Pastores evangélicos mobilizam onda de mentiras sobre economia nas redes digitais

“Os economistas dizem que o Brasil está à beira de uma recessão”, “Bolsa família é esmola para quem vive às custas do Estado” – estas são frases proferidas pelo pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes e pela pastora pentecostal Valnice Milhomens, em vídeos publicados em mídias sociais, a partir deste 14 de setembro. Os conteúdos miram temas econômicos do país, em críticas ao atual governo que disputa reeleição neste pleito.

Como Bereia já divulgou, como parte da campanha Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade, mentiras sobre economia para convencimento de eleitores para o apoio a determinadas candidaturas têm sido recorrentes nos períodos eleitorais anteriores. Neste pleito em 2026, conteúdo desinformativo já vem sendo propagado desde 2025, com mentiras sobre o PIX, sobre preços de alimentos e outros temas que mobilizam pânico entre eleitores. 

Nesta segunda quinzena de setembro de 2026, a poucos dias das eleições, Bereia observa os vídeos destas lideranças religiosas como parte da mesma iniciativa de acionamento de medo no eleitorado evangélico, com base em falsidades. A equipe Bereia checou as peças digitais.

O vídeo do pastor Hernandes Dias Lopes

Uma mensagem intitulada “Como sair da crise financeira? foi publicada pelo pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes, no YouTube, em 7 de setembro”. Antes de recorrer ao livro bíblico de Provérbios para orientar os seguidores sobre trabalho, dinheiro e prosperidade, o religioso apresentou um diagnóstico da economia brasileira.

Imagem: Canal do YouTube do Pastor Hernandes Dias Lopes

Segundo Hernandes, o Brasil talvez nunca tenha vivido uma situação econômica “tão crítica”; “mais de 80% do Produto Interno Bruto” estaria comprometido com dívidas; mais de 80% das famílias estariam endividadas; pequenas e médias empresas  “colapsando”; e outras companhias “fugindo do Brasil” para se estabelecer no Paraguai. O pastor também classificou os juros como “altíssimos” e a carga tributária como “pesadíssima”. “A gastança parece não ter freios nem limites e o futuro é sombrio”, afirmou.

Uma semana depois, em 14 de setembro, Hernandes publicou outra mensagem na qual levou a leitura bíblica diretamente para a conjuntura política e institucional. Ao comentar o livro do profeta Miqueias, descreveu o Brasil como uma nação em profunda crise moral, falou em corrupção nos três Poderes, “aparelhamento” do Estado e articulação entre governantes, juízes e poder econômico.

Em determinado momento ressalta: “não estou falando do Brasil”, mas a mensagem é construída a partir da aproximação entre o contexto descrito pelo profeta e a realidade brasileira atual. No encerramento, diante do que apresenta como perda de confiança em governantes, legisladores e cortes, conclama a população brasileira a voltar-se para Deus.

Imagem: Publicação do perfil do Instagram do Pastor Hernandes Dias Lopes, 14 set 2026

Cortes das mensagens do pastor estão sendo propagados pelas plataformas digitais e compartilhados em grupos de WhatsApp de igrejas.

Bereia checou: o país vive uma situação econômica sem precedentes, como sugere a fala do pastor Hernandes? Enganoso!

O Brasil está realmente “à beira de uma recessão”? Mais de 80% do PIB está “comprometido com dívidas”? Mais de 80% das famílias estão endividadas? Há evidências de uma fuga significativa de empresas brasileiras para o Paraguai? 

Fatos e dados disponíveis não confirmam a ideia de uma economia brasileira à beira do colapso. Há problemas reais, como dívida pública elevada, endividamento das famílias, inadimplência empresarial e juros altos, mas o PIB seguiu crescendo em 2026. A afirmação de que mais de 80% do PIB estaria “comprometido com dívidas” confunde a relação entre dívida pública e PIB com recursos efetivamente destinados ao pagamento da dívida.

A informação de que mais de 80% das famílias estão endividadas é correta, embora isso não signifique que todas estejam inadimplentes. Também há investimentos de empresas brasileiras no Paraguai, mas não há evidências de uma “fuga” empresarial em massa. 

A caracterização da atual conjuntura como uma crise sem precedentes não encontra respaldo nos indicadores históricos, já que o país enfrentou recessões muito mais severas em períodos recentes, como 2015-2016 e 2020. 

