Um vídeo de uma manifestação realizada em 22 de outubro, no Largo da Batata, em São Paulo (SP), ganhou repercussão nas redes digitais e foi compartilhado por políticos evangélicos, lideranças religiosas e pelo site gospel Pleno News. As publicações usam as imagens de praticantes de religiões de matriz africana para afirmar que os participantes cantavam “amarrar Bolsonaro no cipó”, pedindo a morte do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL).

O episódio também passou a ser utilizado em publicações que convocam cristãos para uma “guerra espiritual” como campanha eleitoral para o candidato supostamente atacado.
Para checar o caso, o Bereia ouviu o pai de santo umbandista David Dias, um dos participantes do evento, e a historiadora e pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) Carolina Rocha sobre a interpretação de manifestações espirituais e a intolerância religiosa no debate político.
O que diz o conteúdo publicado?
O vídeo foi gravado durante a Grande Roda da Rua, no ato “Tambores pela Democracia: Bolsonaro Nunca Mais”, realizado na capital paulista. Nas imagens, um grupo de pessoas aparece reunido em uma roda, ao som de tambores e cantos, enquanto dança ao redor de uma pequena chama no chão.

Publicações que repercutiram o registro atribuem o canto a praticantes de Umbanda e Candomblé e afirmam que os participantes entoavam a frase “amarrar Bolsonaro no cipó”, interpretada como uma ameaça ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
O deputado federal evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG), reeleito no primeiro turno, primeiro colocado no levantamento do Bereia sobre perfis desinformantes com identidade religiosa, compartilhou o vídeo em seu perfil no Instagram. Outros políticos, pastores e páginas religiosas também repercutiram as imagens, associando-as a uma suposta “guerra espiritual”.


