na Assembleia Geral do Apina têm autorização para falar em nome do povo Wajãpi.

A nota ainda denuncia que a deputada tem defendido propostas contrárias às posições tradicionais do povo, como: apoio ao agronegócio e à mineração em terras indígenas; flexibilização da demarcação de territórios e abertura para garimpo ilegal. Por fim, o conselho declara: “Proibimos a senhora Silvia Nobre Lopes de fazer atividades político-partidárias na Terra Indígena Wajãpi.”

Reportagem publicada pelo UOL neste  junho de 2025 reforça as contradições sobre a origem indígena de Silvia Waiãpi. O texto revela que documentos oficiais, familiares e lideranças do povo Wajãpi negam a versão apresentada pela deputada. A mãe registrada em cartório afirma ser a genitora biológica e nega que a deputada tenha nascido em aldeia indígena. A reportagem também aponta inconsistências no uso da língua waiãpi por parte da parlamentar e destaca que sua autodeclaração como indígena não é reconhecida pela comunidade.

A Silvia Waiãpi  de 2011 e 2012: espiritualidade indígena, sobrevivência urbana e uma bandeira por conquistar

Em 2011, Silvia Nobre participou do Programa do Jô, na TV Globo, onde foi apresentada como a primeira mulher indígena a integrar as Forças Armadas brasileiras. A entrevista revela uma mulher profundamente conectada com a tradição e espiritualidade de seu povo, marcada por experiências de dor, mas com um discurso ainda distante da retórica evangélica e politicamente conservadora que adotaria anos mais tarde.

Ao longo da conversa no programa de entrevistas, Sílvia Nobre descreve o funcionamento das línguas indígenas, menciona troncos linguísticos, detalha costumes e explica que teve uma filha aos 13 anos, algo que apresenta como parte de uma estrutura cultural própria: “A menina quando menstrua, para nós, a natureza está dizendo que ela já é mulher.”

Também afirma ter fugido da aldeia aos 14 anos para estudar, passando a viver nas ruas do Rio de Janeiro. Relata com emoção o momento em que vendeu uma pedra do seu lugar de origem para conseguir se alimentar por duas semanas. Essa experiência marcaria o início de sua trajetória empreendedora: “Eu pensei, se eu consegui vender uma pedra, então posso vender qualquer coisa.”

A entrevistada conta que vendeu revistas e livros de porta em porta, declamou poesia no Teatro Villa-Lobos e foi incentivada por intelectuais a estudar arte. 

O trecho mais simbólico da entrevista ocorre quando Silvia Nobre fala da infância nas escolas da cidade, quando não podia hastear a bandeira do Brasil por ser indígena: “Eu passava a minha infância inteira puxando na saia das professoras, pedindo, por favor, para hastear aquela bandeira. Mas ninguém deixava. Só as crianças brancas.”

Esse desejo de aceitação e reconhecimento nacional se transforma, na fala dela, em um propósito de vida: “Prometi para mim mesma que, acontecesse o que acontecesse, o meu país um dia iria se orgulhar de mim.”

Ainda que a noção de superação pessoal esteja presente, o discurso de 2011 é notavelmente diferente daquele apresentado em 2022 nos cultos evangélicos: não há menções a “voz profética”, “batalha espiritual” ou “missão divina”.

Em outra entrevista concedida ao apresentador Ronnie Von, em programa da TV Gazeta, em 2012, Silvia Nobre volta a apresentar sua trajetória como exemplo de superação e resiliência, mas sem nenhuma menção a afiliação religiosa institucional ou linguagem típica do evangelicalismo. 

Ao contrário, a entrevistada recorre a expressões ligadas à espiritualidade pessoal, à ancestralidade – “Eu acredito em espírito. Eu acredito que a floresta tem espírito. Que a folha tem espírito. Que a água tem espírito. Que os animais têm espírito.” – e a uma noção de missão coletiva voltada ao seu povo: “Minha missão? Eu acredito que seja mudar a história do meu povo. […] Eu só quero ser um exemplo, para que não só o povo indígena, mas o povo brasileiro possa olhar para mim e dizer: ‘eu também posso’.

Ao falar sobre dor e recuperação, Silvia Nobre compartilha uma filosofia de vida fortemente alinhada com o discurso de autoajuda, mas ainda marcada por uma espiritualidade não confessional: “O melhor do fundo do poço é quando você descobre que a única saída te obriga a erguer a cabeça e olhar para o alto.”

Essa fala, embora possa ser interpretada como referência a uma dimensão espiritual, não invoca a  linguagem típica das igrejas evangélicas — não há menções a Deus, Bíblia, fé cristã ou guerra espiritual. O que há é uma ênfase no exemplo, na vontade e na transformação pessoal como alicerces de uma jornada de superação — algo que Silvia Nobre ainda estrutura fora do campo religioso organizado.

