A Engenharia da Credulidade: fé, cognição e a vulnerabilidade à mentira em tempos de eleições

A vulnerabilidade humana à desinformação constitui um dos enigmas mais complexos da atualidade. Em tempos de intensa circulação de dados, a expectativa iluminista de que o acesso universal à informação dissiparia a ignorância revelou-se um equívoco. Ao contrário do esperado, as sociedades contemporâneas testemunham a proliferação vertiginosa de mentiras e teorias da conspiração, encontrando solo fértil em ecossistemas de forte apelo espiritual. No contexto específico da religiosidade brasileira, essa suscetibilidade não decorre de deficiências individuais de inteligência, mas da articulação sofisticada entre mecanismos cognitivos universais, como a visão de mundo, o viés de confirmação e a dissonância cognitiva. Também as transformações estruturais da fé, da mídia e da política no país.

A Arquitetura Cognitiva: Visão de Mundo, Viés e Dissonância

Para compreender a adesão aos conteúdos falsos, é preciso examinar os filtros pelos quais o ser humano processa a realidade. A visão de mundo atua como o sistema operacional da mente, fornecendo esquemas interpretativos que dão sentido ao caos e estabelecem balizas morais e existenciais. No campo religioso, essa visão tende a ser totalizante. Quando uma mentira é estruturada de modo a validar os valores, os medos ou as aspirações de um indivíduo, ela deixa de ser percebida como falsidade e passa a ser internalizada como uma confirmação intuitiva da própria ordem cósmica.

Essa aceitação prévia é blindada pelo viés de confirmação, a tendência inexorável de buscar e privilegiar informações que corroborem crenças preexistentes, descartando dados contraditórios. Em comunidades de fé, onde o pertencimento e a lealdade identitária são cruciais, o viés de confirmação é intensificado por normas coletivas. O indivíduo raramente avalia o fato de forma isolada; ele avalia o quanto a narrativa preserva sua coesão com o grupo.

Quando o embate com a realidade factual se torna inevitável, entra em cena a dissonância cognitiva. Descrita por Leon Festinger, essa condição gera um profundo mal estar psíquico quando crenças e atos entram em colapso. Admitir que uma autoridade respeitada mentiu ou que uma crença central era falsa exige um alto custo emocional. Para evitar a dor da desilusão, o cérebro humano frequentemente opta por racionalizações extremas, dobrando a aposta na mentira em vez de aceitar a fratura de sua identidade moral.

O ecossistema religioso e político do Brasil contemporâneo

Esses processos universais ganham feições dramáticas no Brasil devido a especificidades socio-históricas recentes. A paisagem espiritual brasileira sofreu uma mutação sísmica com o declínio hegemônico do catolicismo tradicional e a expansão capilar do neopentecostalismo. A teologia predominante nesse segmento opera sob uma lógica fortemente dualista: a realidade é concebida como um campo de batalha permanente entre forças divinas e demoníacas.

Nesse cenário, a vulnerabilidade à mentira adquire um tom escatológico. Conteúdos falsos de cunho político ou cultural não são debatidos no terreno da evidência empírica, mas integrados à batalha espiritual. O adversário político ou institucional deixa de ser um divergente democrático para se tornar um agente do mal. Questionar uma mentira veiculada sob essa roupagem equivale, para o crente, a fraquejar na fé ou alinhar-se às forças obscuras.

Paralelamente, a simbiose entre fervor religioso e militância político-partidária, intensificada na última década, gerou câmaras de eco digitais impulsionadas por plataformas de mensagens como WhatsApp e Telegram. Nesses espaços, o líder religioso ou o influenciador digital atua como o supremo curador da realidade. 

Quando a autoridade moral da fé endossa uma mentira com o propósito de proteger o rebanho de ameaças fantasiadas, o cérebro do fiel desliga os mecanismos de ceticismo. A desinformação circula travestida de “testemunho”, “alerta profético” ou “defesa da família”, tornando-se impermeável à checagem de fatos.

O Mercado da fé e a fragilidade estrutural

A eficácia dessa engenharia da credulidade também se apoia em vulnerabilidades socioeconômicas e educacionais. Décadas de precarização no letramento científico e midiático de parcelas significativas da população criaram um vácuo preenchido pelo mercado da fé e pela teologia da prosperidade. A promessa de soluções milagrosas e recompensas materiais imediatas condiciona o indivíduo a aceitar discursos de autoridade sem questionamentos.

Quando a religiosidade é mercantilizada e politizada, a mentira deixa de ser um mero erro de comunicação e passa a funcionar como instrumento de coesão e controle. O medo do ostracismo social – o pavor de ser expulso da comunidade de apoio emocional e material que a igreja representa – silencia qualquer impulso crítico. O indivíduo prefere a segurança da mentira compartilhada à solidão da verdade dissidente.

Perspectivas

A suscetibilidade de pessoas de fé à desinformação no Brasil não revela uma suposta inferioridade intelectual, mas a eficácia com que discursos manipuladores exploram as necessidades mais legítimas do ser humano: a busca por sentido, a ânsia por pertencimento e a necessidade de proteção em um mundo desigual e incerto.

Quando a visão de mundo religiosa é sequestrada por narrativas extremistas, o viés de confirmação e a dissonância cognitiva operam como muralhas intransponíveis contra a realidade. Compreender esse fenômeno exige ir além da crítica moral ao crédulo. É preciso reconhecer que a desinformação no Brasil contemporâneo estruturou-se como um sistema complexo de poder, no qual a mentira, envolta no manto sagrado da fé, converteu-se na mais eficiente ferramenta de engenharia social.

Eleições 2026: Operação contra grupo extremista inclui seminarista católico entre investigados 

Atualizado 11/08/2026 para inclusão de novas informações

A participação de um seminarista católico entre os investigados da Operação Rede Interrompida, deflagrada pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), repercutiu no noticiário e nas redes digitais e gerou diferentes interpretações sobre o caso. A investigação apura a atuação de uma rede extremista suspeita de planejar ações violentas em Brasília durante o período eleitoral de 2026. 

De acordo com a Polícia Civil, o seminarista, vinculado a um mosteiro em Pernambuco, participava das discussões sobre a estruturação nacional do grupo. Bereia verificou as informações sobre a investigação. 

A operação

A Operação Rede Interrompida foi deflagrada em 4 de agosto passado, pela PCDF, com apoio do Ministério da Justiça e Segurança Pública. A investigação teve origem em alertas produzidos pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) em conjunto com o Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), vinculado à Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp).

Foram cumpridos oito mandados de busca e apreensão em Pernambuco, no Paraná, no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e em São Paulo. Os investigados têm entre 19 e 31 anos, não possuem antecedentes criminais. De acordo com a Polícia Civil, estes jovens mantinham contato apenas por ambientes digitais.

As investigações indicam que o grupo utilizava principalmente comunidades no Telegram para compartilhar conteúdos neonazistas, antissemitas e misóginos, recrutar novos integrantes e discutir possíveis ataques contra autoridades e prédios públicos em Brasília durante o período eleitoral. Os investigadores também identificaram a circulação de manuais para fabricação de artefatos explosivos e mensagens trocadas em fóruns da internet e na dark web.

Durante o cumprimento dos mandados, foram apreendidos armas de fogo, facas, canivetes, anotações com referências ao nazismo e um capuz semelhante ao utilizado pela organização supremacista Ku Klux Klan. 

O que se sabe sobre o seminarista investigado?

Entre os investigados está um seminarista católico vinculado a um mosteiro de Pernambuco. Conforme o coordenador de Inteligência da PCDF delegado Maurílio Coelho, a operação teve como foco a coleta de provas, sem pedidos de prisão nesta fase. Até a publicação desta nota, o investigado não havia sido denunciado à Justiça e sua identidade permanecia sob sigilo.

As autoridades não divulgaram o nome do mosteiro nem da paróquia ou da diocese da Igreja Católica à qual o seminarista estaria vinculado. Até a publicação desta nota, também não havia manifestação pública da instituição religiosa sobre o caso. As informações divulgadas pela Polícia Civil não indicam envolvimento institucional da Igreja Católica ou do mosteiro com a investigação, que se concentra na conduta individual dos investigados. 

O Bereia buscou informações sobre o caso com lideranças da Igreja Católica em Brasília e em Pernambuco. As pessoas ouvidas afirmam que desconhecem a situação do investigado identificado como seminarista ou sobre o mosteiro ao qual ele estaria vinculado.

Mais detalhes sobre os planos do grupo vêm à tona

Novas informações divulgadas em 9 de agosto, detalham os planos identificados pela investigação policial. O grupo discutia a possibilidade de explodir o Palácio do Planalto e o prédio onde seria realizado o debate presidencial do segundo turno das eleições de 2026.

As investigações apontam que os integrantes compartilhavam mapas e plantas de prédios públicos de Brasília e discutiam formas de entrada e saída dos locais. Entre os materiais analisados estavam também instruções para fabricação de explosivos e coquetéis Molotov, além de cálculos sobre quantidade de materiais e custos para a execução dos ataques.

De acordo com as informações, o grupo era dividido em duas comunidades no Telegram. A maior reunia mais de 600 integrantes, enquanto um grupo restrito, com 46 pessoas, concentrava discussões consideradas mais radicalizadas e relacionadas à preparação de ações violentas. Um relatório do CiberLab classificou o conteúdo analisado como de alto grau de periculosidade, e apontou planejamento de ações violentas com artefatos explosivos, além da disseminação de ideologia neonazista, misoginia e incentivo à violência.

As novas informações reforçam que a investigação não se limitou à circulação de conteúdos extremistas em ambientes digitais. Conforme os investigadores, havia discussões sobre alvos, materiais, custos e formas de execução dos possíveis ataques. A Polícia Civil, contudo, ainda apura o estágio de desenvolvimento desses planos e se alguma das ações chegou a ser efetivamente iniciada.

A equipe do Bereia continuará acompanhando os desdobramentos do caso e buscando novas informações. Leitores e leitoras que tenham algum conhecimento sobre ele podem entrar em contato com o Bereia pelo número de WhatsApp 21-97884-2525. A identidade de quem fizer o contato será preservada, caso deseje permanecer em sigilo.

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Bereia classifica como inconclusiva a informação de que um seminarista vinculado a um mosteiro em Pernambuco é um dos investigados na Operação Rede Interrompida. O fato foi confirmado pela Polícia Civil do Distrito Federal e pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. No entanto, as investigações ainda estão em curso e não há detalhes sobre quem é o jovem e sobre a instituição católica a que ele está vinculado. Até o momento, não há denúncia apresentada à Justiça e elementos que permitam associar a investigação à Igreja Católica ou ao mosteiro onde o mandado teria sido cumprido.  Bereia ouviu lideranças católicas em Brasília e em Pernambuco que declararam desconhecimento sobre a situação.

As apurações dizem respeito à conduta individual dos investigados e ao funcionamento de uma rede extremista em ambientes digitais. Elas se assemelham a grupos que atuaram em que envolveram pessoas e grupos extremistas de direita que agiram contra o processo eleitoral nas eleições de 2022 e culminaram nos ataques a Brasília em 8 de janeiro de 2023. É preciso atenção a isto.

Referências:

CNN Brasil. https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/elijonasmaia/politica/grupo-que-planejava-ataques-a-autoridades-e-alvo-de-operacao/. Acesso em 5 de agosto de 2026.

Governo Federal. https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/noticias-1/operacao-livia-e-rede-interrompida-mobilizam-ministerio-da-justica-e-seguranca-publica-e-policias-civis-de-oito-estados. Acesso em 5 de agosto de 2026.

Folha de Pernambuco. https://www.folhape.com.br/noticias/seminarista-vinculado-a-mosteiro-em-pernambuco-e-investigado-por/504742/. Acesso em 5 de agosto de 2026.

Folha de Pernambuco. https://www.folhape.com.br/noticias/ministerio-da-justica-e-seguranca-publica-detalha-operacao-para/504661/. Acesso em 5 de agosto de 2026.

