Nos últimos dias, a cena musical gospel brasileira foi sacudida por uma intensa controvérsia envolvendo a canção “Auê (A fé ganhou)” do Coletivo Candieiro. O Bereia verificou que a música se tornou centro de uma intensa onda de ataques e desinformação em plataformas como Instagram, TikTok e X (antigo Twitter).
A produção, que integra o projeto audiovisual “O Grande Banquete”, gravado ao vivo em João Pessoa (PB), tem sido alvo de perfis de identidade religiosa conservadora que classificam a composição como “macumba gospel”, “invocação de demônios” e acusam seus autores de serem “servos de Satanás”. Bereia buscou informações em torno da produção, da identidade do grupo musical e confrontou críticas com ataques de violência verbal que circulam no ambiente digital.
A produção “O Grande Banquete” e a canção “Auê”
A música “Auê” faz parte do álbum “O Grande Banquete”, lançado no início deste 2026 pelo pastor e cantor Marco Telles, em parceria com o Coletivo Candieiro. Os compositores explicam que o álbum é concebido como um “sermão musical”, uma experiência sonora contínua composta por nove faixas que exploram a temática da hospitalidade divina e a inclusão dos “improváveis” no banquete do Reino de Deus.
Ritmicamente, “Auê” é uma fusão de elementos da música popular brasileira, com forte presença da ciranda, do samba e de percussões nordestinas. A letra utiliza termos do cotidiano brasileiro para ilustrar a alegria da fé. A polêmica concentra-se em trechos como:
“Agora que o Zé entrou, e todo mundo viu / (…) Agora que a fé ganhou, e a Maria sambou / Sua saia balançou, alguém se incomodou”.
O que é o Coletivo Candieiro?
O Coletivo Candieiro não é uma banda vinculada a uma única denominação, mas o selo de um movimento de artistas cristãos, majoritariamente do nordeste do país, fundado por volta de 2019. O grupo é liderado por Marco Telles, que também é pastor da Igreja Luzeiro, em João Pessoa (PB). O propósito do coletivo, conforme manifesto publicado em seu site oficial e em entrevistas a veículos como Ultimato e Apenas Música, é “ecoar a voz e o canto da regionalidade com sotaque”, rompendo com a estética homogeneizada da indústria gospel do Sudeste. O grupo defende a “teologia da cultura”, buscando expressar a fé cristã através das linguagens e ritmos brasileiros, combatendo o que chamam de “elitismo litúrgico”.
Desinformação e ataques
As publicações verificadas pelo Bereia mostram que a polêmica não se restringe a uma mera divergência estética. Críticos, majoritariamente de vertentes teológicas e políticas mais conservadoras apontam para elementos na letra e no ritmo que, em sua visão, rompem com os padrões estabelecidos da música cristã. O uso da palavra “auê” – que significa barulho, agitação – e referências a figuras populares como “Zé” e “Maria”, além da incorporação de ritmos como ciranda e samba, foram interpretados por alguns como um perigoso flerte com o sincretismo religioso e uma diluição da pureza doutrinária cristã.
A associação de “Maria sambou” com a figura de Maria Padilha, divindade de religiões de matriz africana, e a menção a “Zé” remetendo a Zé Pelintra, entidades afro-brasileiras, são exemplos das interpretações que alimentaram a controvérsia e causou repercussão negativa entre os mais conservadores agitando as redes sociais. Ouvidos pelo Bereia, os compositores Marco Telles e Filipe da Guia reafirmaram o que tem sido amplamente divulgado pelo grupo nas mídias sociais: que os nomes representam o “povo comum brasileiro” e que a intenção foi “representar o nosso povo e de forma nenhuma fazer alguma conexão ou associação a outra religião”.
A controvérsia, marcada inicialmente por estas interpretações, acabou sendo alimentada por desinformação. Alguns perfis publicaram vídeos da apresentação da música, com edições manipuladas, afirmando que a música conteria “mensagens subliminares” e que o ritmo de ciranda seria uma forma de “evocação espiritual não-cristã”.
Entre as mentiras levantadas na pesquisa do Bereia, destacam-se acusações de “satanismo” – postagens que classificam os integrantes como “intrusos do satanismo no meio evangélico”.
Foram publicadas também afirmações de que o grupo estaria realizando um ritual sincrético oculto, com desconsideração ao histórico dos músicos e as explicações teológicas e poéticas que forneceram.
Apoios e defesa da pluralidade
Apesar dos ataques, o Coletivo Candieiro recebeu apoio de lideranças evangélicas de diferentes vínculos políticos e teológicos e de pessoas das igrejas, evidenciando que a aceitação da obra não está restrita a um único grupo.
Pastor Carlos Alberto Bezerra Jr. Imagem: reprodução/InstagramPastor Alexandre Gonçalves. Imagem: reprodução/XPastor Luiz Sayão. Imagem: reprodução/Instagram
Pastor Kenner Terra. Imagem: reprodução/X
Sincretismo ou racismo religioso? A visão dos especialistas
Bereia ouviu o especialista em pluralismo religioso, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, Prof. Dr. Cláudio Ribeiro sobre o caso. Para ele, a polêmica em torno da música está diretamente relacionada ao uso dos termos “Zé e Maria” como expressão do universo afro-brasileiro. Ele considera que essa controvérsia expõe uma dificuldade dos grupos evangélicos em lidar com elementos religiosos de matriz africana. Ribeiro é categórico ao afirmar:
“Quando as pessoas falam de sincretismo, elas estão escondendo o racismo que está dentro delas; elas não querem se misturar com elementos de outras religiões, emespecial das comunidades negras. É um racismo religioso.”
Para o pesquisador, essa perspectiva lança luz sobre uma dimensão frequentemente ignorada no debate: o racismo religioso, onde a aversão a certas expressões culturais pode mascarar preconceitos mais profundos.
Já o músico Jorge Camargo, com uma trajetória sólida de 45 anos na cena musical evangélica, também ouvido pelo Bereia, destaca que a letra que menciona “a Maria sambou e o céu se abriu” gera desconforto por associar o samba ao ambiente de adoração.
Para Camargo, essa é uma discussão antiga, pois “em nossas liturgias, a presença do corpo ou de danças sempre foi muito rechaçada sobre o argumento de que isso possa sensualizar ou carnalizar as nossas expressões de louvor e tudo mais.” O músico defende que a dança deveria ter mais espaço, criticando a superficialidade ou os “cuidados excessivos” que cercam essa expressão, como se a carnalidade estivesse presente apenas nas manifestações artísticas culturais e não no “labor teológico, no labor da pregação”.
Camargo traça um paralelo histórico, lembrando que a figura do artista e do músico no Brasil, desde o início do século 20, foi muitas vezes associada ao “boêmio e que não gostasse de trabalhar”. Para ele, a reação a “Auê” é um “filme antigo” que se repete:
“Nada muda desde a década de 80, a arte chamada secular contaminando a arte cristãpara os tradicionais.
No seu ponto de vista, o que está acontecendo com a canção ‘Auê’ parece mais do mesmo, parece a reprodução de um filme antigo; onde muda-se as personagens, muda-se o tema, o roteiro, mas a essência é a mesma. Esse misto de ignorância e, hoje com o advento das mídias sociais, também um componente de maldade e de agressividade gratuito.”
O que dizem os compositores de “Auê”
Em entrevista ao Bereia, o diretor criativo do Coletivo Candieiro e um dos compositores da canção pastor Marco Telles, oferece uma avaliação sobre o impacto de “Auê”. Ele acredita que o “burburinho” causado pela música no contexto das igrejas evangélicas se deve a um distanciamento da própria cultura brasileira:
“Acho que essa música causou tanto burburinho na igreja porque a igreja tem demonstrado um imenso afastamento de sua própria cultura, de seus traços maiselementares, dos seus símbolos de identificação própria. Como a música AUÊ resgata alguns dos símbolos e traços culturais do Brasil, isso soa estranho para a igreja.”
Essa avaliação sugere que a estranheza não reside na música em si, mas na desconexão de parte do evangelicalismo com as raízes culturais do país, preferindo modelos importados que, por vezes, não dialogam com a realidade local.
“Quando eu e Filipe estávamos compondo essa canção a gente só pensava na alegria de representar o povo brasileiro entrando na festa de Deus. A gente só queria representar que essa festa de Deus é um banquete para os improváveis, é uma festa que acolheu tanta gente diferente no mundo, tanta gente diminuta, tanta gente periférica e entre esses estamos nós os latino-americanos, que estamos na parte sul do globo e que historicamente estamos sempre submetidos a tanta exploração e tantas guerras culturais.
A gente agora tem a possibilidade de se ver na festa de Deus, de se ver na obra de Cristo, de se encontrar na obra de Cristo. Nossa única intenção foi representar o nosso povo e de forma nenhuma fazer alguma conexão ou associação a outra religião” destaca Telles.
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A partir desta apuração, Bereia avalia que “Auê” do Coletivo Candieiro, mais do que uma simples canção, tornou-se um catalisador para debates urgentes e necessários para o campo religioso. A controvérsia em torno da letra e do ritmo da canção não apenas expõe as tensões entre religião e cultura musical, mas também revela questões mais profundas relacionadas à identidade cultural, ao racismo religioso e à forma como a fé se expressa em um contexto tão plural como o Brasil.
A música, ao resgatar símbolos e traços culturais nacionais, força as igrejas e suas lideranças a confrontarem seu próprio espelho, questionando até que ponto estão dispostas a abraçar a riqueza da cultura brasileira sem cair em preconceitos ou em uma ditadura do mercado gospel” que marginaliza expressões autênticas de fé. O “auê” gerado pela canção é, em última instância, um convite à reflexão sobre o futuro de uma fé que busca ser relevante e encarnada em seu próprio “chão”.
As críticas resultam de interpretações subjetivas e preconceitos culturais (racismo religioso) contra ritmos e termos da cultura popular brasileira. A verificação mostra que o Coletivo Candieiro possui fundamentação teórica e teológica para sua produção, e que as acusações de “invocação de demônios” são FALSAS pois carecem de base factual, servindo para alimentar o pânico religioso e a perseguição a artistas que buscam inovar na estética cristã nacional.
Segundo o estudo, 59% dos agressores em casos de racismo religioso são identificados como evangélicos. O dado viralizou nas mídias sociais, o que levou o Bereia a verificar o conteúdo com acesso ao texto do relatório e coleta da avaliação de especialistas.
Em sua segunda edição, a pesquisa contou com a participação da Coordenação de Liberdade Religiosa (CGLIB) e da Secretaria de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos (SNDH) do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC). Também colaboraram o Grupo de Pesquisa Museologia Experimental e Imagem (MEI) da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), a Defensoria Pública da União (DPU) e o Instituto Raça e Igualdade.
O objetivo central do projeto foi mapear a violência motivada pelo racismo religioso contra comunidades afroreligiosas. O estudo buscou identificar agentes, contextos, padrões das agressões e formas de resistência adotadas pelas lideranças religiosas.
O relatório apresenta análises sobre impactos físicos e emocionais da violência, casos de racismo religioso em ambientes offline e online, perfis dos agressores, locais onde as agressões ocorrem com maior frequência, além de indicadores regionais. O material também reúne propostas de enfrentamento elaboradas pelas próprias lideranças e orientações de denúncia para responsabilização dos autores.
Para o levantamento, foi aplicado um questionário direcionado exclusivamente a líderes religiosos responsáveis por terreiros em atividade. O alcance nacional ocorreu com o apoio de religiosos de todas as regiões do país, da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, do Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (Idafro) e do Instituto Raça e Igualdade.
O relatório destaca um dos relatos recorrentes entre as lideranças: “Atualmente, temos sido vítimas de uma campanha orquestrada por grupos religiosos, muitas vezes de origem pentecostal, que em alguns casos são associados ao narcotráfico e à milícia.”
Dados alarmantes
O estudo revela que 77% dos terreiros entrevistados sofreram racismo religioso e que 74% das lideranças relataram ameaças ou destruição de casas sagradas. Apesar da gravidade das ocorrências, apenas 26% dos casos foram registrados em boletim de ocorrência, o que aponta dificuldades persistentes no acesso à justiça.
A pesquisa também mostra que:
97% dos participantes afirmam saber o que é racismo religioso;
80% já foram alvo de atos discriminatórios;
52% sofreram racismo religioso na internet;
Ambientes digitais mais citados como locais de violência: Facebook, Instagram, YouTube, TikTok e X (87%);
Principais grupos mencionados como agressores: evangélicos (59%), servidores públicos em atendimentos (10%), vizinhos (8%) e usuários de redes sociais (6%);
79% dos terreiros possuem perfis nas redes digitais, com predominância do Instagram.
De acordo com a Defensoria Pública da União (DPU), racismo religioso é crime e se caracteriza por desvalorizar ou rejeitar práticas religiosas, seus adeptos, tradições e territórios sagrados com base em preconceito racial ou étnico. A prática expressa discriminação e ódio racial ao afirmar, direta ou indiretamente, que apenas uma religião deve prevalecer sobre as demais.
O Bereia ouviu um pastor evangélico e um pesquisador em Ciências da Religião que atuam no campo religioso, para analisar os dados e compreender diferentes perspectivas sobre o tema.
Conforme o pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religiao ds Universidade Federal de Juiz de Fora Cláudio Ribeiro, o caráter conversionista, próprio de segmentos evangélicos, em alguns momentos produziu discursos de tom mais combativo. Porém, eles não se traduziram, historicamente, em atos sistemáticos de violência ou intolerância religiosa.
Esse cenário, no entanto, passou por mudanças significativas na última década. Ribeiro explica que a disseminação de uma cultura de violência e ódio, incentivada por determinados grupos políticos nos últimos dez anos, contribuiu para a radicalização de discursos e práticas. Nesse contexto, a busca por um inimigo, real ou imaginário, tornou-se uma estratégia recorrente de afirmação identitária, especialmente entre grupos que historicamente ocuparam posições minoritárias na sociedade.
Associado a isso, o pesquisador destaca a presença estrutural do racismo no Brasil. Sob influência de uma ideologia política que legitima a violência, parte de grupos evangélicos passou a direcionar ataques mais agressivos contra comunidades de religiões de matriz africana. As manifestações mais graves aparecem nas agressões físicas e na destruição total ou parcial de terreiros.
O pastor batista Julio Oliveira, de São Gonçalo (RJ), que tem atuado no diálogo inter-religioso, realizou uma leitura atenta do relatório. Ao Bereia, o pastor afirmou que o conteúdo lhe causou angústia e dor. Para ele, mesmo com uma prática pastoral e teológica voltada ao enfrentamento da intolerância religiosa e do racismo religioso, os dados apresentados reforçam uma realidade já conhecida por quem acompanha o tema.
Julio Oliveira converge com os resultados da pesquisa, embora considere que o percentual de agressões possa ser ainda maior. Ele atribui essa percepção à diversidade existente entre os grupos evangélicos e às diferentes formas como cada segmento se relaciona com as religiões de matriz africana.
O líder evangélico explica que o protestantismo histórico, que ao longo do tempo passou por processos de pentecostalização e neopentecostalização, deixou de sustentar, em muitos casos, uma teologia e uma liturgia nos moldes denominacionais clássicos. Ainda assim, conforme ele, as igrejas históricas tendem a atuar de maneira mais sutil na demonização das religiões afro-brasileiras, prática que aparece em estudos de escola dominical, pregações, encontros bíblicos e cursos sobre outras religiões.
Em relação ao movimento pentecostal, o pastor avalia que a postura costuma ser mais direta, combativa e aguerrida. Ele ressalta, no entanto, a necessidade de cautela ao tratar do tema e destaca que não é possível generalizar, já que nem todos os segmentos ou lideranças incentivam perseguição ou violência religiosa.
Sobre o neopentecostalismo, Oliveira observa que, embora existam lideranças que respeitam a pluralidade religiosa, parte desse movimento tornou pública sua visão sobre outras crenças, especialmente as religiões de matriz africana. O pastor avalia que essa postura se expressa por meio de programas de rádio e televisão, disputas territoriais e ações em espaços públicos, como orações em ruas e encruzilhadas, acompanhadas de discursos que classificam orixás como demônios.
Julio Oliveira aponta ainda que, em casos mais graves, há violações de espaços sagrados, destruição de objetos religiosos e atuação direta desses grupos em territórios, escolas e espaços de políticas públicas. Para ele, essas práticas vão além do proselitismo religioso e contribuem para a disseminação de uma cultura do medo e da culpa. O pastor afirma que o enfrentamento do racismo religioso exige atenção permanente e que ainda há muitas lutas pela frente diante de um tema urgente e complexo.
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A análise do relatório “Respeite Meu Terreiro” mostra que o dado no qual 59% dos agressores em casos de racismo religioso são identificados como evangélicos consta no levantamento, mas não pode ser lido de forma simplista ou generalizante. O pesquisador e a liderança religiosa, ouvidos pelo Bereia, destacam que o número reflete percepções e relatos de vítimas, inseridos em um contexto marcado por racismo estrutural, disputas simbólicas e radicalização de discursos, sobretudo na última década. A apuração confirma a existência do dado, mas reforça que ele exige leitura contextualizada, distinção entre diferentes segmentos evangélicos e atenção ao alto índice de subnotificação, sob risco de reforçar estigmas e desinformação em um debate que demanda responsabilidade, precisão e compromisso com os direitos humanos.
Uma reviravolta no caso da cassação da deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) acabou sendo fonte de propagação de conteúdo enganoso por parte de deputados federais católicos e evangélicos alinhados ao bloco da direita extremista, o qual integra a parlamentar. Em 12 de dezembro passado, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes derrubou decisão da Câmara Federal que, em plenário realizado um dia antes, havia rejeitado o parecer da Comissão de Constituição de Justiça da Casa (CCJ) que votou pela cassação de Zambelli. Moraes decidiu sobre o tema porque é o relator da execução da pena da parlamentar.
O parecer do ministro relator do caso foi pela inconstitucionalidade da votação que salvou a deputada da cassação. Ele registrou que a Câmara, ao receber o resultado do julgamento, deveria ter somente declarado a perda de mandato, e não decidir se acatava ou não a decisão anteriormente tomada em julgamento da parlamentar condenada no STF. Ela foi condenada em duas ações penais no Supremo. Em um dos casos, recebeu pena de dez anos de prisão por invasão aos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com ajuda de um hacker, que também está preso. No outro, foi condenada a cinco anos e três meses de prisão por perseguição armada a opositor, às vésperas das eleições de 2022.
A deputada fugiu do país e foi presa na Itália. A Justiça italiana decidiu mantê-la presa enquanto avalia um pedido de extradição enviado pelas autoridades brasileiras, justificado como “grave risco de fuga” caso seja colocada em liberdade. Já há um parecer favorável.
A Câmara dos Deputados decidiu pela manutenção do mandato de Carla Zambelli, na madrugada de 10 de dezembro. Foram 227 votos a favor da cassação e 110 contrários.
Apesar do maior número de votos, pelo regimento da Câmara eram necessários 257(metade do rol de deputados mais um) para que fosse aprovada a perda de mandato da parlamentar. Os membros da CCJ haviam rejeitado, por 32 votos a 27, o parecer do relator do processo deputado Diego Garcia (Republicanos-PR), que havia defendido a manutenção do mandato de Zambelli, com alegação de falta de provas e perseguição. Bereia checou o uso de desinformação por Diego Garcia neste relatório, que acabou sendo reprovado pela CCJ.
A decisão do relator do caso, pela cassação imediata e convocação do suplente, encaminhada em 12 de dezembro à Câmara Federal, foi confirmada, por unanimidade,
pela primeira turma do STF, que julgou os casos que envolvem a deputada
Colegas disseminam conteúdo enganoso
Após a divulgação da decisão do STF, deputados federais com identidade religiosa, alinhados ao bloco da direita extremista, o qual Carla Zambelli integra, ocuparam as redes digitais com conteúdo enganoso, como se pode observar nas reproduções levantadas pelo Bereia.
Imagem: publicação no perfil do X do deputado católico Diego Garcia (Republicanos-PR)
Imagem: publicação no perfil do X do deputado evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG)Imagem: publicação no perfil do X da deputada católica Bia Kicis (PL-DF)Imagem: publicação no perfil do X do deputado evangélico, líder do PL na Câmara Sóstenes Cavalcanti (RJ).
O tom das publicações alega abuso de autoridade do STF, que estaria contrariando a Constituição em vez de cumpri-la. A acusação de o ministro Alexandre de Moraes agir sozinho não se sustenta por conta de o protocolo das decisões monocráticas seguir o trâmite da confirmação em plenário – seja por turmas ou do plenário integral.
O que é enganoso nas publicações dos deputados
O encaminhamento do ministro Alexandre de Moraes foi aprovado pela primeira turma do STF, que cuida do caso, por unanimidade, no mesmo dia do encaminhamento da decisão à Câmara. No voto, o ministro Moraes reiterou que a deliberação da Câmara desrespeitou os princípios da legalidade, da moralidade e da impessoalidade, além de ter “flagrante desvio de finalidade”. Segundo o relator, a perda do mandato é automática quando há condenação a pena em regime fechado superior ao tempo restante do mandato, uma vez que o cumprimento da pena impede o trabalho externo. Nesses casos, cabe à Casa legislativa apenas declarar o ato, e não deliberar sobre sua validade.
O relator observou ainda que, desde o julgamento da AP 470 (mensalão), o STF entende que a perda do mandato é efeito automático da condenação criminal definitiva, em razão da suspensão dos direitos políticos decorrente da sentença. Ele citou como precedentes casos de outros parlamentares, como Paulo Maluf.
Ao votar pela confirmação da medida, o ministro Cristiano Zanin ressaltou que a Constituição Federal prevê expressamente a perda do mandato de deputado ou senador que perder ou tiver suspensos os direitos políticos. “É evidente não haver como conciliar a circunstância de aplicação da pena com o exercício do mandato parlamentar”, afirmou.
Sob outro aspecto, o ministro Flávio Dino observou que a manutenção artificial de um assento desocupado na Câmara prejudica o direito fundamental das cidadãs e dos cidadãos do Estado de São Paulo, que terão em exercício 69 dos 70 parlamentares da bancada estadual. Dino também ressaltou que, segundo dados oficiais da Câmara, desde julho, quando a condenação se tornou definitiva, foram gastos R$ 547 mil em recursos públicos para manter o gabinete de Zambelli, mesmo com sua completa inatividade funcional e sua condição de foragida.
A ministra Cármen Lúcia, por sua vez, salientou que o princípio da moralidade administrativa impede a manutenção de mandato popular quando o parlamentar é condenado à pena que exige regime inicialmente fechado. Segundo ela, a perda do mandato decorre naturalmente da condenação, uma vez que não há possibilidade material ou jurídica de cumprir as exigências de presença mínima às sessões e participação nos trabalhos legislativos. “Como seria possível exercer o mandato sem poder comparecer às deliberações?”, questionou.
A Constituição Federal estabelece as situações em que deputados e senadores podem perder o mandato. Entre elas estão o descumprimento das restrições impostas a quem exerce o cargo, a quebra de decoro parlamentar, a condenação criminal definitiva, o número excessivo de faltas às sessões, a perda ou suspensão dos direitos políticos e decisões da Justiça Eleitoral, como nos casos de abuso de poder político ou econômico.
Dependendo da circunstância, a perda do mandato pode ser analisada pelo plenário da Casa Legislativa ou simplesmente declarada pela Mesa Diretora. Os casos que exigem deliberação do plenário são os de violação às regras constitucionais, quebra de decoro e condenação criminal. Já as situações relacionadas a faltas, perda de direitos políticos ou decisões da Justiça Eleitoral levam à declaração direta da perda do mandato pelo comando da Casa. Estas informações não são consideradas nas postagens dos deputados.
Os aliados de Carla Zambelli ainda recorrem, nas denúncias nas redes, a uma ex-juíza, afastada do cargo por improbidade. Ludmila Lins Grilo foi punida pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) com dupla aposentadoria compulsória uma série de infrações disciplinares, incluindo apoio a manifestações político-partidárias extremistas de direita, críticas públicas aos tribunais superiores e incitação ao descumprimento de normas sanitárias.
O processo de cassação
O processo de cassação do mandato da deputada do PL começou oficialmente logo após a condenação definitiva pelo STF, em junho de 2025, que, além da prisão, indicou a perda do mandato, em cumprimento da legislação. A cassação, porém, segundo a Constituição Nacional, deve ser encaminhada pela Câmara Federal. Após receber a comunicação do STF, ao invés de cumprir a determinação judicial, o presidente da Câmara Hugo Motta (Republicanos-PB) apresentou uma representação à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados (CCJ) que notificou a parlamentar e deu início à tramitação do processo.
No dia seguinte, em 12 de dezembro, o relator do caso no STF Alexandre de Moraes declarou a inconstitucionalidade da decisão da Câmara. Segundo o parecer do ministro, é o Poder Judiciário quem determina a perda do mandato de parlamentar condenado criminalmente com trânsito em julgado (quando todos os recursos são esgotados). Neste caso, segundo o STF, cabe à Mesa da Câmara dos Deputados apenas declarar a perda do mandato, por meio de ato administrativo.
O ministro Moraes registrou que a votação na Câmara é um ato nulo, por conta de inconstitucionalidade, por “desrespeito aos princípios da legalidade, da moralidade e da impessoalidade”, e por “flagrante desvio de finalidade”. O ministro do STF deu 48 horas para que fosse dada posse ao suplente da deputada, Adilson Barroso (PL-SP).
Uma nova situação produziu outra reviravolta no caso: em 14 dezembro, foi apresentada à Câmara Federal uma carta de renúncia da deputada Carla Zambelli ao cargo. Nos bastidores têm sido dito que a ação foi resultado de uma negociação que envolveu o presidente da Câmara, aliados, a família da deputada e seus advogados. A estratégia busca evitar o prolongamento da crise entre a Câmara e o STF e livrar o presidente Hugo Motta de um desgaste maior com a Corte, com o governo e com o PL, maior bancada da Casa.
Porém, lideranças de esquerda na Casa criticam o escape da cassação como uma manobra para manter a deputada elegível e com direitos políticos garantidos. Até fechamento desta matéria, há controvérsias e discussões se a renúncia tem efeito após uma decisão do STF pela cassação. Bereia seguirá acompanhando o caso.
Escrevo este artigo no contexto da celebração dos seis anos de existência e atuação do Coletivo Bereia – Informação e Checagem de Notícias, projeto de enfrentamento à desinformação sobre religião que circula em ambientes digitais religiosos e laicos. A equipe do Bereia frequentemente compartilha, com muito orgulho, que o projeto nasceu de uma atividade científica. Ele foi criado em 2019 como um dos resultados de pesquisa, realizada pelo Grupo de Estudos sobre Desigualdades na Educação e na Saúde (Gedes), do Instituto NUTES da UFRJ, “Valores e argumentos na assimilação e propagação da desinformação: uma abordagem dialógica”. A iniciativa teve como objetivo investigar como a desinformação circula entre grupos ligados a religiões, pelo WhatsApp e também por outras mídias sociais, com foco no segmento evangélico. O relatório intitulado “Caminhos da Desinformação: evangélicos, fake news e WhatsApp no Brasil”, publicado em 2021, é um importante recurso que ainda não tem paralelos.
Naquele processo, foi observado que as várias agências e projetos de checagem de conteúdo desenvolvem trabalho relevante, de alcance significativo, no entanto não se dedicam a conteúdos específicos do universo religioso ou ao aprofundamento de elementos relacionados.
Bereia surgiu, portanto, fruto da pesquisa do NUTES/UFRJ, como uma iniciativa independente, sem fins lucrativos, pela necessidade de enfrentamento da desinformação, em especial a que circula em espaços digitais de identidade religiosa. Ela é levada adiante por pesquisadoras/es, jornalistas, profissionais de áreas das ciências humanas e sociais e organizações apoiadoras, estimulados e orienados pela defesa do direito humano à comunicação, à informação, à liberdade de expressão e à liberdade religiosa. O projeto segue como o único com esta característica no Brasil e na América Latina.
Desinformação: do que se trata?
Preliminarmente denominados em estudos como “fake news”, os conteúdos que são objeto da checagem e das abordagens informativas vão além da noção de “notícia falsa”. É um processo que envolve a produção e a propagação de discursos em diferentes formatos que também incluem anúncios, denúncias, sátiras concretizadas nos populares memes. Daí a compreensão de que se trata de um fenômeno complexo.
Embora o uso de mentiras para conquistar apoios ou desmoralizar adversários não seja algo inédito na história, o que se torna novo neste tempo é tanto a intensidade da propagação, viabilizada pela era digital, quanto a sofisticação dos conteúdos falsos e enganosos, elaborados de modo a afetar o público. A lógica consiste em produzir temas que despertem emoções e dialoguem com as visões de mundo das pessoas, impulsionando atitudes como o compartilhamento das mensagens (para que viralizem), a rejeição de determinadas personagens e pautas e o apoio a outras.
A disseminação massiva dessas mensagens é favorecida pelas big techs, corporações que controlam plataformas e aplicativos digitais, como Facebook, Instagram, WhatsApp (da Meta), , o Youtube (da Google), o X, o TikTok, entre outros. Nesses ambientes circula ampla variedade de materiais textuais, imagéticos e audiovisuais, que incluem conteúdos não factuais, fabricados com a intenção deliberada de interferir em assuntos de interesse público e gerar ganhos financeiros e/ou políticos.
Estudos realizados fora do Brasil somados ao que foi desenvolvido pelo NUTES/UFRJ mostram que a religião, em especial o Cristianismo, tem sido identificada como um fator de facilitação na circulação da desinformação, bem como campo de alcance preferencial de seus efeitos. Estas abordagens apontam grupos cristãos como atores relevantes nas vitórias eleitorais de Donald Trump, nos Estados Unidos (2016), e de Jair Bolsonaro, no Brasil (2018), tendo participado ativamente da difusão de conteúdos fraudulentos que mobilizaram afetos e sustentaram as campanhas desses candidatos.
Esses processos tornaram-se paradigmáticos. As eleições brasileiras nos municípios, em 2020 e 2024, assim como as estaduais e nacionais de 2022, mantiveram a mesma dinâmica. E mais: no caso do Brasil, a desinformação se tornou política de Estado com o governo Bolsonaro, sendo o segmento cristão alvo privilegiado das produções do chamado Gabinete do Ódio.
Outros estudos revelam como a população cristã foi impactada pela pandemia de covid-19 em virtude da intensa circulação de conteúdos desinformativos negacionistas sobre as medidas sanitárias e a vacinação nos ambientes digitais religiosos.
A equipe do Bereia com base na pesquisa que forjou o projeto, construiu o conceito de desinformação com o qual trabalha e o oferece como contribuição aos estudos: Conteúdo deliberadamente criado (falso ou manipulado/enganoso) para convencer, captar apoios, confundir (desviar a atenção, dividir), destruir reputações, com a finalidade de se obterem ganhos econômico-financeiros e/ou políticos (defesa de pautas e/ou campanhas eleitorais) para interferência em temas e situações de interesse público.
Com este conceito está a comprensão de que o uso da mentira é um recurso persuasivo antigo na história humana, assim como a circulação de informações equivocadas por erro ou imprecisão não intencional. Contudo, o que distingue o contexto atual é o fato da fabricação e propagação das mensagens ser digital, com alcance amplificado por um vasto ecossistema comunicacional.
Esse ecossistema combina humanos e máquinas (interlocutores reais e perfis forjados, entre eles pessoas fictícias e bots) e opera por meio de conteúdos variados, disseminados de forma segmentada conforme motivações, valores e imaginários de distintos públicos, com a exploração de diferentes formatos e canais. As plataformas das big techs são os principais veículos dessa circulação intensa que é viabilizada por uma verdadeira indústria de conteúdo fraudulento composta por profissionais de várias áreas e financiadores interessados.
A Psicologia Social explica a ampla adesão à desinformação pelas chaves da emoção e da cognição. Mesmo após reconhecerem a falsidade de uma mensagem, muitas pessoas não a descartam, pois ela atua na confirmação de suas crenças, opiniões e modos de ver o mundo, oferecendo-lhes coerência ou conforto.
Pesquisadores associam essa atitude ao “viés de confirmação”: a tendência de validar informações que reforçam convicções prévias, sem verificação. Nesse sentido, a disseminação de falsidades ocorre entre diferentes gêneros, classes sociais, idades, grupos religiosos e ideológicos. Entretanto, pesquisas indicam que há grupos mais propensos à assimalação e à propagação, caso dos ideologicamente conservadores e dos religiosos cristãos.
Desinformação entre cristãos
As pesquisas que apontam que cristãos tendem a absorver e difundir mais intensamente conteúdo fraudulento demonstram que isto se dá não apenas por coerência com suas crenças, mas também pelo sentimento de pertença e de confiança nos ambientes religiosos nos quais estão inseridos. Soma-se a isso o “espírito missionário” para o qual são doutrinados, ou seja, a motivação de compartilhar o que entendem como “verdade revelada”. Este movimento adquire contornos de uma “evangelização” digital, uma forma de difundir mensagens para converter outros à mesma noção. Pessoas de fé cristã são, ainda, alvos preferenciais de discursos alarmistas estruturados no pânico moral e na retórica do medo, que geram alimentam imaginários em torno de inimigos, promovem insegurança e reações defensivas.
A pesquisa do NUTES/UFRJ que gestou o Bereia, voltada ao contexto brasileiro pós-2018, evidencia também que a desinformação circula com facilidade entre religiosos não apenas por alinhar-se a valores e crenças, mas também por fatores ligados à prática da fé. O uso intenso das mídias sociais, em especial dos grupos WhatsApp das comunidades de fé, como extensão da vivência religiosa se configura “um novo ir à igreja”, especialmente entre evangélicos, reforça laços comunitários e a percepção de líderes e irmãos como fontes confiáveis de informação.
Entre os conteúdos verificados pelo Bereia nos seis anos de atuação, são pelo menos três os principais blocos temáticos explorados para mobilizar o apoio de religiosos para pautas na cena pública. Questões ligadas à moralidade sexual, com ênfase sobre infância, adolescência e educação, são centrais. Propagam-se denúncias de doutrinação marxista em escolas e universidades promovidas por governos de esquerda e de erotização de crianças e adolescentes, acompanhadas de forte resistência à educação sexual nas instituições de ensino. O movimento Escola sem Partido e a retórica da chamada “ideologia de gênero”, amplamente disseminada por católicos e evangélicos, alimentam esse processo.
Outro tema de forte apelo é a “cristofobia”, noção construída sobre a ideia de uma suposta perseguição aos cristãos no Brasil, inspirada em presumidos casos internacionais, e associada ao discurso sobre possível ameaça de silenciamento ao grupo religioso e de fechamento de templos por parte de governantes alinhados às esquerdas. Esse conteúdo é frequentemente utilizado por políticos e lideranças religiosas quando criticados por suas posições públicas sobre direitos relativos à sexualidade, à reprodução e a grupos tradicionais.
Além desses temas que acionam crenças e moralidades religiosas, a desinformação entre cristãos também se manifesta em estratégias extremistas de ataque ao sistema eleitoral e ao voto eletrônico. Iniciados em 2018, esses discursos se intensificaram em 2020 e tornaram-se ostensivos em 2022, chegando ao clímax nos ataques às sedes dos Três Poderes da República, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, encontrando ampla repercussão em espaços digitais religiosos. Este conteúdo ainda permanece em circulação, junto com outros como oposição ao atual governo federal, em especial no que diz respeito à economia, à saúde e ao meio ambiente.
Um campo aberto a novos estudos
Nestes anos em que a desinformação se tornou tema de debate público e objeto de pesquisas acadêmicas, ela não só é um processo consolidado que é parte da vida dos milhões de pessoas conectadas nos espaços digitais, como se tornou estratégia política dentro e fora de períodos eleitorais. Com conteúdo fraudulento se faz política para captação de apoios do público com apelo ao pânico e ao sentimento de insegurança, e com destruição de reputações na conformação de inimigos. A ampla assimilação de grupos religiosos ao conteúdo em circulação, com produções destinadas especialmente a eles, é constatada não apenas nas pesquisas de voto, mas também em situações como a queda na cobertura vacinal no país, fruto do negacionismo que encontra terreno fértil entre grupos religiosos.
Iniciativas de enfrentamento deste quadro são articuladas, entre elas o Bereia e outros projetos, entre coletivos e grupos de pesquisa de universidades, reunidos na Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD). Também estão neste grupo as atividades de agências de checagem e as medidas de instituições do Estado, como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que passou a incorporar regras específicas sobre propaganda e fake news na legislação eleitoral.
Porém, em um cenário no qual a desinformação se consolida como estratégia para ganhos políticos e econômicos, agora agravado pelo uso da inteligência artificial, se intensifica o desafio de atentar para a instrumentalização da religião como meio de influência sobre temas de interesse público. Muitas abordagens são observadas sobre desinformação, porém poucas ainda que tratem da relação com as religiões. Neste contexto, novos estudos e pesquisas na interface comunicação, religiões e política se colocam como demanda emergente e urgente.
Estudos-Base
BRONSTEIN, Michel et al. Belief in fake news is associated with delusionality, dogmatism, religious fundamentalism and reduced analitic thinking. Journal of Applied Research in Memory and Cognition, 8, p. 108-117, 2019. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2211368118301050
CUNHA, Magali N. Fundamentalismos, crise da democracia e ameaça aos direitos humanos na América do Sul: tendências e desafios para a ação. Salvador: Koinonia, 2020. Disponível em: < https://kn.org.br/wp-content/uploads/2020/10/FundamentalismosPT-1.pdf>.
DIAMOND, Patrick, NEDERGAARD, Peter, ROSAMON, Ben. The Routledge Handbook of the Politics of Brexit. Abingdon, New York: Routledge. 2018.
FONSECA, Alexandre Brasil, DIAS, Juliana (coords.). Caminhos da desinformação: evangélicos, fake news e WhatsApp no Brasil. Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro/Instituto Nutes de Educação em Ciências e Saúde, 2021. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1xl-5aqKfXmYeSPctboBoNqFzj_21yRHO/view
MISKOLCI, Raphael. Pânicos morais e controle social – reflexões sobre o casamento gay. Cadernos Pagu, n. 28, p. 101-128, 2007. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/cpa/n28/06.pdf
Como tratado na reportagem do Bereia sobre o perfil de Michelle Bolsonaro e a consolidação de sua trajetória na política, o Projeto Alicerça Brasil, lançado pela ala feminina do Partido Liberal, o PL Mulher, mistura devoção, nacionalismo e instruções políticas em reuniões domiciliares. Sob o comando da ex-primeira-dama, o partido constrói uma rede de mulheres “Alicerçadas” para atuar na cruzada político-religiosa contra supostos inimigos da Nação. A partir da reportagem, Bereia apresenta uma análise sobre a estrutura do discurso de Michelle Bolsonaro, baseada na fé, no medo e na desinformação como estratégia de mobilização.
Nas redes e nos eventos do PL Mulher, o discurso religioso não é apenas linguagem, é uma estrutura de mobilização. A retórica usada por Michelle Bolsonaro e replicada nos materiais do Projeto Alicerça Brasil apresenta a política como campo de batalha espiritual, onde as forças do bem e do mal disputam o destino do país.
Nos discursos da ex-primeira dama, “Deus” representa a ordem e a moral; “o inimigo”, frequentemente descrito como o feminismo, o marxismo cultural ou a ideologia de gênero, simboliza a corrupção da alma nacional.
Esta estrutura discursiva se apoia em três eixos centrais: o medo da decadência moral, a promessa de restauração divina e a denúncia de um inimigo invisível. Os vídeos, cursos e postagens reproduzem expressões como “as mulheres de Deus precisam se levantar”, “não deixem o mal entrar nas escolas” e “a família é o último bastião contra a ideologia”, frases que transformam o engajamento religioso em dever político e espiritual.
O que Michelle Bolsonaro diz reforça a noção de que o Brasil estaria sob ataque moral. Problemas sociais complexos, da violência urbana à inflação, são reinterpretados como sintomas de uma crise espiritual causada pela perda dos “valores cristãos”. A retórica simplifica a realidade e aciona um sentimento de urgência: é preciso agir antes que “Deus seja banido da nação”. Essa estrutura é típica do que estudiosos chamam de pânico moral, quando um grupo é retratado como ameaça aos fundamentos da sociedade.
Desinformação como ferramenta de fé
Assim como influenciadoras antifeministas, Michelle Bolsonaro e o PL Mulher reproduzem conteúdos com dados imprecisos e distorcidos, especialmente sobre gênero, sexualidade e educação. Nas palestras e publicações, temas como educação sexual nas escolas, uso de linguagem neutra e direitos reprodutivos são apresentados como “estratégias ideológicas” para corromper crianças e destruir famílias.
Esses discursos ecoam campanhas já desmentidas por veículos de checagem, como o próprio Bereia, mas persistem justamente por se apresentarem em tom devocional, travestidas de “alertas espirituais”.
Ao envolver política e desinformação em linguagem religiosa, o PL Mulher cria uma blindagem simbólica: discordar do discurso é “atacar a fé”. Isso impede o debate racional e fortalece a adesão emocional das seguidoras, que se percebem não como militantes, mas como missionárias de uma causa divina. A retórica da “guerra espiritual” funciona, assim, como uma engrenagem de desinformação, porque transforma fatos em símbolos e convicções em verdades absolutas.
A fusão entre religiosidade e pânico moral não é acidental: ela constitui o método político da extrema direita cristã. Ao transformar medo e fé em motores de mobilização, o discurso de Michelle Bolsonaro reativa antigas narrativas de salvação nacional, agora em versão digital.
Se antes as marchas produziam orações nas ruas “com Deus pela liberdade”, hoje os grupos de WhatsApp e as reuniões do Alicerça entoam o mesmo mantra — fé como arma, mulher como missionária e política como cruzada.
“Edificando a Nação: Alicerçadas!”
A fórmula transforma um gesto devocional em ato performático de identidade política, conectando fé e nação — um elemento típico da retórica da direita cristã contemporânea, em que o patriotismo assume tom religioso.
Imagem: Partido Liberal (PL Mulher)
O grito “Edificando a Nação: Alicerçadas!” é usado como método agregador para gerar pertencimento coletivo, reforçando a importância do ativismo político através da fé.
Esse tipo de ritual e linguagem programada não é inédito. Cartilhas semelhantes têm sido utilizadas há décadas em movimentos religiosos e políticos de orientação conservadora, no Brasil e fora dele.
Nos Estados Unidos, por exemplo, grupos ligados à direita cristã como o Moms for Liberty e a Focus on the Family adotam roteiros de reuniões quase idênticos: leitura bíblica, “grito de unidade” e tarefas políticas, voltadas à ocupação de conselhos escolares e legislativos locais.
As organizações femininas conservadoras que emergiram nos anos 1960, como a União Cívica Feminina (UCF) e a Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE), não foram fenômenos isolados, mas parte de uma rede nacional de entidades cívico-religiosas que se apresentavam como movimentos de “mães, esposas e donas de casa” em defesa da moral cristã e da família brasileira.
Fonte: Arquivo Nacional (Liga da Mulher Democrática (LIMDE) – Declaração de princípios)
O Movimento de Arregimentação Feminina (MAF) foi fundado na cidade de Santos (SP) em 1954. A União Cívica Feminina de São Paulo (UCF/SP) surgiu em 1962, reunindo mulheres da elite católica paulista em torno de reuniões domésticas, cursos e palestras. Pouco depois, surgiram a Liga da Mulher Democrática (LIMDE) em Belo Horizonte, a Cruzada Democrática Feminina (CDF) no Recife e a Ação Democrática Feminina Gaúcha (ADFG) em Porto Alegre — todas inspiradas e conectadas pela mesma retórica: defender Deus, a família e a liberdade contra a ameaça comunista.
Fonte: Acervo O Globo 24/03/1965
A “Declaração de Princípios” da Liga da Mulher Democrata (LIMDE), publicada em 1962, poderia facilmente ser comparada tendo em perspectiva o documento contemporâneo do PL Mulher. Sob o tom solene de defesa da fé e da moral, o texto de 60 anos atrás já trazia todos os elementos que hoje compõem a retórica da “guerra cultural” conduzida por Michelle Bolsonaro e suas seguidoras.
Assim como o manual Edificando a Nação: sobre bases e valores, divulgado pelo PL Mulher em 2024, a LIMDE apresentava-se como um movimento “não partidário”, mas com nítido projeto político-ideológico. Ambas as publicações afirmam agir em defesa da “liberdade” e da “pátria cristã”, enquanto associam o inimigo a forças externas e desumanizantes — antes o marxismo, hoje a “ideologia de gênero” e o “globalismo”. Nos dois casos, o apelo à religiosidade serve como eixo moralizador e unificador de mulheres “de bem”, transformando-as em soldadas da fé convocadas a “salvar o Brasil”.
A continuidade também aparece na concepção de gênero: tanto a LIMDE quanto o PL Mulher descrevem a mulher como guardadora da ordem e da virtude, destinada a “edificar a nação” a partir do lar, não das urnas. A “diferença natural entre os sexos”, segundo a LIMDE, justifica o afastamento da mulher da política. No contexto de atuação do PL Mulher, a missão da mulher surge sob a linguagem do empreendedorismo materno e do propósito divino feminino, uma versão modernizada da submissão.
Todo esse aparato discursivo parece enfatizar um tipo de autoajuda moral e econômica, objetiva conter o avanço do feminismo e manter o ideal da mulher piedosa, produtiva e obediente.
Como demonstra a historiadora Janaína Martins Cordeiro (2008), essas entidades “investiam-se de forte retórica conservadora e anticomunista com o objetivo de alertar a opinião pública para a pressão que as famílias brasileiras estavam sofrendo e, ao mesmo tempo, revigorar princípios e ideais sempre defendidos no Brasil cristão e democrático”, promovendo uma narrativa de que o país corria risco de degradação moral sob o governo João Goulart.
Esses grupos não se limitavam à oração. De acordo com Cordeiro, a CAMDE operava em duas frentes: uma de “esclarecimento do meio feminino”, por meio de cursos e palestras moralizantes; e outra de “movimento da opinião pública”, responsável por mobilizações, protestos e campanhas de pressão sobre o Congresso Nacional, enviando cartas, telegramas e organizando passeatas.
Fonte: Acervo O Globo – Edição de 12/07/1962 Capa – Primeira reunião pública da Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE)
Embora a Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE) tenha nascido no bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro, articulada por senhoras da elite católica carioca, a primeira cobertura do movimento, publicada por O Globo em 12 de julho de 1962, traz um elemento que merece atenção: entre as fotos do auditório lotado, aparecem mulheres negras em posição de destaque.
O texto não faz referência a elas, e apresenta apenas a legenda genérica “mães de família reunidas no auditório de O Globo”, mas a imagem cumpre um papel simbólico poderoso. Ao incluir mulheres negras na cena, o jornal constrói a aparência de um movimento nacional, inclusivo e popular, apagando o recorte de classe e raça que marcava aquelas mobilizações.
Era uma estratégia visual de legitimação: apresentar a luta “anticomunista” como uma causa de todas as mulheres, não apenas das elites.
Em paralelo, em suas campanhas atuais o PL Mulher, que também recorre a imagens de diversidade racial e social em materiais de divulgação, ainda que as lideranças – influenciadoras, deputadas, senadoras e líderes religiosas – estejam concentradas em figuras brancas, conservadoras e de elite.
Fonte: Site PL
Em ambos os casos, a representação da mulher negra serve como sinal de autenticidade nacional e moralidade popular, mesmo sem acesso real ao protagonismo político.
Fonte: Acervo O Globo – Edição de 12/07/1962 p.2 – Primeira reunião pública da Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE)
Em 1964, a Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE) publicou um manifesto à nação enaltecendo sua participação no golpe militar.
“A Revolução Brasileira de 31 de março de 1964 foi a primeira grande derrota do comunismo internacional, que colocou o Brasil na vanguarda do mundo livre. Mas liberdade traz responsabilidade. À CAMDE, que trabalhou durante os dois anos que antecederam a Revolução, vem hoje reafirmar a sua confiança no Governo do Marechal Humberto de Alencar Castello Branco.”
Fonte: Acervo O Globo – Edição de 11/07/1964 p.2 – Manifesto à Nação
A força do discurso maternal e a estrutura em rede ontem e hoje
Como mostra Janaína Cordeiro, embora as lideranças da Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE) pertencessem às elites da Zona Sul carioca, o alcance de seu discurso foi muito mais amplo.
Apresentando-se como “mães” e “mulheres brasileiras”, essas ativistas mobilizavam emoções e tradições religiosas compartilhadas por diferentes classes sociais, unindo-as pelo medo de que “o comunismo destruísse a família, a pátria e a Igreja”. O tom devocional e patriótico funcionava como ferramenta de unificação moral e política, uma forma precoce de “guerra cultural” em linguagem feminina.
Fonte: Jornal Info Cruzeiro
O movimento se organizou em núcleos locais, que surgiram em bairros do Rio de Janeiro como Ipanema, Méier, Tijuca, Ilha do Governador e Rocinha, e se espalharam por outras cidades e estados, incluindo Niterói, Petrópolis, Florianópolis e Minas Gerais.
Essa estrutura em rede, descentralizada e capilarizada, foi essencial para a rápida disseminação do discurso conservador entre mulheres de diferentes perfis, muito antes das redes sociais digitais.
O modelo lembra o formato atual das “células de 12 mulheres” do Projeto Alicerça Brasil, que também se baseia em encontros locais, leitura de textos ideológicos e tarefas de mobilização comunitária. Em ambos os casos, o que se vê é o uso da religiosidade e do papel social da mulher como instrumento político de formação de base, com a diferença de que, hoje, o púlpito se transfere para o Instagram e o grupo de WhatsApp.
Historicamente, esse modelo, que unia formação moral, ativismo político e retórica religiosa, antecipa a estrutura atual do Projeto Alicerça Brasil, coordenado por Michelle Bolsonaro no âmbito do PL Mulher. Assim como as ligas cívicas dos anos 1960, o projeto combina encontros domésticos, manuais de ação e discursos de salvação nacional.
