Concentração midiática limita o debate de ideias e o acesso a informações

Poder midiático nas mãos de poucos fere o direito à comunicação e impõe ao país uma agenda alinhada aos interesses de grupos empresariais, políticos e religiosos

*Publicado originalmente em Le Monde Diplomatique Brasil

O Brasil bateu recorde de intoxicação por agrotóxicos em 2025, segundo dados do Ministério da Saúde analisados pela Repórter Brasil. Foram 9.729 casos registrados, o maior índice desde 2015, correspondendo a um aumento de 84% em uma década. A notícia pouco repercutiu na mídia comercial hegemônica, sendo destaque apenas em portais da mídia alternativa, como o Alma Preta. Ainda em 2025, o Congresso Nacional aprovou o PDL 3/2025, que restringe o direito de crianças vítimas de violência sexual ao aborto legal. Embora a mídia comercial tenha tratado do assunto, a cobertura episódica do tema, em geral, dá pouco espaço para mulheres se manifestarem, reforçando vieses moralizantes, como apontou Júlia Lanz, jornalista e integrante da equipe de incidência do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, no artigo Religião, desinformação e poder: guerra ao aborto legal. No caso do PDL 3, veículos da mídia religiosa, como a TV Canção Nova, católica, comemoraram a decisão do Congresso Nacional, dando voz à bancada cristã e ignorando os argumentos dos movimentos sociais, das mulheres ativistas e de políticos que classificaram a lei como o “PDL da Pedofilia”.

A cobertura enviesada de temas importantes para a garantia de direitos não é um acaso. Está diretamente relacionada à concentração da propriedade dos meios de comunicação no Brasil nas mãos de grupos que possuem fortes interesses econômicos, políticos e religiosos, como mostra o Monitoramento da Propriedade da Mídia (MOM-Brasil). Longe de enfrentar esse cenário, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou nos últimos anos projetos de lei que contribuem para a concentração, ignorando uma pauta histórica dos movimentos sociais. Essas leis são formuladas por um Congresso Nacional formado por políticos com interesses diretos no tema: parlamentares donos de mídia, da bancada cristã e ligados ao agronegócio, entre outros.

Interesses econômico-midiáticos na cobertura dos temas ambientais

O noticiário que esconde os efeitos dos agrotóxicos no país não gera espanto quando sabemos da existência de uma série de relações de conglomerados de mídia com o agronegócio, como mostra o MOM-Brasil. Um dos exemplos mais evidentes e antigos é o do grupo Globo, cujos acionistas são também empresários do agro. Mas há outros, como o Grupo Bandeirantes, o Grupo Folha e o Grupo Mix de Comunicação, como mostrei no artigo feito em parceria com Camila Nobrega, Agronegócio e mídia brasileira: onde duas monoculturas se conectam.

Em 2025, com a COP 30 realizada no Brasil, a mídia brasileira associada ao agro ofereceu mais um exemplo de como utiliza concessões públicas de rádio e TV e espaços privilegiados no jornalismo impresso e digital na formulação de narrativas que favorecem interesses do capital. No artigo A Globo e o agro: um velho romance, Raquel Baster e Ramênia Vieira mostram como a emissora, semanas antes da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, começou a articular jornalismo, entretenimento e publicidade na construção de uma narrativa que retira do agronegócio a sua responsabilidade pela destruição ambiental e o apresenta como “símbolo de progresso, tradição e sustentabilidade”.

As autoras destacam ainda que, em agosto de 2025, menos de três meses antes da COP 30, a Globo foi homenageada no Congresso Brasileiro do Agronegócio “pela longa parceria” com o setor. Na reportagem sobre o evento veiculada pela emissora, o diretor-presidente da Globo, Paulo Marinho, afirmou que “o agro e a Globo compartilham a mesma vocação de cultivar e regenerar a terra todos os dias; essa afinidade se reflete na nossa história, há décadas celebramos nosso encontro com o agro em campanhas de muito sucesso e em conteúdos de entretenimento, jornalismo e esportes”. Esse conteúdo envolve novelas e minisséries, campanhas como “Agro é Pop” e a cobertura jornalística, sustentado pelo patrocínio de empresas do setor como Sadia, Friboi, Bayer e Bunge.

A cobertura da COP 30 na mídia brasileira ganhou reforços de empresas responsáveis por crimes socioambientais. Segundo levantamento do Intercept Brasil, a mineradora Vale foi a maior patrocinadora da cobertura da imprensa tradicional sobre o evento, apoiando o jornalismo de oito veículos: os jornais O Globo e Valor Econômico e a rádio CBN, do Grupo Globo; a Folha de S.Paulo; o periódico regional O Liberal, do Pará; a revista Veja e os portais de notícias Neofeed e Brazil Journal. Já a JBS, uma das maiores empresas da indústria da carne no mundo, patrocinou sete veículos: O Globo, Valor Econômico e CBN; Folha de S.Paulo; Estadão; Veja e Neofeed. Ao todo, o levantamento identificou 59 entidades patrocinadoras da cobertura da mídia sobre a COP 30 entre empresas privadas, multinacionais, governos, farmacêuticas, bancos, supermercados e ONGs.

Além do patrocínio direto à cobertura, ao longo do ano alguns grupos de mídia receberam verba corporativa para a realização de debates e formações para jornalistas. Mesmo que os patrocínios não interfiram diretamente no conteúdo das matérias publicadas, faz parte de uma estratégia das empresas de limparem suas imagens, o chamado greenwashing. Faz parte também da produção de uma narrativa desenvolvimentista que minimiza os impactos do capitalismo no meio ambiente e nos territórios dos povos e comunidades tradicionais. A construção dessa narrativa une corporações de mídia, grandes conglomerados e empresas do agronegócio, da mineração, de energia e o Estado, como mostrou a pesquisa Vozes Silenciadas Energias Renováveis: a cobertura da mídia sobre a transição energética no Brasil, do Intervozes.

Segundo Gave Cabral, membro do Intervozes e diretor da Abaré Escola de Jornalismo, a ação dessas megaempresas faz parte de uma dinâmica mais ampla, identificada como “obstrução climática”, que consiste em um esforço articulado de grandes corporações para confundir a opinião pública e retardar a tomada de decisões diante da crise ambiental. “Essa estratégia envolve mecanismos sofisticados, como a disseminação de desinformação, a cooptação do jornalismo comercial e ‘profissional’, a influência sobre movimentos sociais, além de práticas de violência política e lobby junto a governos. O objetivo central é consolidar, nos espaços midiáticos, uma narrativa única que produz uma falsa impressão de consenso. Considerando que, em muitos casos, o próprio governo atua alinhado a interesses empresariais, essa concentração reforça visões hegemônicas e limita o debate público”, afirma Cabral.

A Abaré acompanha de perto o caso da BR-319, no Amazonas, e concluiu que veículos que recebem recursos publicitários do governo estadual tendem a reproduzir predominantemente a posição oficial favorável à obra, enquanto silenciam vozes dissonantes, como comunidades locais, pesquisadores e movimentos sociais contrários ao projeto. “Dessa forma, observa-se a consolidação de um ecossistema informacional que limita a pluralidade de vozes e dificulta o enfrentamento qualificado da crise climática”, conclui.

Crédito: Intervozes

Religião, política e mídia

No caso da lei que dificulta o acesso ao aborto legal por crianças violentadas, outra pesquisa realizada pelo Intevozes, Vozes Silenciadas: o corpo é nosso, chama a atenção para como a propriedade de veículos de mídia por igrejas e lideranças religiosas impacta os direitos sexuais e reprodutivos. E o número de veículos religiosos tem crescido. O MOM-Brasil de 2017 indicava que nove dos 50 veículos de maior audiência no país eram de propriedade de lideranças religiosas cristãs, evangélicas e católicas. Mas a influência religiosa cresce também nas mídias regionais e comunitárias. Segundo Janaine Aires, professora da pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Políticas e Economia da Informação e da Comunicação (PEIC/UFRJ), quase 73% da televisão brasileira hoje (dados de 2025), está nas mãos de igrejas e lideranças religiosas.

Aires, uma das autoras do livro As 14 estações de Cristo (no prelo) ao lado de Suzy dos Santos, também aponta para uma mudança no paradigma de exploração religiosa da televisão: “Hoje muitas igrejas e lideranças religiosas estão se focando mais na internet e cresceu o número do que classificamos como emissoras multidenominacionais, que pertencem a uma igreja específica, mas que são arrendadas para outras”.