Carta Capital. https://www.cartacapital.com.br/justica/operacao-mira-grupo-suspeito-de-planejar-atentado-em-debate-presidencial/. Acesso em 5 de agosto de 2026.

G1. https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2026/08/04/operacao-mira-grupos-suspeitos-de-disseminar-odio-contra-mulheres-e-extremismo-nas-redes.ghtml. Acesso em 5 de agosto de 2026.

Eleições 2026: Campanha contra desinformação nas eleições em espaços religiosos é alvo de mentira de influenciadora cristã candidata 

Poucas horas depois de lançada a campanha de enfrentamento da desinformação circulante em espaços religiosos, durante a eleições de 2026, Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade! , a iniciativa foi alvo de mentira. Circula nas redes um vídeo publicado por uma influenciadora digital evangélica, candidata a deputada federal pelo Novo (RJ), que viralizou nas redes digitais ao afirmar que a campanha  Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade!  teria sido criada pelo governo federal para orientar o voto dos cristãos e favorecer candidatos de esquerda. 

Bereia verificou as declarações e constatou que elas são falsas, pois atribuem à campanha objetivos que não correspondem ao que foi estabelecido pela organização e omitem informações sobre a origem e a finalidade. 

O que é a campanha Boto Fé no Voto?

Lançada nacionalmente em 30 de julho, em Brasília, a campanha Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade! é promovida pela Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) com o Bereia, em parceria com organizações ecumênicas, da sociedade civil para enfrentar a desinformação durante o período eleitoral no Brasil. Com o lema “Eu escolho a verdade”, a iniciativa busca fortalecer a circulação de informações confiáveis, incentivar o voto consciente e estimular o compromisso com a verdade nas eleições de 2026. 

O lançamento ocorreu na Catedral Anglicana de Brasília, em formato de roda de diálogo, e reuniu representantes da CESE, do Bereia, do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), do Coletivo Novas Narrativas, da Cáritas Brasileira, do Fé no Clima/ISER, da Diaconia, da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, entre outros presentes. O encontro teve como tema os impactos da desinformação no processo eleitoral, os desafios da comunicação em ambientes religiosos e o papel das comunidades de fé na promoção da verdade, da democracia e dos direitos humanos.

A campanha lançada será realizada no período eleitoral, e contará com rodas de diálogo, formações, produção de materiais educativos, vídeos, podcasts, cards e outros conteúdos digitais. As ações têm como objetivo incentivar a verificação de informações, ampliar o acesso a fontes confiáveis e promover uma reflexão sobre a responsabilidade ética na circulação de conteúdos e a importância da verdade para o fortalecimento da democracia.

Quem publicou as mentiras?

A autora do vídeo desinformativo é Juliana Fidelis, que se apresenta como “influenciadora digital, humorista e comentarista política”. Ela ganhou popularidade nas redes pela publicação de vídeos de humor sobre o universo evangélico. Como ocorre com muitas personagens nos processos eleitorais anteriores, com base no sucesso digital, nestas eleições, a humorista será candidata à Câmara dos Deputados pelo Partido Novo no estado do Rio de Janeiro. 

Nas redes digitais, onde reúne centenas de milhares de seguidores, a influencer evangélica tem comentado sobre temas ligados ao ultraconservadorismo, ao liberalismo econômico e críticas a governos de esquerda.

Imagem: postagem com o conteúdo enganoso publicada no perfil oficial de Juliana Fidelis

O vídeo com as mentiras alcançou ampla repercussão nas redes digitais. Até a publicação desta checagem, a publicação acumulava mais de 300 mil visualizações, cerca de 7 mil curtidas e mais de 400 comentários.

Quais são as mentiras publicadas?

No vídeo que circula desde 2 de agosto, a humorista evangélica candidata do Novo-RJ afirma que a campanha Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade! teria sido criada pelo governo federal para ensinar cristãos a distinguir “verdade” de “mentira”. Esta afirmação é falsa. A iniciativa não foi criada pelo governo federal, mas por uma articulação de organizações ecumênicas e da sociedade civil. O objetivo é fortalecer a circulação de informações confiáveis, incentivar o voto consciente e promover a educação midiática durante as eleições de 2026. Em nenhum dos materiais oficiais a campanha afirma que cristãos são incapazes de identificar desinformação ou que precisem ser orientados pelo governo. 

Pelo contrário, a CESE e o Bereia já realizaram campanhas com o mesmo objetivo em 2021 e nas eleições municipais de 2024. No material da campanha de 2026 está explicitado que “a desinformação não tem partido nem ideologia, religião, identidade racial, de gênero, de faixa etária ou de escolaridade. Ela pode surgir e ser compartilhada por quaisquer pessoas e grupos. Por essa razão, a campanha Boto Fé no Voto atua de forma apartidária, comprometida exclusivamente com a defesa da verdade, da ética, do diálogo democrático e do acesso a informações verificadas. Toda informação falsa ou enganosa, checada pela campanha, será tratada com o mesmo rigor, independentemente de favorecer qualquer posicionamento político-partidário ou governamental”.

Ao comentar o lema da campanha, “Eu escolho a verdade”, a influenciadora também afirma que a iniciativa seria destinada exclusivamente aos cristãos e ironiza: “Ó, só para quem é cristão, tá?” , e aproveita para criticar o que chama de “governo esquerdista”. O conteúdo apresentado pela influenciadora candidata a deputada federal pelo Novo distorce a proposta da campanha. Embora as comunidades de fé sejam um dos públicos prioritários da mobilização, a iniciativa não se dirige apenas aos cristãos nem estabelece qualquer associação entre o conceito bíblico de verdade e um posicionamento político. O próprio material de divulgação da campanha convida igrejas, organizações da sociedade civil, educadores, comunicadores e toda a população a refletirem sobre a importância da informação de qualidade para a democracia.

Outra afirmação da humorista evangélica é que a campanha foi feita para orientar o voto de cristãos. Este conteúdo é falso. A campanha Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade!  não orienta o voto de cristãos nem de qualquer outro segmento da população. De acordo com a organização, a iniciativa surgiu diante da preocupação com o aumento da circulação de conteúdos falsos e enganosos em ambientes religiosos durante os períodos eleitorais. Estudos acadêmicos, investigações jornalísticas e iniciativas de monitoramento identificaram que, nas últimas eleições, mensagens falsas e descontextualizadas circularam amplamente em grupos de aplicativos de mensagens e em redes digitais seguidos por pessoas de comunidades de fé, influenciando o debate público e o comportamento eleitoral.

A organização reafirma que os materiais oficiais da campanha não indicam candidatos, não recomendam partidos e não orientam o voto em nomes específicos. A proposta é promover educação midiática e estimular o consumo crítico de informações, para que o eleitorado com vinculado a uma comunidade de fé possa identificar conteúdos falsos ou enganosos antes de compartilhá-los.

Por que comunidades cristãs são destacadas?

A escolha das comunidades cristãs como um dos públicos da campanha, por sua vez, está fundamentada em pesquisas sobre a circulação da desinformação em ambientes religiosos. O Bereia surgiu justamente a partir de um estudo desenvolvido pelo NUTES/UFRJ, que investigou a propagação de conteúdos falsos entre grupos religiosos no WhatsApp e em outras redes digitais. As pesquisas indicam que cristãos tendem a absorver e difundir com maior intensidade conteúdos falsos e enganosos, não por uma suposta incapacidade de distinguir verdade de mentira, mas porque a confiança construída nas comunidades de fé favorece o compartilhamento de mensagens recebidas de líderes e pessoas próximas. Soma-se a isso o chamado “espírito missionário”, que incentiva a divulgação do que muitos fiéis entendem como uma “verdade revelada”, além da frequente exploração de discursos de pânico moral e medo por produtores de desinformação

Assim, ao afirmar que a campanha parte da premissa de que “o cristão não sabe o que é verdade” ou que foi criada para favorecer o governo federal, a candidata do Novo-RJ inventa objetivos e despreza o contexto que motivou a criação a iniciativa: o enfrentamento à circulação recorrente de desinformação em ambientes religiosos, fenômeno amplamente documentado por pesquisas acadêmicas e pelo trabalho de monitoramento realizado pelo Bereia.

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Bereia classifica, portanto, o conteúdo publicado pela influenciadora evangélica candidata a deputada federal pelo Novo-RJ como Falso. Ela mente deliberadamente  ao afirmar que a campanha educativa de organizações ecumênicas e da sociedade civil foi criada pelo governo federal para orientar o voto de cristãos e para favorecer um grupo político. O material de divulgação da campanha, disponível a qualquer pessoa, e o evento de lançamento, realizado em Brasília, aberto ao público (e registrado em vídeo) mostram quem promove a campanha e a quê ela se destina. É explicitamente declarado que a iniciativa não apoia candidatos ou partidos políticos e tem como finalidade incentivar o consumo crítico de informações e o enfrentamento à desinformação durante as eleições de 2026. Espera-se, com a campanha, que o eleitorado vinculado às comunidades de fé exerça livremente o direito de escolher em quem votar, sem influências nocivas, como esta exposta no próprio conteúdo mentiroso espalhado pela influenciadora evangélica que tem interesse eleitoreiro.

Bereia alerta leitores e leitoras a não assimilarem e compartilharem conteúdo crítico e acusatório a qualquer pessoa, grupo, iniciativa, sem antes verificar a validade e a veracidade do que está sendo dito. Quem propaga mentira quer esconder a verdade e não deseja que as pessoas pensem por elas próprias e se baseiam em informação e conteúdo confiável e justo.

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Referências:

Cese. https://cese.org.br/noticia/boto-fe-no-voto-campanha-nacional-mobiliza-comunidades-de-fe-para-enfrentar-a-desinformacao-nas-eleicoes-de-2026/. Acesso em 3 de agosto de 2026. 

G1. https://g1.globo.com/df/distrito-federal/eleicoes/2026/noticia/2026/07/31/boto-fe-no-voto-acao-mobiliza-igrejas-de-todo-o-pais-contra-a-desinformacao-nas-eleicoes-2026.ghtml. Acesso em 3 de agosto de 2026. 

Foto de Capa: Unplash

Portal de notícias e perfis em redes promovem falso atentado a ministro do STF

A informação de que um avião que transportava o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e pastor presbiteriano André Mendonça teria sofrido “decolagem abortada após falha mecânica” circula nas redes digitais nos últimos dias, entre websites e perfis nas redes. Bereia recebeu de um leitor uma das publicações, verificou o caso e constatou que a informação é falsa.

Na noite da quinta-feira, 19 de março passado, o ministro do STF havia embarcado em um voo comercial que partiria de Brasília com destino ao Rio de Janeiro. A viagem, no entanto, foi cancelada antes da decolagem. Mendonça e os demais passageiros foram posteriormente reacomodados em outro voo.

Imagem: Reprodução/ Redes sociais

O voo, operado pela Latam Airlines, também tinha como passageiro outro ministro do STF,  Luiz Fux. A companhia informou que a aeronave não chegou a decolar e que a suspensão ocorreu de forma preventiva.

De acordo com a empresa, a decisão foi tomada após indícios de possíveis danos causados na aeronave no voo  anterior, por colisão com uma ave, ocorrência muito comum conhecida na aviação como bird strike. Por esse motivo, o avião foi encaminhado para inspeção técnica, conforme os protocolos de segurança.

Nota oficial da Latam

Em nota enviada à imprensa, a Latam Airlines informou:

“A LATAM Airlines Brasil informa que o voo LA3796 (Brasília–Rio de Janeiro/Santos Dumont), de quinta-feira (19/03), foi cancelado de forma preventiva após a necessidade de inspeção técnica em decorrência de possíveis danos causados por bird strike (colisão com ave) em voo anterior da aeronave.

A companhia ofereceu assistência e reacomodou os passageiros em outros voos. A decisão ocorreu antes do pushback da aeronave (manobra para início do taxiamento). Não houve falha mecânica nem decolagem abortada.

