Bereia Explica: Como Nossa Senhora Aparecida entrou na campanha eleitoral do Brasil 2026

A pouco mais de uma semana do primeiro turno nas eleições 2026 no Brasil, um dos mais fortes símbolos do Catolicismo (maior religião do país), ocupou o debate em torno da campanha eleitoral: Nossa Senhora Aparecida. Em menos de uma semana, a controvérsia passou por orientações de bispos católicos sobre o voto, um comentário de jornalista na GloboNews, um projeto de lei de 2007, um desmentido do candidato Flávio Bolsonaro (PL), uma correção da emissora, problemas de acesso da CNBB a sua conta no X, uma ordem de remoção de conteúdos sobre o tema no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a derrubada dela no Supremo Tribunal Federal (STF). O Bereia reuniu o que está documentado, o que é interpretação e o que ainda não se sabe para contribuir com leitores e leitoras na compreensão deste que já se tornou um fenômeno destas eleições 2026.

1. Em resumo: o que está acontecendo?

Circulou nas redes a versão de que Nossa Senhora Aparecida poderia perder o título de Padroeira do Brasil caso o candidato a presidente da República pelo PL senador Flávio Bolsonaro vença a eleição presidencial. A versão combina três elementos verdadeiros e uma associação não comprovada:

  • É fato que a jornalista Maria Cristina Fernandes relatou, na noite de 24 de setembro, no jornal “Em Pauta”, da GloboNews, ter apurado que existiria um alerta entre lideranças da Igreja Católica sobre uma parcela de evangélicos mobilizar um projeto de lei para retirar de Nossa Senhora Aparecida a condição de padroeira do Brasil. A comentarista não citou o candidato Flávio Bolsonaro, mas menções à fala dela passaram a circular nas redes associando o caso a um projeto do candidato. A GloboNews registrou, mais tarde, uma correção do comentário da jornalista, informando que havia um projeto de lei sobre o tema, de 2007, mas arquivado em 2008. 
  • É fato que existiu um projeto de lei, o PL 2.623/2007, que restringia o título de padroeira apenas aos católicos e não ao Brasil, apresentado pelo então deputado pelo PMDB-MT, o pastor da Assembleia de Deus Victório Galli. O PL foi rejeitado em comissão e arquivado em 2008. Galli se tornou assessor especial da Presidência no governo Jair Bolsonaro, de 2019 a 2022.
  • É fato que um dos conteúdos que circula nas redes atrelando o caso a Flávio Bolsonaro existe. O candidato prometeu, em vídeo gravado em agosto passado, que, se eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, usando um jargão evangélico de “tomada de território”.
  • Não há registro, na checagem do Bereia, de que Flávio Bolsonaro tenha apresentado, apoiado ou anunciado algum projeto para retirar o título da santa. O candidato nega.

A reação de Flávio Bolsonaro, que protocolou queixa na Justiça Eleitoral contra perfis que publicaram sobre o caso e, mais recentemente, com críticas à Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB), acabou ampliando o alcance do assunto.

2. Como a Igreja Católica entrou no debate eleitoral?

Como faz a cada eleição, a CNBB publicou orientações sobre o voto. Em 18 de junho, divulgou a Mensagem ao povo brasileiro por ocasião das eleições de 2026. O texto pede participação consciente, desaconselha a abstenção e orienta o eleitor a examinar a trajetória de vida dos candidatos, não apenas as promessas. Reafirma que a Igreja não indica candidatos nem partidos.

A orientação ganhou intensidade em setembro. No Dia da Independência do Brasil, 7 de setembro, no Santuário Nacional de Aparecida, o arcebispo emérito Dom Orlando Brandes defendeu a soberania nacional e pediu que os fiéis votem pensando no bem comum. Na semana de 22 de setembro, bispos do Regional Norte 1 da CNBB (dioceses do Amazonas e de Roraima) divulgaram vídeos recomendando o voto em candidatos que “defendam a democracia, os direitos do povo e a natureza”. Também pediram atenção a candidatos que usam indevidamente o nome de Deus.

Nenhum desses conteúdos menciona Flávio Bolsonaro, Nossa Senhora Aparecida ou projeto de lei. Porém, em uma eleição que ocorre no contexto de pressões dos Estados Unidos sobre o Brasil, a defesa de soberania e democracia passou a ser lida por setores mais radicais da direita política como sinal de apoio ao presidente Lula (PT), que tem a soberania nacional como eixo de campanha para reeleição.

3. O que disse a jornalista da GloboNews? Foi desinformação?

No programa Em Pauta, da GloboNews, em 24 de setembro, a jornalista Maria Cristina Fernandes analisou o comportamento do eleitorado religioso e por que a Igreja Católica estava mais presente na campanha. Segundo sua apuração, haveria “um movimento na Igreja Católica de reação a uma parcela de evangélicos” que estaria “mobilizando um projeto de lei para tirar a Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira”. Fernandes avaliou que essa reação poderia ter efeito eleitoral entre católicos e favorecer Lula.