Imagens: reprodução/Instagram
Algumas dessas publicações relacionam a presença de praticantes de religiões de matriz africana ao apoio político ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a supostas práticas espirituais contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República.
Essa abordagem apresenta a disputa eleitoral como um confronto entre forças do bem e do mal, associando manifestações religiosas a ameaças políticas.
O que diz o organizador do evento?
Em resposta ao Bereia, o pai de santo umbandista David Dias, esclareceu que o trecho divulgado mostra indígenas cantando um Toré, manifestação cultural e espiritual presente em diferentes povos indígenas, que envolve cantos, danças e outros elementos tradicionais.
“Sim! Estávamos presentes ontem neste evento organizado pelo coletivo do PSOL, chamado EmancipAxé. No momento desses cantos, trata-se de um grupo de indígenas cantando um Toré com suas cantigas tradicionais”, afirmou David Dias.
Segundo o organizador do evento, a proposta era reunir povos tradicionais para articular forças contra um projeto político que considera ameaçador. Ele relaciona a mobilização a declarações do candidato Flávio Bolsonaro sobre a intenção de decretar que o Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo.
Para o religioso, uma proposta dessa natureza contraria o princípio da laicidade do Estado, previsto na Constituição Federal. O artigo 19, inciso I, proíbe a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios de estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los ou manter com eles relações de dependência ou aliança, ressalvadas as exceções previstas no próprio dispositivo.
David Dias explicou ainda que a cantiga entoada no ato pertence à tradição da Jurema e apresenta uma versão conhecida com os versos “vamos dançar, dançar o catimbó, para trazer o inimigo amarrado no cipó”. Segundo ele, a letra foi adaptada durante a manifestação para identificar o adversário político a quem o grupo se opunha.
O religioso acrescentou que existem cantigas com expressões semelhantes em terreiros de Umbanda, mas ressaltou que os repertórios tradicionais são dinâmicos e podem ser adaptados de acordo com o contexto. Segundo sua interpretação, a figura do inimigo, nessas cantigas, pode representar quem ameaça os territórios, derruba a mata ou coloca em risco os modos de vida dos povos tradicionais.
Sobre o significado da expressão “amarrar no cipó”, David Dias afirmou que, naquele contexto, ela representa um pedido para conter a força de alguém considerado ameaçador, impedindo que cause danos. “Não há na cantiga pedido de morte ou de doença para ninguém”, declarou. Ele explicou que o cipó representa a própria mata e que a imagem de trazer o inimigo amarrado nele expressa um pedido para que a floresta contenha quem pretende destruí-la.
David Dias também criticou a interpretação da cantiga como uma maldição. Para ele, classificar práticas indígenas e afro-brasileiras como feitiçaria reproduz uma tradição histórica de perseguição religiosa. Dias lembrou que o Código Penal de 1890 criminalizava práticas descritas como “magia e seus sortilégios”, no artigo 157, dispositivo que integra a história da repressão estatal a determinadas práticas religiosas.
Na avaliação do religioso, existe um tratamento desigual entre as manifestações espirituais de diferentes tradições. Enquanto discursos cristãos sobre o combate aos inimigos e às forças do mal são frequentemente reconhecidos como expressões de fé, práticas indígenas e afro-brasileiras podem ser classificadas como bruxaria ou ameaça. Ele associa essa diferença ao racismo religioso, que estigmatiza tradições historicamente perseguidas.
Por fim, David Dias afirmou que a defesa da laicidade não representa oposição ao cristianismo, mas a garantia de que nenhuma religião seja privilegiada pelo Estado. Segundo ele, esse princípio permite que diferentes comunidades celebrem seus cultos sem medo de perseguição ou discriminação.
Racismo religioso e a interpretação das manifestações espirituais
A historiadora e pesquisadora do ISER Carolina Rocha chama a atenção para a necessidade de considerar o contexto histórico e religioso antes de interpretar a cantiga registrada no vídeo como uma ameaça literal de morte.
Confirmando o que Davi Dias afirmou ao Bereia, Carolina Rocha explica que manifestações espirituais indígenas e afro-brasileiras podem mobilizar sentidos de proteção, fortalecimento coletivo, resistência e afastamento de forças consideradas ameaçadoras, sem necessariamente indicar o desejo de matar alguém. Ela indica que o cipó também aparece em diferentes tradições e cosmologias indígenas, que não devem ser confundidas entre si.
A estudiosa relaciona o episódio ao debate sobre a chamada “guerra espiritual” no cenário político brasileiro. De acordo com ela, discursos de figuras públicas que apresentam disputas políticas como confrontos entre o bem e o mal precisam ser analisados considerando seus efeitos sobre grupos religiosos historicamente marginalizados.
As religiões de matriz africana e espiritualidades indígenas, segundo Carol Rocha, foram frequentemente associadas ao mal e ao demoníaco, embora suas cosmologias não sejam necessariamente organizadas a partir da figura do diabo cristão. A interpretação dessas tradições a partir de referências religiosas que não lhes são próprias contribui para a reprodução de estigmas e constitui uma das expressões do racismo religioso.
Como exemplo desse contexto, Carol Rocha menciona a pesquisa “Religião e Vida Pública no Brasil”, realizada pelo ISER em parceria com a Quaest, que investigou, entre outras questões, as representações religiosas do mal. Os resultados da pesquisa ajudam a compreender como determinadas associações entre crenças religiosas e forças malignas são construídas e reproduzidas socialmente.
Eleições, intolerância religiosa e uso do discurso de guerra espiritual
A circulação do vídeo ocorre em um contexto eleitoral no qual manifestações religiosas também são mobilizadas para interpretar disputas políticas. Nas publicações que enquadram o episódio como parte de uma “guerra espiritual”, imagens de povos indígenas e praticantes de religiões de matriz africana são apresentadas como elementos de um confronto religioso associado à disputa eleitoral.
Essa abordagem exige atenção porque pode reforçar a ideia de que determinadas tradições religiosas representam uma ameaça, sobretudo quando as imagens são acompanhadas de acusações que não apresentam evidências suficientes para sustentar a interpretação proposta.
Carolina Rocha questiona a diferença de tratamento dada às expressões afrorreligiosas. Enquanto discursos cristãos sobre expulsar o mal, combater inimigos e travar batalhas espirituais podem ser reconhecidos como parte da linguagem da fé, manifestações indígenas e afro-brasileiras podem ser apresentadas como evidências de violência, sem que seus contextos sejam considerados.
A pesquisadora destaca que o Toré pode expressar espiritualidade, ancestralidade, fortalecimento coletivo, afirmação identitária e resistência política. Essas dimensões podem estar articuladas, especialmente diante das violências historicamente enfrentadas por povos indígenas.
A interpretação de uma manifestação como intenção de matar uma pessoa exige evidências específicas, e não pode se apoiar exclusivamente em associações feitas a partir de imagens ou de expressões religiosas descontextualizadas.
A divulgação do vídeo como suposta ameaça de morte pode contribuir para a demonização de povos indígenas e comunidades de terreiro. Embora manifestações políticas e religiosas possam ser questionadas, essa análise precisa considerar as tradições envolvidas e evitar que grupos historicamente perseguidos sejam apresentados automaticamente como violentos ou criminosos.
No contexto eleitoral, a associação entre religião, disputa política e forças malignas também pode aprofundar a polarização e estimular a hostilidade contra grupos que professam crenças diferentes. Quando esse discurso circula sem contextualização, a manifestação de uma minoria religiosa pode ser transformada em instrumento de mobilização política contra ela.
A liberdade religiosa assegura a todas as tradições o direito de expressar sua espiritualidade, inclusive em manifestações públicas com dimensão política. Esse direito não elimina a necessidade de verificar alegações sobre ameaças concretas, mas exige que acusações sejam sustentadas por evidências e que a interpretação das imagens não reproduza preconceitos religiosos.
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O Bereia classifica o conteúdo publicado pelo Pleno News e por lideranças políticas e religiosas evangelicas como falso. Embora o vídeo registre uma manifestação durante o ato “Tambores pela Democracia: Bolsonaro Nunca Mais”, não há elementos comprobatórios para se afirmar que uma ameaça de morte contra Bolsonaro pai ou filho foi entoada no evento, como propagado na publicação circulante.
Bereia ouviu o organizador, o pai de santo David Dias, que explica que o trecho manipulado mostra indígenas cantando um Toré. A pesquisadora das religiões Carol Rocha acrescenta que a circulação das imagens associadas à ideia de “guerra espiritual” reforça, com campanha eleitoral, intolerância religiosa e estigmatização de povos indígenas e comunidades de terreiro.
Referências:
ISER. https://iser.org.br/religiaoevidapublicanobrasil/. Acesso em 23 de outubro de 2026.

