A Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) negaram, neste 9 de outubro, ter recebido depoimento ou documentos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, envolvido no golpe financeiro do Banco Master, sobre um suposto pagamento de R$ 30 milhões para financiar um documentário sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A acusação foi publicada, no mesmo 9 de outubro, pela revista Veja e repercutida por políticos de oposição, lideranças religiosas partidárias do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), que associaram o relato a um esquema de corrupção envolvendo integrantes do PT e fundos de pensão de estatais. A defesa de Vorcaro também negou ter apresentado esse material durante as negociações de colaboração premiada.

Sem ter ouvido os órgãos públicos responsáveis por delações premiadas, a reportagem da Veja afirma que o ex-banqueiro teria negociado com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto o pagamento de recursos para um documentário sobre Lula, em troca de acesso a negócios com fundos de pensão de estatais. A revista atribui as informações a gravações e documentos obtidos pela publicação. O documentário citado é “Lula”, dirigido pelo cineasta Oliver Stone e apresentado no Festival de Cannes, em maio de 2024.
Contestação dos órgãos de investigação
A PF contestou a informação de que o relato tenha sido apresentado oficialmente pelo ex-banqueiro. Em nota oficial o órgão, esclareceu que Vorcaro “não prestou depoimento com o teor relatado na matéria, tampouco entregou à instituição anexos, documentos ou informações com o conteúdo ali descrito”. A corporação informou ainda que as propostas de colaboração premiada apresentadas pela defesa haviam sido rejeitadas por não atenderem aos requisitos legais, conforme decisão fundamentada e comunicada aos advogados.
A PGR também negou ter recebido depoimento do ex-banqueiro sobre o assunto. Segundo o órgão, as negociações foram conduzidas por advogados, sem contato direto de Vorcaro com representantes da Procuradoria. A própria defesa do banqueiro negou ter apresentado gravações ou documentos com esse conteúdo durante as tratativas. A autenticidade e as circunstâncias da gravação divulgada pela revista permanecem sem esclarecimento conclusivo nas informações disponíveis.
Para que uma delação premiada se concretize, ela tem que ser aprovada no Judiciário. Enquanto a Polícia Federal ou o Ministério Público negociam os termos e colhem os depoimentos do investigado, apenas o órgão que julga o caso em questão tem o poder legal de aprovar (homologar) o acordo, garantindo que ele seja voluntário e constitucional. No caso do Banco Master é o Supremo Tribunal Federal (STF). O Judiciário também julga o conteúdo, se as informações são úteis para a investigação e se o delator realmente terá direito aos benefícios combinados, como a redução da pena, por exemplo.
Lideranças religiosas espalham a desinformação
A acusação ganhou repercussão nas redes sociais. O deputado de identidade cristã, sob investigação no caso das irregularidades com o filme em homenagem a Jair Bolsonaro, Mário Frias (PL-SP) reproduziu o áudio divulgado pela Veja e escreveu: “Resumindo: os caras do PT negociaram o documentário do Lula + propina de 10% (o que daria 1 bilhão) em troca de facilitar acesso do Master aos fundos de pensão das estatais”.
Já a deputada federal Caroline de Toni (PL-SC) publicou “Delata, Vorcaro!”. E o deputado federal Pastor Marcos Feliciano (PL-SP) publicou artigo no Pleno News com críticas e acusações ao PT e à Lula. O perfil oficial do Partido Liberal também utilizou a denúncia para pedir votos ao candidato Flávio Bolsonaro.
O líder da Igreja Batista Atitude e pastor de Michele Bolsonaro Pr. Josué Valandro, também se manifestou sobre as acusações em seu perfil no Instagram. Em vídeo, afirmou que a eleição havia acabado para o Lula.

Desinformação de Veja vai para a Justiça
A campanha de Lula classificou a reportagem como uma “farsa eleitoral” e recorreu à Justiça. Integrantes do grupo de juristas Prerrogativas solicitaram à PF a investigação de uma suposta articulação envolvendo Vorcaro e aliados de Flávio Bolsonaro para produzir acusações contra o presidente. Segundo o coordenador do grupoMarco Aurélio Carvalho, o ex-banqueiro teria sido incentivado a apresentar declarações falsas mediante promessa de benefícios futuros para ele e seu pai, Henrique Vorcaro. A suspeita ainda depende de investigação.
A PF confirmou que recebeu, no próprio 9 de outubro, uma notícia-crime com pedido de providências urgentes para apurar fatos relacionados à publicação da Veja. O expediente foi encaminhado à área técnica responsável pelas medidas de polícia judiciária.
As manifestações oficiais contradizem a informação de que Vorcaro tenha apresentado as acusações durante as negociações de colaboração premiada, mas não comprovam que a gravação divulgada seja falsa. Até o momento, as informações examinadas também não demonstram que o suposto repasse de R$ 30 milhões tenha ocorrido, por isso, Bereia classifica a matéria de Veja como imprecisa. Bereia segue acompanhando o caso.
Referências
Agência Lupa https://www.agencialupa.org/reportagem/2026/10/09/vorcaro-patrocinou-filme-sobre-lula-o-que-se-sabe-ate-agora Acesso em: 9 out. 2026.
Brasil de Fato https://www.brasildefato.com.br/2026/10/09/pf-e-acionada-por-suspeita-de-trama-entre-vorcaro-e-aliados-de-flavio-bolsonaro-na-eleicao/ Acesso em: 9 out. 2026.
CNN Brasil https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/caio-junqueira/politica/defesa-de-vorcaro-diz-nao-confirmar-autenticidade-de-audio Acesso em: 9 out. 2026.
Folha de Paulo https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2026/10/prerrogativas-diz-que-vorcaro-deu-falso-depoimento-contra-campanha-de-lula-e-aciona-pf.shtml Acesso em: 9 out. 2026.
G1. https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2024/05/20/documentario-lula-de-oliver-stone-estreia-em-cannes.ghtml . Acesso em: 9 out. 2026.
Ministério Público Federal (PGR) https://www.mpf.mp.br/o-mpf/unidades/procuradoria-geral-da-republica-pgr/noticias/nota-de-esclarecimento-sobre-tratativas-para-colaboracao-premiada-de-daniel-vorcaro Acesso em: 9 out. 2026.
Polícia Federal
https://www.gov.br/pf/pt-br/assuntos/noticias/2026/10/nota-a-imprensa-1 – Acesso em: 9 out. 2026.


