Bereia Explica: Como Nossa Senhora Aparecida entrou na campanha eleitoral do Brasil 2026

A pouco mais de uma semana do primeiro turno nas eleições 2026 no Brasil, um dos mais fortes símbolos do Catolicismo (maior religião do país), ocupou o debate em torno da campanha eleitoral: Nossa Senhora Aparecida. Em menos de uma semana, a controvérsia passou por orientações de bispos católicos sobre o voto, um comentário de jornalista na GloboNews, um projeto de lei de 2007, um desmentido do candidato Flávio Bolsonaro (PL), uma correção da emissora, problemas de acesso da CNBB a sua conta no X, uma ordem de remoção de conteúdos sobre o tema no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a derrubada dela no Supremo Tribunal Federal (STF). O Bereia reuniu o que está documentado, o que é interpretação e o que ainda não se sabe para contribuir com leitores e leitoras na compreensão deste que já se tornou um fenômeno destas eleições 2026.

1. Em resumo: o que está acontecendo?

Circulou nas redes a versão de que Nossa Senhora Aparecida poderia perder o título de Padroeira do Brasil caso o candidato a presidente da República pelo PL senador Flávio Bolsonaro vença a eleição presidencial. A versão combina três elementos verdadeiros e uma associação não comprovada:

  • É fato que a jornalista Maria Cristina Fernandes relatou, na noite de 24 de setembro, no jornal “Em Pauta”, da GloboNews, ter apurado que existiria um alerta entre lideranças da Igreja Católica sobre uma parcela de evangélicos mobilizar um projeto de lei para retirar de Nossa Senhora Aparecida a condição de padroeira do Brasil. A comentarista não citou o candidato Flávio Bolsonaro, mas menções à fala dela passaram a circular nas redes associando o caso a um projeto do candidato. A GloboNews registrou, mais tarde, uma correção do comentário da jornalista, informando que havia um projeto de lei sobre o tema, de 2007, mas arquivado em 2008. 
  • É fato que existiu um projeto de lei, o PL 2.623/2007, que restringia o título de padroeira apenas aos católicos e não ao Brasil, apresentado pelo então deputado pelo PMDB-MT, o pastor da Assembleia de Deus Victório Galli. O PL foi rejeitado em comissão e arquivado em 2008. Galli se tornou assessor especial da Presidência no governo Jair Bolsonaro, de 2019 a 2022.
  • É fato que um dos conteúdos que circula nas redes atrelando o caso a Flávio Bolsonaro existe. O candidato prometeu, em vídeo gravado em agosto passado, que, se eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, usando um jargão evangélico de “tomada de território”.
  • Não há registro, na checagem do Bereia, de que Flávio Bolsonaro tenha apresentado, apoiado ou anunciado algum projeto para retirar o título da santa. O candidato nega.

A reação de Flávio Bolsonaro, que protocolou queixa na Justiça Eleitoral contra perfis que publicaram sobre o caso e, mais recentemente, com críticas à Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB), acabou ampliando o alcance do assunto.

2. Como a Igreja Católica entrou no debate eleitoral?

Como faz a cada eleição, a CNBB publicou orientações sobre o voto. Em 18 de junho, divulgou a Mensagem ao povo brasileiro por ocasião das eleições de 2026. O texto pede participação consciente, desaconselha a abstenção e orienta o eleitor a examinar a trajetória de vida dos candidatos, não apenas as promessas. Reafirma que a Igreja não indica candidatos nem partidos.

A orientação ganhou intensidade em setembro. No Dia da Independência do Brasil, 7 de setembro, no Santuário Nacional de Aparecida, o arcebispo emérito Dom Orlando Brandes defendeu a soberania nacional e pediu que os fiéis votem pensando no bem comum. Na semana de 22 de setembro, bispos do Regional Norte 1 da CNBB (dioceses do Amazonas e de Roraima) divulgaram vídeos recomendando o voto em candidatos que “defendam a democracia, os direitos do povo e a natureza”. Também pediram atenção a candidatos que usam indevidamente o nome de Deus.