A LATAM reforça que a segurança é sua maior prioridade. Manutenções e verificações técnicas seguem rigorosos protocolos internacionais e são adotadas exatamente para garantir a completa segurança das operações.”

Contexto: colisões com aves

Colisões entre aeronaves e aves, conhecidas como bird strike, estão entre as ocorrências mais frequentes na aviação civil. No Brasil, esse tipo de incidente é monitorado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e, em geral, leva à adoção de medidas preventivas pelas companhias aéreas, como inspeções técnicas e cancelamentos de voos, a fim de garantir a segurança das operações.

Dados do Cenipa indicam que, apenas em 2022, foram registrados 2.294 casos no país, o que representa uma média de uma ocorrência a cada quatro horas. De acordo com o Anuário de Risco de Fauna, o aumento desses registros está associado a fatores como a expansão da malha aérea, o crescimento da frota de aeronaves, a presença de aviões mais rápidos e silenciosos e a maior concentração de aves em áreas urbanas.

Repercussão nas redes digitais

Após a divulgação do caso, a informação passou a circular de forma distorcida nas redes digitais. Veículos de mídia,  como o Metrópoles, replicaram a afirmação de que o voo com o ministro André Mendonça teria sofrido uma “decolagem abortada por falha mecânica”, o que não corresponde aos fatos. A desinformação passou a ser disseminada deliberadamente para fazer crer que o caso seria uma tentativa de atentado ao ministro.

Imagem: Matéria com informação incorreta sobre o caso. Reprodução: Metrópoles

Imagem: Matéria com informação incorreta sobre o caso. Reprodução: Metrópoles

A reprodução desse enquadramento incorreto ocorreu de forma acelerada entre usuários e perfis, principalmente na plataforma X, o que ampliou a desinformação sobre o episódio, com uso político agressivo.

Imagens: Prints da repercussão nas redes digitais. Reprodução: X

A circulação de versões falsas evidencia como conteúdos relacionados a figuras públicas tendem a ganhar maior alcance e sofrer alterações ao serem compartilhados fora de contexto. 

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Bereia classifica, portanto, que a informação de que o voo com o ministro André Mendonça teria sofrido “decolagem abortada por falha mecânica” como falsa. Não houve tentativa de decolagem, tampouco registro de pane mecânica. O que ocorreu foi o cancelamento preventivo do voo, ainda em solo e antes do início dos procedimentos de deslocamento da aeronave, após suspeita de danos provocados por colisão com ave, conforme informado pela Latam Airlines.

A checagem do Bereia evidencia que a distorção dos fatos teve origem na forma como o caso foi apresentado pelo portal de notícias Metrópoles e foi replicado em diferentes plataformas, com a substituição de termos técnicos por interpretações falsas. Ao ser difundida sem o devido contexto, a informação incorreta ganhou alcance e passou a ser tratada como um incidente mais grave do que o efetivamente ocorrido, com utilização política e acusações indevidas.

Referências: 

Uol. https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2026/03/20/voo-com-andre-mendonca-e-cancelado-apos-suspeita-de-dano-em-aviao.ghtm. Acesso em 23 de março de 2026.

G1. https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2023/04/05/brasil-tem-media-de-uma-colisao-entre-avioes-e-passaros-a-cada-4h-entenda-riscos-para-aviacao-comercial.ghtml. Acesso em 23 de março de 2026.

Veja. https://veja.abril.com.br/politica/voo-em-que-estava-andre-mendonca-e-cancelado-por-problemas-tecnicos/. Acesso em 23 de março de 2026.

Aeroin. .https://aeroin.net/aviao-da-latam-com-ministro-do-stf-nao-abortou-a-decolagem-e-voo-foi-cancelado-por-outro-motivo/. Acesso em 23 de março de 2026.

Pastor de Santa Catarina propaga mentiras sobre governo do Brasil colaborar na criação de bomba atômica do Irã

Desde o início do último ataque de Israel ao Irã, em 13 de junho passado, muitos conteúdos falsos pró-Israel que atrelam o governo brasileiro ao conflito bélico têm circulado em ambientes digitais religiosos. Um deles tem como base a justificativa dada por Israel para realizar o ataque, que ocasionou a morte de quase 500 iranianos e feriu mais de 1.500 até o fechamento desta matéria. Israel propaga que realizou um “ataque preventivo” para impedir que o Irã desenvolva uma bomba atômica, apesar de não existirem elementos que comprovem tal projeto. 

Neste contexto, passaram a circular publicações digitais que afirmam que o governo federal, na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, forneceu urânio para o Irã – componente necessário para a criação de bombas nucleares. O conteúdo foi propagado por políticos e influenciadores, compartilhado por usuários das plataformas digitais e veiculado na forma de notícia por mídias que servem à disseminação de desinformação da direita política. As publicações usam de tom apelativo, alegando que os Estados Unidos estariam investigando tal apoio ao Irã e retaliariam o Brasil, sendo Lula culpado por colocar o país na guerra. 

Entre os propagadores deste conteúdo com amplo alcance está o pastor da Igreja do Porto de Cristo (Tijucas/SC) Sandro Rocha. Um vídeo foi publicado por ele, com a divulgação desta pauta, em 16 de junho passado. A veiculação se deu em duas contas do pastor no TikTok, identificadas por codinomes (uma delas com o termo “news”), nas quais o religioso discorre sobre temas diversos alinhados à direita extremista. O vídeo viralizou e foi compartilhado por muitos perfis de mídias sociais e em grupos de WhatsApp. 

O que é falso nestas afirmações

Os conteúdos circulantes afirmam que os Estados Unidos estariam investigando o fornecimento de urânio ao Irã, com base na presença de dois navios iranianos no porto da cidade do Rio de Janeiro, em fevereiro-março de 2023. A este caso é adicionado um vídeo com fala do presidente Lula, em reunião da cúpula dos Brics, em agosto de 2023, destacando a importância do Irã e o convite para que integrasse o grupo, o que justificaria o apoio para a criação da bomba.

Os dois navios militares do Irã de fato atracaram no Rio de Janeiro, em 2023, com autorização da Marinha, publicada no Diário Oficial da União. A atracação de navios militares em serviço, originados de quaisquer países, nos portos brasileiros é prática comum, desde que seguido o protocolo da Marinha brasileira, como ocorreu nesse caso. Não há registro de que esses navios do Irã tenham recebido carga com qualquer conteúdo.

Já o trecho de vídeo com a fala do presidente Lula, diz respeito a entrevista concedida pelo presidente na 15ª Cúpula do Brics (sigla da aliança de países formada por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), realizada de 22 a 24 de agosto de 2023, em Joanesburgo, na África do Sul. O vídeo de 52 segundos, publicado no Youtube pelo portal Metrópoles, em agosto de 2023, destaca, de forma crítica, Lula descrevendo o convite para que o Irã e outras seis nações integrassem aquele grupo de países. 

Em nota publicada neste 17 de junho, a Secretaria de Comunicação Social do governo federal informou que as publicações referentes a este tema são todas falsas, com base nas seguintes informações:
1. O Brasil é signatário de diversos tratados internacionais onde se compromete em não fornecer material nuclear para fins armamentistas. Desde 1998, o Brasil é parte do Tratado sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP). O TNP tem como objetivo promover o desarmamento nuclear geral e completo, impedir a proliferação das armas nucleares e fomentar a cooperação no uso pacífico da energia nuclear. Aberto para assinatura em 1968, o tratado entrou em vigor em 1970. Em 11 de maio de 1995, o TNP foi prorrogado por tempo indeterminado.

2. O controle da atividade nuclear no Brasil é realizado pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e não há qualquer negócio com o Irã neste quesito nem jamais houve.

Registros do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) demostram que as exportações do Brasil para o Irã são de milho e soja. 

Todas as principais agências e projetos de checagem de conteúdo no Brasil publicaram sobre a falsidade deste conteúdo.

Pastor é conhecido propagador de desinformação

O pastor Sandro Rocha acumula uma longa lista de casos de desinformação religiosa e política nas redes sociais, e já foi checado pelo Bereia. Com forte presença digital, ele utiliza lives e vídeos sensacionalistas em múltiplas plataformas para disseminar conteúdos falsos sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e outras figuras públicas, sempre sob um discurso que mistura crença religiosa e teorias conspiratórias.

Após a eleição de Lula, em 2022, Rocha passou a divulgar em seus vídeos que o presidente eleito havia morrido e sido substituído por um sósia. Na época, ele chegou a declarar: “Luiz Inácio Lula da Silva está morto e já está no quinto dos infernos”, diante de uma audiência de mais de 280 mil pessoas. A gravação foi amplamente difundida, e o trecho republicado no TikTok ultrapassou dois milhões de visualizações. Segundo o jornal catarinense Razão, o episódio resultou em uma intimação ao pastor pela Polícia Federal.

Rocha também compartilhou conteúdos desmentidos por diversas agências de checagem. No segundo turno das eleições de 2022, ele publicou no YouTube um tuíte falso atribuído a Fernando Haddad, originalmente desmentido em 2018. No mesmo vídeo, divulgou outra falsidade: que Lula teria incentivado a entrega de armas pela população em 2023. Além disso, Rocha já foi alvo de ao menos duas checagens do Projeto Comprova por propagar conteúdos enganosos de teor político.

Em uma delas, o pastor foi desmentido por afirmar que o drone usado para lançar fezes e urina em um comício de Lula em Minas Gerais,em 2022, teria sido contratado pelo próprio PT, em uma suposta estratégia de autopromoção. Em outra, inventou que o governo Lula teria descoberto a maior reserva de gás natural do mundo no Paraná, mas que o presidente teria criado o Parque Nacional do Iguaçu no local para impedir a exploração e beneficiar Evo Morales, ex-presidente da Bolívia.

O hábito do pastor de divulgar o que anuncia como “profecias” também chamou a atenção de pesquisadores. Em artigo publicado pela Revista de Estudos da Religião (REVER), intitulado “Fake profecias: a desinformação embalada em mensagem divina nas eleições presidenciais de 2022”, os pesquisadores Karla Patriota e Rafael Dantas analisaram vídeos com predições do pastor. Em um deles, Rocha narra visões de manifestações com fumaça, rodovias paralisadas e multidões com rostos pintados, anunciando o retorno de Jair Bolsonaro à presidência como parte de um “plano espiritual”. Ele chegou a prever a morte de Lula antes do final de 2022.

Segundo o estudo, as chamadas “fake profecias” de Sandro Rocha e outros pastores exemplificam o uso da autoridade religiosa como ferramenta de desinformação, mobilizando crenças e simbologias religiosas para reforçar discursos políticos e teorias conspiratórias.

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Bereia classifica a alegação de que o governo brasileiro, sob a gestão do presidente Lula, forneceu urânio ao Irã para a construção de uma bomba atômica como falsa. As publicações que veiculam essa afirmação manipulam informações com conteúdo verdadeiro, como a atracação de navios iranianos no Brasil e a participação do Irã em reuniões do Brics, para sugerir uma colaboração inexistente.

De acordo com a apuração, não há qualquer evidência de fornecimento de material nuclear por parte do Brasil ao Irã. O país é signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares e não possui histórico de cooperação com fins armamentistas com o Irã. Os conteúdos analisados também foram desmentidos por órgãos oficiais do governo federal, além de múltiplas agências e projetos de checagem.

Bereia alerta para o conteúdo veiculado pelo pastor Sandro Rocha, ele tem histórico recorrente de publicação de desinformação com exploração do sentimento religioso e político.