Silenciada pelo próprio discurso: a atriz que desapareceu

Em novembro de 2018, a jornalista Júlia Barbon, da Folha de S.Paulo, traçou um perfil detalhado de Silvia Nobre após sua nomeação para a equipe de transição do governo Jair Bolsonaro. A reportagem resgata elementos fundamentais da trajetória da então tenente do Exército, compondo uma biografia multifacetada, mas que hoje vem sendo seletivamente editada pela própria parlamentar.

A matéria menciona os períodos como moradora de rua, atleta, fisioterapeuta, declamadora de poesia, militar e mãe solo, mas destaca sua formação em artes cênicas e atuação como atriz na TV Globo, onde trabalhou no figurino de A Muralha (2000), foi pesquisadora de texto na novela Uga Uga (2000) e teve seu papel mais conhecido como a empregada Domingas na minissérie Dois Irmãos (2017). 

Entretanto, a matéria traz uma informação incorreta, na novela Uga Uga, Silvia Nobre atuou como atriz e interpretou a “Índia Crocoká”

 

A atuação foi objeto de uma pesquisa crítica publicada pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), que analisa como a personagem foi usada de forma cômica e estereotipada, sem fala inteligível e com aparência grotesca, sendo alvo de insultos racistas e misóginos por parte dos protagonistas da trama. 

A autora da pesquisa Aquésia Maciel Góes argumenta que mesmo ao contratar uma atriz indígena, a televisão brasileira reproduz violências simbólicas, relegando essas mulheres a papéis de submissão, ignorância ou hipersexualização — mesmo quando as atrizes, como Silvia Nobre, possuem formação artística e experiência cênica.

A hoje deputada federal foi escalada para um papel ridicularizado, sem direito a fala compreensível (sem legenda), com dentes deformados e associada à feiura e à ignorância. A personagem é rejeitada por um dos protagonistas com falas como: “Vai raspar uma árvore pra ver se conserta esses dentes! e “É uma trombada de frente, mas não dá perda total no carro.”

Bereia avalia, com esta pesquisa, que a omissão dessa passagem da vida de Silvia Nobre pode ser compreendida como uma reestruturação estratégica de sua identidade pública.  Ela busca apagar as conexões com o universo artístico ou com personagens que contrariem os valores que hoje ela afirma defender.

A trajetória como atriz desapareceu completamente das falas mais recentes da deputada, especialmente em ambientes religiosos e de identidade conservadora, como o culto na ADVEC ou nos discursos em redes sociais. A omissão é significativa: o universo artístico — especialmente ligado à Rede Globo — costuma ser tratado com hostilidade no meio bolsonarista, sendo associado a pautas progressistas, “imoralidade” e oposição ideológica.

Harmonização facial e mandato cassado

Em junho de 2024, o Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (TRE‑AP) cassou o mandato da deputada federal Silvia Waiãpi por uso indevido de verba pública de campanha para um procedimento estético — uma harmonização facial no valor de aproximadamente R$ 9 mil durante as eleições de 2022 

Imagem: Jornal Folha de S.Paulo

A decisão foi unânime, baseada em provas robustas apresentadas pelo Ministério Público Eleitoral, incluindo recibos e o depoimento de um cirurgião-dentista. Silvia Waiãpi negou ter autorizado o procedimento, alegando falsificação de recibo e ausência de saída de valores da sua conta. Após recurso ao Tribunal Superior Eleitoral, o processo segue em tramitação. 

***

A deputada federal Silvia Waiãpi tem participação documentada em cultos evangélicos, como no púlpito da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), ao lado do pastor Silas Malafaia, onde se apresenta como “indígena, cristã e patriota”, recorrendo a termos da teologia evangélica como “voz profética” e “soldados da fé”. No entanto, em entrevistas anteriores, ela expressou crenças ligadas à espiritualidade indígena, à ancestralidade e à presença de espíritos da natureza — evidências de uma trajetória espiritual complexa e, possivelmente, em transição.

Apesar da forte presença em eventos religiosos evangélicos, não há menção explícita à sua filiação confessional atual, nem vínculo formal com igrejas. Já sua identidade indígena é formalmente contestada por lideranças do povo Wajãpi, que a acusam de se apropriar indevidamente do nome da etnia para fins políticos.