Nenhum desses conteúdos menciona Flávio Bolsonaro, Nossa Senhora Aparecida ou projeto de lei. Porém, em uma eleição que ocorre no contexto de pressões dos Estados Unidos sobre o Brasil, a defesa de soberania e democracia passou a ser lida por setores mais radicais da direita política como sinal de apoio ao presidente Lula (PT), que tem a soberania nacional como eixo de campanha para reeleição.

3. O que disse a jornalista da GloboNews? Foi desinformação?

No programa Em Pauta, da GloboNews, em 24 de setembro, a jornalista Maria Cristina Fernandes analisou o comportamento do eleitorado religioso e por que a Igreja Católica estava mais presente na campanha. Segundo sua apuração, haveria “um movimento na Igreja Católica de reação a uma parcela de evangélicos” que estaria “mobilizando um projeto de lei para tirar a Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira”. Fernandes avaliou que essa reação poderia ter efeito eleitoral entre católicos e favorecer Lula.

O comentário é jornalismo de análise baseado em fontes. A jornalista não atribuiu a Flávio Bolsonaro a autoria nem o apoio ao suposto projeto, como pode ser assistido na gravação do jornal. A ligação direta com o candidato foi feita depois, por publicações nas redes. Classificar a fala da jornalista como “fake news” ignora dois fatos: um projeto desta natureza existiu e a preocupação de setores católicos é o objeto da apuração jornalística, não uma invenção.

4. O projeto de lei existe? Quem é o autor?

Sim. É o PL 2.623/2007, apresentado em 12 de dezembro de 2007, pelo então deputado federal Professor Victório Galli (PMDB-MT). O texto alterava a Lei 6.802/1980, que institui o feriado de 12 de outubro, e trocava a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O feriado seria mantido.

Segundo a ficha oficial da Câmara dos Deputados, a proposta foi rejeitada pela Comissão de Educação e Cultura e arquivada em 22 de agosto de 2008. Em 2018, a própria Câmara publicou esclarecimento sobre o arquivamento, porque o tema tinha retornado como se o projeto ainda estivesse em tramitação. O mesmo ocorreu na eleição de 2022.

Victório Galli é pastor da Assembleia de Deus. Reeleito deputado federal em 2018, deixou o mandato para assumir, em fevereiro de 2019, o cargo de assessor especial da Presidência da República no governo Jair Bolsonaro (PFL e PL). Tentou voltar à Câmara em 2022, sem sucesso, e em 2026 é novamente candidato a deputado federal, agora pelo PP de Mato Grosso.

5. Se o projeto está arquivado, ele pode voltar?

Este é o ponto que a discussão sobre o “arquivamento” deixou de lado. Tecnicamente, o PL 2.623/2007 não deve voltar a tramitar: ele foi rejeitado no mérito, e não apenas arquivado ao fim de uma legislatura, situação em que o Regimento Interno da Câmara permite o desarquivamento a pedido do autor.

Nada impede, porém, que um parlamentar apresente um novo projeto com o mesmo teor. A Constituição (art. 67) só restringe a reapresentação de matéria rejeitada dentro da mesma sessão legislativa. O texto de 2007, portanto, continua disponível como modelo.

É nesse sentido que especialistas consultados pelo Bereia, que serão citados a seguir, tratam o temor católico: não como prova de uma articulação em curso, mas como uma hipótese plausível diante da correlação de forças no Congresso e do discurso do candidato Flávio Bolsonaro. Não há, até aqui, registro de nova proposição com esse objetivo.

6. Qual a relação de Flávio Bolsonaro com o caso?

Não há registro de que Flávio Bolsonaro, que não tinha mandato em 2007, seja autor ou apoiador do projeto, nem de que tenha defendido retirar o título da santa. A ligação feita nas redes se apoia em outra declaração dele.