Referências

Agência Brasil https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2025-06/brasil-condena-ataque-de-israel-contra-o-ira-violacao-de-soberania  Acesso 17 jun 2025

BBC 

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy0j0jkxqydo

Acesso 17 jun 2025

Governo Federal

https://www.gov.br/mre/pt-br/delbrasonu/paz-e-seguranca-internacional/desarmamento-e-nao-proliferacao#:~:text=Desde%201998%2C%20o%20Brasil%20%C3%A9,uso%20pac%C3%ADfico%20da%20energia%20nuclear Acesso 17 jun 2025

https://www.in.gov.br/web/dou/-/despacho-decisorio-mb-n-12-de-23-de-fevereiro-de-2023-465773903 Acesso 17 jun 2025

Comprova

https://projetocomprova.com.br/publica%C3%A7%C3%B5es/parque-do-iguacu-nao-possui-reserva-de-gas-e-foi-criado-por-vargas-nao-por-lula/ Acesso 17 jun 2025

Coletivo Bereia

https://coletivobereia.com.br/perfis-religiosos-repercutem-conteudo-falso-sobre-morte-de-lula/ Acesso 17 jun 2025

UOL confere

https://noticias.uol.com.br/confere/ultimas-noticias/2022/10/11/tuite-falso-de-haddad-sobre-a-venezuela-volta-a-circular-4-anos-depois.htm Acesso 17 jun 2025

PUC-SP

https://revistas.pucsp.br/index.php/rever/article/view/65154/45505 Acesso 17 jun 2025

Jornal Razão

https://jornalrazao.com/seguranca/pastor-de-sao-joao-batista-diz-ter-canal-direto-com-deus-e-garante-que-lula-morreu/#google_vignette Acesso 17 jun 2025

https://projetocomprova.com.br/publica%C3%A7%C3%B5es/parque-do-iguacu-nao-possui-reserva-de-gas-e-foi-criado-por-vargas-nao-por-lula/ Acesso 17 jun 2025

Site gospel manipula conteúdo antigo para ligar casos recentes de violência na Nigéria à religião islâmica

*Atualizado às 10:52 de 23/05/25 para acréscimo e correção de informações.


Veículos religiosos alinhados ao extremismo de direita no Brasil continuam explorando o tema da violência contra cristãos na Nigéria, seja por meio da reprodução de informações antigas como se fossem atuais, seja por meio da falta de contextualização de fatos para estabelecer outro sentido a eles. Bereia identificou que em abril passado, o portal gospel Pleno.News publicou os mesmos dados sobre ataques na região central de Plateau, na Nigéria, que foram publicados por outros veículos dois anos atrás. Foi o caso da matéria publicada pelo jornal Gazeta do Povo, em dezembro de 2023. Os dados foram publicados pelo site gospel neste ano como se fossem atuais, e ainda se atribuiu o caso a um ataque de islâmicos a cristãos.

Imagem: matéria PlenoNews de 2025

Imagem: matéria Gazeta do Povo 2023

Ambas as matérias são marcadas pela descontextualização e a exploração de dados superficiais sobre a violência contra populações de determinadas áreas na Nigéria, como se fossem ações de motivação religiosa, exclusivas contra cristãos. Bereia tem observado, no monitoramento sobre a veiculação de tais conteúdos, como eles servem como combustível para a propagação de medo em relação a uma possível perseguição a cristãos no Brasil, que vem sendo denominada politicamente como “cristofobia”.

Bereia checou o conteúdo e apurou dados sobre a realidade da Nigéria, permeada por conflitos e tensões que afetam grupos religiosos.

Conflitos e tensões na Nigéria: marcas de um histórico conturbado

Como os muitos países da África, depois de sofrer invasões e explorações diversas do território, por séculos povoado e governado por reinos e impérios, a região onde se localiza hoje o Estado da Nigéria, foi colonizada pela Grã-Bretanha no final do século 19.  O país tornou-se independente em 1960, mas anos depois teve que enfrentar uma guerra civil e vários golpes militares. O comando da nação foi assumido alternadamente por governos civis democraticamente eleitos e por ditaduras militares. As eleições presidenciais de 2011 foram as primeiras consideradas razoavelmente livres e justas. 

A Nigéria se tornou uma potência importante do continente africano, especialmente por contra do petróleo. O país é habitado por mais de 500 grupos étnicos, entre os maiores estão os hauçás, os ibos e os iorubás. Do ponto de vista das religiões, o país é dividido igualmente entre os islâmicos. A maioria dos cristãos vive no sul e nas regiões centrais, e os islâmicos se concentram mais ao norte. Uma pequena parcela da população pratica as religiosidades tradicionais e locais denominadas ibo e iorubá, que tem marcas nas diversas expressões culturais e nas vivências das duas principais religiões do país.

Nestas décadas do século 21, a Nigéria ainda enfrenta o desafio de manter a unidade nacional diante de divisões étnicas e religiosas. Nas últimas décadas, milhares morreram em ataques de grupos extremistas autoidentificados islâmicos jihadistas, estabelecidos no nordeste do país, especialmente o Boko Haram, que também sequestra estudantes para exigir resgates ou usá-los em atentados. Movimentos separatistas, como o do Delta do Níger e o que defende a independência da região de Biafra, ganharam força. 

Sobre os conflitos na região de Plateau, áreas de Bokkos e Bassa

A matéria do Pleno.News, em abril de 2025, que reproduz informações de notícia da Gazeta do Povo, de dezembro de 2023, refere-se a ataques ocorridos no estado de Plateau, região central da Nigéria. Bereia apurou que ataques foram, de fato, registrados, naquela localização, em 14 de abril deste ano, porém com informações divergentes. 

Em entrevista ao Bereia, o executivo do Programa de Promoção da Paz na África do Conselho Mundial de Igrejas e pastor da Convenção de Igrejas Batistas da Nigéria Dr. Ibrahim Wushishi Yusuf reforçou que o norte da Nigéria continua sofrendo ataques violentos de extremistas e terroristas muçulmanos, como o Boko Haram. 

Segundo Yusuf, alguns pastores de gado criminosos, da etnia Fulani,  também realizam atos de violência nas comunidades. “Vão de aldeia em aldeia matando e sequestrando pessoas para pedir resgate. A maioria das comunidades no planalto, Takum, sul de Kaduna e Benue — que são predominantemente cristãs — sofreram mais em alguns desses ataques de abril passado. Algumas comunidades de Katsina, Zamfara, Yobe e Maiduri, com maioria muçulmana, também tiveram vítimas como consequência disso”.

O pastor batista confirmou o ataque em 14 de abril passado, que causou a morte de 51 pessoas do povo Irigwe, em Zikke, distrito de Kwall, área de governo local de Bassa. Yusuf relatou ao Bereia que milícias Fulani atacaram na madrugada daquela segunda-feira, 14 de abril, em operação que durou cerca de 90 minutos, contra homens e mulheres, crianças e idosos. Mais de dez pessoas ficaram gravemente feridas e receberam atendimento em diferentes centros médicos. Para agravar a destruição contra aquela comunidade, muitas casas e propriedades foram incendiadas pelos agressores, prática que é comum nesse tipo de ataque.

Ibrahim Wushishi Yusuf calcula que este foi o quarto ataque às mesmas comunidades, vitimando pessoas sem distinção da afiliação religiosa. “Ambas as religiões, cristã e muçulmana, sofreram com as ações desses criminosos. Existem muçulmanos bons e moderados na Nigéria que amam e pregam a paz”.

Em manifesto divulgado no próprio 14 de abril de 2025, que relata o ocorrido em Bassa, e expõe os nomes dos 51 mortos e suas idades, que variam entre 3 e 69 anos, o secretário nacional de Comunicação do Movimento Juvenil Irigwe  Joseph Chudu Yonkpa declara:

Como povo, todos os nossos esforços para amplificar nossa voz e mostrar ao mundo o genocídio contínuo em nossa terra têm sido ignorados. Mais de 30 pessoas foram mortas no último mês em ataques e emboscadas separados, totalizando quase 100 mortes entre dezembro de 2024 e hoje, com destruição incalculável de lavouras e propriedades. Esses ataques são excessivos, e o povo Irigwe está profundamente preocupado se realmente é considerado cidadão da Nigéria, pois nossos agressores continuam a mutilar e destruir nosso povo com impunidade e sem que os criminosos sejam presos.

Nunca passamos por algo tão grave quanto o assassinato dessas 51 pessoas em nossa terra. Estamos clamando por ajuda do governo, de organizações não governamentais, de organizações da sociedade civil e de pessoas solidárias, para que não apenas condenem essa situação, mas se juntem a nós na exigência de justiça por todos os nossos irmãos assassinados, cujas vidas foram interrompidas pelas milícias Fulani.

Exigimos que um comitê independente seja criado pelo Comando de Defesa Nacional para investigar todas as formas de genocídio na terra Irigwe, prender os responsáveis, seus financiadores e cúmplices, com a esperança de trazer a justiça que nosso povo merece.

Também apelamos à NEMA, à PLASEMA, ao Ministério dos Assuntos Humanitários, a empresas e pessoas solidárias que venham em socorro ao nosso povo, pois suas casas, negócios, lavouras e, em alguns casos, os provedores das famílias foram afetados por esses ataques renovados.

Continuaremos a buscar justiça para nosso povo dentro dos limites da lei e oramos para que Deus conceda descanso às almas de nossos entes queridos.

Bereia levantou informações oferecidas pela rede de comunicação pública alemã Deutsche Welle (DW) de que os casos estão inseridos em um contexto de impunidade contra a violência mortal em áreas rurais. Os ataques são motivados por frequentes disputas de terra entre os pastores/criadores de gado, da etnia islâmica Fulani, e agricultores, não exclusivamente, mas majoritariamente, cristãos.

Segundo o DW, o aumento populacional na Nigéria ocasiona um crescimento no número de terras destinadas à agricultura, porém, as mudanças climáticas interferem na disponibilidade de terras para pastagens. Esta situação evidencia a natureza econômica, climática, étnica e política do conflito, longe de ter motivações religiosas. 

Em uma entrevista ao portal de notícias do Vaticano, em 2018, o padre missionário salesiano na Nigéria Roberto Castiglione falou sobre a violência em Plateau. “A polícia não é eficiente. Os pastores Fulani avançam armados e querem obrigar, com o medo e ameaças, as populações locais a abandonarem suas terras para depois tomar posse e reivindicar a propriedade”. 

O mau uso da ideia de perseguição religiosa na Nigéria

A afirmação de que “A violência religiosa é um problema grave” na Nigéria é um dos dez “mitos” desmentidos pelo projeto de pesquisa Nigeria Watch, uma base de dados que monitora a violência letal, os conflitos e a segurança humana na Nigéria, desde 2006. No relatório sobre os principais mitos acerca da violência no país, a iniciativa rebate a ideia de uma “oposição irredutível” entre um “Norte muçulmano” e um “Sul cristão”.

A análise é categórica ao declarar que “identificar a religião como a causa de confrontos fatais é bastante complexo. A violência que envolve questões religiosas ou que opõe muçulmanos e cristãos pode ser política, econômica ou social, como no caso das disputas de terra e dos conflitos entre pastores/criadores de gado no estado de Plateau. Essa é a razão pela qual, ao estudar o papel da religião na violência, é mais preciso focar nos detalhes dos atores rotulados como ‘cristãos’ ou ‘islâmicos’”. 

Um segundo levantamento do Nigeria Watch também aponta o estado de Plateau como um dos que registram maior número de mortes devido a conflito de terras, e destaca as questões entre fazendeiros e pastores de animais, e os conflitos étnicos da região. O documento do projeto de pesquisa, que trata do “mito” da violência religiosa, inclui dados que mostram que os confrontos com morte entre organizações islâmicas e cristãs são muito raros. O texto reforça que os incidentes fatais, com ao menos uma organização político-religiosa, envolvem principalmente o grupo jihadista Boko Haram (BH), classificado como organização islâmica terrorista, que age contra as forças de segurança do país. 

A iniciativa de pesquisa ressalta que a violência religiosa na Nigéria não é apenas inter-religiosa e mostra que o Boko Haram mata principalmente muçulmanos. O documento do Nigeria Watch destaca que é simplista considerar que confrontos letais entre cristãos e muçulmanos têm o potencial de segregar o país. Outras formas de intolerância também resultam em violência fatal na Nigéria, como a “caça às bruxas”, com falsas alegações de bruxaria contra expressões religiosas locais. Tais acusações, em alguns casos, são difundidas por pastores evangélicos do ramo pentecostal, e apoiadas por discursos que reforçam a crença em formas culturais locais de superstição.

