
Circulam nas redes digitais questionamentos sobre a identidade religiosa de um dos desembargadores que participaram do julgamento, na 9ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), que absolveu um homem de 35 anos acusado de estupro de vulnerável (uma menina de 12 anos): Walner Milward. Publicações virais atribuem ao magistrado, que votou favoravelmente à absolvição, o título de pastor de uma igreja evangélica pentecostal, a Igreja Cristã Maranata. Bereia verificou a veracidade das informações.

Entenda o caso
O crime ocorreu em Indianópolis, no Triângulo Mineiro. Em abril de 2024, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) apresentou denúncia contra um homem de 35 anos, acusado de praticar conjunção carnal e atos libidinosos com uma adolescente de 12 anos.
De acordo com as investigações, a menina vivia com o acusado, com autorização da mãe, e havia deixado de frequentar a escola. O suspeito foi preso em flagrante, em 8 de abril de 2024 e, na delegacia, admitiu manter relações sexuais com a menor. A mãe da adolescente declarou que permitiu que ele “namorasse” a filha e também foi denunciada por omissão.
Em novembro de 2025, a 1ª Vara Criminal e da Infância e da Juventude da Comarca de Araguari condenou o homem e a mãe da adolescente a nove anos e quatro meses de prisão. A defesa recorreu da decisão.
O recurso da defesa foi julgado pela 9ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), que, dias atrás, decidiu pela absolvição do réu por maioria de votos (2 a 1). O relator, desembargador Magid Nauef Láuar, sustentou que o caso apresentava “peculiaridades” que afastariam a aplicação automática de precedentes sobre estupro de vulnerável. Em seu voto, afirmou que havia um “vínculo afetivo consensual” entre o réu e a vítima, com ciência dos responsáveis. O desembargador Walner Barbosa Milward de Azevedo, que ingressou no TJMG em 2023, acompanhou o relator, e ajudou a formar a maioria pela absolvição.
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) confirmou a decisão de absolvição do acusado de estupro de vulnerável contra uma criança de 12 anos e informou que o processo tramita sob sigilo, em razão de envolver menor de idade.
O caso ganhou as mídias sociais, com indignação de usuários sobre os argumentos que fundamentaram a absolvição. À medida que o debate foi popularizado, novos trechos do voto relator causaram revolta pois remetem ao que pode ser interpretado como normalização da pedofilia. “O próprio costume mantido na cidade onde as partes residem trouxe à vítima uma experiência precoce na vida”, disse o relator em seu voto, para justificar a não consideração da menina como vulnerável.
Em reportagem do Jornal da Band sobre o caso, em que trechos do acórdão foram expostos, a jornalista da Band Adriana Araújo emitiu opinião que acabou viralizando nas redes. “Eu faço questão de repetir os nomes dos dois desembargadores que deram o aval para um homem de 35 anos estuprar uma criança de 12: Magid Nauef Láuar, o relator, e Walner Barbosa de Azevedo, o desembargador que balançou a cabeça para essa vergonha”.
A repercussão provocou representações no Ministério Público para anulação da sentença, com mobilização de deputados federais, como Erika Hilton (PSOL-SP) e Nikolas Ferreira (PL-MG). O Partido dos Trabalhadores (PT) entrou com ação no Supremo Tribunal Federal para que sejam impedidas decisões judiciais que “relativizem” a proteção penal de crianças menores de 14 anos em casos de estupro de vulnerável. O partido alega que julgamentos que recorrem a noções como “vínculo”, “consenso” e “aceitação familiar” tendem a expor a vítima.
A situação se tornou mais complexa depois que surgiram denúncias de abuso sexual contra o relator Magid Nauef Láuar. O corregedor nacional de Justiça ministro Mauro Campbell confirmou a informação. O desembargador está sendo investigado pelo CNJ por denúncias que teriam vindo à tona após a repercussão da decisão de absolvição no caso de estupro de vulnerável, uma delas de um sobrinho dele.
A identidade religiosa do desembargador
Entre as múltiplas publicações nas redes digitais sobre o caso, algumas questionaram a identidade religiosa do desembargador Walner Milward, que acompanhou o relator na absolvição. Em tom crítico, postagens atribuem a Milward o título de pastor de uma igreja evangélica pentecostal, a Igreja Cristã Maranata.

Bereia localizou um vídeo de Walner Barbosa Milward de Azevedo, publicado originalmente no perfil oficial da Igreja Cristã Maranata em Uberlândia, de nome Maanaim Uberlândia. No registro, de agosto de 2025, o desembargador aparece identificado como “pastor”.