Em vídeo publicado, em 23 de agosto passado, nas redes, para justificar a ausência no debate da Band, o candidato disse que “um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A frase usa a linguagem de “tomada de território espiritual”, jargão de segmentos evangélicos. A frase é um jargão evangélico que tem tanto um sentido religioso e político de “tomada de território”. Por meio dela, se afirma a soberania de Deus, em Jesus,  sobre o país, e o lugar da maioria cristã, nas bases da doutrina evangélica para que a nação seja guiada por princípios religiosos cristãos, definidos segundo a interpretação de quem a pronuncia. Perfis nas redes juntaram esta promessa às suspeitas sobre possível retomada do projeto de 2007 por grupos evangélicos noticiada na GloboNews e concluíram que um “Brasil de Jesus” não seria “de Nossa Senhora”. Essa conclusão é interpretação, não declaração do candidato.

7. Por que o “chute na santa” voltou a circular?

Com a controvérsia, voltaram às redes as imagens de 12 de outubro de 1995, quando o bispo Sérgio von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa na TV Record, justamente no dia da padroeira. O episódio é o marco mais lembrado do conflito entre setores evangélicos e o catolicismo no Brasil e ajuda a explicar por que o tema mobiliza tanto o imaginário católico. Ele não é, porém, evidência de uma articulação atual sobre o título da santa.

8. O que Flávio Bolsonaro respondeu?

Na noite de 24 de setembro, Flávio Bolsonaro publicou vídeo no X: “Não tem pé nem cabeça. Não existe esse projeto”. Tomada literalmente, a frase é incorreta, porque o projeto existe, ainda que arquivado. Ele negou a intenção de mexer no título da padroeira, atribuiu a circulação a adversários do Partido dos Trabalhadores e depois compartilhou a correção da GloboNews.

Em 26 de setembro, a campanha de Bolsonaro fez uma live com lideranças religiosas de diferentes tradições para conter os efeitos políticos da controvérsia. Participaram o Padre Kelmon (candidato a presidente em 2022, ligado à Igreja Ortodoxa), o pastor da Assembleia de Deus Ramon Lima, o reverendo anglicano Aldo Quintão e o pai de santo da cantora Anitta Sérgio Pina. Flávio Bolsonaro não estava presente. Foi observada pelo público a ausência de participação católica.

 9. Por que a GloboNews corrigiu a jornalista? O que a correção resolve e o que não resolve?

Na madrugada de 25 de setembro, na Edição da Meia-Noite, da GloboNews, a apresentadora Marcelly Setúbal leu uma nota informando que o projeto mencionado no comentário da jornalista Maria Cristina Fernandes foi “apresentado em dezembro de 2007 e arquivado pela Mesa Diretora da Câmara em agosto de 2008”. A emissora pediu desculpas.

A correção esclarece a data e a situação do projeto. Porém, ela não desmente o que a jornalista apurou e relatou no jornal mais cedo: a existência de preocupação em setores da Igreja Católica com uma possível articulação sobre o tema. E, como Bereia levantou, o arquivamento não encerra a questão de fundo, que é a possibilidade de o texto servir de base para uma nova proposta. Nas redes, a correção foi usada por apoiadores de Flávio Bolsonaro para desqualificar a jornalista, que passou a ser atacada como “militante”. Jornalistas criticaram esse tratamento e a forma como a emissora conduziu o episódio.

10. O que aconteceu com os perfis da CNBB? A Meta derrubou a conta?

Não foi a Meta. O problema ocorreu no X (antigo Twitter). Em 25 de setembro, a CNBB informou dificuldades de acesso à conta oficial @cnbbnacional, disse ter acionado o suporte da plataforma e enviado as comprovações de titularidade, e orientou os fiéis a acompanhar os demais canais. Segundo a Folha de S.Paulo, a entidade identificou alteração no e-mail vinculado à conta e trata o caso como possível hackeamento. A CNBB não associou o problema à controvérsia.

O episódio foi o terceiro caso, na mesma semana, envolvendo contas em plataformas digitais no contexto eleitoral:

Não há evidência, nas fontes consultadas, de ligação entre esses episódios ou deles com o caso de Nossa Senhora Aparecida. A falta de transparência das plataformas sobre os critérios dessas ações, porém, alimenta suspeitas.