A pesquisadora também explica o aumento da concentração pela aliança de grupos religiosos com outros grupos da mídia corporativa. Entre os casos emblemáticos está o da Igreja Internacional da Graça de Deus, proprietária da RIT TV, emissora religiosa de alcance nacional. No Mato Grosso do Sul, além da RIT MS, geradora de rede, a igreja é proprietária tanto da afiliada do SBT quanto da Band (TV Guanandi). Esse tipo de arranjo produz efeitos no jornalismo local. “As matérias do jornalismo local da Band e do SBT acabam divulgando os milagres da igreja”, afirma a pesquisadora. Na mesma localidade, a Record TV, ligada à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), é de propriedade da família de Ivan Paes Barbosa, também empresário do agronegócio, que faleceu em abril deste ano. Barbosa fundou a Rede MS que reúne a TV MS, afiliada da Record TV, cinco rádios FM em Campo Grande, Corumbá, Bonito, Três Lagoas e Dourados, o canal AgroBrasil TV e o portal Diário Digital.

Para além da propriedade, Aires chama a atenção para a caracterização do que se entende como conteúdo religioso pela Agência Nacional do Cinema (Ancine). “A Ancine entende como conteúdo religioso o conceito de igreja eletrônica, que seria basicamente a reprodução de cultos ou missas pelas TV. Eu acredito que essa definição esteja ultrapassada, porque ela não inclui, por exemplo, os telejornais que só falam do Papa ou transmitem as notícias a partir do ponto de vista da igreja. Também não inclui as novelas bíblicas ou os reality shows musicais gospel. Ou seja, a caracterização de conteúdo religioso da TV é subnotificada”.

Esse conteúdo, seja jornalístico ou de entretenimento, reflete, na opinião da pesquisadora, os interesses das igrejas, como no caso da Record TV, que frequentemente pauta temas caros ao partido Republicanos ou à IURD, como a série de ficção Conselho Tutelar, exibida na emissora de 2014 a 2018. A TV também ajuda a formar e disseminar a imagem de quadros políticos, em geral apresentadores de programas policiais que se tornam candidatos pelo Republicanos – o partido foi fundado em 2005 por pastores e seguidores da Igreja Universal.

Ainda no plano das relações entre religião e política, mídias religiosas têm pautado o interesse do bolsonarismo. O coletivo Bereia – Informação e Checagem de Notícias tem acompanhado, entre outros casos, o do site de notícias Pleno News, pertencente ao Grupo MK de Comunicação, fundado pelo ex-senador Arolde de Oliveira, falecido em 2020, e hoje dirigido por sua filha, Marina de Oliveira. O grupo é dono da rádio 93 FM do Rio de Janeiro, da MK Editora, da gravadora MK Music e da empresa de gestão de canais do Youtube MK Network. Segundo Magali Cunha, editora-geral do Bereia, o Pleno News, como outros portais semelhantes, utiliza recursos que ajudam na difusão de seus conteúdos nas redes sociais e serviços de mensageria: publicam conteúdos curtos, de leitura rápida; repercutem falas polêmicas de políticos, lideranças religiosas e influenciadores digitais, dando um viés jornalístico mesmo a conteúdo sem relevância; disseminam conteúdo classificado como desinformação; e dão um tom religioso aos assuntos do momento.

“O Pleno News foi porta-voz do governo Bolsonaro e agora é do bolsonarismo e da oposição ao governo Lula. É porta-voz também da direita cristã, repercutindo falas de evangélicos da extrema-direita, como Marcos Feliciano e Silas Malafaia, e do catolicismo conservador”, explica Cunha. Além de temas comuns desde as eleições de 2018, como os que atacam os direitos sexuais e reprodutivos, entre os assuntos destacados no portal nos anos de 2025 e 2026 estão o do homeschooling, reforçando os projetos de lei sobre o tema no Congresso Nacional, e o da segurança pública. Este tema, assim como nos programas policialescos, é tratado a partir de um viés punitivista, afirma Magali, sobretudo após a Chacina do Alemão, no Rio de Janeiro, em outubro de 2025, como também mostrei no artigo ‘Narcoterrorismo’: discurso da extrema direita global na mídia religiosa, escrito com Victor Merete.

Regulação atual favorece a concentração

O quadro de concentração da propriedade no Brasil na mão de grupos que usam uma atividade com finalidade pública para interesses pessoais segue se agravando, beneficiado pela ausência de um marco regulatório capaz de promover a pluralidade e a diversidade da mídia. Ao contrário, as legislações aprovadas nos últimos anos, inclusive nos governos de esquerda, continuam beneficiando o poder dos grandes conglomerados nacionais e regionais, como mostra Alex Hercog no artigo Políticas para a radiodifusão brasileira beneficiam oligopólios midiáticos e silenciam vozes dissonantes.

Em 2025, foi aprovada a Lei 15.182/2025, que promete modernizar a radiodifusão, promover a desburocratização administrativa e a acessibilidade por meio de legendas e audiodescrição. No entanto, na prática, na avaliação de Júlia Lanz, o que a lei faz é favorecer a concentração. “A lei tem o ponto positivo de tratar do problema da acessibilidade na mídia. No entanto, trata a comunicação como mera burocracia e não enfrenta a concentração, pois reduz a fiscalização e a transparência societária. Ela pode inclusive facilitar para os donos de mídia, porque permite a troca de proprietários sem obrigar uma comunicação ao governo, favorecendo políticos e seus laranjas, e até mesmo que rádios comunitárias caiam nas mãos de religiosos e políticos”.

Em anos eleitorais como 2026, os efeitos da existência de políticos donos de mídia tendem a se tornar mais evidentes. Embora o Artigo 54 da Constituição Federal proíba que deputados federais e senadores sejam proprietários de emissoras de rádio e TV, a cada pleito são identificados velhos e novos nomes de políticos que se projetam na vida pública usando a influência de meios de comunicação próprios, de apoiadores ou de familiares. No artigo Políticos Donos de Mídia violam a Constituição e fragilizam a democracia, Tâmara Terso apresenta levantamento do Intervozes que identificou, em 2022, 45 candidatos donos de mídia nas dez maiores cidades em número de habitantes de 14 estados brasileiros. Em 2024, o monitoramento produzido pelo Intervozes identificou 46 candidaturas de donos de mídia, distribuídos em 21 estados, durante as eleições municipais.

Um artigo da Lei 15.182 que permitiria uma renovação mais automática das concessões chegou a ser vetado pelo presidente Lula, mas o parágrafo que determina que licenças para o funcionamento das estações de rádio e TV possuem prazo indeterminado foi mantido. O projeto de lei que deu origem à norma (PL 2352/2023) é de autoria do deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), radialista, jornalista e pastor ligado à Assembleia de Deus Ministério de Madureira, membro da Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional.

No início de 2024, Lula já havia sancionado outra lei de interesse de empresários e de lideranças cristãs, como mostram Aline Braga e Iano Flávio Maia no artigo Nova lei articulada por elites empresariais e evangélicas aprofunda concentração. A Lei 14.812/2024 alterou o Decreto-Lei 236/1967 para ampliar o número máximo de outorgas dos serviços de televisão de dez para 20 por concessionário. A norma manteve em 20 o número de outorgas de rádio por grupo empresarial (sendo dez locais, seis regionais e quatro nacionais), mas eliminou as limitações de frequência e de localidade em ambos os casos, permitindo que uma mesma emissora ocupe até 20 canais de qualquer tipo na mesma região. O projeto que deu origem à lei (PL 07/2023) também é de autoria de um pastor evangélico, Marcos Pereira, presidente nacional do Partido Republicanos, bispo licenciado da IURD e ex-vice-presidente da Rede Record.

A pesquisa do PEIC/UFRJ identificou a pressão de grupos religiosos na aprovação de outra lei que beneficia a concentração, a Lei 14.408/2022, sancionada no governo de Jair Bolsonaro, que legalizou o arrendamento no Brasil ao determinar que “as concessionárias e permissionárias poderão transferir, comercializar ou ceder o tempo total de programação para a veiculação de produção independente”, deixando vago o conceito do que é “produção independente” e ultrapassando em muito o limite de 25% estipulado em normas anteriores.

