A Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) negaram, neste 9 de outubro, ter recebido depoimento ou documentos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, envolvido no golpe financeiro do Banco Master, sobre um suposto pagamento de R$ 30 milhões para financiar um documentário sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Imagem: Reprodução de matéria no site da revista Veja, publicada 9 out 26
Sem ter ouvido os órgãos públicos responsáveis por delações premiadas, a reportagem da Veja afirma que o ex-banqueiro teria negociado com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto o pagamento de recursos para um documentário sobre Lula, em troca de acesso a negócios com fundos de pensão de estatais. A revista atribui as informações a gravações e documentos obtidos pela publicação. O documentário citado é “Lula”, dirigido pelo cineasta Oliver Stone e apresentado no Festival de Cannes, em maio de 2024.
Contestação dos órgãos de investigação
A PF contestou a informação de que o relato tenha sido apresentado oficialmente pelo ex-banqueiro. Em nota oficial o órgão, esclareceu que Vorcaro “não prestou depoimento com o teor relatado na matéria, tampouco entregou à instituição anexos, documentos ou informações com o conteúdo ali descrito”. A corporação informou ainda que as propostas de colaboração premiada apresentadas pela defesa haviam sido rejeitadas por não atenderem aos requisitos legais, conforme decisão fundamentada e comunicada aos advogados.
Para que uma delação premiada se concretize, ela tem que ser aprovada no Judiciário. Enquanto a Polícia Federal ou o Ministério Público negociam os termos e colhem os depoimentos do investigado, apenas o órgão que julga o caso em questão tem o poder legal de aprovar (homologar) o acordo, garantindo que ele seja voluntário e constitucional. No caso do Banco Master é o Supremo Tribunal Federal (STF). O Judiciário também julga o conteúdo, se as informações são úteis para a investigação e se o delator realmente terá direito aos benefícios combinados, como a redução da pena, por exemplo.
Lideranças religiosas espalham a desinformação
A acusação ganhou repercussão nas redes sociais. O deputado de identidade cristã, sob investigação no caso das irregularidades com o filme em homenagem a Jair Bolsonaro, Mário Frias (PL-SP) reproduziu o áudio divulgado pela Veja e escreveu: “Resumindo: os caras do PT negociaram o documentário do Lula + propina de 10% (o que daria 1 bilhão) em troca de facilitar acesso do Master aos fundos de pensão das estatais”.
Já a deputada federal Caroline de Toni (PL-SC) publicou “Delata, Vorcaro!”. E o deputado federal Pastor Marcos Feliciano (PL-SP) publicou artigo no Pleno News com críticas e acusações ao PT e à Lula. O perfil oficial do Partido Liberal também utilizou a denúncia para pedir votos ao candidato Flávio Bolsonaro.
O líder da Igreja Batista Atitude e pastor de Michele Bolsonaro Pr. Josué Valandro, também se manifestou sobre as acusações em seu perfil no Instagram. Em vídeo, afirmou que a eleição havia acabado para o Lula.
Imagem: Reprodução do perfil do Pr. Josué Valandro no Instagram, 9 out. 26
Desinformação de Veja vai para a Justiça
A campanha de Lula classificou a reportagem como uma “farsa eleitoral” e recorreu à Justiça. Integrantes do grupo de juristas Prerrogativas solicitaram à PF a investigação de uma suposta articulação envolvendo Vorcaro e aliados de Flávio Bolsonaro para produzir acusações contra o presidente. Segundo o coordenador do grupoMarco Aurélio Carvalho, o ex-banqueiro teria sido incentivado a apresentar declarações falsas mediante promessa de benefícios futuros para ele e seu pai, Henrique Vorcaro. A suspeita ainda depende de investigação.
A PF confirmou que recebeu, no próprio 9 de outubro, uma notícia-crime com pedido de providências urgentes para apurar fatos relacionados à publicação da Veja. O expediente foi encaminhado à área técnica responsável pelas medidas de polícia judiciária.
As manifestações oficiais contradizem a informação de que Vorcaro tenha apresentado as acusações durante as negociações de colaboração premiada, mas não comprovam que a gravação divulgada seja falsa. Até o momento, as informações examinadas também não demonstram que o suposto repasse de R$ 30 milhões tenha ocorrido, por isso, Bereia classifica a matéria de Veja como imprecisa. Bereia segue acompanhando o caso.
Documentos obtidos no âmbito da investigação sobre o Banco Master revelaram novos detalhes sobre as movimentações financeiras envolvendo a Igreja Batista da Lagoinha Belvedere, em Belo Horizonte. Entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025, a conta da unidade movimentou R$ 57,1 milhões, em operações consideradas atípicas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) do órgão, encaminhado a Polícia Federal (PF) e divulgado após o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin determinar ao relator do caso, ministro André Mendonça, a retirada do sigilo, aponta que o pastor da Igreja Batista da Lagoinha Belvedere e cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro Fabiano Zettel realizou 26 transferências para a igreja que somaram R$ 19,2 milhões no período.
Conforme publicado pelo jornal O Globo, Zettel também cobrava Vorcaro por recursos para a construção do templo da Lagoinha no bairro Belvedere. Mensagens do celular do banqueiro, analisadas pela PF, mostram o pastor pressionando Vorcaro e alertando que a obra poderia parar caso os valores não fossem repassados. Familiares de Vorcaro transferiram ainda cerca de R$ 2 milhões para a igreja ao longo de 2025.
O portal G1 publicou, na íntegra, nota da Lagoinha Global, convenção da Igreja Batista da Lagoinha, que afirma que as igrejas locais têm autonomia jurídica e financeira e que, à época, foi informada de que os recursos movimentados por Zettel seriam destinados a obras e melhorias no templo. A denominação também declarou que não tinha conhecimento da origem nem da dimensão dos valores revelados pela investigação.
Em 21 de setembro passado o canal do YouTube Revelando publicou o segundo episódio de uma série de reportagens especiais, intitulado Grandes Igrejas, Master Negócios, que apresenta informações das ligações entre a Igreja Batista da Lagoinha e o Banco Master, apuradas pela Polícia Federal (PF) e jornalistas investigativos de diferentes veículos.
Imagem: Extrato do vídeo do canal Revelando, Youtube
A reportagem, apresentada pelo ator e humorista Fábio Porchat, explica a relação entre figuras da igreja, como o líder da Batista da Lagoinha pastor André Valadão; da família Vorcaro, como o pastor Fabiano Zettel; do Legislativo, como o deputado federal evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG) e o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro; e do Judiciário brasileiro, como o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, entre outros personagens.
Imagem: Elaboração visual a partir do vídeo Grandes Igrejas, Master Negócios, do canal Revelando, publicado no perfil do Instagram @klebermendonca
No YouTube, em menos de 24 horas o vídeo alcançou a primeira posição no Hype, ranking que classifica as publicações mais assistidas da plataforma. Cortes da reportagem, publicados no Instagram, acumularam seis milhões de visualizações, 140 mil compartilhamentos e 33 mil comentários até 22 de setembro, antes da suspensão do perfil pela Meta, na manhã de 23 de setembro.
A big tech afirmou ao coletivo responsável pela produção que o perfil foi derubado por não seguir os padrões da plataforma, sem, no entanto, esclarecer quais políticas foram descumpridas. Revelando é uma iniciativa do podcast Calma Urgente, em parceria com ICL, Mídia Ninja e 342Artes.
À coluna de Mônica Bergamo na Folha de S. Paulo, a Meta afirmou, em nota, no dia seguinte, que havia restaurado a conta e pediu desculpas. “Após uma revisão interna, restauramos a conta mencionada pela reportagem. Pedimos desculpas pela inconveniência”, declarou a empresa. Todavia, a quebra do alcance da publicação já havia se concretizado.
A grande repercussão do conteúdo sobre as relações Master-Daniel Vorcaro e Igreja Batista da Lagoinha levou à manifestações de evangélicos nas redes sobre a proximidade entre um líder evangélico representativo e políticos que defendem pautas de costumes e valores cristãos com o protagonista de um dos maiores escândalos de corrupção e fraude financeira do país.
Imagem: Perfil de Andressa Oliveira no Instagram, 23 set 2023
O teólogo, pastor evangélico, escritor, ativista e fundador da organização Rio de Paz Antônio Carlos Costa publicou em seu canal no YouTube um comentário sobre o vídeo apresentado por Fábio Porchat. Ele comentou como os fatos são “profundamente humilhantes para a igreja evangélica”.
Costa também recordou sua visita à Igreja Batista da Lagoinha, em 2014, mencionando a receptividade da liderança e dos fiéis da denominação, tanto com ele, quanto com seu sermão sobre justiça social. Ele comparou o episódio à forma como foi tratado pelo mesmo grupo depois da “onda bolsonarista varrer o país”, incluindo as igrejas evangélicas, especialmente a partir de 2018.
Imagem: Extrato do vídeo publicado no perfil de Antonio Carlos Costa no Instagram, 23 set 2026.
No início de setembro a jornalista investigativa e fundadora do instituto Fogo Cruzado Cecília Oliveira já havia publicado em seu perfil no Instagram, uma visualização da “Rede evangélica do caso Banco Master – Núcleo Igreja Batista da Lagoinha”. Além dos nomes citados no vídeo apresentado por Fábio Porchat, o conteúdo aponta ainda outro pastor da Lagoinha Guilherme Batista, o senador evangélico Carlos Viana (PSD-MG), o deputado federal também evangélico Cezinha de Madureira e o ministro do STF, relator do caso e pastor presbiteriano André Mendonça.
