Como comunidades de fé podem agir para superar a violência contra crianças e adolescentes nos espaços digitais
Casos recentes que envolvem crianças e adolescentes mostram que enfrentar a violência nas plataformas digitais exige mais do que controle das autoridades. A arquitetura de algumas plataformas, como por exemplo, o Discord, torna praticamente impossível um monitoramento em tempo real do que acontece.
“Se um membro sofre, todos sofrem com ele.” A conhecida afirmação do apóstolo Paulo à comunidade de Corinto ganha um significado muito concreto diante da realidade que igrejas, famílias e escolas precisam enfrentar: crianças e adolescentes estão sendo aliciados, ameaçados e submetidos a formas extremas de violência em ambientes digitais.
Para fazer valer o discurso de que é preciso proteger crianças e adolescentes, importa criar uma rede de proteção contra os criminosos que atuam nas sombras do mundo digital. Para isso, é preciso oferecer escuta, informação e acolhimento.
O alarme ganhou força em agosto de 2026, quando a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou medidas contra o Discord depois de investigar possíveis violações ao Estatuto Digital da Criança e do Adolescente. Entre os episódios considerados pela agência está o caso mais recente, investigado na chamada Operação Lívia.

Imagem: G1, 12 ago 2026

Imagem: Folha de São Paulo, 13 ago 2026
O que aconteceu
Uma adolescente de 13 anos, de nome Lívia (o sobrenome tem sido preservado), tirou a própria vida, no final de julho, em Naviraí (MS), após ser provocada e assediada por um grupo em uma transmissão ao vivo (live) na plataforma Discord. Com a denúncia do ocorrido, o Ministério da Justiça e Segurança Pública deflagrou a Operação Lívia, que resultou na prisão de suspeitos de integrar o grupo de coerção e crimes virtuais.
Devido à gravidade do caso e investigações que mostraram falhas de moderação, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e outras autoridades do país determinaram a suspensão das particularidades ao vivo da plataforma Discord em todo o país.
O Discord não é, em si, uma comunidade criminosa. É uma plataforma de comunicação utilizada diariamente por milhões de pessoas para conversar, jogar, estudar, trabalhar e reunir grupos em torno de interesses comuns. O problema apontado pelas autoridades está relacionado a determinadas características da arquitetura dela e à forma como grupos criminosos aprenderam a explorá-las.
Por que a arquitetura do Discord preocupa?
Uma forma simples de compreender o problema é imaginar a diferença entre uma praça e uma sala fechada. Em uma rede digital convencional, boa parte do conteúdo é publicada em espaços que podem ser examinados automaticamente pela própria plataforma. No Discord, usuários podem criar servidores privados, acessíveis apenas por convite, e conversar em canais de texto, áudio e vídeo.
Desde março de 2026, as chamadas de áudio, vídeo e as transmissões “Go Live” utilizam criptografia de ponta a ponta. Isso significa que o conteúdo audiovisual é criptografado no aparelho de quem transmite e somente os participantes daquela comunicação possuem as chaves necessárias para acessá-lo. Nem mesmo o Discord consegue observar diretamente aquilo que está sendo transmitido.
A criptografia de ponta a ponta não é algo ruim em si, é uma importante tecnologia de proteção da privacidade. O problema aparece quando uma arquitetura destinada a proteger conversas privadas é utilizada por grupos organizados para esconder violência contra crianças e adolescentes.
Foi precisamente essa questão que chamou a atenção da ANPD. A agência considerou insuficiente que a empresa, dona a Discord, simplesmente alegasse não ter acesso ao conteúdo das comunicações, Vale lembrar que a própria plataforma escolhe a arquitetura de seus serviços e, se uma determinada solução de segurança impede um tipo de fiscalização, precisa demonstrar a existência de controles alternativos eficazes.
Hoje, segundo a análise da ANPD, a proteção e a fiscalização dependem do trabalho de inteligência das polícias, que infiltra agentes nas salas virtuais e das denúncias feitas pelos próprios usuários. O problema é evidente: em um servidor privado, criado justamente para cometer crimes, dificilmente os participantes envolvidos denunciarão uns aos outros.