Iniciativa de promoção da paz 

O pastor Yusuf revelou ainda, ao Bereia, que, em 2012, foi realizada uma visita de líderes inter-religiosos, promovida pelo Conselho Mundial de Igrejas e pelo Instituto para o Pensamento Islâmico Royal Aal al-Bayt, um centro de estudos islâmicos com sede na Jordânia, ligado à família real daquele país, que frequentemente colabora com líderes religiosos cristãos e muçulmanos em iniciativas de diálogo e reconciliação. Nessa visita foi identificada a necessidade de apoiar o Conselho Cristão da Nigéria e a organização Jama’atul Nasril Islam, que representa muçulmanos e cristãos nacionais.

Como resultado, foi fundado um centro inter-religioso como espaço de cooperação em enfrentamento às ações dos extremistas. Como integrante do Conselho Mundial de Igrejas, pastor atuante na Nigéria, Yusuf tornou-se responsável pelo centro inter-religioso, situado em Abuja, norte da Nigéria. 

“Supervisiono a iniciativa de construção da paz na África desde o ano passado, em meio a muitas dificuldades para oferecer apoio. São necessárias várias respostas, mas o centro continua enfrentando problemas de financiamento. O Conselho Mundial de Igrejas tem tentado conseguir financiamento para permitir uma atuação mais eficaz do centro diante dos conflitos violentos contínuos no norte da Nigéria”, afirmou o pastor batista.

Foto: Conselho Mundial de Igrejas

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Bereia conclui que veículos de imprensa gospel no Brasil têm destacado enganosamente apenas cristãos como vítimas dos ataques violentos na Nigéria, como ocorreu com a matéria do Pleno.News, publicada em abril passado. Há apenas a reprodução de informações enviadas por grupos do exterior ou levantadas por veículos brasileiros, sem apuração e sem contextualização sobre as razões dos conflitos. 

O mau tratamento do tema acaba produzindo material inusitado como o texto que repete, em 2025, dados publicados em 2023, inflando o número de mortos no atentado em questão.  O conteúdo termina por produzir a propagação de pânico e de intolerância, ao fortalecer um discurso de perseguição religiosa contra cristãos, por parte de islâmicos. 

Além do conteúdo disseminado no Brasil omitir a informação sobre islâmicos serem também vítimas dos ataques que não têm motivação religiosa, silencia também sobre  iniciativas de paz e reconciliação no país, realizadas e financiadas em conjunto por cristãos e islâmicos.

Diferentemente do que tem sido propagado no Brasil, a quase totalidade dos conflitos que envolvem grupos extremistas como o Boko Haram e Fulani na Nigéria, não se trata de ataques religiosos, nem tampouco de perseguição religiosa nacional. As motivações para os casos têm fundamentalmente caráter político, econômico, étnico e cultural, ou seja, os atos são praticados por grupos extremistas, com interesses específicos diversos e que têm uma identidade religiosa. 

Veículos de notícias religiosos e não religiosos no Brasil têm o dever de contextualizar e produzir informação completa e digna sobre estas situações para que não haja promoção de intolerância nem uso sensacionalista do tema por parte de quem faz política com uso da religião, para evitar equívocos e se possa produzir solidariedade com a população nigeriana que sofre com tamanha violência.

Referências da checagem

Deutsche Welle

https://www.dw.com/en/nigeria-amnesty-condemns-government-after-deadly-attack/a-72245453 Acesso em 23 ABR 25

Vatican News
https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2018-07/nigeria-pastores-fulani-salesianos.html Acesso em 30 ABR 25

Nigeria Watch
https://www.nigeriawatch.org/index.php Acesso em 23 ABR 25

https://www.nigeriawatch.org/media/html/Nigeria_Watch_10_MythFinal.pdf Acesso em 23 ABR 25

https://www.nigeriawatch.org/media/html/File/NW10Myths2023.pdf Acesso em 23 ABR 25

Carta Capital
https://www.cartacapital.com.br/educacao/o-avanco-do-terror-na-nigeria/ Acesso em 30 ABR 25

BBC News Brasil
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cvgeyw81y12o Acesso em 23 ABR 25

Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília
http://www.gepsi.unb.br/index.php?option=com_content&view=article&layout=edit&id=28&Itemid=599 Acesso em 30 ABR 25

Cristofobia: como surgiu e por que não utilizar

Na Câmara dos Deputados, o termo foi mencionado oficialmente pela primeira vez em 2012 e ganhou destaque nas discussões políticas e religiosas no país, tendo como “embaixador” o deputado federal evangélico Marcos Feliciano (PL-SP).

A expressão ganhou força com o governo de Jair Bolsonaro, tornando-se parte de uma narrativa alinhada à direita cristã dos EUA, que busca consolidar poder político por meio da narrativa de perseguição religiosa.

A professora da Unicamp Brenda Carranza explica que o termo é utilizado como estratégia retórica por políticos para reafirmar a supremacia da maioria cristã e justificar a perseguição contra as minorias sociais.

Além de precário do ponto de vista conceitual, a professora alerta que a expressão também é utilizada para propagar a ideia falsa que essas minorias, entre elas as comunidades LGBTQ+, nutrem ódio contra o cristianismo, com supostas ameaças à moral e costumes cristãos.

Apesar de rejeitado entre pesquisadores da Religião e Ciências Sociais, políticos eleitos nas últimas eleições continuam a utilizar o termo para desinformar, entre eles Hélio Lopes (PL-RJ), Magno Malta (PL-ES), Bia Kicis (PL-DF), Nikolas Ferreira (PL-MG) e Julia Zanatta (PL-SC). É o que aponta a apuração do Bereia feita com a ferramenta LupaScan, sistema criado pela Agência Lupa que monitora as redes sociais dos políticos eleitos em busca de desinformação.

Nesse carrossel, Bereia fez um compilado de cinco motivos contrários a utilização do termo, de acordo com especialistas:

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Saiba mais: Leia tudo o que Bereia já publicou sobre o termo aqui

Eleições 2024: Candidatos com identidade confessional, conhecidos por espalharem desinformação, divulgam apoio de lideranças religiosas

Ao longo da campanha para as eleições municipais, lideranças religiosas têm se mobilizado para prestar apoio público a candidaturas que se mostram alinhadas com suas pautas e ideais. Tal prática é uma estratégia comum na política, que se repete a cada pleito.

Nesta matéria, Bereia verifica candidatos com histórico de publicar desinformação que estão entre os que recebem a benção de pastores e outras figuras de destaque no meio cristão. Do monitoramento da equipe Bereia em mídias sociais, são destacados os casos de Guilherme Kilter (Curitiba/PR), Dentinho (Passos/MG), Alana Passos (Rio de Janeiro/RJ), Pastor Dinho Souza (Serra/ES) e Sonaira Fernandes (São Paulo/SP). 

Esses candidatos e candidatas fazem uso de sensacionalismo e desinformação para mobilizar eleitores e se apoiam na retórica religiosa e na proximidade, em algum grau, com lideranças eclesiásticas, para validar sua candidatura. 

Guilherme Kilter

O influenciador digital evangélico e candidato a vereador de Curitiba, pelo Novo, Guilherme Kilter, 22 anos, se apresenta nas mídias como cristão, de direita e a favor da família. 

Imagem: Reprodução/Facebook

Membro da Primeira Igreja Batista de Curitiba, Kilter conta ter sido “convidado a entrar na política” pelo ex-deputado federal Deltan Dallagnol (Novo-PR, cujo mandato foi cassado em 2023), que também é evangélico batista e mantém relações com lideranças eclesiásticas. Ele também se compara com o destacado político extremista de direita, deputado federal  Nikolas Ferreira (PL-MG), pela pouca idade e semelhança de posicionamentos, por ter iniciado a carreira política como vereador. Kilter declara querer  se tornar “o Nikolas Ferreira do Paraná“.

Entre as lideranças evangélicas, Guilherme Kilter conta com o apoio do pastor Paschoal Piragine Jr., que também é seu tio. Ele é presidente da Convenção Batista Brasileira, pastor emérito da Primeira Igreja Batista de Curitiba, e pastor interino da Primeira Igreja Batista de Niterói. Pirajine Jr. se destacou nas mídias sociais, em 2010, ao empreender ferrenha campanha contra a eleição da candidata do Partido dos Trabalhadores a presidente da República Dilma Rousseff, com uso de discursos de pânico moral e terrorismo verbal. Em outras campanhas eleitorais, o pastor também atuou na mesma direção.

Imagem: Gazeta do Povo, 29/09/2016

Na comunicação em redes digitais, além de frequentemente publicar imagens com essas figuras mais conhecidas de políticos com os quais quer ser relacionado, Guilherme Kilter utiliza também fotos de si mesmo na igreja para se afirmar como cristão e conservador. 

Além disso, também faz publicações sobre as polêmicas atuais, alinhado com os demais perfis e influenciadores ligados à extrema direita. Ele se engajou recentemente, por exemplo,na onda de difamações contra a boxeadora olímpica argelina Imane Khelif, que foi checada por Bereia. Também publicou desinformação sobre a legalização do aborto pelo governo Lula, que foi verificada como falsa pelo G1. 

Imagem: Reprodução/Instagram

Dentinho

Luis Carlos do Souto Junior, mais conhecido como Dentinho, se apresenta como um vereador com princípios de direita e está no terceiro mandato como parlamentar no município de Passos (MG). Em seu perfil no Instagram, o candidato do Progressistas (PP), à reeleição, ostenta fotos com grandes nomes do seu campo político, como o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o deputado federal Nikolas Ferreira, que prestou apoio ao candidato por meio de um vídeo para sua campanha. 

Em 2023, Dentinho virou notícia ao ser indiciado, em apenas 15 dias, por xenofobia, racismo e produção de fake news. De acordo com a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), o vereador cometeu o primeiro crime em novembro de 2022, após o fim do segundo turno das eleições, ao afirmar, em uma publicação nas mídias sociais, que “Bolsonaro também é f*da, foi falar na Bahia que ia gerar um milhão de empregos… Assustou o povo!”. A declaração insinua que a população baiana não votou em Bolsonaro por não gostar de trabalhar. O delegado Felipe Capute, que assina o indiciamento, entendeu que a fala de Dentinho é ofensiva ao povo da Bahia e resulta em uma exposição discriminatória.

A segunda denúncia também está relacionada com o último pleito eleitoral: Dentinho teria usado panfletos para divulgar conteúdo falso contra o então candidato à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo a PCMG, o vereador cometeu crime eleitoral previsto no art. 323 de Lei 4737, que dá pena de detenção de dois meses a um ano para quem “Divulgar, na propaganda eleitoral ou durante período de campanha eleitoral, fatos que sabe inverídicos em relação a partidos ou a candidatos e capazes de exercer influência perante o eleitorado”. Em resposta ao G1, o vereador negou que tenha cometido os crimes dos dois casos.

Imagem: Reprodução/Instagram

Alana Passos 

Alana Passos é militar do Exército e foi deputada estadual do Rio de Janeiro de 2018 a 2022. Em sua entrada na política, pelo PSL, recebeu 106.253 votos (1,38% do total) e foi a mulher mais votada do estado, um sucesso que não se repetiu no pleito seguinte: a candidata recebeu apenas 0,45% dos votos e ficou fora da Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) porque o seu então novo partido, PTB, não teve quociente eleitoral.

Nas eleições municipais deste ano, Alana Passos é candidata a vereadora na capital fluminense pelo Partido Liberal (PL) e ostenta o apoio do pastor Joel Serra, idealizador do Movimento Cristão Conservador, em fotos e no vídeo de sua campanha. A militar também esteve no gabinete do pastor da Igreja Batista Atitude Josué Valandro Jr e posou ao seu lado em uma publicação no Instagram.