Segundo o economista Teófilo Cavalcanti, ouvido pelo Coletivo Bereia, Hernandes defende uma “teologia do trabalho”, sendo veemente crítico da “teologia da prosperidade”. Entretanto, os indicadores recentes do mercado de trabalho brasileiro não sustentam a descrição de uma economia em situação próxima de recessão ou de deterioração sem precedentes, como afirma o pastor. Com base em dados do IBGE, publicados no jornal Valor Econômico, Cavalcanti destaca que, desde 2022, houve queda contínua do desemprego, aumento do número de pessoas ocupadas e de trabalhadores com carteira assinada, além de crescimento da renda média real.

De acordo com os números levantados pelo especialista para esta matéria, a taxa de desemprego caiu de 9,8% em maio de 2022 para 5,6% em maio de 2026, chegando a 5,3% em julho. No mesmo período, o número de trabalhadores com carteira assinada passou de 34,4 milhões para 39,3 milhões, enquanto a população ocupada cresceu em mais de seis milhões de pessoas.

Teófilo Cavalcanti também chama atenção para a evolução da renda. Em valores reais, a renda média do trabalhador passou de R$3.099, em maio de 2022, para R$3.726 em maio de 2026, crescimento próximo de 17%. Ele relaciona esse resultado tanto à melhora do mercado de trabalho quanto à política de valorização real do salário mínimo.

Na avaliação apresentada pelo economista, o desempenho do PIB também contrasta com a ideia de uma crise econômica inédita. O especialista calcula que, considerados os resultados de 2023 a 2025 e a projeção para 2026, o PIB poderá acumular crescimento superior a 11% no período, enquanto o PIB per capita avançaria perto de 9%. Para ele, esse desempenho representa uma mudança em relação ao longo período de baixo crescimento que marcou os anos anteriores.

A leitura do especialista, portanto, não nega problemas como o aumento do endividamento das famílias e da economia. O que ele questiona é a construção de um cenário exclusivamente negativo: ͢͢”se trabalho e renda são elementos centrais no discurso de Hernandes Dias Lopes, os indicadores de aumento do emprego, da formalização e da remuneração também deveriam fazer parte de qualquer diagnóstico da conjuntura econômica brasileira”.

Cavalcanti avalia que a caracterização da atual conjuntura como uma crise sem precedentes não encontra respaldo nos indicadores históricos, já que o país enfrentou recessões muito mais severas em períodos recentes, como 2015-2016 e 2020. 

O vídeo da pastora Valnice Milhomens

O segundo vídeo checado pelo Bereia foi publicado pela pastora Valnice Milhomens, da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo (INSEJEC) também no início da segunda quinzena de setembro de 2026. O conteúdo ganhou repercussão nas redes digitais por classificar o Bolsa Família como “esmola” e associar a dependência do benefício à falta de trabalho. Na publicação, a pastora defende que a autonomia econômica ocorre por meio do trabalho e afirma que não seria “libertador” viver “às custas do Estado”. 

Na publicação, a pastora questiona a existência do Bolsa Família e associa o recebimento do benefício à dependência do Estado. Na legenda do vídeo, ela afirma: “O povo brasileiro não precisa de esmolas! Oremos pelos próximos governantes da nossa nação”. 

Valnice Milhomens também afirma que o Bolsa Família “atinge milhões de brasileiros” e questiona se esse seria o “ideal de economia”. Em seguida, defende que a libertação econômica estaria associada ao trabalho e à obtenção de renda por meio da atividade profissional. Para ela, “não é libertador você viver às custas do Estado”, enquanto “ganhar o seu dinheiro pelo seu trabalho” seria uma forma de dignidade e de contribuição para a sociedade. 

Ao desenvolver o argumento, a pastora afirma ainda que “conservar alguém escravo” da esmola “não é o melhor” e relaciona o trabalho à elevação da autoestima. Até o momento da apuração, a publicação acumulava quase 90 mil visualizações e mais de 10 mil comentários em seu perfil no Instagram. A repercussão ocorre em torno de uma interpretação sobre o programa que desconsidera seus critérios de acesso, suas condicionalidades e os mecanismos previstos para a saída ou transição das famílias beneficiárias. 

Imagem: Publicação no perfil do Instagram da Pastora Valnice Milhomens, 16 set 2026

Bolsa Família é esmola? Falso!