Mas as leis beneficiam de formas diferentes cada grupo. Enquanto, como aponta Lanz, a lei que reduz a fiscalização e a transparência societária pode beneficiar sobretudo políticos donos de mídia, outros grupos, como os religiosos e mesmo os políticos que não têm nenhuma concessão, podem se beneficiar da lei que libera o arrendamento. Já a lei que aumenta para 20 o número de outorgas por grupo pode beneficiar grupos nacionais e regionais que têm a propriedade concentrada nas mãos de um indivíduo ou uma família, enquanto têm pouco efeito para conglomerados como os que estão nas mãos da Igreja Universal. “No caso da IURD, o patrimônio é dividido entre os líderes de acordo com a patente que eles têm, se são bispos, por exemplo. Eles dividem a porcentagem das propriedades e há um rodízio entre eles, de modo que essa regra que aumenta o número de outorgas por grupo não tem tanto efeito, porque a propriedade já é dividida, embora pertença ao mesmo grupo”, analisa Janaine Aires.

Ainda em 2025, outra mudança na radiodifusão foi anunciada pelo governo: a estreia da TV 3.0 na Copa do Mundo de 2026. Porém, antes de contribuir para resolver problemas históricos de concentração e promover a democratização da mídia, a TV 3.0 promete servir ao mercado e à lógica de consumo, como já apontava Gésio Passos no artigo TV 3.0 atende lobby privado e ignora propostas pró-democratização. O modelo escolhido é baseado na tecnologia estadunidense ATSC 3.0 e é uma oportunidade para as emissoras comerciais recuperarem as perdas publicitárias acumuladas com a internet, oferecendo anúncios segmentados e conteúdo personalizado. Os radiodifusores também pressionam o governo Lula para que libere 11 bilhões de reais do BNDES para que as emissoras migrem para a nova tecnologia.

Para Júlia Lanz, a escolha pela operação da TV 3.0 na lógica do consumo levanta preocupações sobre o uso dos dados pessoais e o oferecimento de publicidade segmentada por meio da exploração econômica desses dados, problemas que já são enfrentados no modelo de plataformas da internet. Janaine Aires concorda com a crítica: “A TV 3.0 é uma captura do projeto de digitalização da televisão, que era um projeto público, que envolveu pesquisa da universidade, por interesses privados. O processo de digitalização foi sequestrado pela Globo em seu processo de transformação em uma mediatech, modelo que acentua a concentração porque, na economia de redes, as outras emissoras não têm capacidade de concorrência, nenhum tem uma plataforma como a Globoplay. Sequestra também a discussão que a gente tinha de usar a TV digital para o exercício da cidadania – com as pessoas podendo votar através dela e ter acesso a serviços e informações públicas –, em favor da lógica do consumo”.

Fake news: evangélicos são os que menos checam veracidade dos fatos, diz estudo

Pesquisa nacional mostra que o grupo raramente recorre a agências de checagem e está entre os mais expostos a notícias falsas sobre religião e fé

*Publicado originalmente em Revista Fórum

A desinformação já não é apenas um problema das redes sociais ou da política. Ela se tornou uma questão que atravessa famílias, igrejas, comunidades e afeta diretamente a forma como as pessoas compreendem a realidade. No Brasil, um dos grupos mais impactados por esse fenômeno é justamente o segmento evangélico.

O dado aparece no relatório “Como os Brasileiros percebem a circulação da desinformação e o uso da Inteligência Artificial”, produzido pelo Aláfia Lab. Segundo a pesquisa, os evangélicos são o grupo religioso que menos utiliza agências de checagem de fatos para verificar informações recebidas. Ao mesmo tempo, aparecem entre os grupos que mais relatam contato com notícias falsas relacionadas a religião e fé.

A combinação desses fatores ajuda a compreender por que boatos, teorias conspiratórias, falsas perseguições religiosas, informações distorcidas sobre projetos de lei e narrativas políticas travestidas de discurso religioso encontram terreno fértil para circular em muitos ambientes cristãos.

O problema não é exclusivo dos evangélicos, mas assume características próprias dentro desse universo. Grande parte da circulação de informações ocorre por meio de redes de confiança: grupos de WhatsApp, canais religiosos, influenciadores digitais, líderes e membros de igrejas. Quando uma informação chega acompanhada da recomendação de alguém respeitado pela comunidade, ela tende a ser aceita com menos questionamentos.

A pesquisa mostra que apenas 17% dos brasileiros recorrem a agências especializadas de checagem para verificar conteúdos suspeitos. A maioria prefere confiar em sua própria percepção, em comentários publicados nas redes sociais ou em alertas de amigos e familiares. Essa lógica reforça a força dos vínculos pessoais, mas também aumenta a vulnerabilidade à manipulação.

O resultado é que conteúdos enganosos conseguem se espalhar rapidamente, principalmente quando apelam para emoções fortes. Medo, indignação, sensação de ameaça aos valores religiosos ou à família costumam ser ingredientes frequentes das fake news que circulam em grupos religiosos. Muitas vezes, a intenção não é apenas informar de forma incorreta, mas mobilizar comportamentos políticos e sociais a partir de informações falsas.

O próprio relatório mostra que os brasileiros reconhecem os danos causados pela desinformação. A maioria considera que ela contribui para espalhar medo, fortalecer grupos extremistas, aumentar preconceitos, confundir as pessoas sobre o que é verdade ou mentira e influenciar decisões políticas e eleitorais.

Coletivo Bereia

Nesse cenário, ganha relevância o trabalho de iniciativas voltadas especificamente para o monitoramento da desinformação religiosa. Um dos principais exemplos é o Coletivo Bereia, agência de verificação especializada em conteúdos que circulam entre cristãos.

O nome faz referência aos bereanos citados no livro de Atos dos Apóstolos, elogiados por examinarem cuidadosamente aquilo que ouviam antes de aceitarem uma mensagem como verdadeira. Inspirado nesse princípio, o coletivo realiza checagens de notícias, discursos, vídeos, publicações e narrativas que circulam em ambientes religiosos, analisando sua veracidade e contexto.

Mais do que corrigir informações equivocadas, o trabalho do Bereia procura incentivar uma cultura de responsabilidade informacional. A proposta é simples, mas profunda: fé e compromisso com a verdade não podem caminhar separados.

Essa é uma discussão particularmente importante porque a tradição cristã sempre atribuiu enorme valor à verdade. O mandamento contra o falso testemunho, as advertências bíblicas sobre falsos profetas e os inúmeros apelos à honestidade mostram que o combate à mentira não é apenas uma preocupação jornalística ou acadêmica. Trata-se também de uma exigência ética da própria fé.

Por isso, discutir fake news nas igrejas não deve ser visto como um tema secundário ou partidário. Trata-se de fortalecer uma prática coerente com os valores do Evangelho: o compromisso com a verdade, a responsabilidade com a palavra e o cuidado com o próximo.

Em tempos de excesso de informação, talvez uma das contribuições mais importantes que as igrejas possam oferecer à sociedade seja justamente recuperar uma virtude antiga: a disposição de verificar antes de acreditar e de refletir antes de compartilhar.

Quando comunicar é servir

* Publicado originalmente no jornal argentino Página 12. Traduzido por Magali Cunha.

Embora pudéssemos dizer que tudo é um ato comunicacional no ser humano – mesmo quando o silêncio de seus ditos e ações é a única coisa que aparentemente se nota – é o fato básico de poder fazer que nos define em toda a nossa própria história.

Isso junto com tudo que deriva do ato de se comunicar e que pode ser rapidamente inferido; perguntas como: quem comunica? Para quem você comunica o quê? Andam de mãos dadas com outras nem sempre tão óbvias: quem pode ou não comunicar? Quando podemos ou não podemos comunicar quais elementos de nossa cultura? E assim… sempre complicando o arco de análise cotidiana das questões, bem como a desconfiança metodológica necessária para poder distinguir que há além da superfície que se torna visível, audível, tangível.

Da WACC na América Latina (Associação Mundial para a Comunicação Cristã, World Association for Christian Communication, na sigla em Inglês), mais uma vez observamos com expectativa e esperança como um plano de governo em nossa região, em face do novo cenário de crise derivado de covid-19, levanta medidas que fazem da comunicação um paradigma de participação, para além das grandes multimídias que nos envolvem todos os dias.

O fato de o governo do atual presidente na Argentina Alberto Fernández, promover a partir de 2 de janeiro de 2021, o chamado Benefício Básico Universal Obrigatório para serviços móveis, fixos, Internet e televisão a cabo, tornando-os mais acessíveis às pessoas mais vulneráveis ​​em sociedade – beneficiárias do Bolsa-Família, Bolsa-Gravidez, bem como das suas filhas e filhos com idades compreendidas entre os 16 e os 18 anos e membros do seu grupo familiar, beneficiários e beneficiários de Pensões Não-Contributivas que recebam rendimentos mensais brutos não superiores a dois salários mínimos vitais e móveis, bem como seus filhos e filhas; clubes de bairros e cidades registrados na lei 27.098, associações de bombeiros voluntários definidas na lei 25.054 entre outras e outras – coincide com uma importante linha de ação e pensamento que a WACC Global (com mais de 50 anos de trajetória pelo mundo), defende e apoia nas diferentes regiões do mundo e em particular a América Latina, um dos continentes mais violentos segundo a ONU em seus estudos de 2018, bem como entre os social e economicamente desiguais.