Imagem: Publicação no perfil de Cecília Oliveira no Instagram, 6 set 2026
Mensagens extraídas do celular do dono do Banco Master, o banqueiro Daniel Vorcaro, analisadas pela Polícia Federal colocaram o ex-ministro das Comunicações do governo de Jair Bolsonaro (2019-2022) Fábio Faria (PP), então deputado integrante da Bancada Evangélica, no centro de uma investigação que reúne personagens da política, do sistema financeiro e do Judiciário. Os registros apontam que o ex-deputado federal pelo Rio Grande do Norte compartilhou contatos do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ajudou a organizar encontros e acompanhou tratativas relacionadas a um contrato entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa de Moraes, segundo reportagem do G1, publicada em 1º de setembro passado.
A atuação descrita pelos investigadores teria ocorrido, principalmente, entre o fim de 2023 e 2024, período em que a relação de Vorcaro com integrantes de diferentes instituições públicas se tornou objeto de apuração. As mensagens também registram a participação de Faria na organização de uma festa privada realizada em São Paulo, em outubro de 2023, quando o banqueiro ainda não havia sido associado publicamente às dimensões que a investigação policial posteriormente revelaria.
O episódio mais recente, porém, não surgiu isoladamente. Ele se soma à trajetória de um político que construiu sua carreira no encontro entre a tradição familiar potiguar, os meios de comunicação, a aproximação com grupos evangélicos e a circulação por diferentes ambientes do poder nacional. Filho do ex-governador Robinson Faria (PP), casado com Patrícia Abravanel, integrante da família que dirige o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), Fábio Faria era deputado pelo PSD-RN, quando deixou a Câmara dos Deputados para assumir o Ministério das Comunicações no governo de Jair Bolsonaro, em junho de 2020.
A revelação das mensagens abre uma questão que ultrapassa a festa e os contatos individuais: como um ex-ministro evangélico que, durante anos, atuou como articulador político e interlocutor entre empresários, parlamentares e integrantes do governo, aparece nas trocas de mensagens de um banqueiro investigado pela Polícia Federal?
Família na política
Fábio Salustino Mesquita de Faria nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, em 1º de setembro de 1977 . É filho de Robinson Faria, que ocupou a vice-governança e depois o governo do estado potiguar, pelo Partido Progressistas (PP), e de Maria Nina Salustino de Faria. Formado em Administração de Empresas pela Universidade Potiguar, chegou à Câmara dos Deputados em 2007 e nela permaneceu por quatro mandatos consecutivos, eleito pelo Rio Grande do Norte. Ao longo da carreira, migrou do PMN ao PSD e, desde março de 2022, está filiado ao PP.
Fábio Faria é casado com apresentadora do SBT e filha do dono da rede de TV, Silvio Santos, Patrícia Abravanel. O casal é sócio de uma produtora ligada à TV aberta, a New Beginnings, e a esposa é proprietária da TV Alphaville, canal por assinatura batizado com o nome do bairro de luxo onde a família reside, em Barueri, na Grande São Paulo.
A conversão ao lado de Patrícia Abravanel
Criado no catolicismo, Fábio Faria relatou publicamente, no fim de 2018, ter se batizado depois de anos de resistência a frequentar igrejas evangélicas. Segundo o próprio deputado, cerca de cinco anos antes, foi a esposa quem o levou a frequentar cultos em uma igreja batista, o que o aproximou de histórias bíblicas e o levou, segundo suas palavras, a viver “um dos maiores renovos” de sua vida. Na mesma declaração, Faria evitou o rótulo de evangélico, preferindo se definir como “homem cristão”.
Imagem: Reprodução do perfil de Fábio Faria no Instagram – publicado em 31/12/2018 – Acesso em 15 set 2026
A ligação da família com a Igreja Batista Memorial de Alphaville, em Barueri é documentada por reportagens sobre a consagração da filha Jane, cerimônia realizada naquele templo em 2018, ano do batismo de Fabio Faria. Quando residiram nos EUA, a família passou a frequentar a Igreja Batista da Lagoinha em Orlando, presidida pelo pastor André Valadão, também citado nas conversas com Vorcaro, investigadas pela Polícia Federal, conforme matéria publicada pelo Bereia.
Da bancada evangélica ao comando das Comunicações
Em junho de 2020, o presidente Bolsonaro nomeou o então deputado federal Fábio Faria (PSD/RN) ministro das Comunicações. Na função, ele assumiu o papel de articulador entre o Palácio do Planalto e o Congresso, além de intermediário na relação do governo com a imprensa.
A proximidade do ministro com o eleitorado evangélico foi um ativo político explorado dentro do próprio governo. Em 2022, Faria chegou a circular como possível nome de consenso para a vice-presidência na chapa de Bolsonaro, justamente pela capacidade de dialogar com a bancada religiosa.
Em janeiro de 2022, Faria participou de um evento evangélico e conservador, na Flórida (EUA), organizado pelo pastor André Valadão, ocasião em que também esteve presente o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, foragido da Justiça brasileira. Faria alegou não saber da presença do blogueiro no mesmo evento e fez chegar essa explicação a integrantes do STF.
Imagem: reprodução/ Facebook
Voos pagos pela Câmara
Antes de chegar ao ministério das Comunicações, Faria já havia sido alvo de escrutínio por seus gastos irregulares com a cota parlamentar. Um levantamento do Congresso em Foco, em parceria com o Instituto OPS, mostrou que o deputado usou a verba para viajar a São Paulo 43 vezes contra apenas seis viagens ao Rio Grande do Norte, o estado pelo qual fora eleito, somente naquela legislatura.
Dados de 2019 indicam mais de 72 mil reais foram gastos pelo deputado, com verbas da Câmara Federal, somente naquele ano, em passagens para a capital paulista, cidade onde reside com a esposa e os filhos. O próprio Faria já havia protagonizado, anos antes, episódio semelhante durante a chamada “farra das passagens aéreas”, que levou a Câmara a alterar as regras de uso da cota parlamentar em 2009.
Ligações íntimas
Em outubro de 2023, menos de um ano após deixar o governo Bolsonaro, Faria viajou a Paris para participar de um evento do Esfera Brasil, instituto criado pelo lobista João Camargo com o propósito declarado de reunir empresários, juristas, advogados e políticos em torno de oportunidades de negócio. Entre os convidados estava o dono do Banco Master Daniel Vorcaro, instituição que já despertava desconfiança no mercado financeiro pela agressividade de suas operações. Foi ali, segundo o próprio Faria, que os dois se conheceram.
Imagem: Reprodução do site da Revista Piauí publicada em 1/8/2026 – Acesso 15 set 26
Questionado pela Revista Piauí em janeiro deste ano, o ex-ministro minimizou o vínculo: “Eu tenho zero de relação com Master. Nunca vendi nada para o Master. Tenho nada com o Master”, declarou. A reportagem, no entanto, apurou que o encontro em Paris deu início a laços que resultaram em movimentações milionárias.
Menos de um mês depois de o vínculo Faria-Vorcaro ter começado, Fábio Faria já aparecia envolvido na organização de um evento privado do banqueiro em São Paulo. Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do banqueiro mostram o ex-ministro atuando na montagem da lista de convidados de uma festa de Halloween, realizada em 31 de outubro de 2023, que reuniu 120 mulheres acompanhantes e 20 homens. O evento aconteceu na casa noturna Madame Satã, em São Paulo, e teve proibição total do uso de celulares por parte dos convidados. A casa noturna afirmou ter apenas alugado o espaço, sem participação na organização.
O relatório da Polícia Federal que relaciona Vorcaro ao ministro do STF Alexandre de Moraes aponta que Faria atuou como intermediário de contatos entre os dois. As mensagens analisadas pelos investigadores mostram o ex-ministro das Comunicações compartilhando contatos de Moraes, organizando encontros presenciais entre as partes e acompanhando as tratativas de um contrato entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do jurista. Segundo a Polícia Federal, essa atuação se repete entre o fim de 2023 e 2024, período que coincide com o estreitamento da relação entre o banqueiro e o ministro.
O papel de Faria como elo entre Vorcaro e figuras de peso em esferas de poder distintas não se limita, portanto, à articulação de uma festa. O mesmo nome que discutia a lista de convidados de um evento em uma casa noturna paulistana aparece, nos autos, coordenando também contatos que envolvem o gabinete do ministro Moraes e o escritório particular da esposa dele.
A ofensiva jurídica contra sites e memes
Diante da repercussão dos diálogos, o ex-ministro acionou advogados para processar portais de notícias e perfis que, segundo a defesa, atribuíram a ele “condutas divergentes da realidade”. Interlocutores de Faria afirmaram que a decisão de recorrer à Justiça veio depois de publicações terem extrapolado o que de fato havia sido apurado, gerando consequências para a família do ex-ministro. Paralelamente às ações contra veículos, o ex-ministro determinou um levantamento de páginas e perfis que produziram memes ou investiram em publicidade paga para impulsionar o conteúdo sobre o caso, com o objetivo de definir as ações judiciais cabíveis em cada situação.
É justamente essa proximidade entre o nome de Faria e a emissora que fez da crise um problema também corporativo: o Diário do Centro do Mundo registrou que, embora Patrícia Abravanel não seja citada no relatório da Polícia Federal, ela passou a ser alvo de ataques e memes nas redes sociais depois da repercussão das suspeitas sobre o marido.