Se antes as lideranças católicas convocavam mulheres a “defender a família contra o comunismo”, agora o chamado é para “proteger o lar contra a ideologia de gênero” e “restaurar os valores cristãos da nação”. A tecnologia mudou – das cartas e telegramas aos grupos de WhatsApp –, mas a lógica permanece: mobilizar mulheres em nome da fé para sustentar um projeto político conservador.
Edificando a Nação: o manual da cruzada moral do bolsonarismo feminino
Disponibilizado no site oficial do PL Mulher, o livro Edificando a Nação Sobre Bases e Valores apresenta-se como um guia de formação cívica e espiritual, mas funciona, na prática, como um manual do pensamento bolsonarista contemporâneo.
Imagem: Partido Liberal (PL Mulher)
O texto mistura devoção religiosa, anticomunismo, moralismo econômico e exaltação patriótica para formar o que chama de “geração do enfrentamento”. É a cartilha ideológica do projeto político liderado por Michelle Bolsonaro, que aparece nas páginas como a mulher escolhida para “conduzir outras mulheres a liderar com coragem”.
Logo na introdução, o livro convoca as leitoras a “edificar a nação sobre as bases de Deus, Pátria, Família e Liberdade”. O discurso funde religião e política –“o Brasil é uma nação consagrada a Deus” – e apresenta o empreendedorismo como forma de expressão da fé: prosperar seria prova de obediência aos princípios divinos.
A pobreza, por outro lado, é tratada como falha moral ou mental, não como resultado de estruturas sociais.Em um dos trechos mais reveladores, o texto afirma:
“Em 1820, 95% da população mundial era pobre e 85% muitíssimo pobre. 195 anos depois, menos de 10% encontra-se em situação similar.”
A passagem, apresentada sem fonte, repete uma narrativa popularizada por economistas liberais segundo a qual o capitalismo seria responsável por erradicar a pobreza global.
Na prática, trata-se de um dado distorcido e anacrônico, afinal não existiam medições globais de pobreza em 1820, e os estudos usados para sustentar o número são projeções estatísticas de renda per capita, não de condições reais de vida. O argumento, portanto, serve a uma função ideológica: atribuir à fé e ao livre mercado o papel de redentores da humanidade, apagando as contradições do sistema econômico e a desigualdade crescente.
Ciência reinterpretada como moral
O livro também recorre a uma espécie de neuroteologia do sucesso. Citando a autora Caroline Leaf, o texto afirma que “75% a 98% das doenças têm origem na mente” e conclui que “a prosperidade de uma nação também nasce da mente de seu povo”. A mensagem é clara: se uma pessoa ou país fracassa, é porque “pensa errado”. Esta apropriação pseudocientífica transfere a responsabilidade social e coletiva para o indivíduo, substituindo políticas públicas por “mudança de mentalidade”. É a tradução religiosa da cartilha neoliberal, o coaching da fé.
Anticomunismo e pânico moral
Entre os temas mais recorrentes estão o anticomunismo e o antiesquerdismo moral. A esquerda é descrita como uma “estratégia milenar para aprisionar o povo e abolir a propriedade privada”, e as políticas de redistribuição ou reforma agrária são equiparadas à “negação da liberdade”.
Imagem: Congresso em Foco
Trechos dedicados à questão fundiária afirmam que governos petistas “tomaram terras” e “mitigaram o direito de propriedade”, enquanto o governo Bolsonaro teria “restaurado a verdadeira liberdade no campo”. O tom usado se assemelha às convocações de guerras históricas, só que operacionalizada pela linguagem evangélica: comunismo é pecado, capitalismo é salvação.
O manual também insiste na retórica do pânico moral: alerta para “ideologias que ameaçam a família e a infância” e convoca as mulheres a “defender os valores cristãos nas escolas, nos conselhos e na política”. As leitoras são instruídas a “ocupar espaços”, “rejeitar narrativas” e “agir em nome da verdade” — expressões que se repetem como mandamentos militantes.
No fim, o tom pastoral dá lugar ao convocatório: “É hora de agir. É hora de reconstruir o Brasil com as próprias mãos.”
Michelle Bolsonaro como símbolo
Michelle é apresentada como “líder feminina com propósito” e “exemplo de fé em ação”. A ela é atribuído o papel de arquétipo moral: a mulher submissa, mas influente; piedosa, mas estratégica; a “mãe espiritual da nação”. Esse modelo dialoga diretamente com o discurso das influenciadoras antifeministas cristãs, que também pregam a ideia de que o verdadeiro empoderamento está na submissão e no retorno ao lar. A diferença é que, aqui, a devoção se transforma em instrumento de mobilização partidária.
Uma catequese política
O tom do livro oscila entre sermão, palestra motivacional e panfleto político. Em vez de análise, há slogans. Em vez de debate, certezas. A “verdade” é apresentada como algo revelado, e não discutido: um dom divino que se opõe às “mentiras da esquerda” e à “censura da mídia”.
Até mesmo o conceito de democracia é redefinido: segundo o capítulo assinado pelo jornalista Alexandre Garcia, “democracia é a voz livre do povo amplificada pelas redes sociais”. A regulação de plataformas digitais, por outro lado, é descrita como “censura travestida de justiça”.
O resultado é uma obra que combina fé, patriotismo e ressentimento social, o que pode ser classificado como uma catequese da direita cristã. Cada argumento cumpre uma função: o moralismo mobiliza, o anticomunismo une, o empreendedorismo promete recompensa, e a religião dá legitimidade espiritual à política.
Edificando a Nação sobre Bases e Valores não é um livro de formação cívica, mas um manual de mobilização ideológica.Seu objetivo é moldar uma identidade coletiva feminina dentro do bolsonarismo, oferecendo às mulheres uma missão divina e política: “restaurar o Brasil” por meio da fé e da obediência.
A estratégia é clara: transformar a devoção em capital político, a fé em ferramenta de engajamento e o medo em método de governo. No Brasil de Michelle Bolsonaro, a oração se tornou ato político e o púlpito, palanque.
A crise provocada pela operação policial em áreas de favela na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, em 28 de outubro passado, tomou conta do noticiário. Anunciada pelo governador do Estado Claudio Castro (PL) como “guerra às drogas”, a ação de ocupação resultou na morte de pelo menos 130 pessoas, entre elas quatro policiais, com as demais não identificadas, segundo a Defensoria Pública do Estado, contadas até a manhã de 29 de outubro (o governo do Estado confirmou 121).
Esse número é bem maior do que o de presos, 81, e de fuzis apreendidos, 93, segundo relato da Polícia Militar, o que, segundo especialistas, caracteriza fracasso na operação. Outra consequência foi o caos na cidade, com a suspensão de aulas em escolas e universidades e do atendimento em unidades de saúde, bloqueio de vias públicas bloqueadas, além de transporte com itinerários desviados e clima de terror entre a população.
Como Bereia publicou no dia da operação, uma nota conjunta de entidades que atuam por direitos da população, com especialistas na área de segurança pública, classificou a ação como a mais letal da história do Rio de Janeiro. Segundo o comunicado, o ocorrido “expõe o fracasso e a violência estrutural da política de segurança no estado e coloca a cidade em estado de terror”.
O texto classifica as mortes como uma “chacina” que faz parte de um “longo e trágico histórico de matanças cometidas por forças policiais no estado — apresentadas, equivocadamente, como política pública”. Matéria do jornal O Globo, levando em conta os contextos diferentes, mostra que a matança deste 28 de outubro no Rio superou o massacre do Presídio de Carandiru, ocorrido em 1992.
Entre o que foi publicado nas mídias sobre o caos na cidade e o drama das famílias que choravam seus mortos – as dos policiais e as moradoras dos bairros-alvo da intervenção policial – está uma quantidade enorme de conteúdo fraudulento (falsidades e enganos). As agências de checagem têm trabalhado bastante para indicar os materiais criados especialmente para intensificar o pânico e para capitalizar apoios políticos em torno da tragédia.
Sobre o que foi produzido para intensificar pânico, o projeto Fato ou Fake, do Portal G1, fez um levantamento detalhado que inclui os falsos anúncios de Estágio 4 na cidade do Rio, de fechamento da Ponte Rio-Niterói, imagens de incêndios na cidade manipuladas por IA e de ataques a trens, entre outros. Já a agência Lupa produziu matéria com algumas dessas checagens do Fato ou Fake e como mentiras sobre toque de recolher e arrastões e outros pontos importantes, como declarações enganosas do governador Claudio Castro. Todos circularam em ambientes digitais religiosos e devem ser conferidos.
Bereia levantou o que foi viralizado nos espaços religiosos para além da intensificação de pânico: verificou-se o que foi produzido por políticos para captar apoios às suas pautas e acumular capital político para as eleições em 2026. As classificações do tipo de desinformação serão oferecidas ao longo da matéria.
Conteúdo enganoso e impreciso do governador Claudio Castro
Em declarações públicas, o governador do Rio, cantor gospel católico, Cláudio Castro, durante a ação policial de 28 de outubro, afirmou que o governo federal teria negado três pedidos de apoio das Forças Armadas (por exemplo, blindados) ao estado do Rio de Janeiro. O governador chegou a dizer: “o estado está “sozinho” e “não temos ajuda das forças de segurança [federais] nem [do] Ministério da Defesa. Mídias de notícias publicaram esse conteúdo sem checagem e ele foi amplamente disseminado.
Ofício divulgado pelo governador sobre o pedido do Estado do Rio ao governo federal segue circulando nas redes e foi repercutido, por exemplo, pelo deputado federal evangélico Sóstenes Cavalcante (PL-RJ).
Logo depois que esse conteúdo circulou, já se verificava ser enganosa a afirmação do governador Claudio Castro.Após as declarações dele, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) divulgou nota em que afirma não ter recebido pedido de cooperação do governo do Rio. O órgão afirmou que “tem atendido, prontamente, a todos os pedidos do Governo do Estado do Rio de Janeiro para o emprego da Força Nacional de Segurança Pública no Estado, em apoio aos órgãos de segurança pública federal e estadual”. Na nota é afirmado que a Força Nacional foi mantida no Rio de Janeiro desde outubro de 2023, com atuação garantida até dezembro de 2025. Segundo o ministério, essa medida pode ser renovada.
A pasta também afirma que atendeu a todos os 11 pedidos de renovação feitos pelo governo do Rio, o que demonstra “total apoio” do governo federal às forças de segurança estaduais e federais que atuam na capital fluminense.
O ministro da Justiça e Segurança Pública Ricardo Lewandowski falou à imprensa e negou pedido de ajuda para a ação de 28 de outubro. Foi ainda destacado que a Polícia Federal realizou 178 operações no Rio neste ano, sendo 24 voltadas ao combate ao tráfico de drogas e armas.
Bereia também verificou que o documento encaminhado ao governo federal com pedido de ajuda, divulgado por veículos de imprensa e por apoiadores do governador, como o deputado Sóstenes Cavalcante, foi publicado com uma tarja vermelha com a palavra “Urgente”. A tarja foi inserida deliberadamente para esconder a data de emissão, 28 de janeiro de 2025, e fazer crer que o ofício teria sido encaminhado mais recentemente para atender à ação policial praticada em 28 de outubro. Porém, uma simples observação atenta da imagem que circula mostra a data original do envio, 28 de janeiro de 2025, no rodapé da certificação digital.
O pedido de janeiro foi, de fato, encaminhado ao Ministério da Defesa, referente a demanda específico de blindados à Marinha do Brasil, para patrulhamento da região onde está localizado o Hospital Naval Marcílio Dias, mesma Zona Norte do Rio, onde uma médica capitã de Mar e Guerra foi ferida por uma “bala perdida”, em dezembro de 2024. A Advocacia Geral da União (AGU) emitiu parecer técnico, em fevereiro de 2025, com a indicação de que o pedido de blindados não poderia ser atendido pelas Forças Armadas diretamente e que só teria condições de ocorrer no contexto de uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Segundo a AGU, tal demanda exigiria outro tipo de encaminhamento que culminaria com um decreto presidencial. Não foi dada sequência ao caso.
Depois de ter criado a polêmica e feito viralizar a ideia de apoio negado ao estado, Claudio Castro amenizou o tom das críticas ao governo federal e afirmou que foi mal interpretado ao dizer que o estado estava “sozinho” na ação policial letal na Zona Norte do Rio. “Houve uma leitura errada da minha fala”, disse o governador. “Eu não pedi ajuda. A pergunta do repórter foi se o governo federal estava participando da operação, eu falei que não e perguntaram por quê. Nas últimas três ocasiões, pedimos blindados e a resposta foi que só poderiam ser cedidos com GLO. Como o presidente é contra [a GLO], não adiantava pedir de novo”, falou.
Na entrevista, Claudio Castro explicou que não houve comunicação prévia sobre a operação de 28 de outubro porque já esperava uma negativa por parte do governo federal. Castro afirmou ainda que iria conversar com a ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffman: “Ficamos de nos falar ao fim da noite mais um mais uma vez para a gente entender os passos de amanhã. Eu não acredito que segurança se faz politizando. Então, qualquer ajuda que o governo federal quiser dar dentro do que a gente necessita, será bem bem-vinda. Eu vou ter uma outra reunião antes de falar com eles, com os nossos secretários da área de segurança para entender quais são os passos de amanhã”.
Outra declaração desinformativa do governador Claudio Castro diz respeito aos mortos. Em entrevista no dia seguinte à ação policial, ele afirmou que dos mais de 100 mortos, apenas quatro são vítimas – os policiais. O governador também disse que se a polícia matou algum inocente, foi algo ‘residual’. O portal religioso de notícias Pleno News deu destaque à fala em matéria.
A afirmação de Claudio Castro desinforma porque é imprecisa: não há informações sobre a identidade dos mortos e pode haver moradores não ligados ao crime entre eles. A cobertura da imprensa em 29 de outubro deu conta de que dezenas de corpos foram retirados por moradores de áreas de mata, na divisa das regiões onde ocorreu a megaoperação, em busca de parentes e amigos. Os corpos foram colocados pela população em uma praça pública, expondo de forma dramática o ocorrido no bairro. Apenas por volta das 8h45, veículos da Defesa Civil Estadual começaram a chegar para realizar a retirada deles do local e levá-los ao Instituto Médico Legal. Alguns estavam decapitados ou com o rosto destruído a tiros, o que dificulta o reconhecimento. Outros tinham balas na nuca e marcas de facadas nas costas. Todas essas evidências caracterizam execução sumária, como denunciado por especialistas na nota publicada pelo Bereia.
Acompanhados pela Defensoria Pública e por ativistas por direitos, os moradores reclamam da forma truculenta como a ação foi conduzida. Ouvidos pela imprensa, moradores afirmaram:
No Brasil não existe pena de morte, não. Teve corpo com a cabeça decapitada, arrancaram até a perna. Parece que eles são treinados para subir na comunidade e matar negro pobre”, disse uma moradora, que subiu até a área de mata no alto da Penha para ajudar a retirar os corpos deixados após a operação. “A polícia invadiu minha casa, bateram na cara do meu filho e jogaram spray de pimenta. Olha o rosto da minha neta. Ela teve febre e acordou hoje com o olho todo inchado. Eu estava com crianças em casa, e eles invadiram mesmo assim. Não me respeitaram”, afirmou outra moradora.
O líder de uma organização social no Complexo da Penha Raull Santiago afirmou que ainda pode haver mais corpos executados na mata. “Eu vim ajudar os familiares a encontrarem os corpos. Vimos um barranco com marcas de sangue e encontramos vários corpos”, contou.
Manipulação política da tragédia
Vários políticos da direita cristã lançaram mão da tragédia da Zona Norte do Rio para fazer política de oposição. Além do deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), já citado nesta matéria, deputados evangélicos e católicos distorceram informações para criticar o presidente Lula e o Supremo Tribunal Federal (STF).
Os evangélicos Filipe Barros (PL-PR) e Nikolas Ferreira (PL-MG) usaram a distorção de uma fala confusa do presidente da República, proferida na semana anterior, para propagarem que o governo federal defende o tráfico e não classifica as facções como terroristas.
A fala de Lula ocorreu em 23 de outubro, no contexto de uma entrevista à imprensa durante a viagem à Indonésia para participar de encontro de cúpula de presidentes. Ao ser indagado sobre o enfrentamento às drogas (a propósito das ações letais dos Estados Unidos contra supostos traficantes no Mar do Caribe), Lula disse: “Toda vez que a gente fala de combater as drogas, possivelmente fosse mais fácil a gente combater os nossos viciados internamente, os usuários. Os usuários são responsáveis pelos traficantes, que são vítimas dos usuários também. Ou seja, você tem uma troca de gente que vende porque tem gente que compra, e tem gente que compra porque tem gente que vende”.
Lula ainda criticou as ações dos EUA: “Se a moda pega, cada um acha que pode invadir o território do outro para fazer o que quer. Onde é que vai surgir a palavra respeitabilidade à soberania dos países? Então eu pretendo discutir esses assuntos com o presidente Trump se ele colocar na mesa”.
De imediato houve uso político da declaração por parte de lideranças do PL e apoiadores nas redes, com a afirmação de que Lula estaria defendendo traficantes como vítimas. Nikolas Ferreira já havia publicado naqueles dias. “Lula acaba de anunciar que traficantes são vítimas dos usuários. No ritmo que vai, daqui a pouco o PCC vira ONG”, escreveu no X.
Figuras do governo federal e apoiadores do presidente publicaram conteúdo com explicações sobre o sentido da fala ser condenatório ao sistema do narcotráfico. No dia seguinte, Lula publicou uma retratação nas redes.
“Fiz uma frase mal colocada nesta quinta e quero dizer que meu posicionamento é muito claro contra os traficantes e o crime organizado. Mais importante do que as palavras são as ações que o meu governo vem realizando, como é o caso da maior operação da história contra o crime organizado, o encaminhamento ao Congresso da PEC da Segurança Pública e os recordes na apreensão de drogas no país. Continuaremos firmes no enfrentamento ao tráfico de drogas e ao crime organizado”
Desde a semana anterior e novamente após a megaoperação policial no Rio, há o uso enganoso da fala, de fato, confusa do presidente como munição de oposição, com a distorcida alegação de que o governo federal defende o tráfico e os traficantes. Uma audição atenta da entrevista em Jacarta e uma leitura simples da transcrição do que Lula disse são suficientes para identificar o discurso de que o tráfico não se sustenta sozinho e que é importante levar em conta o consumo de drogas pelas classes média e alta das populações, o que é base para a manutenção deste mercado ilegal que gera vítimas de todo tipo.
Os políticos que usam o argumento enganoso atuam para atender a uma pauta dos Estados Unidos e classificar o narcotráfico como terrorismo, caso da postagem de Filipe Barros, o que seria pretexto para uma intervenção militar daquele país em terras brasileiras. Há projetos de lei apresentados por deputados, especialmente os de identidade militar, na Câmara Federal que já visam tornar lei esta pauta.
Especialistas questionam a associação do narcotráfico com terrorismo pelas naturezas diferentes das ações do tráfico de drogas. O jurista André Callegari, por exemplo, afirma: “Ao contrário (…) do que ocorre com os terroristas e guerrilheiros, que lutam por uma causa (mesmo que equivocada), os integrantes do PCC, longe do seu ideal inaugural, ou a melhora do sistema prisional, visam, única e exclusivamente ao lucro, praticando tráfico de drogas, sequestros, homicídios, lesões corporais, ameaças, furtos, roubos de toda espécie, carros fortes, caixas eletrônicos, agências lotéricas etc.), contrabandos, tráfico de armas, enfim, a lista de infrações penais é enorme e quase impossível de ser descrita” .
Já o deputado federal católico Carlos Jordy usou o caos no Rio para criticar o STF que julgou favoravelmente a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 63 sobre o que Jordy atribui o “avanço das facções criminosas”. A declaração do deputado é falsa, pois, além de não estar respaldada no objetivo da ação julgada no STF, ele faz a crítica sem qualquer embasamento científico ou, ao menos, em dados.
A ADPF 635, conhecida como “ADPF das Favelas”, foi protocolada pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), em 2020, com apoio de entidades de defesa de direitos e de movimentos sociais. A ação foi apresentada ao STF para denunciar a violência policial nas favelas do Rio de Janeiro e pedir medidas que limitassem as operações das forças de segurança, no contexto da pandemia de covid-19. Naquele momento, pessoas eram vitimadas nas ações armadas sem aviso prévio, dentro de suas casas onde estavam reclusas como medida sanitária. O PSB argumentou que o Estado violava preceitos fundamentais da Constituição, como o direito à vida, à segurança e à dignidade humana.
Em junho de 2020, o STF concedeu uma decisão histórica: determinou que as operações policiais em favelas só poderiam ocorrer em casos excepcionais, com comunicação prévia ao Ministério Público e justificativa formal, o que reduziu significativamente o número de incursões naquele período.
Ao contrário do que diz o deputado Jordy, não houve “canetada”, mas um longo processo de discussão, audiências públicas e estudos da Corte, e a ADPF segue em andamento. O STF continua discutindo medidas para garantir maior controle e transparência nas ações policiais para que se garantam, de fato, segurança e não ameaça da população pelos órgãos públicos.
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Bereia chama a atenção de leitores e leitoras sobre o uso de uma tragédia social, como a ocorrida no Rio em 28 de outubro, para propagação de desinformação tanto para intensificar pânico e causar transtornos à vida da população, quanto para manipulação política seja para angariar e manter apoios seja para atacar opositores.
Frente a esta ação maldosa, Bereia reafirma a necessidade de desconfiar de todo e qualquer conteúdo que tenha estas características, com a devida verificação da veracidade antes de qualquer compartilhamento. Como parte desta ação, o número do WhatsApp do Bereia esta à disposição para consultas e envio de materiais para checagem.
Circula nas redes um vídeo apresentado como flagrante de uma pastora em ação na qual ela combina “milagres” com atores antes de um culto. A publicação viralizou, alcançando mais de um milhão de visualizações, centenas de compartilhamentos e “reacts”, além de ser replicada por perfis e portais de notícias que a utilizam para atacar a fé evangélica.
Bereia apurou que a mulher que aparece no vídeo não é pastora e que o conteúdo não é um flagrante. Trata-se, na verdade, de uma encenação do canal de esquetes Kauê Wutke, que publica vídeos ficcionais roteirizados com situações “polêmicas” e exageradas.
No vídeo, a personagem distribui papéis e combina cenas típicas de um culto onde se explora a temática dos milagres e atividades sobrenaturais. “Quando eu passar, colocando as mãos, vocês vão levantar. Quer dizer o quê? Milagre. Querem ver milagre? Vamos fazer milagre”, declara a atriz. Além disso, os atores encenam cenas sobre pagamento durante o recolhimento de ofertas, “Na hora que estiverem passando o dízimo, eu já faço o pagamento pra vocês. Não tem erro que todo mundo paga dízimo”.
Imagens: prints de portais e redes sociais.
A apresentação do vídeo como “flagra”, atribuição da personagem à figura real de uma “pastora” e a falta de explicação explícita sobre o objetivo dos produtores favorecem o erro do público. Estudos mostram que humor e sátira aumentam a capacidade de viralizar conteúdos e podem mascarar intenções, criando terreno fértil para confusão e cinismo quando o enquadramento não é claro. Em ambientes digitais, memes e esquetes circulam rápido e, sem sinalização de contexto, podem se transformar em desinformação e reforçar intolerância, com estímulo a preconceitos contra grupos minorizados.
Bereia classifica os conteúdos repercutidos por veículos e usuários como enganoso. Após verificar a origem do material, Bereia confirmou que o vídeo integra a linha de esquetes do canal Kauê Wutke, que simula “questões polêmicas e bizarras” para atrair a audiência. Além disso, não há evidências de que a mulher seja pastora fora do papel interpretado na encenação. A circulação descontextualizada do conteúdo, sem apuração jornalística, somada à cobertura apressada de alguns portais, transformou uma sátira em munição para ataques generalizados à expressão de fé do segmento evangélico.
Relações com políticos evangélicos alinhados à direita são parte das apurações
Evangélico convertido, autodeclarado próspero, o ex-presidente da Amar Brasil Clube de Benefícios (ABCB), o empresário Felipe Macedo Gomes, de 35 anos, tornou-se alvo de investigação na “Operação Sem Desconto”, que apura descontos indevidos em aposentadorias e benefícios do INSS. Deflagrada pela Polícia Federal (PF), em abril de 2025, a operação revelou um esquema bilionário de descontos fraudulentos em aposentadorias e pensões. O foco das investigações está em associações de benefícios que teriam criado mecanismos para retirar valores indevidos diretamente dos contracheques de beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Felipe Gomes é apontado como responsável por movimentar mais de 1,1 bilhão de reais de recursos provenientes dos descontos de pensionistas entre 2022 e 2024.
As investigações mostram que Felipe Gomes e outros sócios criaram uma rede de entidades de fachada para se apropriar de valores cobrados irregularmente. Documentos obtidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e pela PF apontam que o dinheiro abasteceu empresas particulares, bancou imóveis de luxo em Alphaville, carros importados, viagens internacionais e chegou a irrigar campanhas políticas.
Conversão religiosa e discurso de prosperidade
Um dos elementos que chamou a atenção, é o vínculo público de Felipe Gomes com o meio evangélico. Em junho de 2024, durante um culto na igreja evangélica Sete Church, em São Paulo, ele proferiu palavras no altar (“deu um testemunho”) no qual afirmou ter se convertido à fé evangélica em setembro de 2022. Na ocasião, disse que sua prosperidade nos negócios começou após aceitar pagar o dízimo, a convite da cunhada, e atribuiu ao “agir de Deus” o crescimento da empresa naquele período. “[A cunhada] falou assim: ‘Eu faço um desafio com você (sic). Você tem vários negócios, pega o seu menor negócio, aquilo que te rende menos, e você começa a dizimar’. Eu falei: ‘Ah, tá bom’. Aí eu fiz. Isso foi em setembro de 2022, dois meses depois naquele contrato, eu tive aumento de 25% da minha receita. Eu vi a mão de Deus, e aí eu comecei a entender o que é o dízimo”, contou Gomes durante culto.
O vídeo está disponível no canal da Sete Church no YouTube e mostra Felipe Macedo associando diretamente o sucesso financeiro ao compromisso religioso. A coincidência temporal chama atenção. Em 2022, ano em que afirma ter começado a ofertar o dízimo à igreja, a empresa Amar Brasil firmou acordos com o INSS que hoje estão sob suspeita de irregularidades.
A Sete Church se apresenta como uma comunidade “profética”, de liderança apostolar, fundamentada em sete pilares — fé, cura, amor, restauração, família, aliança e discipulado. A instituição não aparece como alvo da PF nem consta formalmente nas investigações. Há apenas o registro do vínculo pessoal de Felipe Macedo com a denominação evangélica e o relato público do empresário sobre sua experiência de fé, como forma de legitimar sua trajetória profissional.
De acordo com as investigações, Felipe Macedo não agiu sozinho. Ele aparece ao lado de outros empresários jovens, Igor Dias Delecrode, Anderson Cordeiro e Américo Monte, no comando de entidades como Master Prev, a Associação Nacional de Defesa dos Direitos dos Aposentados e Pensionistas (ANDAPP) e a Associação de Amparo Social ao Aposentado e Pensionistas (AASAP). Juntas, essas associações, além da Amar Brasil, movimentaram cerca de R$ 700 milhões com descontos de mensalidades de aposentados, segundo a PF.
As investigações mostram que o grupo utilizava sistemas próprios de biometria para falsificar assinaturas de beneficiários, além de repassar dinheiro a parentes de dirigentes do INSS. Parte dos recursos também financiou empresas privadas ligadas aos investigados, em setores como fintechs, construtoras e crédito consignado, sempre com base em Alphaville (Grande São Paulo), onde os empresários residiam em imóveis de alto padrão.
Felipe Gomes também possui vínculos empresariais que se conectam ao deputado federal evangéllico de igreja indeterminada Fausto Pinato (PP-SP). Uma empresa ligada ao empresário funcionava no mesmo endereço do escritório político do parlamentar, mantido com verba da Câmara Federal. A menção consta em relatório da PF, mas Pinato nega qualquer envolvimento.
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O caso de Felipe Macedo Gomes revela como diferentes dimensões da vida pública — fé, negócios e política — podem se cruzar em escândalos de grande repercussão. Ao mesmo tempo em que se apresenta como exemplo de prosperidade resultante da conversão religiosa e de doações de dízimo, ele presidia uma associação hoje investigada por desviar milhões de reais de aposentados.
A “Farra do INSS” continua sendo desdobrada pela Polícia Federal e pela CPMI em Brasília. Até o momento, as investigações apontam para um esquema robusto operado por empresários que usaram associações de fachada para lucrar com recursos de beneficiários do INSS. Entre eles, alguns se aproximaram do meio evangélico, mas não há provas de que instituições religiosas tenham se beneficiado diretamente do dinheiro desviado.
O que permanece claro é que o empresário Felipe Macedo Gomes e outros investigados construíram uma narrativa em que fé, negócios e política se entrelaçam, num esquema que, segundo a PF, custou bilhões aos cofres públicos e prejudicou milhares de aposentados.
Com o acirramento, neste setembro de 2025, da campanha na Câmara dos Deputados pela anistia dos agentes do golpe de Estado contra o resultado das eleições de 2022, políticos religiosos têm feito circular em ambientes digitais conteúdo que, deliberadamente, distorce e confunde a Lei da Anistia aplicada nos anos finais da ditadura militar, em 1979.
O monitoramento do Bereia identificou publicações com grande alcance sobre o tema, de autoria de duas lideranças políticas, deputados federais de identidade evangélica: o pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do partido na Câmara Federal, e Nikolas Ferreira (PL-MG).
Os parlamentares do PL reclamam o mesmo direito à anistia dos presos políticos e exilados pelo Estado de exceção imposto pela ditadura militar (1964 a 1985) e criticam lideranças que a defenderam à época e se manifestam contrariamente à atual campanha. Nas postagens, que ainda estão ativas em mídias sociais, as ações do passado são equiparadas com a possibilidade de concessão de anistia para os agentes do golpe contra a democracia para alterar o resultado das eleições de 2022 e continuarem no Poder Executivo da República.
Imagem: Publicação do deputado Sóstenes Cavalcante no X, em 21 set 2025
Imagem: Publicação do deputado Nikolas Ferreira no X, em 4 set 2025
Influenciadores alinhados à pauta da anistia também publicaram conteúdo na mesma direção, com amplo alcance.
Publicação no X, em 20 de setembro.
O que é anistia
O termo anistia tem origem no grego amnestia (a mesma raiz de amnésia) e significa literalmente “esquecimento” ou “perdão”. Desde a Antiguidade, tanto na Grécia quanto em Roma, essa ideia já estava presente: conceder clemência era uma forma de reduzir tensões em períodos de conflito, evitar retaliações e, ao mesmo tempo, garantir estabilidade política.
Com o passar dos séculos, a prática foi adotada em diferentes países do mundo. Durante revoluções e guerras civis na Europa, a anistia serviu como instrumento para permitir que adversários políticos voltassem à vida pública sob os novos regimes, diminuindo a possibilidade de perseguições e fortalecendo os sistemas democráticos em construção.
Hoje, nos países democráticos, a anistia se consolidou como um mecanismo jurídico voltado a um coletivo. Trata-se de um perdão formal concedido pelo Estado a grupos de pessoas que tenham cometido crimes ou infrações, geralmente de natureza política ou administrativa, em determinado período histórico.
É importante diferenciar a anistia do indulto. Enquanto o segundo beneficia indivíduos de forma isolada, a anistia tem caráter coletivo e costuma ser aplicada em contextos excepcionais, como transições de governo, redemocratizações ou iniciativas de reconciliação social.
Segundo o professor de Ciência Política Homero de Oliveira Costa, “a história da anistia no Brasil tem uma longa tradição. Da colônia à República em vários momentos de nossa história, a anistia tem estado presente”. A Lei de Anistia de 1979 tem um destaque na história do país, pois sua aprovação significou o início do encerramento de um período de 21 anos de ditadura militar, que representou um tempo de obscurantismo gerador não apenas de censura, prisões, banimentos e exílios mas do sequestro, da tortura e de execuções sumárias como prática sistemática de repressão perpetrada pelo Estado.
A Lei de Anistia de 1979
O professor Homero Costa recorda o contexto que tornou possível a Lei de Anistia de 1979. Ele se estabelece quando a ditadura militar completou dez anos, em março de 1974, o general evangélico luterano Ernesto Geisel assumiu a presidência prometendo uma abertura “lenta, gradual e segura”. Apesar da retórica, o governo manteve a repressão política: parlamentares continuaram a ser cassados e lideranças de oposição e apoiadores perseguidos. Nesse período quase todos os grupos políticos de resistência e oposição à ditadura que vinham atuando na clandestinidade haviam sido desbaratados pela repressão política, com prisões e execuções, como o caso da aniquilação da Guerrilha do Araguaia, quando o governo enviou ao local cerca de dez mil soldados do Exército para eliminar 69 guerrilheiros armados.
Dois episódios de grande impacto marcaram o período: as mortes do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manoel Fiel Filho em quartéis do Exército. Ambos foram oficialmente apontados como suicídios, mas os casos geraram forte indignação, já que nenhum responsável foi punido. No mesmo período, em 1976, ocorreu a “Chacina da Lapa”, quando dirigentes do Partido Comunista do Brasil foram assassinados.
Mesmo diante da repressão, as eleições legislativas de 1974 revelaram um enfraquecimento do regime. O MDB, partido de oposição, conquistou 16 das 23 vagas em disputa no Senado, superando a Arena em votos, e quase dobrou sua bancada na Câmara. Esse resultado refletiu o crescente descontentamento popular. Em resposta, o governo militar, em 1977, lançou o chamado “Pacote de Abril”, que criou os senadores biônicos para assegurar a maioria governista no Senado.
Foi nas brechas que a sociedade civil conseguiu se reorganizavar: em 1978, nasceu o Movimento Feminista pela Anistia, liderado por Terezinha Zerbini. Entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) também se destacaram na denúncia de abusos. Paralelamente, estudantes e trabalhadores retomaram as ruas, dando origem ao “novo sindicalismo”, especialmente com os metalúrgicos no ABC paulista, sob a liderança de Luiz Inácio da Silva.
Foi nesse ambiente que surgiram os Comitês Brasileiros de Anistia, criados em 1978. Naquele momento havia no Brasil cerca de 200 presos políticos, 128 pessoas banidas, 4.877 punidas por Atos de Exceção e cerca de 10 mil exiladas. Aos comitês reuniram-se familiares de presos políticos, artistas, intelectuais, parlamentares de esquerda e de centro e opositores do regime, contando ainda com o apoio de setores da Igreja Católica e de grupos progressistas evangélicos, dentro e fora do Brasil. Muitos marcaram suas presenças em atos públicos, manifestos, abaixo-assinados e visitas aos presos políticos.
Ato pela anistia na Praça da Sé, em São Paulo (foto: Ennco Beanns/Arquivo Público do Estado de São Paulo)
Os comitês organizaram protestos, debates, campanhas e, no final daquele ano, promoveram, em São Paulo, o 1º Congresso Nacional pela Anistia. Desse encontro nasceu o lema que mobilizaria o movimento: “anistia ampla, geral e irrestrita”, uma proposta que visava beneficiar todos os perseguidos políticos sem exceções.
Quando o general João Batista Figueiredo assumiu a presidência em 1979, a mobilização pela anistia já era irreversível. O governo tentou oferecer apenas um indulto coletivo, mas a proposta foi rejeitada. Como forma de pressão, presos políticos iniciaram uma greve de fome que durou 32 dias e atraiu apoio de intelectuais, artistas e parlamentares. A repercussão obrigou o regime a recuar.
Em agosto de 1979, o Congresso aprovou a Lei de Anistia, depois de uma negociação com o governo militar, que excluiu do perdão condenados na Justiça Militar por terrorismo, sequestro e atentados e incluiu o benefício aos torturadores e agentes do Estado que praticaram crimes na represssão.
Não era a anistia ampla, geral e irrestrita demandada pelos movimentos, nem a aplicação da justiça sobre os agentes do Estado perpetradores dos abusos de poder e autoritarismo que acabaram com muitas vidas. Ainda assim, a Lei da Anistia representou um passo importante: graças a ela, a maioria dos presos políticos foi libertada, milhares de exilados puderam retornar e foi iniciado um processo de reintegração de brasileiros à vida pública. Esta lei representou a consolidação de um processo de abertura democrática e reconstrução do Estado Democrático de Direito.
A ditadura militar chegou ao fim em 1985, o Brasil ganhou uma nova Constituição em 1988, mas somente em 1996, o país aprovou a Lei dos Mortos e Desaparecidos Políticos (Lei 9.140/96). Foi criada uma Comissão Nacional de Anistia, que garantiu indenizações a familiares de vítimas da ditadura militar, com os direitos ampliados em 2001. Pela primeira vez, foi estabelecido um regime jurídico específico para os anistiados políticos, incluindo o direito formal ao reconhecimento, a possibilidade de concluir cursos interrompidos pela repressão e a contagem de tempo de serviço para fins funcionais e a reparação econômica (indenizações mensais ou em parcela única).
O que é a campanha por anistia em 2025
A campanha por anistia em 2025 foi concebida pela família e por partidários do ex-presidente Jair Bolsonaro com o objetivo da aquisição do perdão dos crimes cometidos contra a democracia do país, com vistas à alteração do resultado das eleições de 2022, para que ele continuasse no poder da República.
O movimento começou logo após a condenação de participantes dos ataques a Brasília em 8 de janeiro de 2023. Com a acusação dos líderes e o processo de julgamento, em 2025, foram intensificadas ações de comunicação para a captura de apoios à impunidade dos protagonistas. O PL e aliados organizaram manifestações de rua que reuniram milhares de apoiadores ao projeto de anistia em algumas capitais em março, abril, maio e setembro.
A defesa de um Projeto de Lei na Câmara Federal se intensificou neste segundo semestre de 2025, depois do agendamento do julgamento que condenou todos os réus do “núcleo crucial” do golpe, como foi denominado na acusação da Procuradoria-Geral da República. O grupo é composto pelos líderes da trama golpista: além do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), militares de alta patente e civis do primeiro escalão do governo, que teve mandato entre 2019 e 2022, entre eles quatro ex-ministros (o delegado da Polícia Federal (PF) Anderson Torres e os generais de Exército Augusto Heleno, Walter Braga Netto e Paulo Sérgio Nogueira).
Não há consenso entre as lideranças da Câmara e do Senado quanto à aprovação de uma lei que contrarie o processo judicial estabelecido formalmente em todas as etapas de direito no Supremo Tribunal Federal. Em pressão por aprovação, deputados do PL, no retorno do recesso parlamentar em 5 de agosto passado, sob a liderança de Sóstenes Cavalcante, chegaram a ocupar o espaço da mesa diretora no plenário para impedir os trabalhos da Casa, em troca da aprovação da lei. Estas lideranças alegam que a anistia é necessária para pacificação do país.
No entanto, o mesmo grupo político tem exercido pressão por anistia para os envolvidos na trama do golpe com o estabelecimento de problemas para o Brasil. A estratégia de conquista da anistia também passa pela atuação do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), radicado nos Estados Unidos, que conseguiu negociar com o governo de Donald Trump a imposição de sanções daquele país contra o comércio com o Brasil e contra autoridades dos poderes Executivo e Judiciário, tendo em vista a negociação do encaminhamento da lei. Uma crise diplomática sem precedentes foi estabelecida neste processo e o caso se tornou novo processo judicial com acusação de obstrução da Justiça da parte dos Bolsonaro, pai e filho.
*** Bereia avalia como enganosas as publicações dos deputados Sóstenes Cavalcante e Nikolas Ferreira, e de seus aliados, que propagam a campanha por anistia aos agentes condenados pela trama golpista contra as eleições de 2022. O conteúdo justifica o projeto com base na Lei de Anistia de 1979 e cobra atitude similar daqueles que atuaram à época pela concessão do perdão aos perseguidos pela ditadura militar.
*Matéria atualizada 22/09/2025 para registro da resposta enviada pela OAB-RJ e ajuste no título
“Advocacia cristã em ação”, unindo técnica jurídica, ética e valores de fé, esta é a promessa da nova diretoria da Comissão Especial de Advogados Cristãos da OAB-RJ (CEADC) que tomou posse em 8 de agosto passado, no auditório da Escola Superior de Advocacia (ESA). O evento marcou a reativação oficial do colegiado que terá a liderança do advogado Elmo Portella.
Para além do discurso de pluralidade, a criação da comissão é sintoma de uma disputa maior: o avanço da articulação de lideranças religiosas ultraconservadoras em instâncias jurídicas e no próprio sistema de representação da advocacia, como a Ordem dos Advogados do Brasil.
O respaldo da presidência da OAB-RJ
A solenidade contou com a presença da presidente da OAB-RJ Ana Tereza Basílio, que fez questão de destacar seu apoio à iniciativa. “Mesmo diante de críticas indevidas e manifestações incompreensíveis da mídia, a resposta da OAB-RJ foi o fortalecimento do grupo. Lotamos o auditório da ESA em plena sexta-feira. O trabalho dessa comissão representa aquilo que a sociedade brasileira mais precisa: paz, solidariedade, união e respeito a todas as manifestações religiosas. Sempre lutaremos pela liberdade religiosa”, declarou.
A vice-presidente Sylvia Drumond reforçou a mesma linha. “Quando falamos sobre a Comissão da Advocacia Cristã, reafirmamos que a OAB-RJ é uma instituição plural e apartidária. Qualquer ato que não esteja alinhado com democracia, justiça e respeito ao outro será prontamente repudiado”.
O apoio institucional não é surpresa. Em 2024, na corrida eleitoral para presidir a seccional fluminense, Ana Tereza Basílio recebeu apoio aberto de lideranças evangélicas da Assembleia de Deus Ministério de Madureira, entre elas o bispo Abner Ferreira, hoje consultor da comissão. O gesto sinalizou aproximação entre a direção da OAB-RJ e grupos religiosos que hoje figuram como parceiros da CEADC, como Bereia noticiou à época.
Elmo Portella: fé e técnica
O presidente da nova comissão Elmo Portella, fundador da Associação dos Advogados Evangélicos do Brasil (AAEB), ressalta que o trabalho do grupo não compromete a laicidade do Estado. Em entrevista ao Bereia, o advogado e também presidente da Associação dos Advogados Evangélicos do Brasil (AAEB) ressaltou o caráter plural da Ordem. “A OAB-RJ é absolutamente plural, com comissões de religiões de matriz africana, de diversidade sexual e de igualdade racial. A nossa comissão se insere nesse espírito, promovendo reflexão jurídica a partir de valores cristãos, mas sem abrir mão da laicidade do Estado”, disse o presidente eleito em 2024 e reconduzido ao cargo para este novo período.
Foto: Bruno Mirandella/OAB
Segundo Portella, os principais objetivos incluem produção de pareceres, seminários sobre liberdade religiosa e formação continuada de advogados cristãos. “Nosso propósito é construir um espaço de diálogo respeitoso, técnico e comprometido com a dignidade humana”. Em seu perfil no Instagram há um postagem familiar na Igreja Batista Marapendi, além de ter passado por várias instituições Batistas ao longo de sua vida, apesar de não ter uma declaração explícita sobre sua filiação à denominação protestante.
Diretoria e consultores: entre advocacia e púlpito
Secretária-geral Marta Maria Dantas: advogada com atuação em defesa da mulher na OAB-Barra, de acordo com postagens em seu perfil no Instagram, é membro da Belém Church.
O corpo de consultores dá à comissão peso institucional e religioso:
Dom Orani Tempesta, cardeal e arcebispo Católico do Rio de Janeiro.
Desembargador André Fontes, do Tribunal Regional Federal-2.
Bispo Abner Ferreira, presidente da Assembleia de Deus em Madureira.
Bispo Reinaldo Suisso, presidente da Unigrejas no Rio.
Presbítero Cid Caldas, pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, pastor auxiliar na Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro.
Padre Marco Lázaro, capelão do Ministério Público-RJ.
Esta composição plural em aparência, mas fortemente confessional, revela uma comissão que funciona como ponte direta entre a advocacia fluminense e igrejas evangélicas e católicas de grande influência política.
Especialista alerta: “Fundamentalismo nega a democracia”
O professor de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais Dr. Alexandre Bahia, lembra que a questão central não é a presença da fé, mas o risco do fundamentalismo.
“Não é problema ter religião. O problema está quando isso é usado como bandeira, como se fosse a única verdade possível. O fundamentalismo é a negação da democracia, porque fecha a possibilidade de debate”, ressalta Bahia, que é Presidente da Comissão de Diversidade Sexual e Gênero da OAB-MG.
Segundo o professor, entidades como a Associação Nacional de Juristas Evangélicos (ANAJURE) já atuam no Supremo Tribunal Federal para defender pautas conservadoras, contrárias à pluralidade. “Existe resistência dentro da OAB, mas de forma fragmentada. Enquanto o fundamentalismo aparece como movimento articulado, a defesa da diversidade ainda não se organiza como frente”, alerta.
Pesquisas científicas têm demonstrado o avanço da articulação de grupos religiosos ultraconservadores, católicos e evangélicos, no Judiciário para frear avanços em pautas sobre as quais são contrários em sua leitura religiosa dos temas. É o caso das pesquisas sobre a ANAJURE e sobre os catolicismos jurídicos.
Resposta
Após a publicação desta reportagem em 20 de setembro, a OAB-RJ se posicionou sobre o texto veiculado pelo Bereia e solicitou direito de resposta.
“A OAB-RJ repudia a informação veiculada pelo site Coletivo Bereia de que “A nova comissão de advogados cristãos da OAB-RJ busca influência religiosa no Judiciário”. A OAB-RJ se relaciona com o Legislativo, o Executivo e o Judiciário de forma absolutamente republicana, voltada aos interesses da advocacia e da sociedade brasileira. As mais de 200 comissões temáticas da OAB-RJ surgiram da necessidade de lidar com temas que permeiam a sociedade e sobre os quais se debruçam o Direito e a advocacia. Como entidade caracterizada pela pluralidade, apenas em âmbito religioso, a seccional conta também com a Comissão da Advocacia do Axé e com a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa”.
Bereia ressalta, entretanto, que a reportagem apenas informa a seus leitores que há um processo de amplificação da influência religiosa cristã dentro da entidade que representa os advogados fluminenses. A eleição da nova diretoria da OABRJ, com o apoio de membros de denominações evangélicas, como a Assembleia de Deus Ministério Madureira entre outras organizações cristãs do estado, denotam a influência religiosa no órgão que, na essência, foi criado com caráter laico.
A morte do ativista ultraconservador estadunidense Charlie Kirk, vítima de um atentado, no último 10 de setembro, durante um evento em universidade nos Estados Unidos, gerou reações calorosas do presidente Donald Trump, repetidas por políticos ultraconservadores brasileiros. Eles manifestaram indignação em publicações nas redes digitais e responsabilizaram a violência à esquerda política. Bereia investigou o caso e concluiu, a partir de verificações já realizadas, que essa associação é falsa.
Quem é Charlie Kirk?
Charlie Kirk foi um evangélico ativista ultraconservador estadunidense, fundador e líder da organização estudantil Turning Point USA [Ponto de Virada EUA], criada em 2012 para difundir pautas ultraconservadoras em universidades dos Estados Unidos. A Turning Point USA tem uma frente cristã denominada TPUSA FAith (Fé TPUSA) para disseminar essas pautas com um público das igrejas.
Aos 18 anos, Kirk iniciou o movimento que hoje conta com forte presença em mídias digitais e eventos voltados a jovens simpatizantes da extrema direita e do ultraconservadorismo. Entre as pautas defendidas por ele estão:
Fervoroso defensor de Donald Trump: mobilizava eleitores jovens para o movimento “Make America Great Again” e questionava a legitimidade das eleições de 2020, alegando fraudes.
Imigração restritiva: apoiava políticas anti-imigranção para os EUA como construção de muros na fronteira e deportações em massa, enfatizando esta forma de nacionalismo.
Direitos às Armas: Defendia o armamentismo argumentando que o porte de armas de civis é essencial para autodefesa e contra um potencial “governo tirânico” e como uma defesa dos direitos dados por Deus.
Oposição a políticas de inclusão: Criticava iniciativas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), chamando-as de discriminatórias e contrárias à meritocracia. Era contra o reconhecimento de identidades de gênero fluidas e políticas transgênero.
Defesa da submissão das mulheres: Apregoava que mulheres deveriam renunciar à educação e à carreira de trabalho para se concentrarem em ter uma vida de dona de casa submissa.
Posição radical antiaborto: Defendia restrições ao aborto, alinhado com valores cristãos ultraconservadores, promovendo a proteção da vida desde a concepção, fechando-se a qualquer direito relacionado à interrupção da gravidez, o que comparava ao Holocausto.
Posição racista: era contra o movimento Black Lives Matter, desacreditava a figura de Martin Luther King, negava a atrocidade da escravidão alegando que africanos eram voluntários e fazia pronunciamentos depreciativos de pessoas negras, como seres amaldiçoados por Deus.
Livre mercado e governo limitado: advogava por menos regulamentações governamentais, redução de impostos e promoção do capitalismo de livre mercado.
Negacionismo climático e ideias conspiracionistas: minimizava a crise climática, chamando-a de exagero, e promovia ideias como “marxismo cultural” e “globalismo” como ameaças à cultura americana.
Apoio a Israel: Defendia as ações violentas do Estado Israel, especialmente na tomada da Palestina e se posicionava como pró-sionismo.
Imagem: Kirk pouco antes de ser alvo de tiro mortal na Universidade Utah Valley. Fonte BCC News Brasil.
Kirk apresentava um podcast diário e acumulava milhões de seguidores nas plataformas digitais. Ele ficou conhecido por promover debates públicos em campi universitários e abordar temas como identidade de gênero, mudanças climáticas, fé e valores familiares. O Turning Point teve participação ativa no apoio ao atual presidente dos EUA Donald Trump, e a outros candidatos do partido Republicanos nas eleições de 2024 naquele país.