O comentário é jornalismo de análise baseado em fontes. A jornalista não atribuiu a Flávio Bolsonaro a autoria nem o apoio ao suposto projeto, como pode ser assistido na gravação do jornal. A ligação direta com o candidato foi feita depois, por publicações nas redes. Classificar a fala da jornalista como “fake news” ignora dois fatos: um projeto desta natureza existiu e a preocupação de setores católicos é o objeto da apuração jornalística, não uma invenção.

4. O projeto de lei existe? Quem é o autor?

Sim. É o PL 2.623/2007, apresentado em 12 de dezembro de 2007, pelo então deputado federal Professor Victório Galli (PMDB-MT). O texto alterava a Lei 6.802/1980, que institui o feriado de 12 de outubro, e trocava a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O feriado seria mantido.

Segundo a ficha oficial da Câmara dos Deputados, a proposta foi rejeitada pela Comissão de Educação e Cultura e arquivada em 22 de agosto de 2008. Em 2018, a própria Câmara publicou esclarecimento sobre o arquivamento, porque o tema tinha retornado como se o projeto ainda estivesse em tramitação. O mesmo ocorreu na eleição de 2022.

Victório Galli é pastor da Assembleia de Deus. Reeleito deputado federal em 2018, deixou o mandato para assumir, em fevereiro de 2019, o cargo de assessor especial da Presidência da República no governo Jair Bolsonaro (PFL e PL). Tentou voltar à Câmara em 2022, sem sucesso, e em 2026 é novamente candidato a deputado federal, agora pelo PP de Mato Grosso.

5. Se o projeto está arquivado, ele pode voltar?

Este é o ponto que a discussão sobre o “arquivamento” deixou de lado. Tecnicamente, o PL 2.623/2007 não deve voltar a tramitar: ele foi rejeitado no mérito, e não apenas arquivado ao fim de uma legislatura, situação em que o Regimento Interno da Câmara permite o desarquivamento a pedido do autor.

Nada impede, porém, que um parlamentar apresente um novo projeto com o mesmo teor. A Constituição (art. 67) só restringe a reapresentação de matéria rejeitada dentro da mesma sessão legislativa. O texto de 2007, portanto, continua disponível como modelo.

É nesse sentido que especialistas consultados pelo Bereia, que serão citados a seguir, tratam o temor católico: não como prova de uma articulação em curso, mas como uma hipótese plausível diante da correlação de forças no Congresso e do discurso do candidato Flávio Bolsonaro. Não há, até aqui, registro de nova proposição com esse objetivo.

6. Qual a relação de Flávio Bolsonaro com o caso?

Não há registro de que Flávio Bolsonaro, que não tinha mandato em 2007, seja autor ou apoiador do projeto, nem de que tenha defendido retirar o título da santa. A ligação feita nas redes se apoia em outra declaração dele.

Em vídeo publicado, em 23 de agosto passado, nas redes, para justificar a ausência no debate da Band, o candidato disse que “um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A frase usa a linguagem de “tomada de território espiritual”, jargão de segmentos evangélicos. A frase é um jargão evangélico que tem tanto um sentido religioso e político de “tomada de território”. Por meio dela, se afirma a soberania de Deus, em Jesus,  sobre o país, e o lugar da maioria cristã, nas bases da doutrina evangélica para que a nação seja guiada por princípios religiosos cristãos, definidos segundo a interpretação de quem a pronuncia. Perfis nas redes juntaram esta promessa às suspeitas sobre possível retomada do projeto de 2007 por grupos evangélicos noticiada na GloboNews e concluíram que um “Brasil de Jesus” não seria “de Nossa Senhora”. Essa conclusão é interpretação, não declaração do candidato.

7. Por que o “chute na santa” voltou a circular?

Com a controvérsia, voltaram às redes as imagens de 12 de outubro de 1995, quando o bispo Sérgio von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa na TV Record, justamente no dia da padroeira. O episódio é o marco mais lembrado do conflito entre setores evangélicos e o catolicismo no Brasil e ajuda a explicar por que o tema mobiliza tanto o imaginário católico. Ele não é, porém, evidência de uma articulação atual sobre o título da santa.

8. O que Flávio Bolsonaro respondeu?

Na noite de 24 de setembro, Flávio Bolsonaro publicou vídeo no X: “Não tem pé nem cabeça. Não existe esse projeto”. Tomada literalmente, a frase é incorreta, porque o projeto existe, ainda que arquivado. Ele negou a intenção de mexer no título da padroeira, atribuiu a circulação a adversários do Partido dos Trabalhadores e depois compartilhou a correção da GloboNews.

Em 26 de setembro, a campanha de Bolsonaro fez uma live com lideranças religiosas de diferentes tradições para conter os efeitos políticos da controvérsia. Participaram o Padre Kelmon (candidato a presidente em 2022, ligado à Igreja Ortodoxa), o pastor da Assembleia de Deus Ramon Lima, o reverendo anglicano Aldo Quintão e o pai de santo da cantora Anitta Sérgio Pina. Flávio Bolsonaro não estava presente. Foi observada pelo público a ausência de participação católica.

