Cultos e missas foram espaço de propaganda eleitoral às vésperas do primeiro turno das eleições, aponta pesquisa

“Não estamos pedindo voto (…) Se você não tiver nenhum candidato, a nossa irmã está ali na porta e vai estar entregando o santinho.”; “Nós estamos recebendo alguns candidatos e o papel da igreja é orar, interceder, assim como cidadãos, também nós somos brasileiros, né?”; “(…) Estamos fazendo campanha? Não, nós estamos orando pelos nossos irmãos crentes (…) Um irmão zangou. ‘É, se for para fazer isso no grupo de igreja, eu saio’. Saia.”

Estes são alguns dos exemplos de como política e eleições foram abordados nos dois domingos que antecederam o primeiro turno do pleito de 2026 em igrejas católicas, batistas e da Assembleia de Deus ao redor do Brasil.

As declarações estão na pesquisa “Fé e voto: um retrato do discurso eleitoral nas igrejas brasileiras”, realizada pela organização More in Common Brasil em parceria com o Grupo de Pesquisa Passagens, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O estudo encontrou propaganda eleitoral em 3% dos cerca de 7,4 mil missas e cultos analisados em 25 estados e no Distrito Federal.

Também foram analisadas abordagens de tom cívico, conforme nomenclatura da pesquisa, com falas que buscam combater a divisão social e estimular o voto consciente, com base em valores humanistas e/ou religiosos, mas sem indicar uma candidatura ou campo político específico.

Fonte: Fé e voto | More in Common Brasil · Passagens/UFRJ 

Análise por denominação

Este tipo de discurso teve quase cinco vezes mais ocorrências do que as propagandas eleitorais, entendidas pelos pesquisadores como práticas que promovem ou atacam uma candidatura, direta ou indiretamente, incluindo o pedido explícito de votos, a nomeação ou benção de candidatos e campos políticos. 

Quando os dados são segmentados conforme as religiões e denominações, os cultos das Assembleias de Deus lideram os casos de propaganda eleitoral, com 8,30% de ocorrências em um total de 2.075 cultos. Isso equivale a quase seis vezes o percentual encontrado nas cerimônias das Igrejas Batistas (1,40%) e doze vezes o das missas católicas (0,70%). Assim, 72% dos casos verificados de propaganda política ocorreram durante os cultos das Assembleias de Deus.

“Talvez a centralização administrativa da Igreja Católica e a orientação das duas grandes convenções batistas (Convenção Batista Brasileira e Convenção Batista Nacional) tenham conseguido impor uma disciplina mais de acordo com a legislação eleitoral brasileira”, avalia o diretor-executivo da More in Common Brasil Pablo Ortellado.

Fonte: Fé e voto | More in Common Brasil · Passagens/UFRJ

O que a lei eleitoral diz e as brechas

A propaganda eleitoral em espaços religiosos é proibida. As igrejas se valem, porém, de uma ambiguidade jurídica, já que a lei não aborda explicitamente o discurso religioso proferido durante as pregações. Conforme a Lei das Eleições (Lei 9.504/1997), os templos são considerados como “bens de uso comum” para fins eleitorais. Já a Lei 12.034/2009, em seu ao artigo 37, § 4º, iguala as igrejas a cinemas, clubes e estádios como espaços de propriedade privada, mas abertos ao público, onde fica proibida a veiculação de propaganda eleitoral de qualquer natureza.

Também são proibidas doações a campanhas (art. 24, VIII) vindas de organizações religiosas. “Nosso levantamento mostra que as definições do regramento eleitoral não conseguem dar conta das diferentes maneiras pelas quais padres e pastores pedem voto em missas e cultos”, afirma Ortellado em sua análise sobre os resultados da pesquisa. “Encontramos pedidos para procurar padres e pastores para conversas particulares, avisos para os fiéis sobre panfletos nas portas das igrejas, convites para adesivar os carros dos fiéis e destaques e bênçãos específicos para candidatos presentes nos cultos e missas.”

O professor e pesquisador da UFRJ, co-autor do estudo, Rodrigo Toniol ressalta que nem sempre a propaganda se refere diretamente a um partido ou candidato. “Em alguns casos, não se indica inicialmente um nome, mas se opõem ‘direita’ e ‘esquerda’, ‘cristãos’ e ‘comunistas’, ou candidatos que defenderiam e candidatos que ameaçariam determinados valores religiosos.” Em matéria publicada em setembro passado, o Bereia já mostrava como lideranças religiosas, com orientação jurídica, se beneficiam de brechas na lei para promover candidaturas e preferências partidárias.


A mistura entre religião e política detectada pelo estudo vai na contramão do que outro estudo recente, produzido pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER), em parceria com a Quaest demonstrou: que os brasileiros que têm religião não querem que ela se misture com política. Segundo dados da pesquisa nacional Religião e Vida Pública no Brasil, de setembro de 2026, 82% dos entrevistados rejeitam que se discuta política nas igrejas, 83% rejeitam que se indique em quem votar e 90% rejeitam campanhas de candidatos dentro de igrejas e comunidades religiosas.

Outro aspecto encontrado pela pesquisa “Fé e Voto” é que, apesar da grande visibilidade da disputa presidencial, grande parte das menções consideradas como propaganda política enfatizavam as eleições para a Câmara de Deputados e para as Assembleias Legislativas estaduais.

Entre as ocorrências de propaganda eleitoral (pedidos de voto, menções positivas, ataques a candidaturas), 32 se referiam aos candidatos a presidente, 28 a deputado federal e 38 a deputado estadual. Candidatos ao governo receberam cinco menções, e ao Senado, outras três. Ou seja, as disputas para deputado, tanto em nível federal, quanto estadual, somadas, tiveram o dobro das ocorrências das propagandas relacionadas à disputa presidencial.

Para o Toniol, estes candidatos ganham destaque graças à proximidade com a comunidade religiosa, pelo pertencimento à igreja ou pelo apoio que deram anteriormente à instituição. “O púlpito revela, assim, uma política menos centrada apenas na disputa presidencial e mais enraizada em redes locais de reciprocidade e representação”, afirma o professor e pesquisador.

O caso Nossa Senhora

Ao se debruçar sobre as transmissões dos cultos e missas de 20 e 27 de setembro de 2026, a pesquisa também pôde analisar a repercussão do caso Nossa Senhora Aparecida, que tomou conta do noticiário e mídias sociais, como o Bereia publicou.

“Chamou atenção, por fim, a presença muito marginal, no interior das celebrações, da controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida, que dominou parte importante do debate público durante o mesmo período”, afirma Toniol. “Quando apareceu, o tema foi mobilizado principalmente para desmentir, corrigir ou esclarecer a notícia, ainda que por vezes esse esclarecimento viesse acompanhado de interpretações políticas sobre sua circulação.”

Para o professor, a discrepância é relevante, já que temas religiosos que conseguem dominar o debate público e espaços digitais não necessariamente alcançam com a mesma intensidade o dia a dia das comunidades religiosas. “A liturgia católica possui uma dinâmica muito própria e não reproduz mecanicamente a agenda de controvérsias públicas”, conclui Toniol.

Bereia seguirá acompanhando as situações relacionadas à relação fé e campanha eleitoral.  

Referências

Fé e voto: um retrato do discurso eleitoral nas igrejas brasileiras, More in Common Brasil em parceria com o Grupo de Pesquisa Passagens da UFRJ

https://moreincommon.org.br/fe-e-voto-o-que-padres-e-pastores-disseram-nos-pulpitos-as-vesperas-da-eleicao/ Acesso em 13 out 2026

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