Grupo de divulgação científica da USP mostra anatomia das fake news

Publicado originalmente em Jornal USP – Universidade de São Paulo. 30/06/2020

Manual criado pelo Vidya Academics em parceria com o Pretty Much Science traz as principais fake news que estão circulando durante a pandemia e a explicação do porquê elas estão erradas

Reprodução /USP

Além de se proteger do novo coronavírus, é preciso também se prevenir das inúmeras informações e explicações erradas que circulam, principalmente pelas redes sociais. Para adquirir imunidade informativa o grupo de divulgação científica Vidya Academics, criada por alunos e docentes da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP, em parceria com o Pretty Much Science, criou o Coronavírus – Manual das Fake News

A iniciativa começou com algumas postagens desmitificando mensagens e publicações no Facebook e no Whatsapp que desinformavam a população em suas redes sociais. “Havia muitas publicações que afirmavam que a doença não apresentava perigo aos jovens, que o vírus havia sido criado em laboratório e ensinavam inúmeras curas com chás e outras pseudociências” afirma Artur Acelino Queiroz, doutorando em Ciências pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP e colaborador do Vidya Academics. Após obterem um grande material, os organizadores decidiram compilá-lo em uma publicação, que é disponibilizada em duas versões, português e inglês. 

Além de oferecer os conteúdos checados, a produção reuniu alguns dos elementos mais encontrados nas fake news. Semelhantemente a um check-list, o material permite que os usuários observem se o conteúdo recebido em suas redes sociais se enquadra à estrutura que as informações falsas costumam ter. Caso se enquadre, existe uma grande possibilidade dele ser falso ou impreciso, conforme explica Queiroz.

Para o pós-graduando, que também é um dos autores do conteúdo, o manual pode ajudar no combate às fake news sobre diversos temas, não apenas sobre a covid-19. “A partir das dicas e etapas que listamos, fake news de outras áreas – como política e história – podem ser checadas ou pelo menos identificadas antes de serem disseminadas. Essa é mais uma ferramenta para instrumentalizar tanto a comunidade acadêmica quanto a população em geral sobre como combater a disseminação de notícias falsas.”

O que diz o Manual das Fake News

Manual do Vidya Academics (Reprodução/ USP)

O manual foi produzido por nove pessoas, Wasim Syed, Camila Magalhães, Artur Acelino Queiroz, Eduarda Moreira, Rayane Valez, Francisco Moro, Isabela Gonzaga, Vitor Serrão e Maurício Gardini, a maioria atuante na área da saúde.  Possui 15 orientações para a identificação de uma fake news, entre elas: não compartilhar imediatamente quando receber mensagens informativas; lembrar que as notícias inventadas são feitas para causar surpresas ou rejeição; suspeitar de conteúdos que causem reações emocionais fortes ou daqueles que dizem que a mídia quer esconder os fatos; ler sempre a matéria completa; descubra a fonte, ou seja, de onde se originou a notícia; confira dados e o contexto; e desconfie de experiências pessoais.  

O manual também traz as principais fake news que estão circulando sobre a pandemia e a explicação do porquê elas estão erradas, com as fontes que embasam os esclarecimentos, como por exemplo que o clima frio e neve matam o novo coronavírus. “Não há razão em acreditar que clima frio e neve poderiam matar o novo coronavírus, uma vez que o vírus tem se espalhado em países de clima muito frio, como a Noruega e Islândia, e o corpo humano sempre se mantém, em condições normais, entre 36.5°C e 37°C, independente da temperatura externa ou do tempo”, explica Wasim Syed, coordenador do Vidya Academics. Outra fake news citada pelos grupos é a que coloca o alho como uma boa opção para se prevenir do novo coronavírus. “O alho é um alimento saudável que pode ter algumas propriedades antimicrobianas. No entanto, não há evidências no surto atual de que comer alho tenha proteção para as pessoas contra o novo coronavírus”, destaca Syed. 

Confira a anatomia de 5 fake news abaixo ( deslize as páginas para o lado)

Sobre o Vidya Academics

O Vidya é uma plataforma de divulgação e educação científica criada por alunos e docentes da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP, com o objetivo de estreitar a interação entre a população e a ciência com uma linguagem mais popular e acessível e com artes mais atrativas. 