 9. Por que a GloboNews corrigiu a jornalista? O que a correção resolve e o que não resolve?

Na madrugada de 25 de setembro, na Edição da Meia-Noite, da GloboNews, a apresentadora Marcelly Setúbal leu uma nota informando que o projeto mencionado no comentário da jornalista Maria Cristina Fernandes foi “apresentado em dezembro de 2007 e arquivado pela Mesa Diretora da Câmara em agosto de 2008”. A emissora pediu desculpas.

A correção esclarece a data e a situação do projeto. Porém, ela não desmente o que a jornalista apurou e relatou no jornal mais cedo: a existência de preocupação em setores da Igreja Católica com uma possível articulação sobre o tema. E, como Bereia levantou, o arquivamento não encerra a questão de fundo, que é a possibilidade de o texto servir de base para uma nova proposta. Nas redes, a correção foi usada por apoiadores de Flávio Bolsonaro para desqualificar a jornalista, que passou a ser atacada como “militante”. Jornalistas criticaram esse tratamento e a forma como a emissora conduziu o episódio.

10. O que aconteceu com os perfis da CNBB? A Meta derrubou a conta?

Não foi a Meta. O problema ocorreu no X (antigo Twitter). Em 25 de setembro, a CNBB informou dificuldades de acesso à conta oficial @cnbbnacional, disse ter acionado o suporte da plataforma e enviado as comprovações de titularidade, e orientou os fiéis a acompanhar os demais canais. Segundo a Folha de S.Paulo, a entidade identificou alteração no e-mail vinculado à conta e trata o caso como possível hackeamento. A CNBB não associou o problema à controvérsia.

O episódio foi o terceiro caso, na mesma semana, envolvendo contas em plataformas digitais no contexto eleitoral:

Não há evidência, nas fontes consultadas, de ligação entre esses episódios ou deles com o caso de Nossa Senhora Aparecida. A falta de transparência das plataformas sobre os critérios dessas ações, porém, alimenta suspeitas.

11. O que o ministro André Mendonça encaminhou pelo TSE em relação ao caso?

Flávio Bolsonaro acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a Procuradoria-Geral Eleitoral, com um notícia-crime que pediu a abertura de investigação contra 29 pessoas e responsáveis por perfis que, conforme o documento, divulgaram o conteúdo. Entre os citados estão a deputada estadual Lohanna França (PV-MG), o deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ) e o deputado federal Rogério Correia (PT-MG), vice-líder do governo na Câmara.

Em 25 de setembro, o vice-presidente do TSE e ministro do STF André Mendonça, concedeu liminar reconhecendo como “notoriamente inverídico” o núcleo factual segundo o qual “Flavio Nantes Bolsonaro ou sua família propôs, articulou, apoiou, está comprometido com ou pretende promover a retirada de Nossa Senhora Aparecida da condição ou do título de Padroeira do Brasil”.

A decisão determinou que Meta, TikTok e Google/YouTube removessem conteúdos com essa afirmação, sem necessidade de nova ordem judicial para cada publicação, sob multa diária. No caso do humorista Antonio Tabet, a ordem proibiu a republicação de conteúdo “substancialmente semelhante”, com multa de R$ 30 mil. Mendonça, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, é pastor presbiteriano e foi apresentado como ministro “terrivelmente evangélico”, condição que foi base para uma série de críticas nas redes em torno das proibições.

12. É verdade que foram removidos até posts religiosos sobre Nossa Senhora?

Sim, com uma precisão importante. A decisão não proibiu, em si, publicações sobre Nossa Senhora Aparecida. Ela mirava conteúdos que atribuíam a Flávio Bolsonaro o plano de retirar o título. Porém, a lista de publicações a remover, apresentada a partir do pedido da campanha, incluiu perfis sem conteúdo político:

  • um vídeo da conta @santuarionacional no TikTok, dedicada a publicações religiosas sobre a santa e a Basílica;
  • um vídeo do frei carmelita Gilvander Moreira.

Também foram alcançadas publicações do teólogo Leonardo Boff, da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), dos deputados Rogério Correia (PT-MG) e Ivan Valente (PSOL-SP), do ex-deputado Jean Wyllys, do MST, e até de um advogado que apenas informava que o autor do projeto de 2007 tinha sido assessor de Jair Bolsonaro, um fato documentado. Na prática, conteúdos de exaltação e devoção à padroeira ficaram sujeitos à remoção, o que gerou críticas. 

13. Por que o ministro Flávio Dino derrubou a decisão de André Mendonça?

Em 27 de setembro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino atendeu a recurso do humorista Antonio Tabet e anulou a decisão de André Mendonça. Dino determinou o restabelecimento da postagem do humorista e de outras removidas com o mesmo fundamento.