Continuamos a apoiar a partir da WACC na América Latina, os princípios que movem a comunicação de um espírito cristão, aberto e plural onde entendemos que:

  • A comunicação é um exercício espiritual na medida em que é um exercício transcendente de todo ser humano que cria significados “sagrados” entre os seres humanos em suas múltiplas formas de compreender e viver sua espiritualidade.
  • A comunicação aumenta a participação. O incentivo à comunicação é um ato com vontade política própria. Aqueles de nós que pretendem sociedades participantes e atuantes nas dinâmicas de mudança que têm de viver diariamente, devem possibilitar a comunicação em todos os seus espaços possíveis.
  • A comunicação promove liberdade e exige responsabilidade. Em tempos de tecnologia digital onde o “Cancelamento” de outras pessoas é utilizado como meio de controle e também de censura, é fundamental promover a liberdade de nos comunicarmos com base na premissa de não explorar essa liberdade para coibir a extensão de direitos aos setores mais vulneráveis.
  • A comunicação afirma a justiça e desafia a injustiça. Por fim, comunicar é deixar claro que para ser eficaz, deve-se considerar chegar onde a grande multimídia não chega (por opção política, por interesses próprios ou apenas por preguiça) e ser uma voz audível que gera incidência e define uma agenda comprometida com a vida dos outros.

Por tudo o que foi dito, afirmamos no início deste texto que comunicar é servir. Apesar do atípico 2021 que temos que atravessar, temos expectativas e esperanças de que este gesto feito lei aproxime a comunicação (em todo o seu sentido amplo) dos nossos povos latino-americanos.

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Foto de capa: Pixabay/Reprodução

A Covid-19 e a desinformação que mata

Publicado no Diplomatique dia 11/05/2020

As mentiras que têm circulado contribuem para a tomada de decisão das pessoas e atualmente elas estão expostas a mensagens conflitantes que partem, de um lado, do presidente da República e, de outro, de um conjunto de organismo internacionais, cientistas, imprensa e alguns governadores de estado.

O papel da disseminação das chamadas fake news durante as eleições foi algo fartamente documentado e verificado, tendo ocorrido principalmente por meio do uso de aplicativos como o WhatsApp. É a chamada desinformação que tem mobilizado vários países e governos diante da compreensão dos prejuízos que a circulação de mentiras tem causado aos países e pessoas.

Isso ganha contornos extremamente preocupantes em meio a uma pandemia. Alguns continuam atuando como se envolvidos em meio à uma disputa de narrativas e, para tanto, disseminando suas mentiras como se fossem verdades de forma coordenada e intensa visando alcançar uma grande rede de pessoas que confiam  naqueles que são portadores dessas mentiras.

O problema que se estabelece nesse momento é a gravidade das consequências. Essas mentiras também contribuem para a tomada de decisão das pessoas e atualmente elas estão expostas a mensagens conflitantes que partem, de um lado, do presidente da República e, de outro, de um conjunto de organismo internacionais, cientistas, imprensa e alguns governadores de estado.

Mentira e sua infinidade de contornos

É a filósofa Hannah Arendt que nos lembra que a mentira é muito mais facilmente assimilada, pois, enquanto a verdade é única, a mentira pode assumir uma infinidade de contornos e conteúdo.

No momento, o que temos visto no Brasil, patrocinado por Jair Bolsonaro e seus apoiadores, é algo desesperador e lamentável. O mundo todo passa por um difícil momento de luto com óbvias e preocupantes implicações econômicas, mas, principalmente, passa por uma emergência de saúde pública que exige respostas e ação imediata.

Não é nada disso que vemos no Brasil. Há uma condução caótica por parte do governo federal, grande dificuldade de gestão dos dados e de condução de respostas, sejam na área da saúde, sejam na área social. Não há uma coesão em torno do desafio que assola a população. E pior:  há um conjunto de mensagens contraditórias e erráticas sendo disseminadas de forma permanente. Tudo isso ganha contornos desesperadores quando enfrentamos uma doença com alta letalidade e com enorme potencial de infecção. Toda a população mundial está suscetível a contrair a covid-19, sem exceções. Isso representa a possibilidade do colapso de vários sistemas.

O que temos então? A necessidade de uma atuação do Estado para garantir a proteção e sobrevivência dos mais vulneráveis, junto a manutenção dos serviços essenciais, com o oferecimento dos necessários Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e a realização de isolamento social para o maior conjunto possível da população. Fora isso não há mágica ou outra opção disponível no momento. A situação é urgente e essa é a única opção disponível e imediata a ser feita.

Hoje me deparei com uma mensagem sobre o falecimento de um jovem de 35 anos devido a infecção por covid-19. Era uma postagem no Twitter e a pessoa que postou argumentou que o rapaz em questão fazia postagens há semanas contra o isolamento. Resolvi olhar o perfil até mesmo para identificar se havia alguma menção ao novo coronavírus. Vi muitas postagens contrárias ao isolamento e de reprodução da narrativa de Bolsonaro. Isso tudo em uma janela de 30 dias. No dia 16 é a sua última postagem e a partir daí é possível acompanhar no perfil de sua namorada a apreensão com o estado de saúde dele, e da mãe dela, ambos com infecção por covid-19. A namorada, então, pede para que as pessoas façam isolamento social, afirma que a coisa é realmente séria. Até que ela coloca em seu perfil uma mensagem de luto no dia 1º de maio. Seu namorado faleceu 15 dias após a última postagem dele, que foi um meme sobre isolamento social e uso de máscaras.

Percorrer a timeline dele é algo que dá angústia, revolta e tristeza. Ele assimila, concorda e reproduz o discurso verbalizado pelo presidente da República, a quem ele admira e atribui liderança. Bolsonaro como homem público, mandatário máximo da nação precisa ser responsabilizado, não só pelos erros de sua gestão, mas também pela disseminação das mentiras e pela condução irresponsável que tem tido nessa grave crise.

Responsabilidade

Nem todos assuntos que comentarei aparecem no perfil dessa pessoa. Ela me ajudou a perceber como se deu na temporalidade a adoção dos discursos feitos e defendidos pelo presidente. O perfil em questão me pareceu como o de alguém que admira e identifica em Bolsonaro uma liderança. Ele é presidente do Brasil e é alguém admirado por muitos. Aqui para mim é o ponto central. A responsabilidade de Bolsonaro precisa ser assumida, já passou do tempo de ele assumir a tão exigida “liturgia do cargo”. Os resultados dessa postura errática neste momento são concretamente a morte de pessoas e isso é inaceitável. O que eu vi foi algo similar – com um rosto, nome e sobrenome – do gráfico com o número de mortes e as frases ditas por Bolsonaro. O “E daí?” se torna algo ainda mais revoltante, dolorido e triste.

O primeiro movimento de Bolsonaro em meio à pandemia foi a defesa do uso da cloroquina, isso foi no dia 21 de março. O perfil em questão não tece comentários sobre o assunto. Sabemos de pessoas que correram às farmácias para comprar o medicamento. A irresponsabilidade desse primeiro movimento foi absurda e teve implicações econômicas por meio do aumento da produção desse medicamento, provavelmente algo desnecessário. Um ponto a lembrar é que nunca houve proibição ao uso do medicamento, somente não se chegou à convicção de que ele seria a única e mais eficiente solução. Era uma alternativa a ser considerada. A primeira desinformação dada por Bolsonaro foi afirmar de que uma cura estava sendo providenciada e termina um vídeo afirmando: “tenhamos fé que brevemente ficaremos livres desse vírus”. Neste dia os dados apontavam para 18 óbitos, hoje passam de treze mil.

São cerca de duas dezenas as postagens no perfil relacionadas à pandemia. A primeira é de 23 de março, dois dias após o início da quarentena na cidade de São Paulo e na véspera do início da quarentena no Estado de São Paulo. Na postagem o comentário dele é que está seguindo o isolamento social.