A própria fiscalização brasileira verificou que um mecanismo de detecção de risco utilizado pela plataforma não conseguiu classificar como prioritário um ambiente posteriormente associado a fatos de extrema gravidade. A ANPD também observou que depender de denúncias dos usuários é especialmente problemático quando a vítima é uma criança ou adolescente vulnerável, coagida ou emocionalmente incapaz de reagir.
A gravidade do problema também aparece no trabalho realizado pela organização SaferNet Brasil. Em 11 de agosto de 2026, a organização informou ter encaminhado, por iniciativa própria, às autoridades responsáveis pelas investigações do caso Lívia uma série de documentos técnicos produzidos a partir do monitoramento de comunidades criminosas que atuavam no Discord.
O material reúne registros, evidências, bases de dados e análises sobre grupos dedicados ao aliciamento de crianças e adolescentes, à circulação de imagens de abuso e exploração sexual infantil e ao incentivo à automutilação e ao suicídio.
A atuação da SaferNet evidencia que não se trata de episódios isolados, mas de redes organizadas que exploram recursos das plataformas digitais para identificar, aproximar-se e exercer controle sobre crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.
Porém, compreender a tecnologia é apenas uma parte da questão.
Os criminosos procuram vulnerabilidades
Os casos investigados ajudam a revelar um padrão conhecido por especialistas em proteção de crianças e adolescentes na internet. O agressor raramente começa pela violência. Ele pode começar por uma amizade, um jogo, um interesse compartilhado, um namoro virtual ou alguém disposto a ouvir aquilo que o adolescente acredita não poder contar a nenhuma outra pessoa. A relação de confiança é construída lentamente.
Podem surgir então pedidos de fotografias íntimas. Depois, ameaças de divulgar essas imagens para familiares, colegas de escola ou integrantes da igreja. A vítima passa a obedecer para impedir que aquilo que considera seu maior segredo seja revelado. Esse mecanismo é conhecido como sextorsão: a utilização da ameaça de divulgação de imagens íntimas para obrigar alguém a realizar determinadas ações.
É justamente por isso que criminosos procuram pessoas que consideram mais fáceis de isolar: crianças, pré-adolescentes, meninas, jovens LGBTQIAP+, adolescentes emocionalmente fragilizados ou pessoas que não encontram espaços seguros de diálogo em casa.
A vulnerabilidade não está em quem a pessoa é. Está nas condições que permitem ao agressor convencê-la de que não existe ninguém a quem possa recorrer.
E é aqui que as comunidades de fé precisam se perguntar: “estamos lidando adequadamente com este problema gravíssimo?”, “Estamos amparando e acolhendo nossos jovens?”, “Nossas crianças e adolescentes encontram ambientes seguros onde possam compartilhar seus medos e sentimentos?”
Uma criança ou adolescente contaria isso para a família ou a igreja?
Vale imaginar que uma adolescente de uma igreja tenha enviado uma fotografia íntima a alguém que conheceu pela internet. Agora essa pessoa ameaça enviar a imagem para os pais, para o pastor, para os amigos e para o grupo de jovens. O que ela imagina que acontecerá se contar? Será abraçada ou repreendida? Será ouvida ou interrogada? Será tratada como vítima de um crime ou como responsável pela situação? Alguém perguntará primeiro se ela está segura ou perguntará por que tirou aquela fotografia? Essa diferença pode determinar se um adolescente procura ajuda ou continua sozinho diante do agressor.
A SaferNet recomenda que as famílias mantenham diálogo aberto com crianças e adolescentes sobre suas experiências digitais e lembra que falar de sexualidade também faz parte da educação. O objetivo não é incentivar comportamentos, mas permitir que crianças e adolescentes reconheçam riscos e saibam que podem procurar adultos de confiança quando algo acontece. A primeira resposta diante do sofrimento deve ser o cuidado.
A vergonha é uma aliada do agressor
Assuntos como sexualidade, namoro, pornografia, orientação sexual, automutilação ou sofrimento emocional podem e devem ser tratados de forma verdadeira e cuidadosa nos espaços de fé. Nenhuma criança ou adolescente deve enfrentar sozinha uma situação de violência. A orientação e o acolhimento são fundamentais.
Se um jovem acredita que revelar uma fotografia íntima significará ser humilhado, disciplinado publicamente ou decepcionar sua família e sua igreja, o agressor ganha uma poderosa ferramenta de chantagem. Se um adolescente LGBTQIAP+ teme que contar sobre um relacionamento virtual provoque rejeição dentro de casa ou da comunidade religiosa, o criminoso ganha outra vantagem.