O Bolsa Família é um programa de transferência de renda, e não uma doação eventual. Para ingressar, a família precisa estar inscrita no Cadastro Único e atender aos critérios de renda estabelecidos pelo programa. A transferência é acompanhada de condicionalidades relacionadas à saúde e à educação. Entre elas estão a vacinação e o acompanhamento nutricional de crianças menores de sete anos, o pré-natal de gestantes e a frequência escolar mínima de crianças e adolescentes.

Em março de 2025, o programa atendia mais de 20,5 milhões de famílias, com benefício médio de R$ 668,65. Naquele momento, mais de 3,11 milhões de famílias estavam na chamada Regra de Proteção, criada para evitar a retirada imediata do benefício quando a renda familiar aumenta.

A existência dessa regra é particularmente relevante para a afirmação feita no vídeo. O próprio desenho do programa prevê a transição das famílias para fora da política de transferência de renda quando sua situação econômica melhora. Desde julho de 2025, famílias que ultrapassam a renda de entrada, mas permanecem dentro do limite estabelecido para a Regra de Proteção, podem continuar recebendo 50% do benefício por determinado período, conforme sua situação de renda.

Famílias vivem às custas do Estado? Falso!

Os dados também mostram que o Bolsa Família não funciona como um benefício permanente para todos os seus integrantes. Em 2024, mais de 1,3 milhão de famílias deixaram o programa após melhorar de renda, segundo dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. Outras 2,2 milhões passaram para a Regra de Proteção naquele ano.

Em 2025, o movimento continuou. Segundo relatório de gestão do MDS, 2,5 milhões de famílias deixaram de receber o Bolsa Família entre janeiro e dezembro daquele ano. Destas, 1.552.041 saíram porque a renda por integrante ultrapassou o limite do programa, 29.498 solicitaram desligamento voluntário e 967.145 concluíram o período da Regra de Proteção.

Esses números ajudam a contextualizar a relação entre transferência de renda, trabalho e autonomia econômica. A própria existência da Regra de Proteção parte do reconhecimento de que o aumento da renda de uma família não significa, necessariamente, que ela tenha superado imediatamente uma situação de vulnerabilidade. O mecanismo permite uma transição antes do desligamento definitivo

Bolsa Família e cuidado com as famílias

A crítica publicada pela pastora também pode ser vista como uma contradição com a demanda sempre colocada por lideranças religiosas de que se deve proteger a família.  No caso do Bolsa Família, como o nome diz, é uma política pública que representa  cuidado com famílias em situação de vulnerabilidade. 

O programa público não se limita ao repasse financeiro: suas condicionalidades articulam transferência de renda com acompanhamento de saúde e permanência na escola. Na saúde, crianças menores de sete anos devem cumprir o calendário de vacinação e ter acompanhamento do estado nutricional, enquanto gestantes precisam realizar o pré-natal. Na educação, crianças, adolescentes e jovens beneficiários precisam cumprir uma frequência escolar mínima.

Esse desenho permite compreender o Bolsa Família como parte de uma política de proteção social, voltada não apenas à renda imediata, mas também à redução de situações que podem perpetuar a pobreza entre gerações. Estudo divulgado pelo MDS em parceria com a FGV apontou que 60,68% dos beneficiários que recebiam o programa em 2014 haviam deixado de recebê-lo até 2025; entre adolescentes de 15 a 17 anos, o percentual chegou a 71,25%.

Quem são estas lideranças evangélicas em campanha eleitoral?

Hernandes Dias Lopes é pastor colaborador da Igreja Presbiteriana de Pinheiros (IPP), em São Paulo, função que divide com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Pastor que ocupa muito as mídias impressas com vários livros e as digitais com vídeos e palestras, é diretor executivo da organização Luz para o Caminho (LPC), dedicada à produção de conteúdo religioso em livros, rádio, vídeo, internet e formação bíblica. 

Lopes construiu parte de sua identidade pública em oposição à chamada teologia da prosperidade. Em entrevista concedida ao jornal A Gazeta em 2011, reproduzida por diferentes páginas religiosas, criticou igrejas que prometiam enriquecimento e líderes que, segundo ele, exploravam a fé dos seguidores. 

Neste período eleitoral, o pastor tem investido na discussão de temas da economia. Em fevereiro passado, ele participou do PrimoCast, de Thiago Nigro, conhecido “influenciador” do campo das finanças e autoajuda”. O episódio foi estruturado em torno de “riqueza, dinheiro e fé”, com tópicos como mérito individual, desejo de enriquecer e “o que fazer para enriquecer segundo a Bíblia”. 