Dois dias depois ele posta matéria em que Doria fala da importância das indústrias não pararem e comenta sobre o fato de Bolsonaro ter razão. Aqui foi um segundo movimento do discurso de desinformação promovido pelo presidente ao se posicionar de forma enfática contrário ao isolamento. É posta sobre a mesa uma falsa tensão entre economia e saúde. Algo inexistente e descabido. Tem início a identificação de inimigos a serem combatidos. O vírus em si, infelizmente, não é considerado nessa cruzada. Os primeiros eleitos são os governadores dos estados que decretam quarentena e que estariam atuando contra a economia e contra Bolsonaro.

No dia 27 de março o perfil analisado compartilha um vídeo gravado na véspera em frente ao Palácio da Alvorada, nele o presidente se dirige à imprensa e afirma:

“Atenção, povo do Brasil, esse pessoal aqui diz que eu estou errado porque tenho que ficar em casa. Agora eu pergunto: o que que vocês estão fazendo aqui? Imprensa brasileira, o que vocês estão fazendo aqui? Não tão com medo do coronavírus, não? Vão para casa. Todo mundo sem máscara”.

Bolsonaro ignora que a imprensa exerce serviço considerado essencial e indica para seus apoiadores mais um inimigo a ser combatido e ao qual não se deve confiar, a imprensa. Afinal eles falam uma coisa e fazem outra e se estão ali, sem medo, é porque a coisa não deve ser tão grave assim.

Também no dia 27 de março compartilha meme com o rosto do Bolsonaro em um corpo de fisiculturista em que repete parte do pronunciamento feito no dia 23 de março:

“No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”.

É a versão de que a epidemia é algo menor, fraco e, logicamente, pessoas de bem e os que são igualmente fortes como o presidente resistirão sem maiores dificuldades. A imprensa não tem medo, não há motivos para se preocupar.

No dia 28 de março um novo inimigo é definido, Rodrigo Maia é mostrado em foto com o governador de São Paulo e o comentário é de que os dois atuam conjuntamente para derrubar Bolsonaro. Líderes do executivo estadual estariam em conluio com o poder legislativo visando apenas prejudicar Bolsonaro. Essa interpretação esquece completamente que passamos por uma pandemia e que o mundo padece diante de milhares de mortes. Tudo se restringe a uma narrativa apequenada e totalmente megalomaníaca que é reproduzida a exaustão por vários dos apoiadores de Bolsonaro nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp.

Também nesse dia compartilha longa explicação sobre a “quarentena vertical”, algo que inexiste e sem base científica confiável ou comprovada. Talvez esse desejo de Bolsonaro não levado adiante possa ter contribuído, inclusive, para ele demitir o ministro da Saúde. Sobre isso Bolsonaro chegou a expressar que foi algo que ele queria que fosse feito, conforme entrevista do dia 25 de março na frente do Alvorada:

“Conversei por alto com o Mandetta (…) A orientação vai ser o vertical daqui para frente. Vou conversar com ele e tomar a decisão. Não escreva que já decidi, não. Vou conversar com Mandetta”.

O que ele sinaliza aqui, juntamente com a cloroquina, é um ponto central em seu discurso: existem opções. Há alternativas. Essa postura é pura desinformação, totalmente descolada do consenso que é compartilhado no mundo.

Comunismo

Uma cereja do bolo surge ainda no dia 28 de março, quando o rapaz compartilha um texto sem autoria que circulou bastante em várias mídias sociais e WhatsApp sobre como a quarentena representaria uma “amostra grátis” do comunismo. Aqui entra uma perspectiva que dá um caráter ideológico a narrativa posta. Há um grupo de inimigos reunidos – governadores, deputados e a imprensa – que juntos atuam para derrubar Bolsonaro e implementar o comunismo. Isso, cerca de um mês depois, seria novamente elaborado por meio de texto escrito pelo Chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, em que ele afirma estarmos diante de um “comunavírus”.

No dia 2 de abril posta em sua página o vídeo que Bolsonaro compartilhou dizendo ser o apelo de uma professora. Na verdade, uma empresária que faz depoimento emocionando afirmando entre outras coisas que precisava ir para o trabalho. Ela também pede que o exército seja colocado nas ruas e afirma serem os ministros do STF “bandidos de toga”. O grupo de inimigos fica completo com a inclusão do judiciário e a convocação do exército para nos defender disso tudo e do comunismo que foi anteriormente evocado.

Daí no dia 6 de abril ao compartilhar uma notícia sobre o anúncio, pelo governador Doria, da prorrogação da quarentena a única postura possível e necessária, a reação dele é de revolta. Para ele e tantos outros que seguem o presidente da República, que se informam confiando em sua liderança qualquer coisa que esteja associada ao isolamento social não tem mais credibilidade. Basta ser forte, não é tão sério, há alternativas e é preciso não enfraquecer a economia. Qualquer coisa que não caminhe nessa direção é um erro, uma afronta e tem como objetivo tanto derrubar Bolsonaro como implementar uma ideologia alienígena no Brasil.

É possível ver no perfil do rapaz duas postagens sobre o uso de máscaras até que na sua última postagem, feita no dia 16 de abril, ele comenta sobre um meme que faz referência tanto ao isolamento social como ao uso de máscaras. Três dias depois a sua namorada faz um pedido por orações por ele e por sua mãe, ambos com infecção por covid-19. Ela escreve: “achamos que este vírus está longe e ele está cada vez mais próximo”.

No dia 20 de abril ela posta na página do namorado. Compartilha sua preocupação dele não estar tendo apetite. Ele está internado e ela tem acesso restrito a ele. No dia 22 de abril ela faz texto pedindo para que as pessoas fiquem em casa:

“Para aqueles que também como eu não acreditavam que esse vírus age do jeito que age, cheguei até ouvir pessoas falarem que tudo isso era coisa de política, que não era para tanto. (…) Infelizmente ele atingiu os meus (…) hoje o que eu tenho para pedir é para que fiquem em casa (…), fiquem em casa e se protejam.”

Nos dias 27 e 29 de abril ela posta mensagem defendendo a necessidade de isolamento social e um vídeo de arrependimento do apresentador de TV Sikeira Jr que era enfático contra o isolamento e que também sofreu com a infecção. Infelizmente, menos de 15 dias após a última postagem do namorado, ela troca a foto de perfil por uma de luto. Ele havia falecido na madrugada do dia 1º de maio. Um dia antes do seu aniversário. A mãe dela segue internada, elas se comunicam pelo celular e, além das condolências, fica o desejo por sua total recuperação.

Como nação, como humanidade, vivemos um momento de luto e solidariedade. Também é momento de denúncia para que essa desinformação disseminada por Bolsonaro e o Gabinete do Ódio que ele mobiliza parem de promover mais mortes. Mortes que poderiam ser evitadas caso não estivéssemos diante dessa confusão de narrativas. Há toda uma condução errática por parte do governo. A covid-19 não tem merecido por parte de Bolsonaro a atenção devida, questões menores ou que poderiam esperar são colocadas na agenda do dia, inclusive com a mudança na condução do Ministério da Saúde. Isso é algo totalmente fora de sentido e razoabilidade. O que representa uma mudança dessa monta nesse momento é, no mínimo, avassalador em relação a condução e liderança que o governo federal precisaria ter.

Dentro da questão das narrativas a comunicação oficial do governo optou por afirmar o número de pacientes recuperados, como se não estivéssemos diante de uma pandemia com milhares de mortos em um país que possui uma das menores coberturas em termos de testagem da população. Assim com a mudança no ministério, além de alterações no “dress code” com a saída do jaleco do SUS e a entrada de ternos bem cortados, vemos gestores públicos falando mais na quantidade de curados enquanto os números de óbitos aumentam de forma vertiginosa. Os números que passam a ser reproduzidos nas mensagens das redes sociais do governo federal são graficamente expressos no “Placar da Vida”, no qual as mortes são ignoradas e onde vemos a reprodução de um discurso desprovido de qualquer relevância em função da fragilidade dos dados. Sobre as centenas de mortes diárias o governo parece ter somente uma resposta: “E daí?”

Há também erros em relação à proteção social, formação de filas desnecessárias e uma gestão temerária em relação a necessária assistência à população vulnerável. Os desafios são imensos e exigem dedicação e envolvimento de toda a sociedade. Enquanto isso o que vemos são disputas políticas, disseminação de mentiras e o estabelecimento de uma narrativa que pouca acrescenta ao enfrentamento da grave crise de saúde e social pela qual o mundo passa. Que possamos atuar de forma efetiva em nosso cotidiano em atos de solidariedade, mas que também a sociedade brasileira possa reagir e dar fim a propagação da desinformação que também mata e traz ainda mais sofrimento a tantas pessoas. Bolsonaro é responsável por essas mortes e pelo caminho que o país tem seguido em meio à pandemia. É tempo que uma grande e ampla união ocorra e faça frente à forma errática que tem marcado a condução do país. É preciso, em nome da preservação de vidas, dar um basta a tudo isso.