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A relação de Fábio Faria com Daniel Vorcaro não aparece de forma isolada em sua trajetória. O ex-ministro construiu, ao longo dos anos, uma posição de trânsito entre a política, o empresariado, o setor de comunicação e o meio evangélico ultraconservador, onde passou a circular depois da conversão e do batismo em igrejas batistas. Nas mensagens analisadas pela Polícia Federal, essa capacidade de trânsito aparece novamente: Faria é apontado como articulador de contatos entre Vorcaro e autoridades e, no mesmo circuito de relações, como responsável por ajudar a organizar uma festa marcada pelo sigilo e pela seleção de mulheres.
Para um político que tornou pública sua identidade cristã e cuja trajetória passou a ser associada também à representação de valores conservadores, o conteúdo dessas conversas acrescenta uma contradição que não pode ser reduzida à esfera privada. A questão central está na combinação entre relações pessoais, acesso a autoridades e interesses privados, revelada nos documentos da investigação. A defesa de Faria nega irregularidades e afirma que sua atuação se limitou ao repasse de contatos e convites. Bereia seguirá acompanhando os desdobramentos do caso.
Da ditadura militar ao caso Banco Master, o discurso anticorrupção reaparece a cada eleição e, com frequência, os “heróis” de um ciclo viram imorais em outro
É fácil encontrar em palanques eleitorais no Brasil personagens que prometem “combater a corrupção”. A frase é tão repetida que já se tornou uma apelação, antes de qualquer proposta concreta de governo.
Imagem: Reprodução de matéria do site do SBT News, 1 set 2026
Por que esse tema, que deveria ser uma política de Estado permanente, se transforma tantas vezes em bandeira de campanha? E por que, diante de tantas experiências no país, passadas as eleições, os “heróis do combate à corrupção” costumam aparecer, depois, debaixo de acusações que representam tudo o que discursavam antes?
Imagem: Reprodução de matéria no site da revista Veja, 17 mai 2023
Para ter informações seguras sobre o que está em jogo quando esse discurso reaparece com força nas eleições de 2026, Bereia explica o tema. Nesta matéria, é apresentado o conceito de corrupção de onde vem a naturalização desta prática no Brasil e como, historicamente, ela foi usada como instrumento político, às vezes com resultados efetivos, às vezes como cortina de fumaça.
O que é corrupção, afinal?
Em termos jurídicos e de ciência política, corrupção é o uso de uma posição de poder ou de confiança pública para obter vantagem privada, em desrespeito às normas que deveriam orientar aquela função. Ela não tem um formato único. Entre os principais:
Corrupção passiva: quando um agente público solicita ou aceita vantagem indevida.
Corrupção ativa: quando alguém oferece ou paga essa vantagem a um agente público.
Corrupção administrativa: fraudes em licitações, superfaturamento de obras, contratação sem concurso.
Corrupção política ou eleitoral: caixa dois, compra de votos, financiamento ilegal de campanhas.
Corrupção sistêmica: quando o desvio deixa de ser exceção e passa a fazer parte da própria engrenagem de funcionamento do Estado ou de instituições privadas, que é o caso de esquemas que atravessam décadas e vários governos e empresas.
Existe ainda uma distinção importante entre a grande corrupção, que movimenta somas bilionárias e estrutura o financiamento da política, e as transgressões que estão no dia a dia das pessoas espalhadas pelo Brasil que raramente são chamadas pelo nome, mas alimentam a mesma lógica.
Uma herança que vem de longe: por que a corrupção está tão arraigada na cultura brasileira?
A naturalização da corrupção no Brasil não nasceu com nenhum partido ou governo recente. Ela remonta à formação colonial do país. Historiadores como Sérgio Buarque de Holanda descreveram, ainda na primeira metade do século 20, um traço estrutural da administração brasileira herdado de Portugal: o patrimonialismo, isto é, a dificuldade histórica de separar o que é público do que é privado.
Cargos públicos foram, desde o Brasil Colônia, tratados como extensão de favores pessoais. A distribuição de cargos passou a ser feita por meio de laços familiares, apadrinhamento e troca de lealdades, e não por critérios técnicos ou legais.
Esse traço se reproduziu no Império, na Primeira República (o chamado “coronelismo”, com o voto de cabresto e a troca de favores entre poder local e poder central) e seguiu atravessando ciclos democráticos e ditatoriais até hoje. Não se trata de dizer que a corrupção é uma essência do “povo brasileiro”, o que seria uma leitura culturalista e injusta. Diz respeito a reconhecer que as instituições do país foram historicamente construídas com pouca separação entre interesse público e privado, e que essa lógica se perpetuou nas práticas político-administrativas.
No cotidiano, essa mesma lógica aparece em gestos pequenos, tantas vezes vistos como inofensivos: pedir para “dar um jeitinho” e furar uma fila ou para conseguir resolver uma questão pendente; oferecer dinheiro a um guarda de trânsito para evitar uma multa; pedir para não emitir nota fiscal e “fazer mais barato”; oferecer a pacientes uma consulta médica sem recibo com um preço menor; usar uma indicação pessoal para conseguir uma vaga de emprego ou driblar um processo seletivo; sonegar informações na Declaração de Imposto de Renda.
Isoladamente, esses atos parecem distantes dos esquemas bilionários que ocupam manchetes. Porém, a verdade é que são parte da mesma cultura que trata protocolos públicos como algo negociável. Isto ajuda a explicar por que a indignação seletiva com a “grande corrupção” nem sempre vem acompanhada de reflexão sobre as pequenas corrupções do dia a dia.
Quando o combate à corrupção virou estratégia de campanha política
Se a corrupção é antiga, o uso político do discurso contra ela também é. Três momentos da história recente ajudam a entender isso.
A ditadura militar (1964–1985) justificou o golpe de 1964, entre outros argumentos, com a promessa de expurgar a “subversão” e a corrupção que, segundo seus articuladores, teriam tomado conta do governo do presidente João Goulart. Na prática, o regime instalado não eliminou a corrupção. Pelo contrário, ela persistiu e, em vários momentos, foi documentada dentro do próprio aparato estatal, como contrabandos na Polícia do Exército, e de estatais como a Petrobras e a Eletrobras, bem como no próprio regime de repressão. Porém, o discurso moralizante serviu para legitimar a suspensão de direitos políticos, a censura e a perseguição a adversários.
A eleição de Fernando Collor de Mello à Presidência da República, em 1989, é outro marco. Collor se apresentou como o “caçador de marajás”, símbolo da luta contra privilégios e desvios do funcionalismo público, e venceu a primeira eleição presidencial direta após a ditadura com base nessa imagem, com a ajuda da imprensa que repercutiu amplamente este discurso.
Imagem: Reprodução da capa da revista Veja, de 23 mar 1988
Menos de três anos depois, o próprio governo de Collor foi derrubado por um processo de impeachment motivado por um esquema de corrupção liderado por seu tesoureiro de campanha, PC Farias. O “herói do combate à corrupção” tornou-se, ele mesmo, protagonista de um dos maiores escândalos da Nova República.
A Operação Lava Jato, deflagrada em 2014, radicalizou esse padrão em escala nacional. Apresentada como a maior operação anticorrupção da história do país, teve como rosto público o então juiz Sérgio Moro, da Vara Federal de Curitiba, e procuradores da República, com destaque para o paranaense Deltan Dallagnol. Estas personagens foram alçadas à condição de heróis nacionais e figuras centrais da conversação política, com ampla repercussão na imprensa, por quase uma década.
Imagem: Reprodução de matéria no site G1, de 19 mar 2015
Imagem: Reprodução de matéria no site do Globo, de 16 mar 2020
A operação, de fato,expôs um esquema bilionário de desvios na Petrobras e em obras públicas, com participação de grandes empreiteiras e políticos de diversos partidos. Porém, o desfecho revelou outra face da história: as mensagens obtidas pela reportagem conhecida como “Vaza Jato”, resultante de investigação do Intercept Brasil, mostraram conluio entre o juiz e os procuradores responsáveis pela acusação, com manipulação de provas, articulação indevida de delações premiadas e assédio a testemunhas e vazamentos de informações selecionadas para a imprensa. Estas ilegalidades tiveram interferência direta no cenário político do país e nas eleições, com a destruição da reputação de diversas personagens ligadas a governos anteriores, do Partido dos Trabalhadores, resultando na prisão do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, em 2018, retirando-o de candidatura nas eleições daquele ano.
O caso levou o Supremo Tribunal Federal (STF) a declarar, em 2021, a suspeição de Moro no processo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a anular as condenações contra ele. Deltan Dallagnol e outros procuradores foram também denunciados a instâncias judiciárias sobre as ações ilegais que praticam com pedidos de reclamações disciplinares, sindicâncias, pedidos de providências e Processo Administrativo Disciplinar (PAD).
O “herói” da Lava Jato Sérgio Moro deixou a magistratura e tornou-se ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), que ganhou as eleições em 2018 com base no processo que o juiz havia ajudado a construir. Deltan Dallagnol, para escapar das denúncias, pediu exoneração do cargo de procurador da República enquanto estavam pendentes as análises de reclamações disciplinares, sindicâncias, pedidos de providências e Processo Administrativo Disciplinar (PAD). Ele se candidatou a deputado federal pelo partido Novo em 2022, porém, apesar de ter vencido, teve a candidatura cassada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2023. Os ministros do TSE avaliaram que Dallagnol fraudou o processo eleitoral ao pedir exoneração do cargo de procurador, enquanto estava sob investigação por ações ilegais, para escapar da Lei da Ficha Limpa. De acordo com a sentença, os fatos ocorridos no âmbito da Operação Lava Jato se enquadrariam em hipóteses legais de demissão por quebra de dever de sigilo e de decoro, bem como pela prática de improbidade administrativa, o que o impediram de se candidatar.