O ministro do STF aplicou entendimento que já havia adotado contra decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná: proibir previamente a republicação de determinado conteúdo, sob multa, configura censura prévia. Dino afirmou que “em um processo eleitoral a lesividade de uma decisão que tolhe a liberdade de expressão tem enorme gravidade”. Ele argumentou que críticas a propostas que afetem preferências religiosas não podem ser retiradas do debate público, e que manter a remoção exigiria “presumir” que a expressão “família miliciana”, usada por Tabet, se referia especificamente a Flávio Bolsonaro. A decisão invoca a liberdade de expressão e a liberdade religiosa.

14. É verdade que Flávio Bolsonaro fez ataques à CNBB e a CNBB publicou resposta oficial?

Sim. Em 27 de setembro, Flávio Bolsonaro criticou a CNBB ao comentar a repercussão do caso envolvendo Nossa Senhora Aparecida. Em evento de campanha em Goiânia (GO), sem apresentar provas, o candidato afirmou que pessoas ligadas à entidade teriam ajudado o Partido dos Trabalhadores (PT) a disseminar a informação de que ele pretendia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. O candidato também chamou o episódio de “a maior fake news da campanha” e afirmou que não existia projeto ou movimento para retirar o título.

No mesmo dia, a CNBB divulgou uma nota oficial em que negou participação na produção ou divulgação de informações falsas relacionadas ao processo eleitoral. A entidade afirmou que não integra estruturas político-partidárias ou candidaturas e que suas manifestações sobre as eleições decorrem de sua missão pastoral e de princípios como dignidade humana, bem comum, democracia e liberdade de consciência.

Na nota, a CNBB também afirmou que atribuir à entidade participação em estruturas de produção ou disseminação de desinformação, sem fatos e provas que sustentem a acusação, atinge a instituição. O texto foi encerrado com a afirmação: “A mentira não se combate com outra mentira”.

Este episódio voltou a alavancar o tema nas redes digitais, provocando nova massa de reações críticas à postura do candidato em relação às lideranças católicas. 

15. Evangélicos são contra Nossa Senhora Aparecida?

A veneração de santos e de imagens sacras não é parte da doutrina protestante, evangélica. Os princípios teológico-doutrinários dos  reformadores  europeus do final do século 15 e início do 16, baseiam-se na compreensão de que há apenas um mediador entre Deus e o ser humano, que é Jesus Cristo, e que não pode haver “materialização do sagrado” (iconoclastia). Isto é, é visto como um pecado que haja imagens e qualquer forma de representação do divino. Esta visão toma por base os 10 mandamentos contidos na Bíblia, no livro de Êxodo: “1º: Não terás outros deuses além de mim; 2º: Não farás para ti nenhum ídolo ou imagem de escultura farás para ti imagens de escultura”.

Com isso, há  a noção de que a veneração a santos e a imagens pode levar à idolatria — quando uma outra divindade se impõe no lugar de Deus. Isto foi objeto de forte crítica dos reformadores dos séculos 15 e 16 ao Catolicismo,  que, na compreensão deles, permitia Deus ser colocado em segundo plano diante da adoração a santos.

Maria tem o seu lugar na tradição evangélica,  como mãe de Jesus. Porém,  ela é valorizada como serva de Deus, que gerou Jesus, o Salvador. Não é compreendida como “mãe de Deus”, nem como intercessora das pessoas diante do Filho de Deus que ela gerou, uma vez que na doutrina protestante não há mediação entre Deus e o ser humano.  Este quadro foi ainda mais reforçado com a disputa no campo religioso entre evangélicos e católicos. Como minoria,  evangélicos, no Brasil, procuraram se diferenciar de católicos para se afirmarem na arena pública.  A negação dos santos foi mais uma entre elas.

Portanto, não há uma rejeição específica a Nossa Senhora Aparecida, mas há a não crença na figura de Maria e de qualquer das formas que ela assuma, conforme o Catolicismo, como Santa, Mãe de Deus. Esta forma de crer promove uma leitura crítica em alguns grupos evangélicos,  assim como no período da Reforma Protestante, de condenação da doutrina católica como uma fé idólatra. De fato, este é um ponto que ainda serve de impedimento ao diálogo ecumênico entre evangélicos e católicos no Brasil.

16. O que dizem os especialistas em religião e política?

Jorge Alexandre Alves, sociólogo, professor do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e integrante do Movimento Fé e Política afirma, por meio de texto no Facebook, enviado ao Bereia: o projeto de lei, de 2007, está por hora engavetado, mas, “havendo disposição política e correlação de forças favoráveis, poderia ser desengavetado em um piscar de olhos”. Para ele, a promessa de que “o Brasil será do Senhor Jesus” é “retórica típica da Teologia do Domínio”, e há um histórico de ataques à imagem da santa, do chute de 1995 a episódios recentes. Alves admite que a versão pode ter sido “plantada” para colocar o candidato na defensiva, sem elementos para comprovar isso. Afirma que as orientações dos bispos seguem a Doutrina Social da Igreja e não equivalem a declaração de voto. E alerta: “potencializar uma espécie de guerra santa não ajudaria em nada”; não se pode generalizar a todos os evangélicos “as atitudes irresponsáveis de uns poucos líderes políticos e religiosos”.