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Referências:

Foto “Bolsonaro” – Reuters via Veja

Foto Hannah Arendt: https://www.bbc.co.uk/programmes/b08c2ljg

Imagem de destaque: https://www.forbes.com/sites/petersuciu/2020/04/08/during-covid-19-pandemic-it-isnt-just-fake-news-but-seriously-bad-misinformation-that-is-spreading-on-social-media/#69f406697e55

Jornalismo sem medo ou favor

Valeu aí, imprensa, até semana que vem. Eu não quero falar nada aí porque quero ter paz sábado e domingo.

Disse o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em mais um de seus ataques à imprensa, na noite de sexta-feira (17/4), em frente ao Palácio do Planalto, quando se recusou a falar com a imprensa. Em seguida tornou a falar com os seguidores e voltou a hostilizar os meios de comunicação:

A Folha de São Paulo falou que tem um dossiê que eu fiz dizendo que havia um complô da Câmara, Supremo para me derrubar. Eles inventam cada coisa. Segundo uma fonte do Planalto… Sempre é assim. Se é tão grave assim, podiam dar o nome da fonte, né?

Na sequência, ao ouvir um seguidor afirmar que o Correio Brasiliense todos os dias fala mal dele, Bolsonaro disse:

O dia que falarem bem é porque fiz alguma coisa errada!

E finalizou:

Não leio jornal nenhum!

Tudo isso transmitido pelas redes sociais do próprio Bolsonaro. Dessa forma tem sido a relação do presidente com a imprensa. Vale, ainda, ressaltar as seguintes afirmações ocorridas no mês de março:

Se a imprensa diz que eu ofendo todo dia, o que estão fazendo todo dia ali [entrada do Palácio do Alvorada]? (05/03).

O dia que vocês se conscientizarem que vocês são importantes fazendo matérias verdadeiras, o Brasil muda. (05/03).

Quando vocês aprenderem a fazer jornalismo, eu converso com vocês. (06/03).

No último 26 de março, contrário à recomendação de quarentena da Organização Mundial da Saúde (OMS), Bolsonaro disse que foi criticado por sua postura, mas que a imprensa também estava descumprindo o isolamento social:

Atenção, povo do Brasil, esse pessoal aqui diz que eu estou errado porque tenho que ficar em casa. Agora eu pergunto: o que que vocês estão fazendo aqui? Imprensa brasileira, o que vocês estão fazendo aqui? Não tão com medo do coronavírus, não? Vão para casa! Todo mundo sem máscara!

Os ataques são frequentes aos jornalistas e à imprensa. Em lista elaborada pela organização Repórteres Sem Fronteiras, e publicada no último 21 de abril, o Brasil caiu, pelo segundo ano consecutivo, no ranking de liberdade de imprensa. O país ocupa o 107º lugar de 180 posições.

O relatório afirma que a eleição do presidente Jair Bolsonaro, “deu início a uma era particularmente sombria da democracia e da liberdade de imprensa no Brasil (…). A propriedade da mídia continua muito concentrada, especialmente nas mãos de famílias de grandes empresas que estão, com frequência, intimamente ligadas à classe política. A confidencialidade das fontes dos jornalistas está sob constante ataque e muitos repórteres investigativos foram submetidos a processos judiciais abusivos”, ressalta a entidade.

“Com ameaças e ataques físicos, o Brasil continua sendo um país especialmente violento para a mídia, e muitos jornalistas foram mortos em conexão com seu trabalho. Na maioria dos casos, esses repórteres, apresentadores de rádio, blogueiros ou provedores de informações de outros tipos estavam cobrindo histórias relacionadas à corrupção, políticas públicas ou crime organizado em cidades pequenas ou médias, onde são mais vulneráveis”, diz a Repórteres Sem Fronteiras.

Hoje, 03, celebramos o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. A data foi criada em 20 de Dezembro de 1993, com uma decisão da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) e celebra o Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Segundo levantamento da Repórteres Sem Fronteiras, Bolsonaro foi responsável por 32 ataques verbais ou ofensas à imprensa nos três primeiros meses de 2020. Uma média de um a cada três dias. De acordo com a entidade, o presidente realizou 15 ataques diretos a jornalistas, sendo cinco deles destinados às mulheres. Na ocasião do Dia Internacional da Mulher, março de 2020, a jornalista Juliana Kataoka fez um levantamento e destacou que oito mulheres jornalistas foram diretamente atacadas pelo presidente desde janeiro de 2019.

Diante desses ataques, podemos afirmar que há método e razão de ser. Nesse sentido é impossível dissociar a trajetória de Bolsonaro – de seus seguidores, bem como de diversos grupos antidemocráticos que avançam em todo o território nacional –, da postura misógina, relacionada à violência que é praticada contra a mulher e contrária aos direitos das mulheres e a todo tipo de feminismo. Lembremos que Jair Bolsonaro ganhou notoriedade quando, ainda deputado federal, disse que não estupraria uma colega “porque ela não merecia”. E no discurso de posse, como presidente da república prometeu combater o que chama de “ideologia de gênero” para “valorizar a família”, diga-se família, sua concepção heteronormativa, ou seja, a mulher subjugada à liderança masculina.

Por fim, ressalto a função vital da imprensa em tempo de crise. Sem a imprensa, sem profissionais comprometidos com a verdade seríamos contaminados com as informações falsas. Isso seria letal para toda sociedade.

No Dia Mundial da Liberdade da Imprensa, a ONU ressalta a importância da imprensa em meio à pandemia:

“Jornalistas e profissionais da mídia são cruciais para nos ajudar a tomar decisões informadas. À medida que o mundo luta contra a pandemia da Covid-19, essas decisões podem fazer a diferença entre a vida e a morte.”

Dessa forma começa a mensagem, em vídeo, do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, para marcar o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Lembrada anualmente em 3 de maio, a data tem como tema esse ano o Jornalismo sem medo ou favor.

Guterres fez um apelo aos governos, e à sociedade como um todo, para garantir que os jornalistas possam fazer seu trabalho durante a pandemia da Covid-19, incluindo outros temas. Os chefes da ONU e da Unesco alertaram ainda sobre a onda de boatos que tomou o planeta durante a crise, classificada como “infodemia”.

“À medida que a pandemia se espalha, dá origem também a uma segunda pandemia de desinformação, desde conselhos prejudiciais à saúde até teorias conspiratórias ferozes. A imprensa fornece o antídoto: notícias e análises verificadas, científicas e baseadas em fatos”, destacou.


Um olhar comunicacional sobre os cultos “online”

Reflexões e desafios pastorais durante e pós-pandemia

Publicado no Medium por Ramon Nascimento* dia 27/04/2020

Templos vazios e a liderança precisou se reinventar na internet. Foto: IBAB, 2020.

Estamos vivendo um momento em que nunca antes na história da igreja cristã, principalmente no que diz respeito a igreja evangélica brasileira, se viu tantas estratégias por parte dos líderes das instituições religiosas. De cultos online a cultos no formato “drive-in”.

É importante destacar que o nosso intuito ao escrever este artigo é lançar luz sobre as estratégias que estão em prática no contexto atual das igrejas evangélicas no Brasil, precisamente no que tange ao culto onlineNão objetivamos suscitar aqui o debate teológico daquilo que entendemos como culto público cristão. Como também tentamos evitar aqui o debate polarizador sobre o que é e o que não é culto, mesmo que possamos tangenciar em nosso olhar comunicacional.

A partir do que presenciávamos no contexto da igreja evangélica brasileira, antes da pandemia, poucas instituições evangélicas no Brasil, de fato, produziam conteúdo exclusivo no ambiente digital. A atuação digital da maioria das instituições era apenas transmitir seus respectivos cultos realizados no templo. Com a publicação dos decretos governamentais, impedindo o funcionamento de celebrações religiosas a fim de evitar a aglomeração de pessoas no templo, só restou o ambiente digital como o único possível a reunir pessoas para realizar as celebrações à distância.