Imagem: Charlie Kirk ao lado do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Fonte: BCC News Brasil.
Charlie Kirk era um evangélico vinculado à Dream City Church [Igreja da Cidade do Sonho], localizada em Phoenix, estado Arizona (EUA). A denominação é uma megaigreja do ramo pentecostal das Assembleias de Deus, que pratica ativismo político conservador que dá espaço a eventos com figuras do movimento ultraconservador estadunidense. Um deles é Freedom Night in America [Noite da Liberdade na América], que aborda fé e política, dando voz a ativistas do ultrconservadorismo cristão, como Kirk, e pautas do Partido Republicano.
A organização Turning Point liderada por Charlie Kirk lançou, em convênio com a Dream City Church, a Academia Turning Point, uma escola particular de linha educacional ultraconservadora que rechaça conteúdo que trate do enfrentamento ao racismo e dos direitos de gênero. Há também parceria na realização da Strong Church Dream Conference [Conferência Sonho Forte da Igreja] voltada para fomação de líderes religiosos e militantes políticos ultraconservadores.
O que aconteceu?
O ativista foi baleado no último 10 de setembro, enquanto participava de um evento universitário na Utah Valley University (UVU), no estado de Utah. O disparo atingiu seu pescoço durante o evento “The American Comeback Tour”. Ele foi levado em estado crítico para o hospital regional de Timpanogos, onde teve sua morte confirmada.
Logo após o anúncio da morte de Charles Kirk, o presidente dos EUA Donald Trump fez acusações ao que chamou de “esquerda radical” como responsável pela morte do jovem influenciador. Sem provas, Trump estimulou aliados da extrema direita mundial a honrarem Charlie Kirk, a quem classificou de “mártir da verdade”.
Em entrevista ao programa de TV Fox and Friends, que teve algumas edições apresentadas por Kirk, Trump afirmou: “Vou te dizer algo que vai me deixar encrencado, mas não me importo. Os radicais na direita muitas vezes só são radicais porque não querem ver crimes. (…) Eles estão preocupados com a fronteira, eles não querem toda essa gente entrando e queimando nossos shoppings. Não querem que eles atirem no nosso povo no meio da rua”, disse o presidente, sem esclarecer a que incidentes se referia. “O problema são os radicais da esquerda. Eles são cruéis e terríveis e politicamente astutos, porque embora digam que querem esportes para homens e mulheres, na verdade querem transgêneros para todo mundo, querem fronteiras abertas.”
Ao contrário do que apregoou o presidente Trump, de acordo com as investigações que se sucederam, o suspeito de assassinar Charlie Kirk é Tyler Robinson, de 22 anos, criado em uma família branca, conservadora, cristã e apoiadora do presidente Donald Trump. Entrevistas da CNN com familiares indicam que o jovem teria se envolvido mais recentemente com política, embora não tenham apontado uma ideologia específica. Há indícios de que ele faça parte da comunidade “Exército Groyper”, grupo alternativo de extrema direita ligado a ideias do supremacista branco Nick Fuentes e opositor de Kirk. Os “groypers” consideravam Kirk “moderado demais”. Segundo o escrivão do condado onde Robinson reside, ele nunca votou, não é filiado a qualquer partido e está atualmente registrado para votar.
Políticos ultraconservadores brasileiros exploram o caso
O chamado de Donald Trump aos radicais na direita repercutiu entre políticos brasileiros. Alguns manifestaram tristeza e pesar nas redes digitais, enquanto outros exploraram politicamente a situação para acusar opositores.
O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) comentou em uma postagem no X em 10 de setembro: “Mais um conservador vítima do ódio e da intolerância”.
Imagem: Post de Eduardo Bolsonaro sobre a morte de Charlie Kirk. Fonte: X
Em outra publicação mais recente, o deputado compartilhou um vídeo com imagens de atentados e acrescentou a legenda: “(…) E quando não executam seus adversários, botam seus juízes corruptos para prendê-los. Eis alguns exemplos dessa violência, cujas vítimas sempre são de direita”.
Imagem: Post de Eduardo Bolsonaro sobre a morte de Charlie Kirk e de outros políticos conservadores. Fonte: X.
No Instagram, o deputado federal Gustavo Gayer (PL-MG) publicou um vídeo sobre o ativista, com a legenda: “A esquerda mata, a esquerda é doente”.
Imagem: Post do deputado federal Gustavo Gayer sobre a morte de Charlie Kirk. Fonte: Instagram
O professor de Teologia Franklin Ferreira, reitor do Seminário Martin Bucer, afirmou em seu perfil no Instagram que a morte de Kirk teria sido motivada por opositores ideológicos, e acrescentou que grupos de esquerda utilizam métodos para “calar e destruir quem pensa diferente”.
Imagem: Post do professor Franklin Ferreira. Fonte: Instagram
Relações com o ex-presidente Bolsonaro
A atuação de Charlie Kirk, de fato, ultrapassava o cenário estadunidense. Em relação ao Brasil, em 2023, o ativista entrevistou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para o seu podcast e organizou um evento em Miami no qual o político brasileiro foi palestrante. A aproximação rendeu destaque a Kirk entre conservadores no Brasil, como o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que frequentemente mencionava o trabalho do líder da Turning Point USA em manifestações públicas.
Naquele mesmo período, Jair Bolsonaro permaneceu por três meses na Flórida, após deixar a Presidência do Brasil, entre a virada de 2022 para 2023. Nesse intervalo ocorreram a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os atos violentos contra a democracia ocorridos em 8 de janeiro de 2023, em Brasília.
No começo de fevereiro daquele ano, um mês após a posse de Lula, Bolsonaro participou do evento “Power to the People”, promovido pela Turning Point USA. No discurso, falou sobre sua trajetória política, defendeu pautas ultraconservadoras e destacou o que chamou de realizações de seu governo. Ao final, Kirk fez perguntas sobre os riscos de o Brasil “se tornar uma Venezuela” e sobre os desafios do governo Lula.
Em março de 2025, Kirk utilizou seu programa de rádio para solicitar que o governo de Donald Trump aplicasse sanções e tarifas contra o Brasil, em retaliação à condução do Judiciário brasileiro no julgamento da chamada “trama golpista”, no Supremo Tribunal Federal, que tinha Jair Bolsonaro como um dos réus.. O ativista classificou o processo contra Bolsonaro como “chocante e horrível”.
A esquerda mata a direita no Brasil? Dados negam esta afirmação
A afirmação da responsabilidade da esquerda política no caso Kirk não se sustentou diante do resultado das investigações nos EUA, que apontaram o suspeito – um jovem branco cristão ligado a um movimento ultraconservador. Além disso, não é preciso pesquisa muito densa para apurar que atentados e episódios de violência política não sao exclusividade da esquerda e não atingem apenas pessoas de direita. Estes casos decorrem do ódio e da intolerância presentes nas relações sociais, independentemente da ideologia.
Para a psicóloga doutora em Psicologia Social Rebecca Maciel, atentados e episódios de violência política não são fenômenos exclusivos de uma ideologia. Ela explica que emoções como raiva e nojo fazem parte da experiência humana, mas o ódio é algo construído, resultado da combinação de sentimentos com crenças que levam a pessoa a considerar certos grupos ou ideias como repulsivos e passíveis de eliminação.
Segundo Maciel, embora as emoções sejam majoritariamente reativas (por exemplo, a raiva surge quando algo nos afeta), a forma como transformamos essa energia pode variar: pode gerar agressão ou ser canalizada para mudanças sociais positivas.
Ela ressalta ainda que a motivação por trás dos ataques é fundamental para compreender se se trata de um atentado, e lembra que a crença no extermínio do diferente e na agressão como opção é mais frequente em determinados grupos, mas não está restrita a uma ideologia. Maciel cita o ativista islâmico negro estadunidense Malcolm X, assassinado em 1965: “Não confundir a reação do oprimido com a violência do opressor”, e reforça a importância de analisar contexto e intenções em episódios de violência política.
Nos Estados Unidos, ao longo da história, diversos presidentes e figuras políticas foram alvo de violência armada. Dos 46 presidentes norte-americanos desde a independência, em 1776, quatro foram assassinados enquanto exerciam o cargo: Abraham Lincoln (1865), James A. Garfield (1881), William McKinley (1901) e John F. Kennedy (1963). Além disso, outros 16 atentados foram registrados contra presidentes e candidatos, incluindo Theodore Roosevelt (1912), Franklin D. Roosevelt (1933), Harry S. Truman (1950), Gerald Ford (1975) e Ronald Reagan (1981).
Ativistas e líderes políticos daquele país também sofreram violência, como o islâmico negro Malcolm X (1965), Robert F. Kennedy (1968) e Martin Luther King Jr. (1968), que era pastor batista e defensor dos direitos civis dos negros no país. Neste 2025, em 14 de junho, a senadora estadual do Partido Democrata Melissa Hortman e o marido foram assassinados a tiros na casa em que moravam, no estado de Minnesota.
Um levantamento do Instituto Cato, credenciada organização estadunidense sem filiação partidária, revela que o discurso adotado por Trump de que “lunáticos de esquerda” são os maiores responsáveis por esses crimes não condiz com a realidade dos números.
De acordo com o estudo, entre 1° de janeiro de 1975 e 10 de setembro de 2025, 620 pessoas foram assassinadas por terrorismo político nos Estados Unidos. Neste período, 391 pessoas foram mortas por grupos ou pessoas ligadas ao terrorismo de direita, e 65 por terroristas de esquerda. Desde 2020, foram 44 mortos por motivações da direita, e 18, da esquerda. Em 2025, foram registradas 24 mortes no total, incluindo a de Charlie Kirk.
Casos recentes no Brasil
No Brasil, atentados políticos têm ocorrido há séculos e envolvem diferentes motivações. Em 1889, meses antes da Proclamação da República, o imperador D. Pedro II foi alvo de um atentado, sem ser atingido. O terceiro presidente do Brasil, Prudente de Morais, sobreviveu a uma tentativa de assassinato em 1897.
Um caso muito destacado na história ocorreu 1954, quando o principal opositor do presidente Getúlio Vargas, o jornalista e futuro governador da Guanabara (atual cidade do Rio de Janeiro) foi alvo de um atentado, em 5 de agosto, no bairro de Copacabana. Quem acabou morrendo foi o major da Aeronáutica Rubens Vaz. O ataque fracassado, cuja investigação levou ao mandante, o chefe da guarda presidencial Gregório Fortunato, provocou a derrocada política de Getúlio Vargas, que cometeu suicídio, 19 dias depois.
Em 25 de julho de 1966 uma bomba explodiu no saguão do Aeroporto de Guararapes, em Recife (PE), e matou o vice-almirante Nelson Gomes Fernandes, o jornalista e secretário de governo de Pernambuco Edson Régis de Carvalho e deixou 14 feridos.O alvo era o então ministro do Exército e futuro presidente da República, general Artur da Costa e Silva, que não estava no terminal.
Durante a década de 1980, o presidente José Sarney foi alvo de uma tentativa de ataque que envolveu um sequestro de avião, levado a cabo por um homem, isoladamente, para atingir o Palácio do Planalto e “prestar contas” com aquele a quem culpava pela crise econômica em que o país se encontrava.
Atualmente, episódios de violência política também revelam que o ódio e a intolerância não se restringem a um único campo ideológico. Casos emblemáticos ilustram esta realidade.
Em 2018, a vereadora Marielle Franco (PSOL) e o motorista Anderson Gomes foram assassinados no Rio de Janeiro. O crime, de grande repercussão nacional e internacional, atingiu uma liderança reconhecida pela defesa dos direitos humanos e pela luta contra a violência policial. Investigações levaram ao mandante, seis anos depois, o deputado federal Chiquinho Brazão (RJ), vereador à época, que acabou expulso do partido de direita ao qual era filiado, o União Brasil.
Ainda em 2018, ano eleitoral, o então candidato à Presidência Jair Bolsonaro foi alvo de uma facada durante ato de campanha em Juiz de Fora (MG). As investigações apontaram que o agressor Adélio Bispo, preso em seguida, agiu sozinho e foi declarado inimputável pela Justiça por transtorno mental, decisão que não teve contestação da defesa de Bolsonaro.
No mesmo contexto eleitoral de 2018, em 7 de outubro, o ativista negro e mestre de capoeira Môa do Katendê (Romualdo Rosário da Costa) foi assassinado após uma discussão política. Ele teria defendido o voto no PT e irritou eleitores de Jair Bolsonaro (PSL) em um bar na periferia de Salvador. Um dos homens desferiu doze facadas no capoeirista.
No segundo turno das eleições para presidente e governadores naquele 2022, a deputada federal reeleita Carla Zambelli (PL-SP), foi filmada ameaçando um homem com uma arma nos Jardins, bairro da zona central de São Paulo. Segundo testemunhas, o homem havia debochado criticamente da deputada, que revidou com a ameaça armada. O Supremo Tribunal Federal (STF) condenou a deputada, em agosto passado, a cinco anos de prisãoe regime semiaberto, por porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal com emprego de arma de fogo. Ela já havia sido condenada em outro processo por invasão ao sistema eletrônico do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A deputada esteve foragida na Itália, onde foi presa e terá extradição ao Brasil julgada.
Neste setembro de 2025, o STF julgou a tentativa de golpe contra o processo eleitoral de 2022 que incluía o plano denominado “Punhal Verde Amarelo”. Nele, o general do Exército Mário Fernandes confessou ter elaborado um esquema para impedir a posse do governo eleito em 2022, que previa o assassinato do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, do vice-presidente na chapa, Geraldo Alckmin, e do ministro Alexandre de Moraes (STF). Fernandes foi condenado junto com outros integrantes do chamado Núcleo 2 da tentativa de golpe de Estado, acusados de redigir a “minuta do golpe”, monitorar autoridades e tentar impedir o voto de eleitores em 2022.
Violência política e eleitoral se agrava no Brasil
Pesquisa desenvolvida pela organização Terra de Direitos, intitulada “Violência Política e Eleitoral no Brasil”, mostra que entre 1° de novembro de 2022 e 27 de outubro de 2024 foram registrados 713 casos de violência política. Somente em 2024, foram 558. Até 2018, uma pessoa era vítima desta violência a cada oito dias. O relatório identifica quea, após as eleições de 2018, com a ocupação de uma direita extremista dos poderes Executivo e Legislativo, o ano de 2022 alcançou o recorde com o registro de um caso a cada 27 horas.
Nas últimas eleições gerais, 2022, houve pelo menos cinco homicídios motivados por política em um intervalo de quase três meses. Os crimes se intensificaram com a proximidade do primeiro turno. Entre os cinco casos, quatro ocorreram entre 4 de setembro e 4 de outubro de 2022 — média de um assassinato por semana desde a reta final das eleições.
Naquele ano, além do caso tesoureiro do PT no Paraná Marcelo Arruda assassinado por um bolsonarista, em sua festa de aniversário, houve outros casos apontados na pesquisa de Terra de Direitos. Em 7 de setembro, o petista Benedito Cardoso dos Santos foi morto pelo bolsonarista Rafael Silva de Oliveira, em Confresa (MT). Em 24 de setembro, Antônio Carlos Silva de Lima, eleitor de Lula, foi esfaqueado por Edmilson Freire da Silva, em Cascavel (CE), depois de discussão em um bar. Dois dias depois, Ianário Pereira Souza Rocha, motorista da candidata a deputada estadual Sabrina Veras (MDB), foi morto a tiros em evento político em Fortaleza (CE). Em 4 de outubro, o estilista bolsonarista José Roberto Gomes Mendes foi assassinado pelo amigo, o petista Luiz Antonio Ferreira da Silva, em Itanhaém (SP), depois de discussão e agressões físicas em uma mesa de almoço.
De acordo com informações mais recentes do Grupo de Investigação Eleitoral da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Giel/Unirio), dos 338 casos de violência política no terceiro trimestre de 2024, 76 resultaram em morte.
De acordo com o doutor em Direito Constitucional e professor associado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) Rubens Beçak, crimes contra a vida de políticos devem ser punidos “com todas as tintas possíveis, e tudo aquilo que a legislação de cada país permite”.
“É claro que a legislação estadunidense é diferente da brasileira, mas no direito brasileiro, os crimes dessa natureza podem ser entendidos, depois de apurada a fase de inquéritos, e transformados numa ação penal, como crimes hediondos. Assim, eles são punidos e têm um tratamento bastante diferenciado”, afirma.
“A gente muitas vezes acha que esse é um fenômeno do Brasil, dos Estados Unidos, mas nós observamos que isso acontece no mundo todo e em uma intensidade muito grande. E agride o nosso senso moral de ser humano, de que sempre existem possibilidades de tirar as diferenças na discussão, no debate, de formas muito mais inteligentes, sem que nós tenhamos que recorrer à violência, que muitas vezes se dá na intolerância e leva até a morte de pessoas como Charlie Kirk”, conclui.
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De acordo com a checagem do Bereia, é falsoafirmar que pessoas de esquerda sejam odientas ou que promovam o ódio. Os exemplos demonstram que atentados e violência política não são exclusivos de um espectro ideológico. Apesar de se acumularem por responderem a estímulos em uma dada atmosfera política, como demonstrado nas pesquisas nos Estados Unidos e no Brasil, estas práticas estão fortemente relacionadas a questões de saúde mental, transtornos psicológicos, ao cultivo do ódio, à intolerância e a conflitos sociais mais amplos. Toda ação violenta e letal é humana e condenável.
Em 18 de julho de 2024, o Bereia já havia checado a afirmação do ex-presidente Jair Bolsonaro de que “só os conservadores sofrem atentados”, feita após o ex-presidente dos EUA Donald Trump ter sido alvo de um atirador em um comício na Pensilvânia, dias antes, em 13 de julho. A verificação já havia demonstrado que atentados contra líderes políticos não são exclusivos de um espectro ideológico.
Entretanto, chama a atenção e merece reflexão a constatação da pesquisa do Instituto Cato, nos Estados Unidos, onde aconteceu o assassinato de Charlie Kirk, que mostra que metade dos crimes desse tipo foram causados por autores alinhados às direita política. Embora no Brasil não haja pesquisa com a mesma metodologia, o levantamento de Terra de Direitos revela um aumento dos casos de mortes por motivação política depois de 2018, com o fortalecimento do poder político da direita extremista no país.
Como parte das investigações, Malafaia foi alvo de mandado de busca pessoal e de apreensão de celulares pela PF no último dia 20 de agosto. A investigação faz parte de inquérito que diz respeito a possível coação e obstrução no curso do processo no Supremo Tribunal Federal (STF), no qual o ex-presidente Jair Bolsonaro é réu por tentativa de golpe de Estado em 2022-2023.
Em vídeos publicados em seus perfis em mídias sociais, o pastor Malafaia diz ter tomado conhecimento sobre a inclusão dele no inquérito após notícia exclusiva veiculada pelo canal de TV GloboNews, sem ter sido notificado pela PF. O líder religioso alega censura e relaciona a suposta perseguição religiosa que estaria sofrendo a momentos históricos, como o nazismo de Adolf Hitler.
O Inquérito n. 4.995/DF foi aberto pela PF em maio de 2025, com o objetivo de investigar ações de obstrução da Justiça praticadas pelo deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) a partir dos Estados Unidos. O parlamentar estaria agindo para que o governo daquele país exerça pressões com sanções sobre o comércio com o Brasil e sobre ministros do STF, com o objetivo de impedir o curso do processo que levará a julgamento o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros seis aliados, em setembro próximo.
O pastor Malafaia foi incluído no processo com base em “suposta participação em crimes de coação no curso do processo (artigo 344 do Código Penal), obstrução de investigação envolvendo organização criminosa (Lei 12.850/2013) e abolição violenta do Estado Democrático de Direito (artigo 359-L do Código Penal)”, de acordo com informações do Portal do STF. A investigação é um desdobramento do inquérito que apura a conduta de Eduardo Bolsonaro.
A Ordem de Ministros do Evangelho de Palmas e Tocantins (OMEP-TO), como filiação de pastores, bispos e apóstolos de igrejas pentecostais, por outro lado, publicou uma carta de repúdio. O texto não cita nominalmente Silas Malafaia, mas alega que os filiados à OMEP-TO repudiam qualquer forma de perseguição religiosa e censura à manifestação da fé cristã no país. A carta diz, de forma genérica, que está havendo uma perseguição a um pastor evangélico.
Imagem: Reprodução/ANAJURE
O pastor da Igreja da Lagoinha André Valadão, o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) também se posicionaram contra a inclusão de Silas Malafaia no inquérito da PF. As personalidades públicas usaram os argumentos de que Malafaia estaria sendo perseguido por usar seu direito à liberdade de expressão.
Recorrentemente, personalidades que praticam ilegalidades e são investigadas ou condenadas judicialmente por seus atos alegam ser vítimas de perseguição religiosa e censura, em busca de apoio de fiéis. O pastor Silas Malafaia tem declarado que a suposta perseguição de Alexandre de Moraes não é mais somente política, mas também religiosa.
O pastor e deputado federal Marco Feliciano (PL-SP) e o pastor Cláudio Duarte também defenderam Silas Malafaia sob argumentos de que ele estaria sofrendo suposta perseguição. Em vídeos republicados pelo presidente da Assembleia Vitória em Cristo em suas contas nas mídias sociais, os pastores evangélicos defendem que Malafaia está sendo perseguido por ‘criticar o poder’ e o ‘sistema’.
Não existe perseguição sistemática a cristãos no Brasil
A perseguição religiosa é, em termos simples, a opressão a pessoas com base em suas crenças religiosas. No entanto, a cientista social do Laboratório de Antropologia e Religião da Universidade de Campinas (Unicamp) Brenda Carranza, em artigo publicado pelo Bereia, explica que a perseguição voltada a cristãos, que vem sendo chamada de “cristofobia” em campanhas políticas, não se aplica ao Brasil.
O Brasil é um país com maioria histórica, demográfica e simbolicamente cristã. É o Cristianismo sua matriz cultural, a orientação de seu código de costumes e o horizonte jurídico que impregna direitos fundamentais garantidos por lei na Constituição de 1988. Ainda que por diversos motivos, entre eles de cunho político, tanto no passado remoto quanto no recente, tenham-se registrado perseguições a pessoas que se confessam cristãs, atualmente isso não é um fato. Mesmo assim, no passado essa perseguição não era explicitada como sendo uma perseguição religiosa em massa, nem se colocava o sistema jurídico, policial e/ou militar para a perpetrar. Atualmente o Brasil não pode ser enquadrado entre os países como a Índia e no Oriente Médio, nos quais existe, em diferentes graus, essa perseguição por motivos religiosos. Contudo, dentro do Cistianismo e fora não tem sido referido como cristofobia e sim como perseguição aos cristãos, como o próprio Papa Francisco se referiu no seu discurso à ONU em ocasião do seu 75º aniversário, na mesma data do pronunciamento do Sr. Presidente Bolsonaro.
Não há registros de inquéritos policiais ou processos judiciais no Brasil regido pela Constituição Cidadã de 1988 abertos por conta da vinculação religiosa de alguém. Pelo contrário, a intolerância religiosa é tipificada como crime no país pela Lei nº 7.716/1989, que prevê penas de reclusão e multa.
No caso do pastor Malafaia, Bereia verificou que o texto do inquérito colocado à disposição do público explicita que ele não é investigado por ser pastor ou ser cristão. Silas Malafaia foi incluído na investigação por suspeitas de coação da Justiça e ações de obstrução do processo contra Jair Bolsonaro.
Declaração com este conteúdo foi dada em entrevista à GloboNews em 22 de agosto, pelo deputado federal e pastor da Assembleia de Deus Otoni de Paula(MDB-RJ) afirmou que não há perseguição religiosa a Malafaia, visto que ele não está no inquérito por pregar a palavra de Deus ou manifestar sua fé.
Reprodução/Mídias sociais
Silas Malafaia e a propagação de falsidades
O pastor Silas Malafaia é notório propagador de desinformação. Bereia já publicou matéria sobre as condenações judiciais do líder religioso por promover calúnia e conteúdo fraudulento. Em novembro de 2024, ele foi condenado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo a publicar uma retratação pública após ser acusado de propagar desinformação contra o Partido dos Trabalhadores (PT), afirmando que o partido invadiu o Congresso Nacional em 2017.
O pastor também já foi condenado a pagar R$100 mil ao ex-deputado federal Marcelo Freixo (PSB-RJ, então Psol) após promover uma campanha difamatória durante a campanha eleitoral para a Prefeitura do Rio em 2016, dizendo que Freixo apoiava “cartilhas eróticas” e a sexualização de crianças.
Já em 2022, o líder religioso foi condenado a pagar uma multa à jornalista Vera Magalhães por danos morais, após afirmar que esta recebia R$500 mil por ano do governo João Dória (PSDB-SP) para tecer críticas ao então presidente Jair Bolsonaro.
O pastor Malafaia tem obtido destaque no noticiário desde 2023 como o organizador de manifestações de rua contra a prisão de condenados pelos atos de atentado ao Estado Democrático de Direito, de 8 de janeiro de 2023, e contra o processo que responsabiliza o ex-presidente Jair Bolsonaro de golpe de Estado.
Desde então, o pastor tem usado seus perfis nas mídias sociais para atacar o STF e o ministro relator dos casos na Corte, Alexandre de Moraes, chamado por ele de “ditador de toga”. Sobretudo desde o anúncio do presidente dos Estados Unidos Donald Trump de imposição de sobretaxação dos produtos importados do Brasil, articulada por Eduardo Bolsonaro, Malafaia passou a defender publicamente o impeachment de Moraes.
Desdobramentos do caso acompanhados pelo Bereia
Apesar da lista de apoios que vem sendo propagada nas redes de Silas Malafaia, é fato que muitos evangélicos destacados não se manifestaram a respeito dos acontecimentos envolvendo o pastor presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. Os líderes da Igreja Universal do Reino de Deus, bispo Edir Macedo, o missionário da Igreja Internacional da Graça Romildo Ribeiro Soares (R.R. Soares) e o apóstolo da Igreja Mundial do Poder de Deus Valdemiro Santiago estão entre as personalidades religiosas que não se pronunciaram, seja em seus próprios espaços digitais, seja em listas de assinaturas, conforme verificação do Bereia.
O cenário controverso no qual Malafaia está inserido, foi agravado após a divulgação de áudios trocados entre ele e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), nos quais Malafaia se utiliza de xingamentos e palavras obscenas, conforme apuração do UOL. Além do deputado federal pastor Otoni de Paula (MDB-RJ), citado nesta matéria, foram muitos os influenciadores evangélicos que criticaram a postura de Malafaia nas redes digitais.
O volume de críticas levou Silas Malafaia a publicar um vídeo, em 23 de agosto, por meio do qual pede desculpas pelos palavrões e xingamentos que apareceram em áudios divulgados pela Polícia Federal nesta semana.
Imagem: Reprodução de vídeo publicado no perfil de Silas Malafaia no X
No pronunciamento, o pastor reconheceu que muitos fiéis se incomodaram com o que foi divulgado: “Alguns irmãos evangélicos criticaram o meu jeito de falar”, afirmou. O pastor então pediu desculpas, mas defendeu-se citando passagens bíblicas. Entre as citações, Malafaia referiu-se a palavra de Jesus “Quem não tem pecado, atire a primeira pedra”: “Quem é aí que nunca falou uma palavra indevida ou um palavrão ou pensou só em você pensar? Não precisa falar não, você tá pecando”, questionou o pastor.
Porém, o pastor Malafaia, em seguida, passou a condenar os críticos e a Justiça brasileira. “Os que me criticaram não falaram do crime que cometeram. É inviolável a privacidade, artigo 5º, inciso 10º da Constituição, que são as garantias individuais. É crime. É crime manifestar a privacidade de alguém. Eles não criticaram isso, não falaram nada”, condenou, e fez mais menções à Bíblia: “Tipo de hipócritas engolem camelo e se engasgam com os mosquitos”.
No vídeo, Silas Malafaia também buscou se antecipar a possíveis novos escândalos, oriundos de conversas armazenadas em seu aparelho celular apreendido pela PF, em 20 de agosto. Novamente, o conteúdo pode ser tornar público por meio do acesso livre ao inquérito, publicado nos espaços digitais do Judiciário. Por isso ele disse: “Aqueles que ficaram escandalizados com as minhas palavras, me perdoem, porque eu tenho fraquezas. Então me perdoe, mas quero dar um aviso: se essa Gestapo de Alexandre Moraes vazar conversas privadas do meu telefone, deve ter até palavrão”.
Áudios em que o líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia chama o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) de “babaca” e “estúpido” e orienta o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) sobre estratégias de ataque ao Supremo Tribunal Federal (STF), no qual é réu por tentativa de golpe de Estado, viralizaram nas redes digitais neste 20 de agosto. O material faz parte do Inquérito da Polícia Federal (PF) n4995 que investiga tentativas de obstrução da Justiça e pressão sobre o STF no caso Bolsonaro.
Os áudios e trechos de mensagens de WhatsApp foram recuperados pela Polícia Federal de conteúdo apagado no aparelho celular de Jair Bolsonaro, apreendido em 18 de julho, quando foram impostas ao ex-presidente medidas cautelares por conta dessa investigação da PF. Tudo está contido no documento em que o órgão pede o indiciamento de JB e EB diante das provas de tentativa de obstrução da Justiça, colocado à disposição para consulta em 20 de agosto.
O conteúdo dos áudios e mensagens trocadas por Jair Bolsonaro com o filho Eduardo e com o pastor Malafaia, estão tendo ampla repercussão na imprensa nacional. Veículos como CNN Brasil, Agência Brasil, Uol, G1 e Estadão publicaram matérias que detalham os trechos das conversas e o contexto em que foram obtidas.
No monitoramento que o Bereia realiza em espaços digitais religiosos, observa-se que os principais portais de notícias religiosos do país optaram pelo silêncio até o fechamento desta matéria.
Na contramão da viralização nas redes e da ampla cobertura do noticiário, Pleno.News, Gospel Prime, Fuxico Gospel e Guiame não publicaram matérias com o teor dos áudios e mensagens divulgados. Nas matérias em que estes veículos mencionaram a operação da PF no Inquérito 4995, limitaram-se a reproduzir informações genéricas, como a realização de buscas ou declarações públicas do próprio Malafaia, sem detalhar a repercussão do conteúdo constrangedor.
Este silêncio contrasta com a cobertura rotineira desses portais, que frequentemente dão destaque às falas do pastor Silas Malafaia em defesa de Jair Bolsonaro e da família do ex-presidente.
Imagem: Busca “Malafaia” no portal Pleno.News
Imagem: Busca “Malafaia” no portal GoodPrime (ex-Gospe Prime)
Imagem: Busca “Malafaia” no portal Guiame
A ausência de reportagens sobre os áudios em que o pastor aparece em atuação política direta para influenciar decisões judiciais revela um padrão de seleção editorial destes veículos religiosos. Bereia identificou em inúmeras checagens anteriores a omissão seletiva de fatos como estratégia para desinformar e blindar certas lideranças evangélicas de críticas.
O caso e o teor dos áudios
Os áudios foram recuperados pela Polícia Federal após buscas autorizadas pelo ministro do STF Alexandre de Moraes no inquérito que investiga Jair Bolsonaro e aliados por tentativa de obstrução da Justiça e coação a ministros do Supremo. As mensagens de voz estavam no celular do ex-presidente, parte delas apagadas, mas recuperadas pela perícia.
A investigação que revelou o material integra o conjunto de apurações conduzidas pelo STF sobre a atuação de Bolsonaro e de sua rede de apoio. O caso está vinculado à Ação Penal nº 2668, processo em que o ex-presidente se tornou réu por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado e por obstrução da Justiça.
No mesmo contexto, tramita também o Inquérito nº 4995, que apura especificamente a prática de coação para obstrução da Justiça no curso do processo. Foi neste inquérito que a Polícia Federal anexou os áudios extraídos do celular do pastor Malafaia, após perícia recuperar mensagens que haviam sido apagadas. O relatório final foi encaminhado à Procuradoria-Geral da República, que deverá decidir se apresenta denúncia ou se arquiva a investigação.
Nos trechos já divulgados, o pastor aparece em tom agressivo contra o deputado Eduardo Bolsonaro, a quem chama de “babaca”, “inexperiente” e “estúpido de marca maior”, criticando a forma como o filho do ex-presidente conduzia as articulações internacionais diante das sanções impostas pelos Estados Unidos ao Brasil.
“DESCULPA PRESIDENTE ! Esse seu filho Eduardo é um babaca , inexperiente que está dando a Lula e a esquerda o discurso nacionalista , e ao mesmo tempo te ferrando . Um estúpido de marca maior . ESTOU INDIGNADO ! Só não faço um vídeo e arrebento com ele porque por consideração a você . Nao sei se vou ter paciência te ficar calado se esse idiota falar mas alguma asneira .” 2025-07-11 17-55
O pastor também orienta Jair Bolsonaro sobre como se posicionar publicamente, sugerindo que evitasse ataques diretos ao Supremo Tribunal Federal e ao ministro Alexandre de Moraes, mas que apresentasse o discurso como defesa da “liberdade, da justiça e da anistia”, estratégia que, segundo ele, daria ao ex-presidente uma imagem de estadista. Em outra parte, propõe até que o discurso fosse enviado a Donald Trump, transformando a narrativa em “munição” política internacional contra o governo Lula.
Um mercado especializado, que vai além de produtos religiosos tradicionais tem sido impulsionado, nos últimos anos, pelo crescimento da população evangélica no Brasil. Condomínios residenciais, parques temáticos, bancos digitais e planos de saúde voltados exclusivamente a esse público revelam uma tendência: a consolidação de um setor econômico que une fé, consumo e identidade religiosa.Com propostas similares, as empresas têm propagado a manutenção de um ideal religioso personalizado através da fé comum.
Segundo dados do Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os evangélicos já representam 26,9% da população brasileira. Essa representatividade tem atraído o interesse de setores empresariais que veem oportunidades de investimento em produtos e serviços voltados para esse grupo.
Entre os exemplos mais recentes está o Residencial Clube Manancial da Fé, primeiro condomínio com foco exclusivo no público evangélico, que ganhou destaque nas mídias de notícias em julho passado. Localizado em Nova Iguaçu (RJ), o projeto promete uma “morada edificada sobre os alicerces da tradição familiar”, diz o slogan estampado no website do empreendimento. O empresário responsável pelo condomínio Alcindo Plácido, declarou que seu objetivo é mostrar aos investidores “a força do setor evangélico” e o retorno financeiro possível ao atender esse segmento.
Um dos slogans do empreendimento afirma: “Você não vai à Terra Santa, mas a Terra Santa vai até você”, em referência a elementos arquitetônicos e simbólicos inspirados em Israel, além disso, versículos bíblicos alusivos a áreas como quadras esportivas, ou piscinas, são utilizados para retratar as facilidades do local.
Imagem: Extrato do jornal Folha de S. Paulo on line, publicado em 22 jul 2025
Para a revista Veja, Plácido afirmou que, embora o projeto tenha um apelo religioso evidente, parte das moradias estará aberta ao público em geral. Essa abertura é respaldada pelo artigo 5º, inciso VIII, da Constituição Federal, que proíbe qualquer tipo de discriminação ao acesso a bens e serviços por crença religiosa.
Ainda na esfera do lazer, a Prefeitura do Rio de Janeiro já havia anunciado, em 2024, a criação do parque temático Terra Prometida, voltado ao público cristão. Com 198,5 mil metros quadrados, o parque será construído em Santa Cruz, Zona Oeste carioca, e ocupará a sexta posição entre os parques erguidos na região desde 2021.
“Esse será um parque especial porque, além dos benefícios que trará para o meio ambiente e para a população, também será um espaço dedicado à propagação e ao exercício da fé. Um lugar de congregação, peregrinação e para realização de eventos religiosos, que fará bem ao corpo e à alma”, afirmou o prefeito do Rio, Eduardo Paes, durante o anúncio oficial.
Imagem: Site da Prefeitura do Rio de Janeiro
Outro setor que aderiu à lógica da segmentação religiosa foi o bancário. O banco digital Clava Forte, fundado pelo pastor e cantor da Igreja Batista Lagoinha André Valadão, apresenta-se como uma solução financeira voltada ao público gospel. Com sede em Belo Horizonte (MG), o banco oferece serviços como crédito, cashback, planos funerários e seguros de vida. A esposa de André, Cassiane Montosa Pitelli Valadão, atua como diretora do banco.
Em seu site, o banco se apresenta com a missão de criar soluções financeiras personalizadas, oferecendo espaço para instituições religiosas e pastores. Entre os serviços estão financiamentos para apoiar igrejas em seus projetos, além de seguro de vida e planos funerários para líderes religiosos e suas famílias.
Imagem: Reprodução
O segmento fitness também ganhou versão religiosa. Em Curitiba (PR), foi inaugurado em junho de 2024 o estabelecimento esportivo Sou Mais Cristo, considerada a primeira academia cristã do Brasil. O espaço traz cruzes na decoração, uma sala de oração disponível aos alunos e treinos embalados por música gospel em vez das tradicionais batidas eletrônicas. Segundo o sócio-proprietário Patrick Baptista, a ideia nasceu após sua conversão à fé evangélica e busca oferecer um ambiente mais “familiar e acolhedor”, que já reúne mais de 400 frequentadores. A proposta viralizou nas redes sociais e deve se expandir em modelo de franquias a partir de 2025.
Imagem: Academia Sou Mais Cristo/Reprodução
Na área de relacionamentos, aplicativos como o Amor em Cristo seguem a mesma lógica de segmentação. Com uma proposta conservadora e tradicional, o app se propõe a unir casais cristãos, com funcionalidades similares a outras plataformas de encontros, como localização por proximidade e filtros personalizados.
Imagem: Reprodução da internet
O setor de saúde também aderiu a esta tendência gospel. A plataforma ACBI Saúde disponibiliza planos de saúde, seguros e serviços odontológicos voltados a fiéis e instituições religiosas, com um discurso de acolhimento e cuidado espiritual aliado ao físico.
Diante da multiplicação desses empreendimentos, especialistas analisam o que esse fenômeno representa no contexto religioso e sociocultural brasileiro.
Fenômeno não é novo, mas se atualiza
Para a editora-geral do Bereia e pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) doutora em Comunicação Social Magali Cunha, a relação entre fé e mercado é antiga e ganha novos contornos com a consolidação da cultura gospel no Brasil. “Sempre houve produtos religiosos voltados para as pessoas de fé. Em relação a evangélicos, as lojas de produtos para este grupo sempre existiram – livros, camisetas, Bíblias, objetos simbólicos”.
A pesquisadora explica que esse movimento se intensificou a partir dos anos 1990 e 2000, com a expansão do mercado fonográfico gospel e a emergência de um consumo simbólico voltado aos fiéis. “Quando a cultura gospel do show business se ampliou, começaram a surgir também produtos simbólicos diversos, como bares gospel, aparelhos eletrônicos gospel (como o celular da Nokia), cursos pré-vestibular gospel, grifes de roupas e calçados, cosméticos gospel, seguradoras e até sex shops com nomes como ‘Rosa de Sarom’”, ressalta.
Para Cunha, o que se vê atualmente é uma nova fase desse fenômeno, com mais diversidade e alcance. “Com a cultura evangélica consolidada e expandida no Brasil, e o número de fiéis do segmento ampliado para 26,9% da população, conforme o Censo 2022, vemos uma atualização e uma expansão desta cultura mercadológica de bens e serviços com marca religiosa em nova versão — o que podemos chamar de ‘mercado gospel 2.0’. É a expansão do alcance da lógica mercadológica desta cultura religiosa”.
Lógica de consumo e pertença simbólica
Já a professora titular de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco e doutora Karla Patriota, enxerga essa expansão como parte de um processo sociocultural mais amplo, onde fé e consumo caminham lado a lado.
“Vejo a expansão do ‘mercado gospel’ como resultado de um processo histórico de longa duração, sustentado por dinâmicas graduais e contínuas que integram práticas religiosas e lógicas de consumo num mesmo ecossistema simbólico. Nesse ambiente, produtos e serviços funcionam como dispositivos de pertença que atravessam múltiplos segmentos, conectando-se a repertórios de fé e estilos de vida.”
De acordo com a doutora em sociologia, essas iniciativas ajudam a consolidar identidades e criam novas formas de vivência religiosa no cotidiano. Ela também destaca os desafios que ainda persistem. “Persistem lacunas de representação e de alinhamento comunicacional que o próprio público identifica como relevantes. O desafio consiste em compreender as gramáticas de uso e os contratos de leitura que se estruturam nesses contextos, valorizando as mediações cotidianas que geram reconhecimento, legitimidade e sentido para um grupo que busca ver refletidas, no mercado, suas concepções identitárias e seu universo simbólico”, indica Karla Patriota.
O vídeo-denúncia a respeito da “adultização” (abuso) de crianças e adolescentes na internet, publicado na última semana pelo youtuber Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, levou os poderes Executivo e Legislativo do Brasil a se apressarem para ampliar medidas de proteção a crianças e adolescentes nas mídias sociais.
Nesta semana, tanto o presidente Lula quanto o presidente da Câmara dos Deputados Hugo Motta (Republicanos-PB) concordaram que, para tornar as medidas mais efetivas e preventivas, é necessário, também, regular as grandes plataformas de tecnologia — que lucram com conteúdos
No entanto, líderes religiosos e parlamentares da ala direita esbarram no “elefante na sala”, e o ignoram, ao acatarem a denúncia de Felca: a regulação das plataformas. Bereia analisou os perfis de todos os deputados federais que se manifestaram a favor da pauta denunciada pelo influenciador e verificou que a totalidade foi contrária ao Projeto de Lei (PL) 2360/2020.
O projeto, apelidado de PL das Fake News, foi aprovado no Senado em 2022, depois de ampla discussão com organizações e fóruns de defesa da democratização das mídias. Este PL foi a proposição que mais avançou no Legislativo, até hoje, e visava responsabilizar as grandes empresas de tecnologia – as big techs – no Brasil, e não apenas usuários, pela publicação e lucro com conteúdo criminoso (pedofilia, racismo e xenofobia, misoginia, estímulo à intolerância, ódio e práticas violentas, entre outros).
Em 2023, a Bancada Evangélica na Câmara Federal se destacava na oposição ao PL 2630. De acordo com um dos líderes do grupo, o pastor Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), 95% da bancada se colocava contra o texto aprovado pelo Senado Federal e que foi enfraquecido na Câmara dos Deputados.
Para esses parlamentares, o projeto tinha como objetivo limitar a privacidade e a liberdade de expressão online, pois enquadraria determinados conteúdos — amplamente sustentados pela extrema-direita — como discurso de ódio e desinformação.
Neste agosto de 2025, após a comoção nacional alavancada pela denúncia de Felca, a Bancada Evangélica divulgou uma nota de repúdio à “adultização, erotização e exploração econômica de crianças e adolescentes no Brasil”. Porém, mantendo a mesma postura de apoio às empresas que monetizam com esses conteúdos, diz que não aceitará “que um problema tão sério (…) seja usado como pretexto para restringir a liberdade de expressão e impor censura velada nas redes sociais”.
Alternativa também é recusada por extremistas de direita
A alternativa ao PL 2630 que ganhou força desde a publicação de Felca é o Projeto de Lei 2628, de 2022. Porém, ele também não tem recepção favorável dos políticos alinhados aos extremistas de direita, que são os que mais lançam mão dos espaços livres de controle social nas plataformas. Sóstenes Cavalcante, que se tornou líder do Partido Liberal na Câmara, já alertou que “se tiver qualquer sinal de censura, não vamos apoiar”.
O PL 2628 é de autoria do mesmo senador que apresentou o PL 2630, Alessandro Vieira (MDB-SE), e já foi aprovado no Senado e foi encaminhado à Câmara Federal, em dezembro de 2024. Apelidado “ECA Digital”, o projeto se restringe à proteção de crianças e adolescentes e estabelece regras para uso de aplicativos, jogos e redes sociais. O PL prevê multas de até 10% do faturamento do grupo econômico no Brasil no ano anterior, ou de até R$ 50 milhões por infração, caso ausente o faturamento.
Para proteger crianças e adolescentes, o PL dispõe sobre verificação etária para restringir o acesso a conteúdo impróprio, restrição de publicidade direcionada com base em perfilamento comportamental, remoção imediata de conteúdos ilegais e obrigatoriedade de ferramentas de controle parental.
Contudo, a oposição liderada pela direita cristã, que alega proteger os interesses da família e, consequentemente, das crianças, já atuou para também afrouxar este projeto. Em matéria divulgada no último 14 de agosto, o jornal independente The Intercept Brasil apurou que não só a oposição trabalhou em bloco para enviar emendas para reduzir a força do PL 2628, como duas delas foram criadas diretamente pelo lobista Marconi Borges Machado, gerente de políticas públicas na Meta — empresa que gerencia Facebook, WhatsApp e Instagram.
De acordo com o Intercept, “uma das emendas de autoria do lobista tentou livrar as grandes plataformas da obrigação de disponibilizar relatórios sobre moderação de conteúdo. A segunda sugeriu excluir a possibilidade de aplicar sanções criminais às plataformas. Nenhuma delas está identificada como sendo de autoria de um representante da Meta”.
“Motivação da esquerda”
O deputado Pastor Marco Feliciano (PL-SP), destacado propagador de desinformação nas redes digitais, afirmou, em 13 de agosto, que ficou espantado com a “motivação da esquerda nesse momento” ao apoiar o projeto que defende a integridade dos jovens.
“Em 2017, quem apresentou aqui na Casa a denúncia sobre o homem nu no MASP (Museu de Arte de São Paulo) foi este deputado que aqui está. Eu fiz um vídeo falando na tribuna e o vídeo foi retirado da internet”, disse ao presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos – PB).
Outro conhecido influenciador que lança mão de conteúdo falso e enganoso em campanha, o deputado evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG), sustentou, na última terça-feira (12), que ainda não há “projeto de censura” na pauta da Casa, e que o PL 2628 “nunca foi pelas crianças”.
O deputado, que fez uma mobilização entre parlamentares e eleitores pela rejeição à PL 2630, compartilhando informações falaciosas, havia apresentado, na véspera (11 de agosto), um projeto de lei à Mesa Diretora para “estabelecer medidas para prevenção, detecção, denúncia e responsabilização por crimes e condutas nocivas contra crianças e adolescentes no ambiente digital, garantindo, simultaneamente, a preservação da liberdade de expressão, da privacidade e da neutralidade tecnológica”.
Na proposta apresentada por Nikolas Ferreira, a remoção de conteúdo com base apenas no que ele denomina “juízos subjetivos ou discricionários da plataforma”, deverá ser vedada, cabendo às decisões terem fundamento jurídico e serem registradas para eventual auditoria ou revisão judicial.
Bereia verifica que a quase totalidade dos projetos prevê punições para usuários que publicam conteúdo criminoso e libera de responsabilidade as plataformas que veiculam tais publicações e lucram financeiramente com elas. A pesquisa mostra que são projetos punitivistas, sem tocar nos meios de propagação — o que significa prevenção.
Com mais 35 anos desde que entrou em vigor, o ECA prevê a proteção integral de crianças e adolescentes, inclusive na internet, e tipifica como crime “quem exibe, transmite, auxilia ou facilita a exibição ou transmissão, em tempo real, pela internet, por aplicativos, por meio de dispositivo informático ou qualquer meio ou ambiente digital, de cena de sexo explícito ou pornográfica com a participação de criança ou adolescente”.
A Resolução Nº 245, do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), em vigor desde abril de 2024, é baseada nas duas normas e destaca a legislação existente para tratar dos itens já debatidos e repetidos hoje no Congresso Nacional. Entre eles, destaca a responsabilidade conjunta do Poder Público, famílias, sociedade civil e empresas de tecnologia na proteção dessa população, liberdade de expressão, verificação etária nas plataformas, criação de canais de denúncias, e a responsabilização das big techs por violações aos direitos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente.
Dados recentes
De acordo com a Polícia Federal, somente entre 2023 e 2025 foram realizadas 2.306 operações de combate à pornografia infantil, expediu 2.834 mandados de prisão, e prendeu 793 criminosos em flagrante por crimes relacionados à exposição inadequada de crianças e adolescentes na internet.
O relatório TIC Kids Online Brasil de 2024, elaborado pelo Comitê Gestor da Internet, 23% das crianças entre 9 e 17 anos acessaram a internet pela primeira vez antes dos seis anos de idade, enquanto apenas 9% afirmaram ter acessado após os 12 anos — sendo que a idade mínima para criar um perfil em plataformas como Instagram, X e WhatsApp é 13 anos, conforme as diretrizes da Meta e do X.
Regulação de plataformas digitais não é censura
O discurso de que projetos como o PL 2630/2020 e o PL 2628/2022 representam censura faz parte de uma estratégia articulada por setores da direita e pelas big techs para barrar qualquer tentativa de controle público sobre o ambiente digital. Parlamentares alinhados à extrema direita se valem do discurso da defesa da liberdade de expressão para mobilizar suas bases, mesmo quando o que está em jogo é a proteção de direitos fundamentais, como a segurança de crianças e adolescentes.
As grandes empresas de tecnologia, por sua vez, resistem à regulação porque lucram diretamente com a ausência de regras claras e que coibem práticas criminosas, como a erotização de crianças e a pornografia infantil. O modelo de negócios dessas plataformas depende da coleta massiva de dados, da segmentação extrema de públicos e da amplificação de conteúdos que geram engajamento — entre eles, discursos de ódio, incitação à violência e material inadequado para crianças e adolescentes.
Ao se aliarem à retórica política contrária à regulação, essas multinacionais mantêm intocado um ecossistema que converte atenção em lucro, mesmo à custa da integridade de seres humanos ainda em formação. De acordo com o Google, por exemplo, o modelo atual de regulação proposto para o Brasil dá amplos poderes a um órgão governamental para decidir o que os brasileiros podem ver na internet, prejudica empresas e anunciantes devido às novas exigências de publicidade digital, e traz sérias ameaças à liberdade de expressão (por meio do “dever de cuidado”, princípio jurídico em que são adotadas medidas para prevenir a ocorrência de danos pela a atividade de uma empresa).