Imagem: Página do PrimoCast no YouTube

Lopes afirmou conhecer “centenas de pessoas” que receberiam o Bolsa Família e, por isso, não desejariam trabalhar, desenvolvendo o que classificou como uma “mentalidade de miséria”. Bereia checou este conteúdo do pastor. Logo depois, em abril, em outro vídeo de sua produção, ao comentar o mandamento “não furtarás”, o pastor voltou à formulação causal: “O trabalho produz riqueza, o furto, pobreza”. No mesmo artigo, associa a preguiça à apropriação do trabalho alheio e leva a interpretação bíblica para escândalos financeiros, instituições públicas e corrupção. 

Já a pastora Valnice Milhomens tem presença antiga em campanhas durante períodos eleitorais. Em 2014, a pastora manifestou apoio público à candidatura de Marina Silva à Presidência da República e associou a possibilidade de eleição da candidata à mobilização por meio de jejum e oração. Em 2022, voltou a se manifestar durante a disputa presidencial, quando orientou seguidores a não votarem em candidatos com programas que considerasse “contrários ao Reino de Deus” e relacionou o voto à responsabilidade religiosa, alinhada com a reeleição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). 

Em 2026, novamente em ano eleitoral, Valnice Milhomens passou a participar de mobilizações e discursos que relacionam a atuação de evangélicos à ocupação de espaços de influência na sociedade e à participação na vida pública. O histórico foi registrado em reportagem anterior do Bereia, que também contextualizou suas manifestações políticas em diferentes eleições. 

Propagação de mentiras pelas redes: uma crise moral

Bereia ouviu o teólogo e pastor pentecostal David Mesquiati sobre o fenômeno da onda de propagação de mentiras na campanha eleitoral por lideranças religiosas. Ele explica que “durante o século 20, os evangélicos eram percebidos pela sociedade como uma ‘reserva moral’, diante de tantas mudanças culturais e da corrupção política. Era possível manter essa ideia quando se é minoria, ascetismo severo com baixa participação nas rodas sociais e vida comunitária de fé circunscrita aos guetos de afinidade religiosa”. 

Contudo, adverte Mesquiati, com o aumento numérico, ascensão social e participação mais ativa nas esferas de poder, aquela diferenciação se atenua. “Casos de infidelidade, assédio e corrupção eram tratados internamente. Com a visibilidade midiática, cada caso vira página de jornal, aumentando a percepção de crise moral”, reconhece o teólogo.

Mesquiati aponta que “há uma onda de decadência moral em setores da liderança evangélica, justamente essa que provou das benesses do sistema. Não necessariamente se busca dinheiro. Para homens de meia e avançada idade em posição de liderança, o poder é mais tentador. Uma vez que se prova dessa maçã é difícil vencer esse paladar…” 

O pastor explica que “a extrema direita soube instrumentalizar os ressentimentos e frustrações da sociedade, catalisados pelas questões moralistas,  para mover as massas. O amálgama entre uma visão dominionista da fé no espaço público, as pretensões eleitoreiras da extrema direita e a sede de poder de alguns líderes religiosos produziu um tipo de cristianismo acrítico e preso numa bolha ideológica, que cega líderes e comunidades”.

Ao fim da entrevista ao Bereia, David Mesquiati aponta um caminho: “cada cidadão, independentemente da sua vinculação religiosa, é livre para escolher seu candidato. Os diferentes grupos e agremiações, entre eles as igrejas, cumprem um papel republicano quando usam seus espaços para debate de ideias, ouvir o contraditório e até promover encontros de candidatos para consultas, mas nunca para direcionar o voto. Uma igreja cidadã respeita o voto de cada um, tornando a diversidade um valor e um bem a ser preservado”.

Referências:

YouTube

https://www.hernandesdiaslopes.com.br/ Acesso em 15 set 2026

https://www.youtube.com/@HernandesDiasLopesOficial Acesso em 15 set 2026

https://www.youtube.com/watch?v=5iIH7hq2Jm0  Acesso em 15 set 2026

https://youtu.be/eLgFqmG0zgg?si=KEJ6WsOJQhfaMVY-  Acesso em 15 set 2026

https://www.youtube.com/watch?v=zFrLetPLiTM Acesso em 15 set 2026

IBGE

https://ftp.ibge.gov.br/Contas_Nacionais/Contas_Nacionais_Trimestrais/Fasciculo_Indicadores_IBGE  Acesso em 15 set 2026