Imagem: Reprodução/Instagram

A primeira vez em que Alana Passos foi associada à propagação de conteúdo falso foi

em julho de 2020, quando o Facebook excluiu, dentre outras contas, os perfis AlanaOpressora, artilhariadobem, tvanticomunismobrasil e Fabio Muniz por “criação de pessoas fictícias fingindo ser repórteres, publicação de conteúdo e gerenciamento de páginas fingindo ser veículos de notícias”.

De acordo com a rede social, as contas seriam ligadas a um ex-assessor de Alana Passos, que afirmou, em nota à BBC News Brasil, que “Quanto a perfis de pessoas que trabalharam no meu gabinete, não posso responder pelo conteúdo publicado. Nenhum funcionário teve a rede bloqueada por qualquer suposta irregularidade. Estou à disposição para prestar qualquer esclarecimento, pois nunca orientei sobre criação de perfil falso e nunca incentivei a disseminação de discursos de ódio”.

Em buscas no perfil da candidata no Facebook, Bereia identificou a propagação de conteúdo falso e enganoso sobre “ideologia de gênero”, um dos termos mais explorados nos materiais de desinformação que circularam em espaços digitais religiosos nas últimas eleições. Em junho de 2018, Alana publicou um vídeo que, retirado de contexto, deixa a entender que a deputada federal Erica Kokay (PT-DF) confessa que defende o incesto e a destruição da famiilia patriarcal. 

Imagem: Reprodução/Facebook

O site Boatos.org já havia checado o vídeo em 2017, e chamou a atenção para o sentido da fala da deputada petista: segundos antes do recorte que viralizou ela diz “Por isso, eles querem romper a laicidade do Estado e implementam uma construção de ideologia de gênero, que ela é uma tentativa de sair do discurso essencialmente religioso e fazer a ponte com o discurso ideológico da extrema direita neste país. Porque aí eles dizem…”. Dessa forma, a candidata divulgou um conteúdo que tem elementos verdadeiros, mas foi apresentado de forma distorcida para produzir no receptor uma percepção da fala que é enganosa.

Já em 2021, a então deputada estadual usou a mesma rede para compartilhar a informação falsa de que um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) sugeriu que a exposição à pornografia poderia ser positiva para crianças. A imagem usada na publicação exibe a logo do R7, portal de notícias do Grupo Record, como forma de gerar credibilidade para a afirmação, que já foi verificada pela coluna Fato ou Fake, do portal G1. Por meio de um comunicado, o UNICEF reafirmou sua posição de que nenhuma criança deve ser exposta a conteúdo nocivo, e explicou que um artigo publicado em abril de 2021 teve interpretações incorretas e diferentes do que a instituição defende.

Imagem: Reprodução/Facebook

Pastor Dinho Souza 

Evandro De Souza Ferreira Braga, conhecido como Dinho Souza, é pastor da igreja evangélica Povo da Cruz, no município de Serra (ES). É filiado ao PL e concorre a vereador nas eleições deste ano. Ganhou destaque na imprensa nacional por um fato polêmico: em abril de 2022, a igreja que pastoreia promoveu a rifa de uma espingarda calibre 12  a fim de reformar a sala das crianças. A “ação entre irmãos”, como dizia o informativo, foi celebrada pelo pastor, que declarou sentir orgulho do ato. 

O fato serviu para projetar Souza para as mídias e noticiários. Ele seguiu a cartilha da desinformação religiosa monitorada pelo Bereia ao propagar ideias de perseguição religiosa contra cristãos no Brasil e de eleger as esquerdas como inimigas da fé cristã.  

Imagem: reprodução/ Instagram

O pastor, que concorre a vereador da Câmara de Serra, alinhou discurso com  a extrema-direita e ficou marcado pela sua posição pró-armas, pelo discurso contra diversidade de gênero e pela defesa contra o aborto, até mesmo em casos de estupro, direito assegurado por lei.

Além disso, Dinho Souza atacou setores do segmento evangélico. No domingo em que se comemorava a Páscoa, o religioso xingou o artista Timóteo Oliveira, membro da igreja Anglicana, e o acusou de ser um “black block gospel”, devido a representação da figura de Jesus negro em uma de suas artes. O caso rendeu uma nota de repúdio assinada pela coordenação do Movimento Negro Evangélico Nacional.

Instituições evangélicas ligadas ao campo conservador também estiveram na mira do pastor. Em 2023, Dinho Souza atacou a Associação de Pastores Evangélicos da Serra (APES) em um dos seus discursos. Apesar de toda polêmica, os episódios não o impediram de ganhar apoiadores do mundo político e religioso como pastor Anderson Silva,  padre Kelmon, o senador Magno Malta (PL-ES), a deputada federal Bia Kicis (PL-DF), o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o pastor da Igreja Batista Vale da Benção e desembargador aposentado Sebastião Coelho.

Sonaira Fernandes

Ex-secretária da Mulher do estado de São Paulo, Sonaira Fernandes é evangélica e busca seu segundo mandato como vereadora na capital paulista. Muito próxima do ex-presidente Jair Bolsonaro e de sua família (com quem começou a trabalhar em 2014), a candidata é a principal indicação do ex-presidente nestas eleições. Sonaira também é apoiada pelo governador Tarcísio de Freitas e chegou a ser cotada para vice de Ricardo Nunes na sua busca pela reeleição, mas acabou ficando fora da chapa.

Sonaira Fernandes é muito atuante nas mídias sociais e exibe visitas a igrejas e fotos com pastores de diferentes denominações. Em apuração no perfil da candidata no Instagram, Bereia verificou que a candidata visitou 24 igrejas evangélicas desde o início de agosto, ostentando o apoio de líderes da Igreja Renascer em Cristo e de diferentes Assembleias de Deus, dentre outras igrejas.

A forte influência de Fernandes no meio evangélico a levou ao “palco” da Marcha para Jesus deste ano e uma de suas falas sobre o evento foi checada pelo Bereia. A candidata repercutiu a declaração do líder da Igreja Renascer em Cristo apóstolo Estevam Hernandes, de que exista uma perseguição às igrejas no Brasil. Em seu perfil no X, Sonaira publicou que “Em plena época de Igreja perseguida, a 32ª Marcha para Jesus ficou marcada como uma das maiores da história”.  

Imagem: reprodução/X

A retórica do medo da perseguição religiosa é comum em conteúdo desinformativo, e na referida apuração Bereia concluiu que “que é falsa a afirmação de que haja perseguição aos cristãos no Brasil, e que as alegações de fechamento de igrejas e perseguição são estratégias de desinformação usadas por políticos e líderes religiosos para manipular o medo e influenciar o eleitorado, distorcendo a realidade e criando uma falsa sensação de vitimização.”

No mesmo sentido, dois meses antes das eleições presidenciais de 2022, Sonaria compartilhou um vídeo de imagens editadas do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva em um encontro de lideranças religiosas de matriz africana. Na legenda, a vereadora disse:

“Lula já entregou sua alma para vencer essa eleição. Não lutamos contra a carne nem o sangue, mas contra os principados e potestades das trevas. O cristão tem que ter a coragem de falar de política hoje, para não ser proibido de falar de Jesus amanhã.”

O caso foi abordado pelo Bereia na reportagem “Cristofobia e intolerância religiosa: as fake news como estratégia política para enganar cristãos na campanha eleitoral 2022”, que destaca que o conteúdo publicado pela vereadora não se trata apenas de desinformação, mas é também um uso da intolerância religiosa para campanha política. A matéria ressalta, ainda, que a tentativa de associar Lula e o Partido dos Trabalhadores (PT) ao fechamento de igrejas evangélicas e a perseguição religiosa acontece desde 1989, e tais “notícias” nunca apresentam fontes ou informações factíveis.

***

Bereia alerta leitores e leitoras a atentarem a candidaturas que mobilizam identidade religiosa e lançam mão de desinformação, conteúdo com base em mentiras e falsidades, como estratégia de campanha.

Referências

Boatos.org

https://www.boatos.org/politica/erika-kokay-defende-incesto.html . Acesso em 11 set 2024

BBC News Brasil

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53354358. Acesso em 11 set 2024

O Globo

https://oglobo.globo.com/blogs/lauro-jardim/post/2024/09/eleicoes-sp-cla-bolsonaro-opera-envios-no-zap-a-favor-de-candidata-favorita-a-vereadora.ghtml . Acesso em 23 set 2024

G1

https://g1.globo.com/fato-ou-fake/noticia/2021/06/10/e-fake-que-unicef-sugira-em-relatorio-que-pornografia-e-positiva-para-criancas.ghtml. Acesso em 11 set 2024

https://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/noticia/2023/03/01/policia-civil-indicia-vereador-de-mg-por-financiar-panfletos-com-fake-news-durante-eleicoes-contra-lula.ghtml Acesso em 18 set 2024

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/eleicoes/2018/noticia/2018/10/08/deputados-estaduais-sao-eleitos-no-rj-veja-lista.ghtml . Acesso em 12 set 2024

UNICEF

https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/e-fake-noticia-que-circula-no-whatsapp-e-em-sites-sobre-unicef-e-pornografia Acesso em 12 set 2024

Poder 360

https://www.poder360.com.br/governo/facebook-exclui-contas-falsas-ligadas-a-gabinetes-da-familia-bolsonaro/. Acesso em 12 set 2024

Estado de Minas

https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2023/03/02/interna_politica,1463688/vereador-mineiro-e-indiciado-por-produzir-fake-news-contra-lula.shtml. Acesso em 18 set 2024

https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2023/02/18/interna_politica,1459294/policia-civil-indicia-vereador-de-passos-por-racismo-e-xenofobia.shtml. Acesso em 18 set 2024

https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2023/03/02/interna_politica,1463688/vereador-mineiro-e-indiciado-por-produzir-fake-news-contra-lula.shtml. Acesso em 18 set 2024

Instagram

https://www.instagram.com/dentinhovereador/. Acesso em 18 set 2024

https://www.instagram.com/reel/C6UzOCzJvUM/. Acesso em 18 set 2024

https://www.instagram.com/reel/C-_IxWfpIii/. Acesso em 18 set 2024

https://www.instagram.com/p/DAQo7LqOviA/?igsh=dWs5NmUzcHo4NDMy. Acesso em 23 set 2024 

https://www.instagram.com/p/C_9SWAuPa81/?igsh=MWZzaGtuYzVxa2F3OQ==. Acesso em 23 set 2024 

https://www.instagram.com/p/C_6dIaTSEJk/?igsh=ZmFrajVxNW9qYmRk. Acesso em 23 set 2024

https://www.instagram.com/p/C_rSXY7PVu5/?igsh=MTUyNHVuNjc4dGJsNg==. Acesso em 23 set 2024

https://www.instagram.com/reel/C_qmARnvhKS/?igsh=MWpoeWc4bGt4cTk2aQ==. Acesso em 23 set 2024

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https://www.instagram.com/p/C_WeVKtv9jB/?igsh=MWl2ODQ2anc4MmRxOA==. Acesso em 23 set 2024

https://www.instagram.com/p/C_RojylNTPl/?igsh=NWhhbjQ0aGhucnMw. Acesso em 23 set 2024

https://www.instagram.com/p/C_MbPkStvil/?igsh=MTN1OW1uaTVkb2FlZg==. Acesso em 23 set 2024

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https://www.instagram.com/p/C-2fIYJugDK/?igsh=MXNmYm5pZjBzZm5sdQ==. Acesso em 23 set 2024

https://www.instagram.com/p/C-z5zVEuMh_/?igsh=OHZjcjh5dm5laHZu. Acesso em 23 set 2024

https://www.instagram.com/p/C-ylO9jP0en/?igsh=aDh0eXc0cHB3ODFq. Acesso em 23 set 2024