O levantamento do Bereia também aponta que trechos significativos da biografia da deputada foram apagados em sua atuação política recente — como a carreira artística na TV Globo, incluindo o papel estereotipado interpretado na novela Uga Uga. Ao mesmo tempo, documentos e depoimentos de familiares indicam divergências entre a versão da deputada e os relatos sobre sua origem e possível adoção

A trajetória de Silvia Waiãpi, construída entre apagamentos, disputas identitárias e discursos religiosos, segue no centro de controvérsias públicas — agora agravadas por um processo judicial sobre irregularidades na campanha que a levou à Câmara Federal e pode causar a perda definitiva de seu mandato parlamentar.

Referências: 

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2025/03/16/deputada-indigena-de-direita-que-perda-de-mandato-por-decisao-do-stf-e-fruto-de-preconceito.htm Acesso em: 20 Mai 2025  

https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2024-06/deputada-e-cassada-por-pagar-tratamento-estetico-com-dinheiro-publico Acesso em: 20 Mai 2025  

https://www.instagram.com/silviawaiapi/ Acesso em: 20 Mai 2025  

https://www.camara.leg.br/deputados/220579?fbclid=PAZXh0bgNhZW0CMTEAAackO7H8f2Veugw8dwgy-avdYTo9RwEsVYclliXKbC-pPRCkqYqcfgDjlJn7nQ_aem_K-mXPdqh9T2ZrrGsX2Sj0Q Acesso em: 20 Mai 2025  

https://apiboficial.org/ Acesso em: 20 Mai 2025  

https://apiboficial.org/2025/02/17/deputada-bolsonarista-silvia-nobre-e-repudiada-por-organizacoes-dos-wajapi-nao-representa-nosso-povo/ Acesso em: 20 Mai 2025   

https://www.abant.org.br/files/20230602_6479f4e7c5513.pdf Acesso em: 20 Mai 2025   

https://www.facebook.com/photo/?fbid=195060289750106&set=pb.100077384097360.-2207520000&locale=pt_BR Acesso em: 20 Mai 2025   

https://www.facebook.com/photo/?fbid=195060289750106&set=pb.100077384097360.-2207520000&locale=pt_BR Acesso em: 20 Mai 2025   

https://www.youtube.com/watch?v=bwVtA4LAkrQ Acesso em: 20 Mai 2025   

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/11/india-da-equipe-de-bolsonaro-foi-moradora-de-rua-atriz-e-atleta-antes-do-exercito.shtml Acesso em: 20 Mai 2025   

https://seer.ufrgs.br/EspacoAmerindio/article/download/71847/46223 Acesso em: 20 Mai 2025   

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/06/14/documentos-e-indigenas-contrariam-origem-narrada-por-deputada-do-pl.htm Acesso em: 20 Mai 2025   

https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2024-06/deputada-e-cassada-por-pagar-tratamento-estetico-com-dinheiro-publico  Acesso em: 20 Mai 2025   

“Império Malafaia”: reportagem especial com investigação sobre o perfil empresarial do pastor é lançada

Em reportagem especial lançada pelo Instituto Conhecimento Liberta (ICL) Notícias, sob o título “Império Malafaia”, o repórter investigativo Igor Mello, sob coordenação da jornalista Juliana Dal Piva, levantou a vida financeira do pastor da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia e de familiares do líder religioso. Nos últimos anos, Malafaia tem atuado como ativista político e representante da extrema direita brasileira. 

A investigação de Mello foi construída ao longo de 2024 e gerou uma grande matéria no portal, além de um podcast e documentário. De acordo com os documentos obtidos pela reportagem, Malafaia declarou à Receita Federal ter recebido um total de R$ 962 mil só no ano de 2018. “O dinheiro consta na declaração de Imposto de Renda que Malafaia fez em 2019. Nela, ele atribuiu os recursos à Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC) –igreja fundada por ele em 2010”, diz o texto. 

Tanto a declaração de IRPF de Malafaia quanto os demais documentos utilizados para a produção desta matéria fazem parte de um lote de mais de 30 mil páginas que a reportagem teve acesso para construir os quatro episódios de “Império Malafaia”, primeira temporada do Podcast “No Alvo” produto do portal ICL. 

Leia, ouça e assista no Portal ICL Notícias.

Bereia já checou inúmeras declarações enganosas e equivocadas do pastor Silas Malafaia. O líder da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo tem usado a desinformação como arma de comunicação e manipulação de seus seguidores para levá-los à direção que lhe convém. Em novembro de 2024, inclusive, foi condenado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo a publicar uma retratação pública após ser acusado de propagar desinformação contra o Partido dos Trabalhadores (PT). Em outubro do mesmo ano, Malafaia e o cantor evangélico Waguinho (PL) propagaram conteúdo falso em campanha para vereador no Rio de Janeiro, checado pelo Bereia

Acesse a lista completa de checagens que envolvem o nome do Pr. Silas Malafaia.

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