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/47316-taxa-de-desocupacao-e-de-5-6-e-taxa-de-subutilizacao-e-de-13-3-no-trimestre-encerrado-em-maio Acesso em 15 set 2026

Banco Central do Brasil

https://www.bcb.gov.br/estatisticas/estatisticasfiscais Acesso em 15 set 2026

Rede de Investimento e Exportação (REDIEX)  

https://www.rediex.gov.py/pt/cerca-de-2-400-empresas-mostraron-interes-en-invertir-en-paraguay-durante-el-2025 Acesso em 15 set 2026

Governo Federal 

https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/bolsa-familia. Acesso em 16 set 2026.

https://www.gov.br/mds/pt-br/acesso-a-informacao/perguntas_frequentes/bolsa-familia-beneficiario/7-o-que-sao-as?utm_source. Acesso em 16 set 2026.

https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/bolsa-familia/regra-de-protecao. Acesso em 16 set 2026.

https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/bolsa-familia/original/informes/2025/relatorios/informe-bolsa-familia-80/perguntas_frequentes_nova_regra_de_protecao_pbf.pdf. Acesso em 16 set 2026.

https://www.gov.br/mds/pt-br/acesso-a-informacao/auditorias/RELATORIO_GESTAO_2025_defeso.pdf/@@download/file.

FGV Social. 

https://cps.fgv.br/bolsa-familia-o-que-e-e-como-funciona. Acesso em 16 set 2026.

CNN Brasil. https://www.cnnbrasil.com.br/economia/seu-bolso/meu-dinheiro/superacao-de-renda-tira-13-milhao-de-familias-do-bolsa-familia-em-2024/. Acesso em 16 set 2026. 

Filhos do Bolsa Família. https://static.poder360.com.br/2025/12/apresentacao_mds_03.pdf. Acesso em 16 set 2026. 

Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-03/caixa-paga-bolsa-familia-beneficiarios-com-nis-de-final-5-0. Acesso em 16 set 2026. 

Igreja Presbiteriana de Pinheiros

https://www.ippinheiros.org.br Acesso em 15 set 2026

Luz para o Caminho

https://lpc.org.br/ Acesso em 15 SET 2026

Nova Reforma

https://novareforma.blogspot.com/2011/02/uma-exploracao-da-fe-entrevista-do-rev.html Acesso em 15 set 2026

Hernandes Dias Lopes
https://www.hernandesdiaslopes.com.br/implicacoes-do-setimo-mandamento-nao-futuras  Acesso em 16 set 2026

Vídeo com celebridade pentecostal que chama evangélicos para “tomar o poder” do país viraliza

Viralizou nas redes digitais, nos primeiros dias deste abril de 2026, um vídeo da pastora da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo (INSEJEC) Valnice Milhomens no qual ela afirma que os evangélicos devem “tomar o poder” no Brasil. No conteúdo, a líder religiosa também estabelece paralelos entre o cenário político brasileiro e o dos Estados Unidos, ao afirmar que acontecimentos políticos naquele país tendem a se repetir no Brasil.

O vídeo ainda inclui convite para uma marcha prevista para 25 de abril, em Brasília, data em que a capital federal celebra seu aniversário. Diante da ampla circulação do material e do contexto pré-eleitoral, o Bereia verificou a autenticidade da fala e apurou informações sobre a mobilização anunciada. 

O conteúdo do vídeo

O vídeo que circula nas redes é uma gravação da participação de Valnice Milhomens como convidada na Vitoriosas Conference: Geração em Oração, congresso feminino promovido pela Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), presidida pelo pastor Silas Malafaia. O evento ocorreu em março de 2026. Na divulgação oficial do congresso, a presença da pastora foi apresentada como celebridade em um momento de destaque.

Durante a fala, Valnice Milhomens afirma ter recebido uma visão sobre o futuro do país e associa o papel da igreja à ocupação de espaços estratégicos da sociedade. Em um dos trechos, declara: “Eu tive uma visão e vi que os céus da nação serão limpos para que o povo se entregasse a Jesus e começamos a posicionar servos de Deus em todas as áreas de influência da sociedade.”

Em outro momento, a pastora faz referência ao cenário político recente do país e sugere que houve um “recuo” da igreja após um período de avanço institucional: “Nós avançamos tanto, nós conquistamos tanto… Chegamos a um período dessa nação em que eu dizia: ‘Meu Deus, parece que estamos sonhando’. Quantas vezes eu viverei para ver um presidente da República chamando a nação para orar? Nós vimos.”