O padrão que se repete nesses três episódios é semelhante: a corrupção factual e comprovável é usada como discurso de legitimação de um projeto de poder. As personagens que se apresentam como “salvadoras” morais concentram capital político em cima desse discurso. Passado o ciclo, parte desses mesmos personagens aparece envolvida em práticas questionáveis ou é apontada por instituições de controle como tendo agido de forma parcial ou ilegal.
Em outra direção, o caso em relação à figura do ministro do STF Alexandre de Moraes ilustra bem como opera a produção de heróis na cena política. Após os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, o ministro do STF foi alçado, por setores da mídia e da opinião pública, à condição de figura salvadora da democracia. Passou a ser exposto como o magistrado que “conteve” a barbárie e “puniu” os responsáveis. Esse discurso, ainda que ancorada em fatos (os inquéritos, as prisões, os processos em curso) transforma um processo institucional complexo, com suas ambiguidades e disputas de poder, em um enredo simples de bem contra mal, no qual basta confiar na figura do herói para que a Justiça se cumpra.
O problema é que esse tipo de personificação despolitiza o debate público sobre as causas estruturais que possibilitaram o 8 de janeiro (a tentativa de golpe para perpetuação de um grupo no poder, o financiamento das milícias digitais, a omissão de outras instituições, o papel de certas igrejas e lideranças religiosas na radicalização política) e concentra na figura heroica uma expectativa que nenhuma pessoa, sozinha, pode sustentar. Quando o herói erra, ou quando suas decisões são questionadas, o efeito é duplo: descrença generalizada nas instituições e abertura de espaço para narrativas ainda mais autoritárias, que prometem um “herói” mais eficaz.
É o caso do coro de críticas de juristas e constitucionalistas (inclusive alinhadas à esquerda política) que apontam excessos de Mores no exercício do cargo. Entre os pontos mais recorrentes estão: a acumulação, nas mãos de um único ministro das funções de investigar, indiciar, decidir medidas cautelares e julgar no mesmo processo (caso do inquérito das “fake news”), o que fragilizaria o contraditório e a ampla defesa; o uso de decisões monocráticas em temas de grande impacto político e social, sem submissão prévia ao colegiado; a determinação de bloqueios de perfis e contas em redes sociais sem debate público amplo sobre os critérios adotados; e a extensão de prazos de sigilo e a abrangência de algumas ordens de busca e apreensão, consideradas por parte da doutrina desproporcionais frente ao princípio da legalidade estrita.
Para os críticos da postura de Alexandre de Moraes, o problema não é necessariamente o mérito de cada decisão isolada, mas o padrão: um ministro do STF operando com funções que, em uma leitura mais rígida da separação de poderes, caberiam a outras instâncias (polícia, Ministério Público, ou ao colegiado da própria Corte), o que abriria um precedente perigoso independentemente de quem ocupe a cadeira no futuro.
Em novembro de 2025, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial do Banco Master, e seu controlador, Daniel Vorcaro, foi preso em meio a investigações da Polícia Federal sobre um esquema bilionário de fraude contra o sistema financeiro, com rombo estimado em dezenas de bilhões de reais ao Fundo Garantidor de Créditos.
O caso envolve dezenas de nomes da política que mantiveram contato, receberam pagamentos, doações ou negociaram vantagens com o banqueiro, com maior destaque para o candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) ao pleito de 2026. O candidato do PL é suspeito pelo recebimento de centenas de milhões de reais de Vorcaro, atribuídos por ele à produção de um filme em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro, argumento até o momento não comprovado.
O tema entrou na campanha eleitoral simultaneamente como munição de ataque e como risco para candidatos e para partidos, pois, ao contrário do que o discurso moralista sugere, a proximidade com esquemas de corrupção e de busca de vantagens não é monopólio de um único espectro político. Apesar de a maioria dos nomes citados nas reportagens sobre as investigações da Polícia Federal, sob a guarda do STF, ser relacionada à direita política (senadores, deputados federais, ex-governadores, presidentes de partidos) , há três nomes vinculados à esquerda (ex-ministros e senador).
A crise provocada pelo escândalo do Banco Master, porém, atingiu o próprio STF, quando os próprios ministros que conduziram o inquérito passaram a aparecer nele. Mensagens periciadas no celular de Daniel Vorcaro mostram o nome de Dias Toffoli, relator do caso até fevereiro de 2026, que mencionam possíveis pagamentos cifrados a uma empresa da família do ministro. O processo, então, nesse mês, passou para as mãos de outro ministro do STF, André Mendonça.
Nesse contexto, o ministro Alexandre Moraes também foi exposto publicamente sob suspeita. Reportagens com o conteúdo das investigações mostraram que o escritório de advocacia da esposa dele, Viviane Barci de Moraes, manteve um contrato de prestação de serviços jurídicos com o Banco Master no valor total de R$ 131,2 milhões, distribuído em 36 parcelas mensais de cerca de R$ 3,6 milhões entre 2024 e 2027, dos quais R$ 80,2 milhões chegaram a ser efetivamente pagos antes da liquidação do banco, em novembro de 2025. Segundo apuração da Polícia Federal, a partir de metadados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, a versão final da minuta do contrato foi editada por um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, em janeiro de 2024.
Em nota, o escritório de advocacia confirmou que o ministro teve acesso ao documento, mas afirmou que sua participação se limitou a uma consulta de compliance sobre eventual impedimento legal, que não foi identificado. Não há, até o momento, acusação formal de irregularidade nessa relação: o episódio soma-se ao conjunto de fatos que motivaram o pedido de investigação sobre a conduta de ministros do STF no caso.
Uma crise se instalou na Corte, em 1º de setembro de 2026, a quase um mês do primeiro turno das eleições, quando o ministro Mendonça determinou a retirada do sigilo de uma petição. Ela expunha mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro apontando um interlocutor, salvo como “Alexandre de Moraes Brasília”. As investigações estão ainda em curso.
Soma-se a este episódio que envolve o ministro André Mendonça, o caso de Fábio Luís Lula da Silva. A Polícia Federal abriu inquérito, autorizado pelo STF, para apurar se o filho mais velho do presidente cometeu tráfico de influência e corrupção ao favorecer uma lobista ligada a um esquema de fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS. A CPMI do INSS chegou a autorizar a quebra de sigilo bancário do investigado, com autorização do ministro André Mendonça e nada encontrou. Porém, o próprio relatório de inteligência da Polícia Federal reconheceu que as referências a Fábio Luís nos documentos das investigações sob relatoria de Mendonça foram feitas “sem lastro probatório”. Segundo a própria PF, ele não figurava entre os alvos de medidas no procedimento, e a reunião de menções ao seu nome, mesmo sem elementos que o vinculassem aos desvios, sugeria uma “orientação investigativa não declarada”.
A defesa de Fábio Luís Lula da Silva lança mão desse relatório para pedir o arquivamento do caso. O episódio ilustra como investigações em curso, e sem provas admitidas pela própria corporação responsável por apurá-las, já circulam na imprensa, durante a campanha eleitoral, como fato consumado, na mesma lógica observada em ciclos eleitorais anteriores.
O paralelo com 2018 é direto: naquele ano, a uma semana do primeiro turno, o então juiz Sergio Moro quebrou o sigilo de um trecho da delação de Antônio Palocci, colaboração que o próprio Ministério Público Federal havia recusado por falta de indícios. O anexo só voltou a público às vésperas da eleição que elegeu Jair Bolsonaro. Anos depois, o STF determinou que aquele material fosse retirado do processo por falta de base probatória. O que se apresenta em 2026, é a mesma lógica: usar a estrutura de investigação sigilosa não para produzir prova e levá-la ao processo, mas para produzir manchetes na imprensa no momento eleitoral mais sensível possível, deixando o desmentido, que sempre ocorre, para depois da votação.
O desgaste no STF chegou a tal ponto que, neste início de setembro de 2026, a própria Polícia Federal formalizou, no relatório de inteligência citado acima, uma queixa contra o ministro Mendonça por suposto abuso de poder e crime de responsabilidade, apontando tratamento assimétrico entre investigados conforme seu espectro político. O decano da Corte, ministro Gilmar Mendes, chegou a comparar publicamente os métodos do caso Master (prisões preventivas usadas como alavanca para delações, vazamentos de trechos sigilosos) às práticas que, anos mais tarde, levaram à anulação de provas e condenações da própria Lava Jato. Alexandre de Moraes, por sua vez, citou o relatório da PF como exemplo de ações indevidas de Mendonça. O episódio expôs uma disputa interna na cúpula do Judiciário sobre até onde vai o combate à corrupção e onde começa o excesso processual, e evidencia como o desgaste dessas instituições de controle pode se tornar, ele mesmo, matéria de disputa política.
André Mendonça passou a ser apresentado na campanha eleitoral, em especial em comícios e atos públicos alinhados à direita política e em espaços religiosos cristãos (o ministro do STF é pastor presbiteriano e foi indicado por Jair Bolsonaro à Corte, em 2021, com o apelido de o “Terrivelmente Evangélico”), como o mais novo “herói do combate à corrupção”.