11. O que o ministro André Mendonça encaminhou pelo TSE em relação ao caso?

Flávio Bolsonaro acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a Procuradoria-Geral Eleitoral, com um notícia-crime que pediu a abertura de investigação contra 29 pessoas e responsáveis por perfis que, conforme o documento, divulgaram o conteúdo. Entre os citados estão a deputada estadual Lohanna França (PV-MG), o deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ) e o deputado federal Rogério Correia (PT-MG), vice-líder do governo na Câmara.

Em 25 de setembro, o vice-presidente do TSE e ministro do STF André Mendonça, concedeu liminar reconhecendo como “notoriamente inverídico” o núcleo factual segundo o qual “Flavio Nantes Bolsonaro ou sua família propôs, articulou, apoiou, está comprometido com ou pretende promover a retirada de Nossa Senhora Aparecida da condição ou do título de Padroeira do Brasil”.

A decisão determinou que Meta, TikTok e Google/YouTube removessem conteúdos com essa afirmação, sem necessidade de nova ordem judicial para cada publicação, sob multa diária. No caso do humorista Antonio Tabet, a ordem proibiu a republicação de conteúdo “substancialmente semelhante”, com multa de R$ 30 mil. Mendonça, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, é pastor presbiteriano e foi apresentado como ministro “terrivelmente evangélico”, condição que foi base para uma série de críticas nas redes em torno das proibições.

12. É verdade que foram removidos até posts religiosos sobre Nossa Senhora?

Sim, com uma precisão importante. A decisão não proibiu, em si, publicações sobre Nossa Senhora Aparecida. Ela mirava conteúdos que atribuíam a Flávio Bolsonaro o plano de retirar o título. Porém, a lista de publicações a remover, apresentada a partir do pedido da campanha, incluiu perfis sem conteúdo político:

  • um vídeo da conta @santuarionacional no TikTok, dedicada a publicações religiosas sobre a santa e a Basílica;
  • um vídeo do frei carmelita Gilvander Moreira.

Também foram alcançadas publicações do teólogo Leonardo Boff, da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), dos deputados Rogério Correia (PT-MG) e Ivan Valente (PSOL-SP), do ex-deputado Jean Wyllys, do MST, e até de um advogado que apenas informava que o autor do projeto de 2007 tinha sido assessor de Jair Bolsonaro, um fato documentado. Na prática, conteúdos de exaltação e devoção à padroeira ficaram sujeitos à remoção, o que gerou críticas. 

13. Por que o ministro Flávio Dino derrubou a decisão de André Mendonça?

Em 27 de setembro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino atendeu a recurso do humorista Antonio Tabet e anulou a decisão de André Mendonça. Dino determinou o restabelecimento da postagem do humorista e de outras removidas com o mesmo fundamento.

O ministro do STF aplicou entendimento que já havia adotado contra decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná: proibir previamente a republicação de determinado conteúdo, sob multa, configura censura prévia. Dino afirmou que “em um processo eleitoral a lesividade de uma decisão que tolhe a liberdade de expressão tem enorme gravidade”. Ele argumentou que críticas a propostas que afetem preferências religiosas não podem ser retiradas do debate público, e que manter a remoção exigiria “presumir” que a expressão “família miliciana”, usada por Tabet, se referia especificamente a Flávio Bolsonaro. A decisão invoca a liberdade de expressão e a liberdade religiosa.

14. É verdade que Flávio Bolsonaro fez ataques à CNBB e a CNBB publicou resposta oficial?

Sim. Em 27 de setembro, Flávio Bolsonaro criticou a CNBB ao comentar a repercussão do caso envolvendo Nossa Senhora Aparecida. Em evento de campanha em Goiânia (GO), sem apresentar provas, o candidato afirmou que pessoas ligadas à entidade teriam ajudado o Partido dos Trabalhadores (PT) a disseminar a informação de que ele pretendia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. O candidato também chamou o episódio de “a maior fake news da campanha” e afirmou que não existia projeto ou movimento para retirar o título.

No mesmo dia, a CNBB divulgou uma nota oficial em que negou participação na produção ou divulgação de informações falsas relacionadas ao processo eleitoral. A entidade afirmou que não integra estruturas político-partidárias ou candidaturas e que suas manifestações sobre as eleições decorrem de sua missão pastoral e de princípios como dignidade humana, bem comum, democracia e liberdade de consciência.