Logo, as mídias sociais digitais deixaram de ser apenas o ambiente de transmissão de cultos e passaram a ser o espaço exclusivo de comunicação, relação, participação, presença e produção em rede. A questão é que muitos pastores tiveram de iniciar um processo produtivo com geração de conteúdo bíblico e social, como foi o caso, de pastores que começaram a fazer um bate-papo em lives do Instagram, por exemplo, com os fiéis-profissionais de outros campos do saber, não necessariamente o teológico. No entanto, é preciso levar em conta que o grande desafio de muitos líderes não se restringe apenas à produção de conteúdo, mas também a limitação tecnológica no uso das plataformas digitais e no próprio acesso à uma boa conexão de internet.

Em relação ao culto, evento semanal das igrejas evangélicas, podemos entender comunicacionalmente que as nossas práticas religiosas são desterritorializadas. O ambiente digital provoca a (re)construção de nossas religiosidades, das quais há muito tempo já não estão restritas ao templo. Comunicacionalmente falando, a experiência do virtual é real e, por ser virtual, não significa que o culto deixe de ser culto. Compreendemos que o culto a Deus não emana do local em que estamos, mas torna-se um vínculo do “Eu sou” com o “eu interior”.

Para você entender melhor essa questão da virtualidade do culto, vamos exemplificar com a prática universal da oração. Em Mateus, capítulo 6, versículo 6 diz o seguinte: “Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a tua porta, ora a teu Pai, que vê o que está oculto”. É bom deixar claro que, quando Jesus falou essas palavras, ele não estava sacralizando o quarto como o lugar exclusivo da oração. O contexto de Mateus 6 refere-se ao exibicionismo religioso e social que Jesus condenou e chamou de hipócritas os que agiam daquela maneira descrita no texto. Entendendo que não existe um lugar sagrado da oração, a própria oração já é esse lugar.

No contexto da pandemia do novo coronavírus, em que os templos estão fechados, uma igreja evangélica convocou sua comunidade a orar todos os dias com a seguinte frase publicada nas mídias sociais: “todo dia, ao meio dia, a IBAB reunida nesse lugar chamado oração”. O lugar da oração é simbólico. Não existem lugares físicos específicos de oração.

Entendendo o lugar simbólico da oração, também podemos compreender que a virtualidade do culto, em sua natureza, permite que o culto online seja culto a Deus. Aliás, não existe lugar sagrado para cultuar, podemos assim fazer no templo, na rua ou na rede. Lógico que a virtualidade das práticas religiosas não deve substituir a essência da comunidade cristã. Acredito que a igreja é uma comunidade em ação e sem a interação física dos membros e do cuidado pastoral não é possível, de fato, sermos uma igreja.

Mas o nosso olhar comunicacional do fenômeno em questão não chama atenção para o que é igreja e o que não é. Objetivamos aqui no texto a nos limitar ao culto online. Apenas para deixar registrado como exemplo, a igreja Verbo da Vida, com templo sediado em Campina Grande/PB, realizou um culto a Deus no estilo Drive-In. As pessoas não podiam descer do carro, apenas os diáconos transitavam ao levar os elementos da ceia aos que estavam presentes nos seus veículos.

Então, quais são os desafios dos líderes evangélicos pós-pandemia?

O retorno das atividades religiosas nos templos será readequado. É fato que o normal que vivíamos até 15 março de 2020 não viveremos mais. No entanto, com relação ao ambiente digital, os líderes das grandes igrejas continuarão produzindo conteúdo como sempre fizeram. Esses não tiveram dificuldades com os desafios impostos pela quarentena.

Já os líderes de médias e pequenas igrejas espalhadas por todo o Brasil terão vários desafios pela frente. O caminho entre esses deve ser o do aprendizado, ou seja, sugiro aqui que tais líderes voltem seus olhares ao que as grandes igrejas no Brasil e no mundo estão fazendo e a forma como eles produzem conteúdos no ambiente digital. Se faz necessário deixar de apenas transmitir cultos para produzir conteúdo religioso! Por que não aprender com os líderes que produzem bons conteúdos bíblicos e midiáticos? No ambiente digital, o isolamento individual entre cada igreja não é uma estratégia inteligente. É preciso termos uma inteligência coletiva religiosa, ou seja, um aprender com o outro.

É fato que o pastor que iniciou suas respectivas lives no Instagram durante a quarentena, abordando vários assuntos praticamente todos os dias, é o mesmo pastor que será cobrado por sua audiência. Então por que deixar de produzir conteúdo para o seu público?

Essa “assistência” digital não pode morrer com o fim da quarentena. E se morrer, o líder deixa de lado uma grande oportunidade de posição privilegiada em cumprir o próprio Ide de Jesus. Saiba que ignorar a internet hoje em dia é também ignorar pessoas, porque internet não é apenas uma relação de máquinas, mas também de humanos.

Portanto, o salto que o contexto da pandemia permitiu foi de que a transmissão por si só não se sustenta mais. O ambiente online não existe para que a religião seja transmitida, mas para que ela seja produzida. E quando tratamos de produção estamos nos referindo a produzir conteúdos religiosos, não só o culto, mas entrevistas, palestras, aulas, musicais… É preciso também que o pastor não apenas pregue, no sentido da transmissão unilateral da Palavra, mas também dialogue com seu público! Lembre-se que do outro lado da tela existem pessoas que estão lhe ouvindo, mas que também querem ser ouvidas!

Já está mais do que na hora da liderança evangélica se reinventar no ambiente digital. Por fim, peço aos “apocalípticos” que não ignorem a internet! Aos “apaixonados”, peço que tenham cautela! Entendam que a internet é uma morada. Nela habitamos. Internet deixou há muito tempo de ser ferramenta de divulgação do Evangelho. Hoje internet é ambiente de relações humanas. E para que a mensagem alcance essas relações é preciso também conhecer as estratégicas midiáticas. Produção de conteúdo não é coisa de amadores, mas é estratégia de quem quer aprender fazendo.

Todo líder religioso, quando a quarentena acabar, terá duas igrejas para liderar: a física e a digital.

*Ramon Nascimento é doutorando em Estudos da Mídia e pesquisador na área de Mídia e Religião, além de palestrante sobre a temática da cultura digital.

O perigo da Infodemia

Publicado no Correiro Braziliense por Flávia Ribeiro* dia 11/04/2020

Enquanto os cientistas correm contra o tempo para a descoberta da vacina da Covid-19, o jornalismo sério e responsável avança para evitar um dos maiores perigos dessa pandemia: a desinformação.

O termo infodemia é justamente a propagação massiva de informações falsas a respeito da pandemia do Coronavírus. Como jornalista e advogada, assisti uma live sobre Fake News e Direito Digital da Escola Superior de Advocacia do Rio de Janeiro (ESA-RJ), que me fez refletir sobre quais são os verdadeiros influenciadores nessa guerra para conter o crescimento de casos da doença. 

Quem verdadeiramente está estimulando ou não a sociedade brasileira a respeitar as diretrizes sugeridas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelos governos? Qual tem sido o papel e o impacto dos veículos de comunicação tradicionais e das redes sociais nesse contexto? Como vigiar e controlar a disseminação de fake news? Como o Direito Digital pode ajudar a punir os responsáveis por essa infodemia, que agrava o quadro de confusão mental e ansiedade entre as pessoas? 

Não há dúvidas de que a revolução experimentada pelo jornalismo digital mudou drasticamente o modo de produção de notícias. No entanto, o compromisso com a veracidade dos fatos, essencial para a profissão, não mudou. Nas últimas semanas, a sociedade em geral tem participado de uma maratona de lives no Instagram e usado desenfreadamente as plataformas digitais que abriram o seu conteúdo gratuitamente. Com as mudanças revolucionárias que a Internet trouxe para o jornalismo nas últimas décadas, ficou cada vez mais complexo checar fontes, desvendar edições de vídeos muito bem feitos, fazer uma “perícia” cuidadosa para identificar na velocidade dos fatos o que realmente é desinformação e o que, no meio do processo, já viralizou em centenas de grupos de WhatsApp. 

Como diria o poeta Mario Quintana: “o mais difícil mesmo é a arte de desler”. O Instituto Reuters (junto da Universidade de Oxford) publicou um estudo no último dia 07/04 que revela: quase 70% das informações divulgadas sobre o Covid 19 vinham de influenciadores digitais, incluindo políticos, celebridades e figuras públicas e redes sociais.  Desse total, 20% das informações eram inverídicas. 