Ronilso Pacheco, teólogo, diretor do Instituto de Estudos da Religião, afirmou no UOL News: mexer em um símbolo ligado à cultura brasileira poderia mobilizar católicos e também evangélicos contra a iniciativa. Ele classificou a repercussão como uma “cortina de fumaça” e avaliou que insistir nesse tipo de conteúdo seria um “suicídio político”.

Tabata Pastore Tesser, socióloga, pesquisadora do Laboratório de Antropologia da Religião da Unicamp (LAR) e pesquisadora visitante do ISER, em vídeo no Instagram: os vídeos dos bispos e o panfleto que circularam na semana “não pedem voto nem mencionam candidato”. Mas, “numa eleição polarizada, defender democracia, soberania, verdade, justiça social, Amazônia e povos indígenas pode produzir um efeito eleitoral”. Recuperando a história, ela mostra que a atuação política católica já produziu efeitos eleitorais que “não são sinônimo de apoio”.

Bereia seguirá acompanhando os desdobramentos deste caso.

Saiba mais com as matérias do Bereia:
Controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida na campanha eleitoral mobiliza milhões de interações nas redes religiosas, pela Casa Galileia

Aparecida, as eleições e a Democracia, pelo Frei Marcelo Barros

Referências

AGÊNCIA BRASIL. https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-09/meta-desabilitou-anuncios-do-perfil-de-lula-no-facebook. Acesso em 27 set. 2026.

Facebook, Jorge Alexandre Alves
https://www.facebook.com/share/1cfLJ2w4i1/. Acesso em 27 set. 2026.

CÂMARA DOS DEPUTADOS. Projeto de Lei 2.623/2007. https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=380897. Acesso em 25 set. 2026.

CANAL UOL. UOL News com Ronilso Pacheco. https://www.instagram.com/reel/Ddt3KDTlsdD/. Acesso em 27 set. 2026.

CNBB. https://www.cnbb.org.br/cnbb-divulga-mensagem-ao-povo-brasileiro-por-ocasiao-das-eleicoes-de-2026/. Acesso em 27 set. 2026.

CNN BRASIL. 

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/dino-cassa-decisao-de-mendonca-e-libera-post-de-ator-sobre-nossa-senhora/. Acesso em 27 set. 2026.

FOLHA DE S.PAULO. 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2026/09/cnbb-tem-conta-no-antigo-twitter-hackeada.shtml. Acesso em 25 set. 2026.

ICL NOTÍCIAS. 

https://iclnoticias.com.br/pedido-flavio-mendonca-censura-nossa-senhora/. Acesso em 27 set. 2026.

Instagram, Tábata Tesser

https://www.instagram.com/reel/DdrGZb3t18i/. Acesso em 27 set. 2026.

BRASIL. Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6802.htm. Acesso em 25 set. 2026.

Instagram, Dom Orlando Brandes

https://www.instagram.com/p/DdsqaghudVS/  Acesso em 27 set. 2026.


Arquidiocese Católica de Manaus
https://arquidiocesedemanaus.org.br/2026/09/23/bispos-do-regional-norte-1-conclamam-os-fieis-brasileiros-para-voto-consciente-nas-eleicoes-de-2026/ Acesso em 27 set. 2026.


Rede TVT
https://www.youtube.com/shorts/LsvTh4UaXiQ Acesso em 27 set. 2026.


X, Perfil de Flávio Bolsonaro

https://x.com/FlavioBolsonaro/status/2103309011701350544?s=20  Acesso em 27 set. 2026.

TV Celular – Canal Flávio Bolsonaro no Youtube

https://www.youtube.com/watch?v=oBnq66p_Csg Acesso em 27 set. 2026.

Poder 360
https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes-2026/jornalistas-criticam-globonews-por-corrigir-informacao-sobre-padroeira/ Acesso em 27 set. 2026.

Correio Braziliense
https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2026/09/7506667-perfil-do-revelando-volta-ao-instagram-apos-remocao-da-meta.html Acesso em 27 set. 2026.

Uol. https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/09/27/cnbb-reage-a-flavio-mentira-nao-se-combate-com-outra-mentira.ghtm. Acesso em 28 de setembro de 2026. 

O Globo. https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/09/27/flavio-cnbb-nossa-senhora.ghtml.  Acesso em 28 de setembro de 2026.

Controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida na campanha eleitoral mobiliza milhões de interações nas redes religiosas

A controvérsia em torno da alegação de que Flávio Bolsonaro apoiaria a retirada de Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil foi objeto de pesquisa da Casa Galileia em redes digitais religiosas, entre 24 e 25 de Setembro de 2026. Na amostra analisada, a narrativa de acusação aparece contraposta por uma série de conteúdos que classificam a informação como falsa, atribuem o episódio a um erro ou a uma ação política da “ala petista” e destacam a negativa do próprio Flávio Bolsonaro. O conteúdo de maior repercussão registrado é a publicação do candidato a presidente da República Flávio Bolsonaro (PL), com 9.867 interações, seguida por uma publicação do site gospel PlenoNews, com 8.145.