De acordo com o coordenador da Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD) Marco Schneider, a desinformação sobre a regulação das plataformas atrasa a votação acerca do tema e prejudica a população na medida em que desfavorece a mobilização pública, que poderia pressionar os parlamentares no sentido da regulação.
“De todo modo, a moderação de conteúdos e a penalização de quem promover conteúdo nefasto certamente há de minimizar o risco de crianças e adolescentes terem contato com esse tipo conteúdo, preservando sua saúde física e mental”, afirma.
O coordenador da RNCD acrescenta que a motivação da direita para impedir a regulação/responsabilização das plataformas digitais é a impunidade para mentir e acumular capital político e financeiro com a desinformação, de modo que continuem a difundir seus preconceitos.
Bereia ressalta que a convergência entre interesses econômicos e políticos cria um terreno fértil para a manutenção da desinformação, e que a proteção de crianças e adolescentes nas mídias digitais não pode ser desvinculada da regulação dessas plataformas. Sob o rótulo enganoso de “defesa da liberdade”, perpetua-se um cenário onde a ausência de regras beneficia quem monetiza o ódio, a mentira e a vulnerabilidade alheia — enquanto a sociedade arca com os custos sociais dessa omissão.
*** Artigo publicado por Carta Capital, em 23 de julho de 2025.
Apocalipse nos Trópicos, o documentário de Petra Costa que aborda a destacada relação entre evangélicos com a política no Brasil nos últimos anos, é competente na reconstituição da história recente do Brasil. O filme destaca, com mérito, como os fatos que colocaram o país nos trilhos do extremismo de direita foram alimentados pela instrumentalização da fé cristã, particularmente a evangélica, como estratégia política de convencimento por apoio e manutenção do poder – tema insistentemente tratado neste Diálogos da Fé desde 2017.
A qualidade da produção, contudo, não elimina tropeços na abordagem. Vários deles já apontados em comentários na imprensa e nas redes sociais: a outorga ao pastor Silas Malafaia do papel de porta-voz do segmento; a homogeneização dos evangélicos na figura dos pentecostais; a suposição de que apenas essa parcela apoiou o bolsonarismo; o contraste simplista entre “católicos da Teologia da Libertação” — vistos como redentores — e evangélicos, pintados como vilões; a exposição da “teologia do domínio” como teoria conspiratória.
O resultado, infelizmente, é mais desinformação e intolerância do que debate sobre o lugar da fé na esfera pública. Neste texto, contudo, quero me deter em um aspecto pouco abordado nas críticas, e que talvez tenha sido o que mais me incomodou: a leitura alegórica, fundamentalista e conservadora do livro do Apocalipse como eixo explicativo da relação fé-política no Brasil.
Há séculos o Apocalipse carrega má fama. Seu texto hermético, repleto de símbolos, alimentou a ideia de que seria um catálogo de desgraças futuras. Daí o termo “apocalipse” ter virado sinônimo de ruína, aniquilamento, desgraça, fim do mundo. Não por acaso, o nome é também título de outra obra cinematográfica, ganhadora da Palma de Ouro em 1979, Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola, um épico sobre a terrível Guerra do Vietnã.
Essa visão nasce de uma leitura literalista da Bíblia, que ignora contexto histórico, cultural e as ciências bíblicas (arqueologia, a literatura comparada, a história, a filologia, as ciências humanas e sociais). Desta leitura brotou o imaginário do fim do mundo decretado por Deus, com a derrota de Satanás e de todos os seus representantes e a salvação dos crentes em Jesus. Por isso já foram marcadas várias datas para o fim do mundo, detectados vários anticristos e identificadas distintas práticas e costumes alinhadas com a visão do mal contida no texto.
Apocalipse nos Trópicos abraça exatamente essa chave hermenêutica: tal como certos fiéis veem a “besta” do capítulo 13 no Papa, o filme atribui alegoricamente “aos evangélicos” a destruição do Brasil.
A opção pelo fundamentalismo eclipsa outra leitura, mais esperançosa. Estudos bíblicos mostram que o Apocalipse é uma carta, escrita cerca de 90 d.C. por João, exilado em Patmos, dirigida a comunidades cristãs perseguidas pelo Império Romano. A linguagem cifrada servia para driblar a censura.
O texto denuncia um sistema que, legitimado pela religião, concentrava poder econômico, explorava os pobres e impunha culto ao imperador. Ao mesmo tempo, animava os cristãos a resistir, apontando para “um novo céu e uma nova terra”
Todas as visões de João relatadas no livro diziam respeito à situação de perseguição em que se encontravam as pessoas das igrejas naquele momento. Há referências muito duras ao Império Romano e seus apoiadores, como a figura da Besta que emergia do mar (trajeto das invasões romanas) e do anticristo. E são muitas, também, as representações da esperança.
A carta foi escrita para e sobre aquele exato tempo. Não para pregar uma destruição futura, mas para afastar o medo e espalhar esperança no presente. Sua mensagem central é de esperança ativa contra impérios opressores — inclusive os de hoje: o poder econômico-financeiro excludente, o autoritarismo, a intolerância, as milícias políticas. Há, sim, quem invoque Jesus para sustentar tais impérios, como mostram apoios religiosos a Donald Trump e, aqui, a Jair Bolsonaro. Mas também há quem resista.
Reduzir o Apocalipse a presságio de destruição é por demais simplista. E, no fim das contas, se coaduna com o tratamento igualmente simplista e descontextualizado dado aos evangélicos em Apocalipse nos Trópicos.
Uma pena! A ideia de tomar o livro do Apocalipse é muito boa, pois vivemos tempos muito semelhantes àquele da carta joanina. O Apocalipse convida a superar o medo e, pela fé, vislumbrar um futuro de justiça. Essa deveria ser a mensagem para hoje — e o debate que o documentário poderia ter provocado.
Uma pesquisa realizada entre 11 e 13 de julho de 2025, pelo instituto Atlas Random Digital Recruitment (RDR) analisou a percepção da população brasileira sobre a taxação de 50% aplicada pelo ex-presidente dos Estados Unidos (EUA) Donald Trump, a produtos brasileiros. O levantamento também detalha como diferentes segmentos religiosos reagiram à medida adotada pelo atual presidente dos Estados Unidos.
Com base nos dados, Bereia realizou um balanço das respostas do público religioso, organizou as informações principais, e ressaltou as diferenças de opinião entre evangélicos, católicos e pessoas de outras religiões. Além disso, Bereia identificou na pesquisa os níveis de aprovação, rejeição e indecisão em relação à política tarifária dos Estados Unidos.
A metodologia utilizada na pesquisa Atlas, conta com uma tecnologia que dispensa contato direto entre entrevistador e entrevistado e garante maior anonimato e neutralidade nas respostas ao recrutar participantes de forma orgânica durante a navegação na internet, em qualquer dispositivo conectado.
Percepção da taxação de Trump por grupo religioso
A pesquisa Atlas, contratada pela empresa global de informações financeiras Bloomberg, foi realizada entre os dias 11 e 13 de julho de 2025 e está estruturada em quatro eixos temáticos: 1. Aprovação presidencial; 2. Política externa do governo Lula; 3. Tarifas de Trump; 4. Imagem dos Estados Unidos e de Donald Trump.
O foco do balanço do Bereia é o terceiro eixo, abordado a partir da página 24 do relatório divulgado. Os entrevistados foram questionados sobre a seguinte questão: “Na sua opinião, a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de taxar em 50% os produtos brasileiros, é justificada ou injustificada?”
As respostas revelam percepções distintas entre os grupos religiosos, como demonstram os dados a seguir:
Grupo religioso
Injustificada (%)
Justificada (%)
Não sei (%)
Católicos
66,9%
32,1%
1%
Evangélicos
44,9
53,1
2
Outra religião
64,5
35
0,5
Crente sem religião
52,3
47,6
0,1
Agnóstico ou ateu
78,6
21,4
0
Injustificada (%)
Justificada (%)
Não sei (%)
Dados gerais do total de 2841 respondentes
62,2
36,8
1
Os dados apresentados acima revelam diferenças marcantes entre os grupos religiosos quanto à percepção da taxação imposta por Donald Trump sobre produtos brasileiros. A maioria de católicos (66,9%), de pessoas com outra religião (64,5%) e especialmente agnósticos ou ateus (78,6%) consideram a medida injustificada, por ampla quantidade de respostas, com média de 70%, somados à maioria dos crentes sem religião que consideram o mesmo, com 52,3%, menor índice em relação aos demais.
Já os evangélicos se destacam como o único grupo em que a maioria (53,1%) considera a taxação justificada.
Este quadro chama a atenção por evidenciar a construção de uma possível afinidade maior deste grupo religioso, evangélicos, com políticas protecionistas radicais, caso da taxação imposta ao Brasil e outros países, e/ou com a figura do ex-presidente estadunidense. Já o índice de indecisos (os que responderam “Não sei”) foi baixo em todos os segmentos, com destaque para os agnósticos/ateus (0%) e crentes sem religião (0,1%), o que indica que a maioria dos entrevistados sabe do que se trata e tem opinião formada sobre o tema.
Veja os demais dados de cada pergunta do eixo três:
Na sua opinião, qual foi a principal motivação que levou Donald Trump a anunciar uma taxação de 50% sobre produtos brasileiros?
Grupo religioso
Retaliação contra a participação nos Brasil na Brics (%)
Atuação da família Bolsonaro junto a Donald Trump (%)
Retaliação contra decisões do STF sobre redes sociais americanas (%)
Desejo genuíno de tornar o comércio com o Brasil mais favorável aos EUA (%)
Não sei (%)
Católicos
33,2
47,7
16,6
2,5
0
Evangélicos
50,9
15,4
24,1
9,4
0,1
Outra religião
37
36,2
12,5
6,4
7,8
Crente sem religião
59,7
12,4
20,2
0,5
7,2
Agnóstico ou ateu
36,6
54
9,4
0
0
Dados gerais do total de 2841 respondentes
40,9
36,9
16,8
3,5
1,9
A análise dos dados revela percepções bastante distintas entre os grupos religiosos sobre o que teria motivado Donald Trump a anunciar a taxação de 50% sobre produtos brasileiros. Entre católicos, pessoas de outra religião e agnósticos/ateus, prevalece a compreensão enfatizada no noticiário de que a medida foi influenciada pela articulação da família Bolsonaro com o governo dos EUA. O destaque expressivo é da avaliação de agnósticos e ateus (54%), que são seguidos por católicos (47,7%) e pessoas de outra religião (36,2%).
A hipótese de retaliação dos EUA contra decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre responsabilização de redes sociais digitais na propagação de conteúdo ilícito aparece com quantidade de respostas moderada, especialmente entre evangélicos (24,1%) e crentes sem religião (20,2%), o que sugere uma afinidade destes grupos com esta abordagem disseminada nas redes digitais por políticos e comentaristas críticos à atuação da Corte neste quesito.
A opinião relacionada ao “desejo de favorecer os EUA comercialmente” teve poucas respostas em todos os grupos, o que afirma a percepção das pessoas com identidade religiosa entrevistadas de que a medida teve motivações mais políticas do que econômicas.
O número de indecisos é muito baixo entre a maioria dos grupos, o que demonstra um alto nível de engajamento e opinião formada sobre o tema, com exceção das pessoas das categorias “outra religião” (7,8%) e “crentes sem religião” (7,2%), nas quais a incerteza aparece de forma mais significativa.
Na sua opinião, as justificativas usadas por Donald Trump ao decidir taxar em 50% produtos brasileiros a partir de 1º de agosto podem ser consideradas uma ameaça à soberania brasileira?
Grupo religioso
Sim, configuram uma ameaça à soberania brasileira (%)
Não, não configuram uma ameaça à soberania brasileira (%)
Não sei (%)
Católicos
44,6
54
1,4
Evangélicos
53,2
46,7
0,2
Outra religião
53
38,4
8,6
Crente sem religião
36,8
63,2
0
Agnóstico ou ateu
75,8
24,2
0
Dados gerais do total de 2841 respondentes
50,3
47,8
1,8
Os dados mostram que a percepção sobre a taxação de produtos brasileiros por Donald Trump como uma ameaça à soberania nacional tem uma curiosa variação entre os grupos religiosos. Agnósticos ou ateus são os que mais veem a medida como uma afronta à soberania do Brasil, com 75,8% expressando essa visão, seguidos por pessoas de religiões não cristãs (53%).
O único grupo religioso destacado com maioria mais expressiva são os crentes sem religião. 63,2% desta categoria consideram que não há ameaça à soberania nacional, uma abordagem assumida por políticos, grupos da direita política e aliados, que procuram colocar a responsabilidade da taxação sobre o governo federal e sobre o STF, como indicado nas questão anterior.
Neste ponto católicos e evangélicos estão divididos de forma oposta. Entre os primeiros, uma pequena maioria (54%) não considera a taxação uma ameaça à soberania, enquanto evangélicos, também em maioria não muito ampla (53,2%), pensa o contrário, que, sim, representa uma intimidação. Nestes dois grupos a divergência vem de parcelas significativas: 44,6% de católicos acreditam que a soberania brasileira está ameaçada pelas tarifas, ao passo que 46,7% de evangélicos avaliam que não.
O número de indecisos permanece baixo em todos os grupos, com exceção das pessoas com outra religião (8,6%), o que evidencia que, no geral, os entrevistados têm acompanhado notícias sobre esta disputa.
Como você avalia a reação do governo brasileiro diante das tarifas aplicadas pelo governo Trump sobre os produtos brasileiros?
Grupo religioso
Adequada (%)
Agressiva (%)
Fraca (%)
Não sei (%)
Católicos
41,7
27,2
28,2
2,8
Evangélicos
20
39,1
40,1
0,3
Outra religião
76,1
17
4,4
2,5
Crente sem religião
38
44,4
15,6
2
Agnóstico ou ateu
80
5,6
6
8,4
Dados gerais do total de 2841 respondentes
44,8
27,5
25,2
2,5
A avaliação da resposta do governo brasileiro às tarifas impostas por Donald Trump revela uma forte divergência entre os grupos religiosos. Agnósticos ou ateus (80%) e pessoas com outra religião (76,1%) consideram a reação adequada, demonstram alto grau de aprovação do governo federal e, possivelmente, uma visão mais institucional ou diplomática da postura do governo.
Em contraste, evangélicos se mostram mais críticos, com apenas 20% que consideram a resposta adequada, enquanto a maioria (79,2%) a percebe como fraca (40,1%) e agressiva (39,1%), o que sugere insatisfação com os posicionamentos adotados.
Entre os crentes sem religião, a avaliação é mais dividida, com 38% que tomam as ações do governo como adequadas, embora 44,4% as consideram agressivas e 15,6%, fracas, dados negativos que somam 60%. De igual modo, católicos se dividem entre 41,7% que veem a reação como adequada, 28,2% como fraca e 27,2% como agressiva, somando 55,4% de indicadores com denotação negativa.
Os índices de indecisão foram baixos na maioria dos grupos, exceto entre agnósticos ou ateus (8,4%).
Você acredita que o governo federal será capaz de negociar e chegar a um acordo com os Estados Unidos para reduzir as tarifas aplicadas sobre os produtos brasileiros?
Grupo religioso
Sim (%)
Não(%)
Não sei (%)
Católicos
50,2
34,6
15,2
Evangélicos
18,8
65,1
16,1
Outra religião
61,4
29
9,6
Crente sem religião
43,6
42,9
13,4
Agnóstico ou ateu
74,1
19,8
6,1
Dados gerais do total de 2841 respondentes
44,7
38,8
13,3
Os dados demonstram que a confiança na capacidade do governo brasileiro de negociar com os Estados Unidos para reduzir as tarifas varia significativamente entre os grupos religiosos. Agnósticos ou ateus (74,1%) e os com outra religião (61,4%) são os mais otimistas, e indicam maior confiança na atuação diplomática do governo federal.
Católicos também tendem ao otimismo, com 50,2% que acreditam na possibilidade de um acordo, embora uma parcela considerável (34,6%) demonstre ceticismo, com um número significativo de pessoas nesta categoria que não sabem ou não querem responder, 15%.
Já entre os crentes sem religião, as opiniões estão divididas, com 43,6% que confiam na negociação e 42,9% que não acredita no sucesso mais uma boa parcela que não sabe responder, 13,4%.
O grupo mais descrente das ações do governo federal é o dos evangélicos, com expressivos 65,1% que acreditam que o não conseguirá reverter as tarifas, e apenas 18,8% com confiança em um possível acordo, o menor índice entre todos os grupos, que divide a balança com os 16,1% que não sabem ou optaram por não responder. Tais respostas se mostram coerentes com a tendência de crítica ao governo federal presente nas demais registradas por este grupo.
Como você avalia o impacto econômico das tarifas de Trump na economia brasileira?
Grupo religioso
Alto impacto (%)
Baixo impacto (%)
Muito alto impacto (%)
Nenhum impacto (%)
Não sei (%)
Católicos
43,6
35
14,9
2,1
4,4
Evangélicos
61,7
16
21,4
0
0,9
Outra religião
55,1
32,1
6,8
0,4
5,6
Crente sem religião
44,2
24,2
17,4
13,9
0,3
Agnóstico ou ateu
42,1
45,2
9,9
0,9
1,9
Dados gerais do total de 2841 respondentes
48,6
30,8
14,9
2,4
3,2
Como você avalia o impacto da política de aumento de tarifas do governo Trump sobre a inflação e o crescimento econômico do Brasil especificamente?
Grupo religioso
Inflação: Vai aumentar? (%)
Inflação: Não terá impacto? (%)
Inflação: Vai diminuir? (%)
Inflação: Não sei (%)
Católicos
70,9
15,3
5,8
8,1
Evangélicos
85,4
11
1,2
2,4
Outra religião
66,3
19,3
10,2
4,2
Crente sem religião
72,5
17,5
4,8
5,5
Agnóstico ou ateu
49,3
33,5
14,7
2,5
Dados gerais do total de 2841 respondente
70
18
6
6
Grupo religioso
Crescimento econômico: Vai aumentar? (%)
Crescimento econômico: Não terá impacto?(%)
Crescimento econômico: Vai diminuir? (%)
Crescimento econômico: Não sei (%)
Católicos
6,9
15,1
70,1
8
Evangélicos
3,2
8,9
85,7
2,1
Outra religião
5,5
23,3
64,9
6,4
Crente sem religião
11,9
7,9
77,5
2,7
Agnóstico ou ateu
15,2
24
58,9
1,9
Dados gerais do total de 2841 respondente
8
15
72
5
Estas respostas foram obtidas de uma mesma pergunta na pesquisa sobre o impacto econômico das tarifas impostas por Donald Trump na economia brasileira. A grande maioria de todos os grupos religiosos avalia que ele existirá e que será alto e muito alto.
Os evangélicos são os que mais avaliam que a medida impactará a economia, com total de 83,1% entre alto (61,7%) e muito alto (21,4%). O grupo mais dividido é o de agnósticos ou ateus com 52% que acreditam que haverá impacto entre alto, 42,1%, e muito alto, 9,9%, e 45,2% que percebem que ele será baixo.
De forma geral, os diferentes grupos religiosos veem a política tarifária dos EUA como negativa tanto para a inflação quanto para o crescimento econômico do Brasil, embora existam nuances importantes entre eles.
A percepção de que a inflação vai aumentar, é majoritária em todos os segmentos, com destaque para evangélicos (85,4%), crentes sem religião (72,5%) e católicos (70,9%), o que sinaliza uma preocupação ampla com o impacto direto nos preços. Já entre agnósticos ou ateus, este índice é bem menor (49,3%), com uma parcela expressiva (33,5%) que afirma que não haverá impacto.
Em relação ao crescimento econômico, o pessimismo é ainda mais acentuado. A avaliação de que ele vai diminuir é predominante em todos os grupos, especialmente entre evangélicos (85,7%), crentes com outra religião (77,5%) e católicos (70,1%). Mesmo entre os agnósticos ou ateus, grupo que mostrou mais moderação quanto à inflação, 58,9% acreditam e retração econômica, embora também sejam os mais propensos a enxergar estabilidade (24%) e crescimento (15,2%).
As respostas demonstram uma percepção generalizada de que a medida tarifária terá consequências inflacionárias e recessivas, com variações na intensidade da percepção a depender da identidade religiosa.
Você acha que o governo federal deveria retaliar os Estados Unidos diante da decisão de Trump de taxar os produtos do Brasil?
Grupo religioso
Sim (%)
Não (%)
Não sei (%)
Católicos
58,7
39,7
1,6
Evangélicos
16,2
63,2
20,6
Outra religião
64,3
24,9
10,8
Crente sem religião
34,4
48,2
17,4
Agnóstico ou ateu
78,5
20,9
0,6
Dados gerais do total de 2841 respondentes
51,2
40,9
7,9
Os dados revelam posições contrastantes entre os grupos religiosos quanto à ideia de o governo federal retaliar os EUA após a taxação dos produtos brasileiros por Donald Trump. Agnósticos ou ateus são os mais favoráveis à retaliação, com expressivos 78,5% que defendem essa postura, seguidos por pessoas de outras religiões (64,3%) e católicos (58,7%), o que demonstra uma forte adesão à ideia de uma resposta firme e simétrica.
Em contraposição, os evangélicos são majoritariamente contrários à retaliação, com 63,2% que rejeitam a medida e apenas 16,2% favoráveis, o menor índice entre todos os grupos analisados. Tal posição é coerente com a questão em que a maioria deste grupo respondeu que as medidas impostas pelos EUA se justificam.
Os crentes sem religião também tendem a ser mais contrários à retaliação (48,2%), embora com uma divisão mais equilibrada. O alto índice de indecisos entre evangélicos (20,6%) e crentes sem religião (17,4%) é significativo, indicando, possivelmente, dúvidas sobre as consequências de tal ação.
Como você acha que o governo deveria retaliar os Estados Unidos? Escolha a opção que você considera mais adequada.
Grupo religioso
Aumentar tarifas sobre produtos americanos (%)
Reforçar relações diplomáticas e comerciais com rivais dos EUA, como a China (%)
Reduzir a dependência do dólar americano (%)
Suspender pagamentos de direitos autorais e patentes de medicamentos americanos (%)
Impor restrições a investimentos norte- americanos (%)
Outra medida (%)
Católicos
51,8
33,9
9,7
1,9
0,8
2
Evangélicos
56,1
14,1
29,1
0,1
0
0,2
Outra religião
51,8
25,3
16,1
1,1
3,6
2,1
Crente sem religião
35,8
33,7
18,7
1,7
5,8
4,3
Agnóstico ou ateu
54,8
19,1
19,4
6,3
0,3
0
Dados gerais do total de 2841 respondentes
51,2
28,6
14,5
2,4
1,5
1,8
Os dados indicam que, entre os diferentes grupos religiosos, há uma preferência clara por medidas econômicas diretas como forma de retaliação à taxação imposta pelos Estados Unidos. A opção mais escolhida por todos os grupos foi “aumentar tarifas sobre produtos americanos”, com destaque entre evangélicos (56,1%), agnósticos ou ateus (54,8%), católicos (51,8%) e pessoas de outras religiões (51,8%), o que revela um consenso em torno de uma resposta comercial simétrica.
Posteriormente, aparece a estratégia de reforçar relações com rivais dos EUA, como a China, com maior adesão entre católicos (33,9%) e crentes sem religião (33,7%).
Chama a atenção que os evangélicos tenham sido os que mais rejeitaram esta opção, com apenas 14,1% de escolhas dela no grupo.
A proposta de reduzir a dependência do dólar americano também tem algum apelo, especialmente entre evangélicos (29,1%) e crentes sem religião (18,7%), o que sugere coerência com as respostas relacionadas à defesa da soberania nacional. Medidas mais radicais, como suspender o pagamento de patentes de medicamentos e de impor restrições a investimentos estadunidenses tiveram baixíssima adesão.
As relações entre Brasil e Estados Unidos ficarão mais fortes ou mais fracas com a política de aumento de tarifas do governo Trump?
Grupo religioso
Ficarão mais fracas (%)
Ficarão iguais (%)
Ficarão mais fortes (%)
Não sei (%)
Católicos
74,6
17,6
1,5
6,2
Evangélicos
86,1
10,1
3,2
0,6
Outra religião
80,4
19,2
0
0,4
Crente sem religião
67,1
27,6
0,1
5,3
Agnóstico ou ateu
67,5
22,6
0,7
9,3
Dados gerais do total de 2841 respondentes
75,7
18,2
1,5
4,7
A percepção geral entre os grupos religiosos é de que a política de aumento de tarifas implementada por Donald Trump fragilizou as relações entre Brasil e Estados Unidos. A maioria em todos os segmentos acredita que os laços diplomáticos e comerciais ficaram mais fracos, com destaque para os evangélicos (86,1%) e pessoas de outras religiões (80,4%), seguidos por católicos (74,6%).
Mesmo entre os mais críticos a medidas de retaliação, como os crentes sem religião (67,1%) e agnósticos ou ateus (67,5%), essa percepção de enfraquecimento das relações também predomina.
A parcela que considera as relações inalteradas é minoritária, variando de 10,1% (evangélicos) a 27,6% (crentes sem religião). Já a ideia de que os laços tenham se fortalecido após a medida tarifária é praticamente inexistente, com índices residuais em todos os grupos.
Para buscar compreender este quadro
A forma como a resposta de grupos religiosos, em especial de evangélicos, aparece neste levantamento da pesquisa Atlas/Bloomberg reflete mais conteúdos circulantes em redes sociais digitais do que o noticiário, seja para justificar a tarifação imposta pelos EUA ao Brasil, seja para responsabilizar o governo federal por esta ação… (as conclusões que elenquei acima).
Esta constatação retoma o dado já levantado em pesquisa de que as pessoas se informam mais pelas redes digitais do que por meios tradicionais. De acordo com o Relatório Desigualdades Informativas: Entendendo os caminhos informativos dos brasileiros na internet 2024, de autoria da Aláfia Lab, mais da metade da população brasileira (51,6%) recorre às redes sociais como principal fonte de informação. Entre as plataformas, o Instagram lidera com 68,8% dos entrevistados afirmando utilizá-lo para se manter informados. Na sequência, aparecem o YouTube (55,9%) e o Facebook (43,7%).
Isto significa que o que as pessoas consomem nas redes digitais é fundamental para a formação da opinião que elas têm sobre determinados assuntos, entre eles, o caso da taxação do Brasil pelos EUA. A questão é que entre estes conteúdos, como o Bereia mostra, está uma considerável parcela de desinformação, parte dela embasada no medo.
Bereia buscou referências para apontar caminhos de compreensão deste quadro. A doutora em Comunicação e Informação Sandra Bitencourt, que também é jornalista e atua como coordenadora da Região Sul da Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD), indica: “As agendas geopolíticas têm funcionado como espelho ideológico e vêm posicionando grupos no debate interno do país. Há questões práticas que afetam cotidianos, como a imigração, o emprego e as consequências de uma chantagem comercial, mas também há preocupações que unificam segmentos, como a liberdade religiosa e o sempre acionado tema do aborto.”
Sandra Bittencourt ainda observa que a extrema-direita, tanto nos EUA quanto no Brasil, tem explorado essas pautas com eficiência. “A extrema-direita, mundialmente, tem sido muito hábil em colocar essas posições como uma luta ‘civilizatória’ em defesa da família e dos seus valores, o que acaba por direcionar, mesmo com contradições, percepções e escolhas. É uma estratégia, obviamente, que cria divisões, não apenas na sociedade, mas no interior das denominações religiosas, pois muitos fundamentam sua fé e seus valores religiosos com uma missão política.”
Em artigo sobre a relação de evangélicos com os governos Lula 1, 2 e 3, a cientista política diretora-executiva do Instituto de Estudos da Religião (ISER) Ana Carolina Evangelista reflete que a parcela da população identificada como evangélica tem sido mais blindada por mensagens diárias, dentro e fora dos templos, e se tornado refratária a tudo que venha da política no espectro progressista. “O bolsonarismo se amalgamou com o campo evangélico nos territórios, não apenas na política palaciana”, avalia e acrescenta: “quem está falando sistematicamente e com muita desenvoltura [com este grupo] são lideranças religiosas e comunitárias bolsonarizadas. Tudo isso imerso num ambiente político mais violento e intolerante, como um todo, na sociedade”.
A morte da jovem brasileira Juliana Marins, de 26 anos, em 24 de junho, durante uma trilha no Monte Rinjani, na Indonésia, gerou comoção nacional e uma onda de desinformação sobre o traslado de brasileiros mortos no exterior. Opositores do governo federal passaram a compartilhar conteúdos enganosos com alegação de que o Estado teria se recusado a cumprir uma “obrigação” de repatriar o corpo, o que não corresponde à legislação vigente até então.
Bereia identificou que essas mentiras passaram a circular também em grupos de WhatsApp com pastores evangélicos e em portais de notícias gospel.
Entenda o caso
O Decreto nº 9.199/2017, assinado pelo então presidente da República Michel Temer (MDB) e a Lei nº 9.199/2019, aprovada aprovada no primeiro ano do mandato de Jair Bolsonaro (PL) estabelecem que o governo federal não poderia custear sepultamentos ou translado de corpos de brasileiros falecidos no exterior, salvo em situações excepcionais, como missões oficiais.
Diante dessa limitação jurídica, em 25 de junho, o Itamaraty informou à família da jovem morta na trilha do vulcão que prestaria assistência consular, mas não poderia arcar com as despesas do traslado.
Diante da repercussão e comoção com o caso e do apelo da família, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva telefonou ao pai de Juliana Marins e anunciou a mudança da norma.
O Decreto nº 12.535, publicado neste 27 de junho, prevê agora a possibilidade de o governo federal custear, em caráter excepcional, o traslado de brasileiros falecidos no exterior, desde que haja comoção pública, comprovação de vulnerabilidade econômica da família, inexistência de seguro ou vínculo com missões oficiais.
Apesar da mudança legal, o monitoramento do Bereia aponta que vídeos, postagens e matérias de viés religioso têm atribuído falsamente ao governo uma omissão deliberada, sem contextualizar o marco legal anterior nem a alteração feita por decreto.
Para a editora-geral do Bereia Magali Cunha, o episódio revela como tragédias podem ser instrumentalizadas politicamente: “Há um uso recorrente de desinformação em ambientes religiosos digitais para reforçar discurso de oposição ao governo federal. Mesmo em momentos de luto, a verdade é sacrificada em nome de disputas ideológicas. A oposição é saudável e necessária em uma democracia, porém tal estratégia precisa ser refutada”.
O novo decreto ainda dependerá de regulamentação do Ministério das Relações Exteriores e da disponibilidade orçamentária para ser aplicado a outros casos. Enquanto isso, a família de Juliana Marins aguarda a chegada do corpo e segue em luto, agora com o apoio oficial do Estado brasileiro para que a jovem seja sepultada no país.
Relembre o caso
Juliana Marins, moradora de Niterói, Rio de Janeiro, desapareceu no sábado, 21 de junho, após escorregar de um penhasco durante uma escalada no segundo maior vulcão da Indonésia. Seu corpo foi localizado por um drone dois dias depois e resgatado apenas na quarta, 25 de junho, após sucessivos atrasos causados por terreno íngreme e mau tempo.
A família afirmou que houve negligência das autoridades locais no resgate, pois a jovem teria sido ouvida com vida horas após o acidente. A tragédia mobilizou apoio popular nas redes e gerou uma campanha pública para financiar o retorno do corpo ao Brasil.
Não existe termo correto – os dois podem ser considerados, tanto “evangélicos” quanto “protestantes”. Ocorre que o termo popularizado é “evangélico”; o outro, “protestante”, raramente foi utilizado para a autoidentificação dos cristãos não católicos e não ortodoxos. “Protestante” acabou sendo mais empregado na academia, por historiadores e estudiosos da Teologia e da Religião, e em alguns espaços formais fora das igrejas.
Vamos entender melhor como isto se configurou.
Ter um nome é ter identidade, é carregar uma marca, uma imagem. Imigrantes ingleses e alemães e missionários dos Estados Unidos trouxeram a fé protestante para o Brasil a partir do século 19. Estas pessoas fundaram congregações e projetos sociais relacionados às igrejas protestantes clássicas: presbiteriana, congregacional, metodista, batista, luterana, episcopal-anglicana. Naquele contexto era importante adotar uma identificação que representasse a nova experiência vivida no país e que demarcasse uma diferença do Catolicismo oficial e hegemônico. Para isso foi popularizada, entre os fiéis, a expressão “crente em nosso Senhor Jesus Cristo”, ou, numa abreviação, “crente”. Este nome demarcava o processo de conversão, que era a pregação central da mensagem missionária: passava-se da incredulidade e desobediência a uma nova vida de crença e obediência. Os convertidos passavam assim a se autoidentificar como “crentes”.
O renomado cientista da religião Antônio Gouvêa Mendonça indicava em seus estudos que, de fora, o nome “crente” era muitas vezes carregado de preconceito e até de depreciação, entretanto, de dentro, era cheio de brio e de responsabilidade. Os crentes, embora compondo um grupo sociologicamente marginal, eram respeitados pelo seu amor à paz, à ordem e ao trabalho. Assim, o nome de crente trazia consigo um compromisso transparente de ser diferente perante a sociedade.
No entanto, os missionários também tinham sua identidade, sua própria forma de se autoidentificarem: eles eram evangelicals [evangélicos], uma vertente conservadora protestante, que desejavam afirmar a sua fidelidade ao Evangelho e não à Ciência ou à razão humana, com as quais protestantes progressistas se afinavam. A corrente dos evangelicals foi a promotora do movimento das Alianças Evangélicas em todo o mundo. Eram associações caracterizadas pela teologia dos movimentos pietistas, fundamentalistas e avivalistas e pela busca da união de todos os protestantes a fim de formar uma frente única de oposição ao Catolicismo – interpretado como grande empecilho ao avanço missionário iniciado no final do século 18.
A influência deste movimento alcançou o Brasil expressivamente no início do século 20, com o avanço dos projetos missionários protestantes em todo o mundo, patrocinados pelas Alianças Evangélicas. Muitas denominações brasileiras acrescentaram aos seus nomes a expressão “evangélica” – Igreja Evangélica X, Igreja Evangélica Y – e o termo “crente”, que já havia ganhado forma pejorativa, foi, paulatinamente substituído, por “evangélico/a” para designar os fiéis e as igrejas não-católicas e não-ortodoxas.
Com o crescimento numérico e geográfico deste segmento, e as tantas transformações vividas, em especial, com a chegada dos pentecostais, no século 20, o termo “evangélico” foi cada vez mais consolidado como a marca do segmento.
A popularização dos grupos e igrejas por meio da ocupação das mídias tradicionais e digitais, da cultura gospel da música, do entretenimento e do mercado de bens e serviço e da participação na política institucional amplificaram isto. Fato é que, fora da academia e de alguns espaços formais fora das igrejas, ninguém usa o termo protestante para identificar este grupo de cristãos e, sim, evangélico.
Que o Brasil é um Estado laico é algo conhecido e aprendido desde muito cedo nas escolas. Isso significa que o poder público deve se manter neutro em relação às religiões, sem favorecer ou discriminar nenhuma delas, e garantir que fiéis possam praticá-las abertamente e que não fiéis sejam livres para não seguí-las.
Por isso, o artigo 5º, inciso VI, da Constituição Federal de 1988, garante a liberdade de crença e culto, assegurando que ninguém seja privado de direitos por motivo de convicção religiosa. Ao mesmo tempo, o artigo 19 proíbe que a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios “apoiem ou subvencionem a execução de cultos religiosos ou igrejas”, o que inclui o ambiente escolar nesse contexto.
No acompanhamento que faz das notícias que circulam em ambientes religiosos, o Bereia observa constantes intervenções de agentes do Estado que contrariam esta orientação. Por meio de projetos de lei, tanto das assembleias estaduais como de câmaras municipais, deputados e vereadores têm proposto a inclusão da leitura da Bíblia como conteúdo obrigatório nas escolas públicas, o que tem provocado intensos debates. Para quem faz a proposta, é uma uma forma de preservação da “ética e de valores”, já para críticos, a medida representa uma violação do princípio da laicidade do Estado e pode ferir o direito à diversidade religiosa, já que nem todos os estudantes seguem a fé cristã.
Diversidade religiosa e o risco da imposição de um tipo de fé
O Brasil é um país marcado pela pluralidade religiosa. Além de católicos e evangélicos, há milhões de brasileiros que seguem religiões de matriz africana, judaísmo, islã e espiritismo, entre outras crenças — além de pessoas sem religião e declarados ateus e agnósticos. Nesse cenário, tornar o ensino da Bíblia obrigatório pode ser, “de fato”, interpretado como uma tentativa de impor uma visão religiosa específica em detrimento das demais.
Especialistas alertam para os riscos de se fomentar a intolerância religiosa ao se promover uma única doutrina em instituições públicas. Alunos de outras religiões — ou sem religião — podem se sentir excluídos, discriminados ou constrangidos em sala de aula. A imposição pode criar um ambiente hostil, alimentando preconceitos e reforçando estereótipos sobre minorias religiosas.
Esta é a avaliação do antropólogo pesquisador em religião e política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Rodrigo Toniol. Em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo em abril deste ano, a propósito do ocorrido em Belo Horizonte, Toniol avalia que há simulação de zelo pelo patrimônio cultural: “Estamos assistindo, na verdade, à implementação de uma política educacional disfarçada de zelo pelo patrimônio cultural, mas que, na prática, promove uma única doutrina religiosa.” O pesquisador aponta que este tipo de proposição “tenta se disfarçar de valorização cultural para instituir, por vias enviesadas, um privilégio religioso”.
Projetos de Lei em todo o país
Apesar das garantias constitucionais, propostas legislativas que buscam inserir a leitura da Bíblia nas escolas têm se multiplicado em diversos estados e municípios do Brasil. Em Manaus (AM), por exemplo, foi aprovado pela Câmara Municipal, em 2023, por unanimidade, um projeto de lei do vereador alinhado à direita Raiff Matos (DC), que autorizaria a leitura bíblica como recurso paradidático em escolas públicas e privadas. Questionada no Supremo Tribunal Federal, a lei foi vetada por ser inconstitucional.
No Paraná, o vereador Jairo Cardoso (DEM) apresentou proposta semelhante à Câmara de Vereadores de Foz do Iguaçu, em 2021, para permitir a distribuição de exemplares da Bíblia nas unidades escolares municipais. A própria Câmara Municipal arquivou o projeto por ser inconstitucional.
Imagem: reprodução/Câmara Foz do Iguaçu
Em Minas Gerais, propostas similares foram apresentadas neste 2025 por parlamentares alinhados à direita. Em Belo Horizonte, um projeto de lei, da vereadora evangélica Flávia Borja (DC), foi aprovado em abril passado pela Câmara Municipal e ainda está sob apreciação do Prefeito que poderá sancionar ou vetar a nova lei. Nela, a Bíblia é indicada como material paradidático para consulta facultativa nas escolas da cidade.
Na mesma direção, também em Minas, há um projeto do Pastor Dário (PP), assinado com outros vereadores de Ribeirão das Neves, e outro, em Pouso Alegre, pelo vereador Leandro Morais (União).
Esses projetos, que contêm o mesmo teor, e, por vezes, o mesmo texto, contam com o apoio de bancadas religiosas, especialmente evangélicas, que têm crescido em influência no Legislativo. Os defensores alegam que a leitura da Bíblia nas escolas poderia contribuir para a formação moral e ética dos alunos, combatendo problemas como a violência e a falta de valores. É o caso do vereador Rodrigo Arruda e Sá (PSDB), que publicou um vídeo em suas redes pedindo apoio da população para aprovar projeto de sua autoria. O parlamentar é evangélico (Comunidade das Nações em Cuiabá) e costuma publicar conteúdos sobre fé em seu perfil do Instagram. Bereia checou desinformação em torno deste caso.
Vereador de Cuiabá Rodrigo Arruda e Sá. Imagem: Reprodução
Este é outro problema que se estabelece neste contexto: quando tais projetos são declarados inconstitucionais, seja nas próprias casas legislativas, seja em processos judiciais, autores e seus apoiadores usam a ideia de “perseguição religiosa” como crítica. Um exemplo ocorreu em 26 de janeiro passado, quando o prefeito de Sorocaba Rodrigo Manga (Republicanos) publicou um vídeo no Instagram intitulado “Perseguição aos cristãos”, afirmando que contestaria um uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) do Ministério Público de São Paulo, que pedia a retirada de Bíblias das bibliotecas da cidade. O prefeito havia sancionado o projeto de lei de um ex-vereador que determinava esta política pública.
Críticas e Reações
Para setores progressistas, no entanto, essas propostas representam uma ameaça à democracia e aos direitos civis. O deputado federal e pastor Henrique Vieira (PSOL/RJ) foi categórico ao criticar as tentativas de impor o ensino bíblico nas escolas públicas e cedeu uma fala exclusiva ao Bereia sobre o assunto quando perguntado sobre seu posicionamento:
“Sou absolutamente contra essa imposição. Esses projetos que têm se multiplicado nas câmaras e assembleias legislativas são absolutamente violentos. É um desrespeito à democracia, à diversidade religiosa e também ao direito à não crença. Por si só, é uma arbitrariedade — uma imposição”, afirmou.
Deputado federal Henrique Vieira. Imagem: Divulgação/Psol
A professora e pesquisadora de Educação e Religião Andréa Silveira tem chamado a atenção sobre o uso da educação e das escolas em disputas políticas, processos eleitorais e projetos de lei por parte de parlamentares. Em importante artigo que analisou o tema nas eleições municipais de 2024, ela afirma:
O desprezo à diversidade de crenças e modos de ser e viver que subjaz ao discurso fundamentalista reverberado por tantos candidatos às Prefeituras de norte a sul do país, no pleito de 2024, é indicativo de que o que está em disputa não é somente a gestão da escola pública e do bem-estar da coletividade. Antes, o que está sendo disputado é o poder de estabelecer quais são as virtudes cívicas que, levadas às últimas consequências, são definidoras da própria identidade nacional.
Por isso, vem crescendo a cada pleito a presença de atores religiosos na disputa da representação no Legislativo e no Executivo, que não apenas acreditam que quem controla a escola governa o mundo, mas também, disputam o campo político como agentes desse controle por meio das políticas públicas para a educação.
A controvérsia permanece: de um lado, setores que enxergam na Bíblia uma ferramenta de ensino moral; de outro, a defesa de uma escola pública neutra e inclusiva, onde nenhuma crença seja imposta e todas as religiões — ou a ausência delas — sejam igualmente respeitadas.
E o Papa Francisco viveu sua Páscoa-Passagem! Depois de semanas de sofrimento, com uma pneumonia bilateral, Francisco fez sua travessia “para os braços de Deus” – uma expressão religiosa muito cara aos evangélicos no Brasil.
Como já escrevi neste espaço de Carta Capital, quando das celebrações dos dez anos do pontificado de Francisco (2023), evangélicos brasileiros, majoritariamente, tiveram um imaginário em torno dos Papas da Igreja Católica construído com base em rejeição.
A herança crítica da Reforma Protestante à “corrupção” que a Igreja de Roma promoveu contra o Evangelho, alimenta um imaginário negativo na figura do seu líder maior, o Papa. A imagem é fortemente atrelada à ideia do poder terreno que perverte a fé (como chefe de Estado) e à riqueza representada no amplo no patrimônio da Igreja Católica.
Quando o Papa Francisco assumiu, em 13 de março de 2013, ele sucedia, praticamente, dois papas. Primeiro, João Paulo II que, por 26 anos, se tornou muito popular, marcadamente por suas dezenas de visitas papais a muitos países do mundo. Deu atenção a povos e situações antes esquecidas pela liderança maior da Igreja Católica, colocando-se fisicamente presente.
João Paulo II, porém, tornou-se também conhecido como aquele que “puxou o freio do processo e deu marcha-ré” a uma série de avanços do Vaticano II, com a assessoria especial daquele considerado seu “braço direito”, o cardeal e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (o antigo tribunal da Inquisição) Joseph Ratzinger.
A ofensiva conservadora que marcou a Igreja Católica, no final dos anos 1980, nos anos 90 e nos 2000, estabeleceu um período de oposição a tudo o que alimentasse a igreja progressista, acusada de ser um desvio marxista. Foram 26 anos de pontificado de João Paulo II (1978 -2005), caracterizados por perseguição a bispos, padres, freiras e leigos ligados à Teologia da Libertação, ou simplesmente lideranças comprometidas com os princípios do Concílio Vaticano II, a fim de “restaurar a grande disciplina”, como João Paulo II afirmou ser prioridade de seu papado, no discurso inaugural.
Ratzinger se tornou o Papa Bento XVI, em 2005, para manter e garantir continuidade desse projeto, afinal, 172 dos 184 membros do Colégio Cardinalício foram nomeados por João Paulo II. Porém, foi um curto papado. Em 11 de fevereiro de 2013, Bento XVI apresentou sua renúncia.
Foi neste contexto que, um mês depois, um Conclave elegeu como Pontífice o argentino, religioso da ordem dos jesuítas, Jorge Mario Bergoglio. Numa referência ao santo de Assis, reconhecido pelo seu trabalho com os empobrecidos, o primeiro latino-americano a se tornar papa escolheu o nome Francisco. A escolha do nome marcava a identidade do episcopado de Bergoglio, como um homem sem luxos, com vocação missionária.
A qualidade de Francisco como “pastor”, elemento significativo do seu papado, relevante característica de uma liderança religiosa sacerdotal, do ponto de vista evangélico “raiz” (não aquele das igrejas-corporações, das churches, ou de Legendários), possivelmente colaborou para a reconstrução da imagem do Papa entre evangélicos, com elementos muito positivos.
A figura do pastor é muito destacada na tradição cristã pela atividade pecuária que marcava o sustento da vida: a criação de ovelhas e o trabalho do pastoreio. Esta atividade era transportada simbolicamente para a vivência da fé.
Deus é considerado o Verdadeiro Pastor, o modelo de pastoreio, pois tem autoridade e é dedicado àqueles de quem cuida, tem poder e carinho, tem vigor e ternura. A maior imagem disto está no Salmo 23, “O Senhor é meu Pastor e nada me faltará”. Assim como Deus faz, os governantes e os líderes religiosos deveriam fazer também, na responsabilidade de conduzir o povo, para o seu bem-estar.
Jesus demonstra, então, com suas ações todas baseadas em misericórdia e justiça, o sentido de ser um bom pastor: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas” (Jo 10.11-15). Jesus reafirma o sentido do pastoreio das ovelhas que, nesta imagem, representam todos que carecem de cuidado amoroso, misericordioso e justo: acompanha-as todas, guia, cuida, conduz, abre caminhos seguros, de bem viver.
A tradição das igrejas evangélicas (o sentido de “raiz”), do valor ao pastoreio dos sacerdotes, no cuidado com o rebanho mais próximo, a Igreja, e o mais amplo, o mundo, torna possível olhar para o pontificado implementado por Francisco por este prisma: o do Papa-Pastor.
São muitos exemplos dos 12 anos de pontificado de Francisco. A começar da primeira visita papal, pouco mais de três meses depois de assumir a função, em 8 de julho de 2013, a Lampedusa. a ilha é uma das principais rotas de entrada de refugiados do Norte da África, via Mar Mediterrâneo, pela Itália, em busca de sobrevivência na Europa. A ida do então novo papa funcionou como um “cartão de visita” do que a ele passaria a representar.
Quando Francisco visitou Lampedusa, estimava-se que cerca de 20 mil pessoas haviam morrido na travessia precária pelo mar nas duas décadas anteriores. Dias antes, um barco com 165 migrantes do Mali atracou no porto. No dia em que ele estava na ilha, 120 pessoas foram resgatadas no mar depois que os motores de um barco quebraram a 11 quilômetros da costa, entre elas, quatro mulheres grávidas.
Depois de colocar uma coroa de flores no mar para reverenciar os mortos, Francisco pronunciou crítica ao que chama de “globalização da indiferença” aos migrantes, classificando-os como principais vítimas de uma “cultura do descartável”.
“Peçamos ao Senhor a graça de chorar sobre a nossa indiferença, de chorar pela crueldade do nosso mundo, do nosso coração e de todos aqueles que no anonimato tomam decisões sociais e econômicas que abrem as portas para situações trágicas como esta”, desafiou Francisco na ocasião. O Papa-Pastor estabelecia ali sua plataforma de trabalho ancorada no pastoreio do cuidado comprometido com a justiça, como o desejo que manifestou a jornalistas, em encontro logo após sua eleição: “Como eu gostaria de uma Igreja pobre para os pobres!”.
Neste contexto, Bergoglio inscreveu seu nome como o primeiro Papa latino-americano, o primeiro Papa jesuíta, o primeiro Papa com o programático e simbólico nome de Francisco. Tudo isto o tornou singular e suficiente para fazer história.
Com aquela base teológica e pastoral que tornou pública em Lampedusa, Francisco atuou pela paz e pela justiça em muitas frentes, com a das relações Estados Unidos-Cuba, pelo fim da guerra entre Ucrânica e Rússia e, mais recentemente, na denúncia do genocídio promovido por Israel contra a Palestina. Ele produziu também, importantes plataformas para a Igreja Católica.
A sua primeira carta pastoral publicada em novembro de 2013 foi intitulada “La alegría del Evangelio” (Evangelii Gaudium). Ela traz um tema importante na teologia e na cultura das igrejas evangélicas “raiz” que é o da conversão. A ideia de conversão vem do termo grego “metanoia”, traduzido como “mudar de ideia”, “mudar o modo de pensar e sentir”. A raiz latina “conversio”, “mutatio”, evoca a noção de transformação, mudança. Por isso, se construiu uma pregação, entre evangélicos, embasada na ideia de transformação, nas crenças e nas práticas, e com ela a mudança de percepção do mundo.