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https://www.instagram.com/p/C-nNXDpOd3P/?igsh=MXd4YW1zNnpqZThndA==. Acesso em 23 set 2024

https://www.instagram.com/p/C-fw10luDdh/?igsh=bjU2eW0zMzE4c25w. Acesso em 23 set 2024

https://www.instagram.com/p/C-eJk0ntyT0/?igsh=MW9kc3Y1bWwxZWFwdw==. Acesso em 23 set 2024

https://www.instagram.com/p/C-Q4d4ivEZJ/?igsh=MXdzdmNua3dqMTZubw==. Acesso em 23 set 2024 

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https://www.instagram.com/p/C-JT_sHv3IA/?igsh=dzc1czIwaHp3eG5k. Acesso em 23 set 2024

https://www.instagram.com/p/C_qDOSPRe8A/ . Acesso em 25 set 2024

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TSE

https://www.tse.jus.br/legislacao/codigo-eleitoral/codigo-eleitoral-1/codigo-eleitoral-lei-nb0-4.737-de-15-de-julho-de-1965. Acesso em 18 set 2024

Youtube

https://www.youtube.com/watch?v=gPrpqkJMTyM. Acesso em 11 de set 2024

UOL

https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2022/apuracao/1turno/votos-por-estado/rio-de-janeiro/deputado-estadual/. Acesso em 12 de set 2024

Bereia

https://coletivobereia.com.br/ideologia-de-genero-e-um-dos-temas-explorados-por-quem-produz-desinformacao-em-espacos-religiosos-nestas-eleicoes/ . Acesso em 12 set 2024

https://coletivobereia.com.br/cristofobia-e-intolerancia-religiosa-as-fake-news-como-estrategia-politica-para-enganar-cristaos-na-campanha-eleitoral-2022/ . Acesso em 24 set 2024

https://coletivobereia.com.br/eleicoes-2024-religiosos-e-politicos-usam-falsa-perseguicao-a-igrejas-no-brasil-como-tema-de-campanha-durante-marcha-para-jesus-de-sp/ . Acesso em 24 set 2024

Conteúdo busca enganar católicos sobre evento na Catedral de Brasília para criticar governo federal

Bereia recebeu de leitor um vídeo com alto nível de circulação em grupos católicos no WhatsApp, que alardeia que o altar da Catedral Católica de Brasília “virou terreiro de Umbanda”, em evento promovido “pela ‘1ª´(sic) dama Janja”. O texto afirma ser uma grave profanação de um templo católico e atribui o caso à “situação geral do país” que “piora a cada dia”. A publicação ainda pede que quem recebe o conteúdo envie “para amigos católicos que fizeram o L ou foram isentões”.

Tela de celular com publicação numa rede social
Descrição gerada automaticamente com confiança média

O radar do Bereia identificou nesse conteúdo elementos comuns a falsidades que circulam pelas mídias sociais: 1) não tem identificação do autor ou autora da postagem nem data; 2) não tem fonte (de onde veio o vídeo); 3) é um recorte de 23 segundos de um vídeo sem  o contexto do ocorrido; 4) há o pedido de compartilhamento para mais pessoas (estratégia para que a desinformação viralize de forma espontânea e orgânica).

Bereia verificou que o mesmo recorte de vídeo foi divulgado na conta do X/Twitter do ex-presidente da Fundação Palmares (nomeado durante o governo de Jair Bolsonaro) Sérgio Camargo, e teve centenas de milhares de visualizações, com milhares de curtidas e compartilhamentos. Na publicação Camargo atribui a cerimônia na Catedral a o “governo petista” e cobra que católicos exijam “posicionamento da CNBB, caso a entidade seja contrária ao que se viu”.

Imagem: X/Twitter

Outros perfis de mídias sociais divulgaram protestos com o uso do mesmo recorte de vídeo, alguns com centenas de milhares de visualizações.


Interface gráfica do usuário, Site
Descrição gerada automaticamente

Imagem: x/Twitter

Imagem: Youtube

A noite na Catedral 

Bereia checou que o evento, acolhido na Catedral Católica de Brasília, foi realizado em 9 de novembro de 2023, como parte da programação do III Congresso Internacional de Direito do Seguro e IX Fórum de Direito do Seguro José Sollero Filho, realizado pelo Instituto Brasileiro de Direito do Seguro (IBDS). O congresso foi sediado no Superior Tribunal de Justiça, sob a coordenação do ministro Paulo Dias Moura Ribeiro.

A noite cultural do evento do IBDS/STJ, na Catedral Católica de Brasília, foi a apresentação da Orquestra Mundana Refugi. O grupo é formado por 22 músicos brasileiros e imigrantes refugiados vindos do Irã, Guiné, Congo, Turquia, Cuba, China, Síria, Venezuela, França e Palestina. A orquestra apresenta repertório com composições próprias, músicas tradicionais e homenagens a compositores brasileiros, lançando mão de instrumentos entre os tradicionais piano, saxofone, flauta e bateria até os mais diferentes como bouzouki, kanun árabe, alaúde e rebab. 

Tela de celular com publicação numa rede social
Descrição gerada automaticamente com confiança média

Imagem: cartaz eletrônico de divulgação da apresentação da Orquestra Mundana Refugi na Catedral de Brasília.

O evento, com entrada franca, lotou a Catedral e foi noticiado pela revista eletrônica Metrópoles, pelo Correio Brasiliense, pelo Jornal de Brasília, pelo Portal Terra e pela Agência Brasil. Segundo a matéria do Metrópoles “os brasilienses ficaram encantados com o talento do grupo e conheceram um pouco dos ritmos e estilos de diferentes países. Duas obras do fotógrafo Sebastião Salgado foram expostas ao lado do palco e chamaram atenção por representar a luta pela proteção dos povos originários”.

O programa teve participação do cantor Renato Braz e do acordeonista Toninho Ferragutti, indicado três vezes ao Grammy Latino. Entre os presentes estiveram autoridades como o ministro do STJ Moura Ribeiro e o ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar Paulo Teixeira. 

Com dois integrantes da orquestra originários da Palestina, o show em Brasília foi oportunidade de expressão de um pedido pela paz no Oriente Médio, para que cessem os ataques e que sejam devolvidos os reféns judeus, o que constou dos discursos proferidos. 

Bereia verificou, portanto, que a programação na Catedral não tem qualquer relação com o governo federal ou com a esposa do presidente da República Rosângela da Silva (Janja).

Altar profanado?

Na programação, de fato, ocorreu um momento, ao final, com uma dança relacionada à cultura africana. Porém, tanto a Arquidiocese quanto o maestro da Orquestra Mundana Refugi Carlos Antunes, explicaram, respectivamente, em nota oficial e carta, que ela ocorreu de forma imprevista, fora da programação, espontaneamente, da parte de duas pessoas africanas que estavam na audiência, como forma de agradecimento. 

A Arquidiocese também corrigiu as postagens críticas à Igreja e nega que haja “elementos concretos que caracterizem, moralmente e canonicamente, profanação do templo”.

Diz a nota da Arquidiocese de Brasília:

1- Nosso objetivo, ao aceitar o evento na Catedral, foi sensibilizar a comunidade de Brasília a respeito dos refugiados e migrantes, uma vez que a orquestra Mundana Refugi é um grupo musical composto por músicos brasileiros e por imigrantes e refugiados. Seu nome faz referência ao fato de acolher instrumentistas e vocalistas de todas as partes do mundo (“mundana”), refugiados no Brasil (“refugi”);

2- O acordo do evento em questão, previa somente a apresentação de coro e orquestra, algo comumente presente em nossas igrejas, com temas tradicionais de diversos países. No entanto, mesmo no fato ocorrido inesperadamente, não há elementos concretos que caracterizem, moralmente e canonicamente, profanação do templo;

3- Ao final da apresentação, ocorreu uma manifestação espontânea por parte de uma pessoa presente na plateia, surpreendendo não só a nós, mas, também, aos organizadores e ao maestro responsáveis pelo evento, gerando o episódio divulgado (cf. nota em anexo);

4- Reafirmamos que, em todo momento, a Catedral de Brasília conduziu com a devida prudência o que foi previamente acordado.

A carta do maestro Carlos Antunes, entre outros pontos, detalha o ocorrido:

Não havíamos programado realizar qualquer ato de dança como parte da apresentação musical, pois todos sabíamos que essa regra fora estabelecida como condição fundamental pela Catedral. Assim, com relação à dança espontânea que ocorreu ao final da última música, por parte de dois expectadores (sic) africanos, somente podemos imaginar, e isso foi dito por ambos ao se despedirem, que o fizeram em agradecimento ao espetáculo pois para eles ouvir música de seu país naquele templo espetacular foi muito emocionante, alegre e inesquecível. 

Suas manifestações foram feitas sem o nosso conhecimento. Isso faz parte da sua cultura e não demonstra, de forma alguma, desrespeito para com a religião católica. Tenho inúmeros amigos dançarinos africanos da religião católica e eles mencionaram-me suas boas emoções com o ocorrido. Acho importante reiterar que não havíamos combinado a dança, embora ela ocorra ocasionalmente nas nossas apresentações, como outras intervenções espontâneas do público.

(…)

Quando fomos surpreendidos pela dança dos expectadores (sic), ao final da música, fiz um sinal para a Mariama, nossa integrante, cantora africana, para que fosse lá, educadamente, e ocupasse o lugar deles, para que não continuassem ocupando o espaço e voltasse para cantar.

Ela de forma respeitosa fez exatamente isso. Chegou, fez alguns movimentos e ele se retirou. Ela em seguida voltou para cantar e terminamos a canção. Foi exatamente isso que ocorreu. O primeiro senhor que entrou para dançar, de forma muito cordial, me abordou e disse, ao final, que estava muito feliz por estarmos ali naquele momento”.

***
Bereia classifica a publicação que circula em grupos católicos de WhatsApp e em mídias sociais sobre o evento cultural, ocorrido na Catedral de Brasília, em 9 de novembro como ENGANOSO. Anonimamente, como, propagadores de desinformação agem frequentemente, e sem dados que permitam às pessoas verificarem o ocorrido de forma honesta, foi utilizado um vídeo do final da apresentação da Orquestra Mundana Refugi, para criticar a Arquidiocese de Brasília, a esposa do presidente da República Rosângela da Silva (Janja) e o governo federal. 

Como checado pelo Bereia: 

1) a apresentação musical não tem qualquer relação com o governo federal ou com a esposa do presidente da República. Foi parte da programação de um evento realizado pelo Instituto Brasileiro de Direito do Seguro (IBDS), sediado no Supremo Tribunal de Justiça; 

2) o recorte do vídeo, divulgado sem explicação do que trata, refere-se ao final da apresentação musical da Orquestra Mundana Refugi, momento em que pessoas da plateia, de origem africana, espontaneamente se digiram à frente para dançar em agradecimento ao que presenciaram; 

3) a palavra oficial da Igreja Católica em Brasília é que, ancorada na moral e nos Cânones da Igreja, não houve profanação do templo com a manifestação espontânea das duas pessoas africanas.

Bereia alerta para o uso da fé cristã e do cuidado que fiéis têm com suas igrejas para se fazer política e atacar instituições religiosas, outras instituições e governos. Alerta também para a intolerância religiosa estimulada com a propagação do vídeo, sem a devida explicação do que foi uma dança da cultura africana, porém com as observações maldosas, por escrito e em vídeos, de que o altar da Catedral foi “transformado em terreiro de Umbanda” e “profanado”. Há outro aspecto em curso com a publicação, que é o racismo, uma vez que a dança foi realizada por pessoas negras, africanas, e as acusações que foram proferidas têm relação com este perfil.