No vídeo, o pastor Walner Milward grava mensagem com um versículo bíblico dirigido ao Seminário de Jovens Maanaim de Uberlândia. A publicação foi removida pouco depois de o Bereia registrar a captura da tela. A conta responsável pela republicação do vídeo também tornou-se privada nas horas seguintes ao registro da impressão da tela.
Em sua conta pessoal no Instagram, o Walner Milward segue diversos perfis de conteúdo cristão e evangélico, entre eles contas oficiais ligadas à Igreja Cristã Maranata




Bereia também levantou materiais que destacam a esposa do desembargador e pastor Walner Milward em atuação na Igreja Cristã Maranata. No perfil oficial da Maanaim Uberlândia no Instagram, ela aparece em uma foto histórica, celebrativa dos 20 anos da aquisição do local onde a igreja está. Na legenda, é citada como “Sra. Wanda Edir (esposa do Pr Walner)”

Em reportagem do jornal eletrônico Sim, intitulada “A força do voluntariado da Igreja Cristã Maranata”, de 21 de março de 2024, é citada a atuação de Wanda Milward de Azevedo. No trecho da matéria está a referência a ela: “Serva da Igreja Cristã Maranata desde os 15 anos de idade, Wanda, hoje com 64, é casada com o Pastor Walner Barbosa Milward de Azevedo, desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG). Com o marido, mora na cidade de Uberlândia, no Triângulo Mineiro”.

Bereia entrou em contato com a Igreja Cristã Maranata em Uberlândia para solicitar posicionamento sobre o caso. Em resposta, a instituição informou que não se manifestará e declarou apenas que “a igreja não se pronuncia diante de decisões do Poder Judiciário”, sem negar a vinculação do desembargador aos seus quadros pastorais.
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Diante da verificação realizada, o Bereia confirma que o desembargador Walner Barbosa Milward de Azevedo, que formou a maioria que absolveu, no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), réu acusado de estupro de vulnerável, é pastor evangélico. Bereia localizou vídeo originalmente publicado por perfil vinculado à Igreja Cristã Maranata, no qual Milward profere mensagem com versículo bíblico e é identificado como pastor. O conteúdo foi posteriormente removido, e a conta que o republicou tornou-se privada após o registro feito pela reportagem. Além disso, foram identificadas interações públicas do desembargador com perfis ligados à denominação e um registro em reportagem que cita a esposa de Milwaard e confirma a titulação dele como pastor e desembargador.
Referências:
G1. https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2026/02/20/justica-de-mg-absolve-homem-de-35-anos-acusado-de-estupro-de-vulneravel-contra-menina-de-12.ghtml. Acesso em 24 de fevereiro de 2026.
G1. https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2026/02/23/ministerio-publico-de-mg-recorre-de-decisao-que-absolveu-acusado-de-estupro-de-vulneravel-contra-menina-de-12-anos.ghtml. Acesso em 24 de fevereiro de 2026.
Sintrajufe. Por 2×1, com voto de desembargador pastor, TJMG diz que homem de 35 anos tem “vínculo afetivo consensual” com menina de 12. Acesso em 24 de fevereiro de 2026.
Veja. https://veja.abril.com.br/brasil/os-desdobramentos-de-decisao-do-tjmg-que-absolveu-acusado-de-estupro-de-menina-de-12-anos/. Acesso em 24 de fevereiro de 2024.
Conselho Nacional de Justiça. Corregedor instaura Pedido de Providências sobre absolvição em caso de estupro de vulnerável – Portal CNJ. Acesso em 24 de fevereiro de 2026.
Veja. https://www.gov.br/mulheres/pt-br/central-de-conteudos/noticias/2026/fevereiro/mdhc-e-ministerio-das-mulheres-manifestam-se-sobre-decisao-da-9a-camara-criminal-especializada-do-tribunal-de-justica-de-minas-gerais. Acesso em 24 de fevereiro de 2026.
Sim Notícias
https://simnoticias.com.br/conteudo-de-marca/a-forca-do-voluntariado-da-igreja-crista-maranata/. Acesso em 25 de fevereiro de 2026.
Band Jornalismo
https://youtu.be/1UJ04DcK1GM?si=ZuytZseEoC_Z-Y1M. Acesso em 25 de fevereiro de 2026.
CNN
https://www.cnnbrasil.com.br/politica/pt-aciona-stf-para-barrar-decisoes-que-relativizam-estupro-de-vulneravel/. Acesso em 25 de fevereiro de 2026.
Diário do Poder
https://diariodopoder.com.br/brasil-e-regioes/mp-entra-com-recursos-na-justica-contra-absolvicao-de-reu-por-estupro-de-garota-em-mg/amp. Acesso em 25 de fevereiro de 2026.
CNNhttps://www.cnnbrasil.com.br/blogs/taina-falcao/nacional/sudeste/mg/caso-tjmg-desembargador-destacou-tratamento-dado-por-abusador-a-vitima/. Acesso em 25 de fevereiro de 2026.