Imagem: Boneco inflável que homenageia o ministro do STF André Mendonça, em comício do PL na Avenida Paulista, em 7 de setembro passado. Fonte: Mídias sociais
Cuidado quando “combater a corrupção” é a única pauta
Do ponto de vista da comunicação política, há um sinal de alerta que vale destacar: quando a plataforma de um candidato ou candidata se resume ao combate à corrupção, sem que isso venha acompanhado de propostas concretas para educação, saúde, emprego, segurança pública ou desenvolvimento econômico, é sensato desconfiar. Combater a corrupção é um dever de qualquer gestão pública responsável, não é, por si só, um projeto de país.
A pauta anticorrupção funciona, nesses casos, como um atalho retórico: mobiliza indignação moral, produz inimigos claros e dispensa o trabalho mais difícil de apresentar um plano de governo. Historicamente, como mostram a ditadura militar, Collor e a Lava Jato, os personagens que mais instrumentalizaram essa bandeira para chegar ao poder foram, com frequência, os que menos sustentaram um projeto institucional duradouro e, não raro, acabaram implicados nos mesmos crimes que prometeram exterminar.
Reconhecer esse padrão não significa relativizar a corrupção, nem transformar toda denúncia em suspeita de manipulação eleitoral. Significa exigir, de quem se apresenta como o novo herói da vez, a mesma pergunta que caberia a qualquer outro candidato: além de prometer varrer a sujeira, o que o senhor propõe para o Brasil?
Em vídeo publicado neste 3 de setembro, o pastor da Igreja Batista da Lagoinha André Valadão confirmou ter atuado como interlocutor entre o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em abril de 2024, como mostram os áudios revelados pela jornalista Juliana Dal Piva, do ICL Notícias. Valadão negou interesse nos negócios, mas omitiu os vínculos entre a própria fintech da Igreja Lagoinha, a Clava Forte Bank, e o Banco Master, hoje sob escrutínio da CPMI do INSS e do Banco Central.
Segundo a reportagem do ICL, no período antes de ser preso, Vorcaro se incomodou com críticas do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicadas nas redes digitais. Depois de monitorar as mídias sociais do político, o banqueiro pediu ao pastor André Valadão que “parasse Nikolas Ferreira” e questionou o empresário Flávio Carneiro sobre a efetividade de benefícios dados ao deputado.
Em março, Bereia apurou que há uma rede de relações pessoais, familiares e financeiras que conecta investigados do caso Banco Master a pessoas ligadas à Igreja Batista da Lagoinha, sem que isso configurasse evidência de envolvimento institucional da igreja.
As novas informações divulgadas pelo ICL Notícias apontam para uma interferência direta do pastor André Valadão na agenda do deputado evangélico mineiro nas mídias sociais.
O que dizem os áudios
Os áudios mostram que o papel de Valadão foi além de simplesmente aproximar as partes, como alegado em vídeo. No áudio enviado ao pastor André Valadão, em 27 de abril de 2024, Vorcaro se mostrou incomodado com posts de Nikolas Ferreira questionando a presença de ministros do STF, STJ e TSE num evento em Londres que era patrocinado pelo Master. Ao pastor, o banqueiro escreveu: “De novo pedir sua ajuda com Nikolas. Estão usando a fala dele pra me atacar, por conta de patrocínio num evento em Londres. Acontece, que talvez ele não saiba, participaram vários membros da direita, como Ciro Nogueira, um dos líderes oposição.” Valadão respondeu na hora: “Oi Dani. Claro amanhã falo com ele.”
O empresário ainda diferencia o momento das vezes anteriores, em que “eu não sabia, estava sem previsão”, desta, em que o post envolvia “um negócio com o meu nome direto” e cobra de Valadão uma resposta sobre até onde Nikolas pretendia ir
Já o áudio que Nikolas Ferreira enviou a Vorcaro confirma que foi a Valadão, e não ao banqueiro, que recorreu primeiro para se explicar pelo post sobre o evento de Londres: “Troquei uma ideia lá com o pastor André Valadão naquela época lá daquela post. Eu falei: ‘Pastor, eu não fazia ideia que era este o banco do Dani, etc e tudo. Senão obviamente não teria postado, teria conversado anteriormente.'”.
Valadão nega envolvimento e ameaça medidas legais
Em vídeo, o pastor André Valadão respondeu às revelações sobre as conversas com Vorcaro e negou qualquer envolvimento com negócios ou irregularidades do Banco Master.
“A minha participação naquele episódio se restringiu exclusivamente a uma interlocução entre pessoas que eu conheço”, afirmou o pastor, ao comentar as conversas mantidas com o banqueiro em abril de 2024. O pastor disse que ele e Vorcaro “já se conhece[m] há mais de 30 anos, muito antes de quaisquer fatos que hoje estão sendo divulgados”.
Imagem: reprodução/redes sociais
Valadão disse que foi procurado por Vorcaro porque ele tem contato mais próximo com Nikolas Ferreira. O pastor afirma que sua atuação se limitou a sugerir que os dois “conversassem diretamente antes de qualquer nova manifestação sobre o assunto, para que a situação pudesse ser esclarecida entre eles”. Sobre a frase, também revelada em áudio, em que afirmou que “o Nikolas iria contornar tudo”, o pastor da Igreja da Lagoinha disse que se referia exatamente ao fato de que o deputado falaria diretamente com Vorcaro sobre o assunto.
“Não houve qualquer relação da minha parte com negócios, interesses ou atividade do Banco Master”, disse Valadão, acrescentando não ter tido conhecimento de irregularidades posteriormente atribuídas à instituição.
Segue a declaração de André Valadão na íntegra:
Gente, eu quero trazer uma nota aqui de esclarecimento hoje, dia 3 de setembro, né, diante das informações que estão sendo divulgadas sobre conversas que eu tive em abril de 2024 com o Daniel Vorcaro, relacionadas a uma publicação do deputado Nikolas Ferreira. E eu quero esclarecer pessoalmente com você alguns pontos.
A minha participação naquele episódio se restringiu exclusivamente a uma interlocução entre pessoas que eu conheço. Não houve qualquer relação da minha parte com negócios, interesses ou atividade do Banco Master. Eu e o Daniel a gente já se conhece há mais de 30 anos, muito antes de quaisquer fatos que hoje estão sendo divulgados.
Naquela ocasião, o Daniel me procurou por saber que eu tinha contato mais próximo com o Nikolas. Como as próprias mensagens e áudios mencionados já demonstram aí na mídia, eu simplesmente sugeri que os dois conversassem diretamente antes de qualquer nova manifestação sobre o assunto, para que a situação pudesse ser esclarecida entre eles.
Quando posteriormente afirmei que o Nikolas iria contornar tudo, eu estava me referindo exatamente a isso: ao fato que ele faria diretamente com o Daniel, ele falaria com ele para tratar daquele assunto.
Então eu quero deixar aqui absolutamente claro: essa interlocução não representa, de maneira alguma, qualquer envolvimento meu em negócios, interesses ou atividades do Daniel Vorcaro ou do Banco Master. Não tinha conhecimento, gente, de irregularidades que posteriormente são atribuídas ao banco. Não participei de qualquer prática ilícita e, inclusive, eu repudio de forma inequívoca toda e qualquer conduta dessa natureza.
Eu tenho aqui com você plena consciência das responsabilidades que eu carrego diante da minha família, da igreja que eu lidero e de milhões de pessoas que acompanham o meu trabalho e o meu ministério. Então eu faço aqui questão de tratar esse assunto com você com seriedade, com transparência e tô falando a verdade aqui com você. Eu reafirmo o meu compromisso com essa verdade e com a correta compreensão desses fatos.
E diante de qualquer eventual informação falsa, de afirmação que tente atribuir a mim conduta que eu não pratiquei, eu vou me resguardar com o direito de adotar inclusive medidas legais cabíveis, tá? Essa é a verdade dos fatos e esse é o esclarecimento que eu faço pessoalmente para todos vocês. Deus abençoe!
Lagoinha e Banco Master
Daniel Vorcaro e o cunhado dele, pastor da Igreja Batista da Lagoinha, Fabiano Zettel foram presos, em 4 de março de 2026, pela Polícia Federal em decorrência da Operação Compliance Zero.A operação está associada à apuração mais ampla sobre crimes financeiros e possíveis danos a aposentados, tema que ganhou relevância após o avanço dos trabalhos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A investigação também apura vínculos entre empresários, intermediários e entidades que teriam se beneficiado de créditos indevidos. Registro em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) aponta cerca de R$ 3,9 milhões transferidos pelo Banco Master a uma produtora ligada ao pastor André Valadão, a Amando Vidas Produtora e Gravadora Ltda, que diz não ter conhecimento da operação realizada em 2022.
Os pastores Fabiano Zettel e André Valadão foram citados em requerimentos oficiais apresentados à CPMI do INSS, baseados em Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) e informações da Receita Federal. A senadora evangélica Damares Alves expôs o caso, o que também foi apurado por Bereia.
Em novembro de 2025, Bereia publicou matéria com denúncias da relação entre a Igreja da Lagoinha e o esquema do Master. Elas foram apresentadas pelo deputado federal Rogério Correia (PT-MG) à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do INSS. Repasses citados nos documentos levantados pelo parlamentar incluem o patrocínio do evento de Réveillon da Lagoinha (“Vira Brasil”), no estádio Allianz Parque (São Paulo-SP), em 2024, pelo ex-presidente da Amar Brasil Clube de Benefícios (ABCB) Felipe Macedo, investigado e apontado como alguém próximo de lideranças da igreja, incluindo André Valadão.