Entre as publicações do grupo está o roteiro sobre anticorpos e vacinas e uma série de três vídeos sobre o novo coronavírus. O primeiro traz a virologia do vírus, como é sua formação e o papel dos anticorpos. O segundo e o terceiro vídeos falam da biologia estrutural e os alvos terapêuticos do novo coronavírus. O texto e as imagens dos vídeos, de Wasim Syed, estão disponíveis no Youtube.  Saiba mais sobre o projeto no site.

Pretty Much Science é um projeto de divulgação científica que reúne cientistas de todas as partes do mundo para divulgar informações do universo da ciência de uma forma simples e compreensível.

Vídeo produzido pelo Vidya Academics com dicas para identificar fake news

Confira mais em:

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Manual das Fake News 

© 2019 – Universidade de São Paulo

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Estudo identifica principais fake news relacionadas à Covid-19

Publicado originalmente no site oficial da Fio Cruz, 18/05/2020

Um recente estudo, conduzido pelas pesquisadoras da ENSP Claudia Galhardi e Maria Cecília de Souza Minayo, identificou as principais fake news relacionadas à Covid-19, recebidas pelo aplicativo Eu Fiscalizo, entre março e maio no país.

Segundo Claudia, além de colocar vidas em risco, a disseminação de notícias falsas relacionadas ao novo coronavírus contribui para o descrédito da ciência e das instituições globais de saúde pública, bem como enfraquece as medidas adotadas pelos governos no combate à doença. Daí a importância da realização de estudos sobre a temática.

Precisamos redobrar a atenção ao receber informações nas redes sociais que não apresentem a fonte oficial e fazer uma leitura crítica antes de compartilhar qualquer conteúdo”, alerta a pesquisadora.

A primeira etapa da pesquisa, que fez um balanço das denúncias de notícias falsas recebidas entre 17 de março e 10 de abril, revela que 65% delas ensinam métodos caseiros para prevenir o contágio da Covid-19, 20% mostram métodos caseiros para curar a doença, 5,7% se referem a golpes bancários, 5% fazem menção a golpes sobre arrecadações para instituição de pesquisa e 4,3% se referem ao novo coronavírus como estratégia política.

A segunda fase do estudo, realizada entre 11 de abril e 13 de maio, aponta que, entre as fake news notificadas pelo app, 24,6% afirmam ser a doença uma estratégia política, 10,1% ensinam métodos caseiros para prevenir o contágio do novo coronavírus, 10,1% defendem o uso da cloroquina e hidroxicloroquina sem comprovação de eficácia científica e 7,2% são contra o distanciamento social.

Os resultados referentes ao intervalo entre abril e maio também mostram que 5,8% das notícias falsas ensinam métodos caseiros para curar a Covid-19, 5,8% afirmam que o novo coronavírus foi criado em laboratório, 4,3% declaram o uso de ivermectina como cura para a doença, 4,3% são contra o uso de máscaras e 2,9% difamam os profissionais de saúde.

Ainda entre os meses de abril e maio, foi constatado que, entre as fake news denunciadas, 2,9% são contra o uso de álcool em gel, 2,9% declaram o novo coronavírus como teoria conspiratória, 1,4% são relacionadas à difamação de políticos, 1,4% declaram ter a causa do óbito de parentes alterada para Covid-19 e 0,4% consistem em charlatanismo religioso, com tentativa de venda de artefatos para a cura da doença. O estudo também aponta que 15,9% das fake news se referem à Covid-19 como uma farsa, durante todo o período analisado, entre 17 de março e 13 de maio.

Em abril, as pesquisadoras da ENSP realizaram estudo que identificou as mídias sociais mais utilizadas para a propagação de fake news relacionadas à Covid-19 notificadas pelo aplicativo.  

Saiba mais aqui sobre o Eu Fiscalizo.

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Referências:

Imagem de destaque: https://futurism.com/the-byte/protesters-break-quarantine-calling-covid-19-fake-news / VICTOR TANGERMANN