Na nota, a CNBB também afirmou que atribuir à entidade participação em estruturas de produção ou disseminação de desinformação, sem fatos e provas que sustentem a acusação, atinge a instituição. O texto foi encerrado com a afirmação: “A mentira não se combate com outra mentira”.

Este episódio voltou a alavancar o tema nas redes digitais, provocando nova massa de reações críticas à postura do candidato em relação às lideranças católicas. 

15. Evangélicos são contra Nossa Senhora Aparecida?

A veneração de santos e de imagens sacras não é parte da doutrina protestante, evangélica. Os princípios teológico-doutrinários dos  reformadores  europeus do final do século 15 e início do 16, baseiam-se na compreensão de que há apenas um mediador entre Deus e o ser humano, que é Jesus Cristo, e que não pode haver “materialização do sagrado” (iconoclastia). Isto é, é visto como um pecado que haja imagens e qualquer forma de representação do divino. Esta visão toma por base os 10 mandamentos contidos na Bíblia, no livro de Êxodo: “1º: Não terás outros deuses além de mim; 2º: Não farás para ti nenhum ídolo ou imagem de escultura farás para ti imagens de escultura”.

Com isso, há  a noção de que a veneração a santos e a imagens pode levar à idolatria — quando uma outra divindade se impõe no lugar de Deus. Isto foi objeto de forte crítica dos reformadores dos séculos 15 e 16 ao Catolicismo,  que, na compreensão deles, permitia Deus ser colocado em segundo plano diante da adoração a santos.

Maria tem o seu lugar na tradição evangélica,  como mãe de Jesus. Porém,  ela é valorizada como serva de Deus, que gerou Jesus, o Salvador. Não é compreendida como “mãe de Deus”, nem como intercessora das pessoas diante do Filho de Deus que ela gerou, uma vez que na doutrina protestante não há mediação entre Deus e o ser humano.  Este quadro foi ainda mais reforçado com a disputa no campo religioso entre evangélicos e católicos. Como minoria,  evangélicos, no Brasil, procuraram se diferenciar de católicos para se afirmarem na arena pública.  A negação dos santos foi mais uma entre elas.

Portanto, não há uma rejeição específica a Nossa Senhora Aparecida, mas há a não crença na figura de Maria e de qualquer das formas que ela assuma, conforme o Catolicismo, como Santa, Mãe de Deus. Esta forma de crer promove uma leitura crítica em alguns grupos evangélicos,  assim como no período da Reforma Protestante, de condenação da doutrina católica como uma fé idólatra. De fato, este é um ponto que ainda serve de impedimento ao diálogo ecumênico entre evangélicos e católicos no Brasil.

16. O que dizem os especialistas em religião e política?

Jorge Alexandre Alves, sociólogo, professor do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e integrante do Movimento Fé e Política afirma, por meio de texto no Facebook, enviado ao Bereia: o projeto de lei, de 2007, está por hora engavetado, mas, “havendo disposição política e correlação de forças favoráveis, poderia ser desengavetado em um piscar de olhos”. Para ele, a promessa de que “o Brasil será do Senhor Jesus” é “retórica típica da Teologia do Domínio”, e há um histórico de ataques à imagem da santa, do chute de 1995 a episódios recentes. Alves admite que a versão pode ter sido “plantada” para colocar o candidato na defensiva, sem elementos para comprovar isso. Afirma que as orientações dos bispos seguem a Doutrina Social da Igreja e não equivalem a declaração de voto. E alerta: “potencializar uma espécie de guerra santa não ajudaria em nada”; não se pode generalizar a todos os evangélicos “as atitudes irresponsáveis de uns poucos líderes políticos e religiosos”.

Ronilso Pacheco, teólogo, diretor do Instituto de Estudos da Religião, afirmou no UOL News: mexer em um símbolo ligado à cultura brasileira poderia mobilizar católicos e também evangélicos contra a iniciativa. Ele classificou a repercussão como uma “cortina de fumaça” e avaliou que insistir nesse tipo de conteúdo seria um “suicídio político”.