Descartada a reflexão em torno do proselitismo dos evangélicos, centrado na conversão à crença e no (re)batismo, e na mudança de vida ancorada na moralidade puritana, a noção de que o encontro com o Evangelho de Cristo traz mudança de vida, é um elemento-chave nesta leitura pastoral.
É esta a linha da reflexão que o Papa Francisco impôs à sua Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho”, que encontra ressonância nesta tradição evangélica ainda viva em parcela importante das igrejas brasileiras. No texto, o papa pede aos fiéis que se desloquem com a noção da “Igreja em Saída” – uma igreja que não é fechada em si mesma e vai ao encontro dos desafios missionários impostos pelo mundo e suas injustiças.
Na Encíclica, Francisco inclui até mesmo uma “conversão do papado”, para torná-lo “mais fiel ao significado que Jesus Cristo quis dar-lhe e às necessidades atuais da evangelização”
A noção de “igreja em saída” abriu caminho para aprofundamentos que passam pelo cuidado com toda a Terra, expresso na importantíssima Encíclica Laudato Si (2015) e na realização do Sínodo da Amazônia (2019). Também se conecta com o cultivo de fecundos encontros e expressões de amor que Francisco teve com lideranças de igrejas irmãs e de outras religiões.
Neste caminho, o Papa-Pastor, pregador da conversão, colocou como prioridade, no seu primeiro ano, a reestruturação das instituições financeiras do Vaticano, para que estivessem alinhadas com as regras internacionais de transparência e acompanhadas por um controle visível.
Ao mesmo tempo, Francisco frustrou expectativas de conversão entre fiéis progressistas, com posições conservadoras em relação à justiça para mulheres e para pessoas LGBTQIA+. Ele se rendeu à falaciosa noção de “ideologia de gênero”, apesar de ter realizado gestos amorosos e inclusivos para com mulheres e para com a população LGBTQIA+.
Porém, os focos de oposição manifestos em várias partes do mundo ao Papado marcadamente humanitário e conciliador de Francisco devem-se fortemente ao legado conservador dos dois pontificados passados. Há muita resistência de alas da Igreja Católica a suas ações marcadas pela reestruturação das confusas finanças do Vaticano, criação de comissão para combater abuso sexual de crianças na Igreja, defesa de uma Igreja mais tolerante em questões de família, duras críticas ao capitalismo, à destruição do meio ambiente e ao enfrentamento dos poderes que promovem guerras e morte.
É fato que Francisco fez história com sua proposta de imprimir um estilo humanizado ao cargo, coerente com suas ideias. Foi assim que ele marcou seu pontificado como um Papa-Pastor: buscou se aproximar das pessoas comuns e de suas mazelas, com discursos simples, ações e propostas de humildade para a Igreja. Francisco, portanto, rompeu com o histórico aparato em torno do cargo, que tende a afastar Pontífices dos fiéis, e mais ainda dos considerados “infiéis”. Ao mesmo tempo que atingiu racionalidades, afetou corações.
Por estas coisas, é possível reconhecer que um significativo número de evangélicos brasileiros puderam se sentir um pouco mais próximos e menos avessos a um Papa. Este é um exemplo de como Francisco deixa um legado importante, não apenas para quem se reconhece cristão, mas para todas as pessoas com ou sem religião, que têm sede e fome de justiça.
** Os artigos da seção Areópago são de responsabilidade de autores e autoras e não refletem, necessariamente, a opinião do Coletivo Bereia.
O Projeto de Lei que propõe anistiar participantes dos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023 deu um passo decisivo neste 14 de abril, ao ter seu pedido de urgência protocolado na Câmara dos Deputados com 262 assinaturas válidas — número suficiente para que o texto seja levado ao plenário. O avanço da proposta contou com forte apoio da Frente Parlamentar Evangélica, responsável por quase 60% das assinaturas.
OPL 2858/2022 propõe anistia ampla a manifestantes, organizadores, financiadores e apoiadores de protestos ocorridos entre 30 de outubro de 2022 e a data de promulgação da eventual lei, incluindo os atos golpistas que culminaram na invasão das sedes dos Três Poderes, em Brasília – o que, na prática, tornaria impunes acusados por crimes graves relacionados à tentativa de golpe de Estado.
Entre os 160 parlamentares da Frente Evangélica que assinaram o requerimento de urgência está um dos réus no processo sobre os atos golpistas. Trata-se de Alexandre Ramagem (PL-RJ) se tornou réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado e responde por cinco crimes: golpe de Estado, tentativa de abolição violenta do Estado de Direito, organização criminosa, dano qualificado e deterioração do patrimônio público tombado.
Para o líder do PartidoLiberal deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo liderada pelo pastor Silas Malafaia, o projeto representa um gesto de justiça em nome de cidadãos que estão sofrendo “perseguição”. Já os opositores ao projeto apontam que a proposta busca, na verdade, proteger o ex-presidente Jair Bolsonaro e membros das Forças Armadas atualmente investigados por participação ou omissão no planejamento dos atos de 8 de janeiro.
O vice-líder do governo federal na Câmara, deputado Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ), avalia que a manobra revela o medo do PL perder apoio.
“Alguns deputados retiraram suas assinaturas do projeto e, com medo de perder apoio, o PL correu para impedir novas desistências. Sóstenes, então, protocolou um pedido de urgência de votação — o que trava o processo e pressiona o presidente da Câmara a pautar o tema”, publicou em sua conta no X.
O deputado evangélico de esquerda, da Igreja Batista do Caminho, também entende que, se sancionada, “a proposta pode beneficiar quem atacou a democracia com atos de violência, depredação e tentativa de golpe”.
Ex-presidente do STF diz que Congresso não pode conceder anistia a golpistas
As críticas de aliados do governo se unem às avaliações de alguns ministros do STF que consideram inconstitucional o projeto de anistia defendido pelo PL. Em entrevista ao Blog da Andreia Sadi, eles argumentam que a proposta fere os incisos 43 e 44 do artigo 5º da Constituição, que proíbem anistia para crimes como terrorismo e ações armadas contra o Estado.
Esse também é o entendimento do ex-ministro da Justiça Celso de Mello, presidente do Supremo Tribunal Federal no biênio 1997–1999. O decano afirmou que o projeto fere cláusulas pétreas da Constituição e busca usurpar o papel do Judiciário.
“Conceder anistia a quem perverte a democracia e subverte o Estado de Direito traduz ato que afronta e dessacraliza, uma vez mais, a soberana autoridade da Constituição da República”, escreveu em artigo publicado pelo ICL Notícias.
Para Celso de Mello, o Congresso Nacional não pode exercer seu poder de legislar, em matéria de anistia, nos seguintes casos:
Quando a Constituição já exclui expressamente a possibilidade de anistia, como nos casos de tortura, racismo, tráfico de drogas, terrorismo, crimes hediondos e delitos a estes equiparados (art. 5º, XLIII).
Quando há desvio de finalidade, como ocorre no PL 2858/2022, ao tentar transformar o Congresso em instância revisora das decisões do STF.
Quando há violação ao princípio da separação de poderes, cláusula pétrea da Constituição.
Quando busca beneficiar quem atentou contra o Estado Democrático de Direito, também protegido por cláusula pétrea implícita.
O ministro relembrou ainda as cenas de vandalismo de 8 de janeiro, como a destruição do busto de Ruy Barbosa no Supremo Tribunal Federal, que permanece danificado como memorial do ataque. “A brutalidade vitimou a Justiça e ofendeu o grande patrono dos advogados brasileiros”, afirmou.
Quase 30% dos réus já tiveram penas perdoadas
Ao menos 546 pessoas que se tornaram rés por incitação aos atos golpistas de 8 de janeiro firmaram acordos com a Procuradoria-Geral da República (PGR) para evitar uma condenação penal formal. Os dados mais recentes do Supremo Tribunal Federal (STF) mostram que, entre os 1.604 réus identificados nas ações penais, cerca de 30% optaram pelo chamado Acordo de Não Persecução Penal (ANPP).
Esses acordos são oferecidos pela PGR a pessoas acusadas por crimes menos graves — como incitação ao crime ou associação criminosa simples — desde que não envolvam violência ou grave ameaça e a pena mínima seja inferior a quatro anos.
Para firmar o ANPP, os réus precisam confessar o crime, pagar uma multa (que pode variar entre R$ 5 mil e R$ 50 mil) e cumprir medidas como a prestação de serviços comunitários e a proibição de uso de redes sociais. Em contrapartida, os processos são suspensos e arquivados caso os termos sejam cumpridos integralmente, ou seja, são perdoados. Também é obrigatório assistir ao curso “Democracia, Estado de Direito e Golpe de Estado”, criado pela PGR, com duração de 12 horas.
Outros 237 réus recusaram a proposta da PGR e acabaram condenados a um ano de reclusão — pena que, embora substituída por sanções alternativas, gera antecedentes criminais.
Os ministros do STF André Mendonça e Kassio Nunes Marques, ambos indicados à Corte pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, têm votado pela absolvição em diversos casos. Já o relator do processo, ministro Alexandre de Moraes, tem sustentado a tese de que “mesmo após os atos de 8 de janeiro de 2023, o réu permaneceu no acampamento, resultando em sua prisão em flagrante em 9 de janeiro”, o que, segundo ele, comprova “a adesão à finalidade golpista e antidemocrática, que visava à abolição do Estado de Direito”.
Até o momento, o Supremo já registra 500 condenações relacionadas ao 8 de janeiro. Os réus que cometeram crimes mais graves, como tentativa de golpe de Estado ou depredação dos prédios dos Três Poderes, não têm direito a acordos e vêm recebendo penas que chegam a 17 anos de prisão.
Caso o PL 2858/2022 seja aprovado no plenário da Câmara Federal, todos os inquéritos e processos poderiam ser anulados, inclusive os que envolvem militares e financiadores ainda em liberdade. O texto do substitutivo não impõe qualquer condição para a anistia, como admissão de culpa, ressarcimento de danos ou pedido de perdão público.
Maioria da população rejeita anistia
Apesar do avanço do projeto na Câmara, a proposta de anistia enfrenta rejeição da maioria da população brasileira. Segundo levantamento da Quaest, divulgado em abril, 56% dos entrevistados se declaram contrários à anistia para os envolvidos nos ataques de 8 de janeiro, enquanto apenas 34% são favoráveis.
A rejeição é especialmente alta entre eleitores do presidente Lula (77%) e pessoas sem religião (66%). Já entre os evangélicos, há uma divisão mais equilibrada, com 42% favoráveis à anistia e 48% contrários, o que ajuda a explicar o apoio significativo de parlamentares ligados a esse segmento ao projeto.
A pesquisa também mostra que quase metade da população (49%) acredita que Jair Bolsonaro participou do planejamento dos atos, reforçando a percepção de que o PL da anistia busca proteger não apenas manifestantes, mas lideranças políticas envolvidas na tentativa de Golpe de Estado.
Deputados da Frente Parlamentar Evangélica que assinaram o requerimento de urgência:
Circulam em perfis religiosos de mídias sociais publicações sobre uma edição da Bíblia intitulada Bíblia do Patriota, comercializada no domingo 6 de abril, passado, na Avenida Paulista (São Paulo, capital). A venda ocorreu durante a manifestação por perdão judicial a participantes dos ataques ao processo eleitoral de 2022.
A comercialização da versão da Bíblia denominada “do Patriota” chamou atenção nas redes digitais por fundir o livro sagrado dos cristãos à ideologia nacionalista, que vem sendo apregoada por políticos e partidos alinhados ao extremismo de direita no Brasil. Vídeos e imagens do produto circularam amplamente nas mídias sociais. Bereia checou a veracidade desta informação.
O produto
Em vídeo no Youtube, a pessoa que comercializa a Bíblia do Patriota apresentou a obra como uma “edição de luxo”, com capa dura, fitilho e acabamento especial inspirado na ocasião. Segundo ela, o diferencial da publicação está na diagramação interna colorida: as palavras de Deus aparecem em azul, as promessas divinas em amarelo e, no Novo Testamento, as palavras de Jesus estão destacadas em vermelho. Destacou ainda que se trata da versão Almeida Revista e Corrigida (ARC), sem mencionar qualquer conteúdo editorial adicional ou comentário político.
A tradução Almeida Revista e Corrigida (ARC), publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil, é uma das mais tradicionais no meio evangélico brasileiro. Baseada na obra do missionário protestante português do século XVII João Ferreira de Almeida, essa versão é conhecida por uma linguagem formal e por preservar construções mais antigas do português, o que lhe confere um tom solene e reverente. É considerada por muitos fieis como uma tradução mais próxima dos textos originais.
A personalização da edição com elementos divulgados como patrióticos e políticos — como capa nas cores verde e amarela, símbolos nacionais, título da obra e a frase “Deus, Pátria, Família, Liberdade” — estabelece uma associação direta entre o texto sagrado e a estética do extremismo de direita em atividade no Brasil desde 2013. Vídeos e fotografias da venda do produto na Avenida Paulista, em 6 de abril passado, têm circulado amplamente nas mídias sociais e são verdadeiros:
Imagem: Youtube
Imagem: Youtube
A mesma edição da “Bíblia do Patriota” também pode ser encontrada à venda em plataformas como o Mercado Livre.A descrição, utilizada pelo único vendedor identificado como “Virtude Cristã”, destaca o acabamento em capa dura, o design colorido e o uso da versão Almeida Revista e Corrigida (ARC), sem menção a alterações no conteúdo das Escrituras. Apesar de a Bíblia do Patriota ser anunciada no Mercado Livre como uma publicação da Casa Publicadora Paulista (CPP), a edição não consta no catálogo oficial disponível no site dessa editora
A CPP é uma empresa ativa e com presença digital, especializada na publicação de materiais religiosos e educacionais. No entanto, não há qualquer menção à Bíblia do Patriota entre suas obras publicadas.
Imagens: Mercado Livre
A versão oferecida na manifestação e no Mercado Livre, tem um ISBN. O ISBN (International Standard Book Number/ Padrão Internacional de Numeração de Livro) é um padrão numérico criado com o objetivo de fornecer uma espécie de “RG” para publicações monográficas, como livros, artigos e apostilas.
O que está divulgado na ficha da “Bíblia do Patriota” no Mercado Livre é o mesmo de outra Bíblia, esta, sim, publicada e comercializada pela CPP, segundo registros da Câmara Brasileira do Livro, conforme levantado pelo Bereia:
Bíblias patrióticas estadunidenses
A edição intitulada Bíblia do Patriota remete a duas versões norte-americanas que também misturam símbolos religiosos e nacionalistas: a American Patriot’s Bible, publicada pela editora Thomas Nelson, e a God Bless the USA Bible, lançada e promovida por Donald Trump em 2024, durante a campanha dele para a Presidência da República. No entanto, as semelhanças se limitam à estética da capa.
A versão brasileira se destaca apenas com cores da bandeira nacional e imagem de Jair Bolsonaro, sem oferecer conteúdo editorial adicional ou contextualização histórica. Já a American Patriot’s Bible, publicada nos Estados Unidos pela editora Thomas Nelson, representa um exemplo mais elaborado de fusão entre nacionalismo e fé cristã.
Diferentemente da versão brasileira, essa edição não se limita à estética, mas oferece um conteúdo editorial mais amplo: reflexões, documentos históricos, biografias de figuras nacionais e centenas de artigos que estabelecem conexões entre os ensinamentos bíblicos e a construção da identidade dos Estados Unidos. A proposta é mostrar como eventos e personagens bíblicos se relacionam com a história estadunidense, reforçando uma narrativa que entrelaça fé e patriotismo.
Além disso, a Bíblia inclui uma seção ilustrada com imagens simbólicas e espaço para registros familiares, aproximando ainda mais a experiência religiosa da vida cotidiana dos leitores.
A edição promovida por Donald Trump, chamada God Bless the USA Bible foi lançada em 2024. Essa versão é anunciada como “a única Bíblia endossada pelo presidente Trump” e reúne, além dos textos religiosos, diversos símbolos e documentos que compõem a identidade nacional americana.
Entre os itens incluídos estão o refrão manuscrito da canção patriótica God Bless the USA, de Lee Greenwood, a Constituição dos Estados Unidos, a Declaração de Independência, a Declaração de Direitos e o Juramento de Fidelidade — todos posicionados dentro da própria publicação bíblica. A obra é vendida exclusivamente por um site oficial.
Enquanto a American Patriot’s Bible e a God Bless the USA Bible incluem conteúdos adicionais de caráter histórico e institucional, a edição brasileira não apresenta material além do texto bíblico tradicional e miolo das Bíblias comercializadas pela Casa Publicadora Paulista.
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Bereia classifica as publicações que oferecem vídeos e fotos com a comercialização de uma versão da Bíblia denominada “do Patriota” como verdadeiros. Houve, de fato, o oferecimento da edição em uma banca durante o ato contra o julgamento de participantes dos ataques ao processo eleitoral de 2022, ocorrido na Avenida Paulista, em 6 de abril. A comercialização deste produto, voltado para cristãos alinhados ao extremismo de direita no Brasil, parece tentar seguir a linha de apoiadores cristãos do presidente dos Estados Unidos Donald Trump e dele próprio, ao criarem e venderem produções simbólicas religiosas que relacionam a ideologia nacionalista que defendem na política com o livro sagrado do Cristianismo.
“Os evangélicos apareceram pela primeira vez na América Latina nos anos 70, nada mais nada menos trazidos pela CIA”. Esta frase é parte do conteúdo que circula nos perfis de mídias sociais da rede de notícias DW-Espanhol, desde 28 de março passado, com ampla recepção no Brasil, entre muitas curtidas, compartilhamentos e comentários, em especial nos perfis de pessoas e grupos da esquerda política, críticos à presença de evangélicos na cena pública.
Imagens: reprodução redes sociais DW
Ao ter acesso às postagens e ao vídeo, Bereia identificou de imediato que o material da DW-Espanhol destacado propaga conteúdo desinformativo, marcado por erros crassos, que revelam problemas de apuração jornalística. O programa ignora dados históricos sobre a presença dos evangélicos na América Latina e privilegia teorias da conspiração que há algum tempo circulam no continente, em especial entre pessoas e grupos críticos à figura dos evangélicos. A checagem mostra detalhes deste equívoco de conteúdo.
O vídeo do DW-Espanhol
Deutsche Welle (DW) [na tradução para o português, “Onda alemã”] é uma empresa pública de comunicação da Alemanha, que transmite para vários continentes, em 30 línguas, programação de TV e rádio e oferece conteúdo digital em um portal e mídias sociais. Pode-se afirmar que a DW é uma mídia alemã similar a redes de notícias como a BBC World, por exemplo.
Desde 2024, a DW-Espanhol criou um programa em seu canal do Youtube denominado “Como te afeta?” Segundo a empresa, o programa “visa atingir novas gerações com temas, notícias, problemas e soluções que afetam jovens e adolescentes na América Latina. Com uma linguagem nova e dinâmica, ‘Como isso afeta você?” analisa e contextualiza temas com a ajuda de jovens e especialistas, buscando soluções para oferecer um jornalismo construtivo!”.
Desde que foi criado, o programa tem mais de três dezenas de edições, com cerca de 25 minutos de duração, com temas como “por que viver na casa dos pais?”, “por que não é tua culpa ser pobre?”, “por que os salários são tão baixos na América Latina?”, “Que impacto a colonização espanhola teve nas sociedades, economias e culturas da América Latina?”, “Por que vemos tanta pornografia e como ela nos impacta?”, “Por que a linguagem inclusiva é tão polêmica e divide a sociedade?” entre vários outros.
O episódio veiculado em 28 de março passado tem como título (aqui trazido para o português) “Por que alguns pastores fazem sucesso no YouTube, Instagram e TikTok”. O vídeo tem sete capítulos, além de uma introdução e de uma conclusão, intitulados: Os latino-americanos somos muitos religiosos; Os evangélicos avançam; Os evangélicos se tornam virais; O famoso dízimo; Igrejas mafiosas?; Quando igrejas se metem em política; Comunidade e apoio aos necessitados.
O conteúdo é ancorado em dados numéricos sobre a população evangélica em diferentes países da América Latina, oferece a avaliação de especialistas de antropologia, ciência política, direito e economia e destaca a palavra de jovens, também de distintos países do continente sobre suas experiências com as igrejas.
A maior parte do que é apresentado é resultado de apuração e pesquisa coerente com o que vem sendo abordado sobre a presença de evangélicos na América Latina. O programa expõe o que tem se destacado negativamente sobre a presença de certas igrejas e personagens religiosas nas mídias, no ultraconservadorismo político, como corporações empresariais, no crime organizado (como os chamados “traficantes de Jesus”), nas expressões de intolerância (com outras religiões, a homofobia e a misoginia). Todos estes pontos tratados são factuais e aparecem em checagens e reportagens no acervo do Bereia, com possibilidade de comprovação. O programa não deixa de apontar o lugar da Igreja Católica no ultraconservadorismo político e nas expressões de intolerância.
Ao mesmo tempo, o vídeo da DW-Espanhol reconhece os elementos positivos da atuação de evangélicos nos países latino-americanos, que pode explicar o crescimento deste grupo religioso, e encerra o episódio com eles.
São destacados impactos que vão do “mais pessoal aos mais estrutural”: as igrejas como comunidades de apoio, em especial nas localidades empobrecidas; como fonte de valores (aprendizado para jovens crescerem como pessoas); lugares para se ter amigos e compartilhar; espaço de igualdade onde há muito racismo e classismo; vivência comunitária em que pessoas são irmãos e irmãs, com solidariedade nas dificuldades; reabilitação em algumas áreas críticas como dependência de drogas pesadas e do alcoolismo; possibilidade do desenvolvimento d liderança e participação em atividades sociais; sentido de identidade, disciplina, ética no trabalho – estes dois últimos pontos são reconhecidos como atraentes para empregadores, que valorizam a responsabilidade de jovens formados nestas bases.
O que desinforma no vídeo?
Dois pontos foram identificados pelo Bereia como desinformativos no conteúdo do vídeo e representam um problema para um material que se dispõe informativo e formativo, como é a proposta do DW-Espanhol.
No capítulo “Os evangélicos avançam” é reportado o que o DW decidiu destacar nas mídias sociais para chamar público para o vídeo: a afirmação de que “Os evangélicos apareceram pela primeira vez na América Latina nos anos 70, nada mais nada menos trazidos pela CIA”. Bereia checou as duas afirmações.
Primeira checagem: os evangélicos chegaram na América Latina muito antes dos anos 70 do século 20. Qualquer livro de história do tempo passado e presente que trate sobre Evangélicos na América Latina (um compêndio importante é o de GUADALUPE, José L. P., GRUNDBERGER, Sebastian nas referências ao final) expõe que os evangélicos chegaram ao continente mais definitivamente (houve experiências mal sucedidas de ocupação europeia nos séculos 16 e 17) a partir do século 19, tanto com a imigração ingleses e alemães quanto, fundamentalmente, com o trabalho de missionários originados dos Estados Unidos. Foram estabelecidas por missionários diferentes igrejas dos ramos congregacional, presbiteriano, metodista, batista, episcopal, luterano. Os grupos pentecostais se estabelecem no continente a partir do início do século 20 (Assembleia de Deus, por exemplo, entre muitos outros).
Imagens: Trecho do vídeo “Por que alguns pastores fazem sucesso no YouTube, Instagram e TikTok”, DW-Espanhol, Youtube.
Segunda checagem:A Central Inteligence Agency (CIA) dos Estados Unidos, criada em 1947, não existia quando os missionários dos EUA aportaram com suas missões protestantes na América Latina no século 19. Muito menos é possível dizer que a CIA enviou para o continente igrejas pentecostais para contrapor as ações católicas progressistas. Além de as igrejas pentecostais terem chegado às terras latino-americanas décadas antes da CIA ser criada, afirmar que elas enviaram estas igrejas para frear o Catolicismo considerado progressista é teoria da conspiração com bases enganosas.
Não há qualquer pesquisa de historiadores, cientistas da religião, antropólogos da religião, sociólogos da religião que mencionem que a inserção e o crescimento pentecostal se deva a um trabalho da CIA no continente latino-americano. É fato que há históricas evidências de intervenções do governo dos Estados Unidos em questões políticas na América Latina, em especial na promoção e no apoio a ditaduras, e houve e ainda há o apoio governamental e não-governamental estadunidense a grupos conservadores em reação a avanços sociais e ações progressistas, incluídas certas igrejas e seus projetos (ver também referências ao final da matéria do jornalista Délcio Monteiro de Lima). No entanto, afirmar que entre estas estratégias políticas está a produção do crescimento evangélico é um exagero que reforça o desconhecimento e ignorância sobre as transformações do campo religioso latino-americano relacionadas às mudanças socioculturais, políticas e econômicas do continente.
Atualização: Após a publicação da checagem, a rede DW Español enviou mensagem ao Bereia, por meio do seu perfil no Instagram, com pedido de desculpas pelo erro de conteúdo, confira:
Queridos usuarios, como afirma esta publicación, los primeros “protestantes” no llegaron a América Latina por primera vez en los años 70, como afirmamos en el video, sino mucho antes.
No obstante, el objetivo de este análisis es la influencia que estos grupos religiosos tienen hoy en día en la sociedad de la región. Disculpen el error.
Deutsche Welle se esfuerza en ofrecer un contenido de calidad, pero somos humanos y hubo un error de lectura de una fuente en el trabajo de investigación de este vídeo. Un sincero saludo desde Berlín.
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Bereia avalia que uma parte do material em vídeo produzido pela DW-Espanhol sobre Evangélicos na mídias na América Latina propaga erros crassos e reproduz teorias da conspiração que desinformam e contribuem com o desconhecimento e a ignorância sobre o lugar deste grupo religioso no cenário latino-americano. Oferecer tal conteúdo desinformativo no início do vídeo compromete toda a produção. Pesquisa e apuração jornalística responsáveis são imprescindíveis para a garantia do direito humano à informação.
Na Câmara dos Deputados, o termo foi mencionado oficialmente pela primeira vez em 2012 e ganhou destaque nas discussões políticas e religiosas no país, tendo como “embaixador” o deputado federal evangélico Marcos Feliciano (PL-SP).
A expressão ganhou força com o governo de Jair Bolsonaro, tornando-se parte de uma narrativa alinhada à direita cristã dos EUA, que busca consolidar poder político por meio da narrativa de perseguição religiosa.
A professora da Unicamp Brenda Carranza explica que o termo é utilizado como estratégia retórica por políticos para reafirmar a supremacia da maioria cristã e justificar a perseguição contra as minorias sociais.
Além de precário do ponto de vista conceitual, a professora alerta que a expressão também é utilizada para propagar a ideia falsa que essas minorias, entre elas as comunidades LGBTQ+, nutrem ódio contra o cristianismo, com supostas ameaças à moral e costumes cristãos.
Apesar de rejeitado entre pesquisadores da Religião e Ciências Sociais, políticos eleitos nas últimas eleições continuam a utilizar o termo para desinformar, entre eles Hélio Lopes (PL-RJ), Magno Malta (PL-ES), Bia Kicis (PL-DF), Nikolas Ferreira (PL-MG) e Julia Zanatta (PL-SC). É o que aponta a apuração do Bereia feita com a ferramenta LupaScan, sistema criado pela Agência Lupa que monitora as redes sociais dos políticos eleitos em busca de desinformação.
Nesse carrossel, Bereia fez um compilado de cinco motivos contrários a utilização do termo, de acordo com especialistas:
Apoio de líderes e pastores arregimentam o voto dos evangélicos? O tema, que divide opiniões, foi pauta de reportagem publicada em 6 de outubro pelo jornal “O Globo” e ouviu estudiosos e pesquisadores, entre eles a editora-chefe do Coletivo Bereia Magali Cunha. Por causa do trabalho de fact-checking, Bereia vem se tornando fonte consistente para assuntos relacionados à mídia e religião.
Para Magali Cunha, há pelo menos três décadas a ideia de que pastores direcionam o voto dos fiéis não faz mais sentido. Isso se deve àquilo que a pesquisadora trata como “modo de ser” evangélico, além do fato de que não é correta a referência ao voto evangélico.
“Não há um eleitor apenas evangélico; as pessoas são também mães solteiras, motoristas de aplicativo, moradores da periferia”.
A editora-geral do Bereia citou o exemplo de Pablo Marçal, que apresenta um discurso religioso, mas que também estimula o empreendedorismo e a conquista de sucesso individual. Esse tipo de estratégia, segundo ela, “consegue tocar em desejos e expectativas de pessoas que, antes de serem evangélicas, desejam viver com mais conforto e ganho financeiro”. E acrescentou: “falar em prosperidade é teológico para parte dos fiéis, mas também é algo mais amplo”.
Bereia na mídia
O Bereia, que completa cinco anos de fundação em 2024, vem se tornando referência para o jornalismo das grandes mídias e de outros projetos, como Agência Brasil (do governo federal), Agência Lupa, O Globo e Agência Pública. Além disso, há o uso de checagens produzidas pelo Bereia em matérias publicadas (O Globo, O Estado de S. Paulo, Projeto Comprova). De julho de 2023 a outubro de 2024, por exemplo, houve 22 participações em espaços jornalísticos de grande alcance por meio de menções em matérias, entrevistas destacadas com a editora-geral, reprodução de conteúdo produzido com destaque em reportagens.
A íntegra da reportagem de “O Globo” está disponível no site do jornal.
O conflito entre Israel e a Palestina remonta à década de 1940, quando, na esteira do holocausto, a defesa da criação de um Estado nacional para o povo judeu ganhou força e resultou em uma migração em massa para a região onde estão Israel e Palestina. Em território partilhado com subvenção da Organização das Nações Unidas (ONU), couberam terras a árabes (Palestina) e judeus (Israel).
Logo em seguida à criação do Estado de Israel, em 1948, a Primeira Guerra Árabe-Israelense opôs o novo país às forças de Egito, Síria, Jordânia, Iraque e Líbano. Trata-se de uma primeira demonstração do conflito que se estende até os dias de hoje, motivado pela não aceitação da convivência pacífica entre os diferentes povos em uma mesma região. Já nos anos iniciais do conflito, novas divisões territoriais, promovidas por ocupações israelenses, levaram ao deslocamento forçado de milhares de palestinos – episódio conhecido como Nakba (“catástrofe”) pelos árabes.
Conflitos como a Guerra dos Seis Dias (1967) e a Guerra do Yom Kippur (1973) foram marcos da relação tensa entre Israel e os povos árabes que, na Palestina, vêm sendo confinados a territórios cada vez menores, graças ao desrespeito aos tratados e seguidas invasões territoriais promovidos por Israel desde 1967.
Em reação ao domínio israelense, a Primeira Intifada (1987-1993) e a Segunda Intifada (2000-2005) foram levantes palestinos contra as invasões. Em ambos os casos, as demandas populares levaram a conflitos violentos entre as duas partes, situação que ocorre até os dias atuais.
Em resposta ao ataque que chocou o mundo, Israel, liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, lançou uma ofensiva bélica contra o Hamas e o território palestino. Apesar do direito de retaliação, as ações militares levadas à cabo por Israel vêm sendo criticadas por serem desproporcionais ao ataque sofrido e atingirem de forma dramática civis inocentes.
Acusações de antissemitismo
As críticas à resposta militar israelense, porém, têm se chocado com acusações de antissemitismo, por parcela de judeus e seus apoiadores, que nem sempre têm o respaldo dos fatos. Nas redes, vozes contrárias às mortes promovidas pelo Estado de Israel são acusadas de estarem baseadas em ódio aos judeus e grupos à esquerda já foram acusados, de forma genérica, de antissemitas. Tais discursos desconsideram que até mesmo judeus manifestam-se nas ruas contra as ações israelenses. Houve um número deles presos, nos Estados Unidos, sob acusação de antissemitismo.
No Brasil, o jornalista Breno Altman, fundador do site Opera Mundi, especializado na cobertura de temas internacionais, foi alvo de ataques e ameaças de grupos pró-Israel ainda em outubro de 2023. Altman, que é judeu, publica conteúdos críticos à postura de Israel e ao sionismo (movimento político-religioso, de várias correntes, que defende o direito à autodeterminação da totalidade do povo judeu sobre o território considerado judaico).
Em outubro de 2023, pouco tempo após os ataques do Hamas a Israel, o Opera Mundi revelou o recebimento de mensagens no WhatsApp que sugeriam “arrancar os dentes da boca desse fdp e cortar os dedos fora para parar de escrever e falar merda”. De acordo com o site, algumas publicações nas redes digitais comparavam Altman a um “kapo” – os judeus que atuavam como agentes nazistas em campos de concentração, durante a Segunda Guerra Mundial.
Os ataques também atingiram outro judeu crítico da política israelense, o doutor em História Social, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Michel Gherman que, ao contrário de Altman, é um sionista da corrente que defende o direito a um Estado Palestino. Em palestra na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), em outubro de 2023, o professor, que também é pesquisador do Centro de Estudos do Antissemitismo da Universidade de Jerusalém, foi acusado de praticá-lo.
Em vídeo publicado em seu canal no YouTube, Gherman avalia: “A capacidade que essas pessoas têm de não escutar o que eu digo e produzir, sobre mim, acusações mentirosas é cruel. Eu estudo antissemitismo, sou vítima de antissemitismo. E fui chamado, por essas pessoas, de um judeu antissemita. Isso é cruel.”
As acusações de ódio ao povo judeu também recaíram sobre o presidente da República Luis Inácio Lula da Silva (PT). Em evento público, em 23 de fevereiro de 2024, Lula criticou as ações militares levadas a cabo por ordens de Netanyahu e afirmou que “o que o governo de Israel está fazendo não é guerra, é genocídio, porque está matando mulheres e crianças (…) se isso não é genocídio, eu não sei o que é genocídio”.
A crítica, feita à condução das práticas militares, foi interpretada por apoiadores de Israel como “antissemitismo explícito”. No X/Twitter, o senador Sérgio Moro (União-PR) publicou: “Nenhuma palavra sobre os reféns de Israel, nem sobre a invasão da Ucrânia, nem sobre a ditadura venezuelana. Antissemitismo explícito. Quem quiser que acredite no “democrata”.
Na sequência dos ataques de 7 de outubro de 2023, porém, Lula havia dito, por meio de seu perfil no X/Twitter, que ficou “chocado com os ataques terroristas realizados hoje contra civis em Israel, que causaram numerosas vítimas. Ao expressar minhas condolências aos familiares das vítimas, reafirmo meu repúdio ao terrorismo em qualquer de suas formas”.
Criminalização de críticas como estratégia
Conforme apontado por Bereia, em matéria publicada em maio de 2024, as alegações de antissemitismo são uma estratégia discursiva de grupos conservadores teologica e politicamente e de apoiadores do governo de Israel para impedir críticas. A checagem classificou como enganosa publicações que declararam protestos estudantis contra o massacre de palestinos, nos Estados Unidos, realizados meses atrás, como antissemitas.
Como exemplo disto, a doutora em sociologia e professora da Universidade de Brasília (UnB) Berenice Bento cita a ação judicial da Confederação Israelita do Brasil (Conib) contra Breno Altman. “É um dos muitos exemplos dessa grave ofensiva. Israel passou a tomar para si a totalidade da representação judaica e, ao fazê-lo, busca igualar todas as críticas às suas políticas coloniais e genocidas em expressão do antissemitismo”.
Antissemitismo é a intolerância contra judeus, por características étnicas e religiosas que os constituem como povo. É fato que ataques antissemitas foram registrados na Europa e fora do continente após as ações bélicas de Israel na Faixa de Gaza, em 7 de outubro de 2023. Países como França, Áustria e Reino Unido anunciaram aumento considerável de ataques contra judeus nos meses seguintes ao conflito.
No entanto, críticas e manifestações contra decisões políticas do Estado de Israel e ações bélicas abusivas praticadas por ele são direitos civis garantidos, como liberdade de expressão. Entre outras situações, o verbete do Dicionário de Política cita explicitamente a “oposição à política israelense ou ao movimento sionista” como uma das situações que não podem ser consideradas como antissemitas.
Em entrevista ao Bereia, o professor de Teologia e doutorando em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP) Wallace Góis reconhece que o próprio governo israelense em defesa de suas ações adota o discurso de “antissemitismo”, pelo mesmo motivo que a extrema direta anuncia uma “ameaça comunista”, como uma propagação de pânico.
Ações de ONG sionista conservadora e campanhas diversas pro-Estado de Israel
Grupos sionistas e organizações pró-Israel atuam intensivamente nas mídias sociais, quer para impedir críticas, quer para promover uma boa imagem do governo israelense. Dentre essas organizações, uma das mais ativas é a organização internacional de promoção do Estado de Israel “Stand with Us”. A ONG se define como “uma instituição educacional sobre Israel sem fins lucrativos” que declara “ensinar pessoas de todas as idades sobre Israel e a combater o extremismo e o antissemitismo”.
Com sede em Los Angeles, a organização tem dezoito escritórios nos Estados Unidos, além de bases no Canadá, em Israel, no Reino Unido e, desde 2018, no Brasil. A instituição conta também com o Centro de Educação, emblemático, no coração de Jerusalém e hospeda programas na América Latina, África do Sul, China, Europa e Austrália.
As mídias sociais são espaço privilegiado para conteúdo promotor de apoio às políticas do Estado de Israel como sinônimos de simpatia com o povo judeu. Isto é reforçado pela apropriação de símbolos religiosos – uma tendência judaizante de parte dos evangélicos (o fenômeno denominado em pesquisas acadêmicas como “Sionismo Cristão”).
Bereia coletou, ao longo de um ano, 2.789 postagens diferentes, similares aos links já relatados a favor das ações bélicas contra a Palestina e pró-Israel. Nesta busca também foram encontrados conteúdos pró-Estado de Israel em mídias alinhadas à extrema direita, como a Gazeta do Povo e o portal Brasil Paralelo, o que referenda a tese de suporte e articulação de grupos ultraconservadores com o governo Netanyahu.
Em todos esses casos, há um apagamento da situação desumanizada em que se encontra a população palestina, especialmente a cristã, que é invisibilizada, para se fazer crer que palestinos são islâmicos violentos.
Uso do imaginário judaico pela direita fundamentalista brasileira
A negação das críticas à política de morte do Estado de Israel, com atribuição de “antissemitismo”, pode ser explicada por dois elementos: desconhecimento do processo de reconstituição do Estado de Israel, em 1948, e dos conflitos políticos em torno dele, e o fator ideológico-político do alinhamento ao sionismo conservador.
O movimento sionista, denominado por inspiração do Monte Sião, em Jerusalém – a representatividade bíblica da terra prometida ao povo hebreu – surgiu ainda no fim do século 19. Uma das correntes ideológicas do movimento defendeu a criação de um Estado judaico na antiga Terra de Israel.
O Estado de Israel foi criado em 1948, por intermédio da Organização das Nações Unidas, após a aprovação da Resolução 181/1947. O documento sugeriu a divisão da Palestina em um Estado Árabe e um Estado Judeu. Os sionistas garantiram 55% do território palestino para 600 mil imigrantes judeus, enquanto os outros 45% foram destinados a 1,2 milhões de palestinos, por uma campanha que envolveu compra de terras e imigração ilegal fortalecida pela ideia de reparação da culpa pelo Holocausto.
O Reino Unido foi um facilitador na imigração judaica para a Palestina, por ter exercido controle sobre a região depois da Primeira Guerra Mundial. A enciclopédia Britannica indica que entre os anos finais do século 19 e os iniciais do século 20, a região vivia um “renascimento árabe geral”. Em 1914, a população da Palestina era de 690 mil habitantes, destes 535 mil eram muçulmanos, 70 mil cristãos, a maioria árabes e 85 mil judeus.
Quanto ao alinhamento ideológico, o professor Michel Gherman aponta, no artigo O Judeu imaginário no Bolsonarismo: Um Caso de Conversão e Desconversão e seus oponentes, publicado na plataforma Religião e Poder, do Instituto de Estudos da Religião (ISER), a importância das articulações de grupos conservadores com setores religiosos para o fortalecimento de pautas da extrema direita brasileira, e afirma: “A recuperação do vínculo com os judeus brasileiros é, na perspectiva dessa direita, um dos elementos determinadores de uma nova brasilidade, religiosa e conservadora; judaica e cristã”.
No texto, o historiador também apresenta o conceito de Judeu Imaginário. Segundo ele, seria a visão de Israel como um país branco, armado, capitalista e cristão. “A barreira necessária contra a invasão da esquerda, dos comunistas, da ‘ditadura gay’ ”, pontua Gherman.
Imagem: reprodução/X
O cientista social, mestre e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) Matheus Alexandre, em artigo para o jornal Le Monde Diplomatique Brasil, ressalta que “o Estado de Israel imaginado por essa direita evangélica é uma reconstrução imaginária do antigo Reino de Judá e, portanto, incongruente com o que, de fato, é Israel hoje”.
Alexandre destaca ainda que, especificamente após a liderança de Benjamin Netanyahu, a direita conservadora, principalmente a cristã com raízes pentecostais, se tornou apoiadora do Estado de Israel.
Em seu texto, o cientista social critica, sobretudo, a simplificação de temas complexos e polarizados, como a guerra entre Israel e o Hamas – Movimento de Resistência Islâmica -, no ambiente virtual, sem que haja espaço para a compreensão de nuances e diferentes posições que sejam capazes de considerar as vidas humanas em ambos os lados.
Mesmo em situações de guerra declarada, em que a violência é parte da realidade local, há regras a serem seguidas, para a proteção de civis. Porém, as ações militares perpetradas pelo Estado de Israel têm explicitado o desrespeito a tais regras.
A notícia também traz à luz as divergências entre os objetivos de Netanyahu, de eliminar o grupo Hamas, e Gallant. No mesmo dia, o ex-ministro da Defesa declarou, em seu perfil no X, que a sua prioridade foi “a segurança do Estado de Israel”. Gallant já havia criticado a condução das ações militares e outros posicionamentos do primeiro-ministro israelense.
Necropolítica do Estado de Israel
A necropolítica pode ser entendida como o “uso do poder político e social, especialmente por parte do Estado, de forma a determinar quem pode permanecer vivo ou deve morrer”. A definição é da Academia Brasileira de Letras (ABL), baseada nas formulações do intelectual camaronês Achille Mbembe. A ABL ressalta que esta determinação de vida ou morte pelo Estado pode ser feita por ação, ou omissão.
No caso em questão, as ações militares que levaram à quase completa destruição da Faixa da Gaza – antes local de residência de cerca de 2,2 milhões de pessoas – podem ser creditadas à ação do Estado de Israel. Mesmo diante de seguidos apelos da comunidade internacional por tréguas na matança de civis implementada em nome da destruição do Hamas, as decisões do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu apontaram, ao longo de mais de um ano, sempre na direção de mais violência.
O próprio Mbembe, no ensaio “Necropolítica”, em que explica as manifestações desta forma de exercer o poder, usa o exemplo da relação Israel-Palestina para explicitar o fenômeno. “A forma mais bem sucedida de necropoder é a ocupação colonial contemporânea da Palestina”, afirma. Em outro trecho, o autor diz que “a ocupação colonial contemporânea [da Palestina] é uma concatenação de vários poderes: disciplinar, biopolítico e necropolítico. A combinação dos três possibilita ao poder colonial dominação absoluta sobre os habitantes do território ocupado”.
No entanto, embora a destruição da Faixa de Gaza – que teve mais de 128 mil edifícios destruídos, entre residências escolas, universidades e hospitais – e a morte de inocentes sejam noticiadas rotineiramente pela imprensa internacional, o olhar crítico sobre a postura de Israel continua a ser deliberadamente confundido com antissemitismo.
Ataques a templos religiosos também fazem vítimas cristãs
No início da ação bélica de Israel, em outubro de 2023, 18 pessoas de uma comunidade cristã, abrigadas em um edifício da Igreja Ortodoxa Grega de São Porfírio, no norte da Faixa de Gaza, morreram após um ataque aéreo israelense. Durante o bombardeio de Gaza, hospitais evangélicos e escolas cristãs também foram atingidas.
Imagem: Igreja cristã ortodoxa de Gaza, atingida pelos bombardeios israelitas
No Brasil, 27 igrejas, organizações cristãs e 271 assinaturas lideranças de diferentes igrejas cristãs também se pronunciaram em condenação à ação militar israelense. O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), também “rompeu o silêncio” denunciando a “guerra, que já ceifou a vida de 17 mil crianças, além de médicos, profissionais da ONU, estudantes e mulheres”.
Em 21 de novembro de 2024, após aceitar denúncias de crimes de guerra, o Tribunal Penal Internacional (TPI), de Haia (Holanda) emitiu mandado de prisão contra o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e o seu antigo ministro da Defesa, Yoav Gallant. Também foram condenados, no mesmo tribunal, os comandantes do Hamas – Mohamed Deif, Ismail Haniyeh e Yahya Sinwar. O TPI decidiu que “cada um tem responsabilidade criminal como superiores civis pelo crime de guerra de dirigir intencionalmente um ataque contra uma população civil”. O estado israelense não reconhece nem a sentença, nem a jurisdição do tribunal.
Benjamin Netanyahu se pronunciou e argumentou que a decisão do TPI é antissemita. O chanceler israelense comparou a condenação ao caso emblemático do judeu e capitão do exército francês Alfred Dreyfus, vítima de uma falsa acusação e um julgamento injusto em 1894. Para corroborar sua versão, Netanyahu responsabiliza “um juiz francês” ao correlacionar à história do século 19. Em sua defesa, o primeiro-ministro diz fazer de tudo para evitar mortes de civis e defende uma “guerra justa” contra o Hamas. A realidade pelas telas de TV, computadores e smartphones mostra outra postura.
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Bereia alerta leitores e leitoras para o engano de se classificar como “antissemitismo” manifestações críticas ao massacre da população palestina imposto pela ação bélica de Israel no Oriente Médio.
É preciso repudiar sempre preconceito, discriminação e ódio contra judeus, a cultura e a religião judaicas, o que, de fato, consiste em antissemitismo. Porém, é preciso garantir o direito à crítica respeitosa, justa e construtiva a qualquer injustiça cometida da parte de qualquer pessoa, grupo, autoridade, governo, ancorada em dados da realidade que a estimulam.
Uma pastora de uma megaigreja, o filho de um pastor midiático ou o preferido da liderança candidatos a cargos públicos em 2024 perderam as eleições. Apesar de não apresentar aqui números sobre candidatos evangélicos eleitos e não eleitos nos últimos pleitos, já é percebido dentro das igrejas evangélicas a frustração por candidatos por elas indicados ou apoiados não obterem a desejada vitória eleitoral. E por que isso está acontecendo?
Em minha experiência evangélica já presenciei candidatos ao cargo de deputado ou de vereador não obterem o número de votos dos eleitores de suas próprias congregações, fato também observado na cidade que atualmente resido e na silenciosa insatisfação de evangélicos que são um membros frequentes em sua comunidade local.
Isso ocorre, basicamente, por dois motivos. Primeiro, o cansaço dos próprios membros com o uso dos púlpitos para estabelecer em quem devem votar. Todos sabem, embora não admitam, que muitos candidatos não estão ali para representar o povo e sim os interesses institucionais de determinadas igrejas. Silenciosamente as pessoas acabam votando no candidato que atua localmente e oferece mais sentido ao cargo.
Ainda pastores, ao subirem nos púlpitos, afirmem que todos possuem o direito de votar em quem quiserem, existe um discurso impositivo velado ao usar palavras que são marcadores da fé, como o fato de certos candidatos representarem “o propósito de Deus”, a “expansão do Reino de Deus na Terra”, o “projeto da Igreja da qual todos fazem parte”.
Um segundo motivo é que esses candidatos não possuem eleitorado orgânico. Estas pessoas acabam submetendo-se à lideranças das igrejas e ao discurso embasado na “teologia do domínio” (a que afirma que Deus governa nações quando cristãos consagrados são eleitos para representá-lo em cargos de poder) porque seu destaque como líder está dentro das paredes da igreja e não na comunidade que vive. Não existe atuação social, não existe causa, não existe presença em audiência pública ou qualquer atividade que coloque esse indivíduo no papel de líder comunitário ou de ativista político. Isto é percebido no intenso discurso moralizante da maioria dos candidatos e pelo desconhecimento técnico, jurídico ou social que a vida pública exige e é revelado nas campanhas. Assim, muitos candidatos não conseguem votos fora de seu “curral religioso” e não se consolidam em novos pleitos.
Esses aspectos não são regra absoluta, mas refletem a votação inexpressiva que muitos candidatos acabam recebendo. Alguns deles até conseguem algum sucesso devido ao apadrinhamento religioso, o que lhes confere uma atenção especial dentro do partido, mas o eleitorado se revela cansado desse jogo político que muitas megaigrejas adotam. Essa pressão, muitas vezes, recai sobre pastores locais que, para permanecerem no seu próprio cargo, precisam promover candidatos indicados pela cúpula da denominação religiosa.
Contudo, já observamos insatisfações nesse tipo de candidatura que não representa a realidade local. Isto porque evangélicos são, também, a mulher que precisa de iluminação pública quando chega do trabalho à noite, o pai que precisa de escola para seus filhos, os moradores de uma rua sem saneamento básico ou asfalto. Evangélicos são pessoas comuns que necessitam de atendimentos imediatos que são de responsabilidade do poder público local.
É claro que essa estrutura de poder que envolve igrejas e partidos não apresentam sinais de uma relação desgastada, mas sofrem uma resistência com a falência do jargão “irmão vota em irmão”. O que todo evangélico quer é a vida comunitária e o culto na forma devocional mais singela de viver a fé: algo ainda presente na periferia, sem a instrumentalização do discurso de sua fé.
** Os artigos da seção Areópago são de responsabilidade de autores e autoras e não refletem, necessariamente, a opinião do Coletivo Bereia.