O silêncio aumenta o poder daquele que ameaça a vítima. Uma rede de proteção funciona exatamente ao contrário: diminui o poder do segredo
Igrejas como redes de proteção: acolher, orientar e proteger
Não é necessário que líderes religiosos e pessoas que atuam nas igrejas com jovens se tornem especialistas em crimes digitais. Porém, comunidades de fé podem assumir conscientemente seu lugar numa rede de proteção que envolva também as famílias.
Práticas como rodas de conversa, espaços seguros de escuta, discussão de situações vividas no ambiente digital e participação dos próprios jovens na prevenção de riscos mostram que é possível abordar esses temas de maneira educativa, sem alarmismo e sem depender apenas da vigilância dos adultos.
Adaptadas à realidade das comunidades de fé, essas experiências podem ajudar igrejas, grupos de jovens, lideranças e famílias a construir ambientes nos quais crianças e adolescentes encontrem informação, acolhimento e confiança para pedir ajuda diante de situações de violência, chantagem ou abuso no ambiente digital.
- Criar espaços seguros de escuta. Uma “caixa da escuta”, física ou digital, pode existir em igrejas, especialmente em grupos de adolescentes e jovens. O fundamental é deixar claro quem receberá as mensagens, garantir confidencialidade dentro dos limites da proteção de crianças e estabelecer previamente um protocolo para situações que indiquem violência ou risco.
- Troca de gerações: “Me ensina seu mundo”. Em vez de adultos começarem dizendo aos jovens o que há de errado nas redes, adolescentes apresentam aos pais e lideranças como funcionam Discord, TikTok, jogos, grupos privados, memes, perfis secundários e outras práticas digitais. Depois, os adultos apresentam, em diálogo, situações de risco.
- Domingo da cidadania digital. A comunidade dedica parte de sua programação à vida digital: conversa com adolescentes, encontro com responsáveis, materiais de orientação e formação de lideranças. A mensagem pode ser: a vida online também faz parte da vida que a comunidade é chamada a cuidar.
- Realizar rodas de conversa sobre vida digital, não apenas quando ocorre um problema. Falar de relacionamentos online, envio de imagens íntimas, chantagem, grupos privados, discurso de ódio, automutilação e violência digital da mesma forma que comunidades discutem escola, namoro, álcool ou outras questões que atravessam a adolescência.
- Trabalhar com situações imaginadas. Algo como: “Uma menina de 14 anos enviou uma foto íntima ao namorado virtual e agora ele ameaça mostrar aos pais dela. O que ela deve fazer?”. Isso desloca o debate para a proteção e permite descobrir como os próprios adolescentes pensam.
- Formar jovens multiplicadores. Adolescentes frequentemente contam determinados problemas primeiro aos amigos, não aos adultos. Preparar jovens para reconhecer sinais de chantagem, aliciamento ou sofrimento e saber procurar um adulto responsável pode ampliar muito a rede de proteção.
- Preparar também os adultos. Pastores, líderes de juventude, professores de escola dominical e famílias precisam saber como reagir quando uma revelação ocorre. Uma resposta precipitada, bronca, ameaça, exposição pública ou interrogatório, pode fechar justamente a porta que o adolescente conseguiu abrir.
- Ensinar a não ser plateia. Essa ideia das experiências da SaferNet é especialmente interessante diante do fenômeno da dessensibilização. Não compartilhar, não incentivar, não permanecer assistindo e procurar ajuda diante de uma situação de violência também são comportamentos que podem ser ensinados. A SaferNet relata experiências escolares em que os estudantes são estimulados justamente a compreender que violência ocorrida “na tela” produz consequências reais.
E quando algo já aconteceu?
Há ainda uma questão fundamental: diante de uma revelação de violência digital, a primeira tarefa do adulto é proteger, não investigar. É preciso ouvir e não culpabilizar. Não fazer a criança ou adolescente repetir desnecessariamente os detalhes para várias pessoas. Também não ameaçar o agressor diretamente e não compartilhar imagens ou vídeos recebidos como “prova”. Preservar as informações necessárias e procurar os canais competentes de proteção e investigação são ações relevantes.