A narrativa de desmentido se desdobra em diferentes enquadramentos. Flávio Bolsonaro afirma respeitar todas as religiões e também pessoas sem religião; o PlenoNews apresenta a informação como falsa e posteriormente destaca uma retratação da GloboNews; Gospel+ reproduz a negativa, enquanto Sóstenes Cavalcante e Deltan Dallagnol amplificam o desmentido. Assim, a resposta não se limita à defesa de Flávio, mas também desloca o foco para a imprensa e o PT e para a suposta circulação de “fake news” no contexto eleitoral.

Aparecida no imaginário católico e nacional

Para compreender a dimensão que essa controvérsia alcança, é preciso considerar o lugar ocupado por Nossa Senhora Aparecida no imaginário católico e, de forma mais ampla, no próprio imaginário nacional brasileiro. A presença da santa está enraizada na religiosidade popular, mas não se limita apenas a esse espaço eclesial. Ao longo da história, Aparecida também foi ganhando lugar na construção simbólica do Brasil como nação, associada a ideias de pertencimento, unidade e identidade nacional.

Essa dimensão nacional foi sendo construída sobre uma devoção muito anterior ao seu reconhecimento institucional. Aparecida não se tornou “padroeira do Brasil” por decisão do estado brasileiro. Em 1930 atendendo um pedido do episcopado o papa Pio XI declarou Nossa Senhora da Conceição Aparecida Padroeira de todo o Brasil. A proclamação solene ocorreu no ano seguinte, no Rio de Janeiro.

O reconhecimento na legislação brasileira veio 50 anos depois com a Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980, que declarou o dia 12 de outubro feriado nacional “para culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil”. Há, portanto, duas dimensões relacionadas que não são equivalentes nesse debate: uma é o título eclesial de Padroeira, reconhecido pela Igreja Católica; outra é o reconhecimento civil que o Estado brasileiro posteriormente incorporou à legislação.

Disputa narrativa sobre religião e eleições

Outro enquadramento identificado é o de que a controvérsia faria parte de uma estratégia eleitoral para atingir Flávio Bolsonaro e seu eleitorado católico. A publicação da página Assembleianos de Valor Oficial afirma que a falsa informação buscaria fazer religiosos acreditarem que o candidato do PL atacaria a religião católica e retirar votos destinados a ele. Em sentido oposto, o perfil Evangélicos com Lula apresenta a controvérsia como exemplo de instrumentalização política da religião e afirma que a discussão deveria mobilizar tanto católicos quanto evangélicos. Dessa forma, o episódio passa a operar como uma disputa narrativa sobre religião, eleições e credibilidade da informação.

Os números da amostra monitorada

Síntese das narrativas e métricas dos conteúdos monitorados. Período da análise: Publicações realizadas entre 24 e 25 de Setembro de 2026.

Total de interações registradas: 34.382. Entre os quatro conteúdos para os quais há dados de possíveis impressões, o total é de 5.166.673 possíveis impressões. Essa métrica representa exposição potencial estimada e não equivale necessariamente a alcance ou visualizações efetivas.

Rankings

Por interações:

1) Flávio Bolsonaro (9.867);
2) PlenoNews – negativa (8.145);
3) Evangélicos com Lula (3.993);
4) PlenoNews – retratação (3.938);
5) Assembleianos de Valor Oficial (2.150).

Por possíveis impressões:

1) Assembleianos de Valor Oficial (1.794.430);
2) PlenoNews – negativa (1.491.525);
2) PlenoNews – retratação (1.491.525);
4) Gospel+ (389.193).

Considerando os dez conteúdos contabilizados até o momento, foram registradas 34.382 interações. Entre os conteúdos com dados de “Possíveis Impressões”, a maior estimativa é da publicação de Assembleias de Deus Oficial, com 1.794.430, seguida por duas publicações do PlenoNews, cada uma com 1.491.525, e uma do Gospel+, com 389.193. As “Possíveis Impressões” devem ser tratadas como estimativa de exposição potencial, e não como alcance efetivo ou número de pessoas únicas. O conjunto indica um ciclo de acusação, desmentido, retratação e contra-acusação, com forte circulação da narrativa de que a informação sobre a retirada da Padroeira seria “fake news”.

Métricas dos conteúdos monitorados

#Perfil/conteúdoLinha narrativaInteraçõesPossíveis impressões
1Flávio Bolsonaro — negativaNegação / respeito às religiões9.867—
2PlenoNews — negativaNegação / informação falsa8.1451.491.525
3Evangélicos com Lula — acusaçãoAcusação / instrumentalização da fé3.993—
4PlenoNews — retratação da GloboNewsRetratação / fake news3.9381.491.525
5Assembleias de Deus OficialFake news / estratégia eleitoral2.1501.794.430
6Sóstenes Cavalcante — republicaçãoAmplificação da negativa1.993—
7Deltan Dallagnol — republicaçãoAmplificação da negativa1.969—
8Flávio Bolsonaro — GloboNewsNegação / crítica à mídia1.702—
9Deltan/Sam Pancher — explicativoDesmentido / contextualização621—
10Gospel+ — negativaNegação / fake news4389.193

Nota metodológica: Os dados refletem os conteúdos identificados na amostra fornecida até o momento. “Interações” corresponde à soma das métricas visíveis nos registros coletados; “Possíveis Impressões” é a estimativa apresentada pela ferramenta de monitoramento. Os rankings poderão ser atualizados à medida que novos posts forem incorporados.