Na sequência, a líder religiosa adota uma linguagem de guerra espiritual e faz autocrítica ao comportamento do segmento evangélico: “A igreja pecou, a igreja falhou, a igreja errou, porque a igreja cometeu um grande erro de guerra: ficar celebrando. Quando um exército guerrilheiro conquista algo, não pode ficar celebrando, porque aquele que perdeu vai reunir todas as forças para um golpe fatal. Foi isso que aconteceu no Brasil.”

Imagem: Vídeo da pastora Valnice Milhomens durante o evento na ADVEC. Reprodução: Instagram

A marcha

A data mencionada por Valnice Milhomens para participação em marcha faz referência ao evento Million Women Brasil [Um Milhão de Mulheres Brasil], marcado para o dia 25 de abril, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. A mobilização integra a programação da semana de celebração do aniversário da capital federal, comemorado oficialmente em 21 de abril.

De acordo com a divulgação oficial, o encontro está previsto para ocorrer das 9h às 19h e é apresentado nas redes digitais como um “ato de clamor pela nação”. Em vídeos publicados na página do evento, as organizadoras afirmam que os participantes permanecerão no local por dez horas em oração, jejum e adoração. Em uma das gravações, a convocação declara: “estaremos aqui 10 horas, orando, clamando, adorando e bendizendo o nome do Senhor”.

Imagem: Post de divulgação do evento. Reprodução: Instagram

Na página oficial da mobilização, o convite estabelece um paralelo explícito com um evento semelhante realizado nos Estados Unidos. A publicação afirma:

“No dia 12 de outubro de 2024, testemunhamos um marco histórico: milhares de pessoas se reuniram nos Estados Unidos para jejuar, orar e interceder por sua nação. O impacto desse clamor já pode ser visto, e seus frutos se estendem para além das fronteiras.”

De fato, o evento é uma versão brasileira do movimento A Million Women, criado pelo líder evangélico estadunidense Lou Engle, conhecido por fundar o movimento de oração e jejum The Call [O Chamado], voltado a “oração e jejum por questões morais e espirituais em diversas nações” . Ativo desde os anos 70, ele é uma figura central em grandes mobilizações religiosas com tom político, como o movimento de jovens The Send [O Envio], que chegou ao Brasil em 2020. Engle tem forte conexão com evangélicos brasileiros, com participação frequente em conferências em igrejas como a Lagoinha. Em 2024, Eagle criou o movimento para mulheres A Million Women [Um milhão de mulheres] para “orar pelos Estados Unidos”, em expressiva campanha pela reeleição de Donald Trump (Partido Republicano), bem como por apoio às ações bélicas do Estado de Israel.

Imagem: Extrato de vídeo do canal do Youtube Lagoinha Alphaville: Lou Eagle prega sermão na Igreja Lagoinha Alphaville, em 26 out 2025. 

No site do evento no Brasil, a convocação transfere o sentido do evento para o contexto brasileiro:

“E agora, nós queremos te convidar a estar conosco no dia 25 de abril de 2026. Dessa vez, nos reuniremos em Brasília-DF para mais um tempo de clamor, arrependimento e proclamação do nome de Jesus sobre esta terra. A Million Women Brasil é um chamado de intercessão e mobilização profética, convocando Esters e Mordecais [em referência ao relato bíblico da resistência da liderança judaica durante o exílio sob domínio persa] de todas as regiões a se posicionarem para um tempo como este.”

Em outra postagem, a organização utiliza referências bíblicas para reforçar o caráter mobilizador do encontro e convoca os participantes para uma atuação direta na vida pública e espiritual do país:

“Assim como Ester se levantou para interceder por seu povo, este é o nosso tempo de nos erguermos em um clamor profético pela nossa nação. Estamos nos reunindo para derrubar altares e levantar a bandeira da intercessão e você é parte essencial deste movimento. Venha assumir seu lugar neste exército de intercessores.”

Imagem: Post de divulgação do evento. Reprodução: Instagram

A linguagem utilizada nas publicações atribui ao evento um forte tom simbólico, político e religioso, ao associar oração, arrependimento e jejum à ideia de transformação nacional. Em outras postagens, a mensagem reforça esse enquadramento ao afirmar: “Como nação, nos prostraremos diante do Senhor em arrependimento, oração e jejum. Porque somente um povo de joelhos pode mudar o destino de uma nação.”