A rede brasileira de proteção inclui Conselhos Tutelares, serviços de saúde e assistência social, órgãos de segurança pública e Justiça. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) lembra que família, comunidade, sociedade e poder público têm responsabilidade na proteção integral de crianças e adolescentes. A SaferNet mantém ainda um serviço sigiloso de orientação para crianças, adolescentes, pais e educadores que enfrentam situações de risco na internet.
Não se trata apenas do Discord
Esta é uma importante compreensão: amanhã criminosos podem migrar para outra plataforma e novos aplicativos surgirão, tecnologias mudarão. Não existe aplicativo capaz de substituir uma boa rede de proteção.
Por isso, restringir funcionalidades perigosas, exigir que empresas cumpram a legislação e desenvolver melhores sistemas de segurança são medidas necessárias, mas não são suficientes. O Brasil deu um passo importante ao estabelecer, no ECA Digital, que produtos e serviços de tecnologia acessados por crianças e adolescentes devem incorporar sua proteção desde a concepção.
Famílias, escolas e comunidades religiosas também têm uma responsabilidade que nenhuma plataforma poderá assumir. É preciso construir relações nas quais uma criança saiba, antes mesmo que qualquer coisa aconteça:
O Bereia propõe um “Pacto de Proteção Digital” para ser assumido por adultos que trabalham com crianças e adolescentes nos espaços de fé:
Nesta comunidade, uma criança ou adolescente que pedir ajuda será primeiro protegido e acolhido. Nenhum erro, fotografia, conversa, relacionamento ou situação constrangedora será usado para justificar violência, humilhação ou abandono.
O criminoso constrói uma arquitetura baseada no segredo; a comunidade de fé ergue outra, muito mais sólida, baseada na confiança.
Talvez essa seja uma das formas mais concretas de compreender, no mundo digital, aquilo que Paulo escreveu há quase dois mil anos.
Se um membro sofre, todos sofrem com ele. E ninguém deveria sofrer sozinho.
Por fim, Bereia alerta:
Muito cuidado com os discursos de campanha eleitoral do conservadorismo radical/extremista de que a suspensão das lives do Discord (foram as transmissões ao vivo os alvos das autoridades brasileiras e não toda a plataforma) são censura e restrição da liberdade de expressão!
Liberdade de expressão não é liberdade para abusar e atacar pessoas, praticar violência e comprometer a integridade física de crianças e adolescentes!
Muitas pessoas e grupos usam e abusam do direito à liberdade de expressão para confrontar a legislação do país que protege o direito de ser e de existir e, com isso, buscam ficar livres para praticar crimes.
Referências
Governo Federal
https://www.gov.br/anpd/pt-br acesso em 16 ago 2026
https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/sua-protecao/sedigi/eca-digital/eca-digital-1 acesso em 16 ago 2026
https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/noticias-1/operacao-livia-e-rede-interrompida-mobilizam-ministerio-da-justica-e-seguranca-publica-e-policias-civis-de-oito-estados acesso em 16 ago 2026
https://www.gov.br/anpd/pt-br/assuntos/noticias/em-medida-preventiva-anpd-determina-que-discord-suspenda-transmissoes-ao-vivo-no-brasil acesso em 16 ago 2026
Safer Net Brasil https://new.safernet.org.br/content/safernet-brasil-encaminha-autoridades-documentacao-tecnica-sobre-o-discord acesso em 16 ago 2026
https://new.safernet.org.br/content/sextors%C3%A3o-como-conversar-em-casa-e-na-escola acesso em 16 ago 2026
https://new.safernet.org.br/content/cartilhas acesso em 16 ago 2026
https://new.safernet.org.br/content/media%C3%A7%C3%A3o-parental acesso em 16 ago 2026
https://new.safernet.org.br/content/educacao-digital-que-transforma-o-que-aprendemos-com-os-relatos-reais-de-professores-de-todo acesso em 16 ago 2026
Folha de São Paulo https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2026/08/quem-protege-os-adolescentes-nas-redes-sociais.shtml acesso em 16 ago 2026
G1 https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/noticia/2026/08/12/olhem-como-um-alerta-pede-mae-de-menina-de-13-anos-induzida-ao-suicidio-no-discord.ghtml acesso em 16 ago 2026
Foto de capa: Iljanaresvara Studio/Shutterstock