Dimensão da conversação em “mar aberto”

A consulta em “mar aberto” (V-TRACKER) amplia significativamente a dimensão observada na amostra inicial. No período de 24 e 25 de setembro de 2026, utilizando os termos “Padroeira do Brasil” OR “Nossa Senhora” associados a “Flávio Bolsonaro”, a ferramenta registrou 7.712 ocorrências, 363,13 milhões de impressões e 6,32 milhões de interações. Esses números não correspondem apenas aos conteúdos selecionados para a análise qualitativa e, portanto, oferecem uma medida mais ampla da circulação da controvérsia no ecossistema monitorado.

A distribuição por canal mostra forte concentração no X, responsável por aproximadamente 88% das ocorrências. No monitoramento, foram identificadas 6.790 ocorrências no X, 468 em sites de imprensa, 333 no Facebook, 65 no Instagram, 40 no YouTube e três no TikTok, além de ocorrências residuais no Threads. A concentração no X indica que a controvérsia se desenvolveu principalmente como uma conversa de rede social, posteriormente repercutida por veículos de mídia e outras plataformas.

Principais canais no mar aberto

CanalOcorrênciasParticipação aproximada
X6.79088,0%
Mídias/Imprensa4686,1%
Facebook3334,3%
Instagram650,8%
YouTube400,5%
TikTok3<0,1%

A evolução temporal revela uma aceleração muito forte no final do período. O volume de ocorrências aumenta de forma acentuada em 24 e atinge seu maior patamar em 25 de setembro. A série sugere, portanto, uma escalada rápida da conversação nas últimas 24 horas do período monitorado, coincidindo com a circulação da negativa de Flávio Bolsonaro e da informação sobre a retratação da GloboNews.

O monitoramento em mar aberto também evidencia que a controvérsia já ultrapassou a disputa entre uma acusação original e sua negativa. Há conteúdos que reproduzem a alegação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil; conteúdos que afirmam tratar-se de “fake news” e destacam a retratação da GloboNews; e conteúdos que interpretam a circulação da informação como parte de uma estratégia eleitoral para atingir o candidato do PL e seu eleitorado católico. A partir daí, surgem memes, comentários e novas formulações da controvérsia, indicando que a narrativa passa a adquirir dinâmica própria.

Amostra e mar aberto: duas medidas diferentes

É importante distinguir os dois conjuntos de métricas. A amostra inicial, composta por dez conteúdos selecionados, soma 34.382 interações e serve principalmente para identificar atores, conteúdos e linhas narrativas de maior repercussão entre os posts analisados. Já a busca em mar aberto registra 7.712 ocorrências e 6,32 milhões de interações no universo capturado pela ferramenta.

Assim, as 34.382 interações da amostra correspondem a aproximadamente 0,54% do total de interações observado no mar aberto, ou seja, o universo ampliado registra cerca de 184 vezes mais interações. As 363,13 milhões de impressões do mar aberto também não devem ser comparadas diretamente com as 5.166.673 possíveis impressões da amostra, pois estas últimas estão disponíveis apenas para quatro conteúdos e representam uma estimativa de exposição potencial.

Comparação entre amostra selecionada e mar aberto

IndicadorAmostra selecionadaBusca em mar aberto
PeríodoConteúdos identificados até o momento21–25/09/2026
Ocorrências10 conteúdos analisados7.712
Interações34.3826,32 milhões
Impressões / possíveis impressões5.166.673 em 4 conteúdos*363,13 milhões
Principal canalDiversos, com foco nos conteúdos selecionadosX — 88% das ocorrências

* Na amostra selecionada, “Possíveis Impressões” estava disponível para quatro conteúdos. No mar aberto, a ferramenta apresenta “Impressões” agregadas. As duas métricas devem ser tratadas como indicadores de exposição potencial e não como número de pessoas únicas alcançadas.

A combinação entre a concentração das ocorrências no X e a forte aceleração de 24 para 25 de setembro sugere que a controvérsia se expandiu rapidamente no ambiente digital. A amostra qualitativa ajuda a compreender como essa expansão é narrada por diferentes atores, enquanto o mar aberto dimensiona a escala da conversação.