Imagem: Post de divulgação do evento. Reprodução: Instagram

O conteúdo da convocação, portanto, ultrapassa a proposta de um encontro estritamente religioso e articula elementos de mobilização pública, nacionalismo religioso e expectativa de mudança política, especialmente em um contexto de ano eleitoral.

Valnice Milhomens: Histórico de aparições públicas e mobilização política

A fala recente de Valnice Milhomens não surge de forma isolada. A trajetória pública da líder religiosa é marcada por manifestações de forte teor político, especialmente em períodos eleitorais, além de declarações proféticas que seguem em circulação nas redes.

1992: a profecia sobre a volta de Jesus

Um dos discursos mais conhecidos de Valnice Milhomens remonta a 1992. Em uma participação televisiva, ela afirmou que a volta de Jesus à Terra ocorreria em 2007. A declaração repercutiu amplamente e ainda hoje circula nas redes digitais, frequentemente acompanhada de críticas de cristãos que a classificam como “falsa profetiza”.

Esse episódio consolidou a imagem pública da pastora como uma liderança associada a discursos proféticos e previsões sobre acontecimentos futuros.

Imagens: Comentários sobre o discurso de Milhomens em 1992. Reprodução: Youtube 

2014: apoio explícito a Marina Silva

Durante a eleição presidencial de 2014, Valnice Milhomens manifestou apoio público à candidatura de Marina Silva, então candidata à Presidência.

À época, a pastora participou de mobilizações religiosas em apoio à ex-senadora e divulgou mensagem em que defendia oração, jejum e mobilização dos fiéis em favor da candidatura.

Em um dos textos divulgados, afirmou:

“O Pai falou-me que é possível a sua serva Marina ser eleita ainda este ano, mas depende de duas coisas: MUITO TRABALHO NA MOBILIZAÇÃO E NO JEJUM E ORAÇÃO”

A aproximação entre fé e processo eleitoral já se fazia presente naquele momento, com a defesa explícita de uma candidatura identificada com o segmento evangélico.

2022: campanha religiosa em ano eleitoral

A presença de Valnice nas redes voltou a ganhar força em 2022, durante a eleição presidencial. Em vídeo que ultrapassou 300 mil visualizações no Instagram, a líder religiosa orientou os fiéis a não votarem em candidatos com programas “contrários ao Reino de Deus”.

Vestida com as cores verde, amarelo e azul, associadas à campanha de Jair Bolsonaro, a pastora declarou que cada eleitor “responderia diante de Deus pelo seu voto”.

Naquele período, ela também promoveu movimentos de oração e jejum nos dias que antecederam o segundo turno, em uma atuação pública novamente associada ao calendário eleitoral.

2026: marcha e discurso sobre “tomada de poder”

Em 2026, mais um ano eleitoral, a nova repercussão ocorre em torno da marcha convocada para Brasília e da fala sobre os evangélicos “tomarem o poder”, em paralelo com referências de caráter teocrático.

O histórico revela um padrão de maior presença midiática e mobilização religiosa em anos de eleição ou em momentos de forte disputa política, o que reforça o contexto em que a fala atual circula.

Teologia do Domínio e os “Sete montes”

O discurso de Valnice Milhomens dialoga com a chamada Teologia do Domínio, corrente difundida entre evangélicos de vários ramos.

Essa perspectiva defende que os cristãos devem exercer influência direta sobre os principais campos da vida social, conhecidos como os “Sete montes” ou sete esferas da sociedade: família, religião, educação, mídia, artes e entretenimento, negócios e governo.

Nessa lógica, o objetivo é conquistar esses espaços para os valores do que é entendido como “Reino de Deus”, inclusive com incidência sobre o campo político e institucional.

A referência à transformação da nação por meio de mobilização espiritual, intercessão e presença no governo se conecta diretamente a essa teologia, frequentemente mencionada pela pastora em suas pregações e eventos públicos.

Teocracia, teologia do domínio e uso político da fé

Para aprofundar a análise sobre a repercussão do vídeo, o Bereia ouviu o doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) Alonso Gonçalves, com estudos de pós-doutorado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Bereia questionou o pesquisador se a declaração da pastora, ao afirmar que os evangélicos devem “tomar o poder”, guarda semelhanças com o regime dos aiatolás no Irã, como propagado em várias publicações sobre o vídeo.  Ele pondera que a comparação não se sustenta do ponto de vista conceitual, embora a linguagem de conflito esteja presente no discurso.