De acordo com a Agência Senado, o empresário investigado Felipe Macedo Gomes negou ter financiado o evento realizado no estádio Allianz Parque e afirmou que não mantém amizade com Valadão. “Eu não paguei réveillon algum. Sou uma ovelha da igreja. Também é uma falácia me colocar como amigo do Valadão”.
A Amar Brasil é uma das entidades investigadas por fraudes contra o INSS. A organização oferecia taxas associativas ou serviços fictícios por meio de descontos inseridos em benefícios de aposentados e pensionistas sem autorização dos beneficiários.
A produtora responsável pela realização da cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, Go Up Entertainment, envolvida no desvio de milhões de reais, também atua na produção de eventos evangélicos e recebeu emendas parlamentares para realização deles. O caso levantou suspeitas sobre a destinação de recursos públicos para o filme que homenageia Bolsonaro, pois os mesmos políticos têm conexões com empresas da sócia da produtora Karina Ferreira da Gama.
Conforme áudios vazados para a imprensa, a Go Up Entertainment teria atuado como mediadora dos milhões de dólares pagos pelo dono do Banco Master Daniel Vorcaro à família Bolsonaro, supostamente destinados para a produção do filme. A produtora do longa-metragem negou ter recebido os valores. Porém, de acordo com documentos cpom registros bancários obtidos pelo The Intercept Brasil, pelo menos 10,6 milhões de dólares (cerca de 61 milhões de reais) foram repassados por Vorcaro para a realização do filme, em seis operações financeiras.
Em outra perspectiva em relação às transações suspeitas, o deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) publicou vídeo com novas informações sobre a Go Up Entertainment. Ligações com o universo evangélico ultraconservador e possível desvio de dinheiro público estão entre as suspeitas levantadas pelo deputado evangélico que colocam a empresa sob outro foco.
Imagem: reprodução/redes sociais
No vídeo, o deputado explica o sistema de funcionamento do repasse de valores para serviços e as relações entre diversas empresas e figuras políticas, afirmando se tratar de algo “bem nebuloso”. O parlamentar evangélico levanta suspeitas sobre a relação entre políticos, religião, emendas parlamentares e a cinebiografia de Jair Bolsonaro “Dark Horse”. Bereia checou o conteúdo do que o Pastor Henrique Vieira expôs em seus perfis de redes digitais.
Karina Gama tem ainda empresas e organizações da sociedade civil ligadas ao contexto evangélico que recebem dinheiro público. Além da Go Up Entertainment, a empresária é sócia do Instituto Conhecer Brasil (ICB) e presidente da Academia Nacional de Cultura (ANC), que têm sede no mesmo endereço em São Paulo. No perfil público de Karina Gama, o empreendedorismo cristão é registrado como sua atuação mais destacada, tanto nacional quanto internacionalmente. A ANC, tem escritórios no Brasil, nos Estados Unidos, em Portugal e em Israel.
O ICB
O Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Gama, recebeu mais de 100 milhões de reais da Prefeitura de São Paulo, sob a gestão de Ricardo Nunes (MDB), para o fornecimento de serviços de wi-fi públicos em regiões de baixa renda da cidade. Esta informação chama a atenção pois a organização não presta serviços de telecomunicação. O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) investiga este repasse financeiro desde janeiro. É alvo da investigação o fato de que não houve concorrência na licitação pública que concedeu as verbas para a realização da implantação de cinco mil pontos de acesso à internet em São Paulo. Quase um ano após o encerramento do prazo de entrega, a Prefeitura paulistana admite que o contrato ainda não foi cumprido, com apenas 3.200 pontos instalados.
A justificativa dos agentes públicos pelo não cumprimento do contrato é que Karina Gama havia registrado um boletim de ocorrência, na Polícia Civil de São Paulo, para acusar a empresa Ultra IP de descumprir o contrato com o ICB para instalar e manter pontos de internet na cidade. O dono da empresa alega não ter ciência do inquérito, negou as acusações e informou ter aberto processo judicial contra o ICB por não ter recebido pelos serviços prestados por meio de contrato. A secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia de São Paulo afirma que todos os questionamentos do MP-SP foram devidamente respondidos dentro do prazo.
Cronograma revela que até junho de 2025, prazo final para implementação, apenas 3200 dos 5000 pontos de Wi-Fi foram considerados ativos. Foto: Reprodução/Prefeitura de São Paulo
Ocorre que levantamento feito pelo portal G1 nas prestações de contas da do ICB, publicado no último 20 de maio, mostra que a organização de Karina Gama apresentou ao menos R$ 4 milhões em notas irregulares à gestão do Prefeito Ricardo Nunes, para justificar despesas do contrato de instalação de wi-fi. A apuração do G1 demonstra que há notas milionárias canceladas no site da própria Prefeitura e até apresentação de recibos e notas sem nenhum valor fiscal para justificar gastos de até R$ 4,3 milhões em uma única fatura, de junho de 2024 a dezembro de 2025.
Conforme alertou o deputado Pastor Henrique Vieira, o mesmo ICB realiza eventos evangélicos, bancados com emendas parlamentares. Uma delas foi destinada pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), que também é roteirista do filme-homenagem a Jair Bolsonaro. No total, Frias destinou 2 milhões de reais em emendas, também para serviços de marketing da empresa Conhecer Brasil Assessoria, mas nega irregularidades.
ICB conseguiu, em 2018, com a prefeitura paulistana, 2,5 milhões de reais, para a realização do “Encontro literário IDE”, um evento para promover autores cristãos, na programação da feira de produtos religiosos Expo Cristã. O projeto incluiu um concurso literário, palestras de coaches para autores e encontros com livreiros. Este foi um entre vários eventos religiosos com o apoio financeiro da prefeitura de São Paulo.
Foto: Reprodução do website do Instituto Conhecer Brasil
Outra organização administrada por Karina Gama é a Academia Nacional de Cultura (ANC), que também realiza eventos religiosos, como o Mega Dance Musical, vinculado à Força Jovem Universal da Igreja Universal do Reino de Deus e o The Connect Faith 2025. Este último é uma feira de negócios que busca articular empreendedorismo cristão e tecnologia, sob a orientação de estrelas do cenário evangélico como o deputado federal Marco Feliciano (PL-SP), a bispa da Igreja Renascer em Cristo Sonia Hernandes, a pastora e cantora gospel Ana Paula Valadão, entre outras.
Estes repasses estão sob investigação, por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, pois a secretaria estadual de Cultura do governo Tarcísio teria que ter aprovado o plano da produção da ANC para depois assinar um termo de fomento e repassar a verba à produtora. A verba não foi repassada ainda. A secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas foi ouvida pela Agência Pública e explicou que “a referida ONG não cumpriu, até o momento a formalização de toda a documentação necessária para o recebimento do recurso”. Portanto, diz a secretaria, “há diligências em curso para verificação de restrições técnicas e documentais”. Para o G1 a secretaria de
O valor nessa investigação é uma pequena parte diante dos milhões de dólares que Flávio Bolsonaro pediu para o dono do Banco Master Daniel Vorcaro, para a produção do filme sobre o ex-presidente, conforme revelou o site Intercept Brasil. Este valor teria sido intermediado pela produtora Go Up Entertainment, da mesma Karina Gama, que nega ter recebido qualquer repasse do banqueiro. Com a repercussão do caso foi ainda levantado pela imprensa que a empresa nunca trabalhou com produções cinematográficas.
O deputado Pastor Henrique Vieira e a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) enviaram citação ao ministro do STF Flávio Dino para verificação se há a destinação de emendas também para financiamento indireto do filme, o que resultou na abertura de uma apuração preliminar. Após a divulgação dessa nova frente de investigação, o ICB e a deputada Bia Kicis divulgaram notas à imprensa, negando irregularidades.
Desinformação
Em meio a todas esta teia de revelações, o veículo que atua como porta-voz de pautas da direita extremista, a Revista Oeste, publicou matéria em 17 de maio, na qual sustenta que as denúncias que envolvem irregularidades do ICB no contrato do Wi-Fi Livre SP foram produzidas por uma empresa concorrente, a Surf Telecom.
Segundo a Oeste, a Surf teria sido prejudicada no processo de contratações porque participou de etapas anteriores do programa de conectividade da Prefeitura de São Paulo, mas acabou fora do novo modelo adotado. Em 2024, a gestão municipal abriu chamada para organizações do terceiro setor e o ICB assumiu o contrato milionário para expansão da internet gratuita em comunidades vulneráveis, apesar de não atuar nessa frente de trabalho.
Segundo a Revista Oeste supõe, a Surf, como forma de retaliação, teria estimulado as denúncias publicadas pelo Intercept Brasil, uma vez que haveria uma ligação direta entre a Surf Telecom e o veículo jornalístico. A matéria afirma que o jornalista Paulo Motoryn, um dos autores das reportagens sobre o caso, é parente de Mauro Motoryn, executivo da Surf. Isto levaria leitores a crerem, uma vez que não há qualquer prova sobre a suposição, em uma possível influência da disputa comercial na cobertura jornalística do The Intercept.
