
Um vídeo que circula nas redes digitais mostra um corte (de vídeo que tem abordagem mais ampla) de um trecho do discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante comício em Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro para acusar o candidato à reeleição de afirmar “não acreditar em Deus”.
O conteúdo foi compartilhado pela deputada federal Bia Kicis (PL-DF), candidata ao Senado Federal, e pelo candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL). O episódio também repercutiu em diferentes veículos de imprensa, que deram tratamentos distintos ao caso.
O Bereia verificou o corte dos vídeos constatou que a alegação é enganosa.

O contexto da fala
Em 22 de agosto, o candidato do PT à reeleição para a Presidência da República Lula discursou de comício de campanha no Estádio Moça Bonita, em Bangu (bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro). Durante o discurso, o presidente elogiou o governador interino Ricardo Couto e afirmou que, quando a situação do estado parecia perdida, Deus havia colocado um homem para conduzir o processo.
Ao comentar o cenário político do estado, Lula declarou: “A gente que não acredita em Deus… a gente tem que lembrar de uma coisa: quando tudo parecia perdido aqui no RJ, Deus nos deu um homem chamado Ricardo Couto”. O trecho difundido nas redes termina exatamente nesse ponto, o que cria a impressão de que o presidente se incluiria entre as pessoas que não acreditam em Deus.
A sequência do discurso, no entanto, revela outro sentido. Lula explicou que Ricardo Couto nunca havia sido filiado a partido político nem disputado uma eleição, e atribuiu sua chegada ao governo a uma intervenção divina. Em seguida, afirmou: “Isso é coisa sagrada, é por isso que eu acredito em Deus, porque Deus faz acontecer, na nossa vida, aquilo que não estava previsto acontecer […] De vez em quando, Deus dá uma demonstração da sua existência pra nós”.
Assim, poucos segundos após o trecho usado nas publicações (minuto 1:53:15 da gravação), o presidente afirma o oposto do que lhe foi atribuído. A frase “a gente que não acredita em Deus” pode ser lida como um lapso de fala ou recurso retórico do uso de um coletivo (a gente) para se referir a outrem, porque o restante do discurso deixa claro o sentido pretendido. Não há, no trecho completo, elementos que sustentem a alegação de que Lula tenha declarado não acreditar em Deus.
Repercussão nas redes digitais
A fala descontextualizada repercutiu nas redes digitais e foi compartilhada por políticos de direita, entre eles a deputada federal católica e candidata ao Senado Bia Kicis (PL-DF). Em seu canal oficial no YouTube, Kicis publicou um vídeo de 48 segundos intitulado “Em ato no RJ, Lula deixa escapar que não acredita em Deus…”.

Imagem: Captura de tela do vídeo publicado pela deputada Bia Kicis. Fonte: Youtube
No conteúdo, é exibido o corte com pequena e única frase do discurso de Lula em que o presidente afirma: “a gente que não acredita em Deus”. A mesma passagem é reproduzida duas vezes e, em seguida, o vídeo é interrompido. Na sequência, Bia Kicis comenta a declaração e afirma: “É isso, ele fala com todas as letras: nós que não acreditamos em Deus”.
A deputada prossegue dizendo que a fala não surpreende, pois, para ela, “todo comunista é ateu” e Lula “finge que acredita em Deus”, especialmente durante períodos eleitorais. Kicis também relaciona a suposta falta de crença do presidente a posições políticas que atribui a ele, como ser favorável ao aborto, deixar “o povo na miséria” e apoiar “ditadura” e “tirania”.
Dessa forma, a publicação de Bia Kicis repete o trecho que contém a frase “a gente que não acredita em Deus”, mas interrompe a gravação antes da conclusão da fala, o que impede o público a ter acesso à declaração posterior em que Lula afirma acreditar em Deus. Além disso recorre ao “fantasma do comunismo” para acionar pânico em seguidores, prática que Bereia já checou.
Além da deputada Bia Kicis, o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) também reproduziu a alegação. Em 23 de agosto, o senador publicou um vídeo em sua página oficial do X, para explicar sua ausência no primeiro debate presidencial da eleição de 2026, realizado pela Band.
Na gravação, Flávio afirmou que deseja participar de debates, mas que gostaria de confrontar quem, conforme ele, “está destruindo o Brasil e piorando a sua vida”. Ao mencionar Lula, declarou que queria debater “com quem não acredita em Deus”.
Em seguida, Flávio associou a afirmação ao seu discurso religioso e afirmou: “quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” – uma promessa que infringe o direito à liberdade de crença garantida pela Constituição do país a todas as religiões e a quem não tem religião. A declaração foi feita um dia após o comício de Lula em Bangu, no qual o presidente pronunciou a frase que passou a circular nas redes de forma descontextualizada.

Imagem: Captura de tela do vídeo publicado peplo deputado Flávio Bolsonaro. Fonte: X
Portal gospel repercute
A declaração também repercutiu de diferentes formas em portais de notícias. Parte das publicações deu destaque apenas ao trecho “a gente que não acredita em Deus”, enquanto outras reproduziram a fala considerando a sequência, na qual Lula afirma explicitamente: “é por isso que eu acredito em Deus”. A diferença entre os conteúdos evidencia como a seleção de um trecho específico do discurso pode produzir interpretações distintas sobre a declaração. Os exemplos a seguir mostram como o episódio foi apresentado por diferentes veículos.




Imagens: Capturas de tela de manchetes dos veículos de imprensa sobre a fala de Lula.
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Na checagem das publicações dos políticos do PL em campanha eleitoral, Bereia verificou que a frase destacada “a gente que não acredita em Deus” foi retirada de um discurso mais amplo, em que o presidente da República, em comício por reeleição, usa a expressão apenas como recurso de fala. Na sequência imediata, ele afirma o contrário: que acredita em Deus e associa a chegada de Ricardo Couto ao governo a uma demonstração divina.
A edição do vídeo compartilhado pela candidata ao Senado Bia Kicis e a leitura reproduzida pelo candidato à Presidência da Republica Flávio Bolsonaro alteraram o sentido original da declaração. Por isso, a alegação de que o presidente afirmou não acreditar em Deus é enganosa. Ela busca captar a atenção e comprometer a imagem do presidente da República com o público religioso, em especial o de identidade cristã.
Bereia alerta leitoras e leitores a não acolher informação contida em vídeos muito curtos, críticos a quaisquer figuras públicas, que representem um corte, uma edição de falas mais amplas, que não apresentem todo o pensamento exposto por quem se expressa em público. Tal prática de comunicação é apelo maldoso e deve ser confrontada.
Referências:
CBN. https://cbn.globo.com/coberturas/eleicoes-2026/noticia/2026/08/22/lula-faz-comicio-no-rio-em-primeiro-grande-ato-de-campanha-no-estado.ghtml. Acesso em 25 de ago de 2026.
Youtube. https://www.youtube.com/live/bjyzXayx-E8?si=w-gdq9YMKjPaYHo0&t=6782. Acesso em 25 de ago de 2026.
Câmara. https://camara.sapienslabs.com.br/deputados/204374?utm_source. Acesso em 25 de ago de 2026.
Band. https://www.band.com.br/politica/eleicoes/2026/flavio-bolsonaro-justifica-ausencia-em-debate-e-mira-confronto-com-lula-202608232234. Acesso em 25 de ago de 2026.
Religião e Poder. https://religiaoepoder.org.br/categoria/glossario. Acesso em 25 de ago de 2026.