Deputados federais do Partido Liberal (PL) foram denunciados pela Procuradoria-Geral da República (PGR) ao Supremo Tribunal Federal (STF) por ações criminosas. Portal de notícias UOL divulgou, em 17 de setembro, matéria sobre a denúncia apresentada contra três Segundo reportagem do UOL Notícias, Josimar Maranhãozinho (PL-MA), Pastor Gil (PL-MA) e Bosco Costa (PL-SE) são acusados de corrupção passiva e organização criminosa em um suposto esquema de desvio de recursos provenientes de emendas parlamentares.
A denúncia, de acordo com o UOL, aponta para o possível desvio de R$ 1,6 milhão em verbas destinadas à Prefeitura de São José de Ribamar, no Maranhão. O ministro Cristiano Zanin, relator do caso, intimou os acusados a apresentarem suas defesas, e a Primeira Turma do STF decidirá sobre a abertura de ação penal.
Esta notícia foi coletada no radar do Bereia para verificar se os deputados denunciados têm identidade religiosa e histórico de outras ilegalidades.
O caso
A PGR denunciou os três deputados e outras seis pessoas envolvidas em um esquema de desvio de recursos destinados à Prefeitura de São José de Ribamar, no Maranhão, cidade de 244.579 habitantes, localizada na região metropolitana de São Luís Os parlamentares teriam enviado emendas visando receber parte dos valores de volta, no total de R$ 1,6 milhão. O ex-prefeito Eudes Sampaio relatou à Polícia Federal ter sofrido extorsões do grupo para repassar parte dos recursos.
A investigação, iniciada em 2021, coincidiu com a vigência do “orçamento secreto”, criado durante o.governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), mecanismo de emendas parlamentares incluídas nas contas federais. Este tipo de política permitiu a deputados e senadores reivindicarem o uso de verbas públicas a que têm direito, para projetos em seus estados, porém sem identificação da finalidade, o que tornou possível contratos superfaturados e facilitou desvios de recursos públicos. Depois de ações com denúncias sobre suas consequências, o “orçamento secreto para parlamentares” foi declarado inconstitucional pelo STF, em 2022.
No caso do Maranhão, documentos apresentados nas denúncias incluem trocas de mensagens que evidenciam a pressão exercida sobre o prefeito do município. O caso permanece em sigilo no STF.
Quem são os denunciados?
Deputados federais do Partido Liberal (PL) estão envolvidos na denúncia: Josimar Maranhãozinho (MA), Pastor Gil (MA) e Bosco Costa (SE). Bereia levantou o perfil de cada um, com atenção à identidade religiosa e a relação deles com as mídias, em especial com a publicação de desinformação.
Josimar Maranhãozinho
Josimar Cunha Rodrigues, conhecido como Josimar Maranhãozinho, exerce o cargo de deputado federal, pelo PL, desde 2019 (no mandato anterior foi eleito pelo PR). Natural de Várzea Alegre (CE), foi prefeito de Maranhãozinho (2009-2012) e deputado estadual (2015-2018), pelo PR.
Imagem: Josimar Maranhãozinho. Reprodução: Câmara dos Deputados
O deputado tem publicado em sua página pessoal no Instagram vídeos pelos quais afirma que frequenta a Igreja Mundial do Reino de Deus, em São Luís do Maranhão. Em publicação de 24 de março, Mararanhãozinho está junto à sua esposa, a também deputada federal Detinha (PL-MA).
Imagem: Reprodução: Instagram
O parlamentar já foi investigado pela Polícia Federal (PF), por suposta participação em esquemas de fraude. Um deles envolvia empresas fantasmas para desviar R$ 1,8 milhão em obras de pavimentação em Zé Doca (MA) , cidade onde sua irmã é prefeita. O relatório da PF identificou crimes como falsidade ideológica, peculato, corrupção, fraude à licitação, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
A PF também acusa Maranhãozinho de desviar recursos públicos de emendas parlamentares enviadas a prefeituras do Maranhão, com crimes de peculato e lavagem de dinheiro. Em 2020, uma ação controlada autorizada pelo STF registrou o parlamentar manuseando e entregando dinheiro em espécie a aliados.
Gildenemir de Lima Sousa, conhecido como Pastor Gil, é deputado federal pelo PL do Maranhão, desde 2019. Pastor da Assembleia de Deus e membro da bancada evangélica no Congresso Nacional, é natural de São Luís (MA), e está na segunda legislatura.
Imagem: Pastor Gil. Reprodução: Câmara dos Deputados
O deputado tem publicado em seu perfil pessoal do Instagram uma série de vídeos em apoio a candidatos políticos em várias cidades do Maranhão, nas redes ele utiliza versos bíblicos como marketing de campanha.
Imagem: Reprodução: Instagram 25 de set 2024
Em 2022, Pastor Gil foi investigado por suposto uso indevido de emendas parlamentares. A investigação, autorizada pelo então ministro do STF Ricardo Lewandowski, incluía também os deputados Josimar Maranhãozinho e Bosco Costa. As suspeitas indicavam que os parlamentares obtinham empréstimos de um agiota no Maranhão. Para quitar as dívidas, supostamente indicavam prefeitos de cidades que receberiam as emendas, em vez de usar recursos próprios.
Bosco da Costa
João Bosco da Costa, natural de Itabaiana (SE), foi eleito deputado federal, pelo PR do Sergipe, em 2018, após ocupar os cargos de prefeito em Moita Bonita, município na região central do estado e deputado estadual. Eleito suplente de deputado federal, pelo PL-SE, em 2022, assumiu a vaga em 2024.
Imagem: Bosco Costa. Reprodução: Câmara dos Deputados
O deputado federal se autodenomina cristão, com diversas publicações nas mídias digitais em alusão à datas católicas, participação em festas e missas tradicionais de Sergipe. Em novembro de 2020, o parlamentar publicou em sua página pessoal do Facebook, felicitando os evangélicos pelo Dia do Evangélico, com os dizeres “eu sou cristão”.
Imagem: Reprodução: Facebook
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A Procuradoria-Geral da República (PGR) denunciou três deputados do Partido Liberal (PL) e outras seis pessoas envolvidas em um esquema de desvio de R$ 1,6 milhão em emendas parlamentares destinadas à Prefeitura de São José de Ribamar, no Maranhão. A investigação, que começou em 2021, revelou a pressão exercida sobre o ex-prefeito Eudes Sampaio, que relatou extorsões do grupo. A matéria do portal UOL ressalta que o caso está em sigilo no Supremo Tribunal Federal (STF).
Conforme levantamento realizado pelo Bereia, todos os deputados denunciados pela PGR têm identidade religiosa cristã. Josimar Maranhãozinho (MA) e Pastor Gil (MA) são evangélicos e Bosco Costa (SE) é católico. Este caso torna possível identificar controvérsias em torno do acionamento da identidade religiosa no cenário político. Envolvidos em um desvio de R$ 1,6 milhão em emendas parlamentares, esses políticos, que se apresentam como defensores de valores cristãos, demonstram como fazem uso de sua influência para propagar desinformação e legitimar práticas ilícitas.
O caso ressalta a necessidade de eleitores e eleitoras estarem alertas em relação a líderes que acionam identidade religiosa e ao mesmo tempo praticam ações criminosas contribuindo para a deterioração do importante papel dos parlamentares eleitos pelo voto no país.
Ao longo da campanha para as eleições municipais, lideranças religiosas têm se mobilizado para prestar apoio público a candidaturas que se mostram alinhadas com suas pautas e ideais. Tal prática é uma estratégia comum na política, que se repete a cada pleito.
Nesta matéria, Bereia verifica candidatos com histórico de publicar desinformação que estão entre os que recebem a benção de pastores e outras figuras de destaque no meio cristão. Do monitoramento da equipe Bereia em mídias sociais, são destacados os casos de Guilherme Kilter (Curitiba/PR), Dentinho (Passos/MG), Alana Passos (Rio de Janeiro/RJ), Pastor Dinho Souza (Serra/ES) e Sonaira Fernandes (São Paulo/SP).
Esses candidatos e candidatas fazem uso de sensacionalismo e desinformação para mobilizar eleitores e se apoiam na retórica religiosa e na proximidade, em algum grau, com lideranças eclesiásticas, para validar sua candidatura.
Guilherme Kilter
O influenciador digital evangélico e candidato a vereador de Curitiba, pelo Novo, Guilherme Kilter, 22 anos, se apresenta nas mídias como cristão, de direita e a favor da família.
Imagem: Reprodução/Facebook
Membro da Primeira Igreja Batista de Curitiba, Kilter conta ter sido “convidado a entrar na política” pelo ex-deputado federal Deltan Dallagnol (Novo-PR, cujo mandato foi cassado em 2023), que também é evangélico batista e mantém relações com lideranças eclesiásticas. Ele também se compara com o destacado político extremista de direita, deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), pela pouca idade e semelhança de posicionamentos, por ter iniciado a carreira política como vereador. Kilter declara querer se tornar “o Nikolas Ferreira do Paraná“.
Entre as lideranças evangélicas, Guilherme Kilter conta com o apoio do pastor Paschoal Piragine Jr., que também é seu tio. Ele é presidente da Convenção Batista Brasileira, pastor emérito da Primeira Igreja Batista de Curitiba, e pastor interino da Primeira Igreja Batista de Niterói. Pirajine Jr. se destacou nas mídias sociais, em 2010, ao empreender ferrenha campanha contra a eleição da candidata do Partido dos Trabalhadores a presidente da República Dilma Rousseff, com uso de discursos de pânico moral e terrorismo verbal. Em outras campanhas eleitorais, o pastor também atuou na mesma direção.
Na comunicação em redes digitais, além de frequentemente publicar imagens com essas figuras mais conhecidas de políticos com os quais quer ser relacionado, Guilherme Kilter utiliza também fotos de si mesmo na igreja para se afirmar como cristão e conservador.
Além disso, também faz publicações sobre as polêmicas atuais, alinhado com os demais perfis e influenciadores ligados à extrema direita. Ele se engajou recentemente, por exemplo,na onda de difamações contra a boxeadora olímpica argelina Imane Khelif, que foi checada por Bereia. Também publicou desinformação sobre a legalização do aborto pelo governo Lula, que foi verificada como falsa pelo G1.
Imagem: Reprodução/Instagram
Dentinho
Luis Carlos do Souto Junior, mais conhecido como Dentinho, se apresenta como um vereador com princípios de direita e está no terceiro mandato como parlamentar no município de Passos (MG). Em seu perfil no Instagram, o candidato do Progressistas (PP), à reeleição, ostenta fotos com grandes nomes do seu campo político, como o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o deputado federal Nikolas Ferreira, que prestou apoio ao candidato por meio de um vídeo para sua campanha.
Em 2023, Dentinho virou notícia ao ser indiciado, em apenas 15 dias, por xenofobia, racismo e produção de fake news. De acordo com a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), o vereador cometeu o primeiro crime em novembro de 2022, após o fim do segundo turno das eleições, ao afirmar, em uma publicação nas mídias sociais, que “Bolsonaro também é f*da, foi falar na Bahia que ia gerar um milhão de empregos… Assustou o povo!”. A declaração insinua que a população baiana não votou em Bolsonaro por não gostar de trabalhar. O delegado Felipe Capute, que assina o indiciamento, entendeu que a fala de Dentinho é ofensiva ao povo da Bahia e resulta em uma exposição discriminatória.
A segunda denúncia também está relacionada com o último pleito eleitoral: Dentinho teria usado panfletos para divulgar conteúdo falso contra o então candidato à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo a PCMG, o vereador cometeu crime eleitoral previsto no art. 323 de Lei 4737, que dá pena de detenção de dois meses a um ano para quem “Divulgar, na propaganda eleitoral ou durante período de campanha eleitoral, fatos que sabe inverídicos em relação a partidos ou a candidatos e capazes de exercer influência perante o eleitorado”. Em resposta ao G1, o vereador negou que tenha cometido os crimes dos dois casos.
Imagem: Reprodução/Instagram
Alana Passos
Alana Passos é militar do Exército e foi deputada estadual do Rio de Janeiro de 2018 a 2022. Em sua entrada na política, pelo PSL, recebeu 106.253 votos (1,38% do total) e foi a mulher mais votada do estado, um sucesso que não se repetiu no pleito seguinte: a candidata recebeu apenas 0,45% dos votos e ficou fora da Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) porque o seu então novo partido, PTB, não teve quociente eleitoral.
Nas eleições municipais deste ano, Alana Passos é candidata a vereadora na capital fluminense pelo Partido Liberal (PL) e ostenta o apoio do pastor Joel Serra, idealizador do Movimento Cristão Conservador, em fotos e no vídeo de sua campanha. A militar também esteve no gabinete do pastor da Igreja Batista Atitude Josué Valandro Jr e posou ao seu lado em uma publicação no Instagram.
Imagem: Reprodução/Instagram
A primeira vez em que Alana Passos foi associada à propagação de conteúdo falso foi
em julho de 2020, quando o Facebook excluiu, dentre outras contas, os perfis AlanaOpressora, artilhariadobem, tvanticomunismobrasil e Fabio Muniz por “criação de pessoas fictícias fingindo ser repórteres, publicação de conteúdo e gerenciamento de páginas fingindo ser veículos de notícias”.
De acordo com a rede social, as contas seriam ligadas a um ex-assessor de Alana Passos, que afirmou, em nota à BBC News Brasil, que “Quanto a perfis de pessoas que trabalharam no meu gabinete, não posso responder pelo conteúdo publicado. Nenhum funcionário teve a rede bloqueada por qualquer suposta irregularidade. Estou à disposição para prestar qualquer esclarecimento, pois nunca orientei sobre criação de perfil falso e nunca incentivei a disseminação de discursos de ódio”.
Em buscas no perfil da candidata no Facebook, Bereia identificou a propagação de conteúdo falso e enganoso sobre “ideologia de gênero”, um dos termos mais explorados nos materiais de desinformação que circularam em espaços digitais religiosos nas últimas eleições. Em junho de 2018, Alana publicou um vídeo que, retirado de contexto, deixa a entender que a deputada federal Erica Kokay (PT-DF) confessa que defende o incesto e a destruição da famiilia patriarcal.
Imagem: Reprodução/Facebook
O site Boatos.org já havia checado o vídeo em 2017, e chamou a atenção para o sentido da fala da deputada petista: segundos antes do recorte que viralizou ela diz “Por isso, eles querem romper a laicidade do Estado e implementam uma construção de ideologia de gênero, que ela é uma tentativa de sair do discurso essencialmente religioso e fazer a ponte com o discurso ideológico da extrema direita neste país. Porque aí eles dizem…”. Dessa forma, a candidata divulgou um conteúdo que tem elementos verdadeiros, mas foi apresentado de forma distorcida para produzir no receptor uma percepção da fala que é enganosa.
Já em 2021, a então deputada estadual usou a mesma rede para compartilhar a informação falsa de que um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) sugeriu que a exposição à pornografia poderia ser positiva para crianças. A imagem usada na publicação exibe a logo do R7, portal de notícias do Grupo Record, como forma de gerar credibilidade para a afirmação, que já foi verificada pela coluna Fato ou Fake, do portal G1. Por meio de um comunicado, o UNICEF reafirmou sua posição de que nenhuma criança deve ser exposta a conteúdo nocivo, e explicou que um artigo publicado em abril de 2021 teve interpretações incorretas e diferentes do que a instituição defende.
Imagem: Reprodução/Facebook
Pastor Dinho Souza
Evandro De Souza Ferreira Braga, conhecido como Dinho Souza, é pastor da igreja evangélica Povo da Cruz, no município de Serra (ES). É filiado ao PL e concorre a vereador nas eleições deste ano. Ganhou destaque na imprensa nacional por um fato polêmico: em abril de 2022, a igreja que pastoreia promoveu a rifa de uma espingarda calibre 12 a fim de reformar a sala das crianças. A “ação entre irmãos”, como dizia o informativo, foi celebrada pelo pastor, que declarou sentir orgulho do ato.
O fato serviu para projetar Souza para as mídias e noticiários. Ele seguiu a cartilha da desinformação religiosa monitorada pelo Bereia ao propagar ideias de perseguição religiosa contra cristãos no Brasil e de eleger as esquerdas como inimigas da fé cristã.
Imagem: reprodução/ Instagram
O pastor, que concorre a vereador da Câmara de Serra, alinhou discurso com a extrema-direita e ficou marcado pela sua posição pró-armas, pelo discurso contra diversidade de gênero e pela defesa contra o aborto, até mesmo em casos de estupro, direito assegurado por lei.
Além disso, Dinho Souza atacou setores do segmento evangélico. No domingo em que se comemorava a Páscoa, o religioso xingou o artista Timóteo Oliveira, membro da igreja Anglicana, e o acusou de ser um “black block gospel”, devido a representação da figura de Jesus negro em uma de suas artes. O caso rendeu uma nota de repúdio assinada pela coordenação do Movimento Negro Evangélico Nacional.
Instituições evangélicas ligadas ao campo conservador também estiveram na mira do pastor. Em 2023, Dinho Souza atacou a Associação de Pastores Evangélicos da Serra (APES) em um dos seus discursos. Apesar de toda polêmica, os episódios não o impediram de ganhar apoiadores do mundo político e religioso como pastor Anderson Silva, padre Kelmon, o senador Magno Malta (PL-ES), a deputada federal Bia Kicis (PL-DF), o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o pastor da Igreja Batista Vale da Benção e desembargador aposentado Sebastião Coelho.
Sonaira Fernandes
Ex-secretária da Mulher do estado de São Paulo, Sonaira Fernandes é evangélica e busca seu segundo mandato como vereadora na capital paulista. Muito próxima do ex-presidente Jair Bolsonaro e de sua família (com quem começou a trabalhar em 2014), a candidata é a principal indicação do ex-presidente nestas eleições. Sonaira também é apoiada pelo governador Tarcísio de Freitas e chegou a ser cotada para vice de Ricardo Nunes na sua busca pela reeleição, mas acabou ficando fora da chapa.
Sonaira Fernandes é muito atuante nas mídias sociais e exibe visitas a igrejas e fotos com pastores de diferentes denominações. Em apuração no perfil da candidata no Instagram, Bereia verificou que a candidata visitou 24 igrejas evangélicas desde o início de agosto, ostentando o apoio de líderes da Igreja Renascer em Cristo e de diferentes Assembleias de Deus, dentre outras igrejas.
A forte influência de Fernandes no meio evangélico a levou ao “palco” da Marcha para Jesus deste ano e uma de suas falas sobre o evento foi checada pelo Bereia. A candidata repercutiu a declaração do líder da Igreja Renascer em Cristo apóstolo Estevam Hernandes, de que exista uma perseguição às igrejas no Brasil. Em seu perfil no X, Sonaira publicou que “Em plena época de Igreja perseguida, a 32ª Marcha para Jesus ficou marcada como uma das maiores da história”.
Imagem: reprodução/X
A retórica do medo da perseguição religiosa é comum em conteúdo desinformativo, e na referida apuração Bereia concluiu que “que é falsa a afirmação de que haja perseguição aos cristãos no Brasil, e que as alegações de fechamento de igrejas e perseguição são estratégias de desinformação usadas por políticos e líderes religiosos para manipular o medo e influenciar o eleitorado, distorcendo a realidade e criando uma falsa sensação de vitimização.”
No mesmo sentido, dois meses antes das eleições presidenciais de 2022, Sonaria compartilhou um vídeo de imagens editadas do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva em um encontro de lideranças religiosas de matriz africana. Na legenda, a vereadora disse:
“Lula já entregou sua alma para vencer essa eleição. Não lutamos contra a carne nem o sangue, mas contra os principados e potestades das trevas. O cristão tem que ter a coragem de falar de política hoje, para não ser proibido de falar de Jesus amanhã.”
O caso foi abordado pelo Bereia na reportagem “Cristofobia e intolerância religiosa: as fake news como estratégia política para enganar cristãos na campanha eleitoral 2022”, que destaca que o conteúdo publicado pela vereadora não se trata apenas de desinformação, mas é também um uso da intolerância religiosa para campanha política. A matéria ressalta, ainda, que a tentativa de associar Lula e o Partido dos Trabalhadores (PT) ao fechamento de igrejas evangélicas e a perseguição religiosa acontece desde 1989, e tais “notícias” nunca apresentam fontes ou informações factíveis.
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Bereia alerta leitores e leitoras a atentarem a candidaturas que mobilizam identidade religiosa e lançam mão de desinformação, conteúdo com base em mentiras e falsidades, como estratégia de campanha.
Após as atletas olímpicas conquistarem medalhas nos Jogos em Paris, as redes digitais foram tomadas por uma onda de desinformação sobre as taxações das premiações olímpicas. Entre os desinformantes, estão os parlamentares cristãos.
Aproveitando a comoção nacional em torno das medalhistas brasileiras, a deputada Julia Zanatta (PL-SC), por exemplo, publicou um vídeo para criticar o imposto sobre as premiações dos atletas. Ela disse que o “papai Estado quer ficar com boa parte da premiação”, fazendo crer que se trata de uma ação deliberada do atual governo contra os atletas. Além disso, a parlamentar autodenominada cristã mentiu ao dizer que o governo federal não promove incentivos aos atletas.
Imagem: Reprodução/X
A ginasta Rebeca Andrade, que emocionou o Brasil com sua performance em Paris, testemunhou sobre o apoio recebido do governo federal por meio do programa Bolsa Atleta.
“O Bolsa Atleta com certeza é importante para a gente, porque a gente compra nossos materiais para treinamento, ajuda nossas famílias a trazer uma segurança para a gente, que muitas vezes é o que falta. Isso permite que a gente foque no nosso trabalho, sabe? Não deixa que a gente tenha preocupações externa”, celebrou a ginasta durante coletiva de imprensa.
Já o deputado federal evangélico Helio Lopes (PL-RJ) parece ter mudado de opinião com relação aos valor dos esportistas olímpicos. Sob o governo de Jair Bolsonaro, o parlamentar assistiu o fim do Ministério dos Esportes, a redução histórica de 17% do orçamento para o Bolsa Atleta, e ainda viu a Receita Federal cobrar os atletas olímpicos naquele ano, mas nada propôs. Agora, no entanto, Lopes declarou nas redes que assinou um Projeto de Lei que propõe isentar os atletas das taxações da Receita.
A enxurrada de falsidades sobre a taxação das premiações foi tão grande que a Receita Federal emitiu um comunicado para desmentir as mentiras. Em nota, publicada em 7 de agosto, a Receita explicou que medalhas e troféus não são taxados e sim premiações recebidas em dinheiro, como será o caso dos atletas medalhistas olímpicos ao desembarcarem no Brasil.
Veículos de jornalismo publicaram, no final de julho passado, matérias positivas sobre evangélicos, a propósito da pesquisa do Instituto Datafolha sobre eleições na cidade de São Paulo. As matérias apresentam tom que se coloca em direção contrária ao que é predominante, como Bereia já publicou em outras checagens, com troca do pejorativo para o valorativo.
O jornal O Globo afirmou, em 22 de julho, que “evangélicos se contrapõem ao bolsonarismo”. O Mídia Ninja publicou, na mesma data, matéria sob o título “Evangélicos abandonam agenda bolsonarista; maioria é contra prisão de mulheres que abortam”. A revista Fórum divulgou, em 20 de julho, que “evangélicos de São Paulo rejeitam bolsonarismo”. Bereia checou estas formas de chamar para o tema e a origem dos dados apontados pelos veículos de imprensa.
A pesquisa traz informações como o partido político de preferência do grupo em tela: entre os evangélicos, 15% preferem o PT (Partido dos Trabalhadores) e 7% preferem o PL (Partido Liberal); enquanto 40% dos católicos preferem o PT, contra 4% que preferem o PL. Estes dados contrariam a visão predominante nas mídias, segundo a qual haveria um alinhamento político-ideológico dos evangélicos com a extrema direita.
A composição da renda familiar e o vínculo a diferentes denominações – classificadas entre pentecostal, neopentecostal e histórico/protestante – são apresentadas no início do relatório, que é dividido nas seções: perfil religioso, pauta de valores, igreja e política, eleições em São Paulo e perfil ideológico; cada uma trazendo dados pormenorizados da pesquisa feita a partir de 613 entrevistas.
Imagem: reprodução Folha de S.Paulo
Nas mídias digitais, o Instituto Datafolha destacou a informação de que “para 78% dos evangélicos, é fundamental que seu candidato acredite em Deus, mas apenas 22% consideram muito importante que o escolhido seja da mesma religião que a sua”. A pesquisa também foi divulgada na íntegra, com possibilidade de download e detalhamento em texto.
Participaram da concepção e desenvolvimento da pesquisa, como consultores, o antropólogo Juliano Spyer, a professora associada do Departamento de Sociologia e Metodologia das Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF) Christina Vital, o professor de Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Rodrigo Toniol, o doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) Vinicius S. M. do Valle e a repórter especial da Folha de S. Paulo e autora de “O Púlpito – Fé, Poder e o Brasil dos Evangélicos” (Todavia), Anna Virginia Balloussier.
Imagem: reprodução Datafolha
Abordagem por veículos de jornalismo
O portal de notícias Mídia Ninja, a revista Fórum e o jornal O Globo divulgaram recortes da pesquisa relacionados às pautas defendidas pelo bloco político liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Estes veículos optaram por adotar títulos que relacionam os segmento evangélico ao chamado “bolsonarismo”, porém deixaram de apresentar outros dados relevantes sobre o perfil do grupo religioso.
A revista Fórum publicou, ainda em 20 de julho, texto em que afirma que dois temas são determinantes para a “rejeição” dos eleitores evangélicos dos candidatos ligados ao “bolsonarismo”: armas e “homeschooling” (educação escolar em casa). Na chamada, a revista apresenta a conclusão de que o evangélico paulistano “não concorda com a extrema-direita”.
Imagem: reprodução Revista Fórum
Os jornais O Globo e Mídia Ninja destacaram outros temas relacionados à extrema direita, abordados pela pesquisa. No título, O Globo também chamou a atenção para “armas” e ‘homeschooling’ e apresentou os dados da opinião de evangélicos de São Paulo sobre aborto, educação sexual e acolhimento a homossexuais.
Imagem: reprodução O Globo
Mídia Ninja, por sua vez, abordou os mesmos temas que O Globo, e acrescentou a opinião do segmento cristão sobre o Brasil apoiar todas as guerras de Israel. Em seu portal digital, porém, o Mídia Ninja utilizou como chamada os dizeres “Evangélicos abandonam agenda bolsonarista”.
Outros veículos de imprensa também repercutiram a pesquisa Datafolha. Entre eles, CNN, Metrópoles, Carta Capital, com diferentes abordagens da mesma pesquisa.
Enquanto o canal de notícias CNN divulgou que a maioria dos evangélicos da capital do estado de São Paulo é contra porte de arma e ‘homeschooling’, o portal Metrópoles, a revista Carta Capital deram destaque à opinião do grupo religioso sobre pastores indicarem votos para fiéis.
Mídia religiosa
O site Folha Gospel também repercutiu os resultados da pesquisa e destacou, em título de matéria, que a maioria dos evangélicos de São Paulo é contra a indicação de voto por líderes religiosos. O portal abordou informações correlatas, como a importância de candidatos serem também evangélicos, mas omitiu os dados de opinião sobre porte de armas e aborto.
E abordagem semelhante, o portal O Fuxico Gospel não mencionou os achados da pesquisa que dizem respeito à opinião sobre aborto e sobre porte de armas. Já o portal Guiame enfatizou os dados sobre idade de conversão. O site Pleno News, que faz um grande volume de publicações diárias, ignorou a pesquisa.
Políticos com identidade religiosa, ativos nas mídias digitais e que costumam repercutir discursos religiosos, não repercutiram a pesquisa.
A pesquisa, feita com 613 entrevistados, traz números que não permitem concluir posicionamentos “dos” evangélicos enquanto grupo homogêneo, o que não se constitui. O uso de expressões como “rejeitam o bolsonarismo” e “abandonam o bolsonarismo” é, portanto, exagerado e e enganoso, como revelam os próprios dados da pesquisa.
Os resultados apresentados dão conta de que algumas parcelas do grupo pesquisado pensam de uma forma, e outras pensam de outra, tal como se desenha na própria sociedade brasileira. É um erro retratar qualquer grupo religioso como bloco indissociável, sobretudo quando questões de natureza político-ideológica são consideradas.
A correta veiculação de informações não permite disseminar a ideia de que evangélicos “abandonam” ou “rejeitam” o chamado bolsonarismo. O apoio e o alinhamento político ao bloco extremista existem de forma parcial, ao lado da rejeição e da dissidência que também são fato. O que a pesquisa revela, como bem expresso pela Folha de S. Paulo e pelo jornal O Globo, é uma dada maioria desse grupo religioso tem se afastado de um determinado conjunto de ideias defendidas pelo chamado “bolsonarismo”.
A relevância disso é comprovada, por exemplo, pelo fato de veículos relacionados à extrema direita não terem publicado sobre os números da pesquisa.
O uso de termos absolutos e chamativos por alguns veículos acaba por expressar um discurso participante de disputas na arena política que varia conforme a atmosfera que se deseja ressaltar. É preciso rever as abordagens sobre evangélicos que ora exageram no sensacionalismo negativista, ora exageram com pauta “positiva”, e não favorecem processos informativos necessários na superação de polarizações nocivas.
Informação digna é um direito humano e distorções como as que são observadas na repercussão publicada não colaboram na construção de um jornalismo a serviço dos cidadãos brasileiros.
O XII Seminário Internacional sobre Redes Educacionais e Tecnologias, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, realizou um debate essencial para a compreensão dos fenômenos contemporâneos na educação e na sociedade em geral, nesta sexta-feira, 5 de julho. A editora-geral do Coletivo Bereia e pesquisadora do ISER Magali Cunha, e o sociólogo, assessor de Campanhas da Casa Galileia, Flávio Conrado, participaram da mesa de debate sobre as investidas de discurso neoconservadores em tempos de redes sociais, com destaque para a influência dos evangélicos nesse contexto.
Magali Cunha chamou atenção para a presença marcante de evangélicos nas mídias sociais e criticou o desconhecimento de parte da imprensa sobre a complexidade e a diversidade do segmento cristão. Segundo a editora, esta falta de distinção contribui para a disseminação de desinformação e para uma representação simplista dos religiosos na mídia.
Como pesquisadora da Religião, destacou que o ativismo de evangélicos na política brasileira é consequência de processos antigos, entre eles, a Teologia do Domínio. “Há um desconhecimento quando se fala sobre o assunto no momento que se coloca a Teologia do Domínio como algo novo, quando, na verdade, não é”. Ela explicou que teólogos do domínio são observados desde os anos 60, nos Estados Unidos, no ambiente calvinista, e chega ao Brasil muito antes do alto crescimento de evangélicos pentecostais, na década de 80.
Sobre o dilema da identificação de evangélicos, a coordenadora do debate, professora Talita Vidal, da Faculdade de Educação da Uerj, criticou a generalização ao tratar do segmento e compartilhou um caso sobre a confissão religiosa evangélica de uma familiar que se transformou após o contato com diferentes leituras teológicas.
Para falar sobre o avanço de neoconservadores na militância digital, o cientista social Flávio Conrado apresentou uma série de dados coletados a partir do monitoramento de 450 perfis de influenciadores digitais do campo religioso. O trabalho da Casa Galileia gerou cerca de 90 relatórios, agrupados por temas, e apontou para um aumento significativo da radicalização dentro do campo conservador evangélico nas redes sociais. O sociólogo destacou o fenômeno do “orgulho conservador”, declarado por atores da extrema-direita. “É preciso desmobilizar o discurso de guerra e desarmar os lados para melhorar o ambiente democrático”, analisa.
O evento reforçou a necessidade de novas pesquisas sobre o avanço do conservadorismo em outros segmentos religiosos como as religiões de matrizes africanas. O professor Gustavo Oliveira, durante sua contribuição, celebrou iniciativas como Coletivo Bereia e Casa Galileia, pois, “foram as primeiras iniciativas a reagirem ao avanço da extrema-direita nos ambientes digitais”.
Não é possível – e muito menos correta – a tentativa de homogeneização dos evangélicos, enquadrando-os em um único bloco; ao contrário, eles devem ser vistos como heterogêneos, pertencentes a diversas denominações que seguem teologias e práticas completamente distintas. A opinião, publicada em artigo da agência de notícias Intercept Brasil em 27 de março, é das pesquisadoras Magali Cunha e Lívia Reis. De acordo com as autoras, essa homogeneização não reflete a realidade, além de ser nociva ao debate público. “Ninguém é ‘evangélico’ igual, ninguém é só ‘evangélico’”, advertem.
Magali Cunha, editora-geral do Coletivo Bereia, e Lívia Reis, coordenadora da área de Religião e Política do Instituto de Estudos da Religião (ISER), explicam que, apesar da ênfase às expressões da religiosidade evangélica de matriz pentecostal, inúmeras outras estão presentes em todo o país hoje.
As pesquisadoras citam igrejas marcadas por propostas estéticas, rituais e discursivas semelhantes, e outras, caracterizadas “por vivências e práticas relacionadas com a ocupação geográfica dos grupos, sobretudo em territórios periféricos [que] nem sempre se vinculam a grandes igrejas”. Elas lembram ainda os evangélicos que não frequentam igrejas específicas, “mas vivem sua fé de outras formas, assistindo pregações e orações” em diversos canais de comunicação.
O artigo de Magali Cunha e Lívia Reis chama atenção também para a necessidade de se qualificarem os números sobre religião. É preciso que institutos de pesquisa e analistas levem em consideração esse quadro diverso e promova cruzamentos com outros marcadores sociais – raça, gênero e renda, por exemplo. “Caso contrário, as pesquisas e usos que se fazem dela [religião na cena pública] desviarão o caminho da reflexão. E quem instrumentaliza a fé para fazer política só ganha com esse desvio”, ressaltam as pesquisadoras.
* Matéria atualizada em 18/04/2024 às 17:52 e 07/06/2024 para ajustes de texto
O conflito na Faixa de Gaza chegou ao sexto mês. Desde o ataque do Hamas a Israel, em 7 de outubro, o governo israelense revidou com, o que o governo do Brasil considera, um massacre da população palestina. Bereia publicou em 19 de março a primeira parte desta reportagem, na qual abordou a corrente de desinformação que surgiu a partir da fala do presidente Luís Inácio Lula da Silva, durante visita à Etiópia, em 18 de fevereiro passado, enquanto participava da 37ª Cúpula da União Africana e de reuniões bilaterais com chefes de Estado. O presidente brasileiro se pronunciou sobre o conflito e comparou a resposta de Israel aos ataques promovidos pelo Hamas, ao extermínio de milhões de judeus por nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, o que gerou uma série de críticas e comoção nas redes.
Bereia também abordou, na primeira parte desta matéria, a escalada da violência na região e como Israel vem perdendo o apoio da comunidade internacional diante das atrocidades praticadas sobre a população palestina. Leia a matéria completa.
Nesta segunda parte, Bereia apresenta a origem histórica deste conflito, a motivação do apoio de cristãos evangélicos a Israel e atualizações sobre a guerra contra a Palestina que completou seis meses.
O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou, em 25 de março passado, pela primeira vez desde o 7 de outubro de 2023, um pedido de cessar-fogo em Gaza. A resolução recebeu o apoio de 14 dos 15 membros do órgão, o único a se abster foi os Estados Unidos. O texto estabelece uma cessação de hostilidades durante o Ramadã, período sagrado para os muçulmanos, que começou em 11 de março e terminou em 9 de abril. Apesar da aprovação histórica, e da pressão internacional, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu afirmou que não acatará a ordem da ONU e ainda planeja um ataque terrestre à cidade de Rafah. “Não estamos dispostos a cessar-fogo”, declarou.
Apesar da abstenção, o gesto do governo estadunidense causou uma rusga entre o presidente Joe Biden e Benjamin Netanyahu. Assim que o resultado no Conselho de Segurança foi anunciado, o governo israelense suspendeu a visita planejada de uma delegação do país aos EUA. O grupo iria discutir uma alternativa à invasão planejada por Israel à Rafah. O premiê israelense acusou a Casa Branca de abandonar sua “posição de princípio”. Entretanto, o governo de Biden correu para explicar que não havia mudanças na posição dos EUA de apoio a Israel.
“A única certeza em Gaza é a incerteza” O grupo Hamas, por sua vez, pediu desculpas à população de Gaza pelo sofrimento causado pela guerra, entretanto, reiterou a intenção de prosseguir com o conflito que, segundo o comunicado, deve conduzir à “vitória e à liberdade” dos palestinos. O anúncio foi feito, no dia 31 de março, pelo canal oficial do grupo no Telegram.
Para o líder palestino que ocupou o posto de ministro da Saúde entre 2007 e 2012, o grupo está disposto a negociar o fim da guerra, entretanto o lado israelense não quer chegar a um acordo. “Apelamos por um cessar-fogo completo e sustentável, pela retirada total das forças israelenses da Faixa de Gaza e pelo retorno das pessoas que foram expulsas de suas casas e vilarejos depois de 7 de outubro. Também pedimos uma grande operação de socorro e de reconstrução da Faixa de Gaza. Ao mesmo tempo, o engajamento em um acordo tácito para a troca de prisioneiros”, disse Naim ao jornal brasiliense.
Perguntado sobre as denúncias de violência sexual cometida por integrantes do Hamas, o político palestino negou veementemente as acusações. “Nós negamos qualquer agressão sexual a qualquer mulher. (…) Esta foi uma operação militar e nossos alvos eram complexos militares e soldados. Nós evitamos civis, mulheres, crianças e homens. Ao mesmo tempo, temos dito que estamos prontos para receber qualquer comitê de investigação da ONU ou internacional, a fim de apurar o que ocorreu em 7 de outubro”, assegurou.
Por que os cristãos evangélicos apoiam Israel incondicionalmente?
Segundo o professor de Teologia e doutorando em Filosofia, pela PUC-SP, Wallace Góis, os evangélicos têm uma visão escatológica do papel de Israel na história da humanidade e o consideram como o “Relógio de Deus no mundo”. “Para eles, você tem que ficar de olho no que acontece em Israel para entender o que está acontecendo no plano divino. Então os eventos que envolvem Israel, qualquer avanço político, ameaça militar ou instabilidade, vai ser interpretado à luz de alguma passagem bíblica que tenha mais ou menos a ver com essa situação e vai ser colocado como um sinal do fim dos tempos, como a volta de Cristo”, explica o professor em entrevista ao Bereia.
“Eles dizem que Israel é a continuidade da história do povo de Deus, apoiam porque Israel é e sempre foi o povo perseguido das escrituras, o guardião da Palavra de Deus, e as coisas que acontecem em Israel têm uma direta conexão com aquilo que ajuda a formar a cosmovisão cristã sobre a realidade”, afirma Góis se referindo ao que pensam os evangélicos brasileiros.
Para o professor, que integra a coordenação brasileira do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina e em Israel, do Conselho Mundial de Igrejas, e viveu por quatro meses, de julho a outubro de 2015, na região, há uma espiritualização exacerbada em tudo que se refere a Israel. “Tem toda uma aura mística que envolve o imaginário cristão evangélico sobre Israel e coloca o país como se fosse um lugar mágico, um lugar sagrado em que tudo que se toca e se vê é referência do Divino”.
Além disso, o professor ressalta que o turismo religioso reforça a ideia de que a nação é o ideal de civilidade para todas as outras. “Há uma propaganda de Israel como um país civilizado, ético, abençoado por Deus e aberto à liberdade religiosa, mas é uma grande encenação, porque a liberdade religiosa é restrita. Principalmente, para os muçulmanos, as comunidades cristãs na Palestina também estão definhando, estão sofrendo com restrições”, relata.
Góis compara a ação do governo israelense ao Império Romano da época de Jesus. “Israel se tornou um grande império opressor e a população palestina se vê perseguida pelos ideais imperialistas, pela opressão, pela sanha de poder, pela sede por territórios. As melhores áreas da Palestina estão sendo ocupadas pela extensão territorial israelense, as riquezas naturais estão sendo exploradas por Israel. Então, qualquer chance que a Palestina teria de se estabelecer, de construir uma história de demonstração da ‘benção de Deus’ foi previamente sequestrada por Israel e tudo isso vai sendo associado à imagem de que Deus está na verdade ao lado de Israel”, lamenta.
O teólogo denuncia ainda que os direitos palestinos estão sendo minados para que Israel possa ser vitoriosa. “O próprio Monte do Templo, onde muitos evangélicos dizem que será reconstruído o Templo de Jerusalém, existem mesquitas no local e, por isso, para os cristãos há uma certa ojeriza, uma certa ideia de usurpação do lugar sagrado pela religião islâmica, sobre o Judaísmo, uma tentativa de suplantar o Deus verdadeiro. Então, são detalhes e mais detalhes da geografia da organização social dos pontos turísticos que são utilizados na hora de tecer esses argumentos em favor de Israel”.
A antropóloga e professora da Universidade de Brasília Jacqueline Teixeira também analisou a situação. Em entrevista à BBC Brasil, ela disse que o bolsonarismo trouxe uma novidade para o apoio que cristãos evangélicos sempre deram à Israel: o discurso bélico-religioso, ou seja, a ideia de que uma disputa entre o bem e o mal justificaria o uso da violência. “Tem me chamado a atenção a tentativa de construção de uma justificação ética para os bombardeios, para as políticas de violência e de guerra que Israel tem lançado sobre o povo palestino. Uma naturalização da violência ou da guerra”, explica.
Teixeira acredita ainda que a naturalização entre religiosos de medidas como restrição de comida e água para os palestinos, seria resultado de uma “circulação mais preeminente de imagens do bolsonarismo no contexto das igrejas”, que permitiu uma “naturalização um pouco maior da desumanização” dos palestinos.
Jerusalém e as três religiões
De acordo com a antropóloga, professora e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) Dra. Francirosy Campos Barbosa Ferreira, ouvida pelo Bereia, é importante ressaltar que aquela região é sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos que dividem o espaço de Jerusalém. “O que a gente tem visto acontecer é uma captura, algo que costumamos chamar de leituras fundamentalistas da Bíblia. Os livros sagrados passam por leituras diversas, desde as mais rígidas, ipsis litteris, até as reformistas ou com interpretações diferenciadas. Então, acho que essa é uma das questões, é a ideia da Terra Prometida, associada com outras questões do judaísmo”, aponta a pesquisadora.
A antropóloga da USP relembra o caso das senhoras cristãs que, em uma manifestação a favor do ex-presidente Jair Bolsonaro, disseram que Israel é um país cristão, assunto já abordado por Bereia, na primeira reportagem desta série. “É a distopia que a nossa sociedade chegou. Não é de estranhar que uma pessoa cristã diga, de repente, que judeus também são cristãos. Infelizmente, em nossa sociedade hoje, o nível de conhecimento religioso, e isso eu falo de qualquer religião, é muito pífio, é insignificante, não tem profundidade, não tem um contexto histórico. É uma espiritualidade vazia”, analisa.
Para Campos, a ultradireita soube se apropriar dessa narrativa e cooptar pessoas com esse conhecimento dúbio sobre o cristianismo. “Assim começaram a criar outras figuras, outros seres, outras formas de interpretação. Então, acho que a extrema direita bolsonarista, junto com interpretações fundamentalistas, podemos até dizer equivocadas da Bíblia, acabam distorcendo todo esse campo religioso, e fazendo mau uso dele”.
Ela ressalta ainda, que precisamos lembrar que antes da criação do Estado de Israel em 1948, as três religiões viviam em harmonia na região. “Antes da ocupação da Palestina, da expulsão dos palestinos, a gente tem um histórico de uma convivência respeitosa entre cristãos, muçulmanos e judeus, isso em várias partes do mundo, seja na Síria, no Egito, enfim, a gente tem um histórico de boa convivência. havia festas religiosas e as pessoas se respeitavam mutuamente. Essa é uma forma de uso da religião, de uma instrumentalização religiosa muito equivocada, infelizmente, que gera todo esse conflito”.
Origem do conflito na região
Para compreender o atual cenário na região é necessário voltar no tempo. Governada, destruída, povoada e repovoada por diversos povos, dinastias e impérios, a Palestina foi conquistada pelo Império Otomano no século 16. A região que havia sido conquistada por Alexandre, o Grande, pelo Império Romano e pelo general Amr Ibn Al-As, vivenciou várias expressões de fé e viveu períodos de declínio e prosperidade ao longo dos séculos.
A Palestina fez parte do Império Otomano até 1917, quando passou a ser controlada pelo Reino Unido. Os britânicos se comprometeram a apoiar a formação de um reino árabe unificado.
Durante a Primeira Guerra Mundial britânicos e turcos chegaram a um acordo sobre o futuro da Palestina e da maioria dos territórios árabes na Ásia antes pertencentes ao Império Otomano.
No entanto, durante a Conferência de Paz de Paris, em 1919, as potências europeias vencedoras da Primeira Guerra impediram a criação do reino árabe unificado. Elas estabeleceram uma série de mandatos para que pudessem controlar e repartir toda a região. Assim, a região passou a integrar o Mandato Britânico da Palestina, autorizado pela Liga das Nações e se estendeu de 1920 até 1948.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido decidiu transferir a decisão sobre a Palestina para a recém criada Organização das Nações Unidas (ONU). A ONU aprovou, em 1947, a Resolução 181, que dividiu a Palestina da seguinte forma: 55% do território para os judeus, Jerusalém sob controle internacional e o restante para os árabes (incluindo a Faixa de Gaza). Ao entrar em vigor em maio de 1948, a resolução pôs fim ao Mandato Britânico da Palestina e Israel declarou sua independência.
A crise econômica causada pela Guerra da Independência e a necessidade de sustentar uma população em rápido crescimento exigiram austeridade no país e ajuda financeira do exterior. A assistência prestada pelo Estados Unidos, os empréstimos de bancos americanos, as contribuições de judeus da Diáspora e reparações alemãs após a guerra foram usados para construir casas, mecanizar a agricultura, estabelecer uma frota mercante e uma companhia aérea nacional, além de favorecerem a exploração mineral, o desenvolvimento industrial e a expansão de rodovias, telecomunicações e redes elétricas.
Após seis dias de batalha, as antigas linhas de cessar-fogo foram substituídas por outras como Judeia, Samaria, Gaza, Península do Sinai e Colinas de Golã, sob controle israelense. A passagem para Israel através do Estreito de Tiran foi assegurada e Jerusalém, que estava dividida desde 1949 entre Israel e Jordânia, foi reunificada sob autoridade israelense. Desde o fim do conflito Israel ocupa a Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Esta ocupação desencadeou uma série de conflitos que chegaram até os dias atuais.
Evolução do território palestino – 1920 aos dias atuais
Foi na Faixa de Gaza que teve início uma série de conflitos armados, incluindo algumas das guerras que influenciaram a história recente da região. Entregue aos palestinos em 2005, a Faixa de Gaza passou a ser governada pelo partido Hamas, em 2007, enquanto a região da Cisjordânia ficou sob o governo da Autoridade Nacional Palestina (PNP), mas sob ocupação militar israelense.
A primeira intifada (levante) dos palestinos contra os israelenses na Faixa de Gaza ocorreu em 1987. No mesmo ano foi criado o partido islâmico Hamas, que se estenderia posteriormente a outros territórios ocupados.
Os Acordos de Oslo entre israelenses e palestinos, em 1993, criaram a Autoridade Nacional Palestina (ANP) e concederam autonomia limitada à Faixa de Gaza e partes da Cisjordânia ocupada. Após uma segunda intifada, mais violenta que a primeira, Israel retirou suas tropas e cerca de 7 mil colonos da Faixa de Gaza, em 2005.
No ano seguinte o Hamas venceu as eleições palestinas. Este resultado gerou uma violenta luta de poder em 2007 entre o Hamas e o partido Fatah, liderado pelo líder da ANP, Mahmoud Abbas. O grupo militante saiu vitorioso na Faixa de Gaza. Desde então, o Hamas mantém o poder na região, tendo sobrevivido a três guerras e a um bloqueio de 16 anos. O braço armado do partido, mais radical, faz oposição ostensiva a Israel.
Em comunicado no dia 22 de janeiro passado, o Hamas destacou essas origens históricas do conflito, afirmando que “a batalha do povo palestino contra a ocupação e o colonialismo não começou em 7 de outubro. A liderança do partido recordou que a luta palestina foi iniciada há 105 anos, incluindo os 30 anos de colonialismo britânico e os 75 anos de ocupação sionista, e pretende responsabilizar legalmente a ocupação israelense pelo sofrimento infligido ao povo palestino”.
Netanyahu isolado
O Primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu tem sofrido vários reveses, por conta de sua condução do conflito em Gaza, considerada equivocada e desastrosa por analistas de todo o mundo. Para permanecer no poder, o líder israelense tem levado o país a se embrenhar cada vez mais fundo em conflitos regionais secundários.
Em 01 de abril, Israel bombardeou e destruiu o consulado iraniano em Damasco, na Síria, e matou Mohammed Reza Zahedi, comandante da Guarda Revolucionária, a força de elite que protege o regime iraniano, além de outros alvos militares e civis. O motivo estaria ligado ao conflito em Gaza. De acordo com o governo israelense, o Irã é o principal financiador do Hamas e de outros grupos extremistas islamitas.
No mesmo dia, mais um ataque israelense deixou líderes de todo o mundo em alerta. Desta vez, um drone israelense atingiu o carro onde funcionários da World Central Kitchen, ONG do chef espanhol José Andrés, estavam. O ataque vitimou sete voluntários. A organização não governamental havia acabado de levar uma carga de alimentos ao território palestino, horas antes do bombardeio. A entidade é uma das principais fornecedoras de alimentos à Faixa de Gaza desde o início da guerra. O premiê admitiu a culpa de Israel e disse que incidentes como este “’Acontecem em guerras’. “Infelizmente, no último dia houve um caso trágico em que as nossas forças atingiram involuntariamente pessoas inocentes na Faixa de Gaza. Acontece em guerras, e estamos verificando até o fim, estamos em contato com os governos, e tudo faremos para que isso não aconteça novamente”, declarou Netanyahu. Segundo a ONG, entre os mortos há três cidadãos do Reino Unido, um da Austrália, um dos Estados Unidos, um da Polônia, e um palestino. A World Central Kitchen é uma das mais atuantes em Gaza. Os dois veículos que transportavam as vítimas e que foram atingidos tinham o logotipo e o nome da ONG desenhados no teto e circulavam sozinhos em uma via de uma área sem conflitos. “Este não é apenas um ataque contra a World Central Kitchen, é um ataque a organizações humanitárias que se apresentam nas situações mais terríveis, em que os alimentos são usados como arma de guerra. Isso é imperdoável”, disse o CEO da ONG, Erin Gore.