Tabata Pastore Tesser, socióloga, pesquisadora do Laboratório de Antropologia da Religião da Unicamp (LAR) e pesquisadora visitante do ISER, em vídeo no Instagram: os vídeos dos bispos e o panfleto que circularam na semana “não pedem voto nem mencionam candidato”. Mas, “numa eleição polarizada, defender democracia, soberania, verdade, justiça social, Amazônia e povos indígenas pode produzir um efeito eleitoral”. Recuperando a história, ela mostra que a atuação política católica já produziu efeitos eleitorais que “não são sinônimo de apoio”.

Bereia seguirá acompanhando os desdobramentos deste caso.

Saiba mais com as matérias do Bereia:
Controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida na campanha eleitoral mobiliza milhões de interações nas redes religiosas, pela Casa Galileia

Aparecida, as eleições e a Democracia, pelo Frei Marcelo Barros

Referências

AGÊNCIA BRASIL. https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-09/meta-desabilitou-anuncios-do-perfil-de-lula-no-facebook. Acesso em 27 set. 2026.

Facebook, Jorge Alexandre Alves
https://www.facebook.com/share/1cfLJ2w4i1/. Acesso em 27 set. 2026.

CÂMARA DOS DEPUTADOS. Projeto de Lei 2.623/2007. https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=380897. Acesso em 25 set. 2026.

CANAL UOL. UOL News com Ronilso Pacheco. https://www.instagram.com/reel/Ddt3KDTlsdD/. Acesso em 27 set. 2026.

CNBB. https://www.cnbb.org.br/cnbb-divulga-mensagem-ao-povo-brasileiro-por-ocasiao-das-eleicoes-de-2026/. Acesso em 27 set. 2026.

CNN BRASIL. 

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/dino-cassa-decisao-de-mendonca-e-libera-post-de-ator-sobre-nossa-senhora/. Acesso em 27 set. 2026.

FOLHA DE S.PAULO. 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2026/09/cnbb-tem-conta-no-antigo-twitter-hackeada.shtml. Acesso em 25 set. 2026.

ICL NOTÍCIAS. 

https://iclnoticias.com.br/pedido-flavio-mendonca-censura-nossa-senhora/. Acesso em 27 set. 2026.

Instagram, Tábata Tesser

https://www.instagram.com/reel/DdrGZb3t18i/. Acesso em 27 set. 2026.

BRASIL. Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6802.htm. Acesso em 25 set. 2026.

Instagram, Dom Orlando Brandes

https://www.instagram.com/p/DdsqaghudVS/  Acesso em 27 set. 2026.


Arquidiocese Católica de Manaus
https://arquidiocesedemanaus.org.br/2026/09/23/bispos-do-regional-norte-1-conclamam-os-fieis-brasileiros-para-voto-consciente-nas-eleicoes-de-2026/ Acesso em 27 set. 2026.


Rede TVT
https://www.youtube.com/shorts/LsvTh4UaXiQ Acesso em 27 set. 2026.


X, Perfil de Flávio Bolsonaro

https://x.com/FlavioBolsonaro/status/2103309011701350544?s=20  Acesso em 27 set. 2026.

TV Celular – Canal Flávio Bolsonaro no Youtube

https://www.youtube.com/watch?v=oBnq66p_Csg Acesso em 27 set. 2026.

Poder 360
https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes-2026/jornalistas-criticam-globonews-por-corrigir-informacao-sobre-padroeira/ Acesso em 27 set. 2026.

Correio Braziliense
https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2026/09/7506667-perfil-do-revelando-volta-ao-instagram-apos-remocao-da-meta.html Acesso em 27 set. 2026.

Uol. https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/09/27/cnbb-reage-a-flavio-mentira-nao-se-combate-com-outra-mentira.ghtm. Acesso em 28 de setembro de 2026. 

O Globo. https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/09/27/flavio-cnbb-nossa-senhora.ghtml.  Acesso em 28 de setembro de 2026.

Compartilhe