Expediente do monitoramento

Diretor Executivo: Leon Souza
Diretor de Campanhas: Flávio Conrado
Coordenação e pesquisa: Andréa Laís
Pesquisa: Lorena Mochel

Aparecida, as eleições e a Democracia

O candidato à Presidência do Brasil pelo Partido Liberal foi acusado de estar planejando, se for eleito, retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de “padroeira do Brasil”. Isso nem poderia ser verdade, já que se trata de uma distinção dada pela hierarquia católica e só essa poderia mexer nisso. A única coisa que um presidente da República pode fazer seria abolir o feriado nacional de 12 de outubro, dia da festa de Nossa Senhora Aparecida. O feriado nacional foi decretado pelo General Figueredo em 1980 e isso é sim da competência do governo federal. 

Um Presidente que pretendesse retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil suscitaria a revolta da maior parte da hierarquia católica e de grande parte do povo brasileiro, católico ou não. Do lado evangélico, muitos irmãos e irmãs de Igrejas histórias e pentecostais não entrariam diretamente na polêmica, mas poderiam pronunciar-se pela defesa da cultura popular brasileira, ligada a Aparecida. 

Provavelmente, o candidato em questão conseguiria o apoio de numeroso grupo de evangélicos que veem na devoção à Aparecida, um fenômeno de superstição e idolatria, contrária ao Evangelho de Jesus. 

No entanto, além dessa questão conjuntural, o tal boato falso revelou algo mais profundo e mais preocupante: muitos católicos reagiram a essa notícia, exatamente, como a massa católica reagiu em 1931, quando, pela influência de Dom Sebastião Leme, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, o Papa Pio XI proclamou Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil e no ano seguinte, 1931, na data de 12 de outubro, no Rio de Janeiro, o cardeal inaugurou a estátua do Cristo Redentor no morro do Corcovado. 

Naquela época o que estava em jogo era a influência da hierarquia católica no país. Ao fazer Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil e inaugurar a estátua do Cristo Redentor no Corcovado, o Cardeal Leme, maior líder católico no Brasil, garantiu o prestígio e a força política necessária para impor ao governo e à sociedade laica os interesses do clero e o poder da Igreja Católica no país, ainda então, considerado católico. O sistema de Cristandade, isso é, de uma Igreja ligada ao Estado como poder e que se expressa como religião civil já não existia desde os tempos do Império, mas a cultura continuava a mesma. 

E agora, o que está em jogo? É triste perceber que, em pleno século 21, nesse contexto de mundo em que vivemos, essa cultura de dominação católica e de religião de massa continua, não apenas nos círculos católicos mais tradicionais, mas mesmo nos meios eclesiais mais abertos e comprometidos com a renovação eclesial e do mundo. 

Não percebem que continuar na cultura de Cristandade não só não é justo com o pluralismo cultural e religioso do povo brasileiro, como não faz bem nem à própria Igreja. Além de que isso nada tem a ver com o projeto de Jesus, não rompemos com o colonialismo ainda impregnado na cultura de Cristandade.  

Atualmente, todas as pessoas conscientes concordam que o Brasil é um Estado laico e deve continuar laico. Portanto, o povo brasileiro tem todo o direito de ter a religião que quiser seguir, ou nenhuma. A liberdade religiosa está assegurada pela atual Constituição Federal de 1988. Essa parte mais lúcida da sociedade reage quando escuta pastores pentecostais sugerirem que tal cidade pertence ao Cristo e expressarem que sonham com um Brasil pentecostal. 

No entanto, grande parte dessa lucidez não aparece, quando se trata de defender um Brasil católico, com feriados católicos e privilégios para a Igreja Católica, assegurados pela Concordata com o Vaticano. 

Pessoalmente, imagino que Maria de Nazaré, discípula do filho Jesus e esse mesmo, no seu intento de testemunhar ao mundo o projeto divino, estejam pouco preocupados com títulos como esse de padroeira do Brasil e prefiram ver o nosso povo empobrecido mais consciente dos seus direitos e mais capaz de votar para continuar a luta por uma mais profunda e  verdadeira democracia, laica e pluricultural. 

 Comparando os dois candidatos a presidente com real chance de serem eleitos, é fato  que o atual presidente, em busca de reeleição, atua para  assegurar o caminho para garantirmos o regime democrático, a luta por direitos do Povo e da Natureza e a luta para que, de fato, o Brasil continue a ser um Estado laico. O outro candidato tem evidentes relações com a corrupção, conforme revelado em material de investigações policiais; tem registros de vínculos com a milícia do Rio de Janeiro; e, inúmeras vezes, já declarou que pretende colocar o Brasil de joelhos, diante dos Estados Unidos. 

Em muitos países, a tentação de um governo ditatorial e de tendência fascista tem sido característica da extrema-direita. O Brasil não pode cair nesta vala, que trará a amputação da democracia e cortes brutais em direitos trabalhistas, previdenciários, humanos e ambientais, conquistados nas últimas décadas, com muita luta, suor e sangue. 

Que, nessa hora grave das eleições presidenciais, estaduais e de grande parte do legislativo nacional, a fé e a espiritualidade de todas as religiões e caminhos humanos nos guiem para escolher a Democracia, a Justiça ecossocial e a Paz.