Nem mesmo o governo americano, aliado de Israel, tem poupado críticas e conseguido fechar os olhos para o que acontece em Gaza. O presidente americano Joe Biden disse estar “Indignado” com o ataque de Israel ao veículo de transporte da ONG World Central Kitchen e cobrou uma investigação “rápida” e que “traga responsabilidade”. Biden está em ano eleitoral e passou a ser acusado por sua própria base de ser cúmplice pelas mortes de palestinos.
Em balanço realizado pela Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), desde o início do conflito 109 jornalistas e trabalhadores de meios de comunicação perderam suas vidas: 102 palestinos, 4 israelenses e três libaneses. Com estes dados, a Guerra em Gaza se configura como um dos conflitos mais mortais da história para os meios de comunicação e apresenta grave risco para a liberdade de imprensa.
Segundo dados do Serviço Prisional Israelense divulgados pela Human Rights Watch, as autoridades do país mantinham, até 1º de dezembro, 2.873 palestinos em detenção administrativa, sem acusação ou julgamento, com base em informações secretas. Já a organização palestina de direitos humanos Addameer afirma que, até novembro de 2023, a população carcerária palestina em unidades carcerárias administradas por Israel tinha um total de 7.000 palestinos presos. A lista inclui 80 mulheres e 200 crianças menores de 18 anos.
Números da guerra
Após seis meses de conflito, os números do conflito em Gaza falam por si. Segundo levantamento da BBC Brasil, até o 175º dia de guerra, pelo menos, 32.623 pessoas tinham morrido e 75.092 tinham sido feridas, de acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla em inglês), a maioria das vítimas é de mulheres e crianças.
Ainda segundo a ONU, 85% da população no setor sitiado, onde vivem mais de 2,3 milhões de pessoas, foi forçada a deixar suas casas devido à destruição de infraestrutura e a falta de alimentos, água, combustível e eletricidade na região. “Prevê-se que metade da população da Faixa de Gaza (1,11 milhões de pessoas) enfrente condições catastróficas no que diz respeito à segurança alimentar”, afirmou um relatório elaborado pela ONG Integrated Food Security Phase Classification (IPC), que fornece à governos, à ONU e às agências de ajuda humanitária dados apolíticos sobre a fome no mundo.
Imagem: reprodução/BBC
Mais de 196 trabalhadores humanitários foram mortos em Gaza desde outubro, de acordo com a Aid Worker Security Database, entidade financiada pelos EUA que registra incidentes de violência contra agentes humanitários. Além destes, há os jornalistas mortos já citados nesta matéria.
Do lado Israelense, cerca de 600 soldados morreram desde os ataques de 7 de outubro. Nesse dia, 253 pessoas foram sequestradas. Acredita-se que cerca de 130 reféns ainda estejam detidos em Gaza, dos quais, pelo menos, 34 são considerados mortos, afirmam autoridades de Israel.
Atribuir a queda dos percentuais de aprovação do governo Lula entre o segmento evangélico às suas recentes declarações sobre os ataques militares de Israel em território palestino, conforme indicada na última pesquisa da Quaest, é muito simplista. A opinião é da editora-geral do Bereia e pesquisadora Magali Cunha, que foi entrevistada pelo jornalista Luis Nassif, do canal GGN em 6 de março de 2024.
“O que nós observamos nestes dois meses, com base no trabalho de monitoramento das redes, é que há um verdadeiro bombardeio de conteúdos alimentado pela grande mídia que não passam apenas por essa questão”, analisou a editora.
Ela destacou que temas como a discussão sobre a legalização da maconha no STF e o caso Marajó estão entre os que mais circulam nas redes religiosas.
Segundo Magali Cunha, existe certa confusão entre a figura do Israel do contexto bíblico com o Estado de Israel, criado em 1948 por intermédio da Organização das Nações Unidas (ONU). “Há, entre alguns grupos de evangélicos, uma compreensão histórica de que o Israel, localizado no Oriente Médio, é o mesmo do Israel da Bíblia, o que não é fato, daí transportam esse imaginário”, comentou.
“Os evangélicos”. Magali Cunha também chamou a atenção para a diversidade que existe entre as pessoas que professam a fé evangélica e alertou sobre o equívoco de homogeneizar o segmento. “[O termo] ‘Os evangélicos’ não existe. Ninguém é só evangélico nesta vida. A pessoa é mulher, negra, trabalhadora, desempregada, homem branco de classe média… Ninguém é evangélico igual até mesmo dentro de uma mesma igreja”.
Em plena ditadura militar, estes versos compostos pelo então pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil João Dias de Araújo (1931-2014), transformados em canção pelo médico e músico Décio Lauretti, refletem uma compreensão de fé que insiste em subsistir entre evangélicos brasileiros:
Que estou fazendo se sou cristão? Se Cristo deu-me o seu perdão
Há muitos pobres sem lar, sem pão, há tantas vidas sem salvação
Meu Cristo veio pra nos remir, o homem todo sem dividir,
não só a alma do mal salvar, também o corpo ressuscitar.
Há muita fome em meu país, há tanta gente que é infeliz,
Há criancinhas que vão morrer, há tantos velhos a padecer.
Milhões não sabem como escrever, milhões de olhos não sabem ler
Nas trevas vivem sem perceber que são escravos de outro ser.
Aos poderosos eu vou pregar, aos homens ricos vou proclamar
Que a injustiça é contra Deus, e a vil miséria insulta aos céus
(a canção pode ser ouvida na gravação do Grupo Milad, disco Água Viva, 1985)
Para além da busca pela salvação da alma com uma morada no céu, o pastor João Dias e muita gente no seu tempo haviam construído um jeito de entender a fé e a relação com Deus que ia além do individual e passava por um olhar para o ser humano total, marcado por misericórdia e solidariedade, inspirados na ação de Jesus de Nazaré tal como relatada na Bíblia cristã. Esta fé gerava compromissos por relações justas entre as pessoas, e entre elas e as lideranças públicas. E estes compromissos se desdobravam em ações com base na compreensão expressa no refrão daquela mesma canção de 1967: “a injustiça é contra Deus e a vil miséria insulta os céus”.
Neste 31 de março, de celebração da Páscoa, que nos faz vir à tona a memória dos chamados “anos de chumbo”, com o aniversário de 60 anos do golpe militar de 1964, é significativo lembrar esta canção. Hoje ela ainda é cantada em uma pequena parcela de igrejas e em grupos ecumênicos que buscam superar tanto a lógica individualista do mercado da música religiosa quanto a predominância dos conteúdos musicais que passam longe desse jeito de entender a fé expresso na poesia da canção.
A memória dos anos que se sucederam ao Golpe Militar guarda um lugar especial para cristãs e cristãos, entre eles muitos evangélicos, tanto entre as vítimas, aquelas que tiveram liberdades suprimidas e direitos violados por meio da censura, de prisões arbitrárias, da tortura e das execuções sumárias, quanto entre os omissos e os colaboradores, que no balanço, foram todos apoiadores. Os dois grupos se colocaram assim contraditoriamente em nome da sua compreensão de fé e de relação com Deus.
O primeiro grupo pagou o preço de viver a fé que questiona “Que estou fazendo se sou cristão?”, inspirado na justiça e na paz, como viveu Jesus de Nazaré, que também foi vítima de um sistema repressivo que tinha na religião uma aliada. Essas mulheres e homens, boa parte deles em plena juventude, carregaram sua cruz, mas finalmente encontram sua Páscoa, revivendo na memória de muitos grupos hoje com a retomada das ações pela busca da verdade e da justiça que lhes foi negada.
É fato que o jeito de entender a fé entre evangélicos brasileiros que predominou na história e é enfatizado no nosso tempo é aquele voltado para a salvação individualista, seja da alma, das finanças, de projetos pessoais ou políticos, ou mesmo para uma fé intimista muito pouco ou quase nada marcada por um olhar para o ser humano, com misericórdia, solidariedade e sentimento de justiça. No entanto, é significativo guardar a memória de que, ainda assim, tanto no passado quanto no presente esta não é uma unanimidade. Cristãos evangélicos hoje, como o pastor João Dias de Araújo, e tantos outros que os precederam, ainda se inspiram na humanidade divina de Jesus de Nazaré e buscam respostas para a pergunta “Que estou fazendo se sou cristão?” com base na compreensão de que “a injustiça é contra Deus e a vil miséria insulta os céus”.
Pessoas identificadas como evangélicas, entre 35 e 44 anos, com grau de instrução até o ensino médio, integrantes das classes de renda mais baixa (D e E), usuários do Telegram, do TikTok e audiência do Jornal da Record, formam o perfil de quem mais compartilha conteúdo falso sobre vacinas no Brasil. A descoberta é parte do estudo “A comunicação no enfrentamento da pandemia de Covid-19”, produzido pelo Centro de Pesquisa em Comunicação Política e Saúde Pública, da Universidade de Brasília. O levantamento foi realizado em agosto passado, com 1.845 pessoas que têm acesso à internet, e os resultados foram divulgados no último 22 de outubro, pela Agência Brasil.
Para seleção dos entrevistados, os pesquisadores utilizaram um cadastro online com mais de 500 mil inscritos, no qual foram aplicadas cotas de gênero, idade, região e classe social para representar adequadamente a população brasileira. Os participantes selecionados responderam um questionário online, no qual foram convidados a compartilhar 12 notícias sobre vacinas, identificadas apenas pelo título, divididas igualmente entre verdadeiras e falsas.
De todos os pesquisados, 11,3% informaram que compartilhariam ao menos uma das notícias falsas e 3,7% informaram que compartilhariam cinco das seis notícias inverídicas.
O coordenador do CPS da UnB, e líder do estudo, Prof. Wladimir Gramacho, fez um destaque, com a Agência Brasil, sobre o perfil dos que mais propagam estes conteúdos:
“não quer dizer que pessoas que têm essas características são pessoas que automaticamente compartilham notícias falsas, mas o contrário: que pessoas que compartilham esses tipos de desinformação sobre vacinas costumam ter essas características”.
O professor acrescenta que outros estudos que tratam do tema da desinformação na internet indicam que o comportamento de pessoas que divulgam informações incorretas, ou notícias falsas, variam conforme o tema. Gramacho explica quando o tema em questão é político, há uma tendência de pessoas idosas compartilharem desinformação mais facilmente, mas quando o assunto é vacina este padrão é diferente no Brasil, inclusive quando comparado a pesquisas realizadas em outros países.
“A principal explicação para isso talvez seja o fato de pessoas mais velhas terem sido socializadas em uma época em que o país viveu grandes conquistas no seu Programa Nacional de Imunizações”, conclui o pesquisador.
Imagem: Agência Brasil
Telegram, TikTok e Jornal da Record em destaque na propagação de falsidades
Na pesquisa também foram analisados os hábitos de uso de mídias das pessoas que afirmaram que compartilhariam as notícias falsas. Foi observado que as pessoas que mais espalhariam desinformação são as que têm as mídias digitais como principal fonte de informação. “São usuários mais frequentes de plataformas como Telegram e Tik Tok que têm maior tendência de compartilhar notícias falsas sobre as vacinas”, indicou o Prof. Wladimir Gramacho à Agência Brasil.
Ao analisarem o uso da televisão, principal meio de informação no país, pesquisadores compararam entrevistados que declararam ser audiência do Jornal Nacional e os que declararam ser audiência do Jornal da Record. Os telespectadores do Jornal Nacional demonstraram compartilhar menos notícias falsas do que os da Record: os primeiros tiveram a metade das chances de divulgarem falsidades sobre vacinas.
Uma possível justificativa para esse comportamento, segundo Wladimir Gramacho, é um processo de exposição seletiva das pessoas entre esses dois telejornais. “A audiência mais frequente do Jornal da Record reúne pessoas simpatizantes do governo Jair Bolsonaro, que foi um governo que difundiu muitas informações incorretas sobre as vacinas e que, ele próprio, fez campanha contra a vacinação”, destaca o pesquisador.
As conclusões da pesquisa do CPS da UnB reafirmam os resultados da pesquisa que originou e o Coletivo Bereia e orienta suas ações: “Caminhos da Desinformação: Evangélicos, Fake News e WhatsApp no Brasil”. Realizada de 2019 a 2020, a pesquisa foi conduzida pelo Grupo de Estudos sobre Desigualdades na Educação e na Saúde (Gedes), do Instituto Nutes de Educação em Ciências e Saúde da UFRJ, sob a coordenação dos professores Dr. Alexandre Brasil e Dra. Juliana Dias, colaboradores do Bereia, com relatório publicado em 2021.
No último 28 de agosto, o portal de notícias Gospel Prime veiculou informações de uma pesquisa que apontou evangélicos como maioria na América Central, em matéria com o título “Evangélicos já são maioria na América Central, diz pesquisa”.
Sem apresentar detalhes sobre a metodologia utilizada, o site também divulgou informações sobre o comportamento da população religiosa e apresentou dados sobre liberdade religiosa na região.
Imagem: reprodução Gospel Prime
Bereia apurou informações sobre a pesquisa utilizada.
Dados apresentados pela pesquisa
O site religioso Gospel Prime traz, em manchete, a informação de que evangélicos já são maioria na América Central. No texto veiculado, o portal de notícias destaca que 42% dos habitantes da região identificam-se como protestantes, enquanto 39,9% identificam-se como católicos romanos.
Para reforçar o papel evangélico na composição social centro-americana, o site traz, ainda, dado segundo o qual a Igreja Católica teria perdido, entre 1950 e 2023, 60% dos fiéis na Nicarágua. Outro dado exposto é o de que cristãos evangélicos estariam mais comprometidos com atividades religiosas e com a leitura da Bíblia.
As informações utilizadas pelo site são da segunda edição da pesquisa “Afiliación, Participación y Prácticas Religiosas”, estudo conduzido na América Central durante o primeiro semestre de 2023 e que entrevistou mais de 3 mil pessoas. A pesquisa afirma que o nível de confiança de seus resultados chega a 95% e os dados apresentam margem de erro de 1.65% para mais ou para menos.
O estudo também apresenta diversos dados relacionados ao fenômeno religioso, sendo o primeiro deles a migração religiosa do catolicismo para o protestantismo na América Central. Entre os entrevistados, 58% disseram ter sido educados no catolicismo, sendo que mais de 10% teriam migrado para o protestantismo, 6,9% para correntes sem denominação, e 0,4% teriam simplesmente abandonado a religião.
Em todos os países contemplados pelo estudo – Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica e Panamá – houve diminuição do número de católicos e aumento do número de protestantes. Outras informações expostas pela pesquisa dizem respeito a práticas religiosas como frequência de orações, frequência de leitura da Bíblia, presença em cultos ou missas, contribuição com o dízimo, questões relativas à educação sexual e uso de contraceptivos, homossexualidade, aborto, entre outros.
Ao final, o estudo volta ao tema da proporção populacional de diversas correntes religiosas. A informação dá conta de que, especificamente na Nicarágua, observou-se, desde 1950, queda da população católica. A pesquisa não informa como os dados históricos foram obtidos ou coletados.
Informações sobre a instituição de pesquisa
A segunda edição da pesquisa sobre prática religiosa na América Central foi realizada pela M&R Consultores. Em seu site oficial, a instituição define-se como uma agência de inteligência de mercado da Nicarágua, fundada em 1991. A página informa, ainda, que a organização está em processo de expansão, já que, atualmente, realiza estudos na América Latina.
A M&R Consultores apresenta-se como membro da Sociedade Europeia para Pesquisa de Opinião e Marketing (Esomar, na sigla em inglês), fundada em 1947, e é dirigida pelo economista, psicólogo e declaradamente militante cristãoRaúl Obregón Morales. Apesar dos alegados mais de 30 anos de atuação, o estudo mais antigo publicado no site da instituição é de 2020. Nas mídias sociais, o perfil da organização tem poucos seguidores e quase nenhuma interação.
Imagem: reprodução Instagram
Dentre as pesquisas realizadas pela M&R Consultores, há diversas edições sobre a aprovação do governo de Daniel Ortega (FSLN), presidente da Nicarágua desde 2006. Bereia identificou alguns questionamentos acerca da credibilidade destas informações.
Reputação e credibilidade da M&R Consultores
O jornalista nicaraguense Miguel Mendoza contestou, em dezembro de 2019, as técnicas de pesquisa utilizadas pelo gerente geral da M&R Consultores Raúl Obregón Morales, em seu perfil do X, Twitter à época. Um dos comentários na publicação suscita a possibilidade de fraude nas eleições para corroborar os dados da pesquisa.
Imagem: reprodução X (antigo Twitter)
Na mesma época, o advogado e cientista político Adolfo Miranda Sáenz, colunista do jornal nicaraguense La Prensa, escreveu sobre as falhas técnicas do estudo. “A última pesquisa de M&R Consultores, me surpreendeu porque tem, segundo o que se lê publicado por eles em sua página na web, várias falhas técnicas que prejudicam a credibilidade”.
Em 2021, o portal de notícias Geopolitical Economy publicou uma reportagem sobre a popularidade da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) na Nicarágua, e tomou como base a 9ª pesquisa pré-eleitoral, de novembro de 2021. O texto aponta a M&R Consultores como “a principal empresa de pesquisas na Nicarágua” e pontua que a instituição “costumava ser regularmente citada pelos principais meios de comunicação, como a Reuters”, mas passou a ser ignorada por questões políticas.
O portal de notícias Nicarágua Investiga, em matéria publicada em 2022, divulgou que a M&R Consultores havia apontado a aprovação do governo do casal Ortega em 71,2%, e afirmou que a consultoria CID Gallup revelou em outubro de 2021, antes mesmo das eleições, que apenas 8% da população era favorável a manutenção da FSLN no poder.
Ritmo de crescimento da população evangélica em países da América Central
O professor da Universidad del Pacifico, no Peru, e vice-presidente do Instituto de Estudos Sociais Cristãos (IESC) José Luis Pérez Guadalupe, em entrevista ao Bereia, afirma que a tendência geral, desde os anos 1970, é de crescimento da população evangélica e diminuição da população católica, principalmente na América Central, mas há particularidades.
Segundo Pérez, é possível que, a partir de 2030, países como Nicarágua, Honduras e El Salvador passem a ter mais evangélicos do que católicos, realidade, porém, ainda não concretizada. Já em países como Costa Rica e Panamá, o cenário é diferente. O crescimento evangélico também é uma realidade, mas este segmento ainda representaria entre 20% e 25% das respectivas populações.
Outro aspecto que Pérez pontua é que a identidade religiosa, hoje, é cada vez mais fluida, o que torna comum que pessoas adeptas a diferentes religiões frequentem cultos de outras denominações, por exemplo. O professor destaca que, mais do que a mera identificação, o compromisso de cada comunidade com sua respectiva denominação é que constitui o dado mais importante.
Indagado sobre a qualidade da pesquisa divulgada pelo site Gospel Prime, Pérez afirma que, quando se trata de governos ditatoriais e autoritários, não se pode confiar em dados oficiais ou em supostos institutos de pesquisa. “Nas ditaduras, a primeira vítima é a verdade”, afirma.
Outros estudos sobre o assunto
Bereia buscou uma fonte relevante, não comprometida com o mercado, para comparar com os dados divulgados pelo Gospel Prime e chegou aos levantamentos realizados pelo Latinobarómetro, uma organização não-governamental (ONG) sem fins lucrativos com sede em Santiago do Chile. A ONG declara ter o objetivo de contribuir para o desenvolvimento da democracia, da economia e da sociedade como um todo, através de indicadores de opinião pública que medem atitudes, valores e comportamentos.
A Pesquisa Latinobarômetro é um estudo de opinião pública que aplica anualmente cerca de 20.000 entrevistas em 18 países latino-americanos, representando mais de 600 milhões de habitantes. Os resultados do Latinobarómetro são usados por acadêmicos, agentes públicos e governamentais, produtores de mídias, meios de comunicação, entre outros atores sociopolíticos da região e internacionais.
Enquanto a pesquisa elaborada pela M&R Consultores, e repercutida pelo Gospel Prime, afirma que a população evangélica na América Central chega a 42%, dados da ONG chilena mostram números menos expressivos. O relatório Latinobarómetro de 2020 aponta que o número de evangélicos na América Central era de 31,3%, chegando a 34,7% quando consideradas as categorias “evangélicos sem especificar”, “batistas”, “metodistas”, pentecostais”, “adventistas” e “protestantes”.
Imagem: reprodução Latinobarómetro
Os números para a população católica também divergem. Enquanto M&R Consultores e Gospel Prime afirmam que os católicos representam 39,9% da população na região centro-americana, os dados do Latinobarómetro 2020 apontam representatividade de 46,1% deste segmento.
A discrepância entre as duas pesquisas chama mais atenção no caso da Nicarágua que, segundo M&R Consultores, tem 47,5% da sua população identificada como evangélica. O Latinobarómetro 2020 demonstra que a parcela deste segmento religioso representa 38,7% no país em questão.
Ainda a respeito da Nicarágua, a pesquisa divulgada pelo Gospel Prime apresenta um gráfico sobre a evolução da presença de católicos e não católicos no país, desde 1950. Afirma-se que a presença católica no país saiu de 95,8% em 1950 para 41,8% em 2020. Já o Latinobarómetro, afirma que os católicos representavam 44,9% da população nicaraguense em 2020.
Liberdade religiosa na América Central
Outro dado também apresentado pela pesquisa da M&R Consultores, que foi omitido pelo site Gospel Prime, diz respeito à liberdade religiosa na América Central. Segundo a pesquisa, 92,7% da população centro-americana considera que têm liberdade de religião. Entre os grupos religiosos, 91,3% dos católicos, 94,2% dos protestantes e 93,1% dos crentes sem denominação teriam afirmado que há liberdade religiosa na região.
A pesquisa traz, ainda, os dados sobre a percepção de liberdade religiosa em cada país. Excetuando-se a Nicarágua, que apresenta 82,6% de respostas afirmativas para a existência de liberdade religiosa, todos os outros países pesquisados pontuaram acima dos 90% (Guatemala: 95,9%; El Salvador: 95,8%; Honduras: 94,6%; Costa Rica: 90,9%; Panamá: 96,7%).
O relatório Informe 2021 elaborado pela Latinobarómetro revela que 68% dos cidadãos da América Latina percebem que têm garantias de escolher livremente a sua religião. O percentual está oito pontos percentuais abaixo do valor registrado em 2018 e 2017 (76%). A diferença é a mais elevada desde quando o indicador começou a ser medido, em 2007.
Imagem: reprodução Latinobarómetro
Além dos dados do Latinobarómetro, o Relatório de Liberdade Religiosa no Mundo – 2023 publicado bienalmente, desde 1999, pela organização Aid to the Church in Need (ACN) – Ajuda à Igreja que Sofre –, ligada à Igreja Católica, revela dados diferentes sobre a liberdade religiosa na Nicarágua, país de origem da pesquisa elaborada pela M&R Consultores.
Enquanto na pesquisa da M&R Consultores o país aparece com 82,6% de liberdade religiosa percebida, o Relatório de Liberdade Religiosa no Mundo, da ACN, destaca negativamente o país. A ACN salienta que, pela primeira vez, a Nicarágua foi incluída na categoria “perseguição”.
“Isso se deve à forte opressão que o governo Ortega continua a exercer sobre a Igreja Católica, cujas ações incluem, entre outras, a expulsão do núncio apostólico e das congregações religiosas, o exílio forçado de sacerdotes, a privação do estatuto jurídico de entidades e organismos religiosos, a perseguição aos sacerdotes, o cerco a igrejas, a detenção arbitrária de líderes e fiéis religiosos, o fechamento de um canal de televisão católico, ameaças explícitas e insultos a líderes religiosos”, afirma o relatório.
O levantamento Latinobarómetro 2020 Nicarágua apresenta a opinião da população nicaraguense sobre até que ponto a liberdade de professar qualquer religião está garantida no país. Apenas 39,2% disseram ter a liberdade religiosa completamente garantida, enquanto 12,5% afirmaram não ser nada garantida. Os outros 48,3% dos participantes da pesquisa responderam que tem alguma garantia, pouca garantia ou não responderam.
Imagem: reprodução Latinobarómetro
Perseguição religiosa na Nicarágua
Os desafios relacionados à liberdade religiosa são cada vez maiores na América Central e vêm sendo destaque na imprensa internacional. O caso da Nicarágua, em especial, tem chamado atenção pelas atitudes do governo de Daniel Ortega.
O Correio Braziliense divulgou, em setembro do ano passado, que Ortega acusou a Igreja Católica de ser uma “ditadura perfeita” e que a polícia havia proibido procissões religiosas naquele período. A notícia também informava que “as relações entre o governo e a Igreja Católica se deterioraram desde os protestos de 2018, que o presidente vinculou a uma suposta tentativa fracassada de golpe de Estado planejada pela oposição com o apoio de Washington”. O texto pontua que o conflito se agravou em agosto daquele ano, após a prisão domiciliar do crítico do governo, arcebispo de Matagalpa, Rolando Álvarez e que quatro padres e dois seminaristas também foram detidos sem que as acusações contra os religiosos fossem divulgadas.
Na mesma ocasião, o portal Nicaragua Investiga publicou texto que mostra a ligação de Ortega com pastores evangélicos e a perseguição aos líderes católicos no país. Em 2023, a revista Forbes divulgou que duas dioceses dirigidas por Álvarez, a essa altura condenado a mais de 26 anos de prisão por crimes considerados ‘traição contra a pátria’, e a diocese de Manágua tiveram as contas bancárias bloqueadas pelo governo Ortega. O texto também cita a prisão de outros três padres. Esta perseguição é sofrida pelas lideranças católicas que se expressam de forma crítica a ações autoritárias do governo Ortega, o que não ocorre em relação outras lideranças cristãs alinhadas com o poder nicaraguense.
A Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou, em março deste ano, que o relatório do Grupo de Peritos em Direitos Humanos sobre a Nicarágua apontou que a população do país sofre violações de direitos humanos que configuram crimes contra a humanidade.
Imagem: reprodução ONU News
Em artigo traduzido e publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos, o teólogo e padre italiano, professor da Universidade de Flensburg, na Alemanha, Marcelo Neri detalha como o governo da Nicarágua tem agido com a Igreja Católica por se posicionar contra o regime Ortega. “Entre os dias 5 e 6 de fevereiro, ocorreram dois julgamentos de farsa que condenaram o grupo de colaboradores de Dom Alvarez e outro padre detido também em agosto de 2022 a 10 anos de prisão sob a acusação de conspiração contra o Estado da Nicarágua”, diz o texto do teólogo.
Na última semana, a BBC News Brasil publicou matéria sobre a perseguição do governo Ortega a ordens religiosas na Nicarágua. Em entrevista por telefone à BBC, o teólogo e porta-voz oficial da Companhia de Jesus na Nicarágua José María Tojeira explica de que modo o governo Ortega vem perseguindo a Igreja no país.
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Bereia considera o conteúdo checado como impreciso. Os dados da pesquisa divulgada pelo portal de notícias Gospel Prime, de forma ufanista, não são comprováveis, principalmente por não haver informações sobre a metodologia utilizada para a coleta e processamento destes dados. Ainda, a fonte tem histórico que levanta dúvidas em relação a comprometimento mercadológico e político.
Afora isto, o levantamento apresenta características de desinformação quando não considera a perspectiva católica sobre liberdade religiosa na Nicarágua. A maneira que as informações foram apresentadas pode levar o público a julgamentos errôneos sobre determinados grupos e organizações. Portanto, carece de complementações e alguma contextualização, por isso Bereia recomenda recurso a instituições de pesquisa metodologicamente acreditadas.
No contexto da tensão social produzida pelo conjunto de acontecimentos políticos ligados à direita extremista, descritos no primeiro artigo deste estudo, surge, no Brasil, um novo ator político ligado ao neoconservadorismo religioso: o evangélico pentecostal. O aprofundamento do conservadorismo moral defendido por figuras religiosas e, particularmente, disseminadas pelo presidente da República Jair Bolsonaro (2019-2022), desde que se colocou no centro do debate, faz com que busquemos compreender a relação entre o ex-presidente e tais preceitos.
Um ponto importante, defendido pelo pesquisador Geoffrey Pleyers, é que não haveria uma batalha ideológica opondo evangélicos e católicos, como costumeiramente se imagina, mas sim, uma disputa em torno do fundamentalismo religioso. A polarização se daria entre progressistas e conservadores, independentemente da identificação religiosa. Ele esclarece como a categoria “evangélicos” agrega diferentes denominações e subdivisões, por isso seria uma análise superficial dizer “os evangélicos”, pois foram os ‘cristãos conservadores’ que ajudaram a eleger Bolsonaro.
As igrejas evangélicas históricas enfrentaram embates ideológicos/teológicos, com influência de correntes norte-americanas, quando o pentecostalismo sofreu cisões tendo sua fé “renovada”. Após a abertura democrática e elaboração da constituição de 1988, a atuação política sofreu uma guinada. Com uma miscelânea de partidos políticos à disposição, mas preferencialmente pelos de direita e centro-direita, representantes de igrejas pentecostais passaram a ocupar espaços dentro do executivo e legislativo, almejando cargos mais altos.
Em sua maioria, a membresia das três maiores igrejas do segmento pentecostal: Assembleia de Deus (AD), a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e a Igreja do Evangelho Quadrangular (IEQ) é composta por pessoas pretas e pardas . Nesse contexto de crescimento numérico e de ocupação do espaço público, é criado, nestes espaços, um imaginário de povo, “povo de Deus”, “povo brasileiro”, como se tratasse de uma religião que o representasse. Mesmo compondo uma minoria, em 1986 pentecostais somam um terço do parlamento e a partir de então passam a ser um dos protagonistas da política brasileira, almejando cargos cada vez mais altos, confrontando os limites do establishment.
Em pouco menos de meio século, esses grupos passaram se articular politicamente e a fazer parte do cenário atual. Na primeira metade do século 20 um evangelismo fundamentalista missionário é popular entre classes médias e baixas, simpatizante do capitalismo, mas que rechaça o envolvimento com a política. Por outro lado, o chamado neopentecostalismo, que se estabelece com força a partir dos anos 1980, se opõe a essa visão, se alinhando à política e à Maioria Moral estadunidense.
Um sintoma do neoconservadorismo moral e religioso na política foi a consolidação da Bancada Evangélica por meio da criação da Frente Parlamentar Evangélica, em setembro de 2003, com deputados e senadores de diferentes siglas e partidos, mas que se propunham a defender pautas relacionadas ao Cristianismo. Para ter governabilidade e aprovar medidas de cunho social, o governo do Partido dos Trabalhadores (PT) à época, com o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, se viu obrigado a fazer alianças com o grupo, permitindo-lhe mais espaço em cargos do Poder Executivo e participação em projetos sociais.
A força política adquirida permitiu que os políticos evangélicos avançassem na demanda por pautas nevrálgicas ao neoconservadorismo. Uma das ações foi a campanha, em 2011, no início do terceiro mandato do PT no governo federal, contra um material didático-pedagógico que seria destinado às escolas públicas, cujo conteúdo visava conscientizar estudantes contra a homofobia. Parlamentares católicos e evangélicos ameaçaram embargar políticas sociais e econômicas caso o governo não cancelasse o projeto. O então deputado Jair Bolsonaro (Partido Progressista), junto com representantes da Bancada Evangélica, passaram a chamar o material enviado para as escolas públicas nessa campanha de “kit gay” para fazer acusações ao projeto de que serviria para perversão sexual dos estudantes.
Nesse sentido, embora as lideranças do PT nos três mandatos de governo (2002-2016), sob a Presidência de Lula e Dilma Rousseff, não tivessem uma afinidade religiosa com esses grupos religiosos, colaboraram com seu fortalecimento ao realizar alianças para concessão de cargos e ceder a pressões.
Como afirmou a cientista política Wendy Brown: “O ressentimento é energia vital do populismo de direita”. Ou seja, para os cristãos neoconservadores, o avanço de pautas progressistas constituem uma ameaça, por isso se sentem ameaçados com o avanço da agenda LGBTQI+ (criminalização da homofobia, casamento e adoção por casais homoafetivos), incorporação da temática igualdade de gênero em processos educacionais (caso da rejeição ao Plano Nacional de Educação, em 2014), e atuam de maneira a cercear direitos já conquistados.
O embate entre homossexuais e cristãos conservadores reforçou a retórica denominada “cristofobia”, uma forma de apropriação do termo e contra-argumento, pois o acusado de homofobia se colocada no papel de vítima de intolerância religiosa sobre o qual teria sua liberdade religiosa ameaçada. Outra reação dessa bancada religiosa foi PL 234/2011 que regulamentava a atuação de psicólogos no tratamento da homossexualidade, conhecido popularmente como ‘cura gay’.
Já a ideia de esforço individual é uma cruzada contra políticas distributivas e identitárias que beneficiariam determinados grupos sociais em detrimento de grupos que precisariam sobreviver com seu próprio esforço. O antropólogo Ronaldo Almeida relaciona a valorização da ideia de meritocracia à Teologia da Prosperidade, popular entre neopentecostais, mas que se expande entre outras ramificações evangélicas. Refere-se ao princípio de que o desenvolvimento financeiro e a prosperidade material são benesses pelos esforços nos empreendimentos individuais e participação religiosa. Bolsonaro chegou a dar o título da sua proposta de plano de governo 2018, de “O caminho da prosperidade”, uma clara referência a esta teologia. Almeida observa ainda como Bolsonaro se autodenomina “pessoa de bem”, buscando criar uma conexão com trabalhadores honestos, vítimas de violências do crime e da corrupção do Estado.
É nesse sentido que o neoconservadorismo está presente na esfera pública nacional e em diferentes setores sociais, mas é o segmento religioso que tem liderado campanhas de cunho cristão e pautado temas moralistas com perspectiva excludente.
BAHIA, Joana; KITAGAWA, Sergio Tuguio Ladeira (2022). Religious conservatism in Brazilian politics: The discreet presence of Calvinist political theology in the public sphere. In: Revista del CESLA International Latin American Studies Review. Disponível em: https://www.revistadelcesla.com/index.php/revistadelcesla/article/view/775
BROWN, Wendy. O Frankenstein do neoliberalismo: liberdade autoritária nas “democracias” do século XXI. In: ALBINO, Chiara; OLIVEIRA, Jainara; MELO, Mariana (Orgs.). Neoliberalismo, neoconservadorismo e crise em tempos sombrios. Recife: Editora Seriguela, 2021.
BURITY, Joanildo. A onda conservadora na política brasileira traz o fundamentalismo ao poder?. Conferência Conservadorismos, Fascismo, Fundamentalismos: 12 dez 2016. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/311582235
**Os artigos da seção Areópago são de responsabilidade de autores e autoras e não refletem, necessariamente, a opinião do Coletivo Bereia.***Foto de capa: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Não deveria ser assim, diria Jesus Cristo, mas infelizmente é. Alguns dos autointitulados intelectuais do meio evangélico, por falarem como doutores, cometem desonestidade intelectual. Ao longo das próximas semanas devo apresentar algumas delas, as quais selecionei ora pela importância da temática, ora por sua insistente repetição.
A primeira grande desonestidade é atribuir o fenômeno do pós-cristianismo europeu ao surgimento do chamado liberalismo teológico. Para estes intelectuais o declínio da fé cristã no continente europeu se deu por conta da crescente racionalização da fé, de um profícuo diálogo com a ciência. Ao contrário dos fundamentalistas que, quando muito, instrumentalizam a ciência, apropriando-se das partes que lhes interessam, os chamados teólogos liberais se propuseram a revisionar interpretações, incorporar métodos no fazimento teológico. A perspectiva era dialógica, e não ideológica como fazem os fundamentalistas, pelo simples reconhecimento que nem toda verdade estava na Bíblia.
Os que assim fazem esquecem o desgaste pela longevidade no continente (2000 anos), o que faz com que a institucionalidade ganhe expressões insuportáveis para quem quer viver a singeleza da fé. Em Estudos de Religião é recorrente a noção de as religiões possuem sua maior taxa de expansão justamente no seu início, período em que há mais espontaneidade e menos institucionalização. Ora, ao mesmo tempo que a institucionalização funciona como um foco de permanência, de resistência para um grupo religioso, ela também traz consigo o desgaste, que afasta a instituição da sua própria raiz, da sua crença primeira, como Dostoievski brilhantemente assinalou em O Grande Inquisidor.
Outro esquecimento que me parece seletivo é a ausência de menção das guerras de religião, que varreram o continente europeu, opondo católicos aos protestantes e produzindo milhares de mortes em nome da mesma fé, nos séculos XVI-XVIII. Voltaire chegou a comparar tal insanidade a um trovão irrompendo em pleno sol de meio dia. Ele também sarcasticamente assinalou, em uma de suas Cartas Inglesas, que a Bolsa de Valores de Londres produzia mais resultados em termos de tolerância religiosa e de respeito ao diferente, do que os templos religiosos, dos quais os participantes saíam com menos disposição ao diálogo. Estas estúpidas mortes pelo legado da Cristandade e não do Cristianismo, e muito menos do Cristo, marcaram profundamente a alma do europeu, tornando-o reticente a uma religião que discursa sobre o amor, mas que tem disposição de matar seu semelhante por divergência doutrinária.
Nesta mesma linha que conduz aos equívocos históricos, está o apoio de boa parte da Igreja cristã ao nazismo, bem como a insistência de certos grupos alienados da pesquisa histórica que sustentam que regime hitlerista foi de esquerda. Os que assim procedem esquecem que da invasão da URSS, e do apoio da elite alemã a Hitler para que freasse a escalada da simpatia alemã com a internacional socialista. Sim, minha prezada leitora, o nazismo sacrificou judeus e caçou comunistas. Uma vez desnudados os horrores praticados na 2ª Grande Guerra, a igreja cristã ficou adesivada com este selo da vergonha, deslegitimando sua pregação. Se para Paulo a questão era quem iria ouvir a mensagem do evangelho se não há pregadores que alcancem as diferentes etnias, após a passagem do nazismo a igreja se viu diante de uma atualização: quem vai QUERER ouvir sua pregação?
Por fim, em uma lista que não se esgota em si mesma, é preciso lembrar que parte do escanteamento da fé cristã se deu pela sua própria e inadequada pregação. Há um esquecimento do teor do querigma praticado que obsoletou Deus. Ora, se Deus é anunciado como o cirurgião do plantão eterno, ou como o Rei das melhorias sociais, quando a ciência avança encontrando novas formas, fármacos para a cura, ele se torna, como lembra Harry Emerson Fosdick, obsoleto. O mesmo procede com um governo antenado às necessidades do seu povo. Nesse caso a política traria respostas que antes eram buscadas no templo. Não foi por outro motivo que Ernst Troeltsch aventou a possibilidade da religião se substituída pela Ciência e pela Política.
Se os pregadores querem que Deus seja sempre atual, é preciso falar mais sobre Ele e menos sobre o que Ele pode fazer. Se os pregadores querem que Deus seja assunto do almoço em família, é preciso que eles dialoguem com esse tempo, com suas demandas, em suas prédicas. Caso contrário, seguirão confinando Deus ao passado e declarando sua obsoletização, sua perda crescente de importância, quanto mais respostas a Ciência e a Política fornecerem às pessoas.
Fica então a indagação: por que tais intelectuais evangélicos não abordam estes fatores ao explicarem o declínio cristão na Europa? Por que eles não mencionam que o fundamentalismo tem feito o principal estamento religioso dos Estados Unidos, a saber, a Convenção Batista do Sul, perder membros, entrar em declínio?
**Os artigos da seção Areópago são de responsabilidade de autores e autoras e não refletem, necessariamente, a opinião do Coletivo Bereia.
Apesar de serem caracterizados, histórica e culturalmente, pelo apego à Bíblia, evangélicos brasileiros têm desobedecido intensamente nos últimos anos uma das principais orientações do livro sagrado cristão: não mentir.
Nos muitos textos sobre o tema, é enfatizado que Deus abomina a mentira, como no trecho de Provérbios 6.16-19, que se torna uma síntese dos outros vários.
“Há seis coisas que o Senhor odeia, sete coisas que ele detesta: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que traça planos perversos, pés que se apressam para fazer o mal, a testemunha falsa que espalha mentiras e aquele que provoca discórdia entre irmãos.”
Apesar da nítida orientação contida no livro tão amado e ressaltado por evangélicos, o que temos acompanhado no Brasil, pelo menos desde 2018, é um conjunto de posturas que favorece a circulação e a propagação de mentiras entre este grupo.
Estas posturas se configuram em um ponto inicial que é a formulação do conteúdo mentiroso dentro do próprio ambiente evangélico. Segundo o acompanhamento realizado desde a pesquisa Caminhos da Desinformação: Evangélicos, Fake News e WhatsApp no Brasil até o que é empreendido pelo Coletivo Bereia – Informação e Checagem de Notícias, pastores, pastoras, presidentes de igrejas, bispos e outra autoridades, influenciadores digitais, entre artistas gospel, políticos evangélicos e outras personagens que ocupam o espaço público e emergem como celebridades midiáticas, criam conteúdo falso e enganoso e o propagam em seus espaços nas mídias sociais dos aplicativos populares das big techs.
Nesta postura, parece haver uma intenção, ou seja, elaboração deliberada da mentira, para captar apoios de natureza demagógica nas comunidades evangélicas a temas e pautas de cunho ideológico. Entre elas esteve, por exemplo, a oposição a procedimentos científicos, como as medidas sanitárias aplicadas para a prevenção da covid-19 nos anos de 2020 e 2021. Está também a negação do valor da vacinação na proteção contra doenças e a aversão aos direitos de pessoas que não aplicam em suas vidas a orientação dos costumes evangélicos no tocante à sexualidade.
É possível contabilizar neste grupo material falso contra o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral e sobre fraudes em urnas eletrônicas, por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro durante o processo eleitoral 2022, entre outros temas, como foi o caso da campanha contra o Projeto de Lei 2630/2020, denominado popularmente de Lei das Fake News. A noção de que a chamada Lei das Fake News é uma lei de censura criada pelo atual governo e pelas esquerdas e o STF para silenciar as igrejas e para impedir críticas públicas a políticos, foi fartamente disseminada por estas personagens citadas acima.
Outra postura é o alinhamento à mentira da parte deste grupo e de lideranças que estão em nível intermediário (pastores e pastoras e pessoas que têm funções de destaque nas diversas comunidades evangélicas do Brasil afora) com a replicação (o compartilhamento) de conteúdo produzido por terceiros. Boa parte destas mensagens não tem conteúdo religioso exclusivo, mas traz temas como o do suposto cerceamento de liberdade de expressão, o negacionismo em relação à ciência (em especial na área da saúde), a ameaça comunista e de ativistas feministas e LGTBI+, e são repercutidos por afinidade/alinhamento ideológico.
Produtores da indústria da desinformação, que não são religiosos, mas querem captação de apoio para interferir em temas de interesse público e obter vantagens (políticas ou financeiras), conseguem assessoria de lideranças e influenciadores evangélicos para produzirem material específico destinado ao grupo. Oferecem memes, cards, áudios, vídeos, com linguagem que cria vínculos emocionais, com textos bíblicos, por exemplo. No caso da desinformação em torno do PL 2630, tornou-se conhecido que a Câmara Brasileira de Economia Digital, associação brasileira que reúne empresas como Meta (Facebook, Instagram e WhatsApp), Google e TikTok produziu um documento entregue a deputados afirmando que o projeto de lei proibiria a livre expressão de cristãos nas mídias sociais, especialmente a publicação de certos versículos bíblicos. O conteúdo falso foi disseminado por personagens como o deputado federal da Igreja Batista Deltan Dallagnol.
A postura da assimilação, por evangélicos comuns, as pessoas que participam cotidianamente das igrejas, é a que torna este grupo um forte propagador, ou “traficante” de desinformação. Fiéis evangélicos são os destinatários de todo este conteúdo. Tanto as lideranças e influenciadores religiosos, como os produtores da indústria da desinformação, buscam afetar estas pessoas, como mencionado acima, lançando mão do imaginário evangélico sedimentado em quase dois séculos de pregação e atuação predominantes entre grupo religioso no Brasil.
Este imaginário é moldado por elementos-chave como a superação perseguição religiosa, algo que absolutamente não existe no país contra cristãos, mas que é acionado pela imagem bíblica da perseguição de Roma aos primeiros cristãos; o enfrentamento de inimigos, as hostes do mal (Satanás e seu séquito) que atuam contra a propagação do Evangelho e o crescimento das igrejas; a pureza do corpo, em especial no cultivo de uma sexualidade padronizada no ocidente como heteronormativa, guardada para o casamento monogâmico para a geração de filhos e prosseguimento no povoamento da Terra.
Além de assistirmos a esta instrumentalização da religião para campanhas públicas em bases falsas e enganosas, vemos também o uso da palavra, por parte de líderes, para perseguir e atacar quem se coloca em oposição a estas posturas dentro das igrejas. Não são poucas as pessoas classificadas como não cristãs, traidoras da igreja, simplesmente por denunciarem o uso da mentira para capturar apoios.
Fica o desafio de pessoas e grupos evangélicos retomarem a Bíblia tão amada e um dos destacados ensinamentos de Jesus sobre conhecer a verdade, tal como registrado no Evangelho de João, fartamente instrumentalizado em discursos políticos do ex-presidente que deixou o cargo em 31 de dezembro passado, a mentira é exposta como filha do inimigo de Deus, o Diabo. Jesus diz, aos que se colocavam em oposição às suas ações, e que apregoavam mentiras neste debate público: “Vocês pertencem ao pai de vocês, o Diabo, e querem realizar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou à verdade, pois não há verdade nele. Quando mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira” (João 8.44).
**Os artigos da seção Areópago são de responsabilidade de autores e autoras e não refletem, necessariamente, a opinião do Coletivo Bereia
Lideranças religiosas e políticos conservadores continuam engrossando o coro nas mídias sociais de uma presente ‘ameaça comunista’ no atual governo. A narrativa segue forte, principalmente em ambientes religiosos. É o que mostra uma pesquisa realizada em março pelo instituto Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec) segundo a qual 39% dos católicos e 57% dos evangélicos entrevistados enxergam esta possibilidade para o país em decorrência do atual governo.
Diversas checagens realizadas por Bereia, desde de 2019, dão conta de que há vasto conteúdo desinformativo a respeito do comunismo no Brasil, com extensa disseminação de conteúdos enganosos, principalmente a partir do período eleitoral de 2018. No entanto, não é a primeira vez que a direita brasileira utiliza esta estratégia para alcançar mais adeptos.
Imagem: reprodução Twitter
Pesquisa Ipec
De acordo com a pesquisa realizada pelo Ipec neste março de 2023, sobre a avaliação do atual governo, 44% dos brasileiros acreditam que há alguma possibilidade do Brasil se tornar um país comunista. Destes, 39% dos católicos e 57% dos evangélicos entrevistados para este estudo enxergam o risco de uma “ameaça comunista” ao Brasil por conta do atual governo.
O levantamento trouxe ainda que 45% dos católicos avaliaram o atual governo como ótimo ou bom, 40% estão entre as pessoas sem ou de outra religião, enquanto que entre os evangélicos esse número foi de 31%. Já 33% dos evangélicos consideram a gestão ruim ou péssima, seguido de 21% dos católicos e 21% de outras religiões. Dentro deste âmbito, a avaliação do governo inclui também a nota regular e os índices de pessoas que não responderam ou não souberam responder. Outras perguntas do estudo sobre a gestão do atual presidente contemplam ainda aspectos como, confiança, apoio, posição do país no cenário mundial, defesa dos mais pobres e polarização política.
Imagem: reprodução Ipec
Ameaça comunista – um enredo antigo
Em artigo intitulado As Formas Discursivas e a Ameaça Comunista, a doutora em linguística pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Bethania Mariani, ajuda a entender que se trata, na verdade, de um fenômeno que remonta à década de 1920, ou seja, pouco tempo depois de iniciada a Revolução Russa, que instituiu o socialismo no que viria a ser a União Soviética.
Desde então, a narrativa da ameaça comunista volta à cena política de tempos em tempos, com mais ou menos força. Na década de 1960, por exemplo, a suposta ameaça foi utilizada pelos militares brasileiros para justificar a derrubada de um governo constitucional. O golpe militar de 1964 mergulhou o Brasil em um período de 21 anos sob regime de exceção e, hoje, há relativo consenso histórico, baseado em relatos e documentação oficial, de que nunca houve uma real ameaça comunista naquele contexto, conforme explicitado em matéria do UOL.
Imagem: reprodução Metrópoles
Conforme Bereia já publicou, o tema da ameaça comunista vem sendo amplamente explorado em contextos de desinformação, permeando todos os cinco temas mais presentes em checagens feitas entre 2021 e 2022: perseguição a cristãos, covid-19, “ideologia de gênero”/moralidade sexual, supostos feitos do presidente Jair Bolsonaro e tópicos específicos referentes às eleições.
Antes mesmo do período eleitoral, foram várias as checagens realizadas por Bereia envolvendo suposta ameaça comunista, desde a afirmação do então ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, de que havia um plano comunista sendo instalado no Brasil, até mensagens anônimas que circulavam em ambientes religiosos espalhando pânico moral associado às ideologias “de esquerda”. Os exemplos são muitos e, em todas as ocasiões, o ambiente religioso foi contaminado com a narrativa da ameaça comunista, que, como prova a História, nunca se concretizou.