Para Gonçalves, o regime iraniano se estrutura como uma teocracia de matriz islâmica, na qual o poder político se organiza sob a autoridade de um líder supremo, representante religioso máximo do Estado.

“Embora os termos de ‘guerra’ estejam presentes na fala da pastora Valnice Milhomens, não entendo que tenha alguma relação próxima com o regime dos aiatolás como está hoje no Irã. O regime dos aiatolás parte de uma teocracia, ou seja, o governo de Allah cujo representante não é a comunidade, mas sim o líder supremo”, explica.

Para o pesquisador, a fala de Valnice Milhomens se aproxima mais do que, no contexto brasileiro, é conhecido como Teologia do Domínio, corrente de origem estadunidense que defende a ocupação das principais esferas da vida social por lideranças cristãs.

“A fala de Milhomens está permeada pelo que conhecemos no Brasil como teologia do domínio. Essa teologia tem provocado líderes midiáticos a um discurso de guerra cultural e espiritual”, afirma.

Gonçalves destaca que, ao mencionar as “sete montanhas de influência”, a pastora faz referência direta à formulação difundida pelo pregador norte-americano Johnny Enlow, que propõe a atuação da igreja sobre sete áreas consideradas estratégicas da sociedade: família, religião, educação, mídia, artes, economia e governo.

Na avaliação do especialista, essa estrutura discursiva se organiza em torno de uma lógica dualista de enfrentamento entre “bem” e “mal”, característica de setores do fundamentalismo evangélico contemporâneo. “Essa é a base da fala da pastora. Uma fala de bem contra o mal, discurso típico do fundamentalismo evangélico que só aumentou nos últimos anos.”

Ao comentar o uso da linguagem religiosa em contexto eleitoral, Alonso Gonçalves afirma que a instrumentalização da fé para fins político-partidários não é um fenômeno recente. “Milhomens vem fazendo isso há muito tempo, assim como outros líderes evangélicos. Desde 2018, líderes evangélicos estão instrumentalizando a fé e a denominação para o uso político-partidário. Não há mais uma clara distinção entre culto e palanque; candidato e irmão em Cristo.”

Para ele, a convocação da marcha em Brasília, apresentada como ato de oração pela nação, também deve ser lida dentro desse contexto. “Trata-se de uma equação muito simples: política com apelo espiritual.” O pesquisador acrescenta que, em anos eleitorais, esse tipo de discurso tende a ganhar maior visibilidade porque o segmento evangélico passou a ser compreendido como um grupo decisivo nas disputas majoritárias. “Depois das eleições de 2018, percebeu-se que os evangélicos contribuem muito para definir uma eleição majoritária. Por isso, neste ano, ouviremos muito sobre ‘família’ enquanto tema a ser explorado, alimentando novamente a disputa simbólica entre o bem e o mal.”

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O Bereia classifica, portanto, que o vídeo em que Valnice Milhomens chama evangélicos para “tomar o poder do país” como verdadeiro. A peça corresponde a uma gravação de fala da pastora feita durante a Vitoriosas Conference: Geração em Oração, em março de 2026. A circulação do conteúdo nas redes reforça um discurso político-religioso recorrente em anos eleitorais, marcado pela mobilização de fiéis em torno da ideia de influência direta sobre os rumos do país. A convocação para a marcha em Brasília e a linguagem de “tomada de poder” se inserem em uma tradição já observada em outras aparições públicas da líder religiosa, especialmente em contextos de disputa política, articulando fé, nacionalismo religioso e projeto de ocupação das esferas de poder.

Referências:

Million Women Brasil. https://www.amillionwomen.com.br/. Acesso em 8 abr 2026. 

Estadão. https://www.estadao.com.br/politica/eleicoes/pastores-declaram-apoio-a-marina-citando-que-projeto-da-candidata-vem-de-deus/. Acesso em 8 abr 2026. 

BBC News Brasil. https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63209750. Acesso em 8 abr 2026. 

Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=H0ZEgVwcaYg&t=113s. Acesso em 8 abr 2026. 

Guiame. https://guiame.com.br/gospel/mundo-cristao/o-pai-falou-me-que-e-possivel-marina-ser-eleita-afirma-valnice-milhomens.html. Acesso em 8 abr 2026. 

Lagoinha Alphaville, Youtubehttps://docs.google.com/document/d/1O4QEWrqq2LJ3jjaSdY4NrDS9XWCfn0U9/edit Acesso em 13 abr 2026