Referências

Supremo Tribunal de Justiça https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Institucional/Educacao-e-cultura/Eventos/III-Congresso-Internacional-de-Direito-do-Seguro.aspx Acesso em 20 nov 2023

Youtube https://www.youtube.com/watch?v=IwZDDe1hlFA&pp=ygURZGlyZWl0byBkbyBzZWd1cm8%3D Acesso em 20 nov 2023 

IBDS https://www.ibds.com.br/18719-2/ Acesso em 20 nov 2023

Instagram https://www.instagram.com/omrefugi/ Acesso em 20 novv 2023

Metrópoles https://www.metropoles.com/colunas/claudia-meireles/orquestra-mundana-refugi-se-apresenta-em-show-emocionante-na-catedral Acesso em 20 nov 2023

Correio Brasiliense  https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2023/11/6653001-catedral-recebe-orquestra-mundana-refugi-nesta-quinta-9-11.html Acesso 20 nov 2023

Jornal de Brasília https://jornaldebrasilia.com.br/entretenimento/eventos/orquestra-mundana-refugi-se-apresenta-na-catedral/ Acesso em 20 nov 2023

Portal Terra https://www.terra.com.br/esportes/orquestra-que-reune-brasileiros-e-refugiados-se-apresenta-em-brasilia,0ffcbbaf88502674cbab95f8f6195cbdll9vnvw7.html Acesso em 20 nov 2023

Agência Brasil https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-11/orquestra-que-reune-brasileiros-e-refugiados-se-apresenta-em-brasilia Acesso em 20 nov 2023 

Arquidiocese de Brasília https://arqbrasilia.com.br/nota-de-esclarecimento-2/ Acesso em 20 nov 2023Carta do Maestro Carlos Antunes https://arqbrasilia.com.br/wp-content/uploads/2023/11/Nota-de-Esclarecimento-Apresentac%CC%A7a%CC%83o-Mundana-Refugi.pdf  Acesso em 20 nov 2023

Foto de Capa: reprodução do Youtube

Deputada Bia Kicis usa recorte de vídeo para acusar PSOL de agir contra mulheres na política à direita

Um vídeo da deputada federal católica Bia Kicis (PL-DF)  viralizou em espaços digitais de religiosos. Trata-se de um recorte de fala da deputada, em reunião realizada na Câmara dos Deputados, uma sessão da Comissão Especial para votação do parecer do relator da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 9/23 , conhecida como PEC da Anistia. 

O texto, apresentado pelos deputados Paulo Magalhães (PSD-BA) e Hugo Motta (Republicanos-PB), prevê a anistia aos partidos políticos que não repassaram os percentuais mínimos de destinação de recursos do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha para as candidatas mulheres nas eleições do ano passado. A PEC propõe que esses partidos não serão multados e que o descumprimento da legislação não implique na perda do mandato de candidatos eleitos ou acarretar inelegibilidade.

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Imagem: reprodução do Instagram

O que Bereia verificou 

Logo após uma intervenção da deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS), no trecho 19’40”, Bia Kicis diz: “Me espanta ver uma deputada que diz que defende as mulheres, que é um partido que defende tanto as mulheres, mas que na verdade não consegue cumprir […]  a gente tem que entender o objetivo da Lei, o escopo da Lei, o escopo da lei da cota feminina […]  é botar mulher na política[…]  Aí o que aconteceu no Ceará? Mulheres foram eleitas com seus próprios votos, pessoas saíram de casa […] . Depois que elas já estão diplomadas exercendo seus mandatos vem uma decisão com base na lei que é pra colocar mulher e diz o seguinte: Não, como teve outras mulheres que parece que foram laranjas – a gente não sabe se foram, né – mas parece que foram laranjas, que não se elegeram, não se elegeram, olha só, então nós vamos retirar aquelas que foram eleitas e vamos colocar homens no lugar delas. Gente, isso não faz o menor sentido […] então, tô assistindo aqui uma deputada do PSOL, brigando pra, em nome da defesa da cota feminina, tirar mulheres que foram eleitas […] é o cúmulo! É cúmulo! Isso desafia a lógica você querer com base num argumento de que não foi cumprida a cota feminina que, por isso, você vai retirar as mulheres que foram eleitas com seus próprios votos…”.

Os fatos e a fala da deputada do PSOL Fernanda Melchionna (RS)

No trecho da transmissão da sessão da comissão (16’30” em diante), a deputada Fernanda Melchionna, que falou antes da deputada Kicis, denunciou o desvirtuamento trazido pela PEC 09/23, concernente às políticas afirmativas de inserção das mulheres na política, em razão da cota de gênero, estabelecida em Lei. 

Nas palavras críticas de Melchionna à PEC, foi dito: “nós pedimos a votação nominal como parte dos requerimentos de obstrução diante da PEC da vergonha, da PEC da autoanistia que, infelizmente, tramita nesta casa.” 

A deputada do PSOL, citou as ações movidas contra o Partido Liberal (PL), no Tribunal Regional Eleitoral do Ceará, sobre denúncias de “candidaturas laranjas” nas eleições de 2022 (prática ilegal, comum em eleições, de lançamento de candidatos sem o objetivo de ocupar vagas eletivas, mas  para preencher cotas ou para o partido receber financiamento). 

A deputada do PSOL no Rio Grande do Sul, lembrou a comprovação das denúncias e a condenação do partido por conta das “candidaturas laranjas” no Ceará, com a cassação da chapa de deputados, em primeira e em segunda instância,  por fraude à cota de gênero. O caso pode ser confirmado na página do TRE-CE.

Na verificação feita pelo Bereia, da gravação da transmissão da reunião citada por Bia Kicis em sua postagem, acessada diretamente no canal oficial da Câmara Federal, não se observou, em qualquer trecho, menção da deputada Melchionna que defendesse a substituição de mulheres eleita, por homens, conforme alegou Bia Kicis em sua fala, viralizada nas mídias sociais. 

Sete candidatas “laranja”

Fernanda Melchionna reproduziu, aos presentes na reunião, os depoimentos das mulheres que foram usadas pelo PL no Ceará, que, na alegação da deputada, “descobriram pela imprensa ou por parentes que eram candidatas. Sete candidatas laranja, com declaração delas próprias de que não deram seus nomes, que não eram candidatas e que foram usadas no verdadeiro laranjal no Ceará”. 

Melchionna afirma que, em depoimento, uma das “candidatas” a sra. Marlucia disse: “Eu não sabia. Me botaram, eu não sabia”. Segundo a parlamentar, a Sra. Marlucia, ao ser questionada, durante depoimento, se queria ser candidata, respondeu que “não queria, que não foi fazer foto para ser candidata, que ficou sabendo por um primo do marido e que sabia e não queria se candidatar.” 

A parlamentar encerrou essa parte da fala na Comissão Especial, com a denúncia da gravidade do uso de candidatas laranja acionadas para burlar a Lei e descumprir a cota de gênero. Nesse sentido, a deputada do PSOL afirmou que a condenação da Justiça em Primeiro e em Segundo Grau, no Ceará, se mostra “importantíssima para combater o uso de candidatas laranjas, descumprindo a cota de gênero, desrespeitando a histórica luta das mulheres […] e essa condenação colocou uma responsabilização  sobre o conjunto da chapa, porque é assim que tem que ser tratado. Os partidos não podem usar as mulheres achando que não vão ser condenados ou responsabilizados”, disse aos presentes.

A denuncia de um “jabuti” inserido na PEC 09/23

No prosseguimento da sua fala, de encaminhamento contrário à votação do texto do relator, Fernanda Melchionna menciona, com tom de indignação, o fato de que, além de manter a anistia aos partidos no caso das candidaturas de negros e negras,  e de transformar o piso de 30% das candidaturas femininas em teto, o relator da PEC 09/23, deputado Antonio Carlos Rodrigues (PL-SP), inseriu no texto final “um jabuti gigante” (jargão parlamentar que se refere à inserção de artigos em projetos de lei  que não têm relação com o objeto da proposta para atender interesses). 

O “jabuti”, segundo a deputada, tenta garantir a revogação da decisão tomada pela Justiça do Ceará. “É uma vergonha! E como é que não tem impedimento se o relator é de um partido que vai ser beneficiado com quatro cadeiras que obviamente foram anuladas diante do expediente criminoso de uso de candidatas laranjas”, criticou a deputada do PSOL.

Ao finalizar o encaminhamento contra a votação do texto do relator, Melchionna concluiu dizendo ter aproveitado o requerimento que fez para que haja votação nominal para dizer que a PEC 09/23 “tem impedimento, tem conflito de interesse, além de jabuti, além de uma vergonha, além de uma tentativa de autoanistia que já era objetivo original da PEC, aqui, de revogar uma decisão judicial no tapetão” (trecho no minuto 19’35’’). Verifica-se que foi logo após este momento que a deputada Bia Kicis fez a da defesa da PEC 09/23 e acusou a deputada do PSOL de atuar para retirar o mandato de mulheres de direita para substituir com homens de esquerda,  o que representa distorção do conteúdo da fala anterior, como se pode verificar. 

Bereia recorreu à avaliação da procuradora regional da República, coordenadora do GT Violência Política de Gênero da Cice-PGE/MPF, Raquel Branquinho sobre a situação denunciada por Fernanda Melchionna na Câmara Federal. Em artigo, a procuradora diz: “o mesmo Parlamento que promulgou uma legislação que representa, nos últimos 25 anos, um microssistema jurídico de políticas afirmativas em prol de maior representatividade feminina, vem, ao longo do tempo e principalmente nestes últimos anos, concedendo, por meio de Emendas Parlamentares, sucessivas anistias que aniquilam ou neutralizam a finalidade dessas medidas e seu modo de execução. Dessa forma fragilizam iniciativas que visam a uma maior participação feminina na vida política do país e aportam em reflexos positivos para a sociedade.”

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Após verificar  o contexto do vídeo que mostra as falas dos integrantes da Comissão Especial instalada para discutir e votar o texto do relator da PEC 09/23, Bereia considera o conteúdo postado em mídias sociais pela deputada Bia Kicis (PL-DF) enganoso. A publicação usou trecho gravado de reunião parlamentar que, de fato existiu, porém, as afirmações sobre falas dos parlamentares do PSOL, especialmente da deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RJ) foram distorcidas. 

Diferentemente da fala enganosa de Bia Kicis, o que se observou na análise dos fatos e nas publicações de instituições que se posicionaram em relação a PEC 09/23, ocorreu o contrário, a firme defesa da inserção da mulher no exercício parlamentar em consolidação às políticas afirmativas conforme estabelecido em lei. Foi identificado, no discurso de Fernanda Melchiona, a denúncia contra a PEC em discussão, que, se aprovada, manterá o uso de mulheres como “laranjas”, por partidos. A prática, trazida na denúncia com o caso da Justiça Eleitoral no Ceará, envolve o Partido Liberal, de direita, ao qual está vinculada Bia Kicis. A postagem viralizada e checada pelo Bereia, é um recorte de discussão mais ampla, que uma vez conhecida, desmente a acusação da deputada católica que atua para defender seu partido e a PEC em  discussão recorrendo a desinformação.

Bereia incentiva que o leitores e leitoras exerçam sempre uma leitura crítica dos discursos presentes nas redes sociais digitais que se apresentam de forma recortada e descontextualizada, em busca de informações de qualidade, completas e contextualizadas.

Referências

JOTA. https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/campanhas-eleitorais-a-pec-09-2023-e-seus-reflexos-sociais-19042023. Acesso em 19 set 2023

YOUTUBE.  PEC 9/23 – Cota Mínima de Recursos dos Partidos – Votação do parecer do relator – 13/09/2023  https://www.youtube.com/watch?v=ogtscyUxNLs . Acesso em 19 set 2023

TRE-CE. TRE-CE cassa chapa de deputados estaduais do PL por fraude à cota de gênero. https://www.tre-ce.jus.br/comunicacao/noticias/2023/Maio/tre-ce-cassa-chapa-de-deputados-estaduais-do-pl-por-fraude-a-cota-de-genero. Acesso 20 set 2023

MPF. MPF alerta para retrocesso em PEC de anistia a partidos que não repassaram mínimo de recursos a mulheres. https://www.mpf.mp.br/pgr/noticias-pgr/mpf-alerta-para-retrocesso-em-pec-de-anistia-a-partidos-que-nao-repassaram-minimo-de-recursos-a-mulheres. Acesso 20 set 2023