O Instituto mapeou alguns dos principais tipos, fontes e reivindicações de desinformação do COVID-19 e analisou uma amostra de 225 “informações” classificadas como falsas ou enganosas por verificadores de fatos e publicadas em inglês entre janeiro e o final de março de 2020. Isso significa que grande parte da sociedade está consumindo notícias através das redes sociais, que são grandes distribuidoras de fake news.  Os dados demonstram ainda que 59% das postagens do Twitter foram classificadas como falsas por verificadores de fatos e permanecem em alta. No YouTube, 27% permanecem ativos e no Facebook, 24% do conteúdo com classificação falsa continuam ativos sem rótulos de aviso

Vale lembrar que os formatos de fake news que circulam excessivamente e em uma velocidade exponencial podem ser fabricados e manipulados por especialistas. Uma simples edição em centésimos de segundos de um frame de vídeo pode distorcer totalmente a informação. Os olhos de pessoas mais leigas não conseguem perceber essa mudança. Em termos de formatos, a maioria (59%) da “desinformação” coletada na amostra envolve várias formas de reconfiguração, nas quais informações existentes e frequentemente verdadeiras são geradas, distorcidas, recontextualizadas ou retrabalhadas. Pelo menos 38% das fake news foram completamente fabricadas. Boa parte dessas notícias, 87% circulam entre as mídias sociais

Além disso, é alarmante o potencial de crescimento da “deep news”. “Hoje, a deep fake não está massificada. Com ferramentas simples, não é possível montar esse tipo de conteúdo mais sofisticado. “Muitos casos, só um perito poderia identificar. Por isso, a conscientização da população é fundamental. Não há uma “reinformação” de qualidade na mesma velocidade que a tecnologia tem propagado”, alerta a advogada e vice-presidente da Comissão de Proteção de Dados e Privacidade da OAB-RJ, Samara Castro. “O custo para checagem será caríssimo e não temos tantos profissionais qualificados para fazer rapidamente o contraponto da notícia”, complementa. 

Em termos de reivindicações enganosas ou falsas sobre as ações ou políticas de autoridades públicas, incluindo órgãos governamentais e internacionais como a OMS ou a ONU, são a maior categoria aparecendo em 39% da amostra. Em termos de respostas, as plataformas de mídia social responderam à maioria das postagens classificadas como falsas pelos verificadores de fatos, removendo-as ou anexando vários avisos.

Outra pesquisa conduzida pelo Centre for Countering Digital Hate do King’s College London sugere um vínculo estatisticamente significativo entre pessoas que acreditavam em falsas alegações sobre o Coronavírus e pessoas que estavam dispostas a desrespeitar as diretrizes de distanciamento social do governo. O estudo demonstrou que 60% das pessoas que acreditam nas questões inverídicas estão mais sujeitas a descumprirem as políticas de isolamento social e confinamento doméstico

“Parece meio óbvio quando pensamos em termos de Brasil em que a descrença com a gravidade da situação é notável entre pessoas e até entre governantes. Mas a Organização Mundial de Saúde até usou nome próprio para tal fenômeno: infodemia. A receita básica que usamos agora para o vírus com o isolamento social pode ser replicada também para o combate ao espalhamento das “fake news”.

Samara Castro

Sem dúvidas, é responsabilidade de todos os jornalistas do mundo checar inúmeras vezes as fontes e duvidar do formato de eventual fato que chame atenção em grupos de colegas, amigos e familiares. Cada indivíduo também deve evitar a propagação das fake news. É preciso criar uma consciência coletiva que impeça a multiplicação das informações falsas e distorcidas – disseminadas em uma velocidade inimaginável – assim como o Covid 19 se alastra. 

Para o advogado Diogo Rais, professor de Direito Eleitoral do Mackenzie e da FGV-SP e pesquisador de Direito e tecnologia, fake news não são notícias falsas. “São notícias fraudulentas, sabidamente mentirosas, mas produzidas com a intenção de provocar algum dano”. Sem dúvida: o jornalismo está atravessando o seu grande paredão e, simultaneamente, o Direito Digital pressionado para solucionar os conflitos que não param de chegar. Como os operadores de direito devem proceder? Lutar para retirada dos conteúdos nocivos do ar, responsabilizar as plataformas de distribuição de conteúdo? 

Segundo Samara, a recomendação da Organização dos Estados Americanos (OEA) é de que os países não devem criar novos tipos penais sobre as fake news. “Os tipos penais que existem já são suficientes para punir os responsáveis”, afirma. Particularmente, acredito na responsabilização também das plataformas de conteúdo. Por sinal, esse é um momento muito oportuno para pressionar as gigantes de TI para aprimorar as suas políticas sobre termos de uso e privacidade, elevando o seu grau de transparência e governança. Além disso, temos que encontrar consenso para questões polêmicas que envolvem a liberdade de expressão, os termos de uso geral das redes sociais, etc. 

Não foi preciso ter uma decisão judicial em mãos para que o Facebook e o Instagram retirassem do ar, de forma inédita no Brasil, um conteúdo publicado por um presidente da República. O Facebook e o Twitter fizeram recentemente uma emenda na política deles sobre termos de uso e privacidade em relação às informações científicas relativas ao Covid 19. A reputação das grandes empresas de TI está em jogo e esse risco elas não querem correr. “Uma plataforma deveria ter esses poderes? Seria o caso de a sociedade depositar a sua confiança só nesse espaço dessas grandes empresas de tecnologia?”, comenta a advogada. 

Para esquentar o debate, vamos observar o uso que o presidente da República tem feito das redes sociais para se comunicar com o povo e, em contrapartida, o Ministério da Saúde que afirmou essa semana que só daria informações através da coletiva de imprensa – canal oficial para o relato diário dos boletins sobre o Covid 19. Quem merece a nossa confiança? 

Dentro do gerenciamento de crises, estamos certos que só combatemos a massa de desinformação com menos disseminação e com o aumento de noticiários responsáveis e de qualidade. O cidadão comum pode ter um faro sobre um fato falso, mas o jornalista profissional tem o dever de checá-lo e combatê-lo. Há séculos buscamos um equilíbrio entre a liberdade de expressão, ação e a regulação jurídica, visando o bem-estar comum e o respeito aos direitos fundamentais. 

A construção da democracia digital exige conhecimentos multisetoriais de filosofia, antropologia, direito, Comunicação, Tecnologia da Informação. O cenário é muito desafiador. E a pergunta que não quer calar: existe uma política eficiente de proteção dos dados e da privacidade para as pessoas? A empresa Zoom ampliou massivamente o número de usuários nas últimas semanas e teve que pedir desculpas publicamente por ajustar problemas de segurança na plataforma. 

Segundo Eduardo Magrani em “Entre dados e robôs – Ética e Privacidade na era da Hiperconectividade” (Arquipélago Editorial), pesquisas estimam que, em 2020, a quantidade de objetos interconectados passará dos 25 bilhões, podendo chegar a 50 bilhões de dispositivos inteligentes. As projeções para o impacto deste cenário de hiperconexão na economia são impressionantes. Só para mostrar o universo da Internet das Coisas que estamos mergulhados e como essas questões ficarão cada vez mais complexas nas próximas décadas. “Coisas inteligentes, capazes de imitar o comportamento humano e de outras máquinas, aprender com os próprios erros e demonstrar curiosidade, possuindo alto poder de investigação e processamento”, lembra Marco Aurélio Castro em “Personalidade jurídica do robô e sua efetividade”.

A boa notícia é que as novas pesquisas sinalizam que podemos mudar esse jogo. Como todo bom trabalho de comunicação, através de um diagnóstico bem preciso, é possível traçar estratégias que possam atingir de forma mais assertiva a opinião pública. E, nada melhor do que o bom jornalismo, para combater essa infodemia. Estamos em um grande laboratório de testes reais e devemos olhar com cuidado para os desdobramentos do consumo e compartilhamento irresponsável de notícias. 

Discussões sobre vigilância e abuso de poder digital ultrapassaram os episódios assustadores de Black Mirror. É só ligar a TV que emissoras estão fazendo campanha publicitária para alertar o espectador o que é “fato” ou “fake”. Como ficam as leis sobre direitos humanos, direitos de personalidade, o direito à privacidade e, ao mesmo tempo, cruzar tudo isso com os códigos de ética de empresas, governos, ONGs e todos os setores da sociedade? O dever de casa é longo, mas a quarentena tem demonstrado um momento muito apropriado para investigarmos a fundo todas essas questões e ressignificar o verdadeiro papel do jornalismo como essencial para a democracia e à proteção do bem maior: a vida! 

Fonte:

Institute Reuteurs – “O Perigo da Infodemia

Consultor Jurídico – “A melhor tradução para fake news não é notícia falsa, é notícia fraudulenta

*Flávia Ribeiro é jornalista e advogada