Imagem: reprodução/revista Oeste
No entanto, reportagens de outros veículos credenciados, como o UOL e o G1, publicaram matérias sobre a investigação do Ministério Público e da Polícia Civil sobre as suspeitas que incluem possível sobrepreço, uso de notas fiscais irregulares, falhas na execução do serviço e inconsistências na prestação de contas. Além disso, como informado nesta matéria, o ICB foi a única organização a apresentar proposta no chamamento público da Prefeitura, o que resultou em contratação sem licitação/concorrência.
A publicação da revista Oeste vem sendo usada em redes digitais para desqualificar o trabalho do jornalista Paulo Montoryn e para defender a empresária produtora do filme-homenagem a Jair Bolsonaro. Porém, os fatos amplamente reportados e documentados por vários veículos jornalísticos, para além do The Intercept, sobre irregularidades nos contratos com a Prefeitura de São Paulo, colocam em xeque a credibilidade da matéria da Oeste.
Karina Gama e as articulações do GT Cristão
O Grupo de Trabalho Cristão (GT Cristão) é uma organização que funciona em São Paulo para interlocução e lobby entre pastores e igrejas evangélicas, o setor empresarial e o ambiente político, com forte alinhamento ao campo ultraconservador de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
O grupo ganhou estrutura e visibilidade durante as eleições de 2022. Ele foi originalmente montado como um “Grupo de Trabalho Cristão” para dar suporte a campanhas como as de Geraldo Alckmin, José Serra, Jair Bolsonaro (2018). Mas foi em 2022 que ganhou mais densidade no apoio à eleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao governo do estado de São Paulo. A função inicial do grupo era orientar o candidato sobre temas de interesse religioso, municiar discursos com passagens bíblicas e organizar formalmente as agendas dele em templos, cultos e grandes eventos (como a Marcha para Jesus).
Após aquele período eleitoral, o grupo se consolidou como um canal permanente de representação. Atualmente presidido pelo pastor da Assembleia de Deus do Brás Geraldo Malta, o GT Cristão passou a atuar no agendamento de reuniões institucionais e na aproximação de interesses do empresariado e de entidades cristãs com o poder público. O grupo possui livre trânsito em gabinetes políticos de relevância, coordena encontros formais com Prefeituras no estado de São Paulo e com as respectivas secretarias de cultura e habitação. Malta afirma que o GT reúne cerca de 400 pastores e 5 mil igrejas.
É nessa intersecção entre religião, negócios e política que Karina Gama se insere. Em reuniões oficiais com governantes e Prefeituras, ela se apresenta e atua como membro do GT Cristão, às vezes ao lado do pastor presidente ou de outros pastores do grupo. A empresária conecta as pautas da organização às suas próprias frentes de atuação no grupo de empresas que dirige, que incluem a captação de recursos na área da cultura, projetos de empreendedorismo cristão e a produção de mídia audiovisual direcionada à base conservadora.
Mais recentemente, em 15 de outubro de 2025, há o registro oficial de outra reunião no Gabinete do Prefeito de São Paulo, esta com a secretaria da Casa Civil e “a presidente e CEO da The Connect Faith – Karina Ferreira da Gama”, na qual também participaram “membros da Academia Nacional de Cultura – Marcelinho Machado, Mônica Cintra, Samuel Crisóstomo, Samuel Camargo, Apostolo Antônio Carlos, Mike Davis, Pastora Elaine Cardoso; Deputado Federal Missionário José Olímpio; Deputado Estadual Rodrigo Moraes; Presidente do GT Cristão – Geraldo Malta; Diretor de Comunicação do GT Cristão – Pastor Osório Brasileiro; Secretário da Casa Civil – Enrico Misasi; Secretário de Cultura e Economia Criativa – Totó Parente; Secretário de Turismo – Rui Alves; e Diretor-Presidente da SPTuris – Gustavo Pires”.
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As denúncias do deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ), publicadas em vídeo, sobre financiamentos suspeitos com verbas públicas de eventos religiosos e outros da produtora do filme-homenagem a Jair Bolsonaro “Dark Horse”, estão no contexto das informações que circulam no noticiário em maio de 2026. Há uma série de suspeitas sob investigação na Polícia Federal, no Ministério Público de São Paulo e no Supremo Tribunal Federal sobre transações financeiras para financiamento do filme que envolveriam também verbas públicas diretas.
Como a apuração do Bereia mostra, as suspeitas expostas no vídeo do Pastor Henrique Vieira têm fundamento na documentação e nos fatos levantados e publicados pela imprensa em torno do caso e das personagens envolvidas, entre elas a Go Up Entertainment, da empresária Karina Gama. São várias frentes de investigação em curso. Portanto, Bereia classifica como inconclusivo o conteúdo verificado. A equipe seguirá acompanhando os desdobramentos para atualização das informações à medida que emerjam comprovações.
https://telesintese.com.br/surf-telecom-se-credencia-para-explorar-wifi-livre-em-sao-paulo/ Acesso em 21 mai 2026
UOL
https://noticias.uol.com.br/colunas/natalia-portinari/2026/05/19/ong-ligada-a-dark-horse-e-investigada-por-contrato-de-r-103-mi-em-sp.htm Acesso em 21 mai 2026
A prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, instituição colocada em liquidação extrajudicial pelo Banco Central em 18 de novembro passado, reacendeu questionamentos sobre irregularidades na Igreja Batista da Lagoinha, uma das maiores e mais influentes denominações evangélicas do país.
Como há muita circulação de conteúdo nas redes digitais sobre este tema que envolve um grupo religioso, o Bereia oferece informação sobre o que já é conhecido, o que está sendo especulado e colocado como suspeita e permanece sem comprovação.
O banco atuava também no setor de crédito consignado e em chamadas operações estruturadas, que são montagens financeiras mais complexas usadas para captar recursos ou conceder crédito a empresas — muitas vezes envolvendo garantias, fundos e emissão de títulos. Também realizava financiamentos de grande porte, isto é, empréstimos milionários para empresas e projetos específicos.
O que se sabe sobre a relação entre Vorcaro e a Igreja Batista da Lagoinha
Até o momento, o que existe de público sobre a relação entre Daniel Vorcaro e a Lagoinha é uma combinação de menções da imprensa, vínculos familiares e declarações de membros da CPMI do INSS, mas ainda não há documentação financeira pública que detalhe doações, contratos ou transferências diretas entre o banqueiro e a denominação.
Reportagens citadas por veículos nacionais apontam que a família de Vorcaro mantém laços estreitos com a igreja, sobretudo em Belo Horizonte. Um dado relevante é que a irmã mais nova do banqueiro, Natalia Vorcaro Zettel, é pastora e uma das líderes da Lagoinha Belvedere,fundada em outubro de 2024, localizada em um dos bairros mais nobres da capital mineira. A presença de membros da família em posições de liderança reforça a percepção pública de proximidade, mas não implica, por si só, qualquer irregularidade.
É importante destacar que a família de Daniel Vorcaro não é alvo das investigações da Polícia Federal relacionadas ao Banco Master. A apuração se concentra em operações financeiras atribuídas ao banqueiro e ao grupo empresarial sob seu comando.
Ainda assim, circulam em meios políticos e jornalísticos afirmações sobre possíveis repasses financeiros, citadas de forma indireta em notas vinculadas a investigações federais. Alguns trechos de relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), ligado ao Banco Central, mencionados por parlamentares e reproduzidos na imprensa, fazem referência a operações consideradas “atípicas” envolvendo entidades religiosas, entre elas a Lagoinha. Contudo, tais relatórios não foram divulgados oficialmente, o que impede confirmar valores, datas ou o contexto dessas movimentações.
A Lagoinha, por sua vez, é uma organização religiosa com forte presença nacional, conhecida por receber empresários, realizar projetos sociais e movimentar grandes volumes financeiros em suas diversas unidades. É necessário distinguir entre transações regulares próprias desse tipo de instituição e eventuais operações que motivam especulação pública.
A fintech ligada à Lagoinha: o “banco da igreja” entrou no debate público
A fintech Clava Forte, fundada em março de 2024, com a justificativa de ser um “banco para impulsionar os projetos do Reino de Deus” e uma fintech voltada a oferecer soluções financeiras a igrejas, pastores e empresas cristãs. A empresa é apresentada ainda com atividades registradas nos setores de desenvolvimento de software, intermediação de serviços e agenciamento de negócios.
A Clava Forte reapareceu no debate público porque foi mencionada em discussões parlamentares e em reportagens que tratam de “movimentações atípicas” envolvendo entidades religiosas. Algumas dessas abordagens conectam o Clava Forte ao contexto mais amplo das investigações do Banco Master, uma associação ainda sem comprovação documental por parte das autoridades.
A relevância da fintech nesta matéria se dá pelo contexto: ela integra um ecossistema financeiro mais amplo ao redor da igreja, que tem sido citado por parlamentares ao discutir a necessidade de transparência e rastreamento de recursos enviados ou recebidos por instituições religiosas.
A CPMI do INSS e as investigações sobre repasses a instituições religiosas
A CPMI do INSS foi criada para investigar um esquema nacional de descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas, envolvendo associações, sindicatos e entidades que passaram a cobrar mensalidades e serviços sem autorização dos beneficiários. O golpe operava principalmente por meio de crédito consignado não solicitado e “taxas associativas” aplicadas de forma automática, resultando em prejuízos milionários para idosos e para o próprio INSS.
A comissão apura a participação de organizações como a Confederação Nacional dos Agricultores Familiares (Conafer), a Amar Brasil (Associação de Assistência ao Trabalhador), a AAB (Associação dos Aposentados do Brasil) e a Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA), além de rastrear possíveis fluxos financeiros entre essas entidades e líderes religiosos ou políticos.