Desinformação e conspiração
Em artigo de opinião recentemente publicado na revista Carta Capital, o pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais e PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas Camilo Aggio estabelece uma conexão entre o fenômeno da desinformação e o das teorias conspiratórias. “Não há desinformação sem conspiração”, afirma.
Aggio destaca que “temos um espectro vastíssimo de ofertas conspiracionistas à disposição de quem precisa negar a ciência e o conhecimento especializado para manter suas convicções. Não poderia, portanto, ser diferente quando estamos a falar de uma ampla indústria de produção de desinformação no mercado digital de crenças”.
A constatação do pesquisador parte do monitoramento realizado pela União Pró-Vacina, em 2020, que constatou a presença de teorias da conspiração na maior parte das informações falsas sobre vacinas. A interpretação, porém, estende-se ao fenômeno da desinformação amplamente compreendido, o que se relaciona com os conteúdos falsos e enganosos que circulam nos ambientes religiosos, sejam sobre vacina, gênero ou supostas ameaças comunistas.
Falsa ameaça comunista segue presente nas redes sociais digitais
Conforme a pesquisa realizada pelo Ipec revelou, a narrativa da ameaça comunista continua tendo resultados concretos, principalmente no segmento religioso. O termo comunista é muitas vezes usado por estes grupos para designar comportamentos considerados por eles como imorais. Também por isto, essa narrativa é fortalecida mesmo na ausência de fontes ou indícios confiáveis de que um regime comunista poderia vigorar no Brasil e muitos brasileiros seguem acreditando nessa possibilidade.
Imagens: reprodução do Twitter
Nas mídias sociais é possível enxergar o que a pesquisa levantou com dados, em que diversos perfis políticos, católicos e evangélicos disseminam a narrativa da ameaça comunista, criando um ambiente em que vigora o pânico justificado apenas no próprio discurso propagado. O uso do termo “ameaça”, por si só, carrega um significado específico, que perpetua a noção de um perigo iminente.
A suposta relação da fé com o anticomunismo faz com que o tema esteja sempre presente nos ambientes religiosos, o que ajuda a compreender os resultados da pesquisa Ipec e acende um alerta para que todos estejam sempre vigilantes quanto aos fundamentos dos conteúdos compartilhados.
O noticiário sobre política no Brasil repercutiu nos últimos dias notícia sobre a prisão de um indígena apresentado como cacique e pastor da etnia xavante.
Imagem: reprodução do site do jornal O Globo
Imagem: reprodução do site do Estado de Minas
José Acácio ganhou notoriedade nas mídias sociais após a divulgação de vídeos gravados em acampamentos em Brasília, sempre com vestimenta e pinturas tradicionais, se apresenta como representante e defensor dos povos indígenas e dos valores cristãos. Contesta as urnas eletrônicas e validade da eleição de Lula, faz ataques e ameaças ao ministro presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e discursos antidemocráticos.
Tsererê foi preso por encaminhamento da Procuradoria-Geral da República (PGR) ao Supremo Tribunal Federal (STF). Ele é acusado de cometer crimes de ameaça, perseguição e abolição violenta do Estado Democrático de Direito. No início deste mês, um grupo liderado por Tsererê invadiu a área de embarque do Aeroporto Internacional de Brasília, onde discursou e entoou palavras de ordem contra ministros do STF e Lula. “Se precisar, a gente acampa, mas o ladrão não sobe a rampa”, afirmaram.
Bereia checou a dúvida que foi fortemente colocada em comentários de mídias sociais de veículos noticiosos e em algumas matérias jornalísticas quanto ao título “pastor” de Tsererê Xavante, seja por meio de questionamentos diretos ou pelo uso de aspas no termo.
Quem é José Acácio Tsererê Xavante?
Nas mídias sociais, José Acácio utiliza o nome de Tsererê Xavante e se apresenta como pastor evangélico da Igreja Re’ihoimanamono”u”otsinhorowa e na Aliança Missionária das Nações, integrante da ONG Associação Indígena Bruno Ômore Dumhiwê.
Imagem: reprodução de postagem do perfil de Tsererê Xavante no Facebook
A adesão de Tsererê Xavante à direita política o levou a apoiar, já em 2018, a candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência, tendo ficado entre apoios e críticas de pessoas da igreja, como se observa em comentários de suas publicações em mídias sociais, como a reprodução abaixo.
Imagem: reprodução do Facebook
Em 2022, o apoio à candidatura de Bolsonaro foi renovado, como se observa em postagens como a que está reproduzida a seguir. Após a derrota de Bolsonaro nas ruas, o apoio o levou ao extremismo das manifestações anti-democráticas
Imagem: reprodução do Facebook
A presença de Tsererê Xavante nas manifestações em Brasília teria sido financiada por um fazendeiro de Araçatuba (SP), que tem propriedades em Campinápolis, região onde está demarcada da Terra Indígena. Esta constatação foi feita após a divulgação de um vídeo no qual o fazendeiro em questão, Dide Pimenta, que teria sido procurado pelo indígena em busca de apoio, explica o que fez para mantê-lo na capital e pede mais ajuda financeira.
No vídeo, Pimenta conta se juntou com amigos para enviar “oito ônibus de índios” e que teria enviado “outras etnias” para Brasília, em 11 de dezembro. O fazendeiro afirma que “estão com dificuldade de manter os índios” e pede colaborações de R$ 30 a R$ 500, que podem ser enviadas por “PIX para a conta direta do Tserere” ou para a dele próprio.
A ligação com a Associação Indígena Bruno Omore Dumhiwê
De acordo com as pesquisas da doutora em Sociologia Natália Araújo de Oliveira para a dissertação de Mestrado, defendida em 2010, a Associação Indígena Bruno Omore Dumhiwê foi criada no ano 2000, porém ficou ativa por pouco tempo. Em junho de 2009, a Associação foi reativada, tendo como presidente Tsererê Xavante e contando com 97 associados, entre 15 crianças, 30 adolescentes, seis não índios e os demais, indígenas adultos. Todos moradores da cidade de Nova Xavantina (MT).
A pesquisadora afirma que o presidente da instituição buscou uma visibilidade política não só da associação, mas principalmente a sua própria. Ela apoia essa hipótese no fato de não ter ocorrido nenhuma reunião da diretoria desde sua eleição, em 2009 até 2010, em que ela realizou a pesquisa, existindo somente ações isoladas que colocavam em evidência o presidente. Natália Oliveira avalia que o objetivo que Tsererê Xavante revelava era o de se tornar conhecido na sociedade nova-xavantinense para que pudesse ser eleito a algum cargo político da cidade. A socióloga ainda levantou na pesquisa que Tsererê Xavante se projetouna mídia nacional como candidato a participante de uma das edições do reality show Big Brother Brasil, da Rede Globo de TV
Pastor?
Tsererê Xavante se apresenta, em sua página no Facebook, como criador de conteúdo digital e registra que estudou nas instituições religiosas Instituto de Formação Cristã – Escola de Ministérios e na Escola do Clamor. Nesta mesma mídia o indígena declara que atualmente é pastor na Igreja Re’ihoimanamono’u’otsinhorowa. Várias publicações no perfil do Facebook de Tsererê Xavante mostram seu relacionamento com uma missão cristã entre indígenas xavantes e a sua ação como pastor.
Imagem: foto de construção relacionada à Igreja Re’ihoimanamono’u’otsinhorowa publicada por Tsererê Xavante, em 2020, no Facebook
Imagem: reprodução do Facebook
Imagem: foto de Pastor Tsererê Xavante batizando um adolescente, que é apresentado como membro recebido na Igreja Indígena Xavante na publicação, de 2016, no Facebook
Imagem: publicação de 2015 no Facebook, em que Tsererê Xavante fala de uma missão cristã entre indígenas com a atuação de pastores e sua própria participação
Imagem: foto de Tsererê Xavante registra reunião dele com adolescentes em igreja “100% indígena xavante”, no Facebook
Por meio de pesquisa nestes registros de mídia, pode-se concluir que a Aliança Missionária das Nações (AMN) tem atuação na Terra Indígena de Parabubure, onde está a aldeia a que Tsererê Xavante pertence. Neste território vivem cerca de 27 mil indígenas, distribuídos em nove terras demarcadas. Lá foi estabelecido um trabalho missionário, no qual Tsererê emergiu como liderança, sendo encaminhado para formação e pastoreio de uma igreja indígena. Ele se casou com uma das missionárias da AMN.
De acordo com lideranças da Associação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Tsererê Xavante não é um indígena tradicional e não é cacique. O líder da aldeia é o Cacique Celestino. Além de atuar como pastor evangélico e ter se casado com uma mulher não indígena, sua conversão ao cristianismo se deu após ter sido preso por tráfico de drogas, em 2008. A formação para o pastorado evangélico teria se dado quando estava na prisão, onde decidiu “seguir o chamado”. Ele teve pena reduzida em 2009, quando o Superior Tribunal de Justiça (STJ) atendeu a um recurso da defesa, que pediu a redução da pena pelo fato do réu ser indígena.
Imagem: reprodução do Facebook
Bereia checou as informações em contato com as instituições declaradas como parte da educação teológica e obteve a confirmação sobre a formação de Tsererê Xavante na no Instituto de Formação Cristã (IFC) – Escola de Ministérios, que pertence à Igreja Jesus Cristo é o Caminho, ambos localizados em Vinhedo (SP). Até o momento não houve retorno da Escola do Clamor, vinculada ao Ministério Clamor pelas Nações, ambos sediados em Belo Horizonte (MG).
Os dois cursos são livres, sem o credenciamento do Ministério da Educação, o que significa que a diplomação atende à formação de lideranças que podem atuar em determinadas igrejas que não demandam exigência de graduação em nível superior para o reconhecimento de seus pastores.
Imagem: reprodução do Facebook
Missões indígenas e a extrema-direita
Ao se apresentar como representante e também defensor dos povos indígenas e dos valores cristãos, a participação de José Acácio Tsererê Xavante posiciona as missões indígenas na extrema direita política. Diante das contestações às urnas eletrônicas, à validade da eleição de Lula, bem como a ênfase aos ataques ao ministro Alexandre de Moraes e os discursos antidemocráticos expostos por esta liderança indígena, a APIB publicou uma nota sobre as manifestações golpistas em Brasília, na qual diz que:
“A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil repudia os recentes atos golpistas realizados na capital. Nossos povos não compactuam com qualquer atitude que ameace a democracia, ao contrário, sabemos que neste momento em que o fascismo ameaça o Estado de Direito no Brasil, precisamos lutar pela democracia como defendemos nossas próprias vidas.
Condenamos as manipulações promovidas pelo bolsonarismo, que se apropriou do uso das redes sociais e das piores práticas do jornalismo para criar uma realidade paralela, a qual aprisiona a consciência de pessoas inocentes e desinformadas, inclusive indígenas, que acabam sendo iludidas, cooptadas ou induzidas a cometer atos ilegais. Reconhecemos, porém, que não se trata apenas de pessoas iludidas, mas também de pessoas que atuam de má fé, propositalmente, dentre esses empresários que financiam tais atos e que precisam ser investigados e devidamente punidos”
A relação de indígenas com a extrema-direita é um fenômeno que tem sido observado por pesquisadores, como o cientista político Leonardo Barros Soares. Em artigo sobre o tema, ele avalia que se tratam “de indivíduos indígenas que orientam suas ações políticas pela cosmovisão que abrange ultraliberalismo econômico, militarismo e uma forte agenda moralista amparada pela gramática moral e institucional do cristianismo, sobretudo o de matriz neopentecostal”.
Para o pesquisador, a pauta defendida por estes indígenas se articula a “uma visão de mundo conservadora que adquire matizes específicas no que se refere ao seu caráter étnico” e se relaciona a::
apoio à liberação de atividades de exploração econômica no interior de terras indígenas (garimpo, mineração, pecuária extensiva, arrendamento para plantações de larga escala, extração de madeira, estabelecimento de cassinos, liberação de pesca esportiva, dentre outras)
a defesa da aquisição e porte de armas e munições atrelada à caça e a defesa da presença e expansão das missões evangélicas entre os povos indígenas, com destaque para aqueles em situação de isolamento voluntário;
tendem a argumentar que organizações não-governamentais “manipulam” os povos indígenas por meio de financiamentos internacionais que, na verdade, mascarariam os interesses escusos de governos estrangeiros sobre a Amazônia;
consideram que as políticas indigenistas do estado brasileiro levadas a cabo na redemocratização, em verdade, atrasam o “desenvolvimento” dos povos indígenas.
Soares alerta que “Goste-se ou não, o indígena em questão não é mais ou menos indígena que seus parentes e é responsável por suas escolhas políticas”.
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Tendo em vista a pesquisa realizada pelo Bereia sobre Tsererê Xavante é possível afirmar ser verdadeira a informação de que o indígena é um pastor evangélico. Ele lidera uma igreja entre xavantes denominada Re’ihoimanamono”u”otsinhorowa, criada pela missão da Aliança Missionária das Nações, na Terra Indígena Parabubure (MT). Já o título de cacique, Tsererê não possui. O Cacique Celestino é o líder da aldeia à qual ele está vinculado.
“‘Pastor do Lula’ quer criar escolas progressista de pastores” é o título da matéria publicada, em 12 de novembro, pelo site evangélico Gospel Prime. A matéria se baseia em uma das gravações publicadas no Twitter pelo pastor das Assembleias de Deus Paulo Marcelo Schallemberger, integrante do Núcleo de Evangélicos do Partido dos Trabalhadores (NEPT). As publicações do pastor relatam sua participação em uma reunião realizada, em 11 de novembro, pelo NEPT com lideranças evangélicas, na Sede do Diretório Nacional do PT, em São Paulo.
Imagem: reprodução do site Gospel Prime
A matéria do Gospel Prime baseou-se em um dos três vídeos publicados no Twitter pelo pastor, no qual ele tem uma fala na reunião. O site evangélico afirma que Paulo Marcelo “aparece no Diretório Nacional do PT ensinando como ocupar as igrejas” e incluiu o vídeo, com 53 segundos de duração, publicado também no perfil do Twitter do veículo com a chamada “’Pastor do Lula’ ensina como ocupar igrejas e enganar pastores”.
Imagem: reprodução do site Gospel Prime
O conteúdo publicado pelo Gospel Prime não contextualiza a fala do pastor, tão pouco a reunião da qual ele participou, e oferece aos leitores e leitoras uma avaliação: “Diante da forte rejeição do eleitor evangélico, o Partido dos Trabalhadores (PT) vem buscando formas de se infiltrar nas igrejas, incluindo a proposta de criar escolas progressistas de pastores, mas se identificar para atrair os líderes evangélicos”.
As publicações do pastor Paulo Marcelo Schallemberger
Paulo Marcelo Schallemberger tem sido alvo de abordagens negativas de lideranças e mídias evangélicas, desde que se apresentou em público, no início de 2022, como construtor de pontes entre o PT e os evangélicos. Ele ganhou o noticiário político nacional, como um líder das Assembleias de Deus participante da campanha eleitoral do ex-presidente Lula e foi o jornal Folha de S. Paulo que lhe atribuiu o apelido “Pastor do PT”, repetido agora pelo Gospel Prime.
Em abril, Bereia checou informações que circulavam em mídias sociais religiosas sobre o pastor, por indicação de leitores e leitoras, que incluíam várias acusações, verificadas como improcedentes. Nas eleições de outubro passado, Pastor Paulo Marcelo se candidatou a deputado federal (Solidariedade/SP), mas não conseguiu ser eleito, e consta no Tribunal Superior Eleitoral como suplente.
As publicações de Paulo Marcelo em seu perfil no Twitter, nas quais aborda a reunião do Diretório Nacional do PT, em 11 de novembro, são três, todas com pequenos vídeos de poucos segundos. Em dois deles, o pastor está falando aos presentes – um foi selecionado para a matéria do Gospel Prime (o terceiro na ordem de postagens):
Imagem: reprodução do Twitter
Imagem: reprodução do Twitter
Imagem: reprodução do Twitter
No primeiro vídeo, Paulo Marcelo oferece sugestões de como o PT deve se comunicar com as igrejas evangélicas e mostrar que elas têm um lugar no programa de governo. Ele explica que a comunicação é fundamental para superar a estratégia de grupos de direita que demonizam as esquerdas e colocam as igrejas como “reféns de maus líderes”. Segundo o pastor, “na verdade não são homens que verdadeiramente seguem a Deus porque se seguissem a Deus não teriam coragem de mentir, sabendo que estão falando uma coisa que é inverdade”. Paulo Marcelo reforça: “Nós [líderes] temos a responsabilidade de mudar isto”.
No segundo vídeo, utilizado para o conteúdo do Gospel Prime, o pastor refere-se ao valor das políticas públicas para que as lideranças ligadas ao novo governo não sejam mais “reféns de Malafaia e de Macedo”. Segundo ele, com políticas públicas atingindo positivamente pessoas que são fiéis de igrejas evangélicas haverá abertura para que as igrejas conheçam “uma palavra de libertação da mentira do fascismo”. Paulo Marcelo segue com a explicação de como fazer:
“Criando escolas progressistas de pastores em todo o Brasil. Não tem as escolas que eles fazem? Levam os pastores lá? São Paulo, Campinas, Curitiba, enfim, Rio de Janeiro, começa com os núcleos nas cidades, a partir das cidades ir às regiões, vai para os estados. Primeiro na escola de Teologia tal tal tal (sic.). Evitar o nome ‘progressista’. Traz primeiro os pastores para depois você falar que precisar se falar pois qualquer frase assusta.. [corte]”.
A reunião com evangélicos progressistas
Bereia não conseguiu contato com os organizadores da reunião promovida pelo Núcleo de Evangélicos do PT em São Paulo, em 11 de novembro. Para esta matéria, a equipe levantou com as coberturas da rede de TV CNN e do portal de notícias paulista Poá com acento, que o evento reuniu evangélicos progressistas, ligados a partidos de esquerda, para discutir como contribuir com o processo de transição em curso e com o futuro governo do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, com foco na questão social. Foram convidados para a reunião pastores, pastoras e deputados federais eleitos que são membros de alguma igreja evangélica.
Em entrevista, um dos participantes do evento, o pastor coordenador da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, Ariovaldo Ramos, explicou que o evento também teve caráter celebrativo da vitória nas urnas, e da participação de evangélicos na campanha. Os presentes tiveram tempo para discutir como apoiar o governo Lula e trabalhar com a base evangélica, além de também dialogar sobre como as lideranças progressistas poderão garantir um processo de interlocução com o governo Lula.
Ramos reconhece que houve uma “overdose” de evangélicos no governo Bolsonaro, de uma forma que o pastor considera “errada, pois comprometeu a laicidade do Estado”. Porém, o pastor alerta que não se pode desconsiderar que os evangélicos são uma parcela relevante da população e que há de se dialogar com ela e “trabalhar nas bases e construir uma consciência evangélica”.
A reunião foi pauta do programa Visão CNN, na edição de 11 de novembro. Na abordagem do canal de TV, o jornalista Leandro Resende afirma que, entre os encaminhamentos, estão o chamado a igrejas pequenas e independentes para atuarem com o governo Lula, sobretudo em projetos de assistência social.
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Bereia classifica as publicações de Gospel Prime como enganosas. O veículo usa um vídeo postado pelo pastor Paulo Marcelo Schallemberger, em matéria sem apuração sobre o evento e o contexto da fala do pastor. A matéria no site e o tuíte do Gospel Prime atuam para alimentar desinformação fartamente utilizada no período eleitoral para impor medo de que um novo governo Lula representaria uma ameaça às igrejas e a cristãos.
Ao afirmar que o “pastor está ensinando petistas se infiltrarem em igrejas e enganarem pastores”, o Gospel Prime manipula a informação compartilhada pelo pastor Paulo Marcelo, retirando-a do contexto original.
A publicação se apresenta como matéria jornalística, porém se configura uma interpretação descontextualizada com a intenção de promover rejeição ao pastor Paulo Marcelo e ao governo do presidente eleito em 30 de outubro entre leitores e leitoras evangélicos.
Bereia afirma o valor de um amplo debate público, com o direito à crítica e à oposição a governos, a políticos e a apoiadores deles, marca do processo democrático. Porém alerta que este debate deve ser conduzido com conteúdo verdadeiro, marcado pela dignidade, garantindo a leitores e leitoras o direito à informação.
Direto ao ponto: a situação que começamos a viver a partir deste 30 de outubro se tornou pertinente para uma reflexão sobre fé e eleições. Convertido à fé evangélica desde os meus 14 anos, acompanho o uso do púlpito por candidaturas políticas que se tornou intenso com o bolsonarismo.
E a vitória do candidato do PT é, também, um resultado disso. Parte dela veio do voto silencioso. Muitos evangélicos acuados pela versão “venha para Jesus e vote em Bolsonaro”, com gritos de “mito” em cultos e batismos e a elevação de um humano num pedestal simplesmente causaram uma rejeição somada: já há alguns anos os próprios “candidatos da igreja” nem sempre conseguem ser eleitos e isso é, claramente, porque os próprios membros não os elegem.
Muitas igrejas evangélicas tornaram-se terreno fértil para teorias da conspiração e pânico moral. O apoio a um candidato vem com uma série de informações polemizadas, alarmistas, sem rastro de racionalidade, como visto nos últimos anos. Não há sequer esclarecimento sobre as notícias, existe apenas a veiculação conveniente.
A defesa cristã foi sequestrada pelo discurso partidário, pelo personalismo com pitada de messianismo, e o outro feito de inimigo em uma luta pelos “princípios” da fé. Não assumem que, na realidade, nunca haverá um candidato que corresponda aos anseios cristãos. Vamos criar uma lista para competir? É nisso que vamos reduzir a nossa fé? É a ideologia partidária que vai substituir as doutrinas do evangelho?
Não há voto cristão sem constrangimento, pois nunca haverá um candidato suficiente que corresponda a nossa fé. O mundo, a humanidade, os ideais, sempre apresentarão lacunas nos princípios, quanto mais estar em um partido! Sempre ocorrerá o constrangimento sobre em quem votar, pois, a humanidade está em jogo e homens imperfeitos pleiteiam cargos públicos. Um cristão nunca estará satisfeito sobre seja quem for e, no final, sobra ódio, pessoas excluídas e descrédito para as instituições religiosas que afirmam representar Aquele cujo Reino é superior a tudo isso.
Nosso país passou por um momento decisivo, e líderes religiosos optaram por entrar em jogos de mentira, deturpar notícias e não perceberam que, no silêncio, as pessoas calaram-se para conviver em suas comunidades, rejeitando, porém, suas “orientações”.
A presença dos evangélicos no Brasil é fato incontestável, com atuação em vários campos da sociedade e, de fato, ainda existe uma resistência em alguns setores para a presença de pessoas que não escondem a sua fé. O evangélico conservador sofre dificuldades em meios políticos mais progressistas – que desejam o seu voto e pouco a sua voz. A participação política faz parte da vida em sociedade. Todavia, esse caminho, que mistura pregação, espiritualidade e conveniência, está causando uma ferida difícil de curar.
Na defesa da família, partidos com candidatos cristãos votaram em mudanças nas leis que, na prática, deixam pais e mães cada vez mais ausentes de seus filhos pela necessidade de trabalhar. Pessoas estão passando fome e essa gravidade social se tornou menos importante que o direito às armas. Fantasmas do comunismo e sobre professores que ensinarão o filho a ser gay ultrapassaram a razão. E depois do pleito deste domingo, ainda candidatos apoiados por pastores continuaram sustentando uma narrativa de inimigos do “povo de Deus”.
A categoria “evangélico” caminha para um patamar mais político do que religioso, dando espaço para o fundamentalismo que incita a violência em nome de Deus. E Jesus já nos advertiu sobre esse perigo. Nunca haverá um candidato que corresponda de maneira suficiente aos anseios da fé cristã genuína, da qual nenhum segmento possui a patente. Não existe voto sem constrangimento, mas, combate à desinformação e aos discursos inóspitos do bem contra o mal são saudáveis para restaurar as comunidades evangélicas fraturadas. E se os líderes não escolherem esse caminho, o povo pode escolher.
**Os artigos da seção Areópago são de responsabilidade de autores e autoras e não refletem, necessariamente, a opinião do Coletivo Bereia.
Eleições definidas. Entre outros grupos que apoiaram o presidente derrotado, é preciso saber como se posicionarão os evangélicos bolsonaristas. Não tanto todos e todas que votaram em Bolsonaro, mas o grupo bolsonarista evangélico. O grupo que construiu o argumento da família e dos valores tradicionais, do antiesquerdismo visceral, do punitivismo, das armas e da defesa do neoliberalismo. Essas pessoas criaram um discurso evangélico de direita sobre a política, a sociedade e a própria fé. Tiveram notável sucesso em mobilizar a “consciência hermenêutica” dos evangélicos – isto é, sua propensão a “ler o mundo” permanentemente em busca de sinais da ação divina e de orientações para sua conduta – vem como em mobilizar a paixão em termos de um “programa”. Foram os evangélicos bolsonaristas que mais longe chegaram no intento de dar um nome e um roteiro como norte da política evangélica no Brasil, a mais bem-sucedida de toda a América Latina. Bolsonaro + um “neoconservadorismo à brasileira” (penso na versão americana dessa palavra, como “modelo” da direita brasileira).
O termo “evangélico” foi apropriado pela direita evangélica – primeiro a pentecostal, depois a histórica. Qualquer observação minimamente sensível do campo evangélico revela a heterogeneidade de posições em todas as direções. Mas “os evangélicos” foi tão solidamente hackeado pela direita que, simbólica e numericamente, passou a designar toda a população protestante. Primeiro, um “povo evangélico” de direita. Depois, um ator assim nomeado, “os evangélicos” pretendendo dirigir uma “maioria cristã”.
Pois bem, da velha identidade “apolítica” pré-democratização, a direita evangélica pretendeu reforçar o adesismo governista – a velha ideia de respeitar e obedecer às autoridades, orar por elas … apoiá-las, votar nelas, de modo quase incondicional. O governismo sempre foi corolário do “apoliticismo” evangélico. Também foi capitalizada a leitura moral dos acontecimentos (bem/mal, luzes/trevas, fé/descrença – ou seja, conversão evangélica ou recusa à mesma). A ela foi acrescida essa politização da “família” e do gênero (a “mulher virtuosa” e a heterossexualidade normativa).
Em terceiro lugar, o velho anticomunismo predominante entre os evangélicos desde os anos 1960, foi “atualizado” como crítica da “esquerda” em geral – democrática, socialista, comunista, anarquista, sindical, ongueira, eclesial, ou seja, qualquer pensamento da igualdade e da solidariedade que resista ao individualismo radical e à subordinação do estado ao poder das corporações, dos bancos e dos “empreendedores”. A perseguição aos evangélicos não-reacionários se intensificou enormemente sob a batuta da direita evangélica, muito ao modo dos tempos da ditadura, quando o governismo era defendido como tradução do apoliticismo e se expulsavam os dissidentes, após tentativas múltiplas de intimidação e desqualificação dessas pessoas.
Pois bem, entramos numa nova fase desse jogo. Agora a direita evangélica perdeu espaço no Congresso, perdeu seu “Ciro” (refiro-me ao governante persa do mundo antigo que, sendo pagão, foi considerado um “messias” – ungido, escolhido – para reconduzir o povo judeu no exílio a sua terra), seu Trump dos trópicos, e perderá seu controle arbitrário sobre a dissidência nas igrejas. Uma possibilidade é que se entrincheire denominacionalmente e vejamos uma debandada de fiéis não-bolsonaristas, reforçando uma divisão política no meio evangélico. Outra possibilidade é que os dissidentes consigam, em algumas denominações, reequilibrar o jogo e desalojar os mais reacionários de suas posições de mando.
Na política institucional, agora a direita evangélica será oposição. Foi oposição num momento de fragilidade do lulismo, entre 2014 e 2016. Mas agora será oposição fora do poder. Como se comportará? Vai manter-se como base do golpismo e da fragilização da democracia? Vai se tornar propositiva (como ensaiou a Frente Parlamentar Evangélica no governo Temer, com seu Manifesto ornitorrinco)? Perderá consistência? Será a primeira vez desde 1986 que suas posições estarão claramente do lado de fora da nova coalizão dirigente. Não sabemos se estará à altura do desafio de ser oposição político-religiosa.
Outro desafio é interno. Que “spin” vai ser dado ao discurso do governismo e do “biblismo político” (aquele código de leitura seletiva da Bíblia que legitima as alianças sociais e eleitorais e o programa da direita evangélica)? Se “o cristão” tem que obedecer às autoridades e orar por elas (sem ironias ou hipocrisia), a direita vai honrar seu ensino? Se ser de esquerda é ser anticristão, vai-se continuar rejeitando e perseguindo as vozes nas igrejas que não só se fizeram ouvir, mas estão mais organizadas do que nunca antes nas últimas quatro décadas? Vão partir pra disputa interna, transformando de vez as igrejas em campos de batalha ideológica? Como responderão as igrejas evangélicas à convocação do novo presidente a que se envolvam nos Conselhos a serem recriados, a participarem das conferências de políticas públicas, agora que cravaram anos de envolvimento direto no desenho e implementação de políticas “alternativas” nos governos Temer e Bolsonaro? Terão algo a dizer e propor? Quererão?
E como se comportarão os anti-bolsonaristas em relação aos líderes evangélicos bolsonaristas – alguns e algumas vitoriosos/as eleitoralmente, mas lançados à oposição (de direita, sem mais subterfúgios linguísticos, como “de centro” ou “conservadores”)? Vão peitar seus irmãos e irmãs? Vão enquadrá-los/las em nova guerra de posições dentro e fora das igrejas?
Ao que parece, ainda tem muita água pra rolar nesses primeiros meses pós-eleitorais. Algumas escaramuças serão conjunturais, mas há lances estratégicos a serem jogados na política evangélica no país, agora que ninguém mais duvida de que a religião pública – ou seja, a religião vivida em público, politizada e contestada publicamente em suas razões e ações – está aí pra ficar por bem mais tempo.
* Matéria atualizada em 06/10/2022 às 21:25 após novas informações surgirem após a publicação
Bereia recebeu de leitores indicação de checagem de um vídeo de um influencer digital que se identifica como “satanista”, que faz a previsão de uma vitória de Lula no primeiro turno das eleições brasileiras de 2022. O vídeo viralizou, especialmente entre cristãos, com acusações a Lula de ser vinculado e ter o apoio de satanistas e causou muitas reações nas mídias digitais.
Imagem: reprodução da internet
O homem que fala no vídeo é Vicky Vanilla, influenciador digital, com quase 1 milhão de seguidores no TikTok e que se apresenta como “mestre e líder da Igreja de Lúcifer do Novo Aeon”.
No vídeo que viralizou, Vanilla aparece em local com bandeira de Lula ao fundo, fala sobre suposta união de diferentes religiões, de segmentos satanistas e do ocultismo em nome da vitória do ex-presidente no primeiro turno de 2 de outubro.
O conteúdo foi publicado na sexta-feira, 30 de setembro, dois dias antes do pleito, e passou a ser compartilhado nas redes bolsonaristas no domingo, quando o resultado se encaminhava para definição por um segundo turno.
O Portal de Notícias da Record R7 e sites gospel como o Pleno News deram destaque ao vídeo.
Imagem: reprodução do R7
Imagem: reprodução do Pleno News
Vídeo falso, conteúdo manipulado
Antes mesmo que Bereia concluísse a pesquisa deste conteúdo, vários projetos de checagem de conteúdo, como Aos Fatos, e veículos jornalísticos, como o Correio Braziliense, já haviam publicado uma verificação indicando a falsidade de tal material.
Na tarde do dia 3 de outubro, a campanha de Lula publicou nota intitulada “Lula é cristão. Não existe qualquer relação com satanismo”. No texto, a campanha afirma: “A verdade, como já repetimos antes, é que Lula é cristão, católico, crismado, casado e frequentador da igreja. Não existe relação entre Lula e o satanismo” (…) Quem espalha isso é desonesto e abusa da boa-fé das pessoas. O vídeo circulou em muitos canais do Telegram e grupos de WhatsApp e comprova como os apoiadores de Bolsonaro abusam da boa-fé das pessoas”.
O próprio envolvido no conteúdo, Vicky Vanilla, publicou um vídeo para desmentir o caso e declarar que foi feita uma montagem a partir de imagens tiradas de contexto e chama a publicação que viralizou de “fake news”. “Está sendo espalhado como uma fake news tanto a meu respeito, quanto a respeito do candidato Lula, que não tem qualquer ligação com a nossa casa espiritual”, completou Vanilla. O influenciador disse ainda que recebeu diversas ameaças depois que o material foi espalhado: “o bastante para fazer um boletim de ocorrência e entrar com representação judicial contra meus agressores”, destacou.
No perfil de Vicky Vanilla no TikTok, são encontrados conteúdo pró-Lula e anti-Bolsonaro. Porém há postagens em que ele ataca o candidato do PT de forma intensa e chega a associá-lo ao nazismo.
Viralização
Além de ter sido divulgado pelo Portal da Rede Record R7, por sites gospel e mídias sociais de lideranças e fiéis religiosos, o vídeo falso foi publicado pela deputada federal reeleita Carla Zambelli (PL-SP), que o utilizou para chamar seguidores para uma “guerra espiritual” no segundo turno das eleições, “do bem contra o mal”. Ainda na terça-feira, 4 de outubro, mesmo depois do desmentido da campanha de Lula e do próprio Vicky Vanilla, o senador eleito Cleitinho (PSC-MG) divulgou o material falso para convocar o voto “dos mais de 40 milhões de brasileiros que se abstiveram no primeiro turno por Jair Bolsonaro” (na verdade, foram cerca de 32 milhões de abstenções).
Imagem: reprodução do Instagram
Até o momento em que esta matéria foi concluída o conteúdo falso ainda estava visível em todos estes espaços digitais.
ATUALIZAÇÃO: O Tribunal Superior Eleitoral determinou que o vídeo fosse tirado do ar nesta quinta, 6 de outubro.
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Bereia reafirma o que já foi publicado por agências de checagem e veículos de mídias: o vídeo que ainda circula vinculando o ex-presidente Lula a uma seita satânica é FALSO. Além de tal vinculação ter sido negada pela campanha do candidato, o próprio envolvido no conteúdo desmentiu sua participação e denunciou a montagem.
Bereia alerta seus leitores e leitoras para materiais divulgados durante o processo eleitoral para destruir a imagem de candidatos. Quem receber este tipo de conteúdo não deve compartilhar sem antes verificar a veracidade.
Em 1998 Sergio Arau dirigiu o brilhante curta-metragem “Um dia sem mexicanos”. Alguns anos depois, em 2004, o curta se tornou um filme não tão bom, mas que popularizou a ideia que o roteiro da atriz Yareli Arizmendi desenvolveu e que é inusitada: na Califórnia, em uma manhã aparentemente normal não havia mais mexicanos nos EUA. Eles haviam sumido. O que seria da Califórnia, Estado em que 30% da população é mexicana, sem a presença desses responsáveis principalmente pelos serviços e outros trabalhos fundamentais para que as coisas funcionem?
Pensar numa situação inusitada como essas pode dar a oportunidade para importantes reflexões e a impressão que tenho é de que suprimir um segmento similar da população, no caso brasileiro os 30% de evangélicos que aqui residem, seria o desejo de alguns, especialmente no dia 2 de outubro. Ter esse dia sem evangélicos parece ser o necessário para aqueles que não querem a reeleição e que esperam ver a alternância de poder na Presidência.
Se sem mexicanos a Califórnia pararia, as pesquisas parecem indicar que sem evangélicos seria certa a eleição de Lula no primeiro turno. São 150 milhões de eleitores habilitados a votar, se tirarmos os 30% de evangélicos, pelos dados do agregador do Estadão, teríamos Lula com cerca de 60% dos votos válidos. Uma vitória no primeiro turno estaria garantida.
Alguns, erradamente, teimam em atribuir uma pretensa culpa pela vitória de Bolsonaro em 2018 a este segmento. Naquela época escrevi um artigo em que busquei demonstrar que obviamente houve um importante papel do grupo na vitória, porém foi mais um dos vários componentes mobilizados pela campanha que redundou na vitória do candidato nas urnas (eletrônicas). Também cabe lembrar que ninguém é só evangélico, as pessoas são múltiplas e vários elementos contribuem para a nossa identidade e tomada de decisão.
Os evangélicos são o grupo religioso que mais considera a opinião de seus líderes na hora de decidir o seu voto, pesquisas indicam que cerca de 1/3 leva a opinião do líder em consideração. Os evangélicos também possuem impressionantes capilaridade social e organicidade, promovendo regularmente reuniões, sendo mais rápida e efetiva a comunicação voltada para esse grande contingente da população.
No mundo digital também se destacam, 92% destes afirmaram possuir grupos de WhatsApp ligados à sua igreja ou religião. E possuem vários grupos, como demonstrou a pesquisa “Caminhos da Desinformação”. Entre católicos esse percentual foi de 70% e em outras religiões abaixo dos 50%. Essa profusão de grupos são um caminho aberto para a circulação de informação, propaganda eleitoral e, não podemos esquecer, desinformação.
Um outro elemento importante é uma significativa presença de confiança interpessoal entre evangélicos, dessa forma a tomada de decisão relacionada a “em quem votar”, se reveste de uma grande oportunidade para diálogos e trocas que consideram o compartilhamento de uma percepção de projeto que tem na igreja e nos irmãos e irmãs um importante elemento.
Ter o voto desses fiéis exige investimento de recursos e de tempo dos candidatos, salientando que por haver uma maior importância das lideranças se estabelece um outro patamar de complexidade. Em um artigo publicado em 1996 explorei isso a partir da antropologia política evocando a importância da brokerage e de como a Igreja Universal inovava em um modelo de clientelismo em que a própria igreja desempenhava um papel de intermediária na relação entre eleitor e candidato.
Porém é importante frisar de que penso estarmos longe disso ter um sentido determinístico ou de alimentar teses sobre alienação e dominação. Podemos estar diante, em alguns casos, de situações que têm sido chamadas de “voto de cajado”, em uma atualização do “voto de cabresto” tão bem retratado na literatura sociológica por Victor Nunes Leal. Se isso é fato, por outro lado, também estamos diante do reconhecimento da presença e relevância social de um setor da população que há pouco tempo recebia em muitos casos olhares de desprezo por sua menor escolaridade, origem humilde e posição subalterna. As formas de alcançar esse público estão por ser descobertas e exigem atenção.
Parece que alguma coisa mudou por aqui e, talvez, da mesma forma que ao final do filme os moradores da Califórnia chegaram à conclusão de que não podiam viver sem os mexicanos, pode ser que nessas eleições de 2022 finalmente os partidos estejam devidamente conscientes de que precisam fazer campanha e dialogar com os/as evangélicos/as e suas lideranças de uma forma atenta e estruturada.
Já que não é possível uma eleição sem evangélicos, a disputa passa por garantir o aumento de votos neste segmento, isso parece ser um foco por parte das duas candidaturas à frente nas pesquisas. Isso se torna especialmente central para Bolsonaro, pois todas as suas tentativas de obter mais votos fracassaram em meio aos auxílios e à PEC Kamikaze. Parece que nessa reta final só lhe resta aumentar seus votos junto a este público que lhe deu ampla vantagem em 2018 e que tem dado sinais de uma certa manutenção da fidelidade. A candidatura do atual presidente sabe que precisa ampliar sua presença no segmento e que somente com ela será possível enfrentar Lula em um segundo turno.
Já para Lula a questão é a mesma, só que com o polo invertido. Isso se torna particularmente necessário diante da situação em que algumas das lideranças midiáticas e denominacionais atuam de forma dedicada na defesa da candidatura de Bolsonaro e, por meio de ações variadas como o acionamento de suas redes e instituições em uns casos e em outros até mesmo pela utilização de meios coercitivos, tomam lado e fazem campanha contra Lula. Um desempenho melhor entre evangélicos pode representar a chancela necessária para uma vitória no primeiro turno. O desafio envolve, então, a definição de um “modo petista” de se fazer campanha para/com evangélicos. Esta é uma condição que se coloca não só para essa, como também para as próximas eleições.
Novas formas de ativismo passaram a compor o cenário político brasileiro, traduzindo as mudanças significativas na organização e mobilização política na era das novas tecnologias, mídias sociais, influenciadores digitais, disparos de mensagens em massa etc, conferindo à esfera pública digital e à opinião pública um papel fundamental sobre as mediações que realiza entre os cidadãos e o Estado.
A pesquisa “Cara da Democracia no Brasil” realizada pelo Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação fornece algumas pistas para tentar compreender estas e outras importantes mudanças no comportamento, nas atitudes, nas crenças e valores dos cidadãos brasileiros com relação à democracia, temas que dominam o debate público desde a eleição de Jair Bolsonaro, como legalização do aborto, descriminalização das drogas e direitos das chamadas minorias.
De acordo com a pesquisa, o dobro dos brasileiros se diz mais à direita do que à esquerda no espectro político. Entretanto, devemos levar em conta que a compreensão do significado do que é pertencer à direita ou esquerda não alcança a maioria da população, e muitas percepções mudam ao longo do tempo.
Direita e esquerda
Os termos direita e esquerda no campo político surgiram no turbulento período da Revolução Francesa de 1789. Durante os acalorados debates na Assembleia Constituinte a respeito do poder que o rei Luís 16 deveria ter a partir daquele momento, o grupo conservador, favorável à manutenção dos poderes da monarquia, ficaram à direita; enquanto os progressistas ou revolucionários, que defendiam diminuir os poderes do rei, sentaram-se à esquerda.
Com o passar dos anos, as diferenças entre os grupos evoluíram para outros temas, além dos poderes da monarquia, que pouco tempo depois chegou ao fim. Com a direita em busca de uma república vinculada à Igreja e um Estado com mercado liberal e a esquerda lutando por um Estado laico e regulador na economia. Em alguns países os termos progressistas e reacionários, conservadores e liberais ou democratas e republicanos nomeiam esses espectros políticos opostos. No Brasil, mais de 200 anos depois das discussões na França, os campos da esquerda e direita, com diversos tons entre os extremos de cada lado, continuam polarizando o debate político.
A pesquisa “A Cara da Democracia”, para tentar compreender onde cada brasileira está posicionado neste debate, apresentou um questionário no qual os entrevistados deveriam marcar de 1 a 10, sendo 1 o máximo à esquerda e 10 o máximo à direita.
Imagem: reprodução de O Globo
Entretanto, chama atenção na pesquisa – para além de uma direita sedimentada que convive com algumas opiniões progressistas pontuais – o grande número de brasileiros que acreditam em teorias da conspiração. Apresenta-se como um desafio compreender de que maneira essas bizarras teorias ocuparam o imaginário social, o conjunto de crenças, de parte da população.
É espantoso que 20% dos entrevistados acreditam que a Terra é plana, 21% que a cloroquina cura a covid-19, e 27% não acreditam que o ser humano pisou na lua. No aspecto “ideológico” das conspirações, os números são ainda maiores, 49% acreditam que a China criou a covid-19 e uma das teorias mais difundidas pelo bolsonarismo, o globalismo (ideia de que a globalização econômica passou a ser controlada pelo “marxismo cultural”), é acolhida por 44% dos entrevistados, que acreditam em uma conspiração global da esquerda para tomar o poder no mundo. O falecido guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho e o ex chanceler Ernesto Araújo difundiram o globalismo incansavelmente.
Imagem: reprodução de O Globo
Como explica a jornalista e doutora em Ciências da Comunicação Magali Cunha, em seu artigo O lugar das mídias no processo de construção imaginária do “inimigo” no caso Marco Feliciano, “os seres humanos vivem de imagens, vivem de imaginação socialmente construída, o que forma e reforma suas crenças, sua linguagem e suas atitudes frente às demandas da vida e do outro”.
Desta maneira, “o imaginário é, portanto, um componente da existência humana como experiência marcadamente social, que dá sentido à vida coletiva e é ressignificado por ela. Imaginário é a elaboração coletiva da coleção de imagens formada pelo ser humano, de tudo o que ele apreende visualmente e experencialmente do mundo.”
Na campanha eleitoral de 2018, Jair Messias Bolsonaro reuniu os discursos conservador tradicional, neoliberal, populista e religioso em uma nova combinação e elaborou uma retórica sem precedentes no Brasil. Tal rearticulação discursiva materializa um projeto hegemônico para a constituição de uma nova base e agenda política, liberal na economia e conservadora nos costumes, que é uma das facetas de um projeto político mais amplo de reestruturação da hegemonia do bloco centrado na elite econômica e financeira do país em novas condições.
De acordo com o sociólogo Jessé Souza, “distorcer o mundo social é parte do projeto das classes dominantes para subjugar os demais segmentos da sociedade e se apropriar da riqueza nacional e só a percepção adequada da dimensão cultural e simbólica da vida social nos permite uma compreensão mais profunda e verdadeira da vida que levamos como indivíduos”. No Brasil de Bolsonaro, as pautas morais e o inimigo comunista alimentam o imaginário de grande parte da população. As mídias sociais são o caminho.
“Engenheiros do Caos”
Na obra “Os Engenheiros do Caos: Como as fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições, Giuliano da Empoli (2019) refaz os caminhos percorridos por figuras como Gianroberto Casaleggio_ cofundador do partido italiano Movimento Cinco Estrelas e um dos primeiros a utilizar a internet e as redes sociais para fazer política, Steve Bannon – guru de Donald Trump e um dos principais nomes da ultradireita no mundo, Milo Yiannopoulos – comunicador e “blogueiro” inglês, apoiador convicto da “liberdade de expressão” e crítico feroz do “politicamente correto” e Arthur Finkelstein – conselheiro de Viktor Orban, presidente ultraconservador da Hungria, que juntos “estão em vias de reinventar uma propaganda adaptada à era das selfies e das redes sociais, e, como consequência, transformar a própria natureza do jogo democrático”. Esses são os Engenheiros do Caos.
O engajamento técnico: curtidas, comentários e compartilhamentos, tão buscados pelos executivos de marketing e publicidade das grandes empresas, é também o objetivo desses “profissionais” da esfera pública digital. Assim, colocam os algoritmos das redes sociais digitais ao seu favor, pois se os programadores do Facebook ou Instagram, por exemplo, trabalham para atrair e prender a atenção dos usuários pelo maior tempo possível, os algoritmos e ferramentas dos Engenheiros do Caos têm a mesma finalidade, capturar a razão dos indivíduos, neste caso, através da emoção, com iniciativas como o projeto Brasil Paralelo, produtora de conteúdo de extrema-direita, inspirado nas ideias de figuras como Olavo de Carvalho. Buscam “recontar” a História do Brasil, e as teorias da conspiração são a matéria prima de suas produções e documentários. Um projeto que à primeira vista pode parecer independente e feito por alguns jovens conservadores com “uma ideia na cabeça”, é parte de um movimento bem orquestrado, organizado e muito bem financiado.
Não importa se as posições apresentadas são absurdas, mentirosas ou fantasiosas, pois estão pautadas em uma questão numérica de engajamento e não são baseadas em valores éticos. A meta é identificar e hackear as aspirações e os temores dos usuários das mídias sociais digitais e fazer com que interajam com outros que defendem as mesmas posições e com as páginas ou perfis que apresentam estes conteúdos.
Magali Cunha explica que exércitos precisam de inimigos e a Teologia de um Deus guerreiro e belicoso sempre esteve presente na formação fundamentalista dos evangélicos brasileiros, compondo o seu imaginário e criando a necessidade de identificação de inimigos a serem combatidos, através dos tempos estes inimigos foram, em maior ou menor grau, a Igreja Católica, as religiões afro-brasileiras, os comunistas e mais recentemente, a população LGBTQIA+. Parte das estratégias no quadro das disputas político-ideológicas baseadas no enfrentamento de inimigos estabelecidos simbolicamente é criar uma “guerra” pela visibilidade, que comumente envolve números e exposição nas mídias.
As consequências na política nacional
Jair Bolsonaro e os seus próprios Engenheiros do Caos deram ainda uma nova roupagem a esse discurso, unindo a ameaça aos valores tradicionais da família e da ameaça comunista. Esses temas não são novos, mas a utilização das redes sociais digitais é a novidade.
Jessé Souza afirma que “colonizar o espírito e as ideias de alguém é o primeiro passo para controlar seu corpo e seu bolso”. De nada adianta os Engenheiros do Caos proclamarem as virtudes do governo atual e demonizar os governos de esquerda se ninguém acreditar nisso. E essa lavagem cerebral, ou melhor, privação sensorial, é turbinada pelas notícias falsas, teorias da conspiração, manipulação de dados e desinformação, turbinados pelas mídias sociais digitais e legitimadas por políticos, religiosos e influenciadores digitais. Algumas vezes, um indivíduo representa tudo isso, como o pastor presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia.
Nessa bolha sinistra que comporta as mais inusitadas ideias e conspirações, os indivíduos em busca de acolhimento, reconhecimento e alguma explicação para seus anseios, parecem cada vez mais presos e hipnotizados. As teorias da conspiração, preconceitos e ódio sempre estiveram entre nós, no entanto, as redes sociais digitais conectaram pessoas com interesses em comum, inclusive os mais negativos. Os Engenheiros do Caos perceberam este poder das mídias sociais digitais e a utilizaram para manipulação da informação com fins políticos.
Derrotar Jair Bolsonaro é, para muitos analistas, fundamental para estancar esse processo do que podemos chamar de privação sensorial. Temos o componente religioso e conservador, um grande número de evangélicos e católicos representados por líderes políticos e influenciadores digitais nada cristãos, além de um grande contingente, independentemente de classe social ou nível de escolaridade, que lê cada vez menos, escreve cada vez menos, interpreta cada vez menos e tem nas mídias sociais digitais sua única fonte de informação.
Contudo, mesmo derrotando o atual presidente nas urnas, esse grupo extremista e seus métodos continuarão em atuação na esfera pública, buscando provocar uma ruptura no sistema democrático. Estes seres não estão mais nas sombras, são métodos e táticas são debatidos em artigos, livros e documentários, mas como um espectro sinistro, são difíceis de abalar ou capturar.