Segundo as investigações da Polícia Federal, da CGU e da CPMI do INSS, o esquema funcionaria da seguinte forma: aposentados e pensionistas tinham descontos inseridos em seus benefícios sem autorização, geralmente na forma de taxas associativas ou serviços fictícios. Esse dinheiro era repassado para entidades conveniadas ao INSS — como Conafer, Amar Brasil, AAB e CBPA — que, segundo as suspeitas apuradas, retinham parte dos valores e direcionavam outra parte para instituições financeiras parceiras, que lucravam com a operação. Há também a hipótese, ainda em investigação, de que parte desses recursos retornava em forma de comissões irregulares ou propina, alimentando um circuito de enriquecimento ilícito entre empresários, dirigentes de entidades e intermediários.
CPMI e Igrejas
A Comissão Parlamentar tornou-se uma das fontes centrais para entender por que igrejas, entre elas a Batista da Lagoinha, passaram a ser mencionadas em debates sobre repasses financeiros. Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e da Receita Federal, encaminhados à comissão, apontam movimentações volumosas e incomuns envolvendo entidades investigadas e diversas organizações religiosas.
Entre os repasses citados em sessões da CPMI estão:
R$ 694 mil enviados para a Sete Church, em Barueri (SP);
R$ 200 mil destinados a um pastor da mesma região;
R$ 1,9 milhão da CBPA – Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura para uma empresa intermediária, que posteriormente enviou valores a familiares do deputado federal evangélico Silas Câmara (Republicanos/AM) e à Fundação Boas Novas, pertencente à igreja dele, a Assembleia de Deus em Manaus.
Imagem: Reprodução/O Repórter Regional
A CPMI também identificou relações entre dirigentes da Associação dos Aposentados do Brasil (AAB) e igrejas do Distrito Federal, sugerindo um entrelaçamento entre líderes religiosos e entidades beneficiadas pelo esquema investigado.
Com isso, a comissão protocolou requerimentos de quebra de sigilo bancário e fiscal, além de convocações de líderes religiosos citados nos documentos. Parlamentares também demonstraram interesse em examinar operações do Clava Forte Bank, embora não haja evidências oficiais de irregularidades envolvendo a fintech.
A CPMI reforça que nenhuma instituição religiosa é, até agora, investigada formalmente, mas defende que todos os destinatários de recursos provenientes de entidades suspeitas devem prestar esclarecimentos.
Lagoinha e Daniel Vorcaro no radar político da CPMI
A relação entre Daniel Vorcaro, o setor de crédito consignado e lideranças da Igreja Batista da Lagoinha ganhou ainda mais visibilidade após declarações do deputado federal Rogério Correia (PT-MG) durante sessão da CPMI do INSS. Em a fala, registrada em notas taquigráficas, o parlamentar apresentou uma série de conexões que, segundo ele, justificariam a ampliação das investigações da comissão.
Correia afirmou que Vorcaro teria forte atuação no setor de crédito consignado, que é justamente o eixo central das fraudes investigadas pela CPMI e que o banqueiro seria “muito amigo” do pastor André Valadão, liderança nacional da Lagoinha. O deputado indicou que haveria vínculos indiretos entre Vorcaro, o pastor Fabiano Zettel, citado como o maior doador para a campanha eleitoral de Jair Bolsonaro, e Valadão. Ele ainda demandou que a fintech Clava Forte seja investigada devido a possíveis conexões com entidades como Amar Brasil e Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares (Conafer), ambas sob suspeita no esquema de descontos indevidos.
Rogério Correia também mencionou na sessão da CPMI dois repasses citados em documentos da comissão que envolvem a igreja: R$ 200 mil enviados pelo investigado Américo Monte ao pastor da Lagoinha Alphaville André Fernandes; o patrocínio do evento de Réveillon da Lagoinha (“Vira Brasil”), no estádio Allianz Parque (São Paulo-SP), em 2024, pelo ex-presidente da Amar Brasil Clube de Benefícios (ABCB) Felipe Macedo, investigado e apontado como alguém próximo de lideranças da igreja, incluindo André Valadão, presidente da Lagoinha Global, responsável por mais de 700 templos no Brasil e exterior.
Durante a mesma sessão da comissão, o deputado Rogério Correia também expôs uma série de ligações familiares e institucionais que envolvem lideranças da Lagoinha e a família Vorcaro: “O pastor Fabiano Zettel, líder de uma das unidades da Lagoinha, seria cunhado de Henrique Vorcaro, pai do banqueiro Daniel Vorcaro, pois sua filha seria casada com ele. Henrique Vorcaro, por sua vez, seria sócio de André Valadão em alguns negócios”. Correia afirmou ainda que André Valadão teria autorizado Fabiano Zettel a abrir a unidade Lagoinha Belvedere e que, a partir dessa ligação, teria surgido o banco digital Clava Forte.
Imagem: Advogado e pastor evangélico Fabiano Campos Zettel durante culto. Foto: Bola de Neve Church/Reprodução
Essa declaração, apresentada pelo deputado com base em sua interpretação dos documentos e depoimentos analisados pela comissão, não foi comprovada por autoridades policiais ou financeiras. Entretanto, ela compõe o conjunto de justificativas usadas por parlamentares para defender a necessidade de aprofundamento de investigações sobre a fintech Clava Forte e líderes da igreja Lagoinha.
Para Correia, esses elementos comporiam um “ecossistema de relações” entre empresários investigados, entidades suspeitas e lideranças religiosas. Em sua interpretação, o deputado destacou que “as pontas precisam ser ligadas” entre Vorcaro, figuras religiosas e atores políticos.
Ele afirmou ainda ter recebido a informação de que o banco digital Clava Forte teria encerrado suas atividades recentemente, após a prisão de Daniel Vorcaro, o que, segundo ele, reforçaria a necessidade de apuração sobre a natureza e o funcionamento da fintech. Ressaltou também que possíveis ligações entre o Banco Master e operações de crédito consignado poderiam justificar a convocação de Vorcaro pela comissão.
Correia finalizou dizendo que há “uma mistura muito grande” entre empresários investigados, lideranças religiosas e estruturas financeiras, e que caberia à CPMI esclarecê-las. As declarações constam integralmente nas notas oficiais do Senado, mas não constituem prova de irregularidade.
Em outra frente, o deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ), presidente da Comissão Parlamentar em Defesa do Estado Laico, encaminhou ofício à Polícia Federal “solicitando a apuração de possíveis relações de natureza econômica e institucional entre o líder da Igreja Batista da Lagoinha pastor André Valadão, e o empresário Daniel Vorcaro.”
O requerimento que coloca a Clava Forte Bank no centro do debate
As declarações do deputado Rogério Correia ganharam peso institucional quando, na mesma sessão, ele apresentou um requerimento formal pedindo que a CPMI encaminhe ao Coaf e à Receita Federal a elaboração de Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) e a quebra de sigilo bancário e fiscal da Clava Forte Bank S/A.
O requerimento, de 19 de novembro de 2025, solicita um dossiê completo com dados bancários, fiscais, declarações contábeis e movimentações financeiras da empresa da Igreja Batista Lagoinha, de março de 2024 a novembro de 2025.
O documento ressalta que a Clava Forte não aparece entre as instituições autorizadas ou supervisionadas pelo Banco Central, o que, segundo o parlamentar, “acende alertas” sobre a regularidade das operações. O texto cita ainda o empresário investigado Felipe Macedo Gomes, apontando que ele teria patrocinado eventos da Lagoinha e que manteria proximidade com lideranças da igreja.
O requerimento sustenta que seria necessário investigar o “fluxo financeiro existente entre essas entidades e a Clava Forte”, especialmente no contexto das movimentações atribuídas ao grupo conhecido como Golden Boys, suspeito de drenar recursos de aposentados por meio de operações fraudulentas.
O parlamentar afirma que a análise dos RIFs e das movimentações financeiras é “essencial” para identificar: eventuais favorecimentos indevidos, vantagens econômicas ou operações compatíveis com lavagem de dinheiro.
Os Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) são documentos produzidos pelo Coaf que apontam movimentações de dinheiro consideradas fora do padrão, como valores muito altos, transações rápidas ou incompatíveis com a renda declarada. Eles não são provas de crime, mas funcionam como alertas enviados às autoridades — como a Polícia Federal ou a CPMI — para ajudar a identificar possíveis irregularidades financeiras.
Embora o requerimento não constitua qualquer prova de irregularidade e é um pedido de investigação a partir de uma suspeita, ele torna fato que a instituição financeira Clava Forte, e, por consequência, a proprietária, a Igreja Batista da Lagoinha, passou a integrar o escopo da CPMI, ao lado de entidades investigadas por fraudes, como Amar Brasil, Conafer, AAB e CBPA.
A presença da Igreja da Lagoinha e da família Vorcaro no debate público se deve, principalmente, à Operação Compliance Zero, que prendeu Daniel Vorcaro, ao contexto da CPMI do INSS, com a documentação apresentada por um parlamentar, e à existência de uma fintech ligada à denominação. Até o momento, porém, o que existe é uma combinação de proximidade familiar, interpretações políticas e suspeitas, ainda sem investigações e sem provas de irregularidades financeiras relacionadas à igreja.
O Bereia seguirá acompanhando o desenrolar das investigações para atualizar esta matéria caso novos documentos oficiais sejam divulgados.